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Capítulo III – Um intermezzo para a reflexão política:

Revolução burguesa e acumulação industrial no Brasil.

A inserção da economia brasileira no sistema capitalista no pós-30 foi uma


possibilidade definida dentro dela mesma, as relações de produção vigentes continham em
si a possibilidade de reestruturação do sistema, aprofundando a estruturação capitalista
ainda quando o esquema da divisão internacional do trabalho fosse adverso.
Do ponto de vista da articulação interna das forças sociais interessadas na reprodução de
capital a questão a ser resolvida é a da substituição das classes proprietárias rurais na cúpula
da pirâmide do poder pelas novas classes burguesas empresário-industriais.
As classes trabalhadoras não têm nenhuma possibilidade nessa encruzilhada.
O mundo emerge da segunda grande guerra preocupado em reconstruir as economias dos
países ex-inimigos para evitar o socialismo. Recursos são desviados para esse fim e a divisão
internacional do trabalho é restaurada.
Nessas circunstâncias a expansão do capitalismo no Brasil repousará na dialética das forças
sociais internas. Em meio a essas tensões emerge a revolução burguesa no Brasil que tem no
populismo sua forma política.
Ao contrário da revolução burguesa “clássica”, a mudança das classes proprietárias rurais
pelas novas classes burguesas empresário-industriais, no Brasil não há uma ruptura total do
sistema.
No modelo clássico europeu a hegemonia das classes proprietárias rurais é total e paralisa
qualquer desenvolvimento das forças produtivas, pelo fato de que não entravam em
nenhum sistema que lhes fornecesse os bens de capital necessários a sua expansão: Ou elas
produziriam tais bens ou não haveria expansão. A ruptura tem que se dar em todos os níveis
e em todos os planos.
No Brasil as classes proprietárias são parcialmente hegemônicas, mantendo o controle das
relações externas da economia até que há o colapso dessas relações e a hegemonia
desemboca num vácuo. Estavam dadas as condições necessárias, mas não suficientes para a
industrialização. A condição suficiente será encontrar um novo modo de acumulação que
substitua o acesso externo da economia primário-exportadora. Mas, era antes necessário
adequar as relações de produção.
O populismo é a larga operação dessa adequação. Irá juntar o “arcaico” com o “novo”
fundando novas relações entre capital e trabalho, a fim de criar fontes internas de
acumulação. A legislação trabalhista criará as condições para isso.
A nascente burguesia industrial usará o apoio das classes trabalhadoras urbanas para
liquidar politicamente as antigas classes proprietárias rurais, isso porque essa burguesia
necessita evitar que a economia após a guerra e com o boom do café e de outras matérias-
primas volte à situação pré-1930.
Longos anos de política aparentemente contraditórias. De um lado; penalizam a produção
para exportação procurando manter a capacidade de importação do sistema, de outro:
beneficiam a empresa industrial, motora da nova expansão.
As novas classes burguesas empresário-industriais assumem a hegemonia. Como
contrapartida a legislação trabalhista não afetará as relações no campo.
Esse PACTO ESTRUTURAL preservará modos de produção distintos entre setores da
economia, mas eles não serão antagônicos como no modelo cepalino.
O modelo brasileiro de expansão capitalista não requer a destruição completa do antigo
modo de acumulação. Pelo contrário, a população rural continuará a crescer reproduzindo
uma forma não-capitalista de produção.
Outra particularidade do modelo brasileiro é a estrutura da economia industrial-urbana,
especialmente quanto a proporção dos setores secundário e terciário. Primeiro, os
incrementos de emprego no secundário são conjunturais; secundo, incremento de empregos
no setor de serviços de consumo pessoal se dá quando no setor secundário aquele
incremento se acelera. Portanto, não há “inchamento”. O crescimento dos dois setores no
pós-1930 revela condicionamentos estruturais da expansão capitalista no Brasil.
O ESCRAVISMO COMO ÓBICE
O custo de reprodução do escravo era interno da produção e a industrialização tentará
expulsar esse custo.
No modelo clássico se necessitava absorver sua periferia de relações de produção, no Brasil
era necessário criar essa periferia e foi longo esse caminho, desde a abolição da escravidão
até 1930, já que a inserção então favorecia a manutenção dos padrões “escravocratas” de
relações de produção. Só uma crise das forças produtivas obrigará à mudança do padrão. O
tipo de inserção na divisão internacional do trabalho é decisivo.
Instituições do pós-30, em especial legislação trabalhista, objetiva expulsar o custo de
reprodução da força de trabalho de dentro das empresas industriais. O salário mínimo será a
obrigação máxima da empresa, todo seu potencial voltado para a acumulação em si.
Por outro lado, a acumulação é potencializada com a imensa reserva de “trabalho morto”
que é a tecnologia transferida para países de industrialização recente. O processo de
reprodução do capital “queima” várias etapas. Isso somado às leis trabalhistas multiplica a
produtividade das inversões. A não criação de empregos não é o problema do crescimento
industrial, mas sim sua a aceleração que impões um distanciamento irrecuperável dos
rendimentos do capital em relação ao trabalho.
Para diminuir essa distância seria necessário que o crescimento da demanda por força de
trabalho fosse várias vezes superior ao crescimento da oferta.
Porém, a tecnologia acumulada também reduz o circuito de realização interna do capital
tornando o efeito multiplicador (empregos diretos e indiretos) real da inversão mais baixo
que o potencial.
A razão histórica da industrialização tardia dá ao setor secundário uma participação
desequilibrada no produto e na estrutura do emprego.
DIMENSÕES DO TERCIÁRIO
Essa é uma especificidade da expansão capitalista no Brasil.
Numa industrialização tardia, como a do Brasil, a divisão social do trabalho é tanto maior
quanto for o avanço tecnológico, pois todos os serviços contemporâneos das indústrias
passam a ser exigidos o que vai se chocar com a exiguidade de recursos para acumulação
que deverá ser rateado entre indústria e serviços e nessa quebra de braços é a indústria que
sai ganhando.
Assim, os serviços cresceram praticamente sem capitalização, horizontalmente, dependendo
da força de trabalho e do talento organizativo de milhares de trabalhadores. Esses
trabalhadores se apresentam como proprietários de pequenos negócios, mas estão na
realidade submetidos ao ritmo e aos interesses das grandes empresas a que servem no final
das contas como se fossem seus empregados. Possuem o ônus de trabalhar para essas
empresas sem o bônus que isso poderia trazer, pois são considerados como estando fora da
produção fabril, contribuindo assim para a acumulação da produção fabril.
O Estado, através de suas instituições e órgãos, não priorizou nem facilitou o crescimento do
setor de serviços (nada de crédito, isenção para importação de equipamentos, incentivos
fiscais ou tarifários, etc.). Consideravam que esse setor encontraria motivação e garantia na
oferta abundante de mão de obra, os serviços não apenas podiam, como deviam ser
implantados apoiando-se na oferta de força de trabalho barata.
A distância imensa entre ganhos no lucro e ganhos no salário criou um outro acelerador do
setor de serviços. Criou uma vasta gama de serviços destinados às populações urbanas
dispersas, fruto da expansão da indústria. Serviços como pequenas mercearias, bazares,
lojas, oficinas de reparos e ateliês de serviços pessoais que atendem a populações
suburbanas de baixo poder aquisitivo. Os baixos salários dessas populações determinam o
baixo nível de ganho daqueles serviços. O custo da comercialização dos produtos
(estocagem, preservação, transporte, divulgação, etc.) fica por conta desses pequenos
prestadores de serviços e comerciantes que assim amargam um ônus que a grande indústria
fica dispensada de arcar, garantindo assim um reforço no seu processo de acumulação pela
eliminação de custos de comercialização.
Concluindo...
Em se tratando de expansão capitalista, temos no caso brasileiro uma experiência diferente
da ocorrida em muitos países. Aqui a implantação de novas relações de produção no setor
estratégico da economia tende não a garantir mudanças no conjunto da economia, mas pelo
contrário, tende a manter relações não capitalistas na agricultura e no setor de serviços.
A particularidade da expansão capitalista no Brasil consiste em reproduzir e criar uma larga
periferia com padrões predominantemente não capitalistas de relações de produção como
forma e meio de alimentar o crescimento dos setores capitalistas que são a longo prazo a
garantia das estruturas de dominação e reprodução do sistema.

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