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A N T Ó N I O M A T O S G U E R R A

Caderno de Fenomenologia da
Combustão e Agentes Extintores
– Princípios Básicos

Colecção
SENSIBILIZAÇÃO

2
CADERNOS

ENB

ESCOLA NACIONAL DE BOMBEIROS

S I N T R A 2 0 0 7
Ficha Técnica

Título
Caderno de Fenomenologia da Combustão e Agentes Extintores
– Princípios Básicos
Colecção
Cadernos de Sensibilização
(n.º 2)
Edição
Escola Nacional de Bombeiros
Quinta do Anjinho – Ranholas
2710 - 460 Sintra
Telef.: 219 239 040 • Fax: 219 106 250
E.mail: edicao@enb.pt
Texto
António Matos Guerra
Comissão de Revisão Técnica e Pedagógica
Luís Abreu, Sónia Rufino
Fotografia
Rogério Oliveira, Victor Hugo
Ilustrações
Osvaldo Medina, Ricardo Blanco, Victor Hugo
Grafismo e fotomontagens
Victor Hugo Fernandes
Impressão
Gráfica Europam, Lda.

ISBN: 978-9728792-28-2
Depósito Legal nº 232240/05
1.ª edição: Dezembro de 2007
Tiragem: 3 000 exemplares
Preço de capa: a2,00
Sumário

1. Introdução ................................................................................. 5

2. Formas de combustão ................................................................ 8

3. Métodos de extinção .................................................................. 18

4. Classes de fogos ......................................................................... 21

5. Agentes extintores ..................................................................... 22



Cadernos de Sensibilização
1 Introdução
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Conhecido pelos homens desde a pré-história, o fogo pode ser considerado


como uma das suas conquistas no domínio da natureza.
O fogo é uma manifestação da combustão. Contudo, quando deixa de
ser controlado, surge o incêndio com todas as suas dramáticas consequências
(fig. 1). 

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Fig. 1 Quando o fogo deixa de ser controlado, surge o incêndio.

Para controlar o fogo e evitar que se torne num incêndio é necessário


conhecer alguns princípios do fenómeno da combustão.
Combustão é uma reacção de oxidação entre um agente combustível e
um comburente, provocada por uma energia de activação. Essa reacção é
exotérmica ou seja com libertação de calor.
Qualquer substância na forma gasosa, líquida ou sólida, que seja capaz de
arder quando submetida a aquecimento é um combustível (fig. 2).

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Fig. 2 O combustível é qualquer substância na forma gasosa, líquida ou sólida.

O comburente é uma atmosfera ou corpo gasoso em cuja presença o


combustível pode arder. O melhor exemplo de comburente, responsável pela
grande maioria das combustões, é o oxigénio. Outro gás, no seio do qual certos
combustíveis poderão também arder, é, por exemplo, o cloro.
Para que um fogo se inicie é necessário que o combustível e o comburente
se encontrem em determinadas condições favoráveis, de modo a que a reacção
se produza.
Entre outras condições, é necessário a existência de uma energia para o
início da combustão, a que se designa por energia de activação e se manifesta
sob a forma de calor (fig. 3).

Fig. 3 Fontes de calor que servem de energia de activação numa combustão.


Em resumo, pode afirmar-se que não existe fogo sem a junção simultânea
dos três elementos seguintes:

• Combustível;

• Comburente;

• Energia de activação (fonte de calor). 

Estes três elementos formam o que se designa por triângulo do fogo

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(fig. 4).
Uma vez iniciada a combustão, pela acção conjunta do combustível,
comburente e energia de activação, desenvolvem-se radicais livres(1) que levam
ao aparecimento da reacção em cadeia, sustentando desta forma a continui-
dade da combustão. Podemos então dizer que existe o tetraedro do fogo(2)
representado na figura 5.

Fig. 4 Triângulo do fogo. Fig. 5 Tetraedro do fogo.

(1)
Partículas extremamente instáveis que se deslocam a velocidades muito elevadas, possuindo
grande energia.
(2)
Tetra = quatro + edro = face.
2 Formas de combustão
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A combustão depende de um grande número de factores ligados à energia


de activação, ao combustível e ao comburente, mencionados nos pontos
seguintes.

2 1 Fontes de energia de activação


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■ ■

A energia de activação, necessária para dar início à combustão, pode ter


várias origens, de que se indicam alguns exemplos:

• Origem térmica
– Mechas, fósforos, isqueiros e pontas de cigarro;
– Instalações geradoras de calor (fornos, caldeiras);
– Radiação solar (libertação de vapores combustíveis pela madeira, por
exposição intensa e continuada ao sol);
– Superfícies quentes (placa de um fogão eléctrico).

• Origem eléctrica
– Resistência (aquecedor eléctrico);
– Arco voltaico (cabo de alta tensão quebrado ao contactar com o solo);
– Electricidade estática;
– Descarga eléctrica atmosférica.

• Origem mecânica
– Chispas provocadas por ferramentas;
– Atrito (contacto não lubrificado entre duas peças metálicas em
movimento).

• Origem química
– Reacção química (limalha de ferro + óleo).
2 2 Combustíveis
■ ■

As substâncias combustíveis pouco condutoras de calor, como a madeira,


ardem mais facilmente do que as boas condutoras.
Este facto deve-se à acumulação de calor numa pequena zona, no caso
de materiais pouco condutores. A temperatura local eleva-se de tal forma,
provocando a libertação de vapores combustíveis, que na presença de mais 
calor (energia de activação) podem inflamar-se.
No caso dos bons condutores, o calor distribui-se por toda a massa fazendo

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com que a temperatura se eleve lentamente. Os corpos bons condutores
(fig. 6-A), tais como os metais, mármore, granito, etc., são frios ao tacto.
Os maus condutores (fig. 6-B), como a lã, cortiça, plásticos, etc., são, pelo
contrário, corpos quentes.
A divisão do combustível influencia a capacidade que um corpo tem de
entrar em combustão. Por exemplo, se chegarmos uma chama à superfície
do petróleo, que à temperatura ambiente não é inflamável, não se verifica a
combustão. No entanto, ao vaporizar mecanicamente o petróleo em direcção
a uma chama, observa-se a sua inflamação imediata.
Uma outra propriedade importante é a tendência que um combustível
líquido tem para libertar vapores.

A B

Fig. 6 Exemplos de corpos: A – bons condutores; B – maus condutores.


■ Temperaturas características

Estabeleceram-se três temperaturas(1) características para os combustíveis


líquidos:

• Temperatura de inflamação – temperatura mínima que permite a uma


substância emitir vapores combustíveis em quantidade suficiente para
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formar, com o comburente, uma mistura que, por acção de uma fonte
de calor, se pode inflamar, extinguindo-se a combustão logo que se retira
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a fonte de calor. Tal deve-se ao facto de não se libertarem vapores em


quantidade suficiente.

• Temperatura de combustão – temperatura mínima a que uma substância


emite vapores combustíveis em quantidade suficiente para que em
contacto com o comburente, se possa inflamar por acção de uma fonte
exterior e arder continuamente.

• Temperatura de ignição – temperatura à qual os vapores libertados


por um combustível se auto-inflamam (combustão espontânea), sem a
presença de uma fonte de calor exterior.

Com base neste critério, e de acordo com NP 1936, classificam-se os


combustíveis líquidos, quanto ao ponto de inflamação, em três categorias:

• Líquidos de 1.ª categoria – quando o ponto de inflamação é inferior a


21 oC;

• Líquidos de 2.ª categoria – quando o ponto de inflamação é igual ou


superior a 21o e inferior a 55 oC;

• Líquidos de 3.ª categoria – quando o ponto de inflamação é igual ou


superior a 55 oC.

(1)
Estas temperaturas também se podem designar por «pontos».
No Quadro I apresentam-se exemplos de combustíveis dos três grupos
referidos.

QUADRO I
Características de inflamação de alguns combustíveis líquidos

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■ Limites de inflamabilidade

A percentagem de vapores combustíveis é outro dos factores a considerar,


já que para se dar a combustão, a mistura com o comburente não pode conter
demasiado combustível (mistura rica) ou uma quantidade insuficiente do
mesmo (mistura pobre). Definem-se então, para cada combustível, os limites
de inflamabilidade ou explosividade (fig. 7):

• Limite inferior de inflamabilidade (LII) ou de explosividade – o LII de


um gás ou vapor é a sua concentração mínima em volume na mistura
com o ar (gás/vapor-ar) acima da qual pode haver inflamação e abaixo
da qual a combustão não é possível por a mistura ser demasiado pobre.

• Limite superior de inflamabilidade (LSI) ou de explosividade – o LSI de


um gás ou vapor é a sua concentração máxima em volume na mistura
com o ar (gás/vapor-ar) abaixo da qual pode haver inflamação e acima
da qual não é possível, por a mistura ser demasiado rica.
12 Fig. 7 Campo de inflamabilidade ou de explosividade de determinado fluido.
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O campo de inflamabilidade ou explosividade varia de substância para


substância, como podemos ver pelos exemplos do Quadro II.

QUADRO II
Campo de inflamabilidade (ou DE explosividade) de vários combustíveis

2 3 Comburente
■ ■

A percentagem de comburente na mistura com o combustível é também


um factor importante na combustão.
O comburente que participa na grande maioria das combustões é, como já
foi referido, o oxigénio do ar. Este contém aproximadamente 21% de oxigénio.
Para certos combustíveis, uma atmosfera com menos de 15% de oxigénio
já não alimenta uma combustão. No entanto, há outros em que a combustão
apenas se extingue em concentrações de oxigénio inferiores a 10%.
2 4 Velocidade de combustão
■ ■

A velocidade a que decorre uma combustão depende de vários factores,


sendo tanto mais rápida quanto:

• Maior for o grau de divisão do combustível;


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• Mais inflamável for a natureza do combustível;

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• Maior for a quantidade de combustível exposta directamente ao
comburente;

• Maior for o grau de renovação ou alimentação do comburente.

Em relação à velocidade, as combustões classificam-se da seguinte forma:

• Lentas – quando se produz a uma temperatura suficientemente baixa


para que não haja emissão de luz, isto é, inferior a 500 ˚C. A oxidação
de um metal em contacto com o ar húmido é um exemplo deste tipo de
combustão;

• Vivas – quando existe emissão de luz, sendo vulgarmente designadas


por fogo. Neste caso, devido à mistura dos gases inflamados com o ar
forma-se a chama;

• Deflagrações – combustões muito rápidas cuja propagação se dá a uma


velocidade inferior à do som (340 m/s). Um tiro de pólvora exemplifica
este tipo de combustão;

• Explosões – neste caso a combustão é resultante da mistura de gases,


vapores ou poeiras com o ar numa percentagem bem determinada,
sendo a propagação superior à velocidade do som. A explosão origina,
sem dúvida, uma brusca e violenta onda de choque no meio em que
ocorre, provocando destruição e grande ruído (detonação).
2 5 Propagação da energia da combustão
■ ■

O fenómeno da propagação da combustão deve-se ao facto de dois corpos


terem temperaturas diferentes e haver transferência de calor daquele que está
a uma temperatura mais alta para o que está a temperatura mais baixa.
Este facto tem particular relevo na forma como um fogo evolui. As formas
14 de propagação são as seguintes:

• Radiação – a expressão radiação refere-se à emissão contínua de calor


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(energia) sob a forma de radiação, essencialmente infravermelha, que


se propaga em todas as direcções sem suporte material através do espaço,
tal como acontece com o mesmo tipo de radiação que, produzida pelo Sol
juntamente com a luz visível, se propaga até à Terra através do vazio
(fig. 8);

Fig. 8 Transmissão de calor por radiação.


• Condução – o calor transmite-se directamente no interior de um corpo
ou através de corpos em contacto. Colocando-se o extremo de uma barra
metálica em contacto com uma chama, enquanto o outro se sustém na
mão, verifica-se que esta parte da barra vai aquecendo cada vez mais. Esta
propagação do calor será tanto mais rápida quanto melhores condutores
forem os corpos em contacto. No caso de um incêndio num edifício, a
condução propaga-se através de estruturas metálicas, etc. (fig. 9); 15

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Fig. 9 Transmissão do calor por condução.

• Convecção – chama-se convecção ao processo de transmissão do calor


pelo ar em movimento. O ar aquecido, proveniente do incêndio, sobe,
forçando o ar frio a dirigir-se para as zonas inferiores. Este fenómeno
gera, na zona de incêndio, verdadeiras turbulências de ar aquecido que,
em alguns casos, atingem velocidades elevadas. A propagação por este
meio faz-se por todas as comunicações interiores quando não estão
protegidas: caixas de escada, caixas de elevadores, coretes de cabos,
condutas de ventilação, etc. (fig. 10);
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Fig. 10 Transmissão do calor por convecção.

• Projecção e deslocamento de matéria inflamada – forma de propa-


gação de incêndios que se dá pelo movimento de matéria inflamável a
arder como, por exemplo, fagulhas levadas pelo vento que provocam
novos focos de incêndio (fig. 11).

Fig. 11 Efeito da projecção e deslocamento de matéria a arder.


2 6 Produtos e manifestações da combustão
■ ■

Nas combustões produzem-se uma série de manifestações e produtos


visíveis que são o fumo, as chamas, o calor e os gases (fig. 12);

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Fig. 12 Manifestações e produtos da combustão.

■ Fumo

O fumo é um dos produtos da combustão, sendo o resultado de uma


combustão incompleta, na qual pequenas partículas sólidas se tornam visíveis,
variando de tamanho e quantidade, podendo impedir a passagem da luz.
O fumo também varia de cor em resultado das substâncias em combustão,
conforme se indica seguidamente:
• Fumo de cor branca ou cinzento pálido – indica que a combustão
é mais completa com bastante consumo de combustível e dispõe de
comburente em quantidade adequada;
• Fumo negro ou cinzento escuro – revela que se está perante uma
combustão que desenvolve grande temperatura e tem falta de combu-
rente, como é o caso da combustão de plásticos;
• Fumo amarelo, roxo ou violeta – assinala geralmente a presença em
maior percentagem de gases altamente tóxicos.
■ Chamas
São a manifestação de gases incandescentes, visíveis, em redor da superfície
do material em combustão.
No seu seio produz-se a reacção em cadeia, o consumo parcial ou total do
combustível e a libertação de outros produtos.
Em alguns casos produzem-se combustões sem chama. A radiação luminosa
18 emitida nesses casos designa-se por incandescência.
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■ Calor
É a energia libertada pela combustão, sendo o principal responsável pela
sua propagação dado que aquece todo o ambiente e os produtos combustíveis
presentes, elevando-os às temperaturas de inflamação, possibilitando, deste
modo, a continuação do incêndio.

■ Gases
Produzidos pela combustão, são o resultado da modificação da composição
do combustível.
A combustão pode produzir monóxido de carbono (CO), anidrido
carbónico (CO2), cianeto de hidrogénio (HCN), fosgénio, anidrido sulfuroso,
óxido de nitrogénio, ácido clorídrico, vapor de água e outros gases.

3 Métodos de extinção
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A extinção da combustão corresponde sempre à eliminação ou neutrali-


zação de, pelo menos, um dos elementos do tetraedro do fogo. Existem quatro
métodos para se proceder à extinção da combustão:
• Arrefecimento ou redução da temperatura – é o método mais utili-
zado e consiste em eliminar o calor de forma a que a temperatura do
combustível seja inferior à da combustão (fig. 13). Deste modo, é
necessário um agente extintor que tenha uma grande capacidade de
absorção de calor como, por exemplo, a água;
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Fig. 13 Extinção por arrefecimento ou redução da temperatura.

• Limitação do comburente (abafamento e asfixia) – é o método que


consiste no isolamento do combustível do oxigénio (comburente)
ou na redução da concentração deste no ambiente (fig. 14). Pode
conseguir-se esta forma de extinção diminuindo a concentração de
oxigénio através de um gás inerte (p. ex. dióxido de carbono) ou
cobrindo as chamas com uma substância com resistência suficiente à
inflamação (p. ex. espuma extintora);

Fig. 14 Extinção por abafamento.


• Carência ou limitação do combustível – consiste na separação entre
o combustível e a fonte de energia (calor) ou o ambiente do incêndio
(fig. 15). É um método eficaz, mas muitas vezes impossível de utilizar
devido à complexidade da sua execução;

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Cadernos de Sensibilização

Fig. 15 Extinção por carência ou limitação do combustível.

• Inibição ou rotura da reacção em cadeia – consiste em impedir ou


limitar a formação de radicais livres ou eliminá-los à medida que se
formam (fig. 16). Um bom exemplo para a rotura da reacção em cadeia
é a utilização de pó químico seco como agente extintor.

Fig. 16 Extinção por inibição ou rotura da reacção em cadeia.


4 Classes de fogos
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Atendendo ao comportamento dos diversos materiais convencionou


classificar-se em quatro categorias as diferentes classes de fogos, que podem
ser definidas pela natureza dos combustíveis. Esta classificação é especialmente
útil no domínio do combate ao incêndio por meio de extintores.
No Quadro III descrevem-se as quatro classes de fogos. 21

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QUADRO III
Classes de fogos

Fonte: NP EN 2 – 1993 – Classes de fogos.


5 Agentes extintores
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Existem vários agentes extintores que actuam de maneira específica sobre


cada um dos quatro métodos anteriormente citados.
Os agentes extintores devem ser usados de forma criteriosa para evitar
acidentes pessoais e agravamento do incêndio e ainda, quando possível,
22 minimizar os efeitos negativos do próprio agente extintor sobre os materiais e
equipamentos não atingidos pelas chamas.
Apresentam-se nos três estados normais da matéria e têm âmbitos de
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aplicação, eficácia e limitações diferentes. Os agentes extintores mais utilizados


são a água, a espuma, os pós químicos e o CO2.

5 1 Água
■ ■

É o agente extintor por excelência e o mais utilizado em extinção de


incêndios, uma vez que existe em grande abundância e o seu custo é baixo.
Actua por arrefecimento do combustível e do meio ambiente por contacto
directo ou indirecto e, secundariamente, por abafamento na forma de vapor.
Emprega-se na forma de jacto (fig. 17-A), para se obter um maior alcance
ou penetração da água.
A água, quando utilizada em chuveiro ou pulverizada (nevoeiro) (fig. 17-B),
tem um maior poder de arrefecimento, uma vez que absorve uma enorme
quantidade de calor.

A B

Fig. 17 Exemplo de duas formas de aplicação de água. A – Em jacto; B – Pulverizada.


À água podem adicionar-se aditivos que melhoram as suas capacidades
extintoras.
Como inconvenientes, entre outros, sobressaem os estragos que provoca
e o facto de ser condutora de electricidade. A utilização em equipamentos
eléctricos em tensão apresenta riscos de electrocussão.

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5 2 Espuma

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■ ■

Um produto denominado espumífero (ou emulsor), misturado com


água e ar dá origem a um agente extintor aquoso designado por espuma.
É especialmente aplicada em incêndios de líquidos inflamáveis. É também
utilizada no interior de edifícios sob a forma de inundação total (alta
expansão).
Actua por abafamento cobrindo o combustível e isolando-o do oxigénio
do ar. Devido à existência de água na espuma tem, também, poder de
arrefecimento (fig. 18).

Fig. 18 A espuma extingue por arrefecimento e abafamento.


A espuma pode ser aplicada sobre o fogo em baixa, média e alta expansão:

• Baixa expansão – é produzida através de uma agulheta (fig. 19), que a


projecta em jacto, não devendo este incidir directamente no líquido em
combustão. Por ser a que possui mais água é a que tem maior poder de
arrefecimento (fig. 20);
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Fig. 19 Agulheta de espuma de baixa expansão.

Fig. 20 Utilização de agulheta de espuma de baixa expansão.


• Média expansão – a sua produção é efectuada através de agulheta dotada
de uma rede de malha fina, a qual permite uma melhor mistura do
emulsor e da água com o ar (fig. 21). É uma mistura leve que voa com
alguma facilidade (fig. 22);

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Fig. 21 Agulheta de espuma de média expansão.

Fig. 22 Utilização de agulheta de espuma de média expansão.


• Alta expansão – a produção deste tipo de espuma é feita por um
equipamento designado por gerador de alta expansão (fig. 23).
Este equipamento possui uma ventoinha movida hidraulicamente que
auxilia a mistura do emulsor e a água, gerando ao mesmo tempo uma
forte corrente de ar que ajuda a projectar a espuma.

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Cadernos de Sensibilização

Fig. 23 Gerador de espuma de alta expansão.


O seu índice de expansão é de tal forma que pode encher um volume de
50 m3 num minuto.
É uma espuma muito leve que voa facilmente pela acção do vento ou pela
intensidade da combustão.
A espuma impede a reactivação do incêndio. Pode ser empregue em grandes
superfícies ou volumes.
Como já referido, a espuma contém água pelo que não deve ser utilizada
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em equipamentos eléctricos em tensão. Também pode provocar a corrosão em
certos materiais.

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No Quadro IV apresenta-se uma síntese comparativa da expansão das
espumas em função da misturas e das agulhetas utilizadas.

QUADRO IV
Exemplos comparativos da expansão das espumas

5 3 Pós químicos
■ ■

Constituem o grupo dos agentes extintores sólidos usados no combate a


incêndios. São substâncias sólidas de cristais secos, finamente divididos em
partículas de dimensão micrométrica e perfeitamente fluidas.
Os pós químicos secos extinguem o incêndio por inibição, eliminando a
reacção em cadeia.
Ao serem projectados sobre as chamas e no espaço envolvente actuam como
bloqueadores dos radicais livres, impedindo-os de se multiplicarem e elimi-
nando rapidamente as chamas.
Os pós não são tóxicos nem condutores de electricidade. São corrosivos e
dificultam a visibilidade durante a extinção (fig. 24).
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Fig. 24 Dificuldade de visibilidade com a utilização de extintores de pós químicos.

A classificação dos pós é feita, através da sua correspondência às diferentes


classes de fogos, pelas seguintes categorias:
• Pós ABC – também conhecidos por polivalentes, por serem usados em
fogos de classe A, B e C, são compostos à base de fosfato de amónio;
• Pós BC – indicados para combater fogos de classe B e C, são produzidos
à base de bicarbonato de sódio ou de potássio;
• Pós D – são usados estritamente em fogos da classe D. Sendo consti-
tuídos por compostos quimicamente inertes, o seu fabrico tem por base
a grafite misturada com cloretos e carbonetos. A eficácia de extinção
destes pós depende das características próprias de cada metal. Dado
que não são agentes extintores polivalentes é necessário escolher o pó
adequado para cada tipo de metal.
5 4 Dióxido de carbono (CO2)
■ ■

Também conhecido por anidrido carbónico, é um gás liquefeito armazenado


sob pressão. É utilizado em extintores e sistemas fixos de extinção de incêndios
(fig. 25). Não deixa sujidade nem é condutor de electricidade.

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Fig. 25 Instalação fixa de CO2.

Aplicado sobre um incêndio, a sua acção extintora é caracterizada pela


redução do teor de oxigénio (asfixia) e abaixamento da temperatura. O CO2 é
pouco eficaz quando aplicado no combate a incêndios ao ar livre.
Apesar de não ser tóxico, não deve ser respirado. Quando utilizado em
sistemas fixos de inundação total do ambiente, a descarga só deve ser efectuada
se não existirem pessoas dentro da sala. Caso contrário poderá levar à morte
destas por asfixia.
5 5 Hidrocarbonetos halogenados
■ ■

Normalmente designados por halons, são derivados dos hidrocarbonetos


obtidos por processos complexos.
Os halogenados mais divulgados como agentes extintores eram o 1211 em
extintores portáteis e o 1301 em sistemas fixos de extinção.
30 Sendo estes agentes extintores substâncias que empobrecem a camada do
ozono, encontram-se proibidas, a nível mundial desde 1994, a produção e
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comercialização de equipamentos carregados com este produto.


Os hidrocarbonetos halogenados existentes em extintores ou sistemas foram
substituídos e destruídos até Dezembro de 2003, conforme regulamento CE
n.º 2037/2000 do Parlamento Europeu e do Conselho de 29 de Junho de
2000.

5 6 Substituição dos halons


■ ■

Recentemente surgiram no mercado novos agentes extintores para


substituição do halon 1301 utilizado nos sistemas fixos.
O FM 200 (heptafluoropropano HC3F3) e o FE 13 (trifluorometano
HCF3) são alguns exemplos de produtos já a ser comercializados, se bem que
outros produtos também estejam a ser comercializados, tais como, argonite
(nitrogénio + argon), argonfire (argon) e inergen (azoto + argon + CO2).
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Anotações
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Anotações