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Revista de lãs Españas, año VI, nº 55-56, marzo-abril/1931, pp.

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DE PORTUGAL
por Armando de Mattos

COITIlima ^ a n d e alegría que inicio descobertas, os monumentos, as relaçôes intemacio-


a niinha colaboraqáo nesta presti- nais, do tributo portugués para a civilisaçâo gérai, et­
mosa R e v i s t a d e l a s E s p a ñ a s , pois cétera, etc., serño outros tantos motivos que eu ten­
que vou falar de Portugal, da minha iarei fixar nestas páginas.
Pàtria, ás outras naqóes amigas e E assim, comecarei a tarefa que voluntariamente
quasi irmas, para cujo intercambio me impus, com um unico aviso : nao se devem criticar
intelectual, todos nos trabalhamos. estas notas, por parecerem de excessivo égotismo do
Certamente, as minhas crónicas, derpertaráo in­ passado, pela razio de que este, e o presente, sao as
teresse. nao pelo brillio que eu Ihes jwssa dar, mas duas primissas de urna ilaçâo, que tem como tercei-
pela natureza do proprio assunto. ra componente o futuro.
Talqualmente como nós outros, os portugueses, Portanto, para comentar o presente, e supor o fu­
apreciamos 1er os lustres, valores e qua’lidades de ou­ turo, é indispensavel ter por base o passado, a que
tros povos, tambem para eles será de interesse o lem- todo o intelectual cosciente tem o dever de formar
brar-lhes o que é que nos caracteriza e dá mereci- ambiente.
mentos.
Ainda nesta revista se n io inserin urna secqlo
referente a Portugal, apesar de os estatutos da
Unión Ibero-Americana, destacarem ben o nome do Deverei principiar, certamente, por me referir á
nosso pais, como um dos que deve entrar na premu­ excepcional situaQáo geográfica deste famoso país que
ta de espirito, firn para que a nosso Sociedade nascen. tío alta memoria ganhou na ¡embraga das gentes,
pois dessa situagáo depende muito a vida histórica
Pouco conbecida em Portugal, é essa, sem dúvida, dos seus habitantes.
a razño da sua diminuta representaqáo no nrgáo
cultural da Unión Ibero-Americana. País litoral, com um grande, desenvolvimento de
costa, que o Atlantico banha, situado no extremo
Assim, á falta de melhor emhaixador. venho eu ocidente da Peninsula e da Europa, justifica bem a
boje abrir urna tribuna, de onde direi o que fómos, o
índole marítima e de bom soldado que nos distingue.
que somos e o que viremos a ser; onde e como vi­ A defesa do territorio, que variadas cordilheiras
vemos : qual e nosso papel no mundo e freíante o relevan!, obrigarem o portugués, desde o seu inicio, a
mundo.
reagir de modos diversos.
Desta maneira, os meus consocios da Unión Ibe­ Para oriente e sul, as circunstancias imperiosas da
ro-Americana teráo ocasiáo de recordar coisas que conquista do seu torráo, tornou-o mestre na arte
possiveimente já saibam. aprenderáo informaijñes da guerra. Para ocidente. o contacto premanente do
que Ibes sao inéditas, poderao íazer criterios com­ mar que otentava com seus mistérios, levou-o a adi-
parativos, e. teráo, assim, mais um valiosissimo ele­ vinbar-lhe os segredos dos continentes longinquos.
mento que Ibes premitirá olhar em conjunto, ¡lara a onde sempre soubrc chegar. tornun-n marinhciro
acqáo formidavel, desenvolvida pela civiliza<;áo lati­ insigne.
na, por meio do povo ])ortugués. Dessa sua situarlo especial é que Portugal logrou
A situaqáo geográfica, a historia, as artes, a colo- dominar o mundo no século xvr, envolvendo a A fri­
nisaqáo. os desportos. o labor scientifico, as letras, as ca com a esleirá de branca espuma dos seus navios.

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R E V IST A DE L A S ESTAÑAS 147

desde Ceuta alé Mombasa ; tocando a America desde É aínda devido a ella, pelo seu clima, que a alma
o Salvador até ao estreito de Magalhaés, com a sua portuguesa é temperada de um sao equilibrio de sen-
irriquieta curiosidade; revolvendo a Asia desde timentos, de una hela cmotividade artística, propen­
Ade até ao Cypango. com a violencia do seu pode­ sa á cultura de espirito— o que é sempre urna ma-
río; violando intemeratamente o mistério do I%cifi- nifestaqio superior.
co, chegando até à Austrália. Toda esta epopeia glo­ É por isso, que o lirismo portugués cantou “antes
riosa, quo deu ao mundo novas térras, enriquecidas do da Provenga”, e que os ñervos da grei, vibrando
com os mais valiosos pretlicados—térras onde boje em amor pàtrio posto em arte pelo engenho de Ca-
aínda, tanto anos volvidos, se continua, de algum móes—só egualado ao dos maiores épicos gregos e
modo, a pujanqa da nossa civilisaqáo de entáo— romanos—os primores da nossa historia.
alem de orguiho nosso que é, pertence tambem a Foí sem duvida, a incomparavel situaqáo que a na-
Raqa latina. tureiza Ihe deu, que traqou o seu caminho na historia
Se nao fosse a situaqáo que disfruta, de smtinela do mundo. Por isso eia Ihe concedeu os louros do
do Atlantico, sobre o qual se debriiqa n’uma cons­ passado, e Ihe dará, com a gloria do presente, a cer­
tante auscultaqáo, Portugal nao teria tido, talvéz, teza do futuro.
ocasiáo de l>atendo-se pela Fé, alargar fronteiras e
escorraqar o mouro, para alem das suas quontes Foi eia ainda que Ihe consentiu, quatro séculos afióz
))aragens ; nem o orguiho de muito cedo e antes de o desvanecimento de ter filhos seus a fazerem, pelo
mais ninguem, conhecer o mar, aijos segredos rom- ar, as mesmas rotas que seus avós—os marinheiros
peu; nem a gloria de contar como sens, os maiores dos séculos XV e xvi—abriram com a quilha dos
navegadores do mundo ; nem teria conhecido, logo seus barcos e as azas das suas velas por todos os
na sua infancia, os povos do Norte, que iam ao pro- mares do Globo!
ximo-oriente e Ihe passavan á vista de terra; nem Por estes mal escobados traqos, se mostra bem
poderia ter avahado, com una certa visáo de econo­ como é decisiva a influencia da situaqáo geográfica,
mista o que representava o comercio da India, e a no destino histórico de qualquer povo.
conveniencia que teríamos em o desviar para o nosso De ahi, a razáo de com algumas linhas sobre eia,
mercado, para de cá se abastecer a Europa. dar comeqo a estas crónicas sobre Portugal.

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