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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO


CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS

LUCIANA MEIRELES REIS

UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA:


o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão - 1876)

São Luís
2012
1

LUCIANA MEIRELES REIS

UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA:


o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


graduação em Ciências Sociais da Universidade
Federal do Maranhão para obtenção do título de
Mestre em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª Dra. Mundicarmo Maria Rocha


Ferretti.

São Luís
2012
2

Reis, Luciana Meireles.


Um crime contra escravo numa sociedade escravista: o caso da
futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876).
149 f.

Impresso por computador (Fotocópia).


Orientadora: Mundicarmo Maria Rocha Ferretti.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Maranhão,
Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais, 2012.
1. Sociedade escravagista – Maranhão 2. Crime 3. Autos do processo-
crime 4. Relação senhor-escravo I.Título.

CDU 316.323.3 (812.1)


3

LUCIANA MEIRELES REIS

UM CRIME CONTRA ESCRAVO NUMA SOCIEDADE ESCRAVISTA:


o caso da futura Baronesa de Grajaú (São Luís do Maranhão – 1876)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-


graduação em Ciências Sociais da Universidade
Federal do Maranhão para obtenção do título de
Mestre em Ciências Sociais.

Orientadora: Profª Dra. Mundicarmo Maria Rocha


Ferretti.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________________________
Profª. Dra. Mundicarmo Maria Rocha Ferretti (Orientadora)

________________________________________________________
Profª. Dra. Maria da Glória Guimarães Correia

________________________________________________________
Profª Dra. Sandra Maria Nascimento Sousa

_________________________________________________________
Prof. Dr. Sérgio Figueiredo Ferretti (Suplente)
4

AGRADECIMENTOS

É muito satisfatória a sensação de que mais um ciclo se fecha. Maior


ainda é a alegria de saber que, com bastante trabalho e pensamento positivo, novos
caminhos serão abertos, outros desafios serão enfrentados, novas amizades serão
feitas. Nada disso seria fácil de conquistar sem o apoio de minha família. Por isso,
meus sinceros agradecimentos à minha mãe, Angela Maria e às minhas irmãs e
grandes amigas, Érica e Thatyane, por um auxílio que vai muito além da
concretização deste trabalho.
A João Guilherme, amor novinho, que, sem saber, muito tem contribuído
para nos dar felicidade.
Aos amigos do peito, Fabienne, Cláudia Letícia, Jane C., José Mariano e
Márcio pelos anos de muitas conversas agradáveis, divertidas e distraídas. Também
agradeço aos raros, porém, interessantíssimos encontros com Renato Kerly.
Aos colegas da graduação em História e, por extensão aos do mestrado
da turma de 2010, são eles: Carol, Jorge, João Gilberto, Antônio Carlos Poser,
Emerson, Thimóteo, Cristiane, Bruno, Marco Antônio, Dora, Joelma, Carla, Daisy e
Ingrid, pelas angústias e alegrias divididas.
Aos professores do Departamento, em especial, àqueles que tive a
oportunidade de conhecer deste as etapas de seleção: os professores Igor Gastal
Grill, Horácio Antunes e Álvaro Pires e demais professores das disciplinas, Sérgio
Ferretti, Marcelo Carneiro, Paulo Keller.
À minha orientadora, professora Mundicarmo Ferretti pela paciência e
troca de ideias, e também à banca avaliadora, composta, como na etapa de
Qualificação, pelas professoras, Glória Correia e Sandra Nascimento.
Às meninas da secretaria do Departamento: Mary, Soraya e Rosana, pela
atenção e cuidado prestados.
À Silvana e Ivone, funcionárias do Arquivo Público do Estado do
Maranhão (APEM), sempre muito atentas e cuidadosas com minhas solicitações.
À Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e
Tecnológico do Maranhão (FAPEMA), pelo financiamento de nosso trabalho.
Agradeço, mais do que tudo, a Deus, que sempre está comigo, nas horas
ruins e excelentes como esta.
5

Embora fosse bastante amplo o salão do Tribunal,


com largo espaço reservado ao público, desde
cedo já era difícil encontrar um lugar nas galerias.
Um senhor chegou a observar que o auditório
estava tão cheio que ali não cabia mais uma
bengala. E como o calor abafava, a despeito das
janelas abertas sobre a rua, quase toda gente
procurava abanar-se, mesmo com o chapéu ou a
folha de jornal dobrado, e isto acentuava ainda
mais a atmosfera nervosa do auditório, com os
movimentos das mãos e a expectativa do
julgamento, patente em cada semblante...

Josué Montello (Os tambores de São Luís)


6

RESUMO

Estudo de caso sustentado em uma análise qualitativa dos Autos do Processo-crime


movido, entre os anos de 1876 e 1877 na cidade de São Luís, contra a aristocrata e
escravocrata maranhense Anna Rosa Vianna Ribeiro, agraciada, em 1884, com o
título de Baronesa de Grajaú. Exercício a partir do qual procuramos examinar,
sobretudo as circunstâncias que levaram um integrante das classes dominantes de
uma sociedade amplamente identificada com a exploração do trabalho escravo, a
ser submetida a um procedimento jurídico, sob a acusação de maltratar e,
consequentemente, levar à morte um escravo seu menor de idade. Caso este que
nos possibilitou perceber alguns ângulos acerca do caráter tenso, conflituoso e
multifacetado que marcou as relações estabelecidas entre os ditos senhores e
escravos, assunto sobre o qual tem se debruçado muitos estudiosos da escravidão
no Brasil e que nos fez questionar a própria extensão da arbitrariedade e autoridade
do poder senhorial, enquanto única instância de governo da massa escravizada,
particularmente, no Maranhão da segunda metade do século XIX. No interior desta
proposta, a necessidade de compreender tanto a noção de crime para o contexto em
evidência quanto a dinâmica do sistema jurídico da época, sobretudo no que tange à
sua leitura acerca da condição social do elemento servil.

Palavras-chave: Sociedade escrava. Crime. Autos do processo-crime. Relação


senhor x escravo.
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ABSTRACT

This case study is supported by a qualitative analysis of the Records of Criminal


Proceedings during the period from 1876 to 1877 in São Luís, against the aristocrat
and enslaver from Maranhão, Anna Rosa Vianna Ribeiro, who was honored in 1884
with the title of Baroness of Grajaú. Through this analysis, we will try to explain what
circumstances led that woman, from a ruling class in a slave society, to be subjected
to a court case, under the accusation of ill-treating and killing one of her minor slave.
This study allowed us to realize some tense, conflicted, multifaceted and outstanding
character between the masters and slaves, subject which has been theme of many
scholars interested in Brazilian slavery, and made us think of the master‟s arbitrary
and authority power as the only instance of government of an enslaved mass,
particularly in Maranhão in the second half of the nineteenth century. Therefore, from
this proposal, there is the necessity to understand the concept of crime as much as
the dynamics of that legal system, especially, the social condition of those slaves.

Key-words: Slave society. Crime. Records of criminal proceedings. Relationship


between master and slave.
8

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 9
1.1 O campo de pesquisa ......................................................................................... 9
1.2 O uso de documentos históricos nas ciências sociais ................................... 10
1.3 Um crime em perspectiva: os caminhos de análise da pesquisa ....................... 13
1.4 Uma metodologia de pesquisa: o estudo de caso com base documental ......... 22
2 A ATMOSFERA SOCIAL À ÉPOCA DO PROCESSO ........................................ 25
2.1 A noção de crime numa sociedade escravista................................................. 35
2.2 O sistema jurídico da época .............................................................................. 45
3 UM OLHAR SOBRE OS AUTOS DO PROCESSO-CRIME DA BARONESA ..... 54
3.1 Os autos de exame de corpo de delito ............................................................ 59
3.2 Alegações da defesa: o papel do Dr. Francisco de Paula Belfort ....................... 71
3.3 As argumentações da acusação ....................................................................... 78
3.4 O desenlace do processo .................................................................................. 82
4 OUTRAS INTERPRETAÇÕES ............................................................................. 88
4.1 Liberdade à imaginação: olhares da literatura ................................................... 89
4.2 Formadores de opinião pública: a fala dos jornais............................................ 99
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................. 112
REFERÊNCIAS .................................................................................................... 115
ANEXOS ............................................................................................................... 120
9

1 INTRODUÇÃO

1.1 O campo de pesquisa

A recorrência ao uso de fontes documentais para a elaboração deste


trabalho, com toda certeza resulta da forte influência que a graduação em História
teve em minha vida. Os primeiros passos para o manejamento de materiais desta
ordem, embora bastante atrapalhados, chamaram mais e mais minha atenção, pois,
a partir deles, tive oportunidade de analisar uma realidade social afastada
temporalmente da nossa. Falo em termos temporais devido mesmo à dedicação que
dispenso, sobretudo à segunda metade do século XIX, período delineado em meu
trabalho monográfico e atualmente em minha dissertação.
As frequentes idas aos arquivos, principalmente ao Arquivo Público do
Estado do Maranhão, me permitiram e ainda permitem acesso amplo a uma série
infindável de documentações que muito têm a dizer, não apenas sobre o passado,
mas à maneira como vivenciamos nossas instituições sociais contemporaneamente.
E, mais do que a busca, o encontro com o material adequado para os fins de uma
pesquisa, significa para o pesquisador o estar de frente com um mundo de
possibilidades explicativas às quais dependem substancialmente do seu potencial de
sensibilidade e do estar atento ao não dito pelo documento.
Inicialmente, minhas incursões pelos arquivos da cidade centraram-se na
busca de jornais com os quais pretendia realizar – com base no projeto original – um
levantamento que me permitisse refletir sobre as possíveis vozes de um segmento
específico da sociedade ludovicense oitocentista, vozes estas que pareciam
dissonantes em relação às representações que se construíram em torno deste
segmento. Vasculhando os materiais para o desenvolvimento deste trabalho e,
principalmente, seguindo sugestões de minha orientadora, tive acesso a um
documento que muito chamou minha atenção e que trata de um processo-crime a
que foi submetido um membro da aristocracia da Província do Maranhão, trabalho
este já transcrito desde 2009 com o apoio do Ministério Público Estadual em
comemoração ao patronato do então promotor público que participou do processo, o
Dr. Celso Magalhães.
A partir do contato com esta documentação, houve um redirecionamento
do meu objeto de análise, outros rumos foram aos poucos sendo tomados pela
10

pesquisa. Já não refletiria mais sobre os discursos marginais às representações


acerca do ideal de feminilidade burguês e, embora me concentre no mesmo plano
espaço-temporal da proposta anterior, minha perspectiva analítica tornou-se mais
localizada, uma vez que voltada para o estudo de um caso criminal que teve grande
repercussão na São Luís da década de 1870 e que trata do processo criminal
movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, a futura Baronesa de Grajaú.
A princípio, as ideias que giravam em torno da maneira como desenvolver
um estudo com base nesta documentação pareceram incipientes e muito vagas, de
maneira que, somente a consciência de que tal material daria subsídios para
compreender mais uma entre tantas das facetas de uma realidade social tão tensa e
conflituosa como é o caso da sociedade ludovicense da segunda metade do século
XIX, me fez buscar mecanismos para que a mesma se efetivasse.
A leitura e releitura das quase 700 páginas transcritas do processo-crime
movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro renderam muitas idas ao Arquivo Público
do Estado do Maranhão (APEM), local que também tive acesso a um montante
considerável de bibliografias que, se não chegam a tratar diretamente do caso,
puderam contribuir significativamente para sua reflexão.
E, embora tenha frequentado com mais assiduidade o Arquivo Público do
Estado, seria impossível me limitar a este campo de pesquisa, de forma que foi
essencial buscar outros documentos que viessem a subsidiá-la, materiais estes
encontrados no Arquivo Público do Tribunal de Justiça, no próprio Tribunal de
Justiça do Estado do Maranhão e nas Bibliotecas da UFMA, da UEMA e, em
proporção bem menor, no anexo da Biblioteca Pública Benedito Leite.

1.2 O uso de documentos históricos nas ciências sociais

Sabemos que, embora situadas numa área de conhecimento dedicada ao


estudo da atividade humana no seu sentido mais diversificado, os métodos e as
técnicas adotados pelas ciências sociais e históricas variam significativamente. O
uso de documentos escritos, por exemplo, substância fundamental para a produção
historiográfica, nem sempre foi ou está vinculado aos métodos empregados pelas
ciências sociais. Isso talvez esteja relacionado ao que o sociólogo alemão Norbert
Elias discute no livro Envolvimento e alienação (1998) ao investigar a natureza do
conhecimento das sociedades humanas a partir do grau de envolvimento e
11

alienação do sujeito. Uma das maneiras que o autor utiliza para analisar estas
relações ele encontra na perspectiva de tempo, instância a partir da qual, segundo
reforça o sociólogo, pode ter tratamento diferenciado quando trabalhado pelo
cientista social – o sociólogo em particular – e pelo o historiador ou o etnógrafo, por
exemplo. Partindo desta prerrogativa, o autor considera ser mais comum entre os
estudos dos sociólogos uma atenção com o tempo presente e, consequentemente,
com a curta duração, deixando em aberto, ou para um segundo plano, uma projeção
de caráter processual mais amplo.
Contudo, mesmo não sendo apresentada como método procedente do
campo das ciências sociais, a coleta de documentos de arquivos, que sustenta não
apenas esta pesquisa, mas tantas outras já realizadas por outros estudiosos, não se
furta em ser tomada de empréstimo para análises neste campo do saber. E como
nos fala Jean-Claude Combessie, pode ser considerada “um ponto essencial de
muitas pesquisas sociológicas e um método a ser empregado desde o início, antes
mesmo da exploração do campo” (2004, p.23).
No caso específico deste estudo, o uso de documento escrito é a pedra
de toque de toda a pesquisa já que calcada na análise do processo-crime tramitado
contra Anna Rosa Vianna Ribeiro entre os anos de 1876-1877. O uso de tal
documentação exige, portanto, uma série de cuidados, devido, sobretudo à distância
em relação ao tempo em que foi produzido/registrado. Nesse sentido, a reflexão
baseada em materiais de tal dimensão difere em relação ao, digamos, método de
observação participante ou de uma entrevista (técnicas acentuadamente exploradas
nas ciências sociais) de maneira que a própria estada no campo de pesquisa, neste
caso particular, nos arquivos, requer uma lógica de tratamento com os dados um
tanto quanto distinta em relação a estes outros procedimentos. Sendo assim, a
análise de documentos escritos deve pôr em discussão não apenas o conteúdo nele
registrado, mas principalmente sua própria credibilidade, o que nos levará a colocar
em evidência, questões tais como as sugeridas por Uwe Flick: “Quem produziu este
documento? Com que objetivo e para quem? Quais eram as intenções pessoais ou
institucionais com a produção e o provimento desse documento ou desta espécie de
documento? (2009, p.232).
12

A análise qualitativa do material coletado deve atentar, portanto, ao


contexto em que foi produzido1 sempre levando em consideração que o mesmo
deve ser visto como mais uma versão de uma dada realidade 2, quesitos que exige
do pesquisador rigorosa vigilância metódica, embora se reconheça que o exercício
interpretativo do observador de alguma forma interfere na transformação do objeto
analisado.
Mais do que uma fonte escrita, o conjunto dos Autos do Processo-crime
da Baronesa de Grajaú, figura como um material de ordem jurídica, fortemente
permeado de termos bem específicos da área e de cujo vocabulário deve ser
compreendido com o mínimo de anacronismo possível. É bem verdade que
utilização de documentos com tal característica por algum tempo foi visto com certa
reserva entre os pesquisadores, uma vez que eram percebidos como produto da
classe dominante. No entanto, à medida que foi se ampliando o campo de estudos
centrados na análise da relação entre escravidão e violência, gradualmente os
documentos jurídicos passaram a assumir maior relevância enquanto dados
capazes de demonstrar mais um ângulo de uma realidade social específica.
O conteúdo destes documentos permite traçar perfis baseados nas
estatísticas de agressões físicas, homicídios, furtos, rebeliões que revelaram
panoramas os mais variados sobre a luta pela resistência escrava à dominação
senhorial. O problema é que muitos destes estudos visualizavam crimes cometidos
por escravos, não figurando estes, de um modo geral, como vítimas diretas dos
delitos, resultado mesmo da maneira dicotômica de como foi tratada
tradicionalmente a relação senhor/escravo. Diferente de nossa pesquisa, que
procura investigar um crime cometido contra um escravo menor de idade, tendo
como ponto de partida a acusação conferida à sua respectiva senhora,
acontecimento ocorrido na segunda metade do século XIX, momento em que
começavam a se difundir com maior intensidade, os ideais abolicionistas e
republicanos tanto num plano nacional como na tradicional capital da Província do
Maranhão. Embora as abordagens teóricas feitas acerca da crueldade da
exploração do sistema escravista tenham grande relevância para esta pesquisa,
este processo-crime chama a atenção também porque leva ao banco dos réus um

É essencial a importância que deve ser dada à dinâmica das relações sociais a partir da qual são
1

confeccionados os documentos.
O documento não pode ser tratado como algo estático ou capaz de registrar um fato em toda sua
2

amplitude.
13

membro influente da aristocracia ludovicense numa época em que se encontrava


fortemente enraizado na mentalidade coletiva a recorrência às práticas de violência
contra escravos como mecanismo de controle social.
A partir da análise desta documentação nos será viável reconhecer, por
exemplo, não apenas os traços de crueldade atribuídos a um senhor contra seu
escravo, neste caso particular, de Anna Rosa Vianna Ribeiro contra seu escravo
Innocencio, o que fica bastante evidente no conteúdo dos dois corpos de delito que
constam no inquérito policial, mas também registrar imagens de um cotidiano
povoado de gestos de ameaça, de resignação e mesmo de conivência entre
senhores e escravos, o que parece ficar explícito quando uma escrava da senhora
Anna Rosa alega não ser esta a autora dos maus tratos cometidos contra o escravo.
Mais do que um caso de sevícia 3 cometida contra um escravo, os Autos
do Processo-crime da Baronesa de Grajaú propiciam revelar a própria maneira como
o judiciário costumava ler acontecimentos desta natureza, circunstância que nos
possibilitará entrever um poder que, se por um lado poderia pouco discordar ou
desamparar a exploração senhorial, por outro também limitava este tipo de
exploração, fato comprovado pela própria denúncia ministerial feita contra a
aristocrata.

1.3 Um crime em perspectiva: os caminhos de análise da pesquisa.

Em 13 de novembro de 1876 um rumoroso crime repercutiu na cidade de


São Luís do Maranhão, e desde então tornou-se suscetível às mais variadas
interpretações não apenas entre os jornalistas da época – os quais o exploraram em
suas mais diversas nuances – mas também entre os memorialistas, literatos e
pesquisadores interessados senão apenas em descrevê-lo ou dele relembrar, tecer
análises que contribuíram para compreender a atmosfera social que lhe serviu de
cenário.
Trata-se de um crime de homicídio cometido contra um escravinho – tal
como é muitas vezes designado nos autos – de aproximadamente 8 anos de idade,
chamado Innocencio, cuja a acusação foi atribuída a um membro das elites da
Província, estando talvez aí a peculiaridade deste fato quando sabemos que, por se

Terminologia mais adequada para a época ao que hoje entendemos por violência, maus tratos.
3
14

tratar de uma sociedade escravista, foi se consolidando uma lógica moralista pouco
ou nada estranha à exploração mais vil contra os negros africanos e seus
descendentes por aqueles que se atribuíram o direito de sujeitá-los, os ditos
proprietários ou senhores de escravos, exploração esta, por sua vez, amparada por
um legislativo amplamente consonante, mas também ambíguo na relação com esta
instituição.
A acusada, Anna Rosa Vianna Ribeiro4, foi submetida a todo um processo
criminal altamente constrangedor para sua posição social, que evoluiu da
investigação policial, corpo de delito, denúncia, defesa, interrogatório da acusada
nas fases policial e judicial à inquirição de testemunhas, impronúncia, fase recursal,
culminando com a sentença absolutória. Todas estas etapas foram documentadas e
encontram-se transcritas, como mencionado anteriormente, desde 2009 com o apoio
do Ministério Público do Estado do Maranhão. Este conteúdo servirá como
importante fonte de análise para compreender a dinâmica das relações sociais
quando da tramitação do processo-crime movido contra a futura Baronesa de
Grajaú, buscando refletir, a partir deste caso particular, sobre a prática de crimes
cometidos contra escravos, sobretudo quando tais delitos são atribuídos a seus
respectivos proprietários, propondo demonstrar assim mais uma dentre tantas
facetas de uma realidade social escravista tal como é o caso de São Luís do
Maranhão ainda na segunda metade do século XIX, configurando este o principal
problema de nossa análise.
Daí a preocupação em questionar: Qual a noção de crime numa
sociedade escravista? Como se caracterizava o sistema jurídico da época? Quais as
possibilidades explicativas para a compreensão da acusação de um membro da
aristocracia, quando sabemos tratar-se de uma sociedade amplamente desigual?
Que mecanismos foram operados para que se alcançasse a absolvição da ré?
Quem eram as pessoas envolvidas no processo, entre acusadores e defensores?
Haveria condições para que fosse diferente o resultado deste processo? E mais,

Optamos por utilizar o nome da futura baronesa no original. Com base no trabalho desenvolvido
4

pelo jurista maranhense José Eulálio Figueiredo de Almeida, Anna Rosa Vianna Ribeiro nasceu na
freguesia de Codó, Província do Maranhão, era filha do comendador Raimundo Gabriel Vianna e de
Dona Francisca Isabel Lamagnere, mulher de muitas posses nesta região. Também era esposa do
então proprietário de terras Carlos Fernando Ribeiro, chefe do Partido Liberal da Província do
Maranhão e figura de importante influência nas tramas políticas da capital. Segundo Almeida, quando
da acusação do crime, Anna Rosa contava com seus 40 anos de idade e, como observaremos mais
adiante no texto, já tinha fama de maltratar seus escravos.
15

teria sido o homicídio cometido contra um escravo o que mais importava neste
libelo?
Estas, bem como outras possíveis indagações ajudarão a trilhar o
caminho a ser percorrido por este estudo cuja justificativa deve-se à sua relevância
sócio-histórica, uma vez que tratar-se de um acontecimento a partir do qual se
possibilitou e ainda possibilita discutir não apenas o exercício institucional jurídico da
época como também nos é dada a chance de analisar as relações de poder
articuladas pelos atores envolvidos neste processo-crime. Vale considerar que o
produto destas discussões pode ser bastante proveitoso para observar até que
ponto os elementos operados nesta querela jurídica podem ser percebidos em
circunstâncias mais contemporâneas, demonstrando, com isso, que muitos dos
elementos característicos de nossa organização social advém de situações comuns
a um passado não tão distante de nós.
Sendo assim, dois componentes sociais servirão como pano de fundo
para nossa análise: primeiro, a escravidão enquanto instituição social radicalmente
repressora cujas representações construídas em torno dela encontram-se
profundamente arraigadas na mentalidade social do período que ora nos ocupa e,
em segundo lugar, as tramas políticas da época, às quais foram dinamizadas por
personagens cujos interesses partidários e pessoais nos fazem sugerir a não
isenção de algumas delas no caso em evidência.
Boa parte de nosso referencial teórico, como não poderia deixar de ser,
enquadra-se na discussão em torno da multiplicidade de estudos dedicados ao
debate sobre a escravidão, cuja considerável produção científica nos permite
entrever três grandes ramos explicativos em meio às milhares de interpretações que
foram elaboradas em torno deste tema. Uma delas remete a uma longa tradição
entre os estudiosos que defendem sua forte orientação econômica, perspectiva a
partir da qual foi-se fortalecendo a noção de que a dominação e a exploração dos
escravos era fundamental para a manutenção do sistema escravista.
Tal interpretação deu margem para a percepção de dois grandes
segmentos sociais altamente bem definidos: de um lado figuravam os proprietários
de terra, donos dos meios de produção, e de outro, os escravos5, fonte de trabalho

5
Categoria mais inteligível quando entendida enquanto sujeitos escravizados na medida em que não
era simplesmente a cor negra que definia a condição de submissão daquele tornado cativo, isso tanto
porque não se trata de uma condição inerente a ele quanto porque a larga miscigenação incluía no rol
16

compulsório. Entre estas duas categorias a constatação do seu caráter fortemente


repreensivo e inflexível. A possibilidade de compreensão das relações estabelecidas
entre estes grupos sociais era, portanto, bastante limitada já que ambas constituíam
categorias rigorosamente separadas e cristalizadas, não permitindo perceber a
contento outras configurações sociais para além desta classificação.
Em contrapartida, uma outra linha interpretativa procurou defender os
aspectos ideológicos e sociais da escravidão postulando a necessidade de
compreender este sistema a partir de seus traços mais relativizados, abarcando não
somente a questão do conflito – ou indo para além dele – mas também da
negociação em suas mais diversas nuances. Um dos efeitos desta proposta de
pensamento permite inclusive a elaboração de teses – inauguradas pelo o sociólogo
pernambucano Gilberto Freire – que apostam na existência de uma suavização das
relações senhor/escravo.
Estudos mais recentes, porém, apontam um outro reflexo alcançado pela
historiografia da escravidão, pesquisas nas quais se propõe entender o indivíduo
escravizado como sujeito atuante no processo histórico, permitindo tal perspectiva
teórica não somente ir além da tradicional leitura historiográfica que concebe de
maneira rigidamente hierarquizada a relação de dominação que envolvia sujeitos
escravizados e senhores, mas também demonstrar as milhares de faces tomadas e
permeadas por e nesta relação. Debate que tem como um de seus mais expressivos
ingredientes o estudo das diversas formas de resistência escrava bem como as
variadas estratégias de controle dos cativos adotadas pelos escravagistas como
meios de manter uma autoridade não tão absoluta como estamos acostumados a
saber.
Inseridos neste campo de debate podemos mencionar o livro Ser escravo
no Brasil (2003) da historiadora Kátia Mattoso, obra em que busca desvendar as
estratégias de dominação e poder articuladas entre senhores e escravos,
reafirmando a possibilidade deste último manifestar-se como agente social no
ambiente em que vivia, acreditando que o negro adquiriu – quando de uma certa
aceitação de sua condição no corpo social – capacidade de ajustar-se ao ambiente
de exploração senhorial e dele tirar proveito para si.

destes segmentos, indivíduos de outros tons de pele. Fato este que não nos invialibiza utilizar o termo
escravo.
17

Outro importante trabalho desenvolvido no interior desta linha


interpretativa encontramos no livro do historiador João José Reis intitulado
Negociação e conflito (1989), onde critica estudos que veem a escravidão como
um sistema absolutamente rígido, pontuando que “os negros não foram nem vítimas
nem heróis o tempo todo, se situando na sua maioria e na maior parte do tempo
numa zona de indefinição entre um e outro polo” (REIS, 1989, p.7). Perspectiva que
para este autor, aponta para a necessidade de que os negros escravizados fossem
percebidos para além da noção de que eram força de trabalho, engrenagens de uma
produção econômica. Também constitui importante exemplo desta abordagem o
trabalho do historiador Sidney Chalhoub no livro Visões da liberdade (1990),
através do qual analisa as últimas décadas da escravidão na Corte Imperial a partir
da análise de ações de liberdade, processos criminais e civis, destacando a visão e
percepção dos escravizados sobre o cativeiro e a liberdade, assinalando que, à
diferença do que pregava a „teoria da coisificação‟ defendida por Fernando Henrique
Cardoso e Jacob Gorender6, por exemplo, os escravos eram dotados de
sentimentos que os permitiam articular mecanismos para mitigar o peso da
autoridade senhorial.
Como parte integrante das pesquisas acerca da multifacetada resistência
escrava, a questão da criminalidade aparece como ponto proeminente nestas
discussões7, pois revela aspectos outros das relações estabelecidas entre senhores
e escravos, notadamente quando se possibilita restituir, a partir do estudo das fontes
criminais, não somente um evento criminoso, mas também o cotidiano das
experiências sociais que lhe serviram de cenário, tal como fez a historiadora Maria
Helena Machado no livro Crime e escravidão (1987). Numa perspectiva temática
semelhante, a historiadora Sílvia Hunold Lara no livro Campos de violência (1988)
propôs examinar como a questão da violência marcou a relação entre os cativos e
seus senhores demonstrando um cotidiano caracterizado por confrontos,
acomodações e solidariedades múltiplas e diversas entre estes segmentos.
Como temos dito, embora posicionadas em campos analíticos distintos,
tais teorias não deixam de compor em seu pano de fundo, reflexões pautadas na
6
Devemos pontuar que a crítica aos clássicos da produção acadêmica sobre a escravidão devem
também reconhecer a importância que os mesmo tiveram para os rumos tomados pelos estudos
subsequentes.
Além da criminalidade outros tópicos surgem como componentes essenciais para o estudo das
7

relações escravagistas e de resistência escrava no Brasil, tais como a família escrava, o universo das
alforrias, a escravidão urbana, o tráfico atlântico, as festas e religiosidades.
18

relação entre violência8 e escravidão, de maneira que nenhuma delas desconsidera


a possibilidade de sua manifestação. E como nos explica a pesquisadora Sílvia
Hunold Lara:
A visão suave e doce do cativeiro no Brasil a enxerga como exceção, fruto
das paixões humanas, abusos logo cerceados. Os estudos comparativos
acentuam seu grau maior ou menor, aqui ou alhures, sem nunca negar sua
existência. As obras que se referem à crueldade dos castigos descrevem-na
como necessária, frutos dos interesses econômicos de farta e imediata
remuneração do capital. Vista como intrínseca à exploração que se
apropriava não só do excedente mas do próprio trabalhador, localizada nos
castigos excessivos ou na crueldade do tráfico, a violência e suas diversas
manifestações têm sido descritas, apontadas ou denunciadas por diversos
autores (LARA, 1988, p.19).

Muito se tem refletido sobre atos violentos no período colonial e imperial


brasileiro, seja pelo simples emprego de castigos pelos escravagistas, seja pela
resistência dos escravos à dominação senhorial, seja por conflitos entre os próprios
escravos e outros estratos sociais subalternos. Por isso, é sem fugir desta
perspectiva, que nossa pesquisa centrará esforços para compreender, de maneira
bem específica, mais uma das faces dessa violência: a criminalidade contra sujeito s
escravizados e, consequentemente, a limitação do poder senhorial pelas instâncias
públicas9.
Ao expor estas principais leituras sobre a escravidão não pretendemos
com isso discutir seu valor explicativo nem queremos nos posicionar a favor ou
contra uma destas linhas interpretativas. Nosso exercício implica muito mais na
tentativa de com elas dialogar, visto que, cada uma a seu modo, traz contribuições
significativas para se entender o caráter tenso, conflituoso e controverso de uma
sociedade calcada na ampla e tornada obrigatória submissão de homens por outros
homens. Sendo essencial, no bojo desta análise, problematizar que, reconhecida a
polissemia de atitudes e negociações, torna-se impossível tratar de escravos e
senhores como dois segmentos sociais essencialmente homogêneos e antagônicos,
figurando „o escravo‟ como vítima absoluta no interior deste processo e „o senhor‟
como detentor inconteste desta força de trabalho. Existiam, no âmago desta lógica
8
Por questões terminológicas devemos atentar que é mais adequado utilizarmos o termo sevícia ao
invés de violência, para analisar o tempo em relevo.
9
Como não poderia deixar de ser, é amplo o debate historiográfico acerca da problemática de
domínio da escravaria e mais especificamente da intervenção do poder público na tutela do cativo.
Alguns autores como a historiadora Leila Algranti consideram que, principalmente no século XIX
houve uma intensa participação do Estado nas políticas de domínio dos escravos, sobrepondo-se
mesmo, este poder, à autoridade senhorial. Já para Sidney Chalhoub esta intervenção do Estado se
restringia ao espaço público, permanecendo a tarefa de compelir os escravos ao trabalho sob a
alçada dos senhores (FERREIRA, 2005, p.248).
19

social, relações muito mais conflituosas e complexas do que supõe a simples


existência de grupos marcados por uma acirrada desigualdade.
Ao nos propormos estudar especificamente uma acusação de crime
cometido contra um cativo não poderemos analisá-lo em profundidade se adotarmos
uma postura monolítica. Por se tratar de uma instituição que, embora nunca fuja de
suas linhas mestras, seja bastante suscetível à tomada das mais diversas feições
que variam conforme o tempo, o espaço e as características que assume em cada
situação social, os estudos sobre esta temática devem estar sempre atentos à
multiplicidade de elementos que possivelmente venham elucidá-lo com maior
propriedade.
Por isso, somado às leituras dos estudos mais recentes sobre a
escravidão e que citamos anteriormente, não podemos deixar de considerar outros
tantos trabalhos que contribuíram significativamente para trilhar e ampliar os
caminhos de análise acerca deste tema a nível nacional, entre estes estudos
podemos citar os de Emília Viotti da Costa que em seu livro Da senzala à colônia
analisa a economia cafeeira oitocentista reconhecendo tanto a manifestação de
medidas coercitivas de manutenção senhorial quanto uma espécie de humanização
da relação senhor/escravo em momento de crise econômica. Numa perspectiva
semelhante, temos os estudos de Maria Sylvia Carvalho Franco 10 da qual defendia
que as relações estabelecidas dentro do latifúndio eram marcadas por elementos
contraditórios que mesclavam uma complexa síntese entre benignidade e violência
não sendo possível acentuar uma destas relações. E, mesmo estando suas análises
situadas num tempo e num espaço diferentes11 ao de nossa pesquisa, tais estudos
trarão elementos explicativos esclarecedores para este trabalho. Autores que
asseveram o recurso dos senhores à violência física e às punições corporais como
formas de controle e manutenção do sistema escravista também assumem
importante relevância nesse debate, cabendo, neste caso, mencionar os trabalhos
desenvolvidos por Octavio Ianni, Suely Robles Reis de Queiroz, Fernando Henrique
Cardoso, Roger Bastide e Florestan Fernandes12, trabalhos cuja a ênfase das

Em artigo intitulado Organização social do trabalho no período colonial.


10
11
O evento a ser analisado exige discussão sobre uma outra categoria de escravos, ou seja, o
escravo urbano da segunda metade do século XIX, visto que o crime submetido à análise ocorreu na
capital da Província do Maranhão.
12
IANNI, Octávio. As metamorfoses do escravo. São Paulo: Difel, 1962; QUEIROZ, Suely Robles
Reis de. A escravidão negra em São Paulo – Um estudo das tensões provocadas pelo escravismo
no século XIX. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977; CARDOSO, Fernando Henrique. Capitalismo e
20

análises recai, de modo geral, nas relações de produção escravista, figurando o


escravo neste processo apenas como um objeto da atividade produtiva, reforçando a
ideia de coisificação do cativo.
Baseado no uso destes e de outros possíveis materiais, nosso estudo foi
distribuído em 3 capítulos, além da introdução e das considerações finais, assim
dispostos: no primeiro deles, A atmosfera social à época do processo, de ordem
mais teórica, buscamos desenvolver um resgate histórico-social destacando não
apenas o período em que ocorreu o crime, mas também descrevemos os elementos
que o caracterizaram. Exercício que, consequentemente, exigiu uma discussão em
torno da noção de crime para a sociedade em relevo, já partindo da constatação –
com a qual o sociólogo francês Émile Durkheim trouxe significativa contribuição – do
caráter sócio-histórico da leitura que se faz desta categoria. Outrossim, o estudo da
concepção de crime foi acompanhado de uma análise sobre o sistema jurídico
característico desta organização social, que serviu de cenário para a investigação do
caso criminal, objeto desta pesquisa.
No segundo capítulo, Um olhar sobre os Autos do processo-crime da
Baronesa, foi feita uma análise sustentada predominantemente no documento em
suas etapas principais para compreender como os evolvidos no inquérito judicial,
entre defensores e acusadores, se utilizaram das estratégias baseadas nos
referenciais institucionais da época para orientar suas posições diante do processo.
Neste caso foi necessário tratar primeiramente dos dois corpos de delito realizados
em Innocencio, e que compõem os autos. Baseado no conteúdo destes exames e
somado às alegações das testemunhas e informantes, foram orientadas as posições
tanto do promotor público Celso da Cunha Magalhães, cuja atuação foi bastante
expressiva uma vez que colocou no banco dos réus uma filha da aristocrática e
escravista sociedade ludovicense, quanto do advogado de defesa da futura
baronesa, o Dr. Francisco de Paula Belfort. Sustentando-nos na composição das
afirmações desenvolvidas por ambas as partes, refletiremos sobre os elementos que
culminaram no desenlace do processo, ou seja, na absolvição de Anna Rosa.
Concretizada a análise alicerçada no conjunto dos autos do processo,
prosseguiremos no terceiro capítulo, intitulado Outras interpretações, explorando

escravidão no Brasil meridional: o negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sul. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira: 2003; BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros
em São Paulo. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1958.
21

algumas outras leituras que abordaram, à sua maneira, este processo criminal, ou
como pano de fundo de um enredo literário para se compreender as desigualdades
manifestas no sistema escravista como assim o faz o escritor Josué Montello em Os
Tambores de São Luís (1985) ou como resultado de uma breve menção dos fatos
oriunda de conversas, recordações e memórias registradas em livros como o de
Dunshee de Abranches em O cativeiro (1992) e O meu próprio romance (1996) do
escritor Graça Aranha. Somada às fontes literárias temos também as falas dos
jornais enquanto meio de formação de opinião e instigador da tomada de medidas
eficazes para a resolução do trâmite pelas autoridades.
À luz da análise dos elementos sociais característicos deste período e
com base nas fontes que sobre eles obtivemos, esperamos trazer mais uma
contribuição para a compreensão de um acontecimento que por si só carrega uma
série de indícios que refletem uma dinâmica social cujos traços essenciais são
assentados numa desigualdade social exacerbada que sobrevive, em muitos de
seus aspectos, e embora com outras roupagens, em nossa realidade social atual.
Enquanto recurso analítico essencial para esta pesquisa, os Autos do
Processo-crime da Baronesa de Grajaú nos possibilitaram acesso não somente
às peças criminais etapa por etapa, mas também deram margens para analisá-lo em
suas entrelinhas, permitindo-nos um exercício de interpretação mais amplo do que
nos oferece a simples leitura de seu conteúdo. Tal constatação não nos permite,
entretanto, fazer divagações aleatórias ou até mesmo romantizadas sobre o caso
em relevo, requer sim e sempre um olhar mais atento e cauteloso já que também
alvo bastante suscetível a distorções13.
A dificuldade de acesso a um conjunto mais amplo de informações que
poderiam ser obtidas através de uma bibliografia mais específica e de fontes
documentais que as subsidiasse, hora ou outra pode deixar em suspenso alguns
pontos de compreensão que nos permitirão apenas construir em torno dela algumas
hipóteses, isso porque o distanciamento espaço-temporal existente entre a
pesquisadora e o caso a ser estudado, somado, sobretudo ao uso de fonte
documental – matéria-prima dos historiadores – ainda é assunto bastante polêmico e

Dizemos isto por conta da própria leitura feita pelo juiz José Eulálio Figueiredo em relação a este
13

processo-crime ao descartar a possibilidade de influências de tramas políticas no resultado final do


processo, alegando estar a absolvição da acusada muito mais relacionada à exclusiva capacidade
argumentativa da defesa em detrimento à da acusação, valorizando como isso a total autonomia do
exercício jurídico.
22

debatível no campo das ciências sociais, sendo, portanto, tarefa delicada traçar, a
partir dos ditames de sua metodologia, um esquema analítico que seja tão
contundente com a forma que esta área de conhecimento se propõe a refletir sobre
a coleta e a maneira de trabalhar com os dados.
Uma observação a mais. Devemos salientar não ter sido nosso objetivo
demonstrar a aplicabilidade de teorias gerais acerca da dinâmica da dominação
característica da instituição escravista maranhense ao tratar de um único caso no
qual suas feições primeiras remetem apenas a mais um exemplo, entre milhares, da
manifestação do peso da autoridade senhorial. Ele nos revela mais que isso, é um
emaranhado de conflitos que apontam para a problematização desta mesma
autoridade, permitindo-nos observar as diversas faces tomadas pela relação entre
senhores e escravos e do qual o crime da futura Baronesa de Grajaú é apenas mais
um episódio que, claro, não se encerra com nossa interpretação.

1.4 Uma metodologia de pesquisa: o estudo de caso com base documental.

Para esta pesquisa utilizaremos como um dos principais procedimentos o


método de estudo de caso com base documental, uma vez que se trata de estudar,
a relação entre criminalidade e escravidão, a partir de um caso particular, qual seja,
o crime da futura Baronesa de Grajaú, a ser investigado, sobretudo nos Autos do
Processo-crime14 (1876-1877) a partir de uma análise qualitativa do mesmo. Isso
levando em consideração o que observou Uwe Flick ao apostar no entendimento de
que os documentos devem ser analisados dentro do contexto em que foram
produzidos, já que eles “representam uma versão específica de realidades
construídas para objetos específicos” (2009, p.234). Ele aconselha ainda que
quando optamos pela utilização de determinado documento numa pesquisa
devemos sempre nos questionar em que atmosfera social ele foi produzido, quem o
produziu e com quais objetivos (FLICK, 2009, p. 234-235).
Com base nesta prerrogativa e como dissemos anteriormente, será
prudente investigar não apenas a veracidade deste delito, mas também no que nele
pode haver de mais anedótico, quando sabemos que muitas das opiniões foram

14
Embora, assim como afirma Jean-Claude Combessie, a coleta documental nem sempre tenha sido
vinculada aos métodos sociológicos ela “pode ser considerada um ponto essencial de muitas
pesquisas sociológicas e um método a ser empregado desde o início, antes mesmo da exploração do
campo” (2004, p.23) desde que haja um exame minucioso do material recolhido.
23

formadas ou até possivelmente distorcidas sobre este caso no decorrer do tempo. É


válido atentar também aos trâmites referentes à própria transcrição dos autos do
processo somente ocorrida quando sua guarda passou do domínio do Museu
Histórico e Artístico do Maranhão (onde ficou há quase 35 anos) para compor o
acervo do Memorial do Ministério Público do Estado do Maranhão.
Como parte do conjunto de análise em torno do famoso crime da futura
baronesa optamos também por comentar o processo da então recém alforriada
Amélia Rosa, cujos autos foram transcritos pela historiadora Jacira Pavão da Silva e
constam em livro organizado pela antropóloga Mundicarmo Ferretti. Um dos pontos
fundamentais presentes nesta obra está relacionado à menção feita a respeito da
vinculação ou de alguma aproximação entre estes dois casos, dado que, conforme
interpretação sugerida no final do processo na argumentação do Dr. Aristides
Augusto Coelho de Souza, tudo indica que com a efetivação do processo de Amélia
Rosa intuía-se mais do que punir a ré e suas companheiras pelo tratamento
realizado ou pelas „sevícias‟ dispensadas a uma escrava de nome Joanna,
desejava-se antes apresentar como cruéis os que acusaram Dona Anna Rosa
Vianna Ribeiro de crueldade contra os filhos de Germiniana e exterminar a pajelança
que atraía tantos negros (FERRETTI, 2004, p.14), sendo este um elemento
essencial que contribuiu para o estudo da relação entre estes dois processos.
Outrossim, faremos uma abordagem qualitativa de outros tantos
documentos tais como o Livro de crimes e fatos notáveis (1873-1881), o Código de
Processo Criminal do Império, as Coleções de leis, decretos e resoluções da
Província do Maranhão e de fontes jornalísticas, dado que a imprensa da época,
assim como nos explica Almeida, explorou intensamente o fato reforçando opiniões
contra ou a favor da acusada. Além das fontes jornalísticas, serão investigadas
fontes a partir das quais o crime e o processo da Baronesa foram recriados
literariamente. Nesta perspectiva, podemos citar, sem ordem cronológica, o livro Os
Tambores de São Luís de Josué Montello que teve acesso direto aos manuscritos
do conjunto do processo15; Dunshee de Abranches no livro O cativeiro e Graça
Aranha em Meu próprio romance.

15
Conta-se na apresentação dos autos do processo já transcritos e publicados desde 2009 pelo
Ministério Público do Estado do Maranhão, que Josué Montello recebera os manuscritos das mãos de
José Sarney e os mantivera consigo enquanto escrevia seu romance. Na mesma apresentação diz-se
que, segundo declaração de Montello, em um de seus livros de memórias, dissera-lhe Sarney ter
24

É lúcido acrescentar que recorrer ao uso do método de estudo de caso


não é tarefa fácil, uma vez que exige do pesquisador o estar atento, sobretudo a um
dos maiores riscos que pode estar sujeito, qual seja, o de tentar verificar a
veracidade de algumas teorias a partir do encaixe da mesma no desenvolvimento
das proposições sobre o caso em relevo, como se o estudo deste servisse apenas
para dar credibilidade a teorias já elaboradas. E, obviamente, não descartando a
validade dos referenciais teóricos desenvolvidos sobre determinado tema, é
necessário que o observador esteja muito mais atento aos próprios limites e
configurações característicos de um caso particular que pretende examinar. Embora,
o crime da senhora Anna Rosa Vianna Ribeiro não esteja em dissonância com a
maneira como se representavam as instituições daquela época, não podemos
perder de vista a peculiaridade que concerne a este fato.

recolhido os autos do histórico processo de uma pilha de papéis destinados à incineração pelo
Tribunal de Justiça do Maranhão, quando ali trabalhava (na primeira metade da década de 1950).
25

2 A ATMOSFERA SOCIAL À ÉPOCA DO PROCESSO

Não concerne a este estudo priorizar uma narrativa longa e minuciosa,


baseada em noções cristalizadas, a respeito da dinâmica social característica da
realidade ludovicense da segunda metade do século XIX. No entanto, também
parece não haver sentido analisar um caso criminal ocorrido neste período sem levar
em consideração os elementos institucionais que possivelmente orientaram as
relações sociais de então, como se os atores sociais envolvidos nesta querela
jurídica estivessem de todo desprovidos das influências dos discursos comuns para
aquela realidade. Por isso, a abordagem que faremos a respeito do cenário social
que constituiu pano de fundo para o andamento do processo-crime movido contra a
futura Baronesa de Grajaú, propõe muito mais alargar os ângulos de visão que
poderão permitir uma leitura mais apropriada e coerente do fato em evidência 16 do
que enfatizar detalhes e mais detalhes de uma realidade tão tensa e conflituosa
como é o caso da sociedade imperial brasileira e, num sentido mais particular, da
tradicional sociedade ludovicense do período que ora nos ocupa.
Uma multiplicidade de estudos interessados na reflexão dos mais vários
aspectos constituintes da sociedade imperial brasileira da segunda metade do
século XIX vem questionando uma estrutura explicativa que por muito tempo guiou a
produção científica sobre o assunto. A principal crítica manifesta nestas abordagens
considera que a tradicional interpretação pautada nos aspectos econômicos do
sistema escravista: produção agrícola em larga escala nos latifúndios sustentada na
mão de obra escrava para atender as necessidades do mercado externo, enquanto
elementos que caracterizariam todo o período colonial brasileiro e que se
estenderiam ao Império, fortaleceu uma aceitação considerável entre os
pesquisadores a respeito do caráter estamental desta sociedade. A ênfase dada a
tal tradição explicativa limitava um entendimento mais adensado acerca das várias
faces tomadas pela relação senhor/escravo, tidos, teoricamente, como os dois
principais grupos sociais antagônicos do período. Privilegiava-se nestas leituras o
caráter cruel e violento do sistema escravista brasileiro, partindo de uma

Questão que envolve muito mais uma discussão teórica a respeito dos debates travados em torno
16

das instituições mais proeminentes do período, caso da escravidão, num primeiro plano, e em
seguida, dos jogos políticos, estes últimos a serem tratados numa ocasião posterior.
26

compreensão um tanto quanto truncada a respeito da maneira como as relações de


desigualdade eram manifestadas entre estes grupos.
Caio Prado Júnior – guardada e reconhecida sua perspectiva analítica e o
tempo de sua escrita – um dos mais expressivos expoentes neste campo de
debates, encontra na escravidão e em seu alto grau de exploração um dos
componentes mais significativos da organização social colonial brasileira. Sua leitura
economicista de orientação materialista histórica acerca do processo colonizador no
Brasil, o faz analisar nossa formação social orientado por um esquema teórico
baseado no tripé propriedade – monocultura – mão de obra escrava africana, a partir
do qual prevalece a compreensão de que os laços estabelecidos entre senhores e
escravos foram marcados por uma radical hierarquia na qual o escravo figurava
como mero instrumento de força bruta, material, relação esta que não teve outro
objetivo senão o de realizar uma vasta empresa colonial no Brasil (PRADO, 1999,
p.341).
O seu discurso a respeito do caráter compulsório da escravidão é tão
forte que, mesmo mencionando a existência de outras configurações sociais comuns
a este sistema – quando destaca as figuras dos homens livres pobres, agregados de
senhores ou lavradores mais modestos – o faz ressalvando a peculiaridade das
relações articuladas entre estes grupos. Em um dos trechos do livro Formação do
Brasil Contemporâneo (1999), Caio Prado abre espaço para discorrer, mesmo que
momentaneamente, aspectos outros da organização social colonial ao considerar
que este período:

Constituí-se assim no grande domínio um conjunto de relações diferentes


das de simples propriedade escravista e exploração econômica. Relações
mais amenas, mais humanas, que envolvem toda sorte de sentimentos
afetivos. E se de um lado estas novas relações abrandam e atenuam o
poder absoluto e o rigor da autoridade do proprietário, doutro elas a
reforçam, porque a tornam mais consentida e aceita por todos (1999,
p.289).

Sua conclusão a respeito da manifestação de outras formas de relações


sociais para além daquela marcada pela exploração senhorial serve, portanto,
apenas para que o autor assevere sua postura a respeito da sobreposição da
primeira, dado que esses traços mais suavizados não representavam algo mais
27

expressivo do que a constatação acerca da total submissão do sujeito escravizado17


a outrem. A predominância do estudo acerca da dinâmica das relações de produção
colonial, portanto, partem já da concepção de que existem dois grupos sociais
antagônicos e hierarquizados movidos por relações de dominação e exploração.
A atenção prestada até o presente momento a uma literatura dedicada a
um período mais recuado em relação ao nosso tempo de análise da pesquisa,
explica-se pela preocupação e importância que tais leituras têm para uma reflexão
sobre a estrutura social característica da segunda metade do século XIX, período no
qual se atem nosso estudo. Isso porque, parece ser comum entre os pesquisadores
da área, a ideia de que não ocorreram alterações profundas nas estruturas sócio-
econômicas da sociedade brasileira na transição da colônia ao império. Se houve,
digamos, uma reorganização no âmbito político com a formação de partidos cuja
distinção, a princípio, se estabelecia quanto ao interesse de separação ou não em
relação à Coroa Portuguesa, a escravidão se manteve como uma das instituições
mais expressivas no âmbito sócio-econômico, marcando um período reconhecido
pela historiografia como de profunda instabilidade social.
Conforme a produção científica sobre o assunto, ainda na segunda
metade do século XIX o elemento servil figurava como principal instrumento de
exploração não apenas nas lavouras como também nas cidades18. Acreditamos, via
de regra, que a legitimidade desta exploração era reflexo de uma infindável
produção discursiva que, desde os primórdios da chamada escravidão moderna,
construiu, reforçou e manteve a noção de inferioridade do negro. Essas
representações – delineadas nas falas dos cronistas, religiosos e estudiosos
europeus – encontravam-se já bastante arraigadas na mentalidade imperial
oitocentista brasileira, muito se escreveu sobre elas. E, sem intenções de alimentar
um debate militante ou radical sobre o tema, somos levados a orientar nossa análise
a respeito do crime cometido contra um escravo em São Luís do Maranhão, como

Tal viés interpretativo ganhará muitos adeptos no campo de estudo das humanidades.
17

Reconhecendo estes mesmos traços sociais podemos observar as contribuições de Celso Furtado
em Formação Econômica do Brasil (2009) e Fernando Novais na obra Portugal e Brasil na crise
do Antigo Sistema Colonial (1777-1808) (1985), os quais apostam na supremacia das questões
econômicas e consequente exploração senhorial para explicar os elementos sociais constituintes do
período colonial.
18
Mais adiante falaremos da importância que algumas pesquisas têm dedicado ao estudo de uma
outra categoria de escravos, os ditos escravos urbanos. Em nosso trabalho este segmento adquire
importância fundamental haja vista tratar-se da análise de um acontecimento envolvendo um escravo
citadino.
28

sendo mais um dos efeitos do reconhecimento dessa inferioridade e,


consequentemente, do uso feito da legitimidade de sua exploração.
Devemos acrescentar ainda que, a este período, a intensificação da
propaganda abolicionista e republicana não somente na Corte Imperial Brasileira e
adjacências, mas também em regiões afastadas a ela, como é o caso da Província
do Maranhão, onde tais ideias disseminavam-se pelas vozes dos filhos das elites
que tinham por costume levar seus filhos para formarem-se na Europa, berço do
pensamento liberal, batia-se com a internalização da instituição escravista, ainda
bastante viva nas atitudes da população, fossem proprietários, cativos ou homens
livres pobres.
Esta consideração fica bastante evidente em passagens de alguns livros
de memórias nos quais temos oportunidade de acesso a registros, ainda que
fortemente marcados de parcialidade, sobre o período. Este é o caso, por exemplo,
de O cativeiro (1992), importante romance histórico do escritor maranhense
Dunshee de Abranches no qual faz um retrato marcante acerca da escravidão negra
no Maranhão. Num dos trechos desta obra ele descreve que:

O regímen da escravidão embotara fundamente os corações. Os negros


africanos viviam colocados abaixo dos animais domésticos nas casas onde
serviam. Mal alimentados, curtidos de sevícias, não lhes era permitido terem
descanso nem sono nem moléstias. Dia e noite labutavam rudemente, quer
nos trabalhos do senhor, quer alugados para as obras públicas. O preto da
canga em São Luís tinha em geral um aspecto monstruoso: forçado a
carregar aos ombros toneladas e a servir de máquina de quebrar blocos
enormes de cantaria, além de roído sempre pelas verminoses, tornava-se
cambaio e apresentava o corpo coberto de hérnias... (grifos do autor, 1992,
p.113).

Passagens desse gênero encontramos espaçadas no decorrer de todo


esse registro de memórias feitas pelo autor. Suas impressões sobre a realidade
escravista em São Luís – resultado das coisas que lia, via e escutava na infância e
adolescência – revelam um tempo em que a condição do escravo era bastante
degradante, tensa e permeada de controvérsias, não houve um tempo que assim
não fosse. Dizemos isto porque, conforme o próprio conteúdo destas memórias, as
relações entre senhores e escravos, embora marcadamente hierarquizadas, eram
também permeadas por indícios de sentimentos outros19 que os de pura

Prova desta afirmação encontramos num trecho do livro em que Dunshee de Abranches relata que
19

numa determinada ocasião sentiu-se frustrado – tanto ele quanto seus amigos abolicionistas – ao
perceber que um plano de fuga por ele elaborado não dera certo devido mesmo à desistência do
29

desigualdade e dos quais, a nosso ver, somente podem ser compreendidos no


interior do sistema escravista já que faces desta mesma realidade. Formas de
resistências mais veladas, relações afetivas mais proeminentes, silêncios,
conivências, demonstram um ângulo de visão diferente daquele pregado por uma
leitura sustentada puramente nos aspectos econômicos da organização social
imperial brasileira. As tensões desta conjuntura social, assim, digladiavam-se ainda
mais com a ampliação das influências das ideias de libertação dos escravos.
Não queremos com isso reforçar uma linha de pensamento inaugurada
pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freire, que ao intentar definir uma identidade
nacional brasileira, encontrou na miscigenação entre negros e brancos, um dos
reflexos do afrouxamento das relações escravagistas. No entanto, não podemos
deixar de considerar a relevância de suas argumentações, sobretudo por possibilitar
um exercício de abstração que nos permite pensar a escravidão não de forma
romântica ou dicotômica, mas diferenciada, onde a dinâmica destas relações
ultrapassa a simples constatação do negro trabalhando no eito ou servindo como
escravo de ganho nas cidades, sendo mecanicamente punido caso manifestasse
alguma transgressão à ordem estabelecida. Esta relação existiu, afirmamo-la, no
entanto, ela se mostra muito mais densa e complexa do que pregam os estudos
mais tradicionais sobre a escravidão.
O reconhecimento desta complexidade serve-nos, contudo, para reforçar
a noção de que as diferentes facetas tomadas pela relação senhor/escravo não
apaziguavam as tensões entre estes dois estratos sociais, pelo contrário, estudos
apontam20 que formas de resistência menos abertas partem do pressuposto de
reconhecimento do grau de imposição da dominação senhorial, as relações se
dinamizavam no interior dos mecanismos de controle social adotados por este
sistema. Salientamos isso não apenas num plano estrutural, como marca de um
esquema geral, mas também em termos mais específicos, mais localizados e
alimentados pelo trato do cotidiano, questão que nos parece bastante evidente
quando submetemos à análise um caso de sevícia cometida contra um escravo na

escravo que, conforme palavras de Dunshee, era fiel de raça e de sentimentos, preferindo “a servidão
a trair seu opressor e só mais tarde viu o sol da liberdade pela Lei de 13 de maio”. Para mais detalhes
sobre esta narrativa ver páginas 149 e 150 do livro.
20
Tais como o de Kátia Mattoso em Ser escravo no Brasil (2003); João José Reis e Eduardo Silva
em Negociação e conflito (1989); Sidney Chalhoub em Visões da liberdade (1990).
30

capital da Província maranhense na segunda metade do século XIX, objeto principal


de nossa pesquisa.
A ênfase que damos à questão da crueldade característica da escravidão
ressalta não àquela que resulta de uma violência comum quando da aplicação de
castigos aos negros ditos rebeldes, ou àquele que não cumpre a contento as
funções designadas pelo seu senhor, não se trata também de discorrer sobre um
dos reflexos da imposição senhorial que envolve uma forma de resistência direta
resultante dos crimes que muitos negros cometiam contra seus senhores e demais
algozes. A forma de violência que nos interessa aqui refletir envolve um ângulo
específico, explícito num crime no qual a vítima, neste particular, é um escravo
menor de idade cuja morte, conforme inquérito policial constante nos autos do
processo-crime, resultou direta ou indiretamente de maus tratos21 contra ele
infligidos. Circunstância esta que culminou com a denúncia e julgamento de sua
proprietária e nos revela dois pontos fundamentais: primeiro, a autoridade senhorial
não era tão absoluta quanto prega a produção mais tradicional sobre o tema e,
segundo, que esta limitação da dominação senhorial se encontrava, por exemplo, no
direito que tinha o senhor de castigar seu escravo, porém, não de tirar-lhe a vida por
este recurso, sob pena de punição, fato constante nas alegações dos autos do
processo-crime da futura baronesa.
Estamos na segunda metade do século XIX, já a este tempo os cativos
reivindicavam perante a justiça direitos de representação, ainda que esta se
manifestasse das maneiras as mais enviesadas possíveis. Isso porque, como
escreve a historiadora Hebe Mattos de Castro, com a política emancipacionista
houve uma tendência da legislação imperial de garantir “direitos” aos escravos
(CASTRO, 1997, p.374). Direitos dúbios e restritos, o sabemos, mas que revelam
contornos outros a respeito dos conflitos estabelecidos entre senhores e escravos,
como assim o demonstra a historiadora Joseli Nunes Mendonça no livro Cenas da
abolição (2001), quando trata dos efeitos das leis emancipacionistas da escravidão
– Lei do fim do tráfico (1850); Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei do Sexagenário
(1885) – nas atitudes dos escravos, o que lhe permite perceber as diversas
maneiras que os cativos articularam para conseguir suas cartas de alforria, fosse

21
Veremos mais detidamente, no próximo capítulo, o conteúdo dos laudos do corpo de exame de
delito e as justificativas da acusação e da defesa em relação aos motivos da morte de Inocêncio.
31

através de negociações diretas com seus senhores, fosse por meio da procura às
instâncias jurídicas para que o objetivo se efetivasse22.
Na introdução deste trabalho descrevemos, grosso modo, as principais
características do processo-crime que pôs em evidência não apenas um crime
cometido contra um escravo menor de idade23, mas também o fato de que este
mesmo crime tenha sido atribuído a um influente membro da aristocracia política e
econômica de São Luís do Maranhão. Anna Rosa Ribeiro, futura Baronesa de
Grajaú, foi submetida a todo um processo judicial que teve forte repercussão nos
jornais, na opinião pública, nos livros.
Como dissemos anteriormente, São Luís era uma região onde os traços
de dominação senhorial eram ainda bastante vivos e alimentados por um discurso
que concebia os africanos escravizados “como uma massa de seres embrutecidos,
no limiar entre a animalidade e a racionalidade” e onde “feiúra, maldade, depravação
e irracionalidade eram-lhes atribuídos” (FARIA, 2004, p.83).
Vista a partir de sua estrutura econômica, a cidade, que até antes da
segunda metade do século XVIII, vivia às margens da política mercantil de
exportação, como explica a historiadora Jalila Ayoub Jorge Ribeiro, passa daí em
diante a integrar-se, mesmo que momentaneamente24, ao conjunto da economia
internacional como importante fornecedor de produtos agrícolas. Conforme a autora,
tal transformação na estrutura econômica teve como um de seus reflexos o aumento
na importação de mão de obra escrava africana devido à demanda do mercado

22
Nos parece bastante útil mencionar um estudo desenvolvido pela historiadora Enidelce Bertin,
quando analisa uma categoria de negros chegados ao Brasil após o fim do tráfico e que, de certa
forma, oscilavam entre a condição de homens „livres‟ e tutelados. Livres porque resgatados do tráfico
por uma comissão mista estabelecida no Rio de Janeiro sob os auspícios dos interesses britânicos,
mas tutelados devido a interferência do Estado quanto ao controle desta população. Essa custódia
rendeu a estes segmentos uma experiência cotidiana semelhante à que viviam os demais negros
escravizados, não apenas em relação ao trabalho, mas também como eram vistos por aqueles que
arrendavam seus serviços (BERTIN, 2001, p.105). A questão é que, entendidos de sua condição, os
chamados africanos livres, reivindicavam o reconhecimento deste status frente às autoridades,
circunstância que permitiu à Bertin observar as formas de resistências por eles articuladas
cotidianamente para que tal finalidade fosse concretizada. Os exemplos de que se utiliza – ofícios dos
administradores públicos encontrados no Arquivo do Estado de São Paulo – para sustentar sua
análise demonstra que muitas foram as ocasiões nas quais estes homens recorriam à Justiça afim de
se alcançar uma liberdade efetiva.
23
Consta nos autos do processo que, quando de sua morte, Inocêncio contava com aproximadamente
8 anos de idade.
No livro A desagregação do sistema escravista no Maranhão (1850-1888) (1990), Jalila Ribeiro
24

realiza toda uma trajetória a respeito da economia escravista maranhense como forma de entender
os elementos que contribuíram para a desintegração do sistema escravista na Província do
Maranhão. No conteúdo de sua análise trata os possíveis motivos sobre a breve ascensão e queda
das produções de algodão, arroz e açúcar, respectivamente.
32

europeu e à constatação pelas elites de que esta seria o único tipo de mão de obra
que poderiam aproveitar. Esta consideração lembra a observação feita pela
pesquisadora Regina Helena Martins de Faria ao afirmar que o recurso aos escravos
africanos enquanto único meio de mão de obra nas lavouras era amparado pela
noção de que estes eram os mais “capazes de suportar os rigores do trabalho
agrícola em regiões de clima quente e insalubre...” (2004, p.83).
Esse aumento do fluxo de escravos25 não se limitava, porém, às zonas de
cultivo, sendo cada vez mais comum a presença de negros no centro da cidade,
configurando uma categoria de escravos que, embora submetidos à mesma
estrutura de dominação senhorial – no sentido de condição de propriedade – se
distinguiam pelas atividades a que se dedicavam e ao maior grau de circularidade
que consequentemente lhes era dado para exercer suas funções.
Nesse sentido, encontramos a figura do chamado escravo urbano,
categoria ainda pouco estudada entre os pesquisadores da área, devido mesmo à
tradicional perspectiva de se analisar a presença de escravos no campo, na rotina
da vida rural. Estes estudos trazem uma contribuição significativa para os debates
em torno do tema da escravidão, revelam outras faces do mesmo sistema.
Ainda que poucos, exemplos de trabalhos desta natureza podemos
encontrar nas pesquisas desenvolvidas por Marilene Rosa Nogueira da Silva que,
com base em larga documentação, estuda os aspectos de um setor específico de
escravos citadinos, os ditos escravos ao ganho da cidade do Rio de Janeiro no
período imperial. Sua proposta se insere num quadro de debates que põe em
questão abordagens já tidas como resolvidas sobre o assunto, tais como a “relação
escravidão-terra, escravidão-capital estrangeiro, escravidão-religião, escravidão-
rebelião, escravidão-indústria, escravidão-cidade, entre outros temas” (SILVA, 1988,
p.28), mostrando aspectos outros do escravismo, embalada mesmo por uma
tendência teórica que procura ter mais atenção às diferenças espaço-temporais da
atividade escravista. Por isso, em suas argumentações, a autora assinala que a
escravidão urbana ainda não recebeu a atenção devida entre os pesquisadores por
conta da tradicional justificativa a respeito da qual se enfatiza que a implantação da

Ribeiro explica ainda que nem mesmo a supressão do tráfico negreiro em 1850 foi suficiente para
25

transformar o perfil da cidade, pois, “apesar das condições contrárias à continuidade do sistema e das
contradições inerentes ao escravismo em crise, na segunda metade do século XIX, a Província do
Maranhão apresentava um significativo contingente de mão de obra servil, até quando, em 1888, foi
extinta a escravidão” (1990, p.59).
33

escravidão no Novo Mundo resultou da necessidade de implementar a agricultura de


exportação de produtos tropicais, “enquanto a escravidão urbana não se
apresentaria como elemento definidor do sistema” (SILVA, 1988, p.28).
Tal queixa, porém, aos poucos vem sendo mitigada através de trabalhos
como o desenvolvido por Leila Mezan Algranti (1988) que, em estudo sobre a
escravidão urbana no Brasil na época de D. João VI, relata em detalhes o ritmo de
vida dos escravos de ganho, categoria a partir da qual desvenda ângulos de um
mundo marcado por tensões e também „acordos‟ entre senhores e escravos, como
assim o demonstra a descrição que faz sobre o funcionamento desta forma de
trabalho escravo, no qual o lucro adquirido com a venda de seus serviços a outrem
que não seu senhor era com ele repartido, no geral, a partir de uma quantia diária ou
semanal previamente fixada por seu proprietário. No seu quadro analítico, porém, a
autora assinala que, embora gozasse o escravo urbano de maior flexibilidade de
circulação, nem por isso o cativeiro lhe poderia ser melhor que o do seu semelhante
no campo.
Eram diversas as atividades a que poderiam se dedicar os escravos
urbanos. Estudando sobre este contingente na cidade do Rio de Janeiro no século
XIX, o historiador Luiz Carlos Soares, explica que era ampla a presença de cativos
nos serviços de limpeza urbana, na iluminação da cidade, nas obras públicas e no
transporte de cargas e passageiros, sobretudo na primeira parte deste século
(SOARES, 2007, p.160). Numa ampla descrição a respeito dos regimes de trabalho
escravo doméstico, de ganho, alugados26 e citadinos de um modo geral –
sustentada em vários exemplos extraídos de anúncios de jornais, processos
criminais e pedidos de licença emitidos pelos senhores à Câmara Municipal para os
escravos circularem ao ganho na cidade do Rio de Janeiro – o autor aponta o grau
de especialização de muitos destes trabalhadores (na culinária, carpintaria,
marcenaria, comércio), revelando tal circunstância o delineamento de hierarquias e
acirramento de disputas (veladas ou não) entre os próprios escravos, fosse no
interior das casas onde a divisão das tarefas normalmente privilegiava as amas-
secas ou de leite que lidavam diretamente com os filhos dos senhores em
detrimento, por exemplo, dos escravos que lidavam com os despejos dos dejetos e

Estes, conforme explicação de Soares – à diferença do escravo de ganho no qual havia uma
26

perspectiva de lucro ao cativo – apenas prestavam serviços aos locatários de seu senhor ou da
agência locadora de que era vinculado ficando sob a responsabilidade destes, como se escravos
deles fossem (SOARES, 2007, p.141).
34

dos lixos das residências, fosse nas ruas onde a necessidade de pagamento ao
senhor da renda adquirida no trabalho externo muitas vezes levavam os escravos de
ganho a conflitarem por espaços de venda ou de negócios mais lucrativos 27.
Não foge a capital da Província maranhense de uma configuração
semelhante à vivida na Corte Imperial no que tange ao uso da mão de obra escrava
na cidade. Aqui, como nos assinala o historiador Josenildo de Jesus Pereira, o
trabalho escravo urbano foi mais dinâmico na cidade de São Luís, e um grande
entreposto comercial e portuário. Os trabalhadores escravos urbanos, fossem na
condição de ganhadores ou de trabalhadores de aluguel, praticavam as mais
diversas atividades. No geral, os homens, entre outras ocupações, desempenhavam
as funções de marinheiros, carregadores, estivadores, oficiais da construção civil, de
marcenaria, de barbearia. As mulheres, por sua vez ocupavam-se de serviços
domésticos (cozinhar, lavar e passar), do comércio informal de alimentos (peixes,
vísceras de gado, frutas, doces) e outros artigos, além de exercerem funções de
parteiras e amas-de-leite, principalmente dos filhos das classes dominantes
(PEREIRA, 2009, p.235).
Percebemos suas características também nos próprios autos do processo
criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro. Quando da qualificação dos
depoentes, visualizamos as figuras de Primo, Annisio e Geraldo, todos declarados
pretos escravos, moradores à casa de seus senhores, mas que, no entanto,
ocupavam-se também das funções de jornaleiro28, oficial de carpina e ganhador,
respectivamente, atividades estas executadas a serviço de outrem 29, o que nos
possibilita inferir que tratavam-se estes indivíduos de escravos ao ganho. Vemos
ainda exemplos de pretas forras moradoras em casa por elas alugadas e que se
dedicavam a tarefas que muito provavelmente aprenderam em tempos de cativeiro,
caso de Geminianna e Simplícia às quais trabalhavam como cozinheiras e nos
serviços domésticos de modo geral. É sobre este regime de trabalho escravo que
debruçamos nossas análises.

27
Tal como nos ilustra Soares com um interessante exemplo acerca de um processo criminal no qual
envolvia uma briga, numa manhã de 1855, entre a escrava Amélia Mina e a preta liberta Josepha
Alves de Menezes, ambas quitandeiras e de cujo desentendimento o autor hipotetiza estar
relacionado à concorrência que desenvolviam como vendedoras no mesmo ponto, o Largo da Sé, no
Rio de Janeiro.
Também trabalhava aos serviços de Romeu e Silva, armadores nesta cidade. Ver página 107 dos
28

Autos.
29
Primo, por exemplo, escravo da viúva Dona Inez Jansen Lima, ao tempo do processo, alegava
estar a serviço da Companhia Romeu e Silva, armadores nesta cidade.
35

Como mencionamos anteriormente, a constatação da existência de um


fluxo maior de escravos na cidade30, e também de libertos, não modificou ou mesmo
amenizou as tensões estabelecidas entre os cativos e seus senhores. Nem mesmo
o desejo de tornar a cidade um núcleo organizado aos moldes da civilização
europeia fez com que as elites de então abrissem mão da exploração compulsória
desse contingente de trabalho. A população cativa citadina, embora submetida a
atividades distintas às exercidas no campo, continuou refém das marcas mais
agressivas e controversas de controle social. Dizemos controversas porque, como
veremos mais adiante, a própria legislação instituída a partir da independência do
Brasil, tanto serviu como mais um mecanismo limitador do arbítrio senhorial quanto
funcionou como um instrumento de controle da população escrava, circunstância
que nos obriga a colocar em questão a própria noção de crime para a sociedade em
relevo.

2.1 A noção de crime numa sociedade escravista.

Existe um caloroso debate acerca do que vem a ser conceituado como


crime nas ciências sociais. Tema largamente explorado no campo das ciências
biológicas e psicológicas, o crime, enquanto categoria analítica, por muito tempo foi
pensado como algo que parte intrinsecamente do indivíduo, seja ou por seus traços
anatômicos, hereditários ou por seu perfil mental. Uma ampla produção científica –
cuja figura mais eminente encontramos no criminalista italiano Césare Lombroso 31 –
asseverava que elementos somáticos exprimiriam a maior ou menor propensão das
pessoas à criminalidade. E, embora sujeita a muitas críticas, tal perspectiva – de alto
teor positivista – fez escola e teve forte influência nos mais diversos campos de
saber a ele contemporâneos (medicina legal, psiquiatria, antropologia criminal,

30
A pesquisadora Mundicarmo Ferretti indica que no início da década de 1870, “havia no município
de São Luís cinco freguesias, com os escravos representando 22,2%. Os cativos estavam
concentrados nas duas principais freguesias urbanas: Nossa Senhora da Vitória e Nossa Senhora da
Conceição, com 64%. Já os africanos 75% (entre livres e escravos) ocupavam a área mais central da
cidade, No geral, pardos e pretos constituíam 51,5% de toda a população livre do município de São
Luís” (FERRETTI, 2004, pp.11-12).
Em 1876, Lombroso lançou o livro O Homem Delinquente, sua primeira importante obra no campo
31

da criminologia, na qual faz rigorosa menção à figura do criminoso nato, indivíduo por ele considerado
inferior, atávico e que apresentaria características físicas peculiares (assimetria craniana saliente,
palidez, cabelos abundantes, maxilares proeminentes...). Devemos considerar a importância de
outros tantos estudiosos envolvidos com o debate em torno da relação entre anatomia e mente
criminosa e dos quais podemos mencionar os nomes de Pinel, Esquirol e Morel, na medicina e
Francisco Carrara e Cesare Bonesana no campo da criminologia.
36

direito positivo), marcando, desta forma, uma lógica de pensamento que incide muito
mais sobre o estudo do criminoso em si (precisamente da mente criminosa) do que à
noção de crime ou criminalidade enquanto um fenômeno coletivo.
Ao que parece, a ênfase dada ao indivíduo pelas teorias biológicas e
psicológicas eram desenvolvidas com a finalidade de se ter um maior controle sobre
problemas que por ventura viriam a ameaçar a ordem social, sobretudo em se
tratando da complexa formação do Estado nacional brasileiro no século XIX. Ou
seja, era necessário, a partir de um olhar científico – enquanto forma de saber
legitimado – detectar, classificar e tratar doenças nos indivíduos como medida de
proteção para o conjunto da sociedade. Desta forma, nestas teorias, partia-se do
indivíduo para a coletividade, acarretando numa outra demanda de discussões
envolvendo, em contrapartida, os teóricos da sociedade, que argumentavam ser
fundamental o papel do contexto cultural e social no qual o crime ocorre, definindo
assim, tal eventualidade como fruto das instituições sociais características de uma
determinada sociedade, o que deu início desta maneira, a uma compreensão muito
mais sociológica do crime e da criminalidade enquanto, respectivamente, ato e
fenômeno oriundos de fatores sociais.
O reconhecimento do caráter socialmente construído da noção de crime
insere-se num debate bastante caro à Sociologia desde a sua constituição enquanto
campo de conhecimento científico e que diz respeito à relação indivíduo/sociedade.
Émile Durkheim, por exemplo, sociólogo francês que trouxe grandes contribuições
para esta disciplina, atestava que os fenômenos sociais deveriam ser estudados de
forma objetiva, de maneira que, somente a partir do seu exterior se poderia
compreender os mecanismos do que ele denomina de consciência coletiva32. Tal
conceito representa um dos pilares do pensamento durkheimiano, o qual postula a
sobreposição da coletividade sobre o indivíduo, sendo este apenas regido pelas leis
da sociedade.
No interior de sua argumentação sobre os valores comuns à média dos
membros de uma dada formação social, Durkheim pontua a questão do crime
enquanto reflexo da violação de um imperativo social, sendo este imperativo

Conforme definição de Durkheim consciência coletiva envolve o conjunto de crenças e sentimentos


32

comuns à média dos membros de uma sociedade.


37

entendido como parte integrante da consciência coletiva 33. Para o sociólogo, nas
sociedades ditas mais modernas, nas quais o grau de diferenciação entre os
indivíduos é mais evidente, existem maiores possibilidades para o inconformismo
com as regras sociais – nenhuma sociedade alcança o total consenso – o que pode
ser percebido através da transgressão das leis instituídas. É nessa transgressão das
regras e na ameaça aos valores morais e éticos comuns a uma sociedade que, para
Durkheim, se localiza o crime.
Assim, com base nesta perspectiva teórica, acreditamos que o crime
somente se apresenta enquanto tal dependendo da compreensão que determinada
sociedade tem do que é certo ou errado, lícito ou ilícito, bom ou mau para os
membros que a compõe, o que para as sociedades modernas fica bem mais
evidente com a formalização ou contratualização da jurisprudência com seus
códigos, leis e proibições.
Talvez a perspectiva relativista do pensamento durkheimiano sobre o
crime represente uma das principais contribuições para o debate sobre o tema.
Teorias sociológicas sobre o crime mais recentes34 leem-no a partir de análises
pautadas numa atmosfera social mais atual, com base em estatísticas e fatos
criminais consequentes de problemas que, senão próprios das sociedades
capitalistas, adquiriram um perfil específico resultante das pressões e fragilidades
típicas às exigências destas sociedades. Conflitos entre gangues, tráficos os mais
variados, consumo de drogas ilícitas, sequestros, formação de milícias parecem
circunstâncias mais proeminentes em organizações sociais nas quais os níveis de
disparidade financeira são mais acentuados.
A complexidade de formações sociais deste tipo difere, por exemplo, do
tipo de complexidade característica de sociedades escravistas, alvo de nossa
análise. Nestas, as disparidades sociais operavam-se sob uma outra lógica,
marcadamente orientada pela cor da pele do indivíduo e sua consequente

33
Essa discussão é encontrada no livro Da divisão do trabalho social (1999), obra na qual o autor
questiona os mecanismos que contribuem para a condição da existência de sociabilidade entre os
indivíduos. Para tanto ele distingui duas formas de solidariedade: a solidariedade mecânica ou por
semelhança, típica das sociedades ditas primitivas e de cujos laços sociais pouco diferem os
indivíduos uns dos outros e a solidariedade orgânica na qual o grau de diferenciação entre os
indivíduos é muito mais acentuado.
34
Outras tantas teorias foram elaboradas sobre o crime. No livro Sociologia (2004), o sociólogo
britânico Anthony Giddens realiza uma descrição ampla a respeito das tendências interpretativas
sobre o tema, dentre as quais o autor destaca as teorias funcionalistas, interacionistas, do conflito e
do controlo social. Em comum, todas enfatizavam a importância do fator social para a compreensão
do crime.
38

possibilidade à condição de propriedade em relação a outrem. A concepção de


crime nesta estrutura social também se diferenciava. Ocorrências de homicídios,
roubos, furtos praticados pelos cativos normalmente eram motivadas por fatores
outros diretamente relacionados aos efeitos da dominação senhorial, a partir da qual
os escravos teriam que buscar mecanismos de sobrevivência, muitos deles escusos,
em um ambiente bastante hostil para sua condição.
Ainda que seja um tema recentemente explorado35, o debate sobre a
relação entre crime e escravidão, torna-se aí bastante relevante, não se restringindo,
porém, apenas ao campo da Sociologia, também sendo de grande interesse entre
os historiadores da escravidão. Como dissemos anteriormente, aqui, a multiplicidade
de estudos sobre o assunto permite entrever três possibilidades explicativas que,
grosso modo, oscilam entre o caráter cruel, suave e/ou multifacetado da relação
senhor/escravo. A noção de crime aparece no bojo destas discussões como
instrumento analítico fundamental.
A pesquisadora Maria Helena Toledo Machado, por exemplo, no livro
Crime e escravidão (1987), aborda a questão da criminalidade, e do crime mais
especificamente, enquanto resposta dos cativos à exploração senhorial, apontando
casos de homicídios, agressões e rebeliões como formas de resistência ao regime
servil. Sua proposta de redefinição da concepção de resistência, no entanto,
enquadra-se num esforço de recuperar o universo mental e ideológico do escravo,
sua vida cotidiana, no interior do sistema escravista quando do seu funcionamento
(MACHADO, 1987, p.19).
Em sua pesquisa sobre a grande empresa agroexportadora paulista entre
1830-1888, a autora procura analisar a dominação escravista a partir da dinâmica
das tensões, resistências e ajustamentos à disciplina e vigilância no que tange ao
trabalho dos cativos, defendendo a possibilidade de existência de uma relação de
interdependência entre senhores e escravos numa conjuntura na qual os traços de
dominação senhorial eram bastante acentuados, de forma que seria impossível
tratar de uma história dos escravos apartada de uma história do senhor. Nas
palavras da autora:
A consecução de um trabalho rigidamente disciplinarizado, adequado às
exigências econômicas da produção, pressupunha um jogo mais complexo
que a imposição, por parte dos senhores e seus prepostos, de castigos

Quando comparado à sua análise do crime em sociedades pós-escravistas, capitalistas mais


35

especificamente.
39

continuados aos escravos, mas tinha que se inserir num quadro capaz de
conjugar disciplina, vigilância e castigos com incentivos mais ou menos
diretos ao produtor (MACHADO, 1987, p.58).

Dito desta forma, podemos observar que a postura adotada pela autora
situa-se num quadro de discussões que procura conciliar, ou pelo menos
estabelecer uma comunicação entre correntes mais tradicionais sobre a escravidão
as quais enfatizam a primazia dos fatores econômicos da exploração senhorial e
aquelas que procuram compreender a dinâmica do sistema servil de forma mais
adensada, revelando uma atmosfera marcada por diversas estratégias de
sobrevivência entre os dois grandes segmentos sociais em questão.
Para Machado, lido sob a luz de novos estudos36, o crime exprime-se
como valioso indicador de complexas e dinâmicas relações sociais de dominação à
medida que considerado enquanto produto orgânico da vida cotidiana de
determinado grupo historicamente localizado, de maneira que o enfoque proposto
pela história social do crime afasta-se da tentativa de cotejar, através da análise da
criminalidade, um padrão psicológico individual e grupal (MACHADO, 1987, p.24),
ou seja, não é o crime resultado da manifestação de condutas inerentemente
desviantes como por muito tempo foi sugerido pelos estudos naturalistas. Tampouco
pode-se associar a execução de atos criminosos como constituintes da natureza de
um segmento social específico. Ao buscar entender os aspectos da vida cotidiana
dessas camadas dominadas com base na análise de autos de processos criminais,
Machado o faz enfocando casos em que os escravos figuravam como autores dos
delitos, sempre os enfatizando como resposta a um contexto social extremamente
ofensivo à condição escrava.
Numa linha de análise semelhante, a historiadora Sílvia Hunold Lara no
livro Campos de violência (1988), embora concentre sua pesquisa no período
colonial brasileiro, destaca a questão da relação violência/escravidão retomando o
longo debate acerca do caráter violento e/ou patriarcal do sistema servil,
enfatizando, também a partir da análise de processos criminais e cíveis, que a
relação senhor/escravo era marcada por um cotidiano permeado por confrontos,
resistências, acomodações, solidariedades e tensões diversas.

36
Conforme a autora, interpretações mais antigas tomavam o crime apenas como subproduto da
gestação de um proletariado consciente no século XVIII, “considerado tanto como revide imediatista à
opressão burguesa, quanto como etapa infantil e pré-política da elaboração de uma consciência de
classe” (MACHADO, 1987, p.24).
40

Como parte de sua proposta interpretativa, Lara destaca a questão do


crime, delineando algumas circunstâncias nas quais se sobrepõem infrações
praticadas por escravos. No entanto, descarta a precisa vinculação feita entre
“criminalidade escrava e reação instintiva à prepotência e arbítrio de senhores e
feitores materializados em inomináveis maus-tratos” (LARA, 1988, p.281),
considerando ser essencial visualizar a questão pelo prisma das diferenças e
diversidades da natureza da dominação escravista e do controle social em períodos
e regiões também diferentes, sobretudo quando da crescente intervenção do Estado
no controle social, em contraposição (ou não) ao controle exercido essencialmente a
partir de relações pessoais de dominação.
No geral, as abordagens que enfocam a relação crime/escravidão,
embora tragam importante contribuição para o estudo do sistema escravista
brasileiro, o fazem, como mencionamos anteriormente, analisando situações nas
quais a autoria dos crimes é atribuída ao elemento servil, demonstrando, com isso,
apenas mais um ângulo da complexa dinâmica desta formação social.
Alguns fatores podem nos ajudar a compreender o porquê tais pesquisas
assumiram essa característica. A principal delas nos parece estar relacionada à
própria dificuldade de encontrar registros sobre a fala e as cenas de vida
diretamente produzidas pelas camadas dominadas. Boa parte da documentação
escrita de caráter judicial levantada nestas pesquisas remete a um conjunto de
discussões que envolvem a questão da coisificação do negro. Assunto já bastante
explorado no campo das humanidades, está intrinsecamente vinculado à concepção
de que o escravo era desprovido de sensibilidade e vontade próprias, enfatizando-
se, com isso, sua condição de propriedade, conferindo ao seu respectivo senhor um
suposto direito e legitimidade ao recurso da violência física e moral contra o mesmo.
Esse não reconhecimento do escravo enquanto pessoa inclui, por
conseguinte, uma problemática já apontada por Sílvia Lara quando trata das
margens fluidas entre o poder de dominação senhorial e o envolvimento da justiça
enquanto mecanismos de controle da massa escrava. Durante o período colonial,
como nos afirma a autora, os instrumentos jurídico-administrativos metropolitanos
buscavam manter a exploração escravista para garantir os lucros provindos das
unidades produtoras, conferindo ampla autonomia aos proprietários de escravos no
processo de dominação deste contingente de trabalho, já que, embora legislasse
41

sobre a escravidão, não tinha meios para controlar diretamente a força de trabalho
que dispunha em terras coloniais. Nesse sentido Lara assinala que:

À Metrópole interessava a manutenção da relação senhor/escravo, porque


implicava a produção escravista; não dispunha, porém, de recursos para o
controle da massa escrava nem de meios para efetivá-lo internamente à
unidade de produção. Legislando sobre o tráfico de escravos, além de
abocanhar importante quinhão de lucros através das taxas e tributos, ela
garantia o abastecimento de mão-de-obra e, assim, a produção colonial (...)
Garantindo a continuidade da produção escravista no nível geral, a Coroa
portuguesa não contava com recursos suficientes para garantir a
continuidade da dominação do senhor sobre seus escravos. Garantia, sim,
a dominação e exploração coloniais e a exploração escravista, mas, quanto
à continuidade da dominação (senhorial) sobre os escravos, sua
intervenção se dava somente fora da unidade de produção (1988, p.41).

A possibilidade mais viável encontrada pela Coroa portuguesa, portanto,


foi atribuir legítimo poder de exploração aos senhores de terras da colônia cuja
autoridade, no decorrer do século XIX, já Brasil Império, embora fortemente
arraigada, foi-se confundindo ou mesmo limitando com a intervenção de uma Justiça
gradativamente institucionalizada. Confundida, no sentido de que não estava de todo
eximida a possibilidade de, na prática, o poder público não interferir em assuntos
que eram de sua alçada, uma vez que nem sempre chegava a seus ouvidos (ou
mesmo fazia-se „vista grossa‟) às denúncias de crimes cometidos nas propriedades
de um senhor, como nos indica Machado.
Isso talvez se explique pelo o que a própria autora salienta ao considerar
que: “ciosos de seu poderio, os senhores procuraram resolver parte dos conflitos
que envolviam escravos nos limites das próprias unidades rurais” (MACHADO, 1987,
p.28), desviando-se, desta maneira, também do prejuízo financeiro ao qual estaria
sujeito o proprietário de escravos caso seu cativo fosse submetido às severas
punições empregadas pelas leis penais (prisão, mutilação consequência dos
castigos). No entanto, ao mesmo tempo que a autoridade senhorial receava a
intromissão da justiça em sua esfera de poder particular, era também consciente da
fragilidade dos mecanismos de dominação paternalista de que dispunha, sempre
tendo os cativos como uma ameaça em potencial. Segundo argumentação de
Machado, esse “temor aos escravos permeou a instituição escravista e encontrou,
na Justiça, especial ressonância com a repressão exemplar dos crimes contra a
autoridade senhorial” (1987, p.35).
Essa perspectiva analítica, no entanto, nos aponta apenas mais um
ângulo de um debate extremamente amplo e complexo a respeito da interferência
42

jurídica na conflituosa relação estabelecida entre senhores e escravos. Se por um


lado, o tratamento dispensado pela lei – em se tratando de uma sociedade
escravista – poderia distinguir-se conforme a condição étnico-social do envolvido em
um trâmite jurídico, como nos sugere o jurista maranhense José Eulálio Figueiredo
de Almeida ao assinalar que, quando o escravo figurava como vítima de algum
crime, nada era investigado pelas autoridades, por ser ele considerado objeto,
mercadoria, propriedade do seu senhor, ou, do contrário, quando era apontado
como autor de algum delito, assumia a condição de delinquente, visto que a
criminalidade do elemento servil (punida com a pena de morte) era uma lógica de
pensamento bastante difundida àquela época. (2005, p.18). Por outro lado,
principalmente a partir de meados do século XIX, uma paulatina intervenção do
Estado na regulamentação das relações entre senhores e escravos – como assim o
comprova o caudal de leis, decretos, avisos e alvarás que se somaram e
superpuseram nas últimas décadas da escravidão, regulamentando a instituição
escravista e a esfera de poder senhorial (MACHADO, 1987, p.31) – aponta para
uma espécie de amparo jurídico, ainda que deficiente, em favor dos cativos. Como
assim o atestam, por exemplo, artigos presentes na Coleção das leis, decretos e
resoluções da Província do Maranhão37, a respeito dos quais versam sobre o risco
de infração e punição policial a que pode estar sujeito um senhor ao desamparar um
escravo seu devido sua idade avançada ou por moléstias. Circunstância relevante
não pelo questionamento de que tenha sido, esta resolução, respeitada ou não, mas
pela própria possibilidade de sua existência sob a base de uma leitura legal,
legitimada e marcadora da limitação do poderio senhorial.
Neste sentido, podemos observar que a intervenção de uma justiça
pública mediando, com seus códigos, leis e penas, a relação senhor/escravo
demonstra-nos que a fragilidade e ambiguidade na maneira como se dinamizou tal
instituição – que ora reprimia ora intervinha em favor do cativo – limitou, de forma
bastante peculiar é verdade, a autoridade senhorial, revelando-nos que este poder
não era tão arbitrário como estamos acostumados a pensar. O caso criminal que
aqui submetemos à análise é bastante ilustrativo desta afirmação, na medida em
que a denúncia judicial concretizada contra Anna Rosa Ribeiro, acusada de seviciar

37
Artigo 1, da Lei nº16 de 19 de maio de 1836 da Coleção das leis, decretos e resoluções da
província do Maranhão (1835-1848), aprovada pelo Presidente da Província Antônio Pedro da Costa
Ferreira.
43

até a morte uma criança escrava de sua propriedade, embora represente um indício
de restrição dessa autoridade senhorial, revela também que na decisão final do
processo prevaleceu a manifestação de interesses particulares.
É importante observar que trabalhos brasileiros dedicados ao estudo da
dita criança escrava, destacam a complexidade de compreensão acerca do ritmo de
vida deste segmento na medida em que a possibilidade de reconhecimento da
fragilidade destes indivíduos, até certa idade, não se dissociou do entendimento,
entre os escravistas, de que se tratavam de mercadorias, uma forma de reprodução
de uma população já escravizada e, portanto, submetida a autoridade de um
proprietário e ao trabalho forçado. Assim, Kátia Mattoso, salienta que, desde cedo,
para as denominadas crianças escravas, a base das relações são estabelecidas
muito mais a partir dos laços de vizinhança, de trabalho, de recreação, de ajuda
mútua e associação religiosa do que por meio da família nuclear (instituição, para o
escravo, mais instável pela própria condição de coisa e moeda de troca que lhe foi
atribuída), de forma que a vida pública, para ela, adianta-se à vida privada. Além do
mais, conforme Mattoso, acaba tendo esta criança que submeter-se a uma dupla
criação caracterizada, de um lado, pela obediência exigida por „seu‟ senhor e, de
outro, pela tentativa de sua comunidade de absorvê-la, e, embora venham a
conviver, nos primeiros anos de suas vidas, com as demais crianças brancas,
sobretudo nas fazendas, logo se dava conta de sua condição inferior em relação à
criança livre e de que as exigências de seus senhores tornavam-se mais precisas e
indiscutíveis (MATTOSO, 2003, pp.128-129).
Tratando deste mesma questão e sustentando-se em conteúdos de
relatos de viajantes que estiveram no Brasil na primeira metade do século XIX, a
pesquisadora Maria Lúcia de Barros Mott, aponta traços relevantes a respeito deste
contingente, percebendo haver, entre os senhores, diversas formas de tratamento
dispensadas a estes escravos de pouca idade, fossem elas afetuosas, amistosas,
indiferentes ou cruéis. Fato é que muito precocemente – a autora sugere uma média
de idade entre 5 a 7 anos aproximadamente – estas crianças escravas, como assim
são designadas nos próprios documentos de que teve acesso, aparecem nos relatos
desempenhando alguma atividade e mesmo se especializando em determinado tipo
de trabalho (MOTT, 1979, p.61). A problemática apontada pela autora, no entanto,
remete à dificuldade em se detectar os limites em que os narradores utilizam o termo
criança. Nos relatos de língua inglesa, por exemplo, o uso dos termos boy, girl, lad
44

abarcam uma faixa etária bastante ampla, de maneira que, quando não identificada
a idade de quem se descreve uma narrativa, torna-se complicado determinar a quem
(se criança, jovem ou adulto) um autor estava se referindo (MOTT, 1979, p.67).
Embora as fontes de análise que se utiliza Mott estejam localizadas na
primeira metade dos oitocentos, a sobrevivência do possível sentido atribuído a ideia
de criança escrava pode ser observada na própria maneira como Innocencio é
tratado nos autos do processo-crime de Anna Rosa Ribeiro. Além de criança, termos
como escravinho, inocente, menor e anjo são amplamente observados nas falas
contidas nos autos, o que nos possibilita inferir que, além de refletirem a noção que
o termo assume para aquela realidade, o uso destas nomenclaturas serviram
também como forma de apelo da defesa frente a representação judicial.
A absolvição da ré, num processo, diga-se de passagem bastante curto
para os padrões de um inquérito judicial, que mesmo àquela época demandava mais
tempo e recurso, nos dá margem para inferir que a posição social privilegiada da
acusada, contribuiu para um desfecho não tão surpreendente assim, se
compararmos este caso a um outro processo-crime ocorrido pouco tempo depois
(entre 1877-1878) contra Amélia Rosa38, negra forra, processada e condenada, junto
com outras pessoas de seu grupo, acusada de ter seviciado e quase tirado a vida de
Joanna, escrava que teria recorrido à ré em busca de solução para problemas de
saúde por saber que esta fazia uso de rituais de pajelança. A condenação de Amélia
Rosa à prisão e pagamento de multa, somado a uma série de outros tantos
agravantes39, exprimem grande desigualdade no tratamento dado aos dois
processos, demonstrando a acentuada dubiedade no cuidado prestado pela esfera
judicial aos casos criminais conforme a condição social do indivíduo.
Essa parcialidade da Justiça Pública, sobretudo em se tratando em
termos de Maranhão Imperial, a qual discorreremos mais detidamente no tópico
posterior, envolve, por conseguinte, uma questão mais ampla: a de que a noção de
crime, abordada para além das „tipificações inscritas nos códigos penais‟,
concordando com a concepção do historiador Boris Fausto, exprime-se enquanto ato
singular de um fenômeno mais geral (criminalidade) cuja riqueza nunca se encerra
em si mesma, mas abre caminho para muitas percepções (FAUSTO, 2001, p.19)

Tal processo foi transcrito pela historiadora Jacira Pavão e encontra-se publicado em livro
38

organizado pela antropóloga Mundicarmo Ferretti.


39
Mais do que sevícia, pesava contra Amélia Rosa a acusação de praticar rituais religiosos
„estranhos‟ aos pregados pela religião oficial.
45

devendo estas serem pensadas em articulação com as tramas sociais que lhe
serviram de pano de fundo.
Pensado a partir das tensões, contradições e padrões culturais comuns
às sociedades escravistas, portanto, o crime, obviamente, difere da ideia mais
contemporânea que dele temos, devido mesmo a uma legislação que àquela época
era bastante tolerante e conivente com as práticas de castigos e sevícias impostas
aos cativos não apenas por seus „donos‟, mas também pelo próprio aparato judicial
que fazia uso destas ações para punir os escravos.
Tolerante e conivente com o domínio senhorial, mas também, sobretudo
na segunda metade do século XIX, obrigada a atentar para algumas reivindicações
reclamadas pelos escravos (tais como o direito de alforria, de não ser vendido para
outro senhor sob o risco de afastar-se de sua família) na medida em que a
propaganda abolicionista, as fugas e outras formas de resistência escrava 40
acentuavam o desejo de liberdade da população cativa e ameaçavam aquela ordem
social.

2.2 O sistema jurídico da época

Impossível realizar uma análise pautada na noção de crime sem colocar


em discussão o tema sobre as práticas jurídicas e, consequentemente, sua

40
Um outro instrumento a que os escravos poderiam recorrer para a obtenção da carta de liberdade
encontramos na fundação de sociedades manumissoras, organizações ditas beneficentes que
negociavam com os senhores a compra de escravos com a finalidade de alforriá-los. Como exemplo
podemos citar a Sociedade Manumissora 28 de julho, criada na cidade de São Luís em 1869, cujo
estatuto tinha por objetivo libertar o maior número possível de escravas menores de idade, não
adultas tal como expunha em seu artigo 1. É preciso salientar que a burocratização de seu estatuto
de certa forma restringia o número de cativas a serem contempladas com este projeto na medida em
que a submissão aos critérios pregados pela sociedade incluíam o fato de não sofrer a beneficiada de
moléstia incurável na opinião escrita de um médico; ser vacinada e provar legalmente sua idade
(art.38); além do que nenhuma carta poderia exceder a quantia de 500$ réis. Afora a aprovação do
estatuto desta Sociedade, o catálogo sobre O negro e o índio na legislação do Maranhão (1835-
1889) indica uma portaria do dia 11 de abril de 1871 que aprova um estatuto para a fundação da
Sociedade Manumissora Coroataense revelando-nos, assim que recorria-se a esta empresa também
no interior da Província, ainda que provavelmente de forma diminuta pois não nos foi possível
encontrar menção a outras sociedades alforriadoras. No entanto, em estudo monográfico acerca das
confederações abolicionistas no Maranhão, o pesquisador Wellington Barbosa dos Santos, além de
mencionar como instituições registradas (com estatutos e atas) a Sociedade Manumissora 28 de
julho, cita uma outra, a chamada Centro Artístico Abolicionista criada em 1881 na capital e que, no
geral, incentivava a fuga de escravos. O autor elenca também outras entidades não registradas como
é o caso d‟O Centro Emancipador, da Sociedade Abolicionista, d‟Os Apóstolos da Liberdade, da
Sociedade Emancipadora Maranhense, do Clube Libertador Maranhense, do Centro da Amizade
Abolicionista e do Clube Abolicionista, circunstância reveladora do engajamento no movimento de
libertação dos cativos no Maranhão.
46

percepção enquanto fruto da atividade humana situada e variada no tempo e no


espaço, às quais exprimem – como nos contribui o filósofo francês Michel Foucault –
inumeráveis séries de regras a partir das quais se concebeu e definiu a maneira
como os homens podiam ser julgados em função dos erros que haviam cometido
(FOUCAULT, 2003, p.11).
Partindo desta observação, podemos considerar que, a dinamização das
práticas jurídicas com suas especificidades terminológicas, pressupõe, de antemão,
a fatalidade do crime – ou da infração, termo utilizado por Foucault para definir a
transgressão de uma regra social – devendo o mesmo ser entendido não como
resultado de algum tipo de „instinto natural ao homem desviado‟ (como por muito
tempo pregaram os naturalistas), mas, como dissemos anteriormente, enquanto
reflexo do que foi construído socialmente como certo ou errado, lícito ou ilícito por
determinada sociedade.
Tão historicizada quanto a noção de crime, a ideia de justiça, sobretudo
para as sociedades ocidentais, articulou-se no decorrer do tempo elaborando e
reelaborando mecanismos judiciários capazes, digamos, de „recompensar',
„reequilibrar‟ conflitos instigados por danos e ofensas causados entre indivíduos.
Foucault, no livro A verdade e as formas jurídicas (2003), traça toda uma trajetória
sobre as práticas e procedimentos judiciários (prova, inquérito e exame) enquanto
uma das formas mais elucidativas para se compreender como as sociedades
definiram tipos de subjetividade, formas de saber. No bojo de seu projeto de análise,
o autor aponta uma questão bastante profícua para o tema a que se destina nosso
estudo, o qual trata da paulatina institucionalização do poder judiciário através do
controle estatal. Se antes, como o autor descreve no decorrer de boa parte de suas
conferências, o sentido de justiça era um tanto quanto fluido uma vez que movido
majoritariamente por sentimentos de honra e vingança entre indivíduos ou grupos de
alguma maneira lesados entre si, com o fortalecimento dos Estados Nacionais,
houve uma apropriação da instância judiciária e uma consequente reformulação na
sua lógica operacional. Conflitos „resolvidos‟ entre duas partes conforme melhor
acordo estabelecido entre ambas, com o passar do tempo foram substituídos pela
intervenção de uma terceira parte (a Justiça Pública, o Direito Penal)
regulamentando procedimentos de investigação criminal e regras de punição.
É claro que as análises desenvolvidas por Foucault referem-se à
experiência política e cultural europeia – para a qual devem ser guardadas as
47

devidas peculiaridades – no entanto, devemos salientar também que boa parte do


que caracteriza a Justiça neste continente foi comungada, é certo que sob diferentes
roupagens, pelos países colonizados da América e num sentido mais estrito, teve
forte influência na literatura jurídica brasileira41.
Aqui no Brasil, a institucionalização da Justiça operou-se de forma
bastante lenta e dúbia, isso porque o próprio processo de independência política
deu-se nos mesmos termos. Yuri Costa, em artigo no qual trata do tema da
criminalidade escrava, nos explica que este complexo processo de organização
política e jurídica nacional dá-se enquanto tentativa, principalmente por parte da
Corte Imperial, de construção do público, pautada não numa mera estruturação dos
aspectos político-administrativo do país, mas numa estruturação civilizada orientada
por ideologias e sistemas modernos transplantados do modelo europeu e norte-
americano (COSTA, 2004, p.114). O problema é que os traços sócio-jurídicos
herdados do período colonial42, marcados pela prevalecência de interesses privados
– ordem que estabeleceu relações sociais e valores predominantes em nossa
sociedade – fragilizou e distorceu a formação de uma ideia de público capaz de
abarcar boa parte do que seu sentido lhe confere. No estado social do Império
brasileiro43, acabou se manifestando, conforme Yuri Costa, “um sistema sem
sistematicidade, onde as „leis‟ seriam pessoais e, por isso, caóticas” (2004, p.115).
Da velha ordem privada colonial derivou uma ordem pública bastante peculiar em
41
Influência, sobretudo lusitana, dada não apenas através das Ordenações Portuguesas durante o
período colonial, mas também pela formação de estudantes, filhos das elites brasileiras, que,
principalmente de Coimbra, traziam conhecimentos de Direito contribuindo para a constituição de um
ensino acadêmico que formará os primeiros bacharéis brasileiros antes formados em Portugal, dando
início, assim, a um lento, porém não acabado, processo de nacionalização de nossa cultura jurídica
no decorrer do período imperial (DUTRA, 2004, p.24).
42
Não poderia ter sido outro o direito que haveria de reger a colônia senão aquele transplantado – é
certo que com suas peculiaridades e adaptações ao território – do direito lusitano, pois, concordando
com a afirmação do pesquisador Antônio Luís Machado Neto, “como a atividade colonizadora é algo
que se faz a mando da metrópole, com vistas a um projeto que é também colonizador, via de regra, a
tarefa colonial é algo que se faz com os olhos voltados para a metrópole, já que a colônia não tem a
necessária substância para conter e aprisionar em seu seio, em seu precário centro de interesses, o
homem colonizador” (MACHADO NETO, 1987, p.307). Na esteira destes debates acrescentam-se os
trabalhos de Sílvia Hunold Lara que organiza e comenta em introdução o Livro V das Ordenações
Filipinas que trata das penas, assinalando que o sistema legislativo e jurídico colonial brasileiro não
poderia ter deixado de ser uma extensão de sua metrópole portuguesa e o de Stuart Schwartz que,
no livro Burocracia e sociedade no Brasil colonial (1979) não somente desenvolve uma minuciosa
restituição da máquina judiciária colonial brasileira como demonstra que as leis metropolitanas se
ajustaram à sociedade colonial.
Conforme argumentação de Cunha, “o que se dá a partir da independência política brasileira é uma
43

verdadeira reestruturação da anterior organização judiciária nacional, caracterizada pela extinção de


cargos como os de juiz de fora, juiz ordinário e ouvidor de comarca, bem como pela consolidação das
quatro carreiras e instituições que, ao menos na primeira instância, estariam presentes em todo o
século XIX: juiz de paz, juiz municipal, juiz de direito e tribunal do júri” (2002, p.30).
48

nossa realidade, caracterizada pelo afrouxamento e falta de rigor com o


cumprimento dos deveres e responsabilidades atinentes à gestão pública.
Essa ambiguidade que impossibilita entrever uma separação entre público
e privado na sociedade brasileira se torna ainda mais problemática quando da
formação de um aparato judiciário frente a uma sociedade calcada no trabalho
escravo, sobretudo a partir do fim do tráfico negreiro internacional em 1850 quando
aumenta a atuação direta do poder público na tutela do cativo, acarretando numa
interferência cada vez maior desta instância nas relações senhoriais com os
escravos, como nos indica Costa.
Tão controversa quanto o caso nacional, é a situação da justiça
característica da sociedade maranhense imperial44, espaço que mais interessa em
nossa análise. Aqui também a formação do aparato judicial influenciou-se pelas
imagens de civilidade enaltecidas com o processo de urbanização da Província do
Maranhão (dando ênfase à cidade de São Luís), principalmente a partir da segunda
metade do século XIX. Pelo menos num plano teórico, no que tange às questões
jurídicas, “os conflitos interpessoais não mais poderiam ser diluídos pela justiça do
„mais forte‟ ou pelo confronto „bárbaro‟ direto – e por vezes físico – das partes. Havia
uma espécie de reação „civilizada‟ pela necessidade de mediação da Justiça em tais
conflitos” (COSTA, 2004, 119).
A institucionalização político-jurídica do Estado maranhense, de teor
„essencialmente civilizador‟, contudo, não se mantinha quando colocada frente à
escravidão. Nas palavras de Costa:

O discurso „oficial‟ que, pelo menos a partir de 1872, prega o „fim inevitável
da escravidão‟, contrastava-se com o interesse quase que direto da Corte
em manter as relações senhor-escravo, visto que estas implicavam na
própria estruturação de toda a produção econômica brasileira. É por isso
que, em grande parte, não contando com recursos eficientes para garantir a
continuidade da „dominação‟ do senhor sobre seus escravos dentro das
fazendas/casas senhoriais, a Coroa garantia a continuidade da produção
escravista no nível „geral‟, como, por exemplo, através da reposição do
contingente de trabalhadores ou da repressão ao que pudesse interromper
a produção ou contestar a escravidão (2004, p.123).

Yuri Costa aponta uma questão ilustrativa ao mencionar que a partir da década de 1820
44

desenvolvem-se quatro fatores que seriam centrais na institucionalização do poder Judiciário do


Império no Maranhão: a consolidação do Tribunal da Relação da Província do Maranhão; a expansão
da estrutura judiciária de primeira instância; a estruturação, mesmo não sendo de competência
específica do Poder Judiciário, da polícia provincial; e a dotação específica de parte do orçamento da
Província do Maranhão para os gastos com o Judiciário e com a polícia (2009, p. 198-199).
49

Com base nesta observação, Costa acrescenta que essa


institucionalização da Justiça Pública assume um caráter quase que constitutivo do
escravismo, „uma espécie de espinha dorsal da sociedade escravista imperial‟
(COSTA, 2004, p.123), servindo muito mais como instrumento de manutenção do
sistema, do que um mecanismo capaz de mitigar as tão acentuadas desigualdades
de cor e classe existente entre os dois principais grupos sociais componentes desta
sociedade.
Somado aos interesses econômicos e políticos45 que de alguma forma
aproximavam o poder judiciário à dominação senhorial, cabe destacar um dos
efeitos mais emblemáticos desta relação, ou seja, aquele que implica nos seus
efeitos ideológicos. Ao falarmos deste aspecto, necessariamente nos remetemos ao
tema da coisificação do escravo e, sobretudo à questão da dubiedade de sua
condição jurídica num momento em que o indivíduo escravizado passa a ser não
apenas domínio de seu proprietário, mas também a ser tutelado pelo Estado, ou
seja, a submeter-se tanto à instância privada quanto pública, estas por sua vez,
mesclando-se e confundindo-se com a manutenção de interesses particulares, mas
que, ao mesmo tempo, limitava este domínio senhorial na medida em que também
passou a legislar – pelo menos em termos teóricos – a favor dos cativos.
Perante tal afirmativa somos induzidos a fazer as seguintes indagações:
como a Justiça Pública interpretava a condição do escravo? Em casos de tramitação
de processos-crime, por exemplo, cativos e proprietários de terras, recebiam
tratamento semelhante quando figuravam como vítimas ou autores de crimes? Eram
submetidos às mesmas punições?
Difícil traçar um perfil padrão, com base em estatísticas, sobre a
criminalidade escrava ou contra o escravo num contexto no qual não há garantia de
que grande parte das infrações (agressões, roubos, furtos, homicídios) fosse parar
nos registros policiais. Isso porque muitas das contendas que aconteciam no interior
das fazendas e/ou casas senhoriais eram resolvidas nos limites territoriais do
proprietário e sob suas próprias „recomendações‟. Além do mais, é muito complicado
encontrar resquícios da fala dos cativos em tais circunstâncias, devido mesmo à
própria condição de coisa, que em momentos mais pertinentes, a eles era atribuído.

45
Quando sabemos que os magistrados eram oriundos destas mesmas classes dominantes.
50

Em importante estudo em que trata do processo de subjetivação do


escravo no discurso judiciário maranhense do século XIX, Yuri Costa, parafraseando
Jacob Gorender, afirma que “o primeiro ato humano do escravo foi o crime” (2009,
p.196). Tal afirmação é bastante coerente quando pensamos que foi a partir do
momento em que, enquanto autor de crimes, o cativo teria o dever de assumir suas
responsabilidades, o que lhe conferia, ainda que se encontrasse na condição e
propriedade, algum estatuto de humanidade. Conforme Costa:

As formas jurídicas que primeiro vão conferir certa subjetividade ao cativo


atribuem-lhe, na verdade, responsabilidades, e não direitos. Como autor de
crime, o escravo mantém sua condição de coisa e, ao mesmo tempo,
responde pelo delito. Nega-se pela primeira vez o discurso civilista (do
Direito Civil) da coisificação, pois é ilógico entender que uma propriedade,
despida de vontade, transmuta-se em sujeito ao cometer um delito. O
escravo foi, na História da Humanidade, a única propriedade punível (2009,
p.196, grifo do autor).

Essa oscilação entre a condição de propriedade e de sujeito atribuída ao


escravo revelava práticas jurídicas um tanto paradoxais quando se pensa que o
Direito Moderno associa-se obstinadamente à pretensão de “um todo integrado e
hierarquizado, que se entende completo e coerente de princípios universais”
(LOPES apud COSTA, 2009, p.195). Na prática, na rotina de vida dos tribunais
maranhenses da segunda metade do século XIX – é claro que tal situação não se
restringia apenas a este plano espaço-temporal – o que imperava era um dissenso
em relação ao status do escravo conforme figurasse como autor ou vítima de crimes,
o que demonstrava a ambiguidade da instituição judiciária no tratamento prestado ao
que a ele se encontrava sujeitado.
O caso de Dona Anna Rosa Ribeiro, neste aspecto carrega muitos traços
da desigualdade de cuidados prestados ao indivíduo conforme sua condição social.
A absolvição da ré, filha das elites do Maranhão, diante de um caso criminal em que
muito dos indícios recaiam contra a acusada, possibilitam pensar – embora não nos
permitam extrair teorias gerais – que, em muitos casos criminais nos quais o escravo
estava na posição de vítima, o tratamento a ele dispensado era menos
compromissado em relação ao que pregava a letra da lei. Já que, como diz Yuri
Costa, quando agia em favor do escravo, a Justiça não alcançava a maior parte dos
conflitos interpessoais, ou, quando os alcançava, chegava totalmente desfigurada,
debilitada, desmoralizada, inócua e inepta, enfim, vencida pela „justiça particular
escravista‟, hegemônica nas fazendas/casas grandes (COSTA, 2009, p.124).
51

É oportuno considerar que não é necessariamente a absolvição da


acusada o que nos chama mais atenção neste processo-crime, mas sim por figurar,
no banco dos réus, um membro da tradicional aristocracia maranhense numa época
em que, como nos diz Maria Helena Machado, raramente um senhor era
diretamente denunciado como causador de maus-tratos em seus cativos46 e a
ocorrência de tal situação condicionava-se à conjunção de diversos fatores, ligados
principalmente à gestação de uma opinião pública, refletida na imprensa local e à
quebra flagrante das regras paternalistas vigentes entre a classe senhorial. Nas
palavras de Machado

Dessa forma, quando um senhor, desprezando as conveniências, insistia


notoriamente na aplicação de castigos imoderados aos escravos, sem
acautelar-se em envolvê-los em tons discretos, arriscava-se a ser
denunciado e ter que sujeitar-se à intromissão da Justiça em seus negócios
particulares. Assim, se a fazenda era um domínio e nela o senhor era todo
poderoso, no século XIX, essa realidade deveria ser vivenciada
discretamente (MACHADO, 1987, p.73).

Embora a natureza desta interpretação seja fundamental para


compreendermos uma leitura jurídica das relações mantidas entre senhores e
escravos, o entendimento de que a interferência do poder público implicaria, em sua
amplitude, num favorecimento do domínio senhorial exprimem apenas um ângulo –
por vezes uma grosseira simplificação da realidade – de uma conjuntura muito mais
complexa e conflituosa.
Nas duas últimas décadas da escravidão brasileira, a ampla influência da
propaganda abolicionista somada às mais diversas formas de resistência escrava
insuflaram os espíritos dos cativos obrigando as instâncias jurídicas a atenderem os
anseios desta população para assim tentar mitigar a pressão social que a este
tempo alterava o perfil psicossocial da cidade. Nesta perspectiva, acreditamos que o
próprio ato de denúncia de Anna Rosa Ribeiro enquadra-se neste contexto de
tensões, no qual a mediação do poder público nas questões escravistas poderia

46
Devemos atentar para o fato de que a conclusão a que chega Machado diz respeito a análise que
faz dos autos de processos criminais tramitados nas cidades paulistas de Campinas e Taubaté entre
os anos de 1830-1888. No caso de nossa pesquisa, um único caso não é capaz de traçar um perfil
social geral sobre a interferência das instâncias públicas no governo dos escravos. No Livro de
crimes e fatos notáveis (1873-1881) cuja data de registro que escolhemos intercala o ano em que
se processou o caso de Anna Rosa Ribeiro aponta-se a descrição de variados tipos de delitos bem
como para diversas características de homicídios, tanto no interior quanto na capital da Província,
fossem eles praticados entre escravos para os quais encontramos mais registros ou entre escravos e
homens livres. Não encontramos sobretudo entre os anos de 1875, 1876 e 1877, menção similar ao
caso de Anna Rosa Ribeiro no que tange à uma submissão jurídica.
52

demonstrar também certa atenção da Justiça em favor da representação jurídica do


cativo.
Um outro elemento nos parece bastante expressivo nesse trâmite, o qual
implica na atitude abolicionista tomada pelo promotor público do processo, o Dr.
Celso Magalhães, que conseguiu sujeitar às autoridades jurídicas, para o espanto da
escravista sociedade maranhense, um membro da aristocracia. “Muita gente
naquela época não acreditava que uma respeitável senhora da sociedade
ludovicense, famosa pelo poder do seu marido e por fazer parte da aristocracia
social e política, pudesse sentar no banco dos réus, pois cometer crimes contra
escravos era tido, pela legislação imperial, como coisa lícita e um indiferente penal”
(ALMEIDA, 2005, p.31).
Sabemos que àquele tempo o Maranhão era uma Província largamente
identificada com o cativeiro negro, mesmo diante de valores um tanto quanto débeis
na medida em que a necessidade que as elites tinham de absorver os ideais
civilizadores batia de frente com o interesse de manutenção da exploração do
trabalho escravo. Em meio a esta atmosfera manifestavam-se com maior
intensidade as críticas ao regime servil, oriundos mesmo de pessoas pertencentes
aos segmentos das elites escravistas, estudantes cuja formação acadêmica refletia
fácil abertura para a assimilação do ideário abolicionista que fervia na Europa e nas
décadas finais da escravidão se disseminavam com mais força em território
nacional. Homens letrados que, notadamente, envolviam-se com a produção
literária, científica e jornalística, influenciados, sobretudo pelo pensamento
positivista, pelo Realismo ou Naturalismo e pelas teorias raciais do século XIX, tais
como o próprio Celso Magalhães.
Difícil definir, portanto, os efeitos da atividade jurídica nos conflitos
existentes entre os cativos e seus senhores. Ao mesmo tempo que sua interferência
representava mais um mecanismo de controle da população escrava muitas vezes
em prol da manutenção do domínio senhorial, era também um instrumento a que os
cativos e abolicionistas acionavam como forma de atenuar o peso da autoridade dos
escravagistas.
Embora reconheçamos que a análise de um único caso criminal não seja
suficiente para traçarmos perfis mais amplos sobre determinada conjuntura social,
nele encontramos muitos dos ingredientes que marcam a maneira como eram
vividas as instituições da época em que está submetido nosso trabalho. Como
53

veremos detalhadamente no próximo capítulo, a maneira como foi se desenrolando


o processo criminal movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro em 1876, nos permite
entrever e refletir como alguns mecanismos institucionais eram articulados nas falas
dos atores envolvidos na evolução do processo, bem como na descrição das
atitudes dos personagens quando do recolhimento dos depoimentos no inquérito
judicial.
54

3 UM OLHAR SOBRE OS AUTOS DO PROCESSO-CRIME DA BARONESA

Por tanto tempo banalizado no próprio campo da historiografia, o uso de


processos criminais (bem como de tantos outros documentos históricos) adquiriu
importância significativa para o estudo das relações sociais, sobretudo àquelas cujas
leituras dos elementos institucionais que delineiam sua conjuntura estão, numa
perspectiva temporal, um tanto quanto afastadas da nossa.
Documento central nesta análise, o processo criminal, concordando com
o argumento de Maria Helena Machado, caracteriza-se a partir de sua
funcionalidade, qual seja, de documento oficial, normativo, interessado no
estabelecimento da verdade sobre um crime. E, enquanto mecanismo de controle
social do aparelho judiciário, é um documento marcado por um padrão de
linguagem, a jurídica, e pela intermediação imposta, pelo escrivão, entre o réu, as
testemunhas e o registro escrito (MACHADO, 1987, p.23).
É de fundamental importância salientarmos que a maneira como se
definem as características de funcionalidade do processo criminal (linguagem formal,
objetiva, informativa) induzem-nos a um conjunto mais amplo de discussões das
quais a forma como se estrutura este tipo de documento é a penas mais um de seus
efeitos. Falamos de um assunto para o qual Michel Foucault traz frutífera
contribuição ao interessar-se em examinar como puderam ser formados domínios de
saber a partir de práticas sociais. Enquadrando-se seu exercício analítico no sentido
de desenvolver uma leitura historicizada do sujeito, do conhecimento e da ideia de
verdade, Foucault defende o pressuposto de que o conhecimento não está inscrito
na natureza humana, mas nas relações de poder perpassadas nas práticas sociais.
Sendo assim, para o autor, nem o sujeito humano nem as formas do conhecimento
são, de certo modo, dados prévia e definitivamente. Em suas palavras, “as práticas
sociais podem chegar a engendrar domínios de saber que não somente fazem
aparecer novos objetos, novos conceitos, novas técnicas, mas também fazem
nascer formas totalmente novas de sujeitos e de sujeitos de conhecimento”
(FOUCAULT, 2003, p.08). Assim, encontra nas práticas judiciárias ocidentais, uma
maneira de perceber como a análise histórica é capaz de localizar a emergência de
novas formas de subjetividade e de produção do saber a partir da qual se construiu
a noção de indivíduo normal ou anormal, dentro ou fora da regra, saberes estes
nascentes de práticas sociais de controle e de vigilância, marcada
55

predominantemente por uma linguagem formal, exata porque inserida na lógica do


pensamento científico e racional, saber revestido – sobretudo a partir do século XIX
com a compartimentalização do conhecimento em várias disciplinas (Antropologia,
Sociologia, Direito, Psicologia) – de credibilidade, competência e autoridade já que
comprometida com a busca da „verdade‟ através de um rigoroso exercício de
verificação teórica, de conceitos e experiências.
Lido por esta óptica, podemos observar que as formas jurídicas adotam
métodos para a obtenção da verdade que variam (assim como esta mesma verdade)
conforme a época e a maneira como as sociedades lidam com suas práticas sociais,
como assim observamos com a própria reorganização do aparelho judiciário
brasileiro. Aqui, como nas demais nações, o projeto de formação do Estado e de
suas instituições – enquanto estruturas de personificação do poder social –
procurava, ao menos em sua aparência, atribuir a estas instâncias, um estatuto
calcado em princípios de racionalidade e objetividade a partir dos quais deveriam
submeter-se, sem distinção, todos os seus membros.
Foi no interior desta conjuntura que delineou-se nosso sistema judiciário,
na medida em que, enquanto órgão instituído como instrumento de controle social
formal, encarregou-se de reger as condutas dos indivíduos de forma coercitiva,
organizada, inexorável e incondicionada, através da imposição de dispositivos
objetivos de aplicação do Direito e a execução de suas sanções, estas, por sua vez,
efetivadas por meio da implantação de mecanismos de investigação, dando
destaque ao inquérito e a instauração de processos criminais, nos quais se reúnem
e avaliam as peças que o compõem.
Sendo assim, mais do que um instrumento de representação jurídica, o
processo-crime pode ser utilizado como documento de análise capaz de revelar
aspectos de uma determinada conjuntura social, cujo perfil requer um exame sob
ângulos ainda pouco explorados, tal como nos indica Machado, buscando filtrar a
visão de mundo das camadas dominadas de modo a que se possa entrever as
relações sociais reais ou informais, o que exige apreender para além do conteúdo
que consta no documento, “o testemunho do outro, ou seja, das massas anônimas
que, apesar de marginalizadas do discurso institucional, nele se colocam de maneira
sutil mas indubitável” (MACHADO, 1987, p. 22).
Caso semelhante podemos citar o trabalho da pesquisadora Adriana
Pereira Campos em artigo onde faz uma correspondência entre certos estudos a
56

respeito da criminalidade escrava e os usos e interpretações das fontes policiais e


judiciais, para assinalar a possibilita de acesso a relevante gama de informações a
respeito, por exemplo, da relação crime e escravidão, tema de nossa pesquisa, sob
os mais variados ângulos. Fontes de ordem judicial oferecem excelente
oportunidade para formar-se opinião acerca do papel desempenhado pela
magistratura num contexto de intervenção do poder público na disciplina da
população escrava e pobre livre, diz Campos (2007, p.215).
Mas não só isso, eles permitem também uma inserção num mundo a
partir do qual se pode perceber e inferir nas entrelinhas uma série de elementos que
envolvem questões como o significado da condição social dos indivíduos e os
privilégios que podem ou não obter conforme tal posição social, o que implica
discutir não apenas as formas díspares e por vezes contraditórias de se tratar o
escravo submetido a um procedimento judicial, como nos sugere Yuri Costa, mas
também permite observar casos, ainda que bem pouco registrados, em que o
escravo se encontra na condição de vítima e, como réu, figura um membro das
classes mais abastadas e não um outro escravo ou alguém pertencente aos estratos
sociais mais desfavorecidos economicamente, circunstância para a qual existe um
número mais significativo de estudos. A prática judiciária, assim, “pode apresentar
novos elementos para a interpretação dos aspectos jurídicos sobre a escravidão
ainda pouco claros nas legislações e doutrinas da época” (CAMPOS, 2007, p.222).
Aqui uma menção ao papel do inquérito enquanto procedimento jurídico
faz-se bastante relevante. Prática, segundo Foucault, empregada desde a Idade
Média europeia – mas que no século XIX com a ascensão do controle preventivo do
Estado aparece como método fundamental de obtenção da verdade – o sistema de
inquérito surge, conforme pensamento do autor, como mecanismo racional de
estabelecimento da verdade. Tomando como referência uma definição do filósofo, “o
inquérito é precisamente uma forma política, uma forma de gestão, de exercício do
poder que, por meio da instituição judiciária, veio a ser uma maneira, na cultura
ocidental, de autentificar a verdade, de adquirir coisas que vão ser consideradas
como verdadeiras e de as transmitir” (2003, p.78).
O método de investigação do inquérito consiste, no interior da prática
jurídica, como forma de procurar saber o que havia ocorrido após a execução de um
crime, funcionando como um conjunto de atos de averiguação que objetivam apurar
a verdade dos fatos alegados ou acusações. Trata-se de uma investigação através
57

da qual se busca reatualizar um acontecimento passado por meio de testemunhos


apresentados por pessoas que, por uma ou outra razão – por sua sabedoria ou pelo
fato de terem presenciado o acontecimento – eram tidas como capazes de saber,
explica Foucault.
Transplantado sob outra linguagem aos países colonizados, o sistema de
inquérito policial, concordando com a argumentação de Regina Lúcia Teixeira
Mendes, foi utilizado no Brasil Imperial a partir de 1871 com a reforma do Código de
Processo Criminal de 1832, e que, conforme explicação de Mendes representou
uma grande vitória legislativa dos liberais radicais – posterior à abdicação de Dom
Pedro I – uma vez que enfatizou, na organização judiciária, a descentralização do
poder. Tal documento alterou substancialmente o sistema judiciário brasileiro, ao
praticamente extinguir o antigo sistema colonial (de forte inspiração portuguesa) e
introduzir novidades trazidas da Inglaterra, como já havia sido previsto pela
Constituição de 1824 (MENDES, 2008, p.155).
O conteúdo do Código de Processo Criminal de 1832 declarava, segundo
Mandes, que nos casos de averiguação dos fatos, a investigação criminal realizada
para a formação da culpa só seria feita a partir de denúncias que ofendessem
interesses do Estado (crime público), ou interesses particulares (crime privado),
assumindo um caráter processual que seguia a lógica de construção da verdade
jurídica a ser aproveitada pelo Conselho de Jurado47 tanto para se julgar a admissão
da acusação quanto para julgar o mérito da mesma. Interessante observar que, à
diferença do que ocorre hoje, o material preliminar colhido antes da abertura do
processo judicial não era desqualificado enquanto provas suficientes e capazes de
interferir na sentença final do libelo (2008, p.159).
Mendes nos diz que a crítica ao caráter descentralizador do Código de
Processo Criminal de 1832, que do ponto de vista político, fazia com que a classe
dos magistrados e advogados – de forte influência na política imperial – se sentisse
ameaçada por uma possível diminuição de seus poderes devido ao fortalecimento
do poder local, promoveu reformas no conteúdo do documento no ano de 1841 e
1871. É esta última releitura (a da Lei nº 2.033, de 20 de setembro de 1871), a que

Segundo Mendes, o Conselho de Jurados “foi instituído como parte do Poder Judiciário, cuja
47

competência constitucional era o julgamento dos fatos.” (2008, p.155). Os resquícios do Conselho de
Jurados hoje corresponde ao Tribunal do Júri.
58

nos interessa refletir, pois foi neste material que se introduziu no sistema brasileiro o
método de inquérito policial:

Instrumento público e cartorial que tem a função de consolidar e


documentar a fase da formação da culpa para fundamentar a propositura da
ação penal – e o júri de acusação ou pronúncia. Tal fato mudou
substancialmente o sistema de construção da verdade jurídica em matéria
criminal no Brasil. A fase de formação da culpa – que no Código de 1841
era judicial, de competência do juiz de paz, que deveria submeter a
pronúncia do réu ao Conselho de Jurados – passa a ser, após a reforma de
1871, de competência do desembargador chefe da Polícia Judiciária, que
tem poderes para nomear seus delegados. Transforma-se em um
instrumento público dotado de fé pública e produzido em um cartório da
Polícia Judiciária com a finalidade de fundamentar a propositura da ação
penal (MENDES, 2008, p.162).

É válido salientar que com esta reorganização da justiça brasileira,


pós-1871, houve, em consequência, um remanejamento das funções atribuídas
tanto à instituição policial quanto à instância judiciária, o que provocou uma série de
divergências entre ambas. Tal incongruência foi mitigada pela adoção de um
sistema de duplo inquérito que, conforme Mendes, validou a importância das duas
instâncias uma vez que este sistema passou a ser formado por um inquérito policial
preliminar seguido de um inquérito judicial.
Embora tais considerações estejam relacionadas ao plano nacional,
quando nos voltamos para o caso maranhense, a dinâmica do sistema judiciário não
se diferenciava consistentemente. Mesmo com o processo de adesão do Maranhão
à Independência, se manteve o Tribunal da Relação48, que consistiu no órgão
máximo do judiciário provincial e o Maranhão se submeteu aos ditames do Código
de Processo Criminal de 1832 e suas reformas.
Yuri Costa faz uma observação interessante ao assinalar que a
institucionalização do aparato judiciário maranhense viu coincidir sua estruturação
com uma demanda que marcaria o cotidiano dos tribunais até o final da década de
1880 (com o fim da escravidão) a qual estaria vinculada ao tratamento jurídico a ser
conferido ao sujeito escravizado, um dos principais objetos de preocupação deste
nascente sistema de leis e punições. Como dissemos anteriormente, embora tivesse
– pelo menos num plano teórico – pretensões universalizantes no tange aos direitos

48
Criado seu regimento desde 1812 e instalado no ano seguinte, o Tribunal da Relação, conforme
Yuri Costa, concentrava funções díspares que aglutinavam desde questões de primeira e segunda
instância, passando pela atuação como órgão que representava judicialmente os feitos da Coroa e da
Fazenda, atingindo, inclusive, atividades hoje atribuídas ao Ministério Público Estadual (2009, p.199).
59

e deveres dos cidadãos (nem todos os indivíduos se enquadravam em tal categoria),


o aparelho judiciário se comportava ambiguamente quando se encontrava envolvido,
vítima ou culpado, um escravo numa desavença jurídica.
Dito isto, é com base nas considerações teóricas feitas até o presente
momento que submeteremos a uma análise mais minuciosa o processo-crime
movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, os chamados Autos do Processo-crime
da Baronesa de Grajaú (1876-1877), a partir do qual nos será dado a oportunidade
de resgatar, é claro que com a devida cautela, aspectos da vida cotidiana de uma
determinada conjuntura social, pois, como nos sugere Machado, ao interessar-se a
Justiça em reconstituir um evento criminoso, “penetra no dia-a-dia dos implicados,
desvenda suas vidas íntimas, investiga seus laços familiares e afetivos, registrando
o corriqueiro de suas existências” (1987, p.23).
Além do mais, uma análise sustentada em autos criminais, como é o
nosso caso, permite uma abordagem apreciável sobre os aspectos sociais das
camadas desfavorecidas econômica e socialmente, suas relações de amizade,
trabalho, parentesco e vizinhança, ainda que não estejam registrados na superfície
do material coletado. A multiplicidade de interpretações a que pode estar sujeito o
documento também não pode ser negada. Isso porque, como veremos a partir de
agora, nas etapas que compõem os autos do processo criminal, a própria fala dos
atores envolvidos no processo; o comportamento dos representantes jurídicos,
revelam, com base na leitura que se fez das instituições da época, não somente
posturas díspares diante de um mesmo conteúdo criminal, mas também a maneira
como estes representantes manipularam a substância destes autos.

3.1 Os autos de exame de corpo de delito

Como dissemos no tópico anterior, uma das principais características da


reforma do Código de Processo Criminal do Império feita em 1871 no que tange ao
procedimento judiciário de investigação criminal, envolveu uma adaptação do papel
do inquérito policial, prática cuja substância tanto poderia possibilitar a admissão de
um processo judicial como também servir de anexo para a resolução de um trâmite
jurídico.
Assim ocorreu com o processo-crime movido contra a aristocrata
maranhense Anna Rosa Vianna Ribeiro em 1876, acusada de ter assassinado, no
60

dia 13 de novembro do mesmo ano e por meio de maus-tratos, um escravo menor


de idade chamado Innocencio. Antes da denúncia formal ao juiz pela promotoria, foi
realizado um inquérito policial, instaurado pela Subdelegacia de Polícia do 2º
Distrito, então chefiada por Antonio José da Silva Sá. O conteúdo fundamental do
inquérito policial é composto pelo primeiro exame de corpo de delito realizado em 15
de novembro de 1876 no cadáver de Innocencio no cemitério da Santa Casa de
Misericórdia e de cuja perícia foi executada pelos tenentes cirurgiões do Exército
Raymundo José Pereira de Castro e Augusto José de Lemos49 e testemunhado por
José Jacintho Ribeiro e Joaquim Mariano Marques, além do referido subdelegado do
2º distrito policial e o escrivão. Procedida a etapa pericial, o corpo documental se
compunha dos seguintes quesitos:

1º) Si houve morte?; 2º) Qual a sua/ causa immediata?; 3º) Qual o/ meio
empregado que a produ/sio?; 4º) Si a morte foi causa/da por castigos
immodera/dos?; 5º) Qual a especie des/ses castigos, e com que
instru/mentos praticados?; 6º) Quais/ as partes do corpo foram mal/tratadas,
a naturesa dos máos tractos e si delles poderia re/sultar a morte, ainda que
hou/vesse cuidado no tratamento?; 7º) Si o cadaver, pelo habito/ externo,
denota ter estado o/ menor Innocencio em abando/no e sem cuidados
humani/tarios? (AUTOS, 2009, p.71).

Ao que, após uma descrição minuciosa e sustentada em critérios


científicos50, os peritos concluíram que: houve morte, que sua causa imediata foi
provavelmente oriunda de maus tratos e castigos, que, embora não tenham sido
imoderados, foram repetitivos – circunstância que fica evidente pelas marcas de
agressão (antigas e recentes) encontradas em boa parte da extensão do corpo da
vítima – o que fez com que o menor não pudesse suportar. Acrescente-se a isso a
conclusão de que “o estado do corpo da infe/liz criança demonstrava que a /morte
apparecera não em vir/tude de uma moléstia ou consumpção e sim por uma /causa
qualquer rapida que /pouco lhe alterou o seu esta[fl.12]do physico” (AUTOS, 2009,
p.72).
Somado ao conteúdo do primeiro corpo de delito foram anexados ao
inquérito policial, os depoimentos de testemunhas e informantes convocadas e
ouvidas pelo subdelegado do 2º Distrito de Polícia, dentre os quais, parece-nos, foi

49
Não nos foi possível encontrar resquícios acerca do lugar social destes facultativos afora o que
menciona a qualificação contida nos autos.
50
Como observaremos subsequentemente, a leitura científica dos fatos torna-se ingrediente
essencial acerca da maneira como se define o aparato jurídico por submeter os envolvidos a critérios
que se pretendem objetivos e imparciais.
61

de importante valia o testemunho do negociante e proprietário da firma contratada


para realizar o enterro de Innocencio e também tenente coronel, João Marcelino
Romeu, testemunho a partir do qual parece convergir boa parte das alegações
proferidas por outras tantas testemunhas. Em seu depoimento, Marcelino Romeu
detalhou com certo rigor os acontecimentos que esteve ciente, segundo ele, desde
que soube da morte de um escravo de Dona Anna Rosa até o momento em que o
corpo do mesmo foi levado ao cemitério, pondo aos olhos da polícia figuras
supostamente suspeitas de envolvimento, em qualquer grau, com o delito
investigado e de cujas atitudes estão direta ou indiretamente vinculadas a prováveis
mandos e desmandos da acusada.
É o caso das testemunhas: Gregória Rosa Salustiana, cozinheira, que a
este tempo estava alugada como criada aos serviços de Anna Rosa, e que, quando
perguntada o que teria ido fazer à casa de Romeu na madrugada do dia 14 de
novembro (de 1876), respondeu que foi a mando de Dona Anna Rosa transmitir um
recado ao armador para que o enterro do escravinho se fizesse até às 6 horas
daquele dia; Antônio Gonçalves da Silva, armador e sócio de Marcelino Romeu,
afirmou ter confeccionado o caixão de Innocencio com base em medidas recebidas
por volta das 9 horas da noite do dia 13 de novembro de um escravo velho às quais
admite que foram enviadas a ele testemunha em nome da senhora Anna Rosa,
confirmou ainda a recomendação da mesma para que o enterro do escravo tivesse
entrada até às 6 horas da manhã; Sebastião dos Santos Jacintho, escravo do Dr.
Antônio dos Santos Jacintho, citado em depoimento como aquele que levou as
medidas do caixão para ser produzido, informando também ter sido ele quem vestiu
calça e camisa em Innocencio estando este já falecido, negando, porém, ter visto
qualquer ferida no corpo do mesmo. Acrescente a estas testemunhas as
declarações dos informantes Primo, Anisio e Geraldo indicados como os
carregadores do caixão de Innocencio até o cemitério. Segundo conclusão do
subdelegado de polícia, todos eles confirmam o fechamento do caixão da vítima
quando de seu translado e a recomendação feita por Anna Rosa para que não o
abrissem senão no ato da encomendação do cadáver, atitude atípica aos costumes
da época, pois como encontramos explícito no corpo dos autos, era de amplo
62

conhecimento que sempre iam abertos o caixão de anjos51, militares, donzelas e


padres (AUTOS, 2009, p.210-242-243).
Embora não seja aqui nosso objetivo tecer juízos de valor acerca das
presumidas ações praticadas pela acusada, podemos observar que – sustentando-
nos no conteúdo das alegações feitas por Marcelino Romeu, bem como pelas
testemunhas e informantes há pouco mencionados – Anna Rosa conseguiu
mobilizar, imbuída da autoridade que lhe confere sua privilegiada posição social,
escravos e homens livres, cujas atitudes refletem o empenho que teve em livrar-se o
mais rapidamente possível do corpo de Innocencio. Afirmamos isso devido a pressa
que a mesma teve em mandar confeccionar o caixão da vítima e agilizar, antes das
6 horas da manhã, o enterro do mesmo, insistindo ainda na possibilidade de que
este saísse em casa alheia à sua, todas estas informações afirmadas por ela em
interrogatório.
Acrescente-se a tais circunstâncias o depoimento do Dr. Antônio dos
Santos Jacintho52 ao declarar que Innocencio morreu de hypoemia intertropical53,
consequência do hábito que este tinha de comer terra, estando ele testemunha
convencido de que o “escravinho nunca teve em/ poder da Senhora Dona/ Anna
Rosa Vianna ali/mentação, nem sufficiente/ nem dada a hora propria” (AUTOS,
2009, p.136). Chegando neste ponto a uma argumentação um tanto quanto dúbia e
problemática ao acrescentar que com isso não quer dizer que tenha havido
abandono completo do menor, mas sim uma “insuficiencia/ dos meios adquados a
debe/lar a dita molestia” (AUTOS, 2009, p.136). A dubiedade desta declaração, em
que se reconhece a ausência na prestação de cuidados a serem dados à vítima,
mas que obscurece (ou pelo menos tenta obscurecer) a responsabilidade de quem
se absteve do tratamento, torna-a suscetível a uma série de distorções, o que, neste
particular, acabou servindo como elemento favorável à acusada, circunstância que

Interessante observar que, ao menos neste particular, o caráter da indagação incidia na


51

possibilidade do menor Innocencio ser incluído na categoria de anjo, conferindo, neste aspecto, um
tom humanizado ao escravo, tal como podemos observar no depoimento do próprio Marcelino Romeu
que, quando questionado nos autos se é costume fazerem-se enterros de pessoas da idade de
Innocencio em caixão fechado, responde ser costume invariável que caixões de anjos, militares,
donselas e padres fossem levados abertos ao cemitério (AUOTS, 2009, p.210).
Como veremos no decorrer da análise, da condição de testemunha que ocupa no inquérito policial,
52

o Dr. Santos Jacintho passa à condição de principal perito do 2º corpo de delito realizado no corpo de
Innocencio já na fase judicial, situação bastante questionável e que lhe rendeu sérios
constrangimentos sociais.
Moléstia que, conforme Dr. Jacintho, quando abandonada muito facilmente concorre para uma
53

terminação funesta.
63

será melhor elucidada quando tratarmos do 2º corpo de delito feito no corpo do


menor.
Em sua defesa a própria Anna Rosa alega em auto de qualificação e
interrogatório em que foi submetida no dia 19 de novembro de 1876 pelo
subdelegado Antônio José da Silva Sá54, enquanto documento a ser anexado na
etapa de inquérito policial, que pelo fato de se encontrar só em sua residência
quando do ocorrido, estando apenas servida pela preta Zuraida, “não desejava
presenciar/ o triste quadro de enterro, tanto/ que por esta razão ella res/pondente
deligenciou manda/lo tratar-se fora” (AUTOS, 2009, p.94). Ainda nestes autos não
divergiu de boa parte das alegações feitas pelas testemunhas e informantes durante
a fase de coleta dos depoimentos, afirmando ter ordenado a Sebastião, escravo do
Dr. Santos Jacintho tomar as medidas do cadáver de Innocencio bem como fazê-lo
enterrar antes do nascer do sol. Afirmou também que incumbia a mulata Olympia de
aplicar corretamente o tratamento a ser dado ao escravinho, tratamento este
baseado no emprego de medicamentos e dieta alimentar, contrariando assim a
alegação do Dr. Santos Jacintho de que a falta de uma alimentação fortificante
apropriada contribuiu para acelerar a morte de quem já estava acometido pela
hypoemia intertropical.
Não era apenas a suspeita de não prover uma dieta alimentar e de ter
descuidado no emprego dos medicamentos de Innocencio o que pesava contra
Anna Rosa. Já era grande sua fama de maltratar escravos de sua propriedade, de
maneira que a formalização da acusação feita contra ela por ter seviciado o menor,
trouxe à tona uma série de outros tantos comentários acerca do costume que a
acusada tinha de seviciar uns escravos seus e de levar outros à morte por conta
destas mesmas sevícias. É o caso de Jacintho, irmão de Innocencio, também
escravo de Anna Rosa, morto dia 27 de outubro de 1876, menos de um mês antes e
sob os mesmos indícios que levaram à morte de Innocencio, fato este também
explorado no decorrer do inquérito policial. Neste aspecto, houve constante
interesse em tomar conhecimento sobre as condições de morte e enterro de
Jacintho, questões que não ficaram elucidadas não apenas por ser Innocencio a

Que, por sua vez, estava acompanhado do Promotor Público Adjunto Antônio Gonçalves de Abreu,
54

o escrivão Pericles Antônio Ribeiro, as testemunhas Joaquim Mariano Marques e Vicente Ferreira de
Carvalho e seu representante Carlos Augusto Nunes Paz que assinou a seu rogo por achar-se
incomodada e sem poder assinar Anna Rosa.
64

vítima formal do inquérito, mas por não dizer muito os depoimentos das testemunhas
nele envolvidas.
Acrescenta-se a tais informações o depoimento do tenente do 5º Batalhão
de Infantaria, Valério Sigisnando de Carvalho, que afirmou conhecer um escravo de
Anna Rosa que diversas vezes foi à casa do irmão dele testemunha pedir para que o
comprasse por não mais aguentar as barbaridades cometidas por sua senhora. Diz
ainda a testemunha saber por terceiros que a senhora Anna Rosa mandara numa
ocasião arrancar todos os dentes de uma mulata55 pelo simples fato de os ter
achado bonito seu marido, o Dr. Carlos Fernando Ribeiro. No entanto, uma
informação a mais neste depoimento nos parece bastante significativa, a de que
uma mulher queria empenhar um par de rosetas numa loja à Rua do Sol dizendo ser
o seu produto para comprar alguma coisa para seus netos comerem, uma vez que
estavam morrendo de fome em companhia da senhora deles que, no caso, seria a
própria Anna Rosa.
Com base nas alegações que constam nos depoimentos, podemos
asseverar que esta mulher tratava-se de Simplicia Maria da Conceição Teixeira
Belfort, liberta e incluída nos autos sob a condição de informante, declarou ser avó
de Innocencio e Jacintho. Embora tenha sido um tanto evasiva na fase policial do
processo, Simplicia foi mais minuciosa em suas declarações durante o inquérito
judicial, denunciando as agressões sofridas por seus netos e afirmando que estas
provinham das mãos de Anna Rosa Ribeiro. Disse ainda que pouco falou durante o
depoimento policial por achar que não seria mais preciso fazê-lo uma vez que já
teria denunciado os maus tratos cometidos por Anna Rosa ao chefe de policia numa
ocasião anterior56.

55
Não nos interessa aqui discutir a veracidade deste fato, sendo válido apenas destacar que esta
estória é bastante ilustrativa das atrocidades cometidas contra os cativos, estando longe de ser
atribuída somente à Anna Rosa Ribeiro.
Na descrição feita por Simplicia a respeito da denúncia de agressão, em que estavam submetidos
56

seus netos, ao chefe de polícia, podemos perceber o descaso da autoridade que se comprometeu a
averiguar o caso, situação que nos leva a inferir que tal fato esteja associado à fragilidade de sua
posição social, pois, ainda que fosse liberta, carregava o peso da descriminação contra sua cor.
Encontramos esta descrição às páginas 250 e 251 dos AUTOS.
65

Relevante também foi o depoimento de Geminianna57, preta forra que


declarou ser mãe de Jacintho e Innocencio, e quando, perguntada o que sabia
acerca do falecimento de seus filhos respondeu:

Quando morreo/ seo filho Jacintho foi ella infor/mante a casa de Dona Anna/
Rosa Vianna Ribeiro pedir/ que a deichasse ver, ao que lhe/ respondeo
Dona Rosa que o fos/se ver no Semiterio, porque/ quando os comprou não
sa/bia que tinha mae e que/ quando morreo Innocencio, em/contrando ella o
enterro per/guntou de quem era e saben/do que era de casa de Dona/ Anna
Rosa, dirigio-se ao/ semiterio para vel-o; e alli/ chegando não querião
consen/tir que fosse aberto o caixão e/ ella dizendo que queria/ ver depois
de morto seo filho/ já que em vida não o via,/ o sachristão abrio o caixão e/
ella vio que era o seo filho/ Innocencio, o qual estava com/ [fl.39v] os pulços
feridos, proveniente de/ ter sido amarrado com corda,/ tendo mais uma
ferida no bra/co, uma nas costas e outra no/ cotuvello. (AUTOS, 2009,
p.111).

Diz ainda não ter recebido recado algum da parte de Anna Rosa sobre o
falecimento de Innocencio, como teria informado às autoridades a acusada.
Respondeu ainda, na fase judicial do processo, que antes de serem vendidos, seus
filhos não demonstravam qualquer tendência para o vício de comer terra,
contrariando a alegação da senhora Anna Rosa que afirmou já tê-los recebido com
este mau hábito. Por fim, Geminianna atribui os ferimentos encontrados em seu filho
como provenientes “de cas/tigos e maos tractos; os dos pul/sos devidos a ter sido
amarrados/ com cordas, os das costas pro/dusidos por chicote, não sa/bendo o que
pensar a res/peito do ferimento do cotovelo/ que poderia ter sido occa/sionado por
uma queda” (AUTOS, 2009, p.245), e que ao vê-lo nestas condições logo supôs que
tais castigos foram praticados em casa de Anna Rosa.
No decorrer da leitura dos depoimentos registrados58 tanto no inquérito
policial quanto na etapa judicial, podemos observar a existência de duas categorias
em relação àqueles que falam numa inquirição, no que tange ao sistema jurídico
imperial brasileiro: é o caso da testemunha e do informante, que embora exerçam a
mesma função – qual seja, a de descrever o que se sabe sobre um fato ocorrido –
difere no que diz respeito à condição daquele que depõe. A distinção dá-se,

É esta mesma Geminianna que se encontra como uma das principais acusadas no processo
57

movido contra a pajé Amélia Rosa nos anos de 1877-1878 - de quem Geminianna era braço direito, o
de ter praticado sevícias na escrava Joanna pertencente à Dona Anna Araújo Trindade.
58
Assim atestam a clara distinção estabelecida, no conteúdo do processo de Anna Rosa Ribeiro,
entre testemunhas, representadas por homens livres com ocupações que lhes proporcionam relativas
posses, como podemos observar no ato de qualificação as figuras de Joaquim Marques Rodrigues,
João Marcelino Romeu, José Mariano do Rosario Machado dentre outros e os informantes, todos
escravos, como é o caso de Primo, Annisio, Geraldo, Sebastião dos Santos Jacintho.
66

sobretudo quanto ao fato da testemunha encontrar-se na condição de homem livre e


em consequência disso parecendo ter mais validada sua fala, ao passo que o
informante, representado pela figura do cativo, devido sua condição jurídica de
coisa, tem mais ambígua e problemática a credibilidade de sua informação.
Quanto a este aspecto, o historiador maranhense Yuri Costa faz uma
observação bastante pertinente a respeito do processo de subjetivação do escravo
no discurso jurídico brasileiro quando argumenta que um dos mecanismos que
envolvem a valoração de diferentes ações do cativo encontra-se no direito que este
tem de depor em juízo e ter sua fala validada, circunstância esta por muito tempo
imediatamente descartada pela legislação portuguesa (Ordenações Filipinas)
implantada em território nacional, em que se afirmava categoricamente que “o
escravo não pode ser testemunha, nem será perguntado geralmente em feito algum,
salvo nos casos por Direito especialmente determinados”59.
A condição formal de coisa atribuída ao elemento servil não o
impossibilitava de forma absoluta a contribuir num processo investigativo. Yuri Costa
explica que nos casos em que se entendesse “que o depoimento de pessoa proibida
de testemunhar pudesse ter valia para a solução do crime, sua fala poderia ser
tomada na condição de informante, terminologia, segundo Costa, inventada para
formalizar a fala do escravo no discurso judiciário imperial, sendo algo que transita
entre os extremos do testemunho e da informação. Salienta ainda que “era
considerado informante quem não podia ser testemunha, por lhe ser vedado proferir
juramento ou pelo fato de esse juramento, mesmo sendo possível, ter sido feito de
forma irregular” (COSTA, 2009, p.213). Quanto a este critério parece enquadrar-se
as pessoas de Simplicia e Geminniana que, mesmo na condição de negras forras
foi-lhes atribuído papel de informantes no processo-crime, circunstância esta que de
alguma maneira fragilizava seus depoimentos.
Finalizada a etapa de obtenção dos depoimentos, o subdelegado reuniu-
os ao laudo do primeiro exame de corpo de delito e ao conteúdo do interrogatório da
acusada, resumindo todo este material em relatório no qual, com base nas
informações nele contidas, concluiu com convicção a existência de um delito e que
seu autor seria a senhora Anna Rosa Vianna Ribeiro. Entregue os autos do inquérito
policial ao Ministério Público, representado pelo Promotor Público Adjunto Antônio

Trecho das Ordenações Filipinas citado em artigo por Yuri Costa.


59
67

Gonçalves de Abreu formalizou-se a denúncia contra a futura Baronesa de Grajaú


ao Tribunal do Júri sob a acusação logo abaixo por ele exposta:

Constando, pela voz pública, ao Sub/delegado de Policia do 2º districto, no


dia/ 14 deste mez, pelas nove horas da manhã,/ que no Cemiterio da Santa
Casa de Mise/ricordia, se achava para ser sepultado, o ca/daver de um
menor de nome Innocencio, es/cravo da denunciada, apresentando signaes
de/ sevicias, e tão recentes, que faziam convencer/ de que ellas tinham
occasionado a morte do/ dito menor; dirigiu-se, o Subdelegado, ao/
Cemiterio, e verificou a existencia dos casti/gos denunciados pelo povo.
Providencian/do immediatamente acerca do necessário cor/po de delicto,
pelos facultativos, Dr. Augusto Jo/zé de Lemos e Dr. Raimundo José
Pereira de/ Castro, confirmaram estes a existencia dos cas/tigos descriptos
no auto a fl.5 à 8v do inquéri/[fl.2v]to junto, declarando ter o infeliz escravo
mor/rido em consequencia das sevicias e maus tra/tos que o cadaver
patenteava e ficavam demon/stradas [sic] pelo exame á que haviam
procedido/ externa e internamente, como se vê do mesmo/ auto (AUTO,
2009, p.49).

E logo adiante acrescenta:

E, com effeito, das inquirições e pesqui/zas constantes dos autos annexos,


resultam/ os mais vehementes indicios de terem sido es/es castigos e maus
tratos, mais de uma vez ve/rificados no cadaver do menor Innocencio/
inflingidos pela senhora do mesmo, a denun/[fl.3]ciada, d. Anna Rosa
Vianna Ribeiro, n‟ausen/cia de seu marido, o Dr. Carlos Fernando Ribei/ro:
o que bem e claramente se evidencia das/ diligencias que ella empregou
exigindo a prom/ptificação do caixão, de modo que o enterro se fi/zesse
antes das seis horas da manhã d‟aquele dia 14, e da recommendação
expressa de/ se não abrir o caixão, se não no acto da en/commendação do
cadaver, fechando-se depois,/ e logo mettido na sepultura, isto sem duvi/da
para subtrahi-lo ás vistas do público; sen/do tambem para notar, que tendo
estado o ca/daver de Innocencio, insepulto desde o dia/ 14 até 15, por
ordem do Subdelegado, afim de/ proceder-se ao corpo de delicto, a
denuncia/da, que tudo sabia dos rumores espalhados, guar/dava a maior
indifferença acerca do que se/ passava á respeito do seu escravo, quando
era/ natural que ella procurasse convencer ao pu/blico de que d‟outra causa,
que não os castigos, provinha a morte de Innocencio... Desta sorte
indigitada a denunciada,/ como autora das sevicias e maus tratos
encon/trados e reconhecidos no cadaver de seu escravo In/nocencio, visto
que este durante o tempo em que/ foi possuido por ella, jamais esteve em
outro po/[fl.3v]der e debaixo de outras vistas, torna-se a mes/ma
denunciada, d. Anna Rosa Vianna Ri/beiro criminosa; e por isso, e em
cumprimen/to da lei, dá o abaixo assignado a presente/ denuncia, para o fim
de ser ella punida/ com as penas decretadas no art. 193 do Códi/go
Criminal... (AUTOS, 2009, p.50).

O teor do ato de denúncia aponta para um aspecto importante a respeito


de uma leitura da escravidão enquanto instituição em vias de supressão no Brasil.
Falamos da intervenção do Estado nos embates ocorridos entre senhores e
escravos, intervenção esta que poderia ocorrer não somente quando os escravos se
excediam, mas também quando extrapolavam os senhores em suas atitudes,
sobretudo em relação aos castigos empregados aos „seus‟ escravos.
68

Sabemos que, pela óptica daquela realidade, era comum e de direito de


um dito senhor de escravos castigar física e moralmente um outro encontrado na
condição de cativo, a restrição deste direito situava-se no abuso destes castigos,
implicando tal fato em ato de sevícia, atitude social e juridicamente reprovada, o que
permitia a este indivíduo escravizado ou a outrem a possibilidade de denúncia aos
órgãos competentes, como assim o fez a Promotoria Pública do Estado do
Maranhão contra a senhora Anna Rosa Ribeiro.
Admitida a abertura do processo judicial contra a aristocrata, uma das
primeiras medidas tomadas pelo substituto do Juiz de Direito do Terceiro Distrito
Criminal, Torquato Mendes Vianna, foi intimá-la para, perante dele, depor. Ocorre,
no entanto, que, em alegando problemas de saúde, a acusada, representada por
seu advogado – o Dr. Francisco de Paula Belfort Duarte de quem falaremos mais
adiante – entrou com petição para que ou se fizesse representar diante do juiz por
seu advogado durante todo processo ou que o sumário se realizasse no local de sua
residência. Pedido indeferido, o que fez com que a ré fosse considerada revel, ou
seja, a tramitação do processo dar-se-ia sem a participação e acompanhamento da
denunciada. Foi o que aconteceu durante boa parte da etapa de coleta dos
depoimentos das testemunhas e informantes, os quais, diga-se de passagem,
mantiveram-se em sua maioria não apenas em relação aos intimados, mas também
ao conteúdo de suas falas na fase policial.
A insistência da denunciada em tal petição não cessou, de maneira que
foi enviado ao juiz um novo pedido, este agora acompanhado de atestado médico –
assinado pelo Dr. José Maria Faria de Mattos60 - em que se certificava que após
exame realizado em Anna Rosa, a mesma sofria de beriberi e hepatite sub-aguda,
achando-se, portanto, sob uso de remédios e impossibilitada de sair de casa. Ao que
o juiz considerou: “Junto aos autos, proceda-se ao interrogatorio em/ casa da
denunciada, visto mostrar com attestado,/ que apresenta, que ainda continua a
impossibilidade/ de comparecer na sala das audiencias (AUTOS, 2009, p.273-274)”.

Que compõe o corpo de facultativos participantes do 2º corpo de delito. E, conforme informação de


60

César Augusto Marques, era filho de José Maria Faria de Matos, major da extinta Cavalaria Franca da
capital e de Dona Margarida Cândida Galvão, nascido nesta cidade a 19 de dezembro de 1820.
Formou-se médico-cirurgião em 1842 pela Escola Médico-Cirurgiã de Lisboa. Em princípios de 1869
foi nomeado capitão-cirurgião-mor do Estado Maior da Guarda Nacional do município e depois
inspetor interino da Saúde Pública. No princípio de sua vida médica, fora também vereador suplente
da Câmara Municipal, do Juízo de Órfãos e Juiz de paz.
69

Chegado o dia 15 de dezembro de 1876 deu-se os autos de qualificação


e interrogatório da acusada, em sua casa de morada como teria sido acordado,
estando aí presente o juiz substituto, o advogado de defesa e o promotor público, na
ocasião, Celso Magalhães, negando-se este a assinar o documento. Não mudou ela
o conteúdo de suas alegações prestadas ao subdelegado de polícia, comunicando-
se ora com poucas palavras ora mostrando-se um tanto evasiva e contraditória.
Respondeu que não castigou nem fez castigar a Innocencio. Que as escoriações
nele encontradas provavelmente foram provenientes de quedas que o escravinho
teve repetidas vezes no quintal de sua casa. Informa ainda que exigia que o enterro
da vítima fosse o mais breve possível para livrar-se deste incômodo e para não ver a
repetição de um ato para ela bastante doloroso e que se deu poucos dias antes com
a morte de Jacintho. Por fim, atribui sua denúncia a “um inimigo occulto e gra/tuito
que tem espalhado/ estes boatos contra ella in/terrogada” (AUTOS, 2009, p.288).
Como parte do conjunto de documentos a serem reunidos para a
formulação da defesa de Anna Rosa, seu advogado Francisco de Paula requereu,
ainda na fase policial, um pedido de exumação do corpo de Innocencio para que se
realizasse novo corpo de delito, agora periciado pelos Drs. Antonio dos Santos
Jacintho, José Maria Faria de Mattos, Fabio Augusto Bayma, Manoel José Ribeiro
da Cunha, Raimundo José Pereira de Castro e Augusto José de Lemos, estes dois
últimos, peritos do primeiro exame. Deferido o pedido, deu-se andamento ao
procedimento61, cujo laudo orientou-se pelos seguintes quesitos:

Primeiro, si a mor/te foi natural ou causada/ por violencia; 2º, si por/ molestia
poder-se-ha de/terminar a naturesa della,/ e era ella capas de produ/sir a
morte; terceiro, no caso/ sujeito, si foi morte cau/sada pela molestia, a que/
a attribuio o attestado do Fa/cultativo; quarto, se apre/senta o cadaver
contusões/ e são estas capazes de digo/ de justificar a morte por/ violencia;
quinto, si pelos/ caracteres das contusões,/ pode-se assegurar que o/
individuo morto houves/se sido repetidas veses/[fl.240v] castigado
corporalmente,/ e em tal caso, si o aban/dono ou carencia de tra/tamento
erão sufficientes/ para produzirem a morte;/ sexto, si o estado do cada/ver
denota, que o indivi/duo não tivesse sido ali/mentado regularmente até/ a
morte, ou si os indicios/ de alteração physica são/ ou não provenientes e
expli/caveis por moléstias; septi/mo, si há contusões na/ cabeça, e são
estas de/ naturesa especial, e pode-/se determinar a causa/ dellas (AUTOS,
2009, p.324).

No qual estavam presentes, além destes, o chefe de polícia Dr. José Mariano da Costa, o adjunto
61

do promotor público Antônio Gonçalves de Abreu e demais testemunhas.


70

Ao que o primeiro grupo de facultativos, formado pelo Drs. Antonio dos


Santos Jacintho, José Maria Faria de Mattos, Fabio Augusto Bayma e Manoel José
Ribeiro da Cunha, concluíram, após inspeção minuciosa no trato externo e interno
do cadáver que: a morte foi natural uma vez que resultante do fato de a vítima ter
adquirido hypoemia intertropical, doença que, segundo os doutores, pode ser
suficiente para causar a morte. Que havia contusões na extensão do corpo, porém,
que estas eram insuficientes para levar a óbito. Admitem também que Innocencio foi
castigado, embora não saibam determinar o número de vezes. Por fim, informam
que o alimento encontrado no estômago do cadáver não era adequado à natureza
da moléstia, mas que com isso não podem afirmar que houve carência de
tratamento, circunstância que por si só poderia ocasionar a morte.
Em divergência com tais observações, o segundo grupo de peritos,
composto pelos facultativos que realizaram o primeiro corpo de delito, considera que
– em acréscimo ao já dito no exame anterior – os parasitas encontrados no
estômago do menor eram tão em pequeno número que não se pode asseverar
terem sido estes a causa do seu falecimento, assim como não se pode descartar a
possibilidade deste ter sucumbido em consequência dos castigos a ele infligidos.
Quanto à questão alimentar do menor, consideram que este não demonstrava estar
entregue ao abandono nem deixado de ser alimentado, mas que parecia sê-lo de
uma maneira inconveniente ao tratamento da moléstia.
Chama atenção nestas alegações, sobretudo o posicionamento do Dr.
Antônio dos Santos Jacintho, o qual trouxe para a investigação um novo ingrediente
causador da morte do escravo, visto que, se antes a suspeita policial pairava em
maior grau para os indícios de maus tratos e descaso no emprego de medicamento
e alimentação apropriados como motivadores do falecimento do menor conforme
indicação do primeiro laudo cadavérico, com a intervenção do Dr. Santos Jacintho,
houve, digamos que um desvirtuamento da linha investigativa, quando afirmou ter
Innocencio entrado em óbito devido a „circunstâncias naturais‟ consequência da
doença hypoemia intertropical.
A defesa de tal posição rendeu a Antônio Jacintho uma série de
inconvenientes sociais de forma que, como nos argumenta o jurista José Eulálio
Figueiredo de Almeida, foi necessário que o mesmo abrisse mão do cargo que aqui
exercia e se retirasse para o município de São João Batista, local onde se dedicou a
outros expedientes. Esta situação revela o quão repercutido estava o caso criminal
71

em que se encontrava envolvida a futura Baronesa de Grajaú, com isso,


demonstrando uma opinião pública atenta e exigente à resolução do processo.
Afirmamos uma vez mais que a repercussão deste caso demonstra
predominantemente uma manifestação da interferência do poder público nos
conflitos entremeados por senhores e cativos numa época de ampliação da
atividade abolicionista na capital. O reconhecimento desta intervenção, porém, não
nos viabiliza afirmar, como veremos a seguir, que a autoridade senhorial ou a
importância deste domínio teria se dissipado ou pelo menos minimizado.
Sem, obviamente, desmerecer a importância de muitos dos depoimentos
presente nos autos, devemos destacar a relevância que tiveram os laudos
cadavéricos feitos em Innocencio uma vez que, através deles e de suas
divergências, podemos observar, se possível dizer, a tendenciosidade de algumas
observações ali contidas, veladas em meias palavras e informações um tanto quanto
contraditórias, sobretudo em se tratando das ofensas físicas a que foi submetido e a
aplicação da dieta alimentar correta ou não ao dito escravinho.
Com base nesta documentação erigiu-se boa parte das argumentações
desenvolvidas tanto pela defesa quanto pela acusação, ambas as partes atentas a
cada detalhe de seu conteúdo utilizando-os sob a letra da lei e a lógica de
pensamento característico de uma sociedade sustentada na dominação escrava. É o
que veremos nos próximos tópicos.

3.2 Alegações da defesa: o papel do Dr.Francisco de Paula Belfort

Em paralelo ao andamento do inquérito policial correu um trabalho prévio


de formulação da defesa de Anna Rosa Ribeiro, elaborada, como já tivemos a
oportunidade de mencionar, pelo Dr. Francisco de Paula Belfort Duarte, advogado,
político e jornalista maranhense cuja trajetória profissional foi sinteticamente
lembrada e exaltada por César Augusto Marques em seu Dicionário histórico-
geográfico da Província do Maranhão (2008, pp.80-81). Ainda assim, pouco se
sabe sobre dados biográficos mais aprofundados sobre o defensor da senhora Anna
Rosa Ribeiro. Sabemos ser oriundo de uma das três principais famílias da Província
– Bruces, Burgos e Belforts – que disputavam entre si a hegemonia política na
região (MEIRELES, 1972, p.121). Encontramos em Almeida apenas informações de
ter sido ele eleito – após defesa da acusada – para o cargo de Deputado Federal
72

pelo Partido Liberal, então chefiado por Carlos Fernando Ribeiro, marido de Anna
Rosa. Figura paradoxal, Paula Duarte gravitou entre os Partidos da Monarquia por
um dos quais foi eleito deputado geral pelo 1º Distrito na legislatura entre 1867 e
1870, quando aderiu às ideias republicanas. Integrou ainda a Junta Governativa que
governou a Província do Maranhão no ano de 1889 e fez parte da comissão revisora
do Código Criminal do Império de 1890 (2005, p.79).
No conteúdo de sua defesa consta uma extensa e detalhada carta na qual
o advogado da senhora Anna Rosa constrói uma linha argumentativa sustentada
nas supostas falhas do documento elaborado na fase do inquérito policial, e,
tomando como referência autores de forte expressão na ciência criminal da época –
ou mesmo antes dela – cita estudiosos como Sedillot, Briand, Chaudé, Casper,
Mittermayer, Pimenta Bueno, bem como fragmentos de Códigos Penais europeus,
para tecer duras críticas, às várias etapas do processo criminal. A primeira delas
está relacionada à maneira como se procedeu e consequentemente se confeccionou
o primeiro exame de corpo de delito, diga-se de passagem, bastante prejudicial à
sua cliente.
Apoiando-se obstinadamente na valorização dos princípios científicos e
jurídicos para a constituição de sua defesa, Francisco de Paula assinala que este
procedimento é nulo de pleno direito e insuficiente para atestar a existência jurídica
do crime, acrescentando ainda que:

A esse acto não pre/sidiram as solemnidades da lei, nem os preceitos/


scientificos, nem finalmente os escrupulos vul/gares que a gravidade da
missão dos peritos/ impõe e aconselha. Superficial e pouco/ detido, o
primeiro exame no cadaver em ques/tão indica apenas a idéa preconcebida
do cri/me, a preocupação que dispensa a analyse/ [fl.214v] a postergação
das formulas que conduz sempre/ ao erro irreparavel. Convidados a
constatar a existência de/ um crime, de cujas imaginarias peripecias/ tinham
tido previamente vagas informações,/ desnaturadas e apaixonadas, os
peritos, tendo/ à vista o cadaver não examinaram fria e/ scientificamente os
signaes que elle apresenta/va, contentando-se com descrever
confusamen/te as contusões, echymoses e marcas que des/cobriram á
primeira vista e de cuja grandesa,/ profundidade e caracter olvidaram a
minu/ciosa menção, que lhes é recommendada pe/los preceitos da arte e
especialmente pela/ lei criminal. Pimenta Bueno pag.89 (AUTOS, 2009,
p.293).

Os erros que aponta neste exame, para ele, estão relacionados não
apenas à presença do que denominou de „espectadores inúteis‟ no ato da autópsia,
mas, sobretudo à maneira irregular e extravagante como foram utilizadas as regras
73

científicas adequadas à prática dos médicos legistas, em que postula, citando ele
Sedillot, ser necessário examinar as três grandes cavidades do tronco: cabeça, peito
e abdômen, pois nelas residem frequentemente as lesões mais graves, sendo os
membros raras vezes a sede de feridas suficientes para causar a morte (AUTOS,
2009, p.294). Descrevemos esta afirmação por considerar que, foi com base nesta
prerrogativa que Francisco de Paula começou a dissolver, pelo menos em termos
científicos e jurídicos, a possibilidade de que Innocencio tenha falecido de maus
tratos, já que boa parte das contusões apontadas no corpo da vítima pelos legistas
do primeiro exame encontravam-se nos braços e nas pernas, sendo fundamental
constatar o fato de que estes mesmos legistas não examinaram as tais três
principais partes do corpo, falha altamente propícia ao desenvolvimento de
hipóteses favoráveis a acusada, como assim aconteceu.
Com base em tais considerações acabou o advogado de defesa taxando
o primeiro exame cadavérico de fantasioso, contraditório, insignificante, duvidoso e
recheado de parcialidade, pontuando que:

aos peritos de um corpo de delicto, não/ é licito fundamentar as suas


conclusões/ em conjecturas mais ou menos arriscadas/ e audaciosas – as
suas respostas devem ser/ firmes, absolutas, positivas por isso que/ são o
fructo da observação scientifica e/ as consequencias resultantes da
inspec/cão ocular. Desde que esta não é suffici/ente, ajudada dos recursos
da arte, para/ determinar a convicção, aconselha o ma/is vulgar critério que
se conclua pela não/ existencia do phenomemo apparente, que/ não pode
dar lugar ao procedimento da/ justiça” (AUTOS, 2009, p.295).

A racionalidade de sua argumentação a respeito da preferência legal pela


inexistência de crime quando não categóricas e absolutas as conclusões que
asseverem a sua concretude, encontra respaldo na documentação a partir da qual
desenvolve sua defesa, na medida em que, não foi apresentada, com base em
provas cabais, a existência de assassinato no primeiro procedimento.
É válido acrescentar, no entanto, que a crítica que o Dr. Francisco de
Paula fez em relação aos termos que provocam descrédito no primeiro exame, tais
como provavelmente, possivelmente, talvez, pode ser, que levam a um
distanciamento da verificação jurídica, encontram-se também na escrita do segundo
corpo de delito, para este advogado considerado como mais apreciável e digno de
respaldo científico, pois a partir dele houve um afastamento do campo das
conjecturas e probabilidades no qual estavam mergulhados os médicos do primeiro
74

laudo, tornando-se mais próximo do alcance de uma verdade científica quando os


peritos afirmam com convicção que Innocencio faleceu de morte natural, resultado
de hypeomia intertropical. Conforme observação de Francisco de Paula:

Presidiram ao segundo exame to/das as solemnidades estabelecidas na/ lei;


consagrou-o a presença do agente da/ justiça publica; a mais ampla
analy/se e discussão foi aberta; e de tantas ga/[fl.220v]rantias para a justiça
foi elle ladeado,/ que os mesmos peritos da primeira au/topsia
compareceram á diligencia á convi/te da authoridade exposeram e
motivaram/ as suas conclusões, que foram vencidas pe/lo parecer unisono
dos quatro médicos [do segundo corpo de delito] (AUTOS, 2009, p.299).

A confrontação que o Dr. Francisco de Paula estabeleceu entre os dois


laudos periciais realizados em Innocencio – considerados por nós os principais
documentos que constituem o processo-crime – demonstram a credibilidade que o
mesmo atribui ao segundo exame em detrimento do primeiro procedimento por
encontrar naquele, indícios mais favoráveis à absolvição de Anna Rosa Ribeiro,
imbuído que estava da função de defendê-la.
Isso porque, para Francisco de Paula, à diferença do primeiro exame de
corpo de delito, o segundo laudo seguiu mais à risca as regras a que deve se
submeter uma „legítima perícia‟, em que se exige ser orientada pelo exame das
premissas emitidas pelo perito, sendo estas analisadas com base nas leis científicas
e comparadas às alegações, depoimentos, confissões do(a) acusado(a) e de outras
peças de convicção (AUTOS, 2009, p.299).
Assim ele procedeu na etapa de Justificação, cujo conteúdo também foi
anexado ao material da defesa. Nesta ocasião foram submetidos a novo depoimento
o Dr. José Mariano da Costa, então Chefe de Polícia da Província; Luiz Travassos
da Rosa; Carlos Augusto Nunes Paes, que agenciou eventualmente, a compra dos
escravinhos Jacintho e Innocencio para Anna Rosa Ribeiro; Olympia Francisca
Ribeiro62, liberta e encarregada do tratamento do menor e, por fim e mais

É válido mencionar o papel desempenhado por Olympia Francisca Ribeiro neste processo, pois foi
62

nele bastante categórica ao defender sua senhora, declarando que Innocencio tinha o hábito de
comer terra, que os ferimentos de seus punhos eram oriundos de queimaduras e que nunca houve
ausência de cuidados nem na aplicação dos remédios nem no fornecimento de alimento ao menor.
Tais informações foram altamente favoráveis à Anna Rosa, mas, mais que isso, revelam quão
diversificada era a relação senhor/escravo no trato do cotidiano, já que mesmo submetida à
exploração que sua condição étnico-social lhe impunha, Olympia agiu em defesa de sua dona,
circunstância que nos possibilita pensar, por um lado, numa discussão acerca da definição de uma
identidade, do que nos aproxima em nome de um interesse comum, mas por outro, nos permite
questionar em que grau pode-se falar de conivência entre as envolvidas e qual a qualidade desta
atitude.
75

importante, o Dr. Antônio dos Santos Jacintho, do qual partiu a constatação de que
Innocencio teria falecido de hypoemia intertropical, devido ao vício deste de comer
terra. A estes depoentes foram inquiridas, pelo Dr. Francisco de Paula, as seguintes
proposições:

1º= Que o escravo Innocencio de menor eda/de, pertencente ao Dr. Carlos


Fernando Ribeiro/ ausente, e que fallecêra recentemente suc/umbido á uma
hypoemia, proveniente do/ habito de comer terra, tendo-lhe sobrevindo/
desyntheria sanguinea, estado edematoso e prolapso do annus.
2º= Que o dito escravo menór tinha em toda/ a superficie do corpo marcas e
signaes de/ pancadas, antes de adquirido pelo seu ulti/mo senhor.
3º= Que em o pulso ou punho apresen/tava elle antes de fallecer e depois
de/ fallecido uma cicatriz ou ferida, provenien/te de queimadura,
occasionada por impru/dencia, tendo o fallecido se queimado no acto/ de
assar um pedaço de carne em um fo/gareiro.
4º= Que o dito Innocencio fôra sempre/ tractado, cuidado, medicado e
alimenta/do convenientemente.

Ao que as colocações dos inquiridos convergiram incisivamente para a


seguinte conclusão: que a morte de Innocencio deu-se por hypoemia intertropical;
que existiam marcas e sinais de pancadas em seu corpo, porém, que estas eram já
anteriores ao domínio da acusada e que houve emprego de tratamento, cuidados,
medicação e alimentação convenientes. Tais afirmações fazem com que o advogado
de defesa acrescente que: “a idéa do crime está pois excluida; e/ como onde não
existe o crime não pode haver/ delinquente – certo e manifesto é que falta ao/
summario a base, a pedra angular em que/ tem de repousar a procedimento official”
(AUTOS, 2009, p.301). Argumentação amplamente imparcial e sustentada pela
lógica operacional jurídica.
Não somente o primeiro exame cadavérico feito no escravinho esteve
sujeito às críticas de Francisco de Paula. Também os dois processos a que foi
submetida sua cliente Anna Rosa, tanto na fase policial quanto judicial 63, foram,
conforme sua declaração, abusivamente arbitrários. Ao inquérito policial atribuiu
completa falta de senso e compromisso com a letra da lei uma vez que não cumpriu
com rigor e racionalidade as etapas que lhe compete pelas regras da ciência
criminal, às quais, segundo o Dr. Francisco de Paula estariam vinculadas à coleta de
provas vivas e recentíssimas em relação ao delito, dada através de uma atuação

A fase do sumário é, por Francisco de Paula, brevemente referida como um dos maiores exemplos
63

jurídicos de violação da lei e abuso de poder, ao considerar ter o juiz agido ex-officio, ou seja, como
formador de culpa, acumulando, desta forma, a função de julgador e de defensor de uma das partes,
não sendo este último um proceder de sua alçada, uma vez que a imparcialidade deve guiar suas
ações.
76

pronta, decisiva e que deva ser tão resumida quanto eficiente; que cumpra à risca o
procedimento de corpo de delito, verifique o fato punível, os depoimentos 64 bem
como os autores e cúmplices deste (AUTOS, 2009, p.302). Daí considerar que:

O que elle foi [o inquérito policial] – sabe a população in/teira desta capital –
uma devassa diffa/matoria, onde menos se inquiriu do de/lito do que da vida
privada, da condu/cta domestica, das realações intimas, da/ accusada... os
sulcos que elle abriu cons/tituem feridas profundas, que produsi/rão um dia
seus lamentaveis effeitos,/ não sendo o maior delles a usurpação/ [fl.223v] e
o confisco das attribuições da magistratura/ em proveito da policia, avida e
insaciavel/ de arbítrio, prompta sempre para sacrificar/ em seu altar a
liberdade individual e politi/ca dos membros da nossa sociedade tanto/ mais
infeliz quanto mais facilmente expo/liavel (AUTOS, 2009, p.302).

Acusa ainda falhas na maneira como procedeu o subdelegado de polícia


do 2º Distrito devido ao trato que este teve com as testemunhas e informantes, e ao
permitir, já nesta etapa, a intervenção de um promotor público no andamento da fase
de coleta dos depoimentos, considerando estar caracterizado no Código Criminal a
ilegalidade deste procedimento65. Ilegalidade esta que aponta estar presente
também no ato de interrogatório da denunciada, considerando:

Digno da mais alta censura, arbítrio pe/rigoso, execravel e funesto [ser] o


interrogatório a/ que esteve a accusada sugeita com manifesta surpresa,
tanto mais condemnavel quanto de/balde interpoz a justa reclamação da
assisten/cia de seu advogado, que lhe foi negada, viola/do assim o principio
capital da lei moral e/ criminal, por virtude de cujo preceito não de/vem os
agentes do poder publico desrespeitar o/ domicilio, nem pretender por
meios capciosos a/ extorsão de indicios compromettedores da seguran/ça
do accusado. A confissão apenas vale quan/do é coincidente com as provas
dos autos – o que/ quer dizer tanto como não ser licito á Juiz al/gum buscar
arranca-la ao medo, a perturbação, á fraqueza do sexo... (AUTOS, 2009,
p.304-305).

Um parêntese aqui nos parece bastante válido quando o advogado de


defesa de Anna Rosa Ribeiro, acrescenta um ingrediente a mais na substância de

Quanto à etapa da coleta de depoimentos na fase policial, Dr. Francisco de Paula destaca ainda
64

que “das vinte e seis testemunhas ouvidas – uma/ não há que haja assistido ao pretendido crime,/ ou
delle tenha tido a menor noção” (AUTOS, 2009, 303). Esta declaração serve, portanto, para reforçar a
conclusão juridicamente viável da não existência do crime, e consequente de um autor. Além do
mais, considera que, afora as alegações de Carlos Augusto Paes, Gregoria Rosa, Olympia Francisca
Ribeiro e Antônio dos Santos Jacintho que „falam bem alto em favor da inocência da acusada‟
(AUTOS, 2009, p.309), os depoimentos adquiridos na fase judicial são nulos e despojados de
critérios, uns difamatórios e outros inverossímeis, justamente por não conter neles provas reais que
incriminem a ré.
Diz isso por considerar não existir nenhuma lei que permita a intervenção do promotor público no
65

inquérito policial, “antes é patente das disposições exaradas [no artigo 42 do Código] que a
assistência do acusador é excessiva em tal processo” (AUTOS, 2009, p.304).
77

sua defesa ao mencionar a fraqueza do sexo que pertence sua cliente, quando
sabemos fazer parte da mentalidade da época – e Michel Foucault tem contribuição
significativa sobre o tema – que as relações de gênero, do que se definiria como
feminino e/ou masculino, já era assunto largamente explorado nas ciências
(medicina, psiquiatria, economia, pedagogia e mesmo do direito) que estavam em
processo de institucionalização no século XIX, com a instauração das chamadas
sociedades burguesas. Pensada como ser débil, frágil e, por isso, suscetível às mais
diversas perturbações, essa característica representativa do ser feminino acabou,
neste caso particular, agregando valor positivo à circunstância em que estava
submetida Anna Rosa Ribeiro, sinalizando assim que já há produção de um ser
„fraco‟ no discurso jurídico.
No entanto, acreditamos que, não foi exatamente o fato de ser mulher66 o
que motivou sobremaneira a absolvição da ré, mas por pertencer esta às camadas
economicamente e politicamente mais privilegiadas da capital da Província e por se
tratar a outra parte de um indivíduo marcado pela condição de escravo.
Notemos que com as duras críticas apontadas por Francisco de Paula ao
conteúdo do inquérito policial houve um redirecionamento da leitura jurídica dos
fatos na medida em que os argumentos por ele articulados incidiam sobremaneira
na supostas deficiências de cunho científico – a partir do qual se define o legítimo
saber jurídico – demonstradas nesta primeira etapa da investigação, o que não nos
permite afiançar que esta colocação refletia alguma espécie de hierarquia na
legitimidade dos discursos policial e jurídico. Entendemos que sua crítica à fase
policial, que não chega a ser uma crítica ao método de inquérito policial de modo
geral, esteja vinculada a um desfavorecimento que seu conteúdo poderia gerar para
66
Embora não nos seja possível traçar, a partir das particularidades deste caso, noções mais amplas
a respeito da condição feminina para uma realidade escravista, podemos conjecturar, no entanto, que
a fama atribuída a Anna Rosa Ribeiro, pela opinião pública, de maltratar seus escravos, e que
antecedia ao processo a que foi sujeita, indicam que as atitudes da acusada diferiam dos padrões de
feminilidade (submissão, passividade, confinamento ao espaço doméstico) privilegiados naquele
período, especialmente àquelas provenientes das classes dominantes para as quais se dirigiam,
predominantemente, os discursos de feminilidade burguês. Anna Rosa não era um caso isolado. Em
estudo biográfico sobre personalidades marcantes para a História do Maranhão, a pesquisadora
Elizabeth Abrantes discorre sobre a vida de Ana Jansen, mulher de “trajetória singular e em muitos
aspectos contrária aos estereótipos atribuídos ao sexo feminino” (ABRANTES, 2011, p.53), devido
tanto ao reconhecimento de sua forte influência na vida política e econômica da capital da Província
quanto pela crueldade com que tratava seus escravos. Talvez a ideia de fragilidade que se tentou
vincular às mulheres, sobretudo às mais abastadas, se dissipasse frente ao poderio social a que
sabiam pertencer mulheres como Ana Jansen e Anna Rosa Ribeiro. A noção de moralidade feminina
então vigente batia-se diante de atitudes sádicas tomadas por aquelas(es) que abusavam de sua
„autoridade‟ nas relações escravistas, mostrando mais uma vez que nem sempre a teoria condizia
com a experiência vivida.
78

sua defendida. A ênfase nas falhas científicas indicam a própria maneira como se
pretendia o discurso jurídico e suas instituições submeterem os membros de uma
sociedade e de uma época.
Tão expressiva quanto a formulação da defesa foi o papel da acusação,
que, à diferença do que se acostumou a dizer sobre este processo, foi iniciada a
partir de denúncia efetivada pelo promotor adjunto Antônio Gonçalves de Abreu uma
vez que o promotor público titular da capital, Celso da Cunha Magalhães,
encontrava-se, segundo explicações presentes na Introdução dos autos transcritos,
em licença por motivos de enfermidade, somente reassumindo suas funções a 9 de
dezembro de 1876, já em andamento a fase judicial dos depoimentos.

3.3 As argumentações da acusação

Vejo a figura atraente, fascinante, de Celso Magalhães, o promotor público.


Em torno dele uma admiração entusiástica, comovida, que eu não
compreendia, mas cuja intensidade me avassalava. Das impressões que
então recebi, ficou-me a imagem de um rapaz muito magro, feio, ossudo,
encovado, móvel e falador. Não me lembro como se trajava, apenas me
recordo de que trazia na botoeira do paletó uma flor vermelha, lágrima-de-
sangue, que por muito tempo se chamou no Maranhão a flor do Celso.
Morreu moço, logo depois da subida dos liberais ao poder, cujo primeiro ato
de governo fora demitir a bem do serviço público o promotor, que ousara
67
acusar a assassina do escravinho Inocêncio...

Assim escrevia Graça Aranha, ainda bem jovem, em exaltação à figura de


Celso Magalhães, personagem de expressiva participação na história jurídica da
Província do Maranhão. Bastante ilustrativa, a fala de Aranha reverberava um
pensamento, ainda que romantizado, de um homem reconhecido ainda em vida pela
coragem e profissionalismo com que colocou no banco dos réus um membro da elite
provinciana maranhense e que por isso lutou, com todos os recursos de que lhe
dispunha diante da autoridade da lei, orientado, sobretudo pelos fortes ideais
republicanos e abolicionistas que guiavam suas ações.
À diferença do Dr. Francisco de Paula – e por motivos não muito claros
para nós – falou-se e ainda fala-se muito sobre a breve trajetória do advogado,
jornalista e escritor responsável pela acusação de Anna Rosa Ribeiro, e cuja
biografia encontramos com riqueza de detalhes no Livro do Sesquicentenário de

Fragmentos do livro O meu próprio romance do escritor maranhense Graça Aranha à página 80.
67
79

Celso Magalhães (1849-1879) (2008), organizado pelo escritor maranhense Jomar


Moraes. Neste livro Magalhães é mencionado como

Um precursor, sem dúvida, um homem avançado, um verdadeiro chevalier


sans peur et sans reproche pois não lhe faltou, em instante decisivo de sua
vida, nem a coragem nem a determinação para cumprir seu dever como
promotor público, e como cidadão, ao denunciar a fidalga Ana Rosa Ribeiro,
esposa do presidente do Partido Liberal, Carlos Fernando Ribeiro, pela morte
de um escravo de 9 anos de idade. Celso agiu e fez a polícia agir,
instaurando o inquérito para apurar o crime que hoje seria rigorosamente
classificado como hediondo, tantas e tais as torturas infligidas à pequena
vítima pela cruel senhora (1999, p. 29-30).

Marcadamente sustentada na dominação e exploração senhorial, esse


tipo de sociedade percebia como corriqueiros os castigos infligidos a um escravo por
seu senhor ou a mando dele, circunstância esta que também encontrava amparo na
própria lógica jurídica da época em que, como exemplo ilustrativo, podemos
mencionar a argumentação de defesa de Anna Rosa ao destacar que “o castigo/ do
escravo é um direito do senhor” (AUTOS, 2009, p.309). Direito cada vez mais
questionado, sobretudo nos anos finais da escravidão não somente pelos
intelectuais abolicionistas, mas pelas próprias ações dos escravos quando recorriam
a estas mesmas instâncias com intuito senão de libertar-se, mitigar a imposição da
autoridade senhorial.
O acompanhamento do processo por Celso Magalhães desde a etapa
policial e sua efetiva participação a partir da fase judicial, tão criticada na fala do Dr.
Francisco de Paula, fez com que o promotor público, antes mesmo de elaborar suas
alegações de acusação, entrasse, no dia 21 de dezembro de 1876, com pedido de
prisão contra Anna Rosa Ribeiro, já que, segundo ele, foi “processada n‟esse Juiso
por crime classi/ficado no art. 193 do Cod. Criminal, visto co/mo, tanto do inquérito
policial, como do suma/rio, resultam vehementes indicios de sua cri/minalidade...”
(AUTOS, 2009, p.377). Ao que o juiz ponderou que:

Não me julgo com competência para ordenar/ a prisão, visto importar o


despacho que a tivesse de de/terminar prejulgamento da questão que faz o
objeto da/ sentença de pronuncia, sendo o fundamento daquella/
determinação exactamente o mesmo que serve de base à/ pronuncia
(AUTOS, 2009, p.377).

Indeferido o mandato de prisão contra Anna Rosa, segue Magalhães


construindo suas alegações finais de acusação, cujo teor sustentou-se, sobretudo no
80

rebatimento dos pretensos erros apontados pelo advogado de Anna Rosa Ribeiro no
processo-crime. Bastante breve em suas argumentações, Magalhães declara,
inicialmente, que não houve negligencia dos peritos nem quanto uma suposta
permissão destes à presença de curiosos no local da autópsia, nem nas
formalidades legais para execução do corpo de delito ou do andamento do processo
em si. Consta, desta forma, em suas considerações que:

Apesar do grande esforço dispendido pelo Advogado da accusada/ para


provar a innocencia de sua constituinte, na analyse do/ inquérito e do
sumario, na exaltação desvairada da linguagem,/ na accusação habitual e
programmatica contra os encarrega/dos da justiça pública, na prodigalidade
offensiva do dóesto e/ dos qualificativos acerados, não conseguio elle
provar o seguin/te – a não existencia de um delicto e que não fosse sua
consti/tuinte a authôra d‟elle (AUTOS, 2009, p. 387).

Ao que parece, para Magalhães, a incapacidade, por parte do Dr.


Francisco de Paula em provar a inexistência do crime e com isso anular as suspeitas
que incidiam sobre sua cliente, fizeram com que o advogado de defesa adotasse
uma postura de ataque ao conjunto das peças que compunham os autos. Em
resposta à crítica feita pelo defensor em relação ao primeiro corpo de delito
Magalhães retruca que:

O corpo de delicto não está inquinado de nullidade, nem/ tão pouco deixa
caminho aberto para concluir-se que não/ houve um delicto. As pretendidas
accusações, de que não fo/ram abertas as principaes cavidades e de que o
exame não foi/ minuncioso, não podem subsistir. Dizer que os peritos do
cor/po de delicto não trataram de medir a extenção, profundidade/ e
caracter das echymoses e escoriações encontradas no cadaver de/
Innocencio e que as descreveram confusamente, que não usa/ram dos
meios praticos para verificarem a natureza das con/tusões, é affirmar um
facto sem proval-o, visto como o advo/gado da deffeza não presenciou o
processo de que se serviram os/ peritos para o exame. O auto não podia
conter todo/ o processado do exame e n‟elle lavram-se unicamente os seus/
resultados. Foi, pois, uma affirmação vasia e desajudada de/ prova, tanto
mais quanto o Dr. Santos Jacintho declara,/ na carta apresentada pela
deffeza, que encontrára incisões/ [fl.292] praticadas nas echymoses, meio
pratico de reconhecer-lhes o ca/racter (AUTOS, 2009, p. 387-388).

Magalhães assevera ainda que o conteúdo do segundo corpo de delito, à


diferença da leitura feita pelo Dr. Francisco de Paula, somente serve para reafirmar
a existência de um crime, uma vez que o reconhecimento de que o menor tenha
falecido devido a presença de hypoemia intertropical, doença que, quando
descuidada, como sugere o promotor ter acontecido com Innocencio, contribui para
acelerar a morte. Para Magalhães, portanto, é fato principal e irrefutável, nos dois
81

exames cadavéricos, a existência de sevícias. Contribui ainda para esta conclusão o


delineamento que faz a promotoria acerca da trajetória das atitudes de Anna Rosa
Ribeiro após a morte do escravo, sustentado-se no que disse as testemunhas no
decorrer dos depoimentos. Partindo destas informações considerou-se que o
empenho da denunciada em livra-se do corpo de Innocencio, somado à constatação
da existência de maus tratos e suspeitas de que não eram empregados
adequadamente nem alimentação nem medicamentos ao menor, fez o promotor
afirmar que tudo concorre para a pronúncia da acusada como autora do delito.
Chegada a etapa final de coleta de provas cujo material compõe-se
principalmente de dois laudos cadavéricos amplamente divergentes, decidiu o juiz
do processo, José Manoel de Freitas, convocar nova junta médica afim de
aproximar-se definitivamente de uma conclusão mais imparcial da causa da morte
do menor, ação que não surtiu efeito devido à não aceitação de boa parte dos
facultativos em participar do novo procedimento, tornando-se, desta forma, inviável o
cumprimento da diligencia uma vez que não existiam, na cidade, médicos suficientes
para realizá-lo, conforme número mínimo estabelecido pela lei.
Sendo assim, em 23 de janeiro de 1877, após vistoria dos autos, foi
proferido pelo juiz que:

O cod. do Proc. Crim., no art. 145, e/ o Reg. nº 120 de 31 de janeiro de


1842,/ no art. 286, determinam que “quando/ o juiz não obtenha pleno
conhecimento/ do delicto, ou indícios vehementes de/ quem seja o
delinquente, declarará/ por seu despacho nos autos que não/ julga
procedente a queixa ou a de/nuncia” (AUTOS, 2009, p.433).

Baseado neste princípio foi anunciada a sentença de impronúncia,


argumentando o juiz, não haver provas suficientes que atestem ter a ré Anna Rosa
Vianna Ribeiro assassinado seu escravo. O principal fundamento para a definição
destes termos sustentou-se na consideração de que o primeiro corpo de delito
tornou-se deficiente para provar que a vítima morrera em consequência de ofensas
físicas uma vez que apoiou-se em respostas vagas, conjecturais e indecisas
tornando inviável ao juiz estabelecer um fundamento seguro acerca da fatalidade do
crime que se investigava.
A partir desta resolução deu-se início a nova etapa do processo criminal
já que não satisfeito com o resultado, resolveu o promotor Celso Magalhães utilizar
de todas as possibilidades legais que ainda lhe restavam para tentar reverter a
82

decisão de impronúncia feita pelo juiz por entender não estar esta condizente com
as alegações dos autos. Sendo assim, houve uma releitura do material colhido até
então, de maneira que estes serviram como base para a elaboração dos recursos,
contra-razões e apelações formuladas por ambas as partes, acusação e defesa,
chegando-se com isso a uma decisão final e incontestável pelo Superior Tribunal da
Relação, etapa que veremos logo a seguir.

3.4 O desenlace do processo

Logo que proferida a decisão, Celso Magalhães apresentou recurso


contra a impronúncia alegando ao Supremo Tribunal da Relação ter o juiz da causa
orientado sua conclusão com base, essencialmente, no exame de corpo de delito,
não privilegiando assim, as informações oriundas dos depoimentos das
testemunhas, por esse motivo reclamou que:

... o delicto não se prova unicamente com o exame res/pectivo e, para a sua
verificação, attendem-se á todas/ as circunstancias anteriôres,
concumitantes e poste/riôres, levam-se em conta todos os factos que
podem/ esclarecer e, na pronuncia, dirige-se o processo para/ o tribunal do
jury, afim de ahi ser plenamente/ [fl.340] discutido perante os juizes
populares, que tem o poder discrec/cionario de condemnar ou absolver
(AUTOS, 2009, 455).

Magalhães acrescenta à sua argumentação ter sido este um princípio


legislativo para o qual o juiz deu pouco peso não apenas por desqualificar a
praticidade do conteúdo deste documento, mas também por não agregar a ele uma
leitura sustentada em elementos morais, o que com isso, não retirava seu valor
jurídico, critério necessário para provocar uma convicção lógica e razoável sobre o
caso.
O corpo de delicto não é unicamente um acto de verificação/ material do
crime, que deixe de parte o exame dos ele/mentos moraes, que possa ser
encarado somente pela/ descripção physica do objeto examinado. Para que
elle/ possa valer, deve acompanhal-o um concurso de elemen/tos moraes,
que – comparado com o facto incrimina/do – dê em conclusão um resultado
lógico (AUTOS, 2009, p.456).

Seguindo esta perspectiva, Magalhães alega que, embora as respostas


contidas no exame não tenham sido marcadas pela exatidão, em casos desta
natureza exige-se uma análise calcada em afirmações históricas sob as quais
83

repousa um encadeamento de probabilidades racionais que ao juiz incumbe pesar


antes de declarar sua posição, posição esta que deve estar submetida a uma
interpretação que faz acerca do conjunto das peças reunidas no decorrer não
apenas do procedimento cadavérico, mas também da coleta de provas e
depoimentos de testemunhas.
Somado às razões do recurso, o promotor anexou uma certidão em que
procurou demonstrar ter a acusada o hábito de maltratar seus escravos, informação
esta, segundo ele, sancionada mesmo pela voz pública, através dos fatos que
narram diariamente a seu respeito. No conteúdo deste documento descreve-se que:

Aos dose dias do mes de Agosto de/ mil oitocentos setenta e dous, nesta/
Cidade do Maranhão, na Secretaria/ de Policia, onde se achava o Senhor/
João Hircano Alves Maciel, Chefe de/ Policia, ahi compareceu/ Dona Anna
Rosa Vianna Ribeiro, se/nhora da escrava Ignez, crioula, de/ desaseis
annos de idade pouco mais/ ou menos, que vindo pedir garantias/ pelo seu
bom tratamento, visto como/ tem sido castigada immoderada/mente, o
mesmo Doutor Chefe de Policia/ mandou lavrar o presente termo de/
responsabilidade, pelo qual se obrigou/ a mesma Senhora Dona Anna, no
caso/ de querer continuar a possuir a dita/ escrava, a tratal-a bem, deixando
de/ a castigar immoderadamente debaixo/ das penas da lei, assim como
obrigou/se tambem a mandar apresentar nes/ta Repartição a dita escrava
sempre/ que for para isso exigido. Para cons/tar lavro o presente termo, em
que as/signou, e rubricado pelo Dou/tor Chefe de Policia. Eu Antonio
Fran/cisco de Salles Junior, amanuense o [fl.356] escrevi. João Hircano. D.
Anna Rosa Vianna. Termo de entrega... (AUTOS, 2009, p.504).

Baseando-se neste termo de responsabilidade Magalhães endossou o


questionamento sobre a procedência de vida da ré, antes de sua denúncia formal,
fosse tão ilibada quanto pregava seu advogado, argumento por si só favorável ao
exercício jurídico e legítimo da promotoria, pois, amparando-se nas leis do Código
de Processo Criminal então vigente, era também responsabilidade da esfera pública
a proteção do cativo.
Além das razões do recurso e da certidão que declara a prática de maus
tratos a escravos por Anna Rosa, Magalhães anexou um requerimento em que
constam quesitos que põem em discussão se houve ou não existência de sevicias,
se estas apressaram a morte da vítima e, por fim, se existiu carência do tratamento
na doença do menor e se esta pode ser considerada natural ou provocada. Ao que
os doutores Francisco de Paula Oliveira Guimarães, Augusto Teixeira Belfort Roxo e
José Ricardo Jauffret responderam que a morte decorreu de maus tratos, que
84

embora não se garanta fossem repetidos, contribuíram para acelerar a morte, não
podendo se afirmar, com isso, que houve morte natural68.
Seguido ao pedido de recurso pela promotoria e como parte do
procedimento judicial, encarregou-se o advogado de defesa, em nome de sua
cliente, de elaborar as contra-razões e as anexações de documentos necessárias à
sua defesa. Neste arrazoado Francisco de Paula reforça as argumentações
elaboradas na defesa anterior considerando que a substância do sumário vai contra
os princípios legislativos empregados pelo Código Criminal, o que ficou demonstrado
pela constante falta de fundamento da acusação. Insistiu o defensor na ausência do
emprego correto das técnicas científicas para a realização do exame de corpo de
delito, a partir do qual não ficou certificado a fatalidade do crime e tampouco quem
seria seu executor. Com este posicionamento buscou Francisco de Paula reforçar a
importância que um laudo cadavérico tem para uma decisão judicial uma vez que,
em casos de homicídio, o corpo de delito apresenta-se como meio mais eficaz de
verificação de que pode dispor o juiz para fundamentar o conhecimento definitivo do
ato criminoso. Nas palavras do advogado:

Os recursos que o processo offerece pa/ra o conhecimento do crime são –


art.134 do/ código do processo – quanto aos crimes que dei/xam vestigios
que possa, ser ocularmente/ examinados – o auto de corpo de delicto –
não/ existindo vestigios – o depoimento de testemunhas/ inquiridas no
summario – art. 47 da lei de 3 de desembro de 1841. E deste ultimo/ texto
legal decorre que sem corpo de delicto/ não se poderá formar processo por
crimes/ que deixam vestigios, visto como o auto/ do corpo de delicto é em
taes casos o meio/ único de attingir ao conhecimento pleno,/ exigido pelo
artigo 145, da infração da lei/ penal (AUTOS, 2009, p. 512).

Dando sequencia à formalidade processual e tomando por referência os


argumentos do recurso da promotoria, o desembargador Antonio Barros
Vasconcelos, presidente da Relação desta Província, deu parecer favorável ao
andamento do libelo declarando que:

Faço saber, que nos autos de recurso cri/me, em que é recorrente o


Promotor Públi/co da Capital, e recorrida D. Anna Rosa/ Vianna Ribeiro, se
proferio em 13 do corren/te Accordão dando provimento ao recurso/ para o
fim de pronunciar a denunciada/ no art. 193 do Cod. penal, e sujeitando-a/ a
prizão e livramento, e mandando lançou/ o seu nome no rol dos culpados –
custas a/ recorrida, O que se cumpra,/ remettendo se estes autos ao juízo a
quo... (AUTOS, 2009, p.532).

Submetido às mesmas indagações formuladas pelo promotor Celso Magalhães, o Doutor Manuel
68

José Ribeiro da Cunha foi o único a reafirmar as conclusões do segundo corpo de delito.
85

À reforma da decisão recorrida através do Tribunal da Relação, no dia 13


de fevereiro de 1877 efetuou-se imediato mandato de prisão contra Anna Rosa, ficou
ela recolhida no 5º Batalhão de Infantaria e logo transferida para a Cadeia Pública,
situação sine qua non para os padrões de hierarquia da época.
Por meio do libelo acusatório buscou a promotoria provar à Justiça
Pública: primeiro, que a ré infligiu sevicias em Innocencio desde o ato de sua
compra até o dia de seu falecimento, maus tratos estes verificados no corpo de
delito; segundo, que estando o menor acometido por moléstia, teve a morte
acelerada por estes castigos; terceiro, tenta provar ainda que o crime executado foi
premeditado devido á insistência contínua na aplicação dos castigos estando sua
autora ciente das consequências deste ato. Tais circunstâncias não permitem
atenuante algum a favor da acusada. Sob estes critérios foram arroladas e
submetidas boa parte das testemunhas já declarantes desde a abertura inicial do
processo-crime, às quais foram designadas para depor, desta vez, diante do
Tribunal do Júri. Quanto à defesa, Francisco de Paula, apresentou em cartório,
termo no qual enfatiza a contrariedade do libelo.
Devidamente preparado e apresentado os autos do processo à instância
por ele responsável, promoveu-se a sessão de julgamento após leitura dos termos
formais para sua abertura com o anúncio das testemunhas oferecidas pelo promotor
público, estas, após sorteio do Júri de Sentença, ficaram recolhidas numa sala sem
poder ouvir os debates nem as declarações umas das outras.
Nesta etapa, não se lê em detalhes nem a fala da acusação nem da
defesa. No documento não ficam registrados o conteúdo de suas argumentações,
nele se descreve apenas terem as partes desenvolvido suas posições, expondo
provas, fatos e razões que sustentaram ou a culpa ou a inocência da denunciada.
Finalizado tal procedimento afirmou o Júri de Sentença estar suficientemente
esclarecido para julgar a causa, no que, por unanimidade de votos declararam não
ter Anna Rosa Ribeiro castigado ou seviciado o escravinho Innocencio, o que,
consequentemente, não pode ser apontado como motivo que levou à morte do
mesmo. Conforme este parecer o juiz Umbelino Moreira de Oliveira Lima anunciou:
“Em vista da decisão do Jury absolvo a ré/ [fl.398] D. Anna Rosa Vianna Ribeiro da
accusação que lhe foi intentada, mando se risque seu nome do rol dos culpados,/ se
lhe passe alvará de soltura...” (AUTOS, 2009, p.612).
86

Ainda como último recurso, requereu o promotor Celso Magalhães


permissão para elaborar um arrazoado em que apelava da sentença absolutória
para o Supremo Tribunal da Relação. A esta altura, mesmo com o deferimento do
órgão judiciário responsável pelo trâmite, se tornavam cada vez menores as
possibilidades de que houvesse uma reviravolta no resultado do processo já que
nesta fase, não foi acrescentado nenhum novo elemento que viesse a comprometer
as argumentações anteriormente expressas pela defensoria.
Dentre as razões da apelação, Magalhães critica, inicialmente, a maneira
como foram elaborados os quesitos a que foram sujeitados responder os jurados
bem como a incongruência destas respostas. Aponta falhas na garantia de sigilo
entre as testemunhas já que, segundo o promotor, estavam as mesmas dispostas
em completa comunicação com os espectadores, conversando numa sala
francamente aberta ao público, podendo se tomar conhecimento do que se passava
no tribunal. Considerou irregular também o andamento do interrogatório da acusada
que, segundo ele, teve constante amparo do seu advogado para efetuar suas
respostas, atentando Magalhães para o fato de que:

O interrogatório é considerado entre nós como um meio/ de prova (art.94 do


Cod. do Proc. Crim), e por isso/ é um acto deixado unicamente á vontade do
accusado./ A insinuação de uma pessoa que vê os fatos de fóra,/ na frieza
da analyse e do calculo, na sultileza da ex/plicação das circunstancias que
poderiam provar o de/licto, é manifestamente illegal e nullifica o acto,
tor/nando-o sem valôr moral e juridico (AUTOS, 2009, p.642).

Com base nestas alegações procurou a promotoria atestar suas


convicções tomando como referência os depoimentos de algumas testemunhas
através das quais, entre alguns silêncios e poucas negações, sobrepôs-se a
afirmativa de que houve contato entre a ré e seu advogado bem como entre os
integrantes do júri, contrariando assim, o princípio legislativo de isolamento entre
todas estas partes.
Numa brevíssima explanação, o advogado de Anna Rosa argumentou
não existir razão jurídica para a referida apelação uma vez que as alegações nela
contidas são infundadas e carentes de provas sólidas capazes de destruir as
afirmativas constantes na ata da sessão do júri.
87

Cumprida as formalidades do processo e com base na releitura de seu


relatório, julgou-se improcedente a apelação interposta da sentença. Findo
processo, definitiva absolvição da ré.
Permeando as razões da denúncia, as argumentações da defesa, os
recursos, as contra-razões e apelações, enquanto etapas deste processo,
exprimiam-se os usos e falas que, através das posturas da acusação e da defesa,
se fez e se pode perceber acerca da famigerada instituição escravista no Maranhão,
cuja desigualdade social era marcada e mantida, notadamente, por práticas de
exploração e violência, que se não inerentes a este tipo de sociedade, como
dissemos anteriormente, adquiria nela um âmbito bastante peculiar já que, percebido
na condição jurídica de propriedade, o escravo viu-se submetido às mais variadas
arbitrariedades daqueles que se atribuíram o direito de serem seus proprietários.
Mesmo com a limitação da esfera de dominação senhorial pela
interferência do poder judiciário nas questões escravistas, predominou neste caso
criminal a autoridade daqueles que detinham a posse privada do elemento servil. Na
realidade, houve uma confluência na atuação do judiciário frente o interesse dos
grupos mais abastados da Província, a que pertence a ré, pois, excetuando o
posicionamento de Celso Magalhães, prevaleceu neste trâmite (questão bastante
emblemática) não o fato de a vítima ter sido castigada, o que segundo os padrões
mentais da época era um direito do proprietário, mas, sobretudo, a discussão incidia
sobre a qualidade dos castigos, se moderados ou imoderados, se repetitivos ou não,
enfim, se aceleraram ou não a morte do menor.
A constatação de que Innocencio teria sido seviciado por Anna Rosa,
portanto, perdia seu valor moral diante da leitura jurídica que se fez do caso. O crime
em sua autenticidade, o fato tal como ocorreu, foi de certa forma desvirtuado quando
submetido aos critérios jurídicos então vigentes. E nesse sentido, concordamos com
a argumentação da antropóloga Mariza Corrêa, ao tratar do caráter representativo
de um processo criminal, considerando que “no momento em que os atos se
transformam em autos, os fatos em versões, o concreto perde quase toda sua
importância e o debate se dá entre os atores jurídicos, cada um deles usando a
parte do „real‟ que melhor reforce o seu ponto de vista” (CORRÊA, 1983, p.40).
Nesse sentido, foi a teatralização do processo em si o que se apresentou de mais
legítimo e relevante no caso criminal que envolveu a futura Baronesa de Grajaú.
88

4 OUTRAS INTERPRETAÇÕES

Não se limitou apenas ao plano jurídico as interpretações feitas sobre


este famoso caso criminal ocorrido na capital da Província do Maranhão na segunda
metade do século XIX. Outras tantas leituras em torno do mesmo crime encontraram
espaço, sobretudo no campo da literatura e da imprensa, revelando ou possibilitando
acesso a uma gama mais ampla de explicações sobre o assunto. Por isso,
consideramos ser válido trabalhar, neste último capítulo do estudo e com base no
material que tivemos condições de dispor, com as falas acrescentadas à
compreensão, sob outros ângulos, deste caso criminal.
A atmosfera suscitada em torno do processo judicial a que respondeu
Anna Rosa Vianna Ribeiro e, sobretudo da configuração tomada pelo crime em si,
permitem entrever, como temos observado desde linhas anteriores, que sua
repercussão é reflexo de uma conjuntura econômico-social em que as bases da
exploração escravagista encontravam-se então relativamente ameaçadas não
apenas pelo problema de abastecimento de mão de obra escrava, com o fim do
tráfico negreiro internacional em meados do século XIX e que de alguma maneira
afetou o perfil deste tipo de exploração de trabalho, mas também, e o que mais nos
interessa pontuar, pela intensificação da intervenção do poder público regulando a
relação senhor/escravo somado à presença de uma mais acentuada propaganda
abolicionista na Província, encabeçada por segmentos mais intelectualizados e
críticos do sistema, ou porque denunciavam a escravidão em termos humanitários
evidenciando a degradação da dominação senhorial, ou porque viam no fim legal e
inevitável da escravidão a necessidade de reorganização das classes dominantes,
como possibilita sugerir, o historiador Josenildo de Jesus Pereira (2009).
Nesta perspectiva, a denúncia formalizada contra a futura baronesa, por
exemplo, embora não seja um primeiro registro de acusação legal de um membro
das elites da Província maranhense – como bem o atesta o caso Pontes Visgueiro –
é mais claramente entendida dentro do quadro de tensões e complexidades que
vivia a capital, numa época em que a autoridade senhorial e a arraigada mentalidade
escravista perturbavam-se frente aos embates gerados por essa ideologia de
libertação dos negros do cativeiro, embates estes amplamente alimentados não
apenas pela imprensa local, que, em seus jornais acirravam opiniões apoiando ou
negando o sistema escravista, mas também manifestadas na literatura que se
89

desenvolveu sobre o tema aqui no Maranhão e do qual o caso criminal da futura


Baronesa de Grajaú compunha apenas mais um capítulo.

4.1 Liberdade à imaginação: olhares da literatura

Não há possibilidade de falar sobre a literatura brasileira oitocentista sem


tratar do tema da escravidão e, consequentemente, da construção de algumas
representações elaboradas em torno do escravo negro africano. Sua trajetória no
mundo ficcional dos poetas e prosadores do século XIX que por este assunto
transitaram, desdobrou-se predominantemente em configurações e percepções
calcadas em valores sociais europeizantes marcados, há séculos, pela
prevalecência de uma lógica de pensamento que imprimia na cor negra uma relação
intrínseca com uma suposta inferiorização social e racial daquele que a possuía.
Nesta perspectiva, no campo da produção literária e à semelhança do que
produziram as perspectivas histórica e sociológica, o negro foi assumindo diferentes
conotações que oscilaram desde o escravo cruel com seu senhor uma vez que
embrutecido pela força da escravidão ao negro vítima, sobretudo quando na
condição de escravo e, portanto, objeto de exaltação de liberdade e defesa da causa
abolicionista como explica Domício Proença Filho (2004), entre estas interpretações
e se reconhecendo as inesgotáveis possibilidades dos exemplos dele
representativos foi-se cristalizando a visão do negro nobre, fiel, herói, mas também
do negro escravo orgulhoso, vingativo, injustiçado e criminoso.
Exemplos de literatura que o afirmem são inúmeros e mesmo não sendo
aqui nosso objetivo considerá-las uma a uma, é essencial que a algumas delas se
faça referência, recaindo nossa ênfase, sobretudo àquelas divulgadas na segunda
metade do século XIX. Nesse sentido, no que tange à predominância de uma leitura
com tom mais pejorativo em relação ao sujeito escravizado, nos parece ser bastante
emblemática a obra As vítimas-algozes escrita por Joaquim Manuel de Macedo e
publicada em 1869 numa época em que eram crescentes as discussões sobre o
aumento das fugas, furtos e crimes dos cativos (LUFT; WELTER, 2009). Dividida em
três novelas69, nestas narrativas o autor faz prevalecer uma atmosfera de medo dos
escravocratas diante do potencial perigo, individual ou coletivo, representado pela

69
Intituladas „Simeão, o crioulo‟; „Pai-Raiol, o feiticeiro‟ e „Lucinda, a mucama‟.
90

figura do cativo aqui lido como indecente, ingrato e perverso, reiterando em cada
uma das peças a necessidade de banir a escravidão não por questões humanitárias,
mas por considerar que os escravos degeneram física e moralmente a sociedade
civilizada dos brancos. Numa das passagens do livro, mais especificamente no
quadro „Simeão, o crioulo‟, após descrição de todo o drama que culmina na trágica
punição do escravo personagem protagonista, o autor conclui:

Entre os escravos a ingratidão e a perversidade fazem a regra; e o que não


é ingrato nem perverso entra apenas na exceção. Porquanto, e todos o
sabem, a liberdade moraliza, nobilita, e é capaz de fazer virtuoso o homem.
E a escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais
medonhos crimes. A lei matou Simeão na forca. A escravidão multiplica os
Simeão nas casas e fazendas onde há escravos. Este Simeão vos
horroriza?... Pois eu vos juro que a forca não o matou de uma vez; ele
existe e existirá enquanto existir a escravidão no Brasil. Se quereis matar
Simeão, acabar com Simeão, matai a mãe do crime, acabai com a
escravidão. A forca que matou Simeão é impotente, e inutilmente imoral. Há
só uma forca que vos pode livrar dos escravos ingratos e perversos, dos
inimigos que vos cercam em vossas casas. É a forca santa do carrasco
anjo: é a civilização armando a lei que enforque para sempre a escravidão
(p. 36).

Perpassa, portanto, por toda esta obra de Joaquim Manuel de Macedo a


preocupação em demonstrar que, em sendo corrompidos pela crueldade do sistema
escravista acabam os escravos por vitimar seus senhores, operando-se tal
circunstância a partir de uma lógica quase que matemática, cujos proprietários
somente estariam gradualmente livres com a abolição da escravidão.
É, no entanto, uma outra visão, também bastante estereotipada do negro,
que ganha larguíssimo espaço no campo literário nacional oitocentista, a que diz
respeito à imagem do escravo vítima. Isso porque na segunda metade deste século,
como dissemos anteriormente, acirraram-se no Brasil os debates em torno da crítica
ao sistema escravocrata, atingindo o campo das letras através de uma literatura de
denúncia, que, no geral, preocupava-se em colocar em questão os horrores do
sistema e a necessidade de bani-lo. Obras clássicas e bastante representativas
deste propósito podemos encontrar, é claro que com marcas bastante peculiares,
em Castro Alves no romance O navio negreiro (1869) e Os Escravos (1883);
Bernardo Guimarães em A Escrava Isaura (1875); Machado de Assis que fez
percorrer este tema nas entrelinhas de boa parte se suas obras; além de Cruz e
Sousa.
91

As críticas à escravidão também se fizeram ressoar significativamente na


conservadora sociedade maranhense, mesmo antes da intensificação da campanha
abolicionista. É sabido entre os estudiosos da sociedade maranhense do século XIX
sobre a constituição de grupos não homogênios de intelectuais, sobretudo bacharéis
em Direito, formados em sua maioria nas universidades europeias fruto do costume
que as classes locais mais abastadas tinham de oferecer a seus filhos uma
formação profissional mais apreciável, estes, retornando à cidade natal carregados
de valores e ideais europeizantes, procuraram interpretar a sociedade tal como aqui
a encontraram.
Na primeira metade do século XIX, por exemplo, é reconhecidamente
expressiva a contribuição de Gonçalves Dias que condenava o sistema ao lamentar
a situação de opressão a que estavam sujeitos os negros e reclamar a respeito das
condições desumanas como estes eram tratados, o que podemos identificar no
poema A escrava (1846) e num texto em prosa denominado A meditação (1849).
Nas últimas décadas do século XIX a condenação das bases do sistema eram bem
mais abertamente severas que outrora, embora marcadas por duras críticas por
aqueles que insistiam na manutenção da escravidão ainda que os indícios sociais
(pressões sociais, conjectura econômica internacional) levassem à constatação de
seu fim.
Assim aconteceu com a obra O mulato do escritor maranhense Aluísio
Azevedo publicada em 1881, reta final para a abolição, livro em que o autor trata da
vida e dos costumes da sociedade maranhense procurando colocar em evidência
seu lado mais preconceituoso. Faz isso ao descrever a história de Raimundo que
mesmo tendo uma vida material confortável, tinha também sangue negro correndo
nas veias, condição que tomou conhecimento somente quando teve negado por seu
tio o pedido de casamento à Ana Rosa. Quando de sua divulgação, o livro teve
péssima repercussão na capital, pois tocava diretamente nos louros daqueles mais
abastados, tendo seu autor que deslocar-se para o Rio de Janeiro onde teve mais
reconhecido seu trabalho.
Outrossim, a participação do promotor público Celso Magalhães na
campanha abolicionista não se deu somente no ato de denúncia jurídica feito contra
a futura baronesa, sua dedicação à poesia também revela uma parte importante de
sua obra consagrada à luta contra a escravidão, como o comprovam os poemas O
escravo e o mais conhecido Os calhambolas (1869), a partir dos quais Magalhães
92

aborda os problemas inerentes a este sistema (resistências, revoltas, exploração


compulsória) e exaltando a necessidade da libertação destes cativos. É válido
considerar que mesmo defendendo o fim da escravidão, Magalhães era ferrenho
adepto da teoria sobre as diferenças entre as raças, alimentando ou sendo
alimentado por uma crença de que nem índios nem negros construíram ou
contribuíram em seus modos de vida e em suas culturas valores positivos à
civilização brasileira.
É bem verdade que mesmo não tendo a literatura omitido falar sobre o
negro e com isso trazido muitas contribuições para compreender o cotidiano das
relações escravistas, não nos é permitido – deficiência comum em disciplinas das
ciências humanas que lidam com o tempo transcorrido – apreciar estas mesmas
relações sob o ponto de vista dos negros, a partir de uma produção pautada em
suas próprias falas e ações, ficando as leituras sobre este segmento tão
multifacetado a cargo, salvo algumas exceções70, daqueles que se apropriaram do
direito dele representar (intelectuais, políticos, movimentos sociais). Tal observação,
contudo, não nos inviabiliza recorrer ao campo de produção literária enquanto mais
um subsídio analítico para o entendimento das relações sociais nos seus mais
variados aspectos e, mais particularmente, na compreensão do ângulo que aqui
mais nos interessa tratar, a saber, a relação escravidão e criminalidade.
Isso porque concordamos com a afirmação da historiadora Sandra
Pesavento, que ao tratar da relação entre História e Literatura e, consequentemente,
da credibilidade que esta última tem enquanto fonte para a compreensão de um
contexto social, assinala:

Pode-se dizer que o discurso literário, consagradamente tido como o campo


preferencial de realização do imaginário, comporta, também, a preocupação
da verossimilhança. A ficção não seria, pois, o avesso do real, mas uma
outra forma de captá-la, onde os limites de criação e fantasia são mais
amplos do que aqueles permitidos pelo historiador (PESAVENTO, 1995,
p.117).

Sendo assim, ainda que o discurso literário distinga-se do discurso


histórico quanto ao método, a finalidade e o estatuto, haja vista não se orientar por
critérios de verdade e cientificidade tal como ocorre com a produção histórica,

70
Representadas através dos movimentos de resistência coletiva encabeçados por líderes também
negros, por exemplo.
93

aquele contribui para este na medida em que também é uma maneira de ler uma
realidade social. É claro que devemos levar em conta os limites desta ficcionalidade
no domínio histórico justamente por não poder o historiador abandonar o critério de
veracidade tal como é permitido aos poetas e romancistas. Obras literárias através
em que perpassam o tema da escravidão são um bom exemplo desta afirmação.
Seja credibilizando o sistema ou o depreciando, muitos destes textos demonstram
as múltiplas facetas das relações escravagistas através da descrição do cotidiano e
dos conflitos que regem as ações dos personagens.
Assim, temos no romance Os tambores de São Luís (1975)71 do escritor
maranhense Josué Montello uma importante fonte interpretativa não somente sobre
a conjuntura social do Maranhão oitocentista, mas, principalmente, uma leitura do
autor sobre o episódio criminal que envolveu Anna Rosa Vianna Ribeiro. Pois, uma
das principais características desta obra tão rica de detalhes e de conteúdo está na
construção de um enredo cuja trama intercambia – a partir de um olhar
temporalmente distanciado do autor – liberdade de criação imaginativa própria da
produção literária a acontecimentos que realmente fizeram parte da história do
Maranhão no século XIX.
Caracterizado predominantemente pela existência de dois planos
temporais: o presente narrativo, marcado pela descrição da noite da caminhada de
Damião (protagonista do romance) de sua casa no Largo do Santiago até à Camboa
para dar às boas vindas a um seu trineto e o passado narrativo, que compõe a maior
parte da obra e sendo representado pelas lembranças de Damião durante esta
caminhada (KREUTZER, 1992, p.09), o romance trata, através da descrição da
história de vida deste personagem principal, do cotidiano, conflitos e tensões
característicos da sociedade escravista ludovicense e por entre um misto de
personagens, espaços e situações fictícios como ele72, mas muitas vezes também
historicamente reais (onde podemos observar a pessoa de Donana Jansen, a
própria Anna Rosa Vianna Ribeiro, o seu marido Carlos Fernando, o Dr. Paula
Duarte, Celso Magalhães, Sotero dos Reis, Sousândrade), o autor narra enquanto
componentes relacionais elementos transmutativos que vão desde a espoliação
física e moral a que eram submetidos os cativos por seus proprietários; as suas mais

71
Optamos por analisar as obras literárias aqui trabalhadas sem levar em consideração a ordem
cronológica de publicação.
Embora devamos reconhecer o grau de verossimilhança destas personagens fictícias dado a
72

grande correspondência que estas têm com a realidade real.


94

variadas formas de resistência (coletiva, individual, velada ou aberta) e também de


resignação; até a efetiva libertação dos escravos, enfatizando sobremaneira a
polaridade entre negros e brancos73.
Foi neste ínterim que o autor retratou o caso criminal da futura Baronesa
de Grajaú, enquanto evento marcante na transformação do perfil da exploração
senhorial, dado principalmente a partir, como temos tratado desde capítulos
anteriores, da ambígua interferência do poder público na regulamentação das
relações escravagistas.
É bem verdade que a descrição feita por Montello em torno do
acontecimento que culminou na denúncia e julgamento de Anna Rosa Ribeiro esteja
carregada de detalhes que fogem ao conteúdo que compõe os autos do processo
por meio dos quais o autor desenvolveu e sustentou sua narrativa, pertencendo
estes pormenores inteiramente ao exercício imaginativo do autor e que não nos
cabe discutir sua credibilidade, uma vez que não nos foi possível encontrar tais
informações em outros documentos que as comprovem e, portanto, não se
encaixando no rigoroso critério de verificação científica, como assim o atestam a
maneira em que o caso é dado a falar no romance, no momento em que Dona
Santinha – integrante da Casa das Minas – avisa a Damião do ocorrido ao dizer:

E esse caso da Dona Ana Rosa Ribeiro? Ainda não lhe contaram? Ah, você
precisa saber. Um horror. Um verdadeiro horror. Consegui saber de tudo, e
dentro da casa da própria megera. Fui lá com os meus chapéus e os meus
vestidos. Só para ver de perto a cara dela. Por fora, um anjo de bondade;
por dentro, um Satanás (MONTELLO, 1985, 448).

A trama, a partir de então, é descrita por Santinha com um envolvimento


tão vivaz na interação com os personagens que nele estiveram realmente envolvidos
que nos faz pensar na veracidade dos acontecimentos tal como por ela ou pelo autor
narrados. Daí em diante, por exemplo, ela afirma, categoricamente, ter sabido
através da escrava Gregória, que então trabalhava em casa de Anna Rosa Ribeiro,
o fato de esta ter matado os menores Jacintho e Innocêncio (MONTELLO, 1985,
p.449). Aliás, em „Os tambores‟, por todo o espaço dedicado à descrição do caso

Ainda que mencione situações do cotidiano que revelam ângulos não tão solidários entre os
73

negros, como, por exemplo, os deboches dirigidos por outros escravos a Damião quando este
ocupava-se do serviço de encher, todos os dias, o tanque da fazenda do Dr. Lustosa; a delação feita
pelo negro Samuel aos capangas do Dr. Lustosa a respeito do local do quilombo de Julião e as
divergências entre Damião e Barão em relação à maneira de conceber a liberdade dos escravos.
95

criminal envolvendo a futura baronesa, predomina a constatação da autoria do crime


de Anna Rosa. Não se questiona esta autoria entre os personagens que dela tratam.
Circunstância que talvez esteja associada a uma intenção de Montello em retratar
este caso sob o ponto de vista daqueles que de alguma forma também se sentiam
lesados pelas brutalidades oriundas da exploração senhorial.
Nessa perspectiva, é sob o olhar do narrador que acompanhamos as
atitudes de Damião (símbolo da saga dos cativos) frente ao desenrolar dos
acontecimentos pós-crime, ações que vão desde o seu pedido de ajuda a Celso
Magalhães para representação legal em nome da causa negra, seu rigoroso
acompanhamento das peças criminais até sua frustração com a resolução final pela
absolvição da ré.
Porém, no decorrer do enredo, percebemos que o reconhecimento da
autoria do crime de Anna Rosa vêm imbricado a duas outras marcantes
considerações estabelecidas sem uma ordem específica, pois intimamente
relacionadas entre si e que põem por terra as esperanças de condenação da
acusada. A primeira delas, envolve questões referentes a uma lógica discriminatória
orientada a partir das marcas de distinção social que faz prevalecer o respeito pelas
hierarquias (genericamente, negros, escravos e pobres de um lado e brancos e ricos
de outro), característica social bastante debatida nos diálogos que Damião tem com
Barão, figura com ideias bastante díspares da maneira como esse concebia a
liberdade dos cativos. Numa destas conversas Damião questiona a Barão:

– E você acha que uma peste dessas, com todos os testemunhos contra
ela, não vai ser condenada? Tem de ser, tem de ser.
– Não, não vai – confirmou o Barão, em tom sereno. – Se o processo for
adiante (e eu duvido que seja ao menos começado), o marido larga a
fazenda em Alcântara e vem para São Luís defender a mulher, embora
sabendo que ela é mesmo assassina. Podes escrever o que estou te
dizendo. E os brancos vão ficar do lado deles. Nessa hora, todos se juntam
(MONTELLO, 1985, p.468).

O personagem Barão representa, portanto, a descrença na possibilidade


de que essa hierarquia pudesse ser corrompida mesmo através da intervenção de
uma instância pública que se dizia protetora e vigilante legal das igualdades sociais.
Numa época em que, embora a denúncia e o julgamento de um membro das classes
abastadas em nome de um crime cometido contra um escravo tenha sido importante
indício de que estavam ocorrendo mudanças relativamente expressivas na leitura
96

das relações senhores/escravos, era corrente também a consciência da dificuldade


de representação jurídica a favor destes últimos. O que nos permite considerar, uma
vez mais, que a sociedade maranhense da segunda metade do século XIX
caracterizava-se muito mais por tensões e conflitos do que por uma simples
contradição social entre aqueles que mandavam e os que necessariamente e
obrigatoriamente obedeciam.
É ainda através das conversas que Damião mantém ora com Dona
Santinha ora com Barão que o narrador nos possibilita tratar de um segundo ponto
de análise sobre a inviabilidade de condenação de Anna Rosa Ribeiro, circunstância
esta bastante representativa das relações de poder características de sociedades
radicalmente desiguais como a que aqui analisamos e que refere-se ao lugar social
ocupado pela ré. Sabemos ter sido ela, filha de influente família da região de Codó
(município maranhense), mas foi, sobretudo com o matrimônio contraído com o Dr.
Carlos Fernando Ribeiro o qual, como temos dito, possuía significativo prestígio
econômico e principalmente político, que se mostrou mais contundente o status
social a ela conferido. A posição social de Carlos Fernando Ribeiro é então descrita
logo na introdução dos diálogos sobre o crime, como: “Um graúdo. Gente alta, de
sobradão em Alcântara e de palacete aqui em São Luís...” (MONTELLO, 1985,
p.448), talvez com o intuito do narrador de colocar a crítica à posição social do
marido da acusada como importante ingrediente facilitador de sua absolvição.
Contudo, a constatação mais ilustrativa na descrença da condenação é
feita por Barão ao duvidar de que haveria justiça em um julgamento de uma branca
e rica contra um negrinho, atentando também aos privilégios oriundos da condição
social de Anna Rosa. Numa das passagens ele indaga a Damião:

– E tu pensas que esse Promotor vai tomar o partido do escravo morto


contra a branca? Não sejas bobo, Damião. A Dona Ana Rosa Ribeiro, além
de branca e rica, tem do seu lado a força do marido, que é graúdo na
política. Perdes o teu tempo. Te digo mais: se o Promotor ficar do lado do
negro, vai comer da banda podre. Não sou profeta, mas posso te garantir
que nada vai acontecer a Dona Ana Rosa Ribeiro. Nada. Absolutamente
nada. Estás vendo aquela estrela, ali por cima da igreja do Carmo, a tremer
como se lhe estivessem fazendo cócegas? Está rindo de tua ingenuidade,
Damião (MONTELLO, 1985, p.467).

A lucidez das afirmações de Barão, fruto de larga experiência de vida e da


percepção do delineamento do quadro social que serviu de cenário ao crime (mais
nítido a ele que a Damião), resume com clareza a maneira como se desenrolaram
97

os fatos em torno do processo criminal. Se havia esperanças a alguns pelo simples


fato de que devia explicações à Justiça um integrante da aristocracia – fato em si
bastante relevante – a outros isso parecia muito mais incongruente com a realidade
tal como se dinamizava.
Se em Os tambores de São Luís a ênfase no sucesso da absolvição de
Anna Rosa Ribeiro recaía sobre a importância da posição social do cônjuge 74 e,
consequentemente, da ré, em O meu próprio romance (1996), do escritor Graça
Aranha essa perspectiva ganha outros contornos. Antes, porém, devemos
considerar que a leitura de Aranha sobre o caso criminal da futura baronesa era fruto
das lembranças de um garoto que, embora se dissesse já provido de aguçada
sensibilidade, contava com apenas oito anos de idade quando da tramitação do
processo e desde sua infância, como retrata em suas memórias, viveu também
envolto pelas conversas sobre política que seu pai Temístocles Aranha,
correligionário dos conservadores, tinha em reuniões com outros intelectuais e
políticos em seu sobradão.
A partir de suas recordações o autor interpreta ser este caso resultado
direto do jogo político provincial, acreditando que este processo criminal seria mais
um episódio da histórica disputa política entre liberais e conservadores pelos postos
de comando no Maranhão75. Assim o comprova uma breve, porém, polêmica
afirmação sua de que os conservadores, que então estavam no poder, aproveitaram
a ocasião em que a mulher do chefe do Partido Liberal fora energicamente acusada
de ter matado por sevícias um escravo seu, para processar e levar até o júri „a
odiosa acusada‟ (ARANHA, 1996, p.80). Consideração esta que levava a crer não
apenas que Celso Magalhães trabalhava na acusação em nome do Partido

74
Embora não seja explicitado ou enfatizado no livro Os tambores de São Luís as tramas políticas
articuladas ao tempo do processo criminal, não quer dizer que esta circunstância não tenha sido
observada nas entrelinhas do romance.
Yuri Costa acrescenta ainda um elemento peculiar na disputa política maranhense, que
75

ocasionalmente pode ter interferido na „briga‟ entre os dois principais partidos políticos de então
quando da tramitação do processo judicial, a saber, as antigas desavenças entre Carlos Fernando
Ribeiro (líder do Partido Liberal) e Francisco Mariano Viveiros Sobrinho (chefia do Partido
Conservador), ambos naturais de Alcântara e representantes da hegemônica aristocracia rural. Os
conflitos entre as partes vinham de longa data, quando Carlos Ribeiro acusou, através de seu jornal
„O Progresso‟, a família Viveiros Sobrinho de ter mandado assassinar, em Viana, o boticário Luís
Garcia e criticando o fato desta família, por estar no poder através do Partido Conservador, não ter
apurado devidamente o delito. A resposta, contudo, veio por meio do jornal „Estandarte‟, de
propriedade de Viveiros, ao declarar ter um irmão de Carlos Ribeiro assassinado, em 1810, o próprio
cunhado, crime também nunca apurado (COSTA, 2011, p.107 -108).
98

Conservador76, mas também que o próprio órgão acusador de Anna Rosa Ribeiro
era guiado por tais interesses. Questões conjecturais percebidas no interior de uma
realidade social não tão incoerente com estas informações.
Uma vez mais este drama jurídico é tratado também em O cativeiro
(1992), outro livro de memórias desta vez de autoria do escritor maranhense João
Dunshee de Abranches Moura, em que se propôs resgatar os costumes da
sociedade de seu tempo, revelando predominantemente traços significativos da
dinâmica do sistema escravista local, através das leituras de documentos familiares
nos quais diz ter encontrado amplos conteúdos sobre psicologia social e também
das conversas que manteve com Dona Emília Branco, senhora de distinta
capacidade intelectual. Foi, segundo Abranches, como fruto de tais conversas que
lhe foi narrado o então recente crime77 de uma senhora, fazendeira em Alcântara e
esposa de um eminente político da região contra dois escravos menores de idade de
sua propriedade (ABRANCHES, 1992, p.119).
A menção feita por Abranches sobre o que ficou conhecido
posteriormente como o crime da baronesa, no entanto, carregava alguns fatos um
tanto quanto problemáticos e desconexos com o conteúdo dos autos do processo-
crime78, circunstância que podemos constatar, por exemplo, através de sua
interpretação de que fizeram Anna Rosa passar por louca enquanto forma de
justificar os delitos por ela cometidos quando não encontramos nos documentos
nenhum registro deste gênero que venha a confirmar tal informação, constando nos
autos, e no que diz respeito a este aspecto, apenas a indicação de que, com base
em exame médico, sofria a acusada de problemas orgânicos.
Acrescente-se ainda o fato de Abranches pontuar terem, as vítimas de
Anna Rosa Ribeiro, sucumbido por peritonite quando sabemos constar nos autos a
ocorrência de divergências na definição da causa da morte da última vítima, se por
problemas de saúde se por sevícias, não havendo qualquer menção à doença
indicada pelo autor.

A despeito da impressão que diz ter tido sobre este drama, Aranha relembra da agitação em sua
76

casa durante o julgamento, localizada próximo ao Tribunal do Júri e onde iam repousar e discutir seu
andamento, políticos e demais figuras do Partido Conservador, dentre os quais o autor menciona o
próprio Celso Magalhães (ver fragmento à página 80 das memórias).
A esse tempo Dunshee contava com seus nove anos de idade.
77
78
Ainda que não possam deixar de ser pensadas como informações que circularam informalmente na
época.
99

Informações desencontradas, recordações não comprovadas, mas


também suposições, hipóteses, inferências e mesmo afirmações convergentes com
a dinâmica dos fatos que giraram em torno do crime e processo movido contra Anna
Rosa Vianna Ribeiro. Entre tantas interpretações sobre o assunto, a certeza de sua
visibilidade social tanto porque feria os brios da aristocracia local quanto porque
apresentava-se como mais um tópico na efervescente discussão sobre a condição
social do sujeito escravizado no Maranhão da segunda metade do século XIX.
Expressividade presente não somente no campo da literatura, mas que também foi
acompanhada de perto pela imprensa da cidade que, como veremos a seguir,
alimentou opiniões contra e/ou a favor da denunciada.

4.2 Formadores de opinião pública: a fala dos jornais

A apreciação de jornais enquanto fontes que testemunharam a história de


uma época é para nós (assim como para muitos outros pesquisadores) algo
inquestionável e de grande contribuição. Em se tratando da análise do que a nós é
extemporâneo, tal afirmativa parece ainda mais relevante, pois, concordando com a
observação de Sebastião Barros Jorge, para além de um testemunho da História, os
jornais são autores dessa mesma História devido sua participação efetiva na vida
política e cultural de um lugar (JORGE, 1997, p.10).
Dessa leitura da vida pública e cultural emanam também fragmentos de
um cotidiano marcado por conflitos ideológicos e de interesse, ingredientes a partir
dos quais nos parece ser o processo criminal movido contra a futura baronesa de
Grajaú apenas mais uma de suas manifestações, sobretudo por se tratar de um
acontecimento atípico para aquela conjuntura social.
Antes de adentrarmos nas leituras que os periódicos fizeram deste caso,
porém, achamos válido tecer alguns comentários sobre a História da Imprensa no
Maranhão do século XIX, assunto sobre o qual escreveram figuras expoentes neste
campo de saber tais como os jornalistas José Maria Correia Frias, Joaquim Maria
Serra Sobrinho, Antônio Lopes e mais recentemente o já citado Sebastião Jorge,
além de alguns outros estudos a este último anteriores79.

Entre eles podemos mencionar os de Francisco Sotero dos Reis cujo trabalho foi lançado no jornal
79

„Publicador Maranhense‟; João da Mata de Morais Rego em artigos publicados no „Pacotilha‟; César
Augusto Marques na História da Imprensa do Maranhão (Parte I e II); Augusto Olímpio Viveiros de
100

Podemos considerar tardia a implantação do empreendimento jornalístico


na Província Maranhense, embora Antônio Lopes em sua História da Imprensa no
Maranhão (1821-1841) sugira ter havido muitas inspeções neste gênero de escrita
antes mesmo da introdução da imprensa no Estado no ano de 1821 com a
inauguração da primeira tipografia local, a Tipografia Nacional ou Tipografia
Nacional Maranhense80. A respeito deste aspecto, nos explica ainda Joaquim Serra
Sobrinho que, antes da independência do Império, a imprensa jornalística pouco
mais era do que o veículo da opinião oficial, sendo que os jornais deste tempo, aqui
no Maranhão, além de atos do governo, ocupavam-se com pequenas notícias de
interesse geral e transcrição de artigos inocentes. Tudo fiscalizado pela junta que
administrava a tipografia. Após a independência, e em todo período anterior à
Constituição, a liberdade jornalística era ampla e as restrições que a autoridade
pretendia impor81, sempre motivavam sérios clamores (SOBRINHO, 2001, p.56).
Parece ser comum entre aqueles que se interessaram em escrever sobre
a trajetória da atividade jornalística no Maranhão oitocentista a reclamação acerca
da dificuldade em se elaborar um estudo rigoroso e minucioso com base nas fontes
de informação existentes. Isso porque, segundo eles, não foram conservadas todas
as coleções de periódicos e tampouco reservados, na íntegra, os exemplares destas
publicações, o que se justifica tanto porque umas foram danificadas quanto porque
outras desapareceram, circunstância que permitiu a estes estudiosos apenas
contemplar fragmentos acerca da dinâmica desta instituição.
Para além das memórias descritas por José Maria Correia de Frias, por
exemplo, que, no livro Memória sobre a tipografia maranhense, tratou
predominantemente sobre a morfologia da prática tipográfica na Província (do
material empregado, de sua qualidade, das habilidades do pessoal tipográfico e

Castro em catálogo de jornais entregue ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro; Luís Antônio
Viera da Silva com a História da Independência da Província do Maranhão; Antônio Henriques
Leal no livro Pantheon Maranhense, entre outros. Todas estas referências foram extraídas do livro
História da Imprensa no Maranhão (1821-1841) de Antônio Lopes.
A título de informação acrescente-se que, segundo o Dicionário... de César Augusto Marques, a
80

primeira tipografia foi pedida à Lisboa pelo então governador provisório Bernardo da Silveira Pinto da
Fonseca e, funcionando com exclusividade até o ano de 1830, como assinala Joaquim Serra
Sobrinho, quando, em São Luís, surgiram outras tipografias, algumas delas se destacando pela
melhoria dos instrumentos utilizados para a confecção de jornais e revistas como é o caso da
Tipografia Constitucional, fundada por Clementino José Lisboa (SOBRINHO, 2001, p.21).
81
Sobre este assunto nos fala Sebastião Jorge sobre a Lei da Imprensa, de origem portuguesa, mas
que procurou orientar a atividade jornalística no Brasil, contra a qual em alguns de seus artigos
pontua o abuso da liberdade de imprensa contra particulares; a imputação de qualquer fato criminoso
a alguém ou a uma corporação; imputar vícios ou defeitos que expunham um cidadão ao ódio ou
desprezo público ou insultar terceiros com expressões desprezíveis (JORGE, 1987, p.34).
101

análise de seus produtos), interessa-nos observar as características, digamos que,


imateriais do exercício jornalístico, através de leituras que contribuíram para exprimir
percepções de costumes, ideias e mentalidades vigentes num determinado espaço
histórico-cultural, já que, como prefacia Aline Nascimento em trabalho sobre os
jornais catalogados na Biblioteca Pública Benedito Leite, suas informações são
variadas e representam os saberes e fazeres de uma comunidade, cidade ou região
(MARANHÃO, 2007, p.10). Fossem eles noticiosos, políticos, literários, comerciais,
críticos, humorísticos e/ou literários, reside nestes jornais importante soma de
conhecimentos de um tempo, em alguns aspectos, não contemporâneos a nós,
sobretudo na lida com as relações de trabalho, prerrogativa em que se definiu todo
um diverso perfil social.
Se, contudo, foi grande a crítica no que tange à pobreza de fontes
históricas para o estudo da imprensa no Estado, era ainda maior a exaltação dos
estudiosos àqueles que contribuíram para delinear seus caminhos. Assim, das obras
por nós pesquisadas depreendem-se a de João Antônio Garcia de Abranches com o
jornal „O Censor‟, Manuel Odorico Mendes com o „Argos da lei‟, José Cândido de
Morais Silva fundador do „Farol Maranhense‟, João Francisco Lisboa que, entre
tantos outros, trabalhou com „O Brasileiro‟ e „A Crônica Maranhense‟, Joaquim Maria
Serra Sobrinho com o „Semanário Maranhense‟. Todos estes brevemente
biografados por Lopes bem como tantos outros por ele rapidamente mencionados,
tal como, Francisco Sotero dos Reis, Cândido Mendes de Almeida, Antônio
Henriques Leal, Luís Antônio Vieira da Silva, Gentil Homem de Almeida Braga.
Homens reconhecidos por seus próprios contemporâneos não apenas por
sua dedicação ao exercício jornalístico, mas por oferecerem também habilidosas
contribuições no campo literário e artístico, local e nacionalmente. Assim atesta
Lopes:

Mormente ao tempo em que o Maranhão foi parte integrante do Império a


sua imprensa causava admiração pela superioridade moral, a competência
com que discutia as questões, as luzes que projetava para os meios cultos
do país, talento e a coragem cívica dos seus jornalistas, o valor dos homens
que saíram do jornalismo para a administração pública, o parlamento, a
magistratura, o clero, o magistério, a ciência e as letras e ainda pela
colaboração que lhe prestaram insignes escritores que a província deu à
literatura brasileira (1959, p.34).
102

Insignes escritores que a Província deu à literatura brasileira, precisamos


enfatizar, pois daí eram excluídos e rechaçados aqueles “jornalecos onde a infâmia
e a calúnia campeavam de mãos dadas”, como alega Antônio Lopes. Os motivos
das acusações dirigidas a estes jornais não nos vêm de pronto à transparência,
somente permitindo-nos inferir que estes se caracterizavam pela depreciação de
desafetos pessoais e pelo uso mesquinho das disputas políticas, mesmo
entendendo que tais fatores não se anularam ou deixaram de se manifestar na
imprensa mais valorizada, já que nestas também prevaleceram, talvez com um outro
nível de rebuscamento, notáveis influências de cunho político-partidário quando
sabemos das tendências conservadoras ou liberais82, antiescravistas ou não,
antirepublicanas ou antimonarquistas, que dividiam a opinião pública num século em
que as tensões sociais, respeitada e reconhecida a distância temporal de suas
eclosões83, agitaram os espíritos daquela época. Na opinião de Sebastião Jorge, por
exemplo, os jornalistas se caracterizavam pela ideologia e posições assumidas na
política, o que contribuiu para o surgimento de uma imprensa doutrinária e
combativa, sendo o gênero opinativo dominante e a informação se reduzia a alguns
avisos (JORGE, 1987, p.110).
Além de ser um importante veículo de comunicação em que se refletia
muito das querelas políticas locais, ocupava-se a imprensa maranhense de outro
tema também bastante significativo para aquela realidade, a saber, a estrutura em
que repousava o sistema escravista. Apoiando ou criticando, muitas foram as
opiniões emitidas sobre esta instituição, antes mesmo que este assunto tenha se
tornado alvo mais evidente e de forte ataque entre os abolicionistas na segunda
metade do século XIX, como assim o comprovam os artigos de João Francisco
Lisboa publicados nas páginas do „Jornal de Tímon‟ e nos quais se atacava o tráfico
de escravos.
Entendemos ter sido no bojo das críticas ao sistema escravista – já
largamente correntes na Província – e das tensões vividas naquele contexto social,
que se polemizou o caso criminal da futura baronesa de Grajaú. Temos dito desde o
início deste trabalho, que a peculiaridade deste acontecimento reside tanto no fato

82
Configuração bipartidária definida a partir da década de 1860, fruto de uma reorganização político-
ideológica pela qual passava o Brasil.
83
O século XIX foi marcado por acontecimentos decisivos para a história do Brasil e particularmente
do Maranhão como assim o comprovam o processo de adesão da Província ao Império, os conflitos
políticos, o fim do tráfico de escravos e a abolição da escravatura.
103

de que um integrante da aristocracia local tenha passado pelo constrangimento de


responder judicialmente por uma prática que, em si, fazia parte daquela lógica
social, quanto no fato, sobretudo de ter se concretizado uma denúncia de crime de
violência cometido por um escravagista contra um escravo menor de idade.
Sua repercussão parece ter sido significativa na imprensa maranhense.
Dizemos em termos de suposição, pois não nos foi possível abarcar uma quantidade
relevante de jornais que trataram do assunto pelos motivos já expostos
anteriormente. No entanto, muito nos falam os jornais de que tivemos acesso no
anexo da Biblioteca Pública Benedito Leite, no Arquivo Público do Estado do
Maranhão e nas transcrições feitas pela historiadora Jacira Pavão da Silva em livro
organizado pela antropóloga Mundicarmo Ferretti e que constam em nossos anexos.
Neles, ainda que contendo notícias em datas espaçadas devido mesmo a
característica de sua periodicidade, a possibilidade de perceber algumas leituras
produzidas sobre o caso e dos quais serão por nós comentados respeitando, não
necessariamente as ordens das datas de publicação dos exemplares, mas, os títulos
dos jornais de que dispomos.
É comum nestes periódicos a descrição, ipsis litteris, das peças criminais
que compõem o libelo (dos exames cadavéricos, depoimentos policiais e judiciais,
da resolução do processo), acompanhada ou não de artigos que, no geral, não
vinham rubricados por seus autores. Assim no „Publicador Maranhense‟84, após
alguns anúncios a respeito do início das investigações, divulgou-se:

Agita-se presentemente nesta capital uma questão gravissima, sob a


epigraphe acima [A morte de Innocencio], e que traz a população
seriamente impressionada. Esta questão é o boato sinistro de ter sido
immolado, por meio de sevicias, um infeliz escravo menor de dez annos de
idade, pertencente ao Dr. Carlos Fernando Ribeiro, que ha muito se acha
ausente desta cidade em seu engenho, no termo de Alcantara. Logo que
circulou este boato, chegou, naturalmente aos ouvidos da policia uma
denuncia de que este escravo havia sido morto por violência...
(PUBLICADOR MARANHENSE, 23 de nov. de 1876).

Boatos. Assim se espalhavam as primeiras informações sobre o caso,


estando lá já os ingredientes que lhes definiram as características principais, no

Órgão oficial ludovicense fundado em 1842, tornando-se diário a partir de 1862. Foi dirigido por
84

João Lisboa (1856); Sotero dos Reis (1861); Temístocles Aranha (1863) entre outros. Se dizia neutro
em relação aos partidos. Publicava notícias do exterior e de outras Províncias. No ano de 1854,
surgiu com o subtítulo de „Folha oficial política, literária e comercial‟ e, no ano de 1879, mudou
novamente de subtítulo, desta vez para o „Jornal do comércio, administração, lavoura e indústria‟
(MARANHÃO, 2007, p.24).
104

caso, morte por sevícias de um escravo menor de idade bem como sua repercussão
negativa na opinião pública, como assim nos parece demonstrar as interpretações
dos exemplares, alimentada também pela incitação dos periódicos para que as
instâncias responsáveis se encarregassem de bem desempenhar suas funções.
Como o demonstra o mesmo „Publicador‟:

Tem a sociedade maranhense a mais plena confiança nas justiças do paiz,


para não lhe passar pela mente que, se criminoso houver neste drama de
sangue, encorage-o a impunidade para a continuação de novos sacrifícios.
A voz publica já deu à autoridade a ponta do fio para guia-la no labyrintho.
Cumpre pois que não descance, que ponha de parte as attenções para só
se consagrar à causa da justiça, à causa da humanidade... Não descance a
justiça. Não esmoreça a autoridade na pesquisa do autor ou autores deste
crime, se crime existe, sejam elles pobres ou ricos (PUBLICADOR,
MARANHENSE, 23 de nov. de 1876).

Neste momento do artigo as cobranças para que se fizesse justiça ganha


tons mais fortes. Isso porque, com base no andamento das investigações e no
resultado da primeira autópsia, a possibilidade da existência de crime assume
contornos científicos e, portanto, mais suscetíveis à avaliação jurídica, reforçando
ainda mais as suspeitas que pairavam, na cidade, contra a denunciada. Não só isso.
Imbricado às contingências do caso, os indícios não somente de seu autor, mas
também de seu lugar social, donde podemos perceber através da afirmação „sejam
eles pobres ou ricos‟. „A voz do povo‟, como assim se encontra assinado o noticiário
do dia 23 de novembro de 1876, não deixa de pontuar a quem pertence o escravo
nem se furta em discutir a tendenciosidade das conclusões do segundo corpo de
delito devido mesmo à posição social daqueles que compunham o corpo de
facultativos nele envolvidos, circunstância que parece bastante transparente no
trecho a seguir:

Attenda que alguns dos medicos do segundo corpo de delito não eram as
mais competentes para funcionar nelle. E se não vejamos:
O dr. Santos Jacintho, foi o medico encarregado do tratamento do menor,
tomou parte no negócio depois do fallecimento deste e forneceu o attestado
de óbito; devia, portanto, declinar de si a competencia para o exame como
fez quando foi chamado a primeira vez no Lycêu, segundo se vê do seu
depoimento.
O dr. Fabio Bayma por parentesco com o indigitado criminoso, figurou
indebitamente no corpo de delito.
Restam os drs. Faria de Mattos e Ribeiro da Cunha. Pode, portanto, no
terreno dos bons princípios, ser aceito, sem censura, um tal modo de
proceder?
Respondam-nos, mas façam-no com a mão da consciência.
105

Os caracteres que citamos inspiram-nos; mas a sociedade tem leis, tem


exigencias a que nos devemos subordinar (PUBLICADOR MARANHENSE,
23 de nov. de 1876).

Embora a inspiração de que trata o artigo, limite-se a considerações


capazes de nutrir a insatisfação social diante do fato, estas apresentaram-se apenas
ao nível das insinuações, não infundadas nos parece, mas bem mais úteis e
relevantes para acirrar os ânimos e pressionar os órgãos competentes, do que para
definir o andamento do processo.
À semelhança do „Publicador Maranhense‟, ocupou-se o jornal „O Paiz‟85
em acompanhar o desenrolar dos acontecimentos acerca da morte de Innocencio.
Dos noticiários de que tivemos acesso, podemos considerar que, com base na
publicação integral que fez dos dois exames de corpo de delito, procurou o periódico
não somente expor as duas linhas investigativas resultantes das autópsias – morte
por maus tratos ou morte natural consequência do hábito da vítima de comer terra –
mas, exigir das autoridades a justa resolução dos fatos, como podemos observar no
trecho a seguir:

Se, como dizem os peritos, há um crime, não hesite por contemplação


alguma em entregar a pessoa que o commeteo ao juiz que a deve punir,
pois se o fizer commeterá também um crime perante Deus e os homens. Se
o boato, porem, foi falso, se a criança morreu de comer terra, como dizem
alguns medicos, mostre a improcedencia da accusação, que tambem assim
prestara um serviço real á sociedade.
Em questões desta ordem a autoridade, elevando-se a altura do cargo de
que está investida, deve proceder com a maior serenidade e reflexão, com a
mais nobre independência. Diante de si só Deos e a lei deve ser igual para
todos (O PAIZ, 16 de nov. de 1876).

Embora informe „O Paiz‟, no dia 17 de novembro de 1876 que, em


havendo divergências num exame médico, não haveria meios para inocentar ou
incriminar alguém, este mesmo periódico não deixa de apresentar indícios quanto à
existência de um autor do delito ao mencionar as suspeitas da população ao
associarem a causa da morte de Innocencio à de seu irmão Jacintho, falecido um
mês antes. Assinala o periódico:

85
Jornal fundado e dirigido por Temístocles Aranha em 1863. Segundo informação do Catálogo de
jornais da Biblioteca Pública Benedito Leite, foi considerado o periódico mais completo antes da
implantação do regime republicano no Brasil. A princípio era jornal de cunho essencialmente católico,
mas, a partir de outubro de 1863, passou a usar o subtítulo „Órgão especial do comércio‟, alargando o
seu conteúdo. Em 1886, foram mudados os redatores, o jornal perdeu seu subtítulo e passou a ser
publicado todos os dias úteis (MARANHÃO, 2007, p.41).
106

Desde a morte de um irmão de Innocencio fallou-se que tinha aquelle sido


victima de sevicias. Fallou-se, mas nada provou-se, e, segundo dizem-nos,
o cadáver da criança não tinha indícios de castigos.
Fallecendo agora este, começou de novo a voz publica a dizer que a morte
não tinha sido natural, que o corpo da criança mostrava o que Ella tinha
soffrido (O PAIZ, 16 de nov. de 1876).

Dos três periódicos contemporâneos aos acontecimentos e por ora aqui


analisados, parece ter sido o jornal „O Apreciável‟86 o que adotou uma postura
menos velada em relação às suas colocações diante dos fatos, mostrando suas
suposições de forma bem mais direta quanto ao posicionamento que dividiam as
investigações e as opiniões da população. Assim, no noticiário do dia 18 de
novembro de 1876 diz:

É attribuida a morte do infeliz escravinho Innocencio aos castigos, que lhe


resultaram civicias averiguadas no exame médico, que tinha opportunidade
de ser combatido ou explicado, no acto do inquérito ou formação de culpa,
etc. etc; Mas já se está barulhando tudo, para illudir a verdade,
desviando-a do verdadeiro caminho!...
Para que esse segundo exame ou autopsia que veio deixar “peior a emenda
que o sonetto”? Onde se vio justificação em materia criminal, sem dizer em
nome de quem, para provar antecipadamente que não praticou tal ou tal
crime esse nome que não se declina? Será nova jurisprudência do
Advogado ou do Juiz que a admittiu?... (O APRECIÁVEL, 18 de nov. de
1876, grifo nosso).

Ainda que ora ou outra tenha o cuidado de admitir ser imprudente


antecipar juízos em relação a questões pendentes de decisão do Tribunal, „O
Apreciável‟ não abre mão de colocar em debate alguns pontos que, para ele, tornam
desnecessário o seguimento das investigações, visto ser evidente a conclusão dos
dois autos do corpo de delito. Concordando com os resultados da primeira autópsia,
tece duras críticas ao conteúdo do segundo corpo de delito por creditar-se nele ter
falecido Innocencio devido ao fato de ter adquirido hipoemia intertropical, conclusão
esta que anula ou pelo menos desvirtua a até então afirmada alegação de que teria
o escravo sucumbido por conta de maus tratos. Descendo aos detalhes, pontua a
fragilidade não somente das argumentações de que as marcas de sevícias
encontradas no corpo do menor teriam sido lidas pelos médicos da segunda

86
Segundo o Catálogo de jornais..., „O Apreciável‟ foi um órgão fundado em 1867 por Joaquim
Ferreira de Souza Jacarandá, cuja postura jornalística ao difamar algumas das personalidades de seu
tempo rendeu-lhe prisão e exílio na Província do Ceará (LOPES, 1959, p.35). Seu jornal trazia
notícias do exterior bem como conteúdo de cunho político e literário (MARANHÃO, 2007, p.43).
107

autópsia como manchas cadavéricas87, mas principalmente da problemática acerca


da afirmação de que os quatro ancilóstomos encontrados no corpo de Innocencio
fossem suficientes para lhe causar a morte. Sobre este ponto a descrição abaixo é
bastante ilustrativa:

Não sabemos como se pode explicar a morte por quatro anchylostomos


duodenaes, como causa – de comer terra! Ora a sciencia tem quase
sempre encontrado no duodeno de quase todos os cadaveres autopsiados,
esses animais sem que durante a vida esses individuos commessem terra.
Ainda à sciencia não provou, que o anchylostomos duodenaes devem ter
como effeito de sua presença o depravado apetite de terra! Há somente
hypotheses e estas ainda não verificadas – porque individuos ha que
morrerão de outras doenças – que não – chlorose do Egypto, da India,
hypoemia intertropical, e no entanto no duodeno forão encontradas
centenas de anchylostomos duodenaes? Como admittir que quatro
anchylostomos podessem produzir a morte, quando pelo primeiro corpo de
delicto, assim como pelo segundo, havião graves sevicias no cadaver?! (O
APRECIÁVEL, 25 de nov. de 1876).

Para o periódico, portanto, a improcedência da possibilidade de ter


morrido o escravo pelos motivos alegados no segundo corpo de delito – cuja
conclusão, segundo ele, fere os preceitos da Medicina Legal bem como subestima o
pensamento científico – o fazem reavivar a convicção de que a morte do menor
tenha decorrido de maus tratos, circunstância cujos indícios são claramente
detalhados nos dois laudos e de que, portanto, houve crime. O tom um tanto quanto
ácido de suas colocações não o impede inclusive de sinalizar a autora do delito,
atitude não adotada pelos outros jornais, embora este fato fosse do conhecimento
tanto da imprensa quanto da população. A reivindicação do periódico é bastante
clara quando diz:

87
Observação em que argumenta: “Ora as manchas cadavericas são violectas, e nos pontos de
contacto com o plano onde se acha o cadaver; e as provenientes de contusões são profundas
interressando o tecido cellular, sendo de notar que a putrefação se faz mais depressa nos pontos
feridos, nos contusos, do que nas outras partes do corpo. Seria admitir que essas manchas tivessem
o instincto de apparecer sobretudo nos pontos contusos – descriptos no primeiro corpo de delicto –
tomando, quando já demasiado putrefacto o cadaver, o nome de manchas cadavericas para se
desenvolver de preferência nesses ditos pontos? Ora de duas uma: ou o corpo estava
completamente em estado de putrefação, e neste caso essas manchas erão signaes de contusões,
ou a putrefação não se achava senão no começo, e neste caso as manchas erão cadavéricas e falsa
a asseveração de já se achar adiantada a putrefação como foi declarado no começo da descripção
do segundo corpo de delicto! Seria facil verificar essas manchas de côr violecta, das contusões, que
são escuras, alem disto, na putrefação se verificaria que nas primeiras apelle era só alterada, e nas
segundas apelle, o tessido cellular, sem nenhum traço de sangue por ser já adiantada a
decomposição” (O APRECIÁVEL, 25 novembro de 1876).
108

Si foramos juiz saberíamos, com a força de nossa authoridade, chamar os


medicos da 1ª e 2ª autopcia no cadaver de Innocencio às explicações; em
face de Medicina Legal, e depois daríamos nossa decisão sem temer a
pessoa poderosa da acusada, e nem trepidar ahte qual quer falsa opinião
publica, que pela ventura si houvesse levantado... (O APRECIÁVEL, 23 de
dez. de1876, grifo nosso).

A transparência de suas afirmações, portanto, revela a necessidade que


tinha de posicionar-se diante de acontecimento tão irascível e que trazia a opinião
pública, como disseram os jornais, tão indignada, sobretudo por se saber dos
privilégios a que estava sujeita a acusada devido mesmo a importância de sua
posição social. Embora a denúncia jurídica de um membro das classes abastadas
da cidade fosse um salto significativo na luta pelo reconhecimento da humanização
dos negros, era viva também a consciência da quase inviabilidade de quebrar
marcas de distinção social tão arraigadas, mantidas e vigiadas pelos que se
beneficiavam destes preceitos.
Sabemos, outrossim, que as discussões em torno deste caso criminal não
tiveram fim com a resolução do processo. Como dissemos, tempos depois, ainda
reverberava nas memórias e romances de escritores, bem como nos noticiários dos
jornais, comentários acerca da propensa discutibilidade do caso, como assim o
atestam os artigos publicados por Antônio Lopes e José Ribeiro de Oliveira mais de
40 anos após os acontecimentos. Nestes, um debate acalorado em torno da conduta
tomada tanto pelo promotor público do processo quanto pelo marido da acusada, o
Dr. Carlos Fernando Ribeiro.
Antônio Lopes, já citado em outra ocasião, era professor, historiador e
jornalista, válido dizer, também sobrinho do então por ele homenageado Celso
Magalhães a quem, em artigo publicado dia 10 de novembro de 1917 no jornal
„Pacotilha‟, foram enaltecidas as mais valorosas qualidades intelectuais. Pontuando
sua habilidade para o exercício literário e jornalístico, Lopes traça um relativamente
breve estudo biográfico de Magalhães ressaltando não somente sua trajetória de
vida pessoal, mas principalmente o desenrolar de sua vida pública, salientando a
sensibilidade deste no trato com assuntos de relevante valor social. A escravidão, a
cultura popular, os usos e costumes da Província eram temas que muito lhe
apetecia. No entanto, foi exaltando suas propriedades jurídicas que Antônio Lopes
relembrou o caso em que esteve envolvida Anna Rosa Vianna Ribeiro, “senhora da
109

mais alta aristocracia maranhense acusada de ter assassinado a sevícias uma


criança escrava” (LOPES, PACOTILHA, 10 de novembro de 1917).
No rol das considerações por este tecidas acerca do polêmico caso, a
afirmação de que a ilibada postura do promotor público fora inclusive – no decorrer
do trâmite jurídico – assediada por ofertas e pedidos, mas também ameaçada sua
própria existência diante de um misto de interesses pessoais e políticos dos quais
conseguiu desvencilhar-se devido sua „impavidez diante da situação‟. Não pode,
contudo, o mesmo livrar-se da autoridade do Dr. Carlos Fernando Ribeiro assim que
este tomou posse da Presidência da Província do Maranhão no ano de 1878,
quando, nas palavras de Lopes, numa atitude vingativa e covarde, o principal
interessado na causa célebre, demitiu a bem do serviço público Celso Magalhães88.
Em contrapartida, sentiu José Ribeiro de Oliveira, sobrinho do então
falecido Carlos Fernando Ribeiro, necessidade de „restabelecer a verdade‟ frente às
declarações feitas por Antônio Lopes. Num tom sarcástico, em artigo divulgado pelo
„Pacotilha‟ no dia 13 de novembro de 1917, argumentou que este autor emprestou
brilho exagerado às atitudes tomadas pelo promotor no processo-crime,
considerando tratar-se a denúncia da esposa do chefe do Partido Liberal fruto das
querelas políticas locais já conhecidas pelo costume que tinha de depreciar a
imagem de seus desafetos. Nas palavras de Oliveira:

[...] a esse tempo, já era habito fezerem-se e desfazerem-se reputações, ao


sabor das conveniências e dos interesses do momento. Aproveitando-se do
caso, inimigos políticos e pessoaes do dr. Carlos Fernandes Ribeiro, o mais
tarde barão de Grajahú, fizeram circular, com afirmações categóricas, que
Innocencio fora victima de maus tratos, infligidos pela mulher do seu senhor,
d. Anna Rosa Vianna Ribeiro (OLIVEIRA, PACOTILHA, 13 de nov. de
1917).

Sua convicção de que a acusação de maus tratos não passava de uma


falácia da oposição (da qual Celso Magalhães agiu instigado pelo ardor da
campanha política adversária), visto que o segundo atestado comprovava a morte

88
Ao que Lopes reclama: “Era um funcionário destes que se demitia, por conveniência do serviço
público. Que o acto de demissão foi injusto, não resta, a menor dúvida, pois Celso de Magalhães,
durante a serventia do cargo só fizera honrar a justiça com a sua probidade e saber. Sabe toda gente,
contemporâneos ou não do infeliz maranhense, na sua terra, que não tinha a demissão outro motivo
que o da vingança pessoal, e, como já foi exposto, sem base plausível. Tanto assim que se revestia
de um carácter de acinte iniludível. O dr. Carlos Ribeiro assumiu o governo a 28 de março, e, logo a
29, era Celso de Magalhães demitido, sendo a sua primeira demissão, e, simultaneamente, o –
primeiro acto, para bem dizer, do presidente no dia anterior empossado” (LOPES, PACOTILHA, 19 de
nov. de 1917).
110

dada por questões naturais89, o fazem prosseguir num pensamento de que


prevalecia nesta contenda jurídica, reflexos de uma trama em que a prática da
perseguição política era seu mais funesto ingrediente. Para Oliveira, portanto, era
Carlos Ribeiro mais uma vítima dos esforços de seus inimigos políticos para deturpar
negativamente a imagem de quem, ao tempo do processo, se encontrava, conforme
palavras do próprio Oliveira, em rigoroso „ostracismo político‟ e para quem somente
se viu feita justiça para o caso criminal do qual esteve indiretamente envolvido
devido a integridade e eficácia dos órgãos competentes (OLIVEIRA, PACOTILHA,
13 de nov. de 1917).
É válido acrescentar que, em trabalho recente e já mencionado, José
Eulálio de Almeida concorda com o fato de não ter o marido da acusada exercido
qualquer interferência sobre a escolha dos jurados e a decisão do conselho de
sentença justamente por estar, neste período, fora do poder provincial uma vez que
sem mandato. Almeida parece não atentar, porém, que independente ou não de
estar numa gestão, exercia Ribeiro importante e longínqua90 influência no jogo
político da capital.
Em resposta aos argumentos de José Ribeiro de Oliveira, Antônio Lopes
noticia, em novo artigo, não ter formulado qualquer juízo a respeito da
responsabilidade de Anna Rosa Ribeiro no caso em relevo, afirmando que:

Ao traçar as linhas de sábado passado não tínhamos em vista ennublar a


memória de mortos por certo respeitáveis, como todos os que repoisam no
sagrado seio dos sepulcros, tanto assim que não fizemos a menor acuzação
que pudesse magoar os membros da família da iditosa Senhora que a
fatalidade envolveu, em liames de agitada tragédia (LOPES, PACOTILHA,
19 de nov. de 1917).

Foi, contudo, criticando a acusação de ter agido Celso Magalhães por


motivos políticos que se concentrou boa parte da contestação de Antônio Lopes ao
artigo de José Ribeiro Oliveira. Considerando que:

89
No que acrescenta: “A causa da morte do pequeno foi hypotenia inter-tropical, mal de que já se
achava elle accommettido, quando comprado pelo barão. Esse facto, já por si, era sufficiente para
afastar as suspeitas que vieram a ser levantadas em torno dessa morte, conhecido, como era, o dr.
Santos Jacintho, não só pela sua competência, como ainda pela nobresa e elevação dos seus
sentimentos e pelas suas profundas crenças religiosas” (OLIVEIRA, PACOTILHA, 13 de nov. de
1917).
90
Nos diz Jerônimo de Viveiros descender Carlos Fernando de políticos prestigiosos na Província,
condição que absorveu boa parte de sua vida pública no Partido Liberal (VIVEIROS, p.113).
111

Celso limitou-se a cumprir o seu dever. Grandes foram as suas


responsabilidades no momento e não nos consta as houvesse encarado
com atitude menos recomendável á sua dignidade de funcionário. Não se
diga que levou paixão para a acção que desenvolveu na célebre causa,
excedendo os limites da lei em qualquer oportunidade, quando as paixões
referviam em torno ao infausto caso. E porque não levou? Sem dúvida por
isto, principalmente: Celso não era político até então (LOPES, PACOTILHA,
19 de nov. de 1917, grifo do autor).

Explica de forma categórica e – segundo ele, com base tão somente num
trato fiel com os testemunhos do passado – que, embora Celso pertencesse a uma
família de tradições conservadoras, este manteve-se afastado destas inspirações
em boa parte de sua abreviada vida, dedicando-a bem mais às suas aptidões
literárias, e, somente tendo entrado efetivamente para o Partido Conservador,
tempos posteriores ao processo criminal e mesmo após sua demissão do cargo de
promotor público pelo Barão de Grajaú. Julga ainda Antônio Lopes, ter assumido
Celso Magalhães a vida partidária muito mais como reação pública à injustiça por
ele sofrida do que por uma aspiração de seu espírito para a política, circunstância
que reforça ainda mais a argumentação de que o promotor não tenha agido de
forma sugestionada no libelo, sendo a perseguição, tão apontada por Oliveira,
instrumento utilizado, em verdade, contra Magalhães.
Observamos, assim, que contemporâneos ou não aos acontecimentos
que circundaram o processo-crime movido contra Anna Rosa Vianna Ribeiro, os
jornais, volta e meia, apontavam tanto a posição social do marido da acusada
quanto as disputas políticas da capital provinciana como fatores que exerceram
influência significativa no resultado do trâmite jurídico. Argumentos inclusive e ao
que parece, bem mais insistentes do que a consideração de que tratava-se a vítima
de um escravo menor de idade numa época em que essa denúncia exprimia não
somente um certo redirecionamento no tratamento jurídico conferido ao cativo,
quando o aparato judiciário passou a interferir legalmente nas relações senhores e
escravos, mas também por ser alvo das críticas abolicionistas que naquele momento
ferviam nas linhas escritas pelos literatos, jornalistas e incitavam as rodas de
conversa da cidade.
112

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nos últimos anos a multiplicidade de estudos desenvolvidos em torno do


tema da escravidão brasileira tem contribuído para ampliar o redirecionamento de
uma perspectiva teórica que tradicionalmente concebeu senhores de escravos e
cativos como duas categorias sociais distintas, homogêneas e, consequentemente,
cristalizadas. Teorias sobre as quais não podemos deixar de reconhecer nem a
importância para o crescimento da produção acadêmica sobre o tema nem o lugar
de quem as escreveu, mas que com o tempo tornaram-se insuficientes para abarcar
a complexidade do debate, abrindo caminho a outras leituras.
As críticas a esta maneira de interpretar uma instituição tão expressiva e
cara ao processo histórico brasileiro quanto o foi o sistema escravista, inserem-se no
esforço de empreender – principalmente com base em estudos locais e regionais e a
diversificação das fontes utilizadas para as pesquisas – um exercício que permita
perceber as várias formas assumidas pelo convívio mantido não somente entre
senhores e sujeitos escravizados, mas também as conivências e os conflitos
estabelecidos entre os próprios cativos, aspecto este questionador da noção de que
prevalecia uma identidade comum que ligava, radicalmente, os membros deste
segmento entre si.
No interior desta produção, a questão da resistência escrava assume
papel bastante relevante ao salientar os mecanismos articulados pelos indivíduos
escravizados para, senão livrar-se do domínio senhorial, pelo menos atenuar o peso
desta autoridade. Assim, praticaram desde resistências as mais abertas,
experienciadas através de insurreições, fugas, aquilombamentos, assassinatos,
roubos, atos criminosos em sua ampla variedade, compras ou pedidos de alforrias, a
recursos mais velados ou negociados a respeito dos quais dependia a criatividade,
inteligência e sorte dos cativos, como assim observa o historiador João José Reis.
Enquanto parte fundamental para a compreensão das múltiplas formas de
resistência escrava, a problemática do crime assumiu importante valor em nosso
estudo, pois ao considerá-lo em sua historicidade pudemos observar que sua
concepção na sociedade escravista brasileira estava diretamente associada à leitura
jurídica feita a respeito da condição social do cativo, permitindo-nos considerar que,
no mais das vezes, era sensivelmente distinto o tratamento dispensado pela Justiça
ao escravo quando figurava ou como vítima, onde a lei se mostrava mais relaxada
113

em suas resoluções, ou como autor de um ato criminoso, onde era mais respeitada
a aplicação da lei. Essa conclusão, entretanto, pode estar vinculada à dificuldade em
se encontrar fontes que permitam apontar situações em que se possa visualizar, por
exemplo, crimes cometidos pelos senhores contra seus cativos já que esta prática,
por mais que seja teoricamente punível quando configurada como sevícia, por
muitos motivos – dentre os quais podemos mencionar a negligência dos senhores e
da polícia – não chegava a formar registro policial e muito menos a concretizar
processo judicial, o que de certa forma diminui a viabilidade das pesquisas
interessadas neste aspecto das relações escravistas e apontam um outro âmbito,
cujos os registros parecem mais abundantes, qual seja, o da criminalidade escrava.
Foi, no entanto, sob a perspectiva da criminalidade contra escravos que
se desenvolveu nosso interesse em analisar o processo-crime ocorrido contra Anna
Rosa Vianna Ribeiro, importante dama da sociedade ludovicense da segunda
metade do século XIX e de cuja acusação nos parece estar vinculada não somente
a um reflexo da intensa propaganda abolicionista disseminada àquele período, mas
também a um assunto bastante profícuo ao estudo das relações escravistas, e que
diz respeito à intervenção do poder público na regulamentação da relação
senhores/escravos. Interferência esta ambígua e complexa, diga-se de passagem,
pois se por um lado ela intervinha a favor do cativo, como assim ocorreu com o ato
de denúncia promovido pela Promotoria Pública do Estado do Maranhão contra a
futura baronesa, por outro lado, mostrava-se relapsa e débil frente aos interesses
particulares dos escravagistas, como assim revela a atitude marcada pela
absolvição da ré, ainda que a acusação de sevícia que contra ela pesava, fosse
juridicamente reprovada.
A dubiedade da condição do cativo, percebido ora como coisa ora como
pessoa dotada de ciência, refletia a maneira mesmo como se institucionalizou o
aparato judiciário maranhense no período imperial, cuja herança colonial tornou
problemática sua relação com a ideia de público, circunstância que acabou
dificultando uma intervenção mais objetiva e imparcial – como assim se propunha o
discurso jurídico – diante dos interesses e privilégios dos escravistas, de maneira
que tornou complicado falar de uma delimitação do controle entre o âmbito público e
privado quanto à tutela do cativo, já que ambas as instâncias, na prática, se
mesclavam e se confundiam.
114

Aliás, essa objetividade e imparcialidade sobre a qual repousou (e ainda


repousa) o discurso jurídico, fruto mesmo da racionalidade científica que tomou para
si a autoridade e credibilidade do saber, foi um dos critérios fundamentais para a
formulação da defesa de Anna Rosa, quando seu advogado insistiu na crítica às
deficiências de ordem científica a que estiveram sujeitos os procedimentos policiais
na coleta de informações para a investigação, enfatizando, de quando em quando,
assentar-se o discurso jurídico em preceitos orientados pela busca da verdade e a
aplicação legal e devida das penalidades.
Enquanto produto de concepções cultural e historicamente construídas,
todo o aparato jurídico característico desta época e sociedade, ainda que arbitrário,
tomava para si o status de instituição puramente formal e objetiva, impondo aos
indivíduos, simplesmente, obedecer o conteúdo de suas leis e não questioná-la ou
transgredi-la sob pena de punição. Na prática, como tivemos a oportunidade de
observar no caso criminal movido contra Anna Rosa Ribeiro, o uso feito desse
conteúdo jurídico permitia perceber que a manifestação de interesses particulares
estava longe de ser eximida. Entre as partes envolvidas no processo figurava, de um
lado, um escravo menor de idade cuja mãe, negra forra, respondeu a um processo
criminal meses após o processo que investigava a morte de seu filho, do outro lado,
uma mulher oriunda de família abastada, proprietária de escravos e, principalmente,
esposa do chefe do Partido Liberal na Província, que, mesmo não estando no poder,
quando se encontrava sua cônjuge sob investigação, teve importante influência no
jogo político regional.
A forte repercussão deste fato na literatura e imprensa, aliás, incidiram
sobremaneira neste último aspecto, acreditando que, mesmo sendo a denúncia
jurídica de uma escravocrata algo quase inusitado para aquela conjuntura, sua
absolvição não representou alguma surpresa para a opinião pública, visto exprimir,
mais uma vez, a autoridade e o interesse dos mais privilegiados.
Tratamos de apenas um único caso de acusação contra os desmandos
senhoriais. Muitos traços da conflituosa relação escravista nos foram revelados.
Nossas conclusões estão longe de abarcar a complexidade desta sociedade,
representam apenas um flash diante de uma realidade muito mais ampla e plural a
respeito da qual cada vez mais se multiplicam e enriquecem suas interpretações.
115

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120

ANEXOS
121

Jornais que noticiaram a morte de Innocencio

O Publicador Maranhense (sexta-feira, 17 de nov. de 1876)

Exame de um cadáver – Ante-hontem espalhou-se nesta cidade que um


escravo de 11 anos, de propriedade do Sr. Dr. Carlos Fernandes Ribeiro, que se
acha ausente em sua fazenda em Alcântara falleceu victima de sevicias.
A policia tendo disto conhecimento procedeu immediatamente como lhe
cumpria.
Procedido o corpo de delito pelos peritos drs. Raimundo de Castro e
Lemos, acharam o seguinte (descrição do 1º corpo de delito).
Consta-nos que vai proceder ao inquérito o Sr. Dr. Chefe de policia.

O Publicador Maranhense (sábado, 18 de nov. de 1876)

Novo exame cadavérico – Em presença da Sr. Dr. Chefe de policia, de


um amanuense de sua secretaria que o acompanhava e do promotor público interino
procedeu-se ante-hontem, a requerimento do Sr. Dr. Paula Duarte, a novo exame no
cadáver do escravinho do Sr. Dr. Carlos Ribeiro, de que hontem nos occupamos, e
cuja morte é atribuída a sevicias.
Feita a exhumação procederam ao exame os peritos indicados pelo Sr.
Dr. Paula Duarte em sua petição, e foram estes os Srs. Drs. A. dos Santos Jacintho,
Fábio A. Baima, J. M. Faria de Mattos e Manoel J. Ribeiro da Cunha, sendo também
a acto assistido pelos do exame anterior (descrição do 2º corpo de delito).

O Publicador Maranhense (quinta-feira, 23 de nov. de 1876)

Secção geral

A morte de Inncencio

Agita-se presentemente nesta capital uma questão gravissima, sob a


epigraphe, acima e que traz a população seriamente impressionada.
Esta questão é o boato sinistro de ter sido immolado, por meio de
sevicias, um infeliz escravo menor de dez annos de idade, pertencente ao Dr. Carlos
Fernando Ribeiro, que ha muito se acha ausente desta cidade em seu engenho, no
termo de Alcantara.
Logo que circulou este boato, chegou, naturalmente aos ouvidos da
policia uma denuncia de que este escravo havia sido morto por violência.
O Sr. Silva e Sá, subdelegado do 2º distrito, foi a primeira auctoridade que
tomou, por iniciativa própria, conhecimento deste fato, cuja gravidade chamou logo
sua atenção.
Dous medicos, convocados para o exame, os drs. R. de Castro e Lemos,
procederam ao respectivo corpo de delicto e declararam o que consta do exame
publicado nos jornais desta capital. Logo apoz este exame requereu o Dr. Paula
Duarte, por interesse de terceiro, cujo nome não declarou, segundo exame, indicado
para peritos os drs. Santos Jacintho, Faria de Mattos, Ribeiro da Cunha e Fabio
Bayma.
122

Feito este, externaram elles o seu parecer pelo modo constante de suas
respostas, também publicados nos referidos jornaes.
Ao mesmo tempo que a policia trabalhava por sua parte, requeria o Dr.
Paula Duarte perante o juiz criminal da 1ª vara uma justificação sobre este fato, na
qual figuram como testemunhos pessoas muito importantes, principiando o
depoimento pelo exmo. Dr. Chefe de policia, que sem duvida mal avisado, inutilisou-
se neste negocio, sobre que lhe cabia tomar a principal parte. Outros testemunhos já
tem deposto – o dr. Santos Jacintho, srs. Travassos da Bosa e major Nunes Paes e
consta-nos que faltam ainda muitas.
Dos tres primeiros já estão no dominio do publico os respectivos
depoimentos, sendo o do dr. Santos jacintho muito longo e minucioso.
Aguardemos os mais.
É este o estado em que pára esta questão que, não cessaremos de
repetir, é da maior gravidade e traz a população seriamente impressionada.
Tem a sociedade maranhense a mais plena confiança nas justiças do
paiz, para não lhe passar pela mente que, se criminoso houver neste drama de
sangue, encorage-o a impunidade para a continuação de novos sacrifícios.
A voz publica já deu à autoridade a ponta do fio para guia-la no labyrintho.
Cumpre pois que não descance, que ponha de parte as attenções para só
se consagrar à causa da justiça, á causa da humanidade.
Attenda que alguns dos medicos do segundo corpo de delito não eram as
mais competentes para funcionar nelle. E se não vejamos:
O dr. Santos Jacintho, foi o medico encarregado do tratamento do menor,
tomou parte no negócio depois do fallecimento deste e forneceu o attestado de
óbito; devia, portanto, declinar de si a competencia para o exame como fez quando
foi chamado a primeira vez no Lycêu, segundo se vê do seu depoimento.
O dr. Fabio Bayma por parentesco com o indigitado criminoso, figurou
indebitamente no corpo de delito.
Restam os drs. Faria de Mattos e Ribeiro da Cunha. Pode, portanto, no
terreno dos bons princípios, ser aceito, sem censura, um tal modo de proceder?
Respondam-nos, mas façam-no com a mão da consciência.
Os caracteres que citamos inspiram-nos; mas a sociedade tem leis, tem
exigencias a que nos devemos subordinar.
Vamos fechar este artigo com o seguinte appello:
Não descance a justiça. Não esmoreça a autoridade na pesquisa do autor
ou autores deste crime, se crime existe, sejam elles pobres ou ricos.
Ponha de parte as considerações mal entendidas, as attenções indevidas:
só assim merecerão os applausos do povo os depositários da lei e da justiça.
Continuaremos
21 de novembro de 1876
A voz do povo.
123

Jornal: O Paiz (São Luís - MA), 16 de novembro de 1876 (p.03, c. 02)


Transcrito por: Jacira Pavão da Silva
Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

Notícias

Exame de um cadaver – Correu antehontem que um escravo, de 11


annos, do Sr. Dr. Carlos Fernando Ribeiro, falleceu de sevicias, nesta cidade.
O Sr. Dr. Carlos está há muito tempo ausente, em seu engenho em
Alcantara e ignora completamente esta ocorrência.
Fez-se o corpo de delicto como, abaixo dizemos, e tem a policia em seu
poder os elementos para conhecer a verdade.
Se, como dizem os peritos, há um crime, não hesite por contemplação
alguma em entregar a pessoa que o commeteo ao juiz que a deve punir, pois se o
fizer commeterá também um crime perante Deus e os homens. Se o boato, porem,
foi falso, se a criança morreu de comer terra, como dizem alguns medicos, mostre a
improcedencia da accusação, que tambem assim prestara um serviço real á
sociedade.
Em questões desta ordem a autoridade, elevando-se a altura do cargo de
que está investida, deve proceder com a maior serenidade e reflexão, com a mais
nobre independência. Diante de si só Deos e a lei deve ser igual para todos.
- São estes os pormenores que colhemos:
Desde a morte de um irmão de Innocencio fallou-se que tinha aquelle sido
victima de sevicias. Fallou-se, mas nada provou-se, e, segundo dizem-nos, o
cadáver da criança não tinha indícios de castigos.
Fallecendo agora este, começou de novo a voz publica a dizer que a
morte não tinha sido natural, que o corpo da criança mostrava o que Ella tinha
soffrido.
Neste sentido uma denuncia foi levada ao Sr. Dr. Chefe de policia, que
mandou o Sr. Subdelegado do 2º districto fazer as primeiras indagações.
Dirigio-se o Sr. Subdelegado Silva e Sá na manhã de 14 ao cemitério e
ahi achou o cadaver da criança, que ainda estava insepulto, por ter sido levado sem
o bilhete de sepultura e certificado do escrivão e do juiz de paz.
Examinando o Sr. Subdelegado o cadaver, pedio logo que fosse posto á
disposição da policia para o exame preciso, como effectivamente ficou.
Nesse dia não se fez o exame, consta-nos por não se ter encontrado
medico que se prestasse.
Hontem foi feito o corpo de delicto, no qual foram peritos os Srs. Drs.
Raimundo de Castro e P. Guimarães.
As respostas dadas pelos peritos são as seguintes. – São bem positivas –
morte por castigos repetidos ou continuados, e por todo o corpo!
Dizem os peritos:
Quanto ao habito externo – que a cabeça tinha uma contusão na região
occipital pelo lado direito, junto á sutura com o parietal correspondente; uma outra
na região frontal do mesmo lado, em sua parte media; outra ainda na mesma região
pela sua parte esquerda, marchando para a região temporal correspondente –
escoriações na orelha direita, em seus bordos; feridas e echimoses no lábio inferior;
um ferimento já cicatrisado, mas recente no pescoço e correspondendo ao osso e
oide. No tronco, marcas antigas e recentes provavelmente resultado tambem de
pancadas; no ventre, alem das citadas marcas, existem echimoses um tanto
124

apagadas, mas que se pode affirmar produ-/zidas há pouco tempo; prolapso no


recto ruptura, ainda que pequena, em alguns pontos da circumferencia do sprincter.
No braço direito escoriações e echimoses na região escapulo-humeral,
produzidas pela pressão exercida, provavelmente, por cordas, durante alguma
tempo; - na região do cotovello escoriações recentes, no anti-braço, pela sua parte
posterior, e em seu terço inferior – uma ferida de forma ovóide de tres ou quatro
centímetro d extensão, no seu maior diametro.
O braço esquerdo tambem escoriado e echimosado nos pontos notados
no braço direito.
Nas pernas marcas antigas de castigos, por toda extensão e nos joelhos
escoriações recentes.
Quanto ao habito interno: acharam, igualmente, um derramamento
sanguineo pouco considerável na região cerebral.
Na caixa thorascica não havia nada de notavel.
Na região abdominal tambem nada havia digno de menção.
O cadaver, comquanto estivesse insepulto para mais de 24 horas e n‟um
clima como o nosso, a putrefação era pouco adiantada.
O estado do corpo da infeliz criança demonstrava que a morte
apparecera, não em virtude de uma molestia e longa consumpção 91 e sim por uma
causa qualquer, rápida, que pouco lhe alterou o seu estado physico.
Aos quesitos responderam:
1º Que houve morte
2º Foi provavelmente máu tracto e castigo
3º Que quanto ao meio que o produziu, satisfazem com a resposta ao 2º
4º Que a morte não foi causada por castigos immoderados, mas
provavelmente por castigos repetidos e mau trato continuado o que o infeliz não
pôde suportar .
5º Que os castigos foram praticados provavelmente com cordas, chicote e
qualquer outro instrumento contundente e de maior peso.
6º Pode-se dizer que todo corpo foi maltratado com castigos repetidos, e
se houvesse cuidado, de certo não teria havido a morte.
7º Que o habito externo do cadaver não denota que o menor estivesse em
abandono de cuidados humanitários, ao menos pelo que apparecia na occasião.
8º Que o damno causado foi a perda da vida.
- Consta-nos que vai proceder ao inquérito o Sr. Dr. Chefe de policia.
Temos a mais plena confiança neste digno magistrado.

Jornal: O Paiz (São Luís – MA),


Sexta-feira, 17 de novembro de 1876 (microfilmado). (p.02 e 03, c.06 e 01-03).
Transcrito por: Jacira Pavão da Silva
Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

A morte de Innocencio

A morte de Inoccencio – Requereo o Sr.Dr. Paula Duarte, por interesse de


terceiro, que fosse exumado e de novo examinado por outros peritos que indicou, o
cadáver do menor Innocencio, escravo do Sr.Dr. Carlos Fernando Ribeiro, escravo

Consumpção – definhamento progressivo e lento do organismo (M.F.)


91
125

que aqui estava em companhia de sua senhora, e de cuja morte demos hontem
noticia.
Deferida esta petição, o Sr. Dr. chefe de policia convocou os ditos peritos
para o exame requerido hontem as 11 horas da manhã.
A essa hora achavão-se no cemitério o Sr.Dr.chefe de policia, José
Marianno da Costa, acompanhado do amanauense, o Sr. R. Rego, os peritos
nomeados, Drs. A. dos Santos Jacintho/ Fabio A. Baima, J.M. Faria de Matos,
Manoel J. Ribeiro da Cunha e também os peritos do exame anterior, os Srs. Drs. R.
Castro e Augusto Lemos, o Sr. Promotor Publico interino, Antonio Gonçalves de
Abreu, o advogado Dr. Paula Duarte, e mais outras pessoas.
Ao meio dia foi desenterrado o cadáver, que já estava em adiantada
putrefacção, e principiaram os peritos o exame.
Foi demorado e muito minucioso este exame, durante o qual o Sr.Dr.
Santos Jacintho ferio-se; usando, porem, das cautelas que para estes casos a
sciencia recomemmda, não [ileg.] más consequencias o seu ferimento.
Eram 2 horas da tarde - quando terminou.
Reunidos os peritos, em um dos consistório da capella foram pelo
advogado Dr. Paula Duarte apresentados os seguintes quesitos:


A morte foi natural ou causada por violência?

Si por moléstia, pode se determinar a natureza della e era Ella capaz de
produzir a morte?

No caso sujeito foi a morte causada por moléstia a que atribuio o attestado
do facultativo?

Apresenta o cadáver contusões e são estas capazes de justificar a morte
por violência?

Se pelos caracteres das contusões, pode se assegurar que o individuo
morto houvesse sido repetidas vezes castigado corporalmente, e em caso se o
abandono ou carência de tratamento eram sufficientes para produzirem a morte?

Se o estado do cadáver denota que o individuo não tivese sido alimentado
regurlamente até a morte, ou se os indícios da alteração física são ou não
provenientes e explicáveis por moléstia?

Há contusões na cabeça, são estas de natureza especial, pode-se
determinar a causa d‟ellas?

Em conseqüência passaram os peritos a fazer os exames e investigações


ordenadas e as que julgaram necessárias, concluídas as quaes declararam o
seguinte:
Inspecção externa

1º Era o cadáver de um menor de cor preta, o qual indicava ter pouco mais ou
menos dez anos de idade, tinha a epidderme separada da pelle em toda a sua
extensão e achava-se bastante tumefeito.
126

2º Tinha abertas as cavidades craneada e abdominal, em conseqüência da autopsia


anterior e apresentava da parte de fora desta ultima cavidade o estomago e o grosso
intestino não abertos.
3º Na cabeça nota-se uma pequena echymose circular de 2 centimetros de diâmetro
situada sobre a sutura sagital perto do ângulo superior do occipital.
4º No pescoço nada há de notável e como em outros pontos está também denudado
da epiderme, a face também nada apresenta que mereca menção.
5º No tórax – (peito) encontra-se uma escoriação de 12 milimetros de comprimento e
6 de largura situada sobre a appophyse acramion esquerda, e manchas cadavéricas
verificadas por incisões.
6º Na parede anterior do abdômen nada se encontrou digno de menção, a excepção
de manchas cadavericas.
7º Na região lombar encontra-se uma echymose de 1 decimetro e 5 centimetros de
largura.
8º No membro thoraxico direito há uma escoriação ao nível da extremidade superior
do radius sob a face posterior da articulação humero cubital; há também uma cicatriz
de5 milimetros de diâmetro na parte interna do cotovello ao nível da epitróclea; e
ainda mais uma solução de continuidade de 25 milmetros de comprimento de forma
elíptica a qual interessa todo o tegumento e tecidos subjacentes até o periósteo
exclusive, e é situada no terço inferior do antebraço sobre a borda intrena do
cubetus; e finalmente uma echymose de um decímetro de comprimento com 25
milimetros de largura na face do braço.
9º No membro thoraxico esquerdo há uma echymose circular de 12 milimetros de
diâmetro na face dorsal do corpo junto a articulação radio-carpiana.
10º Na região glutea (nadegas) há manchas cadavericas que forão verificadas por
incisões.
11º No membro abdominal direito há uma echimose circular de 25 milimetros de
diametro no terço superior da face interna da tibia, e uma cicatriz circular de 6
milimetros de diametro situada ao nivel do segundo osso domettatarso sobre a face
dorsal do pé.
12º No membro abdominal esquerdo a uma echymose circular de 37 milimetros de
diametro ao nivel do lado interno da rotula, uma cicatriz circular de 12 milimetros de
diametro situada ao nivel da face anterior da mesma rotula e uma echymose de 5
centimetros de comprimento com 12 milimetros de largura situada abaixo do
mallealo externo - .

Inspeção interna

13º Na cavidade craneana nada se encontra a não serem detritos de massa


encephalyca e as membranas do cérebro mais ou menos lacerados.
14º Aberta a cavidade thoraxica encontrarão o coração em via de decomposição,
facil de lacerar-se, com as suas cavidades vasias do sangue e anemico. Tambem
não tinha sangue a arteria pulmonar. Nos pulmões nada de notavel.
15º Aberto o estomago encontram-no cheio de uma grande quantidade, digo de uma
massa composta de farinha, carne e terra vermelha que reconhecerão lavando a
massa e separando a terra.
16º Aberto o duodenum encontrarão pequenos vermes de espécie anchylostomum
duodenale dos quaes recolherão quatro que depositando em um pequeno vidro com
álcool, confiarão ao Sr.Dr. Chefe de policia.
127

17º O figado se acha anemico. No grosso intestino há fezes em pequena


quantidade. Há prolapso do recto. O esphincler do anus apresenta pequenas
dilacerações em alguns pontos da sua circunferencia; e que portanto respondem aos
quesitos apresentados pelo advogado.

Ao 1º quesito – A morte foi natural.


Ao 2º Que a autopsia tendo demonstrado a existenci a de anchylostomus duodenaes
confirma a molestia qualificada de hypoemia in/tertropical, que é por si so sufficiente
para produzir a morte.
Ao 3º Que sim.
Ao 4º Sim, que o cadaver tem contusões que são por si sós insufficientes para
causar a morte.
Ao 5º Sim, que foi castigado, mas não podem determinar o numero de vezes; que se
houve abandono ou carencia de tratamento o que não podem reconhecer, era istp
sufficiente para produzir a morte.
6º Que o alimento encontrado no estomago não era adequado á natureza da
molestia; mas ignorão se foi sempre essa a alimentação empregada.
7º Que há uma contusão na cabeça, mas que não podem precisar a natureza d‟ella.

Pelos Drs. Raimundo José Pereira da Castro e Augusto José de Lemos


foi dito que, discordando elles da opinião de seus colegas, passão a expor: Que pelo
exame cadaverico hoje novamente praticado no menor Innocencio, escravo do Dr.
Carlos Fernando Ribeiro, auxiliados pelos Drs. Manoel José Ribeiro Cunha, Antonio
dos Santos Jacintho, Fabio Augusto Bayma e José Maria Faria de Mattos
encontrarão, alem do que hontem mencionarão no auto de corpo de delicto, feito
perante o subdelegado de policia, mais o seguinte, pela abertura feita no estomago
encontrarão nelle um deposito recente de comida – farinha em grande quantidade,
tres pequenos pedaços de carne e terra vermelha; e como as digestões se
costumão fazer de quatro a seis horas da refeição, se quer-se que esta alimentação
fôra introduzida no estomago poucas horas antes do falecimento do pequeno; e
como nessa occasião a infeliz criança devia achar-se luctando com a morte, de certo
esta alimentação lhe fora trazida, visto como se achava ella sem forças para
procural-a E quem nos diz ou nos affirma que a terra achada no estomago não fôra
trazida de envolta com a farinha? No duodenum encontrarão anchylostomus
duodenaes em pequeno numero e que por si só não podião por forma alguma provar
evidentemente que fosse essa a única causa da morte. Feitas estas considerações,
respondem aos quesitos pela forma seguinte.
Ao 1º quesito. Que comquanto tivessem encontrado no duodenum quatro
anchylostomus duodenaes e no estomago terra de envolta com os alimentos,
repondem que se os vermes podião trazer a morte, pela mesma forma os castigos
inflingidos na creança? Quem nos diz que, não obstante a presença da moléstia
hypoemia intertropical, não teria a creança succumbido pela pancada que recebeu
na cabeça e que lhe podia trazer como consequencia uma commoção cerebral e
depois a morte? Quem nos affiança ainda que a pancada exercida na região lombar
e provada pela grande echymosis que ahi se notava, não tivesse compromettido a
substancia medular rachitiana e trazido como consequencia a morte?
Ao 2º Que talvez.
Ao 3º Que podia ser.
Ao 4º Sim, provavelmente.
128

Ao 5º Sim, pode-se provar que por vezes foi corporalmente castigado. Crem que ao
menos, pelo que se notava no cadaver na occasião do exame, não estivesse elle
entregue ao abandono.
Ao 6º que não demonstrava ter deixado de ser alimentado, mas que parecia sel-o de
uma maneira inconveniente, attendendo-se ao diagnostico do medico assistente e
cá apreciação alimenticia, que provavelmente fizera a pessoa encarregada do
doente.
Ao 7º sim, há contusões, e que sendo demonstrado que qualquer pancada na
cabeça um tanto mais forte, com quanto não traga solução de continuidade deve ser
bem attendida pelos facultativos, visto a consequencia: quanto a causa da pancada
ignorão.
Assignaram as respostas acima os Srs. Drs. Santos Jacintho, Bayma, F.
de Mattos e Ribeiro da Cunha.
O Sr. promotor, depois de ouvir ler estas respostas, apresentou de sua
parte estes quesitos:

De que moléstia falleceu Inncencio?

Qual o estado de decomposição em que foi encontrado o cadaver, com relação ao
tempo do fallecimento?

O facto de Innocencio comer terra importava para inchação geral do corpo ou
somente dos orgãos principaes, e quaes são os que mais de prompto deviam estar
affectados e prejudicados?

Depois da morte do individuo que come terra, a inchação concorre para acelerar-lhe
a decomposição do corpo?

Dado o caso de ser a morte occasionada pelo vicio de comer terra, as sevicias
encontradas e descriptas teriam concorrido para o termo da vida?

A comida encontrada no estomago de Innocencio, misturada de terra, era de recente
data ou denota ter estado demorada neste orgam?

De que natureza era essa comida, e de que qualidade a terra achada?

Em que tempo se faz a digestão das materias ingeridas no estomago, no estado de
molestia em que se diz se achava o escravo Inncencio?

Os vermes encontrados no duodenum, são nherentes [sic.] ao corpo ou somente
provenientes do vicio de comer terra?
10º
De que natureza são esses vermes? Poderião elles por si só concorrer para a morte
immediata de Innocencio?
11º
A porção de terra encontrada no estomago era sifficiente para matar? Dada a morte,
que carater apresentaria o defunto á primeira vista?
A estes quesitos responderam os peritos do 2º exame:
Ao 1º Já respondido.
Ao 2º Que era proporcional ao tempo decorrido, que era de 60 horas.
129

Ao 3º Que sim, importa importa para a inchação geral do corpo.


Ao 4º Não.
Ao 5º Que podião concorrer para apressar.
Ao 6º Que o alimento encontrado no estomago não estava digerido.
Ao 7º Que estava respondido.
Ao 8º Que varia conforme a qualidade do alimento e que em geral é demorada em
virtude da atonia do estomago.
Ao 9º Que o anchylostomos duodenaes não se encontram sinão nas pessoas que
sofrem de hypoemia intertropical e que são a causa essencial desta molestia.
Ao 10º Que são de natureza parasitaria e matam produzindo o impobrecimento de
sangue.
Ao 11º Que não foi a terra encontrada no estomago que matou de uma maneira
immediata a Innocencio, mas que ella demonstra que o seu apetite se achava
depravado em virtude da molestia produzida pelo anchylostomos e que finalmente
apresentaria o carater de edemacia e descaramento dos tecidos, indicando uma
cachexia [sic.].

Pelos Srs. Drs. Castro e Lemos forão respondidos os mesmos quesitos


pela maneira seguinte:
Ao 1º Que já responderão
Ao 2º Que em estado de putrefação bastante adiantada em relação ao
tempo decorrido.
Ao 3º Que importa, mas que a inchação observada é muito mais
pronunciada que hontem.
Ao 4º Sim, concorre.
Ao 5º Sim, podem concorrer e mesmo determinar.
Ao 6º Que a comida era recente e não digerida.
Ao 7º Que já está respondido.
Ao 8º Que a digestão torna-se um tanto mais demorada que o estado
normal, attendendo-se ao estado do estomago e a qualidade do alimento.
Ao 9º Que os anchylostomos duodenaes teem sido encontrados as mais
das vezes na hypoemia inter-tropical.
Ao 10º Que são de natureza parasitaria.
Ao 11º Que a quantidade de terra encontrada não era sufficiente para
matar e crêem mesmo que não fosse a causa da morte.

Posta a questão neste pé, temos duas opiniões bem distinctas: os


medicos do primeiro exame dizem que a morte foi violenta, foi occasionada por
castigos repetidos e mãos tractos; os medicos do segundo exame dizem que a
morte foi natural, em consequencia de ter a criança o vicio de comer terra.
Tomando em consideração ambos os exames, temos que a autoridade
ha-de prosseguir nas diligencias encetadas para descobrir a verdade.
A acção da autoridade deve ser prompta e energica. O interrogatorio das
pessoas de casa, o qual desde logo devia ter sido feito, não seja espaçado.
Crime ou não, a sociedade exige que seja feita a luz neste tenebroso
negocio.
O exame medico, sobretudo quando ha divergencia, não innocenta e não
crimina a ninguem.
Assim pensamos.
130

Cumpre-nos fazer uma correção à noticia que sobre este facto demos
anteriormente.
Forão as primeiras diligencias policiaes feitas pelo Sr. subdelegado do 2º
districto, antes de ter recebido communicação do Sr. Dr. Chafe de policia, logo que
soube do que a voz publica dizna.
O perito que funccionou no primeiro exame com o Sr. Dr. Castro foi o Sr.
Dr. Lemos e não o Sr. Dr. Paula Guimarães, como dissemos.

O Apreciável – sábado 18 de novembro de 1876, nº 44

Noticiário
Morte por civicias – Chegado ao conhecimento do subdelegado de policia
do 2º districto desta cidade, que havia fallecido o menor Innocencio escravo, em
conseqüência de civicias e mãos tractos, tractou immediatamente de ordenar ao
capellão do cemiterio da Mizericordia que, fosse sobrestado o enterramento do
mesmo menor (hé isto e o que se segue que nos communicaram).
Desejando immediatamente como lhe cumpria, proceder a corpo de
delicto, não o poude fazer, pelas difficuldades em que actualmente se veem as
auctoridades policiaes, por não se encontrar um facultativo que se quizesse prestar
para este mister.
Hontem, porem, às 8 horas da manhã, sendo convidados os drs. Castro e
Lemos, medicos militares, dirigindo-se ao cemiterio acompanhado dos mesmos,
escrivão e testemunhas e ahi procedeo-se a vestoria, e fizera a autopsia no cadaver.
Eis: (resumo do auto do 1º corpo de delicto)...

O escravinho Innocencio

É attribuida a morte do infeliz escravinho Innocencio aos castigos, que lhe


resultaram civicias averiguadas no exame médico, que tinha opportunidade de ser
combatido ou explicado, no acto do inquérito ou formação de culpa, etc. etc; Mas já
se está barulhando tudo, para illudir a verdade, desviando-a do verdadeiro
caminho!...
Para que esse segundo exame ou autopsia que veio deixar “peior a
emenda que o sonetto”? Onde se vio justificação em materia criminal, sem dizer em
nome de quem, para provar antecipadamente que não praticou tal ou tal crime esse
nome que não se declina? Será nova jurisprudência do Advogado ou do Juiz que a
admittiu?... Em todo caso, o negocio vai já encaminhando-se a marcha que levou o
processo sobre o assassinato da infeliz Maria da Conceição: sobre tudo depois de
haver o ilustre Sr. Dr. Chefe de policia se-prestado a ser testemunha da tal
justificação, sem se saber o nome de quem se-justifica! Não temos (por habito)
costume de antecipar juizo em questões pendentes de decisão dos tribunaes e por
isso aguardamos o resultado do inquérito, e formação de culpa, si lá chegar, para
dizermos “A VERDADE TODA INTEIRA”...
131

O Apreciável – sábado, 25 de novembro de 1876, nº 45

O cadaver de Innocencio
(Lê-se no Diario, n. 988)
Apreciação dos dois corpos de delicto
Primeiro corpo de delicto (Vid o Diario n.984)
Segundo corpo de delicto (Vid o Diario n.985)
As contusões notadas no primeiro craneo, não podião ser notadas pelo
segundo visto como tinha sido sorrada essa abobada – e sobretudo o derrame
notado pelo 1º de modo algum podia ser notado pelo 2º.
No entanto este não negou as sevicias encontradas por aquelle, apenas
notou algumas outras – com o nome de manchas cadavéricas!
Como se pode dizer em boa logica que as manchas existentes erão
signaes cadavéricos, quando forão observadas no periodo de putrefação adiantada?
Ora as manchas cadavericas são violectas, e nos pontos de contacto com
o plano onde se acha o cadaver; e as provenientes de contusões são profundas
interressando o tecido cellular, sendo de notar que a putrefação se faz mais
depressa nos pontos feridos, nos contusos, do que nas outras partes do corpo.
Seria admitir que essas manchas tivessem o instincto de apparecer
sobretudo nos pontos contusos – descriptos no primeiro corpo de delicto – tomando,
quando já demasiado putrefacto o cadaver, o nome de manchas cadavericas para
se desenvolver de preferência nesses ditos pontos?
Ora de duas uma: ou o corpo estava completamente em estado de
putrefação, e neste caso essas manchas erão signaes de contusões, ou a
putrefação não se achava senão no começo, e neste caso as manchas erão
cadavéricas e falsa a asseveração de já se achar adiantada a putrefação como foi
declarado no começo da descripção do segundo corpo de delicto! Seria facil verificar
essas manchas de côr violecta, das contusões, que são escuras, alem disto, na
putrefação se verificaria que nas primeiras apelle era só alterada, e nas segundas
apelle, o tessido cellular, sem nenhum traço de sangue por ser já adiantada a
decomposição.
Querer negar esta facto – é torcer os preceitos de um bom exame
medico-legal, porque a pelle alterada até o tessido cellular, constitue o signal de
echymosis provenientes de pancadas antes da morte.
Não sabemos como se pode explicar a morte por quatro anchylostomos
duodenaes, como causa – de comer terra! Ora a sciencia tem quase sempre
encontrado no duodeno de quase todos os cadaveres autopsiados, esses animais
sem que durante a vida esses individuos commessem terra. Ainda à sciencia não
provou, que o anchylostomos duodenaes devem ter como effeito de sua presença o
depravado apetite de terra! Há somente hypotheses e estas ainda não verificadas –
porque individuos ha que morrerão de outras doenças – que não – chlorose do
Egypto, da India, hypoemia intertropical, e no entanto no duodeno forão encontradas
centenas de anchylostomos duodenaes?
Como admittir que quatro anchylostomos podessem produzir a morte,
quando pelo primeiro corpo de delicto, assim como pelo segundo, havião graves
sevicias no cadaver?!
Não se trata de saber se havia anchylostomos, nem se o pequeno
Innocencio comia terra – trata-se de saber se verificadas, como forão pelos dois
corpos de delicto, as sevicias descriminadas em todo o corpo se ellas são ou não
capazes de produzir a morte.
132

A resposta do 5º quesito – é a seguinte – “Sim: foi castigado, mas não


podem dizer o numero das vezes, que se houve abandono ou carencia de
tratamento – era isto sufficiente para produzir a morte”.
O que era sufficiente para produzir a morte – os castigos ou a carencia do
tratamento?! No entanto ela foi natural?
Ora uma contusão na cabeça dando lugar um derramamento sanguineo
não é bastante para produzir a morte sobretudo em uma criança? Negar este facto
quando o segundo corpo de delicto diz – havia um a contusão na cabeça (parte do
occipital) e o primeiro corpo de delicto dezia – havia contusão na cabeça e mais
ainda derrame na cavidade do craneo?
Como negar em consciencia tal facto sendo, como diz o segundo corpo
de delicto – que essa contusão era na sutura sagital de uma criança de 10 annos,
que ainda não se acha demasiado ossificada?!
Diz o segundo corpo de delicto – há manchas cadavericas ao pescoço, no
peito, na parede anterior do abdomen – sendo a putrefação adiantada!
Pois essas echymosis na região lombar também serão manchas
cadavericas ou resultado de anchylostomos duodenaes?
Também serão dependentes do anchylostomos duodenaes essas
manchas do pulso, do cotovello, a cicatriz do pé, assim como as encontradas na
rotula, no maléolo externo?
Serão também manchas cadavericas ou resultado de anchylostomos
duodenaes esses factos verificados pelo segundo corpo de delicto?!
Como se poderá explicar a declaração apontada no segundo corpo de
delicto no exphincter anal?
Por inflamação – não – por tenesmos – não – por oxyures – não – porque
nenhum desses factos pathologicos podem delacerar, porem produzem pequenas
feridas mais bem distinctas das declarações. Serão também os anchylostomos
duodenaes, que delacerão esta parte dos anus?
Dizer que a morte é natural só porque se encontrou quatro anchylostomos
duodenaes é, permitta-se-nos – a expressão dar de barato os exames medico-
legaes.
Dizer que ha uma contusão na cabeça e não se pode precizar a natureza
é confessar que não se sabe dizer a causa da morte.
Em quanto ao diagnostico dos anchylostomos duodenaes – estamos em
nosso dever de perguntar – forão verificados pelo microscópio? – Sem este exame
medico alguem poderá dizer a priori se são anchylostomos, thicocephalos, oxyures –
visto como são elles demasiado pequenos, e só o campo do microscopio poderá
estabelecer sua differença.
Sabe-se e a sciencia o prova – que esses animaes só podem produzir a
morte quando em grande quantidade, e não com essas contusões, que ambos os
corpos de delicto verificarão, provando de um lado, que houve o crime, e do outro
que essas sevicias erão tão vesiveis e não se pôde desconhecel-as em todo corpo.
Como em boa logica, e de consciência se poderá afiançar que na cabeça nada havia
de notável!
Foi feito exame no intestino reto para provar que tinhão por causa dessas
delacerações os anchylostomos e não corpos estranhos!
Cousa notavel! As echymosis erão de preferencia nos braços, nos
cotovelos, nos pulsos, nas coxas, porem as das costas, as das nadegas – essas
erão “manchas cadavericas” notadas n‟um cadaver em estado de putrefação
adiantada!!
133

Não podemos deixar de tomar parte na discussão dos corpos de delicto,


por ser elle do dominio do publico e neste nosso proceder outro fim não temos –
senão a sciencia e sobretudo o estrangeiro, que admirado perguntara por certo
como se encontrando n‟um cadaver – sevicias descriptas por dois corpos de delicto
se vai buscar uma causa frivola para explicar a morte.
Resumindo perguntamos se o facto de Innocencio soffrer de hypoemia
intertropical tendo complicadamente anchylostomos duodenaes – está elle livre de
fallecer por violencias externas, quando ellas forão verificadas no seu cadaver delle?
Não nos parece que uma boa razão possa certamente responder, que
esses anchylostomos duodenaes erão um salvo conducto de criminalidade. Não
acreditamos que haja medico algum, que com toda a tranqüilidade fosse dizer – que
sevicias descriptas pelos dois corpos de delicto erão encapazes de produzir a morte,
e que esta era mais proveniente de quatro anchylostomos duodenaes encontrados
no duodeno, no intestino delgado, porque a sciencia diz que esses animaculos
podem existir em maior numero, sem que haja doença especial.
Sentimos ser forçado, por amor da sciencia, tomar parte nesta discussão,
o que porem os collegas nos desculparão, visto como estas questões scientificas
não ficão somente nesta capital, e sim tem de correr mundo, e mundo illustrado,
ficando deste modo sabido que nós, segundo o nosso pensar, não fomos
indifferentes às questões scientificas, que entre collegas se houverão levantado – e
não enchergamos o autor desse crime por ver que ainda a policia não declarou o
nome do indigitado.

O Apreciável – sábado 2 de dezembro de 1876, nº 46

Denuncia criminal – Sobre a morte do escravinho Innocencio


communicam-nos que o ministerio publico apresentou ao Dr. Juiz Substituto do 3º
Districto a denuncia constante da copia infra, de que nos pedem a publicação.
“Illm. Sr. Dr. juiz substituto do 3º districto criminal”

O Apreciável – sábado 23 de dezembro de 1876, nº 47

Processo pela morte de Innocencio; zum-zum no Theatro


Já o dissemos e todos sabem: não emittiremos nosso juízo em questões
pendentes de decisão, principalmente quando parece querêr-se prevenir a opinião
dos Juizes e Tribunaes: mal que nesta provincia é chronico, por quanto vê-se, quase
quotidianamente publicado nos jornaes o que VÃO JURANDO testemunhas em um
processo, e até officios reservados e suas respostas em questões criminaes!...
Acabar-se-hia o segrêdo de justiça, tão recommendado nas Leis ainda
vigentes...
Como quer que seja, ouvirmos estar se afirmando que o Ministerio
Publico requisitará a presão da pessoa indigitada no crime da morte do escravinho
Innocencio; que o juiz investigante se considerará sem jurisdicção, e que o juiz
competente despresara a requisição, por inconveniente e d‟ahi os commentarios.
Si foramos juiz saberíamos, com a força de nossa authoridade, chamar os
medicos da 1ª e 2ª autopcia no cadaver de Innocencio às explicações; em face de
Medicina Legal, e depois daríamos nossa decisão sem temer a pessoa poderosa da
acusada, e nem trepidar ahte qual quer falsa opinião publica, que pela ventura si
houvesse levantado, quando me convencesse da verdade encontraria...
134

Assim, portanto, consideramos prejudicial ao espirito publico esse zum-


zum, sem rasão plausivel e com o que nada se ganha quer na moralidade quer na
repressão do crime, quando se procura entibiar a acção da justiça.
À prudencia, em factos de tamanha gravidade, deve ser o característico
dos que desejão chegar ao conhecimento da verdade, pois que esta pode mui bem
ser prejudicada por uma energia innoportuna; com o fim de satisfazer a certa
anxiedade, creada, talvez, por preconceitos anteriores, que he bem possivel nada
tenhão com a occurrencia de que se tratar no presente...

Jornal: Pacotilha (São Luís – MA) – Ano XXXVII


Sábado, 10 de novembro de 1917.
Pesquisador (a): Jacira Pavão da Silva
Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

Celso Magalhães

Antônio Lopes

Via a Academia Maranhense, ora empenhada em fazer o elogio dos seus


patronos numa série de sessões públicas, promover uma significativa homenagem a
Celso Magalhães.
Que o preito que se vai prestar á memória do escritor patrício é merecido,
não será tão grande a suspeição de quem escreve estas linhas – sobrinho daquele –
que no-lo impeça de reconhecer.
Celso é, todos os respeitos, o escritor maranhense mais curioso do seu
tempo, não só por haver espraiado a sua actividade mental por mais variados ramos
da literatura do que os seus contemporâneos, como por se ter, para assim dizer,
distanciando deles, para a frente, na concepção das mais modernas tendências
literárias e por ser, apesar de quase inédito, um escritor de significação menos local
do que os da época a que pertenceu.
Assim, qualquer estudo, em que se tende bosquejar o complexo da sua
personalidade, haverá de distinguir nela o poeta, o romancista, o critico e autor
dramático e, ainda, o investigador que já explorava a sociologia, abeirando-se da
psicologia coletiva pelo contacto com o estudo das tradições populares. Nas poucas
linhas que lhe teem sido consagradas, escassas contribuições em que da eiva de
truncados elementos mal recolhemos um esboço pálido de tão interessante figura,
ainda não foram estudados todos aqueles aspectos.
Forramo-nos, aqui, a um estudo crítico completo, resumindo estas linhas
a um escorço biográfico, tanto quanto possível.
Nasceu Celso Tertuliano da Cunha – pois era esse o seu nome de
baptismo – na comarca, de Viana aos II de novembro de 1842, e teria, em data igual
deste ano, se vivesse, 72 anos de idade, e não 58, como suponho acreditem os
homenageadores de domingo, á vista da notícia da sessão acadêmica que enviaram
á “Pacotilha” e há dias estampou este jornal92.

Uma edição d‟ A Flexa, nº X, ano I, - Maranhão (sem data) estampou, pouco depois, de morto
92

Celso, o seu retrato na página de honra. A data de II de novembro de 1849 que dá a legenda da
gravura para o nascimento do escritor, não concorda com os assentos de família que manuseei,
segundo os quais Celso foi baptisado, com um ano de idade, em 1846. Indusido a erro pela data
135

Foram seus pais o coronel José Mariano da Cunha e sua mulher d. Maria
Quitéria de Magalhães Cunha, aquele falecido pouco depois de bacharelado Celso,
e esta, no atrasado, na avançada idade de 94 anos.
Pelo lado materno, Celso descendia de um português do norte, seu avô,
cirurgião pela escola médica de Coimbra, se não enganamos, que veiu despachado,
ainda antes da independência, para o Brasil. Pelo lado paterno, o bisavô era
igualmente luso, um dos capitães-mores do tempo colonial – título este que já tinha
valor quase puramente honorífico, depois da fundação do Estado do Maranhão e de
obliterada a antiga divisão desta parte do Brasil em capitanias.
Brasileira podemos garantir que fosse, pelo menos em parte, a sua avó
materna, como é provável o fosse a do lado paterno, dada a preferência dos colonos
pelas mulheres indígenas, sobretudo depois que algumas vantagens pecuniárias
foram pela coroa portuguesa facultadas áqueles que com índias se cazassem.
Não vêem ao caso, porêm,estas investigações genealógicas.
O que é certo é que uma circunstância vinha contribuir, por ocasião do
nascimento de Celso, para que ele, já rapaz, depois, mudasse o seu nome para de
Celso da Cunha Magalhães ou mais simplesmente, Celso de Magalhães, que tal era
como assinava as suas produções literárias, excepto a primeira, a que após o nome
por extenso.
A progenitora de Celso esteve á morte quando o deu á luz, sendo
operada pelo cirurgião seu pai. Por algum tempo arrastou-se a convalescença, após
uma pertubação séria das meninges, dando isto motivo a que o assistente, muito de
caso pensado, conduzisse a criança da localidade onde ocorrera o nascimento para
a sua fazenda próximo do „Descanso”. Onde aquela bebeu o primeiro leite em peitos
estranhos.
E não só esta circunstância como a existência de um compromisso, entre
filha e pai de dar aquela a este o primeiro filho varão, que o velho queria educar,
concorreram para indissoluvelmente ligar o avô ao neto, que por vontade própria e
com a devida licença paterna acabou por acrescentar ao nome o sobrenome de
Magalhães.
Criou-se, pois, Celso na casa do avô e aí, sem dúvida com este, estudou
as primeiras letras.
Destinava-o ó cirurgião á carreira das leis. Provavelmente não foi algures
e sim na convivência com o avô, que despertou no futuro homem de letras a
vocação literária. Não era o esculápio alheio, talvez ás boas letras. Temos
elementos para o afirmar, por antigos livros que lhe pertenceram, aos quais é
possível a predileção que Celso revelaria pela literatura, pois não nos atrevemos a
afirmar que a soubesse por direto influxo do avô, homem de certo amigos de livros,
mas prático e infenso a veleidades de escrivinhador.
Regosijava-se, de certo, com a inteligência espontânea do neto, tanto
assim que o enviou á capital, onde veio estudar humanidades no colégio do
educador Perdigão.
A morte do velho veio encontrar Celso em fins do curso de preparatórios,
já ensaiando a cultura das letras com os entusiasmos naturais da idade juvenil. No
testamento que fez o cirurgião estava garantida a formatura do rapaz com o legado
de cinco ou seis contos de réis, para aqueles tempos folgados.

estampada em A Flexa, o periódico O Tempo, que consagrou a Celso o seu nº 23, de 16 de junho de
1879, afirmou que o escritor faleceu antes de completar 30 anos, quando é certo que, ao morrer, já
completara os 32, tendo-se formado com 27 anos (.A.L).
136

O período decorrente entre a vinda para os estudos do jovem poeta – já


então o era – e a morte de seu avô, á qual assistiu, encerra vá decantadas de
plainos verdes e lagos encantados bebeu o mágico licor da poesia, que nele se
revelou num lirismo tão eminentemente pastoril, e algumas paixões românticas
resultantes das trafegas sugestões de olhos matutos.
Românticas, dizemos, no sentido de que não correspondiam á intensa
realidade humana dos amores verdadeiros. Celso tinha lido de Musset, Sand,
Gerrett e outros sentimentais. Mas levou para a vida um lastro de literatura clássica
e, no fundo, não se conseguira mais que exaltar passageiramente por tais autores,
em algum dos quais vibra uma nota insólita de desespero. Por temperamento era
um sentimental de outra espécie, meigo e timorato, e o seu romantismo arraigara-se
primeiro em Lamartine. Este jogo de influências explica nele a tendência para o real
e humano e o equilíbrio que atesta a sua organização estética.
Dita desse tempo a elaboração das poesias, contidas no seu primeiro
livro, editado, em 1870, pelo grande tipógrafo maranhense Belarmino de Matos,
quando o poeta contava vinte e quatro anos. São produções dos 16 aos 22 anos.
Entre os versos do último ano que passou na província natal, esse
mesmo ano em que morreu seu avô, durante uma revolução de pretos fugidos em
Viana – contam-se os do poemeto Os Calhámbolas, escrito sob a impressão
imediata dos acontecimentos. Durante os estudos, em S. Luís, colaborou em várias
folhas juvenis, entre os quais „O Domingo’, de Artur Azevedo.
Morto o avô, em fins de 1867 ou começo de 1868, Celso passa-se ao
Recife, onde leva em mira obter carta de bacharel em direito, deixando nos prelos
seu livro de versos, a que apôs algumas composições elaboradas na capital
pernambucana e de lá remetidas ao livreiro.
Ainda era cascabulho quando daqui partiu, faltando-lhe alguns exames
para a matrícula acadêmica (1868).
No intuito de os obter, no fim do ano referido, cursou as aulas no extinto
Colégio das Artes, que era praticamente um anexo da faculdade jurídica. Estudante
consciencioso, embora, e já reputado entre seus contemporâneos, tinha pressa em
se passar aos bancos acadêmicos.
Sabendo, pois que o governo mandara abrir época de exames no Rio
Grande do Norte, onde não costumavam os examinadores ser muito rigorosos, para
ali se dirigiu sem detença, afim de concluir os dois ou três preparatórios que lhe
faltavam, entre os quais física e química e história universal. As viagens em vapor
eram, a esse tempo, muito vasqueiras e Celso teve de afrontar as injúrias de um
cruzeiro em barcaça, embarcação suigeneris, que ainda hoje trafega de Acarati a
Penedo, metade jangadas e metade barcos, aos trambolhões por aquelas costas
ouriçadas de parceis em que o mar arrebenta furioso e traiçoeiro.
Em 1869, tendo passado nos exames, vamos encontrá-lo matriculado no
curso jurídico da faculdade de Recife, vale dizer – caloiro. Tinha então, vinte e três
anos, conforme os assentos de matrícula que encontramos na faculdade do Recife.
Ia, nos cinco anos de curso, completar a sua educação literária e
concomitantemente, adquirir uma sólida cultura jurídica, de que deu depois notável
demonstração, no exercício de cargo de justiça nesta capital, e numa obra de direito,
cujos originais, ficaram depois de sua morte, nas mãos do extinto conselheiro
Gomes de Castro, seu amigo e chefe do partido a que pertenceu, ao qual a
entregará para dar parecer.
137

A influência do espírito de Celso na sua geração foi intensa, di-no-lo Sílvio


Romero e confirmam quantos conviveram, na sua época, na cidade académica do
norte.
Continuando a postar, nas horas vagas, Celso atira-se fortemente á
literatura em suas múltiplas manifestações: escreve romances, artigos jornalísticos
de todo gênero que encontravam guarida em todas as folhas pernambucanas, as
grandes e de intensa validade, como as pequenas e efêmeras, entre as quais muitas
de estudante, colaborando mais assiduamente na então mais importante e literária –
“o Jornal do Recife”; escreve duas novelas de tomo e um grande romance original,
e, ao fechar-se o ciclo de sua trajectória académica, funda, com Generino dos
Santos, Clementino Lisboa, António de Sousa Pinto e Rangel de Sam Paio – “O
Trabalho”, periódico literário, de propaganda filosófica e social, no qual colaboraram
outros luminares da grei estudantil, entre os quais ia abrindo caminho o arrojado
talento de Sílvio Romero, então estreante na vida académica e literária.
Não é só. Celso impressiona-se fortemente com o teatro. Camarada de
Xisto Baía, Pontes e outros actores notáveis, com os quais lhe facilitava constante
revelação a sua vida activa de imprensa, começa por exercer a crítica dramática,
tornando-se o seu confeu no Recife. Nesta qualidade prefaciou um drama anti-
jesuítico do seu colega Rangel de Sam Paio, jovem publicista de grande capacidade,
a ocupar a coluna teatral do “Jornal do Recife”, por muito tempo, assinalando a sua
passagem neste género por um senso singular, aliado a uma bela orientação
nacionalista.
Da crítica passou á composição dramática, escrevendo, provavelmente
entre outras tentativas, como a da comédia A CERRAÇÃO NO BOLSO representada
no Pará e em Recife, aliás sem êxito, um drama de 4 actos, e mais tarde outro, que
se perdeu, intitulado O PADRE ESTANISLAU.
A fase mais laboriosa da sua carreira literária é talvez essa do ano de
1873 a que pertencem Aquêle primeiro drama e os estudos sobre a poesia popular
brasileira, além de outras produções.
Celso não se deixará ficar de ronda aos campos da actividade puramente
beletrística. Fôra além. Cultivara o seu espírito na filosofia de August Comte,
estudara a sciência da linguagem e a mitologia comparada em Max Muller,
alcançara os horizontes da renovação crítica do naturalismo, que embora, por índole
e Poe educação literária, ainda preso a algum sentimentalismo, ia ensaiar o
romance, e enveredara para as sciências novas do grupo sociológico com energia e
sagacidade.
Temos notícia de um estudo seu sobre a existência de habitações
lacustres da época prehistórica no nordeste do Brasil, o qual nunca podemos
identificar.
Em suma, espírito ávido de novo, aprendeu o Direito com os mestres da
academia e, nas outras sciências, fez-se autodidata. Lia tudo, procurando abeberar-
se ás fontes mais límpidas e modernas. Vemo-lo, assim, a braços ao mesmo tempo
com a História da Arte, de Taine, com a Geografia Física do Mar, de Maury, com a
Origem das Espécies de Darwin e com os romances de Emile Zola.
Dispensamos dizer que dirante o período acadêmico Celso veio repetidas
vezes ao Maranhão, onde colaborou em diversos jornais.
Da orientação política de seu espírito, nessa época, excusado é dizer que
era republícana e abolicionista. É curioso que, tendo vindo visitar a família em um
dos últimos anos do seu curso, pelas férias, meteu em execução, na fazenda
paterna, um sistema de trabalho pelo qual os escravos tinham um salário. E quando,
138

mais, tarde, veio a morrer seu pai, tocandolhe na partilha dos bens alguns captivos,
libertou-os imediatamente sem a menor consideração ás delicadas condições
econômicas em que ficava a família, e ele próprio individualmente.
Em 1873 Celso, já acreditando como um escritor de real mérito, não só na
sua terra, como em o seio da sua geração, volta ao Maranhão disposto a abrir
carreira munido da sua carta de bacharel, mas sem esquecer um só momento os
seus livros e suas preocupações de vida intelectual.
A fama de que vinha precedido colocava-o numa evidência sem par, entre
os rapazes do seu tempo. Logo ao chegar Maranhão depois de um curto passeio a
Viana recebeu, em 1874, nomeação de promotor público da Capital das mãos do
presidente José Francisco de Viveiros que o tinha em relevância, vendo nele, pelas
tradições conservadoras da família e pelo talento, um elemento de grande futuro
para o partido.
Ocupou Celso aquele cargo por espaço de cerca de 4 a 5 anos, dirante
ao quais não lhe tergiversou um instante a conscência no cumprimento do dever.
Vezes muitas a mão corrupta do suborno tentou desviá-lo da linha severa da justiça,
mas o jovem e preclaro representante desta não se poluiu ao contacto do asqueroso
instrumento. O prato culminante da sua vida pública é o célebre processo em que
esteve envolvida uma senhora da mais alta aristocracia maranhense, acusada de ter
assassinado a sevícias uma criança escrava. O promotor público, assediado de
ofertas, pedidos, ameaçado em sua própria existência, soube enfrentar, com
impavidez, dignidade e comedimento, a situação, que envolvia os mais graves
interesses sociais conturbados por manejos políticos os mais deprimentes para a
época. E sereno, impertubável, mas, ao mesmo tempo, inflexível, arcou com todas
as comprometimentos em que importava a acusação, para, um funcionário novo,
pobre de fortuna, é verdade, mas a quem o saber e o caráter escudaram o
suficientemente, durante a missão que se lhe imponha, resguardando-lhe bem alto a
consciência contra a turba-multa de interrêsses desencadeados, cada qual mais
inconfessável.
Logo há uma transformação política, indo as rédeas do governo provincial
ao partido de Carlos Ribeiro, o principal interessado na causa célebre, homem
vingativo e cobarde, sem dúvida, que julgara abrir caminho mais fácil para a
absolvição isto é, induzindo por peita e ameaça, sucessivamente, mas sempre
debalde a Celso, a quem se afastasse do processo, sob a capa de uma dessas
suspeições hoje tão costumeiras na justiça e tão abundantes. E sem a menor
hesitação na consciência, mal assume a presidência, o mandão descarrega a
brutalidade dos ódios de sua alma de escravista sobre Celso de Magalhães,
demitindo-o da promotoria pública, a bem do serviço público.
Foi profundo o desgosto do escritor com este golpe, e tanto mais doloroso
quanto o atingia numa fase delicada de sua vida, quando havia constituído família,
casando-se com a exma. Sr. d. Amélia Leal Magalhães, que ainda hoje vive entre
nós.
Alma delicada, espírito feito de generosidade e de nobreza, Celso retraiu-
se depois disto, ao seu lar e ao convívio dos seus, atravessando a crise mais
pungente de sua vida moral tão pura, sem embargo do éco profundo das vozes de
todas as consciências rectas, que resoou ao leu [sic.] lado, a ponto de ter ele a
satisfação de ter transcrito em todos os jornais mais importantes do império, das
províncias do norte até o Rio Grande do Sul, o luminoso memorial que dirigiu ao
monarca sôbre a injustiça do acto que o demitiu. Por cúmulo de dores, logo depois,
em 1878, veio a perder seu velho pai.
139

Retirou-se, pois, com a êsposa para Viana e ali se demorou largos


mêses, regressando á capital em 1879, e aqui abriu banca de advogado.
Pouco depois subia o partido conservador, e Celso, que tinha direito a
uma reparação política, estava apontado por Gomes de Castro para deputado na
chapa das eleições para a Assembléia Geral, que se iam fazer nesse anno, quando
veiu a falecer de uma febre álgida, na casa de sua residência, á rua das Hortas,
inesperadamente.
Adoeceu ás 5 horas da manhã e expirou ás II do mesmo dia 9 de junho
de 1879.
A causa de sua morte foi, sem a menor dúvida um acesso de febre
perniciosa. De uma organização franzina e delicada, abalada por contínuo esforço
mental, não resistiu ao mal, cedendo-lhe á acção ao primeiro embate.
A época de sua vida no Maranhão foi marcada por uma actividade literária
constante, na imprensa e no gabinete, a que se juntaram para lhe agravar a saúde,
as lides florenses. No “Diário do Maranhão”, no “País” e “Tempo” e em outros
periódicos da época, estão os vestígios desse labor, em numerosos folhetins género
em qué escellia [sic.] pela sua espiritualidade fascinante, e colaborações de todos os
gêneros. Jamais abandonou a poesia, mesmo através de todas as dificuldades da
vida prática. Apresentava-se [sic.] para completar os seus estudos sobre o flk’lore
nacional com inúmeras contribuições. O seu nome ia irrompendo nos meios literários
do sul do país: pouco antes de morrer encetou a publicação do seu romance UM
ESTUDO DE TEMPERAMENTO na Revista Brasileira. Depois suspensa esta,
continuou a obra a aparecer nas colunas no “País” desta capital.
Celso morreu aos 33 anos, incompletos, pobre, tendo apenas começado
uma vida promissora para as letras brasileiras, pois êle encarava a literatura a sério,
havia precedido o seu ingresso definitivo nos domínios literários de uma sólida e
conscienciosa preparação scientífica e tinha um talento vigoroso, dotado das mais
elevadas faculdades assimiladoras, e criadoras e observadoras, do qual nos legou
algumas provas evidentes nos escritos que se seguem:

1
VERSOS de Celso da Cunha Magalhães, natural da província do
Maranhão – Na tipografia de Belarmino de Matos – Maranhão 1870. (Um volume).

2
PELO CORREIO novela publicada em folhetins, no Diário de Magalhães,
e escrita de Pernambuco (1873).

3
ELA POR ELA – novela publicada no País, do Maranhão, em folhetins, a
partir de 1870.

4
UM ESTUDO DE TEMPERAMENTO, romance orijinal publicado em parte
da “Revista Brasileira”,e , em parte, no País, o periódico de Temístocles Aranha.
140

5
Crônicas teatrais, sob o pseudómino de Giacomo de Montorello, (que
Celso adaptou em outros escritos) publicadas no “Jornal do Recife”, e aqui, no País.

6
O PROCESSO VALADARES, tentativa dramática de Celso de Magalhães.
Em 4 actos, 1878. (Inédito, em meu poder. Manuscritos de 108 folhas, (261
paginas), na letra do autor).

7
A POESIA POPULAR série de estudos estampados no “Trabalho”, de
Pernambuco, 1873.

8
Artigos, crónicas poesias publicadas em vários jornais de Pernambuco, no
período de 1869-73.

9
Artigos, folhetins e polémicas em periódicas do Maranhão, no período de
1873-78, alguns antes.

10
Vários inéditos, em prosa e verso, ora em poder de Francis Paxeco entre
os quais a comédia em I acto CERRAÇÃO NO BOLSO, datante de 1869.

11
Outros inéditos em meu poder

12
O PADRE ESTANILAU, drama que, entregue ao actor Câmara, da
Companhia Xisto – Baía, nunca mais foi devolvido ao autor, apesar de reiterados
pedidos deste.
Eis ai esboçada, a traços sintéticos, a personalidade de Celso Magalhães.
A sua produção abre margem a um largo estudo crítico a que um dia talvez nos
abalançaremos e não caberia no quadro, necessariamente exíguo, de um simples
artigo de jornal.
Oferecendo ao público estas notas vasadas um pouco atabalhoadamente,
mas em que exaramos com exactidão escrupulosa todos os dados da biografia do
escritor, segundo o que podemos recolher na família, bem como o que nos foi
possível respigar em documentos e inéditos que deixou – não nos moveu outro
intuito que não o de fornecer alguns informes seguros sobre a sua vida, a pedido de
Fran Paxeco, o seu panegirista de hoje, e a quantos se interessam pela história das
letras maranhenses.

Antonio Lopes.
141

Jornal: Pacotilha (São Luís – MA) – Ano XXXVII


terça-feira, 13 de novembro de 1917.
Pesquisador (a): Jacira Pavão da Silva
Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

Restabelecendo a verdade

José Ribeiro de Oliveira.

No louvável intuito de pôr em relevo os méritos reaes de seu tio, o dr.


Celso Cunha Magalhães, o dr. Antônio Lopes, provavelmente mal informado,
empresta um brilho excepcional á attitude do ilustre maranhense no processo-crime
que a paixão partidária, então muito accesa entre nós, fez instaurar contra a mulher
do meu tio, o barão de Grajahú.
Natural é, pois, que eu, também puguando pelo nome de quem sou
portador, venha esclarecer esse ponto de bello trabalho do dr. Antonio Lopes.
Corria o anno de 1876, quando, nesta capital, falleceu o pequeno
Innocencio, escravo do meu tio, e conforme attestado firmado pelo medico
assistente, o finado dr. Antonio dos Santos Jacintho, a causa da morte, do pequeno
foi hypotenia inter-tropical, mal de que já se achava elle accommettido, quando
comprado pelo barão. Esse facto, já por si, era sufficiente para afastar as suspeitas
que vieram a ser levantadas em torno dessa morte, conhecido, como era, o dr.
Santos Jacintho, não só pela sua competência, como ainda pela nobresa e elevação
dos seus sentimentos e pelas suas profundas crenças religiosas.
Mas, a esse tempo, já era habito fezerem-se e desfazerem-se reputações,
ao sabor das conveniências e dos interesses do momento. Aproveitando-se do caso,
inimigos políticos e pessoaes do dr. Carlos Fernandes Ribeiro, o mais tarde barão
de Grajahú, fizeram circular, com afirmações categóricas, que Innocencio fora
victima de maus tratos, infligidos pela mulher do seu senhor, d. Anna Rosa Vianna
Ribeiro.
E, de posse de todos os elementos necessários para a formação de um
processo-crime, fácil lhes foi, aos desaffectos do meu tio, vibrar contra elle um golpe
de effeito, embora passageiro.
Mas, por isso mesmo que se tratava de uma mera perseguição com que
se procurava inutilizar um dos chefes políticos mais influentes da nossa então
província, muito passageiro foi, na realidade, tal efeito.
O primeiro juiz que do processo teve de conhecer, logo o deitou por terra.
Ultimada a formação da culpa, os foram conclusos ao dr. José Manoel de Freitas,
cujo nome de magistrado integérrimo, que não há entre nós quem não conheça já
havia então transposto as fronteiras da província. O dr. José Manoel de Freitas, que
exerceu a judicatura em diffetentes comarcas do Maranhão, (Rosário, Caxias e São
Luiz), donde passou para o Recife, gozava já, com effeito, naquela epoca, do nome
invejável com que morreu, feito á custa sua vasta erudição e do seu inflexível
caracter, dotes a que deveu ainda as elevedas posições políticas, que ocupou, de
presidente do Maranhão e de Pernambuco.
E foi esse juiz, contra cuja integridade não se poderia articular, que
declarou improcedente a denuncia, deixando de pronunciar a acusada.
Esse seu despacho, é verdade, foi reformado, o que deu lugar a que
sobre o processo se tivesse de pronunciar o jury. Mas essa circunstancia não servia
142

senão para que mais luz se fizesse sobre os factos e viesse a desvendar-se
inteiramente os moveis a que o processo obedecêra.
Apezar, com effeito, dos ingentes esforços empregados pelos rancorosos
inimigos do meu tio, por arrancar do jury a condemnação da sua mulher, numa
situação que lhes era, a taes inimigos, inteiramente propicia, a absolvição foi
proferida por unanimidade de votos. E esta sentença, alcançada assim, na
atmosphera de hostilidades poderosas que envolvia o meu tio, foi confirmada, em
grau de appellação, também unanimemente, pelo mesmo tribunal que antes
reformara o despacho de não pronuncia e do qual faziam parte Monteiro de
Andrade, Barros e Vasconcellos, Lisboa, Augusto Silva e Silva Braga.
Antes que o tribunal popular fizesse a justiça devida no caso e que o
tribunal da relação o secundasse, foram sobre o processo ouvidas as maiores
sumidades nas letras jurídicas, não só na nossa então província, como fora della, na
corte do império; e os parecerem que emitiram todos vieram corroborar
eloquentemente o despacho do íntegro juiz singular.
Estes ajustes foram, entre outros, Francisco de Vilhena, então o nosso
maior advogado, mestre eminentíssimo na sciencia do direito; Francisco Octaviano,
talento flexível, diplomata, parlamentar e causídico, que, em qualquer desses
aspectos, se nos apresentava como um espírito rutilante; Ameida e Oliveira, cujo
espírito scintila hoje nas obras jurídicas que nos legou; Zacharias de Góes e
Vasconcellos, emérito professor, grande estadista, consciência que não conhecia
transacções com interesses de qualquer natureza, fora da linha recta do seu dever,
catholico de uma sinceridade profunda, do que deu mostras positivas, quando,
perante o Supremo Tribunal de Justiça, compareceram os bispos do Pará e Olinda;
Antonio Joaquim Ribas, que foi na fase do grande Lafayette, omestre de todos nós;
Andrade Figueira, varão de Plutarco, como lhe chamou Ruy Barbosa, espírito
cultíssimo, todo votado ao direito; do que nos deu os mais notáveis documentos,
ainda pouco tempo antes de sua morte, na memorável discussão do Codigo Civil;
Abilio Ferreira Franco, que recolheu aqui a sucessão de Vilhena, e era membro
proeminente do partido opposto ao barão de Grajahú; Encarnação e Silva e Ricardo
Décio Salazar, advogados de renome, pela sutileza de espírito que sempre
revelaram. O que se vê dos substanciosos pareceres desses juristas é que o
primeiro corpo de delicto, no qual a denuncia se baseara, constituía uma peça
contraditória, imprestável, onde não se poderia estribar um despacho de pronuncia,
senão por “despotismo”. “Para denuncia do despotismo que prevalecia no processo
criminal”, dizia com effeito Francisco Octaviano ao digno magistrado prolator da
sentença reformada, “bastava observar que essa decisão se tornára assumpto de
duvida e discussão”.
Contrastando com “esse chamado corpo de delicto”, a que esses mesmos
termos se refere um dos pareceres citados, foi feito novo exame, onde os peritos,
accordes declararam á justiça que não encontraram indícios de um delicto, mas a
certeza de um accidente natural, isto é, que a morte fora o termo inevitável de uma
moléstia fatal”.
Longe de mim á Idea de attribuir ao dr. Celso de Magalhães os
sentimentos de ódio e de vingança, que tanto inflamaram contra o meu tio, na
pessoa da sua mulher, os seus inexoráveis desaffectos. Quero antes acreditar que
elle foi suggestionado pelo ardor da campanha impiedosa.
Como quer que seja, porem. Ou tivesse obedecido a sua suggestão, ou
houvesse sido levado pelo mero desejo de esclarecer, enquanto esse
esclarecimento dependia da sua autoridade, o caso judiciário em torno do qual tanto
143

escândalo se fasia, não é possível encontrar a razão porque, entre os títulos


rememoráveis do dr.Celso de Magalhães, vem a ser enquadrada a attitude que
assumiu no processo de que me occupo.
Muitos possuía o illustre maranhense, capazes de ó recomendar á
admiração dos eus pósteros. E, por isso mesmo não havia necessidade de reviver
esse caso, que não pode ser recordado senão em defesa da memória de uma
senhora que tão ultrajada foi em vida.
Compreende-se que se cite o caso desse processo, para mostrar, por
exemplo, a serenidade imperturbavel do juiz, que, respirando aquela atmosphera de
ódios e prevenções, desencadeados pelos poderosos do dia, contra um chefe
político, então em rigoroso ostracismo, soube, entretanto, abstrair da situação, para
fazer a justiça, posteriormente reconhecida em documentos tão valiosos, como
esses que se acaba de enumerar.
A posição do dr. Celso no processo era, não há duvida, differente da do
dr. José Manoel de Freitas, que funcionava como juiz, emquanto aquelle era
promotor. Tambem não digo que o dr. Celso não tivesse, noutra situação, um
idêntico procedimento. Mas, na situação em que interveio no processo, se a sua
attitude não lhe foi desairosa, também não pode constituir esse titulo honroso que o
ilustre dr. Antonio Lopes enumera ao fazer a apologia das brilhantes qualidades do
nosso extinto conterrâneo.
O barão de Grajahú, como já deixei dito, era, com effeito, um político em
opposição, ao tempo do processo. Contra elle se atirava a situação dominante. E o
dr.Celso de Magalhães era simpathico a essa situação.
Quanto á causa da morte do Dr. Celso, a verdade, como já uma vez
disse, se não me engano, Arthur Azevedo, é que elle morreu em conseqüência de
uma enfermidade incurável, que lhe vinha, desde muito, minando a existência.
Tambem não posso deixar passar sem uma observação o qualificativo de cobarde
que o dr. Antonio Lopes empresta ao meu tio. Podia o barão de Grajahú ter tido
ortros defeitos. Desse, porem, não póde com justiça ser accusado. Nunca tivemos
um homem de partido e de governo que, mais do que elle, assumisse
desassombradamente a responsabilidade dos seus actos.
Timbrava mesmo em assumila com desassombro, quaesquer que fossem
os actos que praticasse e as suas consequencias. Pode, pois, ser accusado por
estes; nunca porem, por os haver praticado covardemente. Parece que nada havia
de mais natural que do que occorer ou á imprensa em defesa da memória de
pessoas que tão caras me foram, e o Dr. Antonio Lopes, estou bem certo, não só
reconhecera isso, como também que a verdade histórica, no caso, é essa que ahi
fica exposta, sem o propósito, aliás, de estabelecer polemica.
Declaro, mesmo, que com estas linhas dou por terminado o incidente.

São Luiz, 12 de Novembro de 1917. 2831[sic]

José Ribeiro de Oliveira


144

Jornal: Pacotilha (São Luís-MA)- Ano XXXVII


segunda-feira, 19 de novembro de 1917.
Pesquisador (a): Jacira Pavão da Silva
Acervo: Biblioteca Pública Benedito Leite

Celso Magalhães

Antônio Lopes.

Lemos atentamente as linhas que o Sr. José Ribeiro de Oliveira publicou,


ante-ontem, na “Pacotilha” acerca do nosso trabalho anteriormente estampado no
mesmo jornal sobre a individualidade do escritor maranhense dr. Celso da Cunha
Magalhães.
Visa o artigo a contestar o que o Sr. José Ribeiro de Oliveira supõe ter
sido por nós afirmado sobre seu tio, o falecido dr. Carlos Fernandes Ribeiro, barão
de Grajaú e, ao mesmo tempo, atribuindo-nos pecha de procurar engrandecer a
memória de Celso de Magalhães em detrimento de quem quer que seja, revelar que
na conducta do falecido homem de letras durante o processo a que respondeu a
exma. Senhora daquele titular, houve falhas que – contraditoriamente explana o
articulista – se lhe não desdoiram, ao promotor de então, a figura moral, não podem
servir de prova da sua honradez no exercício do cargo público por ele ocupado
durante cinco anos, ou pouco menos, nesta capital.
Para dar cabal resposta, que o caso está a reclamar, a tais acusações,
umas dirigidas á nossa humilde pessoa, outras á memória de Celso de Magalhães,
dês de já pomos de parte qualquer referência directa ao crime de que era acusada a
exma. Espôsa do dr. Carlos Ribeiro, do que aliás nos abstivemos, absolutamente,
em o aludido estudo biográfico recentemente dado á estampa sobre o malogrado
poeta, critico e romancista maranhense.
A imputação do crime á extinta Senhora, cujos destinos somos dos
primeiros a lamentar, não tendo, repetimos, entrado, em nosso mencionao artigo,
em quaisquer análises a respeito da sua imputabilidade, foi facto concretizado num
processo, existiu, - não iniciada por Celso de Magalhães, porêm emana da de
inquérito policial.
Em circunstancias tais, não lhe competindo prejulgar dos acontecimentos,
o dever do órgão da justiça pública era acusar, á vista dos elementos contidos nos
autos, e estes, por certo, não excusavam absolutamente a intervenção da
promotoria, tratando-se de uma imputação criminal que encontrava em via de
indagação e á qual, por intrínseca obrigação do seu cargo, tinha de dar andamento,
até final sentença sobre a matéria imputada, garantindo a lei contra qualquer
alternativa de violação que visasse a perturbar a marcha do processo.
Celso limitou-se a cumprir o seu dever. Grandes foram as suas
responsabilidades no momento e não nos consta as houvesse encarado com atitude
menos recomendável á sua dignidade de funcionário. Não se diga que levou paixão
para a acção que desenvolveu na célebre causa, excedendo os limites da lei em
qualquer oportunidade, quando as paixões referviam em torno ao infausto caso. E
porque não levou? Sem dúvida por isto, principalmente: Celso não era político até
então.
A sua entrada para o partido conservador, e, concomitantemente, para a
redação do “Tempo”, folha dirigida pelo Conselheiro Gomes de Castro, data de dias
145

posteriores ao processo, de dia posterior até á sua demissão pelo barão de Grajaú.
A partir de então Celso, mas só de então, passou a militar nas fileiras do partido
conservador e fazer parte do órgão respectivo na imprensa local.
Poderá isto parecer contraditório ao que já dissemos com relação ás
esperanças que nutriam, sobre o jovem maranhense, desde que saía da academia
jurídica de Recife com a sua carta de bacharel, os chefes conservadores da sua
província natal. Não o é, porêm, Celso pertencia a uma família de tradições
conservadoras, mas achava-se realmente divorciado dela em matéria de opiniões
políticas. Pelo seu talento, era natural fosse objecto da atenção dos conservadores
como dos liberais e, quanto possível, atraído e disputado até por ambos os
elementos políticos de então.
Não obstante, como frisou mais de um testimunho da época em que aqui
viveu, Celso de Magalhães conservou-se afastado de todas as organizações
políticas de então.
O pólo das suas aspirações achava-se situado em direcção oposta á
política, nas regiões da vida intelectual, de cujos ideais jamais se divorciou. Rapaz
culto de uma grande comunicabilidade e muita vida, enquanto as lutas políticas
revolviam a nossa capital, limitava-se a escrever seus artigos literários, seus versos,
a cuidar dos deveres do seu cargo, com assiduidade, e sem outro espírito que não
um de um simples funcionário, e a freqüentar, nesta cidade, as rodas da alta
sociedade, sem distinção partidária, rodas nas quais abundavam, então como
nunca, as recepções, concertos, saraus, pic nics, reuniões, visitas. E nestes deveres
mundanos absorvia todo o tempo que não lhe tomava o movimento da promotoria,
que era considerável, alheio ao pandemônio das lutas políticas, despreocupado,
recitando, cantando, fazendo corte ás moças do seu tempo.
Comprova-lo-emos quando exigirem, este alheiamento á política, com os
minunciosos diários que deixou, e se acham em nosso poder. Nesses diários
interessantíssimos sob o ponto de vista social, pois oferecem retrospecto completo e
animado do Maranhão daquele tempo, tão curioso e grande, anotava êle todos os
passos da sua vida, sem o menor olvido, au jour le jour, as visitas, as cartas, as
conversações, os negócios, as despezas ainda as menores, os trabalhos tanto da
promotoria como literários, enfim os factos mais comesinhos de sua vida intima e
pública.
Encarava com indiferença, embora talvez com bonhomia, o choque das
paixões partidárias, observando-as á distancia, como e sociólogo e psicólogo que
era, e sem abandonar um momento – trabalhador infatigável – as suas obrigações
de promotor e a sua obra literária.
Não pode haver testimunho mais insofismável disto do que a própria folha
conservadora referida, que no seu necrológico frisava, em1879, a isenção em que
se conservará da política até o dia de sua demissão da promotoria pública.
Copiamos, textualmente:
93
“Alheio, até então, ás luctas politicas , foi, não obstante, a primeira vitima
da reacção liberal nesta província. A injuria magoou cruelmente obrioso
mancebo. Trouxe-o a reflexão para as fileiras do partido conservador; e
honrando-nos com a sua companhia na redação do Tempo, depôz a Penna
quando a mão gelada não podia mais empunhal-a”.

O Tempo de 16 de junho de 1871 ano IIIa, 23. Os grifos são nossos (A.L.).
93
146

Dissemos que testimunho tal era insuspeito, porque o interêsse do jornal


conservador era, naturalmente, envaidecer-se de uma antiga solidariedade do
escritor ao partido, ao que não podia a redação do “Tempo” atender sem ir de
encontro a toda verosimilhança. Mais: a entrada de Celso de Magalhães para a vida
partidária, depois de sua demissão, obedecia menos a uma tendência qualquer do
seu espírito para a política do que a um impulso de alma indignada e contundida, á
necessidade, em que, moralmente, se encontrava, de reagir publicamente contra o
rude golpe que o apanhara. Convicções partidárias, não as levava para á redacção
do “Tempo” quem, de feitio, era impropenso ás atitudes exaltadas e avesso á cúbica.
Que havia soma enorme de energias no seu caracter, não se pode
duvidar. Demonstrou-o por ocasião de muita polémica literária acirrada e na
serventia do ministério público. Mas, ao transpor os penetrais do pandemônio
político, iludia-se quanto ás suas próprias inclinações.

A política do império degenera muito. Fé no regime monárquico, o espírito


de Celso, não só por índole, como por se achar bastante avançado em sociologia,
como demonstram á saciedade numerosos escritos seus, estava predisposto para
não na ter, para, em uma palavra, compreender lucidamente a derrocada em que
iam as instituições imperiais.
A razão mesma do seu afastamento do feroz partidarismo que no
Maranhão se degladiava sem comedimento, naquela quadra, residia no seu
republicanismo intenso, manifestado desde a academia, onde, como testimunha o
competente historiógrafo professor Ribeiro do Amaral, seu contemporâneo e
condiscípulo, e exarou Fran Paxeco em substanciosa e recente palestra, Celso
concitava, abertamente, numa reunião pública, o impertérrito (?) Osório a derrubar o
trono, que ia cambaleante sôbre as solapadas bases.
Conseguintemente não há increpar-lhe, na atitude assumida a quando da
acusação da infeliz Senhora, partidarismo.
“Era um vigoroso talento, um nobilíssimo caracter.

Exercendo por muitos annos o cargo de promotor”- constata outra folha


local á data de sua morte – jamais teve a justiça sacerdote mais devotado.
Para o pobre, para o desvalido e para o potentato foi sempre o mesmo, e
embora levantassem contra si os protesto dos desgostosos, cumpria
impassível o seu dever, porque compreendia a justiça uma, indivisível, sem
gradações; e assim, no dia em que desceu daquela cadeira que alto levou,
passou com a fronte erguida, animado pelo legitimo orgulho de um
procedimento immaculado, por entre a multidão que respeitosa o
contemplava.

Não somos nós, pois, que reivindicamos glorias para Celso, nem
influiriam, sobre o julgamento que a posteridade formulasse definitivamente da sua
personalidade, qualquer esforço estulto, que por ventura alimentasse-mos, de torcer
os acontecimentos em seu favor. Aqui, como ontem, com uma intenção meramente
documentável, que outra não trouxemos ao escoçar a biografia de Celso, limitamo-
nos a recolher testimunhos do passado com inteira fidelidade aos respectivos textos.
Vê-se, por conseguinte, que não é aceitável, sem documentação, a idade
de que Celso de Magalhães fosse deixar-se levar por manejos da política, no
cumprimento de deveres profissionais.
Ao traçar as linhas de sábado passado não tínhamos em vista ennublar a
memória de mortos por certo respeitáveis, como todos os que repoisam no sagrado
147

seio dos sepulcros, tanto assim que não fizemos a menor acuzação que pudesse
magoar os membros da família da iditosa Senhora que a fatalidade envolveu, em
liames de agitada tragédia.
Na afirmação de que “se viu acusada de ter assassinado uma criança
escrava sevícias” “não se contém absolutamente uma acusação, pois nem ao de
leve formulamos juízo algum sobre a responsabilidade da falecida Espôsa do dr.
Carlos Fernando Ribeiro.
Engana-se, outrossim, o articulista de ante-ontem quando supõe que o
trecho contendo referencias ao carácter do barão de Grajaú, o qual parece ter, mais
directamente dado causa ao seu artigo, seja juízo nosso próprio. As linhas
mencionadas apenas as respingamos de um artigo sobre a individualidade de Celso
de Magalhães publicado poucos anos depois da morte deste por seu colega dr.
Pereira de Albuquerque, numa folha recifensa. Pela precipitação com que foi vazado
e revisto o nosso trabalho de 10 do corrente escapou o sinal de transcrição, de que
aparecerá a consignação de vida, na próxima edição em folheto dos referidos
assentos biográficos.
De resto, a revisão escoimanto não logrou êxito na referida publicação,
pois que até a data da morte de Celso, como a do nascimento, saíram truncadas,
sendo coisas tão capitais em escritos do gênero.
Provada, assim, a insenção que levamos de qualquer intenção que
visasse a contundir susceptibilidades de qualquer naturesa, analisemos o acto da
demissão de Celso, somente para aclarar este ponto da sua biografia que não
decumentámos suficientemente ainda.
Nomeado em 16 de fevereiro de 1874, tirou o titulo em 7 de março desse
ano, e entrou, para assim dizer, em funções, desempenhando-se de delicada
comissão na comarca de Guimarães para onde partiu com remoção, afim de sindicar
com pertubações á justiça ali ocorridas, apurando as responsabilidades com muito
senso das suas obrigações de funcionário. E se assim se estreava na vida pública,
assim nela se manteve, durante o tempo em que exerceu o cargo, recebendo as
melhores provas de apreço á sua conduta.
Dêsse promotor que se quer dar a crer pudesse ser capaz de agir
sugestionado, expressavam-se os magistrados do seu tempo desta maneira, em
reiteradas vezes, como poderá o articulista verificar nos arquivos da Secretaria do
Governo do Estado quando lá quizer ir conosco revolver velha, mas duradoira
papelada:
“No desempenho do seu emprego se houve com honra, zelo, intelligencia
e actividade”.- Juiz de direito do Comércio.
“Cumpriu zelosamente os deveres.- Juiz de Direito da 1ª vara da Capital”.
“Cumpriu os seus deveres com solicitude, honradez e intelligencia”.- Do
juiz de Direito da 1ª vara da Capital.
Se a ele se dirigiam os seus superiores, era nos termos seguintes que o
faziam, ao cometer-lhe sindicâncias de uma suma importância dentro,das
atribuições da sua função pública:
“Informará Vmcê. Qual tem sido o procedimento das authoridades do
termo, em ordem a habilitar-me a providenciar como for de lei. Certo de sua
intelligencia e zelo pelos interesses da justiça, confio que no desempenho desta
comissão terei novos motivos para recomendal-o ao governo imperial. Deus guarde‟
a V.S.”
- Do Presidente da Provincia.
148

Era um funcionário destes que se demitia, por conveniência do serviço


público. Que o acto de demissão foi injusto, não resta, a menor dúvida, pois Celso
de Magalhães, durante a serventia do cargo só fizera honrar a justiça com a sua
probidade e saber. Sabe toda gente, contemporâneos ou não do infeliz maranhense,
na sua terra, que não tinha a demissão outro motivo que o da vingança pessoal, e,
como já foi exposto, sem base plausível. Tanto assim que se revestia de um carácter
de acinte iniludível. O dr. Carlos Ribeiro assumiu o governo a 28 de março, e, logo a
29, era Celso de Magalhães demitido, sendo a sua primeira demissão, e,
simultaneamente, o – primeiro acto, para bem dizer, do presidente no dia anterior
empossado.
Traduzia, pois, a demissão do promotor de então a bem do serviço
público, uma perseguição, uma incoercível vindicta exercida por autoridade que
absolutamente não podia servir-se do seu posto para tomar vinganças pessoais e,
no entanto, a tomava, no caso [sic.] vertente, dando ao seu acto o máximo de
violência possível, mas – bem entendido- violência exercida em segurança,
acobertada por uma posição poderosa, de onde podia pronunciar imperativamente o
noli me tangere aos indefesos.
Eis a portaria:

(2 sessão) “Palácio da Presidência do Maranhão, em 29 de março de 1878.


O Vice – Presidente da província resolve, a bem do serviço publico, demitir
o bacharel Celso da Cunha Magalhães do cargo de promotor publico da
comarca da capital, e nomeia em seu lugar o bacharel José Pires da
Fonseca.
(Assim.) Carlos F. Ribeiro

Ora, a demissão a bem do serviço público não era, como não é, medida
de que se possa lançar mão contra funcionário, sinão em caso de grave falta deste,
de malversação, de suborno, de manifesta imoralidade. Degradante, ela só se
aplicava e se aplica aos degradados na escola moral, aos funcionários relapsos, de
má nota evidente, aos reincidentes incorrigíveis da peita. Quem apontará o acto
cometido por Celso que o tornasse passível de semelhante punição? Ninguêm,-
ontem, como hoje, e em qualquer tempo.
E para que ocultar que assim foi o acto? Por todo o resto dos curtos anos
de Celso de Magalhães, os políticos que os demitiram perseguiram-no com uma
tenacidade sem termo. E‟ facto que não se limitaram a corta-lhe o emprego. Foram
ao extremo de tentar impedir-lhe que, por outra via, dentro da carreira que abraçava,
procurasse meios de subsistência. Era o sítio, era a fome.
O caso é que, tendo aberto, aqui banca de advogado, numa das primeiras
questões que teve no foro suscitaram a nulidade do feito, por não ter Celso
registrado na Relação, a sua carta de bacharel, registro que, então, como hoje, raro
faziam os diplomados em direito, e do qual nem os juízes, nem os governos faziam
caso, quer para o exercício da advocacia, quer para o provimento em cargos de
justiça, tanto assim que o próprio Celso de Magalhães fora, sem o haver feito,
nomeado promotor da capital e exercera a função por quatro anos a foi.
Não fora a integridade do juiz a quem subiram os autos, para decidir do
incidente, e que o desprezou, reconhecendo a Celso o direito de advogar, teria este
de emigrar, por certo, ou ficar exposto a fome, porquanto era paupérrimo, como
paupérrimo morreu, pois até dos escravos da herança paterna se tinha despojado
em generoso e humano impulso da sua ingênita fé republicana.
149

Um ano depois Celso morria, não de tuberculose como erroneamente


afirmou Arthur Azevedo, que alíás só o viu em a única vez na sua vida, de
passagem, nem tampouco de um traumatismo moral resultante das perseguições
que lhe moveram te [sic.] á beira do túmulo, sinão de uma febre perniciosa,
apanhada, durante a estação anormal de 78, nos campos de Viana, porêm sem
duvida ralado dos desgostos que colhera na sua curta vida pública.
A quando de seu falecimento, se os jornais do Maranhão e de outras
partes do Brasil estamparam o seu retrato e, tecendo encômios á sua obra literária e
ao seu carácter, lamentaram a sua mocidade ceifada prematuramente pelo destino,
não se renderam seus adversários ás sugestões niveladoras da Morte, pois o
“Publicador Maranhense”, órgão oficial do governo reaccionário de então, noticiando
o seu pensamento, limitava-se a dizer em quatro linhas, no meio da consternação
geral:
“Fallecimento – falleceu, hontem, proveniente de uma febre perniciosa,
seno hontem sepultado, o dr. Celso de Magalhães, que exerceu o cargo de promotor
público da capital, e ultimamente tinha escriptorio de advocacia n‟esta cidade.
O estilo era de quem passava o recibo á Parca. Nem uma palavra de
piedade, tão natural diante do destino tão adverso quanto o do moço escritor,
colhido em plena flor da existência, por torrente fatal. Por muito, uma frase
indiferente, que mal salvava a cortesia jornalística e a oficiosidade da gaseta,
deixando comprometida a gramática:” sentimentamos aos parentes do finado”.
Evidente que nem por sombra queremos demonstrar a odiosidade a
menor, ainda, contra quem quer que seja. Tantos anos passados, o facto de não
serem do nosso tempo acontecimentos tais, não podiam deixar de apagar
ressentimentos, na hipótese de que os houvera.
Não balanceamos; narramos, procurando a documentação que o tempo
exarou sem procurar glorias para este nem desdoiros para aquele. Não os
pertubam, siquer umas e outras coisas, no letargo eterno em que jazem. Acredite o
articulista que esta é a suprema verdade que, ao fim de tudo, fica de pé.
Lamentável é que tenha acusado Celso de Magalhães, repetidamente, de
ser capaz de se deixar sugestionar, fazendo uma inconcebível, injustificável
distinção entre o carácter do dr. José Manoel de Freitas e o daquele sôbre cuja
inteireza moral esse juiz formava, como atraz se mostrou, o mais elevado conceito.
Positivamente não se coadna com os actos do dr. Celso o juízo que ora
se quer dele fazer, de um títere94 em mãos de políticos ambiciosos. E não só no
processo célebre de que tratamos, como em todos sobre os quais se teve de
manifestar como representante da justiça pública.
Com estas palavras pomos fim ao caso 2880 [sic.]

1917, novembro

Antônio Lopes

Títere – fantoche (M.F.)


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