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AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DO FUNDÃO

FICHA LEITURA/ESCRITA DE PORTUGUÊS – TAS18 – novembro/2019

1. Lê atentamente o seguinte artigo de opinião.

O princípio da ignorância
Não sabendo, como posso vir a saber? Não conhecendo, de que modo posso ter
acesso ao conhecimento? O princípio da ignorância é um impulsionador pragmático

Interrogado sobre um tema, por mais especializado que este seja, um político
profissional em regra nunca admitirá que não sabe a resposta, acabando por emitir a
mais banal, obtusa e desapropriada opinião. O mesmo acontece com os comentadores
profissionais dos media que, na posse de um menu de informações generalistas e numa
5 atitude que pretende ultrapassar o nível rasteiro da opinião, assumem, mais pela
atitude corporal ou pela ensaiada colocação de voz, a pretensão de um saber definitivo
– e redundante, em particular quando se trata de previsões.
Passarão poucas horas até que dos referidos saberes futurologistas ninguém se lembre
mais; porém, o facto de terem sido apresentados com a pose devida permitirá que
quem o fez continue pronunciando-se com uma sapiência abrangente de tudo sobre o
10 nada. (…)
Esta atitude não é específica deste tempo, embora alguns dos seus aspetos o sejam: a
pressão sobre a necessidade de acumular informação, associada à pressão para
apresentar a resposta imediata, associada à ideia de que o recurso a uma prótese
qualquer por parte do cibernauta contemporâneo o transforma, através de um mero
15 clic ou de um simples toque num ecrã, no detentor de todas as respostas necessárias.
Curiosamente, nestas situações mencionadas é sempre negado o princípio da
ignorância. Ora, esse princípio não tem necessariamente nada a ver com uma eventual
e tonta apologia do analfabetismo, da iliteracia ou, sequer, da ataraxia formulada por
Pessoa em certos versos de desespero. Pelo contrário, o princípio da ignorância é um
20 princípio ativo, uma força em potência ainda que pareça não existir; mas aí está
latente parecendo infinitamente pequena, mas inversamente proporcional a tudo o
que pode fazer existir.
Na sua fórmula metafísica, o princípio da ignorância é, na verdade, um impulsionador
pragmático: não sabendo, como posso vir a saber? Não conhecendo, de que modo posso
25 ter acesso ao conhecimento? Todos os processos de conhecimento resultaram do
reconhecimento deste mesmo princípio: a Enciclopédia d’Alembert ou a Einaudi,
a Biblioteca Britânica ou o cinema de Béla Tarr, a tese dos fractais... resultaram da
tomada de consciência, tantas vezes apenas sob a forma de um lampejo, de se estar
num estado de ignorância. A partir desse momento de reconhecimento da ignorância
30 não se passa simplesmente a estar na posse de um conjunto de informações, muito
menos se passa ao conhecimento absoluto (se é que ele existe); a partir desse momento
inicia-se um processo infindável de colocação de enigmas e procura de soluções, a que
se seguem outros enigmas e outras soluções, e assim sucessivamente.
As enciclopédias e os dicionários, tidos como repositórios do saber organizado e
35 disciplinado, são de facto formas inacabadas que continuamente reclamam ser preciso
regressar ao princípio da ignorância. Este, pela sua natureza, manifesta-se nos
pequenos momentos experienciais: frente a um glaciar, no meio do deserto ou da
imensidão de um oceano a sensação empírica de pequenez produz em nós a sensação
de uma gigantesca ignorância. Dir-se-á que estas são experiências limite, experiências
40 existencialistas no sentido psicológico. Ainda assim, este princípio pode também
ativar-se no confronto com uma obra literária cujo horizonte de sentidos nos aparece
como inalcançável ou até infinito, ou perante o teor de uma nova tese científica ou os
traços de um simples desenho que nos remeta para um tempo anterior e em que a
sensação de saber aparece como resultado (equívoco) do progresso linear. Também
45 surge no instante da paixão em que o desejo do outro que é um desejo do
esclarecimento absoluto do mistério do outro – e por isso nos confina a um lugar de
existência parca e pequena. Em todos os casos, à angústia do não saber corresponde a
esperança de vir a saber.

António Pinto Ribeiro, “O Princípio da Ignorância”. In Público – Ípsilon. 26/09/2014.

2. Responde aos itens apresentados.


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2.1. O tema do texto apresentado é
(A) a ignorância da sociedade contemporânea.
(B) a asserção da ignorância como gerador de saber.
(C) a recusa social da ignorância.
(D) a evolução do saber.

2.2. Com os exemplos apresentados no primeiro parágrafo, o autor pretende


(A) dar exemplos que comprovam o seu ponto de vista.
(B) comprovar a ignorância da sociedade atual.
(C) criticar os políticos e os “comentadores profissionais”.
(D) mostrar que, atualmente, a ignorância não é assumida, porque é entendida
como sinónimo de iliteracia ou analfabetismo.

2.3. O texto “O princípio da ignorância” apresenta a seguinte estrutura


(A) apresentação do ponto de vista do autor, exemplos comprovativos do ponto
de vista e conclusão.
(B) Exemplos comprovativos do ponto de vista do autor, explicitação do ponto
de vista com base nos exemplos apresentados e conclusão.
(C) introdução com exemplos contra-argumentativos, defesa do ponto de vista
e respetivos exemplos e conclusão.
(D) introdução ao assunto, apresentação dos argumentos e contra-argumentos
e reafirmação da argumentação.

2.4. O autor defende que o “princípio da ignorância” é


(A) negativo, porque pressupões iliteracia ou analfabetismo.
(B) positivo, visto que incentiva o desejo de saber.
(C) incompreensível, pois, na sociedade atual, há uma grande quantidade de
meios de informação.
(D) inerente à condição humana, uma vez que não há um conhecimento
absoluto.
2.5. O texto “O princípio da ignorância” é um artigo de opinião, porque o
autor
(A) explicita um ponto de vista sobre o “princípio da ignorância”, juntando
argumentos e os respetivos exemplos.
(B) expõe e argumenta com eloquência sobre o “princípio da ignorância”,
incentivando a uma mudança de comportamentos.
(C) apresenta o objeto da sua crítica e comenta-o.
(D) demonstra, fundamentando, o “princípio da ignorância”.

3. Escrita – Texto de opinião


3.1. “Não sabendo, como posso vir a saber?” e “Não conhecendo, de que
modo posso ter acesso?” são duas questões apresentadas no texto lido
anteriormente.

Hoje, o livre acesso ao saber proporcionado pelas novas tecnologias é


extraordinário., embora os problemas daí decorrentes não devam ser
escondidos ou desvalorizados.

3.2. Num texto bem estruturado, realizado em pares, apresentem a vossa


opinião sobre as repercussões do livre acesso ao saber proporcionadas
pelas novas tecnologias no crescimento pessoal e académico dos jovens.
Fundamentem o vosso ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois
argumentos e ilustrem cada um deles com, pelo menos, um exemplo
significativo.
Releiam o vosso texto e procedam à sua revisão, atentando nos
mecanismos de coesão textual.

A professora:
Célia Gil