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Direito Administrativo

Material de apoio – Administração pública: conceito, classificação, fontes e princípios


Professor: Ramiro Howes

DIREITO ADMINISTRATIVO

01) ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

a) Noções introdutórias
O ato de administrar na esfera pública é bem diferente do que é desempenhado na
seara particular, já que na administração privada, normalmente, há a busca pelo lucro, e a
gestão de cada organização é idealizada internamente, observando-se, apenas, as normas
gerais estabelecidas na legislação. Ao contrário, a gestão da coisa pública é pautada na busca
pelo interesse público e, assim, os limites de atuação do administrador público são bem
menos elásticos que no setor privado.
Nesse diapasão convém destacar que a Administração pode ser vista em vários
sentidos:
(i) Administração pública em sentido amplo: engloba a atividade política e a atividade
administrativa 1. Inclui tanto os órgãos governamentais – que estabelecem os planos
e as metas políticas – quanto os órgãos administrativos destinados à execução dos
planos de governo.
(ii) Administração pública em sentido estrito: são postos de lado a atividade política e os
órgãos governamentais e, assim, corresponde, exclusivamente, à função
administrativa exercida pelos órgãos administrativos.
A Administração pública em sentido estrito, modelo que interessa ao direito
administrativo, deve ser analisada da seguinte forma: subjetivo, formal ou orgânico; e
objetivo, material ou funcional. A saber:
* Sentido subjetivo, formal ou orgânico: diz respeito ao conjunto de pessoas jurídicas, órgãos
públicos e agentes públicos que realizam atividade administrativa. Aqui é levado em conta

1Atividade administrativa nada mais é do que a gestão de bens, interesses e serviços públicos com o objetivo
de se alcançar o bem comum, atendo-se sempre à lei e à moralidade administrativa. A natureza jurídica da
atividade administrativa pública é uma obrigação assumida em nome e em razão do interesse público, sendo
certo que os direitos e as prerrogativas conferidos ao agente são em função de seu cargo e nunca em razão de
sua pessoa.
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é quem faz a atividade administrativa, quem integra a Administração Pública. O Brasil
adota o critério formal de administração pública. Portanto, somente é Administração
Pública, juridicamente, aquilo que nosso direito assim o considera, não importa a atividade
que exerça.
Ex: órgãos públicos, autarquias, fundações públicas, sociedade de economia mista e
empresas públicas.
* Sentido objetivo, material ou funcional: refere-se à Administração Público como atividade
destinada a satisfazer as necessidades coletivas; é entidade administrativa. A ênfase é para
a atividade e para o que o desempenhado. O que importa aqui é a função, o conteúdo e a
atividade, e não quem a executa.
Ex: Nesse caso as sociedades de economia mista que exercem atividade econômica em
sentido estrito, como o Banco do Brasil S/A e Petrobrás S/A não entrariam no conceito de
Administração Pública. Por outro lado, uma empresa privada concessionária de serviços
públicos poderia assim ser considerada.

02) CONCEITO DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA


Em síntese, é possível conceituar a Administração Pública como o conjunto de
pessoas jurídicas, órgãos públicos e agentes públicos que realizam a atividade
administrativa, consistente em serviços públicos, fomento, polícia administrativa e
intervenção.

03) FONTES DO DIREITO ADMINISTRATIVO


Fontes do direito são comportamentos que ensejam a criação de uma determinada
norma. No direito administrativo não há uma codificação, isto é, os textos administrativos
não estão reunidos em um só corpo de lei, como ocorre em outros ramos do direito.
As normas administrativas estão espalhadas, tanto no texto constitucional como em
diversas leis ordinárias e complementares e em outros tipos de diplomas normativos como
decretos-lei, medidas provisórias, dentre outros.
Dessa forma, as doutrinas administrativistas costumam a apontar seis fontes
principais deste ramo do direito, quais sejam: lei; jurisprudência; doutrina; princípios;
costume e tratados internacionais.

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 Lei: fonte primordial (primária) do direito administrativo brasileiro, em razão da
rigidez que o ordenamento jurídico brasileiro estabelece em relação ao princípio
da igualdade nesse ramo jurídico. Destaca-se que a lei, como fonte do direito
administrativo, deve ser interpretada em sentido amplo, abarcando quaisquer
espécies normativas, como CF/88, decretos, etc.
 Jurisprudência: são as decisões judiciais reiteradas sobre determinado assunto.
Exemplo: súmula vinculante sobre nepotismo.
Obs: Registra-se que a jurisprudência, em regra, é fonte secundária do direito
administrativo. No entanto, as súmulas vinculantes (que tem natureza
jurisprudencial) são consideradas fontes primárias.
 Doutrina: constitui fonte secundária. Trata-se da lição dos mestres e estudiosos
da matéria, ensejando o arcabouço teórico para justificar a atuação da
administração pública.
 Costumes: conjunto de regras não escritas, que, são, todavia, observadas de modo
uniforme por determinada sociedade, que as considera obrigatória. A prática
reiterada na Administração Pública deve ocorrer na lacuna normativa. É, por
exemplo, costume na Faculdade de Direito da USP que os docentes de maior
titulação e antiguidade escolham a matéria que querem ministrar.
 Princípios gerais do direito: são normas não escritas que servem de base para ele,
configurando-se vetores genéricos que informam o ordenamento jurídico do
Estado.
 Tratados internacionais: apresentam caráter normativo após a integração no
ordenamento jurídico pátrio.

PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DA DO DIREITO


ADMINISTRATIVO

Antes de adentrarmos ao estudo dos princípios constitucionais do direito


administrativo, é salutar ressaltar que esta ciência jurídica se insere na área do Direito
Público responsável por regular a função administrativa desempenhada por entes, órgãos,
agentes e atividades realizadas pela Administração Pública. Não existe uma definição

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fechada sobre esse conceito e cada autor que trata do tema seleciona os elementos
destacando-os como os mais relevantes para a área.
De qualquer sorte, faz-se mister apontar que a Administração Pública é regida pelo
regime jurídico administrativo, que constitui o conjunto de princípios que atribuem à
Administração prerrogativas próprias e sujeições, haja vista que o direito administrativo é
movido por dois opostos: de um lado a tutela dos direitos fundamentais, impondo restrições
à atuação administrativa e, de outro lado, a missão de concretização do interesse público e,
para tanto, a concessão de prerrogativas que possam tornar isso possível.
Anota-se que os princípios doravante estudados devem ser obedecidos pela
Administração Pública direta e indireta de quaisquer dos poderes da União, Estados,
Distrito Federal e Municípios.

01) DOS PRINCÍPIOS EXPLÍCITOS


Os princípios básicos da Administração Pública estão presentes na Constituição
Federal de 1988, no caput do art. 37 que dispõe: “A administração pública direta e indireta de
qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos
princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.”.
Logo, os princípios explícitos consagrados na CF/1988 serão doravante trabalhados:

a) Princípio da legalidade
Consoante entendimento apresentado por Celso Antônio Bandeira de Mello 2 “o
princípio da legalidade é específico do Estado de Direito, é justamente aquele que o qualifica e que lhe
dá identidade própria, por isso é considerado basilar para o Regime Jurídico-administrativo.”. Com
efeito, é o princípio que, de maneira mais íntima representa o Estado de Direito 3, revelando
a supremacia da lei e, dessa maneira, ainda se constitui em importantíssima forma de tutela
dos direitos fundamentais.
O princípio da legalidade não apresenta conteúdo idêntico para o particular e para a
Administração Pública. Na esfera privada, o particular só é obrigado a fazer o que está
previsto em lei e, assim, depreende-se que o que não está proibido está permitido; vigora a

2MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. São Paulo: Malheiros, 33ª ed., 2016.
3O estado de direito é assim ligado ao respeito da hierarquia das normas e dos direitos fundamentais. Em
outras palavras, o estado de direito é aquele no qual os mandatários políticos (na democracia: os eleitos) são
submissos às leis promulgadas.
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autonomia da vontade. Ao contrário, na seara pública, a atuação administrativa deve se dar
em conformidade com a lei, com o direito. Ao administrador somente é permitido agir de
acordo com a lei, não vigorando a autonomia da vontade. Soma-se a isso, também, que o
administrador não pode contrariar a lei.
Convém ressaltar que ao se afirmar que o administrador público só pode atuar
conforme determina a lei, amplamente considerada, abarcando todas as formas legislativas
– desde o próprio texto constitucional até as leis ordinárias, complementares e delegadas. É
a garantia de que todos os conflitos sejam solucionados pela lei, não podendo o agente
estatal praticar condutas que considere devidas, sem que haja embasamento legal específico.
Dessa forma, pode-se estabelecer que, no direito administrativo se aplica o princípio da
subordinação à lei.
Nesse diapasão não se pode confundir o princípio da legalidade com o princípio da
reserva legal, haja vista que este determina a aplicação de uma espécie normativa à atuação
definida no texto constitucional. Dessa forma, há algumas matérias que devem ser tratadas
por meio de lei complementar por expressa determinação constitucional que não exige
somente o respeito à lei, mas também à espécie normativa definida em seus termos. Ex: A
instituição de regiões metropolitanas é competência dos Estados e somente poderá ocorrer
mediante lei complementar (art. 25, § 3º da CF/88); apenas por lei complementar de
competência da União forças estrangeiras poderão transitar ou permanecer em território
nacional (art. 21, IV da CF/88); a área de atuação das fundações públicas deverá ser
estabelecida por lei complementar (art. 37, XIX da CF/88); os impostos previstos na Carta
Magna somente poderão ser instituídos por lei complementar (art. 146, “a” da CF/88),
dentre outros.
Por derradeiro cumpre ressaltar que as doutrinas administrativistas, em sua maioria,
entendem que o princípio da legalidade poderá ser mitigado nos casos de estado de sítio,
estado de defesa e medidas provisórias.
No caso das medidas provisórias tal relativização se dá pelo fato dessas medidas não
constituírem leis em sentido formal, uma vez que não se submetem ao processo legislativo
constitucional, sendo editadas pelo chefe do poder executivo. Entrementes, devem ser
analisadas como lei em sentido material, haja vista seu poder coercitivo de inovação no
ordenamento jurídico, em casos de relevância e urgência.

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Já o estado de defesa e o estado de sítio culminam em situações que reverberam em
permissão de uma atuação restritiva em desfavor dos particulares, mormente no que tange
às suas garantias e direitos fundamentais, visando a proteção do Estado e a ordem pública.

b) Princípio da impessoalidade
Este princípio se traduz na ideia de que a atuação do agente público deve-se pautar
pela busca dos interesses da coletividade, não visando a beneficiar ou prejudicar ninguém
em especial, isto é, a norma prega a não discriminação das condutas administrativas que
não devem ter como mote a pessoa que será atingida pelo seu ato. Deveras, o princípio da
impessoalidade reflete a necessidade de uma atuação que não discrimina as pessoas, seja
para benefício, seja para prejuízo. A aplicação deste princípio no contexto ora destacado
pode ser visualizada pelos concursos públicos e licitações, por exemplo.
Nessa senda, em relação aos administrados, parte da doutrina suscita que este
princípio é denominado também como princípio da finalidade, uma vez que a atuação
administrativa deve ser sempre conduzida em busca da finalidade pública, o que impediria
o administrador de buscar objetivos próprios ou de terceiros.
A doutrina moderna acrescenta ainda o entendimento tradicional de uma nova
perspectiva ao princípio trazido à baila. Logo, a impessoalidade deve ser observada também
em relação à própria Administração, sob a ótica do agente. Nesse sentido, quando o agente
público atua, não é a pessoa do agente quem pratica o ato, mas o Estado – o órgão que ele
representa 4. A par de exemplo, quando um fiscal do município apreende a mercadoria
comercializada por vendedor ambulante irregular, não foi o fiscal quem apreendeu, mas
sim o próprio Município.
Outra anotação relevante relacionada à imputação dos atos praticados pelo servidor
à pessoa jurídica é a proibição – existente no artigo 37, § 1º da CF/88 5 - de que ocorra menção
a nomes, símbolos ou imagens que caracterizem promoção pessoal. Em razão disso, viola a
impessoalidade pintar os prédios públicos com as cores do partido do prefeito, divulgar

4 Corresponde, portanto, à teoria do órgão ou teoria da imputação volitiva suscitada na matéria pertinente à
organização da administração pública.
5 A publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos deverá ter caráter

educativo, informativo ou de orientação social, dela não podendo constar nomes, símbolos ou imagens que
caracterizem promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos.
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outdoor com a foto do administrador, identificando-o como uma excelente administração,
ou, também, identificar obra pública como sendo mais uma obra do “governador x”.
Registra-se, ainda, que à vedação ao nepotismo (súmula vinculante 13 do STF 6), que
será discutida ao discorrermos sobre servidores públicos, decorre amplamente do princípio
ora estudado.

Obs: O STF consagrou recentemente o denominado princípio da intranscendência


(informativo 791), que excepcionaliza a ideia de impessoalidade, pois inibe a aplicação de
severas sanções a entidades federativas por ato de gestão anterior à assunção dos deveres
públicos.

Em outras palavras, deve-se evitar a aplicação de penalidades à Administração


Pública que possam dificultar a governabilidade do novo gestor caso haja irregularidades
decorrentes de gestões anteriores – desde que se demonstre que o novo administrador está
tomando as providências necessárias a sanar o prejuízo.
Ex: O Estado de Pernambuco celebrou convênio com a União por meio do qual
recebeu determinadas verbas para realizar projetos de interesse público no Estado,
assumindo o compromisso de prestar contas da utilização de tais valores perante a União e
o TCU. Ocorre que o Estado não prestou contas corretamente, o que fez com que a União o
inserisse no CAUC (Cadastro Único de Exigências para Transferências Voluntárias – é como
se fosse um SERASA das pessoas políticas, mas pelo amor de Deus, jamais escrevam isso
em uma prova). Com a inscrição no CAUC, o Estado-membro ficou impedido de contratar
operações de crédito, celebrar convênios com órgãos e entidades federais e receber
transferências de recursos.
Com fulcro no princípio da intranscendência o STF determinou a retirado do referido
Estado-Membro do CAUC.

6A nomeação de cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro
grau, inclusive, da autoridade nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido em cargo de
direção, chefia ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão ou de confiança ou, ainda, de função
gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos poderes da União, dos Estados, do
Distrito Federal e dos Municípios, compreendido o ajuste mediante designações recíprocas, viola a
Constituição Federal.
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Obs 2: O Plenário do Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2013, que não é possível admitir
a remarcação de prova de aptidão física para data diversa da estabelecida em edital de
concurso público em razão de circunstâncias pessoais de candidato, ainda que de caráter
fisiológico, como doença temporária devidamente comprovada por atestado
médico, salvo se essa possibilidade estiver prevista pelo próprio edital do certame.
Exemplo: A mulher que foi aprovada em todas as fases do concurso, mas estava grávida à
época da realização da prova de aptidão física.

c) Princípio da moralidade
Inicialmente é importante anotar que a CF/88 inovou ao incluir este princípio em seu
artigo 37, pois, apesar de estar expresso, apresenta um conceito jurídico indeterminado. Este
conceito também foi consubstanciado no artigo 5º da Carta Magna ao discorrer sobre ação
popular e, ulteriormente, foi abordado na lei de improbidade administrativa.
Em suma, a atuação administrativa além de ser legal tem que ser moral. Tem que
estar de acordo com a boa-fé, com a moral, com a ética, com a honestidade, com a lealdade
e com a probidade.
(Tomar cuidado para não confundir moralidade administrativa – que diz respeito à
prática de atos administrativos não compatíveis com valores considerados probos – com a
moralidade social. A aplicação da penalidade de demissão a um servidor público por ato de
incontinência de conduta, por exemplo, não decorre da moralidade administrativa, mas sim
de uma moralidade social que fez tipificar tal ato como falta grave cometida pelos
servidores. Por sua vez, visa à garantia da moralidade a aplicação de penalidades a agentes
que no exercício de suas funções desviam verba do Estado para contas pessoais.).
O exemplo comumente apresentado como materialização deste princípio é a vedação
à prática do nepotismo, pois não há lei específica vedando a contratação de parentes para
cargos comissionados na Administração Pública. Entretanto, essa prática nociva viola a
impessoalidade e, de maneira mais específica, a moralidade administrativa.

d) Princípio da publicidade
Segundo Matheus Carvalho 7, o princípio ora debatido cuida-se de premissa que
proíbe a edição de atos secretos pelo poder público, definindo a ideia de que a

7 CARVALHO, Matheus. Manual de direito administrativo. 4ª ed. Salvador: JusPodivim, 2017.


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Administração deve atuar de forma plena e transparente. A Administração não age em
nome próprio e por isso nada mais justo que o maior interessado – o cidadão tenha acesso
ao que ocorre com seus direitos.
Esse princípio ganhou maior robustez no ordenamento jurídico brasileiro, em razão
do início da vigência da Lei nº. 12.527/2011, que instituiu a Lei de Acesso a Informação,
regulando o disposto no artigo 5º, XXXIII, artigo 37, § 3º, II e artigo 216, § 2º, todos da CF/88.
Esses dispositivos apontam que a Lei tem como foco uma tríplice dimensão: direito
fundamental, direito do usuário da Administração e patrimônio cultural brasileiro.
Com a intenção de evitar recusas infundada ao direito de informação, a lei ainda
estabelece que qualquer interessado poderá apresentar pedido de acesso a informações aos
órgãos e entidades públicas, por qualquer meio legítimo, devendo o pedido conter a
identificação do requerente e a especificação da informação requerida, devendo ser essa
informação prestada imediatamente, ou, caso não tenha como ser prestada de forma
imediata, justificadamente, dentro do prazo máximo de 20 (vinte) dias, podendo haver uma
prorrogação por mais 10 (dez) dias, mediante expressa justificação e ciência ao requerente.
Registra-se, ainda, que a lei supracitada define ser vedada quaisquer exigências
relativas aos motivos determinantes da solicitação de informações de interesse público. Por
outro lado, o artigo 23 8 dessa lei dispõe sobre as exceções ao princípio ora trabalhado.

Obs: A eficácia dos atos depende da sua publicidade, mas não a sua validade: a publicidade
é imprescindível diante da necessidade de a população ter conhecimento dos atos. Contudo,

8 Art. 23. São consideradas imprescindíveis à segurança da sociedade ou do Estado e, portanto, passíveis de
classificação as informações cuja divulgação ou acesso irrestrito possam:
I - pôr em risco a defesa e a soberania nacionais ou a integridade do território nacional;
II - prejudicar ou pôr em risco a condução de negociações ou as relações internacionais do País, ou as que
tenham sido fornecidas em caráter sigiloso por outros Estados e organismos internacionais;
III - pôr em risco a vida, a segurança ou a saúde da população;
IV - oferecer elevado risco à estabilidade financeira, econômica ou monetária do País;
V - prejudicar ou causar risco a planos ou operações estratégicos das Forças Armadas;
VI - prejudicar ou causar risco a projetos de pesquisa e desenvolvimento científico ou tecnológico, assim como
a sistemas, bens, instalações ou áreas de interesse estratégico nacional;
VII - pôr em risco a segurança de instituições ou de altas autoridades nacionais ou estrangeiras e seus
familiares; ou
VIII - comprometer atividades de inteligência, bem como de investigação ou fiscalização em andamento,
relacionadas com a prevenção ou repressão de infrações.
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o ato administrativo editado conforme disposição de lei será válido, mesmo antes de seu
conhecimento pela sociedade. 9

e) Princípio da eficiência
Pelo princípio da eficiência, a Administração Pública deve atuar de maneira a buscar
resultados e não simplesmente agir. Isto é, a atuação administrativa deve buscar a melhor
relação custo-benefício, deve ser feita a otimização dos recursos, o devido planejamento e
estabelecimento de metas e a fiscalização do efetivo cumprimento do que fora planejado.
O presente princípio pode ser visto sob dois aspectos, segundo Maria Sylvia Di Pietro
10:

 Em relação à atuação do agente público: o agente público deve executar suas


tarefas com o melhor desempenho possível para alcançar melhores resultados;
 Em relação à organização da Administração Pública: a estrutura administrativa
deve ser organizada da melhor forma para que a finalidade pública seja atingida
de maneira mais efetiva possível.
A par de exemplo de regras pertinente ao princípio trazido à baila, pode-se
mencionar o disposto no artigo 169 da CF/88. Esse dispositivo preconiza que, caso o poder
público extrapole os limites permitidos de gastos com pessoal, deverá tomar algumas
medidas, a saber:
 Redução em pelo menos 20% das despesas com cargos em comissão e funções de
confiança;
 Exoneração dos servidores não estáveis;
 Se as medidas adotadas não forem suficientes para assegurar o disposto na lei de
responsabilidade fiscal, a exoneração do servidor estável poderá ser possível.
Aliás, sobre este viés também, destaca-se que o artigo 41, § 1º, III da CF/88 prevê
a possibilidade de exoneração do servidor estável, por meio de procedimento de
avaliação periódica de desempenho (cuida-se de norma de eficácia limitada).

9 A validade de uma lei está relacionada ao atendimento aos aspectos formais e materiais exigidos na CF/88.
Por sua vez, a eficácia da lei está relacionada à possibilidade de a lei, uma vez válida e devidamente publicada,
vir a surtir efeitos junto aos seus destinatários.
10 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 29ª ed., São Paulo: Atlas, 2016.

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Outra exemplificação deste princípio pode ser verificada no princípio da celeridade
processual, também consignado no âmbito dos processos administrativos, tal qual previsto
no artigo 5º, LXXVIII da CF/88.

02) DOS PRINCÍPIOS IMPLÍCITOS


Além dos princípios administrativos previstos no texto constitucional já trabalhados
neste material, podemos destacar a existência de outros princípios administrativos que dá
inferência da CF/88 podem ser analisados.

a) Princípio da Supremacia do interesse público sobre o privado


Inicialmente é preciso registrar que há uma divisão doutrinária entre o conceito do
que seria interesse público primário e o interesse público secundário. Em caráter
majoritário, pode-se explanar que o interesse público primário é o interesse público
propriamente dito; é o interesse da coletividade, sendo composto pelas necessidades da
sociedade, isto é, dos cidadãos enquanto participantes da coletividade. Já o interesse
secundário é o interesse do ente estatal; é o interesse da pessoa política, como pessoa
jurídica.
Com efeito, o princípio da supremacia do interesse público tem guarida no interesse
público primário. A par de exemplo, é relevante entender que a busca indevida de interesses
secundários da Administração, abrindo mão do interesse primário enseja abuso de poder
do Estado, como ocorre se o Estado decide, por exemplo, aumentar de forma abusiva a carga
tributária à população, ou ainda, quando o ente estatal paga valores ínfimos pela
desapropriação de bens imóveis privados.
O princípio da supremacia do interesse público se manifesta na sobreposição do
interesse público sobre o interesse particular, considerando que todas as condutas estatais
têm como finalidade a satisfação das necessidades coletivas. Nesse sentido, os interesses da
sociedade devem prevalecer diante das necessidades específicas dos indivíduos, havendo a
sobreposição das garantias do corpo coletivo, quando em conflito com as necessidades de
um cidadão isoladamente. Em razão desta busca pelo interesse público, a Administração se
põe em uma situação privilegiada, quando se relaciona com particulares.

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Logo, o princípio da supremacia do interesse público atribui um status especial ao
Estado frente ao particular, tanto que vige a presunção de legalidade dos atos praticados
pela Administração Pública.
São exemplos de manifestação do princípio da supremacia do interesse público:
intervenção na propriedade privada (desapropriação, tombamento, requisição
administrativa, etc), cláusulas exorbitantes nos contratos administrativos, atos de polícia
administrativa (interdição de estabelecimento, embargo de obras, apreensão de mercadoria,
etc), prazos processuais diferenciados às pessoas jurídicas de direito público, etc.

b) Princípio da indisponibilidade do interesse público


Celso Antônio Bandeira de Mello 11 ensina que “é de encarecer que na administração os
bens e interesses não se acham entregues à livre disposição da vontade do administrador. Antes, para
este, coloca-se a obrigação, o dever de curá-los nos termos da finalidade que estão adstritos.”.
Deveras, este princípio é o que impõe limites à atuação administrativa. Estabelece
sujeições a que se submete o administrador público e representa a proibição da renúncia ao
interesse público, a impossibilidade de se dispor do interesse público.
De fato, não é possível alguém renunciar ou dispor de algo que não lhe pertence. Isso
é o que acontece na gestão pública, porque o administrador tem o dever de administrar
observando com fidelidade o interesse público e não seus interesses pessoais ou de terceiros.

c) Princípio da Autotutela
É dever da Administração Pública o controle de seus próprios atos, quanto à
legalidade e quanto ao mérito.
A autotutela significa a Administração cuidar de si própria. E, assim, com
fundamento nesse princípio ela anula seus atos, quando possuírem vícios de legalidade, ou
os revoga, quando se tornarem inconvenientes ou inoportunos em face do interesse público.
Sobre este princípio, há duas súmulas do STF que convém trazer à lume:
 Súmula 346: A administração pública pode declarar a nulidade dos seus próprios
atos.
 Súmula 473: A administração pública pode anular seus próprios atos quando
eivados de vícios que os tornem ilegais, porque deles não se originam direitos; ou

11
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de direito administrativo. São Paulo: Malheiros, 33ª ed., 2016.
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revogá-los, por motivo de conveniência ou oportunidade, respeitados os direitos
adquiridos, e ressalvada, em todos os casos, a apreciação judicial.

Obs: Há a autores que indicam a existência do princípio da tutela ou controle, ou


supervisão ministerial, sob o qual a Administração direta controla, fiscaliza as atividades
das entidades da administração indireta (autarquia, fundação pública, empresa pública e
sociedade de economia mista).
Não deve ser confundido com o princípio da tutela, pois por este ocorre a anulação
ou a revogação dos atos administrativos praticados pela própria pessoa jurídica. Já, pelo
princípio da tutela, ocorre o controle de finalidade das entidades da administração indireta,
quer dizer, há um controle para se verificar se essas entidades estão cumprindo as
finalidades para as quais foram criadas.

d) Princípio da continuidade do interesse público


A atividade administrativa referente à prestação dos serviços públicos deve ser
ininterrupta. Em regra, o serviço público não pode parar.
A materialização deste princípio pode ser verificada na proibição constitucional dos
servidores públicos militares (em sentido latu) promoverem greves, o que foi elastecido a
todos os servidores da segurança pública por recente decisão do STF; na possibilidade de
intervenção do Poder Público nas prestações de serviços públicos, inclusive, possibilitando
a extinção da concessão da prestação dos serviços públicos quando estes estiverem
delegados às pessoas jurídicas de direito privado e forem mal executados.
Salienta-se que o presente princípio não é absoluto, haja vista que, nos termos da lei
nº. 8.987/1995, poderá haver a interrupção do serviço público em caso de emergência, ou,
após aviso prévio, por motivo de desordem técnica ou segurança das instalações e por
motivo de inadimplência do usuário.

e) Princípio da razoabilidade e proporcionalidade


O princípio da razoabilidade visa impedir a atuação desarrazoada ou despropositada
da Administração Pública, definindo um limite na atuação do agente público.

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Para José dos Santos Carvalho Filho 12 “razoabilidade é a qualidade do que é razoável, ou
seja, aquilo que se situa dentro de limites aceitáveis, ainda que os juízos de valor que provocaram a
conduta possam dispor-se de forma um pouco diversa.”.
Já o princípio enquadra-se em uma atuação proporcional do agente público, um
equilíbrio entre os motivos que deram ensejo à prática do ato e a consequência jurídica da
conduta, visando evitar abuso na atuação dos agentes públicos. Com efeito, grande parte
da doutrina entende que a proporcionalidade está contida na razoabilidade.
O STF, no entanto, divide o referido princípio em três sub-princípios: adequação,
necessidade e proporcionalidade em sentido estrito.
A adequação revela-se na utilização adequada para atingir o fim pretendido,
enquanto a necessidade se reflete na avaliação de medida restritiva de direito, com vistas a
definir se é realmente necessária para atingir o fim proposto ou se existe uma medida menos
danosa que atenda a esse fim. Por derradeiro, a proporcionalidade em sentido estrito
consiste em uma ponderação entre a intensidade da restrição ao direito fundamental e a
importância da realização do direito fundamental, apresentando-se como um verdadeiro
equilíbrio entre valores e bens.

Considerações finais:
Há que se frisar a existência de diversos outros princípios que norteiam o direito
administrativo, como àqueles consignados no artigo 2º 13 da Lei nº. 9.784/1999 – que regula
os processos administrativos no âmbito da União, além de princípios inerentes à prestação
de serviços públicos, da acepção de licitações e formalização de contratos. Entrementes,
considerando o edital da nossa prova, trabalhamos neste momento apenas os princípios que
decorrem da CF/88.

JURISPRUDÊNCIA/INFORMATIVOS

 PRINCÍPIO DA PUBLICIDADE: ´

12 CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Editora Lumen
Juris, 23ª ed., 2012.
13 A Administração Pública obedecerá, dentre outros, aos princípios da legalidade, finalidade, motivação,

razoabilidade, proporcionalidade, moralidade, ampla defesa, contraditório, segurança jurídica, interesse


público e eficiência.
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Possibilidade de divulgação de vencimentos dos servidores públicos com relação
nominal.
É legítima a publicação, inclusive em sítio eletrônico mantido pela Administração Pública,
dos nomes de seus servidores e dos valores correspondentes a vencimentos e vantagens
pecuniárias.
(STF, Plenário. ARE 652777/SP, Rel. Min. Teori Zavascki, julgado em 23.04.2015 –
repercussão geral – informativo 782).

 PRINCÍPIO DA MORALIDADE:
Vedação ao nepotismo: inconstitucionalidade de lei estadual que preveja exceções.
É inconstitucional lei estadual que excepciona a vedação da prática de nepotismo,
permitindo que sejam nomeados para cargos em comissão ou funções gratificadas de até
dois parentes das autoridades estaduais, além do cônjuge do Governador.
(STF, Plenário. ADI 3745/GO, rel. Min. Dias Toffoli. 15.15.2013 – informativo 706).

Não haverá nepotismo se a pessoa nomeada possui um parente no órgão, mas sem
influência hierárquica sobre a nomeação.
Não há nepotismo na nomeação de servidor para ocupar o cargo de assessor de controle
externo do tribunal de contas mesmo que seu tio (parente em linha colateral de 3º) já exerça
o cargo de assessor-chefe de gabinete de determinado Conselheiro, especialmente pelo fato
de que o cargo do referido tio não tem qualquer poder legal de nomeação do sobrinho.
(STF. 2ª TURMA, 23.02.2016 – informativo 815).

 PRINCÍPIO DA IMPESSOALIDADE:
Os candidatos em concurso público NÃO têm direito à prova de segunda chamada nos
testes de aptidão física em razão de circunstâncias pessoais, ainda que de caráter
fisiológico ou de força maior, salvo se houver previsão no edital permitindo essa
possibilidade.
STF. Plenário. RE 630733/DF, rel. Min. Gilmar Mendes, 15/5/2013.
Isonomia significa igualdade de todos perante a lei. Refere-se ao princípio da igualdade
previsto no art. 5º, "caput", da Constituição Federal, segundo o qual todos são iguais perante
a lei, sem distinção de qualquer natureza. Assim, de acordo com tal princípio, os méritos

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iguais devem ser tratados de modo igual, e as situações desiguais, desigualmente, já que
não deve haver distinção de classe, grau ou poder econômico entre os homens.
O princípio da impessoalidade estabelece o dever de imparcialidade na defesa do interesse
público, impedindo discriminações e privilégios indevidamente dispensados a particulares
no exercício da função administrativa. Além do mais, possui outro aspecto importante, a
atuação dos agentes públicos é imputada ao Estado, portanto, as realizações não devem ser
atribuídas à pessoa física do agente público, mas à pessoa jurídica estatal a que estiver
ligado. Veja o Artigo 2º, parágrafo único, III, da Lei nº 9.784/99

PRINCÍPIO DA LEGALIDADE E RAZOABILIDADE


O STF, ao analisar o tema em sede de repercussão geral, fixou a seguinte tese:
Editais de concurso público não podem estabelecer restrição a pessoas com tatuagem,
salvo situações excepcionais em razão de conteúdo que viole valores constitucionais.
STF. Plenário. RE 898450/SP, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 17/8/2016 (repercussão
geral) (Info 835).
---------------------------------------------------------
Imagine a seguinte situação hipotética:
João prestou concurso para soldado da Polícia Militar.
O edital do certame previa restrições para candidatos que possuem tatuagens.
Segundo o edital, seriam excluídos do concurso candidatos que possuíssem tatuagens
localizadas em regiões do corpo que ficassem visíveis quando o indivíduo estivesse
usando short e camisa (ex: antebraço).
João foi aprovado em todas as fases, mas eliminado do concurso porque possui
uma tatuagem tribal, medindo 14 por 13 cm na panturrilha.

É possível que o edital do concurso preveja a eliminação do candidato pelo simples fato
de ter uma tatuagem? Essa previsão é válida?
• Regra: NÃO. Em regra, os editais de concurso não podem estabelecer restrição a pessoas
com tatuagem.
• Exceção: é possível que o edital imponha restrições a candidatos que possuam tatuagens
cujo conteúdo viole valores constitucionais.

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Restrições a cargos públicos somente podem estar relacionadas com o exercício das
funções
Qualquer obstáculo a acesso a cargo público deve estar relacionado unicamente ao
exercício das funções como, por exemplo, idade ou altura que impossibilitem o exercício
de funções específicas.
A criação de barreiras arbitrárias para impedir o acesso de candidatos a cargos públicos
fere os princípios constitucionais da isonomia e da razoabilidade.

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