Você está na página 1de 4

TOC 96 - Março 2008

D i r e i t o

Princípios de Direito Fiscal


Por António Cipriano da Silva

O dia-a-dia de um Técnico Oficial de Contas é marcado por regras de Direito


Fiscal. Assim sendo, faz todo o sentido o conhecimento dos seus princípios fun-
damentais. Este trabalho apresenta-os e explica-os de forma simples, ao mesmo
tempo que identifica dois grupos de directrizes orientadoras: os princípios de
raiz constitucional e os inerentes ao procedimento tributário.

O
homem é um ser social que fiscais foi sendo banalizado, conferindo aos
realiza o seu quadro completo impostos o carácter permanente e decisivo no
de necessidades mediante a financiamento do Estado que hoje conhece-
concretização de relações sociais com mos.
o seu semelhante. Todavia, a vivência Actualmente, o envolvimento e a complexidade
em sociedade implica regras, as quais dos impostos impõem a implementação de um
têm de ser implementadas e garantidas ramo jurídico dedicado em exclusivo a esta te-
António Cipriano da Silva
Licenciado em Gestão por uma autoridade superior, conheci- mática: o Direito Fiscal.
TOC n.º 67 703
da como Estado. O Direito Fiscal pode ser definido como um ramo
O conceito de Estado tem vindo, pro- do Direito Público dotado de autonomia própria
gressivamente, a alargar as suas funções e do- que regulamenta e disciplina todo o processo
mínios, a áreas antes inimagináveis. A conse- tributário, desde o nascimento, desenvolvimento
quência óbvia foi o incremento das necessidades e extinção da obrigação tributária, tendo como
financeiras do Estado, só possíveis de concretizar conceito nuclear o imposto. Não existe, todavia,
mediante a implementação de impostos. De fac- por parte da doutrina uma definição unânime de
to, os impostos são o preço pela nossa vida em imposto.
sociedade. Odiados, mas necessários para a con- Numa definição geral, imposto é uma prestação
cretização dos valores da democracia, igualdade patrimonial devida, de natureza definitiva, com
e Estado social. carácter obrigacional, estabelecido por lei, exi-
Os impostos nem sempre tiveram as carac- gível a quem tem capacidade contributiva, a fa-
terísticas que hoje conhecemos. Na Idade vor de entidades que exerçam funções públicas
Média tinham um carácter extraordinário. com carácter de unilateridade e sem carácter
Os monarcas apenas se podiam socorrer de- de sanção. O carácter obrigacional do imposto
les em situação anómalas que assim o justifi- significa que ele é o objecto de uma obrigação,
cassem, sendo o suporte financeiro da coroa a obrigação fiscal. Por outro lado, o imposto é
as receitas dos seus bens. Por outro lado, a uma prestação, identificada como uma condu-
deliberação da cobrança de impostos tinha ta exigida ao devedor de natureza simultanea-
de ser aprovada pelas Cortes, onde estavam mente pecuniária e definitiva, pois não confere
representados os contribuintes, bem de acor- ao devedor a sua devolução, sendo igualmente
do com a máxima da Magna Carta Inglesa de unilateral, pois o imposto é uma prestação que
1215 - No taxation without representation. não pressupõe uma contrapartida directa e in-
Só mais tarde, e no âmbito do processo de dividualizada, ao contrário das taxas. Por últi-
reforço e centralização dos poderes reais, e mo, refira-se que a prestação é estabelecida a
da construção do Estado moderno dos séculos favor de entidades públicas, ou entidades que
XVI, XVII e XVIII, foi abandonado a regra de exerçam funções públicas, em regra pessoas co-
convocação das cortes para a aprovação dos lectivas de direito público, tendo por fim a ob-
impostos. O Estado moderno e centralizado, tenção das receitas necessárias à prossecução
adoptou uma estrutura burocrática e objec- das actividades do Estado nos seus diferentes
tivos de tal ordem que o recurso às receitas domínios.

54
TOC 96 - Março 2008

Directrizes orientadoras do Direito Fiscal Segurança jurídica

O dia-a-dia de um Técnico Oficial de Contas é Já o princípio constitucional da segurança


marcado por regras de Direito Fiscal. Assim sen- jurídica é uma inerência do postulado que
do, faz todo o sentido o conhecimento dos seus prevê um sistema jurídico estável e previsí-
princípios fundamentais. Ao nível do Direito Fis- vel, de modo a que o cidadão saiba a todo
cal devemos identificar dois grupos de directrizes o momento quais as regras jurídicas que de-
orientadoras: os princípios de raiz constitucional terminam a sua vida quotidiana. Ora, em Di-
e os princípios inerentes ao procedimento tribu- reito Fiscal, facilmente se compreende a im-
tário. Ao nível dos princípios de raiz constitucio- portância da determinabilidade e precisão
nal, temos o princípio da legalidade, o princípio das normas fiscais, para um saudável desen-
da segurança jurídica, o princípio da protecção rolar das actividades económicas. O cerne
jurídica, o princípio da igualdade e o princípio do princípio da segurança jurídica advém da
do Estado social. proibição constitucional da retroactividade
O princípio de legalidade, expresso no arti- das normas fiscais expressa no artigo 103.º,
go 103.º n.º 2 da Constituição da República n.º 4 da CRP, sendo esta disposição apenas ex-
Portuguesa (CRP) impõe que os impostos e os plicitada no texto após a revisão constitucional
seus elementos essenciais (incidência; taxa, de 1997. Ao nível da Lei Geral Tributária este
benefícios fiscais e garantia dos contribuin- requisito está expresso no artigo 12.º. Outra
tes) têm obrigatoriamente de ser criados por dimensão do princípio da segurança jurídica
lei. Nesta perspectiva, o princípio da legali- advém da obrigação constitucional prevista no
dade está ligado umbilicalmente ao princípio artigo 268.º, n.º 3, e no artigo 77.º da LGT,
democrático, visto que os impostos apenas segundo o qual, qualquer decisão da adminis-
podem ser criados e regulamentados pelo ór- tração fiscal carece de ser comunicada ao seu
gão que representa directamente o povo so- destinatário, devendo esta ser devidamente
berano – a Assembleia da República. De fac- fundamentada, contendo a indicação taxativa
to, o artigo 165.º n.º 1, alínea i) estabelece das disposições legais aplicáveis. De acordo
que as matérias referentes a impostos são da com o artigo 37.º do Código do Procedimen-
reserva relativa da Assembleia da República to do Processo Tributário, se a notificação ao
(AR). Quer isto dizer que os impostos apenas contribuinte não contiver a respectiva funda-
podem nascer ou de uma lei da Assembleia mentação poderá o interessado, no prazo de
da República ou de um decreto-lei autorizado 30 dias, requerer a notificação de certidão dos
pelo Governo, habilitado primeiramente por requisitos que lhe sejam omitidos.
uma lei de autorização legislativa nos termos Quanto ao princípio da protecção jurídica, con-
do artigo 165.º, n.º 2, 3 e 4 da CRP. Sem este sagra o direito dos contribuintes poderem recor-
pressuposto formal, os impostos serão ilegais rer à justiça tributária para fazer valer os seus
e inválidos. O princípio da legalidade é, con- interesses legítimos, sendo uma consequência
tudo, pormenorizado no artigo 8.º da Lei Ge- directa do artigo 20.º da CRP, especificado no
ral Tributária, onde é definido o seu âmbito. artigo 9.º da Lei Geral Tributária.
Todavia, o princípio da legalidade não pode
ser levado ao extremo, sob pena de total im- Princípio da igualdade d i r e i t o
praticabilidade. O seu objectivo é, somente,
que os elementos essenciais sejam definidos O princípio da igualdade é um princípio ju-
por lei. Daí ser necessário conjugar com o rídico-constitucional, transversal a todo o or-
princípio da praticabilidade, de modo a que denamento jurídico, que ao nível do Direito
administração fiscal goze de alguma discri- Fiscal se expressa na obrigação universal de
cionariedade ao nível da luta contra a evasão todos os cidadãos se encontrarem adstritos
fiscal. A título de exemplo, o CIRS permite à ao pagamento de impostos. Todavia, uma das
DGCI corrigir o valor de mercado dos bens dimensões do princípio da igualdade é a proi-
atribuído pelo empresário individual aquando bição do arbítrio, ou seja, deve ser tratada de
da sua afectação à empresa ou da sua transfe- forma igual as situações iguais, e de forma
rência para o seu património individual. Neste desigual as situações desiguais. Neste senti-
caso, não é necessária uma lei da AR, haven- do, a obrigação do pagamento de impostos é
do uma autonomia da administração fiscal. mediada pela capacidade contributiva. Impli-

55
TOC 96 - Março 2008

D i r e i t o

ca, assim, igual imposto para os que dispõem contribuintes; princípio do inquisitório; princí-
de igual capacidade contributiva (igualdade pio da colaboração; princípio da participação.
horizontal) e diferente imposto para os que Vejamos cada um deles.
dispõem de diferente capacidade contributi- O princípio da decisão e da celeridade está
va, na proporção desta diferença (igualdade tipificado nos artigos 56.º e 57.º da LGT. O
vertical). Mas princípio da igualdade tam- artigo 56.º expressa o dever da administra-
bém se expressa na obrigação da imposição ção tributária de se pronunciar sobre todas
de medidas diferenciadoras de modo a obter as questões da sua competência que lhe
uma igualdade de oportunidades necessária sejam apresentados pelos contribuintes. O
à igualdade real entre cidadãos. É neste con- artigo 57.º estipula que o procedimento tri-
texto que se justifica a discriminação positiva butário deve estar concluído em seis meses,
da família, ou as deduções à colecta em sede devendo os actos do procedimento adminis-
de IRS em função do número de filhos, por trativo ser praticados no período de dez dias.
exemplo. Este objectivo está consagrado no A exigência de celeridade é suportada pela
artigo 67.º, n.º 2, alínea f) e no artigo 104.º definição de prazos de prescrição de quatro
da CRP e no artigo 6.º da Lei Geral Tributária: anos para a liquidação (artigo 45.º da LGT) e
«A tributação respeita a família e reconhece oito anos para as dívidas fiscais (artigo 48.º
a solidariedade e os encargos familiares, de- da LGT).
vendo orientar-se no sentido do conjunto dos O princípio da confidencialidade protege os da-
rendimentos do agregado familiar não esteja dos pessoais dos contribuintes devendo, de acor-
sujeito a impostos superiores aos que resulta- do com o artigo 64.º da LGT, nortear a activida-
riam da tributação autónoma das pessoas que de dos funcionários e agentes da administração
o constituem.» tributária.
O artigo 75.º da LGT estabelece, até que se pro-
Princípios de procedimento tributário ve o contrário, a presunção da verdade das de-
clarações dos contribuintes, formulando assim
Complementarmente aos princípios constitucio- o princípio pelo respeito pelas declarações dos
nais, temos os princípios de procedimento tri- contribuintes.
butário. De acordo com o artigo 54.º da LGT, o Quanto ao princípio do inquisitório, expresso no
procedimento tributário identifica-se, como toda artigo 58.º da LGT, impõe no âmbito do procedi-
a sucessão de actos dirigida à declaração de di- mento tributário o dever da administração efec-
reitos tributários, designadamente: tuar todas as diligências necessárias à satisfação
• As acções preparatórias ou complementares de do interesse público, na procura da verdade tri-
informação e fiscalização tributária; butária, não devendo esta ficar subordinada à
• A liquidação dos tributos quando efectuada iniciativa do autor do pedido.
pela administração tributária; Um dos princípios fundamentais do procedi-
• A revisão, oficiosa ou por iniciativa dos interes- mento tributário é o princípio da colaboração,
sados, dos actos tributários; tipificado no artigo 59.º da LGT. O objectivo
• O reconhecimento ou revogação dos benefí- deste é promover a colaboração entre a admi-
cios fiscais; nistração fiscal e os cidadãos. Este consubstan-
• A emissão ou revogação de outros actos admi- cia-se em:
nistrativos em matéria tributária; a) A informação pública, regular e sistemática
• As reclamações e os recursos hierárquicos; sobre os seus direitos e obrigações;
• A avaliação directa ou indirecta dos rendimen- b) A publicação, no prazo de seis meses, das
tos ou valores patrimoniais; orientações genéricas seguidas sobre a interpre-
• A cobrança das obrigações tributárias, na parte tação das normas tributárias;
que não tiver natureza judicial. c) A assistência necessária ao cumprimento dos
Como fundamentais princípios de procedi- deveres acessórios;
mento tributário temos: princípio da decisão e d) A notificação do sujeito passivo ou demais in-
da celeridade; princípio da confidencialidade; teressados para esclarecimento das dúvidas so-
princípio pelo respeito pelas declarações dos bre as suas declarações ou documentos;

56
TOC 96 - Março 2008

e) A informação vinculativa sobre as situações buintes nas decisões que lhe digam respeito,
tributárias ou os pressupostos ainda não concre- mediante o exercício do direito de audição,
tizados dos benefícios fiscais; que pode ser requerido nas seguintes situa-
f) O esclarecimento regular e atempado das fun- ções:
dadas dúvidas sobre a interpretação e aplicação - Direito de audição antes da liquidação, excep-
das normas tributárias; to se esta se efectuar com base nas declarações
g) O acesso, a título pessoal ou mediante repre- dos contribuintes;
sentante, aos seus processos individuais ou, nos - Direito de audição antes do indeferimento total
termos da lei, àqueles em que tenham interesse ou parcial dos pedidos, reclamações, recursos
directo, pessoal e legítimo; ou petições;
h) A criação, por lei, em casos justificados, de re- - Direito de audição antes da revogação de qual-
gimes simplificados de tributação e a limitação das quer benefício ou acto administrativo em maté-
obrigações acessórias às necessárias ao apuramen- ria fiscal;
to da situação tributária dos sujeitos passivos; - Direito de audição antes da decisão de apli-
i) A publicação, nos termos da lei, dos benefí- cação de métodos indirectos, quando não haja
cios ou outras vantagens fiscais salvo quando a lugar a relatório de inspecção;
sua concessão não comporte qualquer margem - Direito de audição antes da conclusão do rela-
de livre apreciação da administração tributária; tório da inspecção tributária.
j) O direito ao conhecimento pelos contribuintes É através do direito de audição que se consa-
da identidade dos funcionários responsáveis pela gra a aplicação prática do princípio do con-
direcção dos procedimentos que lhes respeitem; traditório, podendo assim o contribuinte fazer
l) A comunicação antecipada do início da ins- valer o respeito pelos seus direitos. Mas os
pecção da escrita, com a indicação do seu âmbi- direitos dos contribuintes não ficam por aqui.
to e extensão e dos direitos e deveres que assis- Na estrita referência ao princípio constitucio-
tem ao sujeito passivo. nal da protecção jurídica, os cidadãos podem
Em estrita coordenação ao princípio da cola- apresentar junto da administração fiscal re-
boração temos o direito à informação. De fac- clamações oficiosas, recursos hierárquicos e,
to, a LGT, no artigo 67.º concede ao cidadão em última análise, impugnações judiciais jun-
o direito à informação, acerca da fase em que to dos tribunais fiscais e administrativos.
se encontra o procedimento e a data previsí- Ultimamente temos assistido a uma política
vel da sua conclusão, sobre a existência e teor agressiva da administração fiscal assente na
das denúncias dolosas não confirmadas e a redução dos direitos dos contribuintes. Aos
identificação do seu autor; bem como a saber Técnicos Oficias de Contas, enquanto espe-
dados acerca da sua concreta situação tribu- cialistas e parceiros das empresas compete
tária. Todas estas informações, quando reque- a defesa intransigente dos direitos dos seus
ridas por escrito, devem ser prestadas no pra- clientes, só possível com um conhecimento
zo de 10 dias. Ainda importante no âmbito do aprofundado dos princípios e garantias pre-
direito à informação, é o instrumento previsto vistas em sede do procedimento tributário.
no artigo 68.º da LGT e no artigo 57.º do Có- Em última análise, em virtude da sua proximi-
digo do Procedimento e Processo Tributário dade com o mundo empresarial, os Técnicos
– informação vinculativa. As informações vin- Oficias de Contas actuam enquanto primeira d i r e i t o
culativas são solicitadas ao dirigente máximo barreira de defesa do Estado de Direito, no
do serviço, devendo o pedido ser acompa- âmbito das garantias dos cidadãos na sua re-
nhado da identificação dos factos com a qua- lação com a administração fiscal. ■
lificação jurídico-tributária pretendida. Neste
caso, o parecer emitido pela administração (Texto recebido pela CTOC
tributária vincula a mesma, não podendo esta em Outubro de 2007)
posteriormente proceder de modo contrário à
informação prestada.

Princípio da participação Bibliografia

O princípio da participação (artigo 60.º da Disponível para consulta no site da CTOC (www.ctoc.pt).
LGT) visa garantir a participação dos contri-

57