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No dia 1 de janeiro de 2020, António, casado com Beatriz, celebrou com a sociedade Imobiliária, Lda.,
contrato-promessa no valor de 300.000€, com tradição do imóvel e com entrega de sinal de 50.000€, para
a aquisição de fração autónoma de um prédio sito em Lisboa.
No dia 15 de março, António informa a Imobiliária, Lda. da sua intenção de não cumprir o contrato-
promessa uma vez que a sua anterior entidade empregadora cessou ilicitamente o seu contrato de trabalho
e, em consequência, vão ter de mudar-se para o Porto, para a casa dos pais.
Considerando que Imobiliária, Lda. se recusa a devolver o montante entregue a título de sinal, António e
Beatriz intentam uma ação judicial, na Instância Cível da Instância Central de Coimbra, em que pedem a
condenação de Imobiliária, Lda. a devolver-lhes o valor pago a título de sinal (50.000€) com base em erro
sobre os motivos do negócio e alteração superveniente e inesperada das circunstâncias em que fundaram a
sua vontade de contratar e que eram do conhecimento do promitente-vendedor.
O advogado da Imobiliária, Lda., munido de procuração forense com poderes gerais, apresenta contestação,
onde se alega:
1.º É verdade que os Autores informaram a Ré, na data da celebração do contrato promessa, que
pretendiam fixar-se em Lisboa e aqui constituir família, desconhecendo-se, no entanto, se o Autor
António foi ou não despedido e por que motivos;
2.º Os Autores não pretendem executar o contrato-promessa pois não conseguiram obter o
financiamento necessário;
3.º Em face da recusa de cumprimento pelos Autores pretende-se: (a) que seja declarado que a Ré tem
direito a ficar com o valor do sinal entregue; (b) ou, em alternativa, seja constituído o contrato-
prometido, nos termos do Art. 442.º, n.º 3 do CCiv.; (c) e, em qualquer caso, sejam os Autores
condenados a pagar uma indemnização à Ré a liquidar oportunamente por conta de todas as
oportunidades de negócio perdidas entretanto com o impasse e o litígio criado por aqueles.

Responda justificadamente às seguintes questões:


A) O juiz profere o seguinte despacho “Dispenso a audiência prévia porque a mesma se destinaria apenas
a proferir o despacho saneador e o despacho de identificação do objecto do litígio e enunciação dos
temas da prova”. Imaginando que é o mandatário de Imobiliária, Lda., aprecie o despacho do juiz.
B) De seguida, o juiz enuncia o seguinte tema da prova: “A Ré sabia que os Autores pretendiam em fixar-
se em Lisboa e aqui constituir família, caso contrário não adquiriam a casa?”. Comente a inclusão
deste tema da prova, e diga como deve o juiz decidir se não conseguir formar convicção segura sobre
a veracidade deste facto.
C) No início da audiência de discussão e julgamento, os Autores apresentam um novo requerimento no
qual peticionam que a Ré seja condenada a proceder a todas as reparações de defeitos do imóvel na

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eventualidade do seu pedido de execução específica ser julgado procedente (circunstância que não
concedem, mas que apenas ponderam por cautela).
D) Após o encerramento da audiência de discussão e julgamento, por temerem que poderia ser proferido
uma decisão menos favorável aos seus interesses, apresentam um requerimento no processo no qual se
diz que “por agora, os Autores declaram que perderam o interesse no pedido contra a Ré”. Pronuncie-
se sobre a admissibilidade e os efeitos deste requerimento