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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA – UFRR

CENTRO DE CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS E ECONÔMICAS


DEPARTAMENTO DE ECONOMIA

CARMINA JHULLY SOUSA SANTOS

A POLÍTICA ECONÔMICA NEOLIBERAL ADOTADA NO GOVERNO


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO NO PERÍODO DE 1995-2002

Boa Vista – RR
2016
CARMINA JHULLY SOUSA SANTOS

A POLÍTICA ECONÔMICA NEOLIBERAL ADOTADA NO GOVERNO


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO NO PERÍODO DE 1995-2002

Monografia apresentada junto ao Curso


de Ciências Econômicas da Universidade
Federal de Roraima – UFRR, como
requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Economia.

Orientador: Prof. Dr. Getúlio Alberto de


Souza Cruz

Boa Vista – RR
2016
CARMINA JHULLY SOUSA SANTOS

A POLÍTICA ECONÔMICA NEOLIBERAL ADOTADA NO GOVERNO


FERNANDO HENRIQUE CARDOSO NO PERÍODO DE 1995-2002

Monografia apresentada junto ao Curso


de Ciências Econômicas da Universidade
Federal de Roraima – UFRR, como
requisito parcial à obtenção do título de
Bacharel em Economia, avaliada pela
seguinte banca examinadora:

_________________________________________
Prof. Dr. Getúlio Alberto de Souza Cruz
Orientador / Curso de Economia - UFRR

_________________________________________
Prof. Dra. Ingrid Cardoso Caldas
Curso de Economia - UFRR

_________________________________________
Prof. Msc. Salma Said Rezek Mendoza
Curso de Economia - UFRR

Boa Vista – RR
2016
Dedico este trabalho, primeiramente a
Deus, que me deu força, vida e saúde
durante toda esta caminhada.
A Minha mãe e meu irmão, que sempre
me apoiaram em meus estudos e
ajudaram quando preciso, sem eles não
seria quem sou hoje.
E a todos os Professores que passaram
pela minha vida e com seus
ensinamentos contribuíram para minha
formação acadêmica.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente a Deus, que me deu a vida e que sempre me


mostrou o caminho a seguir.
A minha família, por terem sempre me incentivando e me dado forças para
continuar lutando pelos meus objetivos.
Ao meu orientador, Professor Dr. Getúlio Alberto de Souza Cruz, pela
orientação deste trabalho com enorme preocupação e dedicação estando sempre
disponível para um diálogo.
A todos que contribuíram direta e indiretamente para realização deste
trabalho.
RESUMO

O trabalho investiga a política econômica praticada pelo governo brasileiro


Fernando Henrique Cardoso que levou ao crescimento das taxas de desemprego no
período de 1995 a 2002. O objetivo deste trabalho é entender a política econômica
do governo FHC, baseando-se nos fatores econômicos que levaram a um elevado
índice de desemprego no país. Para estudar a relação entre o aumento do
desemprego e a política econômica no governo FHC, é feita uma abordagem inicial
na direção da busca de um conceito amplo do neoliberalismo, doutrina que emergiu
a partir dos trabalhos de Friedrich Hayek e Milton Friedman, entre outros, e que se
implementou em diversos países do mundo a partir do final dos anos 1970, seguida
dos governos FHC. Buscou-se uma definição de neoliberalismo para estudar as
medidas neoliberais empregadas naquele período no Brasil. Posteriormente, é feito
um estudo sobre o Governo FHC, abordando a maneira como se deu a condução da
política econômica no período e seus impactos sobre o nível de emprego. Isso
implica em tentar compreender o grau de influência do governo brasileiro a partir da
crescente internacionalização do ideário neoliberal e as suas consequências no
índice de desemprego.

Palavras-chave: Neoliberalismo; Governo Fernando Henrique Cardoso; política


econômica; desemprego; Brasil.
ABSTRACT

The paper investigates the economic policy adopted by the Brazilian


government of Fernando Henrique Cardoso that led to the growth of unemployment
rates in the period from 1995 the 2002. The objective of this work is to understand
the economic policy of the FHC government, based on economic factors that have
led to high unemployment in the country. To study the relationship between the
growth of unemployment and the economic policy in the FHC government, it is made
an initial approach towards the search for a broad concept of neoliberalism doctrine
that emerged from the work of Friedrich Hayek and Milton Friedman, among others,
and it was implemented in several countries from the last years of the 1970 decade,
followed by the FHC governments. It sought a definition of neoliberalism to study the
neoliberal measures employed at that period in Brazil. Subsequently, a study of the
FHC administration is done by addressing the way how was the conduct of economic
policy in the period and its impact on employment. This involves trying to understand
the degree of influence of the Brazilian government from the growing
internationalization of neoliberal ideals and its consequences on the unemployment
rate.

Key-Words: Neoliberalism; Fernando Henrique Cardoso Government; economic


policy; unemployment; Brazil.
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Balança Comercial (US$ bilhões): Brasil, 1994 – 1998 .......................... 30


Gráfico 2 – Transações Correntes e Balança Comercial (US$ bilhões): Brasil, 1994 –
1998 .......................................................................................................................... 31
Gráfico 3 – Taxa de Juros (Selic anualizada): Brasil, 1995 - 1998 ............................ 32
Gráfico 4 – Taxas de Juros (Selic anualizada): Brasil, 1999 – 2002 ......................... 40
Gráfico 5 – Taxa de Desemprego Aberto (%): Brasil, 1995 – 2002........................... 46
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Programa Nacional de Desestatização: Brasil, 1994-1998 ..................... 28


Tabela 2 – Resultados do Setor Público: Brasil, 1995 – 1998 .................................. 29
Tabela 3 – Programa Nacional de Desestatização: Brasil, 1999 - 2002 ................... 38
Tabela 4 – Dívida Líquida do Setor Público: Brasil, 1999 - 2002 .............................. 41
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento


BIRD – Banco Internacional para Reconstrução e o Desenvolvimento
BIS – Bank for International Settlements
CMN – Conselho Monetário Nacional
COFINS – Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social
COPOM – Comitê de Política Monetária
CPMF – Contribuição Provisória Sobre Movimentações Financeiras
DRU – Desvinculação de Recursos da União
EC – Emenda Constitucional
FHC – Fernando Henrique Cardoso
FMI – Fundo Monetário Internacional
INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor
LRF – Lei de Responsabilidade Fiscal
PEC – Proposta de Emenda Constitucional
PEF – Programa de Estabilização Fiscal
PIB – Produto Interno Bruto
PLC – Projeto de Lei Complementar
PND – Processo Nacional de Desestatização
RGPS – Regime Geral de Previdência Social
RPPS – Regime Próprio de Previdência Social
STF – Supremo Tribunal Federal
URV – Unidade Real de Valor
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................... 13

1.1 TEMA E PROBLEMA ...................................................................................... 13


1.2 OBJETIVOS .................................................................................................... 14
1.2.1 Objetivo Geral ........................................................................................ 14

1.2.2 Objetivos Específicos............................................................................. 14

1.3 JUSTIFICATIVA ........................................................................................... 14


2 REFERENCIAL TEÓRICO.................................................................................... 16

2.1 LIBERALISMO CLÁSSICO ............................................................................. 16


2.2 O ESTADO KEYNESIANO ............................................................................. 18
2.3 NEOLIBERALISMO: ORIGEM E CONCEITO ................................................. 19
2.4 GOVERNOS THATCHER E REAGAN ........................................................... 21
2.5 CONSENSO DE WASHINGTON .................................................................... 22
3 OS GOVERNOS FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ........................................ 24

3.1 CONTEXTO HISTÓRICO-ECONÔMICO ........................................................ 24


3.2 O PRIMEIRO MANDATO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO .................... 25
3.3 O PLANO REAL .............................................................................................. 26
3.3.1 As privatizações ..................................................................................... 27

3.3.2 A Âncora Cambial .................................................................................. 29

3.3.3 As Taxas de Juros ................................................................................. 31

3.3.4 A Reforma do Estado............................................................................. 33

3.3.5 As Mudanças na Previdência ................................................................ 35

3.3.6 Lei de Responsabilidade Fiscal ............................................................. 36

3.3.7 Programa de Estabilização Fiscal .......................................................... 37

3.4 O SEGUNDO MANDATO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO ................... 38


3.4.1 O Processo de Privatizações ................................................................. 38

3.4.2 O Tripé Macroeconômico ....................................................................... 39

3.4.3 A taxa de juros como nova âncora......................................................... 39


3.5 ACORDOS COM O FMI E SUAS CONDICIONALIDADES............................. 42
3.5.1 Crise Russa e o Primeiro Acordo ........................................................... 42

3.5.2 Apagão, Crise Argentina e o Segundo Acordo ...................................... 43

3.5.3 Eleições de 2002 e o Terceiro Acordo ................................................... 44

3.5.4 Resultados dos Acordos com o FMI ...................................................... 44

3.6 METODOLOGIA ............................................................................................. 45


3.7 RESULTADOS ................................................................................................ 46
4 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 47

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.............................................................................. 49
13

1 INTRODUÇÃO

1.1 TEMA E PROBLEMA

O tema desta monografia é o estudo do neoliberalismo, praticado na política


econômica do governo Fernando Henrique Cardoso, no período de 1995 a 2002.
O problema investigado neste estudo é como essa política econômica
adotada no governo brasileiro FHC levou ao aumento do desemprego?
No início dos anos 90, o Estado Brasileiro buscou fortalecer o mercado como
promotor do crescimento econômico. Desta forma, foram adotadas políticas
econômicas com perfil neoliberal, compreendendo a liberdade individual, a
propriedade privada e a mínima intervenção estatal nas atividades econômicas.

O neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria das práticas político-


econômicas que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor
promovido liberando-se as liberdades e capacidades empreendedoras
individuais no âmbito de uma estrutura institucional caracterizada por
sólidos direitos a propriedade privada, livres mercados e livre comércio. O
papel de Estado é criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a
essas práticas; o Estado tem de garantir, por exemplo, a qualidade e a
integridade do dinheiro. Deve também estabelecer as estruturas e funções
militares, de defesa, da polícia e legais requeridas para garantir direitos de
propriedade individuais e para assegurar, se necessário pela força, o
funcionamento apropriado dos mercados. (HARVEY, 2008, p. 12).

Os governos democráticos que se destacaram e influenciaram na


implementação do pensamento neoliberal foram: Margaret Thatcher como primeira-
ministra da Inglaterra, na década de 1980 e o Ronald Reagan presidente dos
Estados Unidos, na década de 1990. Nesse período, as políticas econômicas de
ambos os países estavam direcionadas para desregulamentação de mercados,
privatizações de empresa e aumento da competitividade internacional.
Recentemente no Brasil essa doutrina teve ênfase inicial no governo Sarney,
ainda que de forma embrionária, mas foi no governo Fernando Henrique Cardoso
(1995-2002) que ganhou ênfase e consolidação. A adoção das ideias neoliberais
naquele período teve como objetivo principal o controle da inflação e a tentativa de
manter a economia estável, a partir de uma convicção de que a causa principal do
descontrole de preços na economia era à desorganização do estado.
A gestão FHC adotou uma política econômica embasada na contenção de
gastos na ―máquina pública‖, isto é, uma redução de gastos no serviço público; além
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das privatizações de empresas estatais, em razão do elevado déficit público - uma


vez, que funcionava por meio do Estado fiscalizando a si próprio, com as
privatizações o Estado passou a fiscalizar as empresas privadas por meio de
agências reguladoras, o que proporcionou abertura de capital estrangeiro, além de
melhores resultados na prestação de serviços; e atuou reduzindo a forte intervenção
do Estado no mercado.

1.2 OBJETIVOS

1.2.1 Objetivo Geral

Analisar a política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso no


período de 1995-2002, baseando-se nos fatores econômicos que levaram ao
elevado índice de desemprego no país.

1.2.2 Objetivos Específicos

 Elaborar um breve histórico sobre as origens do neoliberalismo na Economia;


 Descrever como funcionava a política econômica do governo Fernando
Henrique Cardoso;
 Obter os resultados da política econômica adotada pelo governo FHC.

1.3 JUSTIFICATIVA

Uma das justificativas da realização desta pesquisa é compreender as


características da política econômica no Brasil neste período, mostrando as
consequências positivas e negativas das medidas adotadas.
Além disso, a implementação da doutrina neoliberal é atual e surgiu como
uma contraposição ao Estado Keynesiano. No qual se busca o melhor desempenho
econômico por meio das medidas que norteiam o Consenso de Washington, o
estudo visa mostrar como o país atuou diante dessa política liberal, no sentido de
15

permitir a abertura de capital estrangeiro por meio das privatizações, ou seja, do


Processo Nacional de Desestatização (PND).
Outro aspecto que direciona a realização dessa pesquisa é a importância dos
governos FHC para a economia brasileira, sendo de suma relevância a continuidade
do Plano Real para alcançar a estabilização econômica, contendo a inflação e o
controle das dívidas públicas.
O estudo é organizado, além desta introdução, em dois capítulos, seguido das
considerações finais. No primeiro deles, o objetivo é identificar as origens do modelo
Neoliberal na economia. Para isso, será estudado o surgimento do liberalismo
clássico, com o economista Adam Smith e outros. Em seguida, tem se um breve
histórico da queda do liberalismo como pensamento dominante no início do século
XX, resultando no Estado Keynesiano. Depois, os fundamentos teóricos do
neoliberalismo são esmiuçados, tomando-se por base as Obras de Friedrich Hayek,
Milton Friedman e James Buchanan. Logo depois, a implantação desse pensamento
nos governos da ministra da Inglaterra Margaret Thatcher e do Presidente dos
Estados Unidos Ronald Reagan e depois a realização da reunião entre membros
think-tanks, funcionários do governo norte-americano, do Fundo Monetário
Internacional e do Banco Mundial, em Novembro de 1989, que define e difundir o
Consenso de Washington. Com esta delineação teórica, obtém-se o conceito de
neoliberalismo.
No segundo capítulo é analisando os mandatos do governo Fernando
Henrique Cardoso, começando por um breve contexto histórico-econômico. Em
seguida, a gestão do primeiro governo FHC dar continuidade ao Plano Real no qual
visar mostra o cenário de crescimento do desemprego, juntamente com um conjunto
de medidas econômicas tais como: as privatizações, a Âncora Cambial, a Taxa de
Juros e a Reforma do Estado, almejando conter a inflação, o déficit público e obter a
estabilidade econômica. Logo depois, o segundo mandato do governo é marcado
pela substituição da âncora cambial pelo tripé macroeconômico, na qual a taxa de
juros é a nova âncora. Em seguida, e firmado acordos e suas condicionalidades com
o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial como grandes
fomentadores da doutrina neoliberal.
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2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 LIBERALISMO CLÁSSICO

Segundo Stewart Jr: ―O liberalismo é uma doutrina política voltada para a


melhoria das condições materiais do gênero humano. Seu propósito é reduzir a
pobreza e a miséria, e o meio que propõe para que esse objetivo seja atingido é a
liberdade.‖ (STEWART JR, 1995, p. 71).
O economista Adam Smith foi à base fundamental do liberalismo clássico,
com a publicação A Riqueza das Nações, em 1776, certamente um dos livros mais
reeditados e citados dos tempos modernos. Retratando um momento decisivo em
que uma série de ideias deixam de ser apenas percepções e tornam-se um
verdadeiro sistema de pensamento. Um sistema que afirma, convictamente, que o
mundo seria melhor – mais justo, solidário, eficiente e produtivo – se houvesse livre
iniciativa no mercado, se as atitudes econômicas dos indivíduos e suas relações não
fossem limitadas por regulamentos e monopólios estatais. Uma doutrina que prega a
necessidade de privatizar as atividades econômicas, reduzindo o Estado a funções
bastante definidas, estas funções estabelecem apenas parâmetros gerais para as
atividades livres dos agentes econômicos. Elas são basicamente três: a manutenção
da segurança interna e externa, a garantia da propriedade e dos contratos e a
responsabilidade por serviços essenciais de utilidade pública.
Segundo as ideias da doutrina liberal, uma característica inata ao indivíduo é
a busca incessante pelo lucro e pelos seus próprios interesses. Isso é visto de
maneira positiva, uma vez que recompensam a poupança e remuneram o
investimento, além de causar a inovação e a manifestação de ideias cada vez mais
criativas, que por fim fomentam a competitividade e a livre concorrência. Conforme
Smith:
―Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que
esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios
interesses. Apelamos não à humanidade, ao amor-próprio, e nunca falamos
de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter‖.
(SMITH, 1996, p. 50).

Para doutrina liberal a divisão do trabalho e a especialização proporcionaram


maior dinamismo na economia, ou seja, permitiram produzir com mais eficiência e
eficácia, obtendo melhores resultados como aumento da produção. Segundo Smith:
17

―Um maior aperfeiçoamento nas forças produtivas do trabalho, e a maior parte do


engenho, destreza e discernimento com que é dirigido em qualquer lugar, ou
aplicado, parecem ter sido os efeitos da divisão do trabalho. (...)‖ (SMITH, 2003:1)
A contribuição do economista Jean Baptiste Say foi de grande relevância para
o liberalismo, ele afirmava que a superprodução era impossível, embasado na Lei
dos Mercados de Say, na qual determina que ―a oferta cria sua própria demanda‖. A
explicação para Lei de Say encontra respaldo na perspectiva que não existe
diferença básica entre uma economia monetária e uma economia de troca direta, ou
seja, o que as empresas conseguirem produzir, os consumidores têm capacidade de
consumir.
Em 1817, David Ricardo acrescentou um aspecto no argumento de Smith:
estendendo-o para o conjunto da sociedade pensada em termos internacionais e
também a divisão social do trabalho ganhando a forma das ―vantagens recíprocas‖
resultantes de uma especialização natural dos países.

Num sistema comercial perfeitamente livre, cada país naturalmente dedica


seu capital e seu trabalho à atividade que lhe seja mais benéfica. Essa
busca de vantagem individual está admiravelmente associada ao bem
universal do conjunto dos países. Estimulando a dedicação ao trabalho,
recompensando a engenhosidade e propiciando o uso mais eficaz das
potencialidades proporcionadas pela natureza, distribui-se o trabalho de
modo mais eficiente e mais econômico, enquanto pelo aumento geral de
volume de produtos difunde-se o benefício de modo geral e une-se a
sociedade universal de todas as nações do mundo civilizado por laços
comuns de interesse e de intercâmbio. Este é o princípio que determina que
o vinho seja produzido na França e em Portugal, que o trigo seja cultivado
na América e na Polônia, e que as ferramentas e outros bens sejam
manufaturados na Inglaterra (RICARDO, 1982, p. 104).

Uma das expressões que se emprega perfeitamente por Smith é a ―mão


invisível‖, segundo suas palavras, o novo sistema seria óbvio e simples, ou seja, que
o mercado se autorregular.

―... uma vez eliminados inteiramente todos os sistemas, sejam eles


preferenciais ou de restrições, impõe-se por si mesmo o sistema óbvio e
simples da liberdade natural. Deixa-se a cada qual, enquanto não violar as
leis da justiça, perfeita liberdade de ir em busca de seu próprio interesse, a
seu próprio modo, e faça com que tanto seu trabalho como seu capital
concorram com os de qualquer outra pessoa ou categoria de
pessoas.‖(SMITH, 1983, p. 47)

Como visto, Smith defende seu argumento da ―mão invisível‖ determinado de


sistema óbvio e simples, no qual propõe o fim da intervenção estatal em busca de
18

estabelecer a liberdade de produção, proporcionando maior competitividade entre os


países.
O pensamento liberal nasce como uma oposição aos valores e ideias do
sistema mercantilista e das corporações de ofício. Conforme bastante citado na obra
A Riqueza das Nações, Smith criticava alguns entraves, sendo a principal crítica o
mercantilismo. A França e a Inglaterra são os melhores exemplos dessa prática.
Segundo ele, o protecionismo e a regulamentação que eram praticados pelas
economias mercantilistas, inviabilizavam o crescimento econômico.
Nas corporações de Ofício criticavam-se os entraves à liberdade de passar
de uma profissão a outra, ou simplesmente, de exercer um ofício que o indivíduo
considere de seu interesse. Smith afirma que as reuniões de ―pessoas da mesma
profissão [...] terminam em uma conspiração contra o público, ou em algum
incitamento para aumentar os preços‖. Se não pode evitá-las, ―nada se deve fazer
para facilitá-las e muito menos para torná-las necessárias‖. (SMITH, 1983, p.139)
Nesse aspecto julgasse que seriam facilitadas quando regulamentos
obrigassem a inscrição dos membros de uma profissão em um registro público, o
que abre caminho a contatos e conluios. E seriam induzidas à necessidade quando
regulamentos permitissem os membros de uma profissão a impor taxas. A conclusão
de Smith é objetiva: a autoridade pública, ao invés de regulamentar a existência de
corporações, deve atuar desestimulando sua manutenção e os regulamentos que
delas emanam.

2.2 O ESTADO KEYNESIANO

O século XIX foi marcado por guerras e revoluções, além de crises de


superprodução e crises financeiras. Muitos países como Estados Unidos, Alemanha
e Japão adotavam medidas intervencionistas e protecionistas para fomentar a
atividade econômica. Em 1929, com a queda da bolsa de Nova York, essas ideias
foram ainda mais incentivadas. O liberalismo clássico apresentava sua queda.
Dessa maneira, o cenário econômico favoreceu o aparecimento de John Maynard
Keynes considerado a principal inspiração para o Estado Intervencionista, com sua
obra Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, em 1936.
19

Keynes defendia que o sistema não deveria se basear somente no ouro, mas
em moedas de conversibilidade internacional, administradas por uma autoridade
monetária. Desta forma, possibilitaria uma maior liquidez internacional, que
expandiria o comércio e a produção. Além disso, permitiria uma política monetária
mais ativa na estabilização dos níveis de preços e na ação contra cíclica que
dinamizaria os níveis de renda e emprego. Keynes não acreditava no ajustamento
automático da balança de pagamento (premissa Smithiana) sob o regime padrão
ouro. Para Keynes os mercados não são autorregulados, contrariando as ideias
clássicas de Smith e Say, tendo em vista que a produção gera excessos
necessitando ser corrigida pela intervenção do Estado.

2.3 NEOLIBERALISMO: ORIGEM E CONCEITO

O neoliberalismo entende-se como uma doutrina que influência a forma de


vida humana, tanto individual como social, entre eles a política econômica.
Conforme já visto, a doutrina fundamenta-se no liberalismo clássico, possuído como
características a exaltação do mercado, valorização da liberdade individual, bem
como uma política econômica competitiva e que por fim rejeita a intervenção estatal.
O pensamento neoliberal desdobrou-se no pós-guerra em três variantes
importantes, são elas:

1) Escola Austríaca, liderada por Friedrich August Von Hayek, o patrono do


pensamento neoliberal;
2) Escola de Chicago, representada por T. W. Schultz e Gari Becker, e
principalmente Milton Friedman, o grande representante dessa escola;
3) Escola de Virgínia ou public choice por James M. Buchanan.

A corrente austríaca de pensamento neoliberal teve início no século XX


apresentada por um de seus profetas, o austríaco Ludwig von Mises. Entretanto, o
grande nome do neoliberalismo é o também austríaco Friedrich August Von Hayek,
que teve papel de líder e patrono da causa. Sua obra O caminho da servidão,
lançada em 1944, é considerada o manifesto inaugural e documento de
embasamento para o movimento neoliberal.
20

Nossa liberdade de escolha, no regime de concorrência, repousa na


possibilidade de podermos procurar outra pessoa para satisfazer os nossos
desejos, caso alguém se recuse a fazê-lo. Quando nos deparamos com um
monopolista, porém, ficamos à sua mercê. E a autoridade que dirigisse todo
o sistema econômico seria o mais poderoso monopolista que se possa
conceber (HAYEK, 2010, p. 105).

O caminho da servidão é um livro de combate, provocativamente direcionado


―aos socialistas de todos os partidos‖. Não dirige suas críticas apenas contra os
partidários da revolução e da economia globalmente planificada, mas a toda e
qualquer medida política, econômica e social que manifeste a simpatia ou
concessão para criações de reformas ou pretensões de fundar um terceiro sistema
entre capitalismo e comunismo. Segundo Hayek: ―Quanto mais o estado planeja,
mais difícil se torna para cada indivíduo fazer seus próprios planos‖ (HAYEK, 2010,
p. 92).
A ideia mais relevante de Hayek é o modelo das decisões descentralizadas e
do conhecimento disperso. Para ele, o mercado é movido pelos interesses de cada
indivíduo e suas atividades individuais, sendo que as forças envolvidas na sociedade
são o empreendedorismo e a concorrência.
A segunda corrente de pensamento neoliberal, a escola monetarista de
Chicago, teve grande destaque com o economista Milton Friedman que contestava
os pressupostos da teoria keynesiana. Para Friedman não era possível se ter
conhecimento suficiente sobre as variáveis de mercado para manipular
acertadamente as ferramentas da política fiscal e monetária. A obra que melhor
sintetizar a posição de Friedman em relação ao neoliberalismo é a obra Capitalismo
e liberdade, publicado em 1962 nos EUA.

Seu tema principal é o papel do capitalismo competitivo - a organização da


maior parte da atividade econômica por meio da empresa privada operando
num mercado livre - como um sistema de liberdade econômica e condição
necessária à liberdade política. Seu tema secundário é o papel que o
governo deve desempenhar numa sociedade dedicada à liberdade e
contando principalmente com o mercado para organizar sua atividade
econômica (FRIEDMAN, 1984, p. 13).

A terceira corrente de pensamento neoliberal tem como representante James


M. Buchanan responsável pela fundação da public choice (um centro de estudos
sobre escolhas públicas), que vem se tornando importante referência intelectual para
as reformas neoliberais. Segundo Moraes: ―a public choice procura analisar a
21

política, a história, o comportamento social e as estruturas legais e constitucionais


utilizando os métodos e pressupostos da microeconomia neoclássica.‖ (MORAES,
2001, p.26). Desta forma, temos que seus estudos são voltados para: o homem
econômico, um ser racional que possui suas necessidades ilimitadas e que almeja
obter o máximo de resultados com os recursos escassos de que dispõe.

2.4 GOVERNOS THATCHER E REAGAN

A conquista do governo inglês por Margaret Thatcher, em 1979, é tida como


um marco na virada do neoliberalismo. A ministra Margaret Thatcher foi o primeiro
governo democrático que adotou essas ideias, a partir da década de 1980. Segundo
Perry Anderson (1995, p.12):

―Os governos Thatcher contraíram a emissão monetária, elevaram as taxas


de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos,
aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de
desemprego massivos, aplastaram greves, impuseram uma nova legislação
anti-sindical e cortaram gastos sociais. E, finalmente, (...) se lançaram num
amplo programa de privatização, começando por habitação pública e
passando em seguida a indústrias básicas como o aço, a eletricidade, o
petróleo, o gás e a água. Esse pacote de medidas é o mais sistemático e
ambicioso de todas as experiências neoliberais em países de capitalismo
avançado.‖

O governo Thatcher foi audacioso ao implantar as ideias neoliberais de forma


tão radical, sendo o primeiro país capitalista. Por meio, de suas medidas alcançou
bons indicadores econômicos, como controle da inflação e a valorização da moeda.
Contudo, ao longo de seu governo, não conseguiu evitar a elevação do desemprego.
O governo dos Estados Unidos, Ronald Reagan estabeleceu a doutrina
neoliberal, diante da estagnação e inflação que caracterizaram o comportamento
macroeconômico, conhecido como ―estagflação‖. Com isso, as políticas indicadas
por Reagan para manter seu principal objetivo de governo, a retomada do
crescimento econômico, reduzindo o desemprego e controlando a inflação, passam
pela redução da presença do Estado na economia.

Depois de tomar posse, Reagan estabeleceu um plano com quatro principais


metas para recuperar a economia: redução dos impostos, cortes nos gastos
públicos, desregulamentação e uma política monetária contracionista.
22

Logo após tomar posse, eu vim até vocês para mapear um plano de quatro
partes para a recuperação da economia nacional: cortes de impostos para
estimular mais crescimento e mais emprego, cortes nos gastos para dar um
fim aos contínuos déficits e alta inflação, alívio regulamentar para afrouxar a
pesada carga de regras governamentais e burocracia e, finalmente, uma
política monetária estável e consistente (REAGAN, 1981b).

2.5 CONSENSO DE WASHINGTON

Aconteceu em Washington, EUA, em novembro de 1989, uma reunião dos


funcionários do governo norte-americano com representantes de instituições
financeiras como FMI, Banco Mundial e BID (Banco Interamericano de
Desenvolvimento), todos especialistas em assuntos latino-americanos. O resultado
da reunião, sintetizado pelo economista John Williamson, tornou-se um manual que
passou a orientar os neoliberais da América Latina e de outros continentes.

O Consenso de Washington é um conjunto de regras de condicionalidade,


cada vez mais abrangentes, aplicadas pelos organismos internacionais,
sobretudo FMI e Banco Mundial, que os países devedores do mundo
capitalista periférico e agora do ex-mundo socialista têm de aceitar para
obter apoio político das grandes potências e escasso apoio financeiro dos
bancos e agências internacionais.
Estas regras começam a ser construídas com a crise da dívida externa de
1982 e referiam-se inicialmente a um conjunto de políticas
macroeconômicas que deveriam produzir um ataque simultâneo aos
mecanismos de propagação inflacionária: déficit público, déficit de balanço
de pagamento e expansão monetária, interpretados sem maior análise e
com a convicção dos ―santos‖ como as causas da inflação (TAVARES,
1994, p. 140).

De acordo com a abordagem de Washington as causas da crise latino-


americana são basicamente duas: a) o excessivo crescimento do Estado, traduzido
em protecionismo (o modelo de substituição de importações), excesso de regulação
e empresas estatais ineficientes e em número excessivo; e b) o populismo
econômico, definido pela incapacidade de controlar o déficit público e de manter sob
controle as demandas salariais tanto do setor privado quanto do setor público.
A partir dessa avaliação, as reformas no curto prazo deveriam combater o
populismo econômico e lograr o equilíbrio fiscal e a estabilização. A médio prazo ou
estruturalmente a receita é adotar uma estratégia de crescimento baseada na
redução do tamanho do Estado, na liberalização do comércio internacional e na
promoção das exportações.
23

Segundo Williamson (1990, p. 8-17), o ―consenso de Washington‖ é


constituído de 10 reformas: a) disciplina fiscal visando eliminar o déficit público; b)
mudança das prioridades em relação às despesas públicas, eliminando subsídios e
aumentando gastos com saúde e educação; c) reforma tributária, aumentando os
impostos se isto for inevitável, mas ―a base tributária deveria ser ampla e as taxas
marginais deveriam ser moderadas‖; d) as taxas de juros deveriam ser determinadas
pelo mercado e positivas; e) a taxa de câmbio deveria ser também determinada pelo
mercado, garantindo-se ao mesmo tempo em que fosse competitiva; f) o comércio
deveria ser liberalizado e orientado para o exterior (não se atribui prioridade à
liberalização dos fluxos de capitais); g) os investimentos diretos não deveriam sofrer
restrições; h) as empresas públicas deveriam ser privatizadas; i) as atividades
econômicas deveriam ser desreguladas; j) o direito de propriedade deve ser tornado
mais seguro.
Conforme os pontos da reforma, tem-se que as cinco primeiras reformas se
resumem em um objetivo: promover a estabilização da economia através do ajuste
fiscal e da adoção de políticas econômicas ortodoxas em que o mercado
desempenhe o papel fundamental. As cinco restantes são formas diferentes de
afirmar que o Estado deveria ser fortemente reduzido. Esta lista de reformas é,
portanto, perfeitamente coerente com o diagnóstico de que a crise latino-americana
origina-se na indisciplina fiscal (populismo econômico) e no estatismo (protecionismo
nacionalista).
Desta forma, as conclusões do Consenso acabaram tornando-se o receituário
imposto por agências internacionais para a concessão de créditos, ou seja, os
países que quisessem empréstimos do FMI, por exemplo, deveriam adequar suas
economias às novas regras. Assim, os países da América Latina e de outros
continentes, que acionaram as agências internacionais para obter ajudar financeira,
em meio a crises e recessões econômicas, ficaram submetidos a cumprir firmemente
os enunciados firmados no Consenso de Washington.
24

3 OS GOVERNOS FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

3.1 CONTEXTO HISTÓRICO-ECONÔMICO

No final do século XX, assistiu-se a um complexo processo de rápidas


transformações econômicas, sociais e políticas. Esse processo pode ser resumido
na análise de três fenômenos, de dimensão mundial, que se juntam e se
complementam na determinação do novo momento do capitalismo em escala
planetária. O primeiro fenômeno é o do neoliberalismo, entendido em sua dupla
dimensão enquanto doutrina e enquanto um conjunto de políticas econômico-
sociais, adotadas por boa parte dos governos na época. Outro fenômeno é o da
reestruturação produtiva, associada às novas tecnologias e às novas formas e
métodos de gestão e organização do trabalho. Por fim, o terceiro fenômeno é o da
globalização (FILGUEIRAS, 2000).
Desde o fim da década de 1970, quando ocorreu o segundo choque do
petróleo e a elevação das taxas de juros americanas, a economia do Brasil passou
por um processo de grande instabilidade, expressa em elevadas taxas de inflação e
problemas de natureza cambial. Durante a década de 1980 e início dos anos 90, a
política econômica dos sucessivos governos elegeu como prioridade, ora o
enfretamento da questão cambial, ora o combate à inflação. Nesse período foram
desenvolvidos e colocados em prática sete planos de estabilização: Cruzado I e II,
Bresser, Verão, Collor I e II e, por fim, o Plano Real. Os quatro primeiros foram
implementados num momento de extrema escassez de recursos financeiros nos
mercados internacionais e os três últimos, inspirados de forma mais ou menos direta
no Consenso de Washington, foram implementados num momento de retorno da
liquidez nos mercados financeiros internacionais (FILGUEIRAS, 2000).
Na década de 90, um novo modelo de inserção da economia brasileira surgiu
e junto dele uma nova política industrial, um programa de privatizações, aumento da
vulnerabilidade externa e um debate acerca da viabilidade do modelo de inserção
internacional da economia brasileira (LACERDA et. al., 2013).
A nova política industrial tinha como objetivo o aumento da eficiência na
produção e na comercialização de bens e serviços, com base na reestruturação da
indústria. As propostas dessa nova política industrial foram a redução progressiva
dos níveis de proteção tarifária, reestruturação competitiva, fortalecimento de
25

segmentos potencialmente competitivos e desenvolvimento de novos setores,


exposição da indústria à competição internacional e capacitação tecnológica da
empresa nacional (LACERDA et. al., 2013).

3.2 O PRIMEIRO MANDATO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Uma das principais contribuições de Fernando Henrique Cardoso foi garantir


a estabilidade monetária para o país, para isso, ainda como ministro da Fazenda do
governo anterior implantou o Plano Real. O primeiro governo FHC foi dominado pelo
tema da estabilização, devido a memória dos planos fracassados anteriormente. O
governo FHC iniciou-se sob intensa pressão, principalmente por quatro razões: A
primeira é que a economia, no início de 1995, se encontrava em processo de
superaquecimento, o que relembrava o fantasma do Plano Cruzado. A segunda
razão é que estava em curso a crise do México, o que levou os economistas a
questionarem os regimes de câmbio rígido. A terceira razão é que as reservas
internacionais do Brasil estavam caindo. Por fim, a inflação mantinha certa
resistência à queda, já que a variação dos preços medida pelo INPC entre os meses
de julho de 1994 a junho de 1995 foi de 33% (VILLELA et. al., 2004).
Com a estabilização econômica conquistada com o Plano Real, associada ao
calendário eleitoral que apoiava o candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso
foi eleito Presidente República no primeiro turno das eleições, em 03 de Outubro de
1994, com quase 55% dos votos válidos. Ciente da fonte de seus votos, FHC
reconhece em seu discurso de posse que: ―Ao escolher a mim para sucedê-lo
(Itamar Franco), a maioria absoluta dos brasileiros fez uma opção pela continuidade
do Plano Real e pelas reformas estruturais necessárias para afastar de uma vez por
todas o fantasma da inflação‖ (CARDOSO, 1995a).
Os discursos do presidente são uma fonte segura do que pensava o governo
sobre a reforma de Estado e as medidas neoliberais, diante disso, segue alguns
trechos emblemáticos de pronunciamentos.
Em 03 de fevereiro de 1995, FHC elucidar a importância da aprovação, pelo
Congresso Nacional, da Lei de Concessão e Permissão da Prestação de Serviços
Públicos, de sua autoria como Senador.
26

Com essa lei e com a transformação que já fiz nos mecanismos das
privatizações, abre-se um enorme espaço para a modificação do Estado
brasileiro. Com o concurso da iniciativa privada, poderemos retomar as
obras de geração de energia elétrica, melhorar nossos portos, nossas
estradas e assim por diante (CARDOSO, 1995b).

Sobre as privatizações, Fernando Henrique diria:

À nossa moda, sem fazer alarde, sem fazer barulho, nós já mudamos todas
as regras da privatização. Poucos registraram, mas já mudamos as regras
da privatização, chamamos para o Governo a responsabilidade direta de
levar adiante o processo de privatização e recolocamos, na lista de
privatizações, as empresas que deveriam ser privatizadas, que, para sorte
nossa, são hoje mais valorizadas do que eram antes. E o patrimônio público
terá, portanto, um ganho quando essa privatização vier a ser feita, nesses
próximos meses. Não será problema de anos, será problema de meses - e
é uma lista grande, polpuda. Espero que haja uma forte participação dos
capitais privados, para que efetivamente tenhamos condições de uma
transformação profunda nessa matéria. Vamos privatizar, porque isso é
condição necessária para que haja realmente a confiança no equilíbrio das
contas do Estado e para que haja uma redefinição da própria estrutura do
Estado, das funções, dos objetivos do Estado (CARDOSO, 1995c).

O presidente FHC partia da convicção de que, o Brasil precisava inserir-se na


economia global de forma competitiva, para conseguir ocupar uma posição melhor
no cenário econômico mundial. Para tal, o presidente acreditava que seria
necessário encerrar o ciclo histórico do Brasil de intervencionismo estatal e seguir
uma política liberal que envolve privatizações, abertura econômica, ajuste fiscal e
combate a inflação.

3.3 O PLANO REAL

Este Plano econômico foi um dos mais engenhosos no ataque ao processo


inflacionário no Brasil e sua execução se deu em três fases: (i) ajuste fiscal; (ii)
indexação completa da economia - Unidade Real de Valor (URV); e (iii) reforma
monetária - transformação da URV em Reais (R$) (VASCONCELLOS, GREMAUD,
TONETO JÚNIOR, 2010).

A primeira fase de ajuste fiscal visava equilibrar o orçamento do governo


baseado em três elementos; corte de despesas, aumento dos impostos e
diminuição nas transferências do governo federal, para que não ocorressem
pressões inflacionárias. A segunda parte do plano era a implantação da
URV que era um indexador dos preços relativos cumprindo a função de
27

unidade de conta. Assim o valor dos bens em cruzeiros reais seria corrigido
diariamente pela taxa de inflação, além de substituir a moeda oficial
(cruzeiro real), na relação com taxa de câmbio mantendo uma paridade fixa
com dólar de um para um. A última parte do plano quanto todos os preços
estavam expressos em URV o governo introduziu a nova moeda o Real
(R$) cujo valor era igual ao da URV e, por conseguinte ao US$ do dia: CR$
2.750,00. Desta forma todos os preços em CRS eram convertidos em RS,
dividindo-se pelo valor da URV do dia "D" (VASCONCELLOS et. al., 2010).

O Plano Real e seus desdobramentos são de fundamental importância na


análise do comportamento da economia e, em especial, do desemprego brasileiro
durante o primeiro governo de FHC, visto que representou um grande
redirecionamento da política econômica. Visando entender o cenário de crescimento
do desemprego verificado entre 1995 e 1998, serão estudando, três importantes
pontos do direcionamento econômico vigente na época: as privatizações, a política
cambial e as taxas de juros.

3.3.1 As privatizações

Com a criação do Programa Nacional de Desestatização (PND), em 1990, o


processo de privatizações foi intensificado, tornando-se parte integrante das
reformas econômicas do governo. As desestatizações tiveram início com a venda da
siderúrgica Usiminas por 2,31 bilhões de dólares. De início, o PND concentrou
esforços na venda de estatais produtivas (LACERDA et. al., 2013).
A privatização transferiu para o setor privado empresas deficitárias ou
empresas superavitárias com níveis inadequados de investimento. Com a
desestatização, esses gastos deixariam de pressionar as contas públicas. O fim dos
monopólios estatais exigiu aprovação de Emenda Constitucional e permitiu que os
setores de petróleo e telecomunicações deixassem de ser prerrogativa exclusiva de
atuação do Estado, abrindo caminho para o estabelecimento de competição no setor
de petróleo — mesmo com a Petrobras continuando a ser estatal — e para a
privatização da Telebrás (GIAMBIAGI et. al., 2011).
As privatizações, na gestão FHC, caracterizaram-se pela venda de empresas
prestadoras de serviços públicos, com ênfase nas áreas de telecomunicações e
energia. As razões por detrás do processo de privatização estão explicitadas no
28

artigo 1º da Lei nº 8.031 de abril de 1990, conforme o qual o Programa Nacional de


Desestatização (PND), lançado em 1990, tinha os seguintes objetivos fundamentais:

―reordenar a posição estratégica do Estado na economia, transferindo à


iniciativa privada atividades indevidamente exploradas pelo setor público;
contribuir para a redução da dívida pública (...); permitir a retomada de
investimentos nas empresas e atividades que vierem a ser transferidas à
iniciativa privada; contribuir para a modernização do parque industrial do
País (...); permitir que a administração pública concentre seus esforços nas
atividades em que a presença do Estado seja fundamental para a
consecução das prioridades nacionais; e contribuir para o fortalecimento do
mercado de capitais‖ (GIAMBIAGI et. al., 2011).

Entre os objetivos do Plano Real estava a redefinição do papel do Estado e


da sua relação com a economia privada, por meio de medidas como a
racionalização dos gastos e as privatizações de empresas estatais, que visavam
recuperar as contas públicas. No tocante as privatizações, o governo buscava
diminuir a pressão sobre a dívida pública, evitando os gastos necessários com as
empresas públicas que possuíam nível inadequado de investimento e recebendo as
receitas advindas da venda das empresas (CHRISTO, 2013). A Tabela 1 mostra os
resultados das privatizações durante o plano.

Tabela 1 – Programa Nacional de Desestatização: Brasil, 1994-1998

Empresas Receitas Passivos transferidos ao


privatizadas (US$ bilhões) comprador (US$ bilhões)
1994 9 0,62 0,35
1995 8 1,12 0,62
1996 11 4,2 0,67
1997 4 3,81 3,56
1998 7 1,23 1,08
Total 39 10,98 6,28
Fonte: Boletim Anual do Banco Central do Brasil nº IV, 1998.

Todavia, a despeito da privatização de 39 empresas, totalizando receita de


US$ 10,98 bilhões e transferências de US$ 6,28 bilhões em passivos para os
compradores, a situação da dívida pública não melhorou, conforme demonstrado na
Tabela 2.
29

Tabela 2 – Resultados do Setor Público: Brasil, 1995 – 1998

Déficit Nominal Dívida Líquida do Setor Público


%PIB Total (R$ milhões) %PIB
1995 7,2 208.460 30,5
1996 5,9 269.193 33,3
1997 6,1 308.426 34,5
1998 8,0 389.163 42,7
Fonte: Boletins do Banco Central do Brasil, diversos números.

O déficit nominal não foi reduzido e a dívida líquida do setor público


aumentou de 30,5% do PIB em 1995 para 42,7% do PIB em 1998. Entretanto,
segundo Giambiagi ―[...] a dívida pública foi favoravelmente afetada, no sentido de
que sem a privatização ela seria maior ainda.‖ (GIAMBIAGI, 2011a, p. 186).
No tocante aos índices de desemprego verificados ao longo do Plano Real,
Pochmann (2001) mostra que o efeito das privatizações sobre o volume de emprego
no setor público foi negativo. O autor destaca que foi gerado um saldo líquido de 300
mil postos de trabalho destruídos no setor público entre 1995 e 1999, sem a
necessária contrapartida da geração de novas vagas no setor privado.

3.3.2 A Âncora Cambial

O Plano Real alcançou a estabilização tão almejada após diversas tentativas


frustradas de conter a elevação desenfreada dos níveis de preços, que havia
atravessando mais de uma década. Para atingir o sucesso no controle inflacionário,
o governo mudou drasticamente o método de condução da política monetária,
adotado a âncora cambial, que consiste em uma estratégia de combate inflacionário
por meio da administração do câmbio. Em um primeiro momento, foi introduzido um
teto máximo para a taxa de câmbio: um real equivalia a um dólar. A partir de março
de 1995, o Banco Central adotou formalmente o sistema de bandas cambiais,
estabelecendo os limites dentro dos quais o câmbio podia flutuar. Inicialmente as
bandas eram R$0,86/US$1 e R$0,90/US$1, mantendo a valorização cambial
verificada nos primeiros meses do plano. Apesar das microdesvalorizações ocorridas
ao longo do tempo, a taxa de câmbio ainda estava desvalorizada no início de 1999,
30

quando o governo tornou o regime cambial flutuante e a moeda foi fortemente


desvalorizada (CHRISTO, 2013).
Entre 1995 e 1998, a âncora cambial foi mantida e o real permaneceu
artificialmente valorizado, o que por um lado garantiu a estabilidade e por outro se
desdobrou em grandes impactos sobre o desempenho da economia brasileira.
Primeiramente, o fato de a moeda interna estar sobrevalorizada encareceu as
exportações brasileiras e derrubou os preços das importações. Como consequência,
as importações dispararam deslocando o consumo da produção interna para
produtos importados, uma vez que os produtos locais não puderam fazer frente à
concorrência com produtos estrangeiros. Lacerda et al (2010) entendem que a
redução das alíquotas de importação, somada à valorização da moeda, à
ineficiência de mecanismos de proteção ao dumping e a práticas desleais de
comércio internacional, causou um pesado ônus ao País, provocando a substituição
da produção local por importações, mesmo em setores com boa capacidade
competitiva.
O aumento das importações ocasionou o desequilíbrio da balança comercial,
pois as exportações foram pouco ampliadas no período, como está evidenciado no
Gráfico 1. Juntamente com os saldos negativos da balança de serviços, o déficit
comercial desencadeou déficits na conta de transações correntes, que terminaram
sendo financiados pela entrada de capitais estrangeiros ou por maior endividamento
externo.

Gráfico 1 – Balança Comercial (US$ bilhões): Brasil, 1994 – 1998

80

60

Balança comercial
40
Exportações
20 Importações

0
1994 1995 1996 1997 1998
-20

Fonte: IPEADATA
31

Outro importante fator referente às condições externas enfrentadas pelo País


foi a abertura comercial posta em prática ao longo dos anos 90, traduzida pelas
drásticas reduções das tarifas aduaneiras. Conforme Pochmann (2001), entre 1989
e 1999 a média das tarifas alfandegárias caiu de 41,2% para 11,8%. A disparada
das importações, somada à abertura comercial, enfraqueceu a produção interna,
que não teve meios de competir com os produtos externos. Com o enfraquecimento
da produção, diminuiu também o emprego. De acordo com Pochmann (2001), por
não ter condições satisfatórias para melhor colocar sua produção no exterior, o
Brasil assumiu a posição de ―exportador‖ de empregos, pois parte daqueles que aqui
existiam no setor industrial foram trocados pela importação. Como consequência, o
desemprego aumentou e o País piorou sua participação no comércio internacional.

3.3.3 As Taxas de Juros

A adoção da âncora cambial ocasionou déficits na balança comercial como


resultado do aumento das importações no cenário de câmbio valorizado. Esses
déficits geraram um grave desequilíbrio na conta de transações correntes do
Balanço de Pagamentos, como mostra o Gráfico 2. O déficit em transações
correntes, que girava em torno de US$ 2 bilhões em 1994, chegou a mais de US$ 30
bilhões em 1998.

Gráfico 2 – Transações Correntes e Balança Comercial (US$ bilhões): Brasil,


1994 – 1998

Fonte: Banco Central do Brasil


32

O financiamento do déficit em transações correntes se deu por meio da


entrada de capitais estrangeiros, colocando o Brasil numa situação de dependência
do capital externo. Para atrair os investimentos externos, o País precisou oferecer
taxas de juros atrativas ao mercado. Conforme Pochmann,

Como o modelo de estabilização monetária perseguido esteve vinculado à


constituição de uma âncora cambial, houve a imposição de taxas de juros
elevadas para atrair o ingresso e a manutenção, por tempo necessário, de
reservas em moedas fortes, geralmente em dólar norte-americano.
(POCHMANN, 2001, P.27).

Outro problema da dependência de capital externo é que, em momentos de


crise, os investidores se tornam mais cautelosos e abandonam os mercados que
apresentam riscos. Tal situação ocorreu nas crises do México no final de 1994, da
Ásia em 1997 e da Rússia em 1998. Nas três ocasiões, o investimento externo se
tornou muito oneroso e, como é possível identificar na análise do Gráfico 3, as taxas
de juros internas dispararam, na tentativa de atrair o capital estrangeiro.

Gráfico 3 – Taxa de Juros (Selic anualizada): Brasil, 1995 - 1998

Fonte: Banco Central

O Gráfico 3 mostra que, em todo o período do Plano Real, as taxas de juros


estiveram elevadas, permanecendo preponderantemente acima de 20%a.a e
atingindo picos elevadíssimos nos momentos das três crises. Ao adotar altas taxas
de juros, o governo tem o ônus de aumentar seu gasto com o pagamento dos juros
da dívida pública, pois uma parcela significativa dela é financiada a partir de taxas
pós-fixadas. Giambiagi (2011a) afirma que a necessidade de compensar o déficit
33

externo pela entrada de capitais que se sentissem atraídos pelas elevadas taxas de
juros passou a gerar uma significativa despesa financeira para os cofres públicos.
Christo (2013) afirma que como consequência das altas taxas de juros
praticadas, o Brasil teve seu crescimento freado, uma vez que o cenário de juros
altos direciona o capital para o setor financeiro, em detrimento do setor produtivo.
Juntamente com a disparada das importações, os juros altos represaram a produção
interna e, por consequência, o emprego, o que se traduziu na escalada do
desemprego verificada entre 1995 e 1998.
Diante do exposto, constata-se que entre o final de 1994 e o ano de 1998, o
mercado financeiro internacional foi sacudido por três crises importantes. A primeira
foi a do México, que eclodiu no final de 1994 e afetou fortemente os mercados
emergentes no primeiro semestre de 1995. A segunda foi a dos chamados Tigres
Asiáticos em 1997. E a terceira foi a da Rússia, em 1998. Em todas elas, o Brasil foi
seriamente afetado pela redução dos empréstimos aos países ditos emergentes.
Depois de três ataques especulativos contra o Real (em 1995, 1997 e 1998), no
último deles a alta da taxa de juros não mais se mostrava suficiente para debelar o
problema, além de agravar seriamente a situação fiscal (VILLELA et. al., 2004).
Dessa forma, o primeiro mandato de FHC terminava em meio a um processo de
crise cambial, ocasionado por profundos desequilíbrios gerados nesse período com
a deterioração das contas externas e da situação fiscal. Foi nesse cenário de crise
que FHC iniciou o seu segundo mandato presidencial, em Janeiro de 1999
(VASCONCELLOS, GREMAUD e TONETO JÚNIOR, 2010).

3.3.4 A Reforma do Estado

O governo FHC conduziu durante seu primeiro mandato a Reforma da Gestão


Pública. Tendo à frente o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, Ministro da
Administração Federal e Reforma de Estado. O Plano Diretor da Reforma do
Aparelho do Estado abrange: não somente a alteração da Administração Pública
Burocrática que almejava combater a corrupção e o nepotismo patrimonialista, pela
Administração Pública Gerencial que visava à necessidade de reduzir custos e
aumentar a qualidade dos serviços, tendo o cidadão como beneficiário; Além da
34

redução da intervenção estatal na economia; Apoio as privatizações e abertura do


mercado.

Para realizar essa função redistribuidora ou realocadora o Estado coleta


impostos e os destina aos objetivos clássicos de garantia da ordem interna
e da segurança externa, aos objetivos sociais de maior justiça ou igualdade,
e aos objetivos econômicos de estabilização e desenvolvimento. Para
realizar esses dois últimos objetivos, que se tornaram centrais neste século,
o Estado tendeu a assumir funções diretas de execução. As distorções e
ineficiências que daí resultaram deixaram claro, entretanto, que reformar o
Estado significa transferir para o setor privado as atividades que podem ser
controladas pelo mercado. Daí a generalização dos processos de
privatização de empresas estatais (BRESSER-PERREIRA, 1995).

De acordo com o Plano Diretor da Reforma, o Estado desviara-se de suas


funções básicas para ampliar a presença no setor produtivo, o que, além de
prejudicar a prestação de serviços públicos, ainda teria por condão contribuir para
agravar a crise fiscal, resultante na inflação. Se nos anos 1930 o mau funcionamento
do mercado trouxe a crise econômica, nos anos 1980 é a crise do Estado que coloca
o modelo econômico em risco.

A crise do Estado define-se então (1) como uma crise fiscal, caracterizada
pela crescente perda do crédito por parte do Estado e pela poupança
pública que se torna negativa; (2) o esgotamento da estratégia estatizante
de intervenção do Estado, a se reveste de várias formas: o Estado do bem-
estar social nos países desenvolvidos, a estratégia de substituição de
importações no terceiro mundo, e o estatismo nos países comunistas; e (3)
a superação da forma de administrar o Estado, isto é, a superação da
administração pública burocrática. (...) As distorções e ineficiências que daí
resultaram deixaram claro, entretanto, que reformar o Estado significa
transferir para o setor privado as atividades que podem ser controladas pelo
mercado. Daí a generalização dos processos de privatização de empresas
estatais (PLANO DIRETOR DA REFORMA, P. 10-12, 1995).

Com esse diagnóstico, era necessário revolucionar a estrutura estatal para


consolidar a estabilização econômica. Diante disso, cinco medidas seriam tomadas
com este condão.

(1) o ajustamento fiscal duradouro;


(2) reformas econômicas orientadas para o mercado, que, acompanhadas de
uma política industrial e tecnológica, garantam a concorrência interna e criem as
condições para o enfrentamento da competição internacional;
(3) a reforma da previdência social;
(4) a inovação dos instrumentos de política social, proporcionando maior
abrangência e promovendo melhor qualidade para os serviços sociais; e
35

(5) a reforma do aparelho do Estado, com vistas a aumentar sua


―governança‖, ou seja, sua capacidade de implementar de forma eficiente políticas
públicas.

3.3.5 As Mudanças na Previdência

A reforma da Previdência foi intentada pela PEC nº 33/95, aprovada somente


em dezembro de 1998, tornando-se a Emenda Constitucional n º 20. Nos objetivos
iniciais da mudança incluía-se a previdência pública que, em virtude da tramitação
no Congresso Nacional, acabou preservada.
A Proposta da Emenda Constitucional nº 33 (PEC nº 33), encaminhada pelo
Governo Federal ao Congresso Nacional em março de 1995, previa a continuidade
do sistema previdenciário vigente baseado no modelo de dois pilares: de um lado, o
RGPS e o RPPS, obrigatórios, e, de outro, a previdência privada, voluntária. Porém,
apesar de afastada a alternativa mais drástica, a reforma proposta, caso aprovada,
alteraria significativamente o sistema de previdência então existente no Brasil.
Porém, no decorrer dos quatro anos de tramitação da PEC nº 33, vários pontos da
proposta do Executivo foram barrados no Congresso Nacional ou no Supremo
Tribunal Federal (STF), o que transformou o resultado da batalha pela Reforma da
Previdência levada a cabo pelo Governo FHC em vitória parcial, porém importante
(SILVEIRA, 2009).
Em dezembro de 1998, foi promulgada a Emenda Constitucional nº 20 (EC nº
20), que teve como eixo central o caráter contributivo, tanto para o servidor como
para os entes federados, bem como o da exigência de equilíbrio atuarial e financeiro
para os regimes próprios da previdência social. A Reforma determinou como
condição de elegibilidade para aposentadoria voluntária o tempo de contribuição
combinado com o limite de idade e a carência, assim como a possibilidade de
homogeneização futura de regras entre os setores público e privado, com a criação
do sistema de aposentadoria complementar. A Reforma trouxe também a eliminação
de alguns dispositivos existentes na previdência dos servidores públicos — como o
fim da aposentadoria especial para professores universitários, a eliminação da
contagem de tempo fictício, que permitia a contagem em dobro do tempo de licença-
36

prêmio não gozada, e o aumento da remuneração no momento da aposentadoria,


com a integração de acréscimos e gratificações (SILVEIRA, 2009).
Com isto, somente a previdência dos empregados celetistas (regidos pela
Consolidação das Leis do Trabalho) foi alterada, passando a incentivar a
contribuição aos fundos de pensão, limitar a idade mínima para aposentadorias e,
com medidas legislativas ulteriores, instituir o chamado fator previdenciário, que
desestimulam as aposentadorias consideradas precoces.

3.3.6 Lei de Responsabilidade Fiscal

Em novembro de 1998, no ápice da crise interna gerada pela moratória russa,


o governo anunciava que mandaria ao Congresso Nacional o Projeto de Lei de
Responsabilidade Fiscal:

(...) Com vistas a garantir a solvência fiscal, a lei estabelecerá, entre outros,
critérios de prudência para o endividamento público; proporcionará estritas
regras para o controle dos gastos públicos; estabelecerá regras
permanentes para limitar os déficits orçamentários bem como proibirá
quaisquer novos refinanciamentos pelo governo federal da dívida estadual e
municipal. Além desses preceitos a lei incluirá mecanismos disciplinares
para o caso de inobservância das suas metas e procedimentos. (BRASIL.
Ministério da Fazenda, 1998).

Para atender de forma mais ampla às diretrizes da estabilização fiscal, o


governo enviou, em 15 de abril de 1999, o Projeto de Lei Complementar nº 18 ao
Congresso Nacional. Pouco mais de um ano depois, mais precisamente em 4 de
maio de 2000, ele se tornaria a lei complementar nº 101, batizada de Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF). Esta norma cumpriu com as diretrizes acertadas
com o FMI no acordo de 1998, tais como limitar fortemente os gastos
governamentais com o custeio da máquina, exigir dos orçamentos superávit fiscal
anual (aniquilando as hipóteses de alavancagem keynesiana da economia), limitar a
razão dívida pública-receita, vedar o refinanciamento de dívidas dos entes federados
e criminalizar severamente os administradores que descumprirem os preceitos da
LRF. A própria Exposição de Motivos nº 106/99, que acompanhou a Mensagem
Presidencial contendo o PLC nº 18, dizia em seu parágrafo 2º:
37

Este projeto integra o conjunto de medidas do Programa de Estabilização


Fiscal-PEF, apresentado à sociedade brasileira em outubro de 1998, e que
tem como objetivo a drástica e veloz redução do déficit público e a
estabilização do montante da dívida pública em relação ao Produto Interno
Bruto da economia.

Leis de Responsabilidade Fiscal foram inseridas no ambiente institucional de


diversos países do mundo ao longo de toda a década de 1990, via de regra por
pressão do FMI e do BIRD, que exigiam como contrapartida de acordos financeiros
a adoção desta espécie de legislação.

3.3.7 Programa de Estabilização Fiscal

Em outubro de 1998, logo após a crise russa, foi lançado o Programa de


Estabilização Fiscal (PEF) com a premissa básica de que ―o Estado não pode mais
viver além de seus limites, gastando mais do que arrecada.‖ A quebra da liquidez
internacional e a desconfiança com os países emergentes haviam gerado pressões
especulativas contra a moeda brasileira. Seria necessário, entendia o governo,
avançar rapidamente com as reformas estruturais, abandonando o gradualismo
reformista vigente desde o início do Plano Real (SILVEIRA, 2009).
As medidas da agenda de trabalho do PEF buscavam: ampliar o superávit
primário (com metas de 2,6% em 1999, 2,8% em 2000 e 3,0% no ano 2001);
regulamentar o teto salarial do funcionalismo e as hipóteses de demissão; concluir a
reforma da previdência sem a aprovação dos Destaques para Votação em Separado
que poderiam descaracterizá-la (algo que não se conseguiu, como referido
anteriormente); aprovar a Lei de Responsabilidade Fiscal (como mencionado acima)
e a Reforma Tributária (no caso, incluída a prorrogação do Fundo de Estabilização
Fiscal, que viria a ser a DRU); reestruturar a Receita Federal, transformando-a em
agência executiva (bem ao modelo estabelecido pelo Plano Diretor da Reforma do
Estado); realizar a Reforma Trabalhista, garantido liberdade sindical e livre
negociação dos contratos entre empregadores e empregados; reestruturação do
Plano Plurianual e do Orçamento Geral da União, com o fito de reduzir o número dos
programas e focar os recursos apenas em ações prioritárias (o modelo gerencial,
instituído na administração pública pela Reforma do Estado, deveria ser mais do que
nunca posto em prática, reduzindo-se custos e cobrando-se a ação dos gerentes a
38

partir de resultado), além de avaliar a eficiência do gasto público (na prática,


consistia em reduzir programas e recursos para as áreas sociais), e
desregulamentação do setor de combustíveis (BRASIL. Ministério da Fazenda,
1998b).

3.4 O SEGUNDO MANDATO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Em 1999, FHC deu início ao seu segundo mandato, o qual foi marcado por
fortes mudanças. Os direcionamentos da política econômica adotados na época do
Plano Real foram substituídos, pois já não correspondiam às necessidades da
economia brasileira, que vinha sofrendo com os efeitos negativos do câmbio
sobrevalorizado. Houve diminuição no ritmo das privatizações e, como forma de
prevenir a volta do fenômeno hiperinflação, foi adotado o tripé macroeconômico
composto por metas de inflação, metas de superávit primário e regime de câmbio
flutuante.

3.4.1 O Processo de Privatizações

No segundo Governo FHC, reduziu-se o número de empresas públicas


privatizadas. A Tabela 3 ilustra que, nos quatro anos de governo, cinco empresas
foram desestatizadas, uma redução significativa quando comparada com as 39
privatizações ocorridas entre 1994 e 1998. As receitas representaram mais de US$
11 bilhões e não houve transferências de dívidas dessas empresas aos
compradores.

Tabela 3 – Programa Nacional de Desestatização: Brasil, 1999 - 2002

Empresas Receitas Passivos transferidos ao


privatizadas (US$ bilhões) comprador (US$ milhões)
1999 2 0,55 0
2000 1 7,67 0
2001 1 2,9 0
2002 1 0,08 0
Total 5 11,2 0,00
Fonte: Boletim Anual do Banco Central do Brasil nº IV, 2001 e 2002.
39

Giambiagi (2011a) considera que, a partir de 1999, a privatização deixou de


ser urgente, pois a desvalorização cambial e o ajuste fiscal corrigiram o rumo da
economia, dando origem a uma nova atitude fiscal, notadamente mais relaxada a
esse respeito.

3.4.2 O Tripé Macroeconômico

Em janeiro de 1999, esgota-se o mecanismo da âncora cambial adotada no


início do Plano Real, e o câmbio, que se encontrava demasiadamente valorizado,
torna-se flutuante. Imediatamente, houve grande desvalorização e a paridade
real/dólar, que estava em 1,21 no dia 12 de janeiro, chegou a 1,90 em apenas um
mês.
Adicionalmente ao regime de câmbio flutuante, foram adotadas metas para a
inflação e para o superávit primário, formando o tripé macroeconômico que
simbolizou a política econômica do segundo governo FHC. Na concepção de
Giambiagi (2011a), essas medidas deram condições para o País enfrentar os
principais desequilíbrios macroeconômicos de forma integrada, utilizado o câmbio,
os juros e o superávit primário como mecanismo de ajuste do balanço de
pagamentos, da inflação e da dívida pública, respectivamente.

3.4.3 A taxa de juros como nova âncora

Com o estabelecimento do tripé macroeconômico, as taxas de juros


assumiram um novo papel na política econômica. No primeiro Governo FHC, os
juros eram administrados de modo a atrair o capital estrangeiro necessário para
financiar o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos resultante da
sobrevalorização cambial; no segundo governo, os juros passaram a servir como
instrumento para fazer os ajustes necessários para o cumprimento das metas de
inflação definidas. As metas de inflação eram determinadas pelo Conselho
Monetário Nacional (CMN) e o Comitê de Política Monetária do Banco Central
(Copom) definia a taxa Selic de modo a atingir a meta inflacionária. Desse modo,
quando a projeção da inflação era superior ao alvo definido, a taxa de juros era
40

elevada, de modo a conter o nível de atividade e reduzir a variação dos preços; se


por outro lado, a previsão era de inflação abaixo da meta, a autoridade monetária
tinha liberdade para reduzir os juros e incentivar o crescimento econômico.
Faria (2004) caracteriza essa nova função de juros como âncora nominal. De
acordo com ele,

As metas de inflação que dirigem a política do Banco Central são, na


verdade, metas de juros reais. Seu objetivo é garantir o retorno das
aplicações em real, para o que a taxa interna deve não apenas cobrir com
alguma margem o prêmio de risco cobrado aos títulos brasileiros no
mercado externo, como se ajustar às oscilações do câmbio. (FARIA, 2004,
P.181).

Como resultado dos ajustes feitos pelo Copom, as taxas de juros


permaneceram em um patamar elevado, mantendo-se acima de 15%a.a. em todo o
período, o que está demonstrado no Gráfico 4.

Gráfico 4 – Taxas de Juros (Selic anualizada): Brasil, 1999 – 2002

Fonte: Banco Central

Lacerda et al (2010) afirmam que houve maior flexibilidade para a redução


dos juros após a mudança do regime cambial e a adoção das metas de inflação, o
que não se concretizou, pois os juros reais permaneceram elevados, especialmente
se comparados com a média internacional. Tal situação teve impactos negativos
sobre o desempenho econômico do País. Primeiramente, o capital foi direcionado
para o mercado financeiro, sem incentivar o investimento produtivo. Além disso, as
altas taxas de juros ampliaram os gastos do governo com o pagamento dos juros da
41

dívida pública, que aumentou proporcionalmente ao PIB durante todo o segundo


Governo FHC, como está ilustrado na Tabela 4.

Tabela 4 – Dívida Líquida do Setor Público: Brasil, 1999 - 2002


R$ milhões %PIB
1999 516.578 48,7
2000 563.163 48,8
2001 660.867 52,6
2002 881.108 55,5
Fonte: Boletins do Banco Central do Brasil

Lacerda et al (2010) consideram que a proporção dívida pública/PIB não é


elevada quando comparada com outros países. Entretanto, é uma dívida
excessivamente concentrada no curto prazo e de elevadíssimo custo de
financiamento, em razão das altas taxas de juros.
Fazendo uma análise geral do governo, Giambiagi (2011a) conclui que FHC
deixou o tripé composto por metas de inflação, câmbio flutuante e austeridade fiscal
como legado de sua gestão. Para o autor, se mantidas ao longo dos anos, essas
políticas poderiam criar as condições para o desenvolvimento econômico futuro, com
inflação baixa e equilíbrios externo e fiscal.
Faria (2004), por sua vez, argumenta que justamente esse modelo de política
econômica, com juros elevados e superávit primário das contas públicas para atrair
capital externo e controlar pressões sobre o câmbio, bloqueou o desenvolvimento do
Brasil. O autor aponta que a nova modalidade de inserção econômica internacional
introduzida no Governo FHC, com estabilidade inflacionária como pressuposto,
produziu tendência à estagnação econômica e fragilidade externa, devido às altas
taxas de juros praticadas para atrair capital. Por fim, considera que a abertura
comercial enfraqueceu o dinamismo da estrutura produtiva interna, gerando
destruição de postos de trabalho, aumento do desemprego ou da ocupação informal,
além de ter diminuído a remuneração e as condições de trabalho.
A partir da análise da política econômica adotada no segundo governo FHC,
pode-se concluir que as altas taxas de juros impediram a redução do índice de
desemprego. Dando prioridade à manutenção da inflação dentro dos limites
considerados apropriados por sua equipe, o governo abriu mão do crescimento
produtivo, uma vez que os investimentos se concentram no mercado financeiro em
42

cenários de juros reais elevados. Por conseguinte, o tímido crescimento da atividade


produtiva não foi capaz de gerar o volume de empregos necessários para reduzir as
taxas de desocupação da classe trabalhadora.

3.5 ACORDOS COM O FMI E SUAS CONDICIONALIDADES

3.5.1 Crise Russa e o Primeiro Acordo

Houve uma fuga de reservas internacionais recorde no final de 1998, as


reservas brasileiras estavam na casa dos US$ 70,2 bilhões logo antes da crise
russa, reduzindo-se para US$ 40 bilhões em novembro de 1998, diante da busca
dos especuladores por mercados de menor risco. Três presidentes passaram pelo
Banco Central no período mais agudo da crise, mostrado a dramaticidade que ela
representava para o governo. Um acordo preventivo com o FMI, que começara a ser
negociado em outubro, foi firmado em 13 de novembro de 1998, visando à
recomposição das reservas internacionais e tendo como contrapartida justamente a
imposição das medidas do Programa de Estabilização Fiscal (SILVEIRA, 2009).
Segundo o acordo, o Brasil receberia US$ 9 bilhões de imediato e até mais
US$ 32 bilhões em 3 anos (com concentração dos desembolsos no primeiro ano),
dependendo do nível de suas reservas internacionais e do grau de implementação
do PEF (aferidos ao longo de não menos do que seis avaliações do FMI). O acordo
com o FMI sinalizava para ―comunidade financeira internacional‖ (conceito
empregado pelo Ministro da Fazenda na Exposição de Motivos nº 756/98) que o
Brasil estava disposto a cumprir estritamente com as regras apontadas pelo Fundo
(aquelas já dispostas no Consenso de Washington), o que seria um ―(...) fator
importante para reforçar a confiança no país manter altos os fluxo de investimentos
diretos e permitir que o mercado internacional de capitais seja gradualmente
reaberto (...). Juntamente com este acordo com o FMI, se fechou outro com o Bank
for International Settlemets (BIS) também com o fito de obter-se recursos de
precaução das reservas internacionais (BRASIL. Ministério da Fazenda, 1998c).
43

3.5.2 Apagão, Crise Argentina e o Segundo Acordo

A conjuntura já não vinha bem em meados de 2001, tendo o governo sacado


US$ 2 bilhões ainda sob o manto do acordo com o FMI de dezembro de 1998. Antes
que expirasse esse contrato (que tinha duração de três anos), e em razão da crise
interna do ―apagão‖ energético e da crise externa com a desaceleração da economia
mundial e os problemas econômicos na Argentina (que declararia moratória
unilateral em dezembro de 2001), novo acordo foi anunciado em agosto de 2001.
Ele tinha validade até dezembro de 2002 e previa o desembolso de US$ 15 bilhões
para reforço das reservas internacionais, dos quais 25% a juros anuais de 5% e os
demais 75% a juros anuais de 7,5%. Para fazer jus ao empréstimo, o Brasil se
comprometeu a apertar ainda mais as metas de superávit primário, passando-as
para 3,35% do PIB em 2001 e 3,5% em 2002, 2003 e 2004 (as metas anteriores
eram de 3%, 2,7%, 2,5% e 2,5%, respectivamente). O orçamento federal seria
contingenciado para viabilizar estas metas, além, é claro, de se dar sequencia a
mais privatizações (SILVEIRA, 2009).
O Brasil sacou pouco mais de US$ 4 bilhões em setembro de 2001 para
ampliar as reservas internacionais e demonstrar confiança aos mercados mundiais.
Viveu-se um período de relativa estabilidade, a ponto de ter sido feito um pagamento
antecipado, em abril de 2002, em valor similar ao sacado em 09/2001. A moratória
argentina (que poderia contaminar a economia brasileira), a depreciação cambial
causada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center, em
New York (em razão da fuga de capitais), e a conjuntura eleitoral brasileira (com um
candidato de esquerda à frente das pesquisas), tudo isso gerou incertezas nos
mercados, levando o governo a sacar US$ 10 bilhões do FMI em junho de 2002,
acertando, ainda, com o fundo a redução dos patamares mínimos exigidos para as
reservas internacionais (de US$ 20 para US$ 15 bilhões). O superávit primário foi
ampliado em mais 0,25%, passando para 3,75% em 2002 e 2003 (SILVEIRA, 2009).
44

3.5.3 Eleições de 2002 e o Terceiro Acordo

A situação continuou a piorar, com mais saídas de reservas e saques


especulativos. A eleição se aproximava e a provável vitória de Lula, candidato de
esquerda que por muitos anos se colocou abertamente contrário às negociações
com o FMI, abalava a confiança dos mercados internacionais.
Em 29 de agosto de 2002, o Ministro da Fazenda, Pedro Malan, enviou
correspondência ao diretor geral do FMI requerendo o cancelamento do acordo
stand-by vigente e a chancela de um novo acordo, com prazo de 15 meses e valor
de US$ 30 bilhões. Afirmando que ―o objetivo do programa é diminuir as incertezas
no campo externo e reduzir a preocupação quanto à orientação da política
macroeconômica após a eleição presidencial‖ (BRASIL. Ministério da Fazenda,
2002), o governo estava na verdade a fechar o mais volumoso acordo com o Fundo
até então. Pelo novo acordo, vigente até o final de 2003, o volume mínimo de
reservas internacionais foi reduzido de US$ 15 bilhões para US$ 5 bilhões e o
superávit primário confirmado nos 3,75% que o governo já havia anunciado em
junho. US$ 6 bilhões foram liberados em 2002, ficando o restante para ser usado no
ano seguinte pelo novo governo (se aprovadas às revisões de metas, naturalmente).

3.5.4 Resultados dos Acordos com o FMI

Os acordos com o FMI, além de uma série de mudanças institucionais


(reformas legais e administrativas), também exigiam o cumprimento de metas, como
patamar mínimo para as reservas internacionais, porcentagem máxima da dívida
pública frente ao PIB, volume da dívida externa, taxa de inflação, tamanho do
superávit fiscal primário, manutenção do cambio flutuante e bandas de balança
comercial e de pagamento. Em larga medida, estas exigências retiravam do país
autonomia para definir sua política econômica, sendo todas elas apresentadas como
contrapartida aos recursos que eram injetados no país exatamente para torná-lo
mais atraente (ou menos aversivo) ao capital estrangeiro.
45

3.6 METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, tendo em vista o


método de estudo adotado, por meio da análise crítica, avaliando a influência da
política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso como determinante das
medidas estabelecidas e potencial causando da elevação do desemprego.
O presente trabalho seguiu os caminhos de uma busca minuciosa de cunho
qualitativo, cujo foco principal foi à obtenção de informações, que permitiu a
explanação sobre os fatores que fomentaram a execução desta política econômica
do governo brasileiro Fernando Henrique Cardoso.
Primeiramente, foi realizada uma revisão bibliográfica com relação ao tema do
levantamento, o que proporcionou um aprofundamento sobre a origem do
neoliberalismo e do governo brasileiro, através da fundamentação teórica pertinente,
na qual são consultados livros, artigos, dissertações, discursos e teses.
A etapa de revisão bibliográfica teve como foco o governo brasileiro de FHC
com objetivo de caracterizar a política econômica adotada. E por fim, foi analisada a
relação da política econômica com o aumento do desemprego.
46

3.7 RESULTADOS

O olhar sobre essa política releva dois resultados: a estabilidade com a


implantação do Plano Real que levou os preços a ficarem estáveis. E de outro se
olhando a ótica do emprego a implementação dessa política econômica, vista por
muitos como características neoliberais, resultou no aumento do desemprego no
Brasil. Isso pode ser demostrado a partir da visualização do Gráfico 5.

Gráfico 5 – Taxa de Desemprego Aberto (%): Brasil, 1995 – 2002

Fonte: IBGE – Pesquisa Mensal de Emprego (Antiga Metodologia)

Como se ver no início do governo em 1995, a taxa de desemprego era 4,6%


a.a., ao passo que em 1998 se elevara 7,6% a.a., o que representou crescimento de
mais de 60% no período. A segunda fase do governo, por sua vez, começou com
taxa de 7,6% a.a., e foi finalizada com índice em 7,1% a.a. Como um todo, o
Governo FHC apresentou aumento de mais de 50% no nível de desocupação.
Quando analisando o desemprego, a metodologia adotada foi a versão antiga
da Pesquisa Mensal de Emprego, sendo que a taxa de desemprego calcula-se pela
razão entre a população desocupada e a população economicamente ativa.
A nova adoção de medição de desemprego inclui o número de pessoas que
efetivamente procuraram trabalho no mês de referência, aumentado à quantidade de
pessoas desocupadas.
47

4 CONCLUSÃO

O estudo da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso,


mostrou as características neoliberais adotadas, que influenciaram nos fatores
econômicos que levou a um elevado índice de desemprego no país, no período de
1995 a 2002.
Na história econômica recente do Brasil, a doutrina neoliberal teve presente
no governo Sarney ainda que de forma embrionária, expandindo-se no Governo
FHC, no qual iniciou reformas econômicas estruturais de combate à inflação através
da abertura econômica e financiamento externo, seguindo as recomendações do
Consenso de Washington, as quais eram defendidas pelo FMI de uma forma geral.
O governo FHC enfrentou grandes adversidades em seu primeiro mandato. O
País encontrava-se em transição para o Plano Real de sua autoria, após seis planos
de estabilização fracassados, além do combate a inflação e busca da estabilidade
econômica. Para tanto, foram definidas algumas iniciativas, dentre as quais estava a
política de privatização de empresas estatais, a abertura comercial e a adoção da
âncora cambial. Tais ações contribuíram para o aumento do desemprego constatado
no período. As privatizações reduziram o número de postos de trabalho no setor
público, mas sem a contrapartida da geração de empregos no setor privado; a
abertura comercial, representada pela redução das tarifas alfandegárias, ampliou as
importações, reduzindo o consumo de bens produzidos internamente, o que se
traduziu no enfraquecimento da produção interna; por fim, a âncora cambial,
utilizada para manter a inflação sob controle, manteve o câmbio sobrevalorizado,
gerando déficits na conta de transações correntes do Balanço de Pagamento, que
foram financiados pela entrada de capitais externos, os quais exigiram altas taxas de
juros para investirem no País. Com juros elevados, o capital foi direcionado para o
mercado financeiro, desestimulando a atividade produtiva e a geração de emprego.
Desta forma, ainda ocorreram três crises que afetaram a economia brasileira foram
elas: a crise mexicana (1994), crise asiática (1997) e crise russa (1998).
No segundo mandato FHC houve um redirecionamento da política econômica
brasileira. O câmbio tornou-se flutuante e o governo adotou metas de inflação e de
superávit primário, formando o tripé macroeconômico que passou a pautar as
decisões econômicas. A partir de então, as taxas de juros foram utilizadas para
garantir que as metas de inflação fossem atingidas. Novamente, os juros
48

permaneceram elevados, direcionando o capital para o mercado financeiro em


detrimento da geração de empregos no setor produtivo. Também como
características desta política, houve uma redução das privatizações, firmou acordos
com o Fundo Monetário Internacional e aceitou suas condicionalidades.
Conforme exposto, obtemos o conceito e características do neoliberalismo, no
qual se constata que possui uma forte influência sobre a política econômica adota
pelo governo FHC ocasionando o aumento desemprego. Percebe-se que o governo
FHC adotou a doutrina ortodoxa, na qual defende a neutralidade da moeda, ou seja,
que a moeda não interfere no lado real da economia e também acredita no equilíbrio
econômico de pleno emprego de um mercado livre. Assim, direcionou sua gestão
defendendo a não intervenção do Estado na economia e acreditando que para um
país crescer de forma sustentada é preciso controlar a inflação, através de políticas
fiscais e monetárias contracionistas.
49

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