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Capítulo IV

A ACELERAÇÃO DO PLANO DE METAS: AS PRÉ-CONDIÇÕES DA CRISE DE 1964.

O período Kubitschek forçará a aceleração da acumulação capitalística com o projeto “50 anos em 5”.

Implantando os ramos automobilístico, construção naval, mecânica pesada, cimento, papel e celulose, ao
lado da triplicação da siderurgia, essas ações visaram acelerar a estratégia de converter o setor industrial em
unidade-chave do sistema.

O Estado se lançará num programa de construção e melhoramento de rodovias, produção de energia


elétrica, armazenagem e silos, portos, ao lado de viabilizar o avanço da fronteira “externa”, com obras como
Brasília e a rodovia Belém-Brasília.

O Estado do ponto de vista fiscal é primitivo e regressivo levando a déficits crescentes e ao limite sua dívida
interna.

A conjuntura internacional de auge do mercado comum europeu redefine o capitalismo num sentido
policentrista, entretanto a estratégia política do governo se mantem nos termos da guerra fria. A
consequência dessa dissintonia com os países centrais será a falta de financiamento de governo para governo.
Então, buscam-se financiamentos de curto prazo em bancos privados estrangeiros pressionando a balança de
pagamentos já que as exportações não crescem com o crescimento da produção.

O exagero dessa aceleração se manifesta na elevação do coeficiente de inversão (quanto se acumulou em


comparação com quanto se produziu) cuja média anual nesses cinco anos cresce em 25% acima da média dos
quinze anos anteriores. Trocando em miúdos se acumulou nos 5 anos de JK em termos de capital mais que o
dobro do que se acumulou nos quinze anos anteriores. Como financiar tamanho esforço para formação de
capital? Duas saídas para um país de limitada base capitalista:

1) Associação com capital estrangeiro


2) Aumento de exploração da força de trabalho

ASSOCIAÇÃO COM O CAPITAL ESTRANGEIRO

A associação com o capital estrangeiro se dá mais pelo fornecimento de tecnologia (acumulação prévia)
do que apoio financeiro (poupança externa nunca passou de 5%). Para as indústrias-chave do processo não
havia acumulação prévia necessária, não produzia bens de capital necessitados por tais indústrias. Há uma
estreita correlação entre demanda (determinada pela estrutura da distribuição de renda) e o tipo de bens
fabricados, sem contar com as “necessidades” básicas de consumo das faixas mais privilegiadas da
população já estavam satisfeitas que levou a escolher o elenco de indústrias da aceleração.

A expansão do capitalismo no Brasil foi um produto da expansão capitalista no mundo, sendo o


crescimento da economia brasileira um reflexo dessa, entretanto, nos anos 1930 a expansão do capitalismo
no Brasil foi mais o resultado do tipo e do estilo da luta de classes interna que reflexo das condições no
capitalismo internacional. A crise de 30 produziu um vácuo que poderia ser preenchido tanto com
estagnação quanto com crescimento, se deu o segundo no Brasil por que existiam condições estruturais
que poderiam alimentar tanto a acumulação quanto a formação do mercado interno. As técnicas e os bens
de capital para dar o salto em direção a industrialização estavam disponíveis no mercado mundial. Foi
intencional essa busca de ampliação e consolidação de estruturas de dominação capazes de propiciar
crescimento. Todas as medidas e prioridades do governo kubitschek foram concebidas, pelas classes
dirigentes internas, para favorecer a industrialização. A conjuntura internacional era inteiramente
desfavorável a tais medidas.
A posição do capitalismo internacional, principalmente a do capitalismo do país hegemônico, era, muito
ao contrário, amarrada à antiga divisão internacional do trabalho, em que o Brasil comparecia como
produtor de bens primários de exportação. Assim, é difícil reconhecer uma estratégia do capitalismo
internacional em relação à aceleração da industrialização brasileira; foi nas brechas do policentrismo, com a
reemergência dos países do Mercado Comum Europeu e a do Japão, que a estratégia nacional encontrou
viabilidade.

As condições de relações de produção já eram potencialmente concentradoras/acumuladoras, haja vista


se contar com um mercado de trabalho marcado pelo custo irrisório da força de trabalho; agora esse
processo de concentração/acumulação recebe um reforço na forma desses investimentos estrangeiros. A
nova tecnologia aumentando a produtividade e os ganhos irá acelerar ainda mais a concentração de renda.
Esse investimento estrangeiro foi imprescindível nessa transferência de tecnologia para fortalecer a
acumulação tipicamente capitalista já que o Estado foi usado para privilegiar o capital, mas em nenhum
momento foi usado para transferir tecnologia para industrias de capital nacional.

Como o capital estrangeiro entrou sobretudo nos ramos chamados “dinâmicos” e se esses ramos são os
motores da expansão, o capital estrangeiro de certo modo “controla” o processo dessa expansão; por
oposição, o capital nacional “controla” menos a economia brasileira que há vinte anos. As tomadas de
decisão nacionais ocorrem tendo em vista o processo interno de reprodução do capital que serve de
parâmetro para as empresas compatibilizarem com sua reprodução do capital a nível internacional, muito
longe da “desnacionalização do processo de tomada das decisões”.

AUMENTO DE EXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Comumente se identifica nesse período uma “melhoria” das condições de vida das massas
trabalhadoras, isso ocorre porque se compara erroneamente a condição de vida do trabalhador urbano
com a condição de vida do trabalhador rural quando na realidade se deveria comparar a condição de vida
do trabalhador urbano em diferentes períodos para se saber se melhorou ou piorou.

25 anos de intenso crescimento industrial não foram capazes de elevar a remuneração real dos
trabalhadores urbanos, no estado mais industrializado o nível do salário mínimo real em 1968 era ainda
mais baixo que em 1964. Entre 1944 e 1951 se reduz pela metade o poder aquisitivo do salário; entre 1952
e 1957 mostra recuperações e declínios conforme o poder político dos trabalhadores, segundo governo
Vargas até o governo Kubitschek; a partir de 1958 se dá a deterioração do salário mínimo real com breve
reação em 1961, governo Goulart, e depois com seu agravamento nos pós 1964. Os índices de São Paulo
sempre inferiores aos da Guanabara (atual estado do Rio de Janeiro).

Portanto, houve aumento da taxa de exploração da força de trabalho. O produto interno cresceu –
exceto na recessão entre 1962 e 1966 - enquanto os salários reais decresceram, a “teoria do bolo” segundo
a qual os trabalhadores deveriam esperar o “bolo” crescer para pegar a melhor fatia não ocorreu.

Poderia se argumentar que a parcela de trabalhadores que recebiam salário mínimo seria insignificante
em relação a força trabalhadora total, não é o que demonstram os números a respeito. Até 1967 33% do
total dos empregados urbanos (indústria, comércio e serviços) registrados no Brasil estavam incluídos na
faixa de remuneração de 1 salário mínimo variando entre os estados, por exemplo, no Rio Grande do Sul
8%, São Paulo 30,6% e Minas Gerais 50%. Mais que isso dentre esses trabalhadores urbanos os que
trabalhavam na indústria correspondiam a maior porcentagem entre aqueles que ganhavam salário
mínimo, vejamos essas porcentagens: Total no Brasil 67,8%; em São Paulo 71%; Rio Grande do Sul 82% e na
Guanabara, menor taxa, 53%. Na faixa dos 2 salários mínimos temos trabalhadores urbanos em 1967 com
75% dos registros no Brasil, 79% em Pernambuco, 70,5% na Guanabara e 71% em São Paulo. Ou seja, o
salário mínimo serve à acumulação do setor urbano-industrial da economia, pois não se toma o nível de
produtividade para se calcular o salário e sim se tomando a média geral estabelecida pelo governo que
nivelando por baixo garante ganhos extras para o setor urbano-industrial.

A implantação dos setores “dinâmicos” da indústria não altera esse quadro pois, embora sejam os que
mais empreguem trabalhadores qualificados, empregam porcentagens muito parecidas de não-qualificados
e semiqualificados dos setores “intermediários” e “tradicionais”.

Entre 1947 e 1964 o produto real teve crescente aumento em relação aos salários e se acelera no
período Kubitschek (passa de 8,1%, em 1953 para 11,2% em 1957, uma variação de 38% de um para
outro.). Portanto, comparando os salários reais com a evolução da produtividade no setor industrial da
economia se percebe a assimetria entre os dois e como isso foi fator importante na acumulação. A criação
do ramo “dinâmico” da indústria só irá aprofundar ainda mais essa assimetria.

Na medida em que o custo da reprodução da força de trabalho urbana se desruralizava e, por oposição,
se industrializava, o desequilíbrio começou a agravar-se. Todos os componentes dos custos de reprodução
do trabalhador urbano se institucionalizam, se industrializam, se transformam em mercadoria, se
urbanizam: O transporte, energia elétrica, educação, saúde, etc. As classes médias e trabalhadoras têm
“necessidade” de consumir e de utilizar os novos meios técnicos e culturais para sua reprodução. Há
aumento da taxa de exploração do trabalho sem necessariamente se ter o rebaixamento nominal dos
salários. Entre 1957 e 1962 as variações negativas foram majoritariamente maiores que as positivas
demonstrando essa deteriorização do salário real.

A crise gestada a partir do período Kubitschek acelerada entre 1961 e 1963 culminando em 1964 não é
totalmente uma crise clássica de realização, ela tem várias conotações. Indústrias que dependem da
demanda das classes de renda mais baixa como as têxteis, de vestuário, de calçados e de alimentação tem
fraco crescimento devido a deteriorização dos salários reais que ocorre devido ao caráter concentracionista
do processo de expansão do capitalismo no Brasil. Já o consumo dos bens duráveis (automóveis e
eletrodomésticos) foi assegurado pelo caráter concentracionista do capitalismo no Brasil, que redefinindo
as relações capital-trabalho cria novas ocupações de classe média (técnicos, engenheiros, analistas,
executivos, etc.). A participação dessa nova classe média na renda do país deriva da escassez específica
desse tipo de mão de obra que as eleva o salário e o status social, que já ocorria antes de 1964 mas, que se
aprofunda posteriormente a esse ano. Fazem parte de um continuum estrutural que tem numa
extremidade um terciário de baixa produtividade e noutra um terciário de alta produtividade.

Essa assimetria da distribuição de ganhos da produtividade e da expansão do sistema vai causar a crise.
As massas trabalhadoras urbanas não só não participam dos ganhos do período como irão ver se deteriorar
seu próprio nível de participação na economia nacional, por isso serão as principais denunciadoras do pacto
populista. Segundo pesquisa feita pelo Dieese em 1969 sobre o padrão de vida da classe trabalhadora da
cidade de São Paulo concluiu que entre 1958 e 1969 o salário real do chefe de família foi reduzido em
39,3% e que a renda total da família caiu 10% abaixo do nível de 1958, sendo necessário dois membros da
família trabalhando em 1969 para adquirir as mesmas coisas que se adquiria com um membro trabalhando
em 1958.

Outra pesquisa encontra salário médio de Cr$ 8,54 para um gasto médio de Cr$ 10,15, ou seja, o salário
era insuficiente para cobrir as despesas. A família realizava o equilíbrio através de expedientes e do
aumento de horas trabalhadas. Há situações em que o trabalhador renuncia ao consumo de certos gêneros
alimentícios, em face de um salário que não cresce, para consumir os tipos de bens como geladeira,
televisão, máquina de costura, ferro de engomar, etc. se comprometendo a longo prazo no crediário. As
famílias acumulam ativos mesmo com salários constantes e até decrescentes. Aí pode formar-se um certo
tipo de consciência de classe aglutinando o que antes estava fraturado, ainda que o padrão de vida não se
deteriore.
A luta reivindicatória unifica as classes trabalhadoras, ampliando-as: aos operários e outros empregados,
somam-se os funcionários públicos e os trabalhadores rurais de áreas agrícolas críticas. Tal situação alinha
em polos opostos, pela primeira vez desde muito tempo, os contendores até então mesclados num pacto
de classes.
Capítulo IV

A ACELERAÇÃO DO PLANO DE METAS: AS PRÉ-CONDIÇÕES DA CRISE DE 1964.

De 1956 a 1961, Kubitschek forçará a aceleração da acumulação capitalística com o projeto “50 anos em 5”
acelerando a estratégia de converter o setor industrial em unidade chave do sistema econômica brasileiro.
Esse projeto consistira em implantar os ramos automobilístico, construção naval, mecânica pesada, cimento,
papel e celulose ao lado da triplicação da siderurgia. Paralelamente a esse esforço o Estado se lançará num
programa de construção e melhoramento de rodovias, produção de energia elétrica, armazenagem e silos,
portos e numa ação de ampliação da fronteira “externa”, com obras como Brasília e a rodovia Belém-Brasília.

Para garantir todas essas intervenções liberou os empresários para importarem equipamentos sem o peso
da tributação fiscal, ou seja, radicalizou a política populista de Vargas acelerando o processo de
industrialização. O exagero dessa aceleração se manifesta na elevação do coeficiente de inversão (quanto o
empresariado acumulou em comparação com quanto produziu) cuja média anual nesses cinco anos cresce em
25% acima da média dos quinze anos anteriores, ou seja, se acumulou em apenas 5 anos de governo JK 20% a
mais do que se acumulou nos quinze anos anteriores! Como financiar tamanho esforço para formação de
capital? Duas saídas para um país de limitada base capitalista: a) Associação com capital estrangeiro e b)
Aumento de exploração da força de trabalho

ASSOCIAÇÃO COM O CAPITAL ESTRANGEIRO

Apesar da expansão do capitalismo no Brasil ter sido resultado da expansão capitalista no mundo, no
pós-30 a expansão do capitalismo no Brasil foi mais o resultado conflitos internos de classes que reflexo das
condições no capitalismo internacional. Dentro da lógica do capitalismo internacional, principalmente a do
capitalismo do país hegemônico, Estados Unidos da América, o Brasil deveria comparecer como produtor
de bens primários de exportação, por isso a aceleração da industrialização brasileira não é obra de uma
estratégia do capitalismo internacional.

Na década de 1950, surgiram brechas cada vez maiores no capitalismo internacional tornando-o
crescentemente policêntrico. Essas brechas surgiram com a criação do Mercado Comum Europeu e com a
extraordinária recuperação industrial do Japão. As técnicas e os bens de capital para dar o salto em direção
a industrialização estavam disponíveis no mercado mundial, por isso a associação com o capital estrangeiro
se dará mais pelo fornecimento de tecnologia (acumulação prévia) do que por apoio financeiro (poupança
externa nunca passou de 5%). Todas as medidas e prioridades do governo kubitschek foram concebidas
pelas classes dirigentes internas para favorecer a industrialização buscando ampliar e consolidar as
estruturas de dominação capazes de propiciar o crescimento.

As condições sociais de produção concentradoras e acumuladoras já baseadas no custo irrisório da força


de trabalho se vê acutizada ainda mais ao receber o reforço da nova tecnologia que aumentando a
produtividade e os ganhos irá acelerar ainda mais a concentração de renda. Ao transferir tecnologia para
industrias de capital nacional, sobretudo para o ramo chamado “dinâmico” (bens de consumo duráveis –
metalurgia, automobilístico, eletrodomésticos -, químico, outros.), o capital estrangeiro passou, de certo
modo, a ter certo controle sobre o processo de expansão industrial no Brasil e o capital nacional passou
controlar menos que a vinte anos antes, já que as tomadas de decisões nacionais, que ocorriam tendo em
vista o processo interno de reprodução de capital, serviam apenas de base para que as empresas
compatibilizassem sua reprodução de capital a nível internacional, portanto, estava-se muito longe do
discurso nacionalista de uma suposta “desnacionalização do processo de tomada das decisões”.

AUMENTO DE EXPLORAÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO


Comumente se identifica nesse período uma “melhoria” das condições de vida das massas
trabalhadoras, isso ocorre porque se compara erroneamente a condição de vida do trabalhador urbano
com a condição de vida do trabalhador rural quando na realidade se deveria comparar a condição de vida
do trabalhador urbano em diferentes períodos para se saber se melhorou ou piorou. Vinte e cinco anos de
intenso crescimento industrial não foram capazes de elevar a remuneração real dos trabalhadores urbanos,
no estado mais industrializado o nível do salário mínimo real em 1968 era ainda mais baixo que em 1964.
Entre 1944 e 1951 se reduz pela metade o poder aquisitivo do salário; entre 1952 e 1957,do segundo
governo Vargas até o governo Kubitschek, mostra recuperações e declínios conforme o poder político de
mobilização dos trabalhadores; a partir de 1958 se dá a deterioração do salário mínimo real com breve
reação em 1961, no governo Goulart, e depois com seu agravamento nos pós 1964. Portanto, houve
aumento da taxa de exploração da força de trabalho. O produto interno cresceu – exceto na recessão entre
1962 e 1966 - enquanto os salários reais decresceram, a “teoria do bolo” segundo a qual os trabalhadores
deveriam esperar o “bolo” crescer para pegar a melhor fatia não ocorreu.

Poderia se argumentar que a parcela de trabalhadores que recebiam salário mínimo seria insignificante
em relação a força trabalhadora total, não é o que demonstram os números a respeito. Até 1967 33% do
total dos empregados urbanos (indústria, comércio e serviços) registrados no Brasil estavam incluídos na
faixa de remuneração de 1 salário mínimo variando entre os estados, por exemplo, no Rio Grande do Sul
8%, São Paulo 30,6% e Minas Gerais 50%. Mais que isso dentre esses trabalhadores urbanos os que
trabalhavam na indústria correspondiam a maior porcentagem entre aqueles que ganhavam salário
mínimo, vejamos essas porcentagens: Total no Brasil 67,8%; em São Paulo 71%; Rio Grande do Sul 82% e na
Guanabara, menor taxa, 53%. Na faixa dos 2 salários mínimos temos trabalhadores urbanos em 1967 com
75% dos registros no Brasil, 79% em Pernambuco, 70,5% na Guanabara e 71% em São Paulo. Ou seja, o
salário mínimo serve à acumulação do setor urbano-industrial da economia, pois não se toma o nível de
produtividade para se calcular o salário e sim a média geral estabelecida pelo governo que nivelando por
baixo garante ganhos extras para o setor urbano-industrial. A implantação dos setores “dinâmicos” da
indústria não altera esse quadro pois, embora sejam os que mais empreguem trabalhadores qualificados,
empregam porcentagens muito parecidas de não-qualificados e semiqualificados dos setores
“intermediários” e “tradicionais”.

Entre 1947 e 1964 o produto real teve crescente aumento em relação aos salários e se acelera no
período Kubitschek (de 8,1% em 1953 para 11,2% em 1957, uma variação de 38%!). Portanto, comparando
os salários reais com a evolução da produtividade no setor industrial se percebe a assimetria entre os dois e
como isso foi fator importante na acumulação. A criação do ramo “dinâmico” da indústria só irá aprofundar
ainda mais essa assimetria.

Na medida em que o custo da reprodução da força de trabalho urbana se desruralizava e, por oposição,
se industrializava, o desequilíbrio começou a se agravar. Todos os componentes dos custos de reprodução
do trabalhador urbano se institucionalizam, se industrializam, se transformam em mercadoria, se
urbanizam: O transporte, energia elétrica, educação, saúde, etc. As classes médias e trabalhadoras têm
“necessidade” de consumir e de utilizar os novos meios técnicos e culturais para sua reprodução. Há
aumento da taxa de exploração do trabalho sem necessariamente se ter o rebaixamento nominal dos
salários. Entre 1957 e 1962 as variações negativas foram majoritariamente maiores que as positivas
demonstrando essa deteriorização do salário real.

A crise gestada a partir do período Kubitschek acelerada entre 1961 e 1963 culminando em 1964 não é
totalmente uma crise clássica de realização, ela tem várias conotações. Indústrias que dependem da
demanda das classes de renda mais baixa como as têxteis, de vestuário, de calçados e de alimentação tem
fraco crescimento devido a deteriorização dos salários reais que ocorre devido ao caráter concentracionista
do processo de expansão do capitalismo no Brasil. Já o consumo dos bens duráveis (automóveis e
eletrodomésticos) foi assegurado pelo caráter concentracionista do capitalismo no Brasil, que redefinindo
as relações capital-trabalho cria novas ocupações de classe média (técnicos, engenheiros, analistas,
executivos, etc.). A participação dessa nova classe média na renda do país deriva da escassez específica
desse tipo de mão de obra que as eleva o salário e o status social, que já ocorria antes de 1964 mas, que se
aprofunda a partir desse ano. Fazem parte de um continuum estrutural que tem numa extremidade um
terciário de baixa produtividade e noutra um terciário de alta produtividade.

Essa assimetria da distribuição de ganhos da produtividade e da expansão do sistema vai causar a crise.
As massas trabalhadoras urbanas não só não participam dos ganhos do período como irão ver se deteriorar
seu próprio nível de participação na economia nacional, por isso serão as principais denunciadoras do pacto
populista. Segundo pesquisa feita pelo Dieese em 1969 sobre o padrão de vida da classe trabalhadora da
cidade de São Paulo concluiu que entre 1958 e 1969 o salário real do chefe de família foi reduzido em
39,3% e que a renda total da família caiu 10% abaixo do nível de 1958, sendo necessário dois membros da
família trabalhando em 1969 para adquirir as mesmas coisas que se adquiria com um membro trabalhando
em 1958.

Outra pesquisa encontra salário médio de Cr$ 8,54 para um gasto médio de Cr$ 10,15, ou seja, o salário
era insuficiente para cobrir as despesas. A família realizava o equilíbrio através de expedientes e do
aumento de horas trabalhadas. Há situações em que o trabalhador renuncia ao consumo de certos gêneros
alimentícios, em face de um salário que não cresce, para consumir os tipos de bens como geladeira,
televisão, máquina de costura, ferro de engomar, etc. se comprometendo a longo prazo no crediário. As
famílias acumulam ativos mesmo com salários constantes e até decrescentes. Aí pode formar-se um certo
tipo de consciência de classe aglutinando o que antes estava fraturado, ainda que o padrão de vida não se
deteriore.

A luta reivindicatória unifica as classes trabalhadoras, ampliando-as: aos operários e outros empregados,
somam-se os funcionários públicos e os trabalhadores rurais de áreas agrícolas críticas. Tal situação alinha
em polos opostos, pela primeira vez desde muito tempo, os contendores até então mesclados num pacto
de classes.

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