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A Caverna Pós-Moderna

Washington Montez de Noronha

Lembro-me de quanto me eram preciosas, quando criança, as guloseimas com que


meu pai nos presenteava, quando verificava que meu dever de casa estava pronto e
que havia me comportado bem durante o dia. Quando adulto, descobri que precisava,
para continuar vivendo, destas mesmas guloseimas, sob a forma agora de coisas
capazes de proporcionar prazer ao meu corpo ou de empolgar a minha mente de
alguma forma.

É surpreendente perceber como as pessoas em nossa cultura pós-moderna


reconstroem o mundo, de modo a faze-lo parecer um lugar maravilhoso, depois de
inteiramente despido de sua dimensão metafísica. Isso me faz lembrar da alegoria da
caverna, que Platão usou para representar o abismo existente entre o real e o
imaginário. O mundo do nosso tempo é uma caverna pós-moderna, que a ciência, a
tecnologia e arte se encarregaram de iluminar, de modo a nos convencer que não
existe vida fora dela.

A ciência e a filosofia limitaram a possibilidade do conhecimento humano à linha de


horizonte que separa a vida e a morte. Dessa forma, ao se perceber encerrado em um
universo que foi contido nas estreitas fronteiras do imanente, o indivíduo se vê de
súbito tomando por uma angústia inexplicável, que é uma mistura de solidão, de
inquietude e de incerteza.

Incapaz de aceitar a ideia de viver sob na dependência do poder e da vontade


soberana de Deus, ele declarou sua própria liberdade, por não suportar a sensação
aterradora de viver continuamente sob o olhar do Criador. O homem pós-moderno,
depois de haver saído por alguns instantes da sua caverna, não suportou a luz exterior
e voltou para dentro, para a familiar solidão do seu próprio eu.

Livre das amarras da religião, mas dominado pelo desespero de se ver outra vez só no
mundo, precisa então reinventar a si mesmo e à forma de se relacionar com o mundo,
para que não venha a sucumbir sob o peso dessa angústia.

Nesta tarefa, ele recorre então a todas as possibilidades que a razão pode lhe
proporcionar e lança sobre a natureza um olhar perscrutador insaciável. Debruça-se
sobre a vida cotidiana e busca tentar compreender ou simplesmente contemplar tudo
aquilo que desperta a sua atenção, tudo que o perturba, intriga ou simplesmente o
diverte.

Ao mergulhar assim com corpo e alma no mundo que o cerca, sugando


incansavelmente cada sensação, cada informação, explorando novas formas e novos
sentidos, o homem pós-moderno conquista para si um certo conforto existencial, algo
capaz de dar a ele um sentido, ainda que provisório, para a sua própria vida. Isso
proporciona uma sensação de liberdade e de ausência de limites, que reconforta a
alma.

As pessoas se lançam então a explorar, ad nauseam, as mais ínfimas fibras que


constituem o seu corpo e a sua mente. Os cientistas mergulham no íntimo dos átomos
e ao mesmo tempo tentam enxergar além da infinitude do cosmos. Mas essa
inquietação toda não esconde o real objetivo dessa busca, que é o de encontrar o seu
lugar nessa ordem, ou nessa aparente desordem. Em outras palavras, esse objetivo
nada mais é que o de encontrar a felicidade.

A verdadeira felicidade entretanto não é algo que pode estar contido no imanente,
pois embora pareça aos sentidos não ter limites, o universo está limitado à sua própria
ordem, ou seja, à sua condição física, transitória e descontínua. Todo ser humano
possui em seu íntimo um impulso ontológico de transcender essa realidade, por mais
que tente nega-lo ou disfarça-lo através da arte, do hedonismo ou mesmo através de
ideais éticos.

Este impulso provém da consciência da existência de Deus que está inculcada no


âmago do meu ser e é ela que proporciona o verdadeiro sentido para minha existência
e para a minha vida. Mas essa busca de Deus não é a mesma coisa que a assimilação
de um conceito religioso.

Conforme percebeu Kierkegaard, o homem é a síntese perfeita do finito e do infinito,


do que tem medida e do que é incomensurável. Entretanto, essa síntese somente
pode se realizar em Deus. Se, em sua angústia existencial o homem se perde em si
mesmo, ele aborta a sua realização pela negação de Deus. Se ele, por outro lado,
ansiando pela transcendência, renuncia à sua humanidade e se recusa a se relacionar
com a realidade natural, ele se perde de seu eu e aborta sua realização pela negação
de si mesmo.

O conceito religioso de Deus é como um signo que aponta para um significado real,
mas que só é possível conhecer através de uma jornada também angustiante e
reveladora, mas em sentido oposto ao da busca de si mesmo. Paradoxalmente, eu
somente posso me encontrar verdadeiramente quando me lanço para fora de mim
mesmo e entrego o todo o meu ser ao amor do Pai, em cujas mãos eu fui criado. Isto
não é o mesmo que negar a si mesmo, no sentido existencial ou metafísico, mas
consiste em abrir mão da vontade do meu eu, para que a perfeita vontade do Pai se
revele através da minha própria vontade.

Voltaire reconhecia o desconforto da incerteza, mas afirmava que esse desconforto


era preferível ao absurdo da certeza. Do ponto de vista estritamente científico ou
filosófico, ele tinha razão. Entretanto, a fé é uma forma de conhecimento
suprarracional, por que transcende os limites da realidade natural estabelecidos pela
razão. A fé é o conhecimento transmitido por Deus ao homem que está em comunhão
espiritual com ele e proporciona a certeza inabalável daquilo que ainda não pode ser
percebido pelos sentidos ou discernido pela razão.

A fé portanto é essencialmente distinta da crença, com a qual muitas vezes é


confundida, no sentido em que esta é fruto de uma convicção subjetiva, individual ou
coletiva, mas que nem sempre é verdadeira. Essa fé, dada por Deus, é a única via pela
qual é possível ao homem transpor o abismo existente entre a sua natureza humana,
finita e corrupta e a sua natureza espiritual, infinita e perfeita, que é a realização de
sua síntese existencial em Deus.

É somente quando perco o medo de abandonar a caverna do meu ser e me expor à luz
e decido com intrepidez transpor o abismo que me separa da verdadeira vida, através
do meu encontro com Deus, que posso encontrar a verdadeira felicidade. Quando
encontro a Deus e passo a viver em consonância com a sua vontade e Ele passa a viver
em meu íntimo, posso então compartilhar de sua mesa e a me deleitar com
maravilhosas iguarias. A partir de então não preciso mais me contentar com as
guloseimas materiais que me ajudam apenas a esperar a morte.