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ARQUIDIOCESE DE SÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO

VI CONGRESSO REGIONAL LESTE 1 DA PASTORAL DA SAÚDE


A RELAÇÃO DE AJUDA COMO PROPOSTA DE HUMANIZAÇÃO

Tema: Humanização e Saúde

Lema: “Quem me tocou?” (Lc 8,45)

17/07/2010

A RELAÇÃO DE AJUDA COMO ELEMENTO INTEGRANTE DA HUMANIZAÇÃO


Marcelo Santos1

Resumo: O texto parte da experiência do encontro entre Jesus e a mulher hemorroíssa para
apresentar a Relação de Ajuda como elemento integrante da humanização nas relações
interpessoais, especialmente no campo da saúde. A Relação de Ajuda é um ministério do ouvir,
do estar com o outro e do deixar o outro estar conosco. Esse ministério envolve algumas técnicas
que podem ser aprendidas, dentre elas a disponibilidade, a escuta, a compreensão, a atitude
empática e o contato. O texto conclui que Deus estabeleceu uma relação de ajuda com o homem
ao redimi-lo do pecado original. Agora cabe ao homem estabelecer uma relação de ajuda com os
seus semelhantes para tirá-lo das condições desumanas em que se encontra, aliviá-lo dos seus
conflitos e humanizá-lo.

1. A oportunidade do encontro

“Certa mulher, porém, que sofria de fluxo de sangue, fazia


doze anos, e que ninguém pudera curar, aproximou-se por
detrás e tocou a extremidade de sua veste; no mesmo
instante, o fluxo de sangue parou. E Jesus perguntou:
Quem me tocou?’ Como todos negassem, Pedro disse:
‘Mestre, a multidão te comprime e te esmaga’, Jesus
insistiu: ‘Alguém me tocou; eu senti que uma força saía de
mim’. A mulher, vendo que não podia se ocultar, veio
tremendo, caiu-lhe aos pés e declarou diante de todos
porque razão o tocara e como ficara instantaneamente
curada. Ele disse: ‘Minha filha, tua fé te salvou; vai em
paz’”. (Lc 8, 43-48)

Na perícope acima, não obstante falar em uma “multidão”, o que nos chama a atenção são
duas pessoas e a relação que se estabelece entre elas. As pessoas são Jesus de Nazaré e a mulher

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Médico psiquiatra. Perito do Tribunal Eclesiástico do Rio de Janeiro. Coordenador da Pastoral Litúrgica e da
Escola de Fé da Capela Jesus Eucaristia da Paróquia Nossa Senhora da Conceição e São José.
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que “sofria de fluxo de sangue”, tradicionalmente chamada de “hemorroíssa”. A cena bem
caracteriza a relação de ajuda praticada por Jesus.
O texto começa mostrando que a relação que se dá entre Jesus e a mulher hemorroíssa é
bastante desigual. Jesus é o “homo perfectus”, o homem perfeito, pleno, completo. Ele é
cortejado por uma multidão eufórica que o “comprime” e “esmaga”. Imaginemos o tumulto que
devia reinar naquele momento: Jesus passa, pessoas gritam o nome do Senhor, gente que quer
chegar perto, alguns se apertam, se machucam, um tumulto, um empurra-empurra. Os apóstolos
deviam evidentemente se sentir um pouco orgulhosos, afinal, eram os discípulos escolhidos do
mestre e podiam gozar da presença de Jesus em outros momentos, com exclusividade.

No outro pólo dessa relação que estamos analisando está uma mulher. Pelo simples fato
de ser do sexo feminino já era incluída naquele rol dos desprestigiados do tempo de Jesus. Não
esqueçamos que nem o evangelista se deu ao trabalho de contar quantas mulheres e crianças
comeram do pão multiplicado por Jesus (Mt 14,21). Mas além de mulher, ela sofria de um “fluxo
de sangue” o que a colocava na condição de impureza legal. A Lei dizia que “quando uma
mulher tiver fluxo de sangue e que seja fluxo de sangue do seu corpo, permanecerá durante sete
dias na impureza das suas regras. Quem a tocar ficará impuro até à tarde. Toda cama sobre a
qual se deitar com o seu fluxo ficará impura; todo móvel sobra o qual se assentar ficará
impuro”. (Lv 15, 19s). O evangelho nos diz que aquela mulher sofria de fluxo de sangue há doze
anos. Doze anos impura, marginalizada, desprezada, desconsiderada e sem contato social. Era
uma mulher “non perfectus”, um ser humano imperfeito. Uma pessoa doente, alijada da sua
saúde física, mental e social. Vivia uma condição de desumanização.

2. Viver a experiência da exclusão

Quando estamos doentes também podemos ter a experiência da mulher hemorroíssa. O


doente pode viver uma situação em que a sua pessoa não conta muito nas decisões de casa ou
menos ainda no hospital. E realmente não poucas vezes suas roupas precisam ser separadas,
lavadas com outra água, os talheres são diferenciados, a cama é separada. Às vezes até arrumam
um quarto ou uma casinha nos fundos só para ele.

No hospital essa condição de separação se acentua. Nem todos podem visitá-lo, o tempo é
regrado, o material usado é descartado. Até seu lixo é especial. Embora não se trate de uma
condição de impureza religiosa, o doente se sente separado do convívio social normal onde as
pessoas transitam, conversam, apertam as mãos, se abraçam e não precisam usar máscaras para
falarem uns com os outros. A sensação de estar “marginalizado”, à margem, não fica diferente
em relação àquela sentida pela mulher hemorroíssa. Tanto a mulher da passagem bíblica como o
doente sentem como se faltasse uma parte do humano em seu ser.

Isso significa que, seja ao tempo de Jesus ou hoje, as pessoas quando ficam doentes
perdem muito de sua capacidade de se relacionar. Há um “des-relacionamento” da pessoa com
forte queda da sua capacidade de estabelecer relações. O mundo da pessoa doente acaba se
reduzindo a sua casa, ao seu quarto até, ou, para piorar, ao quarto ou enfermaria do hospital. Ao
adentrar um hospital e ser internado, a pessoa tem a sensação de que a sua vida entrou em
suspensão. Uma pausa na sua existência onde o futuro tão certo passa a ser incerto. Já não detém
o controle de atos simples como ir para onde quiser, comer à hora que desejar, estabelecer seu
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horário para acordar ou dormir ou ver os programas que quiser na televisão. Mesmo sem saber se
expressar, o medo que muitas pessoas têm ao se internar em um hospital é exatamente o medo de
deixarem de ser vistas como pessoas, com individualidade, com humanidade e passarem a ser
vistas como doentes, como casos, como gente de segunda classe, quebrados, ferrados,
perturbados. Descaracterizados como homens e mulheres chamados a ser imagem e semelhança
de Deus. É o medo de perder a dignidade, de perder a vida, o medo da morte.

3. A Relação de Ajuda estabelecida com Cristo

Entre Jesus e a mulher hemorroíssa se estabelece uma relação. Mas que tipo de relação?
Comercial? Social? É uma relação de ajuda. A mulher busca de Jesus essencialmente uma ajuda.
Ela acredita que Jesus pode ajudá-la. Ela crê nisso e se esforça para conseguir essa ajuda. Não foi
uma relação casual feita com base em um gesto impulsivo da parte dela. Marcos nos diz que ela
“ouvira falar de Jesus” (Mc 5,27) e que estava decidida a estender a mão para o Senhor porque
ela pensava que “’se ao menos tocar suas roupas serei salva’” (Mc 5, 28).

Exteriormente, a relação que se estabelece entre Jesus e a mulher hemorroíssa é uma


relação praticamente invisível. Ninguém, a não ser Jesus, percebe o contato. É uma relação de
ajuda suave nascida de um leve toque na orla do manto de Jesus. É uma relação de ajuda tão
poderosa que cura e humaniza a mulher, resgatando a sua condição de pureza religiosa e
reinserção social.

Fortes relações podem ser estabelecidas com gestos simples, quase imperceptíveis aos
olhos. Identificados apenas pelo coração atento. Por pessoas que não apenas ouvem, mas
escutam o outro. Não apenas vêem, mas enxergam os conflitos emocionais de quem está diante
delas.

Isto é relação de ajuda, uma atitude de serviço em prol de uma outra pessoa. Envolve uma
relação a dois onde um se põe a serviço do outro.

4. A Relação de Ajuda como elemento integrante da humanização

Relação de Ajuda é o relacionamento em que ao menos uma das partes pretende


promover o crescimento, desenvolvimento, maturidade ou melhor funcionamento da outra. As
partes podem ser indivíduos ou grupos. O termo Relação de Ajuda foi definido em 1961 por Carl
Rogers (Relação de Ajuda. Dicionário de Psicologia).

Mas, que serviço é este? Basicamente é um serviço de escuta e orientação. A escuta


implica em se dispor a ouvir o outro, o que é o mesmo que dizer estar disponível para a outra
pessoa. Não poucas vezes nos colocamos disponíveis para todo mundo, mas não em
disponibilidade para um outro. Participamos da celebração, das pastorais, somos até bastante
ativos, prestativos, mas experimentamos um certo desconforto quando alguém nos pede um
momento em particular, para nos confidenciar algo.

Algumas pessoas sentem dificuldade em parar e se deter diante de outrem. Na perícope


estudada, Jesus para e pergunta “quem me tocou?” (Lc 8, 48). Os apóstolos quase perdem a
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paciência com aquela pergunta do Mestre. Afinal, Jesus era apertado, comprimido por todos os
lados. Mas Jesus sabia que aquele era um toque diferente.
Com efeito, não precisamos falar muito numa abordagem pastoral. Embora a relação de
ajuda trabalhe muito com o aconselhamento, toda a ajuda que precisamos pode estar contida em
um toque de mão, um aceno, um olhar, porque, na sua essência, toda ajuda é um ato de atenção
voltado para o serviço ao outro. É um ato humano e humanizador. Toda ajuda é comunicação.
Mesmo quando não tem muitas palavras, toda ajuda é diálogo quando é intensamente partilhado
na convivência de duas ou mais pessoas. Jesus sabia quem o havia tocado, sabia inclusive com
que disposição a mulher havia feito isso. Jesus se deixou tocar. Jesus sabia que para aquela
mulher, um simples toque era muito importante. De um simples toque dependia a sua vida. Jesus
não opera o milagre do seu jeito. Naquele momento o Senhor ajuda do jeito que a mulher
precisava que fosse. Relação de ajuda é isso: ajudar, do jeito que o outro precisa, porque o outro
necessita dessa ajuda e eu posso servir de ajuda para ele.

A relação de ajuda é o modo como podemos humanizar a saúde. É um ato de presença e


disponibilidade para o outro em um momento de necessidade. A Relação de Ajuda é um
ministério do ouvir, do estar com o outro e do deixar o outro estar conosco. Esse ministério
envolve algumas técnicas que podem ser aprendidas, dentre elas a disponibilidade, a escuta, a
compreensão, a atitude empática e o contato.

5. Disponibilidade e escuta

Disponibilidade para estar, para se fazer presente. Jesus, com o Reino de Deus a instaurar
na Terra, com a Redenção do gênero humano a executar, a escolha dos apóstolos a fazer e as
inúmeras curas a proceder se deixa estar na beira do poço de Jacó, aparentemente "sem fazer
nada". Os apóstolos se surpreendem ao vê-lo conversando com uma samaritana (Jo 4,1-25). Por
pouco não O repreendem por estar "perdendo tempo" com uma pessoa duplamente inferiorizada
no seu tempo: mulher e samaritana. Mas Jesus estava ali numa autêntica relação de ajuda, num
genuíno aconselhamento pastoral que operou uma cura interior naquela mulher em conflito
existencial consigo mesma.

O primeiro passo para o aconselhamento pastoral deve ser o estar disponível para escutar
o outro. Ninguém gosta de pedir e receber um conselho com alguém que demonstra visivelmente
estar com pressa: não olha para os nossos olhos, o corpo continua se mexendo como se quisesse
sair dali, nem se senta, nem convida o outro a sentar; nem sorri, nem relaxa, nem se desarma;
transmite uma nítida impressão de que está sendo interrompido.

No aconselhamento pastoral somos chamados a ajudar o outro nas necessidades dele.


Ajudar não exatamente do nosso jeito, do jeito que nós entendemos, mas conforme a situação
daquela pessoa que está nos pedindo ajuda. Ajudar o outro não necessariamente dando o que
temos, nossos recursos ou os da paróquia, mas ajudar o outro dando o que somos. Também
ajudar não para que ela possa ter algo que nós damos, mas para que a outra pessoa possa ser o
que ela realmente precisa ser.

Uma leitura dos Evangelhos nos permitem verificar que a relação com Jesus é uma
autêntica relação de ajuda. Seu modo de exercer o aconselhamento pastoral é bem prático Dá-se
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a partir da sua presença, de seu contato. Ele se faz efetivamente próximo do próximo. Trata-se de
um relacionamento pessoal de disponibilidade. As curas realizadas são curas que se dão num
encontro pessoal com Jesus. Mesmo as curas feitas à distância, como a do servo do centurião (Mt
8,5-13), ocorrem através da proximidade de quem é curado ou de quem se faz de intermediário
entre o necessitado e Jesus. Para Jesus, curar é um ato de fé que brota de um encontro pessoal
com Ele através de uma relação de diálogo. É assim que se dá a cura do leproso (Mt 8,1-3), da
filha da mulher cananéia (Mt 15, 21-28), dos cegos de Jericó (Mt 20,29-33).

6. Compreensão

Uma característica de Jesus que deve estar presente no agente de pastoral e que é bastante
trabalhada na Relação de Ajuda, visando humanizar as relações é a atitude empática.

Para que um diálogo pastoral seja de ajuda, é preciso que transmita compreensão
(Bermejo, 1997). Sentir-se compreendido constitui um momento de verdade, de confiança, de
intensa emoção tanto para mim que escuto como para quem me fala. (Paul Tournier, apud
Bermejo, 1997)

Na compreensão se dá uma interação, um eco duplo entre duas pessoas. O contato pessoal
promove interação e humanidade no relacionamento.

Devemos transmitir compreensão. Não basta simplesmente acreditar que compreendemos


o outro. É preciso fazê-lo ver que o compreendemos. Compreender significa passear pelo mundo
intelectual e afetivo do interlocutor como se estivéssemos em nossa própria casa, e o nosso
interlocutor é o único capaz de nos dizer se o compreendemos ou não (Bermejo, 1997).

7. Atitude empática

A atitude empática toma por modelo o comportamento do próprio Deus.

A Encarnação é o exemplo supremo de empatia (Kirwan apud Bermejo, 1997). “E o


Verbo se fez carne, e habitou entre nós e nós vimos a sua glória” (Jo 1,14). “Cristo, sendo de
Condição divina, não considerou como presa a agarrar o ser igual a Deus. Mas despojou-se,
tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2, 6-8). A partir da
Encarnação, poder-se-ia dizer que Cristo abandonou seu próprio ponto de referência – a glória de
Deus – para entrar em outro: a realidade humana (Kirwan, ibdem).

Para compreender a outra pessoa é necessário, pois, colocar-se em sua situação


existencial. A empatia supõe a recepção e a compreensão dos estados emotivos. É uma força de
penetração no coração do outro, em seus sofrimentos. É ver com os olhos do outro, escutar com
os seus ouvidos, sentir com seu coração. Supõe colocar-se temporariamente entre parênteses para
ver as coisas através do prisma dos sofrimentos do interlocutor. Dispor de um tempo de demora
para o outro. A pessoa empática é aquela que enquanto escuta as palavras, sabe ler o que se passa
dentro do outro. (Colombero apud Bermejo, 1997).

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Empatia é a capacidade de “penetração no mundo dos sentimentos alheios, permanecendo
a gente mesmo” (Dietrich apud Bermejo, 1997).

A atitude empática é um processo que se pode apresentar com as seguintes fases,


conforme Bermejo (1997): fase de identificação (o ajudante penetra no campo do outro, a
experiência que o outro está vivendo), fase de incorporação e repercussão (aquilo que um fala
repercute internamente no outro e se transforma em observação para nós mesmos) e fase de
superação (superar conflitos próprios e partir para novas soluções).

A compreensão empática produz no interlocutor os seguintes efeitos (Bermejo, 1997):


suscita sentimentos e experiências relevantes, estimula a auto-exploração, estimula a
autoconfrontação e estimula a transformação construtiva dos interlocutores.

A compreensão empática obtém os seguintes benefícios (Bermejo, 1997): favorece seu


dinamismo psíquico e o desenvolvimento construtivo da personalidade, intensifica o diálogo
crítico com suas próprias vivências, a pessoa experimenta alívio e apaziguamento ao exteriorizar
sua carga afetiva, pode aceitar melhor a si mesma e despoja-se das aparências e das máscaras.

A compreensão empática estabelece relações sadias entre o agente e o doente e dá saúde a


este último, sendo excelente mediadora da presença de Cristo na dor (Gameiro apud Bermejo,
1997).

8. Contato

Além da compreensão empática. A relação de ajuda de Jesus também se dá pelo contato


físico. Jesus toca e se deixa tocar. O toque foi uma ferramenta de relacionamento muito usada
por Jesus. (Mc 5,27; 10,13; Lc 7,14; 18,15). Comunica proximidade, pessoalidade e interesse. É
a ponte do meu para o seu corpo, do meu para o seu mundo, do eu para o seu eu.

Jesus também se deixa parar, interromper-se em meio a seus afazeres, deixa-se interpelar.
O Senhor nunca dá mostras de estar ocupado para atender alguém no exato momento que esse
alguém lhe pede ajuda. Ele realmente pára o que está fazendo e muda seus planos, como no
pedido de Jairo pela sua filha (Mc 4,21-43) ou na cura de Bartimeu (Mc 10, 46-52). Como na
parábola do bom samaritano, Jesus não passa pelo problema do outro e segue adiante, ele se
detém, e focaliza o problema do outro que ganha a dimensão que precisa para ser resolvido
naquele momento. Jesus não adia a resolução dos problemas das pessoas, sua ação é imediata,
porque Ele sabe que quando se está com um problema, aquilo toma conta da nossa vida e trava o
nosso viver. Jesus demonstra elevado grau de empatia, compreendendo o drama alheio, a ponto
mesmo de ir ao seu encontro, como quando percebeu seus discípulos angustiados na barca em
meio à tempestade do lago.

Ser cristão é, em suma, viver esse modo de se relacionar, ajudar e aconselhar próprios de
Jesus. É mostrar-se e se colocar em disponibilidade.

Como lemos no Evangelho, o toque de Jesus curou a mulher hemorroíssa não apenas
porque estancou o seu fluxo de sangue, mas porque aquele foi um toque que resgatou naquela
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mulher a sua dignidade como pessoa que devolveu a sua inserção social e a sua condição
religiosa. Foi um toque humanizador o de Jesus.

No mundo da saúde, seja como agente de pastoral, seja como profissional, precisamos
reinserir atos humanizadores em nossos gestos e procedimentos. O homem moderno precisa ser
reumanizado. A técnica deve continuar evoluindo porque ela é necessária, mas o homem não
deve ser desumanizado sob pretexto algum. Aquela mulher sentiu que depois da relação de ajuda
que teve com Jesus foi salva. Por isso ela foi embora em paz (cf. Lc 8,48). Devemos estabelecer
relações que ajudem o outro na reconstrução do seu ser interior. Nossas relações devem ser
instrumentos para o agir salvífico de Deus.

9. Conclusão

Precisamos humanizar a assistência hospitalar. Precisamos dar hospitalidade ao hospital.


Dar compreensão, empatia, escuta, cuidado integral e presença à pessoa doente. Ver no doente
antes a pessoa que há nela e não a doença ou um caso clínico.

O agente de pastoral da saúde também é agente de salvação porque age em nome daquele
que salva. Ele tem diante de si uma pessoa em condição de necessidade e diante da qual não
conta tanto o seu desempenho, mas sim o seu empenho.

Deus estabeleceu uma relação de ajuda com o homem ao redimi-lo do pecado original.
Agora cabe ao homem estabelecer uma relação de ajuda com os seus semelhantes para tirá-lo das
condições desumanas em que se encontra, aliviá-lo dos seus conflitos e humanizá-lo.

Amoldando-se a Cristo, possamos todos procurar estar disponíveis para Deus e para o
próximo e assim atuar colaborando para humanizar a saúde. No final, que possamos todos
perceber, numa grata surpresa, que estar disponível para Deus é estar disponível para o próximo
e que para Deus é uma só coisa (cf. Mt 25,31-46) porque ser humano é a condição prévia para
ser de Deus.

Referências bibliográficas

1. BERMEJO, José Carlos. Humanizar a Saúde: cuidado, relações e valores. Vozes.


Petrópolis. 2008;
2. BERMEJO, José Carlos. Relação Pastoral de Ajuda ao Doente. Loyola. São Paulo. 1997;
3. CINÀ, Giuseppe et cols. Dicionário Interdisciplinar da Pastoral da Saúde. Paulus. São
Paulo. 1999.
4. BÍBLIA DE JERUSALÉM. Paulus. São Paulo. 2002.
5. DICIONÁRIO DE PSICOLOGIA. - APA. Artmed. Porto Alegre. 2010