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Dificuldades do Português

Os argumentos dos verbos

Introdução

Pretende-se com este trabalho estudar e compreender a regência verbal. Por regência
verbal entende-se a dependência ou não de um verbo em relação a um ou mais
complementos (directos, inidrectos ou oblíquos). Conhecer a regência de um verbo
implica conhecer o tipo de acção que esse verbo indica, quanto ao grau de completude ou
incompletude da dita acção. Assim, podemos dizer que falar da regência de um verbo é
falar do grau ou da intensidade da acção que o verbo isolado significa, sendo que o
indicador mais fiável dessa intensidade é a necessidade ou não que o verbo tem de vir
junto com outros argumentos (na verdade, não só com complementos, mas também com
o sujeito, como veremos nos casos dos verbos de zero argumentos). Esta análise
gramatical acaba igualmente por ser uma análise semântica, pois o sentido do verbo
determina a quantidade dos argumentos com que se fará acompanhar. Daí que as
principais dificuldades apareçam precisamente a partir do facto de o sentido de cada
verbo poder variar no contexto em que está inserido, fazendo variar igualmente o seu tipo
de regência. Neste trabalho, limitamo-nos ao estudo dos verbos principais, excluindo os
verbos auxiliares.

Verbos principais e seus argumentos.

Os verbos principais podem ser de zero, um, dois ou três argumentos. Grosso modo
podemos considerar que os verbos de zero e de um argumento são intransitivos (à
excepção do verbo «haver» como veremos no final) enquanto que os verbos de dois ou
mais argumentos consideram-se transitivos.

Os verbos de zero argumentos são aqueles que podem perfeitamente aparecer sozinhos
numa frase dando sentido a essa frase. Ou seja, estes verbos manifestam uma acção
completa, totalmente completa, não necessitando nem de sujeito nem de qualquer objecto
(directo ou indirecto). Neste conjunto de verbos incluem-se , por exemplo, o verbo
«chover» («Chove!»), o verbo «nevar», o verbo «anoitecer» ou o verbo «amanhecer».
Não dizemos que chove água ou que amanhecem pinheiros. Estes verbos são auto-
suficientes e na sua semântica própria já está contida toda a definição da acção. Na
verdade, a razão pela qual não têm sujeito é precisamente pelo facto de quem executa
acção de «chover» ou de «anoitecer» não é nenhum agente concreto, mas, se quisermos
especular, podemos considerar como sujeito (não gramatical) a própria natureza. São por
isso verbos que têm que ver com processos naturais totalmente completos e que não
necessitam de qualquer argumento para que façam sentido. Na verdade, em geral, vêm
acompanhados de advérbios de modo ou de tempo («Ontem choveu muito») mas
ninguém pergunta «o que é que choveu?» nem «a quem é que choveu?» . Por outro lado
perguntas como «Onde choveu?», «quando choveu?» ou «como choveu?» podem ser
feitas mas não têm que ter necessariamente uma resposta. Estes são os verbos mais
completos e independentes que existem. As frases que formam podem designar-se
simbolicamente apenas por: V

Os verbos de um argumento são aqueles que apenas necessitam de um sujeito e que


dispensam qualquer objecto (à excepção do verbo haver que não tendo sujeito tem
sempre um objecto directo e por isso tem igualmente um argumento, algo que
explicitaremos adiante).
Estes verbos revelam igualmente acções completas, mas não tão completas como no caso
dos verbos de zero argumentos, pois os verbos de um argumento ainda assim necessitam
de um agente da acção significada pelo verbo.
Dentro deste rol de verbos temos, por exemplo, os verbos «tossir», «espirrar», «morrer»,
«viver», «dormir», «passear», «gritar», «dançar», «acordar», «sonhar», «nadar», etc. As
frases «O João morreu», «A Adriana dançou», «o cão dormiu», «eu espirrei», «O João
gritou» expressam acções completas e apenas necessitam do sujeito e do verbo para que
por si só possam fazer sentido. Ao contrário dos verbos de zero argumentos podemos
perguntar quem executou a acção e obteremos resposta, e é por isso mesmo que estes
verbos têm um argumento e não zero. No entanto, tal como os verbos de zero argumentos
se perguntarmos «a quem dormiu?» ou «o que é que nadou?» não obteremos resposta.
Estes verbos não necessitam de nenhum objecto, expressando acções completas
realizadas por um ou mais sujeitos. São verbos intransitivos. As frases em que se inserem
designam-se por: SV

Todos os verbos com dois ou mais argumentos consideram-se verbos transitivos,


precisamente porque exigem, em geral, um ou mais objectos, para que possam significar
uma acção completa. As frases que contenham verbos transitivos e que não tenham
objectos para esses verbos são frases sem sentido. Veremos caso a caso:

Os verbos com dois argumentos têm sempre um sujeito mais um objecto. Esse objecto
pode ser um objecto directo, um objecto indirecto, ou um objecto oblíquo. No primeiro
caso damos como exemplo os seguintes verbos: «comprar», «comer», «ler», «concertar»,
«apanhar», «cultivar», «empurrar», «beijar», «inventar», «invadir». As frases «Nós
concertámos a bicicleta», «A Joana comprou um livro», «O Manuel beijou o Rui», «Os
alunos invadiram o Conselho Directivo», expressam acções completas precisamente
porque possuem sujeito e um objecto. Se dissermos «Nós concertámos», «A Joana
comprou», «O manel beijou», «Os alunos invadiram» nada disto faz sentido, pois falta
sempre um argumento. E em geral o argumento essencial, além do sujeito, não é um
objecto qualquer mas sim um objecto directo. O objecto directo é aquele que não
necessita de uma preposição entre o verbo e o objecto, ao contrário dos objectos directos
e oblíquos que necessitam dessa preposição. Se dissermos «Nós concertámos ao João»,
«A Joana comprou à Maria» «O manel beijou ao Rui», «Os alunos invadiram-lhe», as
frases também não fazem sentido, à excepção de «A joana comprou à Maria». Esta frase
faz sentido mas não está completa pois devemos saber o que comprou a joana à Maria.
Isto deve-se ao facto de o verbo «comprar» poder vir acompanhado de um objecto
indirecto, ao contrário, por exemplo do verbo «concertar» ou «invadir» (não faz sentido
perguntar «a quem se invadiu?»). Mas, em todo o caso, qualquer frase com qualquer
destes verbos apenas fica completa se tiver um objecto directo. Por isso, estes verbos
designam-se por transitivos directos e as frases em que entram podem representar-se por:
SVO
No segundo caso, temos os verbos cujo argumento que não é o sujeito é um objecto
indirecto. São igualmente verbos transitivos (de dois argumentos). Exemplos deste tipo
de verbos podem ser «telefonar» ou «obedecer». As frases «O Rodrigo telefonou à
Maria» ou «O Luís obedeceu ao pai» são completas, precisamente porque os verbos em
causa têm sujeito e um objecto indirecto. Se dissermos apenas «O Rodrigo telefonou» ou
«O Luís obedeceu» as frases ficam incompletas. Por outro lado, para completar estas
frases não faz sequer sentido perguntar por um objecto directo («o que é que o Rodrigo
telefonou?, «o que é que o João obedeceu?»). A única forma de estas frases ficarem
completas é acrescentando-lhe um objecto indirecto. Por isso, estes verbos chamam-se
transitivos indirectos e as frases em que se utilizam podem ser representadas por: SVOi

No terceiro caso temos os verbos de dois argumentos, um dos quais é o sujeito e o outro é
um objecto oblíquo. O objecto oblíquo não designa um indivíduio a quem se dirige a
acção (como no caso do objecto indirecto ou em alguns casos do objecto directo) mas sim
um complemento circunstancial (de lugar, tempo, etc.). Verbos deste tipo são, por
exemplo, os verbos «chegar», «entrar» e «morar». As frases «eu cheguei a casa», «O
João entrou no café» e «A Rute mora no Seixal» expressam acções ou situações
completas, precisamente porque os verbos em causa têm um sujeito e um objecto
oblíquo, neste caso, um complemento circunstancial de lugar. Se dissermos apenas «O
João entrou», «Eu cheguei» e «A Rute mora» estas frases ficam incompletas. E aquilo
que lhes falta para ficarem completas é precisamente um objecto oblíquo e não um
objecto directo ou indirecto. Se disser «O João entrou ao Manuel» ou «A rute mora
cavalos» estas frases deixam de fazer qualquer sentido. A única forma de ficarem
completas é acrescentando-lhes um objecto oblíquo. Por isso, estes verbos chamam-se
transitivos oblíquos e as frases onde estão presentes podem designar-se por: SVObl

Finalmente, temos ainda os verbos com três argumentos, ou seja, os verbos que exigem
um sujeito e dois objectos. Estes verbos chamam-se bitransitivos, podendo conter um
objecto directo e outro indirecto, ou um objecto directo e outro oblíquo, ou mesmo dois
objectos oblíquos.
No primeiro caso (verbos com um objecto directo e outro indirecto) temos os seguintes
exemplos: «oferecer», «dar», «partilhar», «entregar». As frases «A Rita ofereceu uma
flor ao Paulo», «O Rui partilhou a cama com o Miguel», «A Sónia deu uma prenda à
Margarida» são frases completas precisamente porque o verbo vem acompanhado de
sujeito, de um objecto directo e de um objecto indirecto. Se dissermos apenas «O Rui
partilhou», «A Rita ofereceu uma flor», «A Sónia deu à Margarida» todas estas frases
ficam incompletas. E, mesmo que lhe acrescentemos complementos circunstanciais de
lugar ou de tempo («A Rita ofereceu uma flor de manhã», «A Sónia deu à Margarida na
piscina») estas frases continuam incompletas. A única forma de ficarem completas é
garantindo que o verbo possui um objecto directo e outro indirecto, independentemente
da ordem. As frases com este tipo de verbos podem designar-se por: SVOOi

No segundo caso (verbos com um objecto directo e outro oblíquo) temos os seguintes
exemplos: «guardar», «pôr», «colocar», «transformar». As frases «O Sócrates pôs o
socialismo na gaveta», «O zeferino guardou a pistola no armário», «O João transformou a
tua vida num caos» são frases completas precisamente porque o verbo está acompanhado
de sujeito, de um objecto directo e de um objecto indirecto. Se dissermos apenas «O
Sócrates pôs o Socialismo», «O Zeferino guardou no armário», «O João transformou»,
estas frases ficam claramente incompletas. E não é claro que ficarão completas se
simplesmente inserirmos um objecto indirecto - «O Sócrates pôs o Socialismo ao
Santana», «O joão transformou-te», «O Zeferino guardou a Joana no armário» - na
verdade estas duas últimas frases não deixam de fazer sentido e de parecer completas.
Com efeito, em alguns casos estes verbos parecem poder funcionar com um objecto
indirecto e um objecto oblíquo. Concluindo, as frases com este tipo de verbos designam-
se por: SVOObl

Finalmente, no terceiro caso (verbos com dois objectos oblíquos) podemos ter como
exemplo o verbo «viajar». A frase «A Adriana viajou de Lisboa para Paris» é uma frase
completa, em que aparentemente o verbo viajar necessita de dois objectos oblíquos («de
Lisboa» e «para Paris»). No entanto, estes casos são duvidosos e dependem muito do
contexto. Porque na verdade, o verbo «viajar» na maior parte das vezes em que é
utilizado pede apenas um objecto oblíquo, (em geral o local para onde se viaja), porque
na sua utilização se pressupõe quase sempre que os interlocutores conhecem o local de
partida da pessoa em causa. Por outro lado, o verbo «viajar» também pode ser entendido,
em alguns casos, como um verbo intransitivo, não necessitando de nenhum objecto. Por
exemplo, quando alguém diz «apetece-me viajar», ou, sem auxiliar, «a Olga viajou»,
estas frases podem-se considerar completas na medida me que a intenção do falante é
apenas indicar o facto de que tal sujeito viajou, independentemente do sítio para onde
viajou (até porque se pode depreender que vai viajar por vários sítios, e que o importante
é que foi viajar e não que foi para este ou aquele local).

3 – Dificuldades.

As línguas, em particular a língua portuguesa, são complexas porque tentam aproximar-


se de uma fotografia dos estados objectivos e subjectivos. Elas tentam expressar com o
máximo de realismo os sentimentos e as situações em causa. E como o real é muito
complexo e feito de infinidades de circunstâncias as línguas não podem facilmente
encaixar-se em regras rígidas.
Em relação à regência dos verbos, esta realidade também é sentida. É muito difícil
classificar um verbo como sendo transitivo ou intransitivo em todos os casos. Na verdade
tudo está dependente do contexto em que ele é utilizado mas também das virtualidades de
uma linguagem metafórica ou dos vários sentidos que o verbo pode adquirir.
Senão vejamos:

Há verbos geralmente intransitivos que em casos particulares se tornam transitivos. O


verbo «viver» é um bom exemplo, pois além do uso intransitivo, em determinadas
ocasiões pode assumir-se como um verbo transitivo directo: « O joão viveu uma vida
alegre»1. Neste caso, é uma espécie de falsa transitividade. O verbo viver implica que se
viva uma vida, «viver uma vida» é por isso uma redondância. Para retirarmos esta

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redondância, diremos «O João viveu alegremente». Na verdade «uma vida alegre» que
aparece como objecto directo está apenas a substituir o circunstancial adjunto adverbial
«alegremente», cuja presença nem sequer é obrigatória. Portanto, neste caso, o verbo
«viver» só se assume como transitivo directo devido à redondância introduzida na frase.
Mas o verbo «viver» é um verbo transitivo oblíquo quando significa «morar». Nestes
casos exige sempre o complemento de lugar («eu vivo em Lisboa»).

Outro caso interessante é o verbo «dançar» que foi considerado como verbo intransitivo,
de um só argumento. Na verdade, a acção significada pelo verbo é uma acção completa.
A frase, «Naquela noite, a Catarina dançou » parece completa. Mas podemos dizer «A
Catarina dançou uma valsa» e aqui o verbo «dançar» está num contexto em que exige o
objecto directo. Mas mais uma vez parece-nos que «dançar uma valsa» é apenas uma
forma de dançar e que encontra-se em substituição de qualquer coisa do tipo «A Catarina
dançou valsamente». Ora «valsamente» é uma expressão que a língua portuguesa não
permite, apesar de se aparentar com um circunstancial adjunto adverbial de modo. Na
verdade passa-se o mesmo do que no primeiro caso do verbo «viver». «O João viveu uma
vida, vida essa que foi alegre» ou «A Catarina dançou uma dança, dança essa que se
chama valsa». Pelo que se pudemos substituir a primeira por « O João viveu
alegremente» também poderíamos substituir a segunda por «A Catarina dançou
valsamente». Isto pode levar-nos a fazer crer que os objectos directos dos verbos
realmente transitivos (como «comprar» ou «comer») são apenas substituições de
complementos circunstanciais de modo. Mas isso não é verdade. Se digo «O João
comprou um livro» é impossível a substituição semântica por «O João comprou
livramente», porque aqui não está em causa o modo de comprar mas sim aquilo que se
compra (um objecto separado e independente), ao contrário do que acontece na frase «A
Catarina dançou uma valsa» em que o que está em causa é a forma como a Catarina
dançou, o tipo de dança que executou.

Continuando com os verbos intransitivos, há casos em que passam a transitivos quando se


recorre a uma linguagem metafórica. Por exemplo «O Manel chorou lágrimas de
amargura», ou «Chovem cães e gatos». No entanto, tanto num como noutro caso,
poderíamos operar às seguintes substituições mantendo o sentido das frases: «O Manel
chorou amarguradamente» e «Chove intensamente».

Ainda no campo dos verbos geralmente intransitivos atentemos finalmente ao verbo


«cuspir». Geralmente, é usado como verbo intransitivo, pois a acção de cuspir é uma
acção completa que comunmente designa «expelir saliva intencionalmente». A frase «O
João cuspiu» está completa. Mas nalguns casos o verbo cuspir vem acompanhado de um
objecto directo: «O João cuspiu sangue». São casos raros em que aquilo que é
comummente designado pelo verbo sofre uma alteração para outro significado. Neste
segundo caso, o verbo cuspir designa «expelir intencionalmente um líquido pela boca»,
pelo que necessita da precisão semântica do objecto directo, neste caso «sangue». Neste
caso, a dúvida sobre a intransitividade do verbo prende-se com a ambiguidade do seu
sentido (e não com o facto de poder ser usado em dois sentidos diferentes).

Consideremos agora o caso em que alguns verbos transitivos directos podem transformar-
se em verbos intransitivos. Há uma série de casos coloquiais que não são muito
interessantes porque não estando lá o objecto directo, ele está subentendido porque já foi
utilizado antes. Por exemplo «O João comprou o livro certo? Comprou, está
descansado.».
Mas há outros casos em que o contexto em que o verbo é usado pode semanticamente
afectar a sua transitividade. Vejamos o caso do verbo «comer» atrás designado como
verbo transitivo directo. Na verdade, em alguns casos, o verbo não necessita
obbrigatoriamente de um objecto directo. Por exemplo «Já comeste? Sim, já comi.
Podemos saír». Poderíamos objectar que está subentendido um objecto indirecto: «Já
comeste tudo?» mas não parece muito fiável. Repáre-se noutro exemplo: «Hoje já
comeste? Ainda não». Mais uma vez pode-se defender que está lá o objecto directo
«alguma coisa». Mas será assim? È uma questão complexa e que nos pode levar a
formular a hipótese de que existem graus de transitividade, ou seja, que há verbos que são
mais ou menos transitivos e não transitivos ou intransitivos. Neste caso, inclinar-nos-
íamos para designar o verbo «comer» como um verbo transitivo fraco. Isto porque a sua
transitividade não é tão clara como por exemplo a transitividade dos verbos «comprar»
ou «dar». E a melhor forma de compreender isso é perguntar «o que estás a fazer?» e
responder intransitivamente para ver se as frases ficam completas. Ora vejamos: «O que
estás a fazer? Estou a comer»; «O que estás a fazer? Estou a dar»; «O que estás a fazer?
Estou a comprar». Parece claro que a primeira frase é mais completa que qualquer uma
das outras e que portanto o verbo «comer» tem um menor grau de transitividade que os
verbos «dar» e «comprar». Outro exemplo é o verbo «estudar», que tem um grau de
transitividade ainda menor do que o verbo «comer». Nesta gradação podemos chegar aos
verbos intransitivos mais próximos dos transitivos como por exemplo o verbo «sonhar»
que pode vir sem objecto directo, ou com objecto directo «sonhei com...».

Ainda em relação aos verbos transitivos, consideremos os dois últimos exemplos. O


verbo «chamar» pode ser transitivo directo ( «A Joana chamou a Idalina») ou parecer
também intransitivo («Chamei, chamei, e ninguém atendeu»2). Mas neste segundo caso,
pensamos ser um caso de falsa intransitividade. Porque o objectivo da acção de «chamar»
é sempre «chamar alguém» pelo que «chamar» implica sempre uma intensão dirigida a
um objecto directo, mesmo que não esteja determinado qual é esse objecto. Ora, como
neste caso, ninguém ouviu o chamamento, a incompletude da frase é assumida na sua
própria completude. Ou seja, a frase é completa, sendo que semanticamente revela uma
situação incompleta, pois além de ninguém ter ouvido o chamamento, ele também não
era dirigido para ninguém em particular, mas sim para alguém em geral. Neste caso o
verbo «chamar» como que tem um objecto directo indeterminado ainda que somente
implícito.

Finalmente consideremos o verbo «haver». Na verdade, este é um verbo de apenas um


argumento. Mas a grande confusão que se pode fazer é precisamente pelo facto de o
verbo ter apenas um argumento considerá-lo como verbo intransitivo. Ora, isso não é
verdade porque o único argumento do verbo é um objecto directo e não o sujeito, o que
faz com que o verbo «haver», apesar de ter um só argumento, seja um verbo transitivo
directo. Quando dizemos «Há muitas coisas que não me agradam», «muitas coisas» é
objecto directo do verbo haver e não sujeito. Por outro lado, o verbo «existir» já é

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considerado como um verbo intransitivo, de um só argumento, precisamente porque esse
argumento é o sujeito e não um objecto directo. Atente-se no seguinte exemplo: «Havia
árvores nesta rua», «Existiam árvores nesta rua» 3. No primeiro caso «árvores» não pode
ser sujeito do verbo «haver» porque não existe concordância entre «Havia» e «árvores»
(teríamos que dizer «haviam»). No segundo caso «árvores» é o sujeito do verbo existir.
Poderíamos arrumar esta questão dizendo apenas que tudo isto não passa de uma
convenção, que o verbo «haver» não tem formas verbais plurais porque assim se decidiu.
Mas na verdade, a maior parte deste tipo de convenções (que fazem algo fugir da regra) é
o resultado de uma variação semântica que se identificou ou então essa própria
convenção vai acabar por originar essa variação semântica. Com efeito, se «árvores» é
um objecto directo do verbo haver, então «árvores» não é assim tão central na frase como
no caso de ser o sujeito do verbo «existir». No primeiro caso, é como se alguém que
voltasse a uma rua, se lembrasse, com desinteresse, que efectivamente existiam algumas
árvores naquela rua que agora parecem já não existir. No segundo caso, a pessoa que
refere que existiam árvores naquela rua, fá-lo com muito mais interesse, pondo a tónica
nas árvores proporamente ditas que deixaram de existir, do que a tónica no facto de algo
em geral ter deixado de existir. O verbo «haver» como que reenvia mais para a questão
da existência, enquanto que o verbo «existir» reenvia mais para o objecto que existe.
São precisamente estas «nuances» semânticas que podem fazer variar a transitividade dos
verbos e que estão na origem das dificuldades sobre esta questão da regência dos verbos.
Como possível futuro professor de Filosofia, considero extremamente útil o estudo da
língua e nomeadamente da forma de articulação dos verbos com os outros componentes
das frases. Porque quando se quer levar esta questão para a profundidade de uma
semântica fundamentadora entramos no campo da filosofia da linguagem, que nos
obreiga a nós e aos alunos a pensar. E pensar nunca é demais.

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pg 367 GPC
Bibliografia

CUNHA, Celso, Gramática do Português Contemporâneo, Editora


Bernardo Álvares, 1971, Belo Horizonte, Brasil (GPC)

Miguel Reis, nº23361