Você está na página 1de 128

Agosto - 2008

APOSTILA
ESGOTOS SANITÁRIOS

Organizado pelo Engº Sanitarista e Ambiental


O texto linkado a
Marcelo Chaves Moreira
seguir foi elaborado
Extraído do link e autor:
a partir do conteúdo http://www.dec.ufcg.edu.br/saneamento/ES00_00.html?submit=%CDndice+de+Esgotos+Sanit%E1rios

do livro Carlos Fernandes de Medeiros Filho


ESGOTOS (cfilho@dec.ufcg.edu.br resumo biográfico)
SANITÁRIOS Engenheiro Civil nascido no Estado do Rio Grande do Norte, em
30/12/1951, Professor da Universidade Federal de Campina Grande
cuja capa é vista acima
com pós-graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental.

Propósito: Estimular os profissionais responsáveis pela implantação de Sistemas de


Esgotamento Sanitário da Embasa (Empresa Baiana de águas e Saneamento S/A)
ao estudo da hidráulica geral e visão sistêmica do empreendimento sob este
aspecto sendo capaz de interpretar e adequar-se à dinâmica da obra sem que haja
distorções físicas e financeiras. Para uma perfeita performance torna-se necessário
que o interessado saiba manipular o CADERNO DE ENCARGOS da Embasa
(disponível na intranet), planilha eletrônica (excel) e computação gráfica
(AutoCAD). No final de cada capítulo encontram-se exercícios o que considero
pertinente faze-los.
ÍNDICE GERAL
ESGOTOS SANITÁRIOS

CAPÍTULO I

1. SISTEMAS DE ESGOTOS

1.1. Generalidades e Definições

1.2. Classificação das Águas de Esgotamento

1.3. Sistemas de Esgotos

1.3.1. Definições

1.3.2. Evolução dos Sistemas de Esgotamento

1.3.3. Cronologia dos Sistemas de Esgotos

1.3.4. Comparação entre os Sistemas

1.4. Sistemas de Esgotos Sanitários

1.4.1. Definição

1.4.2. Objetivos

1.4.3. Situação no Brasil

1.4.3.1. Gerenciamento

1.4.3.2. Situação Atual

1.5. Exercícios

NOTAS

CAPÍTULO II

2. CARACTERIZAÇÃO DOS ESGOTOS SANITÁRIOS

2.1. Tipos de Despejos

2.2. Composição e Classificação dos Esgotos Sanitários

2.3. Presença Bacteriológica

2.3.1. Origem

2.3.2. Patogênicos
2.3.3. Processo de Decomposição de Matéria Orgânica

2.3.4. Comparação entre os Processos

2.3.5. Corrosão Bacteriana

2.3.6. Demanda Bioquímica de Oxigênio - DBO

2.4. Características Físicas

2.4.1. Aspectos Físicos

2.4.2. Tipos de Sólidos

2.5. Características Químicas

2.5.1. Matéria Orgânica

2.5.2. Nitrogênio e Fósforo

2.5.3. pH

2.6. Concentração de Gases nos Esgotos

2.7. Conclusão

2.8. Exercícios

CAPÍTULO III

3. VAZÕES DE CONTRIBUIÇÃO

3.1. Introdução

3.2. Contribuição Doméstica

3.2.1. Origem

3.2.2. Coeficiente de Retorno

3.2.3. Contribuição Per Capita Média

3.2.4. População de Projeto

3.2.4.1. Generalidades.

3.2.4.2. Crescimento de População

3.2.4.3. População Flutuante.

3.2.4.4. Densidade Demográfica


3.2.4.5. Equivalente Populacional

3.2.4.6. Comentários

3.2.5. Contribuição Média Doméstica

3.3. Águas de Infiltração

3.4. Contribuições Concentradas

3.5. Contribuição Total

3.6. Exemplo

3.7. Exercícios

CAPÍTULO IV

4. COMPONENTES DOS SISTEMAS DE ESGOTOS SANITÁRIOS

4.1. Introdução

4.2. Terminologia Básica

4.3. Comentários

4.4. Exercícios

CAPÍTULO V

5. HIDRÁULICA DOS COLETORES

5.1. Introdução

5.2. Propriedades Físicas

5.3. Classificação dos Movimentos

5.4. Equação da Continuidade

5.5. Equação da Energia

5.6. Perda de Carga

5.6.1. Expressão Geral para Secção Circular

5.6.2. Expressões Mais Comuns na Literatura

5.6.2.1. Fórmula Universal

5.6.2.2. Fórmula de Hazen-Williams


5.6.2.3. Fórmula de Chézy

5.6.2.4. Fórmula de Bazin.

5.6.2.5. Fórmula de Manning

5.7. Perdas de Carga Localizadas

5.8. Tensão Trativa

5.9. Energia Específica

5.10. Número de Froude

5.11. Escoamento Livre em Secções Circulares - Elementos Geométricos e Trigonométricos

5.11.1. Secção Plena - y / do = 1,0

5.11.2. Secção Parcialmente Cheia - y / do < 1,0

5.11.3. Relação entre os Elementos

5.12. Exemplos

5.13. Exercícios

CAPÍTULO VI

6 CRITÉRIOS DE DIMENSIONAMENTO / CONDIÇÕES TÉCNICAS

6.1. Introdução

6.2. Hipótese de Cálculo

6.2.1. Hipótese Clássica

6.2.2. Justificativa

6.3. Condições Específicas

6.4. Solução Gráfica

6.5. Exemplo

6.6. Exercícios

CAPÍTULO VII

7. CÁLCULO HIDRÁULICO DE REDE COLETORA


7.1. Introdução

7.2. Coeficientes de Contribuição

7.2.1. Taxa de Contribuição Domiciliar

7.2.2. Taxa de Cálculo Linear

7.3. Profundidade dos Coletores

7.4. Traçados de Rede

7.5. Localização dos Poços de Visita

7.6. Localização dos Coletores

7.7. Sequência de Cálculo

7.7.1. Estudo Preliminar

7.7.2. Planilhas de Cálculo

7.7.3. Metodologia de Cálculo

7.8. Exemplos

7.9. Exercícios

CAPÍTULO VIII

8. POÇOS DE VISITA

8.1. Definição

8.2. Disposição Construtiva

8.3. Localização

8.4. Dimensões

8.5 Elementos para Especificações

8.5.1. Pré-moldados

8.5.2. Concreto Armado no Local

8.5.3. Alvenaria

8.5.4. Outros Materiais

8.6. Tubulações de Inspeção e Limpeza - TIL


8.7. Exemplos

8.8. Exercícios

CAPÍTULO IX

9. SIFÕES INVERTIDOS

9.1. Definição

9.2. Tipos de Obstáculos

9.3. Funcionamento Hidráulico

9.4. Informações para Projetos Hidráulicos

9.5. Exemplo Esquemático

9.6. Exemplo

9.7. Exercícios

CAPÍTULO X

10. ESTAÇÕES ELEVATÓRIAS DE ESGOTOS - EEE

10.1. Introdução

10.2. Ocorrências

10.3. Classificação

10.4. Características Gerais

10.5. Localização

10.6. Bombas para Esgotos

10.6.1. Conceitos

10.6.2. Bombas Centrífugas

10.6.3. Bombas Helicoidais

10.6.4. Ejetores Pneumáticos

10.6.5. Seleção de Bombas

10.7. Noções sobre Motores


10.7.1. Tipos de Motores

10.7.2. Motores Elétricos

10.7.3. Motores Síncronos

10.7.4. Motores Assíncronos

10.7.5. Rotores

10.7.6. Potências

10.7.7. Comentários

10.8. Projeto de Elevatórias

10.8.1. Informações Básicas

10.8.2. Pré-Dimensionamento

10.8.3. Unidades Preliminares

10.8.4. Poço Úmido

10.8.4.1. Considerações para Projetos

10.8.4.2. Cálculo do Volume

10.8.4.3. Dimensões Úteis

10.8.4.4. Detalhes a Serem Obedecidos

10.8.5. Tubulações

10.8.5.1. Material das Tubulações

10.8.5.2. Peças Especiais e Conexões .

10.8.6. Sala de Bombas

10.8.7. Estrutura Funcional

10.9. Considerações Finais

10.10. Exemplos

10.11. Exercícios
CAPÍTULO I
SISTEMAS DE ESGOTOS

1. SISTEMAS DE ESGOTOS

1.1. Generalidades e Definições

É característico de qualquer comunidade humana, o consumo de água como uma necessidade básica para
desempenho das diversas atividades diárias e, conseqüentemente, a geração de águas residuárias sem condições
de reaproveitamento. A água consumida na comunidade deve ser de procedência conhecida, requerendo, na
maioria das vezes, tratamento prévio para que ao atingir os pontos de consumo, a mesma esteja qualificada com
um grau de pureza que possa ser utilizada de imediato para o fim a que se destina. As instalações necessárias
para que a água seja captada, tratada, transportada e distribuída nos pontos de consumo constituem o sis-tema de
abastecimento de água.

Os processos de consumo da água, na sua maioria geram vazões de águas residuárias que, por não disporem de
condições de reutilização, devem ser coletadas e transportadas para locais afastados da comunidade, de modo
mais rápido e seguro, onde, de acordo com as circunstâncias, deverão passar por processos de depuração
adequados antes de serem lançadas nos corpos receptores naturais. Este condicionamento é necessário para
preservar o equilíbrio ecológico no ambiente atingido direta ou indiretamente pelo lançamento. Este serviço é
executado pelo sistema de esgotos sanitários.

A geração de resíduos sólidos, o lixo, também é uma conseqüência da presença humana. Sendo sua constituição
de teor insalubre e de presença incômoda para a população humana, deve ser coletado de modo sistemático e
seguro e transportado para locais de beneficiamento, incineração, etc., ou áreas de depósito previamente
determinadas e preparadas, isoladas do perímetro habitado a fim de evitar interferência no desempenho das
atividades vitais da comunidade.

Paralelamente à operação dos serviços citados devem também ser drenadas as águas de escoamento superficial,
em geral vazões sazonais de origem pluvial, através de um sistema de galerias e canais, para os corpos receptores
de maior porte da área tais como córregos, rios, lagos, etc. A existência desse conjunto de condutos artificiais de
esgotamento‚ denominado de sistema de drenagem pluvial ou sistema de esgotos pluviais, é fundamental para
preservação da estrutura física da comunidade, pela redução ou controle dos efeitos adversos provocados pela
presença incontrolada dessas vazões.

Entende-se, pois, que a existência dos serviços descritos é essencial para o bem-estar de toda uma comunidade
humana. Por definição, esse conjunto de serviços compõe o denominado Saneamento Básico, e tradicionalmente
tem sido de responsabilidade, pelo menos no seu gerenciamento, do poder público imperante na coletividade.

É fundamental, também, observar-se que a boa operação e confiabilidade dos sistemas que compõem as
atividades de Saneamento Básico respondem diretamente por melhores condições de saúde, conforto e
segurança e produtividade em uma comunidade urbana.

1.2. Classificação das Águas de Esgotamento

A expansão demográfica e o desenvolvimento tecnológico trazem como conseqüência imediata o aumento de


consumo de água e a ampliação constante do volume de águas residuárias não reaproveitáveis que, quando não
condicionadas de modo adequado, acabam poluindo as áreas receptoras causando desequilíbrios ecológicos e
destruindo os recursos naturais da região atingida ou mesmo dificultando o aproveitamento desses recursos
naturais pelo homem. Essas águas, conjuntamente com as de escoamento superficial e de possíveis drenagens
subterrâneas, formarão as vazões de esgotamento ou simplesmente esgotos.

Sendo assim, de acordo com a sua origem, os esgotos podem ser classificados tecnicamente da seguinte forma:
- esgoto sanitário ou doméstico ou comum;

- esgoto industrial;

- esgoto pluvial.

Denomina-se de esgoto sanitário toda a vazão esgotável originada do desempenho das atividades domesticas, tais
como lavagem de piso e de roupas, consumo em pias de cozinha e esgotamento de peças sanitárias, como por
exemplo, lavatórios, bacias sanitárias e ralos de chuveiro.

O chamado esgoto industrial é aquele gerado através das atividades industriais, salientando-se que uma unidade
fabril onde seja consumida água no processamento de sua produção, gera um tipo de esgoto com características
inerentes ao tipo de atividade (esgoto industrial) e uma vazão tipicamente de esgoto doméstico originada nas
unidades sanitárias (pias, bacias, lavatórios, etc.).

O esgoto pluvial tem a sua vazão gerada a partir da coleta de águas de escoamento superficial originada das
chuvas e, em alguns casos, lavagem das ruas e de drenos subterrâneos ou de outro tipo de precipitação
atmosférica.

1.3. Sistemas de Esgotos

1.3.1. Definições

Para que sejam esgotadas com rapidez e segurança as águas residuárias indesejáveis, faz-se necessário a
construção de um conjunto estrutural que compreende canalizações coletoras funcionando por gravidade,
unidades de tratamento e de recalque quando imprescindíveis, obras de transporte e de lançamento final, além de
uma série de órgãos acessórios indispensáveis para que o sistema funcione e seja operado com eficiência. Esse
conjunto de obras para coletar, transportar, tratar e dar o destino final adequado às vazões de esgotos, compõe o
que se denomina de Sistema de Esgotos.

O conjunto de condutos e obras destinados a coletar e transportar as vazões para um determinado local de
convergência dessas vazões é denominado de Rede Coletora de Esgotos. Portanto, por definição, a rede
coletora é apenas uma componente do sistema de esgotamento.

1.3.2. Evolução dos Sistemas de Esgotamento

Os primeiros sistemas de esgotamento executados pelo homem tinham como objetivo protegê-lo das vazões
pluviais, devendo-se isto, principalmente, à inexistência de redes regulares de distribuição de água potável
encanada e de peças sanitárias com descargas hídricas, fazendo com que não houvesse, à primeira vista, vazões
de esgotos tipicamente domésticos. Porém, como as cidades tendiam a se desenvolver às margens de vias
fluviais, por causa da necessidade da água como substância vital, principalmente para beber, com o passar do
tempo os rios se tornavam tão poluídos com esgoto e o lixo, que os moradores tinham que se mudar para outro
lugar. Este padrão universal foi seguido pelos humanos por muitos e muitos séculos.

Poucas foram as exceções a esse padrão. Sítios escavados em Mohenjo-Daro, no vale da Índia, e em Harappa, no
Punjab, indicam a existência de ruas alinhadas, pavimentadas e drenadas com esgotos canalizados em galerias
subterâneas de tijolos argamassados a, pelo menos 50 centímetros abaixo do nível da rua. Nas residências
constatou-se a existência de banheiros com esgotos canalizados em manilhas cerâmicas rejuntadas com gesso.
Isto a mais de 3000 a.C.

No Egito, no Médio Império (2100-1700 a.C.), em Kahum, uma cidade arquitetonicamente planejada,
construíram-se nas partes centrais, galerias em pedras de mármore para drenagem urbana de águas superficiais,
assim como em Tel-el-Amarma, onde até algumas moradias mais modestas dispunham de banheiros. Em Tróia
regulamentava-se o destino dos dejetos, sendo que a cidade contava com um desenvolvido sistemas de esgotos.
E Knossos, em Creta, a mais de 1000 a.C., contava com excelentes instalações hidro-sanirtárias, notadamente
nos palácios e edifícios reais. Na América do Sul os incas e vizinhos de língua quíchua, desenvolveram
adiantados conhecimentos em engenharia sanitária como atestam ruínas de sistemas de esgoto e drenagem de
áreas encharcadas, em suas cidades.

Historicamente é observado que as civilizações primitivas não se destacaram por práticas higiênicas individuais
por razões absolutamente sanitárias e sim, muito freqüentemente, por religiosidade, de modo a se apresentarem
limpos e puros aos olhos dos deuses de modo a não serem castigados com doenças. Os primeiros indícios de
tratamento científico do assunto, ou seja, de que as doenças não eram exclusivamente castigos deteve,
começaram a aparecer na Grécia, por volta dos anos 500 a. C., particularmente a partir do trabalho de
Empédocles de Agrigenco (492-432 AC), que construiu obras de drenagem das águas estagnadas de dois rios,
em Selenute, na Sicília, visando combater uma epidemia de malária.

No livro hipocrático Ares, Águas e Lugares (1), um texto médico por excelência, considerava-se insalubres
planícies encharcadas e regiões pantanosas, sugerindo a construção de casas em áreas elevadas, ensolaradas e
com ventilação saudável. Saliente-se que nas cidades gregas havia os administradores públicos, os astí-nomos,
responsáveis pelos serviços de abastecimento de água e de esgotamentos urbanos como, por exemplo, a
manutenção e a limpeza dos condutos. Nas cidades romanas do período republicano esta gerência era
desempenhada pelos censores e no imperial, a partir de Augusto (63 AC-14 DC), pelos zeladores e atendentes. A
prestação destes serviços, no entanto, eram prioridade das áreas nobres das cidades gregas e principalmente das
romanas, onde os moradores tinham de pagar pelo uso do serviço.

É importante citar que uma obra como a cloaca máxima, destinada ao esgotamento subterrâneo de águas
estagnadas dos pés da colina do Capitólio até o Tibre, ainda hoje em operação, foi concluída no governo de
Tarquínio Prisco. Em De Arquitetura, Vitrúvio (70-25 a. C) justificava a importância de se construírem as
cidades em áreas livres de águas estagnadas e onde a drenagem das edificações fossem facilitadas. Relatos de
Josefos (37-96 d. C) sobre o Oriente Médio, descrevem elogios ao sistema de drenagem em Cesaréia, construído
por Herodes (73-4 a. C). Já Estrabão surpreendeu-se negativamente com a construção de galerias a céu aberto em
Nova Esmirna.

Sistemas de drenagens construídos em concreto com aglomerantes naturais também existiram nas cidades
antigas como Babilônia, Jerusalém e Bizâncio, porém por sua insuficiência quantitativa, estas cidades tornaram-
se notáveis por seus peculiares e ofensivos odores.

A partir de 476 da era cristã., com a queda do Império Romano, iniciou-se o período medieval, que duraria cerca
de um milênio, e desgraçadamente para o Ocidente, caracterizou-se por uma fusão de culturas clássicas, bárbaras
e ensinamentos cristãos, centralizado em Constantinopla. Grande parte dos conhecimentos científicos foram
deslocados pelos cientistas em fuga, para o mundo árabe, notadamente a Pérsia, dando início na Europa, a uma
substituição deste conhecimento por uma cultura a base de superstições, gerando a hoje denominada Idade das
Trevas (500-1000 d. C.). Como a ênfase de que as doenças eram castigos divinos às impurezas espirituais
humanas e seus tratamentos eram resolvidos com procedimentos místicos ou orações e penitências, as práticas
sanitárias urbanas sofreram, se não um retrocesso, pelo menos uma estagnação.

Neste período, no Ocidente, como o conhecimento científico restringiu-se ao interior dos mosteiros, as
instalações sanitárias como encanamentos de água e esgotamentos canalizados, ficaram por conta da iniciativa
eclesiástica. Como exemplo desta afirmativa, pode-se citar que enquanto no século IX, a cidade do Cairo, no
Egito, já dispunha de um ser-viço público de adução de água encanada, só em 1310 os franciscanos concordaram
em que habitantes da cidade de Southampton utilizassem a água excedente de um convento que tinha um sistema
próprio de abastecimento de água desde 1290.

Na Idade Média, nas cidades as pessoas construíram casas permanentes e esgoto, lixo e refugos em geral eram
depositados nas ruas. Quando as pilhas ficaram altas, e o mau odor tornava-se insuportável, a sujeira era retirada
com a utilização de pás e veículos de tração animal. Esta condição prevaleceu até o final do século XVIII,
principalmente nas cidades menores.

A iniciativa de pavimentação das ruas nas cidades européias, com a finalidade de mantê-las limpas e alinhadas, a
partir do final do século XII, exemplos de Paris (1185), Praga (1331), Nuremberg (1368) e Basiléia (1387),
tornou-se o marco inicial da retomada da construção de sistemas de drenagem pública das águas de escoamento
superficial e o encanamento subterrâneo de águas servidas, estas inicialmente para fossas domésticas e,
posteriormente, para os canais pluviais. As primeiras leis públicas notáveis de instalação, controle e uso destes
serviços têm origem a partir do século XIV.

Em termos de saneamento o período histórico dos séculos XVI e XVIII é considerado de transição. A partir do
século XVI, já no Renascimento, com a crescente poluição dos mananciais de água o maior problema era o
destino dos esgotos e do lixo urbanos. No século seguinte, o abastecimento de água urbano teve radical
desenvolvimento, pois se passou a empregar bombeamentos com máquinas movidas a vapor e tubos de ferro
fundido para recalques de água, notadamente a partir da Alemanha, procedimentos que viriam a se generalizar
no século seguinte, juntamente com a formação de empresas fornecedoras de água.

Os estudos de John Snow (1813-1858), o movimento iluminista, a revolução industrial e as mudanças agrárias
provocaram alterações revolucionárias no final do século XVIII, com profundas alterações na vida das cidades e,
conseqüentemente, nas instalações sanitárias. Ruas estreitas e sinuosas foram alargadas e alinhadas,
pavimentadas, iluminadas e drenadas, tanto na Inglaterra como no continente.

O aparecimento da água encanada e das peças sanitárias com descarga hídrica, fez com que a água passasse a
servir com uma nova finalidade: afastar propositadamente dejetos e outras impurezas indesejáveis ao ambiente
de vivência. A sistemática de carreamento de refugos e dejetos domésticos com o uso da água, embora fosse
conhecido desde o século XVI, quando John Harrington (1561-1612) instalou a primeira latrina no palácio da
Rainha Isabel, sua disseminação só veio a partir de 1778, quando Joseph Bramah (1748-1814) inventou a bacia
sanitária com descarga hídrica, inicialmente empregada em hospitais e moradias nobres. A generalização dos
sistemas de distribuição de água e as descargas hídricas para evacuar o esgoto, provocaram a saturação do solo,
contaminando as ruas e o lençol freático. A extravasão para os leitos das ruas criou, também, constrangimentos
do ponto de vista estéticos, levando a necessidade de criação de esquemas para limpeza das vias públicas das
cidades grandes.

Muitas cidades como Paris, Londres e Baltimore tentaram o emprego de fossas individuais com resultados
desastrosos, pois as mesmas, com manutenção inadequada, se tornaram fontes de geração de doenças. Raramente
eram limpas e seu conteúdo se infiltrava pelo solo, saturando grandes áreas do terreno e poluindo fontes e poços
usados para o suprimento de água. As fossas, portanto, tornaram-se um problema de saúde pública.

Além disso, era ilusoriamente fácil eliminar a água de esgoto, permitindo-a alcançar os canais de esgotamento
existentes sob muitas cidades. Como esses canais de esgotamento se destinavam a carrear água de chuva, a
generalização dessa prática levou os rios de cidades maiores transformarem-se em esgotos a céu aberto, um dos
maiores desafios enfrentados pelos reformadores sanitários do século XIX.

Paralelamente começava a se concretizar a idéia de serem organismos microscópicos como possível causa das
doenças transmissíveis. No início do século XIX havia na Grã-Bretanha várias cidades consideradas de grande
porte, mas elas pareciam tão incapazes como suas predecessoras de evitar as contrastantes ondas de mortes por
doenças e epidemias, que ainda eram o preço inevitável da vida urbana. Apesar das consideráveis melhorias
executadas nos esgotos londrinos no século anterior, as galerias continuavam despejando seus bacilos no rio
Tâmisa, contaminando a principal fonte de água potável da capital.

Ao mesmo tempo, a melhoria das condições de transporte, provocou um efeito colateral assustador: as epidemias
se espalhavam com muito maior rapidez e produzindo um alcance de vítimas muito mais devastador, como a de
cólera (1831-1832). O governo britânico assustou-se com a intensidade de mortes e as autoridades perceberam
uma clara conexão entre a sujeira e a doença nas cidades.

As décadas de 1830 e 1840 podem ser destacadas como as mais importantes na história científica da Engenharia
Sanitária. A epidemia de cólera de 1831/32 despertou concretamente para os ingleses a preocupação com o
saneamento das cidades, pois evidenciou que a doença era mais intensa em áreas urbanas carentes de saneamento
efetivo, ou seja, em áreas mais poluídas por excrementos e lixo, além de mostrar que as doenças não se
limitavam às classes mais baixas. Em seu famoso Relatório (1842), Chadwick (1800-1890) já afirmava que as
medidas preventivas como drenagem e limpeza das casas, através de um suprimento de água e de esgotamento
efetivos, paralelo a uma limpeza de todos os refugos nocivos das cidades, eram operações que deveriam ser
resolvidas com os recursos da Engenharia Civil e não no serviço médico.
A evolução dos conhecimentos científicos, principalmente na área de saúde pública, tornou imprescindível a
necessidade de canalizar as vazões de esgoto de origem doméstica. Os reformadores e os engenheiros hidráulicos
(1842) propuseram, então, a reforma radical do sistema sanitário, separando rigorosamente a água potável da
água servida: os esgotos abertos seriam substituídos por encanamentos subterrâneos, feitos de cerâmica durável.

Funcionários da prefeitura de Paris já haviam começado a projetar esgotos no começo do século XIX para
proteger seus cidadãos de cólera. A solução indicada foi canalizar obrigatoriamente os efluentes domésticos e
industriais para as galerias de águas pluviais existentes, originando, assim, o denominado Sistema Unitário de
Esgotos, onde todas os esgotos eram reunidos em uma só canalização e lançados nos rios e lagos receptores.

No início do século XIX, a construção dos sistemas unitários propagou-se pelas principais cidades do mundo na
época, entre elas, Londres, Paris, Amsterdam, Hamburgo, Viena, Chicago, Buenos Aires, etc. No realidade
métodos de disposição de esgoto não melhoraram até os anos 1840 quando o primeiro esgoto moderno foi
construído em Hamburgo, Alemanha. Era moderno no sentido de que foram conectadas ligações individuais das
casas a um sistema coletor público de esgotos. O sistema caracterizou-se também porque os trechos coletores
iniciais de esgotos sanitários eram separados das galerias de esgotos pluviais.

Epidemias de cólera que assolaram a Inglaterra e outros países europeus até os anos 1850. Efetivamente Londres
só teve um sistema de esgotos considerado eficiente a partir de 1859. No entanto, a evolução tecnológica nas
nações mais adiantadas, como a Inglaterra por exemplo, e a necessidade do intercâmbio comercial, forçava a
instalação de medidas sanitárias eficientes por todos o planeta, pois a proliferação de pestes e doenças
contagiosas em cidades desprovidas dessas iniciativas propiciava, logicamente, aos seus visitantes os mesmos
riscos de contaminação, gerando insegurança e implicando, portanto, que os navios comerciais da época
evitassem a ancoragem em seus portos, temendo contaminação da tripulação e, conseqüentemente, causando
prejuízos constantes às nações mais pobres e dependentes do comércio internacional. No Brasil relacionavam-se
nesta situação, notadamente os portos do Rio de Janeiro e Santos.

Porém nas cidades situadas em regiões tropicais e equatoriais, com índice pluviométrico muito superior (cinco a
seis vezes maiores que a média européia, por exemplo) a adoção de sistemas unitários tornou-se inviável devido
ao elevado custo das obras, pois a construção das avantajadas galerias transportadoras das vazões máximas
contrapunham-se às desfavoráveis condições econômicas características dos países situados nestas faixas do
globo terrestre.

Foram então, contratados os ingleses pelo imperador D. Pedro II (1825-1891), para elaborarem e implantarem
sistemas de esgotamento para o Rio de Janeiro e São Paulo, na época, as principais cidades brasileiras. Ao
estudarem a situação os projetistas depararam-se com situações peculiares e diferentes das encontradas na
Europa, principalmente as condições climáticas (clima tropical) e a urbanização (lotes grandes e ruas largas).

Após criteriosos estudos e justificativas foi adotado na ocasião, um inédito sistema no qual eram coletadas e
conduzidas às galerias, além das águas residuárias domésticas, apenas as vazões pluviais provenientes das áreas
pavimentadas interiores aos lotes (telhados, pátios, etc.). Criava-se, então, o Sistema Separador Parcial, cujo
objetivo básico era reduzir os custos de implantação e, conseqüentemente, as tarifas a serem pagas pelos
usuários.

Nos Estados Unidos inicialmente muitos sistemas de esgotos foram construída em cidades pequenas e
financiados por fundos criados pela própria população local. Detalhes destes projetos pioneiros de sistema de
esgoto são geralmente desconhecidos por causa da falta de registros precisos. A concepção inicial de sistemas de
esgoto criados na América é creditada a Julius W. Adams que projetou os esgotos em Brooklyn, Nova Iorque
(1857).

A preocupação com os problemas de saúde pública na América do Norte cresceu com o surgimento da epidemia
de febre amarela em Memphis, Tennessee (1873). Neste ano foram mais de 2.000 mortes causadas pela doença
e, cinco anos depois, já se contabilizavam cerca de 5150. Estas epidemias foram responsáveis pela formação do
Departamento de Saúde Nacional, o precursor do Serviço de Saúde Pública Norte-Americano.

Finalmente o engenheiro George Waring (15) foi contratado para projetar um sistema de esgotos para a cidade
de Memphis, região onde predominava uma economia rural e relativamente pobre, praticamente incapaz de
custear a implantação de um sistema convencional à época. Waring, diante da situação e contra a opinião dos
sanitaristas de então, projetou em sistema exclusivamente para coleta e remoção das águas residuárias
domésticas, excluindo, portanto, as vazões pluviais no cálculo dos condutos. Depois do controle da epidemia e
construção de um sistema de esgoto sanitário em Memphis (1889), as maiores cidades americanas estavam com
linhas de esgoto em funcionamento.

Com a implantação do projeto de esgoto sanitário de Memphis estava criado então o Sistema Separador
Absoluto (1879), cuja característica principal é ser constituído de uma rede coletora de esgotos sanitários e uma
outra exclusiva para águas pluviais. Rapidamente o sistema separador absoluto foi difundindo-se pelo resto do
mundo a partir das idéias de Waring e de suas publicações e também de um outro famoso defensor do novo
sistema, seu contemporâneo, Engenheiro Cady Staley.

No Brasil destacou-se na divulgação do novo sistema, Saturnino Brito (1864-1929), cujos estudos, trabalhos e
sistemas reformados pelo mesmo, fizeram com que, a partir de 1912, o separador absoluto passasse a ser adotado
obrigatoriamente no país.

1.3.3. Cronologia dos Sistemas de Esgotos

A seguir está relacionada uma série de datas com registros de acontecimentos marcantes na história da evolução
dos sistemas de esgotamento na civilização ocidental.

4000 AC - Mesopotâmia: início de construções de sistemas de irrigação.

3750 AC - Índia: construção de galerias de esgotos pluviais em Nipur.

3750 AC - Babilônia: construção de galerias de esgotos pluviais.

3100 AC - Vários pontos: surgimento de manilhas cerâmicas.

3000 AC - Harada e Mohenjodaro, Pakistão: muitas casas com banheiros abastecidos através de tubos cerâmicos
e condutos em alvenaria de tijolos para condução de águas superficiais.

2750 AC - Índia: início dos sistemas de drenagem subterrânea no vale dos hindus.

2000 AC - Creta: empregado no Palácio de Minos, em Knossos, manilhas cerâmicas de ponta e bolsa com cerca
de 0,70m de comprimento.

1700 AC - Creta: instalada a primeira banheira no palácio de Knossos, por Dédalus.

514 AC - Roma: construção de uma galeria com 740m de extensão e diâmetro equivalente de até 4,30m, de
pedras arrumadas, denominada de cloaca máxima, por Tarquínio Prisco, o Velho (c. 580-514 AC).

500 AC - Roma: construção de galerias auxiliares a principal, em condutos de barro, por Tarquínio, o soberbo
(540-509).

260 AC - Atenas: criação da bomba parafuso, por Arquimedes (287- 212 AC).

200 AC - Atenas: criação da bomba de pistão, por Ctesibius (20).

32 AC - Roma: Agripa (63-12 AC) ordenou a limpeza das galerias existentes e criou novas de até 3m de largura

por 4km de extensão.

1237 DC - Londres: surgimento da água encanada com o emprego de canos de chumbo.


1370 DC - Paris: construída a primeira galeria com cobertura abobadada.

1500 DC - Alemanha: uso obrigatório de fossas nas residências.

1650 DC - Gloucester: instalação de latrinas municipais.

1680 DC - Londres: início do emprego de água para limpeza de privadas.

1689 DC - Paris: Denis Papin (1647-1712) inventa a bomba centrífuga.

1778 DC - Londres: Joseph Bramah (12) inventa a bacia sanitária com descarga hídrica.

1785 DC - Londres: James Simpson introduz no mercado os tubos de ponta e bolsa.

1804 DC - Inglaterra: emprego de tubos de ferro fundido.

1805 DC - Lichfield: substituição de canos de chumbo por de ferro fundido.

1808 DC - Londres: substituição de estruturas de madeira por canos de ferro fundido. Idem Dublin (1809),
Filadélfia (1817), Gloucester (1826), etc.

1815 DC - Inglaterra: autorizado o lançamento de efluentes domésticos nas galerias pluviais.

1827 DC - Londres: uso compulsório de tubos de ferro fundido.

1830 DC - Londres: permissão para lançamento de esgotos domésticos no rio Tâmisa (o que seria proibido em
1876).

1842 DC - Hamburgo, Alemanha: iniciada a implantação de um sistema projetado de esgotos de acordo com as
teorias modernas.

1847 DC - Londres: lançamento compulsório das águas domésticas nas galerias pluviais.

1848 DC - Londres: promulgação na Inglaterra de leis de saneamento e saúde pública.

1855 DC - Rio de Janeiro: contratação dos ingleses para criar sistemas de esgotamento para as cidades do Rio e
São Paulo.

1857 DC - Rio de Janeiro: inauguração do sistema de esgotos (separador parcial) da cidade, tornando-se uma das
primeiras cidades do mundo dotada de rede coletora de esgotos.

1857 DC - Nova Iorque: inauguração do sistema de esgotos da cidade.

1873 DC - Recife: iniciada a construção da primeira rede coletora de esgotos sanitários desta capital.

1876 DC - São Paulo: inaugurado o primeiro sistema coletor de esgotos (separador parcial) da cidade.

1879 DC - Memphis, EUA: criação do Sistema Separador Absoluto por George Waring ( ? -1898).

1889 DC - Irlanda: apresentada pelo autor a expressão de Manning.

1892 DC - Campinas: execução da rede coletora desta cidade.

1897 DC - B. Horizonte: inauguração da cidade com água e esgotos projetados por Saturnino de Brito.
1900 DC - Áustria: início da produção de tubos de cimento-amianto por Ludwing Hastscher.

1900 DC - São Paulo: Saturnino de Brito inventou o tanque fluxível.

1907 DC - São Paulo: Saturnino de Brito iniciou as obras de esgotos e drenagem da cidade de Santos.

1912 DC - Brasil: adoção do sistema separador absoluto.

1920 DC - São Paulo: invenção do tubo de ferro fundido centrifugado por De Lavaud.

1928 DC - São Paulo: construção da estação de tratamento de esgotos de Santo Ângelo

1953 DC - Inglaterra: iniciada a fabricação de tubos de PVC.

1962 DC - Campina Grande: fundação da primeira empresa pública nacional de saneamento (SANE-SA).

1968 DC - Brasília: criação do PLANASA - Plano Nacional de Saneamento (2).

1968 DC - São Paulo: criação da CETESB - Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (3).

Observando esta série de acontecimentos conclui-se que na Antigüidade a preocupação voltava-se para obras de
esgotamento pluvial. Isto justificado pela inexistência de peças sanitárias com descarga hídrica e pela ignorância
dos povos sobre a periculosidade dos resíduos domésticos.

Verifica-se também que durante a Idade Média não há registros da evolução na área de saneamento, sendo esta
situação decorrente dos acontecimentos que caracterizam este período da História.

O surgimento da água encanada e a disseminação do uso de peças sanitárias com descarga hídrica, aliados ao
desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade após o Renascimento, fizeram com que o homem
tomasse consciência da necessidade de criar sistemas eficazes de saneamento onde se garantisse o abastecimento
da água potável e recolhimento das águas residuárias e dá-lhe condições favoráveis de reciclagem na natureza.

1.3.4. Comparação entre os Sistemas

A evolução dos sistemas de esgotamento deu origem a dois tipos com características bem distintas,
principalmente do ponto de vista da quantidade e qualidade das vazões transportadas, o Sistema Unitário e o
Separador Absoluto, sendo este último o mais empregado nos tempos contemporâneos. Para melhor entender
esta preferência pode-se elaborar uma série de comparações como as relacionadas a seguir:

a) Desvantagens do Sistema Unitário

• 1. dificulta o controle da poluição a jusante onerando o tratamento, em virtude dos grandes volumes de
esgotos coletados e transportados em épocas de cheias e, conseqüentemente, o alto grau de diluição em
contraste com as pequenas vazões escoadas nos períodos de estiagem, acarretando problemas
hidráulicos nos condutos e encarecem do a manutenção do sistema;
• exige altos investimentos iniciais na construção de grandes galerias necessárias ao transporte das vazões
máximas do projeto;
• tem funcionamento precário em ruas sem pavimentação, principalmente de pequenas declividades
longitudinais, em função da sedimentação interna de material oriundos dos leitos das vias públicas;
• implicam em construções mais difíceis e demoradas em conseqüência das suas dimensões, criando
maiores dificuldades físicas e no cotidiano da população da área atingida.

b) Vantagens do Sistema Separador Absoluto


• permite a implantação independente dos sistemas (pluvial e sanitário) possibilitando a construção por
etapas e em separado de ambos, inclusive desobrigando a construção de galerias pluviais em maior
número de ruas;
• permite a instalação de coletores de esgotos sanitários em vias sem pavimentação, pois esta situação
não interfere na qualidade dos esgotos sanitários coletados;
• permite a utilização de peças pré-moldadas denominadas de tubos, na execução das canalizações devida
a redução nas dimensões necessárias ao escoamento das vazões, reduzindo custos e prazos na
implantação dos sistemas;
• acarreta maior flexibilidade para a disposição final das águas de origem pluvial, pois estes efluentes
poderão ser lançados nos corpos receptores naturais da área (córrego, rios, lagos, etc.) sem necessidade
prévia de tratamento o que acarreta redução das seções e da extensão das galerias pluviais;
• reduz as dimensões das estações de tratamento facilitando, conseqüentemente, a operação e manutenção
destas em função da constância na qualidade e na quantidade das vazões a serem tratadas.

Diante destas circunstâncias é quase inconcebível nos dias de hoje, serem projetados sistemas unitários de
esgotamento. Em vários países (entre estes o Brasil) é obrigatório o emprego do sistema separador absoluto. Um
exemplo de sistema unitário moderno é o da Cidade do México, onde praticamente toda a água residuárias
gerada na área urbana é canalizada para utilização em áreas agrícolas irrrigáveis.
1.4. Sistemas de Esgotos Sanitários

1.4.1. Definição

Diante das diversas comparações não há como resistir a afirmação de que a implantação de sistemas separados
para águas residuárias e para vazões pluviais seja mais vantajosa, tanto para pequenas comunidades como em
grandes centros urbanos.

Desse modo torna-se imperativo que o estudo de projetos de esgotamento sanitário levem a concepções distintas
das do esgotamento pluvial e, conseqüentemente, ao desenvolvimento de teorias em separado, dentro de um
macro-estudo que envolva todas as propostas de saneamento básico de uma comunidade.

Identificada a separação técnica pode-se afirmar que o conjunto de condutos e obras destinadas a coletar,
transportar e dar destino final adequado as vazões de esgoto sanitário denomina-se de Sistema de Esgotos
Sanitários. Isto é o que será exposto ao longo desta publicação, a partir deste ponto, com ênfase para o
dimensionamento dos componentes das redes coletoras convencionais.

1.4.2. Objetivos

A implantação dos serviços de Saneamento Básico, em função da sua importância, tem de ser tratada como
prioridade sob quaisquer aspectos na infra-estrutura pública das comunidades, considerando-se que o bom
funcionamento desses serviços implica em uma existência com mais dignidade para a população usuária, pois
melhora as condições de higiene, segurança e conforto dos usuários, acarretando assim maior força produtiva em
todos os níveis da mesma. Neste contexto, pode-se assegurar que a implantação de um sistema de esgotos
sanitários, bem como sua correta operação, permite atingir os seguintes objetivos:

a) Objetivos Sanitários

• coleta e remoção rápida e segura das águas residuárias;


• eliminação da poluição e contaminação de áreas a jusante do lançamento final;
• disposição sanitária dos efluentes, devolvendo-os ao ambiente em condições de reuso;
• redução ou eliminação de doenças de transmissão através da água, aumentando a vida média dos
habitantes.

b) Objetivos Sociais
• controle da estética do ambiente, evitando lamaçais e surgimento de odores desagradáveis;
• melhoria das condições de conforto e bem estar da população;
• utilização das áreas de lazer tais como parques, rios, lagos, etc., facilitando, por exemplo, as práticas
esportivas.

c) Objetivos Econômicos

• melhoria da produtividade tendo em vista uma vida mais saudável para os cidadãos e menor número de
horas perdidas com recuperação de enfermidades;
• preservação dos recursos naturais, valorizando as propriedades e promovendo o desenvolvimento
industrial e comercial;
• redução de gastos públicos com campanhas de imunização e/ou erradicação de moléstias endêmicas ou
epidêmicas.

1.4.3. Situação no Brasil

1.4.3.1. Gerenciamento

Nos anos setenta, no Brasil, como no resto na América Latina em geral, o estado seguiu sendo praticamente a
única instância de liberação de recursos e financiamento de programas de saúde e saneamento, embora não
alcançasse a meta de 1% do PNB previsto para o final da década, como previsto no PLANASA. A despeito da
aparente evolução da qualidade de vida dos brasileiros na época, não havia uma política de promoção de espaços
onde se expressassem as variedades de interesses e perspectivas dos diversos fatores sociais e a definição dos
rumos a seguir, ficando na dependência de ações de políticos nem sempre com conhecimentos adequados no
assunto, a realização dos projetos elaborados.

A partir dos anos oitenta, com a internacionalização do capital, do trabalho e do mercado, somadas as mudanças
no eixo político com a passagem de regimes de natureza autoritária para governos eleitos pelo voto direto,
acelerou-se a deterioração dos modelos de desenvolvimento em voga na região e, a partir do Governo
Figueiredo, os governantes passaram a se limitar a administração da crise continuamente, desaparecendo o
estado como orientador das políticas sociais, sem uma preocupação clara com as conseqüências sociais desta
mudança, resultando numa conta social muito pesada e de tristes conseqüências .

Apesar da ausência de dados mais precisos é possível comprovar as diferentes expectativas de vida entre as
diversas classes sociais no Brasil. O aumento de enfermidades anteriormente em declínio, tais como malária e
tuberculose e o ressurgimento de outras consideradas extintas como, por exemplo a cólera e a dengue, tem
causado uma superposição de efeitos negativos que resultam em uma evidente deterioração social.

Urge pois, que o estado, ante o compromisso de igualdade entre cidadãos, possa promover ações que gerem
respostas sociais adequadas às necessidades diversas, superando distorções provocadas pela atual realidade
mundial.

1.4.3.2. Situação Atual

Segundo a Organização Pan-americana de Saúde - OPS, a América Latina (aproximadamente 450 milhões de
habitantes) necessita investir cerca de US$ 216 bilhões para resolver seus problemas de saneamento básico.
Somente para disposição dos resíduos domésticos serão necessários recursos da ordem de US$ 8 bilhões
(produção diária de 250 mil toneladas de lixo doméstico sendo que atualmente, apenas 30% destas são dispostas
adequadamente).

A difícil situação econômica que o país vem suportando nos últimos anos, aliada a uma política governamental
de descompromisso pela organização de programas para o setor de saneamento, fizeram com que os recursos
para investimento em sistemas de esgotamento sanitário fossem insuficientes para acompanhar o crescimento da
população.
Enquanto a população crescia o atendimento com os serviços de esgotamento nunca chegou a crescer o
suficiente para diminuir o número de brasileiros sem este benefício no mesmo período, fazendo com que o
déficit aumentasse a cada ano. Hoje se tem menos de um terço da população brasileira atendida com sistemas de
esgotos sanitários e, como complicador, vários destes sistemas sendo operados inadequadamente.

Outra observação que pode ser feita é o desequilíbrio regional entre os beneficiados com sistemas de esgotos
sanitários. Por exemplo, enquanto no sudeste tem-se 58% da população beneficiada na Região Norte este índice
cai para menos de 2,5% com ligações de esgotos sanitários.

1.5. Exercícios

• Definir

- Saneamento Básico;
- Sistema Unitário de Esgotamento;
- Sistema Separador Absoluto.
- Sistema de Esgotos Sanitários;
- Objetivos Sanitários, Econômicos e Sociais.

• Classificar os tipos de águas esgotáveis de acordo com a origem.


• Descrever as conseqüências sanitárias do aparecimento da água encanada e dos aparelhos com descarga
hídrica.
• Quais as principais dificuldades para implantação de sistemas unitários de esgotamento?
• Que razões levaram D.Pedro II a contratar os ingleses para projetarem e construírem sistemas de
esgotamento em cidades brasileiras ?
• Que razões incentivaram George Waring a criar o Sistema Separador Absoluto?
• Em que situações poder-se-iam projetar sistemas unitários em detrimento do separador absoluto?
• É possível que efluentes pluviais necessitem de tratamento? Justificar.
• Fazer um "comentário histórico" justificando a lacuna de 1200 anos sem datas notáveis em Saneamento
na "era cristã".
• Pesquisar o significado de:

- conduto, canal e canalização;


- tubo e tubulação;
- cano e manilha.
- moléstias endêmicas e epidêmicas;
- poluição e contaminação;
- águas residuárias;
- recursos naturais;
- ligação de esgotos e economia (em saneamento).

NOTAS:

1. Ares, Águas e Lugares (em grego Aeron Hidron Topon) foi o priimeiro esforço sistemático para apresentar as relações casuais entre fatores do meio
físico e doença. Esse livro tornou-se um clássico da medicina por mais de dois mil anos, até o surgimento da Bacteriologia e da Imunologia. Nele pela
primeira vez foram feitas as definições de endemia e epidemia.

2. Plano Nacional de Saneamento - PLANASA - programa que visava viabilizar soluções adequadas com o objetivo específico de reduzir o déficit
histórico do saneamento básico no país, com recursos financeiros oriundos do BNH e FAE, a juros de até 8% ao ano.

3. Centro Tecnológico de Saneamento Básico - CETESB, criado pelo Decreto 50.079, de 24 de julho de 1968, integrado ao FESB (Fundo Estadual de
Saneamento Básico), com o objetivo de realizar exames de laboratórios, estudos, pesquisas, ensaios e treinamento de pessoal no campo da engenharia
sanitária. Resolução da Assembléia Geral Extraordinária dos acionistas da CETESB, de 17 de dezembro de 1976, com alteração da denominação da já
então denominada Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Básico e de Defesa do Meio Ambiente, passando a se denominar Companhia de
Tecnologia e Saneamento Ambiental, mantendo a sigla CETESB, com objetivos e atividades bem mais abrangentes na área de saneamento.
CAPÍTULO II
CARACTERIZAÇÃO DE ESGOTOS SANITÁRIOS

2.1. Tipos de Despejos

O uso da água nas suas mais diversas formas, independente do modo como a mesma tenha sido adquirida,
provoca, na maioria das vezes, a origem de despejos líquidos os quais, pelas mais diversas razões, tais como
higiênicas, estéticas, etc., devem ser retirados do ambiente de consumo de água, a partir do momento em que os
mesmos não possuam mais condições de reutilização. De um modo geral, esses despejos são originados de
atividades domésticas, comerciais ou industriais.

Os despejos procedentes de áreas comerciais e residenciais apresenta-se com características semelhantes se


analisados isoladamente, tendo em vista que, em ambos os setores, o volume de água consumida deve-se a
efetivação de atos de higienização e acondicionamento de alimentos, resultando em um líquido com resíduos
essencialmente orgânicos. Tecnicamente esses despejos são denominados de águas residuárias domésticas,
esgotos domésticos ou esgotos sanitários.

As águas residuárias geradas em atividades industriais têm características próprias em função da matéria-prima,
do processo de industrialização utilizado e do produto industrializado. Espera-se, por exemplo, que os esgotos de
uma indústria de lacticínios tenham predominância acentuada de matéria orgânica em seu meio, enquanto que os
de uma metalúrgica caracterizar-se-ão pela presença de óleos minerais, cianetos, compostos de cromo e outros
metais pesados em sua composição.

Desta forma, estabelecimentos industriais isolados, em geral, têm seus esgotos reunidos aos de origem doméstica
após serem acondicionados tanto biológica como química e fisicamente para que não sejam afetadas as
características básicas das vazões receptoras, e para que não traga problemas de escoamento a jusante da rede
coletora. Por essas razões os distritos industriais ou grandes complexos fabris normalmente são dotados de
sistemas de esgotamento próprios adequados a realidade individual ou coletiva dessas unidades de
transformação.

Sem a presença de oxigênio livre o esgoto entra em condições anaeróbias de decomposição, ou seja, a vida
microscópica passa a ser desenvolvida consumindo oxigênio procedente da decomposição de compostos
oxigenados presentes na mistura, prevalecendo a presença de hidrocarbonetos simples, aldeídos parafínicos,
ácidos carboxílicos, ésteres, etc. A partir desse ponto o esgoto adquire uma aparência escura e libera
continuamente gases de odor desagradável e ofensivos a saúde humana, passando a ser denominado de esgoto
séptico. É importante mencionar que gases inodoros também podem ser tóxicos.

2.2. Composição e Classificação dos Esgotos Sanitários

Os esgotos sanitários têm em sua composição cerca de 0,1% de material sólido, compondo-se o esta
essencialmente de água. Essa parcela, numericamente tão pequena, é, no entanto, causadora dos mais
desagradáveis transtornos, pois a mesma possui em seu meio microrganismos, na maioria unicelulares,
consumidores de matéria orgânica e de oxigênio e, muito provavelmente, a ocorrência de patogênicos à vida
animal em geral.

O esgoto doméstico chega à rede coletora com oxigênio dissolvido, resultante parte da água que lhe deu origem e
parte inserido através de turbulência normalmente ocorrida na sua formação, sólidos em suspensão bem
caracterizados e apresentando odores próprios do material que foi misturado a água na origem. Com a
movimentação turbulenta através dos condutos de transporte a parte sólida sofre desintegração formando uma
“vazão líquida” de coloração cinza-escura, com liberação de pequenas quantidades de gases mal cheirosos,
oriundos da atividade metabólica dos microrganismos presentes em seu meio. Nestas condições o esgoto passa a
ser denominado de esgoto velho.
O aumento da lâmina líquida nos condutos originado do acréscimo das vazões para jusante e da redução das
declividades, dificulta a entrada do oxigênio atmosférico, enquanto que o oxigênio livre no meio aquoso é
consumido pelos microrganismos aeróbios. Se a capacidade de reaeração da massa líquida não for suficiente
para abastecimento das necessidades das bactérias, a quantidade de oxigênio livre tende a zero, provocando o
desaparecimento de toda a vida aquática aeróbia.

2.3. Presença Bacteriológica

2.3.1. Origem

A parcela da matéria orgânica presente nos esgotos sanitários é composta por um número muito grande de
microrganismos vivos oriundos, principalmente, do intestino dos indivíduos que contribuíram para a formação
das vazões esgotáveis. A quase totalidade desses microrganismos são essenciais ao metabolismo in-terno dos
alimentos que são ingeridos e são eliminados do interior do organismo quando se faz uso de bacias sanitárias ou
mictórios, por exemplo. A massa líquida resultante da mistura das excretas humanas com águas de descargas é
denominada de águas negras ou águas imundas. Essas águas misturadas às que procedem das atividades de
asseio, chamadas de águas servidas, formam o esgoto doméstico.

De um modo geral quando outras vazões que não de origem estritamente doméstica são reunidas
propositadamente a estas, são porque se apresentam com composição orgânica de natureza qualitativa similar, de
modo que não alteram prejudicialmente o funcionamento do sistema de esgotamento para jusante.

2.3.2. Patogênicos

Tem-se uma idéia quantitativa do número de bactérias presentes nos esgotos domésticos observando-se a
concentração de coliformes fecais, (êntero-bactérias comuns aos animais de sangue quente) que é da ordem de
106 a 107 por cem mililitros (medida aproximada de um copo d'água). Essas bactérias não são perigosas, mas sua
presença em mananciais de água aventa a possibilidade da presença de microrganismos prejudiciais a saúde do
homem, chamados de agentes patogênicos, provenientes das fezes ou urina de portadores destes sem, no entanto,
implicar em alguma proporcionalidade numérica entre si. A eliminação de coliformes pelos indivíduos é
constante, enquanto que a de patogênicos é função de que os mesmos estejam doentes ou simplesmente sejam
portadoras do agente infeccioso.

No estudo da composição dos esgotos sanitários podem ser encontrados agentes provocadores de doenças
transmissíveis tipo cólera, febres tifóides, disenterias, leptospirose, amebíase, ancilostomose, xistosomose, etc.,
que dependendo do padrão de saúde da região, podem ser configuradas como doenças endêmicas, que são
enfermidades comuns aos habitantes de um lugar ou de certos climas, e/ou epidêmicas, que são males que
atacam uma coletividade em uma determinada época, podendo repetir-se posteriormente ou não, dependendo das
providências sanitárias adotadas durante e após cessada a epidemia.

Na busca de possíveis contaminações os principais indicadores de contaminação fecal comumente pesquisados é


a quantificação dos coliformes totais (CT) e os fecais (CF) e os estreptococos fecais (EF), sendo que os CT, que
são coliformes encontrados normalmente em águas poluídas, em fezes de seres humanos e de animais de sangue
quente. Naturalmente estas bactérias também são encontradas no solo e já foram mais utilizados como
indicadores de contaminação no passado, embora hoje ainda sejam trabalhadas.

Os CF são um grupo de êntero-bactérias originários do homem de outros animais de sangue quente e são mais
úteis em análises, pois sobrevivem a temperaturas mais altas (44 oC) que os totais (37oC). A conhecida
Escherichia coli é uma componente dos CF. Os EF são variedades êntero-intestinais do homem (espécie
predominante: Streptococus faecalis) e de outros animais. Historicamente a relação CF/EF, quando menor que a
unidade indica que a possível contaminação é devida a outros animais de sangue quente e quando maior que "4"
torna-se um indicador de que a contaminação foi provocada por despejos de origem doméstica, porém estas
relações atualmente estão em desuso.
Uma série de microrganismos patogênicos para o homem normalmente o atingem através dos despejos fecais
oriundos de pessoas infectadas. Esses microrganismos na sua maioria bactérias, vírus, protozoários e vermes,
provocam doenças entéricas infecciosas que podem ser fatais.

Quanto aos esgotos industriais, salvo aqueles originados no beneficiamento de produtos de origem animal, tais
como de indústrias de laticínios, por exemplo, não contém em seu meio número significati-vo de
microrganismos vivos.

Em casos especiais pode haver necessidade de se corrigir a concentração de outros constituintes como, por
exemplo, a concentração de compostos inorgânicos e/ou a cor antes da reutilização como água para abaste-
cimento. Esgotos com grandes frações de águas residuárias industriais podem requerer tratamento especial para
remover constituintes particulares, como pesticidas, compostos de enxofre, metais pesados, etc.

2.3.3. Processos de Decomposição da Matéria Orgânica

Embora uma parte dos microrganismos vivos presentes nos esgotos sejam de natureza virótica, de larvas,
protozoários ou vermes, a grande maioria dessa população é de bactérias. E todas elas, patogênicas ou não,
necessitam para sobrevivência da espécie, de matéria orgânica como alimento e oxigênio para respiração. A
forma como esse oxigênio é adquirido pelas bactérias é o que as diferenciam entre si do ponto de vista sanitário.

Denominam-se de bactérias aeróbias aquelas que consomem em sua atividade vital o oxigênio livre presente no
interior da massa líquida, originando o processo de decomposição biológica aeróbia do esgoto também chamado
de oxidação. Na ausência do oxigênio livre ou presença em quantidade insuficiente para a realização do processo
citado, desenvolve-se o processo de decomposição anaeróbia ou putrefação que é realizado pelas bactérias
anaeróbias as quais consomem o oxigênio dos compostos orgânicos e inorgânicos em sua atividade metabólica
como, por exemplo, dos sulfatos (SO4=). Outras bactérias têm a faculdade, dependendo da presença ou não do
oxigênio livre, de comportarem-se como aeróbias ou anaeróbias. São as bactérias facultativas. Essas bactérias
têm o poder de manutenção da atividade biológica mesmo que o esgoto passe de condições aeróbias para
sépticas.

No tratamento dos esgotos, microrganismos aeróbios são encontrados nos processos de lodos ativados e filtros
biológicos e os anaeróbios predominam em digestão anaeróbia de esgotos (reatores UASB, por exemplo) e
digestores de lodo. As facultativas são ativas nas unidades aeróbias e nas anaeróbias.

O mecanismo biológico de remoção da matéria orgânica nos esgotos chama-se de metabolismo bacteriano.
Quando o material orgânico é consumido para obtenção de energia este processo é denominado de catabolismo e
quando a matéria é usada para transformação em massa molecular, ou seja, geração de novas bactérias, tem-se o
anabolismo. Estes processos são interdependentes e ocorrem simultaneamente, com relação variável em função
do tipo de digestão: aeróbia ou anaeróbia

2.3.4. Comparação entre os Processos

De uma maneira ou de outra a matéria orgânica biodegradável presente no esgoto é decomposta pela ação das
bactérias nele presentes transformando-a em matéria estável, ou seja, as substâncias orgânicas insolúveis dão
origem a solúveis mineralizadas. Para efeito de comparação pode-se afirmar que o processo aeróbio desenvolve-
se com maior rapidez e seus produtos, gás carbônico, nitratos, sulfatos e água, são mais facilmente assimilados
pelos organismos superiores, principalmente os vegetais, enquanto que do anaeróbio resultam metano, amoníaco
e gás sulfídrico entre outros, que são gases nocivos à saúde humana e de odor bastante desagradável, porém a
produção de lodo que vai requerer um tratamento posterior, é muito maior no aeróbio (vinte vezes), além da
bactéria aeróbia ser menos resistente à situações adversas. Muito frequentemente uma estação de tratamento
envolve processos anaeróbios combinados com aeróbios.

Nas cidades maiores, em função das grandes distâncias a serem percorridas pelas vazões de esgota-mento, é
possível a ocorrência de septicidade dos esgotos no interior dos condutos, visto que nestas condições é provável
que todo o oxigênio livre presente inicialmente, seja consumido ao cabo de quatro a seis horas de escoamento.
Portanto, sempre que possível, é vantajoso o fornecimento de oxigênio livre à massa de esgotos, pois este
procedimento acarreta aceleração na mineralização da carga orgânica, além de evitar os transtornos ambientais
provocados pelas substâncias geradas com o processo anaeróbio.

2.3.5. Corrosão Bacteriana

É importante também mencionar que não só o aspecto sanitário da ação bacteriana é motivo de estudo. A
estabilidade das unidades de um sistema de esgotos sanitários, bem como dos condutos e equipamentos, pode ser
significativamente afetada pela atividade de bactérias. Um exemplo bastante citado na literatura de saneamento a
descrição de um fenômeno comum nas regiões de climas quentes e tropicais (temperaturas acima de 25 oC) nos
esgotos em condições sépticas, com elevado teor de sulfatos e projetados com pequenas declividades (<
0,008m/m). Na decomposição anaeróbia, principalmente de albuminas, o consumo do oxigênio dos sulfatos
(SO4=) provoca o aparecimento do gás sulfídrico (H2S), quimicamente um gás fraco e mal cheiroso, podendo ser
mortal para o homem em concentrações superiores a 300mg/L, que se desprende da massa líquida para o espaço
aéreo interno do conduto. O contato com o oxigênio (O 2) presente no ar circulante no espaço livre do conduto e
com as bactérias, favorece a condensação desses gases, originando ácido sulfúrico, um ácido forte, após a
utilização do enxofre por bactérias sulfurosas em seus processos respiratórios e liberando energia. O ácido
formado pela ação bacteriana tem alto poder de reação sobre materiais ligantes como o cimento, originando
sulfatos de cálcio, como esquematizado na equação simplificada do fenômeno (Eq.2.1) e na Fig. 2.1.

bac. Aeróbias
H2S + 2O2 ----------------------------> H2SO4 + CaCO3 ---------> H2CO3 + CaSO4 Eq.2.1
Thiobacillus

Esses sulfatos são compostos moles e quebradiços, sem condições de resistir às cargas externas, tendendo, pois,
ao desmoronamento das canalizações. A corrosão dos materiais metálicos pelo ácido sulfúrico pode ser descrita
de modo similar aos materiais ligados com cimento, inclusive com os mesmos processos de aparecimento do
ácido sulfúrico.

FIG. 2. 1 - Corrosão bacteriana do concreto nas canalizações de esgotos sanitários

Para evitar danos às canalizações em conseqüência do aparecimento de ácido sulfúrico devem ser tomadas
providências para sua eliminação ou a limitação de sua produção. Esse procedimento deve ser efetuado através
do controle do pH de descargas que contenham enxofre (mantê-lo entre 5,5 e 9,0), adição de produtos químicos
oxidantes (cloro, por exemplo, reage não apenas com o gás sulfídrico como também com as mercaptanas,
reduzindo o mau cheiro característico nas condições anaeróbias), evitar altas concentrações de DBO, aeração das
vazões (oxigênio dissolvido mínimo da ordem de 1mg/L), ventilação (com ventiladores primários conectados
aos poços de visita) e limpeza periódica dos condutos, tanto mecânica como quimicamente e, antes de tudo, um
projeto bem elaborado e implantado, principalmente no que disser respeito a declividades mínimas de projeto.

Além das providências citadas, nas canalizações construídas com materiais cimentados ou metálicos, deverão ser
empregados revestimentos internos a base de materiais vinílicos, resinas epoxi ou ceras especiais capazes de
resistir ao ataque químico dos ácidos fortes. É importante lembrar que em qualquer sistema o problema será
sazonal e que em cada situação as soluções serão peculiares às circunstâncias de operação do sistema projetado.
2.4. Características Físicas

2.4.1. Aspectos Físicos

Na formação dos esgotos sanitários o adicionamento de impurezas a água de origem dão-lhe características bem
definidas as quais sofrem variações ao longo do tempo em virtude das transformações internas decorrentes da
desintegração e decomposição contínua da matéria orgânica. Dentre estas características são de fácil percepção
cor, turbidez, odor, presença de sólidos em suspensão e temperatura.

Também se observa que a diminuição gradativa da quantidade de oxigênio dissolvido intensifica o


escurecimento da mistura esgotável e exalação de odores desagradáveis e ofensivos a saúde humana. A
temperatura é também uma importante determinação física e é função do clima da região geográfica. O teor de
sólidos é bastante variável (300 a 1200 mg/L) com aproximadamente 70% de matéria orgânica.

2.4.2. Tipos de Sólidos

São caracterizados como sólidos dos esgotos todas as partículas nele presentes em suspensão ou em solução,
sedimentáveis ou não, orgânicas ou minerais. A determinação da quantidade total de sólidos presentes em uma
amostra de esgotos sanitários é chamada de sólidos totais.

A separação dos tipos de sólidos presentes na mistura é feita em laboratório e classificada da seguinte maneira :

• a) Sólidos Totais - massa sólida obtida com a evaporação da parte líquida da amostra a 100 o a 105o C,
em mg/L;
• Sólidos Minerais ou Fixos - resíduos sólidos retidos após calcinação dos sólidos totais a 500 o C, em
mg/L;
• Sólidos Orgânicos ou Voláteis - parcela dos sólidos totais volatilizada no processo de calcinação, em
mg/L;
• Sólidos em Suspensão - quantidade de sólidos determinada com a secagem do material retirado por
filtração da amostra, através de micromalha, de 0,45 mícron, em mg/L;
• Sólidos Dissolvidos - fração dos sólidos medida após evaporação da parte líquida da amostra filtrada,
em mg/L;
• Sólidos Sedimentáveis - porção das partículas em suspensão sedimentadas por ação da gravidade
quando a amostra é submetida a um período de repouso de uma hora em um cone padronizado
denominado cone de Imhoff, medida em ml/L (K. Imhoff, 1876-1965).

De um modo geral pode-se comentar que dos sólidos totais, 700mg/L em média, parte é de sólidos suspensos
(200mg/L) e o restante sólidos dissolvidos (500mg/L). Nos sólidos suspensos encontram-se, em proporções mais
ou menos iguais, sólidos sedimentáveis e não sedimentáveis, dos quais 75% são voláteis e 25% fixos. Entretanto
quanto aos sólidos dissolvidos tem-se 30% de voláteis contra 70% de fixos.
2.5. Características Químicas
2.5.1. Matéria Orgânica

Nas águas residuárias de origem doméstica, por exemplo, encontram-se presentes uma grande variedade de
compostos orgânicos inanimados e de microrganismos vivos (estes ou alguns destes já podem estar presentes
também no corpo receptor). O material orgânico pode estar na forma molecular ou em aglomerados ditos
particulado, enquanto que os microrganismos em geral são micros seres unicelulares. Estes micros seres
transformam o material orgânico usando-o como fonte de energia e para a formação de novas células.

As principais categorias de matéria orgânica encontradas nos esgotos sanitários são proteínas, carboidratos e
lipídios. Proteínas são grandes complexos moleculares compostos de aminoácidos. Carboidratos são compostos
polihidroxilados tais como açúcares, celulose e amidos. Os lipídios são substâncias orgânicas a base de óleos,
graxas e gorduras. O volume de matéria orgânica biodegradável presente em uma amostra de esgoto doméstico
típico deverá apresentar 40% a 60% de proteínas, 25% a 50% de carboidratos e cerca de 10% de lipídios.

A utilização do material orgânico pelos microrganismos chama-se metabolismo. No metabolismo o consumo do


material orgânico para obtenção de energia é denominado de catabolismo, enquanto que a síntese de material
celular a partir do material orgânico é denominada de anabolismo. Portanto, da energia liberada nas reações
parcela é consumida na respiração e mobilidade das bactérias, enquanto que outra parcela é usada no
crescimento de novas células (processo de cissiparidade). O restante é perdido na forma de calor. A
transformação da matéria orgânica no interior dos esgotos pode ser descrita como mostrado no esquema da
Figura 2.2.

FIG. 2. 2 - Esquema da Depuração Biológica

2.5.2. Quantificação da matéria orgânica

Sabe-se que devido a vasta variedade de compostos orgânicos em esgotos sanitários, é impraticável (se não
impossível!) uma identificação individual de todos eles, ou seja, a determinação quantitativa dos diversos
componentes da matéria orgânica nas águas residuárias seria extremamente difícil ou mesmo impossível.

Por outro lado, para que se descrevam os processos metabólicos faz-se necessário que se caracterize
quantitativamente a concentração do material orgânico. Portanto é necessário que se utilize de um parâmetro que
use uma propriedade que todos têm em comum para avaliar a concentração de compostos orgânicos, isto é, a
necessidade desta quantificação faz com que se empregue métodos alternativos diretos ou indiretos para sua
determinação.

Normalmente se parte de uma das duas propriedades que são características das substâncias orgânicas: a) o
material orgânico pode ser oxidado e b) o material orgânico contem carbono orgânico.
Em laboratório um destes métodos indiretos rotineiramente empregado é a medição do consumo de oxigênio na
oxidação da matéria orgânica, ou seja, determinando-se o consumo de oxigênio na degradação da amostra,
calcula-se o conteúdo equivalente de matéria orgânica presente originalmente.

Em pesquisas relativas a engenharia sanitária, normalmente são empregados dois testes padronizados que se
baseiam na oxidação do material orgânico: os testes da Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) e o teste da
Demanda Química de Oxigênio (DQO). Em ambos os testes o material orgânico e a concentração deste é
determinada a partir da consumo de oxidante para a oxidação. As diferenças essenciais entre as testes estão no
oxidante utilizado e nas condições operacionais prevalecentes em cada teste.

É fundamental salientar que os compostos orgânicos presentes no esgoto são divididos em dois grupos: os
biodegradáveis que são os compostos que podem ser oxidados pelo oxigênio (restos de alimentos, por exemplo)
e os não biodegradáveis (determinados tipos de detergentes e de derivados de petróleo, por exemplo).

No teste da DBO prevalecem as condições de biodegradabilidade, portanto a matéria orgânica não biodegradável
não é afetada durante a realização do teste. Por outro lado os compostos orgânicos que não provocam demanda
de oxigênio durante o teste da DBO são quantificados no teste da Demanda Química de Oxigênio (DQO).
Assim na DBO determina-se o material orgânico biodegradável, enquanto que o teste da DQO contabiliza-se
todo o material orgânico inicialmente presente na amostra.

Considerando-se que rotineiramente nos laboratórios trabalha-se com DQO, em função da simplicidade do teste
e com DBO por melhor traduzir o que ocorre na natureza, estes dois testes serão estudados a seguir. Um terceiro
teste pode ser utilizado no caso da necessidade da quantificação de carbono orgânico como alternativa para
quantificar a concentração do material orgânico: o teste do Carbono Orgânico Total (COT).

2.5.3. Demanda Química de Oxigênio - teste da DQO

Um dos testes mais freqüentemente empregados para a determinação do consumo de oxigênio é o da DQO
(demanda química de oxigênio). Este parâmetro mede o oxigênio equivalente ao conteúdo de matéria orgânica
de uma amostra que pode ser oxidada por um forte oxidante químico. Este teste é baseado no princípio de que a
quase totalidade dos compostos orgânicos pode ser oxidada por um agente oxidante sob condições ácidas. E,
então, mede-se o esgoto em termos da quantidade total de oxigênio requerida na oxidação da matéria orgânica
para CO2 e H2O como mostrado na equação 2.2.

CxHyOz + ¼ (4x + y - 2z) O2 − x CO2 + (y/2)H2O Eq. 2.2

No teste da DQO, uma amostra de água residuária é adicionada a uma mistura de dicromato de potássio e ácido
sulfúrico, um forte oxidante. Considerando que alguns componentes do esgoto são de mais lenta oxidação
(gorduras, por exemplo) adiciona-se sulfato de prata como catalisador, isto é, para aceleração da oxidação. A
mistura esgoto-oxidante-ácido é aquecida até seu ponto de ebulição e, após um período de duas horas nesta
condição, a oxidação das substâncias orgânicas estará praticamente completa (mais de 95%). A verificação desta
oxidação é feita empregando-se uma solução de uma substância orgânica com concentração conhecida, em geral
fenolftaleína.

Segundo o professor Adrianus van Haandel em Tratamento Anaeróbio de Esgotos (1994), a DQO teórica da
solução é calculada a partir da estequiometria de sua oxidação. O valor teórico pode ser comparado com o valor
experimentalmente obtido. Formulando a matéria orgânica como C xHyOz , a reação de oxidação será expressa
como:

A partir dos pesos atômicos dos elementos químicos envolvidos na reação, H (1 g/mol), C (12 g/mol) e O (16
g/mol), conclui-se que, teoricamente, 1 mol de material orgânico, ou seja, uma massa de 12x + 1y + 16z gramas
de material orgânico consome ¼ de (4x + y - 2z) moles de oxigênio ou 8(4x + y - 2z)g de O2 (lembrar que O2 =
2 x 16 g/mol \ 32/4 = 8).

Diante deste raciocínio pode-se, então, calcular a DQO teórica de uma solução de CxHyOz como:

DQOtotal = 8(4x + y - 2z) / (12x + y + 16z) mg de DQO / mg de CxHyOz.


Exemplos:

1. Metano - CH4

DQOtotal = 8(4x1+ 1x4 - 2x0) / (12x1+ 1x4 + 16x0) = 4mg de DQO/mg de CxHyOz ,

ou seja, 1 grama de material orgânico (como DQO) equivale a ¼ = 0,25 g CH 4;

2. Ácido oxálico - (COOH)2

DQOtotal = 8(4x2+ 1x2 - 2x4) / (12x2+ 1x2 + 16x4) = 0,18mg de DQO/mg de CxHyOz ,

ou seja, 1 grama de material orgânico (como DQO) equivale a 1/0,18 = 5,6g (COOH) 2;

3. Dióxido de carbono - CO2

DQOtotal = 8(4x1+ 1x0 - 2x2) / (12x1+ 1x0 + 16x2) = 0mg de DQO/mg de CxHyOz ,

significando que o CO2 já é uma substância totalmente oxidada.

Como dito inicialmente, sendo este teste uma maneira indireta de determinação quantitativa da matéria orgânica
presente na mistura através do consumo de oxigênio, então o que realmente se está afirmando é que massa de
material orgânico significa massa de oxigênio necessária para oxidar o material orgânico.

Analisando-se os exemplos torna-se elementar entender as afirmações conclusivas em cada um deles, ou seja,
0,25 g CH4 ou 5,6g (COOH)2 requerem uma massa de 1g O2 para sua completa oxidação, no caso, 1 grama de
material orgânico como DQO. Convencionou-se, então, quando se usa oxigênio para oxidação de material
orgânico, que a massa de oxigênio consumido será, por definição, exatamente igual à massa de material orgânico
oxidada como DQO. Voltando aos exemplos pode-se afirmar: 0,25 g CH4 ou 5,6g (COOH) completamente
oxidados, equivalem a 1 grama de material orgânico como DQO. Logo a massa de material orgânico oxidado em
um sistema de tratamento de esgotos pode ser medida através da determinação da massa de oxidante consumida
para esta oxidação, determinada em laboratório.

2.5.4. Demanda Bioquímica de Oxigênio - teste da DBO

O consumo concomitante de oxigênio nos processos de estabilização biológica da matéria presente nos volumes
de esgotos sanitários, implica na necessidade de quantificar-se esse consumo de oxigênio tendo em vista que a
sua determinação é um indicador do teor da matéria orgânica biodegradável diluída. Dessa necessidade surgiu o
conceito de Demanda Bioquímica de Oxigênio (DBO) que literalmente pode ser definida como a quantidade de
oxigênio livre necessária para estabilizar bioquimicamente a matéria orgânica através da ação de bactérias
aeróbias. Esse parâmetro normalmente é expresso em miligrama de oxigênio por litro de esgoto (mgO 2/L). É
importante observar que o mesmo exclui degradação em condições sépticas.

No teste da DBO, embora a quantificação do material orgânico também seja feita a partir do consumo do
oxidante usado, neste o oxidante empregado é o oxigênio dissolvido que, através da ação de estritamente
biológica por bactérias, promove uma reação de redox com o material orgânico biodegradável. Quando não há
bactérias em concentração suficiente nas amostras, estas devem ser adicionadas em um processo chamado em
saneamento de semeadura, juntamente com nutrientes, para que se tenha a noção mais realista possível do teor
de material orgânico biodegradável presente.

Uma diferença significativa de ordem prática entre os testes é que no da DQO a oxidação do material orgânico
quimicamente oxidável é completada em cerca de duas horas, enquanto que a oxidação biológica de material
orgânico leva várias semanas para ser concluído, por ser um processo natural. Ainda segundo o professor van
Haandel, no livro já citado, vários são os motivos que provocam esta lentidão. No caso das águas residuárias
com grande variedade de compostos orgânicos, a taxa de oxidação do material orgânico depende da natureza e
do tamanho de suas moléculas.

Pequenas moléculas podem ser consumidas de imediato pelas bactérias, mas as macromoléculas do material
coloidal como as proteínas, os carboidratos e os lipídios, precisam ter suas moléculas quebradas em unidades
menores para que possam ser assimiladas. Da mesma maneira o material dito particulado somente poderá ser
metabolizado após ser "dissolvido" para compostos moleculares. No caso de esgotos sanitários este processo
demora cerca de quarenta dias ou mais.

Como em laboratório torna-se impraticável esperar tanto tempo pelo resultado do teste, por uma questão até de
espaço e de equipamentos e até por razões históricas, os ensaios para a determinação da DBO, são desenvolvidos
com uma incubação da amostra durante 5 dias. Como em condições normais de diluição toda a matéria orgânica
biodegradável deve estar estabilizada após cerca de 30 dias de atividade biológica aeróbia, restando praticamente
consumos residuais de oxigênio em processos de nitrificação, convencionou-se cinco dias para o
desenvolvimento do teste, período em que a reação é mais intensa.

Como a taxa de oxidação seria influenciada pela temperatura e pela atividade fotossintética, durante o teste as
amostras são mantidas a uma temperatura constante de 20 oC (um valor médio para as condições ambientais
normais de temperatura) e fora do alcance da luz. Isto significa que o parâmetro DBO de uma água residuária
representa o consumo biológico de oxigênio durante um período de incubação de 5 dias a uma temperatura de
20oC (DBO520).

Determinada a DBO520 pode-se empregar a relação empírica de Phelps (1944) , citado em Tratamento Anaeróbio
de Esgotos, para esgoto sanitário bruto, a DBO total pode ser estimada pela expressão:

DBOt = DBOúltima (1 - e- 0,23 t ) Eq. 3.3

onde t é o período de incubação.

2.5.5. Comparação entre os parâmetros

O valor da DBO última (DBOu) será sempre inferior ao da DQO total do material biodegradável (DQO b), visto
que na degradação biológica a oxidação não é completa. Esta diferença resulta de que ao consumir material
orgânico parte deste é convertido em novas bactérias e no final tem-se uma fração de material celular que não é
oxidada, mesmo após um longo período de incubação. Esta massa orgânica resultante é denominada de resíduo
endógeno. Segundo McCarthy e Brodersen (1962), esta parcela corresponde a cerca de 13% da carga orgânica
inicial de modo que a DBO infinita equivale a 87% da DQO biodegradável.
Sabe-se que na maioria das águas residuárias o material orgânico é uma mistura de material biodegradável e não
biodegradável e que existe uma proporcionalidade entre a DBO u e a DQOb de cerca de 87% da DQOb
(concentração de DQO biodegradável), então:

DBO520 = 0,68.DBOu = 0,68 x 0,87.DQOb = 0,59.DQOb Eq. 2.4

ou

DQOb /DBO520 = 1,70. Eq. 2.5

É lógico que a presença de material não biodegradável elevará a razão DQO/DBO 520 para um valor maior que
1,70 (no caso de esgoto doméstico, a razão geralmente se situa na faixa de 1,8 a 2,2)

2.5.6. Freqüência dos testes da DBO e da DQO

Em um estudo de caracterização da matéria orgânica presente em um determinado esgoto faz-se necessário que
se desenvolva testes consecutivos tanto de DQO como de DBO, ou seja, que se conheça o valor médio destes
dois parâmetros. Como o teste da DBO na prática é mais complicado pelos motivos já expostos, geral-mente
realiza-se a DQO com maior freqüência, porque esse teste leva a um resultado de mais abrangente em um menor
espaço de tempo.
O teste da DBO é realizado com menor freqüência, porém em um número razoável para os objetivos do estudo e
procurando-se estabelecer uma relação empírica entre as concentrações da DBO e da DQO. Definida esta relação
pode-se, então, estimar o valor da DBO a partir do da DQO. O teste da DQO tem outra vantagem muito
significativa que é a possibilidade de se fazer o balanço de massa. Pelo balanço de massa pode-se verificar se os
procedimentos experimentais usados nos testes foram adequados e se os testes foram realizados corretamente.

Uma das limitações do teste da DBO é que, como foi dito, a transformação do material orgânico ocorre em um
ambiente aeróbio e os resultados não podem ser tomados como indicativos confiáveis para o caso de uma
degradação anaeróbia. No caso de um sistema anaeróbio de tratamento torna-se necessário que se determine a
concentração do material orgânico no afluente que pode ser removido através da digestão anaeróbia e, depois, a
concentração do material orgânico biodegradável presente no efluente do sistema.

2.5.7. Nitrogênio

Nitrogênio merece especial atenção nas análises químicas das amostras dos esgotos porque sendo um nutriente
indispensável para o crescimento dos microrganismos responsáveis pela depuração biológica, seus compostos
favorecem o desenvolvimento de algas e plantas aquáticas que podem comprometer a qualidade dos efluentes,
caso sua presença seja excessiva, favorecendo o aparecimento da eutrofização nos corpos receptores. No meio
aquático o nitrogênio pode estar presente nas formas molecular (gasosa), orgânica (dissolvida ou em suspensão),
amoniacal como amônia livre (NH3) ou ionizada (NH4+), de nitritos (NO2- ) e de nitratos (NO3= ).

Sendo um constituinte natural de proteínas, clorofila e muitos outros compostos biológicos é, portanto, lógico
que sua presença seja comum nos esgotos sanitários e sua determinação seja um parâmetro fundamental para
caracterização de águas residuárias brutas e tratadas. Em esgotos domésticos brutos as formas predominantes são
o orgânico e o amoniacal (cerca de 99% do nitrogênio total). Quanto a esta última forma, de um modo geral, para
pH superiores a 11 praticamente só se encontra amônia na forma NH 3 e para pH inferiores a 8 a situação inverte-
se. Saliente-se que a presença de amônia livre, mesmo em pequenas concentrações, é prejudicial aos peixes.

O nitrogênio aparece nos esgotos na forma orgânica (5 a 40mg/L) ou de amônia (10 a 50mg/L), sendo que essa
amônia (NH3) pode ser oxidada pela ação de bactérias e o excesso oxidado para nitritos e, posteriormente,
nitratos como mostram as equações seguintes:

Este processo é chamado de nitrificação e sua ocorrência nas estações de tratamento, como mostram as
equações, implica no consumo de oxigênio dissolvido, além de alcalinidade com a redução do pH, o que se não
for controlado pode trazer sérios problemas de eficiência, inclusive na sedimentabilidade do lodo, através do
azedamento do meio. A redução do nitrato para nitrogênio gasoso é denominado de desnitrificação.

Nos cursos de água a presença de compostos de nitrogênio pode ser um indicador de despejos de esgotos a
montante e da ”idade” destas ocorrências. Por exemplo, a presença excessiva de nitrogênio amoniacal indicará
poluição recente e a predominância de nitratos a possibilidade de uma descarga mais antiga ou mais distante.

2.5.8. Fósforo

O fósforo assim como o nitrogênio, é um nutriente essencial para o crescimento dos microrganismos
responsáveis pela biodegradabilidade da matéria orgânica e também para o crescimento de algas, o que pode
favorecer o aparecimento da eutrofização nos receptores. Normalmente sua presença em despejos domésticos é
suficiente para promover a crescimento natural dos microrganismos, porém certos despejos industriais tratáveis
biologicamente podem requerer adição deste elemento como complemento para o desenvolvimento satisfatório
da massa biodegradadora.

O fósforo presente nos esgotos domésticos (5 a 20mg/L) tem procedência, principalmente, da urina dos
contribuintes e do emprego de detergentes usualmente utilizados nas tarefas de limpeza. Este fósforo apresenta-
se principalmente nas formas de ortofosfato, poli ou pirofosfatos e fósforo orgânico. Cerca de 80% do total é de
fósforo inorgânico, 5 a 15mg/L (poli + orto), enquanto que o orgânico varia de 1 a 5mg/L.

Nos esgotos domésticos de formação recente a forma predominante de ortofosfato é HPO4= , originada em sua
maior parte da diluição de detergentes e favorecido pela condição de pH em torno da neutralidade. Porém sua
predominância tende a ser acentuada a medida que o esgoto vá envelhecendo, uma vez que os poli fosfatos
(moléculas complexas com mais de um "P" e que precisam ser hidrolisadas biologicamente) e os fósforos
orgânicos (pouco representativos) transformam-se, embora lentamente, em ortofosfato, o que deve acontecer
completamente até o final do tratamento dos esgotos, visto que é nesta forma que ele pode ser assimilado
diretamente pelos microrganismos.

Assim sendo, a sua determinação é um parâmetro fundamental para caracterização de águas residuárias brutas e
tratadas, embora por si só sua presença não seja um problema sanitário muito importante no caso de águas de
abastecimento.
2.5.9. pH e Alcalinidade

O termo pH expressa a intensidade da condição ácida ou básica de um determinado meio. É definido como o
cologarítmo decimal da concentração efetiva ou atividade dos íons hidrogênio (pH = - log aH+). Os esgotos
sanitários apresentam-se de um modo geral neutros ou ligeiramente alcalinos (pH de 6,7 a 7,5) devido ao
consumo de sal como tempero nos alimentos pela população e da presença de cloretos (30 a 85mg/L) juntamente
com compostos de cálcio (30 a 50mg/L) procedentes de infiltrações ocorridas ao longo dos condutos ou da
própria água de origem (O padrão de potabilidade em vigor no Brasil, preconiza uma faixa de pH entre 6,5 e
8,5).

A determinação do pH é uma das mais comuns e importantes no contexto do tratamento de água residuárias por
processos químicos ou biológicos. Nestas circunstâncias o pH deve ser mantido em faixas adequadas ao
desenvolvimento das reações químicas ou bioquímicas do processo. No tratamento de lodos de estações de
tratamento de esgotos, especificamente através da digestão anaeróbia, o pH se constitui num dos principais
fatores de controle do processo. Também é importante a determinação da quantidade de sulfatos (20 a 60mg/L)
que têm sua origem na formação das águas residuárias.

Alcalinidade, que é a medida da capacidade do líquido em neutralizar ácidos, é resultante da presença de ácidos
fracos, bases e seus sais derivados, e seu teor nos esgotos, está ligado a qualidade da água de abastecimento.
Devido a capacidade de atuar como tampão contra a queda do pH, a alcalinidade é um importante parâmetro na
caracterização do esgoto doméstico e, principalmente no esgoto industrial, tendo em vista que o bom
desempenho do tratamento biológico adotado depende muito da manutenção das condições de neutralidade do
pH. No caso particular dos esgotos de Campina Grande, aonde chega a mais de 300mg/L de CaCO3, trata-
mentos biológicos são altamente favorecidos.

2.6. Concentrações de Gases nos Esgotos

A presença de gases danosos a saúde do homem nas canalizações de esgoto, especialmente o gás sulfídrico,
torna-se um perigo potencial para os operários da manutenção. Concentrações de 10 a 50ppm de H 2S na
atmosfera do ambiente provocam irritações nos olhos e nariz e dores de cabeça para permanência de até duas
horas de trabalho em contato com o esgoto. Em tarefas que exijam mais horas de exposição do trabalhos,
concentrações em torno de 50ppm podem provocar cegueira temporária.

Concentrações de cerca de 100ppm não são recomendáveis para permanência de mais de uma hora. Trabalhar
sob taxas de 300ppm podem levar a morte e acima de 3000ppm esta deverá ocorrer de forma instantânea.

Não é possível estabelecer concentrações típicas de H2S no interior dos condutos de esgotos. Sabe-se, no
entanto, que a quantidade do gás depende das características da rede coletora, principalmente maiores extensões
e menores concentrações de oxigênio livre, e da temperatura que quanto mais baixa dificulta as atividades dos
microrganismos produtores de sulfetos. Pode-se afirmar que concentrações além de 100ppm seriam consideradas
excessivas.

Velocidades de autolimpeza e diâmetro adequados, pontos de aeração estratégicos e manutenção eficiente do


sistema, dificultam a produção dos gases perigosos no meio da massa líquida dos esgotos.

Um projeto bem elaborado não deve apresentar concentrações de H 2S superiores a 5,0ppm nas atmosferas dos
condutos.

2.7. Conclusão

Foi descrito que as características Físicas, Químicas e Bacteriológicas dos efluentes sanitários dependem da
qualidade da água consumida pela população e dos costumes alimentares desta, bem como da reunião aos
esgotos de despejos de fontes não domésticas e até de possíveis infiltrações ao longo da rede coletora. É
fundamental, pois, a implantação de um projeto bem elaborado de modo a coletar eficientemente e transportar
segura e rapidamente às unidades de tratamento, para que se tenha menos problemas de operação e manutenção
dos sistemas de esgotos sanitários. É imprescindível também que essa operação seja eficiente, sem a qual não
adiantaria a “perfeição” do projeto executivo. Em um estudo de caracterização física, química e biológica de
esgotos sanitários “in natura” é fundamental o estabelecimento de suas possíveis origens.

2.8. Exercícios

• Definir despejos líquidos e águas residuárias.


• Que se entende por razões estéticas? e higiênicas ?
• Que significam:

- microrganismos patogênicos?
- seres unicelulares?
- sólidos em suspensão?
- águas negras ou imundas?
- doenças entéricas e enterobactérias?

• Definir oxigênio dissolvido, esgoto velho e esgoto séptico.


• O que significa o termo “concentração” no estudo da microbiologia?
• Que são bactérias aeróbias, anaeróbias e facultativas?
• Explicar o significado de:

- carga orgânica dos esgotos;


- matéria orgânica biodegradável;
- corrosão bacteriana;
- decomposição anaeróbia e aeróbia;
- demanda bioquímica de oxigênio (DBO);
- características físicas dos esgotos; e químicas; e bacteriológicas;
- teor de sólidos.

• Classificar e definir os diversos tipos de sólidos presentes nos esgotos domésticos. Pesquisar as origens
desses sólidos.
• Que são proteínas? e carboidratos? e lipídios?
• Por que ocorre corrosão na parede superior interna de alguns coletores sanitários? e no fundo do coletor
?
• Comparar:

- processos de oxidação e putrefação;


- poluição e contaminação;
- epidemia e endemia.

• Pesquisar o significado de:

- vírus, rotavírus e enterovírus:


- bactérias, bacilos, leptospiras, espiroquetas e salmonelas;
- protozoários, vermes, micróbios, germes e larvas;
- nematódeos e nematóides;
- nitrossomonas e nitrobacter;
- nitrificação, nitritos e nitratos;
CAPÍTULO III
VAZÕES DE CONTRIBUIÇÃO

3.1. Introdução

O projeto de um sistema de esgotos sanitários depende fundamentalmente dos volumes de líquido a serem
coletados ao longo da rede coletora. Esses volumes irão depender de uma série de fatores e circunstâncias tais
como qualidade do sistema de abastecimento de água, população usuária e contribuições industriais, entre outros,
sendo que a partir das suas definições, serão dimensionados os órgãos constitutivos do sistema.

As vazões de esgotos sanitários formam-se de três parcelas bem distintas, a saber, contribuições domésticas,
normalmente a maior e a mais importante do ponto de vista sanitário, vazões concentradas, em geral de origem
industrial e a inconveniente, mas sempre presente, parcela de águas de infiltrações.

O estudo para determinação do valor de cada uma dessas parcelas será desenvolvido nos itens seguintes deste
capítulo.

3.2. Contribuição Doméstica

3.2.1. Origem

O consumo contínuo de água potável no desempenho diário das atividades domésticas, produz águas residuárias
ditas “servidas” quando oriundas de atividades de limpeza e as “negras” quando contém matéria fecal. Como
esses despejos têm normalmente origem na utilização da água dos sistema público de abastecimento, espera-se
que a maior ou menor demanda de água implicará, proporcionalmente, na maior ou menor contribuição
doméstica de vazões a esgotar.

3.2.2. Coeficiente de Retorno “c”

É natural que parcela da água fornecida pelo sistema público de abastecimento de água não seja transformada em
vazão de esgotos como, por exemplo, a água utilizada na rega de jardins, lavagens de pisos externos e de
automóveis, etc. Em compensação na rede coletora poderão chegar vazões procedentes de outras fontes de
abastecimento como do consumo de água de chuva acumulada em cisternas e de poços particulares.

Essas considerações implicam que, embora haja uma nítida correlação entre o consumo do sistema público de
água e a contribuição de esgotos, alguns fatores poderão tornar esta correlação maior ou menor conforme a
circunstância.

De acordo com a freqüência e intensidade da ocorrência desses fatores de desequilíbrio, a relação entre o volume
de esgotos recolhido e o de água consumido pode oscilar entre 0,60 a 1,30, segundo a literatura conhecida. Esta
fração é conhecida como relação esgoto/água ou coeficiente de retorno e é representada pela letra “c”. De um
modo geral estima-se que 70 a 90% da água consumida nas edificações residenciais retorna a rede coletora
pública na forma de despejos domésticos. No Brasil é usual a adoção de valores na faixa de 0,75 a 0,85, caso não
haja informações claras que indiquem um outro valor para “c”.

3.2.3. Contribuição Per Capita Média “c.q”

Como conseqüência da correlação das contribuições de esgoto com o consumo de água, torna-se necessário o
conhecimento prévio dos números desta demanda para que se possa calcular com coerência o volume de
despejos produzidos.

Um dos parâmetros mais importante nos projetos de abastecimento de água é a quantidade de água consumida
diariamente por cada usuário do sistema, denominado de consumo per capita médio e representado pela letra
“q”. Esse parâmetro, na maioria das vezes, é um valor estimado pelos projetistas em função dos aspectos geo-
econômicos regionais, desenvolvimento social e dos hábitos da população a ser beneficiada. Esse procedimento
é freqüente em virtude do caráter eminentemente prioritário dos projetos de sistemas de abastecimento de água
na infra-estrutura pública sanitária das comunidades.

Partindo-se, pois, da definição do per capita de consumo de água pode-se determinar o per capita médio de
contribuição de esgotos que será igual ao produto “c.q”.

De um modo geral, no Brasil adotam-se per capitas médios diários de consumo de água da ordem de 150 a 200
l/hab.dia para cidades de até 10000hab e per capitas maiores para cidades com populações superiores. As normas
brasileiras permitem o dimensionamento com um mínimo de 100 l/hab.dia, devidamente justificado, e o mesmo
valor para indicar o consumo médio para populações flutuantes. Em áreas onde a população tem renda média
muito pequena e os recursos hídricos são limitados, como por exemplo em pequenas localidades do interior
nordestino, este per capita pode atingir valores inferiores a 100 l/hab.dia. Em situações contrárias e onde o
sistema de abastecimento de água garante quantidade e qualidade de água potável continuamente, este
coeficiente pode ultrapassar os 500 l/hab.dia.

3.2.4. População de Projeto

3.2.4.1. Generalidades

Denomina-se população de projeto a população total a que o sistema deverá atender e volume diário médio
doméstico o produto entre o número de habitantes beneficiados pelo sistema e o per capita médio de contribuição
produzido pela comunidade.

Com relação a determinação desta população, dois são os problemas que se apresentam como de maior
importância: população futura e densidade populacional. A determinação da população futura é essencial, pois
não se deve projetar um sistema de coleta de esgotos para beneficiar apenas a população atual de uma cidade
com tendência de crescimento contínuo. Esse procedimento, muito provavelmente, inviabilizaria o sistema logo
após sua implantação por problemas de subdimensionamento.

Além do estudo para determinação do crescimento da população há a necessidade também de que sejam
desenvolvidos estudos sobre a distribuição desta população sobre a área a sanear, pois, principalmente em
cidades maiores, a ocupação das áreas centrais, por exemplo, é significativamente diferenciada da ocupação nas
áreas periféricas.

Assim se torna prioritário que os sistemas de esgotamento devam ser projetados para funcionarem com eficiência
ao longo de um predeterminado número de anos após sua implantação e, por isto, é necessário que o projetista
seja bastante criterioso na previsão da população de projeto.

3.2.4.2. Crescimento de população

A expressão geral que define o crescimento de uma população ao longo dos anos é

P = P o+ ( N - M ) + ( I - E ) , Eq. 3.1

onde:

P = população após “t” anos;

Po= população inicial;

N = nascimento no período “t”;

M = mortes, no período “t”;


I = imigrantes no mesmo período;

E = emigrantes no período.

Esta expressão, embora seja uma função dos números intervenientes no crescimento da população, não tem
aplicação prática para efeito de previsão devido a complexidade do fenômeno, o qual está na dependência de
fatores políticos, econômicos e sociais.

Para que estas dificuldades sejam contornadas, várias hipóteses simplificadoras têm sido expostas para obtenção
de resultados confiáveis e, acima de tudo, justificáveis.

Logicamente não havendo fatores notáveis de perturbações, como longos períodos de estiagem, guerras, etc., ou
pelo contrário, o surgimento de um fator acelerador de crescimento como, por exemplo, a instalação de um pólo
industrial, pode-se considerar que o crescimento populacional apresenta três fases distintas:

• 1ª fase - crescimento rápido quando a população é pequena em relação aos recursos regionais;
• 2ª fase - crescimento linear em virtude de uma relação menos favorável entre os recursos econômicos e
a população;
• 3ª fase - taxa de crescimento decrescente com o núcleo urbano aproximando-se do limite de saturação,
tendo em vista a redução dos recursos e da área de expansão.

Na primeira fase ocorre o crescimento geométrico que pode ser expresso da seguinte forma

P = Po ( 1 + g ) t , Eq. 3.2

onde “P” é a população prevista, “Po” a população inicial do projeto, “t” o intervalo de anos da previsão e “g” a
taxa de crescimento geométrico (ou exponencial) que pode ser obtida através de pares conhecidos (ano T ii,
população Pi), da seguinte forma

. Eq. 3.3

Na segunda fase o acréscimo de população deverá ter características lineares ao longo do tempo e será expresso
assim

P = Po + at , Eq. 3.4

onde P, Po e “t” tem o mesmo significado e “a” é a taxa de crescimento aritmético (ou linear) obtida pela razão
entre o crescimento da população em um intervalo de tempo conhecido e este intervalo de tempo, ou seja,

. Eq. 3.5

Na terceira fase os acréscimos de população tornam-se decrescentes ao longo do tempo e proporcionais a


diferença entre população efetiva Pe e a população máxima de subsistência na região, Ps (população de
saturação). Esta relação é expressa da seguinte maneira:

, Eq. 3.6

que é conhecida como equação da curva logística e cuja representação gráfica encontra-se representada na
Fig.3.1. Esta expressão foi desenvolvida pelo matemático belga Pierre François Verhulst (1804 - 1849), em
1838.
FIG. 3. 1 - Curva logística de crescimento de população

Deve-se observar, no entanto, que o progresso técnico pode alterar a população máxima prevista para um
determinado conglomerado urbano, sendo um complicador a mais a ser avaliado em um estudo para
determinação do crescimento da população.

Para aplicação da equação Eq.3.5 deve-se dispor de três dados de populações correspondentes a três censos
anteriores recentes e eqüidistantes, ou seja, três pares (T1,P1), (T2,P2) e (T3,P3) de modo que

(T3- T1) = 2 (T2 - T1) , P1 < P2 < P3 e P22 > P3 . P1.

Feitas essas verificações calculam-se

Eq. 3.7

Eq. 3.8

Eq. 3.9

e = 2,718281828, base neperiana.

Por exemplo, se para uma cidade fictícia os resultados dos últimos três censos registrassem o seguinte quadro:

Ano do censo População ( hab )


1970 274 403
1980 375 766
1990 491 199

então,
T3 - T1= 2 ( T2 - T1 ), ou seja, 1990 - 1970 = 2 ( 1980 - 1970 ) e P22> P1.P3, isto é,

375 7662 = 1,412. 1011 > 274 403 x 491 199 = 1,348. 1011,

o que permite a aplicação do método da curva logística. Sendo assim, pode-se calcular

De acordo com os parâmetros encontrados pode-se verificar, por exemplo, a população para

• t=0

o que equivale a P1 (mostrando que o estudo de projeção indica a população inicial);

• t = 20 anos

equivalendo pois, a população P3;

• t = 50 anos (30 anos após o último censo)

• t = ilimitado ou infinito

e, como era de se esperar nesta situação, encontrou-se um valor semelhante ao de saturação.


Além desses três métodos de crescimento ditos matemáticos convencionais, o projetista poderá criar outras
expressões que o mesmo achar mais conveniente e justificável como, por exemplo, relacionar o crescimento da
cidade com o crescimento do estado, com o crescimento de empregos, etc. Também poderá lançar mão de
métodos gráficos como o simples traçado de uma curva arbitrária que se ajuste aos dados já observados sem a
preocupação de estabelecimento de uma expressão matemática para a mesma. Este método é denominado de
prolongamento manual ou extrapolação gráfica.

Outro método freqüentemente mencionado na literatura sobre o assunto é o método gráfico denominado
comparativo. O mesmo consiste na utilização de dados censitários de cidades nas mesmas condições geo-
econômicas que a cidade em previsão e que já tenham população superior a esta. Admite-se, então, que a cidade
em análise tenha um crescimento análogo às maiores em comparação. Colocando-se os dados de população em
um sistema de eixos cartesianos tempo x população e transportando-se para o ponto referente a população atual
da cidade em estudo, paralelas às curvas de crescimento das cidades em comparação, a partir do ponto onde tais
cidades tinham a população atual da cidade em previsão, obtém-se um feixe de curvas cuja resultante média
considera-se como a curva de previsão para a cidade menor ( Fig.3.2 ).

FIG. 3. 2 - Curvas comparativas

OBS: Em termos de normalização, a NB-587/89-ABNT prevê para estimativa de população a aplicação de


modelos matemáticos (mínimos quadrados) aos dados censitários do IBGE.

3.2.4.3. População Flutuante

Em certas cidades, além da população residente, o número de pessoas que a utilizam temporariamente é‚
também, significativo e tem que ser considerado no cálculo para determinação das vazões. É o caso de cidades
balneárias, estâncias climáticas, estâncias minerais, etc. Esta população é denominada de população flutuante.

Da mesma maneira que é feito para a população fixa, também estudos deverão ser desenvolvidos para que a
população flutuante seja determinada.
3.2.4.3. Densidade Demográfica

Por definição a intensidade de ocupação de uma área urbana é a densidade demográfica e, em termos de
saneamento, é geralmente expressa em habitantes por hectare (hab/ha) com tendência a valores crescentes das
áreas periféricas para as centrais nas cidades maiores.

Como ilustração para essas afirmações é apresentado a seguir um quadro com valores médios freqüentemente
encontrados no estudo de distribuição urbana das populações Área x Densidade:

Densidade
Tipo de Ocupação Urbana da Área
(hab/ha)
- áreas periféricas c/casas isolados e grandes lotes (~800m²) 25 a 50
- casas isolados com lotes médios e pequenos(250 a 450m²) 60 a 75
- casas geminadas com predominância de um pavimento 75 a 100
- casas geminadas com predominância de dois pavimentos 100 a 150
- prédios pequenos de apartamentos (3 a 4 pavimentos) 150 a 300
- prédios altos de apartamentos (10 a 12 pavimentos) 400 a 600
- áreas comerciais c/ edificações de escritórios 500 a 1000
- áreas industriais 25 a 50
É prioritário nas obras de saneamento analisar como as populações futuras serão distribuídas sobre a área. Para
que estes resultados sejam confiáveis e resultem em um bom desempenho do projeto, diversos fatores devem ser
considerados tais como condições topográficas, expansão urbana, custo das áreas, planos urbanísticos,
facilidades de transporte e comunicação, hábitos e condições sócio-econômicas da população, infra-estrutura
sanitária, etc.

São importantes nestes estudos, os levantamentos cadastrais da cidade bem como a existência de um plano
diretor associado a uma rígida obediência ao código municipal de obras.

3.2.4.5. Equivalente Populacional

Sabe-se até então que um projeto de um sistema de esgotos sanitários é definido a partir da determinação da
população contribuinte. No caso da reunião de uma vazão industrial à contribuição doméstica é costume, para
fins de dimensionamento, transformar a vazão exemplificada em uma contribuição resultante de uma população
equivalente, ou seja, uma população que corresponderá a quantidade de contribuintes que produziriam o mesmo
volume de esgotos gerados pela unidade fabril. Esse procedimento é muito importante para o dimensionamento,
notadamente de unidades de tratamento.

Para que a determinação do número equivalente de contribuintes seja confiável deve-se conhecer a fonte desta
vazão bem como o seu nível de produção. No Brasil, quando se trata de determinação de dados hidráulicos,
relaciona-se diretamente com o consumo de água de abastecimento e quando se trata da carga orgânica toma-se
como valor padrão 54g/hab.dia, desde que não haja pesquisas locais que indiquem outro valor. No quadro abaixo
é mostrada uma série de contribuições tradicionalmente adotadas em diferentes países do nosso globo. Em
pesquisas efetuadas na EXTRABES/UFPB, em Campina Grande, Paraíba, foi obtido 39g/hab.dia.

Contribuição orgânica média per capita


Carga Orgânica
País
( g / hab.dia)
Alemanha 54
E.U.A 80
Holanda 54
Índia 45
Inglaterra 60
Quênia 23
Zâmbia 36

3.2.4.6. Comentários

Com relação à previsões de desenvolvimento populacional de uma cidade deve-se observar que os fatores que
comandam esse crescimento apresentam características de instabilidade que podem ser questionadas para
previsões a longo prazo. Portanto, cabe ao projetista cercar-se de todas as informações necessárias que o
permitam uma previsão no mínimo defensável em quaisquer circunstâncias, visto que os resultados encontrados
não passam, como o próprio termo indica, de uma “previsão”.

Qualquer que seja o modelo de previsão utilizado deve ser verificado periodicamente e ajustado às informações
mais recentes que fugiram a previsões iniciais. O equacionamento matemático representa apenas uma hipótese
de cálculo com base em dados conhecidos mas sujeitos a novas situações imprevisíveis inicialmente.

De um modo geral pode-se afirmar que as formulações matemáticas do tipo aritméticas não são recomendáveis
para previsões superiores a trinta (30) anos e as geométricas para períodos de projeto superiores a vinte (20)
anos.

Algumas informações de caráter geral são de suma importância em um estudo de evolução de população como,
por exemplo,

• a potência genética do grupo humano, dos seus costumes, leis civis, religiosidades e preconceitos;
• as disponibilidades econômicas e suas variações com o crescimento da população;
• a área habitável onde a população está instalada e seus limites de saturação;
• os ciclos de crescimento - cada ciclo corresponde a um conjunto de condições originadas de acordo com
razões econômicas, culturais, tecnológicas, etc.

Deve-se salientar que os valores das populações de projeto têm como objetivo inicial a determinação das etapas
de construção de forma a proporcionar um cronograma de execuções técnica e financeiramente viável.

É importante, também, citar que para uma mesma cidade pode-se ter contribuições diferentes em áreas de mesma
dimensão. Esse fenômeno torna-se mais significativo quanto maior for a cidade e mais diversificada for sua
estrutura econômico-social.

Também é de esperar que em áreas periféricas o crescimento das cidades tende a ser horizontal enquanto nas
áreas centrais este crescimento, caso ocorra, será na vertical.

É possível também deparar-se com situações onde não haja necessidade de preocupações com variações de
populações ao longo do tempo e do espaço. Por exemplo, o caso da elaboração de um projeto de um sistema de
esgotamento sanitário para um conjunto habitacional com edificações padrão. Neste caso ter-se-ia, teoricamente,
a ocupação imediata e, logicamente, sem previsão de modificações futuras significativas no citado complexo
urbano.

3.2.5. Contribuição Média Doméstica - Qdom

Definida a população de projeto “P” e o per capita médio diário de contribuição “c.q”, então o volume médio
diário de esgotos domésticos produzidos será, em litros/dia com “q” em l/hab.dia,

Qdom = c. q. P Eq. 3.10

3.3. Águas de Infiltração - QI

A vazão que é transportada pelas canalizações de esgoto não têm sua origem somente nos pontos onde houver
consumo de água. Parcela dessa vazão é resultante de infiltrações inevitáveis ao longo dos condutos, através de
juntas mal executadas, fissuras ou rupturas nas tubulações, nas paredes das edificações acessórias, etc. Este
volume torna-se mais acentuado no período chuvoso, pois parte das estruturas poderá permanecer situada
temporariamente submersa no lençol freático, além das contribuições originadas nas ligações clandestinas de
águas pluviais. Também influi no volume infiltrado o tipo de terreno em que os condutos estão instalados e a
pavimentação ou não dos arruamentos. É lógico que, por exemplo, em terrenos arenosos há maior facilidade da
água subterrânea atingir as canalizações que em terrenos argilosos.

As canalizações internas aos lotes, de responsabilidade do proprietário do imóvel, podem assumir importância
fundamental para a infiltração, considerando-se que a extensão destes condutos é maior que o total da rede
coletora e sua execução e manutenção geralmente não é tão cuidadosa como a da rede pública implicando, assim,
em um acréscimo no volume infiltrado.

Quando da determinação da infiltração deve-se considerar também a confiabilidade das canalizações de água
próximas às de esgotos, pois a freqüência de vazamentos naquelas implica na possibilidade de saturação no
subsolo em volta podendo, deste modo, contribuir para o aumento da infiltração. Pesquisas para determinação de
coeficientes de infiltração são raras em nossa literatura e os resultados mais conhecidos estão mostrados no
quadro a seguir, citados no trabalho Infiltração de Água nos Coletores de Esgotos Sanitários apresentado pelos
engenheiros D. P. Bruno e M. T. Tsutiya no 12º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, em
1983, e publicado na Revista DAE n.º 133. Na impossibilidade de dados ou argumentos mais precisos pode-se
trabalhar com a sugestão da NBR 9649/86 - ABNT que recomenda a adoção de uma taxa de contribuição de
infiltração - TI, de 0,5 a l,0 l/s.km, sob justificativas.
Exemplos de algumas contribuições de infiltrações estudas e publicadas

AUTORIDADE LOCAL ANO TI - l/s.km


Saturnino de Brito Santos, Recife 1911 0,10
Jesus Netto São Paulo 1940 0,30 a 0,70
T. Merriman USA 1941 0,03
Azevedo Netto São Paulo 1943 0,40
Greeley & Hansen São Paulo 1952 0,50
Fair & Geyer USA 1954 0,10 a 2,70
DES, Sursan Rio de Janeiro 1959 0,20 a 0,40
I.W.Santry lDallas 1964 0,30 a 1,40
Hazen & Sawyer São Paulo 1965 0,30
SANESP São Paulo 1973 0,30
PNB - 567 Brasil 1967 1,00
NBR - 9649 Brasil 1986 0,50

-Fonte: Revista DAE , 134 - 1983

É fundamental considerar que para coletores novos situados acima do lençol freático, a infiltração deve ser
mínima ou mesmo nula, e que a qualidade dos materiais empregados na confecção das tubulações, bem como o
nível de estanqueidade com que as juntas são executadas, são fatores de redução deste tipo de vazão.

3.4. Contribuições Concentradas - QC

Além das contribuições domésticas coletadas ao longo da rede e das vazões de infiltração, determinadas
edificações podem produzir contribuições de águas residuárias que não podem ser consideradas como ligações
normais ao longo da rede, tendo em vista que, devido ao seu volume, alteram sensivelmente as condições de
escoamento para jusante. São as chamadas contribuições concentradas, que podem ter origem em estações
rodoviárias, grandes edificações residenciais e/ou comerciais, lavanderias públicas, centros comerciais, grandes
hospitais, clubes com piscinas, entre outros, e, principalmente, de estabelecimentos industriais que usam água no
processo de produção como, por exemplo, uma indústria de bebidas.

3.5. Contribuição Total - QT

Estudado cada uma das parcelas formadoras das vazões de esgotos sanitários pode-se, portanto, expressar a
vazão média coletada na forma

QT = QD + QC + QI , Eq. 3.11

onde:

QT = vazão média total diária;

QD = contribuição média diária doméstica;

QC = contribuições concentradas;

QI = águas de infiltrações, que é resultante do produto da taxa de infiltração “TI” com a extensão “L” das
canalizações subterrâneas.

Para o cálculo destas vazões são consideradas população de projeto, contribuição média per capita doméstica,
infiltrações ao longo da rede e vazões concentradas.
Para as situações onde se fizerem necessárias determinações das vazões máxima e mínima de projeto o
procedimento clássico é serem empregadas as mesmas variações definidas para o cálculo das variações de
consumo doméstico de água, justificado em que as infiltrações dependem das condições dos condutos e que as
vazões concentradas são função da estrutura interna do estabelecimento contribuinte. Logo, apenas a parcela de
origem doméstica sofrerá variações diárias e horárias na grande maioria das situações de projeto, e seus valores
serão obtidos das formas descritas a seguir:

• Contribuição doméstica máxima diária em l/dia

QDmáx,d = c.q.P.K1 , Eq. 3.12

onde K1 (coeficiente do dia de maior contribuição) tem valores usuais no Brasil variando de 1,20 a 1,50;

• Contribuição doméstica máxima horária em l/s

QDmáx,h = c.q.P.K1.K2 / 86400 , Eq. 3.13

onde K2 (coeficiente da hora de maior vazão do dia de maior contribuição) é arbitra do usualmente em 1,50;

• Contribuição mínima em l/s

QDmín,h = c.q.P.K3 / 86400 , Eq. 3.14

onde K3 (coeficiente de contribuição mínima) é freqüentemente adotado como 0,50.

Observe-se que estes valores indicados para os coeficientes são números usuais para situações onde os projetistas
não dispõem de informações mais precisas que indiquem dados mais ajustados a realidade local.

3.6. Exemplo

Calcular as contribuições média, máxima e mínima, atuais e futuras, de uma comunidade fictícia, a partir das
informações apresentadas a seguir:

- população atual : 12.350 hab,

- população futura: 22.600 hab,

- consumo per capita: 200 l/hab.dia,

- coeficiente de reforço: K1.K2 = 2,0,

- relação esgoto/água: 0,80,

- taxa de infiltração: 0,0005 l/s.m,

- extensão da rede (etapa única): 30,3 km,

- contribuição industrial atual: 260m³/dia e

- contribuição industrial futura: 350m³/dia.

OBS: Descarga industrial regularizada ao longo do dia.


Solução:

1ª - Situação atual

QT,i = (c.q.P./86400) + [(QC./86400) + TI.L].103 =

= (0,80 x 200 x 12.350/86400) + [(260/86400) + 0,0005x30,3]x103 = 22,87 + 3,01 + 15,15 = 41,03


l/s;

QTmáx,i = 22,87 x 2,0 + 3,01 + 15,15 = 63,90l/s;

QTmin,i = 22,87 x 0,5 + 3,01 + 15,15 = 29,60l/s.

2ª - Situação futura

QT,f = 61,05 l/s,

QTmax,f = 102,90 l/s e

QTmín,f = 40,14 l/s.

3.7. Exercícios

• Quais as origens dos resíduos líquidos que formam as vazões da rede coletora de esgotos.
• Como a eficiência do sistema de abastecimento de água afeta a contribuição de esgotos?
• Como o nível de conservação da rede de distribuição de água pode afetar o volume de esgotos
coletados? e da rede coletora? Justificar.
• Citar situações práticas, justificando, onde o coeficiente de retorno seria maior que 1,0. E quando seria
menor?
• Explicar os termos “consumo de água” e “contribuição de esgotos” comparando-os.
• Definir

- consumo per capita de água;


- consumo per capita médio;
- contribuição per capita de esgotos;
- crescimento de população;
- densidade demográfica;
- previsão de população

• Conhecidos os dados censitários de três cidades A, B e C, tabulados a seguir, pede-se estimar a


população futura, no ano 2010

a) de A, B e C pelo método geométrico;


b) de A, B e C pelo método aritmético;
c) de C pelo método comparativo a partir de A e B.
Verificar também para cada uma das cidades a admissibilidade da curva logística e, em caso afirmativo, fazer
uma previsão para o ano 2020 por esse método. Comparar e comentar os resultados a partir do encontrado
através do prolongamento manual dos dados de cada cidade.

CIDADE 1970 1980 1990 2000


A 65060 79600 94260 111560
B 61200 72200 84600 104400
C 39900 46230 53900 67200

• Em uma cidade com população de projeto equivalente a 28600hab, calcular as vazões média, máxima e
mínima dos esgotos sanitários coletados. Extensão total da rede coletora 42,9km. Admitir valores usuais
no Brasil.

• Comentar sobre

- fatores que influem no consumo de água e na contribuição de esgotos;


- a relação entre o desenvolvimento das cidades e a contribuição de esgotos sanitários.
CAPÍTULO IV
COMPONENTES DE SISTEMAS DE ESGOTOS SANITÁRIOS

4.1. Introdução

A coleta e o transporte das águas residuárias desde a origem até o lançamento final constituem o fundamento
básico do saneamento de uma população. Os condutos que recolhem e transportam essas vazões são
denominados de coletores e o conjunto dos mesmos compõem a rede coletora. A rede coletora, os emissários, as
unidades de tratamento, etc., compõem o que é denominado de sistema de esgotos sanitários. O estudo dos
sistemas de esgotamento, suas unidades e seus elementos acessórios envolvem, naturalmente, uma terminologia
própria a qual será objeto de estudo neste capítulo.

4.2. Terminologia Básica

A seguir serão apresentados conceitos e definições de componentes e acessórios diversos dos sistemas de esgotos
sanitários.

• Bacia de Drenagem: área delimitada pelos coletores que contribuem para um determinado ponto de
reunião das vazões finais coletadas nessa área.
• Caixa de Passagem (CP): câmara subterrânea sem acesso, localizada em pontos singulares por
necessidade construtiva e econômica do projeto.
• Coletor de Esgoto: tubulação subterrânea da rede coletora que recebe contribuição de esgotos em
qualquer ponto ao longo de seu comprimento, também chamado coletor público.
• Coletor Principal: coletor de esgotos de maior extensão dentro de uma mesma bacia.
• Coletor Tronco: tubulação do sistema coletor que recebe apenas as contribuições de outros coletores.
• Corpo Receptor: curso ou massa de água onde é lançado o efluente final do sistema de esgotos.
• Diâmetro Nominal (DN): número que serve para indicar as dimensões da tubulação e acessórios.
• Emissário: canalização que deve receber esgoto exclusivamente em sua extremidade de montante, pois
se destina apenas ao transporte das vazões reunidas.
• Estação Elevatória de Esgotos (EEE): conjunto de equipamentos, em geral dentro de uma edificação
subterrânea, destinado a promover o recalque das vazões dos esgotos coletados a montante.
• Estação de Tratamento de Esgotos (ETE): unidade do sistema destinada a propiciar ao esgoto recolhido
de ser devolvido a natureza sem prejuízo ao meio ambiente.
• Interceptor: canalização que recolhe contribuições de uma série de coletores de modo a evitar que
deságüem em uma área a proteger, por exemplo, uma praia, um lago, um rio, etc.
• Ligação Predial: trecho do coletor predial situado entre o limite do lote e o coletor público.
• Órgãos Acessórios: dispositivos fixos sem equipamentos mecânicos (definição da NBR 9649/86 -
ABNT).
• Passagem Forçada: trecho com escoamento sob pressão, sem rebaixamento.
• Poço de Visita (PV): câmara visitável destinada a permitir a inspeção e trabalhos de manutenção
preventiva ou corretiva nas canalizações - é um exemplo de órgão acessório.
• Profundidade do Coletor: a diferença de nível entre a superfície do terreno e a geratriz inferior interna
do coletor (Figura 4.1).
• Recobrimento do tubo coletor: diferença de nível entre a superfície do terreno e a geratriz superior
externa do tubo coletor.
• Rede Coletora: conjunto de condutos e órgãos acessórios destinado a coleta e remoção dos despejos
gerados nas edificações, através dos coletores ou ramais prediais.
• Sifão Invertido: trecho de conduto rebaixado e sob pressão, com a finalidade de passar sob obstáculos
que não podem ser transpassados em linha reta.
• Sistema Coletor: Todo o conjunto sanitário, constituído pela rede coletora, emissários, interceptores,
estações elevatórias e órgãos complementares e acessórios.
• Tanque Fluxível: reservatório subterrâneo de água destinados a fornecer descargas periódicas sob
pressão dentro dos trechos de coletores sujeitos a sedimentação de material sólido, para prevenção
contra obstruções por sedimentação progressiva.
• Terminal de Limpeza (TL): dispositivo que permite introdução de equipamentos de limpeza, localizado
na extremidade de montante dos coletores.
• Trecho de coletor: segmento de coletor, interceptor ou emissário limitado por duas singularidades
consecutivas, por exemplo, dois poços de visita.
• Tubo de Inspeção e Limpeza (TIL): dispositivo não visitável que permite a inspeção externa do trecho e
a introdução de equipamentos de limpeza.
• Tubo de Queda (TQ): dispositivo instalado no PV de modo a permitir que o trecho de coletor a
montante deságüe no fundo do poço.

Figura 5.1 - Terminologia da vala de assentamento de um coletor

4.3. Comentários

Dependendo da ocorrência de áreas onde os coletores não possam continuar ou mesmo desaguar o esgoto bruto,
deverão ser projetados interceptores, assim como a necessidade de transporte de vazões finais para pontos
distantes da área de coleta forçará a construção de um emissário. O lançamento subaquático no mar ou sob rios
caudalosos normalmente poderá ser realizado através de emissários com elevatória na extremidade de montante.

As estações de tratamento de esgotos (ETE) ocorrerão quando os corpos receptores das vazões esgotáveis não
possuírem capacidade de absorção da carga orgânica total. A capacidade das ETE será dimensionada de modo
que o efluente contenha em seu meio uma carga orgânica suportável pelo corpo receptor, ou seja, que não lhe
cause alterações danosas ao seu equilíbrio com o ambiente natural.

A ocorrência de estações elevatórias é freqüente em cidades de grande porte, situadas em áreas planas ou mesmo
com declividade superficiais inferiores as mínimas requeridas pelos coletores para seu funcionamento normal.
Nestas ocorre que no desenvolvimento das tubulações coletoras, estas vão continuamente afastando-se da
superfície até atingirem profundidades inaceitáveis em termos práticos, requerendo assim, que se elevem as cotas
dos coletores a profundidades mínimas ou racionais, sendo isto somente possível através de instalações de
recalque de cujo efluente partirá um novo coletor que poderá, eventualmente, até terminar em outra unidade de
recalque. Por uma situação similar a ocorrência de estações elevatórias é freqüente em interceptores extensos,
principalmente aqueles que protegem margens aquáticas, nos emissários e nas entradas das ETE, visto serem
estas normalmente estruturas a céu aberto (lagoas de estabilização, filtros biológicos e valos de oxidação) ou
fechadas, mas apoiadas na superfície (biodigestores).

Os sifões invertidos e as tubulações de recalque das elevatórias são as únicas unidades convencionais a
funcionarem sob pressão nos sistemas de esgotos sanitários. Na impossibilidade da transposição em linha reta,
inclinada corretamente, pela existência no local de obstáculos de qualquer natureza e que não possam ser
removidos ou “atravessados”, a indicação mais viável, em termos de economia de operação, é o sifão invertido,
considerando que o escoamento, embora sob pressão, dar-se-á por gravidade, evitando assim, o consumo
contínuo de energia elétrica e equipamentos de recalque permanentes, como nas estações elevatórias.

Diversos autores classificam poços de visita e dispositivos substitutos destes, como órgãos acessórios
obrigatórios das redes, enquanto que citam como acessórios eventuais sifões invertidos, considerando que estes
funcionam juntos aos coletores com vazões contínuas e por gravidade, ocupando como os poços de visita, um
espaço natural das tubulações transportadoras, e também os tanques fluxíveis por estes permitirem o
funcionamento ininterrupto dos trechos a jusante.

4.4. Exercícios

• Quais as finalidades das redes coletoras de esgotos sanitários?


• Por definição um coletor tronco é um coletor principal?
• Todo sistema de esgotamento sanitário tem interceptores? E emissários? Justificar.
• Os sifões invertidos funcionam por gravidade? Hidraulicamente são condutos livres ou forçados?
• Por que as estações elevatórias são ditas "instalações eletromecânicas"?
• Qual a finalidade dos poços de visita? e dos tanques fluxíveis?
• Descrever a ocorrência, nos SES, das estações de tratamento.
• Diagnosticar e opinar sobre o que são órgãos acessórios obrigatórios e eventuais das redes coletoras?
• Qual a finalidade das estações elevatórias e dos sifões invertidos?
CAPÍTULO V
REVISÃO DE HIDRÁULICA / HIDRÁULICA DOS COLETORES

5.1. Introdução

O esgoto sanitário é um líquido com características essencialmente orgânicas com cerca de 99,9% de água e
0,1% de sólidos em dissolução ou em suspensão. Esse pequeno teor relativo de sólidos torna o esgoto um líquido
com características hidráulicas similares às da água. Sendo assim, a utilização das mesmas leis e princípios que
regem o escoamento de água em condutos, para solução de cálculos hidráulicos quando o fluido for esgoto
sanitário, não resultará em erros significativos. Diante desses argumentos este capítulo tratará de apresentar um
resumo de hidráulica, onde serão apresentados conceitos e formulários mais comumente empregados no
dimensionamento de condutos de esgotos.

5.2. Propriedades Físicas

Como muitos dos dados pesquisados sobre esgotos sanitários têm como padrão leituras a 20 oC (1), serão
mostrados a seguir as principais características da água a esta temperatura, para que se tenha uma idéia do
comportamento do líquido em estudo, nestas condições:

• peso específico (peso por unidade de volume) -  = 998,23 Kgf/m3;


• densidade relativa (relação c/a densidade da água a 4 oC) - = 998,23;
• densidade absoluta ( /g - massa por unidade de volume) - = 101,76 Kgf . s2 /m4;
• viscosidade dinâmica (ou somente viscosidade) - = 1,029 x 10-4 Kgf.s/m2 (1 Kgf.s/m2 = 98,1 poises (2);
• viscosidade cinemática (  ) -  = 1,011.10-6 m2/s (1m²/s = 104 stokes (3);
• tensão superficial (tensão por unidade de comprimento numa linha qualquer de separação) - s= 0,0074
Kgf/m (1 Kgf = 9,80665N);
• módulo de elasticidade (relação entre aumento de pressão e o de massa específica) - E = 2,18 x 108
Kgf/m² ;
• pressão de vapor (pressão exercida pelo vapor em determinado espaço) - Pv = 0,0239 Kgf/cm² .

5.3. Classificação dos Movimentos

A Hidráulica é o ramo das ciências físicas que tem por objetivo estudar os líquidos em repouso e em movimento.
Se um líquido escoa em contato com a atmosfera diz-se que ele está em escoamento livre e quando escoa
confinado em um conduto de seção fechada com pressão diferente da atmosférica tem-se um escoamento forçado
ou sob pressão.

Quando o movimento desenvolve-se de tal maneira que as partículas traçam trajetórias bem definidas no sentido
do escoamento, define-se um movimento laminar ou viscoso e quando não há definição das trajetórias das
partículas, embora com certeza haja escoamento, tem-se o movimento turbulento ou hidráulico. A primeira
condição é de difícil ocorrência, exceto nos escoamentos naturais subterrâneos em meios porosos, sendo mais
uma condição criada artificialmente em laboratórios para efeito de desenvolvimento de estudos.

É de fundamental importância teórica também a classificação dos regimes de escoamentos em regime


permanente e não permanente ou variável. O escoamento permanente, o mais comum em dimensionamentos
hidráulicos, ainda pode ser uniforme e variado. No permanente as características do escoamento não variam ao
longo do tempo, na seção em estudo. Se além de não se modificar ao longo do tempo também permanecer
inalterado ao longo da canalização, o regime é denominado de permanente e uniforme. Esta condição de
escoamento será constantemente considerada no dimensionamento convencional de condutos de esgotamento
pluvial como será visto nos próximos capítulos. Quando as características variarem ponto a ponto, instante a
instante, o escoamento é dito não permanente, ou seja, a vazão varia no tempo e no espaço e, conforme a
variação da velocidade de escoamento ao longo do conduto e com o tempo, pode ainda ser classificado como
acelerado, quando a velocidade aumenta com o tempo, ou retardado, quando em ritmo contrário.

5.3. Equação da Continuidade

É a equação que mostra a conservação da massa de líquido no conduto, ao longo de todo o escoamento. Isto quer
dizer que em qualquer seção transversal da canalização o produto .A.V será constante, sendo "" a densidade
do líquido. Desprezando-se a compressibilidade da água temos para as n seções do escoamento

A1.V1 = A2.V2 = ...... = An.Vn = Q , Eq. 5.1

onde,

Q = a vazão em estudo;

Ai= a área da seção molhada em "i";

Vi= a velocidade de escoamento pela mesma seção.

5.4. Equação da Energia

A energia presente em um fluido em escoamento pode ser separada em quatro parcelas, a saber, energia de
pressão (piezocarga), energia cinética (taquicarga), energia de posição (hipsocarga) e energia térmica. Partindo
do princípio da conservação de energia, para duas seções transversais em dois pontos distintos, 1 e 2 do
escoamento (Figura 5.1), estas parcelas podem ser agrupadas da seguinte forma:

Eq. 5.2

que é conhecida como teorema de Bernoulli ( 4 ) para fluidos reais, onde

p = pressão, Kgf/m²;

 = peso específico, Kgf/m³;

v = velocidade do escoamento, m/s;

g = aceleração da gravidade, m/s²;

Z = altura sobre o plano de referência, m;

hf= perda de energia entre as seções em estudo, devido a turbulência, atritos, etc., denominada de perda de carga,
m;

 = fator de correção de energia cinética devido as variações a de velocidade na seção ou coeficiente de Coriolis
(5) .

A soma das parcelas z + (p/ ) + ( . v2/2g) é denominada de energia mecânica do líquido por unidade de peso.
Portanto, a energia mecânica de um líquido sempre estará sob uma ou mais das três formas citadas.
FIG. 5.1 - Elementos componentes da Equação 5.2.

Seja P o peso de um determinado volume de líquido, situado em uma determinada posição relativa de altura Z.
Então a sua energia potencial será P.Z e, consequentemente, por unidade de peso será P.Z /P, que é igual a Z. O
mesmo raciocínio poderá ser aplicado para a parcela cinética.

Para a parcela p/ vejamos o seguinte raciocínio: o trabalho  realizado


por um líquido deslocado através de um cilindro de seção transversal A, ao
longo de sua extensão L, impulsionado por uma pressão p.A.L (Fig. 5.2),
sendo que, por sua vez, o peso desse líquido é . A.L, logo...!

Figura 5.2 - Cilindro de área A e extensão L (ao lado)


5.6.2. Expressões mais Comuns na Literatura

5.6.2.1. Fórmula Darcy - Weisback (6)

A expressão para cálculo da perda de carga de Darcy, apresentação americana, é freqüentemente representada
pela equação

, Eq. 5.4

onde f é um coeficiente que é função do diâmetro, do grau de turbulência, da rugosidade, etc. e calculado pela
expressão de Colebrook, a denominada expressão universal de perda de carga.

Esta expressão, embora comprovadamente apresente resultados mais confiáveis, sua manipulação implica em
certas dificuldades de ordem prática o que leva muitos projetistas a optarem por expressões empíricas
alternativas de melhor trabalhabilidade. Nos raros casos de tubos lisos com escoamento laminar, NR < 2000
(normalmente só obtidos em laboratório) a rugosidade não interfere no valor de f que é calculado pela
expressão f = 64/NR , onde NR é conhecido como Número de Reynolds (7). Para tubos rugosos funcionando na
zona de completa turbulência (8), NR > 4000 (os coletores de esgotos, em geral, trabalham com NR >10000) é
comum ser utilizada a expressão de Kármán-Prandtl (9),

, Eq. 5.5

Para escoamentos não laminares situados na zona de transição de NR, aproximadamente entre 2000 e 4000, o
valor de f pode ser determinado utilizando-se da expressão de Colebrook-White (10),

, Eq.5.6

onde K significa o tamanho das asperezas internas do conduto e K/D a rugosidade relativa, grandeza esta de
grande significado, numa análise hidráulica, que dá confiabilidade a uma expressão para cálculo das perdas ( 11) e
que normalmente não é considerada nas expressões empíricas.

5.6.2.2. Fórmula de Hazen-Williams (12)

É, sem dúvida, a fórmula prática mais empregada pelos calculistas para condutos sob pressão desde 1920,
principalmente em pré-dimensionamentos. Com resultados bastante razoáveis para diâmetros de 50 a 3500mm, é
equacionada da seguinte forma:

J = 10,643.C-1,85. D-4,87. Q1,85, Eq. 5.7

onde C é o coeficiente de rugosidade que depende do material e da conservação deste, conforme exemplos no
quadro abaixo.
Tipo de tubo Idade Diâmetro (mm) C
< 100 118
100 - 200 120
Novo
225 - 400 125
450 - 600 130
< 100 107
100 - 200 110
- Ferro fundido pichado 10 anos
225 - 400 113
450 - 600 115
<100 89
- Aço sem revestimento, 100 - 200 93
20 anos
soldado 225 - 400 96
450 - 600 100
< 100 65
100 - 200 74
30 anos
225 - 400 80
450 - 600 85
Nova < 100 107
- Manilha cerâmica ou 100 - 200 110
usada 225 - 400 113
< 100 107
- Aço sem revestimento, 100 - 200 110
rebitado 225 - 400 113
Novo 450 - 600 115
< 100 89
100 - 200 93
usado
225 - 400 96
450 - 600 100
< 100 120
- Ferro fundido cimentado 100 - 200 130
Novo
- Cimento amianto - Concreto 225 - 400 136
450 - 600 140
- Aço revestido 500 - 1000 135
ou
- Concreto > 1000 140
Até 50 125
- Plástico (PVC) usado 60 - 100 135
125 - 350 140

Esta expressão tem como grande limitação teórica o fato de não considerar a influência da rugosidade relativa no
escoamento, podendo gerar resultados inferiores à realidade durante o funcionamento, na perda calculada para
pequenos diâmetros e valores muito altos para maiores, caso não haja uma correção no coeficiente C usualmente
tabelado.

5.6.2.3. Fórmula de Chézy (13)

Originalmente definida em 1775, é a mais famosa e tradicional expressão para cálculo hidráulico de condutos
trabalhando em escoamento livre. Normalmente é apresentada da seguinte forma:

, Eq. 5.8

onde V é a velocidade média, R o raio hidráulico, J a declividade da linha de energia (perda unitária) e C é o
fator de resistência denominado de Coeficiente de Chézy, que depende do acabamento das paredes do conduto.

5.6.2.4. Fórmula de Bazin (14)


Muito mencionada, principalmente em publicações francesas e italianas, esta equação apresenta bons resultados
para cálculos de condutos livres. Bazin criou uma expressão para o coeficiente C de Chézy sem considerar a
influência da inclinação da linha de energia.

Normalmente é apresentada como segue:

, Eq. 5.9

onde m = 0,16 para a maioria dos tipos de canalizações empregadas nos esgotamentos sanitários e R o raio
hidráulico. Abaixo é apresentada uma listagem dos valores de m de Bazin para superfícies em bom estado de
conservação, mais citados na literatura:

1 - CANAIS

• alvenaria de pedras brutas 1,40


• alvenaria de pedras brutas cortadas 0,70
• alvenaria de pedras com faces retangulares 0,28
• alvenaria em tijolos aparentes 0,33
• alvenaria rebocada 0,22
• concreto sem acabamento 0,30
• concreto com revestimento alisado 0,11
• concreto com revestimento “queimado” 0,06
• escavado em rocha 1,70
• terra limpa e estável 0,70
• terra coberta com grama 1,00
• terra coberta com plantas aquáticas 1,40

2 - TUBOS

• aço soldado 0,14


• cerâmicos vitrificados 0,16
• cimento-amianto 0,11
• concreto 0,22
• ferro fundido 0,14
• madeira aparelhada 0,14
• em uso com esgotos sanitários 0,16

5.6.2.5. Fórmula de Manning (15)

A equação de Manning tem a seguinte forma

, Eq. 5.10

onde n é um coeficiente que depende da rugosidade das paredes dos condutos, comumente denominado de
coeficiente de rugosidade de Manning. Em geral n = 0,013 para escoamentos de esgotos sanitários (Veja lista).

Em um escoamento livre permanente e uniforme

, Eq. 5.11
onde V é a velocidade e I a inclinação da superfície livre da água que, paralela ao fundo do canal (seria
teoricamente a perda unitária média do escoamento no trecho em estudo).

Abaixo uma seqüência de valores de n da Expressão de Manning comumente apresentados na literatura

1 - CANAIS

• alvenaria de pedras brutas argamassadas 0,020


• alvenaria de pedras com faces retangulares 0,017
• alvenaria em tijolos aparentes 0,015
• alvenaria rebocada 0,012
• concreto sem acabamento 0,014
• concreto com revestimento alisado 0,012
• concreto com revestimento “queimado” 0,010
• terra limpa e estável 0,025
• terra coberta com grama 0,030
• terra coberta com plantas aquáticas 0,035

2 - TUBOS

• aço rebitado 0,015


• aço soldado 0,011
• cerâmicos vitrificados 0,013
• cimento-amianto 0,011
• concreto com revestimento 0,012
• concreto sem revestimento 0,015
• ferro fundido com revestimento 0,012
• ferro fundido sem revestimento 0,013
• ferro galvanizado 0,014
• madeira aparelhada 0,011
• PVC 0,013
• em uso com esgotos sanitários 0,013

Embora na prática os valores de n sejam freqüentemente tomados como constantes para qualquer valor de
lâmina líquida (altura de água no conduto), sabe-se cientificamente que esta hipótese não é verdadeira, sendo o
procedimento temerário para cálculos rigorosos. A variação de “n” com a lâmina está representada na Figura 5.6.

5.7. Perdas de Carga Localizadas - hf’

Também denominadas de perdas singulares, locais ou acidentais, no caso de condutos sob pressão, podem ser
determinadas a partir da seguinte expressão geral

, Eq. 5.12

onde V a velocidade na menor seção da singularidade e K um coeficiente de perdas localizadas que varia de
acordo com cada singularidade, como mostram alguns exemplos listados em quaisquer livros de hidráulica ou
de instalação predial.

No caso de escoamento livre não existem fórmulas universalmente aceitas e, na maioria das vezes, estas perdas
são desprezadas exceto em casos particulares de curvas, alargamentos, contrações de seção, encontros de canais
e embocaduras. Alguns projetistas usam o expediente de acrescer ao valor de “n” tabelado 20% a 30%, como
tentativa de justificar e prevenir contra distorções no funcionamento dos condutos, enquanto que outros
simplificam mais ainda tomando quedas de carga de 3 a 10cm, conforme o tipo de acidente.
5.8. Tensão Trativa - 

Os líquidos esgotáveis possuem em seu meio materiais mais pesados que a água e, conseqüentemente,
sedimentáveis naturalmente. É, pois, essencial que se evitem estes depósitos indesejáveis para que, com o tempo
não ocorram reduções sucessivas da seção útil ou que se aglomerem em volumes sólidos maiores provocando
abrasão nas paredes internas dos condutos quando arrastados pelo líquido, prejudicando o escoamento e
danificando a canalização. Isto implica em dimensionamento das tubulações de esgotos em condições de
escoamento tais que se garanta um esforço tangencial mínimo entre o líquido em escoamento e a superfície
molhada do conduto. Deste esforço tangencial origina-se o conceito de tensão trativa - (ou tensão de arraste)
definida como o esforço tangencial unitário transmitido às paredes do conduto pelo líquido em escoamento. Para
melhor entendimento do conceito de tensão trativa, a seguir será apresentada a obtenção de uma expressão para o
seu cálculo.

Imagine-se um trecho de canalização funcionando em escoamento livre conforme esquematizada na Figura 5.2.
Analisando a figura tem-se

P’ =  . A. L e F = P’. sen , onde “ P’ ” é o peso do líquido,

 =  . A. L. sen  

Por definição tensão é força / área, logo

 = F / (P. L) , onde P é o perímetro molhado. Assim

 = ( A.L.g .sen ) / ( P.L ) = R.g .sen , onde “R” é o raio hidráulico.

Como para ângulos de até 5o (a maioria dos condutos livres têm declividades inferiores a esta) sen @ tg e
denominando-se de “I” a inclinação do fundo do conduto, então

 = R. g. I , Eq. 5.13

permitindo, pois, que se possa admitir que a tensão de arraste em um escoamento de esgoto é função do raio
hidráulico, do peso específico e da declividade do conduto.

Como parâmetro para dimensionamento de coletores de esgoto há autores que recomendam, por exemplo, como
tensão de arraste média, 0,60Pa (16) para PVC e 1,50Pa para tubulações de concreto.

FIG. 5. 2 - Forças de ação em um canal


5.9. Energia Específica - E

Também chamada de “carga específica”, é um conceito muito importante quando se estuda escoamento livre.
Representa a quantidade de energia por unidade de peso do líquido, medida a partir do fundo do canal. É
formulada pela equação:

, Eq. 5.14

onde y é a altura da água no canal.

Colocando-se os valores de E em função de y resulta um diagrama típico mostrado na Figura 5.3, onde se
desenvolve uma curva com duas assíntotas, uma ao eixo EE e outra a bissetriz dos EE e YY, onde para cada valor
de E tem-se dois valores de y, exceto no mínimo da curva, onde se tem o menor valor para “E” com que a vazão
poderá escoar na seção em estudo. É neste ponto onde se lêem as denominadas condições críticas do fluxo
(lâmina crítica, velocidade crítica, etc.).

FIG. 5. 3 - Diagrama de energia específica

É importante lembrar que no ponto crítico o escoamento é bastante instável podendo, a pequenas alterações na
energia específica, provocar sensíveis alterações na lâmina líquida, trazendo transtornos para o funcionamento da
obra projetada.

Conceitualmente é identificado como escoamento superior, lento, fluvial, tranqüilo ou subcrítico se o mesmo é
desenvolvido com lâmina maior que a crítica e inferior, rápido, torrencial ou supercrítico quando a altura for
inferior.

Geralmente canalizações com escoamento livre são projetadas para funcionarem no regime subcrítico.
Velocidades elevadas, sobre-elevações, propagação de ondas e áreas de subpressões são exemplos de ocorrências
complicadoras que desaconselham o projetista trabalhar com escoamentos supercríticos a não ser em situações
sem alternativas como, por exemplo, no caso de vertedores livres. O ressalto hidráulico é, também, um exemplo
de mudanças de regime.
5.10. Número de Froude - Fr (17)

Número de Froude é um valor que relaciona forças de inércia com as de gravidade no fluxo, onde,

, Eq. 5.15

Se Fr for menor que a unidade então o regime é subcrítico. Se igual a unidade tem-se a condição crítica e quando
for maior o escoamento desenvolve-se em regime supercrítico. Assim na condição crítica, tem-se

, Eq. 5.16

onde g é a aceleração de gravidade.

5.11. Escoamento Livre em Seção Circulares - Elementos Geométricos/Trigonométricos

5.11.1. Seção Plena - y / do = 1,0

Se um conduto de seção circular de diâmetro do está completamente cheio por um líquido (esgoto, por exemplo)
escoando hidraulicamente em condições livres, ocupando totalmente cada seção contínua e sucessivamente, diz-
se que este conduto está funcionando a “seção plena”. Nesta situação suas expressões geométricas são:

• área molhada plena: Ao = . do2/4;


• perímetro molhado pleno : Po = . do ;
• raio hidráulico pleno: Ro = Ao/ Po = do/4 ;
• velocidade a seção plena: Vo = (1/n) . (do/4)2/3. Io0,5 Eqs. 5.17

OBS.: O índice oem do e Io lembra que a seção em estudo é circular e nas demais incógnitas que além de circular
a seção está funcionando cheia. Esta simbologia, no entanto, não é única, ficando a critério de cada autor.
5.11.2. Seção Parcialmente Cheia - y / do  1,0

Esta situação encontra-se esquematizada na Figura 5.4 onde “b” é a corda, “y” a altura (lâmina líquida), “d o” o
diâmetro da seção e “â” o ângulo central molhado. Logo, geometricamente,

• â = 2arccos[ 1 - (2y / do) ] em radianos ou y/do = [ 1 - cos ( â/2 ) ] / 2 ,


• A (área molhada) = (do2/ 8 ) . ( â - sen â ) ,
• P (perímetro molhado) = â . do / 2 ,
• R (raio hidráulico) = (do / 4) [ 1 - (sen â / â ) ] ,
• b (corda) = do . sen (â/2) Eqs. 5.18

e, empregando Manning,

• â = 6,063 . (n.Q / Io0,5)0,5. do -1,5. â0,4 + sen â ,

para 1,60 rad  â  4,40 rad (18). Fora deste intervalo o desenvolvimento do ângulo central torna-se
incompatível com a evolução da curvatura interna da superfície, para a expressão.

FIG. 5. 4 - Seções parcialmente cheias - y/do < 1,0

5.11.3. Relação Entre os Elementos

• A/Ao = (1 / 2) (â - sen â)


• P/Po = â/2
• R/Ro = [ 1 - (sen â / â ) ]
• V/Vo =[ 1 - (sen â / â ) ] 2/3
• Q/Qo = [ (1 / 2) (â - sen â)] . [ 1 - (sen â / â ) ] 2/3. Eqs.5.19
Estas relações estão mostradas na Figura.5.5.

Figura.5.5 - Relações entre elementos das seções circulares

5.12. Exemplos

• 1. Um trecho tubulação de seção circular de 0,40m de diâmetro executado em concreto simples, está
assentado sob uma declividade de 0,3%. Pede-se calcular a capacidade do trecho quando seu
funcionamento for (a) à seção plena, escoando livremente e (b) com lâmina líquida relativa de 75%.

Solução: (admitindo-se “n” constante = 0,013)

a) Qo = Ao .Vo = (.do2/4).[(1/n).(do /4)2/3 . ( Io )1/2]

com do = 0,40m, n = 0,013 e Io = 0,003m/m

 Qo  0,1135m³/s = 113,5 l/s;

b) y = 0,75do

1. Solução analítica
Pelas Eqs. 5.18 tem-se y/do = [ 1 - cos (â/2) ] / 2 = 0,75 onde cos (â/2) = - 0,5 ou

â = 2 cos-¹ (- 0,5) ou â = 2 x 2,0944  4,19 rad,

A (área molhada) = do2 x (â - sen â)/8 = 0,02 x (4,19 - sen 4,19)  0,101m2

e R = (do/4) x [ 1 - (sen â)/â ] = 0,121 m, logo como Q = A.V, então

Q = 0,101 x (1 / 0,013) x (0,121) 2/3 x (0,003)1/2  104,1 l/s ;

2. Solução gráfica (utilizando a Fig.5.5, n constante)

Com y/do = 0,75 segue-se na horizontal até encontrar a curva de vazão de onde, na

vertical, lê-se Q / Qo= 0,913, então, Q = 0,92 x 113,5 104,4 l/s;

OBS.: Caso se deseje encontrar a área, o raio hidráulico e velocidade parciais o

procedimento é análogo.

• 2. Encontrar as expressões equivalentes às Eqs.5.18 quando os ângulos forem medidos em graus e não
em radianos.

Solução :

Os valores de â serão apresentados em graus aoe multiplicados por 2 / 360 quando estiverem

como parcela da correspondente expressão.

Exemplo: A( = área molhada) = do2 (â - sen â) / 8, então:

A = do2{[(2/ 360)ao] - (sen ao)}/8,

P = â.do/2 = (2/ 360)ao.do/2 e

R = (do/4){[ 1 - (sen ao)/[(2/ 360)ao]}

ou seja, ao = â x 360o/ 2 ou â = ao] x 2 / 360o.

5.13. Exercícios

• 1. Definir desnível geométrico, linha piezométrica, perda de carga unitária, conduto livre e conduto
forçado.
• 2. Definir regime permanente e uniforme de escoamento.
• 3. Estudar o significado de

- peso específico;
- densidade absoluta e relativa;
- viscosidades dinâmica e cinemática;
- tensão superficial e módulo de elasticidade;
- pressão de vapor.
• 4. Pesquisar o significado de

- coeficiente de Coriolis;
- conduto liso e conduto rugoso;
- pressão absoluta e pressão relativa.

• 5. O que significa tensão trativa ? e energia específica?


• 6. Que quer dizer “condições críticas de escoamento”?
• 7. Para condutos circulares encontrar em função de “do” as expressões geométricas para cálculo da área
molhada A, perímetro molhado P e raio hidráulico R no caso de:

a) y = do / 2;
b) y = 3do / 4.

• 8. Sabendo-se que um determinado trecho de canalização de 1000mm de diâmetro‚ é capaz de


transportar teoricamente 1,50m³/s de vazão. Para um coeficiente de Hazen-Williams de 130, determinar
os coeficientes correspondente de Manning e o da fórmula universal.
• 9. Um determinado trecho de galeria de 600mm de diâmetro está assentado sob uma declividade de
0,003m/m. Sendo n = 0,013 para qualquer lâmina, calcular

a) Qo e Vo;
b) Q e V para y = 0,40m;
c) y e V para Q = 0,70Qo;
d) y, A, R e Q para V = 1,10 Vo.

• 10. Resolver o exercício anterior empregando “n” variável.


• 11. Um canal triangular com paredes inclinadas de 45°, revestido com cimento alisado a colher de
pedreiro, descarrega uma vazão de 2,5 m³/s. Se sua declividade longitudinal de 0,20% calcular a altura
da água nesse canal.
• 12. Uma galeria circular de concreto revestida internamente com material betuminoso, com diâmetro de
1,20m, tem um caimento de 0,85m/Km. Calcular a capacidade e a velocidade de escoamento quando a
mesma trabalhar cheia escoando livremente.
• 13. Que diâmetro dever-se-ia indicar para que um emissário de esgotos sanitários fosse capaz de
transportar 282 l/s a 0,005 m/m, para uma lâmina máxima de 1/2 seção ? Admitir n = 0,013 a seção
plena.
• 14. Um canal retangular de 3,0 m de largura conduz cerca de 2600 l/s quando a profundidade molhada é
de 1,0m. Pede-se calcular a energia específica da corrente líquida e a verificação do regime de
escoamento.
• 15. No exercício anterior verificar as condições críticas de escoamento para n = 0,013. Sugestão:
calcular q (vazão unitária = 2,16/3 l/s.m) e empregar as expressões h c = (q2/g)1/3, Vc=(g.hc )1/2 e Ic =
(nVc / R2/3)2.
• 16. Deduzir a partir do conceito de energia específica e do número de Froude, as expressões sugeridas
no exercício anterior.
• 17. Para Q = 50 l/s, Io = 0,002 m/m e uma altura molhada máxima de 0,75d o, encontrar o diâmetro
comercial para a situação e verificar as condições de escoamento (V e y) para n = 0,013 (constante).
• 18. Calcular a capacidade de uma galeria funcionando a seção plena, sem carga, de diâmetro de
1500mm sob 0,08% de declividade. Qual seria a vazão, na mesma galeria, quando esta funcionasse a
2/3 de seção? Utilizar expressão de Bazin.
• 19. Quantos trechos paralelos de coletores de esgoto de 200mm de diâmetro com lâmina máxima de 3/4
de seção, a 0,005 m/m de declividade, poderiam ser substituídos por um único de 700 mm nas mesmas
condições de declividade, trabalhando a 70% de seção, para n = 0,013 a seção plena, nas seguintes
hipóteses: (a) n constante e (b) n variável.
NOTAS*

( 1) De Andreas Celsius (1701-1744), criador da escala termométrica centígrada, publicada pela Real Sociedade Sueca em 1742, mesmo ano em que
era inventado o aço fundido. Usava o ponto de ebulição da água em uma extremidade (0 grau!) e o de congelamento na outra (100 graus). A inversão
da escala tal como é usada hoje, deve-se a outro sueco, o médico Carl von Linné (1707-1778) e, assim, tornou-se a escala padrão da física.

( 2) De Simeon Denis Poison (1781-1840), engenheiro, físico e matemático francês, amigo pessoal de Lagrange (1736-1813) e Laplace (1749-1827).
Desenvolveu pesquisas sobre mecânica, elasticidade, calor, som e estudos matemáticos com aplicação na medicina e produziu escritos sobre
movimentos de ondas em geral e coeficientes de contração e a relação entre estes e a extensão. Na hidrodinâmica seu mais notável trabalho foi
Mémoire sur les équations générales de l'équilibre et du mouvement des corps solides élastiques et des fluides, relacionando equilíbrio de sólidos
elásticos e correntes de fluidos compressíveis, em 1829, e na termodinâmica a Teoria matemática do calor, de 1835.

( 3 ) De George Gabriel Stokes (1819-1903), matemático e notável físico teórico britânico, nascido em Skreen, Irlanda, e educado em Cambridge,
vivendo na Inglaterra por toda a vida, onde foi professor em Cambridge, secretário da Royal Society e, finalmente, seu presidente. Publicou mais de
cem trabalhos científicos sobre variados assuntos, particularmente sobre hidrodinâmica. Especialista em pesquisas para a determinação de viscosidade
de fluidos, particularmente usando em seus experimentos conjuntos de esferas. Em 1845 com o paper On the Theories of the Internal Friction of
Fluids in Motion, and of the Equilibrium and Motion of Elastic Solid, publicou a versão definitiva da equação Navier-Stokes (Ver Louis Marie Henri
Navier, 1785-1836) , utilizando o parâmetro (viscosidade dinâmica). Stoke: unidade de medida de viscosidade cinemática, no c. g. s., igual à de um
líquido cuja viscosidade é um poise e cuja massa volumétrica é um grama por centímetro cúbico (vale 104 unidades MKS de viscosidade cinemática).

( 4 ) Daniel Bernoulli (1700-1782), cientista suíço de Gröningen, criador da Física Matemática juntamente com o alemão Leonard Euler (1707-1783),
e os franceses Alexis Claude Clairaut (1713-1765) e Jean le Rond d’Alembert (1717-1783)

( 5 ) Gaspard Gustave de Coriolis (1792-1843), professor e hidráulico francês, nascido em Paris, formado na Ecole des Ponts et Chaussées e,
posteriormente, professor da Politécnica de Paris e, também, diretor do Corps des Ponts et Chaussées. Introduziu na hidráulica um fator de correção ,
denominado de coeficiente de Coriolis, para cálculo da velocidade média em canais abertos, que, depois, um seu compatriota e contemporâneo, Pierre
Vautier (1784-1847), que também foi diretor do Corps, dirimindo dúvidas do próprio Coriolis, concluiu que não era uma constante, decrescendo com
o crescimento da velocidade média, sendo igual a 2,0 no fluxo laminar e 1,10 a 1,01 no hidráulico ou turbulento, embora nesta situação, na prática,
possamos trabalhar como igual a 1,00, segundo o mesmo Vautier.

( 6 ) Hoje muito conhecida, um tanto erroneamente, como a Fórmula Darcy-Weisback (Henry Philibert Gaspard Darcy (1803-1858), engenheiro
francês, de Dijon) mas na verdade originalmente divulgada, em 1841, pelo professor de matemática saxônico Julius Weisback (1806-1871).

( 7) Definido em 1883 por Osborne Reynolds (1842-1912), matemático e engenheiro irlandês de Belfast. Igual, por exemplo, a V.D/n para seções
circulares de diâmetro D.

( 8) Historicamente o termo “turbulência” (do inglês turbulence) foi introduzido na Hidráulica pelo contemporâneo de Reynolds, professor William
Thomson, o Lorde Kelvin (1824-1907), para designar o estado do escoamento dos fluidos além do número crítico de Reynolds. Nascido em Belfast,
Irlanda e formado na Universidade de Cambridge, foi professor da Universidade de Glasgow por 53 anos e o criador da escala absoluta para medição
de temperaturas.

( 9) Apresentada em 1935 pelos engenheiros Theodore von Kármán (1881-1963), húngaro naturalizado americano e o alemão Ludwig Prandtl (1875-
1953).

(10) Cyril F Colebrook e Cedric White, foram dois pesquisadores em hidráulica do Imperial College de Londres, que construíram, a partir do trabalho
de Prandtl e seus estudantes, a equação de Colebrook-White, também conhecida como equação universal de perda de carga.

(11) Divulgada em 1938, a fórmula universal mostra que na situação de turbulência os valores de "f" tornam-se mais difíceis de ser determinados,
sendo que freqüentemente, recorrem-se a diagramas específicos como, por exemplo, o denominado Diagrama Universal de Moody, publicado em
1939 (Lewis Ferry Moody, 1880-153, engenheiro americano), baseado nos resultados experimentais de Nikuradse divulgadas em 1933, na Alemanha
(Johann Nikuradse, 1894-1979, notório pesquisador alemão no campo das resistências a escoamentos de fluidos em tubos), na anáise matemática de
Prandtl (1875-1953) e de Kárman (1881-1963) e nas próprias observações do autor, notadamente em tubulações industriais. Também são comumente
empregados os diagramas de Rouse (Hunter Rouse, 1906-1996, conceituado professor da State Unisity of Iowa) e o de Stanton (Thomas Edward
Stanton, 1865-1931, engenheiro-físico norteamericano)

(12) Desenvolvida pelo Engenheiro Civil e Sanitarista Allen Hazen e pelo Professor de Hidráulica Garden Williams, entre 1902 e 1905, é, sem dúvida,
a fórmula prática mais empregada pelos calculistas para condutos sob pressão desde 1920, principalmente em pré-dimensionamentos. Com resultados
bastante razoáveis para diâmetros de 50 a 3500mm,

(13) Sua criação é devida ao engenheiro francês natural de Châlons-sur-Marne, Antoine Chézy (1718-1798) e divulgação científica em 1876, creditada
ao engenheiro alemão de Königsberg, Gotthilf Heinrich Ludwig Hagen (1797-1884).

(14) Divulgada em 1897, esta equação foi desenvolvida pelo engenheiro francês, nascido em Nancy, Henri Emile Bazin (1829-1917).

(15) Apresentada nos E.U.A. em 1889, pelo engenheiro irlandês nascido em Normandy, Robert Manning (1816-1897) e recomendada para uso
internacional desde 1936 pelo Executive Committee do 3º W. P. Conference, Wash. D.C.‚ é por sua simplicidade e resultados bastante satisfatórios, a
fórmula prática mais difundida na literatura técnica americana e a mais empregada pelos engenheiros deste lado do planeta para dimensionamento de
condutos livres sendo, inclusive, recomendada pelas normas da ABNT para escoamento livre ao lado da fórmula universal para cálculos de condutos
sob pressão.
(16) Em homenagem a Blaise Pascal (1623-1662), filósofo e matemático francês, natural de Clermont-Ferrand que estabeleceu o princípio de que diz:
em um líquido em repouso ou equilíbrio as variações de pressão transmitem-se igualmente e sem perdas para todos os pontos da massa líquida. Pascal:
1Pa = 1 N/m², 105 N/m² = 1 bar.

(17) Associado ao nome do matemático e engenheiro civil inglês, William Froude (1810-1879), nascido em Dartinghan, Devonshire, na realidade teve
seus fundamentos teóricos originais nos estudos do professor de mecânica francês, alsaciano de nascimento, Ferdnand Reech (1805-1880).

(18) Conforme cita Sérgio Rolim Mendonça, professor da Universidade Federal da Paraíba, em Tabelas Adequadas para Aplicação de Métodos
Iterativos nos Cálculos Analíticos de Condutos em Sistemas de Abastecimento de Água e Esgotos Sanitários

* Fonte: Site Só Biografias


CAPÍTULO VI
CRITÉRIOS DE DIMENSIONAMENTO / CONDIÇÕES TÉCNICAS

6.1. Introdução

Os condutos sanitários, exceção os de recalques e sifões invertidos, funcionam como condutos livres e podem ser
aplicados no seu dimensionamento, as mesmas leis que regem o escoamento de águas, conforme estudo
desenvolvido no Capítulo 6. Os trechos iniciais dos coletores têm regimes de escoamento extremamente
variáveis, tendo em vista que dependem diretamente do número de descargas simultâneas, originárias dos
conjuntos ou aparelhos sanitários, conectados às ligações prediais. A medida que o coletor estende-se para
jusante o número de descargas simultâneas vai aumentando, bem como desaparecendo os intervalos sem
descargas nos coletores a montante e, associando-se a isto, o decorrer de tempo de escoamento do líquido no
interior dos condutos, fazendo com que o escoamento para jusante torne-se contínuo, variando, contudo, de
intensidade ao longo do dia, como ocorre com o consumo de água.

6.2. Hipótese de Cálculo

6.2.1. Hipótese Clássica

No dimensionamento clássico utiliza-se a hipótese de que o escoamento dar-se-á em regime permanente e


uniforme em cada trecho, embora se saiba que, principalmente nos coletores, as vazões crescem para jusante em
virtude dos acréscimos oriundos das ligações prediais. Outros fatores poderiam também ser considerados como
contrários a aplicação do conceito citado, tais como: variação de vazão ao longo do dia, presença variável de
sólidos, mudanças de greide ou de cotas no poço de visita de jusante, etc. No entanto, como o escoamento tem
que se dar em condições de lâmina livre deve-se considerar, para efeito de cálculo, a situação mais desfavorável,
a qual ocorrerá, sem dúvida, no instante de maior vazão, na seção do extremo jusante do trecho em estudo.

Admitindo-se, pois, a vazão máxima de jusante como permanente e uniforme ao longo do trecho, estar-se-á
simplesmente dimensionando a favor da segurança quanto a sua capacidade, visto que se espera que para
montante ocorra, no máximo, em termos de lâmina livre, uma situação semelhante a da seção final, visto que não
é permitido diâmetros diferentes em um mesmo trecho. Para efeito de validade do conceito aplicado,
desconsidera-se também o rebaixamento da lâmina a jusante, quando as cotas da calha do extremo jusante no
trecho e do montante do seguinte forem diferentes.

No escoamento permanente e uniforme não há variação na velocidade com tempo e na velocidade com a
extensão, implicando em que o escoamento dar-se-á em virtude do desnível geométrico (igual a perda da carga
no trecho), confinado em uma canalização capaz de comportar a vazão correspondente e nas condições
adequadas.

6.2.2. Justificativa

É fácil entender que a vazão de contribuição a cada instante é uma conseqüência da utilização simultânea dos
aparelhos ou conjuntos sanitários, notadamente nas áreas de contribuição iniciais de projeto. No método clássico
de determinação das vazões de esgotos despreza-se esse conceito, ou seja, não se considera o modo da
distribuição das contribuições na rede, que é uma conseqüência do tipo e distribuição do consumo de água e que
depende da simultaneidade da utilização dos aparelhos, visto a complexidade do estudo de hidrogramas de
escoamento, em geral construídos a partir de suposições teóricas carentes de confirmações reais. É importante
lembrar que o método citado fornece bons resultados de funcionamento, principalmente para pequenos projetos
como conjuntos habitacionais, pequenas cidades, etc., melhorando ainda mais no sentido de jusante das
canalizações quanto as condições de escoamento, porém pode implicar em obras superdimensionadas nos
condutos principais, caso não seja considerado o efeito do amortecimento, principalmente para bacias de
drenagem superiores a cinco quilômetros quadrados
O dimensionamento clássico é feito a partir da determinação da vazão máxima de contribuição que, por sua vez,
é calculada a partir do consumo máximo de água. Esse consumo pode ser proveniente de dois tipos: a) consumo
relativo a trabalhos domésticos, abrangendo gastos na lavagem de utensílios, cozinha, limpeza geral e
vazamentos e b) consumo de uso pessoal como banhos, descargas sanitárias, ablusões e lavagens de roupa. A
separação dos consumos conceitualmente é válida, pois o primeiro é constante, resultante de tarefas coletivas em
cada residência, enquanto que o segundo depende, principalmente, dos hábitos individuais, notadamente os
higiênicos.

6.3. Condições Específicas

Para dimensionamento de coletores de esgotos uma série de limitações técnicas deve ser observada para que o
processo de coleta e o rápido e seguro afastamento das águas residuárias seja garantido de forma contínua e
adequada durante toda a vida útil do sistema. Com estes objetivos alcançados, consegue-se maior vida útil para
as tubulações, menores possibilidades de vazamentos (ocorrências mais freqüentes em condutos sob pressão) e
condições mais desfavoráveis ao surgimento de anaerobiose, condição danosa para alguns materiais utilizados na
confecção dos tubos

A garantia de funcionamento contínuo obtém-se desde que não haja obstruções ou rupturas nos condutos por
causa de sedimentação de sólidos ou recalques negativos nas fundações de apoio às tubulações. Para amortizar
os possíveis problemas de funcionamento por causa das variações de vazão ao longo do dia, maiores vazões
implicam em maiores velocidades que ajudam a “limpar” o coletor e, durante a madrugada, quando ocorrem as
vazões mínimas o líquido escoado tem muito menos material em suspensão, ou seja, poucos sólidos a serem
transportados.

A NBR 9649/86 - ABNT relaciona uma série de condições específicas para dimensionamento hidráulico dos
coletores de esgoto as quais serão apresentadas a seguir:

• Seção A- Nos sistemas de esgotamento, em geral a seção circular é a mais empregada, considerando-se
que essa é a que apresenta maior rendimento se comparada às demais seções em condições
equivalentes, visto ser a que apresenta maior raio hidráulico, além de menor consumo de matéria-prima
para moldagem dos seguimentos (tubos). Grandes vazões, no entanto, implicam em grandes diâmetros o
que pode inviabilizar sua especificação diante de várias circunstâncias, conforme será mostrado no
Capítulo 15. As normas e especificações brasileiras indicam, para os diversos tipos de materiais, um
diâmetro mínimo de do= 100mm.
• Vazão Q - Para todos os trechos da rede serão sempre estimadas as vazões de início Q i e final de plano
Qf , para verificação do funcionamento do trecho nas situações extremas de vida do projeto, sendo que a
vazão a considerar para determinação das dimensões de qualquer trecho não será inferior a 1,50 l/s o
que equivale, aproximadamente, a descarga de uma bacia sanitária.
• Tensão Trativa  - A tensão trativa tem sido reconhecida como um bom critério de projeto e tem
substituído o critério anterior (até os anos 70) que era o da velocidade mínima para dimensionamento de
coletores. Para assegurar a autolimpeza, evitando que os sólidos pesados sedimentem-se ao longo dos
condutos e possam obstruí-los com o tempo, e limitar a espessura da camada de limo interna nas
paredes, reduzindo a produção de sulfetos, a NBR 9649/86 recomenda que para cada trecho seja
verificado um valor mínimo de tensão trativa média igual a 1,0 Pa ( = 1N/m² para a vazão inicial Q i, se
n = 0,013. Segundo a mencionada norma este valor de tensão é suficiente para arrastar grãos de areia de
1,5mm de diâmetro ou menores e outros materiais sedimentáveis.
• Velocidade V - É lógico que quanto maior a velocidade melhores serão as condições de arraste, mas por
outro lado velocidades excessivas colocariam em risco a estrutura das tubulações, principalmente nas
juntas, além de danificarem as próprias paredes internas pelo efeito da abrasão, ao longo do tempo.
Além disso a turbulência acentuada contribuiria para a entrada de ar no meio líquido aumentando,
assim, a lâmina líquida no interior do trecho. A NBR 9649 indica como limite máximo a velocidade de
5,0m/s, que logicamente, só ocorreria em condições finais de projeto. Para que não haja preocupações
do ponto de vista da engenharia é recomendável não se trabalhar em trechos consecutivos, com
velocidades superiores a 3,0m/s. É importante que se verifique a tensão trativa para as condições
iniciais de projeto e as velocidades máxima e crítica esperadas para o fim do plano. Tradicionalmente
são recomendados os seguintes limites de velocidades V:
- ferro fundido V até 6,0 m/s
- PVC, manilhas cerâmicas V até 5,0 m/s
- concreto V até 4,0 m/s
- fibrocimento V até 3,0 m/s

• Rugosidade n - O coeficiente de rugosidade de Manning depende do diâmetro, da forma e do material


da tubulação, da relação y/do e das características do esgoto. Independente desta gama de influências, é
usual empregar-se n = 0,013 para esgotos sanitários tendo em consideração que o número de
singularidades (PV, TIL etc.) independe do material da tubulação, bem como a formação logo após a
entrada em uso, da camada de limo junto as paredes, uniformiza a resistência ao escoamento. Em climas
mais quentes e declividades acentuadas esta camada de limo pode se tornar menos significativa em
relação ao material das paredes, principalmente na parte inferior da seção molhada.

• Declividade Io- Definidas as vazões de projeto (inicial e final) em cada trecho segue-se a determinação
do diâmetro e da declividade. Esta declividade deverá ser de tal modo que além de garantir as mínimas
condições de arraste, deverá ser aquela que implique em menor escavação possível, associada a um
diâmetro escolhido de tal maneira que transporte a vazão final de projeto em condições normalizadas,
para cálculo de tubulações de esgotamento sanitário. A declividade mínima que satisfaz a condição de
tensão trativa  =1,0 N/m², =10 KN/m³ e n = 0,013, pode ser determinada pela equação

Io,mín = 0,0055 Qi-0,47 Eq. 6.1

OBS: Io,mín em m/m e Qi em l/s, não sendo recomendável declividades inferiores a 0,0005 m/m. A declividade
máxima será aquela para qual se tenha a velocidade máxima. Por exemplo, sendo n = 0,013 então, Io,mín = 4,26
Qf-0,67para Vfinal = 5,0 m/s (Eq. 6.2) e Io,mín = 2,53 Qf-0,67 para Vfinal = 4,0 m/s (Eq. 6.3), segundo MENDONÇA, S. R.,
Hidráulica dos Coletores de Esgotos, 2a Edição, 1991, em Projeto e Construção de Redes de Esgotos, ABES, RJ,
1986.

• Lâmina d'água y (Figura 6.1) - As lâminas d’água devem, no máximo alcançar 75% do diâmetro do
coletor para garantia de condições de escoamento livre e de ventilação. São determinadas admitindo-se
o escoamento em regime permanente e uniforme e para a vazão final Qf(situação de lâmina máxima de
projeto). Quando a velocidade final Vf for superior a velocidade crítica Vc , a maior lâmina admissível,
segundo a NBR 9649/86, será de 50% do diâmetro. Para tubulação funcionando a 3/4 de seção e do até
300mm (segundo o Professor MENDONÇA, na publicação já citada), a NBR 9649 recomenda que essa
velocidade crítica pode ser calculada pela seguinte expressão

V = 6. (g . R)1/2 , (onde “g” é a aceleração de gravidade local) Eq. 6.4

Figura 6.1 - Desenhos esquemáticos de lâminas molhadas


OBS: A relação lâmina d’água/diâmetro ( y/do ) é denominada de lâmina relativa. É importante verificar o valor
da velocidade resultante de modo a verificar se esta é ou não superior a velocidade crítica, pois velocidades
superiores implicam em arraste e mistura de ar com as águas em escoamento. Evidente que havendo a introdução
de ar na mistura ocorrerá aumento do volume do líquido e, conseqüentemente, aumento da lâmina líquida, sendo
esta a razão básica para a limitação da lâmina relativa máxima em 50%, quando em funcionamento supercrítico.
Embora pelo critério de tensão trativa média tenham-se teoricamente condições de autolimpeza, não é
recomendável projetar-se encanamentos com lâminas iniciais inferiores a 20% do diâmetro da canalização.

6.4. Soluções Gráficas

6.4.1. Ábaco para o Dimensionamento e Verificação da Tubulação de Esgotos pela Tensão Trativa - n = 0,013
( Fig. 6.2 ).

Esta figura, elaborada pelos Engenheiros J. G. O. Machado Neto e M. T. Tsutíya e publicada como anexo a
Revista DAE Nº.140/85, Vol. 45, apresenta uma faixa de utilização para esgotos, para lâminas relativas de 0,20 a
0,75, em função da vazão em l/s e declividade em m/m. Por exemplo: para I o = 0,005m/m e do = 200mm a vazão
variará de 2,0 l/s (y/do = 0,20) até 21,0 l/s (y/do = 0,75).

Fig. 6.2 - Ábaco para o Dimensionamento e Verificação da Tubulação de

Esgotos pela Tensão Trativa (n = 0,013).

(Fonte:Revista DAE - reduzida e scaneada)


6.4.2. Ábaco para Cálculo de Tubulação pela Fórmula de Manning - n = 0,013 ( Fig. 6.3 ).

Publicado originalmente como Anexo à P-NB-567/75 da ABNT, este ábaco (aqui ampliado em sua abrangência)
simplifica bastante o cálculo de condutos circulares em escoamento livre e apresenta os diâmetros dos condutos
em função da lâmina relativa e do fator de condução K que é determinado através da expressão

K = Q / Io1/2com Q em m3/s e Io em m/m, Eq. 6.4

devendo-se trabalhar na faixa de utilização recomendada para esgotos sanitários, de 0,20 a 0,75% de lâmina.
Exemplo: para K = 1,0 então o diâmetro d o indicado será de 350mm (menor diâmetro), correspondendo a um y/d o
= 0,61. A Tabela 6.1 substitui, com vantagens na precisão dos resultados em algumas situações, a utilização
deste ábaco. Por exemplo, para um d o= 450mm tem-se: y/do = 0,75 tem-se K= 2,5998 e y/do = 0,55 tem-se
K=1,6698.
Fig. 6.3 - Ábaco para Cálculo de Tubulação pela Fórmula de Manning (n = 0,013)

(Fonte: Livro Esgotos Sanitárisos do Prof Carlos FErnandes)


Diâmetros
y/do 100mm 150mm 200mm 250mm 300mm 350mm 400mm 450mm 500mm 550mm 600mm 800mm 1000mm 1500mm

Fator de condução K = Q / Io1/2

0,20 0,0045 0,0133 0,0287 0,0521 0,0846 0,1277 0,1823 0,2496 0,3306 0,4263 0,5377 1,1580 2,0995 6,1903
0,25 0,0070 0,0208 0,0449 0,0814 0,1325 0,1998 0,2852 0,3905 0,5172 0,6668 0,8411 1,8114 3,2842 9,6831
0,30 0,0101 0,0298 0,0642 0,1164 0,1893 0,2856 0,4078 0,5583 0,7394 0,9534 1,2032 2,5895 4,6952 13,8431
0,35 0,0135 0,0400 0,0862 0,1563 0,2542 0,3835 0,5475 0,7496 0,9928 1,2802 1,6145 3,4769 6,3042 18,5868
0,40 0,0174 0,0513 0,1105 0,2004 0,3258 0,4915 0,7018 0,9608 1,2724 1,6406 2,0691 4,4562 8,0795 23,8212
0,45 0,0215 0,0634 0,1366 0,2477 0,4028 0,6075 0,8674 1,1875 1,5728 2,0279 2,5575 5,5079 9,9866 29,4439
0,50 0,0258 0,0761 0,1639 0,2973 0,4835 0,7293 1,0412 1,4255 1,8879 2,4341 3,0701 6,6118 11,9879 35,3445
0,55 0,0302 0,0892 0,1921 0,3483 0,5664 0,8543 1,2198 1,6698 2,2116 2,8516 3,5963 7,7452 14,0429 41,4033
0,60 0,0347 0,1023 0,2203 0,3995 0,6496 0,9799 1,3992 1,9155 2,5368 3,2709 4,1252 8,8841 16,1080 47,4917
0,65 0,0390 0,1152 0,2481 0,4498 0,7314 1,1033 1,5752 2,1565 2,8562 3,6827 4,6445 10,0024 18,1355 53,4697
0,70 0,0432 0,1275 0,2745 0,4978 0,8096 1,2212 1,7436 2,3870 3,1614 4,0762 5,1407 11,0712 20,0735 59,1834
0,75 0,0471 0,1388 0,2991 0,5422 0,8818 1,3301 1,8990 2,5998 3,4432 4,4396 5,5990 12,0582 21,8631 64,4596

Tabela 6 - Valores do fator de condução K = Q / Io1/2 em função de y/do e do

(Fonte: Livro Esgotos Sanitárisos do Prof Carlos FErnandes)

6.5. Exemplos

6.5.1. Encontrar um diâmetro capaz de transportar uma vazão de esgotos de 60,0 l/s, sob uma declividade de
0,007m/m (n = 0,013).

Solução:

P/ Qf = 60 l/s , Io = 0,007m/m e n = 0.013

a) pela Fig VI.1.

do = 300 mm;

b) pela Fig VI.2.

Sendo Qf / Io1/2 = 0,72 e c/ y/do até 0,75 então, do = 300mm e y/do = 0,64;

c) pelas tabelas de Qf / Io1/2

Com Qf / Io1/2 = 0,72, entra-se na linha de y/do = 0,75 e procura-se um valor que iguale ou supere 0,72, neste
caso Qf / Io1/2 = 0,8818 na coluna correspondente ao d o = 0,300m (observa-se que subindo na mesma coluna,
poder-se-ia determinar y/do  0,64, através da interpolação visual dos valores 0,6496 com 0,7314);

d) analítica

Para y/do= 0,75 (= 3/4) tem-se A = 0,6319.do2 e R = 0,3016.do , então,

Q3/4 = 0,06 = 0,6319.do2 x (0,3016.do)0,67. (0,007)0,5 / 0,013, ou seja, do  0,278m, logo

do = 300mm, pois 278mm não é comercial;

6.5.2. Solucionar empregando as tabelas de Q / Io1/2:

a) Com que lâmina relativa um trecho com diâmetro de 450mm transporta uma vazão de esgotos de 100,0 l/s,
sob uma declividade de 0,0036m/m?
b) Nas mesmas condições de vazão e declividade, qual o diâmetro recomendado? Qual a lâmina?

Solução (n = 0,013):

a) Pelas tabelas de Q/ Io1/2, na coluna correspondente a 0,450m, para Qf / Io1/2 =1,67 encontra-se que y/do = 0,55;

b) Usando-se a condição de lâmina relativa máxima entra-se na linha de y/do = 0,75 até que seja localizado o
primeiro valor que iguale ou supere Qf / Io1/2 = 1,67, no caso 1,8890, que corresponde a coluna de d o = 0,400m,
estimando-se para 1,67 (interpolando 1,5752 e 1,7436 com 0,65 e 0,70, respectivamente) um y/d o = 0,68
(subindo na mesma coluna).

6.6. Exercícios

• Por que os coletores de esgoto sanitários são dimensionados de modo a garantirem o escoamento livre?
• Encontrar a expressão para cálculo de velocidade de Manning em função da tensão trativa. E da tensão
em função da velocidade.
• Explicar as razões normativas de limitações nos valores de velocidade, lâmina relativa, declividade,
tensão de arraste e diâmetros, quanto a condições de autolimpeza, controle de sulfetos e aspectos
construtivos.
• Resolver os seguintes problemas utilizando soluções gráficas e analíticas (n constante = 0,013):
o um coletor circular tem uma declividade de 0,005m/m e deverá transportar 32 l/s no final do
plano. Qual será seu diâmetro e velocidade do escoamento;
o idem se Qf = 72 l/s e Io = 0,006 m/m;
o calcular a lâmina líquida de um conduto circular com diâmetro de 600mm transportando 218
l/s (Io = 0,2%); verificar também a velocidade de escoamento.
o um trecho de coletor deve escoar no final do plano uma vazão de 126,3 l/s, sendo que
inicialmente trabalha com apenas 43,6l/s de vazão média. Sabendo-se que a declividade do
trecho é de 0,65% pede-se
o - diâmetro do trecho;
o - condições de funcionamento (y e V) atuais e futuras.
• Se em uma tubulação de 200mm de diâmetro em manilha cerâmica vitrificada internamente escoa uma
vazão 12,9 l/s com uma lâmina absoluta de 80mm, qual será a declividade e a velocidade de projeto?
• A lâmina líquida em um coletor de esgotos em concreto armado, 600 mm, é de 387 mm para uma
declividade de 0,3%. Qual a vazão e a velocidade de projeto?
• Qual a altura molhada em uma tubulação de esgotos de 500mm de diâmetro transportando 204,52 l/s
sob uma declividade de 0,0045m/m?
• Um coletor de esgotos sanitários de 0,25m de diâmetro, deverá transportar 36,6 l/s quando funcionar a
3/4 de seção. Determinar a descarga e a velocidade de escoamento quando esta lâmina for de apenas
0,45do.
• Determinar a área, o perímetro e o raio hidráulico molhados no coletor do exercício anterior, quando
y/do for igual a 0,60.
• Duas galerias circulares encontram-se. Uma tem 1,10m de diâmetro, declividade de 0,0004m/m e
apresenta uma vazão máxima de 408,6 l/s. A segunda tem 0,60m de diâmetro, declividade de 0,001m/m
e uma vazão máxima de 122 l/s. Pergunta-se a que altura da maior deverá entrar a menor para que, na
situação de vazões máximas, não apareçam condições de remanso ou de vertedouro livre? n = 0,013,
constante.
• Calcular a capacidade máxima de um coletor de esgotos de 0,20m de diâmetro, n = 0,013, com 1% de
declividade, funcionando a 3/4 de seção? Quais seriam suas condições críticas de escoamento?
• Foi proposto o seguinte problema: “Calcular um diâmetro comercial capaz de transportar 15 l/s de
esgotos sanitários sob uma declividade de 0,45%.” Entre as respostas calculadas foi dito que o diâmetro
seria a) 150mm, b) 200mm e c) 250mm. Qual a resposta correta e o porquê de cada uma das outras não
serem adequadas?.
• Que população de projeto poderia ser beneficiada por um coletor de esgotos de 400mm de diâmetro,
assentado sob 0,35% de declividade. Sabe-se que 12% da vazão recolhida deve-se a infiltrações ao
longo da rede a montante. Sendo n = 0,013, admitir demais parâmetros necessários ao cálculo,
justificando-os.
• Qual a máxima população de projeto contribuinte para um trecho de coletor de esgotos sanitários de
300mm de diâmetro, assentado com declividade tal que resulte em uma velocidade média de
escoamento da ordem de 0,50m/s? Considerar infiltração máxima da ordem de 15% da vazão recolhida.
Qual seria a capacidade ociosa se o trecho tivesse sido construído em 350mm? Sendo n = 0,013, admitir
demais parâmetros necessários ao cálculo, justificando-os.
• Pesquisar e comentar as afirmações
o Io é função da autolimpeza, da possibilidade produção de sulfetos e dos aspectos construtivos
para grandes diâmetros;
o quanto as condições de autolimpeza, para uma mesma velocidade, a tensão trativa decresce
com o diâmetro implicando em
o - superdimensionamento para pequenos diâmetros e
o - subdimensionamento nos diâmetros maiores;
o A redução do limo nas paredes molhadas diminui a produção de sulfetos.
CAPÍTULO VII
DIMENSIONAMENTO HIDRÁULICO DOS COLETORES

7.1. Introdução

Os condutos de esgotos sanitários têm como finalidade a coleta e o afastamento rápido e seguro dos resíduos
líquidos ou liquefeitos das áreas habitadas, devendo possuir capacidade suficiente de transporte durante todo o
projeto, garantias de escoamento livre e funcionamento contínuo e adequado. Com estes objetivos consegue-se
maior vida útil para as tubulações, menores possibilidades de vazamento (ocorrências freqüentes em condutos
sob pressão) e condições desfavoráveis ao surgimento de anaerobiose nas vazões de esgoto, situação bastante
perigosa para determinados tipos de materiais utilizados na confecção de tubos.

A garantia do funcionamento contínuo é obtida desde que se reduza ao menor número possível as ocorrências de
rupturas ou obstruções dos condutos. Para que isto aconteça é necessário muito critério quando do cálculo da
posição e do assentamento das canalizações como medida de prevenção contra abatimentos nas fundações, bem
como dotar os trechos de condições mínimas de autolimpeza, para que não haja redução progressiva de seção de
escoamento por sedimentação. Atualmente se encontra em evidência no estudo do problema, a utilização do
conceito de tensão trativa, que é a força hidrodinâmica exercida sobre as paredes do conduto, para verificação
dessa condição de autolimpeza.

7.2. Coeficientes de Contribuição

7.2.1. Taxa de Contribuição Domiciliar Homogênea

As canalizações coletoras de esgotos funcionam por gravidade e a determinação de suas dimensões é feita a
partir da identificação das vazões que por elas serão transportadas. Essa identificação compreende duas parcelas
distintas, sendo a primeira delas as vazões concentradas, de fácil identificação em planta, e a segunda a
contribuição originária das ligações domésticas ao longo dos condutos e dos possíveis pontos de infiltrações nos
mesmos.

O cálculo das contribuições domiciliares ao longo dos trechos é feito a partir da determinação dos coeficientes de
contribuição ou taxa de contribuição doméstica “Td”, usualmente determinada relacionando-se com a unidade de
comprimento dos condutos ou a unidade de área esgotada. Essas taxas traduzem o valor global das contribuições
domésticas máximas horárias dividido pela extensão total da rede coletora da área em estudo e são calculadas
pelas seguintes expressões:

1) por unidade de comprimento (taxa de contribuição linear doméstica - l/s.m) -

• Td = (c.q.K1.K2.P) / (86400.L) Eq. 7.1

ou

• Td = (c.q.K1.K2.d.A) / (86400.L) ; Eq. 7.2

2) por unidade de área (taxa de contribuição superficial - l/s.ha) -

• Td = (c.q.K1.K2.P) / (86400.A) Eq. 7.3

ou

• Td = (c.q.K1.K2.d) / 86400 . Eq. 7.4


Nestas expressões A é a área de contribuição, d a densidade populacional e L a extensão total da rede coletora.

7.2.2. Taxa de Cálculo Linear

A taxa de contribuição linear - Tx , é resultante da reunião da taxa de contribuição doméstica (Td) com a
infiltração (TI), visto que as vazões dos esgotos sanitários são formadas a partir das contribuições domésticas
reunidas às possíveis infiltrações que penetram nas canalizações coletoras, ou seja :

• Txi = Tdi + TI Eq. 7.5

para o início de plano e

• Txf = Tdf + TI Eq. 7.6

para o final de projeto.

A determinação da vazão de dimensionamento de cada trecho, denominada de contribuição em marcha, é feita


multiplicando-se a extensão do trecho em estudo pela taxa de cálculo linear ou taxa de contribuição linear.

7.3. Profundidade dos Coletores

A profundidade mínima para os coletores está relacionada com as possibilidades de esgotamentos das
edificações nos lotes, devendo, no entanto, ser limitada pela concessionária de esgotos da cidade, tendo em vista
a responsabilidade do esgotamento de subsolos. Como mostrado na Fig. 7.1 a profundidade mínima - Hmín ,
pode ser equacionada da seguinte forma:

Hmín = h + 0,50m + 0,02L + 0,30m + (D + e) , Eq. 7.7

onde:

h (m) = desnível do leito da rua com o piso do compartimento mais baixo;

0,50m = profundidade aproximada da caixa de inspeção mais próxima;

0,02 = declividade mínima para ramais prediais - m/m;

L (m) = distância da caixa de inspeção até o eixo do coletor;

0,30m = altura mínima para conexão entre os ramais prediais;

D (m) = diâmetro externo do tubo coletor;

e (m) = espessura da parede do tubo.


FIG. 7. 1 - Posição do coletor em perfil

De um modo geral, nas extremidades iniciais dos coletores estão as menores profundidades, compatível com os
primeiros ramais prediais e coma proteção contra cargas eventuais externas, por razões essencialmente
financeiras. Na falta de informações mais precisas, por exemplo, tipos de sobrecargas externas ou cotas de
lançamento final, a NBR 9649/86 aconselha um recobrimento mínimo de 0,90m quando a canalização estiver
sob leitos carroçáveis e 0,65m sob passeios exclusivos de pedestres. Este valor decorre da tentativa de proteger a
canalização contra esforços acidentais externos advindos, principalmente, do tráfego sobre a pista de rolamento e
a garantia de esgotamento na ligação predial. Em geral um mínimo de 1,20m de profundidade atende a maioria
das situações para trechos de 100 ou 150mm de diâmetro.

Por outro lado, grandes profundidades podem se tornar antieconômicas, principalmente em termos de escavação
e, por isso, deve-se limitar a profundidade máxima das valas. Usualmente o valor de 6,0m é tido como limite
máximo, sendo que para coletores situados a mais de 4,5m de profundidade, devem ser projetados coletores
auxiliares mais rasos, nas laterais das ruas, de modo a reduzir as ligações apenas aos poços de visita e os custos
das ligações prediais. Os coletores públicos não devem ser aprofundados para atender ao esgotamento de
instalações particulares situadas abaixo do nível da via pública e sempre que a profundidade do coletor tornar-se
excessiva deve-se examinar a possibilidade da recuperação deste para profundidades menores através de estações
elevatórias (Capítulo X).

7.4. Traçados de Rede

Devidamente identificadas as finalidades de um sistema de esgotos sanitários, bem como as recomendações


técnicas que deverão ser obedecidas na elaboração de um projeto, dispõe-se a esta altura do texto, de
conhecimentos suficientes para o desenvolvimento do cálculo de uma rede coletora de esgotos sanitários. Esse
tipo assemelha-se a uma rede hidrográfica, visto que os condutos componentes crescem de montante para jusante
em suas seções transversais, de acordo com o crescimento das vazões de esgotamento, sempre acompanhando a
queda da superfície dos terrenos e orientados, nos seus diversos seguimentos, pela disposição dos arruamentos,
visto que o escoamento em coletores dar-se-á por gravidade, com as canalizações transportadoras sob o leito das
ruas.

Para a definição do traçado da rede coletora a primeira providência do projetista é o estudo da planta da cidade,
para nela identificar os diversos divisores de água e talvegues. Feito esse estudo procura-se locar o ponto de
lançamento final dos esgotos na planta (pelo menos a direção para esse ponto) para, a seguir, elaborar o
posicionamento dos condutos principais e possíveis canalizações interceptoras e emissários, dentro de uma
concepção que reduza as dimensões às menores possíveis, em todos os níveis.

Definida uma concepção geral de projeto deve-se, a esta altura, partir para o projeto dos coletores secundários
sem abuso de dimensões, do usuário e da manutenção do sistema. E desde que haja pontos de esgotamento, todas
as ruas poderão possuir coletores de esgotos, de modo que a apresentação de um traçado de uma rede terá
obrigatoriamente uma forma similar ao das vias públicas, em combinação com a topografia, geologia e
hidrologia da área, da posição do lançamento final e também do sistema adotado (separador ou combinado). Por
razões econômicas ruas com pequeno número de possíveis ligações (até três pontos de contribuições é um
número razoável), ligações individuais poderão ser substituídas por uma ligação coletiva, evitando-se, assim, a
obrigatoriedade de construção de um trecho de coletor (Fig. 7.2.). Diante dos vários aspectos que o traçado
poderá resultar, a maioria dos autores costuma expor a seguinte classificação (Fig. 7.3.):

• perpendicular;
• leque;
• interceptor;
• zonal ou distrital;
• radial.

FIG. 7. 2 - Exemplos de situações de redução de trechos na rede

FIG. 7. 3 - Traçados típicos de redes coletoras

O traçado perpendicular é característico de cidades com desenvolvimento recente e com planos de expansão
definidos. O em leque é freqüente em cidades situadas em vales e de formação antiga. O interceptor predomina
em cidades costeiras e o zonal e o radial são característicos das grandes cidades.
7.5. Localização dos Poços de Visita

Todos os condutos livres da rede (coletores, interceptores e emissários) serão compostos de trechos limitados por
dispositivos de acesso externo, destinados a permitir a inspeção dos trechos a eles conectados e sua eventual
limpeza ou desobstrução (V. Cap. VIII). Esses dispositivos em geral têm uma concepção padrão e são
denominados de poços de visita.

Por norma devem existir poços de visita nos seguintes pontos:

- extremidade inicial dos coletores;

- encontro de canalizações;

- mudanças de direção, declividade, profundidade ou diâmetro;

- nos trechos retos, respeitando-se as distâncias máximas de

a) 100m, para do até 150mm;

b) 120m, para do de 200 a 600mm;

c) 150m, para do superiores a 600mm.

7.6. Localização dos Coletores

A recomendação clássica é que a canalização de água localize-se a um terço (1/3) da largura da rua a partir de
uma margem, enquanto que os condutos públicos para esgotamento devem ficar situadas, aproximadamente, a
mesma distância, mas da margem oposta visando, principalmente, compatibilizar o afastamento preventivo das
duas canalizações, bem como o não distanciamento demasiado das edificações da margem mais afastada (Fig.
7.4).

A maior ou menor largura da pista de rolamento fará com que a recomendação anterior sofra adaptações. Em
vias públicas muito largas, de modo a evitar ligações prediais muito longas, pode-se projetar coletores auxiliares
instalados sob a calçada do lado mais distante da linha do coletor ou de ambos os lados sendo que a distância for
excessiva para os dois lados da rua. Especialistas recomendam este expediente quando o alinhamento lateral do
passeio chegar a nove metros de distância. Esta recomendação também é válida para o caso de avenidas de
tráfego rápido e volumoso, onde se recomenda a construção de dois coletores paralelos, um em cada lado da
pista e, se possível, sob o passeio para pedestres, a profundidades adequadas ao esgotamento das edificações.
Diante destes argumentos os coletores auxiliares pode ser um recurso a se dar muita atenção, pois podem se
tornar um recurso muito vantajoso e economicamente mais viável, em determinadas circunstâncias.

Nas ruas com seção transversal inclinada os condutos de esgotamento tendem a ser instalados próximos a
margem mais baixa, tendo em vista o esgotamento das edificações que, logicamente, estarão sobre cotas
inferiores.
FIG. 7. 4 - Exemplos de perfis transversais de arruamentos e posicionamento dos coletores

A existência de outras canalizações subterrâneas anteriores a implantação da rede de esgotos, como de água
potável, galerias pluviais, cabos telefônicos, etc., determinará o deslocamento adequado da canalização de
esgotos sanitários. Outro fator que poderá provocar o deslocamento para posições mais convenientes será a
geologia do subsolo e o tipo de edificações predominantes na área, como por exemplo, a opção por um novo
posicionamento em função da existência de faixas de terrenos menos rochosos, acarretando maior facilidade de
escavação das valas e menor risco para os estabelecimentos que ladeiam o arruamento.

Em regra geral, a apresentação em planta do projeto da rede dentro do traçado urbano, no Projeto Hidráulico,
pouco traz de definitivo no posicionamento das canalizações devido, principalmente, a problemas de escala,
ficando a definição exata condicionada ao serviço de implantação (Projeto Executivo). Para as posições em que o
projetista tem condições de determinar com precisão a passagem definitiva da canalização, o mesmo encarrega-
se de apresentá-la com desenhos e detalhes a parte, em escalas convenientes.

7.7. Seqüência de Cálculo

7.7.1. Estudo Preliminar

]Para lançamento dos coletores, normalmente, utilizam-se plantas em escala 1:2000 com curvas de nível
separadas de um (1,0) metro. Para pequenas áreas são freqüentes apresentações em plantas, em escala de até
1:500, isto em função do tamanho da prancha final representativa do levantamento da localidade. De posse da
planta topográfica, com os respectivos arruamentos e pontos notáveis, elabora-se um traçado para a rede dentro
de uma concepção mais adequada a situação.

A seguir procura-se identificar a declividade natural do terreno, pois esta será a referência inicial para o
posicionamento em perfil dos trechos. Isto poderá ser feito com o desenho de pequenas setas a critério do
projetista. Feito isto, são localizadas todas as ruas onde a existência ou passagem de coletores for indispensável
para, em seqüência, lançarem-se os poços de visita necessários.

Todos os coletores devem ser, então, identificados com algarismos arábicos de modo que um coletor de número
menor só possa receber efluentes de números maiores, quando da ocorrência de encontros. Por exemplo, um
coletor de número 16 só poderá receber vazões do coletor 17 ou 18 ou 19, etc., e no caso do 16 reunir-se com o
13 os trechos seguintes serão do coletor 13. Também se deve optar por esta numeração tendo em vista que os
coletores mais extensos serão os de menor número reduzindo o número de algarismos nas plantas baixas da rede,
facilitando, assim, tanto o desenho como a leitura das mesmas.

Deve-se também observar uma proximidade lógica e prática nesta numeração, para o conjunto de coletores.
Numeram-se todos os trechos, no sentido crescente das vazões em cada coletor, e identificam-se as cotas do
terreno sobre os poços de visita, determinando-se, a seguir, a declividade média do terreno em cada trecho.

Por último localizam-se os pontos de contribuições concentradas, bem como o volume de cada uma dessas
contribuições, calculam-se as populações de projeto e, em seguida, as contribuições lineares dos diversos setores
da área edificada e de expansão prevista, para início e fim de plano.

7.7.2. Planilhas de Cálculo

Uma planilha de um projeto hidráulico de rede coletora deve apresentar o resumo dos resultados calculados na
elaboração do projeto, de modo a se poder identificar todos os dados técnicos de cada trecho de coletor. Os
modelos de planilha encontradas na literatura sobre o assunto são inumeráveis e variam inclusive entre
projetistas, de acordo com o tipo e o número de informações que cada um entenda como conveniente e
necessário. Diante desses argumentos, aqui é proposto um modelo de planilha baseado em apresentações
convencionais que poderá ser modificado pelo leitor de acordo com sua interpretação (Ver na Solução do
Exemplo 7.8.3).

Neste modelo a planilha é dividida em cinco partes onde na primeira parte são identificados os coletores, os
trechos e a extensão de cada um destes, conforme proposto em 7.7.1, na ordem crescente da numeração por
coletor e seus trechos. Nesta parte poderá ser adicionada uma coluna onde se identificariam os logradouros
públicos nos quais se situariam cada um dos trechos. Na segunda parte encontram-se os dados de vazão trecho a
trecho, montante, em marcha e jusante e a vazão de dimensionamento baseada na qual se definirá o diâmetro
de cada trecho. A seguir aparecem os dados topográficos de cada trecho de coletor, as cotas de montante e
jusante e a declividade média do perfil do terreno sobre o trecho em estudo, a qual será muito importante na
definição da declividade desse trecho de coletor.

Até este ponto a planilha está composta apenas de dados colhidos como informações da área do projeto. A partir
destes dados iniciam-se os cálculos propriamente ditos, quando se inicia o dimensionamento de cada trecho de
coletor, trecho a trecho. Nesta parte da planilha tem-se as cotas de montante e de jusante do trecho, sua
declividade Io, caimento h, diâmetro do, lâmina relativa y/doe tensão trativa . Esta ordem pode ser mudada a
critério do calculista. Por exemplo as colunas correspondentes à declividade Io e ao caimento h poderiam vir
antes das cotas de montante e jusante do trecho. Ainda poderiam ser acrescidos nesta etapa dados sobre lâmina
absoluta, velocidade de projeto e velocidade crítica e plena etc.

Na última parte da planilha são mencionados os dados sobre os poços de visita de jusante de cada trecho: cota do
fundo do poço e sua profundidade. Naturalmente os poços de visita de jusante tornam-se de montante para os
trechos seguintes, mas o projetista poderá criar colunas com dados exclusivos do poço de montante do trecho em
estudo.

A planilha ainda possui uma coluna complementar de “observações” onde poderão ser assinalados, por exemplo,
os desníveis de entrada de cada trecho no poço. Quando esse desnível for vencido por um tubo de queda anota-se
TQ = ... m e se não, então, h =... m.

7.7.3. Metodologia de Cálculo

Após identificadas as cotas do terreno, CTm e CTj , nos pontos extremos dos trechos e sua extensão, L, calcula-se
a declividade média do terreno, It , para cada trecho. Definida a vazão de dimensionamento, Qf, para o trecho,
identificam-se os limites de declividade Io, mín e Io, máx, para esta vazão, através das expressões correspondentes às
q. 6.1. e Eq. 6.2. Exemplo: para Qf = 2,20 l/s têm-se Io, mín = 0,0038m/m e
Io, máx = 2,51m/m. Se a declividade do terreno for inferior a declividade mínima calculada, então o trecho será
dimensionado com Io = Io, mín. Se It estiver contida no intervalo calculado, então o trecho deverá ser implantado
com Io = It e a canalização repousará paralelamente ao perfil da superfície do terreno, no trecho. Caso It seja
superior a Io, máx então Io = Io, máx. No primeiro caso a extremidade de jusante do trecho será mais profunda que a de
montante (hj > hm). No segundo terão iguais profundidades (hj = hm) e no terceiro a de montante é que será mais
profunda (hj < hm). No caso da vazão de dimensionamento ser a mínima, 1,50 l/s, a declividade mínima é de
0,0045 m/m, ou seja, essa é a maior das mínimas possíveis. A Fig. 7.5 mostra um perfil hipotético de um trecho,
indicando as diversas incógnitas aqui mencionadas.

Ainda poderão ocorrer situações que por condições impostas em trechos a montante, tem-se como opção a
redução da profundidade dos trechos seguintes. Desde que o poço de montante do trecho em dimensionamento
tenha profundidade superior a mínima, este novo trecho e os seguintes poderão ser calculados com declividades
inferiores à do terreno, ou seja, com Io < It e no intervalo Io, mín a Io, máx, desde que a profundidade de jusante não
atinja valor inferior a mínima normalizada. Sempre que houver encontro de trechos essa reunião dar-se-á através
de uma unidade de acesso para inspeção e limpeza, um poço de visita por exemplo, e caso esta reunião ocorra
com uma diferença de cotas superior a 0,50m, serão instalados tubos de queda (V. Capítulo VIII).

FIG. 7. 5 - Perfil hipotético de um trecho de coletor

Determinada a declividade do trecho segue-se a determinação do diâmetro adequado. Essa escolha poderá ser
feita a partir das expressões analíticas de geometria plana mostradas no Capítulo 6 ou através da Fig.7.2., com o
seguinte procedimento: calcula-se o fator de condução K = Q / Io1/2, Q - m³/s e Io - m/m, e leva-se este valor ao
ábaco da P-NB-567/75, onde se procura identificar o menor diâmetro (nunca inferior ao de qualquer trecho a
montante!) que forneça uma relação y/do nas condições previstas em 6.3. Exemplo: K = 0,4 então do= 230mm,
que é um diâmetro em desuso, preferindo-se indicar 250mm. Pelas Tabelas 7.1  do = 250mm com y/do 0,60.
No caso de vazões variáveis, Qf > Qi, torna-se mais prático elaborar o dimensionamento para a vazão maior e
testar o diâmetro encontrado para a condição inicial do projeto.

Particularmente quanto ao emprego do diâmetro mínimo é pelo menos questionável o uso de 100mm para
drenagem sanitária de áreas urbanas faveladas ou ocupadas com população de baixa renda. Primeiro pelo fator
sócio-econômico, pois no Brasil, comunidades com estas características, normalmente não possuem condições
de adquirir materiais higiênicos e sanitários adequados, como por exemplo papel higiênico, que é um material
próprio para sofrer desintegração ao longo do esgotamento tubulado. Segundo pelo falta de educação sanitária o
que resulta na má utilização do sistema em conseqüência da colocação imprópria de objetos que provocam
entupimentos nos coletores (frascos, garrafas, panos, papéis grosseiros ou resistentes, etc.), tendo como
agravante o fato de que, em geral, as instalações hidráulico-sanitárias internas aos lotes nestas áreas urbanas, são
precárias ou até inexistem. Nestas situações é preferível que os coletores públicos tenham diâmetro mínimo de
150mm.

Por estas razões o projetista deve ser bastante cauteloso para optar pelos chamados sistemas condominiais que é
um sistema freqüentemente projetado para esgotamento sanitário de pequenas vilas e conjuntos de edifícios,
onde a manutenção é feita pelos próprios usuários. Sem dúvida é um sistema mais econômico do ponto de vista
de aquisição do material e de implantação, considerando-se que neles, em geral, o diâmetro mínimo é de 100mm
e predomina profundidades médias menores, porém seus objetivos poderão ficar muito aquém dos pretendidos,
caso a população usuária não esteja educadamente preparada para o seu uso, encarecendo excessivamente a
manutenção ou mesmo tornando o sistema inoperável.

A determinação da tensão trativa deverá ser efetuada a partir da Eq. 5.13 (verificar as unidades empregadas no
cálculo de modo a expressar os resultados em pascal) e a velocidade de projeto a partir do uso da equação da
continuidade (Eq. 5.1) ou através da Fig. 5.5.

7.8. Exemplos

Exemplo 7.8.1.

Um trecho de coletor de esgotos de 72m de extensão deverá escoar no fim do plano uma vazão máxima de 6,0
l/s. Pede-se traçar o perfil do trecho, sabendo-se que a profundidade de montante é de 1,72m e que a declividade
média do terreno no trecho é de 0,4%, para uma cota de montante de 506,29m. ( n = 0,013 ).

Solução:

a) São conhecidos

L = 72m; Qf = 6,0 l/s = 0,006m³/s; hm = 1,72m;

It = 0,4% = 0,004m/m; CTm = 506,29m;

b) Cálculos auxiliares

- cota do terreno a jusante - CTj

CTj = CTm - L x It = 506,29 - 72,00 x 0,004  506,00m,

- cota do coletor a montante - CCm

CCm = CTm - hm = 506,29 - 1,72 = 504,57m;

c) Declividade do trecho - Io

- calcula-se a declividade mínima para a vazão máxima no trecho

Io,mín = 0,0055 x 6,0-0,47  0,0024m/m,

- compara-se com a declividade do terreno

Io,mín = 0,0024m/m e It = 0,004m/m, então Io,min < It,

- escolhe-se a declividade Io do trecho igual à do terreno, ou seja, se It> Io,min, então,

Io = It = 0,0040m/m;

d) Desnível Dh do coletor e cota de jusante CCj

Dh = L x Io = 72,00 x 0,0040  0,288m


CCj = 504,570 - 0,288 = 504,282m;

e) Diâmetro do

1. pelo ábaco da ABNT

- calcula-se o fator de condução

Qf / Io1/2 = 0,006 / 0,0040,5 0,095,

- pela Fig.7.2 o menor diâmetro antes da faixa limite de y/d o é de do = 0,15m para uma

relação (lida no eixo horizontal) y/do= 0,57;

2. Pelas Tabelas 7.1, de K = Q/Io1/2

Com Qf / Io1/2 = 0,095, entra-se na linha de y/do = 0,75, então,

procura-se um valor que iguale ou supere 0,095  do = 0,150m (Qf / Io1/2 = 0,1388);

3. Pelo ábaco da tensão trativa mínima

Com Io = 0,004m/m e Qf = 6,0 l/s tem-se do = 150mm,  > 1,0 Pa;

f ) Perfil - com todas as cotas determinadas e baseando-se na Fig. 7.5 traça-se o perfil

(fica como exercício).


Exemplo 7.8.2.

Encontrar a taxa de dimensionamento para cálculo de uma rede coletora de aproximadamente 12,67Km de
extensão, onde se espera uma infiltração máxima de 8.10 -4 l/s.m, sabendo-se que a população usuária de 8555
habitantes consome, em média, 200 litros de água potável por pessoa.dia.

Solução:

( K1.K2 = 2,0 e c = 0,80)


Tx =[(0,80.200.8555.2,0) / (86400.12670)]+ 0,0008  0,00331 l/s.m.

Exemplo 7.8.3.

Calcular os coletores indicados na FIG. 7.6 para Tx= 0,0035 l/s.m e n = 0,013.

FIG. 7. 6 - Rede em planta para o exemplo 7.8.3


Solução: Ver planilha abaixo e o resultado em planta (FIG. 7.7)

Coletor Trecho L Qmont. (l/s) Qmarc Qjus. (l/s) Qdimens. (1,5l/s) CTmont. CTjus. It Io h CCmont. CCjus. do y/do  Cota de fundo Profundidade
OBS
(m) (l/s) (m) (mm) (Pa) (m) (m)
A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T
1 1 100 3,000 0,350 3,350 3,350 345,00 344,20 0,0080 0,0080 0,80 343,50 342,70 100 0,62 2,23 342,70 1,50
2 50 3,350 0,175 3,525 3,525 344,20 344,00 0,0040 0,0040 0,20 342,70 342,50 150 0,42 1,30 342,50 1,50
3 100 5,805 0,350 6,155 6,155 344,00 343,40 0,0060 0,0060 0,60 342,50 341,90 150 0,51 2,24 341,74 1,66 h=0,16m
4 50 12,205 0,175 12,380 12,380 343,40 343,00 0,0080 0,0080 0,40 341,74 341,34 150 0,74 3,55 341,34 1,66

2 1 80 1,000 0,280 1,500 1,500 344,00 343,80 0,0025 0,0045 0,36 342,50 342,14 100 0,45 1,04 342,14 1,66
2 90 1,490 0,315 1,805 1,805 343,80 343,40 0,0044 0,0044 0,40 342,14 341,74 100 0,52 1,10 341,74 1,66

3 1 60 - 0,210 1,500 1,500 344,00 343,80 0,0033 0,0045 0,27 342,50 342,20 100 0,45 1,04 342,14 1,66 h=0,09m

4 1 80 2,000 0,280 2,280 2,280 344,50 344,00 0,0063 0,0063 0,50 343,00 342,50 100 0,53 1,61 342,50 1,50

5 1 70 4,000 0,245 4,245 4,245 343,70 343,40 0,0043 0,0043 0,30 342,20 341,90 150 0,46 1,48 341,74 1,66 h=0,16m

A, B e C : Dados do traçado (lidos na planta após definido o traçado da rede de coletores)


D, E, F e G : Dados de vazão (calculados a partir da determinação da taxa de dimensionamento)
H, I e J : Dados topográficos do terreno (cotas do terreno lidas na planta)
K, L, M, N, O, P e Q : Dados calculados para cada trecho de coletor com profundidade mínima de 1,50m)
R e S: Dados do PV de jusante
T : Observações sobre o trecho e desnível de entrada no PV quando acima do fundo do PV de jusante).
FIG. 7. 7 - Rede calculada, em planta, para o exemplo 8.8.3

A figura mostra como deve ser apresentado todo o resultado do dimensionamento em planta. Além das plantas
os projetos também devem conter os perfis completos dos coletores com suas devidas dimensões e informações,
suficientes para não deixarem dúvidas sobre o que se vai construir.

OBS: Nesta planta P significa tubo de PVC.

7.8. Exercícios

• Por que a taxa de cálculo linear é calculada para a hora de contribuição máxima?
• Justificar as limitações para recobrimento dos coletores.
• Comentar a importância dos divisores de águas e dos talvegues na definição do traçado da rede coletora.
• Apresentar exemplos de sistemas de traçados combinados, possíveis de ocorrência.
• Qual a finalidade dos poços de visita? Quando se usam poços de visita?
• Qual a distância máxima entre PVs consecutivos quando o diâmetro da canalização for 150mm?
200mm ? 300mm? 600mm? 800mm?
• Comentar a recomendação de construção de dois coletores laterais em ruas de muito movimento. E em
avenidas muito largas.
• Como a geologia do subsolo pode influir no posicionamento dos coletores?
• Por que não se deve projetar trechos de coletores com declividades “excessivas” ? e “muito pequenas”?
• Como se deve projetar coletores sob terreno com declividades naturais superiores a valores limites
recomendados por normas?
• Lançar a rede e desenvolver o cálculo hidráulico-sanitário do arruamento fictício mostrado na Fig. 7.8.

São conhecidos:

- população por lote: 5 pessoas;

- consumo médio de água: q = 150 l/hab.dia;

- coeficiente de retorno: c = 0,80;

- coeficiente de reforço: K1 x K2 = 2,00;

- coeficiente de infiltração: 0,0008 l/s.m.

Escala: 1: 2500

FIG. 7.8 - Figura com a planta baixa do arruamento

• Desenhar arruamentos fictícios e lançar traçados de redes coletoras. Fazer o dimensionamento


hidráulico-sanitário dos coletores.
CAPÍTULO VIII
POÇOS DE VISITAS
8.1. Definição

Poço de visita é uma câmara visitável através de uma abertura existente na sua parte superior, ao nível do
terreno, destinado a permitir a reunião de dois ou mais trechos consecutivos e a execução dos trabalhos de
manutenção nos trechos a ele ligados (Figura 8.1).

FIG. 8. 1 - Modelo convencional de PV

8.2. Disposição Construtiva

Um poço de visita convencional possui dois compartimentos distintos que são a chaminé e o balão, construídos
de tal forma a permitir fácil entrada e saída do operador e espaço suficiente para este operador executar as
manobras necessárias ao desempenho das funções para as quais a câmara foi projetada.

O balão ou câmara de trabalho é o compartimento principal da estrutura, de seção circular, quadrada ou


retangular, onde se realizam todas as manobras internas, manuais ou mecânicas, por ocasião dos serviços de
manutenção nos trechos conectados. Em seu piso encontram-se moldadas as calhas de concordância entre as
seções de entrada dos trechos a montante e da saída para jusante. Estas calhas são dispostas de modo a guiar as
correntes líquidas, desde as entradas no poço, até o início do trecho de jusante do coletor principal que atravessa
o poço. Desta maneira, assegura-se um mínimo de turbilhonamento e retenção do material em suspensão,
devendo suas arestas superiores serem niveladas, no mínimo, com a geratriz superior do trecho de saída.

A chaminé, pescoço ou tubo de descida, consiste em um conduto de ligação entre o balão e a superfície, ou seja,
o exterior. Convencionalmente é iniciada num furo excêntrico feito na laje de cobertura do balão e indo até a
superfície do terreno, onde é fechada por um tampão de ferro fundido (Fig.8.2). A partir da chaminé, o
movimento de entrada e saída dos operadores é possibilitado através de uma escada de ligas metálicas
inoxidáveis, tipo marinheiro, afixada de degrau em degrau na parede do poço ou, opcionalmente, através de
escadas móveis para poços de pequenas profundidades.
FIG. 8. 2 - Modelo de tampão de fºfº para poço de visita

No caso de um ou mais trechos de coletores chegarem ao PV acima do nível do fundo são necessários cuidados
especiais nesta ligação, a fim de que haja operacionalidade do poço sem constrangimento do operário
encarregado de trabalhar no interior do balão. Para desníveis abaixo de 0,50m não são obrigatórias instalações de
dispositivos de proteção, considerando-se a quantidade mínima de respingos e a inexistência de erosão
provocados pela queda do líquido sobre a calha coletora. Para desníveis a partir de 0,50m faz-se necessária a
instalação dos chamados tubos de queda, os quais consistem numa derivação do trecho de montante por um “Tê”
ou um conjunto formado por “uma junção 45° invertida associada a um joelho 45°”, ao qual será conectado um
“toco de tubo” vertical, com comprimento adequado e apoiado em uma curva 90°, que direcionará o fluxo para o
interior do PV. Em quaisquer dos dois casos, o bocal livre da junção repousará ligado a face interior da parede
do PV, para facilitar o trabalho de eventuais desobstruções no trecho correspondente (Fig.8.3). Para diâmetros de
trechos afluentes superiores a 375mm é preferível o emprego de poços de queda como esquematizado na Fig.8.4.
FIG. 8. 3 - Poço de visita com tubo de queda

FIG. 8. 4 - Poço de visita com poço de queda

8.3. Localização

Convencionalmente são empregados poços de visita:

• nas cabeceiras das redes;


• nas mudanças de direção dos coletores (todo trecho tem que ser reto);
• nas alterações de diâmetro;
• nas alterações de posição e/ou direção da geratriz inferior da tubulação;
• nos desníveis nas calhas;
• nas mudanças de material;
• nos encontros de coletores;
• e em posições intermediárias em coletores com grandes extensões em linha reta, de modo que a
distância entre dois PV consecutivos não exceda:
o 100m p/ tubulações de até 150mm de diâmetro do;
o 120m p/ tubulações com do de 200 a 600mm;
o 150m p/ tubulações com do superiores a 600mm.

Quanto às extensões retas as limitações decorrem do alcance dos equipamentos de desobstrução. As demais
recomendações visam a manutenção da continuidade das seções, o que facilita a introdução de equipamentos no
interior da tubulação, bem como elimina zonas de remanso ou turbulência no interior das mesmas.

8.4. Dimensões

A fim de permitir o movimento vertical de um operador, a chaminé, bem como o tampão, terão um diâmetro
mínimo útil de 0,60m. O balão, sempre que possível, deve ter uma altura útil mínima de 2,0 metros, para que o
operador maneje, com liberdade de movimentos, os equipamentos de limpeza e desobstrução no interior do
mesmo. A chaminé, não deverá ter altura superior a 1,0 m, por recomendações funcionais, operacionais e
psicológicas para o operador.

A Tabela 8.1 mostra as dimensões mínimas recomendáveis para chaminé e balão em função da profundidade e
do diâmetro do da tubulação de jusante, ou seja, a que sai do poço de visita.

Tabela 8.1 - Dimensões Mínimas para Chaminé e Balão de PV (*)

Profundidade Diâmetro "db"


Diâmetro "do" da tubulação Diâmetro "dc" e altura
"h" do
de jusante (m) "hc"da chaminé (m)
do PV (m) balão (m)
h 1,50 qualquer do dc = 0,60 e hc = h db = dc
do 0,30 db = 1,00
dc = 0,60 e hc = 0,30
1,50  h  2,50 0,30 do 0,60 db = 1,50
para quaisquer do
do 0,60 db = do+ 1,00
do 0,30 dc = 0,60 e db = 1,00
h 2,50 0,30 do 0,60 0,30  hc 1,00 db = 1,50
do 0,60 para quaisquer do db = do+ 1,00

(*) Considerar que a passagem pela laje de transição e o espaço para assentamento do tampão fazem parte da
altura da chaminé, como se pode observar na figura 8.12.

Observar que pela tabela recomenda-se

para do0,30 →db= 1,00m,

para 0,30mdo0,60m →db=1,50m

e para do0,60m →db= do+ 1,00m.

8.5. Elementos para Especificações

8.5.1. Pré-moldados (Figura 8.5)

Os poços de visita executados com anéis pré-moldados de concreto armado são os mais comuns, principalmente
para tubulações de saída com até 400mm de diâmetro. São construídos com a superposição vertical dos anéis de
altura 0,30m ou 0,40m, sendo que, para o balão, estas peças têm 1,00m de diâmetro e, para a chaminé 0,60m,
como dimensões úteis mínimas. A redução do balão para a chaminé é feita por uma laje pré-moldada
denominada de peça de transição, servindo também como suporte para a chaminé, com uma abertura excêntrica
de 0,60m, que deve ser colocada de maneira tal que o centro de abertura projete-se sobre o eixo do coletor
principal que passa pelo poço, para montante (Fig.8.6.).
FIG. 8. 5 - Poço de visita em anéis pré-moldados

(extensões em metros)

A construção de um PV com anéis pré-moldados inicia-se com o nivelamento da fundação com brita
compactada. A seguir é colocada uma camada de concreto simples 1:3:5, denominada de laje de fundo, com uma
espessura mínima de 0,20m, sob a calha de saída do trecho de jusante, que será a base de sustentação para toda a
estrutura do poço. O primeiro anel ficará apoiado numa parede de concreto ou de alvenaria, numa altura mínima
de 0,10m acima da geratriz superior externa de quaisquer dos trechos afluentes, para evitar a quebra desse anel
quando da ligação das tubulações ao poço, o que provocaria infiltrações futuras de água e possíveis
instabilidades estruturais. O acabamento do piso, no fundo do PV, é dado de modo a resultar numa declividade
de 2% em direção a borda das calhas, sendo este enchimento do fundo executado em concreto 1:4:8, para
moldagem das calhas.
FIG. 8. 6 - Peça de transição em concreto armado

O acesso ao fundo do poço é feito por uma escada tipo marinheiro, vertical, com degraus equiespaçados de
0,30m ou 0,40m e um mínimo útil de 0,15m de largura por 0,08m de altura (Fig.8.7), os quais vão sendo
instalados à medida que se vão assentando os anéis, repousando cada degrau entre dois anéis consecutivos. Esses
degraus podem ser de ferro galvanizado, mas como este material sofre desgaste corrosivo com o tempo, é
preferível degraus em ligas de alumínio ou mesmo o emprego de escadas portáteis, estas mais viáveis para poços
de visita com profundidades inferiores a 3,00 metros, em substituição à escada fixa.

FIG. 8. 7 - Detalhes dos degraus

A chaminé deve ser executada obedecendo a sistemática similar recomendada para o balão, sendo encimada por
um tampão em ferro fundido, padronizado no seu modelo pela concessionária exploradora dos serviços de esgoto
da localidade. Na construção da chaminé normalmente são empregados anéis pré-moldados com altura de 0,30m
por 0,60m de diâmetro e também anéis de menor altura, 0,15 ou 0,08m, para sua complementação. É
recomendada a construção de uma chaminé com altura mínima de 0,30m para facilitar a construção ou reposição
da pavimentação do leito viário.

Todas as peças terão obrigatoriamente que se assentarem sobre argamassa de cimento e areia a 1:3 em volume,
sendo o excesso retirado e a junta alisada a colher de pedreiro e, para melhor acabamento, suas paredes
cimentadas com nata de cimento dosada com impermeabilizante (1:12 na água).

8.5.2. Concreto Armado no Local

De ocorrência mais freqüente para canalizações com diâmetro superior a 400mm ou em situações onde não haja
condições para obtenção de pré-moldados. Normalmente apenas o balão é armado no local, em concreto com
dosagem mínima de cimento de 300Kg/m³, podendo ter seção horizontal circular ou prismática, sendo a chaminé
construída com anéis pré-moldados, como citado no item anterior. Quanto ao acabamento, piso, base, calhas e
outros serviços, segue a mesma orientação recomendada para os PVs pré-moldados (Fig.8.8).
FIG. 8. 8 - Poço de visita em concreto armado no local

8.5.3. Alvenaria (Figura 8.9)

A ocorrência de poços desta natureza decorre, na maioria das vezes, da dificuldade da obtenção de peças pré-
moldadas no local da obra, principalmente para confecção de balão, ou mesmo de cimento, implicando, de
alguma forma, em estruturas mais viáveis economicamente, em função das circunstâncias. As paredes terão
espessura mínima de 0,20m, em tijolos maciços de uma vez, rejuntados e rebocadas com argamassa de cimento e
areia de 1:3 em volume, dosada com impermeabilizante, alisadas com colher de pedreiro. Externamente as
paredes deverão receber uma camada de chapisco e, se necessário, reboco impermeabilizante.

O balão terá seção circular ou prismática, e será encimado por uma laje com abertura excêntrica, em concreto
armado pré-moldada ou fundida no local, com espessura mínima de 0,10m, a 300kg de cimento por metro cúbico
de concreto.

A chaminé poderá ser executada em anéis pré-moldados, ou também, em alvenaria como o balão, porém com a
dimensão mínima de 0,60m de diâmetro por um máximo de 1,00m de altura.
FIG. 8. 9 - Poço de visita em alvenaria de tijolos

8.5.4. Outros Materiais

Além dos materiais citados para confecção das paredes da câmara de trabalho, poderá ainda ser utilizada
alvenaria de blocos curvos de concreto, tubo de concreto, tubo de fibrocimento, PVC rígido ou poliéster armado
com fios de vidro.

8.6. Tubulações de Inspeção e Limpeza - TIL

8.6.1. Definição e estrutura

Até 50% dos custos de implantação de uma rede coletora de esgotos sanitários podem ser consumidos na
construção de Poços de Visita - PV. Logo a redução destes ou sua substituição por dispositivos alternativos de
menores custos de instalação e que permitam as operações de manutenção e inspeção previstas, serão sempre
objeto de estudos pelos projetistas. Um destes dispositivos é o denominado Tubulação de Inspeção e Limpeza -
TIL.

Os TILs são dispositivos destinados a permitir a inspeção e a limpeza dos trechos a partir da superfície sem que
haja contato físico do operador com o coletor de esgotos, ou seja, têm as finalidades principais dos PVs sem que
o operador penetre no interior do dispositivo (Fig.8.10).
FIG. 8. 10 - Corte esquemático de um TIL

São empregados em trechos retos de pequenos diâmetros (do até 200mm) em substituição aos PVs, constituindo-
se, na sua forma mais simples, de uma tubulação inclinada no sentido do escoamento das vazões, no diâmetro de
100mm para trechos de do = 100mm e 150mm para trechos com do superiores, conectada à tubulação
subterrânea através de uma junção 45° ou com junções mais suavizadas com auxílio de curvas 22°30',
principalmente para coletores mais profundos (recobrimentos superiores a 2,0m). O acesso do TIL é feito através
de uma caixa de proteção, geralmente de ferro fundido, fechada com um tampão móvel padronizado de 36Kg. A
extremidade superior da tubulação, no fundo da caixa de acesso, deve ser provida de uma tampa para evitar
queda de objetos, penetração de animais ou entrada de águas superficiais, quando da retirada inoportuna do
tampão.

Os TILs devem estar situados a uma distância máxima de 75m de outro dispositivo similar ou 90m do PV mais
próximo. Alguns práticos não recomendam distâncias superiores 35m entre TILs consecutivos ou 45m para o PV
mais próximo, no mesmo coletor. Em hipótese alguma um TIL deverá ser empregado em substituição ao PV no
encontro de coletores.

Quando um TIL é apenas um prolongamento da extremidade de montante do coletor tem a denominação de


Terminal de Limpeza - TL (Fig.8.11).
FIG. 8. 11 - Corte esquemático de um TL

8.6.2. TIL pré-fabricado

Alguns fabricantes de tubos já disponibilizam no mercado TIL pré-moldados para esgotos de especial interesse
para sistemas

condominiais, coletores com passeio ou mesmo na via pública, em trechos de pequena profundidade com
vantagens econômicas consideráveis em ralação aos PV convencionais. Um dos modelos que é apresentado a
seguir , como exemplo, é o fabricado pela tradicional empresa TIGRE S.A Tubos e Conexões, denominado
comercialmente como TIL Radial Tigre (Figura ao lado).
É uma peça totalmente auto-portante, dimensionada para suportar os esforços de tráfego para diferentes
profundidades de instalação, 100% em Plástico para Esgoto, sem necessidade de revestimento de concreto para
estabilidade de sua estrutura. Produzido com materiais plásticos em processo contínuo de rotomoldagem,
caracteriza-se construtivamente pela leveza, facilitando o manuseio, transporte e estocagem, e rápida instalação,
e funcionalmente pela eficiência do escoamento do esgoto sem interferências e pontos de acúmulo de limo ou
sedimentos e com formas e dimensões que facilitam as operações de limpeza, especialmente por hidro-
jateamento. Com posições de entrada pré-definidas, porém fechadas originalmente, possibilita abertura somente
das bolsas que receberão contribuições, permanecendo as demais totalmente fechadas após sua instalação. É
produzido nas versões DN150 e DN300, cujas principais dimensões estão indicadas na tabela a seguir.

Uma variação do produto da citada empresa é o TIL de ligação predial, fabricado apenas no DN 100, indicado
para ligações de ramais prediais aos coletores primários ou auxiliares de um sistema convencional, ou entre
trechos de um sistema condominial. Na realidade estas peças têm uma função similar à dos Tê Sanitários numa
instalação hidráulica predial, ou seja, melhor direcionar o fluxo de esgotamento, além de facilitar a manutenção e
operações de limpeza.

Tabela das dimensões dos TIL Radial Tigre

DN/DL C (mm) h (mm) Massa (kg)

150/200 800 610 16

300/250 1000 980 45

8.7. Exemplos

8.7.1. Encontrar as dimensões úteis para PVs, com base na Tabela 8.1, nas seguintes condições:

a) profundidade de 0,90m:

Neste caso para quaisquer que sejam os diâmetros, o PV não terá um balão configurado e sim uma seção
constante de 0,60m de diâmetro;

b) profundidade de 1,60m e diâmetro de saída de 0,25m:

Com 1,00  h  2,50 e do 0,30m, logo a chaminé terá 0,60m de diâmetro por 0,30m de altura mínimos, ,
incluindo passagem pela laje de transição e espaço para assentamento do tampão, enquanto que o balão terá
diâmetro de 1,00m por uma altura de 1,30m;

c) h = 1,80m e do .= 0,70m:

Aqui se tem 1,00  h  2,50, mas diâmetro maior que 0,50m, logo a chaminé terá 0,60m de diâmetro por 0,30m
de altura mínimos, incluindo passagem pela laje de transição e espaço para assentamento do tampão, enquanto
que o balão terá diâmetro de 1,70m por uma altura útil de 1,20m;

d) h = 2,80m e do = 0,50m
Como h 2,50 e o diâmetro de 0,50m, logo o balão terá diâmetro de 1,50m por uma altura útil de 2,00m,
enquanto que a chaminé terá 0,60m de diâmetro por 0,80m de altura, incluindo a passagem pela laje de transição
e o espaço para assentamento do tampão;

e) h = 3,80m e do = 0,20m

Se h  2,50 e o do = 0,20m logo o balão terá diâmetro de 1,00m por uma altura útil de 2,80m para uma chaminé
de 0,60m de diâmetro por 1,0m de altura (altura máxima) incluindo as espessuras da laje de transição e do
tampão.

(Ver figura abaixo)

Figura 8.12 - Visualização das incógnitas dos Exemplos 8.7

8.8. Exercícios

• Em termos de poço de visita definir: chaminé, câmara de trabalho, calhas de concordância e trechos de
montante e de jusante.
• Explicar o emprego de tubos de queda nos PV.
• Definir poço de queda para PV.
• Explicar os diversos posicionamentos obrigatórios dos PVs nas redes de esgoto.
• Explicar a recomendação “o balão sempre que possível, terá uma altura útil de 2,0 metros”.
• Expor razões que obrigam a existência das chaminés. Por que a altura das mesmas deve ficar entre 0,30
e 1,00 metro?
• Qual a razão principal da abertura da peça de transição ser excêntrica? E porque esta mesma abertura
deve ser posicionada sobre o principal coletor que passa pelo poço?
• Quais as vantagens e desvantagens das escadas fixas em relação às portáteis?
• Por que os PV em concreto armado no local são mais utilizados para canalizações com diâmetros
superiores a 400mm ?
• Por que as chaminés são mais freqüentemente construídas com anéis pré-moldados?
• Definir TIL e TL. Qual a diferença conceptual entre eles?
• Desenvolver um estudo comparativo técnico econômico entre “terminal de limpeza” e “poço de
visita”.
Encontrar as dimensões úteis para PVs nas seguintes condições:
Nº. do PV Profundidade (m) Diâmetro do efluente (mm)
1 1,50 200
2 3.20 150
3 1,90 300
4 3,70 400
5 2,00 500
6 4,15 600
7 2,18 250
8 5,10 300
9 1,50 700
CAPÍTULO IX
SIFÃO INVERTIDO
.1. Definição

Os coletores de esgotos são projetados para trabalharem com escoamento livre, a profundidades
economicamente viáveis e suficientes para não serem afetados estruturalmente por esforços externos e de modo a
permitirem o esgotamento das descargas procedentes das ligações prediais. Conforme a condição de escoamento
livre, cada trecho de coletor terá que ser projetado para instalação em linha reta.

Eventualmente a seqüência de trechos consecutivos em linha reta continuamente, poderá não ser possível em
virtude do surgimento de obstáculos intransponíveis nessas condições, embora haja uma necessidade da
continuidade da canalização para jusante.

Diante da impossibilidade da travessia em linha reta da canalização através de um obstáculo qualquer, o


escoamento só teria continuidade por meio de um bombeamento por sobre a seção de impedimento ou por sob a
mesma seção tendo em vista que a passagem através de sifonamento normal torna-se inviável por vários
motivos, principalmente, hidráulicos. Essa canalização rebaixada, passando por baixo do obstáculo a ser
vencido, é denominada de sifão invertido tendo em vista o perfil inverso desta ao de uma tubulação de
sifonamento normal (Fig.9.1). Portanto, por definição, em sistemas de esgotos, sifões invertidos são canalizações
rebaixadas, sob pressão, destinadas a travessia sob obstáculos que impeçam a passagem da canalização em linha
reta. Sua principal vantagem sobre instalações elevatórias é que os mesmos não requerem equipamentos
eletromecânicos, o que implicaria em consumo contínuo de energia mecânica.

Figura 9.1 - Corte esquemático (perfil) de um sifão invertido

9.2. Tipos de Obstáculos

Nas comunidades urbanas, principalmente nas grandes cidades, são freqüentes a ocorrência de canais e galerias
subterrâneas, linhas férreas, metrôs, etc., os quais não poderiam ser deslocados ou alterados em suas cotas. Esses,
portanto, são exemplos de obstáculos que em virtude das suas estruturas físicas e funcionais, não podem ser
transpassados em sua seção útil. No caso de encontro de condutos de esgoto escoando livremente, com tipos de
obstáculos como os citados e diante da necessidade de continuação do escoamento para jusante, a opção
freqüentemente mais viável, será fazer com que a linha de esgotamento seja rebaixada para passagem sob a
seção impedida, voltando a profundidade normal após vencida horizontal-mente a largura do acidente a ser
transposto.

9.3. Funcionamento Hidráulico

O escoamento do esgoto através do sifão invertido é proporcionado, como na maioria das canalizações de
esgotamento, por força da energia gravitacional, porém ao longo do trecho rebaixado o escoamento é forçado,
sob pressão maior que a atmosférica local, como se pode observar na Fig. 9.1, exigindo projeto cuidadoso para
que sejam reduzidas ao mínimo as possibilidades de sedimentações e obstruções nas seções mais baixas do sifão.

9.4. Informações para Projetos Hidráulicos

Deve-se evitar sempre que possível, projetos de sifões invertidos nos sistemas de esgotamento, considerando-se
que, além de ser uma obra de encarecimento de implantação do sistema, sua manutenção também onera a
operação do mesmo, pois as operações de limpeza e de possíveis desobstruções dos sifões são bem mais
complicadas que as comumente realizadas nos coletores. Quando a utilização de sifões invertidos for inevitável,
no caso de pequenas variações de vazão, a estrutura completa será composta de, pelo menos, dois condutos
paralelos de iguais dimensões, obviamente, para que operem alternadamente, de modo que seja garantida a
continuidade de fluxo de vazão. Quando a previsão for de grandes variações de vazão ao longo do plano de
projeto (Qmáx/Qmín > 5) o sifão deverá ser projetado com três ou mais condutos para funcionamento simultâneo no
fim do plano, nos períodos de vazão máxima.

Um sifão invertido deve ser projetado com duas câmaras visitáveis, uma na entrada e outra na saída, servindo
como poços de visita da canalização e como plataformas subterrâneas de manobras para o encaminhamento das
vazões, além de evitar refluxos nos diversos ramos do escoamento, através de um sistema composto de
vertedouros e comportas. Os condutos normalmente deverão ser executados em concreto armado, aço ou em
ferro fundido, confinado por uma proteção de concreto para melhor estabilidade estrutural, evitando-se as curvas
acentuadas nas suas trajetórias, sendo seu dimensionamento bastante criterioso no que diz respeito a
determinação das perdas de carga, tanto localizadas (entradas, junções, curvas e saídas) como ao longo dos
condutos.

Para facilitar as operações de limpeza, os sifões invertidos deverão ser dotados de câmaras de limpeza, que são
compartimentos visitáveis conectados aos trechos “horizontais” do sifão através do prolongamento destes
trechos, controlados por registros ou comportas. Na maioria das vezes projeta-se apenas uma câmara com este
fim, localizada sob a câmara de entrada com acesso pela lateral desta (Fig. 9.2).

Todo dimensionamento hidráulico é realizado considerando-se as velocidades de escoamento e as perdas de


cargas localizadas e ao longo das canalizações, com n = 0,015 no caso do emprego da expressão de Manning.

9.5. Exemplo Esquemático

A Fig. 9.2 mostra, esquematicamente, um sifão invertido convencional com três condutos paralelos. Observe-se
que o piso da câmara nº.1 (de entrada) está disposto de modo a encaminhar o fluxo mínimo para o conduto
central. Quando a vazão aumenta o líquido começará a extravasar por um dos vertedores laterais para ser
transportado pelo trecho vizinho e quando a entrada deste também se afogar, pelo aumento progressivo da vazão,
o segundo vertedor começará a extravasar alimentando o terceiro conduto. As saídas na câmara nº.2 deverão
estar na mesma cota, no mínimo igual a correspondente ao nível máximo do líquido na entrada da canalização de
saída desta câmara, acrescida da altura correspondente às perdas de carga hidráulicas internas ocorridas ao longo
das calhas, no seu piso. Esse piso será projetado de modo a permitir a reunião das vazões parciais e encaminhá-
las a entrada do trecho de jusante.

A limpeza de cada conduto é executada com a abertura da comporta na extremidade do trecho de esgotamento,
no poço de limpeza e, se necessário, “lavando-se” a canalização com jatos de água limpa no sentido inverso,
através da abertura de saída da mesma, na câmara nº.2.
Figura 9.2 - Desenho esquemático de um sifão invertido

OBS.: As perdas de carga entre soleiras de entrada e de saída ao longo do trajeto,

no interior das câmaras de entrada ou de saída (desnível da linha piezométrica),

poderá ser estimada em torno de 0,006m/m e a velocidade mínima de

escoamento nos condutos igual a 0,90m/s

9.6. Exemplo

Pré-dimensionar as seções hidráulicas de um sifão invertido para escoar vazões de esgotos com as seguintes
variações: Qmín = 90 l/s, Qméd = 330 l/s e Qmáx = 700 l/s.

Solução:

• Número de condutos

Qmáx / Qmín = 7,8 > 5  n = 3;

• Primeiro conduto

(Este conduto deverá ser calculado para a vazão mínima de 0,09m³/s e Vmín = 0,90m/s)
A = Qmín / Vmín = 0,09 / 0,90 = 0,10 m²  D = 0,356 m. Adota-se D1 = 350 mm
(arredondamento para menor em virtude das condições de velocidade mínima);

• Perda de carga
(Esta perda deverá ser a mesma para todos os ramos do sifão para que as cotas das soleiras
de jusante sejam idênticas)
Adotando-se Hazen-Williams, C = 100, Q1= 90 l/s e D1= 350mm tem-se J  0,004m/m;

• Segundo conduto

(Este conduto deve atingir o pleno funcionamento quando a vazão de esgotos for igual a média)
Vazão de dimensionamento: Q = 330 - 90 = 240l/s
Para J = 0,004m/m, C=100 e Q = 240 l/s tem-se D2 = 500mm e Q2  230l/s;

• Terceiro conduto

(Dimensionado para vazão excedente dos dois primeiros)


Q = 700 - 230 - 90 = 380 l/s
Q3 = 380 l/s, J = 0,004m/m e C = 100 tem-se
D3 = 600mm (por excesso, pois não haverá um quarto conduto);

• Detalhes : Figura 9.3.

FIG. 9.3 - Resultado esquematizado do exemplo 9.6.

9.7. Exercícios

• Com respeito a sifões invertidos em esgoto, do ponto de vista hidráulico:


o - definir;
o - por que devem ser evitados?
o - por que a velocidade de escoamento deve ser “alta”?
o - por que são ditos condutos sob pressão?
o - explicar seu funcionamento.

• Citar situações onde os sifões invertidos são inevitáveis.


• Que alternativas poderiam ser analisadas à indicação de um sifão invertido?

• Por que os sifões normais não têm emprego em sistemas de esgotamento?

• Por que um número mínimo de dois condutos paralelos?

• Como seria executada a limpeza com auxílio de jatos de água?

• Explicar a preferência por tubos de concreto, ferro ou aço para sifões invertidos. Tubos de PVC
poderiam ser especificados? Justificar.

• Dimensionar (cálculo hidráulico) o sifão esquematizado na Fig. 9.2 sabendo-se


o - escala aproximada: 1:200;
o - cota de chegada na câmara 252,00;
o - diâmetro de chegada e de saída: 900mm (lâmina máxima 0,72m);
o - vazões de projeto: mín = 102 l/s, méd = 259 l/s e máx = 580 l/s.

• Uma tubulação de esgotos sanitários de 1500mm de diâmetro está assentada sob uma declividade de
0,001m/m (n = 0,013). Para uma vazão mínima de 0,40m³/s e uma média de 1,10m³/s, projetar um sifão
invertido para a capacidade máxima da tubulação, sabendo-se que a perda hidráulica é de 0,007m/m (n
= 0,015).

• Calcular um sifão invertido para as seguintes condições:


o - extensão do sifão = 50,00m;
o - depressão máxima = 3,00m;
o - desnível disponível = 0,65m;
o - vazões de projeto (n = 0,013): Qmín = 35 l/s, Qméd = 115 l/s e Qmáx = 240 l/s.

• Uma galeria de águas pluviais de 1,20m de diâmetro e I o = 0,0015m/m, transporta em tempo seco uma
vazão máxima de 0,3 m³/s. Projetar um sifão invertido que conste de três ramos, sabendo-se que a
declividade disponível é de 0,005m/m e o rebaixamento mínimo possível é de 6,0m.
CAPÍTULO X
ESTAÇÕES ELEVATÓRIAS
10.1. Introdução

Em algumas situações nos sistemas de esgotos sanitários pode ser que haja necessidade de elevação de vazões de
esgotamento. Isto ocorre com relativa freqüência em condutos longos exclusivos de transporte dessas vazões. O
impulsionamento forçado das vazões torna-se possível através de instalações denominadas de Estações
Elevatórias de Esgotos - EEE, as quais se podem definir como “instalações eletromecânicas projetadas,
construídas e equipadas de forma a transportar o esgoto de um nível de sucção ou de chegada até o nível de
recalque ou de saída, acompanhando as variações afluentes”. Este capítulo tratará de um estudo relativo a
elevatórias empregadas nos sistemas de esgotos sanitários sendo que, como o tema é muito amplo, seu conteúdo
limitar-se-á a descrição de informações compatíveis, com o nível desta publicação e de modo a permitir ao
estudante familiarizar-se com o assunto.

10.2. Ocorrências

Como as canalizações coletoras e transportadoras de esgoto funcionam como condutos livres, elas devem ser
projetadas com uma certa declividade, o que implica em um acréscimo contínuo no caimento, ao longo de cada
trecho de canalização, de montante para jusante. Tendo em vista a manutenção de velocidades de escoamento
tais que consigam garantir condições de autolimpeza no interior dos condutos, cada trecho será projetado em
função de uma declividade mínima. Para que os custos das escavações, para instalação das canalizações, sejam
viáveis é necessário que haja uma sintonia entre o sentido do escoamento nos condutos e a declividade natural do
terreno, desde que esta seja igual ou superior a mínima exigida para cada trecho projetado, resultando em
volumes mínimos a escavar quando da execução das valas.

Porém, nem sempre se tem áreas a esgotar onde a superfície do terreno apresente essas condições e, assim sendo,
para que haja condições mínimas de escoamento, a profundidade dos condutos subterrâneos crescerá para
jusante, podendo atingir níveis impraticáveis, caso a área de projeto ao longo do desenvolvimento da canalização
continue em condições desfavoráveis. Se os condutos atingirem profundidades excessivas, teoricamente acima
de 6,0m (na prática, 4,5m), então, devem ser empregadas instalações que transportem as vazões até então
recolhidas, para uma cota que permita a construção e operação dos trechos a jusante daquele ponto novamente
em condições viáveis tecnicamente. Esta recuperação de cotas é conseguida através de uma elevatória de
esgotos. Além da situação descrita pode-se projetar elevatórias para recalques de esgotos produzidos em áreas
baixas, para reunião de vazões de bacias diferentes (sistemas distritais), quando da ultrapassagem de divisores de
água, na necessidade de lançamentos submersos, nos recalques de lodos nas estações de tratamento e,
eventualmente, nas entradas ou entre unidades destas.

Uma elevatória por ser uma instalação eletromecânica consumidora contínua de energia, acondicionada em
edifício próprio, constitui-se em uma obra que irá onerar a implantação e a operação do sistema, devendo ser
objeto de minuciosos estudos comparativos, para que seu projeto só seja definido quando não houver mais
opções técnicas viáveis com a utilização de escoamento por gravidade.

10.3. Classificação

As EEE podem ser classificadas de várias maneiras, porém nenhuma delas é satisfatória, como citado por
Metcalf e Eddy. Esta classificação pode ser feita em função de sua capacidade ou de sua altura de recalque ou da
extensão deste, segundo a fonte de energia, pelo tipo de construção, etc. A PNB-569/75 da ABNT classifica-as
da seguinte maneira:

a) quanto as vazões de recalque - Qr

- pequena: Qr 50 l/s,

- média: 50 < Qr< 500 l/s,


- grande: Qr 500 l/s;

b) quanto a altura monométrica - H

- baixa: H  10 m.c.a,

- média: 10 < H < 20 m.c.a.,

- alta: H  20 m.c.a.

Define ainda como tubulação curta a tubulação de recalque com comprimento de até 10 metros e longa aquela
com extensão superior.

10.4. Características Gerais

A Fig.10.1. mostra o corte esquemático de uma pequena elevatória convencional com bombas de eixo horizontal,
moldada no local. Vale salientar que as EEE têm suas características definidas a partir da determinação das
vazões a elevar, dos equipamentos e seus modelos a serem instalados e do método construtivo.

Tipicamente quando são moldadas no local, são estruturas em concreto armado nas construções subterrâneas e
em alvenaria nas externas. Constituem-se de uma câmara de recepção denominada de poço úmido, de detenção
ou de coleta, no qual se instalam grades de retenção de material grosseiro (d > 2,5cm) e dispositivos para retirada
desse material retido, escadas fixas de acesso, entradas de sucção e extravasores. Também possuem uma câmara
de operação denominada de poço seco ou câmara de trabalho, onde estão instalados os equipamentos de
impulsão (conjuntos motor-bombas), geradores, válvulas de controle e antigolpe, conexões de continuidade do
recalque, exaustores, etc., além de estruturas de circulação de operadores e transporte de máquinas.

Normalmente sobre o poço seco estão as dependências de acomodação dos operadores (instalações sanitárias e
escritório) e equipamentos e dispositivos necessários a operação e manutenção das instalações (talhas, ganchos e
chaves, quadros elétricos, alarmes e painéis de controle automáticos e manuais), sistemas de ventilação e
calefação, drenagem, etc.).

FIG. 10. 1 - Corte esquemático de uma elevatória convencional com bombas de eixo horizontal
10.5. Localização

Para escolha definitiva da localização de uma EEE deverão ser observados e analisados os seguintes aspectos:

• menor desnível geométrico entre a captação e o fim do recalque e menor extensão deste;
• facilidade de obtenção do terreno;
• proteção natural contra possíveis inundações;
• possibilidades de ampliações futuras;
• facilidades de acesso;
• possibilidades de eventuais descargas de esgotos em galerias ou canais próximos quando de
paralisações do sistema elevatório;
• distância das habitações;
• facilidade de obtenção de energia elétrica;
• harmonização da edificação com o ambiente vizinho.

Independente dos pontos citados, o posicionamento das EEE, em geral, decorre do traçado das redes coletoras e
canalizações de maior diâmetro equivalente, situando-se nos pontos mais baixos de uma bacia, ou de um distrito
de coleta, ou nas proximidades de rios, córregos, praias, etc.

10.6. Bombas para Esgotos

10.6.1. Conceitos

Nas elevatórias de esgotos o tipo de bomba mais freqüente é a centrífuga, com velocidade fixa ou variável,
podendo ser de eixo horizontal ou vertical. As verticais podem ser com motor acoplado ou de eixo longo, estas
de uso menos freqüente. Também são muito empregados os conjuntos motor-bombas submersíveis (de eixo
vertical). Além das bombas centrífugas também são empregadas as bombas helicoidais e os ejetores
pneumáticos, com relativa constância. A descrição das principais características e a aplicabilidade desses
equipamentos é o que será desenvolvido a seguir.

10.6.2. Bombas Centrífugas

Nas EEE convencionais, as bombas mais empregadas são do tipo de eixo horizontal ou vertical afogadas, de
aspiração única instaladas em um poço seco com motores acoplados sobre o piso no caso de eixo horizontal
(Fig.10.2) ou sobre a própria bomba quando o eixo é vertical.

As bombas centrífugas são compostas de uma carcaça que molda em seu interior um canal de secção
gradualmente crescente para direcionar o líquido bombeado para a saída da bomba com energia de pressão. Este
canal é chamado de voluta. Dentro da voluta encontra-se um elemento girante denominado de rotor que recebe
energia mecânica através do seu eixo e, pelo princípio da força centrífuga, remete o líquido aspirado através da
sucção, do seu centro para a periferia, na voluta. Diferentemente dos rotores empregados no bombeamento da
água limpa, que são do tipo fechado, os de bombas centrífugas para esgotos são do tipo aberto, que permitem o
bombeamento de sólidos em suspensão no esgoto, com diâmetros equivalentes a até cinco centímetros. As
bombas de eixo vertical com apenas a bomba submersa ou afogada (Fig.10.3) têm especificação bastante restrita,
pois o eixo muito extenso poderá acarretar excentricidades quando do seu funcionamento podendo gerar danos
significativos ou até irreparáveis ao conjunto.

Também é freqüente o emprego de conjuntos motor-bombas submersíveis. Esses conjuntos têm a vantagem
imediata, do ponto de vista construtivo, de não requererem a construção de um poço seco (Fig.10.4). Nestes
conjuntos a bomba e o motor formam um monobloco que opera dentro da massa líquida a ser elevada. O
conjunto pode ser movimentado verticalmente através de uma haste-guia (ou conjunto de hastes) em aço
inoxidável que permite o acoplamento automático entre o flange de saída da bomba e o da entrada da tubulação
de recalque, apenas pelo seu peso próprio, sem necessidade de aparafusamentos, tornando igualmente singela as
operações inversas com emprego de uma talha quando de previsíveis inspeções ou reparos.
Os adeptos deste tipo de equipamento, embora de maior custo de aquisição, alegam as seguintes vantagens sobre
os conjuntos tradicionais:

• dimensões reduzidas, manutenção simplificada e fácil inspeção;


• dispensa poço e casa de máquinas, pois o conjunto funciona dentro do líquido;
• não requer precaução contra inundações ou preocupações com refrigeração pelo mesmo motivo;
• volume de escavação reduzido e não necessitando de compartimentos para acomodação de operadores.

Com estas características o conjunto de maior tradição comercialmente é o de origem sueca, da marca FLYGT,
que historicamente está no mercado desde 1948, prometendo as seguintes vantagens:

• componentes padronizados;
• permitem passagem de sólidos de até doze centímetros de comprimento;
• podem funcionar a seco;
• manutenção preventiva apenas semestral e garantia de três anos sem necessidade de lubrificação dos
rolamentos de esfera;
• não necessita de vigilância, pois dispõem de comandos automáticos de partida e de parada de acordo
com os níveis do líquido e alarme detectante de avarias.

FIG. 10. 2 - Elevatória com bombas de eixo horizontal


FIG. 10. 3 - Elevatórias com bombas de eixo vertical

FIG. 10. 4 - Instalação típica para bombas FLYGT (Conjunto motor-bomba submerso)

10.6.3. Bombas Helicoidais

Também chamadas de bombas parafuso, têm sido tradicionalmente empregadas para recalques de baixa altura e
curta extensão (típica para recuperação de cotas ou em projetos de estações de tratamento). Seu princípio de
funcionamento mantém-se inalterado desde os tempos de Arquimedes (287-212 a.C.), natural de Siracuse, na
Sicília, a quem esta invenção é atribuída, embora o mecanismo já deva ter existido no antigo Egito em formas
mais primitivas. O conceito hidráulico básico permanece inalterado ao longo desses dois milênios, embora o
desenho mecânico e o método de construção das atuais bombas, evidentemente, sejam bastante diferentes.

Comparando-se com as bombas centrífugas, as helicoidais apresentam uma série de vantagens, a saber:

• baixa velocidade de rotação (até 100rpm) reduzindo problemas de abrasão e custo de manutenção e de
fácil operação;
• dispensa utilização de válvulas de gaveta, de retenção, tubulação de sucção e recalque;
• dispensa dispositivo de proteção de montante como caixas de areia e grades;
• apresenta menores ruídos durante o funcionamento e maior durabilidade;
• é praticamente imune às imperícias dos operadores e a danos e paralisações decorrentes de materiais
fibrosos tais como trapos, buchas de fiapos, etc.;
• trabalha com qualquer vazão, sem necessidade de refrigeração e sem riscos de cavitação;
• apresenta bom rendimento (até 85%) para vazões máximas de dimensionamento de 10 a 3200 l/s.

Por outro lado estas bombas apresentam algumas desvantagens em relação às bombas centrífugas como:

• maior custo das instalações mecânicas;


• maiores espaços horizontais, principalmente em relação as submersíveis;
• pequenas alturas manométricas (2 a 9 metros) em virtude da possibilidade de formação de catenária ao
longo do parafuso;
• maior corrente elétrica, principalmente nas partidas;
• necessita de redutor de velocidade.

Essas bombas são constituídas de um parafuso montado dentro de uma calha anti-retorno em aço carbono ou
concreto, acoplado a uma unidade motriz externa conectada na extremidade superior e completada com mancais
de apoio inferior e superior, bomba de graxa e acessórios (Fig.10.5). O parafuso constitui-se de um eixo tubular
em aço carbono ao qual estão soldadas as hélices do mesmo material com diâmetro de 0,3 até 3,0m, resistentes a
corrosão, que permitirão a elevação do esgoto, assentado com uma inclinação de 30 o a 38o. O mancal superior é
constituído de um rolamento axial e um de escora, devidamente dimensionados para suportarem as cargas axiais
e radiais que atuam sobre o mesmo, proporcionando-lhe maior vida útil. A lubrificação é feita por meio de graxa
fluida. A unidade motriz constitui-se de um motor elétrico, montado sobre uma base metálica, que aciona um
redutor de velocidade de rotação através de polias e correias. Por sua vez esse redutor é acoplado ao mancal
superior. O mancal inferior é dotado de rolamento autocompressor, vedado hermeticamente contra infiltrações de
líquidos, recebendo graxa de forma automática de um lubrificador acionado independentemente.

FIG. 10. 5 - Corte esquemático de uma bomba parafuso simples


No Brasil, o mais tradicional fabricante de bombas helicoidais é a Fábrica de Aço Paulista S.A. - FAÇO, cujo
diagrama de seleção de seus produtos, apresentado em folheto comercial de 1980, está copiado na Fig.10.6.
Deve-se observar que, quanto maior o diâmetro do parafuso menor o número de rotações e maior a vazão
bombeada.

FIG. 10. 6 - Gráfico para seleção de parafusos FAÇO

10.6.4. Ejetores Pneumáticos

Os ejetores pneumáticos são bombas de pequena capacidade (2 a 20 l/s) para emprego em unidades
independentes, principalmente para esgotamento de subsolos de edificações que se situam abaixo do nível da
rede coletora externa de esgotos. Para melhor entendimento do mecanismo de funcionamento de um ejetor
pneumático deve-se observar o corte esquemático mostrado na Fig.10.7. O esgoto líquido penetra através da
“válvula V3”, enchendo a câmara de recepção T. Quando a água residuária alcança o nível máximo (Nmáx) a
“válvula V2” é aberta através do acionamento provocado pela “bóia C”, impulsionando ar comprimido fornecido
por um compressor acoplado, forçando o líquido acumulado através da “válvula V 4” visto que neste movimento
a V3 ficará fechada. Quando o nível mínimo (Nmín) é atingido a posição da válvula V2 inverte-se dando início a um
novo ciclo. Cada ciclo dura em média um minuto quando o ejetor trabalha com sua capacidade máxima.

FIG. 10. 7 - Corte esquemático de um ejetor pneumático


Ejetores pneumáticos são viáveis para esgotamento de vazões de até 20 l/s (vazões maiores consumem muita
energia com baixos rendimentos, inferiores a 15%) e para alturas manométricas de 3 a 15 metros. Compõem-se
de câmaras metálicas com entrada e saída em 100mm ou mais, que dispensam poço seco e grades, requerem
pouca lubrificação, não expelem maus cheiros (desde que bem ventilados), ocupam pouco espaço e quando da
instalação de múltiplas unidades podem ser alimentados por uma única central de ar comprimido.

10.6.5. Seleção de Bombas

Para a definição do conjunto de bombeamento a ser empregado em uma elevatória devem-se ter informações
precisas sobre as vazões de projeto e suas variações diárias e ao longo do alcance do plano (em geral 20 anos,
com etapas a cada 10), localização da estação, definição das tubulações e as curvas características das bombas e
do sistema. Esses dados são essenciais para que sejam definidos os tipos de conjuntos, dimensões e quantidades
a serem instalados, bem como as possíveis etapas para ampliação das instalações iniciais do projeto.

Exemplos: grande crescimento das vazões de projeto ao longo do plano implicam em instalações dos conjuntos
por etapas; no caso de simples recuperação de cotas ao longo de um coletor possivelmente utilizar-se-ão bombas
parafuso; grandes vazões e pequenas alturas deverão requerer bombas de eixo axial; grandes flutuações da vazão
indicam bombas com descarga variável; etc.

10.7. Noções sobre Motores

10.7.1. Tipos de motores

Nas instalações hidráulicas motores são máquinas que vão receber uma modalidade de energia, de alguma fonte
ou processo, e transformar esta energia de modo a fornecer energia mecânica às bombas. O próprio gás
produzido nas estações de tratamento poderá ser uma fonte alternativa de energia. Em sua maioria as bombas
para impulsionamento de esgotos sanitários são acionadas por motores movidos a eletricidade, por vários
motivos, tais como, baixo custo de operação, manutenção e investimento, além da sua grande versatilidade de
adaptação às mais variadas cargas. Não é raro, porém, o emprego de motores alimentados por outras fontes de
energia, como por exemplo, conjuntos de reserva com motores de combustão interna (movidos a gasolina,
álcool, gás ou diesel) para que haja garantia de continuidade de funcionamento nos períodos em que ocorram
falhas no fornecimento de energia elétrica.

Motores a gasolina, álcool ou gás (ignição por centelha) são menos empregados porque seu princípio de
funcionamento é suscetível a maior número de falhas tanto na partida como em funcionamento, além desses
tipos de combustíveis implicarem em maiores custos operacionais (mais caros) e, também, em maiores riscos no
armazenamento. Motores a diesel (ignição por compressão) são mais freqüentemente utilizados para
funcionamento nestas situações emergenciais.

OBS: Ignição é um termo originado do latim ignire, ‘incendiar’, que significa estado dos corpos em combustão,
enquanto que Cilindrada é um termo derivado do latim cylindru, e que define a capacidade máxima de admissão
de gás pelo conjunto de cilindros, que são órgãos fixos em um motor de explosão, no interior dos quais se
desloca um êmbolo e onde se realiza a combustão da mistura e a subseqüente expansão dos gases, produzindo o
funcionamento dos motores a explosão.

A ignição espontânea utilizada pelos motores a diesel, que proporciona menores riscos de falhas e gastos mais
reduzidos com combustível, a maior durabilidade, a resistência e a grande capacidade à média e baixa rotações,
são vantagens significativas do motor diesel sobre o a gasolina. Por outro lado os motores a diesel são mais caros
e bem mais pesados que os a gasolina de cilindradas equivalentes, pois aqueles funcionam com pressões
consideravelmente maiores necessitando, portanto, estruturas próprias mais reforçadas. Comparativamente os
motores diesel são mais vantajosos.

10.7.2. Motores elétricos

Um estudo básico dos motores elétricos envolve além de bons conhecimentos sobre eletricidade (energia e
potência, fatores de potência e de serviço, corrente nominal, etc.) informações de tipos, características
construtivas e partes componentes de tais máquinas comerciais existentes e conhecimentos fundamentais sobre
velocidade síncrona, escorregamento, conjugados (na Física é a denominação dada a um sistema de duas forças
paralelas de suportes distintos, com sentidos opostos, e que atuam sobre um corpo; torque), rendimentos
mecânicos, etc. Em razão da complexidade do assunto não é objetivo deste texto um estudo detalhado sobre
motores elétricos e sim descrever apenas conhecimentos elementares sobre os mesmos, principalmente sobre
terminologia, conceitos, funcionamento e empregos.

Os motores elétricos podem ser de dois tipos: de corrente contínua e de corrente alternada. Os de corrente
contínua são raramente utilizados, pois inicialmente necessitariam de um dispositivo de retificação de corrente,
visto que normalmente a energia elétrica é fornecida em corrente alternada. Além disso são de custo mais
elevado. Seu uso fica restrito a situações muitos especiais, como por exemplo, em casos de funcionamentos com
velocidades constantes ou variáveis apenas entre intervalos de bombeamentos com o controle rigoroso destas
flutuações executado através de um reostato (resistor variável, utilizado, em geral para limitar corrente em
circuitos ou dissipar energia). Têm conjugado de partida (torque) elevado, sendo os tipo Shunt os empregados
nestas condições.

Os motores de corrente alternada são usualmente utilizados para o acionamento de bombas hidráulicas.
Pertencem a uma das seguintes categorias:

• motor síncrono polifásico;


• motor assíncrono (ou de indução) polifásico nas especificações com rotor de gaiola e com rotor
bobinado.

Corrente elétrica polifásica é a corrente composta, produzida por um gerador onde se formam,
simultaneamente, “n” tensões alternadas senoidais que guardam entre si uma diferença de fase constante e
igual a 360º/n.
10.7.3. Motores síncronos

O motor síncrono tem a velocidade de rotação do eixo (em geral expressa em número de rotações por minuto -
rpm) denominada de velocidade de sincronismo “Ns”, rigorosamente constante, tanto no vazio como em carga,
desde que seja constante a freqüência da alimentação, e definida em função dos valores de freqüência da corrente
e da quantidade de pólos do motor, de conformidade com a seguinte expressão:

Ns = ( 120 f / p ) Eq. 10.1

sendo:
Ns - número de rotações por minuto (normalmente de 500 a 1200rpm);

f - freqüência da corrente em Hertz (Heinrich Hertz, físico alemão, 1857-1894): no Brasil = 60Hz;

p - número de pólos (em geral 6 a 14).

O princípio básico de funcionamento consiste na interação de dois campos magnéticos, um girante produzido no
estator pela corrente alternada e um outro fixo gerado no rotor que, no seu funcionamento, é atraído
continuamente pelo campo do estator.

A estrutura e o mecanismo de operação dos motores síncronos são relativamente complicados e para o seu
funcionamento há necessidade de uma fonte suplementar de energia em corrente contínua, destinada à
alimentação dos enrolamentos do rotor. Isto é obtido através de uma excitatriz (pequena máquina elétrica
destinada a produzir a corrente necessária à alimentação dos enrolamentos indutores de uma máquina principal)
acionada, freqüentemente, pelo mesmo eixo do motor. Sua potência deve ser tal que possa vencer as perdas a
vazio (perdas mecânicas, por excitação e no ferro). Normalmente tem um valor entre 5 e 10% da potência do
motor síncrono. Esta é a principal e suficiente condição para que os motores síncronos tenham sua utilização
muito restrita.

Motores síncronos só são viáveis para grandes instalações, geralmente quando a potência das bombas ultrapassa
de 500HP e as velocidades necessitam ser baixas (até 1800rpm). Nestes casos, em razão de sua maior eficiência,
o dispêndio com a energia elétrica passa a ser significativo na economia global do sistema, considerando que os
assíncronos têm fator de potência muito baixo. O custo inicial, entretanto, é elevado e a fabricação ainda restrita
em nosso país. Não são motores adequados para elevatórias comuns de esgotos sanitários.

De um modo geral pode-se relacionar que este tipo de motor tem as seguintes desvantagens:

• necessita instalação de chaves especiais (compensadoras) para sua partida;


• não tem arranque próprio necessitando, pois, de equipamentos especiais, normalmente
• um motor de indução tipo gaiola, para alcançar a rotação síncrona;
• pode sair de sincronismo (a condição básica de sua opção) por perturbações no sistema (excesso de
carga, por exemplo);
• para proteção de sua integridade precisa de dispositivos especiais que o pare automaticamente no caso
de saída de sincronismo;
• tem conjugado (= medida do esforço para giro do eixo; torque) de partida baixo;
• criteriosa e difícil operação.

10.7.4. Motores assíncronos

Nos motores assíncronos, também denominados de indução, a velocidade de rotação é ligeiramente variável, não
coincidindo exatamente com a velocidade de sincronismo já referida. Em função da carga mecânica aplicada, há
uma ligeira redução na rotação, da ordem de 3 a 5%, que é conhecida por escorregamento. Exemplo: 1200rpm
síncrono corresponde 1170rpm de indução. A preferência por estes motores deve-se ao fato de os mesmos
possuírem várias vantagens, tais como, construção simples, vida útil longa, flexibilidade de manobras e
manutenção, partida sozinho mesmo em carga, etc.

Basicamente são motores trifásicos compostos de um estator ou indutor fixo e um rotor ou induzido. O estator
compõe-se de um núcleo de chapas magnéticas tratadas termicamente para redução das perdas, das bobinas e da
estrutura de suporte denominada de carcaça, em geral construída em ferro laminado, resistente a corrosão, com
ranhuras na superfície interna onde estão alojadas as bobinas (do francês bobine que significa agrupamento de
espiras) normalmente constituídas de fios de cobre esmaltado revestidos com verniz à base de poliester em forma
de espiras (do grego speira, parte elementar de um enrolamento), enquanto que o rotor é composto de um eixo
para transmissão da potência mecânica desenvolvida, do enrolamento e também de um núcleo de chapas
magnéticas de baixa perda. Nestes motores o enrolamento do rotor não possui ligação elétrica direta com a linha
de alimentação. As correntes internas são geradas por indução eletromagnética, daí o nome de motor de indução.

Externamente a carcaça e as tampas em ferro fundido são providas de aletas ou ranhuras as mais profundas
possíveis, para que se obtenha uma maior superfície de dissipação de calor para o ambiente em volta e
proporcionar alta resistência mecânica. Seu princípio básico de funcionamento está no fato de haver uma
indução de um campo girante no estator, gerado pela passagem da corrente, normalmente trifásica, nas bobinas
curto-circuitadas em torno de um eixo, alimentadas por um sistema de compensadores automáticos. Esta indução
gera uma força eletromotriz nas espiras do rotor, implicando automaticamente no aparecimento de um campo
reagente para cada espira, que tende a anular os efeitos do campo de origem, pois em eletricidade correntes
induzidas tendem a se opor à causa que as originou. Esta reação faz com que o rotor seja atraído pelo campo
girante, tendendo a se igualar em módulo a mesma velocidade do campo do estator para neutralização dos efeitos
do campo do estator.

Logicamente, a medida que o rotor é atraído pelo campo do estator a variação do campo reagente vai-se
reduzindo, diminuindo progressivamente a força de atração, fazendo com que a velocidade de rotação do rotor
também seja amortecida. Com este amortecimento novamente ocorrerá um aumento da força de atração e o ciclo
repete-se. Evidentemente se o rotor alcançasse a velocidade do campo girante não haveria geração de corrente
induzida e, consequentemente, desapareceria o efeito magnético que faz o motor funcionar.

Observar, também, que da maior ou menor quantidade de espiras dependerá a intensidade da força de atração
gerada.
10.7.5. Rotores

Os rotores dos motores assíncronos são constituídos por conjuntos de condutores colocados em pacotes de
lâminas de ferro com espessura de 0,5mm cada lâmina, isoladas entre si por uma camada superficial de óxido de
ferro e providas de furos que fornecem ranhuras ou canais nos quais os condutores são colocados. Em geral
possuem de 3 a 5 canais por pólo e por fase. Nos motores de grande potência empregam-se múltiplos pacotes
com espessuras de 10cm cada, para melhor refrigeração interna e redução do aquecimento de todo o
equipamento.

O rotor ou induzido pode ser de dois tipos: bobinado ou em anéis e de gaiola ou em curto-circuito. Quando em
cada ranhura são colocadas barras e estas barras são soldadas em suas extremidades a um anel de cobre,
conectando-as em curto entre si, tem-se o rotor de gaiola. Neste caso o rotor não possui número de pólos
próprios, mas o número do estator induzido por este. Estes anéis podem ser providos de aletas externas que
substituem o ventilador, principalmente nos de pequena potência. Isto é um dos motivos de que os motores com
rotor em curto-circuito serem mais compactos e de operação mais simples. Nos grandes motores a excessiva
quantidade de calor gerada fica além da capacidade de dissipação pelas paredes, havendo necessidade de uma
ventilação forçada obtida com ventiladores internos, implicando em acréscimo nas dimensões da máquina e seu
encarecimento.

O motor de indução com rotor de gaiola é o tipo de uso mais corrente nas pequenas e médias instalações de
bombeamento. O rotor não possui nenhum enrolamento, não existindo contato elétrico do induzido com o
exterior. O rendimento (m) é elevado. A partida é feita utilizando-se chaves elétricas apropriadas, pois há uma
necessidade de uma corrente cinco, sete e até dez vezes superior a de plena carga, o que é um sério
inconveniente no momento de partida, exigindo dispositivos especiais para redução deste problema. As
instalações de bombeamento com potências inferiores a 10HP utilizam quase que exclusivamente motores desse
tipo.

O bobinado é composto de um núcleo em ferro laminado onde se fixa o enrolamento semelhante ao do estator,
com mesmo número de pólos. Também denominado de rotor em anéis, visto que as extremidades (três) do
enrolamento são unidas a três anéis fixados no eixo permitindo a introdução de resistências em série com as três
fases do enrolamento na partida e a colocar em curto os terminais citados quando em funcionamento. Nestes o
inconveniente da alta absorção de corrente no arranque é atenuado com emprego de um reostato de partida,
apresentando, por este motivo, conjugados elevados com corrente reduzida no arranque. Podem ser usados para
acionamento de bombas centrífugas e de êmbolo.

Figura 10. 8 - Esquema de um motor elétrico


Os motores de indução com rotor bobinado têm aplicação recomendada quando se tem um conjugado de partida
elevado durante toda a fase inicial de movimentação. Não há necessidade de chaves especiais para a partida.
Têm sido utilizados com maior freqüência, principalmente quando há necessidade de partidas com carga, em
instalações onde as bombas exigem motores acima de 50HP, embora os motores assíncronos com rotor de gaiola
sejam também fabricados para potências maiores, para emprego em situações onde as partidas sejam sem carga
ou com carga reduzida. Seu custo é bem maior que os motores assíncronos com rotor de gaiola, requerem
maiores cuidados de manutenção e têm pior rendimento. São mais indicados para bombeamento com velocidade
variável.

10.7.6. Potências

A potência de placa do motor (potência mecânica que o motor fornece ao seu eixo) deverá ser suficiente para
cobrir o valor da potência absorvida pela bomba. Convém, entretanto, que seja ligeiramente superior, pois a
bomba poderá eventualmente funcionar com vazão maior do que a prevista, como por exemplo, tubulação nova
que admite escoamento maior devido a perda da carga ser menor que a calculada ou tubulação descarregando em
cota inferior a prevista, e exigir uma potência maior em seu eixo.

Como o motor também consome potência na transformação de energia elétrica em mecânica, alguns autores
classificam como potência nominal ou de saída a potência no eixo do motor e de potência de entrada a potência
absorvida pelo motor. A relação entre a potência nominal e a potência de entrada é o rendimento do motor, hm.
Este rendimento depende das perdas no estator, no rotor e nos circuitos internos e, também, das perdas
mecânicas (Figura 10.9).

A potência P consumida pelo conjunto motor-bomba (potência de entrada) expressa em quilowatt (KW) é dada
pela expressão:

P = 0,736..Qb.H / (75.b . hm ), Eq.10.2

onde “b . m” e é denominado de rendimento “” do conjunto.

Freqüentemente a potência nominal é expressa em cavalos-vapor (CV) ou em “horse-power” (HP), sendo 1CV
= 0,986HP = 0,7355KW (Ver Anexo A2).

Figura 10. 9 - Esquema das demandas de energia nos conjuntos


10.7.7. Comentários

As EEE de pequeno porte funcionam com tensão de 380 a 460V com 60Hz de freqüência. Nas de grande porte
as voltagens chegam a valores superiores a 4000V (nestes casos com equipamentos auxiliares de menores
voltagens, em geral até 380V). A grande maioria das elevatórias não requerem voltagens superiores a 760V.

A grande maioria dos motores é fornecida com terminais de enrolamento ditos religáveis, por exemplo ligações
série-paralela, estrela-triâgulo ou tripla tensão, possibilitando o funcionamento em redes com tensões diferentes.
Os motores devem ser capazes de funcionar satisfatoriamente quando alimentados com tensões de até 10% de
variação em torno da sua tensão nominal, não havendo variação de freqüência. Também devem funcionar
satisfatoriamente com variações de freqüência de até 5% em torno da sua freqüência nominal sem variação da
tensão. No caso de variações na tensão e na freqüência simultaneamente a soma destas variações não deve
ultrapassar 10% do valor nominal da freqüência.

Por exemplo, um acréscimo na freqüência implicaria em redução no conjugado e na corrente de partida e


aumento na velocidade nominal, enquanto que a potência do motor e a corrente nominal continuariam
inalteradas. No caso de uma variação positiva na tensão implicaria em acréscimos na potência do motor e na
corrente e velocidade nominais, enquanto que não haveria alterações sensíveis nos conjugados e na corrente de
partida. Define-se corrente nominal como a amperagem que o motor absorve da rede quando em funcionamento
na potência, tensão e freqüência nominais.

Todo motor deve vir com uma placa onde estão indicados seus dados baseado nos quais poderá ser feita sua
aquisição. Em geral estes dados são os seguintes:

• Fabricante; Tipo; Modelo e número de fabricação;


• Potência nominal; Número de fases; Tensão nominal;
• Tipo de corrente e intensidade nominal; Freqüência;
• Velocidade de rotação; Regime de trabalho;
• Classe de isolamento; Código; Fator de serviço.

10.8. Projeto de Elevatórias

10.8.1. Informações Básicas

No estudo para elaboração de um projeto de uma EEE são necessários o conhecimento dos seguintes parâmetros
básicos:

• vazões de projeto (mínimas, médias e máximas, iniciais e finais de projeto);


• hidrogramas de chegada;
• dados geométricos e físicos dos canais afluentes, sucção, dimensões, material, cotas, lâmina líquida, etc.

De posse destas informações o projetista define o local da construção a partir de inspeção da área, verifica os
níveis de inundação, acesso e a infra-estrutura pública existente (ruas, canais, rede de energia, etc.) e promove os
levantamentos topográficos e as sondagens preliminares.

10.8.2. Pré-dimensionamento

O passo seguinte será a definição preliminar das instalações dentro das limitações que seguem:

• pré-dimensionamento do poço de sucção (diferença entre os níveis máximo e mínimo úteis e com
bombas afogadas) com uma submergência mínima para que seja evitada a formação de vórtices na
entrada da sucção;
• pré-seleção dos conjuntos elevatórios (velocidade mínima de 0,60m/s para impedir sedimentações
indesejáveis e velocidades máximas de 1,5m/s na sucção e 2,5m/s no recalque);
• definição do número de conjuntos elevatórios incluindo os de reserva (rotação de 500 a 1200rpm, ou até
1800rpm para vazões de até 0,05m³/s, devidamente justificada);
• determinação do sistema de medição das vazões afluentes.

10.8.3. Unidades Preliminares

Essencial para o funcionamento efetivo de elevação dos esgotos, principalmente quando se empregam bombas
centrífugas, é o gradeamento e, menos freqüentemente, uma outra unidade pode ser necessária que seria uma
caixa de areia logo após ao gradeamento, dependendo do tipo e teor dos sólidos sedimentáveis no volume a
bombear. Sólidos que poderão ser prejudiciais ao bombeamento deverão ser retirados previamente antes que
alcancem a entrada de sucção. Em pequenas EEE poderá ser utilizado o gradeamento tipo cesta, como mostrado
na Fig.10.1, com retirada manual. Em elevatórias maiores são instaladas grades com remoção e trituração
mecânicas. A velocidade pela grade deverá estar entre 0,6 e 1,0m/s ou até 1,4m/s, devidamente justificada.

No caso da remoção mecânica as grades sempre estarão assentadas com inclinação de 70o a 90o e na manual 45o
a 70o, com espaçamento máximo entre barras de 2,5cm e com perdas mínimas de 0,15m nas manuais e 0,10m
nas mecânicas (Fig.10.10). Em algumas situações uma grade preliminar, com separações entre barras de 10cm,
será de efetiva utilidade na retenção de corpos sólidos de maiores dimensões tais como animais mortos, garrafas,
etc.

FIG. 10. 10 - Perfil esquemático das instalações de uma grade

Areia e outros minerais pesados tais como entulhos, seixos, partículas metálicas, carvão, etc.) deverão ser retidos
em unidades posteriores às grades, chamadas de caixas de areia. Estes materiais devem ser removidos para
proteção das bombas, tubulações e peças especiais, contra a abrasão e também evitar depósitos de materiais
inertes em unidades posteriores, principalmente na estação de tratamento.

O princípio de funcionamento consiste em fazer passar a corrente líquida por sobre um depósito numa
velocidade tal que as partículas pesadas (areia e outros sedimentos) fiquem retidas, enquanto que as mais leves
(material orgânico e flutuantes) sigam junto com o esgoto nadante (Fig.10.11). A velocidade do escoamento pela
caixa deve ser da ordem de 0,30m/s. Velocidades inferiores a 0,15m/s provocam sedimentação indesejada de
matéria orgânica e acima de 0,40m/s permitem a passagem de partículas arenosas. O material retido é retirado
periodicamente por processos manuais em pequenas estações ou mecanicamente nas estações de maior porte.
Para melhor embasamento sobre grades e caixas de areia pesquisar bibliografia sobre estações de tratamento de
esgotos.
FIG. 10. 11 - Esquema de instalação de uma caixa de areia

10.8.4. Poço Úmido

10.8.4.1. Considerações para Projetos

Diante da realidade que é a variação das vazões afluentes a uma elevatória de esgotos, não havendo portanto a
possibilidade de bombeamento contínuo a vazão constante, torna-se imprescindível a construção de um tanque
armazenador de esgotos para permitir o funcionamento adequado das bombas, notadamente nos casos de bombas
centrífugas. Esta câmara de detenção do volume afluente é denominada de poço úmido, poço de sucção ou
câmara de aspiração. É conveniente que essa câmara seja dividida em pelo menos dois compartimentos com
entradas independentes, de modo a tornar a operação da unidade mais flexível, facilitando serviços de limpeza e
reparos. Para efeito de ampliação da capacidade de armazenamento do poço úmido, opcionalmente os
compartimentos poderão ser intercomunicáveis através de comportas.

Quando for previsto instalação de novos conjuntos ao longo do plano dimensiona-se a arquitetura do poço úmido
com base nesta previsão e com a locação exata das futuras unidades de sucção. A Fig.10.12 mostra um exemplo
onde se observa o espaço recomendado para instalação de uma terceira sucção a qual está prevista em uma
posição tal que não crie zonas mortas, que prejudicariam o funcionamento inicial do projeto. O futuro conjunto
deverá estar em uma posição intermediária entre os dois primeiros (estes para funcionamento alternado) e mais
próximo do afluente.

Para determinação do volume do poço úmido o projetista deverá partir das seguintes considerações:

• não ser tão pequeno que provoque enchimento rápido e consequentemente uma alta freqüência de
partidas e paradas no bombeamento, nociva a instalação eletromecânica;
• não ser tão grande que resultem em períodos de detenção muitos longos, gerando condições sépticas do
esgoto acumulados exalando maus odores, bem como sedimentações problemáticas no fundo do poço;
• impedir a formação de vórtices no líquido para não permitir a entrada de ar nas bombas;
• impedir a acumulação de gases produzidos pelos esgotos o que poderia implicar em riscos de explosões;
• evitar a formação de volumes parados (zonas mortas) que criariam sedimentações indesejáveis e
geração de maus odores;
• controlar a formação de turbulência que afetaria a altura de sucção e o rendimento das bombas;
• fixar um nível mínimo do líquido de modo a garantir o afogamento ou submersão das bombas
centrífugas e um máximo tal que não dê retorno prejudicial a canalização afluente.
FIG. 10. 12 - Posicionamento dos conjuntos motor-bombas

10.8.4.2. Cálculo do Volume

A utilização de bombas de velocidade variável requer um volume útil menor tendo em vista a acomodação do
bombeamento às vazões de chegada. Para recalque à vazão constante o volume do poço úmido será de maiores
proporções para evitar partidas muito freqüentes de bombeamento. A despeito disto a segunda hipótese é mais
corriqueira em função da simplificação na operação, principalmente em pequenas EEE. Para motores inferiores a
20HP o tempo entre duas partidas consecutivas não deve ser inferior a 10 minutos. Entre 20 e 100HP não
inferior a 15 minutos e superiores entre 20 e 30 minutos. Em qualquer situação não se deve prever mais que
quatro partidas por hora para evitar fadiga nas partes elétricas das instalações. Por outro lado, períodos de
detenção superiores a 40 minutos (se possível inferiores a 20 minutos) não são recomendáveis, pois, períodos
assim originariam sedimentações e condições sépticas indesejáveis. De um modo geral no pré-dimensionamento
adota-se 10 minutos como período de parada quando a vazão afluente corresponder a média de projeto.

Assim, o “volume útil V” do poço úmido é determinado pela expressão

V=q.t Eq. 10.3

onde q é a vazão afluente e t é o período de parada do bombeamento.

Feito este cálculo verifica-se seu valor para as condições de número máximo de partidas por hora e o maior
período de parada (V. Exemplo 10.10.1. b).

10.8.4.3. Dimensões Úteis

Determinado o volume útil, parte-se para a definição de sua forma geométrica, ou seja, altura, largura e
comprimento, observando-se, de um modo geral, as orientações a seguir descritas.

• Altura - É função do nível da extravasão (em torno de 30 centímetros acima) ou do nível máximo de
alarme (aproximadamente 15 centímetros acima) e, dependendo do volume útil calculado, das
dimensões então definidas, da natureza da elevatória, das características das bombas selecionadas, a
faixa de operação deve ficar entre 1,0 e 1,6 metros;
• Largura - Depende do distanciamento das sucções entre si e das paredes ou no caso de bombas
submersas, das condições hidráulicas da sucção e da disposição física em relação as outras unidades da
elevatória;
• Comprimento - Suficiente para instalação adequada dos conjuntos elevatórios com as folgas
necessárias para montagem e inspeção.

10.8.4.4. Detalhes a Serem Obedecidos

No desenho definitivo do poço úmido alguns detalhes são fundamentais para seu bom desempenho operacional.
As recomendações convencionais mais comuns são:

• quanto as paredes do poço - o fundo do poço deverá ter inclinações da ordem de 45 o a 60o na direção da
sucção, as quais poderão ser obtidas a partir do enchimento com concreto magro ou com a construção
das próprias paredes externas nesta disposição;
• quanto a entrada de sucção - deverá ser iniciada por uma curva de 45o ou 90o, com boca alargada nas
condições mostradas na Fig. 10.13;
• quanto a proteção contra vórtices - para proteção do bombeamento contra prejuízos advindos de entrada
de ar na sucção, o que provocaria o aparecimento de vórtices, recomenda-se um afogamento mínimo da
borda da entrada em função da velocidade de entrada, conforme o Quadro 10.1. Recomenda-se ainda
que a “submergência S” de projeto não seja inferior a três vezes o diâmetro de entrada da sucção
(S  3D).

FIG. 10. 13 - Formas de sucção e respectivas submergências

OBS.: “Submergência”, um termo freqüentemente empregado em hidráulica, é uma forma anglicista de


“submersão”.

Exemplo: para Vs = 1,0 m/s e

• D = 100 mm  S  0,6m, ou seja, o valor da tabela supera 3D;


• D = 300 mm  S  0,9m, ou seja, o valor da tabela é inferior a 3D (= 3 x 0,30m).

QUADRO 10.1 - Valores Mínimos de Submergência


Velocidade de Entrada Submergência
Vs (m/s ) Smín (m)
______________________________________________
0,6 0,3
1,0 0,6
1,5 1,0
1,8 1,4
10.8.5. Tubulações

10.8.5.1. Material das Tubulações

Para quaisquer diâmetros as tubulações expostas, em especial as internas às edificações, preferencialmente serão
em ferro fundido com juntas flangeadas, devido a resistência destas a impactos acidentais após instaladas. Para
as tubulações enterradas, em virtude da importância de suas extensões, a opção por um determinado material
poderá implicar em sensíveis diferenças de investimento tanto na aquisição como no assentamento e até na
manutenção das mesmas.

Genericamente, desconsiderando-se problemas de aquisição e transporte, para recalques de pequenos diâmetros


(até 250mm) empregam-se tubos de PVC ou, opcionalmente, fibrocimento. Para diâmetros maiores (300mm ou
mais) a diversidade de materiais é mais notável, passando a depender principalmente, das condições de pressão
na linha. Normalmente, tubos de ferro fundido são empregados em diâmetros de 300 a 1200mm, aço de 500 a
3000mm, concreto armado de 400 a 3000mm, plástico com fibra de vidro até 1000mm e fibrocimento de 150 a
600mm.

Deve-se também saber que os tubos de plástico enterrados não carecem de revestimentos protetores, porém os
metálicos e os cimentados necessitam tanto de proteção interna, contra os efeitos nocivos do meio líquido, como
externa, frente a agressividade de determinados tipos de solo e de águas subterrâneas, que podem provocar,
inclusive, desgaste eletrolítico.

10.8.5.2. Peças Especiais e Conexões

O diâmetro mínimo para elevatórias de esgotos é de 100 mm e é recomendado hidraulicamente que quando
houver tubulação da sucção esta deve ter diâmetro um pouco superior ao do recalque, por exemplo, dr = 100
 ds = 125mm. Isto acarreta conexões diferentes para as entrada e saída de cada bomba. O diâmetro de entrada
da bomba deve ser da ordem de uma a duas vezes inferior ao da sucção e esta conexão deve ser executada
através de uma redução excêntrica para evitar o possibilidade de acumulação de ar ou gases do esgoto a
montante da bomba, o que provocaria cavitação e, conseqüentemente, danos aos equipamentos.

Cada trecho de sucção contém obrigatoriamente um registro de bloqueio de modo a permitir a inspeção ou até a
retirada total dos conjuntos elevatórios sem que haja inundação do poço seco (caso de bombas afogadas). A
saída para o recalque provavelmente será através de um diâmetro duas vezes inferior ao da tubulação a jusante
seguida de uma ampliação gradual concêntrica. No início do recalque, também, são instalados registros de
bloqueio para permitir, além de operações de manutenção, a alternativa de funcionamento dos conjuntos efetivos
e reservas. Além disto válvulas antigolpe também são instaladas para proteção de toda a estrutura a montante
destas e da canalização em si.

10.8.6. Sala de Bombas

Esta parte do projeto consiste em criar espaços e localizar as bases para os conjuntos motor-bombas.
Recomenda-se uma separação mínima de 1,0m entre cada dois conjuntos sucessivos, além de espaços próprios
para a disposição dos elementos hidráulicos complementares e outros dispositivos de operação, controle e
alarme.

10.8.7. Estrutura Funcional

Uma edificação de uma EEE pode ser composta na sua forma mais simples, de apenas o poço úmido (bombas
submersas) até uma série de compartimentos de acordo com sua necessidade tais como sanitário, depósitos, sala
de comandos e, no caso de estações de grande porte, baterias de banheiros, vestiários, restaurantes,
administração, oficinas, etc., tudo isto com perfeita funcionalidade interna e em harmonia com o ambiente
externo circunvizinho.

Dependendo das exigências para operação e manutenção, sua estrutura interna inclui equipamentos de
movimentação e serviço (pontes rolantes, talhas, aberturas de piso, etc.), acessos e escadas, ventilação,
exaustores e detectores de gases, tubulações e conexões, drenagem de pisos, comportas, iluminação artificial e
natural, calefação, painéis de controle, gerador de emergência e outros que se fizerem necessários.

10.9. Considerações Finais

Um projeto completo de uma EEE envolve, como visto, projetos arquitetônico, estrutural, paisagístico,
hidráulico-sanitário e antincêndio, elétrico e eletromecânico. Portanto, é uma unidade que já nasce cara e
permanece dispendiosa devido ao consumo contínuo de energia e outros custos de operação e manutenção. Logo,
deve-se evitar este tipo de estrutura prevendo-se apenas em casos extremos de falta de opção, como já
comentado em 10.2.

Por outro lado, para melhor conhecer e entender as EEE, torna-se muito importante que o estudante visite
unidades desta natureza em operação, observando suas características e comparando com a teoria exposta neste
capítulo, pois o assunto além de muito amplo é razoavelmente complexo. Para complementar o assunto torna-se
indispensável um bom estudo sobre golpes de aríete em linhas de recalque e suas linhas transientes e
equipamentos de amortecimento ou combate ao golpe.

10.10. Exemplos

Exemplo 1. Os esgotos sanitários produzidos em um conjunto habitacional popular formado por 805 casas com
previsão de ocupação imediata, com média de 5 pessoas por residência, necessitam ser recalcados para
lançamento em um poço de visita situado a 408m de distância. Sabe-se ainda que a rede coletora a montante da
elevatória mede 4,30km. Pede-se determinar o volume do poço úmido e a potência a ser instalada para um
desnível geométrico previsto de 6,60m.

Solução:

a) Cálculos preliminares

- População do projeto → P = 805 x 5 = 4025 pessoas (conjunto habitacional, logo população


máxima é permanente);

- Per capita de consumo d’água → q = 150 l/hab.dia (adotado);

- Volume médio diário de contribuição (p/C = 0,80) → Q = 0,80 x 0,150 x 4025  483m³/dia  5,59
l/s;

- Vazões (para K1 = 1,25, K2 = 1,40 e K3 = 0,6 e TI = 0,0005 l/s.m)

1) doméstica média do dia de maior contribuição → Qd = 1,25 x 483 000 / 86 400  6,99 l/s,

2) doméstica máx. do dia de maior contribuição → Qd,máx = 1,40 Qd = 1,40 x 6,99  9,79 l/s,

3) máxima vazão de projeto (tempo de chuva) →Qh,máx = 9,79 + 0,0005 x 4300m  11,94 l/s,

4) mínima de projeto (tempo seco) → Qmín = 0,60 x 483000 / 86400  3,35 l/s;

b) Volume do poço úmido (admitindo-se um período de parada de 10min quando a vazão de chegada
corresponder a Qd ).

- Pré-dimensionamento do volume → V = tp x Qd = (10 x 60) x 6,99/1000  4,19 m³  4 m³

Testando este valor para

1) parada máx.(vazão de chegada mínima) → tp,máx = V/Qmín= 4000/(3,35 x 60)  19,90 min
(menor que 20!)

2) funcionamento mínimo (vazão da chegada mínima)

- para um Qmáx = 11,94 l/s e analisando-se as circunstâncias do problema com uma só bomba funcionando

com uma capacidade Qb = 12 l/s → tf,mín = V/(Qb - Qmín) = 4000 / (12,00-3,35)x60  7,71 min
3) número máximo de partidas por hora (quando a vazão de chegada for mínima indica máxima parada

com mínimo funcionamento) → N = 60 min/(tp,máx+ tf,min) = 60/27,61 2,14 (menor que 4!).

Assim conclui-se que o volume de 4,00m³ satisfaz as condições de impedimento de septicidade e sedimentação e
número máximo de partidas por hora.

c) Potência instalada

- Diâmetro da canalização recalque → Dr = 1,3 x Qb1/2 = 1,3 x 0,0121/2  0,142m.

Se Dr = 150mm tem-se Vr = 0,68m/s e se Dr = 125mm tem-se Vr = 0,97m/s, então indica-se Dr =


125mm,

pois pode-se empregar um diâmetro de 150mm na sucção sem perigo de sedimentação.

- Altura manométrica - H → Empregando Hazen-Williams, C = 80 (fofo usado) e com Q = 12 l/s tem-se

J = 0,0224m/m. Supondo-se um comprimento virtual para as perdas localizadas equivalente a 26m

encontra-se H = 0,0224 (26 + 408) + 6,60  16,32m;

- Potência instalada PI

1) potência da bomba (Qb = 12 l/s , b = 66%) → Pb= 12 x 16,32 /(75 x 0,66)  3,96CV,

2) potência do conjunto ( m = 80% ) → Pm = (3,96 / 0,80 = 4,95 ) x 0,986  4,88HP,

3) potência com folga (5 a 10HP toma-se 20%) →Pf = 1,20 x 4,88  5,48HP,

4) potência instalada (dois conjuntos - um de reserva) → PI = 2 x 6HP.

Exemplo 2. (Adaptado do MetCalf & Eddy) Uma estação elevatória será projetada para receber esgotos
sanitários de uma área parcialmente urbanizada e descarregar em uma tubulação interceptora. Pede-se selecionar
o conjunto de bombas e indicar os níveis de partida e parada para a EEE que trabalhará no final do plano, 20
anos após, com as seguintes vazões de projeto: Qmín = 40 l/s, Qméd = 80 l/s e Qmáx = 160 l/s. Sabe-se ainda que
após 10 anos de operação suas vazões são: Qmín = 20 l/s, Qméd = 50 l/s e Qmáx = 90 l/s.

De acordo com cálculos preliminares determinou-se que a tubulação de recalque é em ferro fundido, 300mm,
com uma perda de carga total de 15,0m sobre um desnível geométrico de 7,0m, além de uma perda localizada
nos conjuntos de 1,3 metro. A altura do volume útil é de 1,0m.

Solução:

1. Curva do encanamento

Para fofo 20 anos, Hazen-Williams C = 80, tem-se para vazão em l/s,

Ht = 7,0 + 15,0 ( Q / 160 ) 1,85,

sendo que para tubulação nova, C = 130, no início do plano seria


Ht = 7,0 + 15,0 (Q / 160 ) 1,85 x (80 / 130) 1,85).

Assim para área A = 0,7069m² tem-se V = 0,014146.Q, obtém-se o quadro Q(l/s), H(m) e V(m/s) .

Q H V Q H V

_____________________________________________________

0 7,00 0,00 90 12,17 1,27

*20 7,32 0,28 100 13,29 1,41

*40 8,15 0,56 120 15,81 1,70

50 8,74 0,71 140 13,71 1,98

60 9,44 0,85 160 22,00 2,26

80 11,16 1,13 180 25,65 2,55

_____________________________________________________

* menor que 0,60 m/s

Para melhor visualização colocar estes dados

em um gráfico ( Q, V) x H.

2. Analisando-se o enunciado e os resultados do quadro anterior conclui-se que:

• a altura geométrica é pequena em relação às perdas;


• as vazões mínimas, 20 e 40l/s, não podem ser consideradas para vazões de bombeamento, pois levam a
velocidades inferiores a 0,60m/s;
• as vazões média e máxima de 10 anos, em 300mm, escoariam com velocidades superiores a 0,60m/s
(0,71 e 1,27m/s respectivamente);
• a indicação de uma única bomba de velocidade constante para a vazão máxima de fim de plano
implicaria em superdimensionamento para o final de 10 anos;
• sabendo-se pelo enunciado que a elevatória é do tipo “distrital” e que a vazão bombeada não é jogada
diretamente em uma depuradora (espera-se que um interceptor recolha outras vazões) não há
necessidade de instalar bombas de velocidade variável;
• pode-se, então, optar por bombas de uma ou duas velocidades procurando-se obter o melhor
rendimento possível no final e no meio do plano.

3. Alternativas

• 1ª - Duas bombas de duas velocidades, uma em funcionamento e outra de reserva, com capacidade para
a vazão máxima de projeto;
• 2ª - Duas bombas em funcionamento, cada uma com capacidade para recalque da metade da vazão
máxima, podendo ser de uma ou de duas velocidades.

4. Primeira alternativa

• a) Ponto de funcionamento

- vazão máxima = 160 l/s = Qmáx ,


- ponto de funcionamento da bomba = H = 7,0 + 15,0 + 1,3 = 23,3m,
- perdas na bomba = hf = 1,3(Q/160)1,85;

• b) Bomba

A partir de um catálogo, selecionar uma bomba de alta velocidade (1170rpm - motor de indução );

• c) Verificar ainda as condições de funcionamento da bomba - para tubulação nova,

- para N = 870rpm (equivalente ao síncrono, 8 pólos, 900rpm),


- para N = 705rpm (equiv. síncrono, 10 pólos, 720rpm);

5. Segunda alternativa

• a) Etapas

I - primeira bomba com velocidade baixa,


II - segunda bomba com velocidade baixa,
III - ambas as bombas com velocidade alta;

• b) Níveis d'água

Admitindo-se que a bomba fica completamente afogada a partir da cota 100,00m então o nível mínimo (Nmín)
deverá estar na cota 100,15m onde se desliga a bomba da etapa I e, pelo enunciado, o nível máximo (Nmáx) a
101,15m, onde partem as bombas na etapa III;

• c) Pontos de partida (onde as bombas começam a funcionar)

Estabelecendo um espaço de 0,15m para cada nível de controle tem-se


- partida de ambas as bombas em alta velocidade: Nmáx = 101,15m,
- partida de ambas as bombas em baixa na etapa II: 101,15 - 0,15 = 101,00m,
- partida da primeira bomba em baixa, etapa I: 101,00 - 0,15 = 100,85m;

• d) Pontos de parada (onde as bombas deixam de funcionar)

- parada da primeira bomba (Nmín) = 100,15m,


- parada de ambas as bombas em baixa = 100,15 + 0,15 = 100,30m;
- parada de ambas as bombas em alta = 100,30 + 0,15 = 100,45m.

• e) Cotas de alarme (para alertar operadores em eventuais falhas no bombeamento e verificar a partida
da bomba de reserva de alta velocidade, 0,15m acima ou abaixo dos níveis limites)

- alarme do Nmáx = 101,15 + 0,15 = 101,30m,


- alarme do Nmín = 100,15 - 0,15 = 100,00m;

• f ) Parada de emergência (para proteção das bombas e outros equipamentos) = 100,00 - 0,15 = 99,85m;
• g) Bomba de reserva - É uma bomba de alta velocidade e só entra em funcionamento após alarme de
nível máximo = 101,30 + 0,15 = 101,45m e PARA(!) na cota 100,45m, junto com as bombas da etapa
III.

10.11. Exercícios

• Definir Estações Elevatórias de Esgotos.


• Citar situações onde elevatórias de esgotos - EEE, são inevitáveis.
• O que se define como EEE de pequeno porte? de média altura? e de baixa altura com tubulação curta?
• Explicar a razão de grandes cidades praieiras possuírem várias EEE em seus sistemas de esgotamento.
• Explicar um a um, os requisitos listados no item 10.5.
• Por que nas EEE as bombas centrífugas são de rotor aberto?
• Quais as vantagens e as desvantagens dos conjuntos motor-bombas submersíveis?
• Quais os riscos operacionais das bombas de eixo vertical longo?
• Por que é vetado o emprego de válvula de pé e crivo nas entradas das sucções das EEE? e por que o
registro a montante da entrada da bomba?
• Comparar motores síncronos com assíncronos (estrutura, consumo, vantagens relativas, etc.).
• Calcular a potência a ser instalada para funcionamento de conjunto motor-bomba não submerso, para
recalque de 110m³/hora de esgoto sanitário, a uma altura manométrica de 32,6m. Apresentar também a
solução comercial.
• Explicar o princípio do “Parafuso de Arquimedes”.
• Por que as bombas helicoidais não são indicadas para alturas de recalques superiores a 9,0m? Citar
outras limitações.
• Calcular a potência do motor para acionamento de uma bomba parafuso capaz de elevar 100,0 l/s de
esgoto a uma altura de 6,0m.
• Indicar as dimensões de uma bomba parafuso FAÇO para descarga de 0,6m³/s.
• Que são “comandos elétricos” em uma EEE?
• Por que motivos as velocidades de escoamento nos recalques de esgoto devem ser limitadas? Por que
0,6 e 2,5 m/s?
• Qual a razão do projeto do poço úmido ter uma submergência mínima?
• Por que se limitar períodos de detenção e de funcionamento nas unidades elevatórias de esgotos?
• Anotar e justificar as singularidades de uma instalação de bombeamento de esgotos com bombas de
eixo horizontal afogadas.
• Citar e justificar as diversas unidades complementares comumente encontradas nas médias e grandes
EEE.
• Fazer um estudo comparativo entre os diversos tipos de condutos empregados nas EEE, quanto ao
material.
• Sabendo-se que a vazão média afluente a uma EEE é o dobro da mínima e que a máxima é 2,2 vezes a
média, pede-se calcular
o a) volume do poço úmido;
o b) vazão de bombeamento;
o c) condições de funcionamento;
o d) potência a ser instalada.

São conhecidas ainda vazão mínima de projeto igual a 11,5 l/s e altura manométrica 23,6m.

• Apresentar desenhos esquemáticos dos compartimentos da EEE do exercício anterior sabendo-se que a
cota da calha do coletor afluente é 511,00m e que o terreno, sobre o mesmo ponto, está na 515,60m.
• Projetar uma EEE para bombear uma vazão afluente que variará ao longo do plano de 0,017m³/s a
0,132m³/s, através de uma tubulação de 400mm de diâmetro (I o = 0,007m/m) em concreto armado, e
cuja soleira inferior encontra-se a 12,2m abaixo da de despejo no final do recalque, 650m adiante.
Admitir outras informações que julgar necessárias e apresentar um estudo dos níveis de partida e parada
das bombas e, também, uma solução comercial para os conjuntos.
• Repetir o exemplo 10.9.2 para as seguintes condições:
o a) 10 anos - Qmín = 18 l/s, Qméd = 64 l/s e Qmáx = 148 l/s e
o b) 20 anos - Qmín = 31 l/s, Qméd = 118 l/s e Qmáx = 256 l/s.
• Pesquisar:
o controles automáticos de níveis para bombas;
o ancoragem em tubulações de recalque;
o equipamentos antigolpe de aríete;
o bombas de fluxo misto e axial;
o bombas de emulsão de ar e rotativas;
o motores de voltagem variável e de combustão interna.