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DIFERENCIAÇÃO PEDAGÓGICA

1. Introdução
Tendo em conta o tema a ser apresentada, torna-se crucial uma revisão teórica
sobre a principal temática abordada, nomeadamente a diferenciação pedagógica. Para
tal, serão focados, a seguir, aspectos como: o que se entende por diferenciação
pedagógica, razões para a diferenciação, Características de um ensino diferenciado,
Princípios que Orientam a Diferenciação Pedagógica, Estratégias de Facilitação da
Diferenciação Pedagógica, Níveis de Diferenciação Pedagógica, Tipos de Diferenciação
Pedagógica e Diferenciação como factor de inclusão.
Para isto, são tidos em conta vários autores que experienciaram e estudaram a
realidade que é diferenciar o ensino.

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2. Diferenciação
Segundo Tomlinson e Allan (2002) diferenciação é a maior atenção dada às
necessidades de aprendizagem de um aluno, ou de um pequeno grupo, ao invés de
seguir o modelo mais típico de ensinar toda a turma como se todos tivessem
características iguais.

2.1. Diferenciação pedagógica


Segundo Tomlinson e Allan (2002), a diferenciação pedagógica é uma forma de
resposta pró-ativa do professor face às necessidades de cada criança, ou seja, à
prestação de atenção às necessidades de aprendizagem de uma criança em particular ou
de um grupo de crianças, em vez de utilizar o modelo mais típico de ensino, que supõe
ensinar todas as crianças como se tivessem características semelhantes. Para Tomlinson
(2008), uma sala com ensino diferenciado proporciona diferentes formas de aprender,
processar ou entender diferentes ideias e desenvolver soluções, de modo a que cada
aluno possa ter uma aprendizagem eficaz.
Este autor defende que diferenciar significa que não podem existir os mesmos
exercícios para todos e que devemos romper com a pedagogia magistral, colocando em
funcionamento uma organização de trabalho que permita a integração de dispositivos
pedagógicos que coloquem cada aluno perante a situação mais favorável para a
aprendizagem. (Resendes & Soares, 2002)
Segundo Cadima (2006), a diferenciação pedagógica permite ao docente partir do
que cada criança já sabe, entendendo a diferenciação pedagógica como um conjunto de
estratégias que permitem gerir as diferenças de um grupo, mas no seio do próprio grupo.
 É o que permite partir das capacidades de cada membro desse grupo tem;
 é criar uma estrutura para essa dinâmica;
 é criar condições de partilha do que cada um tem e do que cada um sabe.
Para tal, Para que a diferenciação pedagógica aconteça é necessário montar toda
uma estrutura complexa de organização pedagógica na sala de aula, ao nível dos
materiais, das actividades e das tarefas, a organização do tempo e do espaço. Só assim, é
possível ao professor adequar as estratégias de ensino que melhor se adaptam às
estratégias de aprendizagem dos alunos.

3. Razões para a diferenciação

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Cada aluno tem pontos fortes, necessidades, interesses, estilos e ritmos de
aprendizagem diferentes: o objectivo de uma sala de aula onde existe diferenciação
pedagógica é o crescimento máximo do aluno e o seu sucesso individual; segundo
Resendes & Soares (2002) os alunos aprendem melhor quando o professor tem em
conta a individualidade de cada criança e toma em consideração as suas características.
De acordo com Cadima (2006), os problemas sociais, as diferentes sensibilidades,
os problemas de comportamento, o défice de atenção e diferentes interesses coexistem
na mesma turma, pelo que só a pedagogia diferenciada poderá dar uma resposta a todos
e a cada um.
Segundo Sanches (2005), é muito importante que os alunos que apresentam estas
características não sejam dissociados do resto da turma, mas que aprendam no seio dela:
Todas as medidas implementadas a nível do sistema ou da sala de aula, têm servido para
legitimar a uniformidade do sistema no sentido de cumprir os seus objectivos que,
embora diferentes de época para época, discriminam negativamente os seus públicos, de
acordo com os respectivos objectivos.

4. Características de um ensino diferenciado


Segundo Tomlinson (2008), existem inúmeros aspectos que caracterizam o ensino
diferenciado:
 O ensino diferenciado não é apenas o ensino individualizado. O docente deve
realizar, sempre que achar pertinente, tarefas individuais para cada tipo de aluno,
no entanto, a abordagem dos conteúdos dever ser colectiva e de socialização.
Através do trabalho cooperativo as crianças também conseguem superar as suas
dificuldades.
 “O ensino diferenciado não é caótico.” O professor terá de gerir e monitorizar
várias actividades em simultâneo.
 “O ensino diferenciado não é apenas outra forma de conseguir grupos
homogéneos.” Uma das características do ensino diferenciado é o recurso à
formação flexível de grupos heterogéneos, ou seja, grupos constituídos por
alunos que são fortes em algumas áreas e menos fortes noutras. O docente deve
encaminhar os alunos para certos grupos cujas tarefas estejam de acordo com as
suas necessidades.

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 “O ensino diferenciado é proactivo.” O professor não tem uma abordagem
única, vai ajustando a sua abordagem às diferentes experiências de
aprendizagem e às necessidades dos seus alunos.
 “O ensino diferenciado é mais qualitativo que quantitativo.” Diferenciar o
ensino não é sinónimo de atribuir mais tarefas a uns alunos do que a outros; não
é, igualmente, sinónimo de, por exemplo, o docente colocar um aluno com
dificuldades de aprendizagem a matemática a resolver apenas exercícios de
cálculo, ao passo que outros, mais capazes, estão a resolver problemas
matemáticos mais complexos.
 O ensino diferenciado baseia-se numa avaliação formativa e não sumativa.
Ao longo da disciplina o professor vai avaliando os níveis de preparação,
interesses e modalidades de aprendizagem do aluno.
 O ensino diferenciado recorre a múltiplas abordagens ao conteúdo,
processo e produto. Ao diferenciarem estes três elementos, os professores
oferecem diferentes abordagens sobre o que os alunos aprendem, como
aprendem e de que modos demonstram o que aprenderam. Este tipo de
abordagem tem como objectivo encorajar um crescimento substancial em todos
os alunos.
 O ensino diferenciado é centrado no aluno. O aluno é a personagem principal
de todo o processo. Os professores devem perceber que uma actividade que não
constitui um desafio para alguns alunos pode ser muito frustrante e complexa
para outros.
 “O ensino diferenciado é uma mistura de ensino para grupo-turma, para
pequeno grupo e ensino individualizado.” O docente deve ter em conta o
ponto de partida de cada aluno, ou seja, os seus pré-requisitos, a “bagagem” que
cada aluno traz consigo. Os alunos devem se juntar em grande grupo para iniciar
uma pesquisa, saindo em pequenos grupos ou individualmente para procurar
informação, voltando a encontrar-se em grande grupo para partilhar as
descobertas e planear novas pesquisas.
 “O ensino diferenciado é “orgânico” evolucionário e dinâmico, pois os alunos
e os professores aprendem juntos. Segundo Tomlinson (2008) Embora os
professores possam saber mais acerca da matéria em questão, estão
continuamente a aprender sobre o modo como os seus alunos adquirem
conhecimentos. É necessária uma colaboração contínua com os alunos para

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aperfeiçoar as oportunidades de aprendizagem e torna-las eficazes para cada um
deles.
A cada dia que passa, os professores encontrarão, na sua prática, novos modos de
diferenciar o ensino, ou seja, o ensino diferenciado não consiste num conjunto bem
definido e constante de estratégias, uma vez que estas vão sofrendo alterações consoante
as necessidades sentidas por alunos e pelos professores.

5. Princípios que Orientam a Diferenciação Pedagógica


Segundo (Tomilinson e All 2002; Silver, Strong e Perini 2010; Correia, 2013;
Pacheco, 2014; Foshay, 2000; Pacheco, 2011) a diferenciação pedagógica orienta-se em
quatro categorias:
 A flexibilização do processo pedagógico que se caracteriza pela docilidade do
processo de intervenção pedagógica que aí corre;
 A avaliação formativa das aprendizagens geradoras de conhecimentos e
competências, que têm um papel preponderante no ensino inclusivo;
 A organização flexível dos grupos na realização das actividades escolares, que
conduz os alunos a aceder a uma variedade de oportunidades de aprendizagens e
propostas de trabalho;
 A valorização dos estilos de aprendizagens, que propiciam o rendimento
escolar.

6. Estratégias de Facilitação da Diferenciação Pedagógica


Qualquer processo de ensino/aprendizagem para lograr os sucessos almejados,
precisa ser planificado e guiado por uma gama de estratégias que norteiam a sua
trajectória. Assim, as estratégias são a ferramenta que guiam a arte do professor na sala
de aula. Contudo, nenhuma estratégia conseguirá compensar a um professor a quem
falta a proficiência na sua área de saber.
Desta feita, é indispensável a preparação da aula devidamente, identificar e
organizar antecipadamente os materiais didácticos a usar, de forma a evitar aulas
expositivas e/ou improvisadas que só prejudicam o aluno e o processo no seu todo.
São várias as estratégias que o professor pode usar no seu trabalho docente,
todavia sugerimos a concentração da sua atenção para a receptividade e interesse dos
alunos, bem como os seus perfis de aprendizagem.
O respeito, carinho, atenção e atitude positiva pela diferença é um aspecto
indispensável na diferenciação pedagógica.
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A avaliação e a instrução são elementos inseparáveis no processo de
ensino/aprendizagem.
Nesta abordagem a avaliação deve ser continuada e formativa, podendo usar
várias formas como: diários, TPC, portefólios, grelha de avaliação, testes orais e
escritos. Não só, o professor pode ainda aplicar questionários de interesse a todos os
alunos, onde os conteúdos devem ter sentido para todos eles.
Sendo assim, neste método de aprendizagem o professor/aluno e vice-versa
colaboram no processo de aprendizagem, isto é, planificam, definem objectivos,
reflectem sobre o progresso, avaliam o sucesso e os fracassos;
O professor estabelece o equilíbrio entre as normas individuais e do grupo; os
desafios de trabalhos devem ser exequíveis de acordo com os ritmos de aprendizagem.

7. Níveis de Diferenciação Pedagógica


A diferenciação pedagógica ocorre em três níveis de decisão: macro, meso e
micro (Sousa, 2010; Pacheco, 2008, 2011 e 2014).
 Macro – é onde a administração central decide os tipos de conhecimentos, os
princípios da organização, o grau da estruturação nacional/regional e local bem
como os níveis e ciclos de escolarização e cursos. Desenha-se ainda neste nível o
plano de formação, os planos curriculares, as disciplinas e programas.
 O meso - ocupa-se nos projectos educativos que são elaborados ao nível da
província/distrital, programas suplementares de apoio pedagógico acrescidos que
visam enfatizar ou dar credibilidade à escola na sua missão de ensinar e formar o
homem.
 Micro – esta ocupa-se na materialização, do fazer pedagógico. É o espaço
exclusivamente da escola/professor. É onde o professor é chamado a exercer o
seu poder, o seu papel e a sua autoridade de mediador das aprendizagens dos
alunos. Espaço da produção dos materiais curriculares, da formulação dos
objectivos/competências /metas, da abordagem dos conteúdos, da selecção e
implementação das estratégias e da realização das avaliações das aprendizagens.

8. Tipos de Diferenciação Pedagógica


Segundo Santos (2009), existem três tipos de diferenciação pedagógica: a
diferenciação institucional, a diferenciação pedagógica interna e a diferenciação
pedagógica externa.

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8.1. Diferenciação institucional
A diferenciação institucional é uma das responsabilidades do sistema educativo e
das escolas. A diferenciação é realizada através da natureza das instituições que se
frequentam, como por exemplo, frequentar escolas, instituições ou programas de ensino
de natureza diferente, como cursos vocacionais ou cursos profissionais, por exemplo.

8.2. Diferenciação pedagógica interna


A diferenciação pedagógica interna pode centrar-se nos conteúdos, nos processos
ou nos produtos: o conteúdo é o que os alunos aprendem, o processo é a forma como os
alunos aprendem o conhecimento e o produto é o modo com os alunos, perante a turma
ou o professor, revelam o que aprenderam.

8.3. Diferenciação pedagógica externa


A diferenciação pedagógica externa é a que ocorre com os alunos numa
determinada turma, quando têm apoios pedagógicos para além das aulas de ensino
regular ou currículos alternativos.

9. Diferenciação como factor de inclusão


A educação inclusiva é um processo contínuo de fortalecimento da capacidade do
sistema educacional para responder a todos e a cada um dos alunos, reconhecendo as
suas diferenças individuais como oportunidades para enriquecer a aprendizagem e
beneficiá-los a todos. Nesse sentido, falar de educação inclusiva é falar sobre a
responsabilidade da escola incluir e educar a diversidade dos alunos e procurar gerar o
sucesso de todos através do sucesso de cada um. Isso implica conceber a diversidade
como condição humana como “o direito de cada indivíduo ser considerado de acordo
com as suas experiências, conhecimentos anteriores, motivações e estilos de
aprendizagem”.
Nas últimas décadas, a diversidade de alunos tornou-se uma questão relevante no
discurso educacional. Essa diversidade em sala de aula manifesta-se muito além dos
resultados académicos dos alunos, sendo visível nas suas diferenças de interesses, de
estilos de aprendizagem, de background cultural e educacional, de ritmos de
aprendizagem, de competências educativas e mesmo nas relações interpessoais, na
comunicação verbal e não-verbal e na motricidade (FERREIRA, 2017).

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Contudo, responder à diversidade em sala de aula de forma a proporcionar a todos
os alunos uma aprendizagem eficaz e promover, simultaneamente, a sua participação e o
seu sucesso é um desafio complexo, exigente e difícil que implica uma concessão de
organização e gestão escolar que seja capaz de reconhecer o direito à diferença e de
considerar essa diversidade como um factor de enriquecimento e desenvolvimento
pessoal e académico.
No campo de acção dos professores, é necessários que desenvolvam práticas
diferenciadas de ensino em sala de aula (TOMLINSON et al., 2003).
A diferenciação pedagógica é descrita muitas vezes como uma componente
essencial das práticas inclusivas (AINSCOW; BOOTH, 2002), pois procura assegurar
que todos os alunos, independentemente das suas diferenças, conseguem ter sucesso na
aprendizagem. É, nesse sentido, que Sousa (2010, p.15) se refere à diferenciação como
“um instrumento de promoção da inclusão e da equidade face às diferenças existentes
no seio da população estudantil”.

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10. Conclusão
Da análise feita podemos afirmar que a diferenciação pedagógica não é mais uma
proposta a introduzir nas práticas escolares, mas antes um imperativo incontornável na
sala de aula. Utilizar uma variedade de estratégias de ensino, adaptando as aulas às
necessidades e especificidades dos alunos, valorizando os trabalhos individuais e em
pares, aumenta o rendimento escolar. A sua focalização no aluno de forma individual
permite que as limitações da aprendizagem sejam primeiro diagnosticadas para
posteriormente se desenvolver um plano que permita resolve-las. Assim, constata-se
porém, que os constrangimentos na implementação do ensino inclusivo prendem-se com
a formação dos diferentes atores e a insipiência dos recursos financeiros, materiais e
humanos para a sua materialização.

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Referências bibliográficas
AINSCOW, M.; BOOTH, T. Índex para a inclusão: desenvolvendo a aprendizagem e
a participação na escola. Sintra: Cidadãos do Mundo, 2002.
Correia, M. (2013). Educação Especial e Inclusão: Quem dizer que uma sobrevive sem
a outra- Não está no seu perfeito juízo. Porto: Porto Editora.
FERREIRA, M. Guia para uma Pedagogia Diferenciada em Contexto de Sala de
Aula: teorias, práticas e desafios. Lisboa: Coisas de Ler Edições, 2017.
Harvery, S. Richard, S & Matthew, P. (2010). Inteligências Múltiplas e Estilos de
Aprendizagens:Para que todos possam aprender. Porto: Porto Editora
Pacheco, J. (2014). Educação, Formação e Conhecimento. Porto: Porto Editora
Roldão, M. & Marques, R. (orgs) (2000). Inovação, Currículo e Formação. Porto: Porto
Editora.
Sousa, F. (2010). Diferenciação Curricular e Deliberação Docente. Porto: Porto
Editora.
Perrenoud, P. (1999). Construir Competências desde a Escola a Escola. Porto: Porto
Alegre.
Tomlinson, C. & Allan, S. (2002). Liderar Projectos de Diferenciação pedagógica.
Lisboa: Editora.

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