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A INFLUÊNCIA DA OCDE E AS PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS NA

REDE ESTADUAL DE ENSINO DE SANTA CATARINA

Fernanda Denise Siems1

A atuação cada vez mais intensa, na esfera educativa, de organismos multilaterais (OM)
como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem se
aprofundado a partir da década de 1990, fase de recrudescimento de políticas neoliberais no
Brasil. Na área educacional a OCDE pode ser entendida como um aparelho de hegemonia que
difunde globalmente as ideologias do neoliberalismo. O neoliberalismo, muito além de uma
ideologia, que, segundo Gramsci é “uma concepção de mundo que se manifesta implicitamente
na arte, no direito, nas atividades econômicas, etc. "(GRAMSCI, 1984, p.16), ordena todas as
relações sociais como se fossem relações mercantis. A OCDE influencia os governos com
mecanismos de controle de governança global, pela pressão sobre os pares e “pela construção
de consensos, utilizando políticas de emulação em diferentes sistemas de ensino” (FREITAS;
COELHO, 2018, p. 271), e pode ser considerada um verdadeiro think tank2 para a construção
de consenso.
Analisamos uma aliança entre a OCDE e o governo de Estado, e o papel assumido pelo
Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina (CEE) nesta relação, como legitimador das
orientações desse Organismo Multilateral, que teve como consequência a materialização destas
orientações em políticas públicas voltadas à Rede Estadual de Ensino de Santa Catarina
(REESC).

OBJETIVOS

Objetivo Geral: Analisar a atuação da OCDE na Rede Estadual de Ensino de Santa


Catarina e as novas formas de reorganização das instituições burocráticas do Estado para
construção do consenso.
Objetivos específicos:
- Analisar o papel do CEE/SC na consolidação da política educacional decorrente da relação do
Estado de Santa Catarina com a OCDE
- Identificar como as políticas são formatadas.
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Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: fernandads@sed.sc.gov.br
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Os think tanks se caracterizam como organizações que transitam em espaços sociais híbridos, orientadas por
diferentes tipos de expertises e atores coletivos formalmente institucionalizados, cuja razão de ser é influenciar
políticas (RIGOLIN; HAYASHI, 2013 apud COELHO, 2017).

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JUSTIFICATIVA

Partimos do pressuposto de que o Estado e a burguesia vêm constantemente organizando


estratégias de manutenção da ordem social por meio da reorganização do Estado, com a qual se
pretende manter a subordinação da classe trabalhadora e a hegemonia das classes dirigentes,
criando novas formas de obter o consenso. A cada crise do sistema capitalista, a burguesia
vivencia uma crise de hegemonia necessitando se reorganizar junto ao Estado para suplantá-la.
Nesse sentido, constrói-se uma aliança entre a burguesia internacional e a burguesia nacional,
por intermédio do Estado burguês e dos OM, a fim de reproduzir a ordem dominante e ampliar
as taxas de lucro do capital, contexto a partir do qual a educação deixa de ser considerada um
direito e passa a ser tratada como um serviço comercializável.
Compreendemos o Estado à luz das concepções teóricas de Gramsci, constituído pela
sociedade política (governo – Executivo, Legislativo, Judiciário e Forças Armadas), como
espaço de coerção, e pela sociedade civil (diversas organizações – igreja, escolas, imprensa,
sindicatos, partidos políticos, associações, etc.). Sua atuação não se reduz a atender unicamente
os interesses da burguesia, sendo atravessado pelas lutas da classe trabalhadora. Gramsci (2017)
explica que o Estado não se mantém somente pela coerção, mas agrega consenso na manutenção
da hegemonia: “Estado = sociedade política + sociedade civil, isto é, hegemonia couraçada de
coerção” (GRAMSCI, 2017, p. 244). Em torno do Estado há um conjunto de organizações que
participam da construção de consensos em torno de uma classe dominante, permeada por
contradições e disputas. Esta aliança perpassa o Estado e envolve as instituições burocráticas,
resultando em pactos que buscam atender a interesses políticos, econômicos e culturais que se
conjugam.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Recentemente, no Estado de Santa Catarina, entre 2010 e 2012, uma parceria entre
Governo, OCDE e CEE teve como consequência uma série de reformas regressivas voltadas a
toda a estrutura do Sistema Estadual de Ensino, e direcionadas também à Carreira e Formação
Docente. A atuação do Conselho na negociação, por meio de produção de textos em conjunto
com a OCDE, permitiu a construção do arcabouço jurídico-normativo necessário para que as
orientações da OCDE se materializassem como políticas públicas e fossem paulatinamente
implementadas pelo governo, tornando-se, inclusive, norteadoras para o Plano Estadual de

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Educação 2015/2024. O papel do CEE, além de simplesmente legitimar as orientações da
OCDE, foi de cumplicidade: com a sua atuação, as políticas passam a apresentar a aparência de
políticas de Estado, transcendendo governos. Isso se explica em função dos mandatos dos
conselheiros não coincidirem com o do poder executivo e durarem mais que seis anos.
Para os docentes, um dos efeitos mais nefastos, foi a orientação para reforma do estatuto
do magistério e alteração da legislação que ordenava a contratação de professores em caráter
temporário na REESC. Com a promulgação da Lei nº 16.861/20153, os professores passaram a
ser contratados por horas/aula, aprofundando ainda mais a precarização da profissão.
Em relação ao currículo e à prática pedagógica, OCDE e CEE indicaram que “a
distribuição por disciplina e carga horária apresentam -se desconexas, inadequadas e ineficazes”
e recomendaram a elaboração de um “plano de institucionalização da escola em tempo integral
em âmbito estadual, mediante projeto curricular e pedagógico adequado, com implantação
gradativa” (SANTA CATARINA, 2012, p.27).
Essa orientação foi direcionada ao Ensino Médio, e se materializou por meio de uma
parceria com o Instituto Ayrton Senna (IAS) iniciada em 2016, uma medida tomada sem a
necessária discussão com a comunidade escolar. Esta parceria, além de autorizar a interferência
do IAS na gestão das escolas, abriu as portas para a atuação cada vez maior dessa instituição na
REESC. Desde janeiro de 2019 o IAS é responsável pela formação docente e pelo
desenvolvimento do modelo de avaliação de Santa Catarina e do Plano de Gestão das escolas,
a ser implantado até o final do ano na REESC.
Um dos pilares que sustentam o discurso de modernização da administração das escolas,
é a migração dos sistemas e recursos convencionais para sistemas digitais, que possibilitam ao
governo e aos gestores o acesso a uma consistente base de dados e a ferramentas gerenciais
diversas. A partir das orientações da OCDE e do CEE, uma ampla rede de informações foi
criada: O Sistema de Acompanhamento e Gestão Tecnológica (Sagetec), e o Sistema de Gestão
Educacional de Santa Catarina (Sisgesc), uma base de dados de alunos e professores em
interface com o Censo Escolar. Além do Sisgesc, foi implantado também o Professoronline,
programa testado em 2014 e implantado a partir de 2015, que consiste em um ambiente virtual
onde estão reunidos os dados pedagógicos, conteúdos, registro de presença, avaliações e o
lançamento de notas, que antes era feito nos diários de classe convencionais. Esse diário de
classe digital é alimentado diariamente pelos professores a despeito da estrutura física

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LEI Nº 16.861, DE 28 DE DEZEMBRO DE 2015. Disciplina a admissão de pessoal por prazo determinado no
âmbito do Magistério Público Estadual, para atender à necessidade temporária de excepcional interesse público,
sob regime administrativo especial, nos termos do inciso IX do art. 37 da Constituição da República.

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deficitária das escolas e inexistência da rede de internet que dê o suporte. Este sistema,
monitorado pela Secretaria de Educação, controla as atividades online do diário de classe e
alerta as escolas quando não está sendo devidamente preenchido por algum professor. O não
preenchimento do sistema também pode ser motivo de punições e processos administrativos
por parte das Gerências de Educação.
Aparentemente, parece se tratar de uma ferramenta para facilitar o cotidiano dos
professores, agilizando os processos pedagógicos, no entanto, nossa hipótese é de que o sistema
venha a servir como uma ferramenta de monitoramento que, será usado, num futuro próximo,
para compor o sistema de avaliação de desempenho dos professores conduzido pelo IAS.

METODOLOGIA

Utilizamos o referencial teórico do Materialismo histórico, a partir do entendimento de


que as políticas públicas devem ser compreendidas no interior de uma totalidade histórica, na
qual se encontram em jogo uma rede de dinâmicas sociais, econômicas e políticas que
engendram a realidade. Ao utilizarmos a estratégia metodológica da análise documental,
adotamos o referencial conceitual de Antônio Gramsci: Hegemonia, Ideologia, sociedade civil
e sociedade política na concepção de Estado integral. Tomamos como documento principal a
Proposição de Novos Rumos para a Educação: Visão do CEE sobre o relatório da OCDE
(2012), relacionando dialeticamente ao relatório que serviu de base: Avaliações de Políticas
Nacionais de Educação: Estado de Santa Catarina, da OCDE (2010).

CONCLUSÃO

A interferência da OCDE no Brasil deve ser percebida para além da sua aparência, ou
seja, ultrapassar a interpretação de que esta cooperação técnica entre um OM e o governo trata-
se meramente de um vínculo que visa aumentar estatisticamente os resultados da qualidade do
ensino público. A OCDE se aproxima dos governos a fim de oferecer assessoria técnica para o
desenvolvimento de políticas sob a justificativa da melhoria da qualidade da educação pública
e com isso implanta junto ao Estado os suportes de controle sobre as avaliações de desempenho.
Longe de ser um órgão neutro, o CEE assumiu um papel de cumplicidade na relação
entre a OCDE e o governo de Santa Catarina, fortalecendo a parceria com o IAS para a
implementação do Ensino Médio em período integral na REESC, bem como a interferência do
IAS na gestão das escolas. Esta forma de privatização tem sido uma estratégia adotada pelo

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Estado, a fim de diminuir sua responsabilidade com a educação pública, na medida que a esfera
privada planeja, e o Estado executa. A privatização da educação ocorre, desse modo, de forma
difusa transferindo fundos públicos para entidades privadas.

REFERÊNCIAS

FREITAS, Rodrigo; COELHO, Higson Rodrigues. Modernizar para não ficar para trás:
políticas de emulação neoliberal no sistema educacional italiano. Marx e o Marxismo, [S. l.],
v. 6, n. 11, p. 264-278, jul. /dez. 2018. Disponível em: https://bit.ly/2YU2za7. Acesso em: 20
nov. 2018

GRAMSCI, Antônio. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro: Civilização


Brasileira.1984.

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. v.


2.

GRAMSCI, Antônio. Cadernos do Cárcere. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,


2017. v. 3.

ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO –


OCDE. Avaliações de políticas nacionais: Estado de Santa Catarina, Brasil.
2010. [S. l.]: OCDE publishing, 2010a. ISSN 1990-0198.
DOI:https://dx.doi.org/10.1787/9789264091368-pt.

SANTA CATARINA. Conselho Estadual de Educação. Proposição de novos rumos para a


qualidade da educação em Santa Catarina: visão do CEE sobre a avaliação da OCDE.
Florianópolis: Dioesc, 2012. Disponível em: https://bit.ly/2Lsyg6t. Acesso em: 20 out. 2018.

SANTA CATARINA. Lei nº 16.861, de 28 de dezembro de 2015d. Disciplina a admissão de


pessoal por prazo determinado no âmbito do Magistério Público Estadual, para atender à
necessidade temporária de excepcional interesse público, sob regime administrativo especial,
nos termos do inciso IX do art. 37 da Constituição da República. Leis Estaduais, [S. l.], 4 jan.
2019. Disponível em: https://bit.ly/2JxQjXt. Acesso em: 20 mar. 2019