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Temas de Sintaxe I / Sintaxe Comparada I (Prof.

Ana Maria Brito)

O Parâmetro do sujeito nulo:

(1) (a) Eu comprei um livro.


(b) Comprei um livro.
(c) Tu vieste tarde ontem.
(d) Vieste tarde ontem.

(2) (a) Lei non vuole mangiare (Italiano) (Ela não quer comer)
(b) Non vuole mangiare. (Não quer comer)
(c ) Nosotros vamos a la playa (Espanhol) (Nós vamos à praia).
(d) Vamos a la playa. (Vamos à praia)

(3) (a) J’ai acheté un livre (Francês) (Eu comprei um livro)


(b) * Ai acheté um livre.

(4) (a) You came late yesterday.(Inglês) (Tu chegaste tarde ontem)
(b) * Came late.

(1) a (4) sujeitos de estatuto argumental.


Sujeitos de estatuto não argumental ou expletivo: 5) sujeitos nulos expletivos; (6) sujeitos expletivos
obrigatoriamente expressos:

(5) (a) Choveu ontem.


(b) Há cachorros quentes.
(c) Parece que vamos ter eleições.
(d) Acontece que nesse dia houve greve de estudantes.

(6) (a) Il a plu hier


(b) * A plu hier.
(c) It rained yesterday.
(d) * Rained yesterday.

Parâmetro do sujeito nulo: línguas de sujeito nulo (“prodrop languages”) versus línguas sem sujeito
nulo (“non-prodrop languages”).

Morfologia verbal rica e sujeitos nulos e morfologia verbal pobre e ausência de sujeitos nulos.

No entanto, ver Alemão (7a):


(7) (a) Ich arbeit-e; du arbeit-est; er / sie arbeit-et; wir arbeit-en; ihr arbeit-et; sie arbeit-en
(b) Es regnet (chove).

Por outro lado,línguas de morfologia verbal pobre que têm sujeito nulo, Chinês, Japonês e Coreano; ver
o exemplo (8) do Chinês:

(8) [e] lai le


vir ASP
ele veio

em que o sujeito nulo, representado aqui por [e] é definido e pragmaticamente determinado (Huang
1982, p. 355).
Outros fatores legitimam sujeitos nulos (ver, entre outros, Jaegli & Safir 1989).
Português: a nível dialectal é possível a produção de frases com sujeitos expletivos ou não argumentais
expressos sob a forma do pronome “ele“.
Corpus do projeto CORDIAL-SIN:
(9) Ah, se chover era melhor, mas ele não chove amanhã. (Monsanto)

1
(10) Ele podia ser aí (...) uns trezentos metros da minha [casa]. (Covo, Alentejo)
(11) [...] ele falta-me aqui umas peças do tear, quero saber onde estão. (Monsanto)
(12) Ele lá vinham os rapazes e as raparigas [...]. (Outeiro, Bragança)
(13) Ele estava o cortiço cheio de abelhas [...]. (Covo, Alentejo)

No PE e noutras línguas de sujeito nulo: o sujeito é pro (um pronome nulo mas com traços de pessoa e
número que desencadeiam a concordância com o V).

E no Português Brasileiro (PB)? Redução dos paradigmas flexionais e tendência de uso das formas
pronominais de sujeito.

Eu canto Eu canto
Tu cantas Você canta
Ele / ela canta Ele / ela canta
Nós cantamos Nós cantamos, a gente canta
Vós cantais (em desuso, apenas Vocês cantam
ouvida dialectalmente, sendo na
norma padrão substituída por
vocês cantam)
Eles / elas cantam Eles / elas cantam

(14)(a) Está chovendo / Choveu.


(b) Parece que vai chover.

Por essa razão, PB: língua de sujeito nulo parcial (“partial pro-drop language”).

Quer no PE quer no PB, com formas verbais comuns a várias pessoas gramaticais, como em (15), as
frases podem ser ambíguas, sendo então preferível a expressão do sujeito:

(15) Cantava muito naquele verão (sujeito: eu? ele? ela?)

Nas duas variantes pode haver sujeitos nulos, mesmo de terceira pessoa, em pares pergunta / resposta
((16) e sempre que haja um tópico que seja responsável pela identificação do sujeito nulo (17) (Cf.
Duarte e Figueiredo Silva 2016, p. 239, de onde são retirados os exemplos):

(16) E o Joãoi? [e ]i viajou.


(17) E o Joãoi? A Maria disse que [e]i viajou.

Em frases do tipo (18):

(18) (a) A Maria disse que [e] vai sair


(b) A Maria disse que ela vai sair.

PE: sujeito nulo na completiva co-referente do sujeito nulo da oração matriz (18a); preferencialmente
disjunto o pronome expresso (18b) (Brito 1991). Os falantes do PB admitem a co-referência com sujeito
expresso (cf. Duarte e Figueiredo Silva 2016, p. 240).

Consequências da marcação positiva do Parâmetro do sujeito nulo

Sujeito indeterminado ou de referência arbitrária

Sujeito sujeito nulo “indeterminado” ou de referência arbitrária com formas verbais no plural, como
em (19) ou o uso da forma –se, uma forma clítica, o chamado se „impessoal“ ou „se“ nominativo (20):

2
(19) Dizem que vai haver eleições (sinónimo de ‚alguém diz...‘, diferente de uma interpretação
em que o sujeito é uma entidade determinada como eles) .

(20)(a) Diz-se que vai haver eleições.


(b) Come-se bem aqui.
(c) Lê-se pouco hoje em dia.

O se impessoal emprega-se com Vs de várias subclasses (transitivos, intransitivos, inacusativos),


recebendo a interpretação de Agente, Causa, Tema ou outra que o V teria para atribuir ao seu Sujeito
(Cf. as pessoas dizem que...; as pessoas comem bem...; as pessoas leem pouco...), sendo portanto
distinto de outros valores de se.

No PB este se impessoal, tal como outras formas clíticas, em perda:

(21) Aqui vende sapato (Cf. Duarte e Figueiredo Silva 2016, p. 242).

Ordem de palavras: a ordem V S

O Português é uma língua SVO, admitindo em vários contextos a ordem V S, como na chamada
„inversão livre de sujeito“.

A ordem V S em PE é típica de frases apresentativas, quando toda a informação veiculada é nova, quer com
Vs inergativos quer com Vs inacusativos (Duarte 2003).

(22)(a) Muitos operários trabalharam. (ordem S V, V inergativo)


(b) Trabalharam muitos operários. (ordem V S)
(23)(a) Os estudantes chegaram. (ordem S V, V inacusativo)
(b) Chegaram os estudantes. (ordem V S)
(24)(a) Os traficantes foram presos. (ordem S V, frase passiva)
(b) Foram presos os traficantes.

A ordem V S surge muitas vezes como resposta a frases em que o foco da interrogação recai sobre o sujeito:

(25) P. Quem trabalhou? R. Trabalhou o João.


(26) P. Quem chegou? R. Chegou o João.

Também sujeitos “deslocados à direita” (Duarte e Figueiredo Silva 2016: 243):

(27) Comem muito chocolate, essas crianças.

Com Vs inergativos o sujeito posposto deve ser preferencialmente um indefinido (exemplos de Tarallo e
Kato 1989, retomados em Duarte e Figueiredo Silva 2016, p. 244):

(28) (a) Viajou um estranho comigo.


(b) Telefonou um cliente.
Com Vs inacusativos, a ordem V S parece estar restringida a contextos apresentativos:

(29) Quem chegou? Chegou o carteiro.

Mesmo quando o sujeito está em foco, como na resposta a perguntas do tipo de (29) a ordem S V pode ser
produzida em PB:

3
(30) O CARTEIRO chegou.

Em síntese, o padrão de ordem V S é mais restringido nessa variante do que no PE e mesmo quando o
sujeito é foco, este pode ser encontrado em primeira posição.

Tratamento formal da “inversão de sujeito”.

Hipóteses: o argumento externo é gerado na base como Esp de SV; isso traz hipóteses interessantes
sobre a “inversão de sujeito; o movimento do V para T ou Flex daria conta da posição pós-verbal do
sujeito; na posição de Esp de SV o SN sujeito recebe caso nominativo de T (ou Flexão):

Ordem S V:
ST
/ \
SN T’
/ \
T SV
/ \
SN V’
|
V
os amigosi telefonaramj [v]i [v] j

Ordem V S: o SN não se moveria e receberia in situ o caso nominativo e desencadearia a concordância


com o V (CADEIA? Chomsky 1981):

ST
/ \
SN T’
/ \
T SV
/ \
SN V’
|
V
proi telefonaramj [v]i [v] j

Leituras recomendadas: Brito (2003); Duarte e Figueiredo Silva (2016), Lobo (2013).

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