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DIREITO DAS OBRIGAÇÕES – 2020

CAPÍTULO I
GENERALIDADES RELATIVAS À CADEIRA DE DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E À
OBRIGAÇÃO EM SENTIDO TÉCNICO

1.ª PARTE: INTRODUÇÃO E PRINCÍPIOS

ITIANDRO SLOVAN SIMÕES


Tema I: Generalidades relativas à cadeira de Direito das Obrigações e à obrigação em sentido
técnico (10 horas: 5 horas de aulas teóricas, 3 horas de aulas práticas e 2 horas de tutoria)

OBJECTIVO:

Identificar, explicar, descrever, ordenar e ilustrar o conceito e a função da obrigação, os


princípios gerais das obrigações, a estrutura da obrigação, as características da
obrigação, o seu objecto, a complexidade do vínculo obrigacional e a distinção dos
direitos de crédito de figuras próximas.

1.1. O conceito, a função e outras generalidades da obrigação.

1.2. Os princípios gerais do Direito das Obrigações.

1.3. Estrutura da obrigação.


“A língua é como um rio: sem margens,

desaparece.”

João Carreira Bom


Objecto: Função:

• Sector do direito objectivo; • Cumprimento: meio normal de satisfação do interesse do titular activo da relação.
• Ramo da doutrina.

Adriano Vaz Serra Antunes Varela

Importância Prática: Importância Teórica:

• Através destas desenvolve-se e opera, na vida real o importantíssimo • Relativamente neutrais;


fenómeno da colaboração económica entre os homens. • Relativa constância espácio temporal.
ACEPÇÕES DA PALAVRA «OBRIGAÇÃO»
Sentido técnico (restrito): 397.º CC
Relação jurídica
obrigacional simples A definição legal,
Relação jurídica ainda que insuficiente,
obrigacional complexa é o ponto de partida…

Estado Dever simples


Obrigação de
sujeição
Objecto da posição
jurídica do devedor
Ónus Dever de
jurídico prestar
Valor mobiliário

Poder/
Dever
dever 5
jurídico
funcional
m
1.2. OS PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES

1. Autonomia privada:
► Liberdade de produção reflexiva de efeitos jurídicos.

► Boa fé: Agir com conduta leal, honesta.

► Responsabilidade patrimonial:
► Poder de executar o património do devedor para obter a satisfação dos seus créditos.

► Ressarcimento dos danos:


► Sempre que exista uma razão de justiça, da qual resulte que o dano deva ser suportado por outrem, que não o lesado,
deve ser aquele e não este a suportar esse dano.

► Restituição da reversão do locupletamento injustificado:


► Qdo alguém um enriquecimento à custa de outrem sem causa justificativa, tem que restituir aquilo com que
injustamente enriqueceu.
1.2.1. O PRINCÍPIO DA LIBERDADE CONTRATUAL (405.º)

► Restrições:
Selecção do
► O Estado não a pode aceitar indiscriminadamente quando Celebração tipo
esta fira a justiça material do caso concreto. negocial
► Exercer a tutela da parte mais fraca.

TRABALHO PARA CASA:


Estipulação
Exemplos da legislação sobre restrições à liberdade contratual
Sectores das águas, energia, banca, seguros, etc.
E de contratos submetidos a regimes imperativos: laboral e arrendamento para habitação.

Analise a Lei n.º 4/03:


• 1. Quando se deve considerar as CCG incluídas no contrato? 2. Modo de interpretação das CCG;
• 3. Diferença entre CCG absoluta e relativamente proibidas e; 4. Efeitos da sua proibição.
1.2.2. PRINCÍPIO DA BOA FÉ

► Subjectiva – estado de espírito (desculpável).


► Objectiva – forma de conduta ou comportamento (princípio da boa fé).

► Institutos: 227.º, 239.º, 437.º, 762.º

Tutela da confiança:
► 1. Situação; 2. Justificação;
► 3. Investimento; 4. Imputação.

Primazia da materialidade subjacente:


 1. Conformidade material das condutas; 2. idoneidade valorativa;
 3. equilíbrio no exercício das posições.
Cláusulas contratuais gerais
Generalidades
► Surgiram em consequência do crescente volume negocial da sociedade comercial actual.
► Na formação do contrato pelas grandes empresas – tráfego contratual de massas.

► Estipulações predispostas p/ uma pluralidade de contratos p/ serem aceites em bloco sem


possibilidade de negociação individualizada ou alterações singulares (1 LCCG).

► Características necessárias ou obrigatórias:

Cláusulas
Pré-
Generalidade Rigidez Contratuais
elaboração
Gerais

► Características ou requisitos tendenciais ou não obrigatórios:


► Desequilíbrio entre as partes, complexidade e extensão, natureza formularia.
A) QUANDO SE DEVE CONSIDERAR AS CCG INCLUÍDAS NO CONTRATO?

► Dever de comunicação e informação – de forma adequada e efectiva à outra parte (3/1) sob pena de
exclusão (5./1, a).

► Ñ devem existir no contrato cláusulas prevalentes (as específicas) que contradigam as CCG (4).

► As CCG têm de ter uma grafia e serem inseridas em partes do contrato que permitam não passar
despercebidas ao contratante normal (5/1/d).
► As cláusulas “surpresa” (no verso, em letra menor ou em nota de rodapé).

► Não podem ser inseridas no contrato depois da assinatura de algum dos contratantes (5/1/d).

► Para a interpretação das CCG (6.º e 7.º LCCG) é irrelevante a intenção que o predisponente tinha ao introduzi-
las no contrato – critério do contraente indeterminado que se limitasse a subscrevê-las ou aceitá-las, quando
colocado na posição de aderente real (11/1 LCCG).
B) AS CLÁUSULAS CONTRATUAIS GERAIS ABSOLUTA E RELATIVAMENTE PROIBIDAS

► Situações que contrariem o princípio da boa fé (8.º e 9.º LCCG);


► As relações entre empresários ou entidades equiparadas (9.º a 11.º LCCG);
► As relações com consumidores finais (12.º a 14.ºº LCCG).

► As cláusulas absolutamente proibidas nunca podem ser utilizadas.


► As relativamente proibidas podem vigorar, dependendo da valoração feita ao caso pelo tribunal.

► O uso de CCG proibidas em contratos gera a nulidade (especial) (art. 16.º).

► Os efeitos da proibição de cláusulas contratuais gerais:

► 1) A declaração de nulidade (18.º LCCG).

► 2) A Acção inibitória – quando uma entidade usa CCG proibidas, o 18.º LCCG proíbe essa entidade de
voltar a usar essa CCG em futuros contratos.

► Quem pode solicitar a acção inibitória? – artigo 19.º: legitimidade imprópria destinada a tutelar
interesses difusos (interesses alheios).
1. CLÁUSULAS ABSOLUTAMENTE PROIBIDAS

► De entre um vasto elenco de cláusulas que a lei considera, em absoluto (em qualquer caso), proibidas,
encontram-se as que:

► 1. Limitem ou alterem obrigações assumidas na contratação por quem as predisponha;

► 2. Confiram ao predisponente a faculdade exclusiva de verificar e estabelecer a qualidade dos


bens/serviços;

► 3. Excluam ou limitem de antemão a possibilidade de requerer tutela judicial para situações litigiosas
que surjam entre os contratantes ou prevejam modalidades de arbitragem que não assegurem as
garantias de procedimento estabelecidas na lei.
2. CLÁUSULAS RELATIVAMENTE PROIBIDAS

► São proibidas, consoante o quadro negocial típico de determinado sector de actividade, designadamente, as
cláusulas contratuais gerais que:

► 1. Prevejam prazos excessivos para a vigência do contrato ou para a sua denúncia;

► 2. Imponham a renovação automática de contratos através do silêncio da contraparte, sempre que a


data limite fixada para a manifestação de vontade contrária a essa renovação se encontre
excessivamente distante do termo do contrato;

► 3. Fixem locais, horários ou modos de cumprimento despropositados ou inconvenientes.


TIPOS DE CONTROLO DAS CLÁUSULAS CONTRATUAIS GERAIS (RESUMO)
► Substantivo:
► Controlo ao nível da inclusão:
► O juiz aprecia se havia ou não circunstancia de facto;
► Se entender que havia dever de informar, o ónus da prova é do proponente.

► Controlo ao nível da interpretação.

► Controlo ao nível do conteúdo:


► Raciocínio a seguir: O grau de protecção previsto para os contratos entre empresários ou entidades
equiparadas é menor comparativamente com o grau de protecção conferido aos particulares.

► Processual:
1. Dizer o que é proibido; 2. Dizer o que é nulo; 3. Dizer o que é invocável pelo aderente.
Tipo de acção judicial:
 Controlo incidental – acção de nulidade no âmbito de uma acção concreta;
 Controlo abstracto – acção inibitória (acção colectiva independentem. da inclusão em causa em
contratos singulares).
CCG. CONSELHOS ÚTEIS:

1. Conserve sempre um duplicado do contrato que assinou;

2. Verifique se o que está escrito corresponde ao que lhe foi dito verbalmente pelo vendedor;

3. Não assine documentos sem os lêr cuidadosamente e compreender tudo o que está a assinar;

4. Peça tempo para reflexão e aconselhe-se em caso de dúvida;

5. Em caso de vendas a prestações podem surgir dois contratos associados: um de compra e venda e outro
de crédito, eventualmente no mesmo documento.

6. Tenha em atenção as condições de ambos os contratos.


1.2.3. PRINCÍPIO DA RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL

Evolução histórica: Direito à indeminização


• Lei das XII Tábuas; Acção de cumprimento
• Lex Poetelia Papiria de Nexis
O património do devedor é a garantia geral
• Lex Julia;
• Zenão. 1. Estão sujeitos à execução todos os bens do devedor
Excepções: 1. os bens impenhoráveis e 2. a separação de patrimónios.

2. Só os bens do devedor podem ser objecto de execução pelos credores


Excepções: 1. bens de 3.º e 2. impugnação pauliana.

3. Todos os credores estão em pé de igualdade


Excepções: dtos reais de garantia.

O devedor por acção ou inacção pode fazer diminuir o seu património.


Outros credores podem antecipar-se ao credor no exercício do poder de disposição.
LEI DAS XII TÁBUAS
1.2.4. PRINCÍPIO DO RESSARCIMENTO DOS DANOS

•Conduta ilícita e censurável do agente.


Culpa
•Função reparatória e sancionatória.

•Risco-proveito.
Risco •Risco profissional.
•Risco de autoridade.

•Em homenagem a um valor superior, pode ser


Sacrifício sacrificado um direito pertencente a outrem,
atribuindo-se-lhe, indemnização.
1.2.5. PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DO ENRIQUECIMENTO INJUSTIFICADO

Se num negócio jurídico inválido houver transmissão dos


bens para terceiro…

Se ocorrer incumprimento de uma promessa em que tenha


havido tradição da coisa a que se refere o contrato
prometido.

Se através de uma gestão de negócios não útil ou julgada


própria…

Sendo exercida uma impugnação pauliana de


transmissões efectuadas em prejuízo dos credores…
“Enquanto não alcances, não descanses.
De nenhum fruto queiras só a metade."

Miguel Torga
ÍNDICE

O conceito, a função e outras generalidades da obrigação


1.3. Estrutura da obrigação.
1.3.1. O crédito como direito sobre a pessoa do devedor.
1.3.2. O crédito como um direito à prestação (teoria clássica).
1.3.3. O crédito como um direito sobre os bens do devedor
1.3.4. O crédito como relação entre patrimónios.
1.3.5. O crédito como um direito à aquisição de bens do devedor.
1.3.6. O crédito como expectativa da prestação, acrescida de um direito real de garantia sobre
o património do devedor.
1.3.7. As doutrinas mistas.
1.3.8. As doutrinas que sustentam a complexidade do vínculo obrigacional.
1.3.9. A posição adoptada.
ÍNDICE

O conceito, a função e outras generalidades da obrigação


1.3. Estrutura da obrigação.
1.3.1. O crédito como direito sobre a pessoa do devedor.
1.3.2. O crédito como um direito à prestação (teoria clássica).
1.3.3. O crédito como um direito sobre os bens do devedor
1.3.4. O crédito como relação entre patrimónios.
1.3.5. O crédito como um direito à aquisição de bens do devedor.
1.3.6. O crédito como expectativa da prestação, acrescida de um direito real de garantia sobre
o património do devedor.
1.3.7. As doutrinas mistas.
1.3.8. As doutrinas que sustentam a complexidade do vínculo obrigacional.
1.3.9. A posição adoptada.
A responsabilidade pelo incumprimento não se inclui no crédito; é uma consequência da
sua violação e gera outra obrigação.

Por via de regra, a obrigação constitui-se e extingue-se pelo cumprimento, sem


necessidade de recorrer à responsabilidade por dívidas…
● As teorias personalistas

1 O crédito como um direito sobre a pessoa do devedor (Roma Antiga)

Direito de domínio sobre a pessoa do devedor; este que até podia ser sujeito à
escravatura, caso não pagasse as suas dívidas.

2 O crédito como um direito à prestação (teoria clássica) – é a adoptada (397.º)

Reflecte um dto do credor a uma conduta por parte do devedor – a prestação devida.
● As teorias realistas
Um direito sobre a pessoa do devedor: dcomo nos dtos reais, um dto sobre bens, só que não
1
recai sobre bens determinados mas sobre todo o património do devedor.

O acto do devedor cumprir ou não é sempre um acto livre (Brinz, Bekker e Brunetti).

2 Uma relação entre patrimónios: Não é o devedor que deve ao credor, mas sim o seu património
que deve ao património do credor. É como um dto real, não incidente sobre um bem em especial
mas sim sobre a generalidade dos bens que constituem o património do devedor.

3 Um direito à transmissão dos bens do devedor: É um processo de aquisição de bens – o


objecto não é a prestação, mas sim os bens propriamente ditos (propriedade indirecta).
Variantes: 1) alienação da propriedade do devedor; 2) concepção de Savatier; 3) o credor como sucessor do
devedor, afirmando que o fenómeno da sucessão estaria presente no dto de crédito.

4 Expectativa da prestação + dto. real de garantia sobre o património do devedor (Pacchioni).


1) Relação de débito (um dever do devedor e uma expectativa do credor);
2) Relação de responsabilidade (um estado de sujeição – devedor, e um dto subjectivo – credor).
As teorias mistas: “schuld und hafung” (dívida e responsabilidade)

1 1) Dívida (o direito à prestação) – Que é o dever de efectuar a prestação.

O dto do credor é satisfeito mediante o cumprimento voluntário do devedor.

2) Responsabilidade (o direito de execução do património) – vínculo de garantia – estado de


sujeição do património do devedor perante o credor, em caso de não cumprimento. É
satisfeito através dos tribunais – processo de execução coactiva.

2 Dívida e responsabilidade

Como são autónomos, uma obrigação pode existir apenas com um dos elementos.

1) A responsabilidade existiria sem dívida: penhor, fiança ou hipoteca.

2) A dívida existiria sem responsabilidade: obrigações naturais.


TEORIA
“SCHULD UND HAFTUNG”

O direito de
crédito é
Dívida constituído por: Responsabilidade
(elemento autónomo) (elemento autónomo)

Obrigações
Naturais

Tanto a dívida, como a responsabilidade são Mas não existe a


Existe a dívida responsabilidade
elementos autónomos, e a obrig p/ existir,
apenas precisa da verificação de um deles.
As Doutrinas Da Complexidade Obrigacional

A obrigação é uma realidade complexa, abrangendo uma série de elementos, nos


quais se encontraria tanto a prestação, como a possibilidade de execução do
património do devedor.

Heinrich Siber identifica um leque de direitos principais e acessórios por parte do


credor, e um leque de deveres e sujeições, por parte do devedor.

Karl Larenz: defendeu a complexidade do vinculo obrigacional.

Vincou a estrutura temporal da obrigação como finita (um começo e um fim).


MUITO OBRIGADO

itiandroslovan@gmail.com