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Direito Administrativo

Material de apoio – Poderes administrativos


Professor: Ramiro Howes

PODERES ADMINISTRATIVOS

01) CONCEITO
Os poderes administrativos representam as prerrogativas inerentes à Administração
Pública, que devem ser utilizadas em prol da coletividade. Em razão disso, os poderes
administrativos são denominados poder-dever.

02) ESPÉCIES DE PODERES ADMINISTRATIVOS

2.1) Poder vinculado


É o poder da administração de movimentar a máquina administrativa para prática
de determinado ato vinculado. Neste caso, NÃO existe margem de escolha para o agente
público, pois todos os elementos do ato administrativo estão vinculados à lei.
Exemplo: concessão de licença maternidade (perceba que neste caso, a administração está
obrigada a movimentar a máquina administrativa para conceder a licença à servidora,
inexistindo margem de escolha para o poder público).
(Maria Sylvia Di Pietro e José dos Santos Carvalho não reconhecem a existência do poder
vinculado, porque, na verdade, não se trata de prerrogativa à disposição da Administração,
mas sim, uma restrição, uma obrigação de atuação em conformidade com a lei. Entretanto,
em razão da cobrança contínua nas provas nos moldes tradicionais, mantém-se esta
abordagem).

2.2) Poder discricionário


É o poder da administração de movimentar a máquina administrativa para a prática
de determinado ato discricionário. Neste caso, existe margem de escolha para o agente
público.

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Ex: concessão de licença para o trato de interesses particulares (perceba que no caso citado
a Administração não está obrigada a conceder a licença, porque existe uma margem de
escolha para o poder público de acordo com seu juízo de conveniência e oportunidade).
Obs: Destaca-se que o princípio da razoabilidade é um forte limitador do poder
discricionário, pois a escolha do administrador deve ser razoável e está sendo muito usado
no controle judicial dos atos administrativos.

Obs 2: Em razão da legalidade administrativa, um agente público somente poderá fazer o


que a legislação autorizar. Sendo assim, o Poder Judiciário exerce um controle de legalidade
tanto sobre os atos vinculados, como sobre os atos discricionários, já que estes apresentam
margem de escolha limitada pela lei.

Obs 3: O poder judiciário pode exercer um controle de mérito? Não! O poder judiciário só
pode atuar no controle da legalidade. Entrementes, a jurisprudência consolidada nos
tribunais superiores aponta que o Brasil adota uma legalidade em sentido amplo, de sorte
que o respeito à lei leva em conta também princípios que norteiam o direito administrativo.
Ex: Um ato pode ser anulado pelo judiciário em virtude não de se respeitar o princípio da
moralidade administrativa como vemos, a par de exemplo, na deflagração do nepotismo.

2.3) Poder Hierárquico


Representa o escalonamento de atribuições e funções dentro da estrutura interna da
Administração Pública, surgindo, assim, a possibilidade de dar ordens; rever e fiscalizar os
atos de um subordinado; delegar e avocar competência.

DELEGAÇÃO DE COMPETÊNCIA AVOCAÇÃO DE COMPETÊNCIA


Um órgão administrativo e seu titular Será admitida, em caráter excepcional e
poderão delegar parte de sua por motivos relevantes devidamente
competência a outros órgãos ou justificados a avocação de competência
titulares, ainda que não lhes sejam atribuída a órgão hierarquicamente
hierarquicamente subordinados. inferior.

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Observem, caríssimos, que a delegação da competência poderá ocorrer de forma
horizontal, no mesmo nível hierárquico, enquanto a avocação de competência,
somente poderá ocorrer de forma vertical, realizada necessariamente por superior
hierárquico.

Obs: Não se pode delegar a realização de recurso administrativo; edição de ato


administrativo e atos de competência exclusiva. (REC).

Em decorrência do poder hierárquico o superior pode dar ordens para o subordinado


e este, por sua vez, tem o dever de obediência, salvo se for ordem manifestamente ilegal.
Registra-se que não existe hierarquia na estrutura externa da Administração. Neste
caso, existe uma vinculação, que acarreta um controle finalístico, conhecido como
supervisão ministerial ou tutela administrativa.

2.4) Poder Disciplinar


É o poder da Administração Pública de apurar e punir faltas funcionais de seus
agentes públicos ou de particulares que estejam sujeitos à disciplina administrativa. Em
outras palavras, a aplicação de eventual penalidade decorre da existência de um vínculo de
natureza especial existente entre o agente e o Estado.
Ex: aplicação de advertência ao servidor público que descumpra seus deveres funcionais;
aplicação de multa à empresa por inexecução de um contrato administrativo.
Quando a Administração aplica penalidade ao servidor ela exerce o seu poder
disciplinar, que nesse caso decorre do poder hierárquico, em razão da hierarquia existente
na estrutura interna da Administração. É possível afirmar, então, que a penalidade aplicada
ao servidor público tem como fundamento imediato (direto) o poder disciplinar e como
fundamento mediato (indireto) o poder hierárquico. No entanto, quando a Administração
aplica penalidade a particular sujeito ao regime jurídico administrativo, a exemplo da
aplicação de multa à empresa particular contratada pela Administração, ela exerce apenas
o poder disciplinar.

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Obs: O poder disciplinar também pode recair sobre servidores aposentados, haja vista a
existência da penalidade de cassação de aposentadoria.

Obs 2: O entendimento majoritário das doutrinas administrativistas é de que uma vez


deflagrado o ato infrator do servidor, a Administração não tem o poder discricionário de
optar se instaura ou não um processo administrativo.

2.5) Poder regulamentar (ou normativo)


Modernamente, o poder regulamentar vem sendo tratado como espécie do poder
normativo, pois este compreende a edição de diversos atos, tais como resoluções, instruções
e etc. Assim, o poder normativo representa o poder geral conferido às autoridades públicas
de editarem normas gerais e abstratas, nos limites da legislação, enquanto que, o poder
regulamentar é aquele concebido ao chefe do executivo para editar decreto regulamentar
com a finalidade de esclarecer, regulamentar e garantir a fiel execução da lei. Não é possível
alterar e contrariar a lei através desses decretos em razão da sua natureza jurídica.
Sob outro prisma, o poder regulamentar pode ser definido como a faculdade que
dispõem os chefes do executivo de explicar a lei para sua correta execução, expedindo
decretos regulamentares; ou expedindo decreto autônomos de matéria de sua competência
ainda não disciplinada em lei (organização e funcionamento da administração federal,
quando não implicar em aumento de despesas, nem criação ou extinção de órgãos públicos
federais, e dispor sobre a extinção de cargos quando vagos).

DECRETO REGULAMENTAR DECRETO AUTÔNOMO


Ato normativo secundário. Ato normativo primário.
Previsto no art. 84, IV da CF/88. Previsto no art. 84, IV da CF/88.
É indelegável. Pode ser delegado para os ministros de
estado, AGU e PGR.
Visa esclarecer, regulamentar e garantir a Organização e funcionamento da
fiel execução de lei. administração federal, quando não implicar
em aumento de despesas, nem criação ou
extinção de órgãos públicos federais, e

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dispor sobre a extinção de cargos quando
vagos.

2.6) Poder de polícia


É a prerrogativa de o Estado condicionar e restringir o gozo de bens, atividades e
direitos individuais, mesmo que considerados direitos fundamentais, em prol do interesse
coletivo público.
Alguns autores classificam o poder de polícia em três espécies: preventivo, quando
trata de disposições genéricas e abstratas como, por exemplo, as portarias e regulamentos
que se materializam nos atos que disciplinam horário para funcionamento de determinado
estabelecimento,, proíbem de desmatar área de proteção ambiental, soltar balões, dentre
outros; e repressivo, ao praticar atos específicos observando sempre a obediência à lei e aos
regulamentos como, por exemplo, dissolver passeata tumultuosa; apreender revistas
pornográficas, entre outros; e fiscalizadora, quando previne eventuais lesões como, por
exemplo, vistoria de veículos, fiscalização de pesos, etc.

a) Características
* Discricionariedade: representa uma margem de escolha na atuação do órgão ou agente
que detém o poder de polícia. Atenção, meus queridos, apesar da discricionariedade ser
uma característica do poder de polícia, pode haver a edição de atos vinculados ligados a
este poder (ex: concessão da licença para dirigir ou construir).
* Coercibilidade, imperatividade ou poder extroverso: o órgão ou o agente que detém o
poder de polícia atua independentemente da vontade ou concordância do particular. (ex:
pode haver a interdição de um estabelecimento que não respeita as normas mínimas de
higiene, independente da vontade de seu proprietário).
* Autoexecutoriedade: o órgão ou agente que detém o poder de polícia atua independente
de prévia autorização judicial. (ex: não se precisa de ordem judicial para aplicar uma multa
de trânsito.). Ocorre que a autoexecutoriedade só existe quando prevista em lei ou quando
se tratar de situação de urgência e, com efeito, não se faz presente em todos atos decorrentes
do poder de polícia (ex: embora não seja necessária ordem judicial para aplicação de multa,
a sua execução depende de um processo judicial).

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Obs: A multa é dotada de autoexecutoriedade? A aplicação da multa é autoexecutória, mas
a cobrança da multa depende de processo judicial.

Obs 2: É possível a delegação do poder de polícia a particulares? Não, sendo admitida


apenas a delegação de um ato material ligado ao poder de polícia. O particular atua sem
poder decisório sob comando da administração. Ex: uma empresa particular é contratada
pela Administração para guinchar veículos estacionados em local proibido. Tal empresa não
possui poder de polícia, apenas executa um ato material, guinchar, a comando da
Administração Pública, que detém o referido poder.

b) Ciclo do poder de polícia


São as 04 fases que compreendem a atuação da polícia administrativa. Senão,
vejamos:
I) Ordem de polícia: decorre do atributo da imperatividade, impondo restrições aos
particulares. Ex: a vedação de autorização de porte de arma de fogo a particulares;
II) Consentimento de polícia: é o ato administrativo que confere anuência ao
exercício de atividade ou ao uso de propriedade. Ex: autorizações e licenças.
III) Fiscalização de polícia: ocorre quando a administração verifica se as ordens de
polícia estão sendo cumpridas, podendo realizar inspeções, análise de
documentos, dentre outras formas.
IV) Sanção de polícia: é a fase em que, verificada a afronta à ordem de polícia é
aplicada a sanção. Ex: demolição de edificações, apreensão de mercadoria e
guinchamento de veículo.

c) Polícia administrativa e polícia judiciária


O poder de polícia administrativa tem por característica ser uma atividade
tipicamente administrativa, de forma que já existe em lei quando o Administrador assim as
impõe, relacionando-se diretamente com as intervenções feitas pelo Poder Executivo, como
concessão ou supressão de licenças, através de restrições a bens, atividades privadas e
direitos. O poder de polícia administrativa não se confunde com a polícia judiciária, pois
esta tem por finalidade a repressão a ilícito penais e é estudada pelo direito processual penal.

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Logo, a polícia judiciária incide sobre as pessoas, ao passo que a polícia
administrativa incide sobre bens e direitos.
Ex de polícia administrativa: agentes de trânsito, ficais de prefeitura, vigilância sanitária,
corpo de bombeiros, etc.
Ex de polícia judiciária: polícia militar, civil e federal.

Obs: O STF declarou constitucional a legislação municipal que autoriza a guarda municipal
a fiscalizar o trânsito, podendo inclusive aplicar multas pautadas na legislação federal. O
STF entendeu que a competência prevista pelo texto constitucional para guarda municipal
pode ser ampliada pela legislação (INFORMATIVO 793).

Obs 2: O STJ entendeu que a PRF não possui competência exclusiva para aplicar multas em
rodovias federais, pois o DNIT também detém competência para aplicar multas por excesso
de velocidade (INFORMATIVO 586).

d) Prescrição
Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal, direta e
indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à legislação em vigor,
contados da data da prática do ato ou, no caso de infração permanente ou continuada, do
dia de seu cessamento. Importante ressaltar que é aplicada uma prescrição intercorrente de
03 anos.

03) USO E ABUSO DE PODER


É gênero que compreende duas espécies:
 Excesso de poder ou competência: o agente público pratica determinado ato alheio à
sua competência, extrapolando suas atribuições legais;
 Desvio de poder ou de finalidade: o agente público possui competência para praticar
o ato, porém observa fim diverso do interesse público.

Obs: a inércia da Administração pode configurar abuso de poder por omissão.

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