Você está na página 1de 8

IMAGEM E ESTRANHAMENTO

Reflexões sobre o Retábulo de Issenheim

Sabrina Maurilia dos Santos

Resumo: Este artigo pretende abordar uma reflexão acerca da análise do painel central
do retábulo de Issenheim, de Mathis Gothardt Nithart, conhecido como Grünewald. A
obra em destaque concebe-se sob um novo estilo de representação da figura de Cristo
crucificado e foi projetada como altar da igreja do hospital e convento da Ordem dos
Antoninos de Issenheim, local onde eram atendidos doentes já em sua fase terminal.
Sob a perspectiva dos estudos de Freud (artigo “O Estranho”) busca-se, através da
análise das especificidades da obra e do texto, relacioná-lo as questões referentes ao
corpo como estranhamento.

Palavras Chave: Retábulo de Issenheim, estranho, corpo.

Abstract

This article aims to address reflection and analysis of the Issenheim central panel
altarpiece, of Mathis Gothardt Nithart, known as Grünewald. The Picture was done in
a new way of representing the figure of Christ crucified. The altarpiece was designed as
a church altar from the hospital and convento of de Order of the Antonines Issenheim,
where patient were seen in its terminal phase. From the perspective of Freud’s studies
(The Stranger) search is, by examining the especifics of the picture and the text, related
it to questions regarding the body as strangenment.

Key-words: Altarpiece of Issenheim, stranger, body

1
Estética, história e psicanálise

Ao iniciar o texto “O Estranho”, Freud (1919) acrescenta que é muito raro um


psicanalista se envolver em estudos referentes à estética, tema esse que o autor
considera muito mais parte da categoria do sentir do que das idéias que apóiam o belo.
Dessa forma, pondera-se que o sentir para Freud compreenderia questões intrínsecas a
condição humana, já os conceitos relativos ao belo estariam muito mais sujeitos as
mudanças do tempo.
Nesse sentido, tomo emprestado os mesmos argumentos que levaram Freud a
escrever sobre um assunto que não era de sua alçada (a estética no caso do autor e a
psicanálise no meu caso) de modo que o próprio autor afirma a ancestralidade do tema
em questão (o estranho), assim como sua insipiência nos textos ligados a estética.
Lança-se tal desafio para pensar o estranhamento na obra de Grünewald, ao passo que a
pretensão aqui não é fazer um estudo psicanalítico da imagem, até porque faltam
subsídios teóricos para tanto, uma vez que a psicanálise já vem há mais de um século
provocando novas questões a serem refletidas.
Ademais, o intuito é pensar especificidades, a partir da obra mesma, já que se faz
primordial o apoio de outra área do saber que não somente a estética ou a história da
arte, pois sozinhas, neste caso, não dão conta de peculiares investigações.
O estranho no presente artigo vem contribuir para o estudo do Retábulo de
Isenheim, bem como para a reflexão acerca do estranhamento gerado pela imagem,
podendo ser pensada como categoria inerente ao ser, que perpassa tanto o tempo e o
varal cronológico da história. É nessa esfera que os conjuntos ligados ao sentir,
amparados pela estética, história e psicanálise podem se entrecruzar e fazerem um
convite à reflexão.

2
A imagem de um corpo na dor

Grünewald Mathis; O Retábulo de Isenheim

Em uma paisagem desoladora e triste, sob um céu negro e chapado está a grande
cruz de madeira ancorada ao solo. Nesse lugar melancólico e sombrio jaz um homem
pregado a cruz martirizante. A carne esverdeada e em processo de degeneração, faz
transluzir a agonia que lhe foi imposta. Nenhuma parte desse corpo humano que,
outrora ainda vivia, foi poupada da violência. Sobre a cabeça, é como se “nascesse”
uma coroa de espinhos, pois ela está cravada em sua pele. Os mesmos espinhos que
formam a coroa atravessam os poros e assim o é por todo o corpo. Os espinhos rasgam,
sangram e espetam a pele coberta por feridas que suas vestes sujas e rasgadas buscam,
sem sucesso, esconder, ao contrário, são como uma extensão do corpo ferido.
Tudo foi ou ainda é sofreguidão, já que nem a morte pôde acalmar a face do
homem que trás as marcas do martírio e aflição que também são visíveis pelo resto de
seu corpo. Neste caso, o retábulo vem como anuncio de salvação e sofrimento do cristo
3
aos pestíferos internados no hospital e convento.
O retábulo de Isenheim representa, perceptivelmente a imagem de Cristo num
proeminente realismo. Mathis Grünewald estabelece um novo estilo para representação
da imagem de Cristo, pois esta deixa de ser a representação arquetípica, como era nos
ícones bizantinos, e se torna realisticamente humana, consorte a mesma dor que as
vítimas da peste mortal sentiam e que tomava conta do lugar em que estava exposta, não
por um mero acaso.

Estranhamento diante da imagem como semelhança

Nos estudos de Freud (1919) o psicanalista define o estranho como algo que
pode ser assustador, que causa medo ao mesmo tempo em que é familiar, ao passo que
essa “familiaridade” torna-se inesperadamente estranha. Freud propõe-se em tais
escritos investigar diversas categorias que originam o sentimento de estranheza,
considerando-as como fator primário o retorno de algo que fora reprimido, e que tal

regresso gera uma combinação entre o familiar e o estranho. A imagem do retábulo de


Issenheim, pensada desde Freud, revela conexões e afinidades entre o horror ou
assustador, concomitante ao que traz conforto porque é familiar.
O tema do duplo é uma das categorias que Freud (1919) aponta em seu texto
como fenômeno de estranhamento. O autor cita Otto Rank (1914) para discorrer sobre a
questão e esclarece que para o psicanalista o duplo está integrado aos reflexos, as
sombras, espelhos e medo da morte. Aqui o duplo é visto como uma defesa contra a
destruição do ego, defesa contra a morte e esclarece o fato citando como exemplo as
sólidas e inabaláveis construções egípcias, que eram vistas como uma garantia de
aprisionamento da alma imortal e pelo narcisismo da criança e do homem primitivo. No
entanto, quando o duplo torna-se a garantia da imortalidade os papéis se invertem e
transformam-se em estranhamento, ou seja, o anuncio da morte.
O Duplo, referente à análise freudiana, ao mesmo tempo em que é semelhança
ou igualdade pode ser também a divisão, o que separa, assim como a morte é uma
pulsão que afasta, de modo que há nesse entrecruzamento uma mistura de sentimentos,
tanto de pavor como de conforto. Pode-se afirmar que os doentes do hospital e convento
dos Antoninos se assemelharam a imagem de Jesus tal como é apresentada por
Grünewald. Seguindo por esse viés, a relação dupla dos processos da mente que se
4
constroem nos personagens pela telepatia, faz com que os doentes repartam a mesma
experiência de dor e eminência de morte, ou a própria morte de Cristo, ou seja, o eu se
divide em dois, é uma duplicação do próprio eu, entretanto, quando a semelhança já foi
identificada ou “superada”, o sentimento de estranheza se instala.
Neste caso, pensar o duplo enquanto estranhamento, tendo como base os
preceitos abordados no parágrafo anterior, poder-se-ia dizer que o estranho vem como o
retorno de um secreto “ser” que fora reprimido, mas que ficou guardado de forma
latente e retorna a partir do momento que encontra seu “eu” semelhante, nesse caso o
duplo separado e ao mesmo tempo próximo. Assim o estranho provém o seu medo não
de algo desconhecido, ao contrário, o estranho vem deste “ser” semelhante, que é aqui,
o próprio eu reprimido.
Sendo assim, refletir sobre uma imagem de Cristo crucificado que há muito foi
familiar, mas que retorna como a própria realidade e condição mesma dos pestíferos,
pode representar a incerteza ou recalque de uma lembrança remota, ou um “eu” que
agora retorna de maneira “estranha”, uma vez que o Cristo de Grünewald é
representado não mais como um ícone e sim como um ser humano que é carne,
secreção, horror, que é a extenuação de um corpo que sofre, mas que ao final da sua dor
encontra a salvaçao e o alento, pois o enfermo que fosse tão duro e frio, que o
sofrimento de Cristo não atenuasse sua própria condição, deveria mesmo ficar assustado
ou horrorizado.
Outra categoria, não menos relevante do que o duplo, lançada por Freud (1919)
para abordar a temática do estranho é a história do Homem de Areia, do escritor
alemão Ernst Hoffmann. Na literatura, o cegamento é apontado como o núcleo central
da estranheza, tal como a dúvida entre imaginação e realidade. Freud faz alusão a esse
tema quando escreve sobre os complexos infantis reprimidos, que revivem a partir de
alguma impressão ou crença, aparentemente “superadas”, mas que insistem em voltar
como reafirmações. No caso da pintura de Grünewald, poder-se-ia pensar a mistura
entre imaginação e realidade como esse “jogar areia nos olhos”, façanha da ficção
artística, que também esconde seu estranho poder de ofuscar a vista, a ponto de não
mais se distinguir a realidade da fantasia.
A verdade que cega, ao mesmo tempo em que comprova e que dissimula, é
também a que distorce para revelar alguma coisa. No caso dos doentes de Issenheim, a
obra de arte vem como essa mistura estranha, entre o velar e o revelar. Na época, a
mesma obra que aliviou a dor, mostrou-a para que os pacientes suportassem a sua
5
própria, amparados pela dor de seu semelhante (Cristo) e a agonia tal como era na sua
mais cruel reprodução.
O altar da igreja dos Antoninos apresentou a imagem como aflição, que
confortou ou encontrou defesas pela semelhança aos que a contemplaram, ou também
simplesmente tentou amenizar o martírio dos enfermos pela duplicação do sofrimento,
ou alcançou, por fim, até o ultimo suspiro, superar o medo da morte.

Voltando ao ponto de interesse do trabalho, observa-se que a vertente


da arte contemporânea que usa o corpo como suporte para as obras realiza,
com grande freqüência intervenções, associadas à violência, dor e esforço
físico, mas não é somente como performances que o corpo é objeto de arte. A
utilização da carne, de sangue, o suor, o esperma, a saliva e outros fluidos
corpóreos mobilizados nos trabalhos que provêm à materialidade do corpo, se
apresentando como suporte para cenas e gestos que tomam por vezes a forma
de rituais e sacrifício.

causa, sem dúvida, um grande estranhamento. O estranhamento


pode ser lido como está no pensamento de Blanchot e Levinas. Ambos lêem as
relações que se têm com o outro (Levinas) e com a obra de arte (Blanchot),
como sendo absoluta impossibilidade de conhecimento. Assim, observa-se a
impossibilidade frente a uma arte que apresenta um mundo demasiado
humano, muito perto do interior do ser, pelo que representa de destruição, de
podridão e dor. A obra de arte contemporânea deixa vestígios, faz ruído, se faz
estranhamento diante do desejo de conhecê-la. Blanchot (1987) e Levinas
recorrem à metáfora da noite para elucidar essa questão:

Mas quando tudo desapareceu na noite, “tudo desapareceu”


aparece. É a outra noite. A noite é o aparecimento de tudo
desapareceu. É o que se pressente quando os sonhos substituem o
sono, quando os mortos passam no fundo da noite, quando o fundo
da noite aparece naqueles que desaparecem (BLANCHOT, 1987,
p.163).

6
Quando as formas das coisas são dissolvidas na noite, a escuridão da noite, que não é um
objeto, nem a qualidade de um objeto, invade como uma presença. Na noite, quando estamos
presos a ela, não lidamos com coisa alguma. Mas esse nada não é um puro nada. Não é mais
isso nem aquilo: não há “alguma coisa”. No entanto, esta universal ausência é, por sua vez,
uma presença absolutamente inevitável (LEVINAS, 1998, p. 68).

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. O estranho (1919). Ediçao Standart das obras completas de


Zigmund Freud. V. XVII. Rio de Janeiro: Editora Amago, 2006.

7
Imagem: Grünewald Mathis; O Retábulo de Isenheim; c.1510-15; 500 x 800 cm; óleo
sobre painel; Museu de Unterlinden, Colmar,França Colmar,França Disponivel em: