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Ditos difíceis de Jesus (1º parte) Jesus

Por: Rev. Augustus Nicodemus Lopes

UMA PROMESSA ENGANOSA? Mateus 10.23

LEITURAS SEMANAIS: 1 João 1.1-4; João 1.1-14; 1 Tim 4.1-5; Jeremias 23.9-40
Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos
digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do
Homem.”

Há diversos “ditos difíceis” de Jesus registrados nos Evangelhos, assim chamados


porque o sentido deles nem sempre parece claro ou coerente à primeira vista. Eles têm
desafiado a criatividade e a capacidade dos estudiosos por séculos. O fato de que estes
ditos foram transmitidos pela Igreja Primitiva e estão hoje nos Evangelhos canônicos é
prova de que os primeiros cristãos os consideravam autênticos, muito embora não os
entendessem plenamente. Neste boletim e nos próximos veremos alguns destes ditos
mais famosos.

O primeiro que gostaríamos de mencionar é Mateus 10.23. Estas palavras de Jesus


foram pronunciadas aos doze apóstolos após haver-lhes determinado que fossem, de
dois em dois, pregar nas vilas e cidades de Israel (ver Mt 10.1-6). O Senhor os instruiu
sobre como deveriam levar a cabo a obra de evangelização dos judeus (Mt 10.7-15),
advertiu-os quanto aos perigos que deveriam encontrar na jornada, especialmente as
perseguições (Mt 10.16-22) e lhes fez esta exortação e promessa: “Quando, porém, vos
perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não
acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem” (Mt
10.23).

Este dito ou palavra do Senhor Jesus (sublinhado acima) é considerado difícil porque
aparentemente se trata de uma profecia não cumprida, pois seus discípulos terminaram a
missão (ver Lc 9.10) e a “vinda” do Filho do Homem não aconteceu. As palavras de
Jesus parecem dar a entender que Ele esperava a manifestação plena do Reino de Deus
durante a missão dos Doze em Israel, mas esta expectativa se frustrou.

Várias soluções têm sido dadas para esta passagem difícil. Reconhecemos que nenhuma
delas explica de forma completa e satisfatória o sentido do que o Senhor Jesus quis
dizer. Há, porém, algumas que são menos problemáticas, enquanto que outras são
inaceitáveis.

1. Alguns estudiosos, sem compromisso com a inspiração, veracidade e autoridade da


Bíblia, insinuam que estas palavras não foram realmente pronunciadas por Jesus, mas
que foram compostas por seus discípulos e posteriormente atribuídas a Ele, quando o
Evangelho de Mateus foi escrito. Os discípulos, após a morte e ressurreição de Jesus,
estariam vivendo numa expectativa muito grande quanto à Sua segunda vinda, que
consideravam iminente e próxima. E para justificar esta ansiedade fervorosa, atribuíram
a promessa ao próprio Jesus, de que Ele retornaria ainda durante o tempo em que o
Evangelho estava sendo pregado aos judeus, antes da destruição de Jerusalém.
Entretanto, esta solução levanta problemas ainda maiores, especialmente quanto à
confiabilidade da Bíblia e a honestidade e inteligência dos discípulos. Parece plausível
que os discípulos tivessem criado uma mentira para justificar para si mesmos e para os
demais cristãos a esperança iminente do retorno do Senhor? E se eles fizeram isto,
porque mantiveram este dito falso e mentiroso no Evangelho, mesmo após a destruição
de Jerusalém e o fim da missão judaica no século I? Eles estavam sendo perseguidos
pelos judeus e pelos romanos. Seria suicídio intelectual manter no livro sagrado deles
uma promessa do fundador da sua religião que claramente não havia se cumprido,
especialmente se eles sabiam que Ele nunca falou estas palavras. Entretanto, este dito de
Jesus está em todas as cópias do Evangelho de Mateus de que dispomos hoje. Ele foi
mantido, mesmo sendo difícil, pela simples razão de que os discípulos sabiam que havia
sido o próprio Senhor que o havia pronunciado.

2. Outros estudiosos críticos consideram o dito como sendo uma autêntica profecia de
Jesus, porém equivocada. Acham que Jesus se enganou. Na opinião destes estudiosos –
e entre eles estava o famoso teólogo, médico e músico alemão Albert Schweitzer –
Jesus esperava realmente que através da missão dos doze apóstolos entre os judeus o
Reino de Deus se manifestasse em toda sua plenitude, e que Ele fosse claramente
manifestado por Deus como Filho de Deus e o Messias de Israel diante da nação, que o
haveria de reconhecer e aceitar. Daí ter feito esta promessa aos discípulos. Quando os
discípulos voltaram e o Reino não se manifestou, Jesus resolveu forçar a sua vinda
encaminhando-se para Jerusalém, como Rei de Israel. Mas, conforme ensinou
Schweitzer, foi rejeitado pelos líderes da nação, foi traído por Judas, abandonado pelos
demais discípulos, e morreu crucificado, sem entender porque Deus o havia
desamparado e por que a sua expectativa foi frustrada (“Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste?” Mt 27.46). Entretanto, esta solução, como a anterior, cria problemas
graves, pois sugere que Jesus nada mais era que um profeta iludido com sua própria
megalomania. A grande questão é por que os discípulos mantiveram este dito
“equivocado” de Jesus no Evangelho, visto que só contribuiria para desacreditar a
mensagem cristã? Além disto, como explicar que os discípulos continuaram a crer e a
seguir a Jesus após uma prova tão evidente de que Ele havia se equivocado, e que,
portanto, era um homem falível como qualquer outro?

3. Outros estudiosos consideram que a promessa de Jesus se cumpriu com a destruição


de Jerusalém em 70 d.C. A “vinda” do Filho do Homem teria sido o julgamento e juízo
da nação de Israel pela rejeição do Messias. Jesus “veio” na pessoa dos exércitos
romanos e assim cumprindo cabalmente a sua promessa. Ainda outra interpretação acha
que a “vinda” aconteceu em Pentecostes. Estas respostas pelo menos partem do
pressuposto que a Bíblia é inspirada e verdadeira, ao contrário das anteriores que
admitem erros e enganos em Jesus e na Bíblia; porém, estas duas soluções não
satisfazem plenamente. Uma das maiores dificuldades contra elas é o fato de que a
expressão “a vinda do Filho do Homem” é usada em Mateus para se referir à segunda
vinda de Cristo, em glória visível, a este mundo (veja Mt 24.27,37,39), bem como
outras expressões similares, tais como “quando vier o Filho do Homem” (Mt 25.31).
Interpretá-la como se referindo à destruição de Jerusalém ou Pentecostes é forçado.

4. Uma última interpretação entende que Jesus estava se referindo à missão mundial e
futura de evangelizar os judeus, a qual ainda não se completou. A ida dos doze para
pregar nas vilas de Israel apenas inaugurava esta missão, que continuou com Paulo e o
moderno movimento missionário, e ainda não se concluiu. Em outras palavras, o que o
Senhor quis dizer aos discípulos foi que a evangelização de Israel não se completaria
antes do fim da era presente, que será marcada pela vinda do Filho do Homem. E que
até lá haveriam perseguições. Algumas evidências fazem desta interpretação uma das
menos complicadas:

No texto paralelo em Marcos o Senhor disse, “Mas é necessário que primeiro o


evangelho seja pregado a todas as nações” (13.10). Muito embora aqui o Senhor tenha
incluído gentios e judeus, o princípio é claro: antes do fim do mundo, as nações –
inclusive Israel – serão evangelizadas.
O próprio Mateus registrou algo similar: “E será pregado este evangelho do reino por
todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (24:14).
O apóstolo Paulo mencionou ainda que “todo o Israel” seria salvo antes da consumação
(Rm 11.25-27). Muito embora a interpretação desta passagem seja disputada por alguns,
uma forte corrente reformada defende que se refere à conversão dos judeus antes da
vinda do Senhor.
Se tomados juntos, estes versos ensinam que, antes da vinda do Senhor, a Igreja deverá
ter anunciado o Evangelho a todas as nações, Israel inclusive. A passagem “difícil” de
Mateus 10.23 é mais bem entendida assim. Naquela ocasião, o Senhor Jesus referiu-se
somente a Israel, pois era este o contexto da comissão evangelizadora que ele deu aos
doze.

Conforme a teologia reformada, há passagens na Bíblia que não são claras em si


mesmas e nem igualmente claras a todos (Confissão de Fé de Westminster, 1.7). Os
“ditos difíceis” de Jesus se enquadram nesta categoria. Portanto, mesmo entre
reformados poderá haver diferença de interpretação quanto a eles. Entretanto, há
interpretações aceitáveis e outras inaceitáveis. As primeiras partem da premissa que não
há erro nas Escrituras, e que o dito é difícil por falta de conhecimento nosso, e também
que nem sempre teremos respostas para todas as dificuldades da Bíblia. As
interpretações inaceitáveis partem da premissa que a dificuldade pode ter sido criada por
um erro de Jesus ou dos autores dos Evangelhos. Isto rejeitamos veementemente.

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