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Tiragem: 51975 Pág: 30

País: Portugal Cores: Cor

Period.: Diária Área: 29,32 x 19,05 cm²

ID: 36957829 12-08-2011 Âmbito: Informação Geral Corte: 1 de 1

Vem aí uma reformulação da avaliação de professores. Excelente oportunidade para se começar a separar o trigo do joio

Sabe ele o seu português?

N
os últimos dias, surgiram, nas páginas deste certamente vai estar ainda por algum tempo) contaminado Internet? As perguntas são
jornal, artigos de opinião que, de uma forma por um jargão conceptual quase esotérico. Não falo aqui embaraçosas, mas têm que
ou outra, incidiam sobre o ensino do Portu- da TLEBS nem do Dicionário Terminológico; defendo, sem ser feitas, mesmo sabendo-
guês e sobre aspetos correlatos deste tema, entrar na discussão do caso, a pertinência pedagógica de se que há exceções ao que
a saber: a qualidade do sistema educativo, terminologias e não vejo por que razão o Português, neste temo seja a regra.
a inserção curricular do Português, o lugar dos textos aspeto, há de ser diferente da Matemática, da Física ou da Bem sei: faltam as con-
literários no ensino da língua, os novos Programas de Biologia. Falo do desenvolvimento didático dos conteúdos dições, o tempo e os recur-
Português do Ensino Básico (PPEB), a responsabilidade
Carlos de um programa, qualquer que ele seja, desenvolvimento Os professores de sos para tanto. Em parte, é
de associações profissionais (como a Associação de Pro- Reis que parece não poder dispensar descritores e tabelas de de- Português sabem verdade e o poder político
fessores de Português), etc. Tudo isto e ainda o confronto sempenho, referenciais e competências várias, indicadores deve estar consciente dis-
de instrumentos de trabalho e de orientações pedagógi- e metas, planificações e também as famosas “estratégias”, português com a so. Mas em parte também
cas em vigor, com intervenções do ministro Nuno Crato, invocadas estas por tudo e por nada, quase sempre sem se (em grandíssima parte) o
antes de exercer as atuais funções. perceber o exigente significado do vocábulo. Não ponho profundidade que se problema tem uma origem,
Duas observações necessárias: no que toca à questão em causa a honestidade de quem usa e abusa daquelas exige a quem ensina? que é o modo como têm si-
da presença da literatura nos programas e no ensino do noções e dela tenho testemunhos inequívocos. Tão-pouco do formados os professo-
Português, subscrevo quase tudo o que foi dito pela minha sou dos que atribuem aos professores (ou apenas a eles) res de Português – e certamente os de outras disciplinas.
colega Helena Buescu, em texto publicado a 31 de julho os defeitos de prolixas formulações didáticas absortas no Atenção: nesta triste história, eles são sobretudo vítimas
passado. Segunda: tendo coordenado a elaboração dos que é procedimental e valorizando ad nauseam o como e não tanto responsáveis. Estes encontram-se no pessoal
novos PPEB, não trago aqui a discussão desse processo fazer em detrimento daquilo que deve ser feito. Pude ve- político que, sem remorso que se perceba, determinou
nem dos seus resultados. Essa discussão foi feita em tem- rificar, todavia, que, estando fundamente entranhada esta a criação de uma rede de ensino superior em função de
po próprio de forma aberta e está encerrada. Agora trata- perversa lógica de poder, ela só poderá ser desmantelada pressões de circunstância, com dois subsistemas que
se de passar à prática, coisa que não exclui reajustamentos com esforço árduo e custos altos. competem entre si em vez de se complementarem, onde
ou ações de formação, como aliás tem sido feito. Quando isso acontecer, talvez se atente na relevância lecionam docentes não raro doutorados à pressão, com
A verdade, entretanto, é que colhi daquele trabalho de componentes tão decisivos como os professores e a escolas de formação de professores colonizadas pelas ci-
uma experiência muito rica, com a ajuda de pessoas sua formação — uma outra formação, aliviada do peso ências da educação e com universidades que sem pudor
competentes e experientes. A par disso, pude conhecer atrofiante das ciências da educação, que disso temos que se deixaram “politecnizar” .
melhor excessos e disfunções que dramaticamente têm sobre. Com o devido respeito, formulo uma pergunta Pelo que se sabe, vem aí uma reformulação da avalia-
afetado o ensino do Português. E que, para tudo dizer, que talvez pareça provocatória: os professores de Portu- ção de professores. É esta uma excelente oportunidade
impediram (porque é considerável o peso de uma doxa guês sabem português com a profundidade que se exige para se começar a separar o trigo do joio e a dar sinais
pedagógica vigente há três décadas) que se fosse mais a quem ensina? Estudaram devidamente o idioma, a sua claríssimos às escolas e às faculdades de onde saem os
longe do que eu desejava, na revisão de métodos e con- história, os seus cambiantes socioletais e as suas variações professores de Português. E a sugestão, não sendo por
teúdos que têm atravancado o caminho que leva àquilo geolinguísticas? Dominam a gramática da língua e a sua certo politicamente correta, é simples: que se deixe para
que sintetizo assim: formar cidadãos que bem escrevam, terminologia? Conhecem os escritores que têm feito do segundo e subalterno plano a parafernália das estratégias,
bem falem e bem leiam, conscientes da relevância cultural português um grande idioma de cultura? Leram Sá de das planificações, das competências e das metas e que
do idioma e capazes de fruir os textos maiores que nele Miranda, Herculano, Camilo, Cesário Verde, Machado de se avalie o professor de Português sobretudo em função
foram escritos. Tudo o mais está compreendido neste Assis, Carlos de Oliveira, Agustina ou Luandino Vieira? de uma singela pergunta que é paráfrase daquela que
propósito abrangente; tudo aquilo que o prejudique ou Distinguem-nos dos pífios escritores da moda “consagra- um dia alguém endereçou ao jovem Eça: sabe ele o seu
negue corresponde à falência do sistema de ensino numa dos” em livros escolares pouco criteriosos? Dispõem de português? Se a resposta for afirmativa, o resto virá por
sociedade democrática. instrumentos e de disposição para indagações linguísti- acréscimo. Professor da Universidade de Coimbra [por
Vou ser mais claro. O ensino do Português tem estado (e cas e literárias que vão além das banais ferramentas da opção do autor, o artigo respeita o Acordo Ortográfico]

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