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Revista
de estudos
ibericos
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Coordenação deste número
Rui Jacinto
Alexandra Isidro

Apoio à Coordenação
Ana Margarida Proença

Capa e conceção gráfica


Márcia Pires

Impressão
Marques & Pereira, Lda

Edição
Centro de Estudos Ibéricos
Rua Soeiro Viegas, 8
6300-758 Guarda
cei@cei.pt
www.cei.pt

ISSN: 1646-2858

Depósito Legal:

dezembro 2020

Os conteúdos, forma e opiniões expressos nos textos


são da exclusiva responsabilidade dos autores.
in
di
ce
Tributo a Eduardo Lourenço 9
nos vinte anos do Centro de Estudos Ibéricos
Rui Jacinto

AS NOVAS GEOGRAFIAS DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA 17 > 292

Geograficidades Lusófonas. 19
Caminhos para um Diálogo entre Margens
José Borzachiello; Rui Jacinto

A Toponímia de Cabo Verde: apontamentos sobre as suas Geografias 31


Rui Jacinto; Maria Luisa Ferro Ribeiro

Indicadores Socioeconômicos de Desertificação 63


na Bacia Hidrográfica da Ribeira Grande de Santiago (Cabo Verde)
Maria Losângela Martins de Sousa; Vládia Pinto Vidal de Oliveira;
Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

Experiências de uma Trajetória Acadêmica 87


em Cabo Verde e África Continental
Vládia Pinto Vidal de Oliveira

Áreas Protegidas de Guiné-Bissau: 97


o caso do Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu
Antonio Correia Junior; Edson Vicente da Silva; Francisco Davy Braz Rabelo

As Paisagens da Ilha do Príncipe 113


sob as perspectivas da Geografia
Lúcio Correia Miranda; Edson Vicente da Silva; Adryane Gorayeb

(Re)ordenamento do Território e Políticas Públicas: o caso do Plano 143


Diretor Municipal do Lobito (Província de Benguela, Angola)
Isaac Simão Santo; Wladimir Estêvão Borges
Toponímia dos Bairros de Benguela 161
José Chicanha Delfino; André Clemente de Freitas; António Moisés;
Adelino José Sapalo; Pembele Manzinga

Aproveitamento Turístico das Cavernas de Deus e Maria Bonita 181


no Município do Sumbe (Província do Kwanza Sul em Angola)
Manuel Francisco Bandeira; Albino Kangombe Ngongo

Caminhos e Experiências de Cooperação Acadêmica 195


entre a USP (Brasil) e a UEM (Moçambique)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto

Agricultura de Subsistência Face as Mudanças Climáticas: 207


caso dos agricultores do distrito de Boane (Moçambique)
Orlando Inácio Jalane; Edson Vicente da Silva

Paisagens e Desenvolvimento Local: 221


inventário, análise e estudo de Chibuto (Moçambique)
Maria Geralda de Almeida

Proposta de Uso e Cobertura do Solo 231


para o Município de Chimoio (Moçambique)
Gudo Bai Armando Maidjelel; Manuel Aguiar Muraçama Namurove;
Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

Mineração, Deslocamentos Compulsórios e Identidades 245


em Movimento: um olhar sobre as comunidades atingidas pela Vale
e Riversdale em Moatize (Moçambique)
Eduardo Jaime Bata; Celene Cunha M. Antunes Barreira

Mocuba, uma Cidade Média: 273


reflexão em torno dos conflitos na produção do espaço urbano
João Carlos Mendes Lima

INVESTIGAÇÃO, INOVAÇÃO E TERRITÓRIO 295 > 336

A Paisagem Agri-cultural Raiana: 297


recursos e produtos para um turismo sustentável
Dora Ferreira; José Manuel Sánchez Martín

Instituto Internacional de Investigación e Innovación 311


del Envejecimiento (4IE): experiencia de un Proyecto
de Investigación Interdisciplinar entre España y Portugal
Luis López-Lago Ortiz, Borja Rivero Jiménez, César Fonseca, José Manuel
García Alonso, Manuel José Lopes, Juan Manuel Murillo
Qual é o melhor lugar para envelhecer? 323
O Ageing in Place como estratégia central na promoção
do bem-estar dos idosos portugueses
António M. Fonseca

OFICINA DE HISTÓRIA DA GUARDA 339 > 360

"Corpo e membros uma só cousa": 341


os mesteirais e o povo da Guarda nas cortes medievais
Antonieta Pinto, António Prata Coelho

EDUARDO LOURENÇO 363 > 407

Tributo a Eduardo Lourenço . CEI [2000–2020] 364

“Heterodoxia”: 367
Historicidade e Tragédia
António Pedro Pita

A arte do pensamento de Eduardo Lourenço: 373


a saudade e a transformação do mundo
Roberto Vecchi

O Lugar do Anjo: 383


Lourenço no jardim de Pessoa
Jerónimo Pizzarro

A Marcha Obscura da História: 387


“A França em questão ou o fim da liberdade como boa consciência”
Margarida Calafate Ribeiro

Revisitando as representações dos EUA 397


no pensamento de Eduardo Lourenço
Viriato Soromenho Marques

Prémio Eduardo Lourenço 2020 404


Ángel Marcos de Dios: breve Perfil 405
Galeria de Premiados 406

CEI. ATIVIDADES 2020 411


TRIBUTO A EDUARDO LOURENÇO
NOS VINTE ANOS DO CENTRO
DE ESTUDOS IBÉRICOS

RUI JACINTO*

1. Centro de Estudos Ibéricos: vinte anos de conhecimento, cultura, coopera-


ção. A ideia seminal lançada pelo Professor Eduardo Lourenço num célebre dis-
curso que proferiu em 27 de novembro de 1999, por altura das Comemorações do
Oitavo Centenário da Cidade da Guarda, que intitulou Oito séculos de altiva soli-
dão, acabaria por estar na génese da relação umbilical estabelecida com o Centro
de Estudos Ibéricos (CEI). Um ano mais tarde (27.11.2000) foi assinado entre os
Reitores das Universidades de Coimbra e de Salamanca e a Presidente da Câmara
Municipal da Guarda o protocolo fundador do CEI, iniciando uma história que, apa-
rentando curta, leva vinte anos de atividade, profícua e perseverante, pautada por
uma missão inspirada no Conhecimento, na Cultura e na Cooperação.
As expetativas de Portugal, da Europa e do Mundo, como o clima vivido a
nível local, situavam-se naquele ano de 1999 nos antípodas do atual sentimento
depressivo em que nos encontramos mergulhados. Tinha acabado de encerrar a
EXPO 98 e o país ainda estava dominado pelos efeitos duma euforia que a voz avi-
sada de Eduardo Lourenço tentou temperar numa conferência proferida durante
aquele evento. Conhecedor do nosso espírito psicanalítico e perante a realidade
nova com que estávamos a lidar alertou para a necessidade de se contrariarem
os caminhos que nos habituamos a percorrer e onde, invariavelmente, acaba-
mos por regressar: “O futuro de Portugal foi desde cedo o «lá fora», a distância,
nossa ou alheia. Foi a Índia, o Brasil, a África, recentemente e a vários títulos, a
Europa. Hoje é a primeira vez que Portugal e os Portugueses têm de desenhar,
de conceber, de inventar e se dar um futuro a partir de si mesmos. Mas estão tão
habituados a ter um futuro «à mão de semear» – embora pago tantas vezes com
suor e lágrimas que, sem querer, têm feito tudo para não encarar de frente esta
ideia simples: não termos um futuro se nós próprios não nos dermos esse futuro”
(Nós como futuro, 1999, Nau de Ícaro: 69).

*
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território e Centro de Estudos Ibéricos.
10 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A convicção que não teríamos “um futuro se nós próprios não nos dermos
esse futuro” não será alheia à sugestão de criar um instituto com as caracte-
rísticas que o CEI viria a assumir. Os ventos pareciam a correr de feição, não
havia dúvidas que o rumo era certo nem engano que o caminho seria plano e
sem rugosidades. Depositava-se crença cega na aceleração que tomava a cons-
trução europeia, não se questionava o alargamento a leste, acreditava-se num
futuro auspicioso que reservava a imparável globalização. Eduardo Lourenço,
que continuava a pendular entre Vence e Portugal, acompanhava de perto a con-
solidação do CEI, a quem emprestou o seu prestígio e capital de conhecimento,
participando em muitas atividades que iam sendo programadas. O desafio que
havia lançado em 1999 para a criação na Guarda do Instituto da Civilização Ibé-
rica, estou em crer, foi um impulso íntimo, sentido e profundo, quem sabe um
apelo subconsciente onde já pairaria a aspiração larvar de iniciar o retorno à sua
mátria, esse regresso sem fim de que falaria mais tarde, antecipação do reen-
contro com as origens, o efetivo regresso a casa do filho pródigo.

2. Tributo a Eduardo Lourenço: reconhecimento do CEI ao seu mentor, patrono


e Diretor Honorífico. O presente número da Iberografias é, simbolicamente, um
número especial por registar duas efemérides: vinte anos de atividade do CEI e,
por justificada razão, assinalar uma singela, mas sentida homenagem ao Profes-
sor Eduardo Lourenço, seu mentor, patrono e Diretor Honorifico. Os tempos de
incerteza que se vivem não permitirão que decorra com a normalidade o arranque
das Comemorações dos 20 anos do Centro de Estudos Ibéricos nem os eventos
previstos concretizar durante 2021.
Os vários apartados que estruturam este número da Revista espelham tanto a
atividade do CEI como os projetos estruturantes que pautam a sua ação, onde se
destacam: As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa; Investigação,
Inovação & Território; Oficina de História da Guarda. Sem visibilidade nem tanta
expressão nesta edição há outras iniciativas que constituem atividades correntes,
onde se destacam o Curso de Verão e o Concurso Transversalidades. Fotografia
sem Fronteiras, além de Saúde sem Fronteiras, onde se tem enfatizado o Envelhe-
cimento Ativo, Educação, com a valorização do Outdoor learning: Territórios edu-
cativos e novas metodologias para ensinar e aprender. É devida uma referência
especial a dois novos projetos que, apesar de iniciados num ano particularmente
atípico, proporcionaram outras tantas publicações: Leituras do Território e o Con-
curso Fronteiras da Esperança: Minha Terra, Meu futuro.
A Revista dedica um capítulo específico a Eduardo Lourenço que inclui teste-
munhos do tributo que lhe é prestado, que passa pelo lançamento duma gravura
artística, duma medalha evocativa e instalação do Memorial Eduardo Lourenço,
na sede do CEI, onde ficarão expostos alguns objetos, condecorações e diplomas
de prémios com que foi agraciado, generosamente doados ao Centro. Além do
TRIBUTO A EDUARDO LOURENÇO NOS VINTE ANOS DO CENTRO DE ESTUDOS IBÉRICOS
11
Rui Jacinto

registo do Prémio Eduardo Lourenço atribuído, em 2020, a Ángel Marcos de Dios,


Professor da Universidade de Salamanca, são publicados vários ensaios que se
debruçam sobre o legado de Eduardo Lourenço, perspetivas e olhares cruzados
sobre uma obra multifacetada. Esta homenagem, que representa mais um vínculo
com o Centro que ajudou a fundar, apenas antecipa o caminho que começamos a
percorrer até 2023, ano do Centenário do Nascimento de Eduardo Lourenço, que
o CEI não deixará de assinalar condignamente com uma programação especial.

3. As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: ler e interpretar o


território. Eduardo Lourenço iniciou a reflexão sobre as relações entre Portugal
e os restantes Países de Língua Portuguesa (PLP), particularmente com o Brasil,
antes de ir ensinar filosofia para Salvador da Bahia no ano de 1958-1959. Em Sal-
vador assiste ao lançamento de Gabriela, cravo e canela (Jorge Amado, 1958) e
participa ativamente, com várias comunicações, no IV Colóquio Internacional de
Estudos Luso-Brasileiros (Salvador, Agosto de 1959). No rescaldo deste célebre
encontro havia de escrever, provavelmente em 1959, um longo ensaio sobre o
mito da Comunidade Luso-Brasileira, onde adianta: “Nenhuma experiência se ofe-
rece hoje ao português, fora das suas exíguas fronteiras, mais rica de ensinamen-
tos de toda a espécie, do que a do seu contacto com o Brasil. Acaso a experiência
africana proporcione ensinamentos do mesmo tipo ou susceptíveis de igual in-
terpretação. Sem a ter feito não podemos pronunciar-nos, embora por índices de
outra ordem e pela informação oral e literária que sobre o assunto possuímos, tal
experiência não possa comparar-se à que o Brasil nos fornece. Pelo menos neste
momento histórico, mas pela análise da situação angolana ou moçambicana já se
pode prever, sem muito risco de profetizar na noite, que o seu futuro não será o
mesmo do Brasil. Antecipando sobre a nossa conclusão geral, que ao longo deste
ensaio tentaremos fundamentar, diremos que o Brasil representa na consciência
média dos portugueses um papel absolutamente desproporcionado com a ima-
1
gem verdadeira das relações concretas de um país com o outro” .
Acaba por concluir que “se o Brasil é sonho para portugueses ou os portugue-
ses se entretêm a sonhá-lo, Portugal nem é sonho do Brasil nem os brasileiros
perdem tempo em nos sonhar” (idem). Num outro contexto, anos mais tarde, por
acreditar que “o encontro com os outros é o verdadeiro encontro connosco” (p.
184), já no âmbito do Labirinto da Saudade (1978), aflora o tema do colonialis-
mo, que havia pairado sub-repticiamente no Colóquio de Salvador, ao admitir que
”quinhentos anos de imperialismo sem Império que foram também quinhentos
anos de Império sem autêntico imperialismo” (p. 42). Os Países de Língua Portu-
guesa, dispersos por diferentes continentes, representam uma geografia diversa,

1
O mito da Comunidade Luso-Brasileira [1959?]. Eduardo Lourenço (2015) – Do Brasil: fascínio e miragem.
Gradiva, Lisboa: 73-74 (Organização e Prefácio de Maria de Lourdes Soares).
12 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

rica e complexa, onde habitam perto de 280 milhões de falantes que fazem do
português a língua mais falada no hemisfério sul e a quinta a nível mundial.
As geografias dos Países de Língua Portuguesa, como adiante se verá, con-
tinuam de costas voltadas, são ainda relativamente desconhecidas, embora en-
cerrem um campo fértil para debates e estudos comparativos, como os que tem
sido levado a cabo no âmbito do CEI, envolvendo investigadores portugueses,
espanhóis e de diferentes Universidades do Brasil, Cabo Verde, Moçambique e
Angola. As questões ambientais, as dinâmicas socioeconómicas, os processos
de reestruturação, que ocorrem em diferentes contextos territoriais, são vastos
campos de investigação e debate, fundamentais para socializar o conhecimento,
difundir boas práticas e trocar experiências sobre a incidência de políticas publi-
cas, sobretudo as mais focadas na coesão económica, social e territorial, isto é, as
que aspiram um almejado desenvolvimento sustentável.
Tal abordagem requer engenho e alguma arte pois os espaços e os imaginá-
rios lusófonos são multipolares, plurais do ponto de vista cultural e sujeitos a um
forte câmbio: “Mas o espaço da lusofonia, não tanto no seu óbvio sentido linguís-
tico, mas como espaço cultural, é um espaço se não explodido, pelo menos mul-
tipolar, intrinsecamente descentrado. Querer uni-lo pelo que para nós é aproble-
mático, mas também ingenuamente eurocêntrico, quando nós fomos os primeiros
agentes, inconscientes embora, da descentração europeia, é a melhor maneira
de cortar pela raiz o sonho de comunhão, de expansão de nós mesmos como
2
cultura que se quer vincular à ideia-programa, agora ideológica, da lusofonia.”
A institucionalização da Geografia no Ensino Superior dos diversos Países de
Língua Portuguesa conheceu processos distintos que determinaram a evolução
e os posicionamentos em cada um deles, vicissitudes que conduziram ao atual
estado da arte. Nesta apreciação não se pode abstrair das guerras que acompa-
nharam o doloroso processo de descolonização nos novos Países Africanos de
Língua Oficial Portuguesa (PALOP). O Mestre ensinou-nos que “O imaginário lusó-
fono tornou-se, definitivamente, o da pluralidade e da diferença e é através desta
evidência que nos cabe, ou nos cumpre, descobrir a comunidade e a confrater-
nidade inerentes a um espaço fragmentado, cuja unidade utópica, no sentido de
partilha em comum, só pode existir pelo conhecimento cada vez mais sério e pro-
fundo, assumido como tal, dessa pluralidade e dessa diferença. Se queremos dar
algum sentido à galáxia lusófona, temos de vivê-la, na medida do possível, como
inextricavelmente portuguesa, brasileira, angolana, moçambicana, cabo-verdiana
3
ou são-tomense.”

2
“O novo espaço lusófono ou os imaginários lusófonos”. Eduardo Lourenço (1987) – A Nau de Ícaro seguido
de Imagem e Miragem da Lusofonia, Gradiva: 188.
3
“Errância e busca num imaginário lusófono”. Eduardo Lourenço (1987) – A Nau de Ícaro seguido de Imagem
e Miragem da Lusofonia, Gradiva: 112.
TRIBUTO A EDUARDO LOURENÇO NOS VINTE ANOS DO CENTRO DE ESTUDOS IBÉRICOS
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Rui Jacinto

Superar o relativo desconhecimento mútuo entre a comunidade de geógrafos


dos PLP passa por promover uma cooperação mais estreita entre as Geografias
do Brasil, de Portugal e demais PLP encetando diferentes parcerias, redes e pro-
jetos de investigação, intensificando a cooperação no âmbito da formação e da
investigação geográfica com Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Angola, Mo-
çambique e Timor.

4. Fronteiras de Esperança: Minha Terra, Meu Futuro. Os territórios interiores


e raianos, com os quais o CEI está fortemente comprometido, carecem de estí-
mulos que façam renascer a esperança nestes espaços tão olvidados, evitando
constrangimentos que permitam acreditar ser possível crescer, viver e envelhecer
melhor nestes lugares. Foi com este intuito que surgiu o projeto Fronteiras da
Esperança: Minha Terra, Meu Futuro, fruto duma parceria entre o CEI e a Comu-
nidade Intermunicipal (CIM) das Beiras e Serra da Estrela, materializado através
dum concurso com a mesma designação, que se destina a despertar nos jovens a
curiosidade em conhecer, com outros olhos e a partir das respetivas experiências
e quotidianos, isto é, das próprias geografias vividas.
A iniciativa pretende ser um mergulho nas raízes locais, o inventário de re-
cursos e a valorização de potencialidades, materiais e intangíveis, de modo a en-
contrar novas respostas para um futuro coletivo que se espera mais promissor.
O envolvimento comprometido da comunidade educativa na procura de novos
caminhos para solucionar um problema há muito identificado passa por explorar a
relação dos jovens com o território a partir da vertente geográfica, literária e artís-
tica. Os jovens estudantes da região são convidados a reinterpretar criativamente
o território a partir da valorização da geografia, da literatura e das artes, sem
descurar disciplinas conexas, imprescindíveis a um desejável conhecimento mais
holístico, a partir de três temas principais: Leitura e (re)interpretações do território:
diagnósticos prospetivos; Escrita, literatura e território: trabalhos de expressão
literária; Arte e território: trabalhos de expressão artística.
O envolvimento da comunidade escolar num debate central para o futuro da
região também passa pela dinamização de projetos educativos interdisciplinares,
que apostem em trabalhos práticos que, recorrendo a metodologias inovadoras e
ao uso de novas tecnologias, designadamente de comunicação e informação, es-
timulem a participação e fomentem diferentes parcerias e redes de cooperação,
tanto a nível regional como, numa fase posterior, transfronteiriças.
O concurso culmina com a edição dum catálogo e a realização duma expo-
sição onde figuram os 62 trabalhos submetidos por alunos de 12 escolas, locali-
zadas em 4 concelhos (Covilhã, Fundão, Guarda e Pinhel) dos 15 que integram a
Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela. Organizados segundo
os três temas referidos e quatro escalões, consoante o ano que o aluno frequen-
ta (1º, 2º, 3º Ciclo e Secundário), os trabalhos foram elaborados em diferentes
14 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

suportes e com recurso a vários modos de apresentação, do cartaz, artigo, arte


digital, arte visual à fotografia.
Os trabalhos mostram-nos como está a emergir na Beira um novo pulsar, apre-
sentam sinais de mudanças que se estão a operar nas geografias locais, como o
contributo das famílias, o interesse científico e a motivação dos professores está
a ajudar a renovar a autoestima e a reconstruir um olhar mais autocentrado e
cosmopolita sobre as comunidades locais.

5. CEI, plataforma de difusão de conhecimento e de cooperação transfronteiri-


ça: o novo ciclo de políticas públicas e a renovação da esperança. O Centro de Es-
tudos Ibéricos foi escolhido para acolher, na sua sede, o encontro formal dos chefes
de governo de Portugal e de Espanha, António Costa e Pedro Sánchez, no âmbito da
XXXI Cimeira Luso-Espanhola, realizada na Guarda, em 10 de outubro de 2020, cujo
tema central foi a Cooperação Transfronteiriça. Esta escolha representa tanto um es-
tímulo como o reconhecimento de duas décadas de trabalho empenhado no apro-
fundamento das relações entre pessoas e instituições dos dois lados da fronteira.
A Estratégia Comum de Desenvolvimento Transfronteiriço (ECDT) que foi apro-
vada durante a Cimeira constitui um instrumento que vai complementar a “Estra-
tégia para a Coesão Territorial e o Programa Valorização do Interior em Portugal
e a Estratégia Nacional para o Desafio Demográfico em Espanha”. São apontados
propósitos desta Estratégia “combater a regressão demográfica e impulsionar, de
uma forma coordenada, as oportunidades de crescimento económico, a geração
de emprego e a melhoria na qualidade de vida dos cidadãos que vivem em ambos
os lados da fronteira, num quadro de sustentabilidade e convergência”.
A ECDT, que irá nortear a Cooperação Transfronteiriço entre Portugal e Espanha,
no próximo ciclo de programação, a decorrer entre 2021-2026, tem como pilares
de referência os seguintes cinco Eixos de Intervenção que a estruturam: (i) mobili-
dade transfronteiriça e eliminação dos custos de contexto; (ii) infraestruturas, físicas
e digitais, e conectividade territorial: vias de comunicação, internet e rede móvel;
(iii) gestão conjunta de serviços básicos nas áreas de educação, saúde, serviços so-
ciais, proteção civil; (iv) desenvolvimento económico e inovação territorial: atração
de pessoas, empresas e novas atividades; (v) ambiente, centros urbanos e cultura.
Levando em consideração as iniciativas que decorrem da aposta no conheci-
mento, na cultura e na cooperação, as iniciativas sobre biodiversidade e geodi-
versidade, a promoção projetos culturais transfronteiriços (p. ex. Prémio Eduardo
Lourenço, Transversalidades – Fotografia sem Fronteiras, etc.), a divulgação do
património cultural, material e intangível, levado a cabo no âmbito das Rotas Ibéri-
cas e das Leituras do Território, existem as melhores expetativas para o CEI encarar
com otimismo um novo ciclo de programação no âmbito da Cooperação Transfron-
teiriça.
as novas
geografias
dos paises
de lingua
Portuguesa
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS.
CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE
MARGENS
JOSÉ BORZACHIELLO DA SILVA*
RUI JACINTO**

1. A GEOGRAFIA NOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA:


APONTAMENTO SOBRE A SUA EVOLUÇÃO
O papel e o envolvimento de Portugal e do Brasil na promoção da investigação
da Geografia nos restantes Países de Língua Portuguesa (PLP), antes e depois que
as colonias portuguesas ascenderam à independência, é um trabalho que urge
aprofundar, depois duma compilação sistemática dos trabalhos de investigação
geográfica realizados no âmbito de mestrados ou doutorados provenientes dos
novos PLP. Esta preocupação é ainda mais importante em tempos de mudança e
de incerteza que a sociedade atravessa, cujas marcas serão profundas na inves-
tigação pela inflexão na trajetória de cooperação que vinha sendo seguida. Caso
abrande, como está a acontecer, o apoio a projetos de investigação, na área da
Geografia, como os que vinham sendo patrocinados pela cooperação bilateral en-
tre os Estados, os efeitos serão perversos pois tal retrocesso irá afetar com mais
dureza os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).
A Geografia tem, apesar de tudo, uma longa tradição nos Países de Língua
Oficial Portuguesa sobretudo desde que se começou a implantar e a trilhar os
caminhos de alguma modernidade, no final do século XIX, com a criação das So-
ciedades de Geografia (Lisboa em 1875; Rio de Janeiro em 1883). A sua introdução
no Ensino Superior acabou por lhe conferir uma certa alforria, institucionalização
verificada em Portugal nas primeiras décadas do século XX, quando a começou a
ser ministrada pela mão de Silva Teles e de Anselmo Ferraz de Carvalho, respeti-
vamente, no Curso Superior de Letras de Lisboa (1907) e na recém-criada Facul-
dade de Letras da Universidade de Coimbra (1911). As primeiras teses de doutora-
mento em Geografia foram realizadas em Portugal por Amorim Girão (A Bacia do
Vouga. Ensaio geográfico; Coimbra, 1922), Virgílio Taborda (Alto Trás-os-Montes.

*
Universidade Federal do Ceará (UFC) e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC - Rio)
[borzajose@gmail.com].
**
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) [rjacintomm@gmail.com].
20 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Estudo geográfico; Coimbra, 1932), Orlando Ribeiro (Arrábida, Esboço geográfico;


Lisboa,1935) e Alfredo Fernandes Martins (O Maciço Calcário Estremenho. Contri-
buição para um estudo de Geografia Física, 1949).
A sua difusão ocorre no Brasil a partir da Universidade de São Paulo, onde foi
introduzida em 1934 (Silva, J. B. 2012, 38). Foi um processo iniciado com a criação
do Curso na Universidade de São Paulo, na Universidade do Distrito Federal, em
1
1935 e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1937. Os frutos
da investigação ocorrem com a primeira tese elaborada por Maria da Conceição
Vicente de Carvalho (Santos e a Geografia Humana do Litoral Paulista, USP- São
Paulo, 1944), seguida pela de Ary França, (Estudo sobre clima da bacia de São
Paulo, USP-São Paulo 1945), Nice Lecocq Muller (Sítios e sitiantes, USP-São Paulo,
1946) e Renato Silveira Mendes (Paisagens culturais da baixada santista, USP-São
Paulo, 1948), ambas sob orientação de Pierre Monbeig.
O desenvolvimento ocorrido no decurso do longo século que nos separa da-
quelas datas fundadoras leva-nos a concluir que as Geografias de Portugal e do
Brasil seguiram caminhos que não foram lineares nem paralelos, quer em termos
de ensino e de investigação quer relativamente aos vínculos que ambas as Es-
colas privilegiaram nas relações externas que foram estabelecendo. Os ritmos
e as intensidades diversas que se registaram deixa perceber linhas de continui-
dade e de rutura, mas, também, sinais de convergência (p. ex.: forte influência
da Geografia Francesa) que convivem com significativos pontos de divergência.
As trajetórias distintas das Escolas Geográficas de Portugal e do Brasil resultam,
pois, de dinâmicas e processos históricos, políticos, culturais e socioeconómicos
específicos de cada um destes dois países.
A Geografia nos Novos Países de Língua Portuguesa (NPLP), sobretudo em três
dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), mostra a existência
dum vínculo mais forte, quiçá dependência, num momento inicial, da Geografia
praticada em Portugal. Nas duas últimas décadas esta intimidade foi-se esbaten-
do, os contactos e as alternativas foram surgindo, coincidindo com um período de
expansão e de assinaláveis progressos. A tentativa de compreender a génese e a
evolução da Geografia nestes países obriga-nos a apelar e dar ainda maior acui-
dade às razões evocadas na construção dum verdadeiro diálogo entre margens.
É fundamental considerar as independências destes estados, ocorridas com o
advento da democracia (1974) e a consequente quedado colonialismo português:
Guiné-Bissau adquire a sua independência em 10 de setembro de 1974, seguindo-
-se Moçambique (25 de junho de 1975), Cabo Verde (5 de julho de 1975), São Tomé
e Príncipe (12 de julho de 1975) e Angola (11 de novembro de 1975). Timor-Leste,
que havia proclamado unilateralmente a sua independência, em 1975, acabou
anexado e esteve sob administração Indonésia até ao referendo de 1999, a que

1
Trata-se da atual Universidade Federal do Rio de Janeiero - UFRJ.
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
21
José Borzachiello, Rui Jacinto

se seguiu uma administração provisória da ONU até por Portugal, em 2002, reco-
nhecer a independência.

Países de Língua Oficial Portuguesa

Fonte: Instituto Camões

Embora correspondam a realidades geográficas e sociopolíticas bem distintas


a história encarregou-se de irmanar Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-
-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e, posteriormente, Timor-Leste, na
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Após um longo percurso,
com remota origem, esta organização internacional, formada pelos países lusófo-
nos, acabou por ser institucionalizada em 17 de Julho de 1996 com a chegada da
democracia a Portugal (1974) e ao Brasil (1985) e as independências das colónias
portuguesas (1975), com o objetivo de aprofundar a amizade mútua e a coopera-
ção entre os diferentes países membros.
O espetro colonial e a traumatizante guerra entre Portugal e os povos das suas
colónias africanas acabou por gerar estereótipos, instalar preconceitos e acentuar
mútuas desconfianças, sempre impeditivas dum indispensável diálogo que só en-
contra alguma normalidade após demoradas décadas terem ajudado a sarar fe-
ridas tão profundas e dolorosas. Não podemos esquecer ainda que, a par destes
compreensíveis ressentimentos, os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
(PALOP), nos anos subsequentes à independência, foram palco de graves convul-
sões internas, onde ocorreram golpes de estado (Guiné-Bissau, p. ex.), luta arma-
da (Timor) e guerras civis (Angola, Moçambique). Estes factos não foram alheios à
bipolarização que regulava a ordem mundial, então vigente, que não resistiria à
queda do Muro de Berlim (1989) nem à globalização avassaladora que progrediu
imparavelmente à medida que nos aproximávamos da viragem do milénio.
22 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O pano de fundo, sucintamente esboçado, importa levar em consideração


quando está em causa apreciar a evolução e os posicionamentos das Geografias
nos novos Países de Língua Portuguesa, sobretudo o processo de institucionaliza-
ção da Geografia no Ensino Superior destes países. As vicissitudes que passou e o
atual estado da arte da Geografia naqueles países não pode ser interpretado sem
perceber o modo como aconteceu a institucionalização em Portugal e no Brasil,
ao longo do século XX, nem a traumática colonização portuguesa e o doloroso
processo de descolonização vividos nos novos Países Africanos de Língua Oficial
Portuguesa.
O presente texto tem como propósito conhecer os caminhos trilhados pela
Geografia nestes países observados a partir da investigação realizada, no caso
vertente, no âmbito de alguns intercâmbios que envolveram, fundamentalmente,
algumas Universidades brasileiras, contextualização feita a partir dum conjunto
de artigos que foi possível reunir de entre a investigação realizada neste âmbito.
Continuamos convictos que é preciso superar o relativo desconhecimento
mútuo existente entre a comunidade de geógrafos dos PLP. Esbater este des-
conhecimento também passa por promover uma cooperação mais estreita entre
as Geografias do Brasil, de Portugal e dos restantes PLP através de diferentes
parcerias, redes e novos projetos de investigação, alargando a cooperação no
âmbito da formação e da investigação geográfica a Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e
Príncipe, Angola, Moçambique, Timor.

2. A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO ENSINO DA GEOGRAFIA


A existência de Cursos de Geografia em instituições do Ensino Superior é,
pois, “mais antiga” em Portugal e no Brasil, tendo sido criados apenas em Mo-
çambique, Angola e Cabo Verde, em momentos e por razões diferentes, pois na
Guiné-Bissau, em S. Tomé e Príncipe e em Timor Leste ainda não têm existência
formal. Esta situação decorre, como vimos, da espessura temporal, das vicissitu-
des históricas e dos contextos económicos e sociais de cada um dos novos Países
de Língua Portuguesa (PLP), fatores que determinaram a evolução dos diferentes
percursos e enquadramentos institucionais.
O Curso de Geografia acabou por ser institucionalizado, em 1969, em Moçam-
bique, ainda sob domínio português, na então, recém-criada Universidade de
Lourenço Marques (Decreto Lei nº 44530, de 20 de junho). A Universidade Eduar-
do Mondlane (UEM), que havia de suceder à Universidade de Lourenço Marques
(ULM), foi anunciada no ano seguinte a proclamação da independência do país
(25 de junho de 1975) por Samora Machel, em 1 de Maio de 1976. A partir desta
data abre-se um novo ciclo para a Geografia em Moçambique quando, alguns de
entre os primeiros estudantes moçambicanos que haviam concluído a formação
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
23
José Borzachiello, Rui Jacinto

em Geografia, na ULM, ao terminarem as respetivas licenciaturas, fazem os seus


doutoramentos no exterior e iniciam os percursos académicos na novel UEM. A
Universidade Pedagógica, que foi criada posteriormente (1985), vocacionada para
a formação de professores do ensino médio, também acabou por incluir no seu
portefólio um Curso de Geografia, existindo atualmente vários polos das duas Uni-
versidades em várias cidades de Moçambique (Jacinto et al. 2017).
A exemplo de Moçambique, também foi criada em Angola, em 1969, a Universi-
dade de Luanda, corolário do desenvolvimento dos Estudos Gerais Universitários
de Angola e Moçambique, instituições que adquiriram o estatuto de universidades
por força do Decreto-Lei nº 48.790, adotando as designações de Universidade de
Luanda e Universidade de Lourenço Marques (actual Maputo). No caso de Ango-
la foram então criadas licenciaturas em Matemáticas Puras e Aplicadas, Física,
Química, Geologia e Biologia, que se juntam às de Medicina, Engenharia Civil, de
Minas, Mecânica, Eletrotécnica e Químico-Industrial, ministrados em Luanda. Em
Huíla onde funcionavam já os cursos de Ciências Pedagógicas e a Formação de
Professores do 8º e 11º grupos do Ensino Técnico, passaram a ser ministradas tam-
bém as licenciaturas em História, Geografia e Filologia Romana (https://www.uan.
ao/historia/). Na província da Huíla criam-se os cursos superiores de Pedagogia,
Letras e Geografia, sendo os candidatos a esta licenciatura, no essencial, prove-
nientes das Escolas de Formação de Professores e dos Magistérios Primários, que
têm a Geografia como "curso" ou Unidade Curricular, dentro de outra opção de
ensino.
Em Cabo Verde o Curso de Geografia acabaria por se iniciar em 2006, no mes-
mo ano em que foi instituída a Universidade de Cabo Verde (UNICV). A Universi-
dade de Cabo Verde teve como embrião o Curso de Formação de Professores do
Ensino Secundário (CFPES), instituído em 1979 sob a direção de Maria Luísa Ferro
Ribeiro, evoluindo em 1996 para Instituto Superior da Educação (ISE) e, posterior-
mente, para Universidade (Jacinto et al. 2017).
Não é despiciendo para a afirmação e maior visibilidade da Geografia em
Moçambique e em Cabo Verde ae levada posição institucional que alcançaram
alguns geógrafos e geógrafas naqueles países, tanto na organização do sistema
de Ensino Superior como na proximidade ao poder politico que emergiu após a
independência. Falamos concretamente de Aniceto dos Muchangos, em Moçam-
bique, e Maria Luísa Ferro Ribeiro, em Cabo Verde. Aniceto dos Muchangos, que
havia iniciado a sua formação em Geografia antes da independência, foi dos pri-
meiros moçambicanos a concluir a Licenciatura em Geografia na UEM, o primeiro
Doutor em Geografia do país (1989) e, posteriormente, Ministro da Educação de
Moçambique (1989-1994). Maria Luísa Ferro Ribeiro, que foi a primeira geografa
do arquipélago, concluiu a licenciatura em Geografia na Universidade de Coimbra
(1961), foia primeira Diretora do Curso de Formação de Professores do Ensino
Secundário, Instituto onde haviam de ensinar tanto José Maria Semedo como
24 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Maria Judite do Nascimento, igualmente geógrafos, sendo esta última atualmente


Reitora da UniCV.

3. A INVESTIGAÇÃO EM GEOGRAFIA
A evolução institucional da Geografia varia, como vimos, nos diferentesPaíses
de Língua Portuguesa, onde se somam a fatores já evocados os que são intrínse-
cos e específicos de cada país, sobretudo nos PALOP, onde a exposição e depen-
dência externa foi em dado momento mais efetiva. A geografia das Geografias
dos novos Países de Língua Portuguesa (PLP) aponta um quadro onde é evidente
a desigual maturidade científica e institucional indissociável de especificidades,
espessuras temporais e trajetórias sociopolíticas de cada país.
Há uma notória desigualdade espacial na oferta formativa em Geografia que
decorre das profundas assimetrias da organização do território, da forte polari-
zação da rede urbana e duma vincada litoralização. É ainda digno de registo a
forte influência que teve a Geografia brasileira passou a ter naqueles países, no
passado mais recente, suplantando o vínculo antigo existente com a Geografia
Portuguesa, tanto no período anterior como no imediato às independências. Esta
tendência é particularmente evidente no caso de Moçambique, onde a escassa
investigação realizada 2006 e 2016, a avaliar pelo número de teses de doutora-
mento produzidas, mostra que das 14 que foram concluídas por geógrafos mo-
çambicanos, 7 foram apresentadas no Brasil e apenas 1 em Portugal. Os trabalhos
incluídos neste número da Revista, ao apontarem igualmente neste sentido, espe-
lham com veemência a realidade da investigação geográfica feita nos PALOP ter
ainda uma expressão relativa em termos quantitativos.
Estamos a viver um momento excecional, num contexto da pandemia do Co-
vid-19, o novo coronavírus, grave doença infeciosa que parou o mundo e ocupa
horas e horas do noticiário da imprensa e das redes sociais. Com nefastas con-
sequências nos diferentes territórios e segmentos sociais a doença se propagou
mundo afora impondo profunda alteração no cotidiano dos povos com as medi-
das de isolamento e distanciamento social. A pandemia provocou uma freada na
economia global com forte redução dos PIB de diferentes países e acentuadas
taxas de desemprego. Esse contexto alterou, sobremaneira, o quadro anterior
marcado pela intensificação da globalização e a emergência dos BRIC’s alterou as
relações geopolíticas e obrigou os Estados a reverem a posição que vinham ocu-
pando no novo xadrez internacional para responderem aqueles novos desafios.
A alteração do equilíbrio Norte-Sul foi acompanhada dum novo cenário polí-
2
tico que emergiu na América Latina, particularmente no Brasil , facto que levou

2
Nesse contexto o Brasil assumia um protagonismo mundial que foi perdido desde o impeachment da
Presidente Dilma Rousseff (2011/ 2016).
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
25
José Borzachiello, Rui Jacinto

3
este país a fazer uma aposta forte no relacionamento Sul-Sul . As antigas colónias
portuguesas, sobretudo Angola e Moçambique, passam a ocupar um lugar central
4
nesta nova abordagem , desencadeando o Brasil algumas iniciativas pró-ativas e
5
a CPLP a alterar a sua agenda. ACPLP, organização criada no governo de Fernan-
do Henrique Cardoso (1 de janeiro de 1995 – 1 de janeiro de 2003),conhece novos
desenvolvimentos no decurso do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (1 de janeiro
de 2003 – 1 de janeiro de 2011), com amplas repercussões tanto no relacionamen-
to entre as Geografias de Portugal e do Brasil, com intercâmbios apoiados pelo
Programa Ciência sem Fronteiras e projetos apoiados por instituições de fomento
(CAPES, CNPq, etc.), como no apoio direto à investigação e ao desenvolvimento
da Geografia dos PALOP.
É à luz de todo isto e do realinhamento do Brasil para um diálogo mais estrei-
to Sul-Sul, em particular com os PALOP, que devemos enquadrar tanto a relação
entre as Geografias brasileira e portuguesa, mais antigas, como a cooperação e
o apoio à investigação geográfica de Portugal e do Brasil nos restantes Países de
Língua Portuguesa (PLP), através de apoio a múltiplos projetos, estabelecimento
de várias parcerias e redes de investigação. Merece ainda destacar a criação de
duas Universidades, orientadas para dois universos regionais, assumidos como
estratégicos pelo Brasil: (i) Universidade Federal da Integração Latino-Americana

3
É referido num trabalho que “a aproximação do Brasil com o continente africano tem se apresentado como
um eixo importante das relações exteriores brasileiras. Alguns críticos, em uma avaliação superficial, definem
a estratégia brasileira como paradoxal na medida em que o país estaria fomentando esforços diplomáticos
em direção a países mais pobres, com pouca influência no contexto geopolítico global e peso ainda mais
baixo na balança comercial brasileira. No entanto, é preciso avaliar algumas tendências políticas e econô-
micas aceleradas pelo aprofundamento e alargamento do processo de globalização. Cabe observar que o
Brasil começa a tornar-se exportador de capital e tecnologia, além de um tradicional (e agora competitivo)
exportador de produtos primários, serviços e manufaturas. A África, nesse sentido, é uma das regiões mais
adequadas aos investimentos das empresas brasileiras, ainda que o continente seja marcado por alguns
regimes instáveis, conflitos armados e outras formas de violência, problemas sanitários significativos e
pobreza. Por um lado, é uma das poucas fronteiras naturais ainda abertas para a expansão dos negócios
em setores como o petróleo, gás e mineração. Por outro lado, é palco de uma disputa global por acesso a
matérias-primas cada vez mais escassas e demandadas” (Pereira, Analúcia Danilevicz, Barbosa Luísa Calvete
Portela (2012) - O Atlântico Sul no contexto das relações Brasil-África. Século XXI, Porto Alegre, V. 3, Nº1,
Jan-Jun 2012, 63).
4
“Nas últimas décadas, pode-se lembrar o vínculo mais estreito, por exemplo, do Brasil com Portugal no governo
de Juscelino Kubitschek de Oliveira e, em outras ocasiões, com Jânio da Silva Quadros ou Humberto de Alencar
Castelo Branco, quando se aventou a possibilidade de formação de uma comunidade luso-afro-brasileira. No
governo de Ernesto Geisel, o reconhecimento de Angola e Moçambique em 1975 foi sinal de aproximação
com esses países, sob a ótica do pragmatismo responsável. Outros momentos parecidos aconteceram com
José Sarney e Itamar Franco antes de ser firmada a carta de criação da CPLP sob o mandato de Fernando
Henrique Cardoso” (Shiguenoli Miyamoto (2009) - O Brasil e a comunidade dos países de língua portuguesa
(CPLP). Revista Brasileira de Política Internacional 52(2)).
5
“Na última semana de setembro de2008 foi firmado pelo Brasil o acordo ortográfico, que uniformiza o uso
da linguagem entre os países de língua portuguesa. Quase ao mesmo tempo, poucos dias depois, a maior
companhia brasileira, a Petrobrás, perdeu a concorrência para a Marathon Oil na exploração de petróleo em
Angola. Em meados de outubro, em viagem a Moçambique, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva queixou-se
de que um projeto para construção de uma fábrica de remédios contra Aids/Sida, prometida desde 2003,
ainda não estava em execução” (idem).
26 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(UNILA), que começou a ser estruturada em 2007com a criação do Instituto Mer-


cosul de Estudos Avançados (IMEA), instituída pela Portaria nº 43 de 17 de janeiro
de 2008, em convênio com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Itaipu
Binacional; (ii) Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasi-
leira (UNILAB), criada em outubro 2008, com base em princípios de cooperação
solidária, destinada a promover a “parceria com outros países, principalmente afri-
canos”.
A criação da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasi-
leira (Unilab) acabaria por consolidar a relação Sul-Sul experimentada pelo Brasil.
Sediada na cidade de Redenção, no estado do Ceará, é a primeira universidade
federal no Brasil a servir exclusivamente ao intercâmbio social e cultural de países
da CPLP, a Comunidade dos Países da Língua Portuguesa. Instalada em 2010, a
instituição recebe estudantes de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Ver-
de, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Portugal. No entanto, embora todos os
membros da Lusofonia – países que tem o português como língua comum – es-
tejam inseridos na proposta, a Unilab é produto de ações que buscam reforçar a
relação com os países africanos. No estado da Bahia, a Unilab está presente no
município de São Francisco do Conde onde possui o Campus II.
Os reflexos destas (re)orientações foram muito fortes e evidentes entre o
Brasil e Moçambique, tanto ao nível do desenvolvimento da investigação geo-
gráfica como doutros projeto de grande escala, que apontam para um modelo
territorial desenvolvimentista que se aproxima do que tem vindo a ser imple-
mentado no Brasil: exploração de recursos minerais, extração de gás e petró-
leo e fomento do agro-negócio. É paradigmático o que foi referido pelo então
presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, numa aula magna realizada em
Maputo-Moçambique, coincidindo precisamente com a sua ultima visita de es-
tado a um país estrangeiro: “Nenhum tema é tão capaz de unir e transformar
um país quanto a educação”.
Importa assinalar que se começou a implantar na savana do norte de Moçam-
bique, por esta altura, o Prosavana, replica africana do Programa de Cooperação
Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados (PRODECER). A deslocaliza-
ção para outras longitudes dum programa já envolto em polémicas correspondeu,
na prática, a exportar entre as suas consequências nefastas a penalizante dester-
ritorialização das populações autóctones. Importa ter presente que o Programa
de Cooperação Nipo-Brasileira para o Desenvolvimento dos Cerrados “teve início
em um comunicado conjunto assinado pelo primeiro-ministro japonês Kakuei Ta-
naka, e pelo então Presidente do Brasil Ernesto Geisel, em setembro de 1974,
que estabelecia a relação entre os dois países sobre o desenvolvimento agrícola.
Os objetivos principais do programa foram: estimular o aumento da produção de
alimentos; contribuir para o desenvolvimento regional do país; aumentar a oferta
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
27
José Borzachiello, Rui Jacinto

de alimentos no mundo; desenvolver a região do Cerrado. Tudo isso com a parti-


6
cipação dos governos e do setor privado de ambos os países” .
Passou a circular a informação que “o projeto ProSavana está sendo realizado
a partir da cooperação trilateral entre os governos do Brasil, Japão e Moçambi-
que. Seu objetivo é desenvolver a produção do term paper servisse setor rural
através do incremento da capacidade de pesquisa e extensão rural e a realização
de investimentos em energia, armazéns e transportes. Para atingir tais objetivos,
o projeto irá fortalecer a capacidade e inovação técnica em áreas estratégicas
para o desenvolvimento agrícola e rural, além de melhorar a competitividade do
setor em matéria de segurança alimentar e de geração de excedentes exportá-
veis. Os projetos implementados no quadro do ProSavana são coordenados de
forma harmoniosa e integrada pelo Ministério da Agricultura de Moçambique (MI-
NAG), pela Agência Japonesa de Cooperação Internacional (JICA) e pela Agên-
cia Brasileira de Cooperação (ABC). O projeto é desenvolvido de acordo com
as mesmas técnicas utilizadas no programa PRODECER, que teve como intuito o
cultivo agrícola no cerrado brasileiro. O que permite isso é a grande semelhança
da savana africana com o cerrado brasileiro, pelo fato de ambos serem regiões de
7
índice pluviométrico muito baixo” .
A informação disponível mostra que o Brasil teve uma politica mais ativa e
consequência na relação com África, sob o chapéu dum diálogo Sul-Sul, traduzida
na prática na criação duma universidade especifica para este mercado, em solo
brasileiro, e no apoio direto à investigação, através de bolsas de estudo, financia-
da pelas suas instituições de fomento. A geografia, a investigação geográfica e
muitos jovens geógrafos dos PALOP acabariam por beneficiar desta politica. Con-
tudo, fica sempre a incerteza se a cooperação, por mais útil e bem-intencionado
que seja o discurso, não corresponde a outra maneira, mais subtil e eficaz, de
fazer diplomacia económica.

4. REMATE: CONSTRUINDO UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS


A geografia é a ciência voltada ao estudo da relação entre a sociedade e a
natureza a partir do espaço geográfico considerado como produto das relações
sociais. Analisa o movimento da sociedade na superfície terrestre no contínuo
processo de produção e reprodução do espaço geográfico. Identificar a expansão
da geografia enquanto ciência em diferentes formas de intercâmbio, acordos e
tratados conduziram-nos à seleção de textos que compõem parte dessa edição
da Revista Iberografias. Essa identificação resultou no convite de vários profissio-

6
http://www.campo.com.br/proceder/
7
http://www.cciabm.com/informacoes/projeto-prosavana
28 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

nais que produzem a geografia em língua portuguesa considerando a importância


e significado que ela adquire na condição de ser uma das línguas mais faladas no
mundo.
Importa ter presente, pelas consequências para investigação geográfica, a di-
versidade territorial dos PALOP, fundamental para explicar as Novas Geografias
dos Países de Língua Portuguesa. A variedade de contextos naturais, económicos,
sociais, culturais e políticos que os Países de Língua Portuguesa apresentam rele-
vam das localizações e dos respetivos enquadramentos na América do Sul, África
e Europa. Esta comunidade de países, que se dispersa por diferentes continentes,
configura ricas e complexas geografias que, embora unidas pela língua, são bas-
tante contrastadas, albergando 250 milhões de falantes que fazem do português
a língua mais falada no hemisfério sul e a quinta a nível mundial.
A posição (geo)estratégica que ocupa a nível global aliada aos quadros natu-
rais particulares e a contextos geográficos marcados por assimetrias territoriais
e dinâmicas de desenvolvimento desiguais potenciam processos de integração
regional bastante complexos. Emergem daqui problemáticas que proporcionaram
estimulantes reflexões sobre escalas territoriais (local, regional e nacional; pequenos
estados, etc.), temas económicos e sociais ou, mesmo, como o urbano e rural se
revela nos diversos contextos espaciais. Os geógrafos dos países lusófonos não
podem ser indiferentes nem ficar alheios a uma realidade geográfica tão expres-
siva, ampla e complexa, seja pelo prisma da dimensão e diversidade das suas
geografias, demografia, economia, etc., pelos fluxos de pessoas, bens e ideias
que geram ou pela posição (geo)política que ocupam no mapa do mundo.
A comunidade geográfica não pode ignorar ainda os desafios que daqui ema-
nam nem ficar indiferente ao envolvimento, nas últimas décadas, de atores polí-
ticos, empresas e cidadãos, do incremento de fluxos de pessoas, bens e capitais
entre os diferentes países lusófonos, fluxos que foram mudando de sentido e in-
tensidade ao sabor de conjunturas, circunstâncias e melhores oportunidades que
cada um dos países foi proporcionando. As intensas e profundas transformações
globais, nacionais e locais que estão a mudar a Geografia dos Países de Língua
Portuguesa (PLP’s) reclamam um forte empenho dos geógrafos, em termos teóri-
cos, metodológicos e operativos, no sentido de formularem leituras e interpreta-
ções mais rigorosas, mas também propostas mais assertivas para os processos de
reestruturação dos territórios que se verificam nos diferentes países.
As perspetivas de desenvolvimento da investigação geográfica, tanto no conjun-
to dos países que integram a CPLP como os novos Países de Língua Portuguesa (PLP)
deve valorizar dois aspetos na sua reflexão: (i) a realidade diversa e plural que o
conjunto dos Países de Língua Portuguesa encerram constitui um espaço de bas-
tante interesse para a investigação geográfica, riqueza que decorre da dimensão
GEOGRAFICIDADES LUSÓFONAS. CAMINHOS PARA UM DIÁLOGO ENTRE MARGENS
29
José Borzachiello, Rui Jacinto

territorial, da dispersão por vários continentes, da diversidade regional e da plu-


ralidade cultural; (ii) importância da cooperação bilateral entre os Estados para o
desenvolvimento da investigação geográfica nos Países de Língua Portuguesa.
Os Países de Língua Portuguesa (CPLP) é formada por cerca de 250 milhões
de pessoas que vivem em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambi-
que, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste que têm a língua portuguesa
como o principal veículo de comunicação. Os artigos selecionados são revelado-
res do modo de pensar e fazer a geografia em diferentes contextos dos países
de língua portuguesa. Portugal divulgou teorias e metodologias geográficas que
permitiram o avanço e atualização das novas abordagens elaboradas interna-
mente e nos demais países integrantes de sua malha colonial. O Brasil, conside-
rando sua dimensão continental e a multiplicidade de territórios contidos em seu
espaço geográfico desenvolveu uma geografia rica e variada sempre em cone-
xão com o desenvolvimento teórico-metodológico que se dava noutros países.
Seus mais de 208 milhões de habitantes e sua estrutura universitária e continuo
aumento do número de professores e alunos permitiram firmar intercâmbio com
países de vários continentes e em particular, com os da África, considerando as
facilidades do processo de comunicação e o avanço das políticas públicas de
relações exteriores.
Foi nesse contexto de acordos bilaterais que o Brasil intensificou o contato
com instituições de ensino superior em países africanos e o Timor Leste. Portugal
por sua vez, continuou dispondo de sua larga experiência no estabelecimento dos
contatos acadêmicos considerando a vasta expertise dos profissionais portugue-
ses em estudos e análises de realidades espaciais de países falantes de língua
portuguesa. Livros e artigos são lançados ampliando o processo de divulgação
de leituras pertinentes sobre os diferentes países. Nesse número da Revista Ibe-
rografias estão disponibilizados artigos que expressam múltiplas perspetivas de
abordagens de pesquisadores integrantes de países membros da CPLP. Na ver-
dade, abre-se um leque variado de temas que certamente atrairá a atenção do
público leitor.
A oportunidade é excelente para divulgação de textos geográficos produzidos
de forma individual ou em parceria com autores portugueses ou brasileiros. Com
esses artigos preocupamo-nos em abrir caminhos para um diálogo entre margens.
Leiam os artigos, discutam e encaminhem suas sugestões para os organizadores.
Boa leitura!

Nota: o texto retoma e, pontualmente, coincide em algumas passagens de artigos que


se adiantam como referências.
30 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

REFERÊNCIAS
SPOSITO, Eliseu Savério, LANGA, José Maria do Rosário Chilaúle, JACINTO, Rui
(2017). Institucionalização, ensino e investigação da Geografia em Moçambi-
que. Iberografias, Nº 13 (CEI, Guarda): 71-99.
José Borzachiello da Silva (2012). França e a Escola Brasileira de Geografia: verso
e reverso. UFC, Fortaleza.
JACINTO, Rui (2020). As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: um
lento devir. In As Novas Geografias dos Países de Língua Portuguesa: Coope-
ração e Desenvolvimento. Coleção Iberografias 38, Guarda, CEI- Ancora, pp.
7-21.
JACINTO, Rui (Coord.) (2015). Nós Terra, Nós Geografia: Contributos para uma
Geografia de Cabo Verde. Iberografias, Nº 11 (CEI, Guarda), pp. 181-224. Em
particular os seguintes textos de Rui Jacinto (2015): (i) Cabo Verde segun-
do Maria Luísa Ferro Ribeiro: território e sociedade (pp. 181-193); (ii) Cabo
Verde: uma incompleta bibliografia geográfica (pp. 194-199); (iii) Si kabadu,
katabiradu: Maria Luísa Ferro Ribeiro, a primeira geógrafa de Cabo Verde,
pp. 203-207.
JACINTO, Rui; CUNHA, Lúcio (2017). Geografia de Moçambique: um olhar a partir da
Geografia portuguesa. Iberografias, Nº 13 (CEI, Guarda), pp. 49-70.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE:
APONTAMENTO SOBRE AS SUAS
GEOGRAFIAS
RUI JACINTO*
MARIA LUÍSA FERRO RIBEIRO**

1. O NOME E O LUGAR: TOPONÍMIA, “LUGARIZAÇÃO”,


GEOGRAFICIDADE
A toponímia ajuda a compreender a ocupação do território, o espírito dos lu-
gares e as vivências que resultam duma geografia de proximidade (JACINTO 2016),
ponto de vista que acompanha a ideia que “o «espaço vivido», em toda a sua
espessura e complexidade, aparece como o revelador das realidades regionais;
estas têm certamente componentes administrativas, históricas, ecológicas, eco-
nómicas, mas também, e mais profundamente, psicológicas. A região não é pois
um objecto com realidade em si, tal como o geógrafo ou qualquer outro especia-
lista não são analistas objectivos de um universo como que exterior ao próprio
observador, do mesmo modo que a psicologia dos homens se não poderia reduzir
a uma racionalidade dos interesses económicos ou das adaptações ecológicas”
(FREMONT 1980 [1976], 17).
A onomástica, ramo da lexicologia que estuda a origem dos nomes próprios,
tem na toponímia um eixo de investigação importante, que se dedica ao estudo
dos nomes dos lugares. Enquanto desmultiplicações da onomástica e tendo como
foco o estudo do nome dos lugares, da sua origem, das suas ligações com a língua
falada atualmente ou com línguas desaparecidas, a toponímia assume diferentes
designações consoante as matérias especificas eleitas como núcleo central do
presente trabalho. Entre os relacionados mais diretamente com as matérias que
vamos apreciar estão os nomes relacionados com o povoamento e a ocupação do
solo, tanto na vertente física como humana, onde se destaca: nesónimo (nome da
ilha), antropotopónimo (nome do lugar formado pelo nome de uma pessoa), neo-
topónimo (nome do local de criação recente), corónimo (nome do lugar ou região
resultante de uma característica geográfica física ou particularidade ambiental),

*
Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT) [rjacintomm@gmail.com].
**
Geografa. Ex-Diretora da do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação.
32 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

hidrónimos (nomes de rios e outros cursos de água), limnónimos (nomes de lagos,


lagoas, etc.), talassónimos (nomes de mares e oceanos), orónimos (nomes dos
1
montes e outros relevos) ou polionónimo (nome da cidade ou aglomeração) .
Os nomes dos lugares podem ainda ser classificados conforme a composição
lexical, como (i) topónimos simples, quando não necessitam complementos para
sua compreensão (p. ex.: Praia, Lisboa, etc.), (ii) topónimos complexos, se pos-
suem dois ou mais elementos (Porto Novo, Pará de Minas, Freixo de Cima, etc.) ou
(iii) topónimos compostos, se “formados a partir de dois elementos originalmente
independentes fundidos (ou justapostos) numa só unidade de conteúdo (Porta-
legre, Budapeste, Alcobaça). O lugar, independentemente do nome que lhe foi
atribuído, por força das especificidades que o caracterizam e do espírito que dele
emana, encerra sempre uma dimensão intangível que não dispensa uma tradução
palpável nem se resumem a simples sinais ou placas toponímicas que o identifi-
que, como marcos fronteiriços colocados nos caminhos ou nas ruas da cidade
para delimitar fisicamente os respetivos territórios.
O conceito e o significado de lugar têm suscitado acalorados debates no seio
da Geografia repartidos entre os que afirmam a sua importância, os que augu-
ram o fim dos lugares, como dos territórios e das regiões, ou, mesmo, os que
sem os negarem, perante a uniformização ditada pela modernidade, apregoam
2
a emergência de “não-lugares” . São de reter as palavras de Rogério Haesbaert
a propósito desta discussão: lugar, para este autor, “além de envolver caracte-
rísticas mais subjetivas, na relação dos homens com seu espaço, em geral im-
plica também processos de identificação, relações de identidade”. Depois de
comentar a perspetiva do sociólogo Manuel Castells, que “distingue espaço de
fluxos e espaço de lugares”, definindo-os como “um local cuja forma, função
e significado são independentes dentro das fronteiras da contigüidade física",
detém-se na do antropólogo Marc Augé (1992), para quem o lugar é “possuidor
de três características comuns: são identitários, relacionais e históricos”. Definido

1
A onomástica dos lugares pode remeter ainda para: ornitónimo (nome de local derivado de pássaros); alónimo
(nome que designando simultaneamente o mesmo lugar, de que serve de exemplo Bizâncio, Constantinopla
e Istambul); hagiotopónimo (nome do lugar relacionado à santidade); odónimo (nome de uma via de comu-
nicação); espeleolónimo (nome da caverna); macrotopónimo (nome do povoado, município, freguesia, zona
ocupada ou habitada); microtopónimo (nome da localidade, lacuna habitada ou não habitada, geralmente
uma parcela cadastral ou um distrito); etc.
2
Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade: “O lugar e o não-lugar são antes pola-
ridades fugidias: o primeiro nunca é completamente apagado e o segundo nunca se consuma totalmente
– palimpsestos nos quais se reinscreve sem cessar o jogo misto da identidade e da relação. Os não-lugares
são todavia a medida da época; medida quantificável e que poderíamos tomar adicionando, ao preço de
algumas conversões entre superfície, volume e distância, as vias aéreas, ferroviárias, das autoestradas e os
habitáculos móveis ditos "meios de transporte” (aviões, comboios, autocarros), os aeroportos, as gares e as
estações aeroespaciais, as grandes cadeias de hotéis, os parques de recreio, e as grandes superfícies da
distribuição, a meada complexa, enfim, das redes de cabos ou sem fios que mobilizam o espaço extra-terrestre
em benefício de uma comunicação tão estranha que muitas vezes mais não faz do que pôr o individuo em
contacto com uma outra imagem de si próprio” (MARC AUGÉ 19925, 68).
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
33
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

por uma "estabilidade mínima", o lugar nunca aparece, entretanto, numa “for-
ma pura", conjugando-se com aqueles espaços não-identitários, não-relacio-
nais e não-históricos a que Augé denomina, polemicamente, de "não-lugares"”
(HAESBAERT 2002, 138). Aborda a perspetiva do geógrafo Yu Fu Tuan que pen-
sa no espaço como algo que permite movimento, enquanto o lugar é pausa,
para quem o “lugar é um espaço dotado de valor”, contraponto da releitura
do “lugar” feita por outros, como Doreen Massey, que vê a “sua vinculação
cada vez mais indissociável com os processos da globalização”, como "um lu-
gar-encontro, o local de interseções de um conjunto particular de atividades
espaciais, de conexões e inter-relações, de influências e movimentos”. Ao dis-
cutir as relações local-global acaba por propor “uma interpretação alternativa
de lugar", “não como lugar de uma longa herança histórica e identitária, mas
um lugar de relações (encontros) e múltiplas identidades”. Haesbaert conclui
que “a emergência dos “não-lugares" tão alardeada por Marc Augé, tal como
o fim dos territórios ou o discurso da desterritorialização, acaba, de qualquer
forma, sendo bastante relativizados. Primeiro, porque os "lugares" não estão
simplesmente perdendo identidade, relações, história. Tal como em relação à
territorialidade, cada vez mais múltipla, eles muitas vezes estão se redefinindo
pela multiplicidade de identidades, relações e histórias que passam a incorpo-
rar” (HAESBAERT 2002, 139).
Mais recentemente, este mesmo autor reconhece, em outro ensaio a propósi-
to de viagens, que “o lugar é criador de conexões, afetividades, identidades, em
suma, diferenças. É como se, muito mais do que controlarmos concretamente um
espaço, primeiro, em plena interação connosco, o próprio espaço nos convocasse
a habitá-lo, convidando-nos a realizar nossa vida pelo aprofundamento dos elos
afetivos vividos, transformando-se o espaço, para nós, efetivamente, num lugar.
E a partir daí se desdobram diferentes processos que, num neologismo, pode-
mos denominar de "lugarização”. Na combinação com o território, alguns lugares
são mais ou menos territorializados, mais ou menos capazes de nos empoderar”
(HAESBAERT 2017).
O significado e o sentido de pertença aos lugares com os quais se estabelece
alguma identificação acaba por variar com o espaço e o tempo, como acontece,
aliás, com a identidade territorial, que se define, fundamentalmente, “dentro de
uma relação de apropriação que se dá tanto no campo das ideias quanto no
da realidade concreta, o espaço geográfico constituindo assim parte fundamen-
tal dos processos de identificação social”. O autor reforça esta ideia com uma
transcrição de Stuart Hall para quem “todas as identidades estão localizadas no
tempo e no espaço simbólicos. Elas têm aquilo que Edward Saïd chama de suas
“geografias imaginárias”: suas “paisagens” características, seu senso de "lugar”,
de casa/lar, de heimat, bem como suas localizações no tempo – nas tradições
inventadas”. Por isso, “uma das características mais importantes da identidade
34 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

territorial, correspondendo ao mesmo tempo a uma característica geral da identi-


dade, é que ela recorre à uma dimensão histórica, do imaginário social, de modo
que o espaço que serve de referência "condense” a memória do grupo, tal como
ocorre deliberadamente nos chamados monumentos históricos nacionais. A (re)
construção imaginária da identidade envolve portanto uma escolha, entre múlti-
plos eventos e lugares do passado, daqueles capazes de fazer sentido na atuali-
dade” (HAESBAERT 1999, 172; 179; 180).
Estas referências, tantas vezes simbólicas, não só conferem um forte sentido
de pertença e profundo significado ao lugar como os carrega duma topofilia trans-
cendente. Este apelo não pode ser desligado do nome com que foram batizados,
tatuagem indelével que se perpetua na memória do tempo e que concentra in-
formação que importa desvendar para compreendermos os seus padrinhos, isto
é, os homens e os contextos, naturais e humanos, que os levaram a optar por tal
designação. Neste sentido, estudar o nome dos lugares, onde se projeta a vivên-
cia dum local específico carregado de afetos geradores de vínculos e dum eleva-
do sentimento de pertença, constitui uma maneira de explorar a relação entre a
toponímia e a Geografia. Para alguns, “ainda que o significado original do signo
toponímico não seja transparente, o nome permanece; embora haja “ausência do
motivo determinante ou concorrente de sua formação”, de modo que o nome, na
qualidade de topônimo, pode ser interpretado como um “verdadeiro fóssil linguís-
tico”. Os que consideram os topónimos como um elemento com característica fos-
silizada reconhecem, contudo, que são “fonte de conhecimento histórico, cultural
e social”, sobretudo do “grupo que habitou o sítio, seja de caráter temporário ou
permanente” (Carla Bastiani et al, 2018).
Os estudos pioneiros sobre toponímia feitos pela Geografia remonta à fase
inicial da sua história, às primeiras décadas do século XX, quando esta ciência
dava os primeiros passos, apostados na explicação da relação entre o homem e
o meio, inspirados no pensamento do seu principal mentor: “Em todo o caso, as
causas físicas, cuja importância os geógrafos se tinham anteriormente esforçado
por sublinhar, não devem por isso ser desprezadas; importa sempre assinalar a
influência do relevo, do clima, da posição continental ou insular sobre as socieda-
des humanas; mas devemos encarar os seus efeitos no homem no conjunto dos
seres vivos, simultaneamente. E assim que melhor poderemos apreciar a parte
que convém atribuir ao homem como factor geográfico. Ele é, ao mesmo tempo,
activo e passivo – pois, segundo a sentença bem conhecida, “natura non vincitur
3
nisi parendo” (Não se vence a natureza senão obedecendo-lhe)” .
Estes princípios orientaram alguns estudos precursores em Portugal sobre
este tema, feitos por Herman Lautensach e Orlando Ribeiro (cf. Por ex.: Geografia
de Portugal, vol III, editada por Suzanne Daveau), que não deixou continuadores,

3
Vidal de la Blache (1954 [1922]) – Princípios de Geografia humana. Edições Cosmos, Lisboa: 41.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
35
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro RibeiroCélia Gonçalves

sobretudo desde que nos anos 70 se desenvolveu a geografia cultural inspirada


pela geografia humanista. Não se valorizaram os conselhos de quem considera-
va que “para avançar no conhecimento da relação dos homens com os lugares
que constituem a região, e que parecem de facto ser o objecto fundamental da
geografia, já não basta acrescentar um conceito aos outros como factor principal
da discriminação: é a perspectiva de estudo que se deve modificar. (…) Mas será
preciso admitir que, se se considerar a estrutura da região como um sistema par-
ticular de relações unindo homens e lugares – num espaço específico, e que a
geografia é o estudo dessas relações, a luz deve ser dirigida precisamente para
estas” (FREMONT 1976, 1980).
A relação do homem com o mundo e a mundividência onde vai mergulhando
acaba plasmada, duma ou doutra maneira, no nome dos lugares. A toponímia,
por esta razão, deve merecer a nossa atenção, sobretudo em Cabo Verde, onde
a configuração arquipelágica acentuou a tensão entre a terra e o mar, vincando
4
a insularidade e demais vicissitudes geográficas, históricas, culturais e, mesmo,
políticas. O posicionamento (geo)estratégico, a descontinuidade territorial a insu-
laridade, ao ditarem o peculiar processo de colonização moldando e a adaptação
do homem a um meio tão agreste e adverso, influenciaram decisivamente a sin-
gular Geografia de Cabo Verde. Semelhante realidade acaba por determinar a
relação umbilical do cabo-verdiano com a terra, a proximidade e o vínculo com o
lugar. Apesar do significado de lugar se ter alterado, em Cabo Verde e no Mundo,
ele ocupa um espaço impar no imaginário cabo-verdiano, que o vive ainda com
maior intensidade quando dele se ausenta. Se “o regresso ao lugar é o recurso
de quem frequenta os não-lugares (e sonha por exemplo com uma residência
secundária enraizada nas profundidades de um solo natal” (MARC AUGÉ 1995, 90),
sonho que persegue todo o emigrante das ilhas, Eugénio Tavares acaba por sinte-
tizar a apego ao lugar no verso "Si ka badu, ka ta biradu", a maneira mais poética
de dizer que para voltar [ao lugar] tem de partir.
O repositório de referências e de memórias escondidas pela toponímia de
Cabo Verde, a explorar neste ensaio, ficaram incorporadas, desde logo, no pró-
prio nome do arquipélago. O batismo das ilhas, dos lugares e das unidades ad-
ministrativas, designadamente dos concelhos e das freguesias, inicia-se com o
“achamento” e posterior colonização. A peculiaridade do arquipélago também

4
Jean Brunhes, na sua Geografia Humana (1962 [1956]), já nos alertava para estas situações: “Por meio de
um estudo minucioso mais cômodo dos pequenos conjuntos, poderemos e deveremos acostumar-nos a
determinar as conexões estritamente geográficas entre os fatos naturais e os destinos humanos. E, dentre
os pontos do nosso planeta habitado que se apresentam bastante isolados de modo a constituir unidades
separadas e, por isso mesmo, mais simples, quatro tipos de pequenos mundos geográficos, quatro tipos de
ilhas ou ilhotas de humanidade parecem predestinados à nossa observação. Tenho em mente: as ilhas do
mar; os oásis, que são as ilhas humanas do deserto; as ilhas humanas ou oásis povoados da grande floresta
boreal ou equatorial; e os altos vales fechados das regiões montanhosas, que são ainda ilhas humanas ou
oásis isolados nas grandes altitudes”.
36 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

ficou espelhada nos nomes dos lugares, dos habitados ao mais simples acidente
geográfico, que captam e ressaltam certas especificidades ou, noutros casos, o
espírito que deles emana. A partir destes pressupostos e do nome dos lugares
que constam do Recenseamento Geral da População de 2010 adiantam-se consi-
derações sobre a geograficidade cabo-verdiana que representam mais um contri-
buto para (re)interpretar a Geografia de Cabo Verde.

2. CABO VERDE: DO BATISMO DOS LUGARES À REGULA-


ÇÃO DA TOPONÍMIA
Quando o descobridor chegou à primeira ilha / nem homens nus / nem mulhe-
res nuas / espreitando / inocentes e medrosos / detrás da vegetação. // Nem
setas venenosas vindas do ar / nem gritos de alarme e de guerra / ecoando
pelos montes (Prelúdio, Jorge Barbosa)

2.1. O ACHAMENTO DAS ILHAS SEM NOME: COLONIZAÇÃO E BATISMO


DOS LUGARES

Num outro contexto e com outro propósito foi escrito que “o homem havia
de vir pelas caravelas portuguesas veiculadas pela energia do mesmo alisado de
Nordeste servindo a maior epopeia de todos os tempos – o espantoso empreen-
dimento dos descobrimentos portugueses. Outros homens viriam mais tarde trazi-
dos pelos primeiros. Mas estes vinham agora do continente negro e ao contraste
das configurações oferecidas pelo meio físico juntava-se o contraste do aspecto
físico dos homens oriundos de dois continentes servidos por duas raças. É então
que começa a maior experiência “laboratorial” executada com matéria-prima hu-
mana: brancos e negros vão fundir-se na mais positiva coexistência harmónica
para dar lugar, séculos depois a um povo novo – o crioulo cabo-verdiano” (FERRO
RIBEIRO 1961).
A Geografia sempre estudou a problemática colonial, designadamente a por-
tuguesa, por razões óbvias, como revela este trabalho e os estudos de Alfredo
5 6
Fernandes Martins e Orlando Ribeiro . Um texto de Fernandes Martins, publi-
cado quando ministrava a cadeira de Geografia Colonial, disciplina maquilhada
posteriormente de Geografia das Regiões Tropicais, no âmbito duma reforma
curricular dos Cursos de Geografia das universidades portuguesas, ocorrida em

5
Alfredo Fernandes Martins: Alguns reparos à classificação de colónias proposta por Hardy (1943). Importa
sublinhar que Fernandes Martins foi o orientador da Tese de Licenciatura de Maria Luísa Ferro Ribeiro (1961).
6
Orlando Ribeiro: A Ilha do Fogo e as suas Erupções (1954); Primórdios da ocupação das ilhas de Cabo Verde
(1955).
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
37
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

finais dos anos cinquenta. Na recensão crítica a classificação de colónias pro-


posta pelo geografo francês Georges Hardy (Geographie et colonisation, 1933,
com prefácio de Pierre Deffontaines), faz a seguinte observação a propósito de
Cabo Verde: “Não admira, pois, que os três antigos tipos, colónias comerciais
ou feitorias, colónias de plantação ou fazendas e colónias de povoamento ou
propriamente ditas, – como dizia Oliveira Martins – rapidamente cedessem o seu
lugar, na literatura geográfica colonial, aos diferentes tipos sugeridos por Hardy:
colónias de enraizamento, de enquadramento e de posição ou ligação”. Refere
mais adiante que “quanto ao arquipélago de Cabo Verde e às ilhas do Golfo da
Guiné – S. Tomé e Principe – também não vemos na classificação de Hardy qual-
7
quer tipo de colónia que se lhes possa atribuir” . Depois de todas estas conside-
rações é levado “a admitir um caso que não tem similar na classificação de Hardy,
e ao qual chamamos, como já dissemos, de povoamento primordial. Povoamento,
porque de povoamento se trata no sentido mais exacto do termo; primordial, vis-
to que anteriormente as ilhas sem encontravam desertas e, salvo uma ou outra
vaga alusão, não há documentos de que tenham havido povoamento anterior nos
tempos históricos. Sabemos que pode causar reparos o facto de incluirmos numa
só rubrica o caso dos arquipélagos da Madeira e dos Açores, cujo povoamento foi,
por assim dizer, exclusivamente europeu, e o caso do arquipélago de Cabo Verde
e das ilhas do Golfo da Guiné, onde o elemento fundamental do povoamento foi
a raça negra”. (…) “A característica singular de povoar territórios desertos ficará
vincada, assim como a das modalidades particulares do povoamento. Terminando,

7
Continua: “Nos fins do século passado, aproximadamente quatro séculos depois de se ter iniciado a colonização,
escrevia Oliveira Martins a propósito de Cabo Verde: “O clima das ilhas, a natureza das culturas, a idade da
colonização, nacionalisaram portuguez o arquipélago, embora de um modo só de longe comparavel ainda
aos primeiros e felizes ensaios da Madeira e dos Açores. Um milhar de brancos, confundidos com oitenta
mil negros, mais ou menos eivados de sangue berbere ou portuguez, eis os elementos de uma população
que se deve considerar fixa, arrebanhando numerosos gados, cultivando cereaes e legumes, isto é com
autonomia agricola: e creando para o comércio o café, o assucar, a purgueira e o sal. O archipelago appa-
rece-nos pois na transição da condição de colónia, para a de província metropolitana, transição passada ha
seculos já para os archipelagos atlanticos da Madeira e dos Açores”. Considerando que os primeiros esforços
da colonização, tanto no arquipélago de Cabo Verde como na ilha de S. Tomé, se dirigem no sentido de
povoar as ilhas, objectivo que foi atingido, e tendo em vista que nesse povoamento tiveram colaboração
activa colonos brancos, cuja descendência branca pura, embora pouco numerosa, e a mestiça a quase
totalidade da população perpetuam as raízes europeias, ousamos classificar a colonização do arquipélago e
das ilhas do Golfo da Guiné como um caso de enraizamento. (…) De resto, Hardy, quando estuda «Un cas de
repeuplement» refere-se, na rápida introdução, às «iles du Cap Vert», deixando-nos pressupor que considera
essas ilhas como um caso de repovoamento e, por conseguinte, colónia de enraizamento. (…) Simplesmente,
não nos parece que se possa falar de repovoamento tratando de Cabo Verde, desde que na verdade, não
houve mais do que povoamento. Nas Antilhas, depois da chegada dos brancos, a população indígena que
povoava as ilhas começou a decrescer rapidamente e os colonizadores tiveram de levar a cabo uma obra
de repovoamento. Em Cabo Verde as coisas passam-se de diversa maneira: quando começa a colonização,
as ilhas estavam desertas, os colonos, brancos ou negros, que desembarcavam não iam a repovoar, mas
pura e simplesmente a povoar. Repovoamento implica povoamento anterior – o que não acontecia nas ilhas
portuguesas de Cabo Verde: o arquipélago estava desabitado; casais do Algarve, a que se deram escravos,
foram os primeiros colonos; juntaram-se-lhes, «pelo ano de 1500, degredados e, em 1601, cristãos novos».
38 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

frisamos mais uma vez que nos tipos de colonização de Hardy se não encontra um
caso no qual se possam englobar satisfatoriamente as ilhas portuguesas do Atlân-
tico. Talvez lhe tivesse passado despercebido que «los portugueses inauguraron
la época colonial moderna, poblando las islas que iban descubriendo»” (Martins,
1943). A singularidade da colonização de Cabo Verde seria igualmente reconhe-
cida por Orlando Ribeiro quando afirmou que “a 16º de latitude constituem o der-
radeiro eco da Europa e uma das mais curiosas e atraentes soluções do encontro
de raças” (RIBEIRO 1961, 15).

Cabo Verde: referências toponímicas no mapa de Lopes da Lima (1844)

[Fonte: A. Teixeira da Mota (1961) – Cinco seculos de cartografia das ilhas de Cabo Verde. Garcia de Orta]

Esta saga que se iníciou há mais de meio milénio, enquadrada na estratégia


da expansão marítima europeia do século XV, os portugueses acharam as ilhas de
Cabo Verde, cujo nome advém da proximidade do cabo homónimo, o ponto mais
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
39
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

ocidental da África situado numa península verdejante da República do Senegal.


O achamento não se processou de uma só vez, mas gradualmente: em 1460 as
ilhas ocidentais (Santiago, Fogo, Maio, Boavista e Sal) e, dois anos mais tarde. as
do grupo ocidental (Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Santa Luzia, Brava e
os ilhéus Raso e Branco). E desse achamento gradual, resultou, possivelmente, os
próprios nomes de algumas ilhas que homenageiam, de acordo com a hagiologia
cristã, o santo do dia da chegada.
As ilhas de Santiago, S. Vicente, S. Nicolau e Santa Luzia (a única que recebeu
o nome de uma Santa) mantiveram os nomes inicialmente atribuídos, enquanto
outras sofreram alterações, por melhor conhecimento do espaço geográfico:
– A ilha do Fogo foi até ao povoamento conhecida como Ilha de Sam Filipe,
posteriormente passou a ser ilha do Fogo pela presença do vulcão que domi-
na a morfologia do espaço geográfico. S. Filipe é a capital e o santo padroeiro
da ilha.
– A ilha da Brava foi descoberta por Diogo Afonso em 1461 ou 1462, mas só co-
meçaria a ser povoada pelos portugueses no século XVI, com o nome de Ilha
de São João, sendo este santo ainda hoje o padroeiro do concelho. "Quando
a ilha foi descoberta, deram-lhe o nome de S. João. No entanto, algum tempo
depois o nome foi alterado devido ao aspecto florido que a ilha tinha. Foi-lhe
dado o nome "Brava" que significa selvagem";
– A ilha da Boavista, inicialmente designada por ilha de S. Cristóvão por ter
sido achada no dia 24 de Julho, de acordo com os estudos do historiador
Magalhães Godinho.
No entanto a data e o descobridor são objeto de diferentes opiniões por parte
dos historiadores, bem como também a origem do nome. Germano de Almeida
aceita a descrição de Cadamosto "E, do alto, houveram vista de três outras gran-
des ilhas, das quais não havíamos vista, pois que uma nos ficava a sotavento,
pela parte do norte, e as outras duas estavam encarreiradas uma com a outra, na
direção do sul, sobre nosso caminho, e cada qual à vista uma da outra” (...) "par-
tiram da primeira ilha que aportaram e, correndo ao longo da costa de uma das
duas ao Sul, fundearam na desembocadura de um rio, que pelas descrições de
Cadamosto se trata da Ribeira Grande de Santiago. À primeira ilha que descobriu
deu o nome de “Boa Vista, por ter sido a primeira vista de terra naquelas partes”,
e à outra, que lhe pareceu maior, deu o nome de “Santiago”, porque as aportou
no dia de S. Filipe e S. Tiago."
Os nomes originais das ilhas do Sal e do Maio, não estiveram ligados à ha-
giologia como era usual na época. A ilha do Sal foi inicialmente denominada
Ilha Lana ou Ilha Chã pela sua configuração morfológica dominada por extensa
planície que contrastava como aspecto montanhoso das ilhas já descobertas.
Mas o conhecimento da salina natural, da Pedra de Lume, levou à alteração da
designação anterior. O nome atribuído à ilha do Maio, está ligado à data do seu
40 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

achamento – o dia 1 de Maio. Mas fica a dúvida. Porque não o nome de S. José
que é o dia deste santo?
Germano de Almeida, aventa duas hipóteses, para o nome da Ilha do Maio
baseado, talvez, na tradição oral, uma vez que pelo menos uma delas está inti-
mamente ligada a actividade na área da pecuária, o que obviamente se afasta do
momento do achamento. Uma das versões seria "uma homenagem aos deuses
Maio e Maia que pontificavam entre os povos da Europa em diversões que mis-
turavam o que ainda sobrava do paganismo com a nova religião cristã". A outra
versão atribui o topónimo à actividade pastorícia ligada à criação de cabras, ao
tratamento da carne e à exportação para a ilha de Santiago. "E chamar-se-ia
Maio porque desde que foi encontrada que se viu abandonada às cabras e de-
mais gado; só no mês de Maio se ia fazer a matança e respectiva salga seguida
do transporte para Santiago com vista ao aprovisionamento dos navios que de-
mandavam essa ilha".
O povoamento foi iniciado de imediato, tendo sido baseado, à semelhança
do que ocorreu na Madeira e nos Açores, no estabelecimento de capitanias-do-
natárias, sendo o donatário responsável pelo povoamento, administração e de-
senvolvimento da circunscrição. Santiago foi a primeira ilha a ser ocupada por
ser a maior, a mais próxima da costa africana com condições mais favoráveis à
agricultura devido à abundância de água nas ribeiras da parte sul da ilha e, ainda,
segundo o historiador António Correia e Silva "a existência da enseada da Ribeira
Grande (com alguma proteção natural) reunia razoáveis condições para os navios
fundearem."
O povoamento ocorreu em etapas, seguindo-se as ilhas da Brava, S. Nicolau
e Santo Antão e já no final do século XVIII e início do século XIX as ilhas de S.
Vicente, Santa Luzia (hoje desabitada, mas que no século XIX tinha um pequeno
núcleo populacional que se dedicava à pesca e à pastorícia) e a ilha do Sal. A ilha
de Santiago foi dividida em duas capitanias: a capitania do Sul (sede Ribeira Gran-
de), entregue a António da Noli, e a capitania do Norte (sede Alcatrazes), doado
a Diogo Afonso.
O povoamento da Ribeira Grande teve início em 1462, sendo o primeiro centro
urbano colonial nos trópicos. A povoação da Ribeira Grande ocupava um vale com
abundante vegetação, entre montanhas abruptas, atravessado pela Ribeira Maria
Parda que desagua numa enseada que oferecia condições favoráveis para a ins-
talação de um porto que favorecia a ligação da ilha com o exterior, em particular
com a costa africana. O modelo de capitanias-donatárias utilizadas na Madeira e
nos Açores, revelou-se pouco motivador para atrair a fixação da população em
Santiago, devido à longa distância entre a ilha e o Reino, às condições climatéri-
cas e à inadaptação dos solos para o cultivo de cereais.
O fracasso da política de povoamento, transposta de ilhas de condições geo-
gráficas muito diferentes, levou à adopção de nova estratégia, consubstanciada
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
41
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

na carta régia de 1466, (carta de privilégios) que permitia o exercício da activida-


de mercantil baseada nas condições do porto da Ribeira Grande que favorecia o
desenvolvimento do comércio com os vizinhos do continente em toda a costa da
Guiné (excepto Arguim, primeira feitoria portuguesa, reservada à coroa), em que o
chamado "resgate de escravos" era uma peça de transação importante. Essas me-
didas tiveram repercussões importantes no processo de povoamento da Ribeira
Grande com a imigração e a instalação na zona litoral de "moradores-armadores"
que iriam formar a elite local.
Apesar dos privilégios concedidos, o povoamento da Ribeira Grande conti-
nuava incipiente, limitada quase exclusivamente à zona litoral, o que condicionou
a adopção de novas medidas tendentes a incrementar o povoamento e, simulta-
neamente, dirimir conflitos de interesses relacionados com a actividade mercantil
nas costas africanas. É a partir desses pressupostos que a coroa outorga a carta
régia de 1472, limitativa de privilégios no tocante à actividade mercantil e ao trá-
fico de escravos apenas autorizados a trabalhar nas ilhas. Essas medidas tiveram
como objectivo intensificar o povoamento e diversificar a actividade económica
da ilha através do desenvolvimento da agricultura e da pecuária. "A partir desta
base legal nasce uma sociedade dicotómica de senhor e escravo, europeu e afri-
cano que irá progredir para o surgimento de uma terceira força endógena: "Os
filhos da terra" (Emília Santos, Iva Cabral)
Em 1533 é outorgada à vila da Ribeira Grande a categoria de Cidade e criada
a Diocese de Cabo Verde e Guiné. Logo após a sua fundação, o porto da Ribeira
Grande passou a ser um dos principais portos de escala obrigatória em direcção
à África, América e Índias e uma plataforma importante para a estratégia marítima
da expansão europeia. "A nova Cidade encontrou uma sociedade escravocrata,
católica praticante, ostentando a construção de uma catedral majestosa, marca
indelével do sagrado na paisagem urbana" (Emília Santos, Iva Cabral). O núcleo
urbano mais antigo situa-se, junto ao porto no largo designado por Praça Velha
onde ficou instalada a Câmara, a escola, o hospital, a igreja, o presídio e onde
foi edificado o Pelourinho, símbolo do poder municipal e, também, símbolo da
justiça real e lugar de execução dessa mesma justiça. "Poder eclesiásticos acção
laica tinham ali o seu lugar. Igreja e Misericórdia sempre imbricados num conjun-
to edificado e impossível de delimitar os patrimónios: hospital, escola, igreja da
Misericórdia funcionando como Sé do Bispado. Também o comércio grosso, as
transacções directas e as operações coabitavam com os leilões de escravos arre-
batados pelo lance mais alto. Este era o primitivo sítio do poder e poderes"(Emília
Santos, Iva Cabral).
A cidade foi-se estendendo ao longo do vale e ao longo da linha da costa, mas
o condicionalismo geográfico dificultava a expansão resultando a necessidade
de ocupação progressiva de espaços com cotas mais altas o que configura uma
arquitectura em anfiteatro. Por detrás do núcleo urbano mais antigo de carácter
42 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

funcional, erguia-se um conjunto habitacional, atravessado por ruas estreitas e


sinuosas, cujos topónimos estão ligados à morfologia ou às características funcio-
nais do local – Rua do Calhau, Rua da Praça, Rua do Porto, Rua da Misericórdia.
Confinado na margem esquerda da Ribeira Maria Parda, o núcleo urbano esten-
deu-se ocupando a margem direita da Ribeira, como resposta ao aumento da
população atraída pelo desenvolvimento da actividade mercantil e melhor apro-
veitamento das terras com a utilização da mão de obra escrava.
Nesse novo espaço surgem dois bairros, o de S. Pedro e o de S. Brás, topóni-
mos, como era usual na época tinham um cunho religioso, percorridos por ruas
largas e extensas que configuram uma nova arquitectura do espaço urbano. O
bairro de S. Pedro era servido pela Rua Direita (ou de S. Pedro) cujo nome, talvez,
advenha do seu longo traçado que acompanhava a margem de Ribeira. Paralela
a esta desenvolvia-se a Rua Banana considerada a primeira rua urbanizada pelos
portugueses nos trópicos. Alguns historiadores afirmam que o porquê do nome,
deve-se ao formato da rua, semelhante a uma banana. Suposição ou comprovada
por factos?
Fica a dúvida. Uma terceira rua pertencente ao bairro de S. Pedro, a Rua
Carreira cujo topónimo, possivelmente está relacionado com o facto de ser uma
passagem para as carroças que circulavam ao longo do bairro. "Por este bairro
se mudaram os vizinhos mais abastados da Ribeira Grande decididos a criar
uma nova área selectiva. Fazem construir opulentos sobrados ao longo das ruas
e cultivam legumes frescos nas hortas traseiras. O rural convive mais de perto
com os moradores da cidade, menos fechada sobre si própria" (Emília Santos e
Iva Cabral).
O bairro de S. Brás, localizado a uma cota mais alta, considerado, por essa
razão, uma zona com melhores condições sanitárias, era atravessado de ocidente
a oriente pela Rua Cidade, bastante ampla para a época. Ficou marcado pela
presença dos padres da Companhia de Jesus que adquiriram edifícios para ha-
bitação, evangelização e ensino. O último bairro à ser construído foi o bairro de
S. Sebastião, situado na zona mais alta, onde foi erigida a Sé à volta da qual se
desenvolveu um novo espaço urbano. E na zona de maior altitude ergueu-se o
Forte de S. Filipe, onde se instalaram os governadores de Cabo Verde. O estrato
de condições económicas difíceis habitava a zona periférica, como a chamada
Aldeia dos Sapes (há uma hipótese do nome Sapes estar relacionado com uma
gramínea designada por sapê utilizada para a cobertura das casas mais pobres.
Na aldeia, segundo informação da Câmara, "se agasalhava a metade da gente
mais pobre da cidade")
O ciclo de prosperidade da cidade da Ribeira Grande foi relativamente cur-
to. Perdurou entre os finais do século XV e a segunda metade do século XVII,
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
43
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

entrando a partir dessa data em decadência, ocasionada fundamentalmente


pela alteração das rotas marítimas que condicionaram a actividade mercantil e o
tráfico de escravos, deixando o porto da Ribeira Grande de servir de apoio à na-
vegação. Outros factores como o ataque frequente de piratas e o clima insalubre
influenciaram a decadência da cidade da Ribeira Grande de Santiago, hoje Cidade
Velha, Património Mundial da Humanidade.
A 13 de Dezembro de 1769, a sede do governo é transferida para a vila da
Praia que em 1858 foi elevada à cidade. "A Cidade Velha não foi apenas um en-
treposto de venda de escravos. Foi algo de mais importante no contexto da mun-
dialização desencadeada pela abertura da auto-estrada do Atlântico, de que ela
era a grande estação de serviço sem a qual a busca do caminho marítimo para
a Índia ficaria a meio. Funcionou como centro de "formação" e de "informação"
(Daniel Pereira).

2.2. O NOME E A NORMA: TERRITÓRIO E REGULAÇÃO DA TOPONÍMIA

O arquipélago de Cabo Verde é constituído por nove ilhas habitadas e uma,


Santa Luzia, com 35 Km2, atualmente desabitada, como é igualmente desabitado
o Ilhéu Branco (3 km2), o Ilhéu Raso (7 km2), o Ilhéu Grande (2 km2) e os Ilhéus
Luís Carneiro e de Cima (1 km2). A Constituição da Republica consagra esta geo-
grafia noseu Artigo 6º: “1. O território da República de Cabo Verde é composto: a)
Pelas ilhas de Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal, Boa Vista,
Maio, Santiago, Fogo e Brava, e pelos ilhéus e ilhotas que historicamente sempre
fizeram parte do arquipélago de Cabo Verde; b) Pelas águas interiores, as águas
arquipelágicas e o mar territorial definidos na lei, assim como os respectivos leitos
e subsolos; c) Pelo espaço aéreo suprajacente aos espaços geográficos referidos
8
nas alíneas anteriores .

8
A propósito do território refere ainda: “2. Na sua zona contígua, na zona económica exclusiva e plataforma
continental, definidas na lei, o Estado de Cabo Verde possui direitos de soberania em matéria de conservação,
exploração e aproveitamento dos recursos naturais, vivos ou não vivos, e exerce jurisdição nos termos do
direito interno e das normas do Direito Internacional. 3. Nenhuma parte do território nacional ou dos direitos
de soberania que o Estado sobre ele exerce pode ser alienada pelo Estado.”
44 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Arquipélago de Cabo Verde

(Fonte: Wikipédia)

9
Uma publicação oficial retrata esta geografia do seguinte modo : “Pequeno
país arquipelágico, (…) com uma superfície aproximada de 4.033 km2 [as suas
ilhas] localizam-se entre os paralelos 14º 23' e 17º 12' de latitude Norte e os me-
ridianos 22º 40' e 25º 22' a Oeste de Greenwich. Ilhas atlânticas, de origem vul-
cânica, distam cerca de 500 km do promontório do Senegal de onde lhe adveio
10
o nome” . A mesma publicação (INE-CV, 2015) fornece ainda informação perti-
nente sobre a toponímia, se nos detivermos nos nomes atribuídos aos pontos

9
Instituto Nacional de Estatística (INE-CV, 2015) – Cabo Verde, Anuário Estatístico.
10
Refere ainda “Em termos geomorfológicos, distinguem-se essencialmente dois grupos de ilhas, as ilhas
montanhosas (Santo Antão, S. Vicente, Santa Luzia, S. Nicolau, Santiago, Fogo e Brava) onde predomina as
paisagens montanhosas, com altitudes que alcançam 2.829 metros e relevos bastante acidentado e por
outro lado as ilhas planas (Sal, Boavista e Maio) caracterizadas por quase inexistência de relevos montanho-
sos e onde marcam presença extensas praias de areia branca, banhadas pelo azul-turquesa do atlântico.
Afigurando-se como o ponto mais ocidental do continente africano (17°02'40.9"N 25°21'39.5"W – ilha de
Santo Antão) as ilhas se apresentam dispostas em forma de ferradura e devido à sua localização geográfica
(integra o grupo dos países do Sahel) apresenta um clima árido e semiárido, quente e seco, com temperatura
média anual a rondar os 25º C, fraca pluviosidade, onde pode-se identificar duas estações que definem o
clima das ilhas: o tempo das brisas (estação seca - Dezembro a Junho) e o tempo “das águas” (estação das
chuvas, que normalmente decorre entre Agosto a Outubro, sendo o mês de Julho de transição)”.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
45
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

culminantes, aos pontos extremos de cada uma das ilhas ou às infraestruturas


(aero)portuárias. As respetivas designações permitem destacar:
(i) As principais elevações de Cabo Verde, onde se atingem as altitudes máxi-
mas, receberam nomes relacionados com: (i) Pico – da Antónia (1.392 metros;
11
Santiago) , do Fogo (2.829, Fogo) – ou, mesmo, Topo (Tope da Coroa, 1.979;
Santo Antão); (ii) Monte, seguido de adjetivações como Verde (774 metros; S.
Vicente), Gordo (1.304; S. Nicolau), Grande (406; Sal), Penoso (436; Maio); (iii)
outras designações aconteceram nos casos da Boa Vista (Santo António, 378)
ou da Brava (Fontainhas, 976).
(ii) Os pontos extremos, que indicam os máximos de latitude e de longitude
e definem, por isso, o Norte, o Sul, o Este e o Oeste de cada uma das ilhas,
12
mercê da localização receberam quase exclusivamente a designação Ponta .
Entre os 40 termos possíveis apenas sete não foram crismadas de Pontas:
Cais dos Fortes (Santo Antão), Baixa do Espechim (S. Nicolau), Rosto de Vento
(Maio), Fio do Monte Vermelho (Fogo), Praia da Casinha (Fogo), Ilhéu de Rabo
de Junco (Sal) e Ilhéu do Baluarte (Boa Vista).
(iii) Os aeroportos e aeródromos de Cabo Verde, por serem obra humana
com desenvolvimento bem recente, sobretudo os aeroportos internacionais,
receberam nomes de pessoas: Amílcar Cabral Internacional (Sal), Aeroporto
Nelson Mandela (Praia, Santiago), Cesária Évora (S. Vicente) e Aristides Pe-
reira (Boa Vista). Os aeródromos para voos domésticos mantiveram os no-
mes locais: Aeródromo de Preguiça (S. Nicolau), Aeródromo do Maio (Maio) e
Aeródromo de S. Filipe (Fogo). As infraestruturas portuárias seguem o registo
dos aeródromos ao receberem o nome dos lugares onde se implantam: Porto
Grande (S. Vicente), Porto da Praia (Praia, Santiago), Porto Novo (Santo Antão),
Porto Vale Cavaleiros (S. Filipe, Fogo), Porto da Furna (Brava), Porto do Tarrafal
(Tarrafal de S. Nicolau), Porto da Palmeira (Sal), Porto de Sal Rei (Boa Vista),
Porto Inglês (Maio).

11
“A ilha de Santiago é das mais acidentadas do arquipélago caracterizando-se pelos seus cumes elevados,
grandes ravinas e desfiladeiros quase inacessíveis. A ilha é totalmente modelada pela erosão que talhou
no basalto formas caprichosas que lembram as coisas mais curiosas: aqui a rocha destaca-se como uma
coluna delgada isolada do resto do material basáltico, ali forma cabeços arredondados, mais além agulhas
elevadas e ao longe recortam-se no horizonte como que um castelo em ruínas. Os nomes de alguns montes
provêm da sua forma extravagante – o “Marquês”, serra que faz parte do Maciço da Antónia lembra ao longe
a figura de Pombal; os Órgãos, Pau de Pilão e outras serras têm a forma evocada pela sua designação" (Ferro
Ribeiro, 1961).
12
Ponta do Sol, de Salina, do Chão de Mangrande (Santo Antão); Marigou, Calhau, Machado (S. Vicente); dos
Piquinhos, da Lage do Espia, Mãe Grande, Branca (Santa Luzia); da Vermelharia, Calheta, Brouco (S. Nicolau);
Norte, do Sinó, de Morrinho Vermelho (Sal); do Sol, Tarafe, Varandinha (Boavista); Cais, Jampala, Banconi
(Maio); Moreira, Temerosa S. Lourenço, da Janela (Santiago); do Pescadeiro, do Vale de Cavaleiros (Fogo);
do Insenso, Nhô Martinho, Rei Fernando, Prainha (Brava). Notar alguns nomes que qualificam a Ponta: Salina,
Cais, Prainha, Chão, Lage, Calheta, Piquinhos, Vale.
46 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

O nome dos lugares utilizados no Recenseamento da População de 2010, pu-


blicados pelo INECV segundo as ilhas e as respetivas unidades administrativas,
foi a base utilizada neste ensaio. A evolução que a toponímia conheceu com o
andar dos tempos motivou a criação de pelo menos duas instituições destinadas à
racionalizar a estrutura hierárquica e a regular os nomes a atribuir, respetivamen-
13
te o Código Geográfico Nacional de Cabo Verde e as Comissões Toponímicas,
14
criadas a nível nacional e local .
As preocupações com a regulação do reportório toponímico oficial, tarefa
atribuída à Comissão Nacional de Toponímia criada pelo referido Decreto-Lei
(nº 5/2012, de 28 de Fevereiro), estão bem expressas no respetivo preâmbulo:
“Desde sempre, e em todas as latitudes, a designação dos espaços públicos,
lugares ou vias de comunicação esteve intimamente relacionada aos valores
culturais das populações, reflectindo e perpetuando a importância histórica de
factos, pessoas, costumes, épocas e eventos, pelo que ela deve ser feita com
base em critérios de rigor, coerência e isenção. Para além da função histórico-
-cultural, a toponímia, cujo termo significa, etimologicamente, o estudo histórico
e linguístico da origem e evolução dos lugares, representa um eficiente sistema
de referenciação geográfica de que o homem necessita e utiliza para localizar
as actividades e os eventos no território. Por isso, as designações toponímicas
devem ser estáveis e pouco sensíveis às simples mudanças de conjectura, não
devendo ser influenciadas por critérios subjectivos ou factores de circunstância,
embora possam reflectir alterações sociais importantes, com a devida pondera-
ção e fundamentação. (…) Doravante, a atribuição de topónimos, tanto a nível
nacional como municipal, passa a ser obrigatória. Em consequência, no que se
refere à situação actual, fixa-se um prazo de cinco anos, contados a partir da
data da publicação do presente diploma, para os Municípios atribuírem topóni-
mos a todos os espaços públicos e lugares do respectivo Concelho”.
O enunciado do âmbito explicita o que está em jogo com a pretendida norma-
15
lização da Toponímia de nível Nacional , sendo igualmente elucidativo os critérios

13
O Código Geográfico Nacional de Cabo Verde (CGN-CV), a que se associa o Sistema Estatístico Nacional (SEN), “é
um padrão de nomenclatura geográfica criado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) de Cabo Verde, com o
intuito de facilitar a produção, difusão e compreensão dos dados estatísticos que aumentam de ano para ano.
(…) O código subdivide o território (em conformidade com a divisão administrativa do país) em Ilhas, Concelhos,
Freguesias, Zonas e os povoados, designados estatisticamente por Lugar. Na prática, muitas das zonas acabam
por corresponder a cidades e vilas, sendo os lugares sub-zonas das mesmas. Segundo a descrição do próprio
INE, "A codificação do CGN-CV incluirá um código de 7 dígitos, correspondendo o primeiro à Ilha, o segundo ao
Concelho, o terceiro à Freguesia, os dois seguintes à Zona e o sexto e o sétimo ao Lugar".
14
A Comissão Nacional de Toponímia, criada pelo Decreto-Lei no 5/2012, publicado no Boletim oficial de 28
de Fevereiro de 2012, regula a Toponímia a Nível Nacional e Municipal.
15
Artigo 2º, que refere: “1. A Toponímia de nível Nacional salvaguarda a homogeneidade de tratamento para
todo o território nacional, recuperando numerosas designações notáveis, grandes obras de engenharia,
de nomes das Ilhas e Ilhéus, das baías e praias, dos cabos e pontas, das ribeiras e seus afluentes, das
cidades e vilas, das montanhas e fajãs, bairros, florestas, montes e vales, e ribeiras de cada ilha, situando
nomes mal colocados e corrigindo denominações incorrectas. 2. A Toponímia de nível Municipal salvaguarda
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
47
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

apontados para a atribuição de topónimos ao apontarem (Artigo 6º):


“1. As denominações toponímicas devem enquadrar-se nas seguintes temá-
ticas: a) Topónimos populares e tradicionais; b) Referências históricas dos
locais; c) Antropónimo, que podem incluir nomes de pessoas de relevo con-
celhio, regional, nacional ou mundial, nos termos do artigo 7º; d) Nomes de
países, cidades, vilas, aldeias, nacionais ou estrangeiras, que por qualquer
razão relevante tenham ficado ligados à história do município, ao historial
nacional ou com os quais o município se encontre geminado; e) Datas com
significado histórico municipal, nacional ou mundial; f) Aspectos locais, em
obediência aos costumes e ancestralidade dos sítios e lugares da respectiva
implantação; g) Nomes no sentido amplo e abstracto que possam significar
algo para a forma de ser e estar de um povo.
2. As novas urbanizações ou aglomerados urbanos que vierem a ser criados
devem, sempre que possível, obedecer às temáticas referidas no número 1.
3. Podem ser atribuídas iguais designações a vias, desde que estas se situem
em diferentes localidades do concelho.
4. Não se consideram iguais designações as que são atribuídas a vias comu-
nicantes de diferente classificação toponímica, tais como rua, travessa, beco,
praceta ou designações semelhantes.
5. Os estrangeirismos e palavras estrangeiras só são admitidos quando a sua
utilização se revelar justificável.
6. É interdita a atribuição de designações toponímicas provisórias.” para evi-
tar exageros levou o legislador a acrescentar dois artigos para salvaguardar
16
eventuais desmandos na atribuição de designações antroponímicas ou a
tentativa de rebatizar abusivamente alguns lugares, aconselhando à manu-
17
tenção dos nomes atuais .

as particularidades a serem tidas em conta em cada município, principalmente as denominações oficiais das
zonas, ruas e números de polícia, solos urbanos e urbanizáveis, e outros já atribuídos pelas Câmaras Municipais.”
16
Artigo 7.o (Designação antroponímica):
“1. As designações antroponímicas são atribuídas prioritariamente a figuras, que se tenham distinguido pelo
seu carácter benemérito, nas artes, nas ciências, nas letras, no desporto, na educação, na política ou outra
actividade de reconhecido prestígio social, pela seguinte ordem de preferência: a) Individualidades de relevo
concelhio; b) Individualidades de relevo regional; c) Individualidades de relevo nacional; d) Individualidades
de relevo mundial.
2. Sem prejuízo do disposto no número anterior, os antropónimos não devem ser atribuídos antes de dois
anos a contar da data do falecimento, salvo em casos excepcionais e aceites pela família.
3. Não são atribuídas designações antroponímicas com o nome de pessoas vivas, salvo em casos extraor-
dinários em que se reconheça, que por motivos excepcionais esse tipo de homenagem ou reconhecimento
deva ser prestado durante a vida da pessoa e seja aceite pela própria.”
17
Artigo 8.o (Manutenção e alteração de topónimos actuais):
“1. As designações toponímicas actuais devem manter-se, salvo a existência de razões atendíveis que
justifiquem a sua alteração.
2. Os órgãos municipais podem proceder à alteração de topónimos existentes, nos termos e condições do
presente diploma e nos seguintes casos especiais: a) Motivos de reconversão urbanística; b) Existência de
topónimos considerados inoportunos, iguais ou semelhantes, com reflexos negativos nos serviços públicos
48 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

3. POVOAMENTO, TOPONÍMIA E SUAS GEOGRAFIAS


sonho que, um dia,/ em vez dos campos sem nada,/ do êxodo das gentes nos anos de
estiagem/ deixando terras, deixando enxadas, deixando tudo,/ das casas de pedra solta
fumegando do alto,/ dos meninos espantalhos atirando fundas,/ das lágrimas vertidas
por aqueles que partem/ e dos sonhos, aflorando, quando um barco passa,/ dos gritos e
maldições, dos ódios e vinganças,/ dos braços musculados que se quedam inertes / dos
que estendem as mãos,/ dos que olham sem esperança o dia que há-de vir – Mamãi!/
sonho que, um dia,/ estas leiras de terra que se estendem,/ quer sejam Mato Engenho,
Dacabalaio ou Santana,/ filhas do nosso esforço, frutos do nosso suor,/ serão nossas
(António Nunes, Poema de Amanhã, in Poemas de Longe, 1945).

3.1. A ESTRUTURA DE POVOAMENTO E O NOME DAS UNIDADES ADMI-


NISTRATIVAS

Os recenseamentos da população facultam um enorme manancial de infor-


mação que permite compreender, antes de mais, a dinâmica demográfica e a es-
trutura do povoamento. A par destes elementos quantitativos importa relevar, no
âmbito deste trabalho, o nome dos lugares e das unidades administrativas que
os enquadram, por constituírem a fonte preciosa a que se recorreu para, após a
devida sistematização, ser possível efetuar a análise toponímica do arquipélago.

População e Território: evolução recente da população por ilha

e nos interesses dos munícipes; ou c) Atribuição de designação toponímicas que resultarem de pareceres
inadequados.
3. Sempre que se proceda à alteração dos topónimos pode, na respectiva placa toponímica, manter-se uma
referência à anterior designação.”
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
49
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

Não sendo propósito deste estudo a analise aprofundada da demografia nem


do povoamento fornecem-se apenas algumas referências para enquadrar a leitu-
ra e a interpretação do território tendo por base a toponímia:
– Cabo Verde era um arquipélago desabitado até 1460 quando se inicia a
colonização e alcança, cinco séculos volvidos, perto de meio milhão de habi-
tantes. Foi uma evolução com ritmos e ciclos distintos influenciada por dois
factores estruturantes: os anos de fome nos períodos de seca severa, como os
que tiveram lugar na primeira metade do século XX; uma emigração intensa
que gerou uma diáspora cabo-verdiana dispersa por vários países do mundo
(Portugal, Estados Unidos, Holanda, etc.). A densidade populacional e as taxas
de evolução da população testemunham tantos os desequilíbrios na distribui-
ção dos habitantes como os ritmos de crescimento, negativos ou muito baixos
nas ilhas mais dependentes da agricultura e menos bafejadas pelos serviços,
particularmente o turismo.

Estrutura do Povoamento: número de lugares e de habitantes segundo a dimensão dos lugares

– A fragmentação que decorre do caracter insular também se exprime, ao


nível das diferentes ilhas, através dum povoamento predominantemente ru-
ral, com povoados de muito pequena dimensão onde, apesar de numerosos,
são habitados por poucas pessoas: existem 598 povoados com menos de 9
habitantes (16,9% do total de lugares) onde residem apenas 3.270 pessoas
(0,7% do total da população total de Cabo Verde); no polo diametralmente
oposto temos os 28 lugares existentes no país com mais de 2.500 habitantes
(0,8% do total) mas onde residem 31,6% da população. Esta assimetria tende a
acentuar-se se levarmos em consideração que tem existindo um êxodo rural,
motivado por uma forte atração urbana, principais centros empregadores. Tal
dinâmica, além das implicações sociais, exemplificada pelo maior índice de
envelhecimento registado nos pequenos povoados, também tem tradução em
termos toponímicos, como veremos, porque a expansão urbana tem vindo a
50 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

dar origem a novas ruas e lugares, logo a novos topónimos (Bairro, Avenida,
Zona de Expansão, Armazém, etc.).

Os resultados dos recenseamentos estão organizados segundo uma nomen-


clatura que contempla unidades administrativas (concelhos e freguesias) e ou-
tras usadas apenas para fins estatísticos (Distritos de Recenseamento e Zonas).
Qualquer uma destas unidades e os lugares que as integram, além do respetivo
nome, obedecem a uma hierarquia que começa nos aglomerados rurais de menor
dimensão, povoados e lugares, aos que receberem a designação de vila ou de
cidade em função da importância e dimensão que atingiram.

Geografia administrativa de Cabo Verde

Sotavento
21
22 1. Tarrafal
2. São Miguel
20
3. São Salvador do Mundo
4. Santa Cruz
19 17 16 5. São Domingos
6. Praia
18 7. Ribeira Grande deSantiago
8. São Lourenço dos Órgãos
9. Santa Catarina
1 10. Brava
2 3 15
11. São Filipe
12. Santa Catarina do Fogo
4 13. Mosteiros
9 14. Maio
5
Barlavento
6
8 7 14
15. Boavista
16. Sal
13 17. Ribeira Brava
18. Tarrafal de São Nicolau
10 12 19. São Vicente
11 20. Porto Novo
21. Ribeira Grande
22. Paul

Fonte: Wikipédia

A divisão administrativa de Cabo Verde (Ilhas, Concelhos, Freguesias) foi “her-


dada do período colonial”, “tem conhecido algumas alterações ao longo dos anos
em especial após a independência. De referir que em 1975 (ano da independên-
cia) o país, encontrava-se, estruturado em 14 concelhos, existindo atualmente 22
18
concelhos : “3 na ilha de Santo Antão (13,6%), 3 na ilha do Fogo (13,6%), 9 a ilha

18
Em 1975 existiam 14 concelhos: Ribeira Grande, Paul, Porto Novo; S. Vicente; S. Nicolau; Sal; Boa Vista; Maio;
Tarrafal; Santa Catarina; Santa Cruz; Praia; Fogo; Brava. Em 1991 junta-se Mosteiros, ficando o Fogo dividido
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
51
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

de Santiago (40,9%) e as restantes ilhas correspondendo a um concelho (S. Vicen-


te, Sal, Boa Vista, Maio e Brava)” (INECV, ob. cit.).

Divisão administrativa de Cabo Verde: concelhos e freguesias por ilha

Grupo de ilhas de Barlavento

Grupo de ilhas de Sotavento

em S. Filipe e Mosteiros. Em 1993 é criado S. Domingos e, em 1996, S. Miguel. Em 2005 são criados cinco
(5) novos concelhos: Ribeira Brava e Tarrafal de S. Nicolau a partir do de S. Nicolau; S. Salvador do Mundo,
S. Lourenço dos Órgãos e Ribeira Grande de Santiago; Santa Catarina do Fogo.
52 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Os nomes dos municípios, em termos gerais, remetem para o nome das ilhas
(naqueles onde existe apenas um concelho: Brava, Maio, Boavista, Sal) ou no-
mes de santos, lembrando a sua origem a partir de freguesias. As freguesias, a
exemplo das velhas paróquias portuguesas, todas têm nomes de oragos: (i) Nossa
Senhora da: Ajuda, Conceição, Graça, Luz (3), Dores, Livramento, Monte, Rosário
(2); (ii) Santa: Catarina, Catarina do Fogo, Isabel; (iii) Santo: Amaro Abade, André,
António, das Pombas, Crucifixo, São Francisco; (iv) São João Baptista (4), São Lou-
renço, São Lourenço dos Órgãos, São Miguel Arcanjo, São Nicolau Tolentino, São
Pedro Apóstolo, São Salvador do Mundo, Santiago Maior; (v) finalmente, Santís-
simo Nome de Jesus. Curiosamente, ao contrário do que acontece no Brasil, não
aparece o nome de Santo António ou de São João: neste país, das “2.500 cidades
brasileiras homenageiam santos católicos” 236 municípios cujo nome está rela-
cionado com Santo Antônio, 220 com São João e 127 com São Francisco” (IBGE).

Cabo Verde: unidades administrativas e lugares por ilha


(Número de Concelhos, Freguesias, Cidades, Vilas, Distritos de Recenseamento, Zonas e Lugares por ilha)

Em 2010 Cabo Verde contava com 6 cidades (Praia, Mindelo, Assomada, S.


Filipe, Porto Novo e Cidade de Santiago de Cabo Verde), ano em que passou a
contar “com 24 cidades, distribuídas conforme os concelhos (exceção de Ribeira
Grande e Sal com duas cidades cada) ou seja 9 cidades em Santiago, 4 em Santo
19
Antão, 3 no Fogo, 2 no Sal, 2 em S. Nicolau e 1 em cada uma das restantes ilhas” .
19
Com a entrada em vigor da Lei nº 77/VII/2010, (B.O. nº 32, de 23 de Agosto de 2010) as 24 cidades de Cabo
Verde são, segundo a ilha e o concelho, as seguintes: (i) Santo Antão: Ribeira Grande (Cidade de Ponta do
Sol; Cidade de Povoação); Paul (Cidade das Pombas); Porto Novo (Cidade de Porto Novo); (ii) S. Vicente
(Cidade de Mindelo); (iii) S.Nicolau: Ribeira Brava (Cidade da Ribeira Brava); Tarrafal de S. Nicolau (Cidade
de Tarrafal de S. Nicolau); (iv) Sal: Cidade dos Espargos e Cidade de Santa Maria; (v) Boa Vista: Cidade de
Sal Rei; (vi) Maio: Cidade do Porto Inglês; (vii) Santiago: Tarrafal (Cidade de Tarrafal); Santa Catarina (Cidade
de Assomada); Santa Cruz (Cidade de Pedra Badejo); Praia (Cidade da Praia); S. Domingos (Cidade da Várzea
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
53
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

Posteriormente, em 2015, foram elevadas à categoria de Vila 19 localidades,


20
em todas as ilhas à exceção de S. Vicente . As 24 cidades e as 19 vilas, importa
sublinhar, definem a rede de lugares centrais, o topo duma hierarquia urbana que,
mercê a condição arquipelágica, enfrenta uma descontinuidade que acentua uma
penalização já notória com a relativa atomização, dispersão e pequena dimensão
da maioria dos aglomerados populacionais.

21
3.2. O NOME DOS LUGARES: ENSAIO DUMA TIPOLOGIA TOPONÍMICA

O reportório com o nome dos 3.541 aglomerados populacionais habitados,


existentes no arquipélago segundo o Recenseamento da População de 2010,
mostra um vocabulário amplo, diverso e rico em informação. A sua análise mos-
tra que na génese dos lugares, quando receberam o batismo para melhor serem
identificados, as comunidades valorizaram distintos aspetos locais. O nome carre-
ga essa memória, denuncia o tempo, o modo e as circunstâncias que presidiram
à sua criação, encerra fragmentos duma realidade que ajuda a fazer uma arqueo-
logia desse território. A toponímia. por revelar o espírito, a matriz identitária e a
geograficidade que envolve o lugar, pode ser mais um contributo para a leitura
do território, uma fonte adicional para a interpretação de algumas facetas, mais
íntimas e subtis, da Geografia de Cabo Verde.
A análise efetuada não deu atenção à riqueza do detalhe contido na micro-
toponímia, a exigir outro tempo e mais meios para recolha de informação, nem

da Igreja); S. Miguel (Cidade da Calheta de S. Miguel); S. Salvador do Mundo (Cidade de Achada Igreja); S.
Lourenço dos Órgãos (Cidade de João Teves); Ribeira Grande de Santiago (Cidade de Santiago de Cabo
Verde); (viii) Fogo: Mosteiros (Cidade da Igreja); S. Filipe (Cidade de S. Filipe); Santa Catarina do Fogo (Cidade
de Cova Figueira); (ix) Brava (Cidade de Nova Sintra) (INE-CV).
“Em 1858 a vila da Praia foi elevada à categoria de cidade por Decreto de 29 de Abril por ser a principal
povoação do arquipélago tanto pelo número de habitantes, como pelo desenvolvimento do seu comércio.
Contava 2255 habitantes, sendo destes 280 escravos e era cabeça de um concelho que constava de 6
freguesias que abrangiam uma população de mais de 13.000 habitantes. Já nesta altura havia alguns bons
edifícios, dois poços bem construídos e abundantes de água, um mercado diário bem abastecido de géneros
alimentícios, o que evidencia o franco progresso da cidade. Enquanto se desenvolvia a cidade da Praia,
a antiga cidade da Ribeira Grande caminhava a largos passos para a decadência, nada restando hoje do
seu antigo esplendor, antes está reduzida a um montão de ruínas e a um conjunto de casebres de aspecto
miserável" (Ferro Ribeiro, 1961).
20
Santo Antão: Ribeira Grande (Chã de Igreja e Coculi); Porto Novo (Ribeira das Patas); S. Nicolau: Ribeira
Brava (Fajã de Baixo e Juncalinho); Tarrafal de S. Nicolau (Praia Branca); Sal (Palmeira); Boa Vista (Rabil); Maio
(Calheta e Barreiro); Santiago: Tarrafal (Ribeira das Pratas, Achada Tenda); Santa Catarina (Chã de Tanque,
Achada Falcão e Ribeira da Barca); S. Miguel (Achada do Monte); Fogo: S. Filipe (Ponta Verde e Patim); Brava:
Nossa Senhora do Monte (B.O n.º 55 - I Série (Decreto-lei n.º 45/2015; INE-CV).
21
São devidos agradecimentos pelo apoio e informações prestadas: ao Instituto Nacional de Estatística, na
pessoa da sua Diretora; à Câmara Municipal da Praia, designadamente ao Senhor Arq. Rafael Fernandes,
Dra. Aleluia, Barbosa Andrade e Eng. José Constantino Veiga; ao Arq. Adalberto Tavares (Instituto Património
Cultural, Cidade Velha); e ainda a Óscar António Ribeiro, José Pedro Chantre Oliveira, Dr. Maria Miguel Estrela,
Arq. Frederico Hopfer Almada e Doutora Adriana Carvalho.
54 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

abordou o imaginário que nos sugere a toponímia urbana, aspeto a tratar poste-
riormente. Importa ainda desenvolver a rica e subtil informação a explorar a partir
dos nomes compostos, bem como uma análise quantitativa sobre o número de lu-
gares pertencentes a cada um dos grupos. Sem esquecer o comentário qualitativo
mais desenvolvido a fazer com base na sistematização efetuada, correlacionan-
do-a com a geografia toponímica, isto é, com a prevalência dos nomes de certos
lugares em algumas ilhas especificas (p. ex. Tarrafal e a pesca, etc.).
Perante a panóplia de nomes em presença houve a necessidade de ensaiar
uma tipologia especifica para os lugares de Cabo Verde que se enquadram, em
nossa opinião, em quatro grandes domínios que se relacionam com: (i) Elementos
telúricos: água, terra, ar, fogo; (ii) A terra e o mar: morfologia terrestre e acidentes
do litoral; (iii) Condições naturais (e especificidades) locais; (iv) Processo de colo-
nização: do povoamento primordial à matriz identitária.

(i) Elementos telúricos: água, terra, ar, fogo. O número de lugares cujos no-
mes se enquadram nesta tipologia não é muito elevado, embora com signifi-
cado e importância no arquipélago por ter influenciado, ao longo dos tempos,
tanto o modo de vida dos seus habitantes quer as referências culturais do
país. Estes elementos naturais, que expressam uma profunda dimensão telú-
rica, condicionaram a ação humana e a ocupação do território: a água, pela
pena penúria e incipiente hidrografia, a terra, pela morfologia abrupta que
assume em boa parte do território. Completam este quadro o ar, através do
clima, do vento e da chuva, e o fogo, que dá nome a uma das ilhas e se mani-
festa pelo vulcanismo, ativo ou residual, presente na paisagem através duma
morfologia muito própria.
. Água. Em Cabo Verde é o elemento vital e, literalmente, a fonte de vida. Daí a
sua importância que encontramos bem espelhada na toponímia, pelo número
de lugares que remetem para a água como pela diversidade de situação que
revelam as várias formas em que ocorre e que foram aproveitadas. Retirando
o mar deste apartado e levando em consideração estarmos perante uma hi-
drografia incipiente, a hidrotoponímia assume uma riqueza que se expressa
através da água: ÁGUA (DAS PATAS, DE GATO, DOS VELHOS, ÁGUAS PODRES);
NORA; FONTAINHAS, FONTEANA, FONTEANA, FONTE (ALEIXO, LIMA, ALMEI-
22 23
DA); LAGOA, LAGOA DE CATANO; CHARCO, LEVADA; RIBEIRA , RIBEIRÃO (DE
CAL, FUNDO, GALINHA, ISABEL, MANUEL), RIBEIRÃOZINHO, RIBEIRETA
. Terra (geologia e litologia, onde se incluiem nomes como Lageado, Calhau,
Pedreira, Pedra rolada, Sal (Rei), Salina, Salineiro, Terra Branca, etc.): LAGE,

22
RIBEIRA: ALTA, DA BARCA, DA CRUZ, DA VINHA, DAS POMBAS, DAS PRATAS, DE CALHAU, DO ILHÉU, DOM JOÃO, FILIPE,
FRIA, FUNDA, GRANDE, JULIÃO, JULIÃO, PRATA, RIBA, SECA, TORTA.
23
RIBEIRÃO: DE CAL, FUNDO, GALINHA, ISABEL, MANUEL.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
55
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

LAGEDO, LAJEDO, PEDRA (BARRO, DE JORGE, MOLAR, SERRADO), BARREIRO,


SALINEIRO, TERRA BOA, CHÃO BOM.
. Ar. Os grupos de ilhas classificadas consoante a posição relativamente aos
ventos alíseos (barlavento e o sotavento, dominantes ou contrários), o signi-
ficado no clima (semidesértico) e a chuva, com singularidade dum nome de
lugar: PINGO CHUVA.
. Fogo: PEDRA DE LUME, CHÃ DAS CALDEIRAS.

(ii) A terra e o mar: morfologia terrestre e acidentes do litoral. Cabo Verde


apresenta um relevo particularmente acidentado na generalidade das ilhas
(Fogo, Santo Antão, Santiago, p. ex.), entrecortado por áreas planáltica e va-
les, mais ou menos encaixados. O mar é uma presença constante, marcado
em todas as ilhas por nomes como Calheta, Ponta, Pontinha, Porto, etc., de-
nunciando acidentes ou diferentes formas de recorte do litoral.
24
. Montanhas e outras elevações: MONTANHA, MONTANHINHA, MONTE ,
MORRO, MORRO (BRAZ, VENTO), MORRINHO; SERELHO, SERRA MALAGUETA;
PICO ANTÓNIA, PICO (AGUDO, DA CRUZ, FREIRE, GOMES, LEÃO), PICOS ACI-
MA; CABEÇA DO MONTE, CABEÇA DOS TARRAFES, CABEÇA FUNDÃO, CABE-
ÇALINHO; ALTO MIRA, ARRIBADA, ATALAIA.
25 26
. Zonas planálticas: ACHADA e Chã são os topónimos muito difundidos,
ocorrendo outras designações aproximadas como Achadinha ou Plateau.
. Vales, lombas, costas e outras depressões mais ou menos encaixadas: VALE
DA CUSTA; FUNDO DAS FIGUEIRAS, FUNDURA; COVA DE JOANA, COVA FEI-
JOAL, COVA RODELA, COVADA, COVÃO GRANDE, COVOADA; BOQUEIRÃO,
BOCA (DE AMBAS RIBEIRAS, DE CORUJA, DE JOÃO AFONSO, LARGA), LOMBA,
LOMBA TAMTUM, LOMBO (BRANCO, DAS LANÇAS, DE FIGUEIRA, SANTA); TRÁS
OS MONTES, ENTRE PICOS, ENTRE PICOS DE REDA; CUTELO, CUTELO ALTO,
CUTELO GOMES, CANCELO, COSTA ACHADA; PORTAL, FURNA.
. Litoral marinho (Ponta, Pontinha, Porto, Praia, Calheta, Fajã): PONTA LOB-
RÃO, PONTA VERDE, CABO DA RIBEIRA, FAJA (D'AGUA, DE BAIXO, DOMINGAS
BENTA), FAJÃNZINHA, CANTO FAJÃ, BAIA, BAÍA DAS GATAS, CALHETA, PORTO
GOUVEIA, PORTO MADEIRA, PORTO MOSQUITO, PRAIA BAIXO, PRAIA BRAN-
CA, PRAIA FORMOSA, PRAIA GONÇALO.
(iii) Condições naturais (e especificidades) locais. Alguns lugares assumiram
os nomes da fauna e da flora do arquipélago, da sua biogeografia (animais e

24
MONTE: GRANDE, BODE, FARENEGO, JOANA, LARGO, NEGRO, POUSADA, TABOR, TRIGO, VERDE, VERMELHO.
25
ACHADA: BALEIA, BELBEL, BISCANHOS, COSTA, FAZENDA, FURNA, GALEGO, GOMES, GRANDE, IGREJA, JAGAU, LAGE,
LAGOA, LAMA, LAZÃO, LEITÃO, LEITE, LÉM, LONGUEIRA, LOURA, MEIO, MENTIROSA, MITRA, MOIRÃO, MONTE, POIO,
PONTA, TENDA., TOSSA.
26
CHÃ: DA SILVA, DAS CALDEIRAS, DE BRANQUINHO, DE COQUEIRO, DE IGREJA, DE LAGOA, DE MONTE, DE NORTE, DE
PEDRAS, DE PONTA, DE TANQUE, DE VACA, GONÇALVES
56 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

plantas), de associações vegetais (mato, relva, etc.), das condições biogeo-


gráficas locais.
. Plantas: BANANA, BANANA SEMEDO, ABOBOREIRO, ALFAROBA, PURGUEIRA,
FIGUEIRAS, FIGUEIRAL, FIGUEIRA, FIGUEIRA (DAS NAUS, DE COCHO, MUITA,
PAVÃO), PALMEIRA, TARRAFAL DE MONTE, TINTEIRA, BOFARREIRA, CALABACEI-
RA, HORTELÃ, FAVETA, FEIJOAL, MILHO BRANCO, TRIGO. AS HORTAS, BABOSA,
JUNCALINHO, JUNCO, ESPINHO BRANCO.
. Animais: CORVO, ALCATRAZ, GARÇA DE CIMA, TAGARRA, PATA BRAVA, POM-
BAS, LEITÃO GRANDE, LEITÃOZINHO, MOSQUITO D'HORTA, RABIL
. Associações vegetais: CARRIÇAL, PALHA CARGA, PALHAL, RELVA, MATINHO,
27
MATO
. Condições biogeográficas locais: VÁRZEA FERNANDES, VÁRZEA IGREJA,
LAMEIRÃO, RENQUE PURGA, CAMPINHO, CAMPO BAIXO, CAMPO DE CÃO,
CAMPANAS BAIXO, CAMPANAS CIMA, JARDIM

(iv) Processo de colonização: do povoamento primordial à matriz identi-


tária. A diversidade de nomes que se relacionam com estas problemáticas
remetem-nos para topónimos que nos identificam alguns elementos estrutu-
rantes do povoamento primordial ou a origem dos colonos que demandaram
Cabo Verde em busca da terra prometida. São frequentes lugares com nome
de pessoas, nome de santos e, mesmo, alguns nomes semelhantes ao de ou-
tros lugares portugueses (Nova Sintra, p. ex.). Se o desenvolvimento urbanís-
tico proporcionou novas formas de ocupação do território () é particularmente
interessante, marcando um cunho identitário, a profusão de muitos lugares
com nomes em crioulo.

1. Elementos estruturantes do povoamento primordial:


. Aldeia e Lugar. O nome ALDEIA aparece sem mais qualificativos, encontra-
mos uma (1) no Fogo, 1 em Santo Antão e 4 em Santiago. LUGAR, aparece com
diferentes qualificativos: BAIXO (Santa Catarina, Santiago); DE GUENE (Ribeira
Grande, Santo Antão), GRANDE (4, sendo 1 em Santa Cruz, 1 em São Lourenço
dos Órgãos, 1 em São Miguel e 1 em São Salvador Mundo, todos na ilha de
Santiago); NOVO (em Filipe, Fogo e São Salvador Mundo, Santiago) e 1 LUGAR
VELHO (Santa Catarina, Santiago); LUGARINHO, 2 (1, Brava; 1, Fogo); POVOA-
ÇÃO (Ribeira Grande, Santo Antão) e POVOAÇÃO VELHA (Boavista);
. Casas e povoados: tabanca, funco, quilombo e sanzala. O nome CASA
28
aparece com várias declinações , a par de BARRACA, CABANA, CHOUPA-
NA ou POUSADA e LAR; num ou noutro caso o nome diz respeito a habita-
ção precária ou nomes que nos remetem para um povoamento com forte

27
MATO (AFONSO, BAIXO, BRAZIL, CORREIA, ESTREITO, FORTES, GEGE, GRANDE, LIMÃO, MENDES, RAIA, SANCHO).
28
CASA: GRANDE, NOVA, VELHA, BRANCA, CARVALHO, CHOCA, CUTELO, DE MEIO, ESCOLA, TEIXEIRA.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
57
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

ligação e reminiscências do ancestral continente africano: TABANCA (Santa


Catarina, Santiago), FUNCO (FUNCO, FUNCO BANDEIRA, FUNCO MARQUES),
KILOMBO (Ribeira Grande, Santo Antão), SANGALA (S. Nicolau).
. Vilas e cidades: VILA (São Domingos, Santiago), VILA (CENTRO) (Tarrafal,
Santiago); VILA NOVA (Praia, Tarrafal e Santa Catarina (2) em Santiago e Por-
to Novo em Santo Antão); VILA NOVA/ LOMBO TANQUE (Mindelo, S. Vicente),
VILA QUENTE (Santa Cruz, Santiago); VILA CANTOR (Santa Catarina, Santiago).
Há ainda as 25 cidades, atrás referenciadas, de diferentes gerações, cujos
29
nomes tiveram origem nas designações das antigas povoações .
. Recantos e espaços de sociabilidade das povoações: BECO (CARLOS GO-
30
MES, DE PORTO), CANTO e CANTINHO, TRAVESSA, TRAVESSA (MANHANGUI-
NHA, DE BAIXO, GOIABA VAZ), LARGO DA IGREJA, LARGO GRANDE, LARGO
PRAÇA, TERREIRO, RECANTO, RECANTO DE RIBEIRÃO LARGO, RECANTINHO.
31
. Rua: Vários lugares declinam o nome RUA .
. Caminhos e pontes: Além de TAPUME e CARREIRA (9 lugares, todos em San-
tiago: Tarrafal, Santa Catarina (4) e São Lourenço dos Órgãos, São Miguel (2) e
São Salvador Mundo), CAMINHO GRANDE, QUATRO CAMINHO; PONTE, PONTE
CANAL, PONTE FERRO SANSAM, PONTE RIBA, PONTE SUL.
. Fortalezas e baluartes: CASTELO (Santa Catarina), CASTELO GRANDE e CAS-
TELINHO (São Domingos), ATALAIA FRENTE e ATALAIA TRÁS (Mosteiros, Fogo),
BALUARTE (S. Filipe, Fogo); BALUARTE DE BAIXO e BALUARTE DE CIMA (Santa
Catarina do Fogo), FORTALEZA, FORTE, FORTINHO, FORTINHO/ESCOLA TÉCNI-
CA; PAIOL, POSTO, GUARDA SANCHES, GUARDA VENTO. Além de FRONTEIRA.
. Igreja e outros sinais religiosos. IGREJA (Mosteiros, Fogo), IGREJINHA (2 lu-
gares, em Paúl e Ribeira Grande, na Ilha de Santo Antão) e CAPELA (2, São
32
Domingos e 1 em Santa Cruz, Santiago); CRUZ , enquanto nome simples: 7
em Santiago (Santa Catarina (2), São Domingos (3), São Salvador Mundo, São
Miguel e Tarrafal, 7 em Santo Antão (Ribeira Grande, 5); Porto Novo, 2), 1 na
Brava e 1 em S. Nicolau (Tarrafal). Ocorrem ainda nomes como CRUZ VERME-
LHA, CRUZEIRO, CRUZETINHA, CRUSINHO, CRUZINHA, DA CRUZ, VERA CRUZ
ou, ainda, CONVENTO (Ribeira Grande de Santiago, Santa Catarina e São Lou-
renço dos Órgãos em Santiago), OBRA (Tarrafal, Santiago) e MISERICORDIA
(São Lourenço dos Órgãos).

29
CIDADE DE: ACHADA IGREJA, ASSOMADA, CALHETA DE SÃO MIGUEL, COVA FIGUEIRA. ESPARGOS, IGREJA, JOÃO TEVES,
MANGUI, MINDELO, NOVA SINTRA, PEDRA BADEJO, POMBAS, PONTA DO SOL, PORTO INGLÊS, PORTO NOVO, PRAIA, RIBEIRA
BRAVA, RIBEIRA GRANDE, SAL REI, SANTA MARIA, SANTIAGO DE CABO VERDE, SÃO FILIPE, TARRAFAL, VARZÉA DA IGREJA.
30
CANTO: DE BAIXO, DE CIMA, DE ESPANHA, DE LADEIRA, DE VINHA, SILVEIRA.
31
RUA: ATRÁS, TRAZ, BANANA, CALHAU, CARREIRA, COMPRIDA, DE ÁGUA, DE PAPA, FRIA, D'HORTA, D'HORTA/RIBA
D'HORTA, DIANTE, DIREITA, DOS TRABALHADORES, DUM BANDA, ESCOLÁSTICA, FRENTE, LOURENÇA
32
CRUZ: DE AGUADA, COBOM GATO, DE BARREIRA, DE BEDJA, DE BICA, DE BORRACHA, DE CIMA, DE FUNDURA, DE MORRO,
DE PAPAIA, DE PICOS, GRANDE, NOVA, POILOM, SERR, BAIXO DAS ALMAS, DE CURRAL DAS VACAS, DE MULATO, DE
PORTAL, DE QUEMADA, DE ROQUE, JOÃO EVORA.
58 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

. Atividades artesanais: FORNO, FOR CAL, FORNALHA, TELHA, CHAMINÉ,


FERREIRO.
33
. Nomes relacionados com a criação de gado ou atividade pecuária: CURRAL ,
CURRALINHO, CHIQUEIRO BARBOSA, CHIQUEIRO VELHO, CHIQUEIRINHO,
ESTÁBUA, GALINHEIRO, MALHADA, MALHADA VELHA; CANCELA, CANCELO,
CANCELO BAIXO, CANCELO RIBA, CANCELO MITRA.
. Pequeno comercio local: LOJA, LOJINHA, TENDA, MERCADO, MERCADOR e
TABERNA (8 lugares com esta designação, todos em Santiago: Tarrafal, São
Domingos, Santa Catarina (3), São Domingos, São Lourenço dos Órgãos,
Santa Cruz)
. Crescimento e periferias urbanas: novas áreas urbanas, novas funções e
novas ocupações do solo. Os novos lugares que o Recenseamento autono-
mizou assumem em muitos casos nomes populares iniciais a que são acres-
centadas referências de áreas urbanas, ora residências ora dedicadas a ou-
tras funções. Além de nomes estrangeirados, como PLATÔ ou SUCUPIRA, uns
mais antigos outros de introdução recente, adquiriam estatuto de lugar como
nomes afins de:
. Bairro, localizados, fundamentalmente nas periferias de crescimento re-
cente dos principais lugares do país. BAIRRO (Porto Novo, Santo Antão),
BAIRRO ALTO (Paúl, Santo Antão), no Mindelo, S. Vicente (BAIRRO 1; BAIRRO
2; BAIRRO BRANCO) e na Praia, Santiago (BAIRRO NOVO; BAIRRO NOVO I;
BAIRRO NOVO II / RIBEIRA D'HOZ; BAIRRO MILITAR 8/24 Sal); BAIRRO CRA-
VEIRO LOPES).
. Centro das cidades, onde apareceram ruas e avenidas novas que o Recen-
seamento destaque como lugares autónomos: CENTRO (CIDADE), em Santa
Catarina, (Santiago) e S. Filipe (Fogo); CENTRO CIDADE/ MORADA (Mindelo,
S. Vicente) e CENTRO DE SAL REI/ SANTA ISABEL (Boavista); AVENIDA / RO-
TUNDA, AVENIDA LUXEMBOURG. Ou, então, antigas avenidas que recebe-
ram, depois da independência, novos nomes: AVENIDA AMILCAR CABRAL.
. Zonas centrais, de expansão recente, turísticas, etc.: ZONA CENTRAL (Maio);
ZONA CENTRAL/ZONA NÁCIA GOMI (Santa Cruz, Santiago); ZONA TRIANGU-
LO (Santa Cruz, Santiago); ZONA CENTRO (São Lourenço dos Órgãos, Santia-
go), ZONA CORREIO; ZONA BANCO (Santa Cruz, Santiago); ZONA DE HOTEIS
(Sal), ZONA DE EXPANSÃO DE BOM SOSSEGO/BOM SOSSEGO NORTE, ZONA
NORTE, ZONA PRAIA CABRAL, ZONA FAROL, ZONA TENDA/ZONA BELA VIS-
TA, COOPERATIVA (Santa Cruz), I.F.H. (Sal), KM 6 (Mindelo).
. Zonas industriais, fabris, armazéns, militares, etc.: PARQUE INDÚS-
TRIAL DO LAZARETO, ZONA INDÚSTRIAL (Boavista), ZONA INDUSTRIAL

33
CURRAL: GRANDE, VELHO, DA RUSSA, DAS VACAS, DAS VACAS DE BAIXO, DAS VACAS DE CIMA, DE CABRA, DE
MOCHOCURRAL OCHÔ.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
59
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

SUL (Mindelo, S. Vicente), PARQUE INDUSTRIAL DO LAZARETO (Mindelo, S.


Vicente), TIRA CHAPEU INDUSTRIAL, ARMAZEM, FABRICA, ZONA D' ZONA
EMPA (Maio), ZONA SHELL (Maio), ZONA ENAVI (Praia), ZONA DO AEROPOR-
TO (Praia), ZONA MILITAR (Mindelo), FORÇA AEREA (Sal).
. Outras designações mais recentes: MDR (Tarrafal), CENTRO FORMAÇÃO
(Maio), CLUB ONDAS DO MAR (Maio), COBI (São Salvador Mundo), COLÉGIO
(Santa Catarina; São Domingos), CONGRESSO (S. Filipe)

2. Colonização: a origem dos colonos que partiram em demanda da terra pro-


metida, onde a redenção se transformaria de penitência, ou forçados por motivos
religiosos (SINAGOGA, Ribeira Grande, Santo Antão) ou étnicos (CIGANA (S. Nico-
lau, S. Nicolau). Os colonos são oriundos de Portugal (ALENTEJANO e MINHOTO),
Espanha (GALEGO, JOÃO GALEGO, ACHADA GALEGO, CANTO DE ESPANHA, MEIO
DE ESPANHA), França (VASCONA (Porto Novo, Santo Antão), ACHADA BISCANHOS,
Inglaterra (PORTO INGLÊS, SPENCER). Outros nomes que indiciam proveniência
exterior: JOÃO DA NOLY (CIMA e DE BAIXO), MANCHOLY, FLAMENGO BAIXO (São
Miguel, Santiago), ITALIANO (S. Filipe, Fogo), VENEZA, MATO BRAZIL, BELÉM,
NOVA SINTRA.

3. Nome de pessoas: BEATRIZ PEREIRA, BRANDÃO, DOMINGO LOBO/MARIA


DA CRUZ, JALALO RAMOS, JOÃO AFONSO, JOAO BENTO / RIBEIRA DOS BODES,
JOÃO BERNARDO, JOÃO DA NOLY, JOÃO DIAS, JOÃO GALEGO, JOÃO GOTO, JOÃO
GUELA, LUZIA NUNES, MACHADO, MANUEL LOPES, MENDES FALEIRO CABRAL,
MENDES FALEIRO RENDEIRO, MIGUEL GONÇALVES, PEDRO HOMEM, PEDRO VAZ,
REBELO, REBELO ACIMA, TOMÉ BARRAZ, VELHO MANUEL, VICENTE DIAS, RUI
VAZ, PAI ANTÓNIO.

4. Nome de santos: SANTA BARBARA, SANTA CLARA, SANTA CRUZ, SANTA


ISABEL, SANTA MARIA, SANTANA, SANTO ANTÓNIO, SÃO CRISTOVÃO, SÃO DO-
MINGOS, SÃO JORGE, SÃO MARTINHO GRANDE, SÃO PEDRO, NOSSA SENHORA
DO MONTE.

5. Lugar com nomes de povoações portuguesas e nomes em crioulo. É inte-


ressante alguns nomes semelhantes a povoações portuguesas (NOVA SINTRA,
34
BELÉM) ou doutros países (VENEZA, p. ex.) . Temos, por outro lado, nomes de
34
Apesar deste número em Cabo Verde não ser tão expressivo como no Brasil, a permanência e mudança dos
nomes coloniais, é um tema que está na agenda. Em Cabo Verde, sobretudo os nomes mais relacionados
com personalidades coloniais, está mais presente na toponímia urbana, cuja problemática não é abordada
no âmbito deste ensaio. Contudo, é uma matéria que, noutros contextos, tem sido objeto de reflexão: “New
York, Nueva Leon, Nouvelle-Orléans, Nova Lisboa, Nieuw Amsterdam. Já no século XVI os europeus haviam
criado o hábito de baptizar lugares remotos, primeiro nas Américas e em África, depois na Asia, na Austrália
e na Oceania como “novas” versões dos (a partir de então) “velhos” topónimos das suas terras de origem.
60 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

lugares identificados, naturalmente, em crioulo, afirmando a língua como um fa-


tor importante de identidade cultural. Os exemplos que se passam apresentam
acabam por mostrar que os significados dos nomes acabam por reproduzir o que
temos vindo a comentar:

BADJA COXA São Salvador Mundo – lugar de dançar o batuque, pode ser pejorativo
como se conseguiu a terra, dando torno, usa-se “cumpra terra co torno”.
COCULI (Ribeira Grande) tem várias palavras em mandinga semelhantes, pode ter
origem nessa língua.
CUMBA (Santa Cruz) residência; CUMBA (S. Filipe) referente a Casa ou residência em
Mandinga.
CULUMBAN: significa grande, de tamanho descomunal, palavra de origem africana.
DJANGAGO (Santa Catarina): deve ser de origem africana, perdeu significado em CV.
DJAR FOGO São Miguel – ilha do Fogo, pode ser lugar de residência de alguém que
veio do Fogo.
CACHÉU (Santa Catarina; São Salvador Mundo): Cacheu pode estar relacionado com
o Rio da Guiné Bissau de onde vieram muitos escravos para Cabo Verde; mas o
original é “Ca Tcheu” significa escasso em algo, produção ou qualidade das terras.

DJÉU: ilhéu, pode ser rechã de achada entre dois vales; DJEZINHO: pequeno ilhéu;
DJANBAM (Santa Catarina): sítio ermo; DJEU DE METADE (S. Filipe): Ilhéu do maio,
ou de metade; DJEU DENTO (Mosteiros): ilhéu adentro; DJEU DI LORNA (Santa
Catarina do Fogo): ilhéu de Losna, planta endémica de Cabo Verde; DJEU RIBEIRA
GRANDE: ilhéu, planura entre dois vales.
KELEM (São Salvador Mundo): além, vertente além em frente desta casa ou deste
lugar de vista, alternativa; além, Lem de lá; KERLEM (ou Kelem): Corretamente
seria Kelém. KELOTU LADO (Ribeira Grande de Santiago); KELOTULADO (Santa
Cruz) aquele outro lado; o outro lado, Kelém, Lém.

Para mais, mantiveram essa tradição mesmo quando esses lugares passavam a pertencer a outros senhores
imperiais, como quando Nouvelle-Orléans passou a New Orleans, ou Nieuw Zeeland a New Zealand. Não é
que chamar “novo” a lugares políticos ou religiosos fosse em si mesmo assim tão novo. No Sudeste Asiático,
por exemplo, existem cidades consideravelmente antigas cujos no mes incluem também esse elemento
da novidade: Chiangmai (Cidade Nova), Kota Bahru (Vila Nova), Pekanbaru (Mercado Novo). No entanto, o
“novo” nesses nomes tem invariavelmente o significado de "sucessor” ou “herdeiro" de algo que desapa-
receu. “Novo” e “velho” alinham-se diacronicamente e o primeiro aparece sempre para invocar a bênção
ambigua do que morreu. O que é surpreendente nos topónimos americanos dos XVI a XVIII é que “novo” e
“velho” eram compreendidos sincronicamente, coexistindo no âmbito do tempo vazio e homogéneo. Havia
Vizcaya a par de Nueva Vizcaya London a par de London: um idioma de competição entre irmãos, em vez
de um idioma de herança” (p. 249). (…) “Se para os crioulos do Novo Mundo os estranhos topónimos acima
referidos representavam, figurativamente, a capacidade emergente de se imaginarem como comunidades
paralelas. comparáveis às da Europa, alguns acontecimentos extraordinários do último quartel do século
XVIII conferiram repentinamente essa novidade um significado completamente novo” (254). In Benedict
Anderson ([1983] 2005) – Comunidades Imaginadas. Reflexões sobre a orgiem e a expansão do naciona-
lismo. Edições 70, Lisboa.
A TOPONÍMIA DE CABO VERDE: APONTAMENTO SOBRE AS SUAS GEOGRAFIAS
61
Rui Jacinto, Maria Luísa Ferro Ribeiro

CADJETINHA (Santa Cruz): pequena calheta, praia de calhaus.


CULANCO: termo que significa precipício, terreno acidentado.
COBOM: Covão, vale profundo ou lugar de deitar lixo (COBOM, Ribeira Grande de
Santiago); COBOM S. Filipe – O termo é simples e é vulgar em Sotavento, de
covão, significa fundo do vale ou lugar onde se despeja o lixo, lugar ordinário; CO-
BONZINHO (São Salvador Mundo): pequeno covão. O topónimo Covão com várias
adjetivações: COBOM QUENTE; COBON DENTU (Covão adentro), COBON PA TRÁS
(alterativa ao covão de diante), COBON DE DJOBE (Covão de onde se vê), COBON
DE MAZPA (Coão de maus passos, porque tem finado ou almas penadas), COBON
FERNANDES (terreno dos Fernandes), COBON MONTEIRO (Covão do Sr Monteiro),
COBON TABARI (Covão dos Tavares), COBON VARELA (Covão do Sr Varela).
RATCHAM: pode ser rechã, ou divisão violenta.
XAGUATE (S. Filipe): Xaguate pode estar relacionado com enxaguar pela proximidade
de uma ribeira (XAGUATE BAIXO, XAGUATE CIMA, XAGUATE INDUSTRIAL, S. Filipe)

BEDJERA: abelheira, abelha;


BIMBIRIM: planta poácea da família do milho, sorgo; ZIMBROM: árvore vulgar em
Cabo Verde (Zizyphus mauritiana), Cimbron, Zimbrão, são aportuguesamentos
PADJERO: lugar de recolha de palha; PADJON: lugar de palha abundante; TCHUPANA:
choupana, pode ser alojamento de vigias ou guardas

DJI D'SAL: refrente do Sr Dji, alguém que veio do Sal e que mora nessa localidade.
Como Mané di Fogo.
NHA NINHA: Dona Aninha, possivelmente a antiga proprietária.
N'Ó N'Ó: N`ho N´ho (Gongon) – Pterodroma feae – lugar onde existe a ave com este
nome, ou onde existe fantasma de Egungun.
TCHON DE REIS: terrenos da família Reis.

REFERÊNCIAS
AUGÉ, Marc (2007 [1995]). Não lugares: introdução a uma antropologia da super-
modernidade. 90º Editora, Lisboa.
BASTIANI, Carla; ANDRADE, Karylleila dos Santos; PEREIRA, Carolina Machado Rocha
Busch (2018). TOPONÍMIA E GEOGRAFIA: DIÁLOGOS POSSÍVEIS NO CONTEXTO
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INDICADORES SOCIOECONÔMICOS
DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA
HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE
DE SANTIAGO (CABO VERDE)
MARIA LOSÂNGELA MARTINS DE SOUSA*
VLÁDIA PINTO VIDAL DE OLIVEIRA**
SÓNIA MARIA MELO DUARTE DA SILVA VICTÓRIA***

INTRODUÇÃO
O presente artigo trata da degradação ambiental e da desertificação em
bacias hidrográficas e tem como principal objetivo analisar como as condições
socioeconômicas podem influenciar na susceptibilidade a desertificação.
A pesquisa tem como estudo de caso a bacia hidrográfica da Ribeira Gran-
de de Santiago, localizada no arquipélago de Cabo Verde, na ilha de San-
tiago, região saheliana da África. A bacia em estudo está localizada ao Sul da
Ilha de Santiago, entre as coordenadas 23°38’00” e 23°34’00” W e 15°02’00”
e 14°54’00” N. Possui cerca de 15,91 km². As nascentes localiza-se no comple-
xo montanhoso do Pico da Antônia e deságua na planície litorânea da Cidade
Velha.Drena parcialmente dois conselhos municipais da ilha de Santiago: São
Domingos e Ribeira Grande de Santiago e possui quatro núcleos populacionais,
são eles: Cidade Velha da Ribeira Grande de Santiago, Calabaceira, Salineiro e
Achada Loura, com aproximadamente 632 famílias e 3096 habitantes, de acordo
com o Censo (2010) do Instituto Nacional de Estatística.
Do ponto de vista metodológico a pesquisa está fundamentada na Teoria
Geossistêmica, tendo na análise ambiental integrada para ainterpretação e com-
preensãoda dinâmica das paisagens da área, associada às condições de vida da
população. Parte-se dos estudos setoriais, visando estabelecer a inter-relação
entre os componentes naturais e a ação humana, através dos estudos geossis-
têmico. Através de estruturação dos geossistemas, dá-se ênfase à dinâmica as
paisagens.

*
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte [losangelaufc@gmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará [vladia.ufc@gmail.com]
***
Universidade de Cabo Verde [sonia.silva@docente.unicv.eu.cv]
64 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

A pesquisa está sistematizada em duas etapas principais: gabinete e campo.


Em gabinete foram desenvolvidas atividades referentes à revisão de literatura,
pesquisas documentais, levantamentos geocartográficos e de imagens de saté-
lites e suas devidas interpretações, confecção de mapas temáticos, elaboração
dos instrumentos de coleta de dados (fichas de campo), análise e interpretação
dos dados obtidos. A pesquisa documental realizou-se a partir de levantamentos
bibliográficos e coleta de dados junto aos órgãos governamentais e respaldada
por trabalhos de campo.
Como principais resultados, a pesquisa identificou que a susceptibilidade a
desertificação na Ribeira Grande é alta, tomando por base as condições socioe-
conômicas da população.

1. A PROBLEMÁTICA DA DESERTIFICAÇÃO
Ao tratar da degradação ambiental e da desertificação é importante conside-
rar que são termos complexos, necessitando para tanto, compreender os seus
conceitos, além de analisar as principais causas e efeitos. Assim, entende-se
por degradação ambiental a redução dos recursos naturais renováveis por uma
combinação de processosque podem conduzirà desertificação ou ao abandono
das terras (ARAÚJO, ALMEIDA, GUERRA 2010).
De acordo com o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação
(PAN-BRASIL) a “degradação da terra é compreendida como correspondendo à
degradação dos solos, dos recursos hídricos, da vegetação e da biodiversidade”
(BRASIL 2004, 23), resultando na redução da qualidade de vida das populações
afetadas.
Entre as principais causas da degradação ambiental, pode-se mencionar
além das questões naturais como terremotos, erupções vulcânicas, tsunamis,
as atividades humanas não condizentes com as potencialidades naturais. Quan-
do essas atividades são realizadas sem o devido respeito às limitações de uso,
ocorre o esgotamento gradativo dos recursos naturais. Dentre as atividades hu-
manas mais comuns que provocam a degradação ambiental, pode-se mencionar
o desmatamento; poluição dos solos, das águas e do ar; superpopulação, uso de
técnicas agrícolas inadequadas como queimadas e uso de defensivos agrícolas,
entre outras.
As consequências da degradação ambiental são diversas, a exemplo da re-
dução das potencialidades dos recursos naturais; diminuição da biodiversidade;
empobrecimento dos solos; comprometimento dos recursos hídricos através da
diminuição da disponibilidade hídrica; poluição dos corpos d’água; doenças de vei-
culação hídrica, desertificação; aumento da pobreza, da fome e da desigualdade
social.Sob essa percepção, a degradação ambiental através da deterioração dos
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
65
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

recursos naturais tem implicações no comprometimento da qualidade de vida


humana.
Assim sendo, a degradação ambiental pode ocorrer em qualquer área in-
dependente da condição climática que a mesma esteja submetida. Entretanto,
quando ocorre nos espaços sujeitos à aridez e à semiaridez, alcança o seu limite
com a desertificação. Este fenômeno é definido oficialmente como “a degrada-
ção de terras nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, como resultado
da ação de fatores diversos, com destaque para as variações climáticas e as ati-
vidades humanas” (BRASIL 2004, 23). Significa a destruição dos recursos naturais
como resultado da ação do homem e da variabilidade climática.
A desertificação pode ser entendida como consequência da degradação
ambiental quando instalada em ambientes cuja ecozonas climáticas, apre-
sentam variações entre áridas a subúmidas secas.As regiões secas foram as
primeiras áreas a serem povoadas no mundo e durante vários séculos foram
fornecedoras de matérias-primas e escravos, potencializando pobreza e sub-
desenvolvimento (MATALLO JÚNIOR 2001). Um dos principais problemas dessas
regiões é a desertificação. Segundo Brasil (2004), esse processo atinge 33%
da superfície da terra, onde vivem cerca de 2,6 bilhões de pessoas, ou seja, 42%
da população mundial.
As discussões a respeito da desertificação são bastante antigas. Alguns es-
tudos como Schenkel e Matallo Júnior (2003), apontam para a década de 1930,
quando o meio oeste americano, especialmente Oklahoma, Kansas, Novo Méxi-
co e Colorado sofreram grandes perdas econômicas e ambientais.
Na década seguinte, especialmente em 1949, o termo desertificação foi
usado por Albert Aubreville, um engenheiro francês que estudava o meio natu-
ral. Ele utilizou o termopara indicar as áreas que passavam por um estado de
degradação ambiental avançado na África (CONTI 1998). Contudo, o fenômeno
não foi exatamente definido, sendo conceituado como a conversão de terras
férteis em desertos, decorrentes da erosão do solo vinculada às atividades
humanas.
A partir da década de 1960, a problemática passou a receber atenção aca-
dêmica, institucional e política a nível mundial, com o agravamento da seca e da
fome na região do Sahel, na África. Esta região, localizada ao Sul do deserto do
Saara, sofreu prejuízos ambientais e humanos motivados por condições de se-
cas, principalmente no final da década de 1960 e início de 1970, período em que
morreram mais de 10 milhões de bovinos e cerca de 250 mil pessoas (Rhodes,
1992).
Compreendida como um problema de ordem mundial, capaz de afetar di-
retamente a qualidade de vida das populações e interferir no desenvolvimento
econômico, a desertificação passou a ser preocupação da comunidade inter-
nacional, a qual buscou desenvolver estratégias de combate ao fenômeno.
66 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Umas das primeiras iniciativas foi a Conferência das Nações Unidas para o
Meio Ambiente, em Estocolmo na Suécia, em 1972, que serviu de base para a
elaboração do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
e ali foi proposto um evento que discutisse profundamente a desertificação.
Como resultado foi realizada a Conferência das Nações Unidas sobre Deserti-
ficação (UNCOD) em 1977, em Nairobi, no Quênia. Nessa conferência foi criado
o Plano Mundial de Ação contra a Desertificação, que buscava desenvolver
ações em todo o mundo com a participação do maior número de países (Ma-
tallo Júnior, 2000).
O Plano de Ação de Combate à Desertificação (PACD), utilizou a definição
de aridez a partir do índice desenvolvido pela metodologia de Thornthwaitte.
Segundo esseautor, o índice de aridez é estabelecido dividindo o total de plu-
viometria (P) pela perda máxima possível de água por evapotranspiração (ETP).
Assim, foram identificadas cinco classes de variação do índice (Tabela 1).

Tabela 1. Índice de Aridez, conforme o tipo de clima

Clima Índice de Aridez


Hiper-árido < 0,05
Árido 0,05 – 0,20
Semiárido 0,21 – 0,50
Subúmido seco 0,51 – 0,65
Subúmido e úmido > 0,65

Fonte: Thornthwaitte (1955)

A década de 1990 presenciou um importante momento de debate sobre a


desertificação, na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e De-
senvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992 (Rio-92). Como resultado,
consagrou-sea definição do conceito de desertificação publicada na Agenda 21
ea negociação para a elaboração de três convenções: a Convenção sobre Mu-
dança Climática, a Convenção sobre Diversidade Biológica e a Convenção das
Nações Unidas de Combate à Desertificação nos Países afetados por Secas e/ou
Desertificação (UNCCD). Assim, os países que fazem parte dessa convenção de-
veriam elaborar seus respectivos programas de combate à Desertificação. Iden-
tificados como o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN),
marcava a principal estratégia de luta contra a desertificação.
Nesse contexto, Cabo Verde destaca-se como sendo o primeiro país africano
e do segundo no mundo a assinar e ratificar a Convenção de luta contra a de-
sertificação. O seu Plano Nacional foi elaborado em 1998 e aprovado em 2000
(ROCHA 2006).
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
67
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

No caso do Brasil, o PAN foi publicado em 2004. A partir daí, os estados


comprometidos com a problemática passaram a ter o compromisso de elaborar
seus planos estaduais.
No que se refere à desertificação em Cabo Verde, Semedo (2010) diz que
este fenômeno se constitui como o principal problema ambiental da atualidade
naquele país. Os efeitos das secas e as ações humanas são as suas principais
causas. As secas fazem parte do cotidiano de Cabo Verde. As histórias infantis, as
lendas e os romances literários caboverdianos como as obras Chiquinho (LOPES
1997) e Os Flagelados do Vento Leste (LOPES 1979), retratam com muita clareza os
desafios enfrentados por aquelas populações advindos das grandes secas.
As ações humanas podem ser traduzidas no desmatamento para a produção
de lenha para energia doméstica; na produção da pastagem para alimentar os
rebanhos, especialmente caprinos; e no uso inadequado dos solos para a prática
da agricultura extensiva (ROCHA 2006).

Nesta perspectiva, a desertificação manifesta-se em todo o país, de forma diferente


e de acordo com as características físicas das ilhas do arquipélago: por exemplo, no
Sal, Boa Vista e Maio, ilhas planas e arenosas, a desertificação manifesta-se, sobre-
tudo pelo desaparecimento quase total do coberto vegetal e por erosão eólica inten-
siva. Nas outras ilhas, os efeitos combinados das características geomorfológicos e
climáticas provocam um escoamento torrencial e uma erosão hídrica considerável
(ROCHA 2006, 15).

De acordo com Rocha (2006), a luta contra a desertificação (LCD) em Cabo


Verde, pode ser dividida em dois momentos. O primeiro, entre 1975, ano de sua
independência, e 1995 e o segundo a partir de 1995. No primeiro momento, o
governo buscou ações que visavam a redução da pobreza através da criação
de empregos e diminuição do êxodo rural. Obteve resultados consideráveis,
como maior conscientização nacional relacionada à LCD, formação de técni-
cos e camponeses, construção de infraestrutura hidráulica como poços, furos
e cisternas,além de medidas de contenção dos processos erosivos.No segundo
momento, o governo buscou desenvolver estratégias favorecendo a descentrali-
zação dos serviços técnicos, a privatização das atividades de proteção e gestão
dos recursos naturais, e a participação ativa e responsável das populações.
De acordo com Cabo Verde (2000), o PAN se apresenta um longo processo
longo que teve início com o I Fórum Nacional, realizado em novembro de 1995.
A partir dessas e de outras discussões, foi acordado que cada município deveria
desenvolver um Programa Municipal de Combate à Desertificação. Para tanto,
cada municipio realizou um diagnóstico participativo e preparou um relatório
que descreve a situação socioeconômica das diferentes áreas e propostas das
comunidades na luta contra a desertificação.
68 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Semedo (2010), tratando da desertificação na ilha de Santiago em Cabo Ver-


de, apresenta as modalidades de manifestação desse fenômeno nas diferentes
unidades de paisagem da ilha. Osobrepastoreio, exposição dos solos, saliniza-
ção dos solos e das águas, ravinamentos, deslizamentos de terra, erosão acele-
rada, supressão da cobertura vegetal original, regressão da fauna silvestre,são
sinais da problemática em voga.
O autor supracitado também chama atenção para a confirmação da luta
contra a desertificação naquele país saheliano. A permanência da população
por mais de cinco séculos indica que a população vem adquirindo certa expe-
riência na convivência com as secas e com as áreas em processo de deserti-
ficação.
As formas de armazenamento de água das chuvas em cisternas, as culturas
agrícolas a base de milho e o crescimento das áreas florestadas, passando de
5000 hectaresem 1975 para 60000 ha em 2000, indicam ações positivas de
convivência e experiências dessas populações (SEMEDO 2010).
Em síntese, pode-se entender que a desertificação naquele país, dá-se atra-
vés das consequências de uma atividade humana discrepante com as fragili-
dades dos sistemas ambientais do território insular e saheliano. Para Semedo
(2010) o modelo da sociedade escravocrata e as atividades econômicas desen-
volvidas ao longo do processo de ocupação, promoveram sérios problemas de
degradação ambiental em terras caboverdianas.

2. INDICADORES DE DESERTIFICAÇÃO
Para Abraham, Montaña e Torres (2006, 51), um indicador de desertificação é:

esencialmente una descripción simplificada de larealidad. Es por lo tanto um descrip-


tordel estado y de latendencia de unproceso, que debe facilitar la toma de decisio-
nes en la lucha contra la desertificación (OECD, 1991, 1998; WINOGRAD, 1994; RIDWAY,
1995; ECOSOC, 1995; WORLD BANK, 1995). Está integrado por distintas variables y da-
tos. Puede ser simple o muy complejo, cuando se logran índices.

Para os referidos autores, um indicador ou uma somatória de indicadores,


podem não trazer resultados adequados. Deve-se encontrar parâmetros que sa-
tisfaçam as condições para fornecer informações relevantes e adequadas. Dessa
forma, pode haver vários indicadores para o mesmo problema, buscando-se o
mais apropriado e, assim, construir um sistema de indicadores.
Cada indicador deve ser claramente identificado, fácil de medir, representati-
vo, válido em todas ou na maioria das escalas de estudo. Sua função é expressar,
representar ou medir o estado de uma variável (NAVONE, et al., 2006).
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
69
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

Os indicadores de desertificação vêm sendo estudados desde a década de


1970 (MATTALO JÚNIOR 2001). Mesmo assim, os pesquisadores ainda enfrentam
dificuldades de encontrar “modelos” ou de sistematizar os indicadores de forma
consensual. Indica-se que a primeira tentativa de formulação de um sistema de
indicadores de desertificação se deu durante a preparação para a Conferência
de Nairobi, em 1977. Os pesquisadores apresentaram suas contribuições, tendo
como resultado uma lista exaustiva de procedimentos. Como não ocorreram
novas tentativas de sistematização dessas metodologias, os estudos posterio-
res se dedicaram a trabalhar de modo disciplinar, abandonando a ideia de uma
metodologia geral.
Os esforços internacionais para a formulação do sistema de indicadores
demonstraram − através dos trabalhos apresentados em congressos interna-
cionais, como o International Symposium and Workshop on Desertification:
connecting science with communityaction, na Universidade do Arizona, em
1977, e o International Seminar on Indicators for assessing Desertification in the
Mediterranea, que ocorreu na Itália, em 1998 − que nos Estados Unidos e na
Europa existia um esforço mais no sentido da verticalização temática que na
tentativa de formulação de metodologias (MATTALO JÚNIOR 2001).
Quanto aos esforços regionais no trato dos indicadores de desertificação, o
autor supracitado indica que se destacaram a América Latina e o Caribe, sendo
desenvolvidas metodologias minimamente padronizadas. Brasil, Argentina, Bo-
lívia, Chile e Peru desenvolveram um programa de trabalho baseado em quatro
itens, a saber: 1. Definição de uma metodologia de indicadores de estudo a ser
desenvolvida nos cinco países; 2. Teste e validação da metodologia; 3. Treina-
mento de equipes em cada país e 4. Realização de estudos e monitoramento em
cada país. Esse projeto foi elaborado e apresentado ao Banco Interamericano do
Desenvolvimento (BID). Embora não sendo aprovado, se constituiu como uma
importante atividade de discussão e proposta sobre o tema. Posteriormente,
parte dessa metodologia foi negociada entre a Universidade do Chile e a Food
and Agricultural Organization (FAO), sendo implementada nos cinco países.
Cada país reunia um conjunto de indicadores considerados relevantespara
uma metodologia unificada. O documento brasileiro foi coordenado por Matallo-
Júnior e contou com a participação de diversas instituições como o Instituto
Desert, FUNCEME, IBAMA, IBGE e Departamento de Geografia da Universidade
de São Paulo.
Como resultado foi selecionado um conjunto de indicadores, que foram dividi-
dos em físicos, biológicos e socioeconômicos. Juntamente com os resultados dos
outros países, foi enviado à FAO. Esse documento, embora de suma importância,
não formula uma metodologia unificada, por possuir uma grande quantidade de
indicadores (52), o que gera dificuldade operacional e metodológica. Diante de tal
situação, o secretariado da Convenção da Desertificação formulou um Plano de
70 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Ação Regional com a prioridade de definir e aplicar uma metodologia unificada.


Para tanto, propôs uma nova metodologia, que fosse diferente das anteriores.
A nova proposta elaborou uma matriz classificandoosIndicadores de Situa-
ção e Indicadores de Desertificação. Os indicadores de situaçãosão aqueles que
podem ajudar a caracterizar o fenômeno, devendo seracompanhados e monito-
rados. Os índices sociais, econômicos e elementosclimáticos são exemplos de
indicadores que ajudam a caracterizar a situação. Osindicadores de desertifi-
cação, por sua vez, são aqueles que podem, de fato,identificar o problema, ou
seja, são aqueles que percebem os processos relativos àperda da capacidade
produtiva da terra. Assim, devem se referir principalmente àdegradação do solo,
da vegetação e dos recursos hídricos.
De acordo com essa proposta, os dados socioeconômicos não devem ser-
considerados como indicadores de desertificação, pois não necessariamente
identificam de fato o problema. Uma área desertificada, ou em processo de
desertificação, pode obter índices sociais elevados ou positivos em função da
implantação de uma política pública de investimento para um determinado setor,
por exemplo. Enquanto outra área pode apresentar dados sociais muito baixos e
não enfrentar problemas de desertificação (MATALLO JÚNIOR 2001).
Segundo o referido autor, a matriz resultante dessa proposta foi apresentada
na IV Reunião Regional da América Latina e Caribe e aprovada como parte do
plano regional. Diante de todas essas propostas, como resultado, de fato, veri-
fica-se que não há consenso de qual matriz deve ser adotada na região. Além
disso, nunca foram aplicadas e devidamente testadas nesses países.
Com relação aos indicadores de desertificação no Brasil, Matallo Júnior
(2001), identifica algumas fragilidades teóricas e metodológicas importantes. Na
sua concepção, é necessário diferenciar as metodologias de identificação do fe-
nômeno e as metodologias de estudo desses processos. Sem essa diferenciação,
os sistemasde indicadores continuarão complexos, gerando certas desconfianças.
Há ainda uma tendência de utilizar os indicadores sociais, econômicos e fí-
sicos em um único sistema, como se fosse a simples inclusão dos diferentes
indicadores que proporcionasse melhoria de conhecimento. O autor ratifica que
é importante romper com essa ideia para a melhoria do conhecimento e da cre-
dibilidade sobre o tema.
Para Matallo Júnior (2001), as principais contribuições relacionadas às meto-
dologias de indicadores no Brasil são de Vasconcelos Sobrinho, do Instituto De-
sert, e a proposta regional da América Latina e do Caribe. Vasconcelos Sobrinho
(1978), além da sua contribuição relacionada coma questão espacial (núcleos
de desertificação), trabalhou com 36 indicadores agrupados em 4 categorias:
físicas, biológicas, agropecuárias e socioeconômicas.
Os principais problemas com essa metodologia dizem respeito à aplicabilidade,
por possuir muitas variáveis, à necessidade de uma equipe multidisciplinar
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
71
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

especializada, à disponibilidade de dados, trabalhos de campo e à inexistência


de algum tipo de ponderação entre os indicadores.
O Instituto Desert apresenta a primeira formulação de metodologia contando
com 19 indicadores, divididos em físicos, biológicos e socioeconômicos.Apresen-
ta uma matriz de presença ou ausência, fazendo um tratamento linear dosdados
visando a identificação dos processos. Assim, as áreas foram classificadas em
três níveis, conforme mostra o Quadro 1.

Quadro 1. Grau de desertificação conforme a proposta do Instituto Desert

Níveis de desertificação Quantidade de indicadores presentes (Total 19)


Muito Grave No mínimo 15
Grave Entre 11 e 14
Moderada Entre 06 e 10

Fonte: Matallo Júnior (2001)

A metodologia dos indicadores apresenta alguns problemas, necessitando


ser cada vez mais testada e aprimorada. Matallo Júnior (2001), chama atenção
para a questão da validação dos indicadores: osque devem ser adotados e os
que devem ser rejeitados. Além disso, apontam para arevisão dos indicadores
e propõem agrupá-los em quatro grandes linhas: I. Índice de degradação física/
química e biológica; II. Índice de manejo dos recursos naturais; III. Indicadores
sociais e econômicos da desigualdade e estagnação; IV. História de ocupação.
Essa proposta vem sendo testada desde a década de 1970, embora possua
problemas.Sua grande contribuição está em conseguir selecionar, organizare
aplicar uma metodologia de indicadores.
Abraham e Beekman (2006), no trabalho “Indicadores de desertificaçãopara
a América do Sul”, propõem revisar a metodologia para selecionar os indicado-
res. Para os autores, a seleção dos indicadores pode ajudar a comparar osresul-
tados de diversas áreas ou países no exame das possíveis ligações. Nesse sen-
tido, os procedimentosmetodológicos adotados para obtenção de indicadores
de desertificação devem ser de formaparticipativa (ABRAHAM, MONTAÑA e TORRES
2006).
Para os autores o sistema de avaliação emonitoramento da desertificação
deve seguir sete passos básicos: I) Acordos preliminares: identificação de pro-
blemas, atoresenvolvidos, áreas de intervenção e escala de trabalho; II) Pro-
blemas e objetivos: definição e priorização de problemas,objetivos, hipóteses
de impactos e de atuação; III) Diagnóstico; IV) Avaliação: obtenção e avalia-
ção de indicadores de desertificação esistema de avaliação e monitoramento;
72 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

V) Identificação de soluçõese campos de atuação; VI) Respostas: Programa de


atuação; e VII) Monitoramento e acompanhamento.
O modelo de avaliação dedesertificação deve priorizar os problemas (proces-
sos ou fatores) de desertificação por unidades ambientais (ABRAHAM, MONTAÑA
e TORRES 2006). Cada problema deve gerar um objetivo que, por sua vez,deve
construir um indicador ou uma série de indicadores para reconhecer adinâmica
dos sistemas.
Abraham e Beekman (2006) apresentam o conjunto de indicadores adotados
pelo Programa “Combate à desertificação na América do Sul”. Os indicadores
foram selecionados a níveis nacional (72) e local (107) e foram divididos em qua-
tro categorias: fatores abióticos; biofísicos; sociais e econômicos; institucionais
e organizacionais.
Oliveira (2012), com base no sistema de indicadores de Abraham eBeekman
(2006), apresenta os indicadores biofísicos de desertificação em CaboVerde. De
acordo com os indicadores biofísicos, foi estabelecido os índices de desertifica-
ção de modo que o maior valor do índice biofísico indica maior estado de con-
servação (Tabela 2).

Tabela 2. Intervalos dos indicadores biofísicos de desertificação

Indicadores Biofísicos de Desertificação Intervalos


Muito Baixo > 3,36
Baixo 3,20 – 3,36
Moderado 2,80 – 3,19
Alto 2,64 – 2,79

Fonte: Oliveira (2011)

Adotando as contribuições de Oliveira (2011), Sousa (2016) buscou contribuir


com a metodologia dos indicadores através do estudo da susceptibilidade a de-
sertificação no Brasil e em Cabo Verde. Para tanto, a autora, além de trazer os
indicadores biofísicos propostos por Oliveira (2011), apresentou indicadores so-
cioeconômicos e aplicou na bacia hidrográfica da Ribeira Grande de Santiago
em Cabo Verde.

MATERIAL E MÉTODOS

O presente texto apresenta resultados parciais do trabalho de tese intitulado:


Susceptibilidade à degradação/desertificação na sub-bacia hidrográfica do riacho
Feiticeiro (Ceará/Brasil) e na microbacia da Ribeira Grande (Santiago/Cabo Verde).
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
73
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

A pesquisa está sistematizada em duas etapas principais: gabinete e campo.


Em gabinete foram desenvolvidas atividades referentes à revisão de literaturas,
pesquisas documentais, levantamentos geocartográficos e de imagens de saté-
lites e suas devidas interpretações, confecção dos mapas temáticos, elaboração
dos instrumentos de coleta de dados (fichas de campo), análise e interpretação
dos dados obtidos.
A revisão de literatura está relacionada aos levantamentos bibliográficos,
com base na fundamentação teórica que parte de questões referentes aos es-
tudos da Geografia Física, Teoria Geossistêmica, análise ambiental integrada,
degradação/desertificação, bacias hidrográficas, semiaridez, planejamento am-
biental, entre outros assuntos.
A pesquisa documental se refere à coleta de dados junto aos órgãos go-
vernamentais como o Instituto Nacional de Estatística (INE), Instituto Nacional
de Gestão do Território (INGT), Instituto Nacional de Investigação e Desenvol-
vimento Agrário (INIDA), Instituto Nacional de Gestão dos Recursos Hídricos
(INGRH).
Para a produção cartográfica, foram utilizadas técnicas de geoprocessamen-
to e de sensoriamento remoto, através de programa de computador software
Arcmap 10.1. e Spring. A base cartográfica de Cabo Verde está baseada na Planta
de Zonagem Geológica de Santiago na escala 1:10.000 datada de 2003, além
dos mapas geomorfológicos, pedológicos, de vegetação, uso do solo entre ou-
tros materiais, apresentados no Plano Diretor Municipal da Ribeira Grande e de
São Domingos.
Na segunda etapa da pesquisa, o campo, foi realizado o reconhecimento da ver-
dade terrestre, preenchimento das fichas de campo e confirmação dos dados ma-
peados com suas devidas correções. Vale ressaltar, que os trabalhos de campo rea-
lizados na bacia da Ribeira Grande, foram realizados no período denovembro/2014
ajaneiro/2015, durante a realização do Doutorado Sanduíche Brasil/Cabo Verde,
através do Intercâmbio Internacional Brasil/Cabo Verde, apoiado pela CAPES.
Quanto aos indicadores de desertificação, buscou-se fazer um diagnóstico
geoambiental da área pesquisada, baseado na análise integrada da paisagem.
Nesta perspectiva, foram selecionados 8 indicadores geobiofísicos (IGBFD) e 11
socioeconômicos (ISED). Para o presente artigo será dada atenção aos indicado-
res socioeconômicos.
Quanto aos indicadores socioeconômicos de desertificação (ISED) foram
analisados dados sobre população, educação, estrutura fundiária, atividades
econômicas e pobreza.
74 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Quadro 2. Indicadores de Desertificação

TEMA INDICADOR
População Densidade demográfica
Educação Escolaridade
Estrutura fundiária Propriedade da terra
SOCIOECONÔMICOS

Atividade econômica Agricultura


INDICADORES

Pecuária
ISED

Extrativismo vegetal
Pobreza Renda familiar
Abastecimento de água
Tratamento da água
Matriz energética
Destino dos resíduos sólidos

Fonte: Elaboração do autor

O Quadro 3 apresenta os indicadores socioeconômicos e seus valores. Os


mesmos variam de 1 a 5 sendo que quanto mais próximos de 1 haverá maior
susceptibilidade à desertificação; quanto mais próximo de 5, haverá menor sus-
ceptibilidade ao processo.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Os indicadores socioeconômicos de desertificação aplicados na bacia da


Ribeira Grande, totalizam onze, conforme mostra a matriz de indicadores apre-
sentados na metodologia. Para tanto, buscou-se compreender como os mesmos
podem contribuir para a identificação dos processos de desertificação na área
estudada.
As condições socioeconômicas da bacia hidrográfica da Ribeira Grande de
Santiago apresentam características que podem potencializar os processos de
degradação ambiental e facilitar os avanços da desertificação. Tomamos como
objeto de análise os seguintes indicadores socioeconômicos: densidade demo-
gráfica, escolaridade da população, estrutura fundiária, atividades econômicas
(agricultura, pecuária, extrativismo vegetal), renda familiar, fonte de abasteci-
mento de água, tratamento da água, matriz energética e destinação dos resí-
duos sólidos.
A densidade da população pode implicar na pressão sobre os recursos natu-
rais advinda das suas atividades. A densidade demográfica da área em questão,
de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), é de aproximadamente
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
75
Maria Losângela Martins de Sousa, Vládia Pinto Vidal de Oliveira, Sónia Maria Melo Duarte da Silva Victória

Quadro 3. Indicadores socioeconômicos de Desertificação aplicados


na bacia hidrográfica da Ribeira grande de Santiago

INDICADORES SOCIOECONÔMICOS
População Hab/km² V.I Justificativa do Indicador
(Densidade demográfica)
Nula (Não habitado) 0 (5) A densidade da população pode ajudar na com-
Baixa 1 – 100 (4) preensão das atividades humanas capazes que
ISED1

Média 101 – 200 (3) geram pressão sobre os recursos naturais.


Média-alta 200 – 400 (2)
Alta > 500 (1)
Escolaridade V.I. Justificativa do Indicador
Ensino Superior (5) A escolaridade pode refletir nas condições de
Ensino Médio (4) vida da população, através do desenvolvimento
ISED2

Ensino Fundamental (3) de atividades econômicas e obtenção de renda.


Alfabetizado (2)
Analfabeto (1)
Estrutura fundiária (hectares) V.I Justificativa do Indicador
>50 (5) A estrutura fundiária pode indicar e justificar
21 – 50 (4) as formas de uso e ocupação da terra e suas
ISED3

11 – 20 (3) consequências.
1 – 10 (2)
Sem terra (1)
Atividade econômica % de V.I. Justificativa do Indicador
/Agricultura famílias
Muito fraco 1 a 20 (5) As atividades econômicas podem sugerir a
Fraco 21 – 40 (4) intensidade de uso da terra e apontar para as
Moderado 41 – 60 (3) principais causas da degradação ambiental. No
ISED4

Forte 61 – 80 (2) caso da agricultura pode indicar desmatamen-


Muito forte 81 – 100 (1) to, erosão e contaminação do solo, surgimento
de pragas e desequilíbrio ambiental.
Atividade econômica % de V.I Justificativa do Indicador
/Pecuária famílias
Muito fraco 1 a 20 (5)
Fraco 21 – 40 (4) Informações relacionadas à pecuária pode tra-
ISED5

Moderado 41 – 60 (3) zer informações pertinentes ao desmatamento


Forte 61 – 80 (2) da área, compactação do solo, ações erosivas,
Muito forte 81 – 100 (1) entre outras.

Atividade econômica % de V.I. Justificativa do Indicador


/Extrativismo vegetal – famílias
ISED6
Muito fraco 1 a 20 (5)
Fraco 21 – 40 (4) A intensidade do extrativismo vegetal é capaz
ISED6

Moderado 41 – 60 (3) de indicar o grau de degradação ambiental.


Forte 61 – 80 (2)
Muito forte 1 – 100 (1)
76 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Renda familiar – V.I. Justificativa do Indicador


Acima de 6 salários mínimos + 75% (5) A renda familiar pode fornecer informações
Entre 4 e 6 54 – 75 % (4) sobre as condições de vida da população, seu
ISED7

Entre 2 e 4 32 – 53 % (3) estado de pobreza ou de riqueza.


Entre 1 e 2 10 – 31 % (2)
Até 1 < 10 % (1)
Fonte de abastecimento de água V.I. Justificativa do Indicador
Rede pública (5) As fontes de abastecimento de água trazem
Poços (4) informações relacionadas a qualidade de vida
ISED8

Açudes/lagoas (3) e saúde da população.


Carros pipas (2)
Abastecimento precário (1)
Tratamento de água V.I. Justificativa do Indicador
Tratada (5) Informações sobre o tratamento da água tam-
Fervida (4) bém pode trazer informações sobre as condi-
ISED9

Filtrada (3) ções de saúde da população.


Clorada (2)
Sem tratamento (1)
Matriz energética V.I. Justificativa do Indicador
Elétrico (5) A matriz energética pode indicar as condições
Somente gás (4) de pobreza da população, bem como informa-
ISED10

Gás e lenha (3) ções sobre as condições ambientais.


Lenha e gás (2)
Somente lenha (1)
Destino dos resíduos sólidos V.I. Justificativa do Indicador
Aterro sanitário (5) O destino do lixo pode implicar diretamente na
Coletado (4) degradação ou preservação ambiental. Quando
ISED11

Enterrado (3) disposto em locais inadequados geram proble-


Queimado (2) mas variados ao ambiente e a sociedade.
Jogado a céu aberto (1)

Fonte: Elaboração do autor.

194hab/km², considerando o contingente populacional de 3096 habitantes distri-


buídos em 15,91 km², área da bacia.
A maior concentração humana está na Ribeira Grande de Santiago, conheci-
da como Cidade Velha, que conta com aproximadamente 1200 habitantes. Nos
demais núcleos humanos, a ocupação é pontual e isolada. As comunidades de
Calabaceira,Salineiro, e Achada Loura contam com 336, 1113 e 403 habitantes,
respectivamente.
O nível de escolaridade desta população é extremamente baixo. Predomina o
Ensino Fundamental. O baixo nível de escolaridade reflete-se no comprometimen-
to do desenvolvimento socioeconômico das populações da bacia e, consequente-
mente, no avanço dos problemas ambientais advindos de práticas mal manejadas.
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
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De acordo com o gráfico 1, pode-se verificar que apenas 1% dos chefes de


família da bacia da Ribeira Grande,possui o ensino médio e 5% ensino superior;
94% dos chefes de família possuem no máximo o ensino secundário.Este dado
tem significativa relevância no sentido de perceber os avanços da expectativa
de melhoria de renda. Sem educação e mão de obra qualificada, o acesso ao
mercado de trabalho fica extremamente limitado, fazendo com que as atividades
ligadas ao setor primário da economia prevaleçam.

Gráfico 1. Escolaridade da população de Ribeira Grande

1% 5%

14% 4% Analfabeto
Pré-escolar
E. básico
E. secundário
33%
E. médio
Bacharel ou Superior

43%

Fonte: INE (CENSO, 2010).

Considerando a estrutura fundiária da Ribeira Grande, verifica-se que as famí-


lias não são proprietárias de terras. A maior parte das terras pertencem ao Estado,
bem como a alguns moradores antigos que possuem grandes propriedades. Para
usufruírem das terras, os agricultores familiares utilizam o sistema de arrendamen-
to. A estrutura fundiária concentrada pode repercutir diretamente nos avanços da
degradação ambiental e da Desertificação, pois as pequenas propriedades são
superexploradas, sem adequação dos períodos de pousio da terra, extrapolando
assim, a capacidade de suporte dos seus sistemas ambientais.
Dentre as atividades econômicas praticadas na Ribeira Grande, pode-se des-
tacar a agricultura, pecuária e extrativismo vegetal. Essas atividades se desen-
volvem em todos os sistemas ambientais, inclusive naqueles em que a popula-
ção residente é nula.Estas atividades exigem bastante atenção pois, as técnicas
utilizadas, pautadas no extrativismo indiscriminado, inexistência de período de
pousio da terra, sobrepastoreio, queimadas, entre outras, podem provocar gra-
ves problemas de degradação e de Desertificação e comprometer ainda mais as
condições sociais das populações locais.
A renda familiar da Ribeira Grande é extremamente baixa, em raros casos ul-
trapassando um salário mínimo (Gráfico 2). De acordo com dados do INE (2010),
78 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

mais de 80% dos chefes de famílias possuem renda mensal inferior a um salário
mínimo, o equivale a aproximadamente 11000,00 Escudos cabo-verdianos (ECV),
correspondente a cerca de R$ 400,00. Apenas 4% dos chefes de família recebem
acima de 35000,00 ECV, ou R$ 1200,00.

Gráfico 2. Renda Familiar dos chefes de família da bacia da Ribeira Grande de Santiago.

100

80
% Chefes de família

60

40

20

0
<1 entre 1 e 2 >2
salários mínimos

Fonte: INE (CENSO, 2010).

As principais fontes de rendasão os empregos com saláriosmínimos, seguido


de aposentadorias/pensões e além de ajuda de familiares.
O abastecimento de água na Ribeira Grande também se constitui como um
elemento de atenção, pois é bastante precário. A população da Cidade Velha é
abastecida pela rede pública, enquanto as comunidades rurais são abastecidas
por chafarizes ou carros pipas.
O tratamento da água também se constitui como um problema. A mesma é
clorada, sendo que as famílias se responsabilizam por tratamentos alternativos
como filtros ou fervuras. A falta de água devidamente tratada, pode gerar inú-
meros problemas de saúde à população, repercutindo negativamente na sua
qualidade de vida.
A matriz energética da Ribeira Grande(Gráfico 3) é constituída pelo consórcio
lenha e gás. A Cidade Velha é quem mais cozinha a gás na bacia, enquanto que
a comunidade rural de Achada Loura é a que mais utiliza a lenha. Entender que
a população cozinha utilizando lenha, significa que práticas de manejo florestal
devem acontecer para inibir o desmatamento.
A destinação dos resíduos sólidos na bacia deve ser analisada com atenção. De
acordo com o Gráfico 4, nas comunidades rurais os resíduos sólidos são dispostos a
céu aberto. A coleta de modo mais significativo ocorre na cidade velha, em virtude
de existir carros coletores. Tal situação pode repercutir negativamente no ambiente
e provocando degradação generalizada, poluição dos recursos hídricos e solos.
INDICADORES SOCIOECONÔMICOS DE DESERTIFICAÇÃO NA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA GRANDE DE SANTIAGO
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Gráfico 3. Matriz energética da bacia hidrográfica da Ribeira Grande.

100

80
% Famílias

60

40

20

0
Cidade Velha Calabaceira Salineiro Achada Loura

Gás Lenha

Fonte: INE (CENSO, 2010).

Considerando a matriz de indicadores por sistema ambiental (Tabela 21),


verificamos que o Maciço Residual do Pico da Antónia e as Cristas residuais
apresentam susceptibilidade baixa (valor 5) com relação à densidade demo-
gráfica, moderada (valor 3) com relação a pecuária e alta (valor 2), com relação
à agricultura e ao extrativismo vegetal.

Gráfico 4. Destino dos resíduos sólidos da bacia da Ribeira Grande de Santiago.

%
100

80

60

40

20

0
Cidade Velha Calabaceira Salineiro Achada Loura

Coletado Enterrado/queimado A céu aberto Outros

Fonte: INE (CENSO, 2010).

As achadas parcialmente dissecadas apresentam susceptibilidade variando


de moderada a alta. Prevalece os valores 1 e 2 destacados em vermelho e em
80 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

minoria os valores 3 e 4 destacados em amarelo. Ou seja, dos 11 indicadores


socioeconômicos, 8 apresentam susceptibilidade alta à desertificação e apenas
3, situação moderada. Esta refere-se à densidade demográfica, escolaridade e
agricultura.A densidade demográfica não ultrapassa 200 hab/km² neste siste-
ma.A população, em sua maioria, é alfabetizada e 60% das famílias desenvolve
algum tipo de agricultura.
Os indicadores referentes à susceptibilidade alta são a estrutura fundiária −
que nas achadas da bacia em questão os chefes de família não possuem terras
− a pecuária e o extrativismo vegetal,que são praticados por cerca de 80% das
famílias. A renda familiar, não ultrapassa um salário mínimo.O abastecimento de
água precário, tratamento da água apenas com cloro, matriz energética domina-
da pelo consórcio de lenha e gás e os resíduos sólidos, (jogados à céu aberto),
conduzemà degradação dos recursos naturais e poluição generalizada.
De acordo com a tabela 3, os cones vulcânicos são os sistemas menos suscep-
tíveis à desertificação na bacia. Os índices variam de 3 e 4, considerado moderado
(amarelo) e 5, considerado baixo (verde). É o único sistema que nenhum dos indi-
cadores apresentam susceptibilidade alta. O melhor índice ficou referente à den-
sidade demográfica que é nula, enquanto as atividades econômicas (agricultura,
pecuária e extrativismo vegetal) apresentam susceptibilidade moderada.

Tabela 3. Síntese dos indicadores socioeconômicos de Desertificação


na bacia da Ribeira Grande.

Fonte: Elaboração da autora. ISED1: Densidade demográfica, ISED 2: Escolaridade, ISED3:Estrutura Fundiária,
ISED 4: Agricultura, ISED 5: Pecuária, ISED 6: Extrativismo vegetal, ISED 7: Renda familiar, ISED 8: Fonte
de abastecimento de água, ISED 9: Tratamento da água, ISED 10: Matriz energética, ISED 11: Destino dos
resíduos sólidos.

As planícies fluviais apresentam susceptibilidade à desertificação, varia de


baixa, (referente ao abastecimento de água, que no caso se dá por rede pública),
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a moderada, (referente à pecuária e ao tratamento da água); e, alta (referente ao


demais indicadores), ou seja dos 11 indicadores socioeconômicos, 8 apresentam
susceptibilidade alta. A densidade populacional é alta principalmente devido à
presença da Cidade Velha, a maior concentração populacional da bacia.A esco-
laridade é baixa, a maioria da população é apenas alfabetizada, a agricultura
e a pecuária são muito fortes, praticadas por mais de 80% das famílias, o ex-
trativismo vegetal é forte, a renda familiar muito baixa, o tratamento da água e
a destinação dos resíduos sólidos também comprometem a qualidade de vida
daquela população.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A desertificação é um problema sério que acomete os recursos naturais, es-
pecialmente das áreas submetidas às condições climáticas específicas conforme
propõe o conceito oficial apresentado na ONU. A problemática está fortemente
associada às atividades humanas e não pode ser confundida com qualquer pro-
cesso de degradação ambiental. O poder de depauperação dos geoambientes
contidos nessas ecozonas climáticas e a dificuldade de reversibilidade, chamam
a atenção para este fenômeno.
Na tentativa de melhor perceber a desertificação muitos estudos estão sendo
desenvolvidos. Diante dos esforços de atingir uma metodologia de indicadores
unificada, o que ainda é uma busca, a presente pesquisa optou por trabalhar
com a metodologia proposta por Abraham e Beekman (2006), fortalecida por
trabalhos de Oliveira (2012) em que foramconsiderados os indicadores geobiofí-
sicos e socioeconômicos, a fim de estabelecer índices de desertificação.
Essa metodologia ainda está sendo desenvolvida e aprimorada, e já vem
demonstrando sua importância para detectar o grau de comprometimento dos
geoambientes, frente à desertificação.
As bacias hidrográficas semiáridas são propícias a desenvolverem a deserti-
ficação em face da relação conflituosa entre sociedade/natureza, como ocorre
na Ribeira Grande de Santiago em Cabo Verde. A áreaestá submetida às condi-
ções climáticas agressivas e seus sistemas ambientais encontram-se bastantes
fragilizados. Além disso, as condições socioeconômicas da população são extre-
mamente baixas o que contribui para artificializar e desfigurar os geoambientes
pelas práticas degradadoras.
Os indicadores socioeconômicos mostram que a bacia apresenta alta suscepti-
bilidade à desertificação nas Achadas Parcialmente Dissecadas, nas Planícies Flu-
viais e na Planície Litorânea. Nesses sistemas, ocorre um predomínio de valores
baixos entre 1 e 2, o que indica as piores condições que potencializam a desertifi-
cação. A estrutura fundiária concentrada em que os chefes de família não possuem
82 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

terra, pecuária extensiva e mal manejada, extrativismo vegetal descontrolado,


baixa renda familiar, dificuldade de abastecimento da água e com tratamento
precário, matriz energética concentrada no consórcio lenha e gás, e disposição
dos resíduos sólidos a céu aberto, contribuem para tornar aqueles sistemas mais
susceptíveis à desertificação.
O Maciço Residual do Pico da Antônia e as Cristas Residuais, apresentam sus-
ceptibilidade moderada tomando como análise os indicadores socioeconômicos.
Isso se justifica em virtude da densidade demográfica e da pecuária apresenta-
rem índices positivos, inibindo a susceptibilidade ao processo. Os Cones Vulcâ-
nicos apresentam susceptibilidade muito baixa, devido à densidade demográfica
e as atividadeseconômicas que não comprometem profundamente o sistema.

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RESUMO
A pesquisa tem como objeto de estudo a problemática da desertificação, especial-
mente em bacias hidrográficas semiáridas. O recorte espacial de análise é a bacia
da Ribeira Grande em Santiago, Cabo Verde. O objetivo principal é analisar a sus-
ceptibilidade à degradação/desertificação dareferida bacia através dos indicadores
socioeconômicos de desertificação. Quanto aos aspectos teóricos e metodológicos,
a pesquisa foi desenvolvida à luz da Teoria Geossistêmica, a qual, através dos estu-
dos integrados da paisagem considera a interação entre os elementos do potencial
ecológico, da exploração biológica e da ação humana. Está estruturada em duas eta-
pas: gabinete e campo. Em gabinete foram desenvolvidas pesquisas documentais,
levantamento de dados, levantamento geocartográfico e de imagens de satélite e
elaboração da cartografia temática.Em campo, foram realizados o reconhecimento
da verdade terrestre, aplicação das fichas de campo e interpretação das imagens or-
bitais. Os resultados obtidos indicam que a bacia hidrográfica em apreço, apresenta
susceptibilidade à desertificação variando de moderada a alta e tem como principais
causas as fortes influências das condições climáticas semiaridez e, principalmente
as atividades humanas, que utilizam técnicas rudimentares e não condizentes com a
capacidade de suporte do ambiente.

PALAVRAS-CHAVE
indicadores de desertificação, bacia hidrográfica, análise ambiental integrada, geos-
sistemas.
EXPERIÊNCIAS DE UMA TRAJETÓRIA
ACADÊMICA EM CABO VERDE E ÁFRICA
CONTINENTAL
VLÁDIA PINTO VIDAL DE OLIVEIRA*

INTRODUÇÃO
O intuito da presente narrativa é fazer uma retrospectiva sobre as minhas ex-
periências acadêmicas em países africanos, com destaque muito especial para
Cabo Verde.
Ao longo dessa trajetória, que remonta ao ano de2009,procurei, tanto nas re-
lações institucionais, como na participação em eventos acadêmicos – dar ênfase
à temática da desertificação, aos entraves naturais ao desenvolvimento susten-
tável, ao ordenamento territorial, dentre outros assuntos.
Sobre os aspectos mencionados, parte-se do pressuposto de que, tanto na
África insular e continental, como no Nordeste o Brasil, há alta vulnerabilidade
às condições de semiaridez. Preocupa-me, sobremaneira, a acentuação dessas
vulnerabilidades às mudanças climáticas com todas as suas repercussões nega-
tivas. Atenta-se ainda, para a forte degradação a que os solos e a biodiversidade
têm sido submetidos, além do que, os recursos hídricos mostram uma tendência
para a insuficiência ou para a exacerbação da poluição. Expõem-se, por conse-
quência, sérios entraves ao desenvolvimento sustentável, com riscos crescentes
à ocupação humana dos territórios em epígrafe.
Pretende-se na presente retrospectiva, tratar seguidamente, dos seguintes
aspectos:

1. Cabo Verde: a originalidade de um país especial;


2. O intercâmbio Brasil X Cabo Verde;
3. A Rede de Estudos Ambientais dos Países de Língua Portuguesa;

*
Universidade Federal do Ceará [vladia.ufc@gmail.com]
88 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

1. CABO VERDE: A ORIGINALIDADE DE UM PAÍS ESPECIAL

Há países, no mundo, que se destacam por suas dimensões continentais ou


por contingentes demográficos que superam o bilhão de habitantes. Outros, pela
riqueza das suas condições de geodiversidade ou de biodiversidade. Outros, ain-
da, pelo alto grau de desenvolvimento científico, tecnológico e da qualidade de
vida de sua população. Há, também, aqueles em que a parte mais significativa da
população vive em condições subhumanas, sendo ainda fortemente suscetíveis
à ocorrência de desastres naturais que exacerbam os problemas sociais.
Cabo Verde, com dimensões minúsculas e um contigente populacional que
pouco supera o meio milhão de habitantes, reúne traços geográficos, ecológi-
cos, humanos e culturais que o diferencia das antigas colônias portuguesas.
Existem no mundo, cerca de três dezenas de pequenos países e estados insu-
lares comparáveis a Cabo Verde em número de habitantes e em dimensões ter-
ritoriais. Mas Cabo Verde tem identidade e nuances que o diferencia. Trata-se de
um arquipélago composto por dez ilhas e cinco ilhéus, distando cerca de 500km
do promontório africano que lhe deu o nome, segundo Ilídio do Amaral (2007). A
esse renomado geógrafo português, deve-se um dos mais importantes estudos
sobre Santiago, a ilha de maior destaque do arquipélago.
Tratando-se de um arquipélago, Cabo Verde é marcado pela descontinuida-
de territorial.
Françoise e Michel Massa (2001), fazem interessantes referências aos quatro
elementos em Cabo Verde: a terra, a água, o fogo e o ar. Acrescentam um quin-
to – a beleza do lugar. A terra é pedra, pedra vulcânica, basalto. A água envolve
uma dupla dialética: ausência e presença. A água doce é rara, escassa, benéfica
quando cai nos meses de junho-julho a outubro. Se a chuva escasseia durante
as secas, é um desastre, no que guarda estreita similaridade com o semiárido
brasileiro. A presença da água é o mar na sua imensidão. Lembra viagem, emi-
gração que fundamenta uma alternativa fundamental de Cabo Verde – ficar ou
partir. O fogo é ligado à terra por suas erupções. O ar em Cabo Verde, integrante
dos países do Sahel, não tem os extremos do Sahara. Os ventos de leste (lestada)
com sua forte agressividade, são limitados no tempo. Passam e a vida recomeça.
Os autores antes referidos afirmam que Cabo Verde tem a heterogeneidade e os
contrastes como princípios de base. Grandes ilhas/pequenas ilhas; ilhas agríco-
las/ilhas rochosas; ilhas escarpadas/ilhas planas; presença de ribeiras/ausência
de ribeiras e de umidade permanente. Não obstante a descontinuidade, costu-
ma-se delimitar as ilhas do arquipélago conforme o deslocamento dos alísios. A
barlavento: Santo Antão, Boa Vista, São Nicolau, Sal e São Vicente.A sotavento:
Brava, Fogo, Maio, Santiago. Como nação bilíngüe (o português como língua ofi-
cial e o crioulo como língua nacional), Cabo Verde alcançou sua independência
EXPERIÊNCIAS DE UMA TRAJETÓRIA ACADÊMICA EM CABO VERDE E ÁFRICA CONTINENTAL
89
Vládia Pinto Vidal de Oliveira

em 1975, adotando um regime parlamentar. Praia, a capital, concentra quase ¼


do efetivo demográfico e a Ilha de Santiago a metade.
O arquipélago vulcânico, com raras ocorrências de um capeamento sedi-
mentar, tem o clima como condicionante fundamental das atividades. É marcado
por duas estações: a das águas (julho a outubro) e a das “brisas” (novembro a
junho). A estação chuvosa é regulada pelo deslocamento setentrional da Zona
de Convergência Intertropical (ZCIT), a exemplo do que se verifica com o mesmo
sistema que em seu deslocamento meridional, regula as chuvas do Norte do
Nordeste brasileiro. De modo similar, a irregularidade pluviométrica, os baixos
índices, as antecipações, retardamentos e secas recorrentes, são os traços mais
conspícuos dessa semiaridez. Climas locais ocorrem em função da orientação e
altimetria do relevo em relação ao deslocamento dos ventos. Conforme Ilídio do
Amaral, há aridez no litoral, umidade e vegetação nos pontos altos; precipitação
maior na vertente oriental, escassez de umidade na vertente ocidental. Coman-
da, além disso, os processos morfodinâmicos, as características dos solos e os
padrões fisionômicos e florísticos da vegetação, o regime hidrológico e os traços
fundamentais da ocupação. Os períodos de crises para a população e para as
colheitas são os anos de seca, numa saga que se repete nos sertões do Nordeste
do Brasil. Esse é um quadro resumo desse original país-nação que tem mantido
estreita relação com o Brasil, em particular com o Ceará.

2. O INTERCÂMBIO BRASIL X CABO VERDE


O despertar das atividades de pesquisa em países africanos, vem, para mim,
desde algumas décadas, após realizar cursos no exterior, como em Mendoza
(Argentina) e Rússia (então União Soviética) com temática na Desertificação e
promovidos pela ONU (Organização das Nações Unidas). Esse interesse foi inten-
sificado quando cursava doutorado nas Universidades de Granada e Almería-Es-
panha, através dos ensinamentos e experiências de professores que realizaram
pesquisas nos desertos de Sahara e áreas do Sahel, bem como de colegas afri-
canos, contemporâneos no Doutorado. A presença e influência do povo africano
na Península Ibérica, marcou muito minha percepção e curiosidade. Percebia
nitidamente que as terras almerienses têm estado conectadas com o norte da
África, desde tempos remotos, sendo inseparável da história da Espanha islâmi-
ca (AGERO 1998)
A oportunidade de poder adentrar na temática em um país que possuísse
terras secas e degradadas/desertificadas como o arquipélago de Cabo Verde,
foi oportunizada através das políticas públicas do governo do Presidente Luís
Inácio Lula da Silva, que estimulou o intercâmbio do Brasil com países africanos
de língua portuguesa. Dentre esses acordos, destacou-se aquele firmado entre
90 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

a Universidade Federal do Ceará (UFC) e a Fundação Alexandre de Gusmão, que


assinaram o Termo de Cooperação Técnica e Científica, voltado para a criação do
Centro de Estudos Brasil/Cabo Verde, em 13 de março de 2006. No ano de 2007,
a Pós-Graduação em Geografia inseriu-se nessa política de relação da UFC com
o país irmão, com participação subsidiada por recursos do projeto “Análise so-
cioambiental das áreas degradadas de Cabo Verde” no bojo do edital Pró-África
(CNPq) sob a minha coordenação. O referido projeto pautou-se nos propósitos
norteadores da política de solidariedade estabelecida e cujos propósitos eram:
incentivar mestrandos e doutorandos a realizar trabalhos sobre Cabo Verde; rea-
lizar pesquisas in situ para subsidiar a política externa brasileira com relação
a Cabo Verde; propiciar a formação de mestrandos e doutorandos em nossos
programas.
O projeto que redundou na Cooperação Internacional Brasil/Cabo Verde;
integrante do Programa Pró-África, foi concebido através do Edital MCT/CNPq
06/2007. Tratava-se de um projeto que orientou o termo de cooperação técnica
entre a Universidade Federal do Ceará – UFC e o Instituto Nacional de Inves-
tigação e Desenvolvimento Agrário – INIDA. Destinava-se a analisar, de forma
integrada e sistêmica, o atual quadro socioambiental das áreas degradadas,
com ênfase para a ilha de Santiago, considerando os indicadores de sustenta-
bilidade ambiental e socioeconômica. À luz desse objetivo norteador, buscou-se
desenvolver a pesquisa transdisciplinar, com base nos seguintes propósitos: de-
finir os ecossistemas através do estudo dos componentes socioambientais, ana-
lisando problemas pertinentes às áreas degradadas, práticas inadequadas de
exploração da terra, turismo predatório, dentre outros; avaliar a capacidade de
suporte dos sistemas ambientais com base nas suas potencialidades, limitações
e vulnerabilidades; apresentar cenários desejáveis de desenvolvimento susten-
tável a partir do quadro de indicadores físico-naturais e de uso da terra; propor
subsídios para a implementação de programas de educação ambiental capazes
atender às necessidades das comunidades envolvidas; subsidiar as políticas de
desenvolvimento do turismo que inscrevem as áreas atrativas do litoral na nova
lógica de valorização das praias como lócus privilegiado para o lazer.
Em 2009, com a execução do Projeto em pleno andamento, promoveu-se
o I Seminário Internacional Integrador Brasil – Cabo Verde – Degradação
Ambiental em Regiões Semi-áridas. Buscou-se, essencialmente, identificar
novas adequações de convivência do homem com ambientes degradados.
Visava-se, também, interagir e trocar experiências capazes de gerar novos
conhecimentos científicos e tecnológicos. Refletia-se na busca de um conceito
ampliado de desenvolvimento sustentável. Vislumbrava-se atender às pecu-
liaridades de Cabo Verde onde há evidentes similaridades com o semiárido
nordestino. Assim é que, além das vulnerabilidades impostas pelo semiári-
do, os solos estão degradados – às vezes irreversivelmente – e os recursos
EXPERIÊNCIAS DE UMA TRAJETÓRIA ACADÊMICA EM CABO VERDE E ÁFRICA CONTINENTAL
91
Vládia Pinto Vidal de Oliveira

hídricos tendem para evidente escassez. A biodiversidade, por outro lado, tem
sofrido marcas muito fortes das ações predatórias do homem. Em última análise,
perseguia-se a proteção dos sistemas ambientais fragilizados e a inclusão de
questões pertinentes à pobreza, má estruturação do ordenamento territorial e
deficiências infraestruturais. O evento foi divulgado através de 3 cadeias de te-
levisão: RTP (Rádio e Televisão de Portugal), TCV (Televisão de Cabo Verde) e TV
RECORD de Cabo Verde.
Nesse evento, contou-se com a participação de 4 (quatro) professores da
UFC. Essa parceria gerou vários artigos científicos, culminando com o livro deno-
minado “Cabo Verde: Análise Sócio-ambiental e Perspectivas para o Desenvolvi-
mento Sustentável em Áreas Degradadas” (OLIVEIRA et al.).
O intercâmbio com Cabo Verde foi se mantendo ao longo do tempo. Em 2011,
fui convidada pelo Governo do Estado do Ceará, a fazer parte da Delegação Cea-
rense da Cultura na Feira do Livro do Ceará em Cabo Verde denominada "A terra
da luz na claridade", como parte da Feira Mundial da Palavra. Participei ainda de
Comissão com aUniversidade de Cabo Verde, visando desenvolver estratégias
de intercâmbio sustentável entre as nações.
Em 2014, houve um forte enriquecimento do intercâmbio entre as institui-
ções universitárias dos dois países, através do Programa Internacional de Apoio
à Pesquisa e ao Ensino por Meio da Mobilidade Docente e Discente Internacio-
nal (CAPES/AULP), que foi aprovada sob a minha coordenação e parceria com a
Professora Reitora Judite Medina do Nascimento. Tratava-se da implementação
de um Curso de Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente com parceria
entre a Universidade de Cabo Verde (UniCV) e a Universidade Federal do Ceará
(UFC), contando com a participação de professores do Programa de Mestrado
em Desenvolvimento e Meio Ambiente e do Programa de Geografia. Objetivava
a formação de recursos humanos de alto nível, fundamentada em valores e prin-
cípios do desenvolvimento sustentável. Visava-se capacitar recursos humanos
nas práticas do desenvolvimento e ambiente, fundamentadas nas dimensões da
sustentabilidade ambiental, socioeconômica, político-institucional e científico-
-tecnológica. Ao tratarda mobilidade no âmbito da graduação e pós-graduação,
permitiu-se uma interação entre a teoria e a prática da pesquisa, envolvendo
vários níveis de formação (doutorado, mestrado e graduação) em campos de es-
tudos orientados para a análise da dinâmica das paisagens, além da capacitação
técnica de profissionais através de Programas de Pós-Graduação e graduação
ligados às Instituições.
Como resultado, pode-se considerar que foi um dos Programas de grande
impacto e de exitosa experiência. Quanto à criação do Curso de Mestrado em
Desenvolvimento e Ambiente, contou com 24 (vinte e quatro) profissionais ma-
triculados de diferentes formações como pedagogos, agrônomos, geógrafos,
geólogos, professores licenciados, dentre outros.
92 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tivemos diversas reuniões com objetivos variados, em princípio, apresen-


tando a estrutura, dinâmica do curso, do modelo existente na UFC., além das
apresentações dos professores indicados para a ministração do elenco de disci-
plinas e seus colaboradores estrangeiros. Outras reuniões de acompanhamento
e orientações foram efetuadas para atender às demandas. Buscou-se sempre
manter contato com os docentes e discentes ao longo do curso. Em sua maio-
ria, os discentes eram profissionais que trabalhavam no horário diurno, e desse
modo, as aulas tinham motivações e conteúdos bem elaborados. Foram oferta-
das 13 (treze) disciplinas contando com a colaboração e orientação de professo-
res brasileiros em missão de estudo e pertencentesao Quadro do Programa de
Desenvolvimento e Meio Ambiente, Programa de Pós-Graduação em Geografia
(ambos da UFC) e professores da UNICV. As disciplinas ofertadas foram as se-
guintes: Sociedade, Naturezae Desenvolvimento Sustentável: Fundamentos; Me-
todologia da Pesquisa Interdisciplinar; Seminário Integrador; Tópicos Especiais
I: Geoprocessamento Aplicado à Análise Ambiental; Valoração Econômica dos
Recursos de Água; Análise de Impactos Ambientais; Ecologia, Solos e Biodiver-
sidade; Turismo, Natureza e Sociedade; Políticas Públicas e Desenvolvimento;
Análise Geoambiental e Processos de Degradação/ Desertificação; Estágio à Do-
cência, Seminário Integrador II.
Acredita-se que o conteúdo de cada uma das disciplinas ministradas, mos-
trava-se capaz de aprofundar o conhecimento teórico-prático, atendendo o
complexo das relações natureza x sociedade e os objetivos preconizados pelo
desenvolvimento sustentável.
O Curso implementado tinha uma abordagem inovadora e conteúdo interdis-
ciplinar, com enfoque na área socioambiental e ministrado em um país carente
de professores doutores e de Cursos de pós-Graduação strito sensu, resultando
de suma importância. Levou-se em consideração, a similaridade de problemas
socioambientais e desastres naturais existentes no semiárido dos dois países.
Incentivava-se a elaboração de projetos capazes de contemplar a problemática
local e cujos resultados seriam úteis na solução dos problemas através de novas
tecnologias. Foram obtidos 17 Títulos de Mestres por estudantes cabo-verdia-
nos. Três ainda pretendem finalizar suas dissertações em 2020. Das Missões de
Estudo, sentido Brasil − Cabo Verde, foram realizadas 10 (dez), em diversas mo-
dalidades (QUADRO 1), tendo possibilitado uma defesa de Tese de Doutorado e
uma Monografia que tratou, especificamente, de questões relativas aos estudos
realizados na missão correspondente.
Na Missão de estudo sentido Cabo Verde-Brasil (QUADRO 1), também resultou
positivamente, pois foram realizadas 12 missões. Dentre elas constava um mes-
trando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente de
Cabo Verde, que foi selecionado e contemplado com bolsa de estágio sanduíche,
EXPERIÊNCIAS DE UMA TRAJETÓRIA ACADÊMICA EM CABO VERDE E ÁFRICA CONTINENTAL
93
Vládia Pinto Vidal de Oliveira

QUADRO 1. Missões de mobilidade Brasil X Cabo Verde e Virse-versa


com suas quantidades e modalidades. Missões de Estudo.

MISSÕES DE ESTUDO
BRASIL/CABO VERDE CABO VERDE/BRASIL
Quantidade Modalidade Quantidade Modalidade
4 Doutorado Sandauíche 2 Doutorado Sandauíche
4 Graduando Sandauíche 4 Graduando Sandauíche
2 Pós Doutorado 2 Pós Doutorado
2 Mestrado Sandauíche
2 Docente Ms (doutorando)
TOTAL DE MISSÕES: 10 TOTAL DE MISSÕES: 12

(Missão de Estudo Cabo Verde − Brasil). Através desse Projeto de Mobilidade,


viabilizou-se a obtenção do título de Mestre, respaldado nos dados obtidos em
estágio no Brasil. Salienta-se ainda, a mesma dedicação dos graduandos e dou-
torandos que aqui desenvolveram parte de suas pesquisas e adquiriram valiosos
conhecimentos acadêmicos e de vivência no país.
Quanto às Missões de Trabalho, foram realizadas 13 (treze) Missões de Estu-
dos: 10 no sentido Brasil − Cabo Verde e 3 (três) no sentido Cabo Verde – Bra-
sil. As Missões Brasil − Cabo Verde trataram de implementar o curso, coordenar,
acompanhar as missões, ministrar aulas e fazer pesquisas. Buscou-se sempre o
fortalecimento das relações institucionais, difusão e promoção de conhecimen-
tos, respaldados na ética e na potencialização do desenvolvimento humano. Tal
projeto de mobilidade, permitiu uma orientação estratégica de articular o ensino
com a pesquisa. Todas as Missões a nível de Graduação, Mestrado e Doutorado,
foram profícuas, demonstrando que a pesquisa e o ensino se inter-relacionavam
estritamente, manifestando-se na capacitação profissional e na produção de va-
riados artigos e capítulos de livros. A esse respeito, foram produzidos dois livros
intitulados: “Observatório de Estudos Ambientais: Vulnerabilidade e Riscos Am-
bientais em Cabo Verde”, no ano de 2017. O outro, no prelo,denominado “Proble-
mática e Gestão Ambiental em Cabo Verde”, ambos da Editora Expressão Gráfica.
Diante do exposto, concretizou-se a internacionalização nas duas Univer-
sidades, dando ensejo a que futuros resultados positivos sejam alcançados.
Salienta-se, por oportuno, que a capacitação de recursos humanos através da
multiinterdisciplinaridade é o procedimento mais adequado para o desenvolvi-
mento sustentável em regiões que apresentam fortes desequilíbrios naturais e
socioeconômicos.
94 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

3. A REDE DE ESTUDOS AMBIENTAIS DE PAÍSES DE


LÍNGUA PORTUGUESA
Há destacar que o desenvolvimento do intercâmbio e das pesquisas com o
país africano foi ainda mais fortalecido quando a UFC passou a integrar como
membro, a Rede de Estudos Ambientais em Países de Língua Portuguesa
(REALP). Uma vez ingresso na REDE, fomos convidados a integrar o corpo docen-
te do Curso de Doutorada em Gestão e Política Ambiental instalado em 2015, na
Universidade de Cabo Verde. Envolve várias IES do Brasil, Portugal e África. Fui
indicada pelaProf. Reitor Henry Campos para representar a UFC como membro
da REDE. Em março de 2017 ministrei parte da disciplina Metodologia da Inter-
disciplinaridade, em parceria com o Professor de Portugal, Luiz Oosterbeek. Uma
parte do módulo tratou da temática da desertificação.
Nas missões ao continente africano a partir do ano de2013, as experiências
foram enriquecidas em função da interação de conhecimentos do território afri-
cano e do Brasil, através da apresentação de pesquisas em diversos seminários.
A esse respeito, indica-se a seguir a relação dos principais eventos científicos da
REALP, em que tivemos oportunidade de participar, integrando mesas ou apre-
sentando resultados de pesquisas:

− 05/05/2013 a 10/05/2013 − XV Encontro da Rede de Estudos Ambientais de Países


de Língua Portuguesa: Sustentabilidade de Assentamentos Humanos e Inclusão
Social. Organizado pela Universidade Agostinho Neto, Luanda-Angola.
− 05/05/ 2014 a 10/05/2014 − XVI Encontro da Rede de Estudos Ambientais de Países
de Língua Portuguesa: Interculturalidade e Sustentabilidade, Organizado pela Uni-
versidade Federal do Amazonas, Manaus, Brasil.
− 7/09/2015 a 12/09/2015 − XVII Encontro da Rede de Estudos Ambientais de Países
de Língua Portuguesa com abordagem “Ambiente e Desenvolvimento Sustentável:
Perspectivas para o pós 2015”, Praia, Cabo Verde.
− 14/11/2016 a 17/11/2016 Moçambique − XVIII Encontro da Rede de Estudos Ambien-
tais de Países de Língua Portuguesa“Transformando o nosso mundo: A REALP no
caminho de 2030” sob a organização da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo,
Moçambique;
− 12/09/2017 a 15/09/2017 – XIX Encontro da Rede de Estudos Ambientais de Países
de Língua Portuguesa: Desenvolvimento e Sustentabilidade Frente às Mudanças Cli-
máticas.Organizado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza-Brasil.

Este encontro em 2017 foi decisão assumida em Moçambique em 2016, fruto


do ingresso da Universidade Federal do Ceará (UFC), à Rede REALP. Dessa forma
sediamos a XIX Edição dos Encontros da Rede de Estudos Ambientais em Países
de Língua Portuguesa (REALP). Foi organizada pelos Docentes e Discentes dos
EXPERIÊNCIAS DE UMA TRAJETÓRIA ACADÊMICA EM CABO VERDE E ÁFRICA CONTINENTAL
95
Vládia Pinto Vidal de Oliveira

Programas de Pós Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODE-


MA), Geografia (Graduação e Pós-Graduação), no período de 12 a 15 de setembro,
sob o tema “Desenvolvimento e sustentabilidade frente às mudanças climáticas
globais”. Envolveu a parceria de várias Universidades Portuguesas, Brasileiras e
Africanas, incluindo os Institutos, Ministérios e Agências de Fomento. Teve como
objetivo principal, promover debates e trocas de experiências acadêmicas a nível
internacional, buscando contribuir com a difusão de ideias e trabalhos que alme-
jam a conservação dos recursos naturais e de uma sociedade sustentável através
da discussão e intercâmbio de conhecimentos relacionados ao tema do evento. O
Campus doPici da UFC, recebeu 175 participantes, atingindo o seu público alvo de
estudantes de graduação e pós-graduação, professores e pesquisadores, mem-
bros da REALP, membros do PRODEMA e da Geografia, profissionais da área das
ciências ambientais que se dividiram para assistir aos 115 trabalhos apresentados,
além de 3 conferências, 1 palestra técnica e 2 oficinas de educação ambiental.
Constou também, viagem de campo para uma área semiárida, o município de
Quixadá, onde foi possível visualizar um panorama de vegetação de caatinga, o
Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá e a barragem do Cedro.
Para tornar toda essa estrutura possível, a Comissão Organizadora con-
tou com uma equipe de 24 estudantes de graduação e pós-graduação, além
de professores da UFC e das instituições vinculadas à REALP e ao PRODEMA/
GEOGRAFIA.
Destaca-se que o evento resultou na produção de 2 (dois) volumes de e-Book
com 43 artigos cada, inseridos no repositório Institucional da UFC (http://www.
repositorio.ufc.br/handle/riufc/35512 e http://www.repositorio.ufc.br/handle/
riufc/35513) e artigos em Ediçãoespecial na REDE, Revista Eletrônica o PRODE-
MA(http://www.revistarede.ufc.br/rede/issue/view/18).

− 08/05/2018 a12/05/2018 − XXEncontro da Rede de Estudos Ambientais de Países


de Língua Portuguesa: Ambiente e Direitos Humanos.Organizado pela Universidade
e Aveiro, Aveiro (Portugal).
− 02/05/2019 a 05/05/2019 − XXI Encontro da REDE de Estudos Ambientais de Países
de língua Portuguesa, na Cidade de Moçamedes, província de Namibe, Organizada
pela Universidade ManduaeYaNdemufayo e Universidade Agostinho Neto.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base na exposição dos fatos referentes às minhas experiências aca-
dêmicas em Cabo Verde e na África Continental, há que ressaltar os resultados
extremamente positivos, tanto no que tange às atividades de pesquisa, como
também de ensino e até de extensão.
96 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

De modo muito especial, refere-se aos resultados do Termo de Cooperação


Técnica e Científica voltado para a instalação do Centro de Estudos Brasil/Cabo
Verde através de Projeto financiado pelo CNPq. Marcou-se, assim, mais um vetor
de internacionalização da UFC, através do Centro de Ciências e do Departamen-
to de Geografia, em particular.
Em 2014, o intercâmbio entre a Universidade Federal do Ceará e a Univer-
sidade de Cabo Vede, possibilitou a implementação do Curso de Mestrado
em Desenvolvimento e Ambiente na Instituição africana. Contou-se, para isso,
com o decisivo apoio da CAPES. O Curso em pauta, tem uma abordagem ino-
vadora e conteúdo sistêmico, com foco na área socioambiental e com linhas
de pesquisa voltadas para a problemática daquele país. Resultados também
muito positivos são expressos através de um número significativo de disserta-
ções já defendidas.
Salienta-se, outros sim, a integração da UFC na Rede de Estudos Ambientais
de Países de Língua Portuguesa – REALP. Deu-se ensejo como importante, à
minha integração junto ao Corpo Docente do Curso de Doutorado em Gestão
e Política Ambiental instalado em 2015 na Universidade de Cabo Verde. Venho,
desde então,co-ministrando conteúdos referentes à Metodologia da Interdisci-
plinaridade, além de módulos que focalizam a problemática da desertificação.
Por oportuno, ressalto a participação em diversos eventos patrocinados pela
REALP, desde o ano de 2013, conforme relação retromencionada.
Na minha experiência acadêmica em países africanos, além do propósito de
transmitir conhecimentos, busquei produzi-los e tendo os ambientes semiáridos
nordestino e caboverdiano como focos fundamentais de ensino e pesquisa.

REFERÊNCIAS
AGERO J. (ed) (1998). Mémorias del Tiempo. La Historia de Almería. Editorial Me-
diterráneo-Agedime, S.L./ Novo técnica. S.A. – La voz de Almeria, 510.
AMARAL, I. (2007). Santiago de Cabo Verde: A Terra e os Homens. Re-edição da
M. Junta Investigação Ultramarino. 2º série nº 48, de 1964. Edição fac-simila-
da. Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP)/Universidade
de Cabo Verde. Gráfica de Coimbra.Ltda, 444.
MASSA, Françoise & J. M. (2001). Dictionnaire encyclopédique et bilingue portu-
gais-français [des] particularités de la langue portugaise en Afrique: Cabo
Verde. Cap-Vert. Particularté em Áfrique, Ed. EDPAL, 280.
OLIVEIRA, V. P. V. de; GOMES, I. G; BAPTISTA, I.; RABELO, L. S. (2012). Cabo Verde:
Análise Socioambiental e Perspectivas para o Desenvolvimento Sustentável
em Áreas Semiáridas. Edições UFC. Fortaleza, 373.
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O
CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES
DO RIO CACHEU
ANTONIO CORREIA JUNIOR*
EDSON VICENTE DA SILVA**
FRANCISCO DAVY BRAZ RABELO***

Após a independência de Guiné-Bissau em 1973, iniciou-se todo um pro-


cesso de transformação socioeconômica, a filosofia política a ser seguida fun-
damentava-se na transformação da vida das populações, buscando a satisfa-
ção das suas necessidades básicas. Por outro lado, objetivava-se combater o
poder tradicional que era prejudicial ao desenvolvimento sustentável, por ter
se considerando o detentor do poder sobre as comunidades tradicionais locais.
Para tal, instaurou-se toda uma estrutura administrativa a fim de se aniquilar o
sistema tradicional. Este, oficialmente foi substituído pelos comitês de aldeias
organizados em setores e secções (ARASSI 1994).
A Guiné-Bissau é considerada como um dos países mais ricos em termos da
biodiversidade ao nível da África Ocidental e com uma costa marinha beneficia-
ria do fenômeno de ressurgência, carregando muitos nutrientes utilizáveis para
alimentação das espécies pesqueiras (GUINÉ-BISSAU 2011). Apesar desta grande
diversidade e excepcionais condições ambientais se nota que o meio ambiente
local tem sofrido grandes modificações, seguidas da degradação do seu poten-
cial biológico, causadas por ações antropogênicas ou por práticas incompatíveis
com os princípios de uma gestão durável dos recursos naturais, destacando-se
o mau uso dos recursos naturais, o que leva a pobreza das populações rurais.
No ano de 1989 foi iniciado o processo de discussão sobre a Estratégia Na-
cional de Conservação, apoiado pela União Internacional para Conservação da
Natureza (UICN) e União Europeia, no qual, o seminário realizado no mesmo ano
assinalava como oportuna a planificação da gestão dos recursos naturais da
zona costeira, a conservação dos manguezais e a criação de áreas protegidas
como prioridades (IBAP 2008).
Ainda em 1989, iniciou-se o Projeto da Planificação Costeira no quadro da
Direção Geral das Florestas e Caça, com o apoio da UICN e da Agência de

*
Universidade Federal do Ceará - UFC [antonio.correiajunior@hotmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
***
Universidade do Estado do Amazonas - UEA [davyrabelo@yahoo.com.br]
98 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Cooperação Suíça, cuja proposta preliminar apresentada em 1990 foi objeto de


uma discussão que decorreu por cerca de um ano, a fim de tornar uma propo-
sição real de criação de quatro parques nacionais, cujo funcionamento levava
em consideração os sistemas tradicionais de gestão dos recursos naturais (IBAP,
2008).

Figura 1. Mapa político da Guiné-Bissau

Elaboração: Autores

Guiné-Bissau conta atualmente com um Sistema Nacional de Áreas Prote-


gidas (SNAP), com seis áreas protegidas, abrangendo uma superfície de cerca
470.000 ha, um terço dos quais corresponde a terras permanentemente emer-
sas e os restantes dois terços são de manguezais, bancos intermareais e águas
marinhas poucos profundos (menos de 10m). Quatro destas áreas protegidas
têm um forte componente marinho e estuarino, que são: Parque Nacionais de
Orango e de João Vieira Poilão; Área Protegida Comunitária das Ilhas de Urok;
Parque Natural dos Tarrafes do rio Cacheu, enquanto que o Parque Natural das
Lagoa de Cufada e Parque Nacional de Cantanhéz, protegem lagoas e ecossiste-
mas florestais locais (IBAP 2008).
Esta pesquisa teve por objetivo compreender os aspectos gerais da criação
e implantação de áreas protegidas em Guiné-Bissau e, para isso, desenvolveu
um estudo específico no Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu. Foram
seus objetivos específicos: (i) Compreender a estrutura, os valores e a lógica do
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
99
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

Sistema Nacional de Áreas Protegidas; (ii) Identificar os problemas ambientais do


Parque Natural dos Tarrafes do rio Cacheu (PNTC); (ii) Verificar a percepção da
população residente no PNTC sobre a gestão da área.

MATERIAL E MÉTODOS
PESQUISA BIBLIOGRÁFICA E DOCUMENTAL
A revisão bibliográfica e documental consistiu na leitura de diversos livros,
teses dissertações, leis, políticas, artigos disponibilizados nas bibliotecas da Uni-
versidade Federal de Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE),
Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), nos Laboratórios do
Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará-UFC, Laboratório
de Estudos Agrários e Territoriais (LEAT), Laboratório de Planejamento e Gestão
Ambiental (LAGEPLAN), interpretando entre outros documentos oficiais e editais,
que tratam sobre os assuntos relacionados ao tema em discussão, bem como ao
território da Guiné-Bissau.
Subjetivando compreender abordagem do tema em estudos desenvolvidos
em Guiné-Bissau, recorreu-se a algumas instituições de ensino superior públicas
e privadas como Universidade Lusófona de Amílcar Cabral (UAC); Faculdade de
Direito da Guiné-Bissau (FDGB), Biblioteca Regional de Cacheu (BRC), Memorial
da Escravatura e do Tráfico de Cacheu Negreiro (METNC), Instituto Nacional de
Estudos e Pesquisa da Guiné-Bissau (INEP), Instituto da Biodiversidade e das
Áreas Protegidas da Guiné-Bissau(IBAP) e União Internacional para a Conserva-
ção da Natureza (UICN).
Esta fase permitiu a obtenção das bases teóricas e das linhas ligadas ao tema
e também a construção de mecanismos para a coleta de dados no campo con-
tribuiu para o estabelecimento de limites internos e externos, ligados aos con-
ceitos dos temas estudados. A pesquisa no âmbito da internet, também de igual
modo, apoiou esta fase na busca de informações relacionadas com as temáticas
do estudo. Durante esta etapa, foram analisadas figuras, fotos, quadros, contido
nas informações bibliográficas e documentais pesquisadas ou que estiveram es-
sencialmente ligadas aos inventários dos aspectos ambientais.

PESQUISA DE CAMPO NO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO


RIO CACHEU
As aplicações dos questionários tiveram o objetivo de avaliar a percepção
dos impactos socioambientais no Parque Natural dos Tarrafes do rio Cacheu e a
percepção das ações de gestão ambiental.
100 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

No PNTC, foram aplicadas 25 questionários estruturados com líderes comu-


nitários locais, segundo determina as leis dos anciões e a cultura local, que a
palavra final é dada pelo líder comunitário, que passou conhecimentos das reais
situações ou problemas enfrentados pela comunidade.Por se tratar de um re-
presentante influente na comunidade que tem a função de determinar as áreas
destinadas a preservação e a conservação dos ecossistemas locais vinculados
com a segurança alimentar das comunidades tradicionais. Salienta-se que os
questionários foram aplicados com pessoas de ambos os sexos, entre as ida-
des compreendidas de 18 a 70 anos. Salienta-se que foram aplicadas 25 ques-
tionários, por se tratar esse o número dos líderes das comunidades objeto da
pesquisa.Foram essas as comunidades: Arame, Candemba. Elia, Jobel, Mato de
Arame, Colege I, Teixas, Sonco, Causo II, Bufa, Banhimo, Jugul, Suncutoto, Ponta
Becada, Belem, Caguepe, Poilã, Peche, Jopa, Barame, Alto Fresco, Joaquim Flor,
Cacame, Benia Cobiana e Balimbom.
Após o trabalho de coleta de dados no campo, as informações foram organi-
zadas e tratadas com o uso do software Microsoft Office (Word e Excel), Gráficos
e o Picture Maneger. Foram elaborados resumos dos dados em quadros, tabelas
e gráficos, relacionados com os aspectos ambientais inventariados na área de
estudo. Os registros obtidos por meio de fotografias e entrevistas foram sele-
cionados detalhadamente para subsidiarem a elaboração do texto escrito, de
acordo com os objetivos estabelecidos para o trabalho.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
AS ÁREAS PROTEGIDAS EM GUINÉ-BISSAU

O Governo da Guiné-Bissau criou várias áreas protegidas dentro do territó-


rio nacional, conhecidas como uma Rede Nacional de Áreas Protegidas (RNAP)
com uma cobertura nacional de 12,2% de território nacional. Assim o Governo
da Guiné-Bissau decreta nos termos de artigo 100 nº 1 alínea d, da Constituição
de 2011 o seguinte: “toda e qualquer parcela do território nacional classificada
como uma área protegida visa designadamente salvaguardar os seus ecossis-
temas, as populações animais e vegetais, que nela abrigam a sua diversidade
biológica bem como promover o seu desenvolvimento durável.” (GUINÉ-BISSAU.
DOCS 2011). Observar Figura 2.
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
101
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

Figura 2. Mapa das áreas protegidas na Guiné-Bissau

Elaboração: Autores (2019).

A área protegida tem por objetivo, salvaguardar as espécies animais, vege-


tais e de habitats ameaçados; salvaguardar os biótipos e formações naturais
além de sítios de interesse cultural; conservação e recuperação de habitat da
fauna migratória e dos seus corredores; promoção de investigação e pesquisa
científica e das ações de educação ambiental; defesa, conservação e valorização
das atividades e formas da vida tradicionais não lesivas ao patrimônio ecológico;
proteção e valorização das paisagens únicas, raras ou típicas, cujo valor cênico
lhes confira interesse especial; promoção e apoio ao desenvolvimento utilização
durável dos recursos naturais visando o desenvolvimento econômico e bem-es-
tar das comunidades. (GUINÉ-BISSAU. DOCS 2011).
Guiné-Bissau (2011), afirma que as áreas protegidas podem ser do tipo: Par-
que Nacional (a); Reserva Natural Integral (b); Zona de Natureza de Selvagem
(c); Monumento Natural (d); Área Administrada para Habitat e as Espécies (e);
Paisagem Terrestre ou Marinha Protegida (f); Área Protegida de Recursos Natu-
rais Administrados (g); Área Protegida Comunitária, Florestas e Sítios Sagrados
(h).
102 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Segundo IBAP (2013), a preocupação com a natureza e a sua conservação


sempre esteve presente em Guiné-Bissau, os antepassados protegiam a natu-
reza através da consagração tradicional dos sítios que entendiam serem impor-
tantes.Alguns sítios sagrados ainda existem até hoje (florestas, rios, fontes e
manguezais), e continuam a guardar as suas características naturais e especiais,
graças a esta forma tradicional de conservação.
Porém, nos últimos anos tem se verificado a propagação de práticas nefastas
sobre os recursos naturais locais, o que tem proporcionado aumento da pobre-
za, a degradação do meio ambiente e a perda da biodiversidade na Guiné-Bis-
sau. Cabe salientar que o crescimento populacional em Guiné-Bissau e o próprio
desenvolvimento das sociedades, também são apontados como grandes res-
ponsáveis pela pressão atual existente sobre os recursos naturais.
A Guiné-Bissau tem poucas indústrias ou aquelas que existem dispõem de
pouca capacidade avante ao nível da prestação dos serviços essenciais para a
satisfação das necessidades da população. Por isso, é da biodiversidade que
provem grande parte dos serviços mais importantes para suprir estas necessi-
dades (IBAP, 2013).Apesar dos avanços notáveis na criação de Áreas Protegidas
(AP) em Guiné-Bissau, ainda há muitos desafios para garantir sua consolidação
e a proteção socioambiental efetiva. No caso das áreas protegidas, quase 70%
não possuem plano de manejo, além disso, o número de funcionários públicos
inseridos nessas áreas protegidas é muito reduzido.É necessário usar os planos
de gestão das AP, recomendável para redefinir os zoneamentos, ainda que seja
provisoriamente, criando regras que sejam possíveis de implementar no terreno,
um zoneamento participativo, com apenas duas categorias, e com limites facil-
mente identificáveis é uma opção altamente recomendável.
O município de Cacheu está entre os seis territórios escolhidos para criação
de parques, localmente recebeuo nome de “Parque Natural dos Tarrafes do Rio
Cacheu” devido aos seus riquíssimos ecossistemas, que visa a conservação de
manguezais, matas de palmeiras e uma elevada biodiversidade. O objetivo prin-
cipal da criação da Área Protegida do Parque citado está voltado a manutenção
da produtividade dos recursos naturais e a proteção da costa contra os proces-
sos de erosão. Em dezembro de 2000, criou-se o Parque Natural dos Tarrafes
do rio Cacheu, através do Conselho dos Ministros da Guiné-Bissau (CMGB), pelas
das leis nº 11, 12, e 13/2000 e publicados no Boletim Oficial nº 49 de 04 de
dezembro de 2000. A Figura 3, localização do Município de Cacheu.
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
103
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

Figura 3. Mapa de localização geográfico do Município de Cacheu

Elaboração: Autores (2019)

A área protegida do Parque Natural dos Tarrafes do rio Cacheu (PNTC) é com-
posta essencialmente por dois setores: Setor Sul, localizado ao sul do rio Cacheu
e setor Norte, localizado ao norte do mesmo município. Salienta-se que dentro
do PNTC.
A maioria das atividades da gestão deste parque concentra-se na parte sul e
que apresenta um área bem conservada de manguezal, a razão de uma relação
harmoniosa de extrativismo da população deste setor, reflete no viver bem e na
melhor conservação dos ecossistemas de manguezais, enquanto que a popula-
ção do setor norte, são essencialmente agricultores da zona baixa e pescadores,
causando maiores impactos no ecossistema.
O setor norte, que tem uma grande área de manguezais, fica situado numa
zona importante no âmbito da conservação dos manguezais, que são utilizados
por um número elevado das aldeias fora dos limites do parque, cujos habitantes
são de diferentes etnias, inclusive estrangeiras, com os seus hábitos e costumes
bem como as formas de exploração diferentes e mais agressivas, o que gera um
risco para a sustentabilidade ambiental.
104 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 4. Mapa de localização do Parque Natural dos Tarrafes do rio Cacheu

Elaboração: Autores (2019)

A superfície total do PNTC, incluindo os espaços aquáticos, apresenta uma su-


perfície total que corresponde a cerca de 94.824 ha, considerado o quinto maior
parque com área contínua do ecossistema de manguezais na África Ocidental. Des-
tes cerca de 19% são propostos como núcleos de preservação, com objetivo de
proteger e promover o uso sustentável dos recursos naturais (IBAP 2008).
Segundo Biai (2000), na área do PNTC, há uma superfície aproximada de cerca
de 50.000 ha de manguezais, estima-se segundo o autor que o manguezal tenha
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
105
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

diminuído a sua área de cobertura em 29% nos últimos 40 anos. Atualmente a


exploração dos manguezais se intensificou muito na região devido ao corte de
árvores para obtenção de lenha para defumação do pescado, para construções
de casas, assim como vedação de casas, há a exploração de combé (molusco bi-
valve), ostras, produção de sal, assim como a pesca. Essas práticas quando não
controlados poderão provocar a erosão nas terras baixas e, consequentemente
causar efeitos secundários.
A maioria dos recursos referidos, distribuem-se de forma ampla por todo o
PNTC, no que diz respeito aos recursos marinhos, no entanto, há uma clara con-
centração das atividades extrativas na zona sul. De acordo com análise do traba-
lho do campo, há indícios que a degradação está a acelerar-se rapidamente, o
fator principal da ameaça degradação dos manguezais na região são os desma-
tamentos para fins agrícolas, nas áreas alagadas dos estuários.

PROBLEMAS AMBIENTAIS NO PNTC

Os principais problemas ambientais identificados na região, sobretudo na


área de proteção ambiental, junto as comunidades residentes no parque, iden-
tificados pelos técnicos membros de conselho de gestão são: (i); exploração de
florestas (ii); exploração de palmeiras (iii); exploração de Cibes (iv); exploração
de manguezais (v); cortes de arvores (vi) e agricultura itinerante.

i) Exploração de florestas: realizam-se queimadascom o objetivo de abrir as


zonas de vegetação mais densas e facilitar a caça. Outro fator importante é o
fogo que têm por função ajudar na regeneração natural das palhas que são
utilizadas para cobrir as casas. De acordo com o resultado da pesquisa, são
práticas que acontecem com muita frequência, ateiam o fogo intencional-
mente, ou, também, as vezes os incêndios acontecem acidentalmente. Essas
práticas são detectadas todos os anos, com um grande número de ocorrên-
cia de queimadas de florestas.
ii) Exploração das palmeiras: a prática é efetivada para extração do óleo de
dendê, e da seiva, que irá caracterizar o chamado “vinho palmo”, utilizado
para consumo. O óleo além de ser utilizado como combustível para a ilumina-
ção, também é aproveitado na alimentação, havendo ainda a retirada da pa-
lha para a confecção de vassouras. A extração de vinho palma, muitas vezes
origina a morte da própria palmeira, porque alguns exploradores que utilizam
pregos e alguns utensílios, para poder impulsioná-lo a uma maior saída das
seivas (vinho palma). As Figuras 5 e 6 ilustram as práticas de exploração de
palmeiras de dendê.
106 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 5. Mosaico de fotografias representando a extração de seiva de palmo (vinho palma)

Fonte: Autores (2019)

Figura 6. Fabricação do óleo de dendê nas comunidades tradicionais

Fonte: Autores (2019)

iii) Cortes de cibes: retirada de madeiras para construção de casas e cercas.


iv) Exploração de manguezais: voltado para obtenção de lenha para defumação
do pescado, vedação de casas, assim como abertura de campos para agricultura,
retirada de madeira para fora do parque com finalidades de comercialização.
v) Cortes de árvores: para exportar madeiras, construção naval, fabricação de
pequenas embarcações canoas (pirogas), utilizadas na região principalmente
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
107
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

na área que faz parte do parque. Todas essas embarcações são fabricadas
nas comunidades locais a partir do corte de grandes arvores.
vi) Agricultura itinerante: grande parte de arroz consumido anualmente no
município de Cacheu, provém delalas (áreas alagadas) ou arroz de sequeiro
(pampam). Essas práticas destroem as zonas onde as matas são mais densas
e desenvolvidas, levando-as a uma degradação progressiva. Após sucessivas
colheitas de arroz, atualmente começam-se a fazer plantações de caju, im-
pedindo a regeneração natural da vegetação original, veja nas Figuras 7 e 8.

Figura 7. Plantações de cajueiros nas áreas desmatadas/matas densas

Fonte: Autores (2019)

Figura 8. Agricultura de arroz nas áreas alagadas

Fonte: IBAP (2008)


108 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Essas práticas constituem uma das principais ameaças ambientais que con-
tribuem para a degradação progressiva da cobertura vegetal no município de
Cacheu, em particular nas zonas de preservação e de conservação do Parque
Natural dos Tarrafes do rio Cacheu, transformando essas áreas de características
florestais em savanas e levando a um empobrecimento do solo e a perda da
diversidade faunística e da florestica.

PERCEPÇÃO DOS MORADORES DO PNTC SOBRE A GESTÃO


AMBIENTAL

A pesquisa desenvolvida aplicou questionários com a população das taban-


cas (comunidades) do PNTC, e foram apresentados os seguintes questionários,
representadas nos gráficos a seguir. De acordo com a pesquisa, não há envolvi-
mento das autoridades local em questão ao planejamento ambiental na gestão
territorial, somente há uma objeção em relação à fiscalização do IBAP através
do órgão ambiental nacional. A população afirma que somente a fiscalização
não é suficiente. É importante ressaltar que seria necessária a sensibilização e a
implantação de centros municipais, setoriais e comunitários com mediadores en-
tre o poder público e moradores, na efetivação das propostas de planejamento
ambiental. Observar os gráficos a seguir:

Gráfico 1. Envolvimento da comunidade (%) Gráfico 2. Nível de satisfação na gestão (%)

Pergunta: Quanto ao planejamento ambiental, Pergunta: Em que medida está satisfeito ou


você acha que as autoridades têm se envolvido insatisfeito com o trabalho realizado
de forma eficiente, as comunidades locais pelas autoridades na promoção da gestão
na sua gestão? ambiental?

12%
8%
8%

12%
68%
92%

Sim Muito Insatisfeito


Não Insatisfeito
Razoável
Satisfeito

Elaboração: Autores (2019) Elaboração: Autores (2019)


ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
109
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

Gráfico 3: Nível de responsabilidade Gráfico 4: Promoção de qualidade


na qualidade ambiental (%) ambiental (%)

Pergunta: De quem acha que é a Pergunta: Já fez ou costuma fazer algo para
responsabilidade da promoção e manutenção promoção da qualidade ambiental?
da qualidade ambiental (enumere por grau
de importância)?

3%
8% 12% 12%
12%
1%

88%
68%

Sociedade Civil
Cada morador (individualmente) Sim
Secretaria de meio ambiente Não
Ministério de meio ambiente
Associações comunitárias
ONG´s

Elaboração: Autores (2019) Elaboração: Autores (2019)

A partir da análise das respostas verificou-se a necessidade de se trabalhar


de forma diferenciada as questões ambientais, havendo uma grande necessida-
de de atenção do poder púbico para uma melhor gestão ambiental. A busca per-
manente da qualidade ambiental é, portanto, um processo de aprimoramento
constante do sistema de gestão ambiental. A gestão ambiental não é obrigação
somente dos governantes, mas também da população em geral, o povo neces-
sita de reeducação e uma cultura voltada para a importância deste assunto.
Práticas simples como redução da exploração dos recursos naturais podem ser
um bom começo.
O processo de gestão ambiental deve abranger uma nova cultura, uma mudan-
ça de consciência que leve a pensar e adotar novas formas de enxergar o futuro. Os
recursos naturais dependem de práticas responsáveis que devem ser geridas por
uma ação coletiva das instituições, dos governos e da sociedade como um todo.
O desenvolvimento sustentável é um importante conceito de crescimen-
to, presente no debate político internacional em especial quando se trata de
questões referentes à qualidade ambiental e à distribuição global de uso de
recursos.
A sociedade como um todo acaba por sofrer as consequências de um pro-
blema nascido de sua relação com o meio ambiente. Os grandes problemas que
110 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

emergem da relação da sociedade com o meio ambiente são densos, complexos


e altamente inter-relacionados e, portanto, para serem entendidos e compreen-
didos nas proximidades de sua totalidade, precisam ser observados numa ótica
mais ampla. A implantação de um sistema de planejamento ambiental poderá
trazer soluções para o país ou município, que se pretende melhorar a sua posi-
ção em relação ao meio ambiente.

CONCLUSÃO
Acredita-se que houve um grande avanço na gestão ambiental de Guiné-
-Bissau ao se instituir a áreas protegidas no município de Cacheu, além das
grandes porções territoriais de área convertidas em áreas de preservação. Nes-
se território tem sido criado espaços estratégicos para a proteção de espécies,
conservação de ecossistemas e a salvaguarda de populações tradicionais, bus-
cando-se o bloqueio de atividades ilegais, promovendo o ordenamento territo-
rial e desenvolvimento de atividades florestais sustentáveis. O grande desafio é
investir na efetiva implementação e fiscalização do Parque Natural dos Tarrafes
do rio Cacheu-PNTC, e seu entorno como áreas protegidas. É preciso aumentar o
número de planos de manejo a serem concluídos, haver uma plena funcionalida-
de dos conselhos gestores formados, bem como reforçar e qualificar o escasso
quadro de funcionários lotados no parque.
O PNTC, não está fora dos quadros das ameaças ambientais devidos aos des-
matamentos as práticas de mineração, a exploração de madeireira e a tentativa
de desafetação de algumas áreas o que são exemplos de impactos diretos sobre
o parque. Outros fatores, como a caça, a pesca, a agropecuária, e os potenciais
impactos indiretos gerados por projetos de infraestrutura e planos de construção
de usinas hidrelétricas não foram abordados, mas também constituem sérias
ameaças sobre essa localidade, indicando que a pressão sobre a áreas protegi-
das é maior do que a considerada na presente pesquisa.
Para garantir a integridade do PNTC, é necessário coibir usos e ocupações
irregulares e o desmatamento, por meio da fiscalização local e monitoramen-
to remoto, garantindo às populações locais seus direitos. Os órgãos ambien-
tais (nacional) e o Ministério Público podem contribuir com a fiscalização e o
monitoramento a partir do investimento em novos recursos tecnológicos, para
aumentar a eficiência e transparência de suas ações, aliado a um programa de
auditoria, capacitação e treinamento do seu quadro de funcionários.
A escassez de recursos humanos e a insuficiência de recursos financeiros
serão os grandes desafios dos próximos anos para a consolidação do PNTC. A
fonte de financiamento do parque deve ser ampliada e os mecanismos de trans-
ferência de recursos devem ser transparentes, garantindo a alocação coerente
ÁREAS PROTEGIDAS DE GUINÉ-BISSAU: O CASO DO PARQUE NATURAL DOS TARRAFES DO RIO CACHEU
111
Antonio Correia Junior, Edson Vicente da Silva, Francisco Davy Braz Rabelo

do que é arrecadado, não apenas aos órgãos gestores (IBAP), mas também de
forma a fortalecer iniciativas sustentáveis e cadeias produtivas que envolvam
saberes tradicionais das comunidades local ou envolvidos. Outras fontes de fi-
nanciamento, como União Internacional para a Conservação da Natureza e Re-
cursos Naturais (UICN) e as outras iniciativas de cooperação internacional, são
instrumentos decisivos para assegurar o futuro do parque como instrumentos de
conservação das florestas de município de Cacheu.
As demais formações vegetais do município de Cacheu, como o mangue
tem sido alvo de grande devastação nas últimas décadas pela ação antro-
pogênica. Essa interferência do ser humano está vinculada ao processo de
exploração de formações arbustiva existentes nesse domínio, voltados para a
produção de lenha, carvão, defumação de peixes, vedação de casas, objeti-
vando aproveitar essas áreas economicamente para construções dos edifícios
(especulação imobiliária).
Perante os obstáculos enfrentadas pela população local, a gestão flo-
restal corresponde a um dos principais caminhos para a resolução dos pro-
blemas. Uma vez que as orientações legais são ignoradas em função da
permanente busca pela sobrevivência, tendo em conta que o Estado não de-
monstra ser capaz de reverter à situação de pobreza vivida pela população
local ao longo do tempo. As populações locais convivem diariamente com
deficiência do sistema de saneamento básico, intensificando as limitações
do sistema de saúde pública, que ainda não tem oferecido à população um
serviço adequado.
A biodiversidade dos manguezais se traduz em significativa fonte de ali-
mentos para as populações humanas. Nesses ecossistemas se alimentam e se
reproduzem mamíferos, aves, peixes, moluscos, crustáceos com suas diversas
espécies, correspondendo também aos recursos pesqueiros indispensáveis à
subsistência tradicional das populações das zonas costeiras.
As destruições dos manguezais geram prejuízos ambientais, econômicos e
culturais, uma vez que parte da fauna natural é fonte de renda, em especial na
região costeira de Cacheu, onde o consumo de peixes faz parte da economia
local, devido ao seu alto consumo. Por esses e outros motivos, a conservação
desse ambiente é fundamental para manter o equilíbrio ambiental e conservar a
fonte de renda a milhões de pescadores na Guiné-Bissau, que dependem desse
habitat para seu sustento.

REFERÊNCIAS
ARASSI, M. T. (1994). Relatório sócio-econômico do Parque Natural dos Tarrafes
do Rio Cacheu.
112 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

BIAI, J. C. M. (2000). Análise das alterações das manchas de coberto vegetal


nos Parques de Cacheu e Orango/Guiné-Biassau. Lisboa: Centro Nacional de
Informação Geográfica.
GUINÉ-BISSAU (2011). Lei das Áreas Protegidas. Decreto Lei A-5/11. Boletim Oficial
22, República da Guiné-Bissau. Bissau.
INSTITUTO DE BIODIVERSIDADE E DAS ÁREAS PROTEGIDAS (2008). Plano de gestão
Parque Natural dos Tarrafes do Rio Cacheu – PNTC. Bissau.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA E CENSOS DA GUINÉ-BISSAU (2009). Censo De-
mográfico-2009. Bissau.
INSTITUTO DE BIODIVERSIDADE E DAS ÁREAS PROTEGIDAS (2013). Estratégia nacional
para as áreas protegidas e a conservação da biodiversidade na Guiné-Bis-
sau. Bissau: Draft.

RESUMO
As áreas protegidas vêm sendo utilizadas para resguardar parcelas de ecossistemas
em diversos países do mundo. Essa estratégia representa um contraponto ao avanço
da exploração dos recursos naturais pelas atividades produtivas, cuja finalidade cen-
tral é a proteção da biodiversidade. Essa pesquisa foi realizada em Guiné-Bissau e
teve por objetivo compreender a importância do Parque Natural dos Tarrafes do Rio
Cacheu (PNTC) para a conservação dos manguezais de Guiné-Bissau. Sabe-se que os
manguezais são ecossistemas fortemente ameaçados em todo o mundo devido ao
incremento das atividades produtivas no litoral incluindo portos, indústrias e cidades.
No caso de Guiné-Bissau, existe um uso predatório do manguezal que é realizado por
populações que utilizam práticas rudimentares. O PNTC, visa equacionar os proble-
mas e contribuir para a proteção dos manguezais, porém, é preciso contextualizar
como se desenvolve a política ambiental no país e a repercussão da área protegida
para os habitantes e usuários dos recursos dos manguezais.

PALAVRAS-CHAVE
Ecossistema Manguezal. Desenvolvimento Sustentável. Parque Natural dos Tarrafes
do Rio Cacheu.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB
AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
LÚCIO CORREIA MIRANDA*
EDSON VICENTE DA SILVA**
ADRYANE GORAYEB***

1. INTRODUÇÃO
A Geografia, ao longo da sua trajetória, tem apresentado diferentes aborda-
gens sobre a interpretação da paisagem, sejam elas com víeis predominante-
mente naturais ou antrópicas, ambas têm procurado demonstrar as interações
entre a sociedade e natureza.
Os processos sociohistórico e culturaltecnológico têm interferido nas formas
como se percebe a natureza no tempo e espaço. Deste modo, a percepção da
paisagem é diretamente influenciada, dentre outras, pelas relações que com ela
se constroem na escala espacial e temporal.Pois, trata-se de uma construção
subjetiva entre a relação do mundo interior e exterior do sujeito por meio das
experiências sensoriais, sígnicas e imaginárias (SANTAELLA 2012).
Paisagem é concebida como uma categoria geográfica complexa, abrangen-
do tanto aspectos naturais e antrópicos, concretos e abstratos em permanente
dinamicidade. Mas, nem sempre é analisada na sua totalidade. A concepção da
paisagem e cenário, em muitos caracterizados como sinônimo, paisagem como
panorama, uma cena ou uma representação pictórica, desviando-se o sentido
real da paisagem para a predominância dos aspectos artísticos de sua represen-
tação, como afirma Cauquelin (2007).
Caracterizada de landschap, foi originaria da Holanda, designando lugares
comuns como “um conjunto de fazendas, ou campos cercados, às vezes uma
pequena propriedade ou uma unidade administrativa” (TUAN 2012). Continua in-
dagando o autor, que seu significado artístico acontecera quando transplantada
para Inglaterra nos finais do século XVI, dando-lhe um direcionamento ao “mun-
do de faz de conta”.
As crenças, os mitos, símbolos e signos sempre estiveram presentes nas re-
lações entre a sociedade e natureza, interferindo diretamente nas maneiras de

*
Universidade Federal do Pará - UFPA [lcmiranda-ufc@hotmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
***
Universidade Federal do Ceará - UFC [gorayeb@ufc.br]
114 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

conceber e compreender a paisagem. Percebe-se a paisagem como um constru-


to da integração dos elementos socioculturais e naturais. A sua interpretação e
re/produção vêm se manifestando por meio de heranças culturais e o aprimora-
mento tecnológico na escala espaçotemporal.
A leitura da paisagem reflete o estado da sua conservação em função da
especificidade dos seus elementos componentes, o modo de vida das comu-
nidades nela inseridas, bem como os aspectos pretéritos da sua evolução
ecológica e/ou sociocultural. Diante dessa complexidade de tributos à ela re-
lacionados, a leitura da paisagem baseia-se numa análise integrada e holís-
tica, possibilitando a incorporação do seu aspecto ecológico, sociocultural e
econômico. Objetivando a construção da sua compreensão além da agregação
dos aspectos visuais, faz-se necessário conhecer a sua estrutura, dinâmica e
funcionamento através da leitura dos seus componentes naturais e antrópicos,
incluindo as diferentes percepções sociais construídas ao longo da escala es-
paçotemporal.
É necessário conceber a paisagem além da sua representação, uma vez que
a sua existência não se reduz a mera visibilidade. Ler a paisagem “é extrair
formas de organização do espaço, extrair estruturas, formas, fluxos, tensões,
direções e limites, centralidades e periferia” (BESSE 2014, 64). É um exercício de
construção do conhecimento por meio de relações entre as dimensões visíveis e
invisíveis da paisagem.
Cada paisagem tem a sua individualidade e relações com outras paisagens,
dando-lhe uma qualidade orgânica por meio das funcionalidades da intra/in-
terrelação dos seus componentes. Nesta ordem de ideia pode-se dizer que é
através do reconhecimento da vitalidade da paisagem que se pode compreen-
der a sua formação,o complexo sistema dinamismo e o seu comportamento
evolutivo em função das especificidades das pressões antrópicas no seu con-
junto.
Não cabe aqui fazer uma retrospectiva sobre a evolução da paisagem como
uma das principais categorias de estudo da ciência geográfica. Mas, enfatizar
sobre a necessidade de um olhar integrador sobre as paisagens da Ilha do Prín-
cipe como condição, à priori, na construção do conhecimento sobre o contexto
socioambiental local na dimensão espacial e temporal.
O arquipélago de São Tomé e Príncipe, localizado nas proximidades da in-
tercessão entre o equador e o meridiano de Greenwich, caracteriza-se por uma
nação recentemente independente da colonização portuguesa. A Ilha de nome
Príncipe é um ambiente insular oceânico, parcela territorial do arquipélago de São
Tomé e Príncipe, antiga colónia portuguesa, sendo a independência conquistada
aos 12 de julho de 1975. Localizada na costa ocidental africana (ver Figura 1), a
Ilha do Príncipe tem de área 142 km², ocupado por 7.345 habitantes, segundo
o último Censo realizado pelo Instituto Nacional de Geografia e Estatística em
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
115
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

2012. Agrega uma população miscigenada, originário, dentre outros, dos cons-
tantes fluxos migratórios de população vinda de diferentes países do continente
africano e alguns europeus durante a era colonial.
O presente artigo tem como objetivo dialogar sobre a evolução da percep-
ção geográfica da paisagem da Ilha do Príncipe, destacando a especificidade
socioambiental local na escala espaçotemporal. Neste sentido, baseou-se nas
pesquisas bibliográficas, como base para o levantamento e catalogação dos es-
tudos realizados para a compreensão das interações sócio-espaciais locais, no
levantamento de campo, efetivado nos anos de 2012 e 2015, para a caracteri-
zação socioambiental no contexto atual, e na elaboração cartográfica, para a
representação espacial das transformações das paisagens locais.

Figura 1. Localização geográfica da Ilha do Príncipe (A5)

A construção de um olhar geográfico autóctone sobre a Ilha do Príncipe


1
está diretamenterelacionada, dentre outros, ao acesso dos “minuiés ” aos
cursos de Geografia nas diásporas, uma vez que a instituição de ensino supe-
rior nacional está, ainda, no seu processo inicial de formação. Neste contexto,
as cooperações internacionais à nível de educação, destacando o Brasil, têm

1
Meninos da ilha, como se caracterizam, localmente, os nativos da Ilha do Príncipe na língua local (Lunguiê).
116 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

contribuído significativamente no desenvolvimento da ciência geográfica e, con-


sequentemente, na percepção socioespacial do arquipélago.
O registro histórico dos estudos sócio-espaciais realizados sobre as paisagens
2
do arquipélago de São Tomé e Príncipe, em especial a Ilha do Papagaio desta-
cam os seguintes: i) Um dos trabalhos pioneiros sobre as ilha, a obra intitulada
“Ensaios sobre a Statística das Possessões Portuguezas no Ultramar: Das Ilhas
de S. Tomé e Príncipe e sua Dependência”, de autoria de José Joaquim Lopes de
Lima (1844), ao serviço da Coroa portuguesa. ii) Olhar geográfico percursor sobre
o arquipélago de São Tomé e Príncipe realizado por Francisco Tenreiro, um dos
primeiros e reverentes geógrafos nacionais, na sua obra de 1956, intitulada “As
Ilhas de São Tomé e Príncipe e o Território de São João Batista de Ajudá”, publi-
cada pela Sociedade de Geografia de Lisboa. Nesta, o autor desta a importância
destas ilhas no contexto colonial português. Nas suas palavras descreve que
“são um dos marcos mais expressivos da Expansão Portuguesa no Atlântico e em
África”, embora de dimensão territorial diminuta, desempenhou papeis impres-
cindíveis na expansão comercial portuguesa. Dentre as obras deste geógrafo e
poeta são-tomense, esta tem sido a base para as leituras geográficas sobre as
paisagens locais.iii) Levantamentos físiconaturais e socioeconômicas desenvol-
vidas durante o início da década de 60, sob a administração colonial, vinculada
à Junta de Investigação de Ultramar,as obras dos seguintes investigadores: Luís
Aires Barros (1960); J. Fraga de Azevedo, et al (1961); J. Carvalho Cardoso e J.
Sacadura Garcia (1962); Alfredo de Sousa (1963) e F. BailimPissarra et al (1965).
iii) Leituras recentes sobre a diversidade socioespacial e ecológica do arquipé-
lago, agregam-se as obras de pesquisadores de diferentes nacionalidades, in-
cluindo nacionais, brasileiros, portugueses, italianos, franceses, dentre outros,
destacando-se as publicações feitas por: Salomão Vieira (2005); Maria Clotilde
Almeida et al (2008); A. P. Leventis e Fábio Olmos (2009); Armindo de Ceita do
Espírito Santo (2009) e Norma Valencio et al (2010).
Na sua maioria, contribuições dadas ao arquipélago com as leituras realiza-
das pelos estrangeiros. Não queremos, com isso, desclassificar as relevâncias
destes estudos para o contexto nacional. Mas sim, destacar as suas relevâncias
para a compreensão da realidade local no contexto histórico geográfico da for-
mação social do país e dialogar sobre a necessidade da consolidação de um
olhar geográfico sobre as paisagens locais através da concepção de uma geo-
grafia da percepção local.
O presente trabalho constitui-se por uma abordagem reflexiva de cunho quali-
tativa, destacando a importância do conhecimento socioespacial, envolvendo inte-
ração dos fatores de ordem econômica, política, cultural e ecológica na evolução

2
Identificação atribuída, localmente, a Ilha do Príncipe por possuir uma quantidade significativa de papagaio
cinzento (Psittacuserithacus), agrega maior concentração populacional da espécie do país.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
117
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

espaço temporal da paisagem local. Buscou-se dialogar sobre as especificida-


des naturais e socioculturais da ilha do Príncipe, com ênfase nas preocupações
quanto aos cenários futuros diante da atual estratégia de desenvolvimento re-
gional.

2. A INSULARIDADE DA ILHA DO PRÍNCIPE E A SUA INSER-


ÇÃO NO SISTEMA AMBIENTAL DO GOLFO DA GUINÉ
Ilhas podem ser concebidas como uma porção de superfície emersa separa-
da do continente por massas de água fluviais e/ou oceânicas, conforme indaga
Fischer (2014). De origem natural ou artificial, as ilhas são, por natureza, cobiça-
das e, ao mesmo tempo, temidas. Fischer compactua com a ideia de ilhas como
ambiente de extrema atração ao citar Lawrence Durrel (1978) sobre o conceito
de “ilhamania", indaga que elas despertam as emoções e fascínios, tornando,
assim, irresistíveis. Em suas palavras descreve que “as ilhas respiram e sangram,
abraçam e copulam, cantam e também inspiram” (FISCHER 2014).
Os ambientes insulares despertam a euforia de pertencimento ao lugar de
exclusividade, impar, simbólico e heterogêneo, independentemente das suas
dimensões territoriais. Por outro lado emana sensação de temor pelo seu isola-
mento, blindados nos seus extremos pela hidrografia.
Embora fisicamente delimitadas pelos rios ou oceanos, os sistemas insulares
não podem ser compreendidos como sistemas fechados. É de se considerar as
suas inter-relações com outros sistemas maiores por meio de diferentes forças
dinamizadoras de fluxos numa escala espaçotemporal diversificada.
No Golfo da Guiné, localizado na costa ocidental do continente africano, des-
tacam-se as ilhas de Fernando Pó, Príncipe, São Tomé e a do Ano Bom, formadas
no mesmo período e pelas mesmas condições geológicas. Esse conjunto de ilhas
delineadas por erupções vulcânicas, desencadeadas por falhas geológicas ao
longo do processo de formação do oceano Atlântico, desempenhou papel rele-
vante, não só para as comunidades ecológicas e sociais locais, como também
nos processos históricos de expansão colonial em diversos continentes, inclusi-
ve nas Américas (ALMEIDA 1978).
A linha Vulcânica dos Camarões, designação dada à este conjunto linear de
ilhas e cadeias montanhosas, localizadas a leste da Nigéria e a oeste de Cama-
rões, originou-se do Cretáceo, através da falha geológica gerada pelo processo
de separação dos continentes, Sul Americano e Africano (RODRIGUES 2010).
De acordo com Tenreiro (1956), esse alinhamento vulcânico se prolonga
desde a ilha de Ano Bom até a margem sul do lago Tchad, atingindo aproxi-
madamente 3.000 km de comprimento. A fratura gerada no fundo do Golfo da
Guiné fez brotar intensas atividades vulcânicas, cujo monte Camarões é sua
118 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

proeminente testemunha (BARROS 1960). Entre os pontos mais elevados desse


alinhamento vulcânico destacam o cume dos montes Camarões (4.095 metros),
Bambuto (2.420 metros) e Kupé (2.050 metros), as ilhas deFernando Pó ou Bioko
(2.850 metros), São Tomé (2.024 metros), ilha de Ano Bom (990 metros) e Prín-
cipe (948 metros).
Dentre as ilhas, a de Fernando Pó é maior, tendo uma superfície correspon-
dente à 2.017 km², geograficamente situa-se na plataforma continental, distan-
ciando do continente à aproximadamente 40 km. Determinada pelo menor dis-
tanciamento do continente em relação à outras ilhas do conjunto, possui grande
riqueza biológica e pouco se diferencia das inseridas na região equatoriana do
continente africano.
As Ilhas de São Tomé e Príncipe possuem uma área de 859 km² e 142 km² res-
pectivamente, e encontram-se localizadas entre as duas outras ilhas, tendo 300
km como a distância aproximada da costa continental africana. A riqueza da sua
flora e fauna é perceptível pela rica e densa cobertura da vegetação em quase
todo o território nacional. Determinada pelo intenso valor de precipitação total e
um distanciamento considerável em relação ao continente, a taxa do endemismo
é superior a das outras ilhas do conjunto vulcânico. As teorias biogeográficas
explicam que:

“ilhas pequenas e isoladas possuem menos espécies do que áreas comparáveis em


um continente, porque se uma espécie torna- se rara em uma ilha, é bastante pro-
vável que ela seja extinta, enquanto que em um continente, sua população pode
ser sustentada em níveis baixos através da troca de indivíduos entre áreas locais. O
efeito de tais extinções é mais severo em pequenas ilhas do que em ilhas maiores,
acarretando uma inclinação mais íngreme na curva espécie-área” (BROWN; LOMOLINO
2006, 376).

A relação entre área de uma ilha e sua distância do continente, na biogeogra-


fia, é um fator primordial para explicar a riqueza biológica e a sua limitação ou
potencialidade em desenvolver o endemismo no seu entorno. A biodiversidade
das ilhas de Bioko e Ano Bom é caracterizada por uma taxa de endemismo igual
a 3,6% e 7,7%, enquanto que as de São Tomé e Príncipe têm 15,4% e 9,9% res-
pectivamente (ALVES 2005).
Mesmo sendo menor do que outras ilhas do golfo, o distanciamento da ilha
de Ano Bom do continente associado a outros fatores foram determinantes para
a configuração da riqueza superior de espécie endêmica em relação ao de Bioko.
Os solos desencadeados pela litologia de origem vulcânica agregam rica
diversidade de nutrientes favoráveis ao desenvolvimento de grande variedade
vegetal, tanto dos silvestres ou cultivadas pelas sociedades. Através da associa-
ção dos fatores físico-geográficos, os sistemas ambientais dessas ilhas possuem
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
119
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

paisagens diversificadas, sendo que predominam as formadas por densa cober-


tura florestal detentoras de forte atrativo turístico, não apenas pela rica diversi-
dade biológica que possuem, mas, também pelas suas diversidades culturais e
por apresentarem certo grau de conforto térmico impulsionado pela maritimida-
de e as condições locais do relevo.
Do ponto de vista ecológico estas ilhas possuem fundamental importância
para o interesse conservacionista da biodiversidade da região ocidental litorâ-
nea do continente africano, pela diversidade de habitat, condições favoráveis
para a migração e reprodução das espécies continentais e, sobretudo, pelas
condições que dispõem para os processos de especiação e seus estudos. Pois,
de acordo com Gould (2004), além de possuírem características extremamente
autóctones, as ilhas são os verdadeiros laboratórios para a compreensão da evo-
lução das espécies.
Tanto a fauna como a flora das ilhas do Golfo da Guiné desempenha singu-
lar importância regional, oferecendo diversos serviços ecológicos no dinamismo
dos sistemas ambientais costeiros e suprindo as comunidades locais com os
diferentes recursos naturais que são historicamente incorporados nos hábitos
alimentares, como também, nas manifestações culturais dos povos tradicionais.

2.1. CARACTERIZAÇÃO FÍSICO-NATURAL DA ILHA DO PRÍNCIPE

A classificação geológica da Ilha do Príncipe adotada neste trabalho teve


como base os estudos desenvolvidos por Afonso (1967). Deste modo, é constituí-
da por rochas ígneas, originadas de intensa atividade eruptiva vulcânica desen-
cadeada pelo movimento tectônico de placas durante o processo de separação
dos continentes. Subdivide-se em cinco unidades litológicas, classificadas em
andesitos, basaltos, fonólitos, lateríto e traquitos. Dentre as regiões geográficas
da ilha, as características rochosas apresentam maior diferenciação entre as par-
tes norte e sul.
O centro e norte da Ilha do Príncipe são predominantemente ocupados por
basaltos, apresentando fenocristais de augite e olivina. Observa-se ainda nes-
tes trechos, a intercalação de lateríticos, traquitos e andesitos (BARROS 1960).
Laterito é o termo usado para descrever um material rochoso avermelhado e
endurecido formado pelo intemperismo químico. Para Guerra e Cunha (2004), os
perfis lateríticos podem se encontrar incompletos por truncamento ou por não
terem sido desenvolvidos totalmente ao longo do tempo sob os processos de
intemperismo determinado pelas condições morfoclimáticas.
Na Ilha do Príncipe os lateritos encontram-se dispersos em três grupos, de
acordo com as suas localizações: laterito de Santo Cristo, localizado na porção
Centro-este; laterito de Belo Monte, na parte Nordeste (NE) e por último, localizado
120 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

no extremo norte, o laterito de Azeitona, com uma dimensão mais representati-


va. Este último estende-se desde a região de Cascalheira, cobrindo o Aeroporto,
Ponta do Sol, alcançando a roça Sundy.
Os grupos de traquitos presentes na ilha são de pequenas dimensões, dis-
persos nas proximidades da roça Abade, Pincatê e pequenos tufos no litoral de
São Joaquim. Por sua vez, andesitos identificados encontram-se localizados, ex-
clusivamente, no litoral norte da ilha, estendendo-se da orla costeira da praia de
Sundy a da praia de Ribeira Izé. São, em geral, rochas de composição interme-
diária calcialcalina, variando de tonalidade cinzenta escura (máficos) à cinzenta
clara (leucocráticos). Em contrapartida, a metade sul da Ilha do Príncipe é pre-
dominantemente caracterizada por fonólitos de textura porfírica, intercalando às
pequenas coberturas basálticas encontradas na região sudeste.
Pelas condições geológicas, a Ilha do Príncipe não apresenta um contingente
mineral de grande valor econômico-industrial para o mercado mundial de recur-
sos minerais. Os estudos petroquímicos desenvolvidos em conjunto, entre o go-
verno sãotomense e nigeriano, registraram o mapeamento de algumas reservas
de petróleo nas áreas oceânicas fronteiriças dos dois países vizinhos. Esta des-
coberta tem levantado sérias expectativas, quase que exclusivamente sobre os
impactos positivos, para o desenvolvimento nacional, inclusive para o da Ilha do
Príncipe. Porém, percebe-se que não se pode deixar de lado os efeitos negativos
que as práticas extrativistas de petróleo desencadeiam nos sistemas ecológicos,
trazendo consigo danos ambientais que refletem diretamente nas condições de
vida da população.
Além das reservas oceânicas de petróleo, estas também foram identifica-
das na superfície da ilha. Segundo Tenreiro (1956) encontra-se no litoral desta,
na margem da planície da praia Ribeira Izé pequena exsudações petrolíferas,
apresentando qualidades comerciais por serem densos, bem líquidos e livres de
produtos leves.
A exsudação petrolífera ali presente é formada em pequena bacia, enten-
dendo-se como inviável ecológica e economicamente a sua exploração para as
indústrias petrolíferas. Até presente data, as argilas, areias e fonólitos são os
principais recursos minerais explorados para a indústria de construção civil lo-
cal.
Barros (1960), ao descrever sobre o período de formação rochosa da Ilha
do Príncipe, afirma que são da era Cenozóica. Impulsionado pelas atividades
vulcânicas, a ilha é erguida sobre o assoalho oceânico à uma profundidade apro-
ximada de 3.000 metros, culminando no pico do Príncipe com 948 metros acima
do nível do mar.
A natureza geológica exerce forte influência na modelagem do relevo asso-
ciadas com as forças do intemperismo físico e químico. O teor constantemente
elevado da umidade do ar determina a predominância da força química como
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
121
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

o principal agente modelador do relevo da ilha. As formas dos picos e morros


esculpidos pelos processos erosivos são diversificadas em função de natureza
das rochas e pela intensidade de desgastes sofridos pelos agentes erosivos,
pois encontram-se dispersos, morros em formato de pão de açúcar, com topos
arredondados e alguns picos em forma de agulhas.
Dada a sua compartimentação geomorfológica, pode-se afirmar que o relevo
da Ilha do Príncipe subdivide-se, basicamente em dois grandes grupos: picos e
maciços rochosos das regiões centro-sul e ao norte as disposições tabulares,
como se observa na Figura 2.

Figura 2. Hipsometria da Ilha do Príncipe

Entre as formas predominantes de relevo podem-se encontrar algumas planí-


cies costeiras de pequenas dimensões, sendo as mais significativas localizadas
nas zonas Norte e Leste. Deste modo, embora as características planas sejam
predominante na parte norte da ilha, algumas superfícies interiores planas em
formas de platô se destacam também nas regiões centro-sudoeste e centro-es-
te, compreendendo as superfícies aplainadas de São Carlos do Fundão, Santa
Trindade, Santo Cristo, entre outras.
Nas regiões centro e sul, o relevo acidentado é definido por erguer de altos
picos isolados como o Papagaio (680 m), o João Dias Pai (644 m), Barriga Branca
122 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

(612 m) ou em grupos, formando maciços rochosos, alinhados no sentido leste


oeste, como o Pico do Príncipe (948 m), o Mencorne (837 m), o Morro de Leste
(783 m), Carriote (840 m), dentre outros. Perto das costas encontra-se um con-
junto de picos, em disposição paralela, as quais destacam as massas colunares
dos Dois Irmãos e as Mamas, “imponentes pelo extraordinário ressalto sobre o
montão de blocos que rodeiam pela base” (CARVALHO 1950, 142).
Na Figura 3 destaca-se o relevo do sudoeste da ilha, em geral, esse conjunto
rochoso ilustrado é característica das regiões sul da ilha, muito acidentado e
pouco modificado pela população local em razão do difícil acesso. Por ser uma
área que concentra grande cobertura de nuvens durante todo o ano, não foi
possível visualizar algumas feições montanhosas.

Figura 3. Foto panorâmica do sudoeste da Ilha do Príncipe, na parte superior da figura,


representando o relevo da área montanhosa, ilustrando os picos Papagaio, João Dias Pai,
Mesa, Ponta Focinho do Cão e outros.

Fonte: MIRANDA, 2012.

O relevo em formas tabulares, na região norte da ilha, são representadas por


feições, relativamente, planas, formando platôs interiores que abrange desde
Sundy, Santa Rita, Praia Inhame, Gaspar, Pincaté, São Joaquim e Ponta de Sol.
De forma isolada, o planalto de Belo Monte destaca-se dos demais pela forma-
ção de precipício com aproximadamente 100 m de altitude no seu contato em
direção à linha de costa, como ilustrado na Figura 4. O precipício de Belo Monte
configura-se por uma vertente endogenética, em função das atividades vulcâni-
cas desencadeadas pelo tectonismo, esculpido em forma de escarpa.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
123
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

Em termos gerais, observam-se margeando os platôs, inúmeros vales dese-


nhados pela ação fluvial, em direção à linha de costa. Esses formam superfícies
onduladas intercaladas por planícies costeiras, definidas pelas forças fluviais e
ou marinhas na foz dos rios das principais bacias hidrográficas.

Figura 4. Visualização do platô e precipício de Belo Monte, localizado no extremo


nordeste da Ilha do Príncipe.

Fonte: MIRANDA, 2012

Segundo Christofoletti (1980), os processos morfogenéticos que atuam sobre


as formas de relevo das costas variam na escala temporal e de um setor a outro
da costa. Deste modo, são impulsionados por diversos fatores ambientais, como
o geológico, o climático, o biótico e os fatores oceanográficos.
A ação geológica determina feições costeiras escarpadas, em função da
estrutura litológica e dos processos tectônicos, como falhamento, vulcanismo
e dobramentos. O fator climático é de extrema importância pelo controle dos
processos erosivos, de natureza físico-química e biológica, nos afloramentos ro-
chosos. Dentre os elementos climáticos, o vento ostenta uma função relevante
na morfogênese litorânea, devido o transporte de sedimento quartzoso e “por
gerar ondas e correntes que, juntamente com as marés, estabelecem o padrão
de circulação das águas marinhas nas zonas litorâneas e sublitorâneas” (CHRIS-
TOFOLETTI op. cit., 130).
De acordo com Christofoletti (1980), a presença de organismos nas feições
costeiras é determinada pelas condições climáticas, podendo ocasionar ações
erosivas (promovendo a desagregação dos minerais das rochas) ou protetoras
e construtivas através de mecanismos que facilitam a acumulação dos sedi-
mentos.
Associados a fatores citados, a natureza oceanográfica da ilha do Príncipe
exerceu fortes influências na modelagem da sua faixa litorânea, apresentando
linhas de costa recortadas em formas aplainadas e algumas de disposição em
falésias, ilustrada na Figura 5, como a encontrada na Praia Seabra, Ponta Man-
jona, e outras.
124 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 5. Vista da linha de costa da Ponta Manjona em forma de falésia,


localizada no litoral noroeste da Ilha do Príncipe.

Fonte: MIRANDA, L. C., 2012

As características físico-naturais das unidades de paisagem são fatores de


extrema relevância nas propostas de intervenção nos sistemas ambientais. Pois,
a sua compreensão ascende à mera análise setorial, exigindo uma compreensão
sistêmica, envolvendo as suas interações no contexto estrutural e dinâmico-
-evolutivo, se se conceber a paisagem como o resultado das combinações entre
os diferentes agentes naturais, políticos, econômicos, sociohistórico e culturais.
Embora a ilha apresente limite bem definido pelas águas do Oceano Atlân-
tico, ela não se apresenta desconectada dos sistemas ambientais globais. A in-
terferência da oscilação climática global pode desencadear efeitos negativos no
clima local, que associado a outros fatores antrópicos poderão apresentar danos
socioambientais.
Os constantes diálogos sobre as mudanças climáticas revelam os efeitos e
dimensão da alteração climática em função de vários fatores, sobretudo desen-
cadeada e acelerada pelas produções antrópicas. Dentre os efeitos da alteração
climática, destacam-se a variação da temperatura e o aumento do nível do mar
que ao longo dos últimos anos vem acelerando a erosão costeira em diferentes
regiões do globo, inclusive a da ilha do Príncipe.
Situada a pouco mais de 1° de latitude norte, a ilha possui um clima do tipo
equatorial quente e úmido, com o registro de temperatura média anual de
25,8°C, sendo os meses de junho, julho e agosto os que registram menor tempe-
ratura. Este ambiente insular apresenta duas estações climáticas bem definidas:
3
a considerada seca ou gravana , que estende de junho a agosto, e a chuvosa
que prolonga de setembro à maio.

3
Termo usado nacionalmente para designar o período de menor índice pluviométrico anual.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
125
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

No período gravana, a temperatura média é menor em ambas as regiões da


ilha, variando entre 24-25 °C na parte norte, podendo apresentar valores ainda
menores nas regiões montanhosas (região sul). Nessa temporada o vento predo-
minante é do sul. Embora representando um período do ano considerado seco,
a umidade relativa do ar registra-se num valor constantemente superior a 80%.
Na estação chuvosa a temperatura é mais elevada, mantendo-se valores mé-
dios em torno de 26,3-27°C para a região norte e valores menores nas áreas
montanhosas, conforme os registros do Centro Meteorológico da ilha do Prín-
cipe (2012). Neste período os ventos predominantes são de E, SE e NE, em ge-
ral carregados de umidade, ocasionando a redução na visibilidade horizontal e
vertical devido à presença constante da cobertura de nuvens e nevoeiros, este
último ocorre, em maioria das vezes, nos primeiros meses do ano.
Dada a sua localização geográfica, na Ilha do Príncipe, o principal sistema
meteorológico atuante na variação pluviométrica é a Zona de Convergência In-
tertropical (ZCIT). Esse movimento dos ventos alísios de nordeste e sudeste é de-
sencadeado em direção ao equador térmico. Portanto, outros sistemas também
são atuantes nestas regiões, como por exemplo, as influencias das condições
térmicas do Oceano Atlântico.
De acordo com Valencio et al., (2010), a região equatorial também se en-
contra sob a influência de um fenômeno atmosférico denominado de linhas de
borrascas, originando pequenas perturbações atmosféricas no interior do conti-
nente africano que associados às certas condições de temperatura, umidade e
vento, adquirem maiores dimensões.
O relevo é um dos agentes determinantes na distribuição pluviométrica,
criando áreas de barlavento e sotavento. Portanto, é de fundamental importância
estudar os efeitos destes na espacialização pluviométrica local, tendo em conta
que as áreas montanhosas impedem que os ventos úmidos do SW adentrem no
interior norte da ilha. Entretanto, dentre outros fatores, a topografia interfere na
diferenciação da quantidade de chuva anual entre a parte norte e sul da ilha.
Na ilha registra um valor constantemente elevado de umidade relativa do ar,
no intervalo de 2009 à 2012, o ano de 2010 registrou menor média do período
(82%) e 2012 representando o maior valor médio (89,1%). O alto índice do vapor
de água no ar está diretamente vinculado, dentre outros fatores, ao efeito do
ambiente insular, sobretudo em função da sua localização nas proximidades do
equador.
Conforme já mencionado, a distribuição das chuvas e temperatura na Ilha do
Príncipe segue um padrão variável ao longo das estações do amo. Para o ano
de 2015, percebe-se que a precipitação é maior nos meses de fevereiro, março,
abril, maio, outubro, novembro e dezembro e o período de junho à setembro
o de menor registro de chuva. Esta distribuição anual representa o cenário da
variação de chuva ao longo dos anos, sendo o volume total de pluviosidade,
126 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

constantemente igual ou superior à 2000 mm. Quanto à temperatura, observa-


-se que a sua variação é diretamente proporcional à distribuição da precipitação
ao longo do ano, sendo junho, julho e agosto com menor valor da temperatura
(ver Figura 6).

Figura 6. Variação mensal do total pluviométrico e temperatura na Ilha do Príncipe


durante o ano de 2015

Fonte: Centro Meteorológico da Ilha do Príncipe, 2016

Observa-se que no ano de 2015 registrou-se na Ilha do Príncipe um total plu-


viométrico de 1.254,4 mm, o que corresponde a média mensal de 104,53 mm de
chuva. Embora um volume de precipitação maior do que registrado em 2010, cons-
titui-se num ano com valor pluviométrico abaixo da média habitual para a região.
Clima, associado aos fatores geológicos, geomorfologia e bióticos, exerce
fortes influências sobre o processo de formação do solo. Por sua vez, a litologia,
ação climática e as atividades biológicas determinam as propriedades físicas e
químicas dos solos, oferecendo atributos favoráveis ao conhecimento da capa-
cidade do armazenamento de água, sua capacidade de suporte, entre outros.
As referências do levantamento pedológico da ilha do Príncipe centralizam,
basicamente, nos estudos da mineralogia dos solos desenvolvidos por Pissar-
4 5 6
ra , Cardoso e Garcia através da Missão de Estudos Agronômicos da Junta de

4
Mineralogista da Missão de Estudos Agronômicos do Ultramar.
5
Orientador do Grupo de Trabalho de Pedologia da Missão de Estudos Agronômicos do Ultramar.
6
Adjunto do Orientador do Grupo de Trabalho de Pedologia da Missão de Estudos Agronômicos do Ultramar.
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
127
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

Investigações do Ultramar no início da década de 1960, quando as ilhas de STP


ainda estavam sob a administração colonial portuguesa. Deste modo, a equipe,
supracitada, realizou análises mineralógicas dos solos do arquipélago possibili-
tando um maior conhecimento sobre suas potencialidades e limitações de uso.
Conforme Pissarraet al., (1965), os solos encontrados na ilha do Príncipe são
basicamente derivados do basalto, apresentando pH ligeiramente ácido próximo
à neutralidade. Em geral os solos da ilha têm uma fertilidade moderada, com boa
capacidade de retenção de água. Ali se destacam os solos Paraferralíticos que
estendem a maior parte do território da ilha, 9.302 hectares. Podem-se encontrar
os solos Fersialíticos Tropicais cobrindo uma área de 770 hectares, localizados
geralmente na parte norte da ilha. Embora em quantidade reduzida, encontram-
-se os Solos Litólicos; Rigossolos Psamíticos não calcário e Aluviossolos.
Na parte sul da ilha, predomina a presença de complexo, materiais com-
pactos. Enquanto que na região norte, por ações intempéricas, desenvolveu-se
solos lateríticos, com alta concentração de óxidos de ferro, como a limonita e
hematita, e alumínio (bauxita).
A Ilha do Príncipe apresenta excelente reserva hídrica, mesmo sendo uma
pequena ilha vulcânica. Recortada por inúmeros canais de drenagens, este am-
biente insular possui diversos rios perenes e nascentes condicionadas pelo rele-
vo. A distribuição espacial das redes de drenagem é desigual, concentrando-se
na região sul um contingente maior.
As redes de drenagem podem ser classificadas de dimensão média se con-
siderado o distanciamento dos pontos extremos da ilha. Os pontos com maior
distanciamento têm o sentido nordeste – sudoeste (Ponta Banana à Ponta das
Mamas), apresentando aproximadamente 19 km de comprimento, por outro lado,
na direção leste – oeste (Praia Iôla à Baia de Santo António) é menos extensa,
somando um total de 5,6 km.
A ilha apresenta grande quantidade de bacias hidrográficas, sendo que as
nascentes da maioria delas se localizam nas áreas montanhosas da região cen-
tral e sul. Dentre as bacias hidrográficas destacam-se a da Ribeira Bacharel, do
Rio Banzú, Rio de São Tomé, Ribeira Porco, Rio Bibi, Rio Papagaio, Ribeira das
voltas, Ribeira Peixoto, Água Grande, Ribeira Izé e Água Espique ou Rio da Praia
Sundy. Em geral, o conjunto dos canais de escoamento das bacias apresenta um
padrão de drenagem radial centrífuga, uma vez que as suas nascentes têm a
origem no maciço da região centro-sul.
Além do clima, a densidade e diversidade da cobertura vegetal vêm desem-
penhando papel decisivo na reserva hídrica, tanto nos depósitos superficiais
como nos sub-superficiais. Do ponto de vista ecológico, a Ilha do Príncipe possui
uma diversidade biológica extremamente rica, tanto no agrupamento da flora

Ambos desempenhavam estas funções durante a expedição às ilhas Atlânticas do Golfo da Guiné.
128 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

como o da fauna. Dentre os fatores naturais responsáveis pela formação e dina-


mismo da biodiversidade local, percebe-se que o clima se expressa com um dos
principias agentes.
A sua cobertura vegetal é constituída, na sua maioria, por uma floresta equa-
torial higrófila. Esse conjunto florístico é representado por densa cobertura ar-
bórea, que no contexto africano abrange extensas áreas da bacia hidrográfica
do Congo.

3. ILHA DO PRÍNCIPE: TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS NO


SÉCULO XXI
Com base no inquérito sobre agregado familiar de 2001, estima-se que a
incidência de pobreza em S. Tomé e Príncipe é de 54% (FMI 2012). Portanto, o
plano estratégico para redução da pobreza em São Tomé e Príncipe estabelece
como meta um crescimento médio de 6% do PIB não petrolífero a médio prazo,
redução de 6 pontos percentuais da camada de população que vive abaixo do li-
miar da pobreza, garantir o acesso aos serviços sociais por parte de toda a popu-
lação até 2016, reduzir significativamente as desigualdades sociais e de gênero,
reforçar a capacidade institucional e da autoridade e credibilidade do estado e,
por último, garantir a sustentabilidade ambiental. Mas, percebe-se, que mesmo
decorridos três anos após o período estabelecido, estes objetivos estão muito
longe de serem alcançados.
Para o alcance dos objetivos, o plano (ENRP) baseia-se em aprimoramento
de quatro pilares: I) Reforma institucional para a promoção de boa governação;
II) Ampliação e execução de políticas para o desenvolvimento sustentável; III)
Desenvolvimento do capital humano e melhoria dos serviços básicos e IV) Coe-
são social (FMI 2012). São pontos estratégicos para o desenvolvimento segundo
o planejamento do governo nacional. No entanto, não se verificou na prática
o cumprimento destes objetivos estabelecidos como metas esperados para o
período que findara à anos.
A produção nacional de energia elétrica é baseada, quase que exclusivamente,
na queima de combustíveis fósseis, dependente das ofertas internacionais, de-
param-se com constantes apagões. A mudança da produção termoelétrica para
hidroelétrica seria uma alternativa diante das condições ambientais favoráveis,
porém ações capazes de reverter essa situação não são perceptíveis no contexto
nacional. Percebem-se algumas ações em prol da ampliação da rede elétrica para
algumas comunidades interioranas, mas, o acesso ainda é deficitário em função
dos altos custos financeiros, tendo como referência a renda das famílias.
A Ilha do Príncipe se localiza na área oceânica de forte extração de petróleo,
principalmente pela Nigéria. As praias da região norte, em destaque a praia da
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
129
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

Ribeira Izé, têm registrado a presença de materiais derivados do vazamento de


petróleo nas regiões do Golfo da Guiné, o que tem causado sérias preocupações
relacionadas com a poluição das águas marítimas da Ilha do Príncipe.
O desequilíbrio ecológico desencadeado pela extração de petróleo nos
oceanos gera consequências ambientais que refletem nas condições de vida da
população, tendo em conta que, além de outros impactos, a disponibilidade de
pescado pode variar negativamente no tempo e no espaço.
A gestão do território vem sendo desenvolvida ao longo do tempo desres-
peitando, na maioria das vezes, a capacidade de suporte ambiental bem como
as tradições dos povos autóctones. Com isso, danos ambientais e socioculturais
se manifestam em proporções cada vez maiores à medida que investimentos
públicos e privados são implementados em nome do desenvolvimento.
Oportunidades são trilhadas almejando alcançar um desenvolvimento que
nem sempre condiz com a realidade local, trazendo para comunidade novos con-
flitos e impactos socioambientais. Assim, se inserem várias políticas de incentivo
ao desenvolvimento da nação na ausência de qualquer participação da popula-
ção local no processo de planejamento.
A população da Ilha do Príncipe, desde o período colonial, foi se distribuindo
entre a sua única cidade (Cidade de Santo Antônio) e, essencialmente, nas roças.
A população das roças (antigas empresas agrícolas) enfrenta, também, o pro-
blema relacionado com a precariedade das estruturas habitacionais. Pois, sem
alternativas, resistem às caóticas condições das antigas construções coloniais
como a única oportunidade de moradia.
Em algumas localidades, como no caso do Terreiro Velho, moradores das ca-
sas coloniais foram beneficiados, no período inicial da reforma agrária, com um
pequeno projeto de restauração das senzalas, mas configurou-se numa ação li-
mitada e insuficiente para reverter às difíceis condições habitacionais nas roças.
Cabe ressaltar que alguns outros projetos para a construção de casas de
tábuas serradas para as famílias camponesas foram implementados, principal-
mente com o financiamento de organizações internacionais, porém não foram
capazes de abranger um número significativo das famílias. Em termos gerais,
após a efetivação da reforma agrária não se tem percebido a aplicação de ne-
nhuma ação governamental direcionada à restauração de moradias para as po-
pulações das roças que ao longo dos anos vêm contribuindo com a produção
agrícola no arquipélago.
As construções coloniais da cidade de Santo António, localizadas essencial-
mente na região central desta cidade, estão, de forma geral, em melhores esta-
dos de conservação do que as localizadas no meio rural. São estes, os edifícios
urbanos ocupados pela administração pública, sectores do comércio e residên-
cias privadas nas zonas mais antigas desta cidade, como pode ser visto na
Figura 7.
130 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 7. Vista panorâmica parcial da cidade de Santo Antônio – Ilha do Príncipe

Fonte: MIRANDA, 2012

Não se pode generalizar, afirmando de que às casas coloniais da cidade apre-


sentam na sua totalidade melhores condições do que as localizadas no interior
da ilha, pois, encontram-se na cidade alguns edifícios históricos de considerável
valor arquitetônico em estado de degradação progressiva, como é o caso do
antigo salão do Sporting, e outras nas roças que se encontram em bom estado
de conservação, como por exemplo, a Residência, localizada na roça Sundy, con-
forme a Figura 8.

Figura 8. Casa colonial na roça Sundy (Residência)

Fonte: MIRANDA, 2015


AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
131
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

De uma forma geral, as construções coloniais localizadas nas roças se encon-


tram em ruínas, num estado de degradação progressiva, embora se constituindo
em moradias para as famílias camponesas. Esta realidade, de extrema preocu-
pação, carece uma maior atenção pelas autoridades competentes no sentido de
efetivar planos estratégicos para às suas restaurações, uma vez que represen-
tam valores incalculáveis nas relações socioculturais da ilha e de grande signifi-
cado histórico, arquitetônico e paisagístico no contexto nacional.
Embora as construções de habitação da era colonial fossem predominan-
temente feitas de alvenaria, era comum encontrar alguns nativos morando em
7
casas de van-plegá (AGÊNCIA GERAL DO ULTRAMAR 1969). Ao longo dos anos da
independência as populações vêm construindo casas, principalmente, com tá-
buas (madeiras serradas), cobertas por chapas de zinco.
As construções de van-plegá ainda são visíveis, mas praticadas, essencial-
mente, pelos pescadores como moradia temporária nas zonas costeiras durante
certo período do ano, em função das condições favoráveis ou não às atividades
pesqueiras em determinadas regiões da ilha.
Diante dos altos custos da construção de habitação em alvenaria, poucas
foram construídas pela população local, principalmente nas áreas rurais onde se
concentra o maior índice de pobreza. Esta situação tem continuado, mas na ulti-
ma década tem crescido o número de construções feitas em alvenaria, nas zonas
de expansão da cidade de Santo António, incluindo, também, nos arredores da
roça São João.
Após a introdução da cultura de café e cacau, a Ilha do Príncipe se transforma,
essencialmente, num espaço voltado à produção da cultura de sombreamento,
ou seja, pela demanda das espécies cultivadas, não fazia necessário devastar
a floresta, antes disto, caberia conservá-la como forma de melhoramento e au-
mento da produtividade agrícola. Com base nesta perspectiva, e pelas caracte-
rísticas físico-naturais locais, a densa cobertura florestal foi se regenerando e
contribuindo, de certa maneira, para a configuração do atual estado paisagístico
da Ilha do Príncipe. A Ilha do Príncipe é reconhecida pela sua característica inte-
riorana, com uma taxa de urbanização de 35,8% (INESTP, 2012). Sua população
se localiza predominantemente nas antigas empresas coloniais denominadas de
8
“roças ”.
É de fácil compreensão perceber que o manejo do recurso hídrico local,
inclusive na dimensão nacional, ainda ocorre de forma deficitária, pela ausência
de um plano de manejo das bacias, incluindo uma política de gestão ambiental
integrada e participativa, capaz de ultrapassar as barreiras que levam à conceber

7
Pequenas habitaçõestradicionalmente construídas de madeira e, em geral, cobertas por folhas de algumas
espécies vegetaislocalizadas nas ilhas de STP.
8
Termo local, de origem colonial, para designar as comunidades agrícolas nas regiões rurais. Em geral se
aplica para se distinguir locais fora da cidade.
132 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

a participação social nos programas de gestão ambiental à meras ações consul-


tivo-informativas.
Quanto às zonas de conservação ambiental, destaca-se o Parque Natural
Obô, predominantemente localizada na metade sul da ilha do Príncipe, com pe-
quena abrangência nos arredores de Azeitona (centro-norte) embora instituída
pela Lei às restrições de uso, carece uma gestão articulada, capaz de inserir os
diferentes setores envolvidos, incluindo a esfera política, social e educacional,
no sentido de construir maior conhecimento da sua complexidade e criar alterna-
tivas de uso condizente à demandas socioeconômica e cultural, respeitando os
limites físico-químico e biológico do sistema ambiental insular local.
Por outro lado, torna evidente perceber, diante da atual política econômica
regional baseada na exploração turística como prioridade ao “desenvolvimento”,
ou pelo menos o que se percebe na prática, que mesmo às regiões do Parque
instituídas pela Lei 7/2006 como de preservação integrada poderão ser diminuí-
das, à curto e médio prazo, para abrir caminhos à implementação dos projetos
econômicos, através da iniciativa privada estrangeira, sobretudo no setor su-
deste, abrangendo a antiga Roça Infante D. Henrique à Praia Sêca e sudoeste,
nas imediações de Maria Correia. Fato este, que se confirmado, comprova um
delineamento da gestão local fora das recomendações legais para o manejo am-
biental nacional e de contra mão ás perspectivas de gestão do sistema insular
classificado como uma Reserva da Biosfera, que o caso da Ilha do Príncipe, em
conjuntos com seus ilhéus.
Conforme observado no mapa de uso e ocupação, em geral, a Ilha do Prín-
cipe apresenta excelente estado de conservação dos seus ecossistemas. Com a
sua região sul praticamente constituída por zonas do Parque Natural e um aden-
samento populacional distribuído, na sua maioria, entre os setores central, oci-
dental, oriental e nas regiões norte, a Ilha, embora predominantemente agrícola,
cabe destacar que a prática agrícola predominante à do sistema agroflorestal.
A zona agroflorestal agrupa tanto às áreas da produção de cacau, banana, ma-
tabala, jaca, dentre outros, como também, as antigas regiões agrícolas abando-
nadas, atualmente destinadas à prática de extrativismo vegetal, caça e extração
de mel de abelha. Em geral, representa um total de 39,219 % da superfície da ilha.
A produção agroflorestal local se apresenta como um sistema de cultivo eco-
logicamente correto e tem garantido meio de subsistência às famílias campo-
nesas. Porem,carece uma intervenção intersectorial, abrangendo os diferentes
sectores do Estado e da sociedade, no sentido de buscar em conjunto possi-
bilidades alternativas viáveis à resolução dos atuais problemas prevenindo os
futuros impactos negativos, diante das demandas, limitações e potencialidades
sociocultural e ecológica.
Esta transformação político-territorial agrícola, do caráter público ao sis-
tema privado individual, sem a efetivação de uma política e ação educativa,
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
133
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

onde o Estado diante da sua impossibilidade, financeira e técnica, de manter as


empresas até então estatais, com a orientação dos organismos internacionais,
percebeu a reforma agrária como uma possibilidade de livrar-se das suas res-
ponsabilidades quanto á produção agrícola local e nacional. Fato este que de
início revelou-se complicações tanto para as famílias como, também, aos ecos-
sistemas locais, principalmente ao ecossistema florestal.
Dependentes dos seus próprios meios, diante da realidade socioeconômica
não muito animadora, os novos proprietários de terra iniciaram suas práticas de
cultivo como autônomos, com pouca ou nenhuma intervenção eficiente do poder
público local e ou nacional.
Novos produtores-empreendedores, velhos cultivos agrícolas, mas de ex-
trema relevância local, nacional e internacional e um novo problema, assim se
caracterizava a realidade camponesa na ilha nos primeiros anos de aplicação
da política voltada à reforma agrária. Uma iniciativa socialmente equitativa, mas
aplicada de forma setorizada e centralizada nos objetivos e perspectivas do Es-
tado que até os dias atuais tem interferido de uma forma negativa para o setor
agrícola local.
Com isso não se pretende, de forma alguma, justificar que a reforma agrária
foi uma iniciativa precoce do Estado, pois a ação de distribuição de terra para as
famílias camponesas se constitui como um dos melhores programas nacionais
do novo Estado constituído após a proclamação da República.
O que se indaga é o afastamento do Estado, incluindo o Governo Regional
do Príncipe, da responsabilidade de criar mecanismos viáveis para a manuten-
ção da continuidade e produtividade das atividades agrícolas familiares locais.
Esse isolamento do Estado, pelas suas consequências, incentivou, logo no inicio
da distribuição de terra, á uma onda progressiva de corte de arvores de maior
porte, inclusive de frutíferas, como a de jaca, fruta-pão, e espécies ameaçadas
de extinção, trazendo consequências negativas para a produção agrícola, com
a incidência de pragas no cultivo de cacau através do processo de retirada do
sombreamento e ecológica, pelo desmatamento e corte de espécies com alto
valor para o sistema ecológico local, uma vez que as espécies frutíferas ali exis-
tentes, dentre outros serviços ecológicos prestados, alimentam a fauna da Ilha,
sobretudo os macacos e aves.
Acredita-se que as idoneidades envolvidas na sua gestão são cientes destes
saberes necessários ao delineamento das ações político-econômicas na promo-
ção do des/envolvimento ecológico, sociocultural e econômico regional. Mas,
no entanto, lamentavelmente se afirma que o processo em construção para a
promoção do turismo tem tirado das atividadestradicionais, como agricultura e
pesca, do foco das intervenções político-econômicas.
Este processo tem exigido um reordenamento territorial, envolvendo o re-
manejamento de comunidades, agrícola e pesqueira, sem um levantamento de
134 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

estudos adequados sobre os impactos socioculturais e ambientais, bem como


de um diálogo construtivo sobre as alternativas locacionais.
Dentre os discursos políticos locais, apresentam ideias de que a Ilha do Prín-
cipe se encontra numa fase de investimento ímpar e como veículo de propor-
ção ao “desenvolvimento local sustentável”, mas as ações tomadas e o cenário
previsto desencadeiam inquietações quanto ao seu ideal fundamento. Qual a
importância das comunidades, incluindo suas práticas tradicionais, e o nível de
seus envolvimentos neste processo de des/envolvimentos? É aceitável que neste
momento você como leitor esteja fitando as palavras em busca da resposta à
este questionamento nas frases ainda porvir ou já tenha formulado o seu ponto
de vista com base nas reflexões anteriormente apresentadas. Faz-se neces-
sário aqui sublinhar que as macrozonas de uso privado (parcela territorial da
ilha, envolvendo diferentes comunidades tradicionais, cedida aos proprietários
estrangeiros para o fomento das atividades turísticas) são o retrato explicito da
ambiciosa política de desenvolvimento do turismo na Ilha do Príncipe, agregam
uma área equivalente à 12,74 % deste território insular.
Esta unidade de uso abrange a área total correspondente à roça Sundy, Pa-
ciência, Belo Monte, incluindo as praias Macaco, Boi e Uba, e nas localidades de
Santana e Bom-bom. São zonas, que dentre as estratégias do desenvolvimen-
to turístico, foram concedidas, por um prazo não muito conhecido, falam-se de
contratos em períodos de 30 a 40 anos, à empreendedores estrangeiros para
prosseguirem com as suas atividades econômicas.
Apresentam, estas unidades, elevado interesse para a conservação eco-
lógica, e de grande potencialidade ao desenvolvimento agropecuária, in-
cluindo práticas extrativistas florestais, como por exemplo, de coco, andim,
inhame e izaquente que ao longo do tempo têm sido desenvolvidas pelas
comunidades.
Sendo estas constituídas como zonas de uso privado e sob o comando de
grande empreendedor estrangeiro, percebe-se que detêm, até certo ponto,
influência sobre o delineamento das ações do Estado. Pois, o Estado por sua
vez, percebendo o nível elevado de investimento privado como veiculador do
desenvolvimento regional, cria incentivo à efetivação do empreendimento e a
sua máxima permanência possível, por meio de açõesprodutoras de impactos à
curto e médio prazo para as comunidades tradicionais.
A comunidade agrícola que antes residia na sede de Belo Monte, especifica-
mente nas ruínas das casas coloniais, foi realocada para marginais do Planalto
local. Não se engane que o objetivo principal se baseia na busca pela melhoria
da qualidade de vida dessa população através de ações voltadas à construção
de moradia com melhores condições. Portanto, moradias receberam, embora
sendo a preferencia de muitos na Ilha a construção de madeira, as recebidas
foram com materiais de péssima qualidade. Construídas com especiais vegetais
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135
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

inapropriadas, que diante das condições climáticas locais resistirão por pouco
tempo de uso.
Outro problema relatado pelos moradores se relaciona ao descumprimen-
to das promessas sobre instalação de infraestruturas para o fornecimento de
água para a comunidade. Sendo o acesso à água um problema de extrema
preocupação em todas as comunidades agrícolas e pesqueiras da ilha, des-
tacando as comunidades de Abade, Nova Estrela, Gaspar, Tchada, Aeroporto,
Azeitona, Santa Rita, Praia Inhame, Picão, Paciência. Como medida de mitiga-
ção, o governo tem ampliado a rede de distribuição de água em deferentes
comunidades, porém por falta de manutenção estes equipamentos têm fun-
cionado com muita limitação.
Assim como as mudanças ocorridas na roça Belo Moente, na Praia Sundy
existia, até o ano de 2015, uma comunidade pesqueira constituída por mais de
10 famílias. Dentre estas, três famílias fundaram a comunidade há mais de quatro
décadas. Outras, originadas do bairro Hospital Velho (Cidade de Santo António)
nas imediações da roça São João, frequentavam a praia, inicialmente, de for-
ma sazonal conforme à oscilação do calendário pesqueiro local, mas em virtude
das possibilidades da pesca haviam fixados as suas residências há aproxima-
damente 10 anos. Da mesma forma foram realocados, estes para zona urbana
da cidade da ilha, área de menor interesse dos empreendedores turísticos que
transformou a paisagem desta praia, antes comunitária, com a construção de
hotéis de alto padrão, espaço destinado ao público seleto.
Nesta mesma praia, além da comunidade referida, os pescadores morado-
res da roça Sundytinham ali os seus instrumentos de pesca, inclusive canoas e
botes. Pela transformação seletiva quanto aos frequentadores e usuários desta
praia, estes foram transferidos para a praia de Ribeira Izé, aumentando, deste
modo, o distanciamento entre os lugares de moradia e trabalho. Nesta mesma
conjectura, os moradores da Roça Sundy serão remanejados os seus lugares de
moradia, tal retirada é uma necessidade concreta aos olhos dos gestores públi-
cos e o empreendedor privado, diante da nova exigência econômica.
A desterritorialização que ali se solidifica é um fenômeno de ordem político-
-econômico quase que inquestionável pela idoneidade local, embora existam
rumores dentre os atentos minuiê sobre as suas futuras consequências. Pois, se
trata de um local com extrema relevância para o lazer e praticas tradicionais de
subsistências de muitas outras famílias, mas que se convencionou privatizar o
seu acesso e uso em nome de um desenvolvimento social incerto.
A comunidade agrícola da roça Sundy é constituída por mais de 200 famílias
e se origina no limiar da colonização, pois com séculos de existência, história,
símbolos, signos e vínculo sociocultural e natural. Composta, essencialmente,
por famílias pesqueira e camponesa, sendo estas atividades de grande repre-
sentatividade às suas subsistências. É lamentável afirmar que a imposição para
136 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

a sua transferência para outro lugar de moradia está sendo arquitetada de forma
centralizada.
Os trâmites para a efetivação e aproveitamento da infraestrutura colonial,
atual moradia da população local, como vetor atrativo ao desenvolvimento tu-
rístico, assim como se desenvolve na roça Belo Monte, indicam a exigência da
necessidade do remanejamento da comunidade de Sundy para uma região além
do limite de interesse aos olhos dos empreendedores.
O turismo é uma atividade de extrema flutuação, além disso, percebe-se
que o desenvolvimento se alcança por meio de ações interativas, capazes de
articular, entender e construir, com os sectores da sociedade local, bases fun-
damentais necessárias à resolução, minimização e prevenção dos problemas,
objetivando potencializar as aptidões, os valores e a vida de toda comunidade e
população inserida no sistema, seja ela num contexto social e ecológico.
Além dos impactos social e ecológico, o rendimento do turismo convencional
acontece de forma centralizada e, por outro lado é diretamente proporcional à
dinâmica econômica internacional que pode interferir, inclusive, no abandono
das infraestruturas, como é o caso do resort construído pelos empresários portu-
gueses na Praia Macaco que com poucos anos de funcionamento foi totalmente
desativado ainda no final da década de 2000.
Cabe destacar que a prática turísticafoi desenvolvida nesta ilha antes do pe-
ríodo da independência, segundo Azevedo et al., (1961), as práticas turísticas
desenvolvidas ali durante a era colonial direcionava-se às atratividades das pai-
sagens naturais, sendo muito vinculada ao mar. O turismo tem ganhado impulso
na nas políticas de desenvolvimento regional nos últimos anos, recalcadas na
ampliação de resorts em quase todas as praias do litoral norte.
O reconhecimento da Ilha do Príncipe como Reserva Mundial da Biosfera
tem contribuído para atrair o seu redescobrimento à nível nacional e inter-
nacional, desencadeando mudanças socioambientais locais num ritmo acele-
rado. Teoricamente acredita-se que a sua classificação como Reserva venha
interferir no delineamento das estratégias locais de desenvolvimento, através
da elaboração e efetivação de planos de gestão ambiental sob os preceitos da
sustentabilidade.
Recentemente, tem-se percebido uma ligeira procura à Ilha do Príncipe como
lugar ideal para a fixação de moradia, tanto os cidadãos nacionais quanto dos
estrangeiros. Sua recente valorização, dentre outros fatores, se relaciona ao seu
reconhecimento através das políticas e ações nacionais e internacionais de incen-
tivo à multiplicação do fluxo turístico no seu interior. Com um cenário nacional de
emprego deficitário, e uma nova e ímpar transformação sociocultural, econômica
e ecológica da Ilha, promovida por investimento privado estrangeiro que recente-
mente vem desencadeando o reordenamento territorial, para se adaptar aos re-
quisitos das infraestruturas turísticas existentes e ainda em construção, tem sido o
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
137
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

acontecimento determinante para o seu redescobrimento e reconhecimento em


níveis espaciais diferenciadas.
Diante de um investimento privado considerado maior para Ilha do Príncipe,
na história da formação do Estado Nacional, poucos são aqueles que atentem
para as suas consequências socioculturais e ecológicas negativas, confundindo-
-se o desenvolvimento à mero progresso econômico que pouco ou nenhum be-
nefício pode oferecer a população local caso medidas de articulação não forem
aplicadas no tempo adequado.
Como forma de prosseguir com os planos econômicos de interesse privado
algumas comunidades tradicionais pesqueiras e agrícolas são esforçadas à mu-
dar os seus lugares de moradia para outros que não sejam de interesse dos em-
preendedores turísticos. Pois, migram-se influenciados com promessas de reso-
lução dos problemas imediatos, diante de um cenário futuro de êxito duvidoso.
Como consequência, modo de vida é alterado, por meio de mecanismos polí-
tico e econômico que desconsideram as tradições locais em busca de um desen-
volvimento sem o envolvimento efetivo das populações.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebe-se que o conhecimento das especificidades locais se faz necessário
para se pensar e executar ações de gestão ambiental local viável às tradições
e ecossistemas locais. A percepção da ilha foi construída, historicamente, com
base na leitura externa, visão colonizadora, que dispa as nossas paisagens de
beleza na sua existência. E essa forma de ver somente o concreto, com base
nas experiências externas, simplifica e esmiuda a heterogeneidade da paisagem
local, como o produto e palco das múltiplas interações entre agentes naturais e
antrópicos. Em parte, estes reflexos permeiam inclusive a visão de alguns dos
nossos gestores que buscam, à qualquer custos, mudanças socioeconômicas
ameaçadoras das tradições locais.
Nesta perspectiva o fortalecimento de um olhar geográfico sobre as espe-
cificidades locais se apresenta como uma necessidade à aproximação das pro-
postas de desenvolvimento aos valores socioculturais locais. Um dos efeitos
negativos direto do turismo, ali percebido, se caracteriza pela centralização da
população autóctone nas áreas de menor atratividade paisagística, incluindo os
valores arquitetônicos e naturais, em função do interesse econômico. A paisa-
gem, seja ela natural ou cultural, se transforma num produto comercial, onde
as interações socioculturais-naturais são desvinculadas de uma forma esforça-
da através da negociação desenvolvimentista romântica de promessas atrativas
para a resolução de problemas imediatos sem ao menos desencadear um diálo-
go sobre os reais efeitos destas transformações.
138 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Além dos fatores naturais favoráveis à multiplicação das espécies, a fraca


densidade populacional, a ausência de grande indústria, e outros fatores rela-
cionados, constitui a base fundamental na existência da rica biodiversidade e
para a permanência da densa cobertura vegetal que estende por todo território
regional. Portanto, a classificação da Ilha como Reserva da Biosfera contribui
para estimular a conservação e preservação da biodiversidade local, tendo em
conta que a sua administração carece uma gestão integrada, participativa e sus-
tentável de recursos naturais para que o mínimo de impacto seja gerado.
Diante das dificuldades enfrentadas pela população local, as florestas es-
tão expostas como uma das principais saídas para a resolução dos problemas,
deste modo as diretrizes legais são ignoradas em função da permanente busca
pela sobrevivência, tendo em conta que o Estado não demonstra ser capaz de
reverter à situação de pobreza vivida pela população local. Promessas são feitas
em torno do organismo político, mas concretamente não se percebe uma ação
condizente. Convivem diariamente com deficiência do sistema de saneamento
básico, intensificando as limitações do sistema de saúde pública que ainda não
tem oferecido à população um serviço digno.
Entende-se que o desenvolvimento local, não se baseia no acúmulo de rique-
zas, mas, sobretudo na atribuição de condições dignas de vida para a população,
respeitando não só as tradições locais, como também as especificidades ambien-
tais.Contudo, o desenvolvimento socioeconômico da Ilha do Príncipe continua
sendo planejado da forma centralizada, desconsiderando as práticas tradicionais
de subsistência da população local, como por exemplo, o lazer, a agricultura fami-
liar, o extrativismo vegetal, a pesca artesanal, entre outras, e como consequência
a concentração da pobreza permanece num patamar preocupante.
De forma geral, no contexto sociopolítico há manifestações de preocupações
com os impactos ambientais, porém, as possíveis consequências negativas das
novas propostas de desenvolvimento têm um caráter social e ecológico expres-
sivo à médio e longo prazo. Vive-se hoje uma nova era, aquela em que se deter-
mina um desenvolvimento local capaz de mobilizar as comunidades tradicionais,
caso estas estiverem fixadas em espaço de grande especulação capitalista.
Portanto, associado aos outros fatores, acredita-se que a proposta de de-
senvolvimento turístico local carece de uma reflexão sobre a sua estruturação,
tendo em conta que impactos socioambientais negativos poderão se manifestar
num ritmo preocupante, caso houver a continuidade da atual estratégia de ges-
tão ambiental. Verifica-se que o conflito por posse da terra é uma das questões
problemáticas projetadas a curto, médio e longo prazo, estimulados principal-
mente pelas políticas de reestruturação da economia local, a partir da valoriza-
ção de um “turismo ecológico” direcionado à multiplicação de resorts, principal-
mente nas zonas costeiras da região norte da Ilha. Com base nas estratégias de
desenvolvimento determinada pela concessão de uso da terra à investimentos
AS PAISAGENS DA ILHA DO PRÍNCIPE SOB AS PERSPECTIVAS DA GEOGRAFIA
139
Lúcio Correia Miranda, Edson Vicente da Silva, Adryane Gorayeb

externos, verifica-se uma tendência limitante das atividades tradicionais se no-


vas medidas de gestão não forem aplicadas.
A maior preocupação é com as propostas vigentes de ampliar a infraestru-
tura do resort para as outras praias da ilha sob a lógica do isolamento total das
comunidades, privatizando as praias e exigindo retiradas das comunidades
pesqueiras, que historicamente se encontram fixadas, e barrar toda e qualquer
atividades tradicionais na área do seu interesse. Acredita-se que para o desen-
volvimento sustentável da Ilha não caberia à ampliação ou a construção de qual-
quer outro resort no seu entorno, sob a lógica vigente de planejamento e gestão
ambiental predominante.
O turismo poderá se tornar um aliado significativo para o desenvolvimen-
to local caso houver uma mudança ideológica e prática de todas as entidades
(públicas e privadas) inseridas na sua promoção. Assim, poderão ser ampliados
os empreendimentos que direcionem a sua prática (resorts, hotéis, pousadas,
entre outros) para diferentes regiões da ilha, respeitando a sua capacidade de
suporte, sem a necessidade de mobilizar as comunidades e nem de limitar as
suas práticas tradicionais de lazer e subsistência.
Além de exigir do resort e periciar a implementação de ações que minimi-
zem e previnam os impactos ecológicos e socioculturais provenientes das suas
práticas produtivas, o Governo nacional e/ou regional desempenha relevantes
papais e responsabilidades na efetivação ou não da sustentabilidade das suas
práticas produtivas. Se o turismo baseado na implementação de resorts é hoje
percebido pelos gestores públicos como uma alternativa para o desenvolvimen-
to local, diante dos cenários indesejáveis que este tipo de empreendimento tem
desencadeado nas comunidades tradicionais noutros lugares do mundo, inclu-
sive no nordeste brasileiro, percebe-se que medidas reguladoras precisam ser
implementadas na gestão de suas atividades almejando prevenir e minimizar os
impactos socioecológicosà curto, médio e longo prazo.
Embora tendo efetivado a distribuição de terras no início da década de
1990, percebe-se uma forte tendência em direção a uma nova concentração de
terras na Ilha, com a participação do governo local. Pois, são tiradas as terras
dos pequenos agricultores, alegando que os mesmos deixaram de produzir, e
beneficiando os médios e grandes empresários locais, os detentores de poder
econômico e político, com extensas áreas antes pertencentes a um conjunto de
famílias camponesas. É notória a quantidade de áreas agrícolas abandonadas,
pois se percebe que o governo caracteriza-se como o maior responsável por
este abandono, tendo em conta que as condições que promovam o mínimo de
estimulo a manutenção das roças não foram dadas às populações camponesas.
Deste modo, os pequenos agricultores são responsabilizados pela deficiência do
governo em promover políticas e ações voltadas à manutenção da produtividade
agrícola.
140 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Entende-se que o desenvolvimento local vai além do aumento das taxas dos
indicadores estabelecidos internacionalmente como fundamentais para ultra-
passar as barreiras do subdesenvolvimento. Requer garantir qualidade de vida
mais do que competir em estabelecer um ranking mundial em relação aos índi-
ces de outros países, deve centralizar-se, prioritariamente em resolver os proble-
mas socioambientais internos.
Para isso, carece um conhecimento pleno das problemáticas e das tradições
de cada uma das comunidades existentes, de modo que individualmente as co-
munidades sejam incluídas como participantes do processo e não simplesmente
como um coadjuvante merecedor de qualquer imposição externa à sua realidade.

RESUMO
O presente artigo versa dialogar sobre a percepção geográfica das paisagens da
Ilha do Príncipe e apresentar um panorama das especificidades físiconaturais e so-
cioculturais deste ambiente insular atlântico.Nesta perspectiva, tem-se como ponto
de partida a premissa de que a sua tardia institucionalização como porção territo-
rial de uma nação independente caracteriza-se como um dos motivos pelos quais a
construção de um olhar geográfico autóctone sobre a sua paisagem esteja ainda se
consolidando, embora se apresente registros de estudos que datam o período colo-
nial e isso tem influenciado, de certo modo, o desenvolvimentos de estratégias de
gestão ambiental local.A pesquisa deriva de levantamentos bibliográficos, buscando
a caracterização da ilha em diferentes momentos históricos e no trabalho de campo
realizado em 2012 e 2015, almejando compreender as interações socioambientais
no contexto local, com ênfase na análise das interferências da atual estratégia de
desenvolvimento no modo de vida da população local, bem como as suas conse-
quências à curto e médio prazo. Desta forma, constatou-se a efetivação de transfor-
mações significativas nas paisagens locais, diante das diretrizes políticas e infraes-
truturas turísticas implementadas, principalmente, na última década, determinando
novas dinâmicas ao contexto sociocultural.

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(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E
POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO
DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
(PROVÍNCIA DE BENGUELA, ANGOLA)
ISAAC SIMÃO SANTO*
WLADIMIR ESTÊVÃO BORGES**

1. INTRODUÇÃO
O município do Lobito, localizado na província de Benguela, é limitado a Nor-
te pelo município do Sumbe, província do Kwanza-Sul, a Leste pelo município do
Bocoio (província de Benguela), a Sul pelo município da Catumbela (província de
Benguela) e a Oeste pelo Oceano Atlântico. Em Março de 2015, a região foi forte-
mente afectada por quedas pluviométricas e registou, no contexto da província,
o maior número de vítimas mortais decorrentes de enchentes e inundações que
decorreu, em boa medida, do débil ordenamento do território (de um verdadeiro
e prático Plano Director Municipal). Em Março de 2015 o município do Lobito
registou uma das mais tristes páginas da sua história. É que mais de 60 pessoas
perderam as suas vidas por conta da elevada precipitação registada na madru-
gada daquele dia. Embora em grande medida se possa atribuir a causas naturais
(quedas pluviométricas), o factor principal deste percurso menos bom da história
daquele município estará na falta ou na provável ineficácia do Plano de Ordena-
mento do Território, bem como na incapacidade de ajustamento de políticas de
ordenamento às necessidades da população em tempo de crise. Ou seja, apesar
de se reconhecerem tentativas no sentido de melhoria da organização do territó-
rio, a realidade mostra que as acções realizadas não têm vindo a surtir os efeitos
esperados pela população, maior parte dela pobre e vulnerável, pela incoerência
das medidas adoptadas para o ordenamento, que não garantem o cumprimento
de pressupostos como a promoção da qualidade de vida, especialmente de ci-
dadãos desfavorecidos.

*
Instituto Superior de Ciências da Educação/UKB – Benguela [isaacsanto82@outlook.pt].
**
Instituto Superior Politécnico Militar – Lobito [wladimirestevao2012@hotmail.com].
144 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Fig. 1. Angola: enquadramento de Benguela e Lobito no contexto nacional

Fonte: Adaptado do Google

É expectável que a definição de Políticas Públicas consequentes e combina-


das concorram para o aumento da segurança das populações e infra-estruturas,
diminuindo a sua exposição aos riscos (ditos) naturais e mesmo mistos. A Cons-
tituição da República, nos termos da d) do artigo 21.º e dos arts. 30.º, 31.º e 39.º,
reconhece o direito à dignidade humana; à protecção do ambiente e a devida
localização de infra-estruturas económicas, bem como a promoção do processo
de participação pública na vida do município, apesar de vários programas apro-
vados se inspirarem num modelo meio elitista e excludente (haja vista os valores
ser investidos na aquisição de imóveis), bem como, muitas das vezes pouco de-
mocrático, com que são aprovados (sob o apoio também de determinadas castas
da Sociedade Civil que mais representam interesses de grupos hegemónicos
em desfavor da classe menos favorecida). Para alguns autores é fundamental
a abertura a estratos sociais mais diversificados (e não desiguais) pois, como
sugerem, “o envolvimento da sociedade civil através de organismos eleitos e
instituições particulares de solidariedade social deram aos programas um alcan-
ce de aprendizagem na procura da coesão social e territorial muito significativo”
(GUERRA 2011, 105).
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
145
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

Veja-se, por exemplo, o n.º 3 do art. 5.º da Lei do Ordenamento do Território


e do Urbanismo (LOTU; Lei n.º 3/04, de 25 de Junho), que inscreve que “as co-
munidades rurais podem (grifo nosso) participar de forma articulada nas acções
de ordenamento do território e na elaboração de planos territoriais”. Ora, do
ponto de vista formal, pode implicar a não obrigação de participar; de não ser
chamado a participar; de participar do acto e não da decisão ou ainda de serem
escolhidos representantes que não mais fazem do que tomar conhecimento, por
vezes sem bem entender, as decisões previamente tomadas, ainda que em seu
prejuízo. Embora existam também na referida legislação articulados que pare-
cem excluir esta possibilidade é no n.º 1 do art. 54.º (Loteamento) da Lei 9/04, de
9 de Novembro de 2004 (Lei de Terras) onde parece estar parte do problema. O
mesmo artigo refere que “constitui operação de loteamento a acção que tenha
por objecto ou por efeito a divisão de terrenos urbanizáveis em um ou mais lotes
destinados, imediata ou subsequentemente, à edificação urbana, de harmonia
com o disposto nos planos de urbanização, ou na sua falta ou insuficiência, com
as decisões das (sic) órgãos autárquicos competentes”.
Não havendo ainda no ordenamento jurídico angolano a figura da autarquia
local de forma funcional (embora esteja em preparação o seu Diploma regulató-
rio), fica mais difícil às Administrações Municipais, enquanto órgãos equiparados
em face da actual conjuntura (mas sem as mesmas disposições legais previstas
para aquelas) actuar para conformar a ocupação do território a um plano que
resulte da participação democrática dos cidadãos, especialmente por não serem
órgãos eleitos pela população local e as acções que executem dependerem de
órgãos da Administração Central do Estado. Aliás, embora a lei supra prescreva,
no n.º 1 do seu art. 84.º, que “as pessoas singulares e as pessoas colectivas
que ocupam, sem qualquer título, terrenos do Estado ou das autarquias locais,
devem, no prazo de três anos a contar da publicação do regulamento geral ou
especial aplicável requerer a emissão de título de concessão”, não se pode co-
locar de parte a ignorância da lei e, no mais, a incapacidade do poder público
na exigência do seu cumprimento, pois “há que considerar que nem sempre os
designados “Órgãos técnicos provinciais” (figura jurídica prevista no art. 49.º)
se prestam em, de maneira directa, orientar, coordenar e controlar actividades
da respectiva área territorial, afectando negativamente a correcta execução das
"Operações urbanísticas" e " Operações de ordenamento rural" em que se des-
tacam as seguintes (arts. 41.º e 42.º): delimitação de perímetros urbanos e rurais;
loteamento; licença de construção; criação de novos centros urbanos; recupera-
ção ou reconversão de áreas urbanas degradadas ou de ocupação ilegal; realo-
jamento e reassentamento; reordenamento rural (SANTO s.d.).
Note-se, porém, que existem factores históricos a se ter conta na análise da
problemática do ordenamento do território em Angola. É que se tratada de “um
dos países africanos que ainda regista as consequências de um período de luta
146 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

[anti]-colonial (até 1975) e de guerra civil (1975-2002). Ambos períodos promo-


veram profundos movimentos sociais (êxodo rural) resultando deles diversas
formas de uso e ocupação do solo sem a devida acuidade ambiental” (Ibidem).
Deste modo, ao analisarmos a questão do (re)ordenamrnto do território no
município do Lobito, devemos fazer uma análise sócio-histórica e geográfica.
Referenciamos, a título exemplificativo, a tragédia ocorrida em Março de 2015
que, em face da combinação de um excesso de chuvas, edificação em zonas
de risco e a falta de drenagem de valas provocou a perda de vidas humanas e
danos materiais ainda hoje por calcular. Assim, é objectivo contribuir para um
melhor aprofundamento das questões relativas ao (re)ordenamento do território,
instrumento alicerçado em Políticas do Estado (como é o caso do Plano Director
Municipal) que atendam, de modo cíclico, a melhoria das condições de vida e
assegurem a participação democrática na vida da comunidade.

2. O MUNICÍPIO DO LOBITO: BREVE ENQUADRAMENTO


GEOGRÁFICO E SÓCIO-ECONÓMICO
Angola é um país da África Subsahariana, independente desde 1975. Com
29.250.009 habitantes, segundo dados do Recenseamento Geral da População
1
e Habitação (INE , 2014) divide-se em 18 (dezoito) províncias e tem como capital
política e económica a província de Luanda (Fig. 1). Destas províncias importa-nos
Benguela (Fig. 2), a qual tem uma população estimada em mais de 2 milhões de
habitantes (cerca de 7% do total de habitantes do país), de acordo com o último
Recenseamento Geral da População e Habitação realizado em 2014 (INE, 2014).
É constituída por 10 municípios designadamente Lobito, Catumbela, Baía-Farta,
Caimbambo, Ganda, Cubal, Chongoroi, Bocoio, Balombo e Benguela (sede pro-
vincial com o mesmo nome).

Fig. 2. O município do Lobito e a Província de Benguela: enquadramento geográfico

Fonte: Judite Matias (2019) (https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/40661/1/TMigotul011642.pdf)

1
Instituto Nacional de Estatística.
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
147
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

Já a região em estudo (município do Lobito) localiza-se “mais ou menos en-


tre os meridianos 13º30’00 e 14º00’ e os paralelos 12º00’ e 12º30’. O Lobito é
limitado a Norte pelo município de Sumbe (capital da província do Kwanza-Sul),
a Este pelo município do Bocoio (Benguela), a Sul pelo município da Catumbela
(Benguela) e a Este pelo Oceano Atlântico.
A cidade, fundada em 1913, tem como alavanca económica o Caminho de Fer-
ro de Benguela (CFB) e do Porto Comercial do Lobito, criados como eixos entre
o litoral e o interior de África em correspondência aos interesses das potências
coloniais em que se destacam Portugal e Inglaterra no que tange à exploração
e exportação de matéria-prima para a Europa, fundamentalmente, como os mi-
nérios de Cobre e outros provenientes das Repúblicas Democrática do Congo
e Zâmbia, hoje podendo funcionar como portas de entrada de bens para aque-
les países africanos. Ambas infra-estruturas compõem o que se conhece como
Corredor do Lobito, o qual “começa no Porto do Lobito, atravessa o território
angolano em direção ao Leste e cruza [por meio do CFB] as regiões mineiras da
República Democrática do Congo, na província de Katanga e a chamada cintura
do cobre na Zâmbia” (EURONEWS 2019).
Em Duarte (2020) que encontramos uma distinta caracterização da área em
estudo. Segundo Duarte (1966) citado por Duarte (2020, 4), é o Lobito “uma ci-
dade portuária, cuja identidade se deve muito à sua restinga. Um cordão de
areia totalmente antropizado e, previsivelmente, com a mesma orientação das
morfologias costeiras, citadas na região de Luanda, atendendo a que os efeitos
da deriva litoral são exatamente os mesmos”.
O município do Lobito reparte-se em três circunscrições administrativas (co-
munas), designadamente Lobito (cidade sede administrativa), Canjala e Egito-
-Praia, estendendo-se por uma área de 3.648 Km2, o que representa 9.15% do
total da área da província de Benguela, que tem 39.826 Km2, cerca de 4% do
território nacional.
De acordo com Galvão e Silva (1972) citados por Santo (s.d, 3), “O município
caracteriza-se por um clima megatérmico e árido em toda a zona Oeste e semi-á-
rido a Leste. Compõe-se, no essencial, de três unidades geomorfológicas e geo-
lógicas completamente distintas entre si. Destacando-se a segunda referência,
consideram-se os seguintes grupos: de rochas sedimentares, de Norte a Sul no
sentido da costa (de direcção NW - SE, salvo na vizinhança do soco); complexo
metamórfico, como uma faixa central entre a primeira; a terceira faixa, de rochas
graníticas, mais a leste da região”.
De acordo com Cavita (2011), citado por Duarte (2000, 4) “As arribas costei-
ras, essas, continuam calcárias através da unidade que parece ser interminável: a
Formação de Quissonde. Estamos numa região com imensas pedreiras que apro-
veitam o enorme potencial de recurso das formações carbonatadas albianas (in-
cluindo a Formação de Catumbela), desde cimenteiras (considerando o domínio
148 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

dos margo-calcários), até explorações artesanais em plena malha urbana do


Lobito”.
Em termos de altitude, os pontos elevados da região em estudo chegam a
atingir os 139 m, especialmente na parte Leste (factor que se junta à maritimida-
de e à continentalidade, correntes oceânicas e à latitude, acabam por afectar o
seu clima. Apresenta inúmeros cursos de água e estes, apesar de se mostrarem
com caudal insignificante em grande parte do período chuvoso, não deixam de
representar perigo para as populações em tempos de picos, como o assinalado
há 11 de Março de 2015.

Fig. 3. Distribuição da população residente por município (2014)

Fonte: INE (2014)

De acordo com dados recentes, esta região registou, a par de Benguela (sede
provincial) uma população estimada em mais ou menos 500 mil habitantes, gran-
de parte dela distribuída pela Zona Alta (leste do município) sendo, por isso, um
dos mais populosos (Fig. 3). Embora não existam dados actualizados acerca da
população residente na região em estudo, dados recentes apontam para o au-
mento deste número a longo dos últimos anos, especialmente decorrente dos
processos migratórios provocados pela crise financeira internacional, bem como
das oportunidades que podem ser geradas devido ao peso económico do Porto
Comercial e do Caminho de Ferro de Benguela, Instituições que mobilizam uma
série de vantagens em relação aos demais municípios da província e do país,
especialmente no ramo de serviços.
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
149
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

Fig. 4. Cidade do Lobito


1970 2020

Fonte: Concedida por Teresa Manuela

3. POLÍTICAS PÚBLICAS E ORDENAMENTO DO TERRITÓ-


RIO: O ESTADO DA ARTE
Entende-se por Políticas Públicas o conjunto de programas, ações e ativida-
des desenvolvidas pelo Estado, de forma direta ou indireta, com a participação
de entes públicos ou privados. Essas são pensadas visando assegurar direitos
garantidos constitucionalmente ou que se afirmam graças ao reconhecimento
por parte da sociedade e/ou pelos poderes públicos enquanto novos direitos das
pessoas, comunidades, coisas ou outros bens materiais ou imateriais (QUIOSSA
e SANTOS 2015, 74).
Para estas autoras, as Políticas Públicas “são formuladas a partir de demandas
e propostas da sociedade civil e elaboradas por iniciativa dos poderes executivo
e/ou legislativo. Concretizadas em nome ‘do público’, são geralmente iniciadas
“pelos governos e interpretadas por atores públicos e privados”, passando to-
das as políticas públicas “por processos de formulação, implantação e avalia-
ção de seus resultados, os quais revelam formas de exercício do poder político”
(BIRKLAND apud CONDÉ 2013; QUIOSSA e SANTOS 2015, 74). Para outros “as políti-
cas públicas podem ser vistas como processos através dos quais são elaboradas
as representações que uma sociedade constrói para compreender e agir sobre o
real, tal qual ele é percebido. As políticas públicas, nesta percepção, são formas
de uma sociedade construir sua relação com o mundo (FARANZANA 2011, 111).
Nos termos em que discorre essa apresentação há quem considere que as
“políticas públicas de urbanismo refletem as principais preocupações do Estado
150 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Social de Direito, que defende uma intervenção mais acentuada nas relações so-
ciais, económicas e culturais; o que pressupõe que para além das preocupações
tradicionais do Estado (Justiça, Segurança e Bem-Estar social) surgiram, para o
Estado, outros encargos, designadamente os que se relacionam com as missões
(atribuições) sociais onde se enquadra a habitação e urbanismo” (GOURNAY 1978
apud SOMA 2018, 40).
Há quem defina “as políticas públicas são a soma das atividades do governo,
sejam elas ações diretas do governo ou dos seus agentes, influenciando a vida
dos cidadãos” (PETERS 1999, referenciado por FERRAZ 2016, 13). Outros enten-
dem “O ordenamento do território é uma política pública transversal que integra
objetivos de organização territorial e desenvolvimento socioeconómico e tem
repercussão em múltiplas áreas da vida social e económica” (CARMO 2016, 100).
Ou, ainda, "corresponde, na maior parte dos casos à vontade de corrigir os de-
sequilíbrios de um espaço nacional ou regional” e "pressupõe por um lado, uma
percepção e uma concepção de conjunto de um território e, por outro lado, uma
análise prospectiva” (BAUD et al. 1997, citado por SANTO s.d.).
No caso concreto de Angola, ordenamento do território “é a aplicação no
território das políticas económico-sociais, urbanísticas e ambientais, visando a
localização, organização e gestão correcta das actividades humanas”, confirme
ficou plasmado na Lei do Ordenamento do Território e Urbanismo (Lei n.º 3/04,
de 25 de Junho, l) do art. 2º). Nesta senda, pouco sentido faria não abordar
o ordenamento do território, enquanto uma das tarefas essenciais de qualquer
Estado e, por isso, política pública pois, como visto, é ainda ao governo de cada
Estado a quem cabe, em última rácio, actuar como garante da organização terri-
torial e Angola não é excepção por, fundamentalmente, ter mais lugar o fenóme-
no de reordenamento do território, cujos critérios, discutíveis ou arbitrários, têm
a intenção jurídica de se ordenar o território.
A guerra civil que grassou Angola promoveu um movimento intenso de po-
pulações idas do interior do país as quais se foram sujeitando às condições de
precariedade. O município do Lobito não foi, por isso, excepção.
Ao êxodo rural associavam-se as dificuldades do Estado em gerir grandes
frentes: a segurança das populações refugiadas, a estabilidade das já residentes
e os esforços para “vencer” a guerra. Desse discurso surge a Estratégia de Com-
bate à pobreza (2005), gizada pelo então Governo de Unidade e Reconciliação
Nacional (GURN), surgido após o conflito armado e em que se previra que “A
construção social permitirá alojar e realojar as famílias vivendo em condições
precárias no espaço urbano e rural, dando-lhes as condições necessárias para
uma vida condigna” (GURN 2015, 6).
Nos termos do que temos vindo a frisar, importa referenciar a alínea f) do n.º
9 do Decreto n.º 2/06, de 23 de Janeiro, que serve de Regulamento Geral dos
Planos Territoriais, Urbanísticos e Rurais. Este documento o qual iremos fazer
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
151
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

referência, segue a linha do que prevê o n.º 1 do art. 5.º da LOTU segundo o qual
“Incumbe ao Estado promover e orientar a política de ordenamento do território,
nos termos da presente lei e sua compatibilização com as políticas do desenvol-
vimento socioeconómico e cultural”.
A expectativa gerada por aquele Decreto era a melhoria significativa do
processo de ordenamento do território, dado que é objectivo do Sistema de
planeamento territorial “a concretização dos fins do sistema do ordenamento
do território (…) sujeito a critérios de coordenação e valia sócio-económica e
ambiental, a nível regional, e local assegurando, assim, em estreita interacção
com o planeamento económico, a coordenação das políticas do ordenamento do
território com as políticas económica, de ambiente e conservação da natureza,
de educação e cultura, de bem-estar social e de qualidade de vida” (ASSEMBLEIA
NACIONAL 2006).
Prescreve o n.º 2 do art. 11.º da Lei n.º 3/07, de 3 de Setembro, que o Governo
“deve prever nos planos urbanísticos e de ordenamento rural os terrenos des-
tinados a habitações urbanas, bem como os terrenos rurais das comunidades
rurais tradicionalmente estabelecidas ou a implantação de novos aldeamentos
rurais”. Nesta condição, incentiva-se a autoconstrução habitacional, nos termos
do n.º 2 do art. 10.º da citada. Já a alínea a) do art. 17.º da Lei n.º 3/07, de 3 de
Setembro (Lei do Fomento Habitacional, prevê, como uma das competências do
governo, a “elaboração e aprovação prévia (grifo nosso) dos planos urbanísticos
e de ordenamento rural com a previsão adequada dos terrenos urbanos e rurais
destinados a habitação por iniciativa privada ou de autoconstrução, em geral
e em particular aos programas e projectos de habitação social, urbana e rural
apoiados pelo Estado ou outras pessoas colectivas de direito público” (ASSEM-
BLEIA NACIONAL 2007).
Apesar da existência destes normativos legais e outros, percebemos haver,
para o Lobito, um enorme duelo no que ao seu ordenamento diz respeito e que
muita influência tem tido no desenvolvimento harmonioso do território. Como
exemplo podemos destacar as consequências negativas que as instalações de
apoio à exploração petrolífera, situadas no centro da cidade, as quais promo-
veram alterações substanciais ao ambiente, designadamente a destruição dos
mangais, o que afectou o regime alimentar dos Flamingos, outro nome pelo qual
a sua cidade capital é conhecida (cidade dos Flamingos).
Outro factor importante na presente análise tem que ver com a falta e/ou o
incumprimento uma efectiva política de assistência às pessoas vulneráveis e/
ou pobres no que tange ao seu empoderamento em vista a capacidade para a
auto-construção, por si protegida por lei, assim como a regulação do mercado
imobiliário, como previsto no n.º 3 do art. 16.º da citada Lei (Lei n.º 3/07, de 3 de
Setembro). Com efeito, os “mercados não surgem espontaneamente, requeren-
do um poder político que os crie, estabilize e legitime” (RODRIGUES 2011, 135).
152 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Assim, como se pode notar, as dificuldades sociais criaram um cenário de


precariedade, levando um elevado número de famílias a gerir as suas vidas com
o pouco que já possuíam e essa falta de capacidade era mais profunda por conta
da desregulação do mercado imobiliário e a ausência de critérios homogéneos
para a ocupação de terrenos ainda que não houvesse, no imediato, qualquer tipo
de plano de (re)ordenamento. Porém, tal se podia evitar. No n.º 3 do art. 11.º da
Lei n.º 3/07, de 3 de Setembro, vem previsto que “são proibidas as construções
de habitações ou de outros edifícios de apoio as zonas habitacionais que violam
as normas dos planos territoriais”.
Ora, esta circunstância levou a que um grande número de cidadãos passasse
a viver em zonas de manifestação de risco (como córregos, linhas de água, planí-
cies de inundação, nas encostas e em locais com taludes apresentando instabi-
lidade). O risco é definido como “probabilidade de que um evento, esperado ou
não esperado, se torne efectivo” (POLLETIER 2007 apud GOES e LOURENÇO 2015:
34). Porém, Veyret (2007), citada pelos mesmos autores (op. cit.), considera que
“não há risco sem uma população ou indivíduo que o perceba e que poderia
sofrer seus efeitos. Correm-se riscos, que são assumidos, recusados, estimados,
avaliados, calculados. O risco é a tradução de uma ameaça, de um perigo, para
aquele que está sujeito a ele e o percebe como tal”.
A par desses conceitos e à luz do estudo sobre os riscos geomorfológicos e
hidrogeológicos do município do Lobito, foram identificados alguns riscos, desig-
nadamente “riscos de ravinamento, riscos de movimento de massa (deslizamen-
to e desabamento) e risco de inundação” (SANTO 2015). Algumas das ocorrências
esperadas para o Lobito as quais colocam sempre em risco as populações vul-
neráveis, maior parte delas composta por cidadãos com fragilidades múltiplas
quer no acesso à saúde, educação, a bens de consumo e sobre as quais as con-
sequências de um evento natural são mais significativas.
Citados por Freitas et al. (2015 10), Narváez et al. (2009), Alves et al. (2010),
Marendola e Hogan (2009) e Natenzon (2002) consideram que “a vulnerabilida-
de socioambiental que resulta de estruturas socioeconômicas que produzem si-
multaneamente condições de vida precárias e ambientes deteriorados, também
se expressa como menor capacidade de redução do risco e baixa resiliência”.
Nesta linha segue outro autor (ALMEIDA 2011, 23) para quem “a carência de re-
cursos económicos pode, por si só, gerar atitudes de descriminação por parte
dos outros. Para os próprios, essa carência produzirá eventualmente contágios,
levando à inacessibilidade de outros recursos sociais e acumulando assim obs-
táculos de difícil superação”.
Ademais, conforme referido, o mínimo de participação política da sociedade
civil (democracia dos mínimos) na idealização dos mais diversos planos de orde-
namento do território abriu pistas para o incumprimento de normas de ocupação
por desconhecimento objectivo de um plano próprio ou pela inexistência de um
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
153
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

“plano-objecto”, não se podendo imputar tais ocupações, ainda que fora dos
marcos da lei, somente a uma das partes, por si só vulnerável, pois não houve
um trabalho de “elaboração e aprovação prévia (grifo nosso) dos planos urba-
nísticos e de ordenamento rural”, como determina o art. 17.º da Lei n.º 3/07, de
3 de Setembro. Mas não é um aspecto isolado. A esse respeito, Capella, ba-
seando-se em Schneider e Igram (1993), aponta que “na definição das políticas,
os diferentes grupos são tratados também de forma distinta, sendo os grupos
favorecidos entendidos como merecedores, e os desviantes como indignos. As-
sim, problemas envolvendo alguns grupos têm maiores chances de concentrar
atenção, enquanto outros problemas tendem a ser sistematicamente ignora-
dos” (CAPELLA 2018, 24).
Embora seja o Estado proprietário da terra (território), nos termos do n.º 1 do
art. 15.º da Constituição da República, não podemos esquecer que na fundação
de um Estado estão igualmente a soberania e a população. Ainda que eventual-
mente conhecidos tais planos (à data e no presente), as pessoas têm de vencer
outro desafio que é a carestia financeira para responder aos quesitos que as
normas e o excesso de burocracia impõem. Importa levar em consideração que
“os problemas ligados à habitação dos grupos sociais com menos recursos são,
sem dúvida, um dos mais delicados elos da relação entre economia, sociedade
e Estado” (PINTO 2011, 9). Nesta senda, tem de se levar em consideração que
“os períodos de crise acentuam dificuldades, multiplicando casos de precarie-
dade, de salários em atraso, de subemprego, de desemprego. Em tais períodos
costumam também ficar distantes alguns dos direitos sociais inscritos nas cons-
tituições e nas leis” (ALMEIDA 2011, 51), e este é um requisito que não pode ser
colocado de parte na análise das Políticas Públicas de Ordenamento do Terri-
tório, sobretudo quando se tem elevadas taxas de analfabetismo e de pobreza
e nume momento em que se assiste a uma preocupante onda de fenómenos
extremos como chuvas torrenciais ou secas prolongadas em locais e padrões
foram do que há registo.

4. O PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO


O Plano Director Municipal (PDM) do Lobito consta do Despacho Presidencial
n.º 221/19, de 4 de Dezembro está inserido no Diário da República (I SÉRIE – N.º
157), cuja matéria “estabelece o modelo de organização espacial do território do
Município do Lobito através da classificação e qualificação do solo e as fixa as
directivas estratégicas, os critérios e parâmetros que deverão ser desenvolvidos
e aplicados pelos demais planos municipais. Com esta medida, está a prever-se
um sistema de continuidade e de segurança quando se apresentar a necessida-
de de um plano que melhor venha a responder aos desafios da região, de acordo
154 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

com o previsto no art. 88.º do citado Diploma. O referido PDM, nos termos do
seu art. 2.º, visa “Promover o desenvolvimento socioeconómico sem prejuízo da
salvaguarda dos interesses de defesa do território e sua segurança interna, do
equilíbrio ecológico e sustentabilidade ambiental e do património histórico-cul-
tural”. Tem ainda como objectivos, entre vários, “Adequar os níveis de densifica-
ção dos aglomerados às potencialidades infra-estruturais (…) de modo a suster a
degradação da qualidade de vida e a prevenir a acentuação de desequilíbrios” e
“Recuperar e reconverter as áreas degradadas existentes, a par da definição de
áreas novas de expansão, programadas de raiz em termos de infra-estruturas e
equipamentos colectivos”.
De acordo com este Diploma, na alíneas a), f); g), h) e i) do seu art. 2.º, o
processo de organização do município deve ter em consideração a “Requalifi-
cação dos bairros urbanos desordenados; Defesa das áreas agrícolas (…); Orde-
namento e regulação da actividade extractiva; Regularização do sistema hídrico
(…) e melhoria da qualidade do ambiente e preservação da estrutura ecológica
municipal”. É constituído por um Regulamento, por uma Planta de Ordenamento
e Planta de Condicionantes, instrumentos os quais apresentam os conceitos pró-
prios, assim como os desenhos quer geral, quer de cada região administrativa do
município do Lobito. Trata-se, com efeito, conforme o art.4.º, de um plano pionei-
ro para o município, já que “Na área de intervenção do Plano não se encontram
em vigor instrumentos de ordenamento do território de âmbito superior com os
quais o Plano tenha de se conformar”. Apesar de ser apontada tal situação, a
ideia passada parece-nos um pouco elástica, dado que imagens e documentos
relatam a existência de planos de ordenamento e um exercício breve é a compa-
ração de duas imagens dos anos de 1970 e de 2020 (fig. 4 e 5).
De outro modo, nos arts. 24.º, 25.º e 26.º estão pré-definidas “Zonas amea-
ças pelas cheias; Zonas com risco de erosão e Escarpas e faixas de protecção”
nas quais estão previstas proibições de construções, o que podia ter impacto po-
sitivo na organização do território se combinado com outros instrumentos legais,
como são os casos da Lei de Terras, de que falaremos adiante. Constituído por
88.º arts., o PDM do Lobito presta uma atenção particular à Zona Alta. Como se
nota no n.º 2 do art. 66.º, nesse ponto da cidade está prevista uma zona urbana
“em pente”, nela convivendo zona habitacional e de comércio e serviço e cuja
reabilitação carecerá de um Plano próprio. Este é um dos vários desafios que
o PDM coloca porque não está prevista a elevação do nível de proficiência dos
quadros que vão tratar da sua elaboração com critérios apropriados.
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
155
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

Fig. 5. Plantas de ordenamento do PDM do Lobito

Fonte: Plano Director Municipal (PDM) do Lobito, Despacho Presidencial n.º 221/19, de 4 de Dezembro

5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
O estudo permitiu observar uma multiplicidade de desafios às Políticas Pú-
blicas em Angola. Desde as Políticas sociais, de educação, saúde às do ordena-
mento do território, passando por outras para um crescimento sistemático do
país, em vista a diminuição das assimetrias regionais. De modo geral, no quadro
da análise de Políticas Públicas relacionadas ao território e uma vez instalada a
156 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

necessidade do reordenamento do espaço territorial, há que ter noção de que


“A aceleração do movimento geral de urbanização (…) provoca a chegada em
massa de populações entregues sem defesa ao jogo da concorrência urbana”
(LAUWE 1970, 75) dado que, conforme defendido por Guerra (2011, 107), “Nenhum
território pode pensar em separado as dimensões do seu desenvolvimento (…)
sob pena de o seu projecto voltar ao fracasso”.
Para o caso do município do Lobito, a situação é apenas consequência.
Embora com planos e projectos desenhados constantes do respectivo PDM, a
região apresenta enormes desafios do ponto de vista do ordenamento do ter-
ritório derivados não só da instabilidade político-militar e social vividas entre
os anos de 1975 e 2002, de forma particular (o que motivou o massivo êxodo
para as cidades do litoral – Benguela, Lobito/Catumbela e Baía-Farta – mais
seguras e de maior oportunidade), mas também de alguma inoperância de
serviços técnicos.
Como ocorre em momentos de crise, as condições objectivas de assistencia-
lismo a estes e outros cidadãos não estavam criadas, apesar de, por exemplo,
a tentativa havida em 2005 (Estratégia de Combate à pobreza) não ter levado à
evolução positiva de ordenamento do território que ainda hoje se assiste.
Com base na revisão da literatura, da análise documental e da técnica de
observação os autores concluem que o Plano Director Municipal do Lobito cons-
titui um importante instrumento para o (re)ordenamento do território pois prever
não só a reconversão e melhoria de zonas degradadas, o equilíbrio ambiental,
como também a promoção de um modelo de uso e ocupação do solo integrando
as questões de natureza habitacional e de interesse para o sector económico-
-produtivo. Todavia, não vislumbramos no documento referência a órgãos ou es-
truturas de consulta embora, nos termos do n. º 1 do art. 21.º da Decreto-Lei n.º
2/07, de 3 de Janeiro se preveja a figura do Conselho Provincial de Auscultação e
concertação Social, cujo objectivo é “apoiar o Governo Provincial na apreciação
e tomada de medidas de política económica e social no território da respectiva
província”. Conforme dito, estes órgãos, mais do que aconselhar, apoiam (grifo
nosso), isto é, dão o seu parecer favorável às metas definidas, não sendo com
efeito um órgão que represente a população, além de que os representantes da
Sociedade Civil são da discricionariedade do Titular do Poder Executivo e ques-
tões do colectivo, como por exemplo, os Projectos consignados à província não
serem levados à consulta pública.
Ora, o exercício de consulta pública de projectos estruturantes é, antes de
mais, um exercício de democracia. É o agir pela cidadania. Levando as pessoas
a participar conseguem-se melhores resultados, pois se sentirão vinculadas. So-
bre este aspecto Luena e Santos (2019), defendem que “a participação amplia o
entendimento de democracia sem que essa se reduza a um método de governo
que conta com eleições. É um estado de espírito” (LUCENA e SANTOS 2019, 136).
(RE)ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO E POLÍTICAS PÚBLICAS: O CASO DO PLANO DIRECTOR MUNICIPAL DO LOBITO
157
Isaac Simão Santo, Wladimir Estêvão Borges

Assim, defendemos uma maior participação das populações, alargando o espaço


de consulta públicas, de modo a que sejam transpostas barreiras que impedem
o crescimento harmonioso do município do Lobito em que se garanta o equilíbrio
ecológico, sustentabilidade ambiental e do património histórico-cultural.
Desta forma, a elaboração de planos urbanísticos isolados, para a provín-
cia de Benguela, e mesmo nas divisões administrativas do município do Lobi-
to, bem como o facto de serem documentos de acesso com algum excesso de
burocracia (diz a experiência de duas semanas de espera) permite a que os
planos sejam disformes, até do ponto de vista regional, mas também dificul-
tam o exercício de investigação fora das paredes da administração do Estado.
Estas limitações acabam por afectar quer as percepções, quer, ao fim ao cabo,
as populações, já por si vulneráveis e que, embora dele percebam dos riscos a
que estejam sujeitas, pouco ou nada podem fazer sendo imperioso das corpo
ao determinado na alínea f) do n.º 2 do art. 3.º do Decreto-Lei n.º 2/07, de 3 de
Janeiro (Decreto-Lei que estabelece o quadro das atribuições, competências
e regime jurídico de organização e funcionamento dos Governos Provinciais,
das administrações municipais e comunais), no qual consta que, pela “parti-
cipação e colegialidade [, se] procura incentivar os cidadãos na solução dos
problemas locais” (ANGOLA 2007).
De outro modo, não podemos colocar de parte o facto de que as equipas
técnicas e as próprias autoridades da região não estarem devidamente equipa-
das e preparadas com meios e conhecimentos técnicos, no quadro das ciências
cindínicas, o que equivale dizer que nem sempre estarão em condições de acom-
panhar os desafios que a região impõe. Nestes casos, aqui entram as universi-
dades e equipas de formação, se for o caso da possibilidade de actualização de
conhecimentos.
O estudo abre pistas para próximas investigações e suscita, não só a neces-
sidade de uma maior participação pública e um maior exercício da cultura da
parceria, pois “a coesão territorial é uma construção colectiva, submetida como
todas as construções colectivas, a conflitos, fricções e movimentos diversos”
(GUERRA 2011, 99), mas também a envolvência das autoridades e dos cidadãos
em questões que, uma vez concertadas, implicarão na melhoria da qualidade de
vida do município.

REFERÊNCIAS
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José Madureira Pinto (Org.), Desigualdades Sociais: Os modelos de desen-
volvimento e as políticas públicas em questão, pp. 11-51. Lisboa: Caleidoscó-
pio – Edição e Artes Gráficas, SA.
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ASSEMBLEIA NACIONAL (2010). Constituição da República de Angola. Diário da


República - N.º 23 - I Série. (2010). Assembleia Nacional. Luanda: Imprensa
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bleia Nacional. Consagra as normas e princípios gerais que devem orientar a
política de fomento habitacional visando a criação de condições destinadas
a concretização do direito fundamental a habitação que assiste a todos os
cidadãos, no quadro de um estado social de direito e de uma economia de
mercado e formular as bases gerais da política fiscal e financeira para a aqui-
sição do crédito habitacional, como instrumentos privilegiados do fomento
habitacional. Luanda: Imprensa Nacional. Luanda: Imprensa Nacional
Lei 9/04, de 09 de Novembro. Assembleia Nacional. (2004). A presente lei es-
tabelece as bases gerais do regime jurídico das terras integradas na pro-
priedade originária do Estado, os direitos fundiários que sobre estas podem
recair e o regime geral de transmissão, constituição, exercício e extinção
destes direitos. Disponível em: http://www.gckcc.ao/attachments/article/392/
Lei%20n.%C2%BA%209%2004,%20de%209%20de%20Novembro.pdf. Data
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TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
JOSÉ CHICANHA DELFINO*
ANDRÉ CLEMENTE DE FREITAS*
ANTÓNIO MOISÉS*
ADELINO JOSÉ SAPALO*
PEMBELE MANZINGA*

1. INTRODUÇÃO
A designação dos lugares ou vias de comunicação esteve desde sempre inti-
mamente relacionada aos valores culturais das populações, refletindo e perpe-
tuando a importância histórica de factos, pessoas, costumes, eventos e lugares
(ROE 1992). É importante compreender para além do local onde vivemos os no-
mes reais dos lugares e os seus limites naturais ou artificiais ajudam a criar um
ambiente que facilitam a aprendizagem, instigante na relação entre o homem
e meio a sua volta. A toponímia assume, pois, uma dimensão cultural, que se
determina tanto por sua dimensão territorial como por sua dimensão histórica
(BONNEMAISON 2000).
É um espaço humanizado para fins de orientação, organização e referência,
necessário para registrar e mapear as localidades, atribuindo-lhes nomes. Espa-
ço e cultura são indissociáveis, porque não há sociedades que vivam sem espaço
para lhes servir de suporte (CLAVAL 2001). O ser humano se compreende pelo
ambiente que habita, e habitar um lugar significa conhecê-lo, transformá-lo e
humanizá-lo (BONNEMAISON 2000, 187).
1
No caso de Angola, a Lei n.º 15/16 relativa à Administração local do Estado
*
Universidade Katyavala Buwila, Instituto Superior de Ciências da Educação, Departamento de Ciências da
natureza, Sector de Geografia, Benguela-Angola (Instituto Superior Politécnico Maravilha; Escola de Forma-
ção de Professores; Departamento de Ciências da Línguas, Sector de Linguística Inglês).
1
CAPITULO I (Disposições Gerais)
Artigo 1.º (Objecto). A pressente lei estabelece as bases para definição e disciplina da Toponímia ao nível
nacional e local bem como as regras e procedimentos para efeitos da atribuição de número da Polícia.
Artigo 3.º (Definições). Para efeitos da presente lei, entende-se por:
a) Toponimia: estudo histórico e linguístico de origem e evolução dos nomes próprios dos lugares ou a
designação das localidades pelo seu próprio nome.
b) Número de Polícia: Algarismos de porta fornecidos pelos serviços municipais.
Artigo 4.º (Funções da Toponímia)
a. Orientar e informar os cidadãos dos arruamentos e outros espaços públicos e privados.
b. Toponímias têm os seguintes objectivos a respeito da denominação dos bairros: A possível eliminação
dos nomes estrangeiros ou de pessoas vivas, respeitados os imperativos da tradição e da vontade popular,
bem como as legítimas homenagens; A preferência pela adopção de nomes indígenas ou relacionados a
162 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

estabelece os princípios e normas de organização e financiamento dos órgãos


da Administração local do Estado, os quais é aplicável nos escalões de Província,
Município e Inframunicipal, baseada na Lei 15/16 de 12 de Setembro, sobre a lei
de base da Toponímia.
A delimitação geográfica dos bairros das zonas vai desde a zona A até a zona
F contando assim com 6 Zonas e 81 bairros, esperamos que a toponímia ou nome
do lugar, deve ser vista sobre tudo, como um instrumento fundamental para a
identificação fácil de moradias, ruas, monumentos, sítios e lugares devidamente
identificados com o objetivo de conhecer os seus nomes e sua origem.
Para o estudo dos bairros recorremos a uma metodologia da busca parcial
onde usamos a entrevista como uma técnica fundamental na descrição da inves-
tigação, que permitiu fazermos a recolha dos dados no terreno ouvindo as au-
toridades tradicionais, funcionários da Administração, Sobas de Bairros e outros
que tivessem algum valor agregado a qual recorremos para produção de toda
a informação que passamos a presentar os resultados apresentados em tabelas
representativas de cada um dos bairros.

2. TOPONÍMIA HISTÓRICA: IDENTIDADE E MEMÓRIA


A toponímia, para além de na actualidade ser vista sobretudo, como um ins-
trumento fundamental para a identificação de moradas dos habitantes de uma
cidade, de uma vila ou de uma aldeia, tem igualmente outras funções, tais como:
o registo da história de aldeias, bairros, ruas e praças (monografias), a home-
nagem a individualidades que se distinguiram pelas suas obras (biografias) de
facto, «O modo como são indicados e conhecidos os diversos lugares duma re-
gião não é indiferente para a História e não resulta do acaso, do capricho ou da
vontade singular de quem quer que seja – mas directa ou indirectamente do con-
senso popular. A necessidade, para a indispensável eficácia das relações sociais
e económicas, de fixar a cada um dos sítios da terra específica designação que o
distinga dos outros é idêntica à de prender a cada ser humano um nome próprio
que o diferencia dos seus semelhantes» (BRAZ 1985).
Neste sentido, a análise da toponímia merece mais atenção a respeito do
seu significado cultural e como campo de pesquisa interdisciplinar (TORT 2001).
O objectivo deste artigo é mostrar as facetas político-culturais da toponímia,
utilizando se como exemplo recortes ilustrativos da toponímia brasileira. Após
uma discussão mais geral sobre os nomes de lugares inseridos no contexto do
tempo e do espaço, serão apontadas algumas abordagens como a distribuição

factos históricos da região, no caso de substituição de topônimos; A conservação dos nomes já consagrados
pelas populações das localidades respectivas, desde que não contrariasse as disposições acima.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
163
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga

espacial dos topônimos, seu contexto histórico-político e seu significado na re-


presentação cartográfica para apresentar caminhos para uma possível agenda
de pesquisa.
Claval considera a toponímia, além da denominação de lugares e do seu es-
tudo linguístico sob uma perspectiva histórico-cultural, como referência, orienta-
ção e tomada de posse do espaço, afirmando que “todos os lugares habitados e
um grande número de sítios característicos na superfície da terra têm nomes fre-
quentemente há muito tempo. A toponímia é uma herança preciosa das culturas
passadas. Baptizar as costas e as baías das regiões litorâneas foi a primeira ta-
refa dos descobridores. O baptismo do espaço e de todos os pontos importantes
não é feito somente para ajudar uns aos outros a se referenciar. Trata-se de uma
verdadeira tomada de posse (simbólica ou real) do espaço” (CLAVAL 2001, 86).

Categorias Toponímicas de Benguela

CATEGORIA DEFINICÕES EXEMPLOS


TOPONÍMICAS EM BENGUELA
Antroponímia Nome de lugares provenientes Kambanda, Nkota, Nhime
de pessoas
Biotoponimia Animais ou Vegetais dominantes ou Matrindindi
caracteristicas da região
Geotoponimia Orotoponímia nomes relativos ao relevo Morro do Sombreiro, Uchê
e formas do terreno (cabeceiras, serras);
hidrotoponímia (rios, nascentes, riachos);
litotoponímia (rochedos, aspectos
geológicos
Arqueotoponimia Nomes de sentido arqueológico, alusivos Tchitunduhulo, Graça, Mina
a objectos materiais (pedras, fortificações,
utensílios) ou factos costumeiros e
institucionais (propriedades rústicas,
povoado indígena antigo).
Hagiotoponímia Devoção e cultos cristãos; deve ser Nª Sra. da Graça, Capelinha,
diferenciado das designações puramente Templos
eclesiásticas e paroquiais.
Etnotoponímia Correspondente a nomes pátrios ou 11 de Novembro, 4 de Abril,
étnicos; factos de colonização anterior 17 de Setembro
à nacionalidade

Fonte: elaboração própria José Chicanha Delfino, 2019.

Sua função principal é “criar um ‘novo’ espaço, ou melhor, desvendar ou re-


cuperar um espaço de além da grade discursiva do processo de mapeamento
colonial e descrevê-lo. Esse novo espaço de possibilidades (de reescrever) inter-
rompe o espaço histórico fechado, ele tem a forma e função de uma arqueologia,
ele reentra na história e, fazendo assim, articula a possibilidade de reescrevê-
-la” (ROE 1992, 90). Siderius & Bakker (2003), por exemplo, mostram a relação
164 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

muito estreita entre a toponímia e a nomenclatura dos solos antes da introdução


das taxonomias internacionais, enquanto Waibel (1943), em um estudo pioneiro
na área de Geografia. Nesse contexto, a Grande Enciclopédia Geografica (s/d)
propõe uma subdivisão dos nomes dos lugares em seis diferentes categorias
toponímicas: Antroponímia, Biotoponímia, Geotoponímia, Arqueotoponímia, Ha-
giotonímia e Etnotoponímia.
Essa classificação não deve ser lida como um conjunto de categorias fixas. Há
muitos exemplos para mostrar que um nome de um lugar pode ser um biogeo-
topônimo ou um geoagiotoponômino. A denominação de lugares acontece em
diferentes escalas e pode afetar um país inteiro ou apenas uma rua, um morro
insignificante ou uma casa (CLAVAL 2001).

3. A TOPONÍMIA DOS BAIRROS DA CIDADE DE BENGUELA


O município de Benguela é delimitado a Norte pelos municípios de Lobito e
Catumbela, a Sul município da Baia Farta, a Este o município de Bocoio e Caim-
bambo, a Oeste o Oceano Atlântico. Benguela é, pois, cidade e município, capital
da província de Benguela, composto somente da comuna sede, onde residem
cerca de 623.777 habitantes, que fazem deste município o décimo mais populoso
do país. A cidade está dividida, administrativamente, em seis (6) Zonas Adminis-
trativas de A-F com setenta e oito (78) bairros, cada uma delas constituída por
bairros e pequenos bairros e aldeias, não conhecidas, sem notoriedade desejada.

Figura 1. A cidade e o Município de Benguela no contexto nacional

Fonte: INE – Instituto Nacional de Estatística (2014)


TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
165
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga

Os respetivos topónimos ajudam a identificar os lugares, conhecer monu-


mentos e sítios, entender a divisão administrativa de uma localidade e, sobretu-
do, facilitar a mobilidade local, ajudando, no caso presente, a caracterizar o tipo
de cidadão de cada um dos lugares. Conclui-se que a população predominan-
te na região é de Umbundos das tribos de Kamuanhas, Cabocios, Kilenguistas,
Nhânekas Umbi, Nganguela, Mu-hanhas, Mu-dombes, entres outras pequenas
tribos sem identidade definida. Os Bairros acabam por serem espaços multicul-
turais, podendo o nome de um dado lugar poder assumir vários significados.

Figura 2. Benguela: (a) a cidade no contexto regional; (b) alguns Bairros da cidade
(a)

(b)

Fonte: Google Earth

Bairros da Zona A
O Anexo 1 contém os nomes dos 22 bairros da Zona A bem como a sua topo-
génese no período Ante-Independência, segundo as fontes que aferiram estes
166 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

dados, entidades como a Administração da Zona, Autoridades tradicionais e en-


tidades singulares abordadas durante a recolha destes elementos. Os bairros
desta zona estendem-se a Norte do casco urbano, sendo limitados pela vala do
Curringe que se estende de Este a Oeste, a Sul pelo município do Caimbambo
(Catengue) e a Oeste é limitado pela Estrada Nacional 100 (EN100) que liga as
províncias de Benguela ao Namibe. A zona é dividida pela Avenida Dr. António
Agostinho Neto e pela Estrada do Largo do Cavavo que liga os bairros da Ka-
munda às Bimbas: 11 de Novembro, 28 de Maio, 70, 71, Casas Novas, Ndokota,
Kambanda, Kalundo, Kalongoloti, Kamunda, Kanequetela, Kandumbo, Kamanin-
ga 1, Kamaninga 2, Kalossombecua, Kambambi, Kovava, Lixeira, Lupeio, Manga,
Nhime e Utomba.

Figura 3. Largo 28, Zona A

Fonte: José Chicanha Delfino, 2020

Bairros da zona B
O Anexo 2 tem representado os topónimos dos 25 bairros da zona B criados
nos períodos antes e depois da Independência, permitindo destacar segundo a
sua origem.
A Zona B é conhecida como a zona costeira já que os seus bairros, contíguos
ao mar, apresentam características de solo arenoso. Faz fronteira a Norte com o
Cascurnabo, a Este com a Zona A e a Estrada Nacional (EN100), a Sul com o muni-
cípio da Baia Farta, mais concretamente a Comuna da Baia do Santo António, de
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
167
Célia Gonçalves

que fazem parte os bairros: Atlântico, Kaota, Kalonombi /Hoje-Ya-Henda, Bairro


do Uchê, Atlântico/ Ekuikui-II, Talamanjamba, 17 de Setembro, Condomínio da
Sonangol, Agostinho Neto, Kalombutão, Viva Paz, 4 de Fevereiro, Navegante,
Bairro Esperança, Bela Vista Alta, Bela Vista Baixa, Goa, Kalohombo, Kasseque
Marítimo Kasseque Macau, Ilha Sagrada Esperança, 4 de Abril, Vila das Acácias
e Miramar.

Figura 4. Interior do Kasseuqe Marítimo (Nas Tombas)

Fonte: José Chicanha Delfino, 2019

Bairros da Zona C
O Anexo 3 mostra a topogénese dos 7 bairros da Zona C, com expeção do
bairro da Kaponte City. São bairros criados como musseques no período colo-
nial onde se destaca Kaponte City que é um bairro novo, com uma demografia
resultante da sua realidade socioeconómica actual, formado por residências
de renda média e baixa, diferente dos outros lugares na Kaponte. Os bairros
de Benfica, Kassôco, Kapiras, Kaponte, Kaponte City têm uma Geografia muito
limitada, definida a Norte pelos bairros da Zona D, tendo por seu limite a linha
do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), a Sul a Zona A, sendo o limite defi-
nido pela Vala do Corrigem e a estrada que liga o centro urbano. Nos bairros
da Pecuária e Kapont a maioria das ruas não possuem nomes, por terem um
ordenamento muito precário; apenas o bairro Benfica possui ruas numeradas
e que dá o nome às mesmas.
168 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 5. Entroncamento Benfica - Rua 11, Zona C

Fonte: José Chicanha Delfino, 2019

Bairros da Zona D
O Anexo 4 apresenta a topogénese dos 7 bairros correspondentes à Zona
D cujas histórias são completamente distintas e que o facto de a zona não pos-
suir um mapa não favorece a compreensão dos seus limites territoriais. A Zona
é constituída pelos bairros da Asseque, Fronteira, Chingoma, Seta-Antiga, Ka-
lomanga, Kalossongo-Kalilongue, Kaparata, Pecuária. São bairros construídos
sobre o leito do Rio Cavaco, o que reduziu consideravelmente a extensão do
cordão verde do vale. Faz fronteira a Norte com a Zona F e o Rio Cavaco, a Sul
pela Zona C e o Casco Urbano, a Este a Zona E e a Oeste pela Zona A e pela
linha férrea do Caminho de Ferro de Benguela (CFB). A Vala do Corringe não
possui ruas com nomes próprios, embora algumas travessas de ruas e a rua mais
extensa, que liga o Largo da Peça ao centro urbano, conhecida como Estrada do
Asseque (Largo do Cavaco), é uma área encravada, tanto em termos de mobili-
dade como de localização.
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
169
Célia Gonçalves

Figura 6. Fábrica da Seta no Bairro da Seta-Antiga, Zona D

Fonte: José Chicanha Delfino, 2019

Bairros da Zona E
O Anexo 5 inclui a topogénese dos 8 bairros da zona E no período ante e pós
Independência. A existência de poucos bairros faz da zona um lugar que, embora
administrativamente muito pequena, tem uma considerável extensão territorial.
A Zona E com características semelhantes às da zona B, localizada entre a Estra-
da Nacional (EN100) e o Oceano Atlântico, é delimitada a Norte pelo município da
Catumbala, a Sul pelo casco Urbano, a Este pelas zonas D e F e a Oeste o Oceano
Atlântico. Assente sobre o leito sedimentar do Rio Cavaco, é muito pequena em
relação as demais, sendo formada pelos seguintes bairros: Tchioche, Massanga-
rala, Matador, Kotel, Soldoma, Quiotche Maritimo, Kondulem, Compão.
170 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 7. Interior da Massangarala, Zona E

Fonte: José Chicanha Delfino, 2020

Bairros da Zona F
O Anexo 6 apresenta o estudo topogénico dos 10 bairros da zona F, cuja
génese ocorreu desde o período anterior à Independência, ocorrendo um rápido
crescimento depois da Independência, sobretudo, após 2004, cujos bairros são
considerados novos. A origem dos seus nomes remonta ao período colonial, pre-
servando alguns lugares a sua origem como campos agrícolas, terras cultiváveis
e zonas residenciais e outros alterados com o passar do tempo. A zona F encon-
tra-se dividida entre a Estrada Nacional (EN100) e o vale do Cavaco, tem a Norte
a Administração municipal da Catunbela, a Sul as Zonas D, E, B, Oeste o Oceano
Atlântico a Este a Administração municipal do Caimabmbo. É formada pelos bair-
ros da Graça, Kalomburaco, Tchipiandalo, Kawango, 27, Taca, Kambangela, Mina,
Cavaco, Kaloburaco e Santa Teresa. Correspondem a um conjunto de localidade
bem definidas, encontrando-se algumas subdivididas em pequenas localidades
que consideramos serem aldeias mais sem uma dimensão demográfica aceite
para tal.
REDE DE ALDEIAS DE MONTANHA: UM TERRITÓRIO E UMA ESTRATÉGIA DE DESENVOLVIMENTO RURAL INTEGRADO
171
Célia Gonçalves

Figura 8. Entrada no Bairro da Graça, Zona F

Fonte: José Chicanha Delfino, 2020

4. CONCLUSÃO
Os topónimos usados para designar os bairros são em boa parte de origem
autóctone, pois derivam da língua local, o umbundo, sendo o resultado de um
processo longo de aceitação da realidade vivida baseada numa estreita relação
entre o Homem e meio à sua volta. A partir da toponímia é possível não só en-
tendermos a estrutura demográfica dos bairros como conhecer a sua história.
A pesquisa mostra que muitos topónimos são escritos de forma errada, que-
brando a essência dos nomes originais na língua local, como os iniciados por
“Ca”, que usamos “Ka”. Escreve-se de forma incorrecta, por exemplo, Caloman-
ga, que na língua local, o Umbundo, se escreve Kalomanga; por outro lado, o
pré-fixo “Ka” é um diminutivo se escrito por “Ca”, lido Xa em Umbundo, elemento
imperioso que importa aplicar para facilitar a concordância gramatical, sendo
correcto os topónimos em umbundo serem escritos com “Ka”.
A síntese dos bairros que foi apresentada contém a sua localização geográ-
fica, os limites e, por vezes, a composição litológica, a que se acrescentaram
fotografias. Inicia-se aqui uma investigação que se pode estender a outras partes
do território nacional, analisando nomes de províncias, municípios, comunas e
localidades, sejam bairros, vilas, aldeias e, mesmo, vilarejos.
172 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

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TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
173
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga

ANEXOS
Anexo 1. Topogénese dos Bairros da Zona A

BAIRRO TOPOGÉNESE
11 de Novembro O nome do bairro foi atribuído em homenagem aos mártires da luta arma-
da angolana, que marca independência nacional; o nome foi atribuído pelos
moradores.
28 de Maio O bairro é urbanizado, de construções definitivas do modelo colonial português,
o nome foi dado em homenagem a campanha do Dombe em 28 de Maio de 1935
data da Inauguração da Estatua do Largo da Peça. No bairro residiam os Senho-
res donos da antiga açucareira do Dombe.
70 O nome antigo do bairro era da Cerâmica, mas devido ao número do carro
dos serviços comunitário para recolha de lixo nº 70, os moradores preferi-
ram adoptar o mesmo nome, a outra versão que fundamenta a existência
no bairro apenas 70 casa achamos ser a versão mais correcta da origem do
topónimo.
71 Administrativamente o bairro nunca existiu mas devido o alargamento da
construção para residências até a vala criou-se outro nome para as novas
residências que é 71 que limita o 70 do Sindiquile uma subdivisão dentro dos
bairros.
Casas Novas O nome foi atribuído pelos próprios moradores a partir de 2012 através da
ocupação das áreas anteriormente não habitadas, o bairro é assim toponi-
zado como Casas Novas atendendo as construções recentes ali edificadas.
Ndokota Como todo o nome na topogenese da localidade provem de um assunto ou
facto ocorrido sendo o nome atribuído pelos primeiros moradores devido a
presença no local de um avião avariado supostamente pela existência de
um aeroporto próximo na localidade e tinha como nome ou marca Ndocata.
Kambanda O nome Kambanda deriva do linguajar local que em umbundo significa (do
Outro lado ou na margem de cima, pode ser também um lugar) o nome é em
homenagem a um soba “Banda” que viveu muito tempo no bairro conside-
rado por muitos como o primeiro morador da zona. Obanda significa terreno
ou lugar.
Kalundo O nome do bairro Kalundo, foi toponizado para caracterizar as casas que estavam
a volta do Cemitério. Era o linguajar dos moradores que diziam Tuenda ko Kalun-
do na língua local traduzido vamos ao Cemitério.
Kalongoloti O nome é atribuído em homenagem a quantidade de árvores que existia no
local, que eram usados para lenha, hoje já não existem pelo abate excessivo.
Hoje é chamado de Jingoloti.
Kamunda O facto de o bairro estar localizado numa zona elevada que na língua local
significa: Kamunda, atribuíram Kamunda (Pequena elevação) foi toponizado
assim.
Kanequetela Kanequetela significa na língua local poeira, devido a quantidade de pó que
se levanta devido acção do vento os moradores atribuíram a toponímia de
Kanequetela.
Kandumbo O nome antigo do bairro foi atribuído em homenagem a um antigo caçador
e guerreiro muito forte Kadumbo, Topónimo autóctone e com fundamentos
que devem ser preservados.
174 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Kamaninga 1 O nome primário é desconhecido, mas devido aos caçadores que passavam
no local e encontravam fezes na via diziam: apa pali a niñha (ali há fezes). Foi
toponizado por Kamaninga 1.
Kamaninga 2 O nome do antigo bairro era os Morros, devido aos caçadores que passavam
e encontravam fezes na via diziam: apa pali a niñha (ali há fezes). Extensão
territorial do bairro anterior Kamaninga 2.
Kalossombecua O nome do bairro, é atribuído em homenagem aos antigos viajantes que com-
pravam sal e descasavam sobre o Imbondeiro existente na zona e é neste
lugar onde enterravam os mesmo viajantes que morriam por varias doenças
o que na língua local diziam to Sonbeka (vamos guardar) o nome do bairro
é Guardar.
Kambambi O nome na tradução local significa (pouco frio), tudo por que a área estar
próximo das margens do rio Cavaco, pelo excesso de humidade, atribui-se
o nome de “Cambambi” significa frio ou pequena Cabra do Mato Ombambi.
Kovava O nome sucede devido as dificuldades dos moradores no período de chuvas
para poderem passar de uma margem para outra, por passar na área uma
linha de água chamado pelos Moradores de “Kapululo” do Kovava.
Lixeira O nome antigo do bairro diz respeito a uma concentração para o depósito
de lixo que deu origem ao nome do bairro, resultado dos antigos serviços
comunitários da Administração Municipal.
Lupeio O nome do novo bairro Lupeio é toponizado pelos moradores, validado pela
Administração local que Significa do outro lado ou outra margem para o lin-
guajar da localidade.
Manga Toponizado pelos moradores do bairro Manga não é sabida a sua origem
nem a do seu fundador ou primeiros moradores, residem cidadãos de várias
etnias.
Nhime Toponizado pelos moradores do bairro, devido a existência de uma árvore
que as noites os seus ramos secos podem ser usados como lamparina para
iluminação todos os emigrantes e visitantes conheceram assim o local.
Utomba Toponizado como lugar remoto ou na linguagem local terra do fim do mundo,
o nome é atribuído a lugares distantes, neste caso o local dista do centro
urbano e encontramos um cemitério aberto que não têm o real controlo da
Administração.

Fonte: elaboração própria.


TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
175
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga

Anexo 2. Topogénese dos Bairros da Zona B

BAIRRO TOPOGÉNESE
Atlântico Toponizado pela sua localização geográfico próximo ao Atlântico na perspec-
tiva do ordenamento local, por ser um bairro privilegiado pelos moradores da
zona por ostentar um modelo de construção dirigida e padronizada com vista
ao Atlântico, criado no período 2005 à 2010.
Kaota Toponizado como nome de um pescador que viveu na região, desconhecida a
sua origem o nome é usado pela administração local, bairro surge no período
antes de 1975.
Kalonombi Toponizado como lugar remoto, o nome é atribuído a lugares distantes aqui
os antigos viajantes que saiam do interior do Pais para explorar sal na salina
Kalombolo, Kalonombi é o lugar de memória dos finados viajantes enterrados
em arredores na área, nome atribuído antes da independência.
Hoje-Ya-Henda O nome do bairro foi dado em homenagem ao mártire da liberdade e luta
política heróica nacional como modelo de muitos bairros no país, topónimo
foi atribuído para homenagear ao herói.
Bairro do Uchê Toponizado, o nome é atribuído pelos moradores do bairro por se localizar
junto do rio Uché que se estende dos vales do rio Cavaco a Sudoeste ao
monte Saca, nome atribuído depois da Independência entre 2008 à 2011.
Atlântico Ekuikui-II Toponizado pela sua localização geográfico, devido a proximidade ao Ocea-
no Atlântico na perspectiva do ordenamento local, é atribuído o nome pela
ligação que existe entre o Atlântico e Ekuikui atribuído pelos moradores do
bairro, durante os anos de 2009 à 2014.
Talamanjamba Toponizado com o nome, que na língua local umbundo Njamba significa Ele-
fante, pela aproximação a reservava natural do Chimalavera e Kapembawui
supõem ser o local a passagem de Elefantes que fazem ali o seu repouso
então o nome na língua nacional para o local passou a ser Talamanjamba
significa “paragem de Elefantes”, atribuído o nome antes da independência.
17 de Setembro Toponizado o bairro em homenagem ao dia do Herói nacional (Dr. António
Agostinho Neto), o nome foi atribuído pelos moradores do bairro por ter início
a distribuição de terras neste bairro neste dia, depois da independência entre
2005 à 2007.
Condomínio da Toponizado em homenagem à Companhia que construiu as residências ali
Sonangol existentes, atribuído pelos moradores como sendo o Condomínio da Sonan-
gol, localizado entre os bairros da Bela-vista e Miramar.
Agostinho Neto Atribuído o nome em homenagem ao 1º Presidente da República e Herói
nacional, com prestigio alusivo os seus feitos como pai da nação angolana,
nome atribuido depois da independência entre os anos de 2004 à 2007.
Kalombutão O nome Kalombutão deriva do linguajar local que em umbundo significa
(Pequenos botões) o nome é atribuído em homenagem a primeira fábrica
existente na localidade que fabricava botões no período antes de 1975. O
nome é remetido por um prefixo do grau diminutivo na língua umbundo pode
ser (Ka-Lombutão), com obras de restauro sobre a ponte rio Uchê, há uma
tendência de ser toponizado por alguns como bairro das duas pontes.
Viva Paz O topónimo é atribuído em homenagem ao período de declaração dos acor-
dos de PAZ, em 04 de Abril de 2002, sendo também o período que começou
a invasão do bairro na ocupação de terrenos e seu consequente crescimento
demográfico.
4 de Fevereiro O nome do novo bairro é toponizado pelos moradores do bairro, validado
pela Administração local, devido a disputa de terra entre as autoridades
176 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

governamentais e os populares que invadiram o local que recordava o dia


da Independência Nacional, onde muitos populares perdem suas vidas na
ocupação destas terras nos anos de 2005 à 2009.
Navegante O nome do novo bairro é toponizado pela existência do 1º aeroporto de Ben-
guela e havia nas proximidades um farol que facilitava a navegação, ficando
assim o nome Navegante, nome atribuído no período colonial.
Bairro Esperança O nome do novo bairro é Toponizado pelos moradores, validado pela Admi-
nistração local, é um grupo pequeno de cidadão, provenientes do interior do
pais com esperança de ver as suas condições de vida melhoradas, não existe
uma data exacta de sua fundação ou criação como bairro, sabes que tenha
surgido em meados de 1992 à 1994.
Bela vista Alta Toponizado pelos moradores, devido a sua localização geográfica e privilegiada
estando num ponto alto com uma vista voltada ao rio Uchê, o nome do bairro mais
novo em relação a bela vista Alta, foi criado o bairro nos anos de 2005 à 2007.
Bela vista Baixa Toponizado pelos moradores, devido a sua localização geográfica e privile-
giada estando num ponto alto com uma bela vista ao mar, bairro mais antigo
em relação a bela vista Baixa, criado o bairro nas redondezas da antiga fabri-
ca de medicamentos depois de independência entre 1990 à 1992.
Goa O topónimo Goa é atribuído devido a existência na altura de uma antiga lagoa
onde pescava-se peixe o nome foi atribuído pelos primeiros morados que
viviam nas redondezas da lagoa e retirado o prefixo la é conhecido o bairro
como Goa apenas.
Kalohombo Toponizado no linguajar local Kalohombo seguido com o prefixo (Ka+lo+hom-
bo) que significa poucos ou pequenos Cabritos, na língua local, devido a
existência de pequenos criadores de cabritos, para uma tradução directa
significa poucos Cabritos. O nome popular atribuído por antigo morador ca-
bo-verdiano que tinha e criava muitos cabritos fundado em 1982 à 1985.
Kasseque Marítimo Toponizado por Casseque na língua local significa área ou áreas finas ca-
racterísticas do tipo de solo predominante na localidade, no bairro existem
muitos marinheiros e pescadores sendo que por meio destes foi atribuído o
nome ao bairro, na língua umbundo área significa Esseque com o prefixo Ka
(Ka é um diminutivo), passa o bairro a ser chamado de Kasseque.
Kasseque Macau Parte do bairro Kasseque, segundo fontes é no local onde foi implantado o pri-
meiro Aeroporto em Benguela, mas o sobre nome Makau é um topónimo devido
a um tipo de bebida alcoólica conhecida entre os nativos de Makau. Para os dois
bairros o nome é atribuído antes da independência sem uma data concreta.
Ilha Sagrada O nome antigo de casas novas foi atribuído pelos próprios moradores a partir
Esperança de 2012, Ilha por causa da sua localização geográfica devido a dificuldades
de acesso ao local no período de chuvas que fica alagado e limitado por
todas as direcções o seu acesso.
4 de Abril O Topónimo é em homenagem a data dos acordos de PAZ, sendo também
o período que começou a evasão do bairro e seu consequente crescimento
demográfico depois de 2002.
Vila das Acácias Toponizado por devido a existência de um viveiro de Acácias Rubras, o viveiro
foi criado em 1992, Coordenado pelo Eng. Tarciso do IDF (Instituto de Desen-
volvimento Florestal), surgindo a edificação de residências, serviços e actual
expansão do bairro.
Miramar Administrativamente o bairro nunca existiu mas devido o alargamento da
construção das residências no bairro que têm uma zona privilegiada pela sua
localização com vista para o mar e as colinas do monte Saca, surge assim o
nome atribuído pelos moradores do bairro que começaram a edificar as suas
residências em 2005 e é conhecido por alguns como bairro dos académicos
como pelo nível e classe de algumas residências na localidade.
Fonte: elaboração própria.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
177
José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga

Anexo 3. Topogénese dos Bairros da Zona C

BAIRRO TOPOGÉNESE
Benfica Sua origem remota o período colonial com a existência da conhecida coo-
perativa de Moçamedes, aceita-se que seja um topónimo igual a de muitos
bairros espalhados pelo pais que homenageiam o bem estar, aqui o bairro
é uma tracção já que é ordenado por ruas inúmeras de 1 à 13, devidamente
urbanizado com arruamento aceitável.
Kassôco Toponizado com o nome de Cassôco em umbundo o Kusokola significa fo-
focar ou falar mal de outros não se sabe se é um hábito no bairro mas o
nome de fofoqueiros é o que caracteriza o bairro, criado o bairro no perío-
do colonial.
Kapiras Sem data da sua toponização Kapiras para de um terreno agrícola cultivado
pelo servo ou conhecido como o Capatas na língua local umbundo significa
espaço de passagem de águas para agricultura.
Kaponte Toponizado com o nome de Kaponte é antecedido com o prefixo Ka que é
um diminutivo de pequena ponte, no bairro existe uma ponte da passagem
da linha férrea, é encontrado no bairro 3 Kapontes sendo a Kaponte Gran-
de, Caponte Pequena e Caponte City que falamos mais abaixo, o nome é
usado desde o período colonial.
Kaponte City Como parte do bairro da Kaponte a actual Kaponte City era uma exten-
sa parte de campos agrícolas da então empresa agrária ENAMA (Empresa
Nacional de Agricultura e Máquinas) o bairro teve o seu surgimento em
2004 conhecido como Kaponte City por ser a parte urbanizada entre as 3
Kapontes. Têm algumas ruas definidas o ordenamento e moderado e não
precário como os outros bairros.

Fonte: elaboração própria.

Anexo 4. Topogénese dos Bairros da Zona D

BAIRRO TOPOGÉNESE
Asseque Toponizado com o nome de Asseque na língua local Umbundo significa Es-
seque: areia o nome é atribuído devido a passagem do rio Cavavo. O rio
passava pelo local mas tendo sido alterado o seu curso normal para irrigar
a fazenda do I.E.A (Instituto Experimental Agrário) os agricultores decidiram
ocupar o leito do rio e fixar ali as suas residências, isto é, antes de indepen-
dência não se têm uma data real da fixação do bairro.
Fronteira Topónimo do bairro é parte história de longos conflitos que existiram entre
o casco urbano e os musseques reza a história que no local havia uma pra-
ça e se encontra próximo da linha férrea do caminhos de ferro de Benguela
(CFB), mais a razão do nome é pelo limite entre a periferia que compreende
o vale do Cavaco e o Centro Urbano.
Chingoma Toponizado com o nome de hingoma que na língua local significa Tchigo-
ma: Batuque, os moradores são descendentes de Kilengues (Quilengues)
província da Huíla, como eram muito conflituosos foram expulsos do seu
antigo bairro que era a Calomanga para zona que alagava e mesmo assim,
ali se fixaram e construíram as suas residências onde com o som do batu-
que e do Tchiganje: Palhaço, faziam as suas danças.
178 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Seta-Antiga A sua topogénese deriva da existência da fábrica de tabaco que existe nas
redondezas da bairro que é um bairro resultante da ocupação dos terrenos
por antigos agricultores e camponeses que trabalhavam na fazenda próxi-
mo do bairro.
Kalomanga Toponizado com o nome de Calomanga na localidade havia várias árvores
de manga como usa-se muito prefixo na língua local como diminutivo (Ka
de poucos ou admiração) no bairro encontramos poucas árvores de manga
mas o nome ficou Kalomanga.
Kalossongo-Kali- Os dois bairros fazem apenas um sendo um lugar com dois nomes onde
longue as diferenças culturais são ais acentuadas entre provenientes das provín-
cias do Huambo e Huíla Kalossongo significa Poucos ou pequenos picos,
Kalilongue significa arranjou-se problemas (forma de chamada de atenção).
Kaparata Toponizado desde 1918 a semelhança do bairro do Kalossongo, devo ao
seu valor de compra na altura por algumas Pratas (dinheiro) seguido as
variantes locais adicionou-se o prefixo Ka-parata sendo o topónimo do local
até a data presente.
Pecuária Existindo no localidade uma senhor português que fazia a criação de ani-
mais e seu abate da espécie bovina e o bairro é toponizado com o nome,
antes da independência, actualmente o local é responsabilidade da Admi-
nistração de Benguela e preserva o mesmo nome.

Fonte: elaboração própria.

Anexo 5. Topogénese dos Bairros da Zona E

BAIRRO TOPOGÉNESE
Tchioche Toponizado com o nome de Tchioche devido existência de Leões; que pas-
savam pela zona que na língua local em umbundo Ossi.
Massangarala Toponizado pelos moradores devido a capuca cabo-verdiana que os anti-
gos populares chamavam de missanguinha, na versão do soba este tipo de
bebida era adicionada uma planta medicinal que chamava-se essangarala.
Matador Toponizado com o nome de matador devido a uma estrutura colonial que
no passado era utilizado como matador de animais.
Cotel O nome do bairro Cotel e originário de uma palavra em umbundo Utele que
quer dizer algodão ou linha de algodão que se produzia na zona, onde se
encontravam os maiores costureiros, da região na altura como outros bairros
adicionou-se o prefixo Ko-tele, sendo o topónimo do bairro ate a data actual.
Soldoma O nome é atribuído pelos moradores do bairro soldoma tem a origem um
senhor cristão que fartou-se das confusões dos moradores e disse aos po-
pulares vocês parecem os habitantes da cidade que deus dizimou Sodoma
e Gomorra.
Quiotche Maritimo Toponizado pelo nome Quiotche Marítimo devido a existência de muitos pes-
cadores, que realizam actividade de pesca e venda no local. A semelhança
do bairro anterior toponizado com o nome de Tchioche devido existência de
Leões; que passavam pela zona que na lingua local em umbundo Ossi.
Condulem Toponizado para homenagear o antigo morador Ondulem um senhor de ida-
de avançada que contava sobre as atrocidades do rio cavaco na população.
Compão Toponizado com nome, devido as casas dos trabalhadores do CFB que es-
tavam todas ligadas e divididas apenas por quartos as salas eram comuns.
Segundo o coordenador do bairro.
Fonte: elaboração própria.
TOPONÍMIA DOS BAIRROS DE BENGUELA
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José Chicanha Delfino, André Clemente de Freitas, António Moisés, Adelino José Sapalo, Pembele Manzinga

Anexo 6. Topogénese dos Bairros da Zona F

BAIRRO TOPOGÉNESE
Graça Toponizado pelos moradores devido a paróquia de nossa senhora da Gra-
ça. No passado o bairro era chamado de Catchicolo em homenagem a um
pastor que se instalou aí por muito tempo com o gado.
Calomburaco Toponizado com nome devido a depressão onde o bairro se encontra e no
passado chamavam de buraco com o tempo os populares passaram a cha-
mar de Caloburaco. Influência do prefixo Ca ou Ka, usado como diminutivo
na tradução directa pequeno.
Tchipiandalo Toponizado por Tchipiandalo derivada de uma palavra em umbundo Ondalo
(fogo). E ainda diz o soba, que os fazendeiros faziam queimadas para caçar
e afugentar alguns animais ferozes. E ainda segundo o soba diz que os
primeiros habitantes da zona construíram as suas casas sobre as cinzas.
Kawango Nome deriva de uma palavra em umbundo, o Wangu (Capim). Os primeiros
habitantes da zona viviam em cubatas de capim. Consideramos o prefixo
Ka o substantivo ideal para valorar os bairro em Benguela como Ka-wango,
significaria Capim.
27 Toponizado, com este nome 27 e devido a quilometragem 27 entre o Lobito
a Benguela. É zona do Km 27.
Taca Toponizado devido a umas estacas onde o Colono depois de fazer as suas
buscas a procura de mercadoria (escravos e marfim) eles estacionavam ali
para comercializar os mesmos produtos.
Kambangela Toponizado pelos moradores da graca de Cambagela: o nome têm origem a
um animal Kambange e outros do Kambabi que havia muito na zona.
Mina Toponizado o bairro da Mina: o bairro no passado chamava-se Osandje,
conhecido como Mina devido a Exploração de inertes que há na zona.
Cavaco Toponizado com o nome de Cavaco pelos moradores tudo pelo bairro esta
localizado no leito do rio Cavaco, onde encontramos os bairros da Santa
Teresa, Os Craques.
Caloburaco Novo Atribuído o nome de Kaloburaco novo que agora chamam de Santa Teresa
ou Santa Teresa devido ao posto de tuberculose que existe na zona propriedade da igreja
Católica.
Fonte: elaboração própria.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS
CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA
NO MUNICÍPIO DO SUMBE (PROVÍNCIA
DO KWANZA SUL EM ANGOLA)
MANUEL FRANCISCO BANDEIRA*
ALBINO KANGOMBE NGONGO**

INTRODUÇÃO
O estudo do relevo é imprescindível para a análise geográfica, já que actua
como factor condicionante para outros elementos da paisagem como a vege-
tação, hidrografia entre outros elementos físico-geográficos, bem como factor
determinante para diversas actividades económicas ligadas a exploração dos
recursos naturais podendo caracterizar geograficamente um espaço territorial.
A geomorfologia cárstica estuda a forma, génese e dinâmica. A província do
Kwanza Sul apresenta solos calcários associados a orla costeira, onde se de-
senvolve interessantes formas do relevo em que se destaca as cavernas subter-
râneas e formas superficiais como dolinas e canhões cársticos. As cavernas de
Deus e Maria Bonita são formas cársicas singulares, localizadas na periferia da
cidade do Sumbe, de grande importancia educativo, ambiental e turístico pela
sua formação, estrutura morfológica, valor cénico e uso turístico. Apesar deste
potencial, se observa alguns problemas de degradação ambiental e a ausência
de estratégias para potenciar estes lugares, como recurso ambiental e turístico
de grande valor para potenciar a economia local, pois são atractivos turisticos
singulares orientados para segmentos do turismo de interesse especial.
Este trabalho faz uma análise e reflexão sobre as características e evolução
das formas morfoesculturais cársicas observadas nas Cavernas de Deus e Maria
Bonita, localizadas na periferia da cidade do Sumbe, Província do Kwanza Sul,
onde se evidencia este tipo de relevo no contexto do país. A ideia central visa

*
Doutor em Ciencias Económicas e Empresariais, Professor Associado do Departamento de Ciencias da
Natureza (DCN) do Instituto Superior de Ciencias da Educação (ISCED de Benguela), da Universidade Katya-
vala Bwila (UKB) e do Instituto Superior Politécnico de Benguela (ISPB), Coordenador do Curso de Gestão
do Ambiente (GA). manuel_bandeira2003@yahoo.com.br; manuel.bandeira@ispbenguela.com
**
Licenciado em Educação na Especialidade de Geografia, Professor do II Ciclo do Ensino na Província de
Benguela.
182 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

potenciar o relevo cársico como recurso económico, educativo-ambiental e turis-


tico. Os lugares (atractivos) turísticos em análise são singulares pela sua riqueza
paisagistica e activos meio ambientais frágeis que carecem de adequado uso
para sua preservção. O lugar constitui por outro lado, um espaço privilegiado do
Polígono de Práticas de Campo dos estudantes do Curso de Licenciatura de Geo-
grafia do 4º Ano do ISCED de Benguela; constituem um grande laboratório para o
estudo dos aspectos físico-geográficos, económico e ambiental importante para
a cadeira de Geografia Económica do Curso de Geografia.
Se recorreu fundamentalmente a análise bibliográfica. Quanto ao trabalho de
campo se privilegiou as excursões geográficas (Práctica de Campo), a cartográfia
e a aplicação de inquéritos (modelos) e entrevistas directas a docentes, investi-
gadores e pessoas singulares residentes locais e visitantes. A análise e a sintese
foram fundamentais, na medida em que partimos do geral ao particular na estrei-
ta relação da valoração causa-efeito, pois as propostas visam fundamentalmente
valorizar as cavernas na perspectiva de sua rentabilização económica como acti-
vo ambiental-educativo e turístico, sem perder de vista a sua condição de ser um
sistema ambiental frágil de grande valor económico e social.

O RELEVO CÁRSICO NA PROVÍNCIA DO KWANZA SUL,


MUNICÍPIO DO SUMBE
A província do Kwanza Sul, cuja capital é Sumbe, encontra-se situada no lito-
ral centro-oeste de Angola, entre os paralelos 9º 30´e 12º 00´de Latitude Sul e o
meridiano 13º 30´ e 16º 30´de Longitude Este. Tem uma extensão de 58.698 km2
1
(4,7% do território nacional) . A província apresenta diversidades edáficas (solos),
mas o principal destaque incide no solo calcário, onde ocorre um processo bas-
tante peculiar, a carstificação, sendo assim, um dos lugares onde pronuncia-se
com maior intensidade.
As características da cobertura superficial das rochas carstificáveis classifi-
cadas pelo carstólogo russo Gvozdietski, o carso do Kwanza Sul não se apar-
ta dessas classes, apresentando o carste estabilizado e coberto. No entanto,
os lapiás, as dolinas, a terra rossa, canhões cársicos, exsurgência, vale seco e
outras feições cársticas caracterizam o exocarste do Kwanza Sul (Colectivo de
autores, 2012). Endocarsticamente, várias cavernas na província caracterizam o
relevo cárstico subterrâneo entre as quais se destaca a Caverna de Deus e Ca-
verna e Maria Bonita. Cabe destacar que a caverna de Deus, também conhecida
como as “Grutas da Sassa” participou no concurso das Sete (7) Maravilhas de
Angola, realizada em 2014. Entre as 27 finalistas concorrente ao nível do País, as

1
Carta Geral de Solos de Angola.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
183
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo

sete (7) Maravilhas Naturais de Angola seleccionadas foram as seguintes: Fenda


da Tundavala (Huíla); Floresta do Maiombe (Cabinda); Grutas do Nzenzo (Uíge);
Lagoa Carumbo (Lunda Norte); Morro do Môco (Huambo); Quedas de Kalandula
(Malanje); e Quedas do Rio Chiumbe (Lunda Sul).

CAVERNA DE DEUS “GRUTAS DA SASSA”2 (BAIRRO DA


POMBA NOVA)
Localização geográfica: A caverna de Deus localiza-se a SE da cidade do
Sumbe, precisamente na margem esquerda da estrada Sumbe-Uko-Seles. Apre-
senta as coordenadas geográficas: 11º 15’ 487’’ de Latitude Sul e 13º 53’ 517’’
Longitude Este, situado a 200 metros de altura do nível médio das águas do mar.
Tipologia de Caverna: A caverna é do tipo fluvial. A mesma é reflexo da acção
dissolutiva do rio Cambango ao transformar o seu curso originalmente superficial
de tipo antecedente, em subterrâneo, ao penetrar nas fracturas (fissuras) das
rochas sedimentárias do tipo calcárias predominantes na orla litoral onde corria,
na medida em que o relevo costeiro era tectónicamente elevado.
Processo de formação da caverna: No princípio, o rio Cambongo drenava
sua bacia planáltica e transicional desaguando na antiga costa Atlântica. Os
processos neotectónicos (Pleistoceno-Quaternário), foram elevando os terrenos
marinhos da margem litoral criado sucessivamente as planícies costeiras da mar-
ginal costeira do Kwanza Sul (regressões marinhas); este processo aconteceu de
forma pausada e intermitente, pelo que a tendência contínua, que é complicado
com as variações glacioeustáticas quaternárias do mar (Figura 1.1).
O rio antecedente, corta as novas superfícies na medida que se levantava en-
caixando o seu vale de forma progressiva em busca da saída ao mar. Ao encon-
trar calcários, com muitas fracturas e diáclases produto das forças a que foram
submetidas essas rochas, penetra, facilitado pela força de gravidade, dissolven-
do os calcários e convertendo seu leito em subterrâneo nalguns trechos, para
reaparecer nas planícies mais baixas de rochas cársticas e sair ao mar. Assim, se
forma o mais alto nível da caverna presente no canhão do rio (Figura 1.2).
Como o terreno continua a elevar-se, o rio busca o seu nível de base, continua
com o trabalho erosivo sobre as fisuras mais profundas existentes, abandona a
antiga cova e faz uma nova cova a um nível inferior (Caverna de Deus). A caverna
superior abandonada se encontra em estado de inactivo ou senil, começando
os processos de reconstrução e destruição gravitacional com quedas de tectos
e paredes, que podem converter-se em dolinas de colapso, que vão ampliando
o profundo canhão do rio que cresce no sentido da corrente e restos de galerias

2
Ver vídeo em Yotube: https://www.pa-angola-tourism.com/portugu%C3%A9s/roteiro/grutas-de-sassa/,12/4/2020.
184 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

fragmentadas com amplitude de espeleotemas. A continuidade dos movimentos


ascendentes respeita o processo de aprofundar o leito subterrâneo, mudando
a um novo nível da caverna mais profundo, e deixa o nível anterior (caverna de
Deus) em um estado de abandono, e em ocasiões de grandes cheias ou inunda-
ções o rio consegue penetrar na antiga caverna e corre momentaneamente por
ela, movendo os sedimentos do chão e depositando novos materiais sobre o
mesmo (Anexo-Figura 1 e 2)
Na actualidade o rio apresenta um sumidouro activo junto a antiga entrada da
caverna e uma nova ressurgência também junto a saída da caverna (Figura 2-4).
De igual forma, se observa a juzante da caverna uma ressurgencia acentuada e
activa por onde correm as águas do Rio Cambongo (Figuras 2-4). Em síntese, a
caverna de Deus consiste numa galeria em forma de túnel longo com cerca de
600 metros de comprimento de geometria triangular, controlado por uma frac-
tura distinguível no tecto (vértice do triângulo). É de origem fluvial, em estádio
juvenil em transição a etapa madura; na época de grandes cheias, o rio Cam-
bongo invade de novo a cova e corre pelo antigo leito, reactivando a mesma.
A caverna apresenta estalactites e outras formas reconstrutivas. O chão, antigo
leito do rio, é de areias soltas, producto dos aportes do Cambongo, o que evita
a formação de estalagmites. Se observa, no centro da galeria, precisamente em
cima, na parede oriental mui próximo ao tecto, uma abertura que pode indicar
um antigo nível de galeria abandonada, já que não existe acumulação de rochas
em baixo da mesma.

CAVERNA DA MARIA BONITA (BAIRRO SABER ANDAR)


Localização geográfica: A caverna se localiza no Bairro Saber Andar, situado
a Norte da cidade do Sumbe, com as coordenadas geográficas: Latitude Sul-11º
14’ 20’’ e Longitude Este-13º 55’ 04’’ e 210 metros de altitude.
Tipologia de Caverna: A caverna Maria Bonita é de origem freática, em estado
seco e evoluida, consiste numa encurtada cavidade com uma pequena abertura
no borde sul de cerca de 4 metros de profundidade por desabamento do tecto. A
cavidade apresenta de 5 a 7 metros de altura, uns 35 metros de comprimento e
15 metros de largura máxima, lavrada em rochas calcárias do Cretácico.
Processo de formação: O processo evolutivo da caverna pode esquemati-
zar-se em várias etapas de formação (Figura 3). Em princípio, nas rochas cal-
cárias originadas no fundo marinho, elevadas e emergidas lentamente pelos
movimentos neotectónicos do Plioceno-Quaternário (regressão marinha), muda-
ram o ambiente terrestre formando-se um manto freático pela infiltração das
águas pluviais e influência dos mantos subterrâneos continentais. Estas rochas
apresentam grande variedade de gretas e fracturas, ocasionadas pelas forças e
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
185
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo

câmbios a que foram submetidas. No processo de formação, a água erosiona as


rochas e circula através das fissuras produzindo a lenta dissolução das mesmas,
aumentando as cavidades progressivamente e fazendo um trabalho de dissolu-
são horizontal, pois as correntes tendem a girar nos depósitos formados, ace-
lerando o processo de ampliação das cavidades e a formação de salões, neste
caso de limitada magnitude (etapa jovem ou de formação da caverna).
Como ocorrem flutuações climáticas que afectam as precipitacões atmos-
féricas e o terreno continua a ascender pela flutuante e permanente tendênca
ascendente neotectónica, o nível freático sofre variações que motivam mudan-
ças na cavidade, aparecendo espaços aéreos permanentes na parte superior
da cova e mudanças nos níveis do chão da caverna, o que origina o surgi-
mento das formas reconstrutivas desde o tecto (estalactites); etapa madura ou
de consolidação da caverna (Figura 4). Finalmente o manto freático descende
e abandona a caverna de maneira definitiva, deixando a caverna em estado
“seco”; então começa a reconstrução da caverna, com o desenvolvimento dos
espeleotemas a partir do gotejo das águas das chuvas infiltradas e o colapso
gravitacional do tecto (etapa senil ou relicta da caverna). Deste processo, re-
sulta a grande quantidade de formas reconstrutivas que apresenta a caverna
“Maria Bonita” e tendo em conta o clima seco imperante na zona, o que permi-
tiu pensar que a mesma tem um longo período de tempo na etapa reconstruti-
va (Anexo-Figuras 3 e 4).
Em síntese, a caverna Maria Bonita é evoluida, em estado senil, com inú-
meras formas reconstrutivas ou espeleotemas, que se formaram principalmente
uma vez que a caverna tenha ficado seca, entre as quais destacam-se:

a) Estalactites: Caem do tecto devido o gotejamento nas fendas ou furos. Ao


precipitar, o mineral forma um anel em torno da gota, próximo de sua interfa-
ce com a rocha. Quando a gota cai, o anel se sedimenta e cristaliza, juntando-
-se à rocha. Os anéis se unem uns aos outros formando tubos cilíndricos que
crescem em direção ao chão. Em geral, as estalactites se tornam cónicas pelo
escorrimento da água pela parte externa de suas paredes, pelo que podem
3
ter outros formatos especiais .
b) Estalagmites: A água que goteja no solo carrega mineral dissolvido que
continua a precipitar-se. O lento acúmulo devido a sequência de gotas pro-
voca o surgimento de estalagmites, formações que crescem verticalmente
no chão em direção ao tecto. Podem ter diversos formatos e atingir grandes
larguras. Em geral são cilíndricas, de ponta arredondada. Também podem ser
cónicas, em espiral ou com discos, como uma pilha de pratos. Na maior parte
dos casos, há uma estalagmite para cada estalactite, mas grandes estalag-

3
http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna; 20 /7/2014.
186 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

mites podem ser formadas por vários gotejamentos diferentes. Também se


4
podem juntar em maciços estalagmíticos .
c) Colunas: Quando uma estalactite e uma estalagmite se encontram no meio
do caminho entre o tecto e o chão, são formadas colunas que podem se
alargar através de escorrimentos por suas laterais. Na caverna Maria Bonita
as colunas apresentam câmbios no grosor, com um maior diámetro na base
das colunas, o que pode estar relacionado com variações nas condições do
gotejo (periodo anterior de maior gotejo) ou cambio no ambiente interno da
cova, por uma variação do conteúdo de CO2 e/ou na ventilação, o que pode
vincular-se quiçá com o desabamento do teto e formação da entrada actual
(ACEVEDO 2013).

FLORA E FAUNA NAS CAVERNAS


O interior das cavernas é conhecido por cavernícola ou hipógeo (subterrâ-
neo), em oposição ao meio epígeo (o meio externo). O meio hipógeo é, na maior
parte das vezes, totalmente desprovido de iluminação natural. Alguns trechos
das cavernas podem, no entanto, ser iluminados nas proximidades das entradas,
janelas e clarabóias, aberturas naturais causadas por desmoronamento ou pela
acção da água. Além da iluminação há uma série de outros factores que tornam
esse ambiente muito diferente do exterior, como a pequena variação de tem-
peratura, a humidade que ocorre em certos trechos e a presença de gases em
concentrações diferentes do exterior. A ausência de luz impede o crescimento
da vegetação fotossintetizante. Pode ocorrer a presença de alguns fungos, além
de folhas, frutos e sementes trazidos pela água ou animais maiores, mas de for-
ma geral pode-se considerar que a flora é praticamente inexistente. Os animais
podem usar as cavernas como abrigo ou habitá-la durante toda a sua vida. De
acordo com seus hábitos esses animais são divididos em três grupos (Citado em
NGONGO 2013):

a) Trogloxenos: Animais que utilizam a caverna apenas para abrigo, repro-


dução ou alimentação, mas saem para realizar outras etapas de suas vidas.
Todos os mamíferos cavernícolas podem ser classificados nesse grupo. Os
principais trogloxenos são os morcegos. As espécies frutíferas também exer-
cem um papel importante na alimentação das demais espécies, ao trazerem
5
sementes e fragmentos de folhas em suas fezes (guano) .

4
http://pt.wikipedia.org/wiki/Caverna; 28/7/2014.
5
Guano: O guano são excrementos dos morcegos que se acumulam nas cavernas, sendo um fertilizante
utilizado na agricultura, inclusive, existe no Bairro Saber Andar uma fábrica que explora este producto que
pode ser exportado.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
187
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo

b) Troglófilos: Animais que podem viver tanto dentro como fora da caverna, em-
bora não possuam órgãos especializados. Essas espécies são suficientemente
adaptadas para viver toda a sua vida dentro das cavernas, mas nada impe-
de que vivam igualmente bem fora dela. Entre eles estão alguns crustáceos,
aracnídeos e insetos.
c) Troglóbios: Animais que se especializaram para a vida dentro das cavernas.
A maioria não possui pigmentação e pode ter os olhos atrofiados ou mesmo
ausentes. Ao invés disso possuem longas e numerosas antenas ou órgãos
olfativos muito sensíveis. Entre esses há diversos tipos de peixes, como o
bagre-cego, insetos, crustáceos, anelídeos e aracnídeos.

Embora se observa poucas plantas na maior parte das cavernas, elas podem
desenvolver-se próximas das entradas e outras aberturas. A água e os animais
trogloxenos e troglófilos podem trazer fragmentos usados para a alimentação
dos animais vegetarianos da caverna. Também existem algumas espécies car-
nívoras, que se alimentam dos animais menores. Algumas bactérias e fungos
vivem no guano do morcego, podendo servir de alimento para alguns dos in-
sectos. Algumas cavernas podem ser iluminadas artificialmente para facilitar a
visitação. Ao longo do tempo, isso pode ter o efeito de permitir o crescimento de
plantas superiores, o que pode alterar diversas condições climáticas, químicas e
biológicas das cavernas.

DIAGNÓSTICO AMBIENTAL DAS CAVERNAS


Durante as actividades de campo nas cavernas, foi possível constatar mani-
festações de impacto negativo caracterizado pela degradação ambiental des-
tas, apesar da sua localização geográfica relativamente distante da cidade e
difícil acesso. Os principais problemas ambientais observados estão relaciona-
dos com a falta de conhecimento das pessoas relativo ao entorno cavernário,
ausência da educação e consciência ambiental da população residente na pe-
riferia e dos visitantes, aliado a inexistência de medidas de controlo, informa-
ção e orientação para o uso racional destes lugares. A análise da problemática
ambiental nas cavernas permite identificar os seguintes aspectos negativos: a)
Presença de sacos plásticos e outros resíduos sólidos, b) Estalactites e esta-
lagmites quebradas, c) Extracção de valores cavernários e espécies naturais,
d) Cheiros nauseabundos ao redor das cavernas, d) Queimadas nas cavernas,
e) Troncos de árvores queimados, f) Abate de algumas árvores no entorno das
cavernas.
188 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tabela 1. Problemas ambientais das cavernas

Problemas Ambientais Caverna Caverna Maria


de Deus Bonita
Presença de sacos plásticos e outros resíduos sólidos Baixo Médio
Estalactites e estalagmites quebradas Alto Médio
Extracção de valores cavernários e espécies naturais Alto Alto
Cheiros ao redor das cavernas Baixo Médio
Queimadas nas covas Médio Alto
Troncos queimados Baixo Médio
Abate de árvores em torno Médio Médio
Avalição da situação ambiental Preocupante Muito
preocupante
Problemas de atenção e controlo local
Falta de infraestrutura sanitária Alto Alto
Falta de sinalética e informação orientadora no local Alto Alto
Falta de controlo e vigilância Alto Alto
Avalição Muito Muito
insuficiente insuficiente

Fonte: NGONGO (2013)

CONCLUSÕES
O carso perfaz mais de 20% da superfície do globo terrestre; estima-se que
por volta de 25% da população mundial dependa da água subterrânea em re-
giões cársticas; a importância do carste como aquífero é inegável, suas imensas
reservas de água subterrânea são imprescindíveis para a subsistência das popu-
lações que vivem sobre o carste; a riqueza de seu solo, cultivado há milénios em
muitas regiões do planeta, valor económico para a mineração, isto é, a matéria-
-prima para o cimento, cal, ferro, depósitos minerais no carste como zinco, chum-
bo, etc., uso turístico, principalmente relativo às cavernas, entre muitos outros.
Uma vez identificada e cracterizada as duas cavernas, o passo seguinte será
divulgar, promover, dar a conhecer perspectiva de valoração como activo educa-
tivo-ambiental e turístico. Posteriormente, equipas multidisciplinares e multisec-
toriais entre as quais se deve destacar a Universidade, podem desenhar e imple-
mentar projectos de educação ambiental conducentes a valorizar os atractivos
(lugares) como recurso turístico singular inserido no turismo de natureza: ecoturis-
mo, turismo ecológico e científico e turismo espeleológico. Se abre desta forma,
espaço para o fomento do empreendedorismo local (micro e pequenos negócios),
numa altura em que no processo de diversificação da economia angolana, na
geraçao de renda e emprego é fundamental o papel do sector turístico como es-
tratégico para o crescimento e desenvolvimento económico e social do país.
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
189
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo

O uso económico destes lugares, requer estratégias ambientais sustentáveis,


pois as formas carsicas apresentam particularidades de vulnerabilidade ambien-
tal, é muito sensível aos impactos da actividade antrópica, reflexo da ocupação
inadequada das cavernas, o desflorestamento, uso agrícola, exploração de
água, mineração, controlo e deslocação da drenagem, urbanização, actividades
militares, turismo e recreação entre outros usos. O estudo das regiões cársicas
é de suma importancia para a formação dos estudantes do curso de licenciatu-
ra em educação na especialidade de geografia porque se insere no âmbito do
estudo da geologia e geomorfologia, fundamentais para a cadeira de Geografia
Física de Angola.
As cavernas de Deus e Maria Bonita são de gande valor económico (turismo),
porém, já se observa in-loco problemas de degradação ambiental relacionado
com a falta de conhecimento sobre o entorno cavernário, a pouca educação e
consciência ambiental da população visitante (turistas) e residente e a ausência
das necessárias medidas de controlo, informação e orientação. Estes lugares de-
vem ser vistos como recurso (atractivo) de valor singular; pelo que é necessário
uma actuação imediata e a instrumentação de medidas de protecção, vigialân-
cia e controlo visando a preservação das duas cavernas. Urge especialmente a
necessidade de realizar uma intensa actividade de educação ambiental com a
população visitante e residente.

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cación espacial No. 4. INRH. La Habana. Cuba, pp. 33-64.
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NGONGO, K. A. (2013). O carste subterrãneo do Kwanza Sul e o desenvolvimento
do tema na prática de campo do 4º Ano de Geografia no ISCED de Benguela.
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APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
191
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo

ANEXOS
Figura 1. Etapas de evolução do sistema das cavernas de Deus (Furna do Rio Cambongo)

Fonte: ACEVEDO (2013)

Figura 2. Etapas de evolução do sistema das cavernas de Deus (Furna do Rio Cambongo)

Fonte: ACEVEDO (2013)


192 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Imagens da caverna de Deus

Imagem 1 e 2. Localização da caverna de Deus na margem esquerda da esplendida paisgem


que envolve o Rio Cambongo. Vista do serpentear do rio Cambongo.

Imagens 3 e 4. Sumidouro, local onde as águas superficiais se convertem em subterránea. Resur-


gência, lugar onde as águas subterráneas voltam em forma de corrente superficial.

Imagens 5 e 6. Estudantes do 4º Ano do curso de Geografia do ISCED de Benguela


em Prática de Campo (entrada e final da caverna).
APROVEITAMENTO TURÍSTICO DAS CAVERNAS DE DEUS E MARIA BONITA NO MUNICÍPIO DO SUMBE
193
Manuel Francisco Bandeira, Albino Kangombe Ngongo

Figura 3. Processo de Formação das Covas freáticas Maria Bonita (Saber Andar)

Fonte: ACEVEDO (2013)

Figura 4. Formação da coverna Maria Bonita (Saber Andar)

Fonte: ACEVEDO (2013)


194 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Imagens da Caverna Maria Bonita

Imagem 7 e 8. Entrada e explicação do proceso de formação da caverna.

Imagens 9 e 10. Explicação da formação das estalactites, estalagmites e colunas.

Imagens 11 e 12. Pilar ou Coluna e profesores e estudantes em prática de campo


no interior da caverna.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS
DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE
A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL)
E A UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE
(MOÇAMBIQUE)
MÓNICA ARROYO*
ANTONIO GOMES DE JESUS NETO*

As iniciativas de cooperação acadêmica entre universidades englobam múl-


tiplas atividades como assinaturas de convênios, organização de eventos cien-
tíficos, mobilidade de estudantes e professores, criação de grupos de pesquisa,
realização de projetos e publicações conjuntas. São iniciativas que promovem
a internacionalização do ensino superior e, ao mesmo tempo, incrementam o
desenvolvimento institucional por meio da constituição de redes e saberes com-
partilhados. Nessa perspectiva, propomos considerar a aproximação existente
entre Brasil e Moçambique, mais especificamente entre a Universidade de São
Paulo e a Universidade Eduardo Mondlane.
Cabe inscrever essa aproximação nas dinâmicas de cooperação Sul-Sul, que
têm como desafio incentivar o desenvolvimento social e econômico baseado na
solidariedade entre as nações do Sul. No âmbito da educação superior, essa
cooperação implica reconhecer a existência de instituições científicas e univer-
sidades que, ao trabalhar de forma coordenada e cooperativa, podem ampliar e
enriquecer a produção de conhecimento. Trata-se de ações que evidentemente
exigem decisão política e recursos para viabilizar investimentos em áreas como
ciência e tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, ensino de graduação e pós-
-graduação. O Brasil teve um protagonismo especial nesse sentido, quando as
relações com África ganham impulso no início de século XXI, principalmente
durante o governo de Lula da Silva. Dentre os países africanos sobressaem os
Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), devido a razões históricas
e institucionais, com destaque para Moçambique (MILANI; CONCEIÇÃO; M´BUNDE
2016; FREIRE et al 2017; DALLA CORTE E MENDES 2018).

*
Universidade de São Paulo
196 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Este artigo tem como foco específico apresentar a relação da Faculdade de


Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP)
com a Universidade Eduardo Mondlane (UEM), localizada na cidade de Maputo,
Moçambique. Três tópicos dão conta deste objetivo: o primeiro faz um breve
histórico do desenvolvimento dos estudos africanos na Universidade de São Pau-
lo; o segundo detalha as atividades realizadas por docentes e estudantes das
duas universidades, especialmente no âmbito dos respectivos Departamentos
de Geografia; e o último apresenta um pequeno relato das experiências de inter-
cambistas brasileiros.

1. OS ESTUDOS AFRICANOS NA UNIVERSIDADE DE SÃO


PAULO
Se as políticas de Estado em direção à cooperação Sul-Sul na educação supe-
rior brasileira, implementadas na primeira década do século XXI, permitiram uma
maior aproximação entre as universidades do Brasil e de Moçambique, a relação
da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade
de São Paulo (USP) com os estudos africanos já existe há pelo menos 6 décadas.
Entre meados dos anos 1950 e 1960, diversos intelectuais da antiga Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP davam início ao que se convencio-
nou chamar de estudos afro-brasileiros na universidade paulista, e, ainda que
esses estudos tivessem como objetivo pensar a escravidão e a situação do negro
no Brasil, autores como Roger Bastide, Florestan Fernandes, Fernando Henrique
Cardoso, Otávio Ianni e Emília Viotti da Costa inauguraram a reflexão sobre a
África no que viria ser, a partir de 1970, a FFLCH.
É exatamente desse período também, mais especificamente entre os anos
de 1962-63, a criação do primeiro embrião do atual Centro de Estudos Africa-
nos da USP (CEA/USP), que foi inicialmente batizado de Centro de Estudos de
Cultura Africana (CECA). Criado como uma entidade privada que funcionaria
junto à cadeira de Sociologia II, o CECA recebeu recursos da Fundação de Am-
paro à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e nasceu interdepartamen-
tal, congregando à época professores interessados na temática africana das
áreas de sociologia, antropologia, economia, política, história, geografia, lin-
guística e literatura. Com o crescimento do interesse de Departamentos como
os de História e Geografia, decidiu-se ampliar o foco do CECA para além dos
estudos culturais, nascendo assim, em 1969, o Centro de Estudos Africanos
(CEA), que teve entre seus fundadores o professor Fernando Augusto Albu-
querque Mourão. Cabe destacar, outrossim, que o professor Pasquale Petrone
do Departamento de Geografia fez parte do seu primeiro Conselho Plenário
(MUNANGA 2012).
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 197
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto

A partir de 1967, o CECA ofereceu disciplinas optativas para os alunos de 3º


e 4º ano do curso de graduação em Geografia: uma delas intitulada “A forma-
ção da sociedade angolana ao longo de quatro séculos” e a outra sob o nome
“Sociologia da África Negra”, ambas ministradas pelo professor Castro Sorome-
nho. Em 1972-1973, o CEA também criou para os estudantes de graduação em
Geografia o curso semestral “O mundo tropical” (MUNANGA 2012). No nível de
pós-graduação, foi defendida em 1977 a primeira dissertação de mestrado de um
africano junto ao Departamento de Geografia da FFLCH/USP. Sob orientação do
professor José Ribeiro de Araújo Filho, e com apoio fundamental do CEA, o tra-
balho de Roger Yassoungo Soro foi um estudo comparativo entre a produção do
café em São Paulo e na Costa do Marfim, publicado pelo Instituto de Geografia
da USP no final dos anos 1970 (SORO, 1978).
De acordo com Munanga (2012, 24), “entre 1974 e 1977, entraram na USP
através dos esforços do Centro de Estudos Africanos, 78 jovens africanos, ho-
mens e mulheres”, e nas contas de Mourão (2010, 11), o CEA contou desde sua
fundação “com a presença de cerca de três centenas de estudantes africanos”.
Segundo Mourão, “o CEA sempre teve muito claro a sua opção universalista”,
de maneira que a África seja considerada “como uma unidade, ou por país ou
região, do mesmo modo a que procederíamos se estivéssemos estudando a Eu-
ropa, a Ásia, ou qualquer outro continente” (MOURÃO 2010, 9). Nesta mesma
linha, Munanga (2012: 28) diz que, na visão do CEA, o continente africano deve
ser tratado “com respeito e em condições de igualdade com o resto do mundo,
numa postura universalista e não particularista: a África como unidade e também
como pluralidade e diversidade”.
Para além do CEA, foi criado em 2011, pela Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, o
Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) Brasil-África nas dependências da FFLCH. Seu
projeto principal, também interdepartamental e denominado “A África no Brasil
e o Brasil na África: novos horizontes”, congrega pesquisadores das áreas de
antropologia, literatura, história social e econômica, contando com a participa-
1
ção do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Em seu projeto , o corpo de
pesquisadores chama atenção à existência de esforços relativamente indepen-
dentes nos departamentos da FFLCH/USP na criação de novas áreas da pós-gra-
duação e novas disciplinas da graduação relacionadas à temática africana, como
aqueles empreendidos pela professora Maria Aparecida Santilli na área de Letras
durante os anos 1970 e a consolidação dos estudos africanos no Departamento
de História nos anos 1990. Inspirado nessa tradição da FFLCH nos estudos afri-
canos e afro-brasileiros, o NAP Brasil-África pretende, como consta em seu sítio
2
oficial , “contribuir para a renovação dos caminhos da pesquisa e da constituição

1
Disponível em http://www.brasilafrica.fflch.usp.br/apresentacao.
2
Idem à nota anterior.
198 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de conhecimento a partir do diálogo interdisciplinar e da interface possível entre


as disciplinas envolvidas”.

2. A GEOGRAFIA DA USP E DA UEM SE ENCONTRAM: DIÁ-


LOGOS EM CONSTRUÇÃO
Dando continuidade à antiga tradição da FFLCH (inclusive o Departamento
de Geografia) nos estudos africanos e na relação com a África, foi assinado, em
2004, o primeiro convênio entre a USP e a Universidade Eduardo Mondlane
(UEM), localizada na cidade de Maputo, Moçambique. A história desse convê-
nio, porém, remonta ao início da década de 1980, mais especificamente 1982,
quando da realização da Conferência Regional Latino Americana da União Geo-
gráfica Internacional (UGI) em São Paulo/SP. Neste evento, a professora Rosa
Ester Rossini conta ter conhecido o professor Manuel Garrido Mendes de Araújo,
3
que se formou bacharel em Geografia pela Universidade de Lourenço Marques
em 1972, e em 2000 foi aprovado na primeira Cátedra de Geografia da UEM,
concurso do qual a professora Rosa Ester Rossini participou como membro do
júri (ROSSINI, 2011). Assim, com uma relação previamente estabelecida entre a
USP e a UEM, em 2002 o professor Manuel Araújo foi convidado pelo Programa
de Pós-Graduação em Geografia Humana (PPGH) da USP a ministrar um curso
4
intitulado “África sub-saariana: passado, presente e perspectivas para o futuro” .
É importante registrar que os primeiros coordenadores do convênio USP-UEM
foram os professores Rosa Ester Rossini e Manuel de Araújo.
Já em 2003 dois professores da UEM vieram ao Brasil para realizar seus cur-
sos de mestrado no PPGH/USP: o professor Cláudio Artur Mungói, que desen-
volveu sua pesquisa “Políticas agrárias: dinâmicas de transformações territoriais
e formas de reprodução social da família rural na região agrária do Chókwè”,
defendida em 2005 sob orientação da professora Marta Inez Medeiros Marques;
e o professor Alexandre Hilário Monteiro Baia, cuja dissertação de mestrado in-
titulada “Ruralidades na cidade de Nampula: exercício teórico para uma crítica
à Cidade”, defendida em 2004, deu origem ao desenvolvimento de sua tese de
doutorado “Os conteúdos da urbanização em Moçambique: considerações a par-
tir da expansão da cidade de Nampula”, igualmente defendida na USP, em 2009,
ambas sob orientação da professora Ana Fani Alessandri Carlos.
Dando continuidade à relação estabelecida, em 2005 a professora Rosa
Ester Rossini foi convidada a ministrar o curso de pós-graduação “Geografia da

3
Denominação colonial da atual Universidade Eduardo Mondlane.
4
Contando com o auxílio da FAPESP, Processo 01/13455-9. Disponível em: https://bv.fapesp.br/pt/auxilios/50151/
manuel-garrido-mendes-araujo-universidade-eduardo-mondlane-mocambique/.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 199
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto

População: exemplo brasileiro” em Maputo, na UEM (ROSSINI 2011). Neste mesmo


ano o estudante brasileiro Gabriel Limaverde Falcão, do curso de Filosofia da
FFLCH, fez uso do convênio entre as duas universidades pela primeira vez, rea-
lizando um intercâmbio acadêmico para Moçambique. Na sequência em 2006,
a aluna de Ciências Sociais Caroline Godoy D’Essen também realizou seu inter-
câmbio. Em 2008, já com o convênio sob coordenação do professor Wanderley
Messias da Costa (do Departamento de Geografia), foram para Moçambique os
5
dois primeiros estudantes de geografia da USP: Antonio Gomes de Jesus Neto
e Bruno Esslinger de Britto Costa, seguidos, em 2009, pela chegada do também
6
graduando em geografia Ruy de Carvalho Monteiro .
Entre 2010 e 2011, mais uma leva de estudantes brasileiros de graduação
realizou intercâmbio na UEM, sendo 3 deles das Ciências Sociais, uma da Letras
e um da Geografia (André Strauch Feres). O ano de 2014 foi o auge da presença
de estudantes brasileiros em Moçambique, com 9 no total, sendo 4 deles da
7
Geografia (Fabiano José Lopes Alves , Márcia Daiane Morais dos Santos, Viviane
8 9
Alves Vieira e Victória de Castro Vianna ), além de outros 4 da História e uma
da Letras. Por fim, entre 2015 e 2017 mais 4 alunos da FFLCH foram intercam-
bistas na UEM (3 da História e um das Ciências Sociais), totalizando, ao longo de
13 anos de convênio, 23 estudantes de graduação brasileiros em Moçambique,
10
que contaram com apoio financeiro tanto interno – verba Pró-Int e Bolsa Méri-
11
to Acadêmico da FFLCH – quanto externo, Bolsa Pró-Mobilidade Internacional
12
Capes/AULP .
5
Como resultado deste intercâmbio, o aluno Antonio Gomes de Jesus Neto defendeu em 2012 seu Trabalho
de Graduação Individual (TGI) intitulado “Da formação territorial às atuais fronteiras de Moçambique”, sob
supervisão da Profª Drª Mónica Arroyo.
6
Como resultado deste intercâmbio, o aluno Ruy de Carvalho Monteiro defendeu em 2014 seu Trabalho de
Graduação Individual (TGI) intitulado “Relações Brasil-Moçambique – Estudo de caso Prosavana –Usurpação
de terra ou parceria para o desenvolvimento?”, sob supervisão da Profª Drª Valéria de Marcos.
7
Como resultado deste intercâmbio, o aluno Fabiano José Lopes Alves defendeu em 2016 seu Trabalho de
Graduação Individual (TGI) intitulado “O ProSAVANA e o desenvolvimento contraditório da agricultura em
Moçambique”, sob supervisão da Profª Drª Marta Inez Medeiros Marques.
8
Como resultado deste intercâmbio, a aluna Viviane Alves Vieira defendeu em 2015 seu Trabalho de Graduação
Individual (TGI) intitulado “Territorialização do capital em Moçambique: o caso da Vale S/A e os reassenta-
mentos”, sob supervisão do Prof. Dr. Carlos de Almeida Toledo.
9
Como resultado deste intercâmbio, a aluna Victória de Castro Vianna defendeu em 2019 seu Trabalho
de Graduação Individual (TGI) intitulado “Sistema de abastecimento de alimentos na cidade de Maputo,
Moçambique – Produção, distribuição e circulação de produtos agrícolas”, sob supervisão da Profª Drª
Mónica Arroyo.
10
O Pró-Int (Programa de Apoio à Internacionalização da Graduação) é uma verba concedida pela Pró- Reitoria
de Graduação da Universidade de São Paulo à Comissão de Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas (mas não apenas), destinada a apoiar projetos de alunos que vão estudar fora do país
durante a graduação por meio de convênios acadêmicos.
11
Destinada à promoção de intercâmbios acadêmicos com bolsas de 2 a 6 meses de duração, contemplando
mensalidades, passagens aéreas, seguros-saúde e auxílios-instalação. Dentre outros requisitos para obtenção
da bolsa, o aluno precisa ter média ponderada acima de 7,0.
12
Edital de mobilidade internacional publicado e promovido pela Capes com o objetivo de fomentar o inter-
câmbio acadêmico com os países e regiões de língua portuguesa na África e Ásia, dentre eles Moçambique.
200 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Como outra forma de estreitar a cooperação acadêmica, em 2009, realizou-


-se, sob organização da professora Rita de Cássia Ariza da Cruz, e com partici-
pação das professoras Mónica Arroyo e Glória da Anunciação Alves, a Primeira
Semana de Geografia do Brasil em Moçambique, na UEM, em Maputo. Possibi-
litado pelo auxílio financeiro do CNPq, edital Pró-África MCT/CNPq nº 012/2018,
o evento contou com a presença de professores e pesquisadores da USP e da
UEM, mas também da Universidade Pedagógica de Moçambique (Delegação de
Gaza), da UNICAMP, da UFPA e da Universidade Cruzeiro do Sul – as três últimas
sediadas no Brasil. Como resultado desta iniciativa, em 2011 a revista GEOUSP
– Espaço e Tempo, do Departamento de Geografia da FFLCH/USP, publicou uma
edição especial (número 29) sobre a África, com artigos de professores e pesqui-
13
sadores brasileiros e moçambicanos .
Em 2013, os professores Mónica Arroyo e Heinz Dieter Heidemann estiveram
em missão acadêmica na Universidade Eduardo Mondlane realizando diversas
atividades no âmbito da Faculdade de Letras e Ciências Sociais. Apresentaram
resultados de suas pesquisas no Seminário de Investigação organizado pelo
Departamento de Geografia e ofereceram cursos e aulas na graduação e pós-
-graduação. A professora Mónica ministrou o curso “Espaço geográfico, circu-
lação e redes” na Graduação de Geografia e aulas sobre “Espaço geográfico e
globalização: contradições e possibilidades” no Mestrado em População e De-
senvolvimento do Centro de Análise e Políticas. Por sua vez, o professor Dieter
ministrou o curso “Migração e mobilidade do trabalho: experiências brasileiras”
na Graduação de Geografia e aulas sobre “Modernização e crise: reflexões sobre
populações em movimento” no Mestrado em População e Desenvolvimento do
Centro de Análise e Políticas.
Ainda na área de pesquisa, cabe destacar dois estudantes de pós-graduação
que promoveramo intercâmbio entre as duas universidades, no Brasil e em Mo-
çambique. O primeiro deles, o moçambicano Joaquim Miranda Maloa, bacharel
e licenciado em sociologia pela UEM, defendeu sua dissertação de mestrado na
FFLCH em 2012, na área de Sociologia, e posteriormente elaborou e defendeu
sua tese de doutorado, intitulada “Urbanização moçambicana: uma proposta de
interpretação”, na Geografia em 2016, sob orientação da professora Vanderli
Custódio. Do lado brasileiro, a pesquisadora Adriane de Sousa Camargo reali-
zou, sob orientação da professora Marta Inez Medeiros Marques, seu doutorado
sobre o programa de cooperação para o desenvolvimento agrícola da savana
tropical em Moçambique (ProSAVANA), fazendo inclusive um trabalho de campo
no país com suporte da UEM.

13
A revista Geousp Especial África, v. 15 n. 2 (2011), pode ser acessada no seguinte link:https://www.revistas.
usp.br/geousp/issue/view/5735.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 201
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto

Presente várias vezes ao longo dos eventos mencionados anteriormente, uma


das pessoas mais ativas no intercâmbio entre a geografia da USP e da UEM é a
professora Inês Macamo Raimundo, docente de geografia e membro do Centro
de Análises Políticas (CAP) da universidade moçambicana. A professora esteve
na USP em 2012 para o Seminário Internacional “Território e Circulação na dinâ-
mica contraditória da globalização”, organizado pelas professoras Mónica Arroyo
e Rita Ariza da Cruz. Na ocasião também ofereceu um mini-curso sobre “Migra-
ção e distribuição espacial da população africana” e foi membro da banca de
avaliação do Trabalho de Graduação Individual do estudante Antonio Gomes de
Jesus Neto. Como resultado desse seminário foi publicada uma coletânea, com
artigo da professora Inês (RAIMUNDO 2015). Em 2016, participou, remotamente,
da banca de avaliação da tese de doutorado de Joaquim Miranda Maloa e da
14
dissertação de mestrado de Antonio Gomes de Jesus Neto . No mesmo ano a
professora Inês ministrou no Brasil um curso no Programa de Pós-Graduação em
Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da USP, e proferiu uma palestra
no Departamento de Geografia intitulada “Calamidades naturais, instabilidade
política e projetos de desenvolvimento e formação de espaços incompletos em
15
Moçambique” . Por fim, entre junho e dezembro de 2017, a professora Inês foi
16
supervisora da geógrafa Viviane Alves Vieira em Maputo durante seu estágio
de pesquisa de mestrado, realizado em parceria com a UEM e auxílio financeiro
da FAPESP.
O convênio USP-UEM, assinado em 2004, segue vigente, atualmente sob a
coordenação da professora Rita de Cássia Natal Chaves, do Departamento de
Letras Clássicas e Vernáculas da USP, e dos professores Bianca Carvalho Vieira,
Jurandyr Sanches Ross e Emerson Galvani, do Departamento de Geografia da
USP; do lado moçambicano, a coordenação cabe ao professor Manuel de Araújo
17
da UEM .
Estendendo o intercâmbio acadêmico à Universidade Pedagógica (UP) de
Moçambique, cabe mencionar o estágio doutoral feito pelo professor José Júlio
Junior Guambe no Departamento de Geografia da USP em três momentos, nos

14
O pesquisador Antonio Gomes de Jesus Neto, que fez parte do convênio entre a USP e a UEM na graduação,
e defendeu seu TGI sobre Moçambique em 2012, continuou estudando a temática no mestrado, e defendeu
em 2016 a dissertação “Entre trilhos e rodas: fluidez territorial e os sentidos da circulação de mercadorias
em Moçambique”, novamente sob orientação da Profª Drª Mónica Arroyo.
15
Nessa ocasião, a professora Inês concedeu uma entrevista à equipe do Boletim Campineiro de Geografia,
publicada no v. 7 n. 2, 2017 (http://agbcampinas.com.br/bcg/index.php/boletim-campineiro/ issue/view/17).
16
A pesquisadora Viviane Alves Vieira, que fez parte do convênio entre a USP e a UEM na graduação, e defendeu
seu TGI sobre Moçambique em 2015, continuou estudando a temática no mestrado, defendendo em 2019
a dissertação “Os reassentamentos da Vale em Moçambique: um estudo sobre mobilização do trabalho e
trabalho supérfluo”, novamente sob orientação do Prof. Dr. Carlos de Almeida Toledo.
17
A última renovação deste convênio realizou-se em novembro de 2019, com vigência até 22/09/2024, con-
forme consta no sitio da Comissão de Cooperação Internacional (CCINT) da FFLCH (http://ccint.fflch.usp.br/
taxonomy/term/32).
202 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

anos de 2015, 2016 e 2017. Sob supervisão da professora Rita de Cássia Ariza
da Cruz, o professor José Guambe esteve em São Paulo como etapa obrigatória
de seu doutorado para realizar sua pesquisa sobre turismo, além de proferir pa-
lestras e apresentações na USP sobre seu tema. Cabe salientar que o professor
José Guambe fez parte da primeira turma de doutorado da UP, onde defendeu
sua tese em 2018 sob o título “Turismo na Zona Costeira de Inhambane: conflitos
na produção do espaço”.

3. MEMÓRIAS DE ESTUDANTES BRASILEIROS EM MOÇAM-


BIQUE
A multiescalaridade temporal e espacial dessa aproximação entre as geo-
grafias da USP e UEM desemboca, efetivamente, nas experiências de intercam-
bistas e pesquisadores que transitaram entre São Paulo e Maputo ao longo dos
últimos quinze anos. Por isso, um pequeno exercício de memória destas pessoas
pode ajudar a visualizar mais concretamente as práticas cotidianas envolvidas no
convênio USP-UEM, tanto do ponto de vista das relações institucionais quanto de
algumas vivências pessoais relatadas por eles.
De maneira geral, todos os intercambistas contaram, em Maputo, com o
apoio da UEM para obterem seus vistos de estudante no país, através de auxílio
burocrático oferecido pela reitoria da universidade. A experiência universitária,
a propósito, suscitou diferentes visões por partes dos intercambistas; se por um
lado viam a faculdade como uma “ótima maneira de perceber um pouco mais
a fundo os lugares e detalhes da cultura” moçambicana (MONTEIRO 2011), por
outro sentiram certo “estranhamento frente a algumas regras que se mostravam
mais evidentes” (VIEIRA 2015, 11), como em relação ao vestuário permitido nas
dependências da universidade e as relações de hierarquia existentes entre pro-
fessores, funcionários e alunos.
É um lugar comum entre os intercambistas o reconhecimento da centralidade
dos trabalhos de campo em Moçambique na formação intelectual dos estudan-
tes, além do debate teórico. Assim, para Alves (2016, 14), “o trabalho de campo
não só ajuda a responder as questões de pesquisa já formuladas como também
evidencia novas questões que se lançam aos olhos do pesquisador”. Vianna
(2019, 12) afirma que as experiências de trabalho de campo “tornaram possível
uma imersão na história da formação do país e nas relações estabelecidas na-
quele território”. Os dois estudantes citados apontam para a vivência do cotidia-
no em Maputo como um disparador do interesse pela investigação acadêmica,
como deixa claro Vianna (2019, 12) ao se perguntar “como os alimentos chega-
vam aos habitantes daquela municipalidade e por quais agentes esse processo
era intermediado”. Por sua vez, Vieira (2015) reconheceu a dificuldade com as
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A UNIVERSIDADE 203
EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto

línguas locais durante sua visita investigativa aos reassentamentos da empresa


Vale S/A em Moatize, mas afirma “que observar o lugar em que ocorre o conflito
foi essencial para ter uma percepção das transformações do espaço e a materia-
lidade das histórias narradas” (9).
Além dessas experiências de intercambistas brasileiros, parece interessan-
te também se debruçar em particular sobre as vivências do geógrafo Antonio
Gomes de Jesus Neto, que esteve em Moçambique no contexto do intercâmbio
por 3 vezes nos anos de 2008, 2009 e 2015. Nesse período realizou 1 ano de
intercâmbio acadêmico (2008), 6 meses de pesquisa para sua monografia final
de graduação (2009) e mais 2 meses de trabalho de campo para sua dissertação
de mestrado (2015).
Do ponto de vista do ensino propriamente dito, e das discussões e pesqui-
sas existentes na geografia moçambicana, em seu primeiro ano de intercâmbio
(2008) o estudante Antonio relata sua experiência na disciplina de “Planeamento
Urbano”, ministrada pelo professor Manuel Araújo, onde teve os primeiros conta-
tos com a discussão teórica acerca da urbanização em Moçambique. Como parte
da disciplina, fez trabalhos de campo em um bairro da chamada “zona peri-ur-
bana”de Maputo (ARAUJO 2003), compreendendo as particularidades da estreita
relação entre o rural e o urbano no país. Ainda no Departamento de Geografia,
cursou também a disciplina “Evolução do Pensamento Geográfico”, lecionada
pela professora Inês Raimundo, onde identificou semelhanças e diferenças na
geografia estudada e praticada nos dois países. Ao fim dessa disciplina, parti-
cipou de uma pesquisa coordenada pela mesma professora acerca das pers-
pectivas da “fuga de cérebros” das universidades moçambicanas, entrevistando
alunos de diferentes áreas acadêmicas da UEM sobre o desejo e a possibilidade
de estudar fora do país (e se a intenção desses alunos era regressar ou fazer
carreira no exterior). Ademais, o estudante pôde cursar também outras duas dis-
ciplinas no departamento de História da UEM (“Estado e Sociedade Pré-Colonial
em África” e “Estado e Sociedade em África Pós-Colonial”) e uma como ouvinte
no departamento de Sociologia da mesma universidade (“História do Pensamen-
to Africano”).
Em 2015, Antonio esteve em Maputo por 2 meses exclusivamente para fazer
um trabalho de campo, após o exame de qualificação de sua pesquisa de mes-
trado sobre a circulação de mercadorias em Moçambique. Segundo seu relato,
mais uma vez a ajuda institucional da UEM foi fundamental em sua trajetória:
por intermédio da professora Inês Raimundo, ficou hospedado em um dos alo-
jamentos da universidade em Maputo, a Residência 1 (Self) na Avenida Amílcar
Cabral. Ali, dividiu o apartamento com um moçambicano pós-graduando e con-
viveu no prédio também com estudantes graduandos moçambicanos, brasilei-
ros e estrangeiros. Realizou diversas entrevistas em instituições como os Por-
tos e Caminhos-de-Ferro (CFM) de Moçambique, a Maputo Port Development
204 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Corporation (MPDC), um escritório do Banco Mundial e diversas transportadoras


moçambicanas estabelecidas em Maputo, além de obter valiosos dados estatís-
ticos nos CFM e no Instituto Nacional de Estatística (INE). Todas essas relações
institucionais foram possibilitadas pelo apoio do Centro de Análise Política (CAP)
da UEM, do qual a professora Inês Raimundo é membro. Ademais, importantes
referências bibliográficas foram consultadas na Biblioteca Central Brazão Mazu-
la, localizada no campus da UEM, e também no Arquivo Histórico de Moçambi-
que (AHM), vinculado à universidade e localizado na baixa de Maputo.
De maneira quase unânime, os intercambistas desenvolveram em suas esta-
das um grande carinho por Moçambique, “um país de incrível paisagem e de um
povo fascinante” (ALVES 2015), e que para muitos, como Monteiro (2011), Jesus
Neto (2012), Vieira (2015) e Vianna (2019), era totalmente desconhecido antes
do intercâmbio. Vieira (2015, 8) resume bem a vivência, dizendo que “foi um
momento de desafio por estar em meio de novas situações ou mesmo relações
já conhecidas, porém observadas noutro lugar. Momento de me perceber geó-
grafa, de explorar, questionar, refletir”.
Mais do que um aprendizado acadêmico, o intercâmbio proporcionou aos
estudantes uma experiência de vida, de conhecimento do outro e de si mesmo, e
também do que é ser geógrafo no mundo contemporâneo e tudo que o trabalho
de campo agrega a este ofício.

PALAVRAS FINAIS
A convivência, a aprendizagem e o intercâmbio entre docentes e estudantes
da USP e da UEM ao longo das últimas décadas certamente contribuíram para o
reforço dos laços acadêmicos e a compreensão mútua de ambas as realidades,
em suas diferenças e semelhanças. Cabe destacar nessa aproximação a impor-
tância da circulação de ideias e o compartilhamento de experiências e práticas
de docência e investigação.
As breves memórias individuais relatadas pelos estudantes intercambistas
são apenas uma pequena parte de um processo longo e construído por muitas
pessoas e lugares entre o Atlântico e o Índico, mas é também uma forma de vi-
sualizar o que pode ser feito quando duas instituições decidem trabalhar juntas
através de um diálogo duradouro, apesar das dificuldades enfrentadas. Assim
como as memórias aqui apresentadas, outras histórias acadêmicas foram e se-
rão construídas a partir desses esforços.
CAMINHOS E EXPERIÊNCIAS DE COOPERAÇÃO ACADÊMICA ENTRE A UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (BRASIL) E A 205
UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE (MOÇAMBIQUE)
Mónica Arroyo e Antonio Gomes de Jesus Neto

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AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FACE
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS:
CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO
DE BOANE (MOÇAMBIQUE)
ORLANDO INÁCIO JALANE*
EDSON VICENTE DA SILVA**

1. INTRODUÇÃO
1.1. DESCRIÇÃO GERAL

Moçambique é um país da costa oriental de África, e de acordo com o censo


demográfico de 2017, o país tem cerca de 27.909.798 habitantes (28 milhões)
e mais da metade dessa população vive nas zonas rurais e consequentemente
depende da agricultura para a sua sobrevivência. Tem disponível cerca de 36
milhões de hectares de terras aráveis, dos quais estão em uso apenas cerca
de 15%, e 46,8 milhões de hectares de florestas, dos quais 8,8 milhões em par-
ques e reservas. Mais de 99% da área agrícola é constituída por explorações de
menos de 10 hectares e a maior parte da terra é administrada segundo normas
costumeiras (CARRILHO, ABBAS, CHIDASSICUA, & MOSCA 2015).
A grande parte das suas terras aráveis estão nas mãos dos pequenos agricul-
tores e da agricultura familiar, fazendo desses os maiores contribuintes da dieta
do país por essa e várias outras razões faz desses um objeto de análise bastante
interessante em relação aos impactos atuais e futuros das mudanças climáticas
que tem afetado cada vez em grande escala todos os países do mundo, sendo
que os periféricos e particularmente costeiros como é o caso de Moçambique já
se debatem com tais efeitos.
Segundo (SMIT & SKINNER 2002), o clima representa uma poderosa restrição
ambiental em muitas atividades humanas e dos sistemas humanos com maior
probabilidade de ser afetados pelas mudanças climáticas encontra se a agri-
cultura e a produção de alimentos.Tomado de conta que a agricultura é o elo
mais franco das mudanças do clima, então o senário Moçambicano pior visto

*
Universidade Federal do Ceará - UFC [ojalane@gmail.com]
**
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
208 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

que a grande maior da sua população vive e depende dela. Segundo o CAP1 e
o TIA2, a grande maioria desses moçambicanos que sobrevivem da agricultura
ocupa pequenas explorações com menos de 5ha que totalizam cerca de 99%
das unidades agrícolas do país e concentrando acima de 95% da área cultivada
do país. Esta grande concentração da agricultura do país nas mão dos pequenos
agricultores, cujos os objetivos centrais estão virados para a sua própria sobrevi-
vência, sem a acesso as tecnologias agrarias apropriadas para fazer fase as suas
necessidades de produção, isso acresce os riscos da mesma fase as senários
climáticos atuais.
Para muitos atores a exposição da agricultura africana e particularmente Mo-
çambicana aos riscos naturais não está inserido apenas nas alterações do clima
(padrões de chuvas, aumento da temperatura, etc) segundo o (MORTON 2007):

Alguns dos impactos mais importantes da mudança climática global serão sentidos
entre as populações, predominantemente em países em desenvolvimento, conheci-
dos como agricultores de "subsistência" ou "pequenos agricultores". Sua vulnerabi-
lidade às mudanças climáticas vem tanto da localização predominante nos trópicos
quanto de várias tendências socioeconômicas, demográficas e políticas que limitam
sua capacidade de adaptação à mudança.

Existe uma grande dependência natural da agricultura de subsistência Mo-


çambicana aos fatores naturais, que cada vez mais influenciam o estágio do de-
senvolvimento da atividade agraria em toda extensão nacional, particularmente
em regiões com serias dificuldade relacionados ao acesso as fontes de aguas e
aos solos produtivos. Os riscos sempre foram parte das atividades do homem
desde os primórdios, mas é também uma verdade que eles aumentaram de pe-
riocidade da sua ocorrência, este fator tem pesado cada vez mais nas atividades
com grande dependência dos fatores naturais, e a agricultura familiar/subsistên-
cia tem sido dos mais afetados por este flagelo. Para analisar essa problemática
dentro da agricultura de Moçambique vamos nos focar em uma demissão ter-
ritorial local e com grande influencias urbanas. O distrito de Boane, localizado
na zona sul do país inserido na província de Maputo será o nosso o objeto de
estudo, visto que é o principal fornecedor de produtos agrícolas a capital do país
a cidade de Maputo, as suas terras fazem parte da bacia hidrográfica de Umbelú-
zi, que tem os seus recursos bastantes pressionados pelas atividades humanas.

1.2. AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA MOÇAMBICANA

Não é possível descrever ou abordar a temática da agricultura de subsistên-


cia em África sem que antes clarifique o sentido real da mesma “subsistência ou
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
209
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva

familiar. Segundo (CORREIA 2013) existe elementos claros para separar os dois
sistemas agrários.

“... agricultura familiar se diz que, mantendo muito dos traços da agricultura de sub-
sistência ou tradicional ou seja, embora fortemente condicionada pelas determinan-
tes naturais e socioeconómicas endógenas, vai estando, cada vez mais ligada aos
mercados isto é, influenciada pelas determinantes socioeconómicas exógenas.Os
sistemas de subsistência, como o nome indica, são sistemas que visam fundamen-
talmente a sobrevivência do agregado familiar o que os torna muito mais resistentes
a qualquer mudança. Naturalmente que os condicionalismos que podem levar ao
desaparecimento do sistema poderão ter razões que não se prendem apenas com as
questões técnicas como por exemplo os conflitos armados. Pelo seu lado, a agricultu-
ra comercial é, no essencial, uma atividade económica que faz da venda da produção
a sua prioridade.

Ainda que o mesmo reconheça que existe uma ligeira diferença da agricul-
tura familiar, baseado na sua integração ao mercado de produtos locais e de
exportação em contraste com o de subsistência que se revela com uma ligeira
exclusividade ao sustento básico da família.
A agricultura de subsistência africana é tida como um elemento de existência
das famílias, esse facto a transforma numa conflito de conceitualidade em rela-
ção a outras realidades extras africanas, se ela é para família então é familiar.
Na agricultura moçambicana e na maior parte da região africana os termos
agricultura de subsistência e agricultura familiar são normalmente considerados
sinônimos, por essa razão os conceitos são na maior parte das vezes conceden-
tes.
Em Moçambique a atividade agraria segundo ao artigo 103 da constituição
1
da República :

1. ....... é a base do desenvolvimento nacional.


2. O Estado garante e promove o desenvolvimento rural para a satisfação
crescente e multiforme das necessidades do povo e o progresso económico
e social do país.

Em contraste ao artigo 103 da constituição da República, Moçambique pós in-


dependência fez muito pouco investimento no dito sector base da economia na-
cional, muitos poucos esforços foram feitos com vista a promoção do desenvol-
vimento do sectoragrário. As grandes plantações herdadas do sistema colonial
português foram ao colapso logo depois da independência nacional, derivados

1
Constituição geral da Republica de Moçambique
210 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

de vários fatores. E a agricultura de subsistência que no contexto moçambi-


cano é equiparado a agricultura familiar, cimentou a sua importância no seio
da agricultura do país, sendo ela responsável de empregar mais de 70% da
populaçãoativa.Segundo (MOSCA 2014)a falta de investimento na agricultura
africana é responsável pelos níveis elevados de pobreza que assolam o conti-
nente a décadas.
A insegurança alimentar e a necessidade de ajuda alimentar são cíclicas
devido a vários fatores, como, políticas adversas (“não amigas”) ao sector, con-
flitos e deslocados de guerra, efeitos das mudanças climáticas, sendo África
das zonas de maior risco (MOSCA 2014). Isso mostra a pouca capacidade de
investimento, provavelmente a falta dela por partes das autoridades Moçam-
bicanas.

2. O DISTRITO DE BOANE, PRODUTOR E FORNECEDOR


DE PRODUTOS AGRÍCOLAS
O distrito de Boane está localizado na zona sul do país, a sudoeste da pro-
víncia de Maputo, nas proximidades da capital do país inserido na província de
2
Maputo. Apresenta uma superfície de 815 Km2, É o principal fornecedor de pro-
dutos agrícolas a capital do país do mesmo nome da província, as suas terras
fazem parte da bacia hidrográfica de Umbelúzi, Tembe e Matola. Destes o mais
importante é o rio Umbelúzi, que nasce na Suazilândia e após 70km de percurso
desemboca no Estuário do Espírito Santo, onde também têm a sua foz, os rios
Matola e Tembe.
O rio Umbelúzi é a fonte de água potável das cidades de Maputo e Matola.
Com o crescente aumento da população, a quantidade de água tornou-se cada
vez mais escassa pelo que foi necessária a construção da Barragem dos Peque-
nos Libombos, que se integra numa estratégia de utilização dos recursos natu-
rais e de aproveitamento das potencialidades da região (MAE 2014).

2
Direção Nacional de Terras-cadastro nacional de terras; http://www.dinageca.gov.mz/dnt
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
211
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva

Figura 1: Enquadramento territorial de Moçambique e distrito de Boane


no contexto Africano e Nacional.

Fonte: autor

A agricultura é a base da economia distrital, tendo como principais culturas as


hortícolas, milho, mandioca, feijão, bananas e citrinos. A Criação predominantes
são os bovinos, ovinos e aves, destinadas para o consumo familiar e comercia-
lização.
O sector agrícola familiar está em expansão, e as explorações privadas, que
ocupam uma parte significativa das terras férteis e absorvem cerca de mais da
metade da mão-de-obra assalariada do distrito.
Na figura abaixo há uma amostra clara da importância do sector familiar ou
da agricultura de subsistência na agricultura local, ainda há uma certa resistên-
cia na equiparação desses dois termos porque está claro que em Moçambique
assim como na maior parte da África subsaariana os dois termos são bastantes
coincidentes para a maior parte das suas populações, pois não existe uma agri-
cultura exclusivamente de subsistência sem pequena tendência aos mercados
por mais pequeno que seja.
212 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Tabela 1: Número de Explorações Agropecuárias por Tipo; Áreas Cultivadas


no Distrito e Total da Província – 2010

Explorações Nr. de Explorações Área Cultivada (hectares)


Pequenas e medias 22314 48,999
Grandes 22 607

Fonte: INE, 2013

Analisando esse quadro, quase que a totalidade da área cultivada em 2010


havia sido feita pelos pequenos agricultores do distrito, isso correspondia acima
de 99% da área total cultivada e com mais de 22314 explorações contabilizadas
nesse período.

2.1. SISTEMAS AGRÁRIOS NO DISTRITO DE BOANE

Para o (SITOE 2008) a análise dos sistemas agrários de um determinado lugar


parte do pressuposto de que analisar e explicitar um objeto é também estudar
a sua dinâmica de evolução através do tempo e as relações que esse sistema
mantém com o resto do mundo nos seus diferentes estágios de evolução. Mas
não é o objetivo central desse texto fazer a proposta de analise temporal da evo-
lução dos sistemas agrários do distrito de Boane, mas uma pequena descrição
delas com o objetivo de ter o melhor entendimento da sua vulnerabilidade aos
eventos climáticos.
O distrito de Boane se encerre na logica agraria nacional, maioritariamente
familiar, pouco uso das tecnologias agrárias avançadas e sem grandes incentivos
externos tanto do estado assim como do sector privado. Pouco mais de 70% da
sua população ativa depende do cultivo da terra, feito de forma tradicional e com
grande dependência das condições climáticas.
Neste texto analisamos sistemas agrários, relacionado as diferentes formas
3
de produção e organização do mesmo . O distrito apresenta 3 tipos distintos de
sistemas agrarias, o sistema irrigado, sistema de sequeiro. O sistema irrigado é

3
O sistema agrário pode ser definido como um modo de exploração do meiohistoricamente constituído, um
sistema técnico adaptado às condições bioclimáticas de um espaço determinado, que responde às condições
e às necessidades sociais no momento. Um modo de exploração do meio que é o produto específico do
trabalho agrícola, utilizando uma combinação apropriada de meios de produção inertes e meios vivos para
explorar e reproduzir um meio cultivado, resultante das transformações sucessivas sofridas historicamente
pelo meio natural Mazoyer e Roudart (1997) citado por (AMILAI 2008).
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
213
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva

praticado na sua grande parte nos solos a leste do distrito com grande proximi-
dade as fontes de agua como os casos da barragem dos pequenos Limbobos e
ao longo dos cursos de agua de vários pequenos riachos, como maior destaque
nas margem do rio Umbelúzi, encontramos aqui as pequenas e médias empresas
agrarias do distrito enquanto o sistema de sequeiro é praticada numa peque-
na parte da região norte e em quase toda a extensão da região sul do distrito,
com dependência exclusiva das condições naturais é aonde os efeitos da natu-
reza tem sido mais severos para os agricultores familiares, este é caracterizado
basicamente por desflorestamento constante através de destroco em queima
das savanas como forma de limpeza dos campos. O sistema urbanizado agrário,
seria o último que se destaca na produção avícola e na horticultura virada ao
essencialmente para o consumo urbano
O distrito de Boane é dos poucos com potencialidades agráriasna região sul
de Moçambique, particularmente na província de Maputo onde se encontra in-
serido com uma atração agraria de vulto tanto para os produtores familiares,
bem como da agricultura empresarial e isso deve se aos solos férteis dodistrito
e a grande disponibilidade de água, a partir do seu principal curso o rio Um-
belúzi que é também abastecido por pequenos riachos que cortam de norte a
sul. O maior reservatório de agua da região sul encontra-se nos limites deste
distrito com o da Namaacha a denominada barragem dos pequenos Limbobos
como uma capacidade de 400Mm3, desenhada para o fornecimento de agua
nos campos agrícolas irrigáveis e para o consumo do próprio distrito de Boane e
da região metropolitano de grande Maputo (cidades de Maputo e Matola). Mais
de 80% dos pequenos agricultores do distrito de Boane ainda usam técnicas de
produção do século 18, como são os casos da pratica de queimada, lavouras e
sementeiras manuais, etc.

1. Campos de hortícolas ao longo do rio Umbelúzi.


214 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

2. Produção em sequeiro de milho, com uso de enxada.

3. FATORES DE RISCO DA AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA


A mudança climática é o novo inimigo dos países em via de desenvolvimen-
to, principalmente países costeiros como é o caso de Moçambique, que já vem
experimentando os efeitos da mudança do clima com cada vez mais severidade.
A agricultura moçambicana é na sua totalidade dependente das condições natu-
rais do clima, fazendo dela uma atividade de grandes riscos e por isso com pouca
atração de investimentos tantos públicos, principalmente os privados, mais esse
não tem sido o único fator que explica os poucos investimentos feitos e a falta de
atrativos para a exploração agraria Moçambicana.
A combinação de uma seca de longa duração, rápida urbanização e cresci-
mento populacional está aumentando a pressão sobre o já limitado suprimento
de água doce para Maputo e outras cidades costeiras.
As comunidades continuam a depender fortemente da agricultura dependen-
te de chuvas e da produção de alimentos. “O milho não cresce e a chuva é menos
4
frequente, as pessoas estão cultivando milho em campos secos (STV) .
O rápido crescimento das área urbanas tem sido um dos grandes desafios da
produção agraria, segundo o MOSCA, 2014:

A urbanização, motivada por diferentes razões, económicas e não-económicas, tem provoca-


do êxodos de diferentes dimensões sem serem acompanhados das transformações estruturais
que permitam o aumento da produção e produtividade, para suprir a demanda de alimentos
das cidades, o que é agravado por taxas de crescimento populacional, geralmente elevadas.

4
Extrato de uma entrevista ao canal televisivo STV por um dos produtores do distrito de Boane
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
215
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva

As políticas agrarias nacionais tem sido apontados como um dos grandes


entraves para o desenvolvimento agraria nacional, principalmente da agricultura
familiar moçambicana. Mas não é apenas a falta ou a ineficiência das políticas
que estão a empurrá-lo para o abismo, existe imensos fatores que tem contri-
buído para que isso aconteça. Segundo (SMIT & SKINNER 2002) citando (PARRY e
CARTER 1989; REILLY 1995) a agricultura é inerentemente sensível às condições
climáticas e está entre os setores mais vulneráveis aos riscos e impactos das
mudanças climáticas globais. Se assumiremos que este senário por se só já é
era alarmante, ela vem se agravando nos países com poucos recursos e com a
falta de vontade política para impulsionar a agricultura. Os países da SADC na
sua proposta orçamentaria dos estados membros convencionam a estes estados
membros a investir no mínimo 2% do seu PIB no desenvolvimento das atividades
agrarias nos seus territórios e favor dos pequenos agricultores.

O (SMIT & SKINNER 2002) afirmam que:

Apesar da importante influência das mudanças climáticas, incluindo variabilidade e além disso,
a adaptação na agricultura não funciona e evolui com respeito apenas a esses estímulos climá-
ticos. Forças não-climáticas, como condições econômicas, políticas, meio ambiente, socieda-
de e tecnologia, têm implicações significativas para a tomada de decisão agrícola, incluindo a
tomada de decisão adaptativa (BRYANT 1994; BRYANT et al. 2000).

Isso reforça o fato de que os poucos investimentos para o desenvolvimento


agrário em Moçambique tem contribuído e muito para a exposição dessa aos
fatores externos, sejam eles climáticos ou não. Não é só a falta de políticas agrá-
rias mais claras que deixam a agricultura moçambicana em um buraco sem saí-
da, são também a falta de programas de organização territorial que levam e
conta a o potencial real do território.
Esse deficiente planejamento territorial tem contribuído na pressão do ur-
bano sobre o rural, como maior intensidade sobre as áreas de grandes proxi-
midades aos núcleos urbanos centrais como são os casos do distrito de Boane,
fazendo com que elas se tornem grandes fatores de influência das atividades
agrarias nestes lugares e que possam agilizar os impactos das mudanças cli-
máticas.

4. O IMPACTO DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS NOS SISTE-


MAS AGRÍCOLAS
Há muitas discussões nos padrões das mudanças climáticas sobre as ati-
vidades agrarias, o (SMIT & SKINNER 2002) afirma que a especificidade do
216 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

lugar e a especificidade do contexto das adaptações agrícolas, indicam que


será improvável que a maioria das adaptações das mudanças climáticas seja
realizada independentemente de iniciativas relacionadas à gestão de riscos
e que Os cenários convencionais de impacto climático geralmente se con-
centram nas mudanças na temperatura média e na umidade. É uma verdade
que esses cenários são realísticos, mais e também uma verdade que a atual
grande preocupação da agricultura de subsistência moçambicana se prende
com períodos com inventos de seca extrema e outros de excesso de chuvas,
os agricultores apontam os fenômenos de escassez e excessos de agua como
os mais impactantes a atividade agraria em Moçambique, principalmente a
região sul do país. Os agricultores do distrito de Boane são atualmente sub-
metidos a novas realidades climáticas que veem modificado os seus hábi-
tosde plantio, isso se dá pela alteração do período normal das chuvas, fator
que afeta o período de crescimento das culturas. Mas se analisaremos outras
visões relacionados ao que seria realmente impactante na agricultura de sub-
sistência não se prende apenas a fatores climáticos, mais a tantos outros ele-
mentos. Segundo o (MORTON 2007)os impactos mais importantes da mudança
climática global serão sentidos entre as populações, predominantemente em
países em desenvolvimento, conhecidos como agricultores de "subsistência"
ou "pequenos agricultores". Sua vulnerabilidade às mudanças climáticas vem
tanto da localização predominante nos trópicos quanto de várias tendências
socioeconômicas, demográficas e políticas que limitam sua capacidade de
adaptação à mudança.
As prováveis mudanças climáticas esperadas para África Oriental também
podem impactar profundamente as populações e economias dessa região, sen-
do que as principais mudanças estão relacionadas a alterações na frequência,
intensidade e previsibilidade das chuvas e temperatura do ar segundo o Fau-
chereau et al., 2003 e Harrison et al., 2011 citados por (UELE, LYRA & DE OLIVEIRA
Júnior 2017).
O senário atual da agricultura de subsistência de Boane é caracterizada pela
seca cíclica durante os últimos 20 anos, condicionando a capacidade de produ-
ção para o auto sustento de muitas famílias que depende quase que exclusiva-
mente da atividade agraria.
Os efeitos das mudanças climáticas na agricultura Moçambicana ultrapas-
sam as dimensões dos agricultores familiares, as companhias medias agrarias
instaladas neste distrito tem experimentado diversas dificuldades no processo
de produção devido à escassez de água no único reservatório disponível para o
abastecimento das atividades agrarias.
Nos últimos anos a maior empresa de produção e exportação de banana de
Moçambique a Bananalândia anunciou a redução da sua capacidade de pro-
dução em cerca de 50% das 300 mil toneladas por unidade de produção para
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
217
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva

150 mil toneladas por unidade de produção, devido ao fenômeno climático da


5
escassez das chuvas na região sul de Moçambique .
A produção de sustento no distrito de Boane na campanha agrícola 2018/9 foi
severamente afetado pela falta das chuvas o que levou a perda de mais de 6000
hectares de milho e 300 hectares de amendoim, culturas de extrema importân-
cia para a região sul de Moçambique.A escances da agua, tem se tornado um
fenômeno cada vez mais crescente no seio das comunidades rurais e urbanas
de Moçambique, e não só afeta a agricultura como tem afetado as atividades
urbanas que depende da sua disponibilidade, esse processo de falta e escas-
sez tem sido contrastada pelo excesso através das cheias cíclicas que devastam
campos com culturas diversas ano pós ano. Esses eventos tem condicionados a
agricultura familiar Moçambicana, que vem enfrentando grandes desafios nos
últimos anos desde a virada do século XX, com cada vez menos capacidade pro-
dutiva que chega a colocar em perigo o sustento da familiar e a sua subsistência,
este facto tornou se mais preocupante nos últimos 20 anos com secas severas,
salinização dos solos, degradação dos solos e o rápido e acelerado processo de
desertificação das áreas circundantes das vilas e cidades do nosso país, devido a
fatores de varia ordem, desde ao abate indiscriminado das florestas que tem vin-
do a colocar em risco de extinção várias espécies nativas de arvores e animais.
Essas condições de secas e déficit de chuva tem resultado em grandes perdas
da produtividade agrícola (MATYAS e SILVA 2013), mas também os período de ex-
cesso da água constituem um problema com grande impacto muito negativo na
produção agrícola do que em relação a períodos de chuvas abaixo do normal
em Moçambique (REASON 2007). Atualmente os agricultores de Boane vivem em
condições extremamente penosos, basicamente sem as condições mínimas de
garante de sobrevivência aos membros das suas famílias e muito menos ao gado
que se encontra sobre a sua pose, devido à redução dramática das áreas de
pasto no distrito.

5. CONCLUSÃO
Durante a presente analise ficou patente a real situação de exposição de
Moçambique aos eventos climáticos extremos, resultante das mudanças do cli-
ma.Estes impactos serão mais severo na atividade agraria e somados ao fato de
que em Moçambique ela ser exclusivamente dependente das condições naturais
(agricultura de sequeiro), e ainda com a grande parte da sua população depen-
dente dela para a sua sobrevivência. Urge então uma necessidadede desenho
de políticas agrarias urgentes com vista a ajudar aos pequenos agricultores

5
Reportagem do jornal da noite da STV 02/03/2019.
218 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

nacionais a mitigar os efeitos das mudanças climáticas cada vez mais devastado-
res para a agricultura moçambicana.
O nível de exposição aos efeitos anômalas das mudanças do clima sobre os
agricultores de subsistência de Boane quase que duplicou de nos últimos 20
anos desde as cheias dos anos 2000 na região sul de Moçambique. As discus-
sões em torno da agricultura Moçambicana aponta para alguns possíveis solu-
ções, que tem sido aclamado por vários seguimentos acadêmicos nacionais, com
são os casos do aumento da capacidade das represas para a conservação das
aguas que em períodos de chuvas excessivas tem provocado danos severos ao
tecido agrário nacional. Aponta se também algumas preocupações relacionados
a real efetividade destas ações face as mudanças do clima, seria realmente efe-
tivo aumentar a capacidade de represionamento sem que adotemos as comu-
nidades de ferramentas adequadas para o uso sustentável desse recurso e de
tantos outros que são chaves para uma melhor adaptabilidade para a mitigação
dos efeitos climáticos.
A situação atual do País em relação a sua agricultura exige um comprometimen-
to de todos os interessados, que na verdade são todos os moçambicanos desde
os órgãos de desenho das políticas, assim como ao beneficiário final destas. Aos
estados é lhe exigidos mais investimento e compromisso com agricultura nacio-
nal através o incremento do orçamento destinado a este sector, principalmente
uma maior atenção aos pequenos agricultores pós são este que asseguram a
deita alimentar do país.
As mudanças são uma preocupação a frágil economia de Moçambique ba-
seado ainda e em grande escala no agrário, mas tem sido devastado na verdade
pela pouca a atenção que tem sido dispensado a esse sector tão nuclear na vida
de milhões de moçambicanos, através dos poucos investimentos a falta de polí-
ticas agrarias atrativas ao sector. O maior desafio da agricultura moçambicana e
em particular do distrito prende se ainda a grande dependência da mesma aos
fatores naturais, uso restrito de insumos de qualidade, o melhoramento da fertili-
dade dos solos e a fraca capacidade de rega dos campos agrícolas.

RESUMO
O presente trabalho abordaos efeitos das mudanças do clima na agricultura de subsis-
tência Moçambicana particularmente das comunidades do distrito de Boane na pro-
víncia de Maputo. Moçambique é um país costeiro da zona austral de África bastante
vulnerável aos extremos climáticos e a região sul é o que menos capacidade de adap-
tação apresenta para fazer fase a essas mudanças. O mesmo foi desenvolvido a partir
de levantamentos bibliográficos, entrevistas aos produtores locais e da observação
direta do autor que é parte integrante deste ambiente em causa. Os diferentes estu-
dos apontam que em Moçambique já se observa a mudança dos períodos normais de
AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA FASE AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: CASO DOS AGRICULTORES DO DISTRITO DE BOANE
219
Orlando Inácio Jalane, Edson Vicente Da Silva

sementeira, isto é os padrões normais das precipitações tem se alterados e cada vez
com maior intensidade, a amplitude térmica cada vez mais alta.
O distrito de Boane é basicamente o principal fornecedor de produtos frescos de ori-
gem agraria as cidades de Maputo e Matola, daí que uma mudança nos padrões de
produção desse, afeta direita e indiretamente os mercados dessas duas cidades.O
padrão das chuvas na região sul de Moçambique tem apresentado mudanças em re-
lação ao período normal, não só mais também tem ocorrido em períodos mais curtos
e concentrados e de forma irregular e cíclico nos últimos 15 – 20 anos. Os efeitos das
mudanças do clima para uma agricultura tradicional, sem grandes entradas tecnoló-
gicas para fazer fase aos problemas cada vez mais frequentes na agricultura tem sido
cada vez mais nefasto. Os moldes da agricultura em Moçambique ainda se apoiam
em técnicas rudimentares (tradicionais), o que confere a ela o rótulo de agricultura
de subsistência”. Esse facto tem levantado um questionamento frequente “até que
ponto as mudanças no clima tem afetado os moldes de produção agrária tradicional
Moçambicana e em especial a agricultura de subsistência no distrito de Boane”. É
uma grande verdade que as mudanças climáticas já pesam nos modos de produção
das populações africanas, principalmente aqueles que praticam a agricultura de baixa
renda.

PALAVRAS-CHAVE
Agricultura de subsistência, Moçambique-Boane, Mudanças climáticas, Impactos,
Adaptação, Riscos, Mitigação

REFERÊNCIAS
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e Perspectivas para a Agricultura e Agricultores no Perímetro Irrigado de
Chókwè/Moçambique (Vol. 49). Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul.
CORREIA, A. M. (2013). A Agricultura Familiar versus A Agricultura de Subsistência
no âmbito da Segurança Alimentar no Espaço dos Países da CPLP.
MORTON, J. F. (2007). The impact of climate change on smallholder and subsis-
tence agriculture.
MOSCA, J. (2014). A agricultura familiar em Moçambique: Ideologias e Políticas.
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SITOE, T. A. (2008). Evolução dos Sistemas Agrários no Vale do Infulene, Cidade
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UELE, D. I., LYRA, G. B., & DE OLIVEIRA JÚNIOR, J. F. (2017). Variabilidade espacial
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de-producao-na-bananalandia
http://www.portaldogoverno.gov.mz/por/Media/Files/Constituicao-da-Republica-
-PDF
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL:
INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO
DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
MARIA GERALDA DE ALMEIDA*

INTRODUÇÃO
Pouco após o Brasil ter sido “descoberto”, em 1500, já em 1550 as relações
Brasil e África tiveram início. Elas foram dissimétricas, marcadas por um intenso
tráfico forçado de povos africanos escravizados, para trabalharem no país no
qual os portugueses buscavam explorar produtos dotados de valor na Europa. O
tráfico teve começo em meados do século XVI (SILVA 2020).
Durante todo o período de existência desse negócio, o Brasil foi o país que
mais recebeu africanos para a escravização no mundo. A quantidade de afri-
canos trazidos para o Brasil foi de 4,9 milhões, estimada pelas historiadoras
Schwarcz e Starling (2015).
Na análise de Alencastro (2018), as regiões das quais a maior quantidade de
africanos foi trazida para o Brasil foram Senegâmbia (Guiné), durante o século
XVI, Angola e Congo, durante o século XVII, e Costa da Mina e Benin, já no século
XVIII. Durante o século XIX, em 1850, os ingleses proibiram o Brasil de traficar
africanos de locais acima da linha do Equador.
Ao todo, Angola correspondeu a 75% do total de desembarques de africanos
no Brasil, e na primeira metade do século XIX um grande número dos africanos
enviados ao Brasil era de Moçambique. Os povos dos quais os africanos vieram
foram variados, com destaque para bantos, nagôs, hauçás, jejes, entre outros.
O Brasil é, portanto, marcado por mais de 350 anos de severo sistema de
tráfico internacional transatlântico de cativos africanos. Fruto de tão cruel po-
lítica é o racismo estrutural e estruturante da nossa sociedade (ALMEIDA 2018).
Sublinhamos que 54% da população brasileira, de acordo com IBGE (2018), au-
todeclaram-se negra.
Isso não impede, todavia, de a história da formação do povo brasileiro até
muito recentemente omitir a participação valorosa e decisiva dos povos afri-
canos para a construção do País, além de ter sido factualmente excludente

*
Universidade Federal de Góias - Goiania [galmeida@ufg.br]
222 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da cultura própria aos negros. Estão em curso, no Brasil, algumas medidas e


políticas reparadoras da exclusão, do descaso tido para com os brasileiros afro-
descendentes e até mesmo uma postura de cooperações técnicas e econômicas
com alguns países que alimentaram o tráfico africano para o Brasil.
Este artigo contempla um exemplo de um projeto de pesquisa-ação de um
edital da Coordenação de Aperfeiçoamento de profissionais do Ensino Superior
– Capes – e a Associação das Universidades de Língua Portuguesa – AULP –, no
ano de 2012. O propósito é apresentar como universitários de Goiás, um estado
do Brasil, e universitários de Gaza, uma região de Moçambique, se beneficiaram
de uma parceria.

O PROJETO
Este Projeto resultou da aprovação do citado edital, no ano de 2012. As insti-
tuições que foram aprovadas com o Projeto são a Universidade Federal de Goiás
– UFG –, contemplando o Instituto de Estudos Socioambientais e pesquisadores
do Laboratório de Pesquisas e Estudos de Dinâmicas Territoriais – Laboter– e,
em Moçambique, a Escola Superior de Negócios e Empreendedorismo – Esnec
– da Universidade Eduardo Mondlane. A UFG ainda agregou a Escola de Agrono-
mia, a de Engenharia de Alimentos, de Engenharia Florestal, da Escola de Veteri-
nária e Zootecnia. O Projeto foi desenvolvido entre fins de 2013 e o ano de 2017,
com o código Projeto 004/13.
Neste período foram realizadas mobilidades de brasileiros, sendo seis mis-
sões de trabalho, três bolsas-sanduíches para doutorandos e seis bolsistas de
graduação para Chibuto. No caso dos moçambicanos, estiveram em Goiás sete
missões de trabalho e seis bolsistas de graduação.
Paisagens e Desenvolvimento Local: Inventário, Análise e Estudo Comparati-
vo de Chibuto – Moçambique e Goiás – Brasil preocupou-se em ser um projeto
de pesquisa-ação que promovia o reconhecimento científico, com pesquisas ex-
ploratórias da paisagem no espaço rural e, paralelamente, efetuando um estudo
de potencialidades para o desenvolvimento local. O projeto foi realizado por do-
centes e discentes das Universidades Federal de Goiás (UFG) e Esnec Eduardo
Mondlane (UEM) no distrito de Chibuto na província de Gaza, em Moçambique.
Simultaneamente à pesquisa, ocorreu a ampliação dos conhecimentos locais
com a oferta de oficinas.
Alguns procedimentos foram realizados com discentes e docentes da
Unesc, visando propiciar ferramentas de conhecimento e outras promotoras
de desenvolvimento local. Foram feitos estudos cartográficos, calendários
agrícolas, rodas de conversa, confecção de mapa turístico e produzida uma
cartilha bilíngue.
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL: INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
223
Maria Geralda de Almeida

A base para a metodologia objetivando a realização de estudos cartográficos


deu-se com a oficina “Noções e Técnicas Básicas de Mapeamento”, desenvolvida
1
com alunos da Esnec. Nela abordam-se tópicos relacionados à cartografia e re-
presentação espacial, à elaboração de croquis, transectos, coleta de pontos de
GPS e confecção de mapas em softwares de mapeamento.

POR QUE PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO?


Moçambique, assim como o Brasil, foi colonizado. Colonizar nunca foi consi-
derada uma violência, porque, como bem assinala Santos (2004 ), colonialismo
foi concebido como missão civilizadora dentro do marco historicista ocidental
nos termos do qual o desenvolvimento europeu apontava o caminho para o res-
to do mundo. E a despeito de ter findado o colonialismo português, em certas ex-
-colônias, como o caso de Moçambique, existem resquícios do colonialismo po-
lítico que tem ainda uma importância significativa na compreensão e explicação
da contemporaneidade. Sendo assim, ao ser incluído o desenvolvimento neste
projeto de pesquisa-ação, pretende-se superar a ideia de desenvolvimento habi-
tualmente utilizada, que se inscreve plenamente ao corpo ideológico do capital,
servindo como instrumento dinamizador da sua expansão e da acumulação.
Assim, a abordagem proposta para discutir e sugerir ações consideradas
como desenvolvimentistas respaldava-se na concepção de que o local é porta-
dor de recursos que se expressam na melhoria de vida de uma comunidade e
de que uma maior participação da comunidade nas definições do poder político
favorece um ambiente saudável e socialmente justo. Em outras palavras, tra-
tava-se de articular saberes entre desenvolvimento, participação, autonomia e
controle social, para ir além do sistema ideológico que o capital propõe com a
ideia de desenvolvimento.
Por isso, a adoção do desenvolvimento local que está ligado à integração do
setor produtivo com o setor sociocultural preocupava-se com a comunidade, que
poderia, dessa forma, identificar como usufruir bens e riquezas geradas localmente.
Nesse mesmo entendimento, envolver paisagens faz todo sentido, pelo fato
de estas permitirem refletir acerca de como a população interpreta e usa seu
espaço. A paisagem é responsável por registrar vários aspectos representativos
da sociedade. Por isso, o conceito de paisagem amplia-se, na medida em que
não se limita a uma divisão geográfica. Ela revela aspectos referentes à história,
à cultura e, entre tantos outros aspectos, à economia de uma sociedade. Isso faz

1
Estudantes da ESNEC que participaram da oficina e levantamento de dados: Edilton Alberto Matimbe, Osvaldo
Inácio Nhavene, Ivo Daniel, Idilson Benehager F. Pirbay, Ferdinando Dirceu de Nogueira Caetano, Inácio
Ernesto Mirzo, Sónia Elisa Luís Tivane, João Sílvia Virgilio Mahuai, Ninaldo Artur Nhantumbo, Ali Satar Abdul
Paquira, Hélio Paulo Mutombene, Elidio Mário Cumbi, Jordão Humberto, Cristóvão Belém Mahuai.
224 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

com que a paisagem tenha importantes valores e várias funções. A paisagem


que vemos hoje já pode ter passado por um processo de modificação possivel-
mente em decorrência do uso dado a ela. Ou então, os vários usos, intervenções,
em processo, podem estar metamorfoseando a paisagem atual e construindo a
paisagem do futuro.

CHIBUTO: ESPAÇO ADMINISTRATIVO E SOCIOAMBIENTAL


A divisão política de Moçambique é complexa tanto estruturalmente como
politicamente e funciona da seguinte forma: país, províncias, distritos, municí-
pios, postos administrativos, localidades. De acordo com o Plano Estratégico de
Desenvolvimento do distrito de Chibuto (2008), o distrito em questão, com 5.700
Km², é dividido em seis postos administrativos: Malehice, Godide, Alto-Changane,
Changanine, Tchaimite e Chibuto-Sede (figura 1). O município de Chibuto, segundo
dados do Censo de 2007, tinha 63.184 habitantes. Já o distrito tinha 191.682 habi-
tantes e apresentava uma densidade populacional de 16,3 hab/km2 (Wikepédia).
São várias subdivisões hierárquicas e é grande o nível organizacional do distrito.
As informações constantes no relatório Perfil do Distrito de Chibuto Província
de Gaza, edição 2005, do Ministério de Administração Estatal da República de
Moçambique, são relativas a quinze anos, o que revela a dificuldade em elaborar
planejamentos e fazer políticas eficientes com dados defasados.

Figura 1. Divisao administrativa de Mocambique, do Distrito de Chibuto e Chibuto.


PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL: INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
225
Maria Geralda de Almeida

O distrito de Chibuto está localizado em uma planície irregular de acumula-


ção, com altitudes que variam entre abaixo de 100 e 200 m, solos argilosos e
franco-arenosos, vegetação aberta (savana) e clima predominantemente tropical
seco. O rio Changane é o mais importante. Já o Limpopo atravessa uma pequena
porção do Distrito e causa inundações prejudiciais às machangas – áreas tradi-
cionais de cultivos de alimentos – e às moradias no período chuvoso.
O tipo de habitação predominante no espaço rural é a palhoça feita de terra ba-
tida, o teto de capim ou colmo e as paredes de caniço ou paus. A maioria tem como
fonte de energia as placas solares fotovoltaicas, cuja quantidade depende da ca-
pacidade financeira do morador da casa. Geralmente as casas de alvenaria são as
das famílias de classe alta ou média. A paisagem é predominantemente rural.
O distrito de Chibuto é essencialmente agropecuário, com uso de mão de
obra familiar nas machambas. Na criação extensiva de gado, o pastoreio, em
sua maioria, é feito pelas crianças. Essa atividade constitui a maior fonte de ren-
dimento da população.

A DIVERSIDADE DE PAISAGENS
Para a oficina feita sobre Noções e Técnicas Básicas de Mapeamento, a pro-
posta final procurou realizar o mapeamento de um local público, juntamente com
os participantes da oficina, que neste caso foi o Mercado Central do distrito de
Chibuto. A caracterização da feira – mercadorias, número de bancas, faixa étaria
e sexo dos vendedores – foi realizada com base na observação.
Essas informações completaram o mapeamento e mostraram a importância
do conhecimento espacial.
As mulheres, pelo que pôde ser percebido, representam maior número de
comerciantes no Mercado Central de Chibuto. O fato de 52,18% da população
moçambicana total (28.861.863) corresponder a mulheres (INE, 2018), aliado ao
seu papel em cada localidade que, de acordo com relatos de moradores locais,
varia desde um sistema matriarcal a patriarcal, poderia ser uma das justificativas
para isso. Além disso, segundo Sitoe, Salomão e Wertz-Kanounnikoff (2012), o
processo de migração masculina para as minas sul-africanas pode ter tido um
grande impacto na oferta de mão de obra para a atividade agrícola familiar. Isso
resulta que as machambas sejam exploradas por mulheres e crianças e estas
continuam tendo uma presença expressiva no Mercado Central.
Concluiu-se que o Mercado tem destacado papel para a cidade de Chibuto
como centro econômico, um local de encontro para finalidade da permuta ou da
compra e venda e, também, um espaço de concentração/aglomeração e comer-
cialização daqueles que produzem em machambas.
226 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Além do estudo cartográfico do Mercado Central, foi construído um Atlas de


Paisagens sobre o Distrito de Chibuto, com textos e imagens sobre o distrito
(figura 2).

Figura 2. Capa do Atlas Paisagens e Desenvolvimento Local

Fonte: ALMEIDA; MOTA; SANTOS (2015). Disponível em: <https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/214/o/Paisa-


gens_e_desenvolvimento_local_em_Chibuto.pdf

Figura 3. Cartilha Aprendizado Participativo em Chibuto

Org.: RIGONATO, ALMEIDA 2016.

Este Atlas apresenta o patrimônio cultural daquele distrito e sinaliza, com a


participação dos moçambicanos de Gaza, os potenciais para o desenvolvimento.
São eles as condições para explorar a atividade turística, a diversidade do arte-
sanato e as singularidades paisagísticas do espaço de Chibuto.
No que diz respeito ao desenvolvimento, é possível abarcar um espaço mais
abrangente, o que se evidenciou no turismo. A província de Gaza foi percorrida
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL: INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
227
Maria Geralda de Almeida

Figura 4. Mapa com rotas turísticas na Província de Gaza

Org.: GONÇALVES, L. R. F.; MOTA, R. D., NASCIMENTO, D. T.; ALMEIDA, M. G. de


228 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

com os discentes do curso da Esnec, um professor daquela instituição, dois dou-


torandos de Geografia do IESA/UFG e um professor especialista em Cartografia
temática também dessa instituição brasileira. Com este percurso, considerando
a existência de atrativos histórico-culturais em oito monumentos de figuras em-
blemáticas de Moçambique, construiu-se um roteiro que se intitulou o Turismo
Pedagógico na Província de Gaza-Moçambique (figura 3). Acompanha o roteiro
um folheto contendo a rota turística, mapa, fotos e curtos trechos descritivos de
cada atrativo. O turismo pedagógico propiciará a oportunidade de conhecer a
história dos heróis nacionais e dinamizará as potencialidades sociais e econô-
micas da província de Gaza. No que tange ao impacto econômico, as presen-
ças periódicas de visitantes a esses monumentos criarão nos moradores locais
oportunidades para a oferta de vendas de alimentos e de artesanato, bem como
dinamizarão a economia local.
Conforme já relatamos, a província de Gaza e o distrito de Chibuto são, es-
sencialmente, agropastoris, e a Esnec, na sua formação de profissionais, valoriza
a qualificação de profissionais para lidar com o agronegócio. Este, ainda incipien-
te, emerge com o apoio da China (arroz) e África do Sul (caju). Como a maioria da
produção agrícola provém da pequena produção, durante a cooperacão julgou-
-se pertinente realizar atividades com aqueles produtores rurais de machambas.
Em parceria com a instituição brasileira e a Esnec – UEM, foi realizada uma ofici-
na com procedimentos do Diagnóstico Rural Participativo. Também, esta oficina
resultou na confecção de uma cartilha sobre o planejamento rural (figura 4). Um
professor moçambicano redigiu a cartilha na língua local changane.

CONCLUSÕES
O período de realização efetiva do Projeto permitiu conhecer as potencia-
lidades para o desenvolvimento local. Contudo, as pesquisas exploratórias, os
diagnósticos efetuados e as rodas de conversa com estudantes, docentes, mu-
lheres da feira, moradores dos entornos dos monumentos culturais-históricos e
elaboradores do planejamento participativo também sinalizaram limitações que,
devidamente acompanhadas, pelos profissionais da Universidade Eduardo Mon-
dlane, poderão ser minimizadas e mesmo resolvidas.
No que concerne ao Projeto, ressalta-se que três artigos foram gerados pelos
coordenadores da UFG e UEM, bem como diversas comunicações em eventos,
por parte de graduandos de ambos os países. A mobilidade de graduandos e de
doutorandos permitiu o conhecimento de outras realidades, a convivência cultu-
ral e o intercâmbio de experiências relatadas em comunicações. As missões de
trabalho de professores e pesquisadores enriqueceram as trocas e intercâmbios
entre Gaza e Goiás.
PAISAGENS E DESENVOLVIMENTO LOCAL: INVENTÁRIO, ANÁLISE E ESTUDO DE CHIBUTO (MOÇAMBIQUE)
229
Maria Geralda de Almeida

Com o encerramento do projeto, a coordenação da UEM manifestou o inte-


resse e houve a solicitação para a UFG continuar presente com a oferta de um
Doutorado Interinstitucional – Dinter. Tal fato representa que houve uma ava-
liação positiva da cooperação e parceria pelo Projeto 004/13. Entretanto, até o
presente não se concretizou, por ter ocorrido no Brasil uma mudança ideológica
na presidência do país e porque a política atual se desinteressa pelo apoio e
parcerias aos países africanos.

REFERÊNCIAS
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GOMES, F. (orgs.). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Compa-
nhia das Letras.
ALMEIDA, S. (2018). O que é racismo estrutural? Belo Horizonte, MG: Letramento.
ALMEIDA, M. G.; MOTA, R. D.; SANTOS, S. S. (2015). Paisagens e desenvolvimento
local: paisagens de Gaza. Disponível em: <https://files.cercomp.ufg.br/weby/
up/214/o/Paisagens_e_desenvolvimento_local_em_Chibuto.pdf>
IBGE. (2018). Censo demográfico 2018. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/
estatisticas/sociais/populacao.html.>
INE (2018). Mulheres e homens em Moçambique, 2017. Moçambique: Instituto
Nacional de Estatística.
RIGONATO, V. D.; ALMEIDA, M. G. (2016). Aprendizado Participativo em Chibuto-Ga-
za. Goiânia: Kelps.
SANTOS, B. de S. (2004). Do pós-moderno ao pós-colonial: e para além um do
outro. Coimbra, PT: Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da
Universidade de Coimbra. Conference.
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. (2015). Brasil: uma biografia. São Paulo: Com-
panhia das Letras.
SILVA, D. N. (s.d.). Tráfico negreiro. Brasil Escola. Disponível em: <https://brasiles-
cola.uol.com.br/historiab/trafico-negreiro.htm.>
SITOE, A.; SALOMAO, A.; WERTZ-KANOUNNIKOFF, S. (2012). O contexto de REDD+ em
Moçambique: causas, actores e instituições. Publicação Ocasional 76. CIFOR,
Bogor, Indonesia.
PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO
SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO
(MOÇAMBIQUE)

GUDO BAI ARMANDO MAIDJELELE*


MANUEL AGUIAR MURAÇAMA NAMUROVE**
JÚLIO ACÁCIO ANTÓNIO PACHECO***
EDSON VICENTE DA SILVA****

INTRODUÇÃO
O conhecimento da dinâmica do uso e cobertura do solo é cada vez mais
importante para a compreensão do espaço, possibilitando inferir tendências de
cenários futuros (BRANNSTROM et al. 2008 apud SARTORI et al. 2013). As ativida-
des produtivas antrópicas têm interferido nos sistemas ambientais, geralmente
desconsiderando as sua capacidades de suporte e resiliência. Dessa forma, elas
são fontes geradoras e potencializadoras de impactos nocivos às diversas for-
mas de vida e ao próprio bem-estar dos humanos.
A análise do uso e cobertura do solo representa uma das respostas para a
crescente preocupação causada pela massiva extração, exploração e consumo
dos recursos naturais, assim como pelas variadas formas de poluição e impactos
socioambientais resultantes das interações dos humanos com o meio ambiente,
permitindo o controle sobre as fragilidades e previsão de ameaças.
O presente texto se propôe a analisar a dinâmica do uso e cobertura do solo
no município de Chimoio, Moçambique, destacando os impactos relacionados
com a supressão da vegetação natural, e a sua correlação com o comportamento
térmico e pluviométrico local. Para tanto, foram utilizados dados multitemporais
de imagens orbitais dos sensores dos satélites LANDSAT, nos anos 2003, 2008
e 2014. Foi necessário mapear os usos e a cobertura do solo para os anos em
questão; quantificar as classes de uso e cobertura do solo predominantes; ana-
lisar a sua dinâmica e a sua relação com o comportamento da temperatura e a

*
Universidade de Brasília - UNB [gudoarmando@gmail.com]
**
Universidade Zambeze - UNIZAMBEZE [jpachecobuzi@yahoo.com.br]
***
Universidade Zambeze - UNIZAMBEZE [jpachecobuzi@yahoo.com.br]
****
Universidade Federal do Ceará - UFC [cacauceara@gmail.com]
232 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

precipitação locais. Adicionalmente, foi proposto um plano de uso e ocupação


do solo para o município.
A análise multitemporal permitiu a atualização e o monitoramento do uso
e cobertura do solo, por meio do mapeamento temático, ao mesmo tempo em
que serviu de subsídio para a formulação de uma proposta de uso e ocupação
capaz de orientar medidas mitigadoras com o intuito de minimizar os impactos
ambientais decorrentes das práticas agropecuárias e da ampliação do núcleo
urbano de Chimoio.

MATERIAIS E MÉTODOS
CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DE ESTUDO

A República de Moçambique está localizada no sudeste do continente afri-


cano. Tem como limites: a leste, o Oceano Índico; ao norte, Tanzânia, Malawi e
Zâmbia; a oeste, Zimbabwe e África do Sul; e ao sul, a Swazilândia. O município de
Chimoio situa-se na zona central de Moçambique, entre as longitudes 33º27´32" a
33º27´35" de Leste a Oeste e latitudes 19º04´93" a 19º04´99" de Norte a Sul. Ca-
pital da Província de Manica, tem uma área de 174 km2, com os seguintes limites
geográficos: ao norte, posto administrativo de Matsinho; ao sul, posto administra-
tivo de Zembe; a Leste, posto administrativo de Cafumpe; a oeste, posto adminis-
trativo de Matsinho; e a sudeste o distrito de Macate (ver Mapa 1).
Chimoio se situa numa região de clima tropical úmido modificado pela alti-
tude, com precipitação média anual de 922,3 mm, medida no período de 1998
a 2007. A maior concentração de chuvas ocorre entre os meses de outubro e
março (INAM 2009).
A área de estudo, o Planalto de Chimoio, situa-se a uma altitude de cerca
de706 metros; as áreas ao seu redor comportam altitudes entre 500 a 1.000 me-
tros. A estrutura geológica da região é formada por rochas metamórficas primá-
rias do paleozóico e do pre-cambriano. O relevo é ondulado, sendo atravessado
por alguns riachos que drenam suas águas nos rios Púngue e Revué. Os solos
predominantes são argilosos vermelhos profundos, de fertilidade média e com
baixa susceptibilidade à erosão, com a presença de materiais feralíticos verme-
lhos acastanhados (MAE 2005).
A vegetação nativa predominante no município de Chimoio é do tipo Flo-
resta de Miombo semi-decíduo de pluviosidade moderada, onde a floresta de
Brachystegia Spiciformos se mistura com florestas semi-decíduas de Pteleopsis,
Erythrophleum e Newtonia. Este tipo de floresta oferece, potencialidades de ex-
ploração de material de construção, carvão vegetal e lenha, alguma extração de
madeiras valiosas e a possibilidade de desenvolvimento de apicultura.
PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
233
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

Mapa 1. Enquadramento Geográfico do Município de Chimoio - Moçambique

Fonte: Autores, 2017

As espécies de fauna mais comuns na região são imbabala (Tragelaphus


scriptus), elande (Taurotragus oryx), palapala (Hippotragus niger), cabrito sal-
tador (Oreotragus oreotragus), cabrito cinzento (Sylvicarpa grimmia) e cabrito
azul (Philantomba monticola). Changus (Redunca arundinum) ocorrem nas zo-
nas ribeirinhas e búfalos (Syncerus caffer) habitam as florestas nas encostas das
montanhas. Foram registadas mais de 160 de espécies de aves, das quais algu-
mas consideradas endêmicas, 35 espécies de anfíbios e 60 répteis que incluem
crocodilos que ocorrem em todas as zonas ribeirinhas (Estratégia de Desenvolvi-
mento da Cidade de Chimoio, 2008).
De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), o município de Chi-
moio tinha em 1997 um total de 171.056 habitantes, o que corresponde a uma
densidade populacional de cerca de 983 hab/km2. Em 2007, a população subiu
para 237.497 habitantes, elevando a densidade para 1.364 hab/km2. Quando
comparado com o resultado do Censo de 1997 (171.056 habitantes), Chimoio re-
gistrou, até 2007, um crescimento populacional de 40% e uma média anual de
crescimento de 4.0%.
234 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

PROCESSAMENTO DE IMAGENS DIGITAIS

Para o levantamento do uso e cobertura do solo no município de Chimoio


foram adquiridas gratuitamente três imagens, sendo as primeiras duas do
satélite LANDSAT-5 da órbita/ponto 168/73, bandas 3,4 e 5,0 do sensor TM
(ThematicMapper), dos anos 2003 e 2008, disponíveis na plataforma GLO-
VIS NASA (http://glovis.usgs.gov/). A terceira imagem, a de 2014 corresponde
ao satélite LANDSAT 8, sensor operacional Terra Imager (OLI), órbita/ponto
168/73, obtida no site EARTH EXPLORER (2013). A resolução espacial é de 30
metros. A composição colorida RGB das bandas 6-5-4 corresponde à etapa
de processamento das imagens realizada por meio da classificação super-
visionada pelo algoritmo da “máxima verossimilhança”, na qual definiu-se
as seguintes classes de cobertura vegetal e uso do solo: áreas habitacio-
nais; áreas com cobertura vegetal; áreas de agricultura itinerante; corpos de
água; e solo exposto.
Para detectar mudanças dentro do recorte temporal e espacial do uso e
cobertura do solo, utilizou-se a metodologia de pós-classificação. Ela se baseia
na detecção de mudanças por meio do cruzamento dos resultados obtidos
mediante classificação realizada sobre as imagens originais. Mais especifica-
mente, foram cruzados resultados da classificação do uso e cobertura do solo
dos anos 2003/2008 e 2008/2014. Os dados meteorológicos foram coletados
na Delegação Provincial de Manica do Instituto Nacional de Meteorologia de
Moçambique.
Para formular a proposta de uso e ocupação do solo, levou-se em conside-
ração o plano de estrutura do município de Chimoio. A proposta inclui ações
de parcelamento adequadas aos elementos estruturadores do território, como
relevo, drenagem, presença de vegetação, assim como os usos e ocupação
atuais.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
DINÂMICA DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO

Os valores referentes à quantificação das classes áreas habitacionais, áreas


com cobertura, áreas com agricultura itinerante, corpos de água e solo exposto
no município de Chimoio podem ser observados na Tabela 1 e no Gráfico 1, a
seguir:
PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
235
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

Tabela 1. Distribuição das áreas e percentagens por classe de uso e cobertura do solo,
2003, 2008 e 2014, no município Chimoio, Moçambique

Classes 2003 2008 2014


área (km2) % área (km2) % área (km2) %
áreas habitacionais 24.917 14,3 30.437 17,5 59.454 34,1
áreas com cobertura vegetal 93,39 53,6 73,11 42 67,83 38,9
áreas com agricultura itinerante 39,62 22,7 53,66 30,8 21.513 12,3
corpos de água 15.512 8,9 2.278 1,3 1.355 0,8
solo exposto 0,8026 0,5 14.762 8,5 24.051 13,8
total 174 100 174 100 174 100

Fonte: Autores, 2017.

Gráfico 1. Evolução de Uso e Cobertura do Solo no Município de Chimoio 2003, 2008 e 2014

Fonte: Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique, INAM (2017)

De acordo com os dados da Tabela 1, em 2003 a área com cobertura vege-


tal ocupava a maior porção do território estudado, com cerca de 93.390 km2,
equivalente a 53,6% da área total do município. Era a classe predominante. A
agricultura itinerante ocupava uma área de 39.620 km2, 22,7% da área total do
município. A área habitacional ocupava uma área também considerável, locali-
zada apenas na parte central do território municipal – cerca de 24.917 km2. Por
último, as classes corpo de água e solo exposto ocupavam pequenas porções,
com 15.512 km2 e 0,8026km2, equivalentes a 8,9% e 0,5%, respectivamente
A área da classe de corpo de água decresceu para 2.278km2 em 2008. A
diminuição da área ocupada pelo corpo de água está em parte associada às
construções desordenadas em zonas de mata ciliar que deveriam ser de pre-
servação. O solo exposto, por sua vez, cresceu significativamente, devido ao
desmatamento de áreas com cobertura vegetal, como pode ser verificado pelos
mapas temáticos (Figuras 1a, 1b e 1c)
236 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 1a. Uso e cobertura da terra - Município de Chimoio, Moçambique, 2003

Fonte: CENARTA
sistema de coordenadas UTM_Zona 36S
Datum_WGS_1984
Escala 1:100000

Fonte: Elaborado pelos Autores, 2017

Figura 1b. Uso e cobertura da terra - Município de Chimoio, Moçambique, 2008

Fonte: CENARTA
sistema de coordenadas UTM_Zona 36S
Datum_WGS_1984
Escala 1:100000

Fonte: Elaborado pelos Autores, 2017

Figura 1c. Uso e cobertura da terra - Município de Chimoio, Moçambique, 2014

Fonte: CENARTA
sistema de coordenadas UTM_Zona 36S
Datum_WGS_1984
Escala 1:100000

Fonte: Elaborado pelos Autores, 2017


PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
237
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

Em 2014 a área com cobertura vegetal sofreu redução de cerca 11,66% em


relação a 2003. Esta redução foi devida à abertura de novas áreas habitacionais
em campos agrícolas ou em áreas de cobertura vegetal. A área habitacional cres-
ceu 3.2% relativamente a 2014, distribuindo-se atualmente um pouco por toda a
região municipal.
A área ocupada pela agricultura itinerante sofreu uma redução significati-
va, pois passou dos 39.620km2 (22.7%) em 2003 para 21.513km2(12.3%) em
2014. A redução da área agrícola na zona urbana está associada ao desen-
volvimento econômico registado no período de desestabilização pós-guerra
ocorrido em Moçambique (1976-1992). A reativação da economia num pais
independente, pós colonização, criou condições de êxodo rural em que par-
te significativa da população ativa migrou para cidades a procura de melho-
res condições de vida.
O desenvolvimento económico permitiu o incremento e alargamento de ou-
tros setores de atividade, como indústria alimentar, bebidas, celulose, comércio
formal e informal de produtos agrícolas e industrializados, serviços públicos de
educação, saúde entre outros que passaram a absorver e empregar mais mão-
-de-obra local.
A dinâmica de uso e cobertura da terra, no período de 2003 a 2014, levou à
redução significativa da vegetação primária, eliminada para dar lugar à ampliação
das zonas agrícolas e do núcleo urbano do município de Chimoio. Estas perdas
foram maiores em 2008, por causa do crescimento das áreas de cultivo agrícola.
Em 2014, verifica-se um avanço da área habitacional sobre a agrícola e a
de vegetação. Esta última mostrou, neste período, algum sinal de regeneração,
sobretudo nas áreas anteriormente ocupadas pelos cultivos. Mas, são evidentes
as tendências de crescente adensamento habitacional. É um fator preocupante,
não apenas pela supressão da vegetação, mas sobretudo em função da ausência
de ações efetivas de planejamento e gestão do ambiente urbano. Essa ausência
tem agravado em muito a qualidade de vida da população local.

ANÁLISE DA VARIAÇÃO DA TEMPERATURA E PRECIPITAÇÃO 2003-


-2014

De acordo com a síntese das informações apresentadas no Gráfico 2, a pre-


cipitação acumulada em Chimoio em 2003 foi de 672,1 mm, tendo evoluído nos
anos seguintes e atingido o pico em 2013, com cerca de 1.144,1 mm. Entre 2013
e 2016 as precipitações anuais decresceram, atingindo o mínimo de 672,1 mm
em 2015. No que concerne à temperatura média anual, no período em análise,
ela variou entre 19,5 ºC e 22,5 ºC – 2010 foi o ano mais quente e 2013 foi o ano
mais fresco.
238 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Sabendo-se que uma das funções das formações vegetais é absorver parte
da energia solar que incide sobre a superfície terrestre, áreas mais abertas, com
menor presença de vegetação, tendem a absorver mais calor, provocando o au-
mento das temperaturas. Porém a cidade não registrou oscilação significativa
das suas temperaturas médias anuais.
Localmente, houve uma redução da área ocupada pela vegetação florestal,
de 53,6% em 2003 para 38,9% em 2014. No mesmo período houve incremento
da área habitacional, que passou de 14,3% em 2003 para 34,1% em 2014, como
ilustrado pelo Gráfico 2 – os indicadores da temperatura média anual e preci-
pitação anual acumulada não registaram a mesma tendência comportamental.

Gráfico 2. Precipitação e Temperatura média anual (2003-2016) - Município de Chimoio

Fonte: Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique, INAM (2017)

A manutenção da precipitação e das temperaturas locais pode ser explicada


pelo fato de a cidade estar em um local elevado, cerca de 1000m de altitude (cli-
ma tropical modificado por altitude). Recebe, assim, com facilidade, massas de ar
carregadas de umidade provinda do Oceano Índico, que dista cerca de 180 km.
Embora haja a necessidade de um estudo de maior detalhe sobre a varia-
ção térmica local em um intervalo temporal mais longo, é aceitável afirmar
que a substituição da cobertura vegetal pela implementação das infraestru-
turas habitacionais urbanas e a compactação do solo têm contribuído signi-
ficativamente para a depreciação do conforto térmico local. Este cenário de
degradação florestal se vincula, também, ao aumento da vulnerabilidade so-
cioambiental aos riscos, tanto ligados à movimentos de massa, como de alaga-
mento, inundação e erosão do solo. Os núcleos de ocupação espontânea estão
presentes e cada vez mais visíveis na cidade de Chimoio, sendo um indicador
da fragilidade no sistema de gestão territorial urbano nacional, em especial do
município de Chimoio.
PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
239
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

Dados disponíveis relativos ao comportamento da temperatura e precipita-


ção no período 2003-2014 apontam a manutenção da variação da precipitação
acumulada e das médias anuais de temperatura, porém, não se assegura a ma-
nutenção do conforto térmico no que diz respeito à umidade atmosférica, am-
plitudes térmicas e poluição local do ar. Há registro do incremento de ações de
inundação e erosão dos solos.

PROPOSTA DE USO E OCUPAÇÃO DO SOLO PARA O MUNI-


CÍPIO DE CHIMOIO
A nossa proposta de uso e ocupação do solo leva em consideração o Plano
de Estrutura do Município de Chimoio, que enquadra ações de parcelamento
adequadas aos elementos estruturadores do território e ao plano diretor da ci-
dade. Eis os elementos considerados por nós:

(I) as áreas verdes, principalmente aquelas de cobertura vegetal arbórea;


(II) as características geotécnicas e a topografia do terreno;
(III) as nascentes e os cursos d'água;
(IV) a conservação das condições hidrológicas originais das bacias e as alter-
nativas de amortecimento da vazão pluvial;
(V) a adequação do traçado urbanístico proposto para o sistema de circulação.

As áreas propostas incluem:


• áreas habitacionais, ocupadas por habitações e infraestruturas sociais, tais
como mercado, hospital, serviços e outros. A escolha destas áreas se deve ao
fato de existirem habitações, áreas parceladas destinadas para fins urbanos
e de edificação e ocupação industrial e comercial;
• área de expansão urbana, destinadas a novas edificações e infraestrutu-
ras sociais, comércio e outras atividades socioeconômicas. A escolha destas
áreas se deve fundamentalmente ao fato de se encontrarem desocupadas e
de terem uma topografia e/ou disposição do relevo adequada para implan-
tação de edifícios;
• áreas verdes: destinadas à preservação vegetacional e da biodiversidade,
porque têm potencial vegetacional e animal, de fácil recuperação;
• áreas agrícolas: destinadas à produção agropecuária;
• área atualmente ocupada pelo centro urbano.

Todas as áreas determinadas no resultado deste trabalho devem ser con-


sideradas mutáveis, passíveis de uma nova adequação. Trata-se de propostas,
indicações iniciais, que podem e devem ser reavaliadas, tanto para a criação de
240 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

novas áreas e/ou a mudança de limites das áreas estabelecidas. Podem ocorrer
ainda a adoção de outros critérios de avaliação e a incorporação de novas infor-
mações que levem à reavaliação das áreas e ao aprofundamento do trabalho.
A presente proposta, Mapa 2, busca servir como base para o início de uma
discussão no município, cuja população deve repensar o seu espaço geográfico
e a forma como o tem ocupado e utilizado. Deve repensar também a adoção de
uma politica de ordenamento territorial consistente, que respeite as particulari-
dades fisicas naturais do município.

Mapa 2: Proposta de Uso e Ocupação do Solo no Município de Chimoio, Moçambique

Fonte: Autores, 2017.

Diante da expansão do núcleo urbano de Chimoio, o ordenamento territorial


é necessário para corrigir e reverter os problemas oriundos da ocupação es-
pontânea e da precariedade do sistema de saneamento básico local, evitando
prejuízos à saúde da população e desequilíbrios nos ecossistemas. Medidas de
readequação dos equipamentos no seu interior, por meio da implementação de
um zoneamento funcional, são cada vez mais urgentes, se tomarmos como base
a tendência do cenário ambiental urbano municipal.
Ao sugerir a presente proposta de zoneamento funcional do município de
Chimoio sinaliza-se a estruturação de um Município sustentável e a maximização
do aproveitamento das aptidões de uso e preservação, bem como uma melhor
orientação das futuras atividades. Foi importante, para a sua concepção e de-
senho, o conhecimento dos dados do inventário socioeconómico, das formas
atuais de aproveitamento dos recursos naturais, do uso e da ocupação predo-
minantes, e da demanda dos setores produtivos.
PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
241
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

CONCLUSÕES
Este trabalho analisou os dados espectrais obtidos pelos sistemas sensores TM
e OLI dos LANDSAT 5 e 8, para fazer a análise multitemporal do uso e ocupação do
solo no município de Chimoio em 2003, 2008 e 2014. Os resultados embasam
as seguintes conclusões.
O uso de dados de sensoriamento remoto e de técnicas de geoprocessa-
mento é ferramenta muito útil para monitorar mudanças no uso e ocupação de
solo. Os dados do LANDSAT/TM e do OLI mostraram-se eficientes para obter
mapas de uso e ocupação de solo por meio de processos de interpretação
visual, possibilitando a classificação das imagens. A metodologia utilizada foi
a classificação supervisionada pelo método de max ver (distância mínima de
verossimilhança).
Com base na classificação, obteve-se o mapeamento temático que permitiu
a identificação, a quantificação e a medição da variação dos principais usos e
ocupação do solo em 2003, 2008 e 2014. Os principais usos e ocupações do solo
foram agrupados em área habitacional, área com cobertura vegetal, agricultura,
corpo de água e solo exposto. Destas áreas, as de cobertura vegetal e habitacio-
nal foram aquelas que revelaram a maior dinâmica. Houve incremento da área
habitacional, que passou de 14,3% em 2003 para 34,1% em 2014 e redução da
área com cobertura vegetal de 53,6% em 2003 para 38,9% em 2014.
No geral houve crescimento das áreas de solo exposto e das áreas ocupadas
por habitações, o quase desaparecimento dos pequenos corpos de água que
atravessavam a cidade, e a redução das áreas ocupadas por vegetação nativa e
atividades agrícolas. O término do conflito militar (guerra civil, 1976-1992), o cres-
cimento populacional, e o desenvolvimento econômico e social são as possíveis
explicações para a variação do uso e ocupação do solo registrado no período
em questão.
A temperatura e a precipitação entre os anos 2003 e 2016 continuaram está-
veis. Isso pode ser explicado pelo fato de a cidade estar em um local elevado, a
cerca de 1000m de altitude (clima tropical modificado por altitude), pela dispo-
sição do relevo em forma de escadaria orientada no sentido leste-oeste, e pela
relativa proximidade com o Oceano Índico.
Diante dos resultados alcançados pelo estudo que analisou a dinâmica do
uso e cobertura do solo no município de Chimoio e a sua relação com temperatu-
ra e precipitação, mediante manuseamento de dados multitemporais de imagem
satélite e quantificação das classes, constatou-se que a progressiva expansão
de áreas habitacionais e de solo exposto, bem como a drástica redução de áreas
ocupadas por vegetação foram determinadas pelo uso e ocupação desordena-
dos e pela falta de panejamento.
242 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

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PROPOSTA DE USO E COBERTURA DO SOLO PARA O MUNICÍPIO DE CHIMOIO (MOÇAMBIQUE)
243
Gudo Bai Armando Maidjelele; Manuel Aguiar Muraçama Namurove; Júlio Acácio António Pacheco; Edson Vicente da Silva

RESUMO
O conhecimento da dinâmica do uso e cobertura do solo é cada vez mais importante
para a compreensão do espaço, do planejamento e da gestão dos recursos naturais,
contribuindo para a preservação e sustentabilidade ambiental. O presente trabalho
foi desenvolvido na cidade de Chimoio, com uma área de 174 km2, localizada na
província de Manica, zona central de Moçambique. Focalizou a dinâmica de uso e co-
bertura do solo em Chimoio, utilizando dados multitemporais de imagem LANDSAT,
entre os anos de 2003 e 2014. A partir das imagens orbitais mapeou-se e quantificou-
-se as classes dos usos e cobertura do solo predominantes, o que permitiu detectar
as mudanças de uso e cobertura que ocorreram no período. Com base nas mesmas
imagens referentes aos anos 2003, 2008 e 2014, foi materializada a classificação
supervisionada, auxiliada de algoritmo Max Ver, o que permitiu gerar mapas de uso
e cobertura do solo. Os usos e a ocupação foram agrupados em áreas habitacionais,
áreas com cobertura vegetal, agricultura itinerante, corpos de água e solos expos-
tos. Foram analisadas ainda as variações da temperatura e precipitação no mesmo
período. A detecção das mudanças do uso e cobertura do solo foi obtida por meio
de análise pós-classificação das imagens. Os resultados obtidos demonstraram for-
tes tendências de crescimento de áreas habitacionais e de redução de área com
cobertura vegetal, ambos motivados pelo crescmento populacional e das atividades
produtivas. Ficaram caracterizados o uso e a ocupação desordenados do solo urba-
no. Contudo, o comportamento da temperatura e a precipitação continuaram seguin-
do os seus ciclos normais. Diante desses resultados, apresenta-se uma proposta de
planejamento urbano de uso e ocupação de solo baseada nas características físicas
naturais e nas potencialidades socioeconômicas, como resposta eficaz e necessária
aos impactos ambientais causados pelos usos inadequados dos solos.

PALAVRAS-CHAVE
Sensoriamento remoto; uso e cobertura do solo; temperatura; precipitação; municí-
pio de Chimoio.

ABSTRACT
The knowledge of the dynamics of the use and land covering is increasingly very im-
portant for the understanding of space, planning and natural resources management,
contributing to environmental and sustainability preservation, enabling thus, infer
trends of future scenarios. The present work entitled Proposal of the Use and land
Covering in Chimoio Municipality was developed in Chimoio town comprising a land
area of 174 km2, located in Manica province, a central area of Mozambique. This work
focused on analysis of the dynamics of the use and land covering in Chimoio Muni-
cipality using multi-temporal data of LANDSAT image, between the years 2003 and
2014, specifically, from satellite images the classes of both land use and covering of
predominant land were mapped and quantified, having enabled the detection of the
244 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

changes of the land use and covering that occurred during this period. Still based on
LANDSAT satellite images concerning the years 2003, 2008 and 2014, the supervised
classification aided by algorithm Max Ver was materialized, having been generated
maps of the use and land covering in the periods in the analysis. The uses and occu-
pation were grouped in residential areas, areas with vegetation covering, itinerant
farming, body water, and exposed soil. The detection of changes of the use and land
covering during this time was obtained through post-classification of image analysis.
The obtained results show a high trend of residential areas growth and reduction of
areas with vegetation covering fostered by the increase in the number of inhabitants
and population growth, socioeconomic activities as well as the use and disorderly
occupation of urban land. However, with regard to the obtained results, a proposal of
urban planning of the use and land occupation based mainly on physical and natural
characteristics and socioeconomic potentialities as the effective and necessary res-
ponse to environmental impacts caused by the inadequate use of land is presented.

KEY WORDS
Remote Sensing. Use and Land Cover. Temperature and Precipitation. Municipality
of Chimoio.
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPUL-
SÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO:
UM OLHAR SOBRE AS COMUNIDADES ATINGIDAS
PELA VALE E RIVERSDALE EM MOATIZE
(MOÇAMBIQUE)

EDUARDO JAIME BATA*


CELENE CUNHA M. ANTUNES BARREIRA**

[...] nós não queremos mudar-nos, mas a empresa está a forçar-nos a


mudar. Vocês têm que ir […]. Este é o meu lugar. Eu nasci aqui. Dói-me
muito deixar o lugar onde eu nasci e ir morrer noutro lugar…

[Ex-residente de Chipanga, entrevistada pela HUMAN RIGTHS WACTH,


2013, grifo nosso].

INTRODUÇÃO
A exploração da natureza e de seus elementos (florestas; minerais metálicos
e não metálicos, água, solo, entre outros) vive um período inusitado desde as
últimas décadas do século XX e, precisamente, nas primeiras do século XXI. Esse
processo emanado dos países capitalistas "centrais" e comandado, atualmente,
por grandes corporações transnacionais que atuam com aval do Estado em múl-
tiplas escalas, conforme assinalam Marx (1977), Harvey (2004) e Mészáros (2011),
são responsáveis pelos arranjos em curso, um pouco por todo o mundo.
Na lista desses arranjos e, visando permitir a expansão do capital, destaca-se,
principalmente, a construção de infraestruturas de grande peso socioambiental,
tais como: barragens, ferrovias, plantas de mineração, terminais ferro-portuário
que constituem o capital fixo para a produção, resultando, frequentemente, no
deslocamento compulsório da população para áreas, até então, não "incorpora-
das" ao circuito produtivo capitalista.

*
Universidade Pedagógica - Delegação de Nampula [eduardobata1983@gmail.com]
**
Universidade Federal de Góias [celenemonteiro05@gmail.com]
246 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Sabe-se, no entanto, que tal infraestrutura, de natureza exterior e estranha


ao local, não visa atender às necessidades da população local conforme tem sido
a praxe discursiva do governo e das transnacionais; ela insere-se numa lógica
expansionista do capital e, corresponde a uma das estratégias para absorver o
capital excedente produzido em outras regiões e/ou contextos do histórico pro-
cesso de acumulação. De fato, conforme Martins (1993), a infraestrutura permite
ao Estado e as transnacionais exercerem o controle político e sócio-territorial das
comunidades. E um dos aspectos mais salientes desse processo é, segundo Silva
(2007), a transformação dos gestos, dos sonhos e das utopias dos grupos sociais
atingidos por pelos empreendimentos.
Portanto, na chamada época de ordenação espaço-temporal marcado, so-
bretudo pela expansão geográfica e reorganização espacial (HARVEY 2004), um
número significativo de regiões em nível do globo foram, e continuam sendo
incorporadas ao circuito de produção capitalista. Por outro lado, inúmeros seto-
res de atividades sofreram profundas transformações com vista a rentabilizar o
capital excedente. É no interior dessa reordenação que o setor da mineração e
produção mineral, por exemplo, experimentou um considerável crescimento nas
últimas décadas, sobretudo, desde os anos 2000.
De fato, para que se tenha uma ideia sobre esse aumento, no período entre
2007 a 2017, por exemplo, a produção do aço bruto (metal de grande impor-
tância econômica – presente, tanto na construção civil, na indústria, quanto no
setor automobilístico) em nível mundial passou de 1.350 milhões de toneladas
para 1.689 milhões de toneladas o que representa um aumento de aproxima-
damente 340 mil toneladas em uma década. Dados desagregados demonstram
que a China (42.75%), a União Europeia (12.8%) e outros países da Ásia (12.2%) se
destacam na produção do aço bruto, bem como no seu consumo (WORLD STEEL
ASSOCIATION 2018).
Acompanhando essa tendência, a produção e o consumo do carvão mineral
(mineral associado ao processo de produção do ferro e do aço) também conhe-
ceram avanços consideráveis. Com efeito, no período entre 1980 e 2014, o uso
do carvão mineral em nível mundial cresceu de 69.90 quadrilhões de Btu (British
Thermal Unit; 1 Btu <–> 252 calorias) para 90 quadrilhões de Btu em 1990. De
2001 a 2014 o consumo de carvão mineral manteve a tendência crescente, au-
mentando dos 97.80 quadrilhões de Btu para 160.26 quadrilhões (BATA 2018).
Foram decisivos para esse crescimento, além de aspectos geopolíticos que
ditaram a flutuação do preço do petróleo; a ascensão econômica e o aumen-
to da demanda por commodities, principalmente, por parte de algumas eco-
nomias ditas “emergentes” (Brasil, a China, a Índia e outros); a fusão entre
empresas nacionais e estrangeiras, os incentivos fiscais e, sobretudo a dis-
ponibilidade da força de trabalho, grosso modo, localizada nos países pobres
(GEAL 2011). Fora a esses aspectos, Moyo (2013) aponta, no geral, o aumento
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
247
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

do progresso econômico pelo mundo todo e a riqueza global daí decorrente,


como sendo elementos bastantes para compreender a estratégia chinesa para
assegurar o acesso e/ou controle dos recursos globais que inclui não só água,
terra arável, mas também energia e recursos minerais, ou seja, o complexo de
commodities.
Dito isso, propomo-nos neste artigo analisar as transformações espaciais
ocorridas em Moatize, com o início da extração do carvão mineral, buscando
compreender como essas modificações afetaram a estrutura social e a identida-
de da população atingida. Para tanto, realizou-se a pesquisa bibliográfica, docu-
mental e o trabalho de campo em Moatize, no período entre 2015 e 2016.
Do ponto de vista teórico, a análise privilegiou a leitura integrada das catego-
rias espaço, território e lugar. Não sendo exclusivos da geografia, tais conceitos
embasam um significativo número de pesquisas na sociologia, antropologia e
psicologia. O espaço e o território, por exemplo, apesar de serem categorias dis-
tintas, ou melhor, não equivalentes, conforme Raffestin (1993); o seu caráter úni-
co dificulta uma leitura separada. O território e o espaço, diz Haesbaert (2010),
não podem (nunca devem) ser separados, pois sem espaço não há território, da
mesma forma que sem lugar não há identidade.
No artigo, o termo atingido refere-se, tanto as comunidades reassentadas em
Cateme, 25 de setembro, Mwaladzi quanto à população que permanece no bair-
ro do Bagamoyo, morrendo aos poucos devido as explosões e nuvens de poeira
emanada da mina Moatize 2, propriedade da Vale Moçambique. Faz alusão tam-
bém à comunidade de Capanga no entorno da mina da International Coal Ven-
ture Limited (ICVL) que até outubro de 2016, ainda não tinha sido reassentada,
apesar dos perigos que essa ação representa para a saúde, a integridade física
e social das comunidades.
Por último, faz referência, igualmente, as pessoas que viram o seu cotidiano
se modificar subitamente e, as formas de existência no lugar e no tempo transfor-
marem-se, em função da dinâmica instituída pelas mineradoras. Portanto, para
compreendermos as modificações em curso no Distrito de Moatize, a pesquisa
considerou os seguintes questionamentos: quais são as transformações espaciais
ocorridas em Moatize, com o início da extração e processamento do carvão mi-
neral? Como tais modificações afetam e/ou afetaram a identidade dos atingidos?

GRANDES PROJECTOS DE INVESTIMENTO (GPIS): OS ME-


GAPROJETOS DE MINERAÇÃO, ENQUANTO ATORES DO
PROCESSO DE RECONFIGURAÇÃO ESPACIAL
"Não é possível resistir ao mercado". Foi com essa expressão que Margaret Thatcher,
então, primeira-ministra da Grã-Bretanha anunciou a nova era da política econômica
248 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

mundial. Eivado pelo presságio da derrota e das inevitáveis mudanças, James Calla-
ghan adversário e antecessor de Thatcher, disse: "Existem momentos, talvez uma vez
a cada 30 anos, nos quais um mar de mudanças ocorre na política. Nesses momen-
tos, não faz diferença o que você diz ou faz".

Essas "célebres" frases pronunciadas nos finais da década de 1970, quan-


do se anunciava a década de 1980, noticiavam a tendência ideológica global
que marcou a política econômica internacional no período entre 1978 e 2008.
Tais discursos hasteavam, pois a "bandeira" da iniciativa privada, da empresa
multinacional e transnacional, do pequeno empreendedor, portanto, o ingresso
do mercado como "regente" da orquestra, na chamada era de transformação
(RACHMAN 2011).
De facto, as reformas realizadas por Thatcher e, posteriormente, copiadas
pelo mundo ocidental impulsionaram o processo de reestruturação produtiva do
capital que se tornou cada vez mais acentuado a partir de 1973. Na ordem dessa
ação, forjaram-se as bases do chamado Consenso de Washington; um extenso
documento sintetizado em dez pontos principais cujo centro está o mercado e a
privatização aparece como palavra de ordem, num autêntico esforço para "priva-
tizar o mundo" condição para a rápida mobilidade do capital.
No cerne dos ideais reformistas que marcaram o mundo no período após
a crise de 1973, estava a necessidade de reduzir o caráter assistencialista do
Estado, bem como o imperativo de descobrir maneiras lucrativas de absorver o
excedente de capital e da força de trabalho, evitando desse modo, novos surtos
de desvalorização como tal como aconteceu no início da década de 1930. Pois,
conforme destaca Harvey (2005, 78), a expansão geográfica e a reorganização
espacial criam a possibilidade de uma aplicação mais rentável do excedente de
capital, principal causa da crise. Portanto, "como a expansão geográfica envolve
investimento em infra-estruturas físicas e sociais de longa duração, a produção e
a reconfiguração das relações espaciais oferecem um forte meio de atenuar, se
não de resolver, a tendência à formação de crises no âmbito".
É certo que as manifestações de crises são tendências endêmicas do proces-
so de acumulação capitalista. Elas impõem, assim por dizer, certa racionalidade
ao mesmo tempo que garantem a manutenção e sobrevivência do sistema. Seja
como for, é preciso encontrar formas alternativas para absorver o excedente do
capital produzido em outras regiões. É necessário, não obstante, contrariar o
crônico problema da falta de investimentos, bem como as dificuldades inerentes
à diversificação espacial e organizacional do capital, pois estas conformam, no
entender de Harvey (op.cit.), a tendência básica da crise de superacumulação.
A propósito disso, Benko (1996) assinala que a crise iniciada em 1973 e que
se alastrou até a meada da década de 1980 impôs a muitas regiões, até então
prósperas, graves problemas econômicos, acompanhadas de altos índices de
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
249
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

desemprego que acarretaram a estagnação ou o seu declínio. Desde então, no-


vos atores ingressaram no "tabuleiro" da produção capitalista, notadamente: a di-
mensão tecnológica – o passaporte para exploração e a usurpação do Sul Global
e a desconcentração espacial das atividades produtivas, fundamento da nova di-
visão espacial e internacional de trabalho introduzida pela empresa multinacional.
Portanto, a nova divisão internacional do trabalho, também designada divisão
transnacional do trabalho e da produção, por um lado, consolidou a posição de
alguns países, sobretudo, do Sul Global como fornecedores de produtos primá-
rios e, por outro lado, esse processo envolve, concomitantemente, a distribuição
das empresas, corporações e conglomerados por todo o mundo (IANNI 2004).
Em função dessa nova lógica produtiva do capital, há conforme lembra Galeano
(1978), "dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países
especializam-se em ganhar, e outro em que se especializam em perder". E, esse
último lado parece ter sido o que coube ao Sul Global e a África particularmente.
Em seu novo "formato" representado pelas mega corporações transnacio-
nais, o capitalismo expropriador e violento busca criar e recriar o seu próprio
mapa, a partir de uma lógica utilitarista, o que valida à assertiva de que vivemos
numa sociedade mercantilista, na qual tudo se compra e tudo se pode vender
(BAUMAN 2008). Assim, valendo-se do discurso, o Estado e as transnacionais
unem esforços para construir a ilusão sobre o desenvolvimento induzido pelos
grandes projectos de investimentos. Tais diligências são, no dizer de Silva (2007,
19), "a garantia de execução do mesmo, ao tempo em que financia a destruição
das condições existentes nos locais escolhidos para a implementação das obras".
Considerados "promotores do desenvolvimento", os grandes projetos de
investimento variam, substancialmente, de sua natureza e finalidade. Apesar
dessas especificidades, Vainer e Araújo (1992, 34) entendem que são, no geral,
empreendimentos que consolidam "o processo de apropriação de recursos natu-
rais e humanos em determinados pontos do território, sob a lógica estritamente
econômica, respondendo a decisões e definições configuradas em espaços rela-
cionais exógenos aos das populações das proximidades dos empreendimentos".
Martins (1993, 62), por sua vez, explica que os grandes projectos de inves-
timentos "são obras de grande impacto social e ambiental, mas que não tem
por destinatários as populações locais. Seu pressuposto é o da remoção dessas
populações em algumas vezes, o pressuposto inconfessado e inconfessável é
o aniquilamento das populações que possam representar algum estorvo para a
implementação dos grandes projetos".
Com efeito, o termo grandes projetos de investimentos é utilizado para carac-
terizar projetos que mobilizam em grandes dimensões elementos como o capital,
a força de trabalho, recursos naturais, energia, território e tendem, principal-
mente, a formar enclaves territoriais – econômicos, sociais, políticos, culturais,
ecológicos e a fragmentação territorial. (VAINER 2007). É nesse último aspecto
250 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

que reside o foco desse artigo, isto é, analisar como as mudanças em curso em
Moatize afetam e/ou afetaram, sobretudo, a identidade da população atingida
por esses empreendimentos.
Portanto, com o pretexto da modernização do território, atravessam-se co-
munidades, aniquilam-se sociedades inteiras, destroem-se as condições mate-
riais de vida: solo, subsolo, minerais, água, ar, entre outras, tudo isso, visando
imprimir o "progresso". Sabe-se, no entanto, que esses projectos nada têm de
modernização, mas antes de tudo, "objetivos que não são os de desenvolver o
lugar, tampouco modernizar as pessoas (SILVA 2007, 19)".
De natureza diversa e objetivos inversos aos da população nas suas proxi-
midades, os grandes projetos de investimentos recebem distintas designações
em vários países. Em Moçambique, por exemplo, os grandes projetos de investi-
mentos são denominados megaprojetos. Tal qualificação segue a nomenclatura
utilizada em países como a Inglaterra e outros de expressão inglesa.
Castel-Branco (economista e um dos principais pesquisadores da temática
megaprojetos) toma em consideração alguns aspectos para definir os grandes
projectos de investimento. Com efeito, além da quantia inicial de investimento
(acima de US$ 500 milhões), o autor considera, igualmente, o impacto dessas
actividades na produção, no comércio e na economia do país. Por isso, os me-
gaprojetos destacam-se dentre outras actividades pelo facto de serem: inten-
sivos em capital, sem, no entanto, gerar emprego direto proporcional ao peso
no investimento, produção e comércio; concentram-se em actividades mineiras
e energéticas, com ênfase para o gás e carvão mineral; são estruturantes das
dinâmicas de acumulação e reprodução econômica (CASTEL-BRANCO 2008).
Debruçando-se sobre os megaprojetos em Moçambique, Xiong (2014) assina-
la que são projetos de grandes dimensões financiadas por investimento estran-
geiro; centram-se na apropriação dos recursos naturais; são intensivos em capi-
tal, porém, não geram emprego proporcional ao capital investido; a produção é
destinada à exportação e, por vezes, investem em infraestruturas destinadas a
fins específicos que não servem ao público em geral.
Nos conceitos que apresentamos, salta à vista os seguintes aspectos: os me-
gaprojetos são empreendimentos cujas atividades estão voltadas, preferencial-
mente, para o setor mineral e energético e são intensivos em capital. O primeiro
aspecto ilustra muito bem a posição subordinada de Moçambique, enquanto for-
necedor de commodities de origem mineral, com baixo grau de processamento
e/ou do valor agregado, bem como a tendência extrativista da economia mo-
çambicana. Portanto, há, de acordo com Castel-Branco (2010), fortes sinais de a
economia nacional se tornar uma economia de base extrativa.
O segundo aspecto e, o mais importante para a nossa discussão, reflete a pu-
jança e, principalmente, a natureza excludente e exclusivista dos megaprojetos,
já que a participação nesse setor exige elevadas somas de capital, incluindo
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
251
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

o dinheiro. De posse desses elementos, podemos, desde já, afastar a ideia da


participação ativa das comunidades locais, senão como efêmeros vendedores
da força de trabalho, pra quem pretensamente se destinam os projetos de (de-
senvolvimento) modernização do território.
Na verdade, nesse intricado processo que tem o desenvolvimento como a
mercadoria a ser vendida, as comunidades locais têm poucas ou nenhuma es-
colha. Ou participam, marginalmente, ou ficam de fora. Seja qual for à escolha
feita, os efeitos desses empreendimentos sobre a estrutura social e territorial é
arrasador, conforme explica Silva (2007, 19, grifos nossos) que

Negar o processo e ficar fora dele é uma opção, mas quem o fizer expõe-se ao peri-
go, pois o simples fato de se negar a trabalhar para o capital pode tornar o individuo
marginal, fora da sociedade. Gradativamente somos incorporados ao processo de
modernização. E percebemos isto cotidianamente desde os mais simples gestos aos
mais sofisticados.

De volta à caracterização dos megaprojetos, pode-se, a partir de suas carac-


terísticas fundamentais concluir-se que eles, à semelhança de outros grandes
projetos de investimentos, constituem, sim, grandes projetos de investimentos.
Assim como outros GPIs, os megaprojetos também não se destinam à população
local, nem a produção de alimentos, tampouco ao desenvolvimento local. Seu
pressuposto básico é, de acordo com Antonaz (1995), a modificação da realidade
territorial, alterando, por conseguinte, as formas de existência e as referências
sobre o (s) lugar (es).
Giometti, Pitton e Ortigoza (s/a, 35), lembram que o lugar se difere do espa-
ço, pois o primeiro "é resultado de significados construídos pela experiência, ou
seja, trata-se de referenciais afetivos desenvolvidos ao longo de nossas vidas".
Portanto, apesar de seu adensamento na atualidade (figura 1), em Moçambique,
a inserção do capital estrangeiro na forma de investimento ocorreu, inicialmen-
te, durante o período colonial. Naquele período, quase ⅔ do território nacional
foi adjudicado às Companhias majestáticas e arrendatários, para a produção de
culturas destinadas à exportação.
Com independência e as reformas políticas iniciadas no final da década de
1980 e que prosseguem, atualmente, abriu-se o caminho para o investimento
estrangeiro em vários setores de atividades, com ênfase para o setor extrativo
mineral e energético. Como se pode observar na figura 1, há uma relativa con-
centração dos megaprojetos nas regiões Centro e Norte do País. Mesmo sem
apresentar a totalidade dos grandes projetos (451 licenças de toda natureza, 5
contratos mineiros em vigor) em fase de produção, merece atenção, além da
mineração, a área ocupada pelo ProSavana, aproximadamente, 11 milhões de
hectares de terra (impactando diretamente 4.287.415 milhões de pessoas em 19
252 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Distritos das províncias de Nampula, Niassa e Zambézia), também destinado à


expropriação das terras camponesas para a produção de commodities (MACA-
RINGUE 2018).
Figura 1. Grandes Empreendimentos minerais em Moçambique

1
2
5

1 4

2 5

3 6
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
253
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

Portanto, foi no âmbito dessas reformas que, a partir dos anos 2000 assis-
tiu-se a entrada massiva de consórcios transnacionais atraídos pelas vantagens
competitivas, isto é, taxas bonificadas referentes ao imposto sobre a terra;
disponibilidade da força de trabalho; baixo grau de organização sindical; fraca
legislação trabalhista e ambiental e, sobretudo, as garantias de proteção aos
investimentos emitidos pelo Estado e especificadas na Lei nº 3/93, lei sobre o
investimento em Moçambique.
Como consequência disso, um conjunto de transformações de toda ordem
foi operado, especialmente, nas regiões "receptoras" dos megaprojetos. Como
se sabe, desde os instantes iniciais até a etapa de operação efetiva de um me-
gaprojeto, observa-se um movimento contínuo, dialético e conflituoso, no qual
interesses econômicos sobrepõem-se às questões sociais (SILVA e SILVA s/a). Na
senda disso, ocorrem modificações "do símbolo, algo, talvez, importante apenas
no local e sem sentido fora do seu contexto". (SILVA 2007, 19).
Considerando esses aspectos e, principalmente, as formas de atuação e de
controle capitalista, podemos dizer que a inserção dos megaprojetos em Mo-
çambique cumpre, objetivamente, as estratégias de acumulação de capital, via
extração de produtos primários, de baixo valor agregado, com destaque para
o carvão mineral. Esse processo, legitimado pelo discurso e necessidade de
modernização do território, autoriza ao Estado, ator e agente político a conces-
sionar os bens naturais, sem a mínima consideração com a autodeterminação
dos povos. Ou melhor, o governo e as grandes transnacionais "se aproveitam
dos aspectos mais sensíveis, a fome, por exemplo, para forçarem os povos a
adotarem estilos de vida com ligação efetiva ao controle geopolítico mundial.
[Sendo assim] os "rios de dinheiro" que são gastos em nome de combate à fome
e modernização, são manobras e novas estratégias de submissão dos povos"
(MACARINGUE 2018, 10, grifos do autor).

ESPAÇO, TERRITÓRIO E SEUS DESDOBRAMENTOS SOBRE


A IDENTIDADE
O estudo do espaço e do território não é recente. Não sendo atual, a preocu-
pação em compreender o espaço, entendido como a realidade na qual vivemos,
foi desde cedo objeto de acesos debates entre filósofos, matemáticos, dentre
outros pensadores clássicos. Na geografia, essa discussão invoca, por assim di-
zer, o problema essencial dessa ciência, isto é, seu o objeto de estudo.
Da noção do espaço como localização dos lugares apresentado pelos gregos
clássicos, à ideia do espaço virtual ou ciberespaço, o debate sobre o espaço foi
evoluindo à medida que os paradigmas que orientam o pensamento geográfico
foram sendo questionados e, por vezes, substituídos por novos. Assim, partindo
254 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da concepção do espaço como representação a priori e do espaço, enquanto


condição para a ocorrência dos fenômenos, na leitura kantiana, ao espaço como
realidade objetiva, produto social em permanente transformação, no entender
de Santos (2008); a importância do espaço, principalmente as relações que nele
ocorrem foi ganhando forma e abrindo, por conseguinte, novas perspectivas de
debate.
Nomeado viúva do espaço (SANTOS 2002), as discussões sobre o espaço den-
tro da geografia remota dos finais do século XVIII e, muito precisamente, do co-
meço do século XIX, com a sistematização e sua constituição como ciência. Com
a chegada do século XX, o advento da globalização no século XXI e, no encalço
desses processos, as transformações espaciais em curso; as discussões sobre o
uso e apropriação do espaço ganharam um novo ímpeto e, como consequência
disso, o espaço torna-se importante efetiva ou potencialmente.
Ao contrário do que muitos acreditam, o espaço não é um dado a prior, no
sentido de que preexiste antes da intervenção humana. Ele é, no nosso enten-
der, produto das forças/trabalho empreendido pelo homem no processo de
transformação da "primeira natureza". Designado conceito-mestre (HAESBAERT,
2010), o espaço posiciona-se no contexto da globalização, sobretudo no âmbito
da geografia crítica-radical, como instrumento de luta a partir do qual se intenta
denunciar e/ou contestar as injustiças, os efeitos socioambientais derivados das
desigualdades no acesso, uso e apropriação do espaço.
Tal processo, em curso, dá lugar à ocorrência de conflitos ambientais decor-
rentes das distintas formas de apropriação técnica, econômica, social e cultural
do mundo material (ZHOURI e LASCHEFSKI 2010).
De facto, o espaço geográfico, ou simplesmente espaço, assume um papel
importante, por um lado, como instrumento de luta pela emancipação e igualda-
de de direitos e, por outro lado, como elemento fundamental na organização e
reprodução das relações sociais. O espaço é por isso um elemento primordial na
organização

das funções entre diferentes frações do território, cada ponto torna-se importante. A
importância de cada fração do espaço decorre de suas próprias virtualidades naturais
ou sociais preexistentes. As especializações na utilização do território- sejam naturais,
culturais ou técnicas, significam uma redescoberta ou uma valorização total, na qual
cada parte ou lugar recebe um novo papel ou ganha um novo valor (SANTOS 1994, 29).

Portanto, dado o seu caráter polissêmico, o conceito espaço exige sempre


um adjetivo que possa qualificar o tipo de espaço de que estamos nos referin-
do. Ou melhor, sua compreensão não dispensa, antes de tudo, o adjetivo que o
acompanha, porque a palavra espaço pode designar tanto o espaço econômico;
espaço topológico; espaço físico no qual ocorre um evento (independe da sua
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
255
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

natureza), quanto o espaço pessoal em múltiplas escalas, isto é, local, regional


ou global (CORRÊA, 2003).
Nas ciências humanas, é extensa a lista das disciplinas que têm o espaço
como objeto de estudo. Da geografia à psicologia e da antropologia à sociologia,
somente alguns exemplos, a leitura sobre o espaço assume várias perspectivas,
múltiplo recortes e, por isso, diversos significados. Na geografia marxista, pers-
pectiva que orienta este texto, o espaço pode ser analisado entendido como
espaço absoluto, espaço relativo e espaço relacional, sintetizando, no dizer de
Harvey (2006), as possíveis significações para o espaço.
Do ponto de vista relacional, a leitura sobre o espaço remete às represen-
tações que se erguem sobre ele e, representa para Haesbaert (2010, p.162), o
espaço vivido que aglutina "visões, fantasias, desejos, memórias, sonhos e esta-
dos psíquicos". Esses elementos lembram os referenciais que as pessoas criam
sobre determinado lugar e, no caso em análise, tais símbolos estão presentes,
conforme veremos em diante, nas antigas aldeias e bairros nos quais a popu-
lação reassentada em Cateme, Mwaladzi e 25 de Setembro, residiam antes do
reassentamento.
Visto como produto social, a análise espacial pode focalizar questões de na-
tureza política, buscando compreender como tais processos operam e, sobretu-
do a forma como se articulam com o espaço. É a partir dessa perspectiva que se
deve pensar a articulação entre espaço e o território. Por isso, Haesbaert (2010)
ao esboçar o conceito do território explora tanto a dimensão material das rela-
ções de poder, quanto os seus desdobramentos (o que autor denomina efeitos
de natureza material do poder) sobre a estrutura imaterial. Portanto, tendo em
conta esses aspectos, o território "pode ser concebido a partir da imbricação de
múltiplas relações de poder, do poder mais material das relações econômico
– políticas ao poder mais simbólico das relações de ordem mais estritamente
cultural (HAESBAERT 2004, 79)".
Assim, ao definir o território é necessário ter em conta a articulação territorial
entre as duas dimensões, isto é, a ideia de continuum que permite, segundo
Haesbaert (2010, 167), analisar os processos de territorialização, sem privilegiar
uma nem outra dimensão. Para dirimir esse conflito, Haesbaert propõe que se
trabalhe com o termo "territorialidade em sentido mais amplo – já que não se
trata, obrigatoriamente, da territorialização manifestada de modo concreto".
Já dissemos que o estudo do território não é recente. Na geografia, essa preo-
cupação aparece desde a geografia tradicional, mormente, nas obras antropogeo-
grafia e geografia política de Friedrich Ratzel. Em suas discussões, Ratzel aborda
questões basilares à formulação (posterior) do conceito de território, das quais: o
princípio da indissociabilidade entre o homem-natureza e a ideia do habitat.
Tal como Santos (2002) critica pouco protagonismo da geografia na definição
de seu objeto de estudo – o espaço, Haesbaert (2009) considera que a geografia
256 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

se apartou, durante séculos, das discussões sobre o território, mesmo conside-


rando que esse papel cabia e, de fato, ainda cabe à geografia. Seja como for,
na geografia o território pode ser compreendido, por exemplo, a partir da sua
materialidade que abarca múltiplas dimensões, bem como a interação socieda-
de-natureza.
Nesse sentido, uma das referências mais evocadas é o livro de Claude Raffes-
tin. Nele, Raffestin não só delineia uma definição sobre o território, mas também
deixa claro que o espaço e o território não são termos equivalentes. Não sendo,
o território “é resultado de uma ação conduzida por um ator sintagmático (ator
que realiza um programa) em qualquer nível. Ou melhor, é um espaço onde se
projetou um trabalho, seja energia e informação, e que, por consequência, reve-
la relações marcadas pelo poder (RAFFESTIN 1993, 144)".
Raffestin ao centrar sua análise, somente, nas relações política de poder ig-
nora, por completo, outras dimensões úteis à compreensão do território, princi-
palmente, a sua dimensão simbólica. Diante disso, Haesbaert (2009) sugere uma
leitura do território baseado em três perspectivas: política (referente às relações
de poder); cultural ou simbólico-cultural (que privilegia a dimensão subjetiva,
isto é, o espaço vivido) e a econômica – que enxerga o território como fonte
de recursos úteis ou potencialmente úteis. Nesta última dimensão, repousa o
entendimento que as transnacionais têm sobre determinados lugares (Moatize,
por exemplo) do território nacional; são para elas, lugares no sentido absoluto
– pontos no mapa, isto é, com coordenadas específicas, passíveis de serem ex-
plorados, mensurados e/ou determinadas às distâncias entre um lugar e outro,
com vista à viabilização e aplicação mais rentável do capital excedente, tal como
procedeu a Vale Moçambique ao reabilitar e/ou construir a ferrovia Moatize –
Nacala a velha, coluna vertebral do projeto de carvão de Moatize.
Fora das malhas do poder capitalista, o lugar representa algo mais comple-
xo e mais amplo que, combina tanto a localização, o local quanto o sentido do
lugar. Enquanto o local se refere ao instrumentário material que sustenta as re-
lações sociais, isto é, a forma como o lugar se apresenta para quem o observa;
o sentido do lugar remete a diversos significados associados com o lugar: os
sentimentos, as emoções que invocam o lugar. Tais significados podem ser indi-
viduais e baseados, por exemplo, na biografia pessoal, mas também podem ser
compartilhados. Portanto, o sentido de lugar baseia-se na mediação e na repre-
sentação sobre esse lugar (CRESSWELL 2009). Enfim, são essas representações
escamoteadas/invisibilizadas pelos megaprojetos que buscamos, nesse artigo,
averiguar se elas se modificaram concomitante, às transformações operadas no
local, em função do início das atividades mineradoras em Moatize. E para abar-
car essa complexidade, acreditamos que é necessária uma leitura territorial que
considera de forma integrada e dialética as perspectivas políticas, cultural ou
simbólico-cultural e a econômica, conforme propõe Haesbaert (2009).
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
257
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

Desse modo e, privilegiando o aspecto cultural ou simbólico do território, San-


tos (2005, 17, grifo do autor) oferece uma leitura que, no nosso entender, permite
compreender o que ocorreu em Moatize. Pois, além do aspecto visual; mais pró-
ximo à paisagem, das novas relações de poder instituídas e/ou comandas pelas
transnacionais do carvão mineral, é preciso, antes de tudo, compreender que o

O território não é apenas o conjunto de sistemas naturais e de sistemas de coisas


superpostas; o território tem que ser entendido como "território usado", não o territó-
rio em si. O território usado é o chão mais a identidade. A identidade é o sentimento
de pertencer aquilo que nos pertence. O território é fundamento do trabalho; lugar
de residência, das trocas materiais e espirituais e de exercício da vida. [Portanto]
o território em si não é uma categoria de análise em disciplinas históricas, como a
geografia. É o território usado que é uma categoria de análise.

Na análise empreendida, o território usado refere-se às representações cria-


das em relação a alguns e/ou vários elementos, seja da natureza ou socialmente
construídas como, por exemplo, o rio, os cemitérios, os locais de sacralização
das relações espirituais, bem como os de lazer, como veremos em diante. Tais re-
ferenciais simbolizadas pela paixão, hábitos, lembranças sobre lugar (a expres-
são simbólica de um território e do poder que esses símbolos detêm) exprimem
a relação simbólica – afetiva que as comunidades têm, isto é, o sentimento de
pertencer àquilo que nos pertence, ou simplesmente, a identidade.

"A MINHA CASA ERA DE PALHA, MAS VIVIA BEM": DESLO-


CAMENTOS COMPULSÓRIOS E A IDENTIDADE EM MOVI-
MENTO
Para permitir o início das atividades de extração e processamento do carvão
mineral em Moatize, a Vale Moçambique, Riversdale Moçambique e Rio Tinto
realizaram entre 2005 e 2013, o processo de deslocamento e reassentamento
compulsório das comunidades diretamente atingidas por seus empreendimen-
tos. Dissemos compulsório, pois acreditamos que por força dos decretos e das
leis as comunidades foram forçadas a ceder seus territórios em favor dos me-
gaprojetos. Portanto, apesar das consultas públicas (com todas suas falhas), na
prática a população não dispunha de forças suficientes para impedir o seu deslo-
camento, tendo em conta o caráter estatal da terra em Moçambique (WET 2006),
bem como o discurso arquitetado sobre os megaprojetos, isto é, a máxima de
que eles vão promover o desenvolvimento.
E para viabilizar o processo de desapropriação das comunidades em Moati-
ze, os dois consórcios e/ou suas subcontratadas procederam ao recenseamento
258 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

da população, o que resultou na classificação das famílias em dois grupos, em


função dos seus meios de subsistência. Divididas em rurais e urbanas, conforme
o censo da Vale e da Riversdale, as famílias retiradas de Mithethe, Malabwe, Ba-
gamoyo, Chipanga – Sede, Chipanga, Chithatha, Benga e Capanga Sede, todos
em Moatize, foram reassentadas no bairro 25 de Setembro, arredores da Vila de
Moatize (figura 2, próxima página); Cateme e Mwaladzi (BATA 2018).

Figura 2. Localização do Distrito de Moatize, Província de Tete – Moçambique

Fora as questões mais específicas do reassentamento como, por exemplo, os


valores de indenização, as etapas de retirada das famílias, o tratamento/destino
de alguns elementos simbólicos (cemitérios e outros, alguns dos quais herdados
e outros construídos ao longo do tempo), portanto, o que denominamos termos e
condições do reassentamento, merece destaque para fins dessa análise, a natu-
reza excludente e separatista do reassentamento, uma das controvérsias desse
processo. Desqualificando os critérios utilizados pela Vale Moçambique para a
separação das famílias, 73,3% dos reassentados não ficou feliz com os critérios
adotados, pois eles entendem que a separação das famílias fragilizou as rela-
ções e criou constrangimentos nas interações entre as pessoas.
De fato, tal como disseram vários moradores, conforme os excertos da entre-
vista que segue, no reassentamento

[...] estamos a viver com pessoas que não estávamos juntos e cada um tem seu compor-
tamento. Por exemplo, a minha galinha sair para lá é insultada e até pode matar essa
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
259
Eduardo Jaime Bata, Celene Cunha Barreira

galinha. Quando saímos nós de lá não era meu vizinho, só encontrei aqui e o coração
dele não conheço. (Morador, reassentando em Cateme, outubro 2016, grifos nossos).
[...] não é justo tirar as pessoas, separar só porque não trabalhamos, porque aqui na
cidade é fácil pedir ajuda. Isso é isolamento, pobre ficar de um lado e rico do outro,
eu posso pedir ajuda aos outros.
[...] não é justo! Tínhamos que estar juntos porque somos da mesma família, não tem
sido fácil conviver com os familiares que vivem em Cateme. Por falta de dinheiro de
transporte, há vezes que tem falecimento e nem todos conseguem vir ou ir para lá
(Morador reassentado no bairro 25 de setembro, outubro 2016).

Em média foram deslocadas e reassentadas 1.600 famílias, mais ou menos, o


equivalente a 8.000 pessoas. É preciso esclarecer que essa quantidade refere-
-se aos cálculos feitos com base nos resultados do trabalho de campo realizado
em Moatize. Desse número devem ser acrescidas mais 106 famílias, aproxima-
damente, 424 pessoas que rejeitaram a classificação anterior. Para elas, a Vale
procedeu "à indenização assistida que consistiu na compra de casas de material
convencional dentro da Vila de Moatize" (Entrevista, com os supervisores da área
social na Vale Moçambique; outubro 2015).
Portanto, apesar da relevância das contradições do processo de reassen-
tamento para o entendimento da pesquisa (seus desdobramentos sobre a es-
trutura social dos atingidos), não discutiremos aqui a totalidade dos problemas
que marcaram o reassentamento em Moatize. Contudo, é preciso, ainda que
de forma rápida, esclarecer que as frequentes alegações (falta de um marco
regulatório; pioneiros no processo de reassentamento no país, entre outras) da
Vale Moçambique sobre as falhas cometidas durante o reassentamento, não
passam de justificações que buscam fortalecer o discurso, bem como rechaçar
as críticas.
Sabe-se, tal como explica Bassey (2015, 117) que a indústria extrativa de bens
minerais

gostaria de fazer crer a todos que operam da mesma maneira [em todo o mundo].
Sempre que surgem casos que contrariem essa imagem, algumas empresas transna-
cionais do setor da extração apressam-se a dizer que são meros bodes expiatórios e
de modo algum são as piores da sua área.

Em Moatize, além da separação de pessoas que, até então, residiam em


territórios contíguos e, com laços sanguíneos, de familiaridade e/ou formas
de vida coletiva, o reassentamento conduziu às rupturas sociais, por um lado,
pela perda dos espaços para produção e, por outro lado, pelo aumento das
mortes, adoecimento, sobretudo idosos, após o reassentamento. De fato, no
contexto dos deslocamentos compulsórios em Moatize, além da perda dos
260 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

meios de subsistência, fruto da paralisação de diversas atividades, com ênfase


para a agricultura, produção de tijolos, venda de brita, areia e gado, a população
experimentou, igualmente, um período de stress e traumas, que em alguns ca-
sos, resultaram em mortes (BATA 2018).
Com efeito, dado o caráter autoritário e excludente do reassentamento
(MÁRIO 2013), parte da população atingida, principalmente mulheres e idosos
carregam consigo traumas provocados pelo deslocamento. Thukral (2009) as-
sinala que em contextos de reassentamento compulsório, as camadas sociais
mais prejudicadas são as mulheres pobres, chefes de famílias, meninas, idosos e
crianças. Isso ocorre porque as mulheres enfrentam situações de stress devido,
principalmente, a luta pela sobrevivência, dentro de um contexto mais amplo de
desigualdade de oportunidades entre os homens e as mulheres.
Em Moatize, as mulheres e crianças do sexo feminino são, dentre outras clas-
ses sociais, as que mais sofrem, por exemplo, com a escassez de água, a des-
truição dos meios de subsistência e, sobretudo, o rompimento com as formas de
vida e os referenciais construídos sobre o lugar. Assim, tendo em conta o sentido
do lugar, podemos afirmar que

[...] o reassentamento afetou socialmente aos residentes. O simples fato de dizer a


um residente que vai deixar a sua zona residencial para outra e, neste ato deixa de
exercer as atividades que anteriormente fazia, passa para uma zona onde não vai
fazer nenhuma atividade, isso afeta socialmente a pessoa. Após o reassentamento
fomos notando que alguns residentes com idade mais avançada que depois de ter
abandonado as suas terras e se formos olhar o aspecto social de um africano, temos
a consciência de que, no sítio onde a pessoa reside tem lá o seu segredo. O ato de
retirada desse sítio para outro, socialmente esta pessoa fica frágil e pode cair doente,
ou simplesmente, perder a vida. E isso foi notório nos primeiros anos do reassenta-
mento, refiro-me aos anos 2010 a 2014. Fomos notando que alguns idosos depois de
terem sido reassentados, duas ou três, semanas depois perdiam a vida, sobretudo em
Cateme (Entrevista com o secretário do bairro 25 de setembro; outubro 2015).

No contexto africano, a terra e o território são inseparáveis. A terra e o território


são, no dizer de Stavenhagem (2006), elementos constitutivos da autonomia e da
autodeterminação dos povos tradicionais e/ou assim denominados, por isso retirar
da/e a terra aos povos africanos significa, em outras palavras, negar a sua autode-
terminação. A terra é, dessa forma, parte de algo mais amplo, designado território.
Desse ponto de vista, a terra nas sociedades africanas, inclusive em Moçambique,
representa simultaneamente, lugar de trabalho, de vida e de toda a prática social.
Portanto, a terra não é somente fonte de reprodução material, mas também o lócus
adequado para a sacralização das relações espirituais; alicerce da cultura e da re-
produção das formas próprias de estruturação e ocupação do espaço (MATOS 2014).
MINERAÇÃO, DESLOCAMENTOS COMPULSÓRIOS E IDENTIDADES EM MOVIMENTO
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Tratado como saudosismo, os referenciais que as comunidades constroem


sobre o lugar devem, a todo o custo, ser rompidos para favorecer a expansão
do capital. Como forma de acelerar esse processo cria-se estereótipos sobre os
lugares e práticas, denominadas anacrônicas e o Estado, "por meio do discurso,
promove o rompimento das relações pré-estabelecidas e o desapego às coisas
locais. Já os moradores das áreas que serão tomadas para a execução da obra
são taxados de contrários ao progresso – progresso que deve encobrir aquilo
que as águas não encobrirão: a memória e o sentimento de apego ao lugar an-
tigo" (SILVA 2007, 19).
Em Moatize, assim como em outras áreas tomadas de salto pelo império do
capital, a população reassentada, por exemplo, no bairro 25 de Setembro foi
coagida a criar preconceitos com determinadas práticas culturais, considera-
das inapropriadas para as zonas urbanas. Fora as limitações do novo espaço
residencial, o que dita a não realização de algumas práticas, principalmente,
de rituais fúnebres como o kumbire mudzimbo, isto é, pedir aos espíritos que
recebam o seu filho; a interação entre a população de Moatize e aquela pro-
veniente de outras regiões do país e do mundo inculcou a necessidade de
desprezar o tradicional.
Apelidados de atrasados e, desprezados por outros moradores, as pessoas
que tentam criar trincheiras de resistência (ALMEIDA 2005), em função do contí-
nuo processo de desmanche cultural, apontam rupturas não só nas formas de
relacionamento com os outros, mas também no tratamento de alguns aspectos
culturais. Na verdade,

[...] os hábitos culturais não mudaram na totalidade, mas alguma coisa mudou. Es-
tamos num espaço municipal, um pouco distante da Vila. Há coisas que hoje não
podemos fazer mais. Havia, por exemplo, a dança malombo [dança que se faz no
advinha – curandeiro, sobretudo, quando alguém está doente] e já não se faz. Uma
e outra tenta voltar, mas tem sido desprezado pelos outros e, é considerada cultura
arcaica, enquanto lá em Chipanga não (Morador reassentado no bairro 25 de setem-
bro; outubro 2016, grifo nosso).

Corroborando esse entendimento, outro morador falou das mudanças ocorri-


das na mentalidade das pessoas após o reassentamento. De fato,

[...] a mente das pessoas mudou porque as pessoas pensavam que só podia viver
entre família, mas agora não. As danças que fazíamos lá, aqui não se fazem mais,
pois as pessoas não querem ninguém dançar mandjole. Quando havia falecimento
as pessoas tocavam batuque à noite para sinalizar que ali há falecimento, mas agora
não fazem. Não querem voltar atrás, estão evoluídos (Morador reassentado no bairro
25 de setembro, outubro 2015, grifo nosso).
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Vítimas do progresso e não seus destinatários conforme o discurso, a moder-


nização mineira (ZHOURI e LASCHESKI 2010) eleita como uma das estratégias de
acumulação de capital em Moçambique promove, por um lado, rupturas, frag-
mentação social e individualização e, por outro lado, exacerba o processo de ho-
mogeneização – uma espécie de tática de dividir para reinar que pari passu vai
construindo seus próprios territórios, em função de seus interesses que são, com
frequência, alheios às necessidades de sobrevivência das comunidades. Nessa
linha de raciocínio, Mendonça (2004, 122) assinala que o capital ao incorporar
diversos territórios, obedecendo à lógica expansionista do capital, tais territó-
rios são "hegemonizados pelas formas de gestão do capital implementadas pelo
Estado e seus agentes, implicam em (des) construir as heranças espaciais. Esse
processo está na origem dos estereótipos construídos no imaginário social acer-
ca das noções de atraso cultural."
Portanto, apesar desse esforço, a população deslocada e reassentada em
Mwaladzi, Cateme e 25 de setembro, ainda mantêm fortes os vínculos com seus
anteriores territórios – lugares e símbolos. Designados trincheiras de resistência
frente à investida capitalista, nessas comunidades a identidade adquiriu feições
de resistência em face das mudanças geradas pelos megaprojetos (ALMEIDA
2005). De fato, elementos simbólicos como o rio, o local de lazer, a antiga casa, o
local onde invocava os antepassados, ou seja, local de sacralização das relações
espirituais, continuam sendo códigos da população para pensar seus antigos
bairros, aldeias e comunidades.
No universo desses símbolos, os moradores dos três reassentamentos apon-
taram, respectivamente: o rio e o local de sacralização das relações espirituais
(37%), a antiga casa e o local de lazer (21%) e, por fim, a machamba (21%). A leitu-
ra da figura 3; permite dizer que o rio, o local de onde invocavam os antepassa-
dos, a antiga casa, o local de lazer e a machamba, são os aspectos que conectam
os moradores reassentados às anteriores áreas de residência.

Figura 3. Percepção das famílias reassentadas sobre os elementos simbólicos


que mais lembra a sua antiga aldeia ou bairro, Moatize.

Rio e local onde invocava os antepassados

Antiga casa e local de lazer

Machamba e local onde invocava os antepassados

Machamba

Machamba casa e local onde invocava os antepassados

Frequências
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A Dona L. ao afirmar que "a minha casa era de palha, mas vivia bem", busca
paralelamente, a outras expressões, como: o que é uma casa sem comida (HU-
MAN RIGHTS WATCH 2013); casa de pedra não mata fome (CHIZENGA 2016); expor
os principais problemas do reassentamento e, sobretudo demonstrar que as ca-
sas (um dos poucos ganhos do reassentamento) per si não são suficientes para
restaurar os meios e as formas de vida perdidas com o reassentamento.
Aparentemente simples, a fala da Dona L. encerra não só um conjunto de
males (falta de terra propícia para a atividade agrícola, escassez de água, falta
de emprego e perda de algumas fontes de renda) decorrentes do deslocamento
compulsório, mas também abre espaço para as seguintes questões: como esta-
vam estruturados os bairros e/ou as aldeias das comunidades antes do reassen-
tamento? É possível apontar a chegada dos megaprojetos como, único e exclusi-
vo, responsável pelo processo de desestruturação social?
À semelhança da casa, para muitos moradores, o Rio (Revubué) não era so-
mente local de socialização, já que é nele que as comunidades tomavam banho,
lavavam roupa, mas também local de produção, tendo em conta que eles apro-
veitavam as margens do Rio para produzir hortícolas, mormente na estação seca.
Portanto, associado à produção de tijolos, abertura de machambas, venda de brita
e areia para a construção (principais atividades da população antes do reassenta-
mento), lá na baixa, ou seja, nas margens do Revubué, havia pequenas hortas. Eu

[...] tinha pequena horta lá na baixa. É onde eu ia plantar meu muliwa [verdura]. Pe-
quena horta, aquele desenho (Foto 1) que a gente fez aí em cima, onde está escrito
machambas, aí ao pé do rio, são baixas, a gente ia regar, tínhamos nossa couve,
tomate e tudo mais. Levava o tomate ia vender no mercado (Entrevista com Dona B.
reassentada em Mwaladzi, outubro 2016).

A vitalidade do Rio é destacada, igualmente, por uma das moradoras nos


seguintes termos: "[...] desde que eu nasci eu tenho tomado banho aqui no rio.
Eu tenho lavado as minhas roupas aqui… até as minhas crianças cresceram aqui
neste rio. Aonde vamos [Mwaladzi] vão dar-nos água em recipientes pequenos.
Eu não estou habituada a esse tipo de coisas” (Entrevista realizada pela HUMAN
RIGHTS WATCH, outubro de 2013).
Deste modo, compreender o significado de cada um dos símbolos apresenta-
dos pelos moradores pressupõe uma viagem sobre o mundo das representações
sociais construídas ao longo do tempo. Nessa empreitada, Stavenhagem (2006)
oferece uma leitura valiosa a qual propõe que a terra deve ser compreendida, a
partir de um contexto muito amplo que vai além da ideia do espaço usado. Em
Capanga, por exemplo, chama atenção (figura 4), o arranjo e a interação entre os
elementos simbólicos e materiais que garantiam a reprodução social das famílias
antes de se mudarem para Mwaladzi.
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Figura 4. Mapa da comunidade de Capanga antes do reassentamento, Moatize, outubro 2016

Na figura 4, nota-se que havia uma coabitação entre os espaços de trabalho


(machambas, local de produção de tijolos e de brita ou de extração de areia) e o
espaço sagrado, por exemplo, o cemitério, o local onde invoca os antepassados
e a igreja. Com o reassentamento, no entanto, significativa parte dessas referên-
cias foi destruída ou, simplesmente, separada da população, conforme disse a
Dona B e L.
Para nós, não há dúvidas de que, o início da extração e processamento do
carvão mineral e/ou sua logística demandou arranjos espaciais de vulto, resul-
tando em novas configurações territoriais. Pari passu, esse processo foi respon-
sável pela desarticulação social das comunidades diretamente atingidas pelos
empreendimentos da Vale Moçambique e Riversdale Moçambique e alguns ex-
certos de entrevista corroboram esse entendimento.
Diante de tudo isso, podemos afirmar que está em curso o processo de de-
sarticulação social e empobrecimento das comunidades reassentadas conside-
rando que elas enfrentam dificuldades para o acesso a terra, ao trabalho e ali-
mentos. Selando esse quadro, a marginalização, desarticulação social, os casos
de morte de moradores após o reassentamento, o aumento da morbidade, bem
como a perda do acesso à propriedade coletiva e recursos comuns são, no nosso
entender, aspectos que eivam a vida e cotidiano das comunidades reassentadas
em Mwaladzi, Cateme e no bairro 25 de setembro.
Sem a intenção de encerrar o debate, ressaltamos que a presença dos me-
gaprojetos em Moatize foi responsável não só pelas transformações espaciais
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em curso naquele Distrito, cujos efeitos se derramam sobre a cidade de Tete,


mas também afetou a dimensão simbólica da vida comunitária, processo esse
que gradualmente promove a exclusão socioespacial em múltiplas escalas. De
resto, ao se apropriar e/ou limitar o acesso a elementos simbólicos, como: o rio,
as machambas, o local da sacralização das relações espirituais, os megapro-
jetos atuaram em favor da destruição dos símbolos, dos referenciais sobre os
lugares e da identidade coletiva dos moradores, tendo em vista que, o lugar é,
simultaneamente, uma construção concreta e simbólica do espaço detentora de
características comuns, tais como a identidade, as relações e a história.

"NYOKA HAINA REVERSE": NOTAS NÃO CONCLUSIVAS


Em Moçambique, desde as primeiras análises sobre os megaprojetos, prova-
velmente, entre 2007 e 2008, a produção científica tendo por objeto de estudo
(direta ou indiretamente) os grandes projetos de investimento cresceu expres-
sivamente. Se no início o debate foi dominado, sobretudo, pelos economistas,
com passar do tempo, novos interlocutores começaram a interessar-se pela te-
mática. Entre sociólogos, cientistas políticos, especialistas em saúde pública e
direito, mas também geógrafos e ambientalistas, os megaprojetos ocupam, por
assim dizer, lugar de eleição e se tornaram o eixo central em várias pesquisas.
Sob diversos ângulos de análise, pesquisadores dessa temática exploram
tanto aspectos vinculados à contribuição dos megaprojetos para as receitas do
Estado, quanto àqueles relacionados aos conflitos socioambientais, em função
das diferentes formas de apropriação do espaço e partilha dos benefícios e da-
nos causados por esses empreendimentos. Contudo, dimensões como o traba-
lho, a identidade das comunidades atingidas, dentre outras extensões importan-
tes à compreensão dos megaprojetos, permanecem poucos explorados.
Em relação ao trabalho, prisioneiro da sociedade, no dizer de Thomaz Júnior
(2002), ou condição de mediação e chave de todo o processo de hominização
e humanização da espécie humana (PERPÉTUA 2016), há, no nosso entender e,
aliado ao discurso redencionista dos megaprojetos, a sensação de que ele é a
dádiva que os grandes projetos de investimento dão e/ou devem dar à popula-
ção, pelo que não cabe nenhuma discussão nesse sentido, senão um apelo para
a alistagem (em frentes de trabalho) de mais e mais moçambicanos.
No que se refere à identidade das comunidades atingidas pelos megaproje-
tos, os aspectos identitários assumem, em diferentes pesquisas, o caráter trans-
versal e são abordadas, principalmente, quando se discutem os efeitos espaciais
desses empreendimentos. Foi esse o ponto de partida da análise feita nesse arti-
go. Portanto, do que se disse até aqui permite não só negar a tese de que pouco
se tem pesquisado sobre os megaprojetos em Moçambique, conforme tem sido
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dito, mas também assinalar que, apesar dos avanços registrados, há aspectos
importantes sobre esses empreendimentos que reclamam uma maior atenção.
De fato, no esforço para visibilizar tais aspectos que aos olhos do Estado
e dos megaprojetos são meros apêndices, tomamos por emprestado a fala da
Dona L. que após horas de conversa recorreu à expressão nyoka haina reverse,
provérbio em língua Shona que significa a cobra não volta pra trás, para desta-
car o caráter irreversível das mudanças induzidas pelos megaprojetos em Moati-
ze. Aparentemente simples; este adágio popular permite entender as alterações
ocorridas em Moatize com o início da extração do carvão mineral, não só como
um fato consumado pra o qual não há retorno, mas também nos instiga a pen-
sar que as comunidades já se aperceberam que o discurso de universalização
dos benefícios dos megaprojetos, no qual sobressai o emprego e a melhoria da
qualidade de vida, não passa disso. Além do mais, tal discurso oculta as relações
assimétricas entre os sujeitos sociais e os megaprojetos, dando a impressão de
que todos se beneficiarão de igual forma com o projeto (BRONZ 2011).
Sem dúvidas, o início da extração do carvão mineral em Moatize transformou
o cotidiano das comunidades atingidas pelos empreendimentos da Vale e Ri-
versdale. Com efeito, além da mudança dos locais de residência, em função do
deslocamento compulsório, concomitante a isso, os símbolos e os objetos/refe-
renciais que eram parte de sua identidade e do dia-a-dia foram transformados,
separados e/ou destruídos. O Rio Revubué, um dos elementos simbólicos mais
destacados pelos moradores, tornou-se um local proibido, no sentido de que, as
comunidades, sobretudo as de Mwaladzi e Cateme não têm acesso a ele devido
às distâncias que as separa do Rio.
Sabe-se, no entanto, que esse Rio carrega consigo diversos significados,
quer como ponto de encontro e de lazer (banho) entre as famílias e amigos,
principalmente adolescentes, quer como local de trabalho (cultivo de hortícolas,
lavar roupa) e/ou de produção. Em qualquer um desses sentidos, o Rio se apre-
senta como um elo entre a população, o trabalho e a vida social dessas comuni-
dades, ou seja, ele simboliza a vida e o cotidiano dos grupos sociais atingidos,
por isso separá-los implica um rompimento com a vida e a dinâmica social dessas
comunidades.
À semelhança do Rio, a antiga casa, o local de lazer e a machamba foram
separados, destruídos e/ou encobertos pelas forças da modernização capitalista
que, buscam através dessa ação apagar esses lugares do imaginário das comuni-
dades atingidas. Porém, como diria Yi fu Tuan (s/a, s/p.), o lugar permanece como
lembrança de tempos passados, daí que "as pessoas se afastam, vão embora,
mas permanecem ligados aos lugares, ou seja, os objetos seguram o tempo."
De resto, o que se pode dizer é que o modelo de desenvolvimento capitalista
adotado em Moçambique, que elegeu a mineração como sua engrenagem prin-
cipal, foi pensado na perspectiva de colocar sobre os ombros das comunidades
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atingidas pelos megaprojetos o fardo de todo o processo, o qual resulta invaria-


velmente, na perda da autonomia, dos referenciais sobre os lugares, nas mudan-
ças nas formas de relacionamento entre as pessoas, bem como na destruição de
alguns símbolos socialmente construídos ou herdados da natureza.
Portanto, tendo em conta que o símbolo contém o poder e simboliza, pari
passu, a vida, conforme Castells (2000), pode se afirmar que o início da extra-
ção do carvão mineral e/ou sua logística fragilizou o poder das comunidades e
rompeu com a vida e a dinâmica social dos atingidos, o que prediz a ruptura e a
decadência da vida cotidiana.
Enfim, em Moatize, as modificações em curso carregam consigo uma parte
da história, dos sentimentos e das paixões das famílias, ao serem forçadas a des-
fazer-se dos seus laços e seus símbolos historicamente construídos e o trecho
que serve de epígrafe é testemunho disso.

RESUMO
Em Moçambique, o debate sobre os grandes projetos de investimento (GPIs) vem
crescendo significativamente, sobretudo nos últimos dez anos. Dum debate, ex-
clusivamente, dos economistas, a discussão sobre os efeitos dos megaprojetos
em diferentes escalas passou a interessar, igualmente, aos sociólogos, geógrafos,
ambientalistas e especialistas em saúde pública. Sob diversos enfoques, cada uma
dessas áreas busca nas discussões sobre os megaprojetos, explorar uma dimensão
específica, isto é, a que mais interessa aos objetivos da pesquisa. Este artigo analisa
as transformações espaciais ocorridas em Moatize, com o início da extração do car-
vão mineral, buscando compreender como essas modificações afetaram a estrutura
social e a identidade da população atingida. A partir da leitura integrada e dialética
das categorias espaço e território (explorando os seus desdobramentos sobre a iden-
tidade); do trabalho de campo realizado entre 2015 e 2016, em Moatize, assim como
da pesquisa bibliográfica, podemos dizer que com o início da extração do carvão
mineral assistiu-se a uma rápida transformação espacial, afetando assim as referên-
cias sobre os lugares, bem como a identidade das comunidades atingidas pela Vale
e Riversdale. De fato, elementos simbólicos como o Rio, a antiga casa e a machamba,
foram perdidos com o reassentamento.

PALAVRAS-CHAVE
Megaprojetos. Deslocamentos compulsórios. Transformações espaciais. Identida-
des. Símbolo.

ABSTRACT
In Mozambique, the debate on major investment projects (GPIs) has been growing
significantly, especially in the last tem years. From the debate exclusively dominate
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by economists, the discussions about the effects of megaprojects in different sca-


les started to interest also sociologists, geographers, environmentalists and public
health researchers. Under differents approaches, each subject search in the discus-
sions about megaprojects to explore a specific dimension, that is, the most important
to the research aims. This paper analyzes the spatial transformations which occured
in Moatize, with the beginning of coal exploitation, seeking to understand how these
changes affected the social structure and the identity of the population. From the
integrated reading and dialectic of some categories such as space and territory; the
field work performed between 2015 and 2016 in Moatize, and bibliographical resear-
ch, we argue that with the beginning of coal exploitation occured a rapid changes,
affecting thus the references about places, as well as the identity of communities
affected by Vale and Riversdale. In fact, symbolic elements like the River, the olde
house and farm, were lost with the compulsory resettlement.

KEY WORDS
Megaprojects. Compulsory shifts. Spatial changes. Identities. Symbol.

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MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA:
REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS
NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO

*
JOÃO CARLOS MENDES LIMA

INTRODUÇÃO
O fundamento da reflexão proposta neste artigo enfatiza que a urbanização
em Mocuba e em Moçambique em geral decorre de um processo muito rápido,
sustentado pela acentuada migração rural. Essa rápida urbanização iniciado no
período pós-independência, mais precisamente na era da municipalização das
cidades e vilas, dificulta implementar um ordenamento territorial capaz de ga-
rantir boa qualidade de vida aos seus citadinos. Vai daí a opção para a tese de
doutorado intitulada “Conflito entre Saberes na Urbanização: as tradições das
comunidades e o planeamento do Estado na cidade de Mocuba, sob orientação
de um professor moçambicano e outro brasileiro. Dessa forma, este artigo apre-
senta parte da referida tese, concluída em 2016, onde participaram na banca dos
jurados como arguentes, professores moçambicanos e brasileiros.
Nas cidades moçambicanas, a exemplo de Mocuba, devido a rápida urbaniza-
ção, verifica-se uma ocupação espontânea e informal das áreas periféricas que
se expandem de forma acelerada em relação ao processo formal de ordenamen-
to territorial dessas urbes. O crescimento urbano rápido que a cidade experimen-
ta está a provocar mudanças no espaço urbano, assim como nas relações so-
ciais, económicas, culturais e ambientais, elevando as desigualdades no espaço.
Mais do que isso, as pessoas que chegam à cidade de Mocuba trazem consi-
go as suas formas de ver as coisas, de ocupar o espaço, de pensar e de agir. Em
suma, a sua cultura, que é diferente daquela que já existe e se instalou na cida-
de. Deste modo, como referiu Baia (2009, 9), “as imposições ou as necessidades
de diversa ordem perpassam a cidade inteira misturando características urbanas
europeias e elementos de modo de vida africano”.
O artigo é constituído por quatro pontos, sendo o primeiro sobre a reflexão
em torno do conceito de cidade média; o segundo enquadra a cidade de Mocuba

*
Universidade Licungo, Quelimane, Moçambique [jocarlima57@gmail.com]
274 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

no grupo de cidades médias; o terceiro analisa a dinâmica interna de vida na


cidade e o quarto, por sinal o último, descreve as desigualdades espaciais em
Mocuba.

1. REFLEXÃO EM TORNO DO CONCEITO DE CIDADE MÉDIA


O tema “cidade média” (CMed) apesar de ser recente, datado dos anos 1970
momento, não só do pico do desenvolvimento das grandes cidades, como tam-
bém da sua participação nas economias dos países (Santos, 1993), é controverso
e tem produzido acesos debates entre os cientistas que abordaram a matéria,
sem, contudo, alcançarem-se consensos.
Para os propósitos deste artigo, a discussão em torno de conflitos em CMed
visa captar os atores da produção do espaço urbano e sua dinâmica interna con-
siderando a capacidade de acolher melhor as atividades a implantar no solo da
cidade e a possibilidade de integrar neste conceito a cidade de Mocuba, bem
como os reflexos produzidos nos espaços urbanos da cidade.
Muitos autores, deram seus aportes para o debate em torno de CMed, seu
papel e lugar na rede urbana, porém, para os propósitos deste artigo, se adota o
conceito de CMed de dois autores brasileiros: Roberto Corrêa e Maria Encarna-
ção Sposito. No entanto, são incorporadas outras abordagens com a pretensão
de alargar o debate em torno da matéria.
Roberto Corrêa (2006, 2007), por exemplo, seu mérito recai no facto de ter
apresentado uma profunda e valiosa reflexão sobre a construção do conceito
de CMed. Ele defende a tese segundo a qual o conceito de CMed é uma cons-
trução epistemológica e intelectual, pelo que não é ontológica. Para o autor o
conceito depende da subjetividade de cada um, bem como da relação que ele
estabelece na escala espaço-tempo em termos de sua instabilidade. Por isso, o
autor insiste que não se pode considerar CMed como uma cidade intermédia,
que se posiciona entre a cidade pequena e a cidade grande. A CMed, para além
do critério demográfico, tem que ser definida olhando a critérios relacionados
com as funções urbanas. Assim, para Corrêa, a CMed deve ter funções básicas
e necessárias de existência da cidade, tais como: infraestruturas, comodidades,
serviços prestados e mobilidade dos sujeitos para os vários lugares. Mais do que
isso, a CMed tem que estabelecer interações espaciais na dinâmica regional que
gira a sua volta, pois:

“[...] a cidade média deve desempenhar o seu papel na distribuição dos bens e ser-
viços, criando uma hierarquia de mercados e a respetiva área de influência [...] a
cidade média deve ser capital regional, com um parque industrial considerável, cuja
atividade tenha um peso de destaque na economia [...] ela deve possuir uma elite
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
275
João Carlos Mendes Lima

local, bastante forte, que jogue o papel da burguesia local empreendedora, uma elite
fundiária suficiente e eficiente, com capacidade de inserir os lugares geográficos
nas redes globais e manter essa posição alcançada na hierarquia urbana” (CORRÊA
2006, 28).

De facto, a CMed não pode ser apenas caracterizada pelo tamanho da sua
população, mas é preciso considerar outras variáveis que justificam a dinâmica
deste tipo de cidade e a diferenciam das demais.
Porquanto, Sposito (2001, 329) considera que CMed “tem sido mais uti-
lizada como noção ou como classificação, do que como conceito, porque é
usada para designar cidades com população entre 200 e 500 mil habitantes”.
Para a autora, mais do que parâmetros populacionais é necessário conside-
rar, como indicador para a sua caracterização, os papéis desempenhados
pelas cidades na conjuntura da divisão de trabalho dentro da área urbana e
nas formas de expansão e aglomeração. Do mesmo modo, refletiu sobre as
mudanças na estruturação da cidade a qual propõe que seja estudada com
base na articulação entre a rede urbana e os espaços intraurbanos. Assim
sendo, a autora avalia como são combinados os processos de reestruturação
urbana e reestruturação das cidades, ou mesmo como são redefinidas as
relações entre centro e periferia, nas cidades atuais, no contexto brasileiro.
Ela enfatiza esta dinâmica para facilitar a reflexão sobre as cidades médias,
considerando as múltiplas escalas, que são determinadas pela forma de pro-
dução do espaço urbano e como são redefinidos seus papéis económicos.
Esta análise pode ser perfeitamente usada para verificar o que é específico
em Mocuba.
De facto, a autora enfatiza diversos aspetos que caracterizam uma CMed, tais
como: (i) a relevância do sítio; (ii) a posição geográfica; (iii) as relações espaciais
(consumo) e da sua inserção na divisão do trabalho; (iv) a funcionalidade econó-
mica; (v) o problema da sua distância em relação aos centros urbanos mais im-
portantes hierarquicamente; e (vi) o avanço tecnológico ocorrido na atualidade
facilitado pelas comunicações, pois isso permite dissociar os centros de tomada
de decisão com os centros produtivos.
Contudo, é pertinente revisitar outros aportes a ela ligada, porque o seu con-
ceito varia consideravelmente de país para país, assim como considerando os
critérios utilizados pelos diferentes autores. Alguns países e autores consideram
fundamental o tamanho demográfico relacionado com o tamanho da população.
No entanto, as CMed, segundo Pereira (1997) têm características próprias ineren-
tes à sua dimensão intermédia entre os pequenos e os grandes aglomerados e
às suas tradições socioculturais que lhes são próprias. Pelo que, é esta particula-
ridade e dinâmica interna que se procura captar neste artigo, tomando a cidade
de Mocuba como objeto de análise.
276 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Vários estudos para estabelecer o tamanho demográfico foram realizados,


de entre os quais: na década de 1970, por Andrade e Ledder (1979, 35) que clas-
sificou, nessa época, CMed como aquelas que possuíam entre 50 mil a 250 mil
habitantes. Porquanto, a ONU, considera CMed aquela com 100 mil a 1 milhão
de habitantes. GRAL, CEDRAL (1994) e a União de Arquitetos Internacionais (UIA,
1998) delimita entre 20 mil e 2 milhões de habitantes.
Portanto, a categorização do tamanho demográfico de CMed variou, também,
segundo a região, o país e o período histórico. Por exemplo, no início deste sé-
culo (século XXI) Amorim e Serra (2001) com base no censo de 1991 do Brasil,
classificou as cidades que possuíam população urbana entre os 100 mil e 500 mil
habitantes, como sendo CMed. Para os autores, “esse parâmetro agrega os cen-
tros que possuem escala urbana de atividades económicas para gerar economias
de aglomeração, mas não são significativamente afetados por deseconomias de
aglomeração” (NOGUEIRA E GARCIA 2007, 4, apud ANDRADE e SERRA 2001).
Para caracterizar melhor as CMed, é preciso considerar os elementos qua-
litativos, ao invés do tamanho demográfico. Por isso, alguns autores prestaram
mais atenção à diversidade e heterogeneidade social, cultural e económica, ou
às diferenças na hierarquia e nas relações das cidades com a região e com o sis-
tema urbano. São exemplos os estudos de Bravo (1977), Andrade e Ledder (1979),
Santos (1993), Amorim e Serra (2001), Sposito (2001), Pontes (2001), Sanfeliu e
Tomé (2004), Oliveira (2001) e os Grupos COAM (1989), UIA, CIMES (1998).
Por exemplo, Rui Pereira (1997) defende que para melhor entender-se as suas
dinâmicas, por vezes desiguais que apresentam é necessário prestar atenção
nas características possíveis de se observar neste tipo de centro urbano, em
termos de desenvolver funções económicas totalmente diferentes na hierarquia
das cidades ao nível nacional, regional e internacional. Para o autor as caracte-
rísticas resumem-se em quatro tipos: (i) as cidades metropolitanas; (ii) as CMed
capitais de Estados; (iii) as CMed eixos de transportes; e (iv) as CMed fronteiras
agrícolas. Para o caso em apreço, a cidade de Mocuba enquadra-se na CMed
eixo de transporte.
Porquanto, Serra (1998) sugere definir parâmetros relacionados com o espec-
tro económico, capazes de mostrar a diferença entre as CMed com as cidades
pequenas e os grandes centros urbanos. Para este autor, os pequenos centros
urbanos são diferentes das CMed porque as últimas possuem condições mate-
riais propícias para localizar as atividades económicas de tamanho e produção
maior, (e.g. indústrias). De igual modo, as CMed precisam de desenvolver in-
fraestrutura básica, mercado, e oferecer serviços públicos e privados aos seus
habitantes.
Acrescente-se as contribuições de Amorim e Serra(2001), que partem do prin-
cípio de que as CMed desempenham funções específicas no sistema urbano e
apresentam diferentes modos de produção nas diferentes etapas e em cada fase
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
277
João Carlos Mendes Lima

do sistema. Além disso, os autores acrescentam que as CMed constituem pontos


da rede que mediam as cidades pequenas e as metrópoles, pois tornam-se au-
tênticos polos nodais situados nos eixos de desenvolvimento nacionais, como é
o caso da cidade de Mocuba.
Enquanto Santos Oliveira (2001) enfatiza que as CMed são recebedoras de
grandes fluxos das classes médias e, por conseguinte, geram emprego pois atrai
migrantes, para além de ser um lugar de diversificação e concentração de ativi-
dades terciárias (comércio e serviços), bem como de especialização económica
e funcional. Este fenómeno está presente na cidade de Mocuba que recebe mi-
grantes de várias origens.
Já Sanfeliu e Torne (2004) chamaram de cidades intermediárias ao invés de
CMed. Estes autores enfatizam mais o papel que elas jogam ao servir de elo de
articulação nas inter-relações para criar e tecer redes. Mais do que isso, na visão
dos autores, as cidades intermediárias, são centros que introduzem e valorizam
processos dinâmicos e estratégicos para inseri-las, quer na escala regional, quer
na escala nacional e mesmo internacional.
Para Maria Luísa Castello Branco a tipologia de CMed baseia-se no tamanho
da sua população que deve se situar entre 100 a 350 mil habitantes. Mas a de-
finição de CMed não pode concentrar-se apenas no aspeto populacional, pois é
necessário analisar as suas funções, aquelas desempenhadas na rede urbana
regional, nacional e internacional. Além dessas funções, adverte que é preciso
verificar a função de centralidade que a cidade joga, porque articula os diversos
níveis de centros urbanos e a matriz de fluxos aéreos que oferece.
Para tal, este artigo considera que CMed, para além do tamanho demográ-
fico, a qual se deve situar entre os 50 a 500 mil habitantes, deve desempenhar
ainda funções específicas ligadas ao papel de capital regional para estabelecer
relações com o seu interior de influência, possuir uma dinâmica ativa e estabele-
cer-se uma elite local, igualmente dinâmica com peso suficiente para influenciar
a tomada de decisões, assim como jogar a função de centralidade.
Considerando a controvérsia existente, a abordagem neste artigo, procura
aliar o conceito de CMed aos aspectos legais, ambientais, económicos, sociais e
culturais em trabalhos realizados pela rede de cidades médias onde se destacam
autores como Andrade e Ledder (1979), Pereira (1997), Pontes (2001), Amorim
(2001), Branco (2001), Corrêa (2007) Sposito (2001, 2004, 2006, 2007, 2010,
2013), Silva (2009), entre outros.

2. MOCUBA: UMA CIDADE MÉDIA


Considerando a classificação de Andrade e Ledder (1979), quanto ao tamanho
demográfico, a cidade de Mocuba enquadra-se perfeitamente na classificação de
278 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

CMed desde 1980 quando possuía 57.308 habitantes (INE 1983). No entanto, con-
frontando com os requisitos sugeridos por Sposito (2001) e Corrêa (2006) ficam
alguns itens por cumprir, por que, apesar da cidade de Mocuba desempenhar:

i. Uma função económica e regional, por ser um porto seco, para além de ser
uma capital regional, mantém relações com os níveis: provincial, nacional,
regional e internacional;
ii. Uma centralidade na rede urbana da província, por constituir um nó de
transporte rodoviário, ao desempenhar a função de articulação entre os di-
ferentes níveis de centros urbanos, razão pela qual foi instituído o slogan:
Mocuba, onde todos os caminhos se cruzam e Moçambique se abraça;
iii. Uma elite local, uma elite fundiária suficiente e eficiente, com capacidade
de inserir o lugar geográfico nas redes globais e manter essa posição al-
cançada na hierarquia urbana, empreendedora, dinâmica é que influencia na
tomada de decisões;
iv. As funções básicas e necessárias para a existência da cidade, porque
possui infraestruturas e comodidades, bem como presta vários serviços es-
pecializados (financeiros, educação, saúde, fornecimento de água, energia
elétrica, drenagem, saneamento do meio e telecomunicações) e mobilidade
dos sujeitos (vias de acesso pavimentadas e transporte interurbano); e
v. Um centro urbano com condições para atuar como suporte às atividades
económicas de sua hinterlândia, nomeadamente os distritos de Lugela, Ile,
Namarrói, Maganja da Costa e Milanje.

De momento, não oferece uma indústria de relevo, apesar de ter iniciado a


instalação de uma das maiores fábricas têxteis do país e do continente, mas que
nunca chegou a ser concluída, devido aos efeitos combinados da guerra dos
dezasseis anos e da alteração da conjuntura internacional, com a queda do bloco
socialista, uma vez que o projeto era financiado e executado pela ex República
Democrática Alemã (RDA).
Portanto, a urbanização em Mocuba, se enquadra no conceito de CMed ten-
do em conta os vários fatores que interagem no tempo sobre o espaço, em di-
ferentes escalas. Porque o processo de urbanização, foi induzido pela expansão
mercantil, produzindo até a atualidade, uma contínua ocupação espontânea e
informal, agudizando os conflitos entre saberes.
Vai daí que o artigo defende a abordagem de inclusão, porque através dela
pode-se analisar as tradições, a cultura e as particularidades sociais dos saberes
locais, como pressuposto para criarem círculos de influência na produção do es-
paço, assim como, esses fatores são influenciados pelas condições físico-naturais,
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
279
João Carlos Mendes Lima

por um lado. Por outro, a (des)privatização adotada no país no período pós-inde-


pendência inibiu o investimento imobiliário durante décadas, ressurgindo de forma
ténue só no início deste século e isso dificulta o enquadramento por completo da
cidade de Mocuba no conceito de CMed.
Como se pode depreender, no processo de urbanização na cidade de Mo-
cuba vão surgindo ao longo do tempo, novas relações entre os atores, entre
os atores com o espaço, bem como relações a várias escalas. Neste contexto,
interagiram e interagem na produção do espaço, o Estado, o capital e as comu-
nidades. Daí surge a necessidade de captar essa dimensão da espacialidade da
sociodiversidade e a respetiva dinâmica interna, com as possíveis desigualdades
e precariedades.

3. DINÂMICA INTERNA DE VIDA EM MOCUBA


A inclusão da dinâmica interna de vida da cidade de Mocuba neste artigo,
visa refletir sobre a dimensão cultural no urbano e como se manifesta na estrutu-
ração dos espaços, considerando o que é específico de Mocuba, numa perspeti-
va escalar e do local ao global. Deste modo, o artigo analisa as escalas espacial e
temporal para responder à questão da integração do paradigma da diversidade
e inclusão sem descriminar e excluir os vários atores, bem como os papéis que a
cidade de Mocuba desempenha, na qualidade de CMed, perante os novos pro-
blemas urbanos e novas perspetivas de desenvolvimento.
A dinâmica interna de uma cidade pressupõe serem as atividades secundá-
rias e terciárias, as que deram origem e fazem desenvolvê-la, que ocupam o cen-
tro, ficando nas redondezas as atividades primárias. Por coincidência, a cidade
concentra no seu centro a maioria das infraestruturas sociais e económicas; aí há
oferta de melhores serviços; há mais facilidades e até as melhores condições de
vida. É no centro da cidade onde se localizam as melhores casas de habitação,
dispostas ao longo das vias de acesso e dos arruamentos, com um sistema de
drenagem funcional, enquanto, o subúrbio vai surgindo e erguendo-se espon-
taneamente, ficando reservada as condições mais deploráveis de vida, ou seja,
as piores casas, sem drenagem, sem saneamento, sem água canalizada e sem
energia elétrica (Lima, 2016).
Porém, para a cidade de Mocuba o papel de centralidade da cidade pas-
sou da praça Serpa Pinto de fronte ao edifício do Governo do Distrito para o
triângulo constituído pelo Clube Desportivo e Recreativo de Mocuba (CDRM),
incluindo a Piscina, o Parque Infantil e a Fresquinha que se estende até a pen-
são Cruzeiro.
280 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Figura 1. Praça Serpa Pinto (a esquerda) e Retunda da Junta (a direita)no período colonial (1970)

Fonte: www.google.com/imgres.bp.blogspot.com

É neste lugar onde as pessoas de média e alta renda (a elite local) junta-se
para lazer, para estabelecer relações sociais e mesmo para acertar negócios ou
para discutir e encontrar consensos com vista a sua participação na tomada de
decisões da cidade.
Via de regra, as cidades organizam-se e até estruturam-se em função do seu
dinamismo e de sua capacidade de difusão em relação à área de influência ou
meio geográfico envolvente, para formar o sistema territorial. Essa área de in-
fluência está condicionada pela capacidade desse centro urbano, pelo alcance
da sua influência e pela forma como os centros urbanos desempenham esse seu
papel e funções para articular a vida da cidade nos diversos territórios e estabe-
lecer as relações das espacialidades.
Para os propósitos do artigo considera-se que a estrutura de uma cidade,
pode ser condicionada por uma série de aspetos que lhe são próprias, decor-
rentes das atividades nela desenvolvidas, da dimensão e forma em que são im-
plantadas e pelo tipo de relações que estabelece. Numa cidade, segundo Lopes
(1996, 1, op.cit. CONDESSO 2001), “gerem-se funções com características próprias:
habitação em larga escala, inter-relacionada com o comércio, serviços de água,
eletricidade e saneamento; indústria, articuladas com a cidade; a disposição das
habitações, com o perfil das vias de acesso; e as facilidades que a urbe oferece”.
Portanto, o planeamento tem que ser pensado compreendendo a estrutura
das ocupações humanas em termos da sua diversidade, da sua cultura, das suas
inter-relações e interações, da complexidade das razões que justificam cada
uma delas.
Não obstante tal facto, a planificação clássica, não considera as dinâmicas
locais que resultam da história concreta e da cultura dos povos incluindo as
estratégias locais de aproveitamento do espaço urbano. Estas estratégias são
dinâmicas e adaptam-se as pressões da globalização, mas é importante realçar
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
281
João Carlos Mendes Lima

que não se trata de um conhecimento indígena estático. É preciso reconhecer e


realçar que os zambezianos são um dos povos mais flexíveis do país, razão pela
qual foi perpetuado o provérbio: Mwana Muchuabo Khankala Buruthu, o mesmo
que dizer “o nativo Chuabo, nunca é bruto”.
Além disso, existe o potencial das nostalgias, das remessas dos citadinos
que alimentam o turismo nostálgico, da indumentária e culinária típica, da ar-
quitetura, de sentimentos das pessoas, entre outros aspetos, das nuances dos
lugares que por vezes não são percebidas por quem não presta muita atenção
(LIMA 2016). As nuances que se identificam na cidade de Mocuba resumem-se
aquelas ligadas as tecnologias de construção, técnicas de produção, prestação
de serviços, medicina, estratégias de sobrevivência e manutenção da cultura.
Aliado a isso, na história da vida, os homens ocupam o território de diversas
formas, do mesmo modo ocorrem formas diferentes de uso do solo, pelo que os
aglomerados humanos diferem em tamanho e em características. Por exemplo,
as atividades económicas: a agricultura ou a indústria e o comércio ou os servi-
ços são estabelecidas atendendo ao tipo de aglomerado, moldando e transfor-
mando a sua forma e estabelecendo relações de complementaridade. Porém,
assumindo que os aglomerados humanos, são diversos e complexos, acabam
por se relacionar, pelo que se justifica a forma como o homem estabelece essas
relações, como ocupa e usa os recursos do ambiente, como dispõe as “coisas”
no espaço (LIMA 2016).
No entanto, se a Administração Pública não exercer o seu poder para acio-
naros instrumentos de planeamento territorial poderão ocorrer uma ocupação
espontânea e à margem das normas estabelecidas para o uso do espaço, con-
trariando a forma em que ela concebe a estruturação de tal ocupação. Nesta
perspetiva, Manteiga (2015, cp.) argumentou que a maior parte das coisas do
bem que se queira introduzir na cidade, enfrenta uma oposição daqueles que
querem perpetuar o tradicional ou mesmo denota-se desacato e quando se pro-
cura impor o saber do Governo local para corrigir, a parte que assiste manda
parar alegando que é para evitar criar-se a impopularidade do órgão.
Como referiu Domingos Orea:

“[...] é função da Administração Pública com carácter integral e que corta horizontal-
mente a todas as componentes do sistema territorial, orientar a ocupação do solo
urbano para conseguir o desenvolvimento sustentável da sociedade mediante a
previsão de sistemas territoriais harmónicos, funcionais e equilibrados capazes de
proporcionar a população uma qualidade de vida satisfatória” (OREA 2008, 55)

Talvez seja esta sonegação da função da Administração Pública, uma das


razões da ocupação espontânea e informal do solo urbano nas cidades moçam-
bicanas. De contrário, o fenómeno de ocupação espontânea e informal do solo
282 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

urbano revela a forma como os membros dos órgãos entendem a ocupação do


espaço urbano tendo em conta as suas tradições, ou então pode ser a resposta
que os sujeitos dão face ao conflito entre os saberes.

4. AS DESIGUALDADES ESPACIAIS EM MOCUBA


Um olhar sobre a cidade de Mocuba é visível um “espaço dividido” (SANTOS
2009, 96), onde, de um lado está o circuito inferior da economia urbana. Nes-
te fluxo de circuito inferior são visíveis as precariedades da cidade mostrando
como os naturais e os “vientes” impõem sua ordem no espaço, por exemplo ao
montarem os seus negócios nos passeios da cidade ou em barracas em fronte
das residências.
Do mesmo modo, os estrangeiros, principalmente nigerianos e burundienses,
colocam contentores na berma do passeio para servir de loja onde vendem pe-
ças de veículos e outros produtos, muitos deles de origem e qualidade duvidosa,
como ilustram as fotos da figura 2.

Figura 2. Circuito Inferior da Economia


MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
283
João Carlos Mendes Lima

Por outro lado, as desigualdades e precariedades, são semelhantes com


as existentes em muitos bairros periféricos de grandes cidades em África e no
mundo. Esses bairros assemelham-se ao que Lemos descreveu sobre a situação
vivida na cidade do Rio de Janeiro no Brasil, referindo que:

“Ao lado garantia de bom passadio a alguns, também atraiu a outros tristeza do mal-
-morar porque a carência de moradia se agravou ao desespero fazendo surgir o cor-
tiço promíscuo e insalubre, programa nunca imaginado por estas bandas. Apareceu
na cidade a casa incompleta” (LEMOS 1999, 14).

De igual que as precariedades referidas pelo autor, nestas situações em Mo-


çambique e em Mocuba em particular, mostram claramente que “os governos
não interferiam na organização interna das residências, cujas plantas, no entan-
to, eram extremamente semelhantes entre si, como se houvesse acordo tácito
coletivo entre os moradores das cidades” (Idem). Por isso, o poder público não
interferia nas condições de iluminação, nem de ventilação e no tamanho das
mesmas, facto que aconteceu nas três centenas de casas das moradias do Com-
plexo Têxtil de Mocuba.
Provavelmente seja esta facilidade ou fraqueza do poder público que originou
o adensamento populacional, quer seja pela migração campo-cidade, quer com a
vinda de migrantes nacionais e estrangeiros. Todos eles vieram ocupar o subúrbio
edificando residências de construção precária na esperança de encontrar melhor
vida na cidade. No entanto, este processo veio trazer a reboque a degradação da
qualidade de vida em várias áreas urbanas. Assim, as casas melhoradas (de tijolos
ou blocos) tornaram-se insuficientes para abrigar boa parte da população que se
via obrigada a habitar em casas precárias, sem condições condignas.
Este tipo de habitação começou a transformar a cidade de Mocuba num local
onde coabitam edificações insalubres e casas luxuosas, construídas em ruas es-
treitas e tortuosas propiciando o alastramento de doenças epidémicas de origem
hídrica, tais como diarreia, cólera e malária ou favorecer a criminalidade.
Todavia, apesar da pobreza, ser um dos responsáveis da ocupação informal,
como reconheceu Forrester (1975), pesquisas realizadas recentemente sobre o
mercado imobiliário nos assentamentos do subúrbio indicam que a localização
residencial é um elemento importante no universo familiar dos sujeitos de baixa
renda.
Na visão de alguns autores que realizaram estudos dessa natureza, conside-
ram que a localização residencial faz com que a população tenha acesso a vários
serviços e facilidades oferecidas pela cidade em termos de emprego e renda,
nichos de serviço e comércio urbano (formal e informal), transporte coletivo,
equipamentos e serviços públicos, bem como outros fatores de acessibilidade
na hierarquia de localizações da cidade.
284 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

Pelo que, os laços comunitários de solidariedade e a proximidade de uma


eventual fonte de renda podem ser considerados como fatores condicionantes
nas dinâmicas de produção e ocupação do espaço urbano, já que como estraté-
gias de sobrevivência, influenciam na escolha da territorialidade dos sectores de
baixa renda, como ilustram as fotos da figura 3.

Figura 3. Casas do Subúrbio da Cidade de Mocuba

Por isso:

“[...] uma cidade pode escolher, em escala substancial, o conjunto de pressões sob as
quais deseja existir. Há muitos componentes da atratividade urbana e se um desses
componentes é reduzido, outros podem ser aumentados. A cidade ideal não pode
ser criada. Há muitas coisas que a sociedade e a administração pública de áreas
urbanas podem fazer. Uma coisa que não podem fazer, entretanto, é produzir a ci-
dade perfeita. Podem, contudo, exercitar ampla escolha entre modelos de cidades
imperfeitas”.(BARCELLOS et al. 2004, 137, op. cit. FORRESTER 1975)
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
285
João Carlos Mendes Lima

No entanto, a cidade de Mocuba seguramente ainda não escolheu os limi-


tes de pressões que pretende vir ser num futuro não muito distante, quando foi
declarada Zona Económica Especial (ZEE). A continuar assim, com a chegada
contínua de sujeitos para virem exercer as suas atividades, mesmo as do sector
informal, alegando aumentar a base de contribuintes para as receitas, a cidade
pode continuar a expandir-se fora da sua capacidade de gestão. Deste modo,
novos e mais problemas virão juntar-se aos atuais.
Contrariamente, tem-se o outro lado, o do circuito superior da economia
urbana, o circuito do capitalismo internacional, que é caracterizado pelo di-
namismo do grande capital, constituído por “negócios bancários, comércio
de exportação e indústrias de exportação, indústria moderna urbana, comér-
cio moderno, serviços modernos, comércio atacadista e transporte” (SANTOS
2012, 97). Daí que, este artigo procura captar a espacialidade dessas desi-
gualdades, como ilustra a figura 2 (Circuito Inferior da Economia) e figura 4
(Circuito Superior da Economia), assim como a geograficidade de redes de
articulação.

Figura 4. Circuito Superior da Economia

Em decorrência da modernização contemporânea nos países em vias de de-


senvolvimento (PVD) como Moçambique, segundo Milton Santos (2012) vão se
286 Iberografias Revista de Estudos Ibericos

estabelecendo dois sistemas de fluxos de satisfação das necessidades: dos que


têm acesso permanente de bens e serviços e dos que não podem satisfazer-se
delas. Deste modo, “o sistema de fluxos afasta a maioria dos sujeitos para o cir-
cuito inferior da economia, na medida em que a indústria é cada vez menos uma
resposta à necessidade de geração de emprego” (Idem 95).
Para Moçambique, a situação ainda pode ser pior, visto que a indústria era e
é incipiente, baseada no processamento primário para a produção de matéria-
-prima e no caso vertente de agro processamento. Daí que, muitos dos sujeitos
encontram no sector informal, lugar para obter renda para a sua subsistência. Al-
ternativamente, uma parte considerável da população emprega-se em sectores
com salários baixos e dependendo de trabalho ocasional ou sazonal, em contra-
posição, muito poucos se integram em empregos com salários altos, por falta de
qualificação técnica (LIMA 2016).
Quanto ao surgimento de sector informal, estas resultam da grave crise eco-
nómica que o país atravessou nos anos oitenta do século passado quando sofreu
a sabotagem da economia por parte dos países do hinterland, integrados na
estratégia de destruir o sistema socialista que se adotou. Foi nesse período que
o espaço de ‘mandar’ esteve bastante enfraquecido e o espaço de ‘fazer’ passou
a controlar as rédeas do processo. Para contornar a crise e no âmbito de adoção
de mecanismos de sobrevivência, os sujeitos locais empreenderam a iniciativa
de realizar comércio e atividades informais denominados ndumbanengue, que
na Zambézia é conhecido por boutique inclina (Idem).
Neste contexto, o tipo de demanda trazido pelo sector informal na economia
da cidade não constitui desvio em relação ao padrão, mas sim a resposta que as
comunidades locais dão, ou até como uma forma específica e local de produção
do espaço. Considera-se assim, porque o sector informal surge como trabalho
barato e ao mesmo tempo como atividade que fornece produtos a preços mais
baixos que as famílias de baixa renda podem pagar.
Portanto, este artigo procura evidenciar, como referiu Milton Santos (2012),
que a dinâmica interna da cidade é tratada como um ciclo, como interatividade
da vida urbana, como espaço em rede. Assim, a dinâmica interna da cidade mos-
tra a relação que se estabelece entre os dois circuitos da economia urbana como
um processo de complementaridade, de concorrência e de subordinação de um
sobre o outro, evidenciando as suas precariedades. Analisa-se desta forma, por-
que algumas pessoas que vendem na rua ou em boutique inclina, o fazem, não
por conta própria, mas como empregados indiretos do sector formal, uma estra-
tégia de fuga ao fisco (LIMA 2016).
De igual modo, existem os informais que trazem produtos, muita das vezes
do Malawi ou de outros países, contra todos os riscos, no intuito de contornar
a fiscalização aduaneira, que depois são vendidos, quer aos formais, quer aos
informais. Assim, o artigo pretende demonstrar que o informal não é apenas uma
MOCUBA, UMA CIDADE MÉDIA: REFLEXÃO EM TORNO DOS CONFLITOS NA PRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO
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João Carlos Mendes Lima

adição à economia formal, nem uma adição de corpos estranhos, mas sim uma
dinâmica interna da geograficidade na urbanicidade d