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EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

FORMAÇÃO ECONÔMICA
DO BRASIL
HELOÍSA BRITO

FEAD
Belo Horizonte
2012
Publicado por FEAD
Copyright©2012 FEAD

Diretoria Geral
José Roberto Franco Tavares Paes

Capa
Henri Fantin-Latour - Homenagem a Delacroix

Todos os direitos reservados ao


Sistema Integrado de Ensino de Minas Gerais – SIEMG
Rua Cláudio Manoel, 1.162 – Savassi – Belo Horizonte – MG

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B862f Brito, Heloisa


Formação econômica do Brasil / Heloisa Brito. -
Belo Horizonte: FEAD, 2011.
200p.

ISBN: 978-85-8034-031-7

I Título 1- Brasil-Economia 2- Brasil-História


Econômica
CDU 330(81)
A Faculdade FEAD apresenta novo projeto, fundamentado
em aspectos metodológicos da auto-aprendizagem, e inaugu-
ra os cursos de graduação na modalidade a distância.
Estudar na modalidade a distância é adquirir, além de co-
nhecimento do conteúdo apresentado, competências hoje exi-
gidas no campo profissional e pessoal: autonomia, interação,
determinação, gerenciamento da própria formação e atualiza-
ção continuada.
A Instituição que se propõe formar empreendedores apre-
senta atitude inovadora e ensina pelo próprio exemplo. O pro-
jeto FEAD de Educação a Distância vem sendo desenvolvido
desde 2004 e, agora, torna-se realidade.
Buscar atingir a meta da qualidade em todos os projetos
educacionais é o que move a comunidade FEAD. Projeto de
muitas mãos e mentes, trabalho conjunto de professores, co-
ordenadores, funcionários, empresas parceiras e direção, na
busca de produzir o que há de consubstancial em aprendiza-
gem na modalidade a distância.
Sinta-se, em definitivo, participante e construtor deste novo
tempo. Faça parte do seu mundo. Bem-vindo ao século XXI!

Professor José Roberto Franco Tavares Paes


Direção-Geral
Eu, Heloísa Silva de Brito, autora do livro

Foto: Autor
Formação Econômica do Brasil, formei-me
em Geografia (Bacharelado e Licenciatura
Plena) em Belo Horizonte, pela UFMG. Optei
pelos caminhos da educação, especialmente
por acreditar no potencial do ser humano. Sou
de uma família mineira, numerosa, generosa
e solidária com as pessoas. Direcionei minha
vida para o setor educacional devido, também,
aos exemplos da minha mãe, que aposentou-
se após 32 anos de serviços prestados
como professora do ensino fundamental,
no interior do estado de Minas Gerais. Se
não havia disponibilidade de serviços de
telecomunicações para atender às comunidades interioranas, sobrava generosidade
na nossa casa, pois meus pais acolhiam muitas crianças/adolescentes que queriam
estudar e cujos pais moravam em área rural. Nossa casa sempre esteve aberta
para essas pessoas continuarem seus estudos, e nós aprendíamos com todos eles
a importância da formação educacional, independentemente da distância.
Mais tarde, fui lecionar na usina hidrelétrica de Tucurui (PA) História, Geografia,
História da América e Organização Social e Política Brasileira, nos ensinos
fundamental, médio e pré- vestibular. Nos períodos de férias, voltava para Belo
Horizonte para fazer pós-graduação (Lato Senso) em Geografia Física, pela PUC-
MG.
As paisagens diferentes do Brasil que conheci e conheço sempre chamaram minha
atenção e aí resolvi descobrir a ocupação humana em tais áreas, o que me levou
a entender alguns processos socioeconômicos no país. Eis aí a razão da minha
presença na sua caminhada.
A FEAD entrou em minha vida através de cursos de atualização para professores.
Inúmeras pessoas vinham de várias localidades para participar deles. Tive a
oportunidade de ministrar alguns, e esse contato despertou-me para a busca de
alternativas de aprendizagem e ensino.
No final dos anos de 1990, fui mestranda do curso Engenharia de Produção -
ênfase em Educação e Tecnologia - ministrado pela Universidade Federal de
Santa Catarina em parceria com o Instituto Metodista Izabela Hendrix - através do
EAD. Foi a primeira parceria desse tipo de ensino em Belo Horizonte, e eu acreditei
no sucesso do empreendimento, tal como você está fazendo agora. A minha
crença no EAD vem desde essa convivência como mestranda, e acredito que você
também perceberá o papel importante que a tecnologia e seus serviços podem ter
em nosso processo de aprendizagem. Ao longo das nossas aulas você encontrará
indicações de leituras, filmes, recomendadas por amigos meus, especialmente
pela professora Paula Fernanda Jannotti, pessoa solidária e generosa que me
incentivou na elaboração do material. Dedico a ela e a minha mãe este livro.
Ótimos estudos e até breve.
Professora Heloísa Silva de Brito
Sumário
Unidade 01
AULA 1 O DINAMISMO DA PENÍNSULA IBÉRICA COMO UM DOS PRINCIPAIS AGENTES DO
CAPITALISMO COMERCIAL DO SÉCULO XVI.............................................................................9
AULA 2 O BRASIL COMO POLO EXPORTADOR DE RIQUEZAS PARA O CONTINENTE EUROPEU....17
AULA 3 AS TRÊS VIAS DE CONSTITUIÇÃO DO CAPITALISMO............................................................23
AULA 4 A VIA COLONIAL: O CASO BRASILEIRO, ATRASO DEMOCRÁTICO E ECONÔMICO...........29
Unidade 02
AULA 5 A DISCUSSÃO CLÁSSICA SOBRE O TEMA: A OCUPAÇÃO TERRITORIAL DURANTE
A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA..................................................................................................35
AULA 6 A POLITICA MERCANTILISTA E O PACTO COLONIAL.............................................................43
AULA 7 A MARCA DA COLONIZAÇÃO DE EXPLORAÇÃO: O EXTRATIVISMO E A PLANTATION......49
AULA 8 O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA: A “PREFERÊNCIA PELO ESCRAVO................................55
Unidade 03
AULA 9 O CONCEITO DE CICLOS ECONÔMICOS NA IDENTIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS
DE ATIVIDADES EXTRATIVAS.....................................................................................................61
AULA 10 O LEGADO SOCIOPOLÍTICO-ECONÔMICO DO CICLO DO AÇÚCAR.....................................65
AULA 11 A RELAÇÃO ESTABELECIDA ENTRE A MINERAÇÃO E A FORMAÇÃO
DO MERCADO INTERNO.............................................................................................................71
AULA 12 AS RAZÕES DO RENASCIMENTO AGRÍCOLA BRASILEIRO...................................................77
AULA 13 PRINCIPAIS OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA
NO BRASIL – COLÔNIA...............................................................................................................83
AULA 14 A HERANÇA COLONIAL E AS CONTRADIÇÕES DA ECONOMIA BRASILEIRA.....................87
Unidade 04
AULA 15 A ADEQUAÇÃO DA CULTURA DO CAFÉ NO BRASIL E O SEU PAPEL
DE CARRO-CHEFE DA ECONOMIA............................................................................................93
AULA 16 O VÍNCULO ENTRE A COMERCIALIZAÇÃO DO CAFÉ E OS MECANISMOS
DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO.......................................................................................99
AULA 17 O SISTEMA DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO CAFEEIRA E SUAS LIMITAÇÕES........107
AULA 18 A QUESTÃO DA MÃO DE OBRA: A INADEQUAÇÃO DA POPULAÇÃO NATIVA AO
TRABALHO NA LAVOURA DE CAFÉ........................................................................................113
Unidade 05
AULA 19 OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA NO BRASIL DURANTE O AUGE
DA ECONOMIA CAFEEIRA........................................................................................................121
AULA 20 O AMADURECIMENTO DOS FUNDAMENTOS DO CAPITALISMO NO BRASIL....................125
AULA 21 FATORES INTERNOS E EXTERNOS QUE ESTIMULARAM O DESENVOLVIMENTO DA
INDÚSTRIA BRASILEIRA...........................................................................................................131
AULA 22 O PAPEL DESEMPENHADO PELOS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS NO PROCESSO
DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA.....................................................................................137
AULA 23 CONSTITUIÇÃO DO QUADRO DE FORÇAS POLÍTICO-ECONÔMICAS NO FINAL DA
DÉCADA DE 1930.......................................................................................................................143
Unidade 06
AULA 24 OS EFEITOS DA GRANDE DEPRESSÃO SOBRE A POLÍTICA ECONÔMICA
BRASILEIRA...............................................................................................................................149
AULA 25 A POLÍTICA DE DEFESA DO CAFÉ UTILIZADA DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO
E SEU IMPACTO SOBRE A RENDA NACIONAL.......................................................................157
AULA 26 O PAPEL ASSUMIDO PELO MERCADO INTERNO DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO....165
AULA 27 CARACTERÍSTICAS DO MODELO DE INDUSTRIALIZAÇÃO POR SUBSTITUIÇÃO
DE IMPORTAÇÃO ......................................................................................................................171
AULA 28 O CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA..........................................................177
AULA 29 O ESTADO NOVO E A TENTATIVA DE IMPLANTAÇÃO DE UM MODELO NACIONAL
DE DESENVOLVIMENTO............................................................................................................187
AULA 30 EVOLUÇÃO E CONSOLIDAÇÃO INDUSTRIAL DO PAÍS NO PÓS-GUERRA.........................193
Unidade 01

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
CONTEXTO HISTÓRICO DA EUROPA À ÉPOCA
DA COLONIZAÇÃO

AULA 1

O DINAMISMO DA PENÍNSULA IBÉRICA COMO


UM DOS PRINCIPAIS AGENTES DO CAPITALISMO
COMERCIAL DO SÉCULO XVI

Objetivos
• Compreender os processos de formação
socioeconômica, relacionando-os com seu contexto
histórico-geográfico.
• Analisar os impactos das mudanças socioeconômicas
na Península Ibérica.
• Perceber a teoria econômica como fator de
compreensão e análise de alguns fenômenos
sociais e históricos.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

INTRODUÇÃO ali várias feitorias (= armazéns) para servir de base de


navegação. As caravelas portuguesas representavam,
“Navegar é preciso; até então, o meio de transporte mais rápido e eficiente,
viver não é preciso”. contribuindo para que o país iniciasse seu pioneirismo
(Fernando Pessoa) marítimo e comercial. Segundo Caio Prado Jr. (1961,
Esses versos do poeta português e que, segundo p. 16),
alguns historiadores, são uma frase do general romano
Enquanto holandeses, ingleses, nor-
Pompeu (106-48 a. C.), dita aos seus soldados durante mandos e bretões se ocupam da via
as batalhas (em latim: navigare necesse; vivere non est comercial recém-aberta e que bordeja e
envolve pelo mar o ocidente europeu, os
necesse), são uma expressão que revela como a nave- portugueses vão mais longe, procurando
gação era imprescindível aos interesses europeus, já empresas nas quais não encontrassem
que os produtos orientais passavam pelas terras das concorrentes mais antigos e já instalados.
Para isso contam com vantagens geo-
repúblicas italianas, atravessavam os Alpes, atingindo gráficas apreciáveis: buscarão a costa
a Suíça e o Rio Reno, até as cidades flamengas (holan- ocidental de África, traficando aí com os
mouros que dominavam as populações
desas). Veneza e Gênova, cidades italianas, detinham indígenas. Nessa avançada pelo oceano
o monopólio das especiarias que chegavam pelo Mar descobrirão as Ilhas Cabo Verde, Madei-
Mediterrâneo, antes controlado pelos turcos. Daí a im- ra, Açores e continuarão perlongando o
continente negro para o sul. Tudo isso se
portância dos empreendimentos náuticos europeus. passa ainda na primeira metade do sécu-
A expansão militar romana, em 218 d.C., espalhou lo XV. Lá pelos meados dele, começa a
desenhar um plano mais amplo: atingir o
o latim rústico dos soldados, mercadores e funcionários Oriente contornando a África. Seria abrir,
de Roma desde o estreito de Gibraltar até o rio Sena, para seu proveito, uma rota que os poria
ao norte, e também desequilibrou todo um comércio em contato direto com as opulentas Índias
das preciosas especiarias, cujo comércio
nos territórios centrais do continente, formando o novo fazia a riqueza das repúblicas italianas e
roteiro oceânico: desde a Holanda, costa da Norman- dos mouros por cujas mãos transitavam
até o Mediterrâneo.
dia e Inglaterra até a Península Ibérica.
Meu caro aluno, isso é só para lhe dar uma vaga Você já deve ter ouvido falar da Escola de Sagres,
ideia de como “navegar é preciso”. Se os antigos per- não é? Pois então, ela foi a maior referência dos em-
corriam os mares em busca da sobrevivência de seu preendimentos náuticos e atraia aventureiros, conquis-
povo, nós faremos o mesmo, mas, desta vez, virtual- tadores, soldados, ajudantes e, é claro, marinheiros.
mente, em busca de conhecimento para que você se Bússolas, astrolábios e balestilhas eram instru-
torne um excelente profissional. Espero que, com essa mentos de navegação tão comuns a eles como o com-
introdução, você tenha uma ótima ideia de como tere- putador é para nós atualmente. Por falar nisso, você
mos que navegar e de quão boa será nossa viagem sabe o que eles mediam? Não? Eles determinavam as
em busca do entendimento da formação econômica do direções na superfície terrestre ou a altura dos astros
Brasil. Se hoje somos o que somos é porque temos acima da linha do horizonte, traziam informações sobre
uma história peculiar, que precisamos entender para o a latitude/longitude, ou a posição dos astros. Bem legal
bem de nossa realidade atual. para se localizar, já que não havia ainda o GPS (sigla
Então, se navegar é preciso, icemos nossas velas inglesa de Global Positioning System, desenvolvido
e vamos de vento em popa.. Boa viagem!!! pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos na
década de 1960 e que hoje você compra em qualquer
2 O CONTEXTO HISTÓRICO esquina por quaisquer duzentos reais, não é?).
Meu prezado companheiro de viagem, veja como Havia, por parte dos burgueses de Portugal, in-
a história é algo realmente fascinante! Portugal, desde teresses em que o comércio mundial se expandisse;
os séculos XIV e XV, praticava a pesca do bacalhau daí a intenção de melhorar as técnicas de navegação.
no seu litoral, o que favorecia o desenvolvimento das Era uma época de oportunidades somente para algu-
artes náuticas. Esse desenvolvimento permitiu-lhe atin- mas pessoas e havia um pensamento comum naque-
gir as costas africanas em busca de recursos minerais, le tempo: quanto mais riquezas, maior é o prestígio, o
vegetais e outras riquezas. Os portugueses edificaram respeito e o poder internacional do rei. Assim, alguns

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AULA 1 • O DINAMISMO DA PENÍNSULA IBÉRICA COMO UM DOS PRINCIPAIS AGENTES
DO CAPITALISMO COMERCIAL DO SÉCULO XVI

monarcas se dispuseram a financiar os investimentos náuticos, aliados a alguns comerciantes, desejosos de mais
ganhos econômicos.
Como Portugal, a Espanha também desejava encontrar uma rota alternativa (pelo ocidente, ao invés do oriente)
para os produtos vindos da China e Índia, tão aceitos na Europa. Já que o clima frio do continente europeu não
permitia o cultivo de certos vegetais, esse comércio gerava lucros altos através dos impostos cobrados sobre os
produtos trazidos do Oriente. Depois de sete séculos de guerras, conflitos localizados e fases de convívio pacífico,
os espanhóis conseguiram expulsar os árabes (queda de Granada em 1491). A desorganização territorial refletia-
se na formação socioeconômica e cultural dos dois países. Arquitetonicamente, a Península Ibérica constitui-se
de uma beleza exemplar e que ficou muito marcada pela presença dos romanos, bárbaros (=visigodos) em outros
tempos. Veja as figuras.
Locais de edifícios mudéjar na Espanha e em Portugal

Zimbório mudéjar da Cetdral de Teruel


Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_mud%C3%A9jar. Acesso em: 17 dez. 2010.

(De maneira geral, considera-se que a arte mudéjar (quer dizer, arte moura) caracteriza-se pelo emprego do
tijolo como material, com uma nova decoração superposta a elementos construtivos cristãos e muçulmanos.)

arte românica arte manuelina


Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_mudejar. Acesso em: 26 nov. 2010.

É verdade que houve abertura de estradas, fundação e construção de vilas e/ou cidades, engenhosas constru-
ções para escoamento de água e esgotos, oficialização de documentos jurídicos, administrativos e políticos, etc.,
mas o território não estava organizado como Estado-Nação. Você se lembra desse conceito?

11
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Não? Então vamos lembrar. destino às terras do oeste. Você se lembra das histó-
O Estado nacional foi definido a partir do século rias envolvendo Cristóvão Colombo, Américo Vespú-
XIX e apresenta uma organização complexa envolven- cio, Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Hernán Cortez,
do os poderes legislativo, judiciário e executivo. A luta Francisco Pizarro, Pedro de Alvarado? Vamos recor-
da sociedade civil quase sempre torna esse ordena- dar rapidamente. Em 1492, Cristóvão Colombo chega
mento político mais democrático. É a nossa participa- à América; Vasco da Gama ao Oriente (1498); Pedro
ção como cidadãos que garante a presença da demo- Álvares Cabral atinge o Brasil em 1500; Francisco Pi-
cracia no mundo atual. Em 1500, Dom Manuel - rei de zarro “conquistou” o Peru, eliminando o império Inca;
Portugal - tinha o poder em suas mãos e não havia Hernán Cortez foi o explorador do México; Pedro de
nenhuma participação da sociedade civil no governo do Alvarado ocupou Cuba e parte do Golfo do México, etc.
país. Imagine essa cena no mundo globalizado de hoje! Tudo na mesma época. Podemos considerar todos eles
Já pensou? A soberania de uma nação não é um privi- como grandes empreendedores e responsáveis pelo
légio privado de monarcas, mas um atributo público. desenvolvimento econômico da Península Ibérica, do
Nos séculos XVI até o XVIII, predominou na Europa capitalismo desde o século XVI até as transformações
o sistema do Absolutismo, caracterizado pela centraliza- socioeconômicas no continente americano.
ção do poder político e administrativo nas mãos dos mo- Em 1492, a chegada de Cristóvão Colombo por es-
narcas. A burguesia comercial dava-lhe apoio financeiro, tas bandas representou o início da dominação ibérica
mas necessitava de uma administração eficiente, moeda no comércio mundial. Sabedores da existência de ter-
unificada e segurança para percorrer as regiões do reino ras a oeste (W), portugueses e espanhóis assinaram
levando suas mercadorias. Fica evidente que havia inte- o Tratado de Tordesilhas (1494), que estabelecia o
resses de ambos os lados nessa união, não é claro? limite de 370 léguas (=200 milhas) a W da ilha de Cabo
Verde como pertencendo a Portugal, e, a partir dessa
3 PRESENÇA DE EUROPEUS NA linha, as terras seriam da Espanha. Isso significa que
AMÉRICA DO SUL a atividade marítima comercial determinou a formação
Você deve estar se perguntando: O que os povos territorial da América Latina. Veja o mapa.
ibéricos desejavam adentrando pelo oceano “mons-
tro”, como era conhecido o Atlântico? Era fundamental
ampliar os horizontes geográficos para alcançar novos
mercados e novos produtos, aumentar o comércio das
especiarias, arrecadar mais impostos, encontrar ma-
térias-primas, além de expandir os domínios da Igre-
ja Católica. Uma balança comercial favorável também
era uma busca incessante para os dois países naquela
época. Você sabe de que dois países falamos quando
nos referimos à Península Ibérica, não sabe? Dê uma
olhadinha no mapa-mundi e você verá lá a península
formada por Portugal e Espanha, certo?
Acredita-se que a falta de força militar e econômica
de Portugal (no século XVI) foi responsável pela pequena
assimilação da língua portuguesa no mundo, pois, embo-
ra o país comercializasse na costa africana com marfim,
ouro, escravos; na Índia, com especiarias; embora ainda
provasse a esfericidade da Terra e assinasse vários tra-
tados sobre as terras descobertas e por descobrir com a
Espanha, não conseguiu disseminar sua língua.
Os reis católicos Fernando e Isabel, além de orga-
nizarem geopoliticamente o território espanhol, finan-
Em vermelho, o Tratado de Tordesilhas
ciaram projetos de navegação, enquanto em Portugal Disponível em: WWW.wikipedia.org/wiki/tratado-de-Tordesilhas.
Pedro Álvares Cabral preparava sua esquadra com Acesso em: 17 dez. 2010.

12
AULA 1 • O DINAMISMO DA PENÍNSULA IBÉRICA COMO UM DOS PRINCIPAIS AGENTES
DO CAPITALISMO COMERCIAL DO SÉCULO XVI

Segundo CUNHA (2010, p. 2), do ponto de vista


da experiência histórica concreta da industrialização
originária inglesa, podemos associar a acumulação pri-
mitiva ao longo processo de desenvolvimento durante
o qual foram gestadas as condições para a emergência
das relações capitalistas, com a constituição, por um
lado, de uma classe de expropriados, e de outro, dos
detentores de produção. O caráter primitivo dessa acu-
As regiões conhecidas pelos europeus até o século XV mulação está no fato de que esta se valeu de forças
Disponível em: WWW.wikipedia.org/wiki/tratado-de-Tordesilhas. extraeconômicas - o poder do Estado para garantir a
Acesso em: 17 dez. 2010.
expropriação dos pequenos produtores rurais, via cer-
Mesmo sendo povos com cultura diferenciada dos camento dos campos, a exploração colonial, o tráfico
da Europa, nossos antepassados índios (desde mais ou negreiro, as pilhagens e saques etc.
menos 3.000 a. C.) tinham conhecimento de algumas Disponível em: http://www.ufrgs.br/decon/publionline/
técnicas agrícolas, como irrigação, fertilização do solo textosdidaticos/Textodid14.pdf. Acesso em: 09 dez.
e cultivo em terraços, arte na cerâmica e na confecção 2010.
de tecidos, trabalhos da metalurgia com o ouro e a pra-
ta. Tinham um poder político centralizado e com várias E, no caso da colonização brasileira, como se deu
sociedades estabelecidas ao longo de alguns vales de a tal acumulação primitiva?
rios (no México, na América Central e nos Andes), com Enquanto nas colônias espanholas houve a inser-
centros urbanos formados e uma grande variedade de ção capitalista monopolista no processo mundial, no
produtos. Estamos falando dos incas, maias e astecas, Brasil, o capitalismo tardio tem reflexos negativos até
que construíram cidades, formaram impérios e tinham hoje, isto é, sua estrutura socioeconômica é baseada
uma representação Estatal. No México, ainda existem no passado colonial e nos anos após 1950, período
mais de 60 povos nativos diferentes, dividindo oficial- de industrialização. Apresenta ainda hoje áreas onde
mente sua língua com o espanhol dos colonizadores. as forças produtivas (terra, trabalho) não estão plena-
Segundo Gomes (2010), as formas de moderniza- mente constituídas. As antigas capitanias hereditá-
ção das sociedades ocorrem devido ao embate entre rias eram, na verdade, áreas distintas e submetidas
capitalismo e crises sociais, indicando que os aspectos às ordens da metrópole portuguesa. A apropriação do
sociais são essenciais ao desenvolvimento de qualquer litoral nordestino ocorreu através das plantations e por
região, ainda que sejam processos lentos e graduais, meio da pecuária no interior do vale do São Francisco;
como aconteceu com a formação do capitalismo euro- das drogas do sertão* na Amazônia; da construção e
peu. A simples circulação de mercadorias não gera força da instalação dos fortes militares, assim como da mi-
produtiva. É a divisão social do trabalho que promoverá neração em MG, GO e MT, atividade que abriu cami-
o crescimento do capital comercial. E a colonização de- nhos para a colonização e criação de núcleos urbanos
veria significar a ocupação e a defesa do território para nesses locais de difícil acesso. Eram criados, assim,
que a acumulação primitiva desejada pelos burgueses mercados regionais, sem ligação uns com os outros.
se efetivasse. Você sabe que não foi o que ocorreu. Além “Escravidão e domínio são outros termos usados para
dos ibéricos, franceses, ingleses, holandeses, entre ou- contar a história colonial do território brasileiro. Ho-
tros, praticaram a pirataria e a retirada de madeira das mens, plantas e animais de três continentes, sob o
nossas matas, eliminaram comunidades e sua cultura, império dos europeus, encontraram-se e, no convívio
desgastaram solos agrícolas com o plantio da cana de obrigatório, criaram uma nova geografia nesta porção
açúcar. A América Latina, a Ásia e a África foram ocupa- do planeta”, é o que dizem Santos e Silveira (2001, p.
das e exploradas pelos capitalistas europeus, ou seja, o 32). A língua, a religião e o sistema político europeus
extrativismo e a agricultura geraram comércio na Europa tornaram-se mundiais. Mais tarde a economia cafeeira
e permitiram que as metrópoles europeias acumulassem
um capital absurdo, sem que uma mínima parte desse *
Produtos como castanha, madeira, cacau, sementes
capital beneficiasse as colônias ibéricas. oleaginosas, baunilha, pimenta, guaraná, etc.

13
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

iniciará a integração nacional, que se completará na


sórios para partilhar o poder mundial, e sua espe-
industrialização paulista e na hegemonia do Sudeste.
cificidade variou ao longo de diferentes contextos
Nas próximas aulas, prezado aluno, tais assuntos
históricos. A tensão fronteira-limite a eles inerente
serão mais trabalhados por nós, ok? Por hoje ficamos
afetou o Brasil desde suas origens até hoje, quan-
por aqui. Já viajamos bastante!
do “Tordesilhas contemporâneos” de novo tipo,
virtuais, se desenham no cenário mundial.
4 RESUMO Decorrente da mudança social constituída
Nesta nossa primeira aula, você percebeu o mono- pela substituição da ordem econômica feudal pelo
pólio dos italianos no comércio europeu das especiarias capitalismo em sua feição mercantilista, o Trata-
orientais e Portugal e Espanha tornando-se potências do de Tordesilhas consagrou o novo significado
econômicas devido às grandes navegações e desco- atribuído pelo contexto histórico às categorias
brimentos. As bases para tal dinamismo econômico fronteira e limite. Fronteiras de acumulação do
repousam na assinatura do Tratado de Tordesilhas, na capitalismo europeu, estabelecidas por conquis-
alteração das rotas marítimas do Mediterrâneo para o ta e colonização da empresa mercantil. Limites,
oceano Atlântico, na expansão da fé católica através dos corolários das fronteiras de acumulação, consti-
jesuítas, no descobrimento de minerais preciosos (ouro tuíram linhas demarcatórias das novas áreas con-
e prata), provocando o enriquecimento de pessoas “em- troladas pelas potências hegemônicas.
preendedoras” ou que viviam do comércio, conquista e Os limites do Brasil se expressam pela manu-
exploração de comunidades indígenas e seus recursos. tenção de sua identidade de fronteira, na unidade
A expansão europeia significou o predomínio eco- territorial e linguística, na desigualdade social e di-
nômico e cultural europeu sobre o resto do mundo e versidade espacial, bem como na busca incessante
unificou a superfície terrestre, baseando-se na forma do controle dos dois polos de riqueza como funda-
do comércio e nas desigualdades impostas aos povos. mento de autonomia ante as pressões das grandes
A burguesia mercantil ibérica comandou a expansão do potências nos diferentes momentos da história, em
capital, expandindo-se comercialmente, explorando as que se configuram diferentes Tordesilhas. Não mais
“novas” colônias; procurou sua autonomia enquanto os um Tordesilhas fundado em uma linha que segue
reis impuseram a justiça, sua força militar e suas leis, meridianos, mas sim em linhas variadas, reais ou
unificando moeda e implantando um sistema tributário virtuais, que, em face da velocidade de mudança,
em todos os reinos ou países. são cada vez mais efêmeras, mas que sempre sig-
No caso do Brasil, as atividades produtivas desen- nificam a tentativa de delimitar os amplos sistemas
volvidas no período colonial geraram o “arquipélago de controle territorial em nível mundial.
econômico”, responsável por mercados regionais dis- (Adaptado de BECKER, Bertha K. Departamento de
Geografia/LAGET-UFRJ. Atlas nacional do Brasil. 3.
tintos e desligados uns dos outros, e ainda pela ausên-
ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2000, p. 15-16)
cia de rede de transportes, o que impediu a circulação
interna de produtos e manteve a colonização de explo-
A) EXPLIQUE como o Tratado de Tordesilhas cons-
ração enquadrada na estrutura mercantilista da época.
tituiu-se num dos elementos mais importantes da
formação histórico-geográfica brasileira.
5 ATIVIDADES
B) COMPROVE com um fato ou episódio a afirmativa:
1. Leia o texto seguinte para responder ao que se “não mais um Tordesilhas fundado em uma linha
pede. que segue meridianos, mas sim linhas variadas,
reais ou virtuais...”.
Brasil: Tordesilhas, ano 2000
Tordesilhas, entendido como símbolo da ten- DICAS
são fronteira-limite, constitui um dos componen-
Filmes
tes cruciais da formação histórico-geográfica bra-
1- O filme Bye, bye, Brasil, de Cacá Diegues, é uma
sileira, sem o qual é difícil compreender hoje esse
obra que revela a situação econômica do interior
imenso país. Foram muitos os consensos provi- brasileiro através da peregrinação de “mambembes”

14
AULA 1 • O DINAMISMO DA PENÍNSULA IBÉRICA COMO UM DOS PRINCIPAIS AGENTES
DO CAPITALISMO COMERCIAL DO SÉCULO XVI

pelo país até chegar à periferia de Brasília e que CUNHA, André M. A colonização e o desenvolvi-
merece ser (re)visto para que você reflita sobre a mento capitalista do Brasil: o capitalismo tardio ou
formação econômica brasileira. retardatário. Disponível em:
2- O livro A federação brasileira: uma análise geo- HTTP:///www.ufrgs.br/decon/publionline/textosdida-
política e geossocial, de Manuel Correia de Andrade ticos/textodid14.pdf. Acesso em: 9 dez. 2010.
e Sandra Maria Correia de Andrade, publicado pela
GOMES, Vanice Terezinha. Formas de modernização
Editora Contexto (SP), discute a formação territorial
das sociedades: capitalismo X crises sociais. Revis-
brasileira desde a colonização até o povoamento e a
ta Científica. Ano I, n. 1, Faculdade de Balsas (MA),
ocupação das regiões Centro-Oeste e Amazônia no
2010.
século XX. Aborda também a evolução política fede-
rativa no país e as desigualdades existentes entre PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil con-
os estados brasileiros. Se você puder, dê uma lida temporâneo – Colônia. 6. ed. São Paulo: Brasiliense,
nele. É muito interessante e enriquecedor. 1961.
SANTOS, Milton; SILVEIRA, Maria Laura. O Brasil:
REFERÊNCIAS território e sociedade no início do século XXI. Rio de
Janeiro: Record, 2001.
MELLO, João Manuel Cardoso de. O capitalismo
tardio. São Paulo: Brasiliense, 1986.

15
Unidade 01

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
CONTEXTO HISTÓRICO DA EUROPA À ÉPOCA
DA COLONIZAÇÃO

AULA 2

O BRASIL COMO POLO EXPORTADOR DE RIQUEZAS


PARA O CONTINENTE EUROPEU

Objetivos
• Compreender a evolução econômica mundial e
o papel das riquezas brasileiras na formação da
sociedade em Portugal e no Brasil colonial.
• Entender como os fundamentos históricos do
processo “colonizador” no Brasil fragmentaram nossa
economia.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO gueses do que as terras brasileiras; a preocupação de


Portugal limitou-se às expedições de reconhecimento
Você percebeu pela 1ª aula que Portugal, ao em- no litoral, expulsão dos navios intrusos que buscavam
brenhar pelas terras do Ocidente, particularmente, no o pau brasil. Vamos recordar como a riqueza colonial
Brasil, reorganizou sua economia e adquiriu prestígio provocou mudanças na Europa?
diante das outras nações europeias. O sentido da co- A chegada de franceses, holandeses, ingleses à cos-
lonização foi, na verdade, a afirmação da empresa co- ta nordeste brasileira, sem a permissão dos portugueses,
mercial instalada nas novas terras, seja por parte dos iniciou um comércio lucrativo do pau-brasil na Europa
ibéricos, seja por parte dos outros povos da Europa (a tinta era usada para tingir tecidos e a madeira para a
que se aventuraram pelos oceanos. Dá para perceber fabricação de móveis ou instrumentos musicais). Os po-
também que a economia, alicerçada pelo Absolutismo, vos europeus saquearam nosso litoral e fizeram “trocas”
pelo crescimento dos burgueses e pela exploração dos com os nativos baseadas nos produtos do extrativismo
recursos naturais e sociais das grandes descobertas, (vegetal e/ou animal) e na exploração da mão de obra
não provocaria o povoamento nos territórios estranhos; local. Os portugueses ofereciam espelhos, bugigangas
o que lhes interessava era o comércio e aos índios que cortavam as árvores da Mata Atlântica e
[...] os problemas do novo sistema de carregavam as toras para os navios (= escambo).
colonização, envolvendo a ocupação de Segundo Prado Jr (1961, p. 5-6),
territórios quase desertos e primitivos, te-
rão feição variada, dependendo, em cada [...] no seu conjunto, e vista no plano mun-
caso, das circunstâncias particulares com dial e internacional, a colonização dos
que se apresentavam. A primeira delas trópicos toma o aspecto de uma vasta
será a natureza dos gêneros aprovei- empresa comercial, mais complexa que a
táveis que cada um daqueles territórios antiga feitoria, mas sempre com o mes-
proporcionará. A princípio, naturalmente, mo caráter que ela, destinada a explorar
ninguém cogitará de outra coisa que não os recursos naturais de um território vir-
sejam produtos espontâneos, extrativos. É gem em proveito do comércio europeu. É
ainda quase o antigo sistema das feitorias este o verdadeiro sentido da colonização
puramente comerciais. (PRADO JUNIOR, tropical, de que o Brasil é uma das resul-
1961, p. 19) tantes; e ele explicará os elementos fun-
damentais, tanto no econômico como no
Agora, que tal conhecer um pouco sobre a empre- social, da formação e evolução históricas
sa comercial portuguesa montada no território brasilei- dos trópicos americanos.
ro? “Mãos (alheias) à obra” foi o lema dos novos em-
preendedores que estiveram aqui e exploraram muito Portugal tinha uma população muito pequena
bem os indígenas e os negros africanos e apenas co- e poucos trabalhadores livres que quisessem se
mandavam as atividades necessárias ao crescimento aventurar pelas novas terras. Em 1550, a popula-
econômico. ção de Lisboa era constituída de 10% dos escravos
ou trabalhadores negros vindos da África do Norte
2 A EMPRESA COMERCIAL e o país não dispunha de mão de obra excedente
para povoar as novas terras. Os espanhóis – frag-
“A ideia de povoar não ocorre inicialmente a ne- mentados geopoliticamente - tinham que recons-
nhum deles (povos da Europa). É o comércio que lhes tituir alguns áreas e precisavam de trabalhadores.
interessa, e daí o relativo desprezo por este território Apenas a Inglaterra recebia uma variedade de
primitivo e vazio que é a América; e, inversamente, o povos que fugiam das perseguições políticas, re-
prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para as ligiosas ou econômicas dentro da própria Europa
atividades mercantis.” (PRADO JR, 1961, p. 18) e pôde usar essa mão de obra abundante e ba-
Você sabe que havia uma burguesia mercantilista rata em seus empreendimentos (PRADO JUNIOR,
comandando as transações financeiras europeias atra- 1961, p. 24)
vés da expansão do capital acumulado no velho conti-
nente e da exploração sobre a colônia. É isso que Caio André M. Cunha (2008, p. 5-6) salienta que a co-
Prado Jr. nos diz acima: os altos lucros com o comércio lonização foi o “elemento constitutivo do processo de
de especiarias eram mais importantes para os portu- acumulação primitiva para, a partir daí, destacar suas

18
AULA 2 • O BRASIL COMO POLO EXPORTADOR DE RIQUEZAS PARA O CONTINENTE EUROPEU

características mais gerais, e que, no Brasil, marcaram de metais preciosos da América Latina
vinha permitir a superação da “depressão
a face de uma nação ainda em gênese”. Verdade isso,
monetária” que dificultava a circulação
né? Não tínhamos uma sociedade disposta a lutar por mercantil na Europa na fase de crise do
um território, leis próprias e muito menos transações feudalismo.1
comerciais lucrativas. Veja como ocorreu na Europa. Somente em 1531, Martin Afonso de Souza co-
Os Atos de Navegação da Inglaterra (1651), esta- meçará o povoamento, tentará expulsar os invasores
belecendo que todas as mercadorias que saíssem ou e iniciar o cultivo de plantas como a cana-de-açúcar,
entrassem no Reino Unido e seus domínios deveriam o tabaco e o algodão. Portugal não descobriu os me-
ser transportados pelos navios e tripulações inglesas, tais preciosos, como fizeram os espanhóis, e teve que
demonstram como havia monopólio e exclusividade colonizar as terras, já que o comércio com o Oriente
desde o século XVII; acrescente a esse protecionismo estava em declínio (grande concorrência e altos cus-
comercial a acumulação de capital pelos comerciantes tos); havia o medo de perder as terras determinadas
da Inglaterra, o comércio do tráfico de escravos e a pre- pelo Tratado de Tordesilhas para outros europeus que
sença de grandes quantidades de recursos naturais e questionavam a partilha territorial.
você terá a fórmula da alavanca para a Revolução In-
dustrial inglesa. Quase todos os países – constituídos 3 FORMAÇÃO ECONÔMICA
naquela época - adotaram as normas inglesas. Isso
significou que o sistema colonial europeu para a Amé-
E SOCIAL NA AMÉRICA
rica Latina abasteceu a produção mercantil europeia, PORTUGUESA
especialmente com os produtos do extrativismo ame-
A formação territorial e o povoamento da América
ricano, estimulando as trocas somente entre alguns
Portuguesa basearam-se em poucos polos econômi-
países da Europa.
cos, alguns núcleos urbanos, fortificações litorâneas
O pacto colonial exemplifica muito bem as rela-
e fragmentação da economia e da política colonial,
ções monopolistas das colônias latino-americanas para
diferentemente do que ocorria nas regiões inglesas
com suas respectivas metrópoles e exclusivas tran-
e francesas ao norte do novo continente. Éramos
sações comerciais. Ainda segundo André M. Cunha
uma feitoria mais completa e diversificada que as da
(2008, p.10),
África-Ásia. O continente americano deveria constituir
[...] tais elementos, típicos de toda explo- uma empresa de colono branco, reunindo uma produ-
ração tropical, são derivados da neces-
sidade de produção em larga escala de ção de gêneros de grande valor comercial, executada
produtos capazes de proporcionar um por raças inferiores: índios ou negros vindos da África.
alto retorno mercantil nos mercados eu- Houve aqui uma combinação perfeita entre os obje-
ropeus, num ambiente físico a princípio
hostil e estranho ao colonizador europeu. tivos mercantis da expansão ultramarina europeia e
A empresa nos trópicos deveria garantir as condições naturais e sociais para que a empresa
o maior retorno possível para os capitais
aqui empatados. [...] Dos trópicos o que fosse lucrativa.
se exigia era sua integração funcional aos Em razão dos acontecimentos acima, pode-se dizer
interesses mercantis da metrópole. que o renascimento comercial, o início do fortalecimen-
to da burguesia, a concentração de poderes locais nas
Para Oliveira (1985, p. 97),
mãos dos reis e o consequente enfraquecimento dos
[...] a conformação do antigo sistema co- nobres marcaram o período do Absolutismo europeu.
lonial aparece como momento essencial
para o avanço do capitalismo na Europa. Mais tarde, alguns desses elementos foram adaptados
A valorização do capital comercial é dina- nas colônias das Américas e, conforme a formação de
mizada pela nova malha de circuitos entre sua sociedade e da administração, cada uma delas
colônias e metrópoles, ao mesmo tempo
em que a entrada de produtos coloniais desenvolveu-se de maneira diferenciada. Não havia
estimulava o comércio entre as próprias articulação socioeconômica entre as colônias espanho-
nações europeias. O mercado colonial
servia de alavanca para o desenvolvi- las e/ou portuguesas; os “empreendedores” deveriam
mento da produção mercantil das metró-
poles, particularmente da produção ma- 1
Disponível em: ufrgs.br/deecon/publionline/textosdidaticos/
nufatureira. Finalmente, a entrada maciça textodid14.pdf. Acesso em: 08 dez. 2010.

19
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

apenas garantir um vultoso negócio para a Europa. O ideais de libertação e mudanças. Contudo essa é outra
poder local dos grandes proprietários de terra - deten- parte da história, que será vista em aulas posteriores.
tores de um poder militar próprio - dificultava qualquer Podemos dizer que a colonização decorreu da
unificação socioeconômica. Era necessário ampliar os mercantilizarão crescente do feudalismo em sua pas-
horizontes geográficos para alcançar novos produtos e sagem para o capitalismo e que representou também
mercados, e aí os portugueses contaram com os inves- uma reserva de mercados exclusivos para as metró-
timentos de comerciantes, ávidos pelos lucros próprios poles coligadas, além do crescimento de uma classe
do capitalismo que se iniciava na Europa e se estendia comercial (ou mercantilista), responsável pelas ativida-
pelo resto do mundo, especialmente nas rotas comer- des monopolistas no período colonial. Em uma socie-
ciais. dade capitalista, o trabalhador livre vende sua força de
Se uma atividade econômica atraente deveria ser trabalho, por um determinado tempo, ao comprador e
implantada, a cana-de-açúcar foi a principal produção detentor dos meios de produção (terra, máquinas, equi-
e baseou-se na grande propriedade, no trabalho es- pamentos, etc.). Tudo o que se produz durante essa
cravo, na monocultura voltada para atender o mercado relação trabalhista, assim como o excedente da produ-
externo. Com certeza, você já ouviu falar ou leu trechos ção, pertence ao empregador, e isso gera a mais valia
do livro Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre né? = lucro, que, somada ao capital inicial, representa mais
Pois então, desde 1933, quando o livro foi publicado, riquezas.
até hoje, há uma discussão sobre o tema abordado: a A burguesia europeia comandou a expansão capi-
estrutura sociopolítica e econômica na qual se inspirou talista através da exploração das colônias e já vivia das
o autor para retratar um período histórico brasileiro. Há nascentes manufaturas domésticas que permitiriam à
elementos socioeconômicos remanescentes da coloni- Inglaterra dar o chute inicial da Revolução Industrial. Os
zação, ou seja, o trinômio M-E-L (= monocultura, es- portugueses, que já tinham acordos mercantis com os
cravidão e latifúndio), vigentes até hoje, principalmente ingleses desde o século XVII, beneficiaram-se das suas
no Nordeste brasileiro. A nossa estrutura fundiária é manufaturas. Nossas atividades econômicas seguiam
reflexo das capitanias hereditárias e seus donatários e, as determinações do capitalismo mundial, que buscava
hoje, os representantes locais do poder. o máximo de acúmulo de capitais e metais preciosos
Você acha “legal” o poder concentrado nas mãos de para fortalecer o poder real. Éramos fornecedores de
poucos? Com o mundo cada vez mais conectado, fica matérias-primas de baixo custo e éramos “mercados
difícil imaginar apenas um pequeno grupo econômico cativos” dos produtos manufaturados das metrópoles.
tomando decisões em nível mundial, não é mesmo? Durante mais de quatro séculos nossa economia (até
Pois então, para mudar tal condição é preciso 1930) foi agroexportadora inserida no contexto mundial
buscar outras formas de evolução sociocultural, como através de produtos agrários e baratos e compradora de
você está fazendo com sua vida, ao optar pelo curso manufaturas europeias e norte-americanas. As marcas
de educação a distância. Continue acreditando na sua da colonização portuguesa estão presentes até hoje no
empresa de vida! É muito bacana sua luta e a maneira Brasil, tais como: povoamento litorâneo (devido à proxi-
como você organiza e mantém sua empresa! Voltemos midade dos portos); dependência econômica de países
ao passado para entender nossa economia presente. centrais; formação de uma sociedade dualista (uma
No período colonial, o proprietário das terras era minoria é detentora do poder e mantém ligações com o
também o senhor detentor de todas as coisas: meios mundo exterior, enquanto a grande maioria populacio-
de produção, pessoas, poderes político, religioso e so- nal serve como força de trabalho barata); desgaste dos
cial, além de ser o ponto de ligação da colônia com a solos agrícolas e/ou desequilíbrios ambientais causa-
metrópole. A lei do senhor do engenho era a máxima e das pelo extrativismo mineral, vegetal ou animal.
a mais pura verdade: a mulher, os filhos e parentes de- Na Europa, o açúcar produzido na ilha siciliana
veriam obedecer-lhe, enquanto os escravos funciona- e em pequena quantidade funcionava até como dote
vam como eternos (re)produtores econômicos, sexuais precioso e raro nos casamentos de rainhas; a pimenta
e fiéis ao seu dono. Claro que em alguns momentos (vinda do Oriente) garantiu o comércio e crescimento
aparecerão pessoas que não estarão de acordo com das repúblicas mediterrâneas da Itália. Mais tarde,
a estrutura socioeconômica vigente e que lutarão por foi o caso do tabaco, batata, tomate, algodão (originá-

20
AULA 2 • O BRASIL COMO POLO EXPORTADOR DE RIQUEZAS PARA O CONTINENTE EUROPEU

rios da América) serem os “novos donos do pedaço”, naram-nos da sua cultura e, principalmente, da sua
conforme o mercado europeu exigia. As novas terras economia. E foi tanto sucesso comercial que a América
americanas – imensas e à disposição do homem – lhes funcionou como a “galinha dos ovos de ouro” para eles.
dariam oportunidade de exploração e comercialização Espanhóis, portugueses e, principalmente, ingleses se
de variados e lucrativos produtos. E ele (europeu) veio enriqueceram às nossas custas. Coube à Inglaterra o
como “dirigente da produção de gêneros de grande privilégio de iniciar sua Revolução Industrial com muita
valor comercial, como empresário de um negócio ren- matéria-prima extraída do nosso continente. Mesmo na
doso; mas só a contragosto como trabalhador. Outros América temperada do norte, onde estavam colonos
trabalhariam para ele” (PRADO JR, p. 23). Com certe- que vendiam sua força de trabalho (temporariamen-
za, você já ouviu a história dos portugueses que aqui te), havia a esperança de tornarem-se proprietários ou
chegaram, exploraram os nativos e os recursos natu- plantadores por conta própria. Viveram o sistema da
rais e, sem qualquer comprometimento com a terra, colonização de povoamento, ao contrário do que ocor-
ao enriquecer, voltavam para a Europa e compravam reu do México até a Argentina, onde existia o modo
títulos de nobreza. Passavam a ser “nobres” não por exploratório e de exaustão da terra. Os portugueses
tradição, mas por poder econômico. foram os precursores da escravidão dos negros africa-
Finalizando, podemos dizer que a empresa co- nos e dominantes das áreas fornecedoras de tal mer-
mercial portuguesa instalada no Brasil funcionou muito cadoria, o que foi seguido por outros povos europeus.
bem até que outras atividades econômicas atraíssem Assim, foi mantido o sistema de acumulação primitiva
novos investidores europeus ou que a produção daqui capitalista, através do metalismo, do protecionismo al-
acabasse (= plantations). Mesmo com o término da ex- fandegário “inventado” pelos ingleses e copiado pelos
ploração econômica, a herança do poder sociopolítico demais países europeus, do pacto colonial imposto pe-
na colônia continuava existindo em várias regiões, li- los ibéricos e pela busca por uma balança comercial
torâneas ou não, dada ao proprietário dos latifúndios. favorável a todos eles, sem levar em consideração os
Tudo se organizou conforme a estruturação comercial povos recém-descobertos. A ocupação e a exploração
europeia: o elemento branco foi o especulador ou ne- da América Latina, da África e da Ásia, baseadas no
gociador, recrutante da mão de obra dos índios ou ne- extrativismo e na agricultura pelo capitalismo comercial
gros importados da África e disponibilizou os recursos europeu, geraram uma força extraeconômica dentro do
naturais para obter lucros. Tais elementos serão neces- sistema capitalista e promoveram a subordinação e a
sários para que a organização socioeconômica mante- dependência nas antigas colônias.
nha uma Europa comercial, lucrativa, empreendedora No caso brasileiro, até hoje temos um modo de
e se torne mais capitalista. Por mais de quatro séculos organização socioeconômico e político reprodutor da-
marcou, profundamente, a vida e as feições do Bra- quela época: povoamento mais intenso na área litorâ-
sil. As mudanças no sistema agroexportador brasileiro nea onde estão os portos; manutenção do sistema de
somente ocorrerão com a crise do café e o início da plantation; formação de uma sociedade minoritária com
industrialização e da urbanização, assuntos que serão altíssimo poder aquisitivo e detentora do poder; depen-
tratados em outras unidades do nosso curso nas pró- dência econômica em relação aos centros financeiros
ximas aulas. mundiais; poucas ligações econômicas intrarregionais.
Mesmo com a miscigenação que aqui ocorreu, os des-
cendentes de negros e indígenas são vistos como sub-
4 RESUMO
produtos dos brancos. Os patriarcas de terras eram
Você recordou que uma camada social nobilitária donos de tudo e a casa grande era abrigo de todos. A
detinha privilégios políticos, militares, administrativos, produção feita em grandes áreas, usando mão de obra
jurídicos e sociais na Europa regional do século XV. barata e abundante, monocultora voltada para o comér-
Nem todos os europeus estavam em condições de cio exterior, (hoje chamada de agronegócio ou agribu-
executar as tarefas advindas desses privilégios e nem siness - atividade que diz respeito a todo o conjunto de
havia ligações comerciais entre os vários feudos ou re- operações que envolvem, desde a produção, passando
públicas naquela época. Os povos ibéricos impuseram por armazenagem, processamento, até a distribuição
o modus operandi aos novos colonizadores: impreg- de produtos agrícolas e derivados) representa os “no-

21
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

vos” detentores do poder nacional. Acredito que você Utilizando os versos e a imagem abaixo, faça um
conhece alguns desses nossos representantes, princi- texto em que você interprete os versos do grande poeta
palmente no Congresso Nacional, não é mesmo? e da conquista dos mares pelos portugueses no início
da era moderna.
4 ATIVIDADES
1. Para se entender as relações socioeconômicas
dos povos da Península Ibérica com os da América
daquela época, é necessário conhecer e dominar
alguns termos como Tratado de Tordesilhas, feuda-
lismo, absolutismo, acumulação primitiva do capi-
tal, mais-valia, colônias de exploração e de povoa-
mento, balança comercial favorável, metalismo.
Pesquise o significado de todos esses termos e
monte um glossário com eles e muitos outros que
Em rosa, o Tratado de Tordesilhas, celebrado em
ainda virão em nossas próximas aulas. Depois
1494 entre Portugal e Espanha, as terras pertencentes
elabore um texto em que você discuta as relações
a cada um; em verde, seu antimeridiano.
econômicas entre metrópoles e colônias. Todas as
Disponivel em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_
palavras deverão ser usadas, de preferência em
de_Tordesilhas Acesso em: 20 dez. 2010.
uma ordem cronológica.
2. Leia o trecho seguinte do poema de Fernando Pes-
REFERÊNCIAS
soa para responder ao que se pede.
CUNHA, André M. A colonização e o desenvolvi-
“Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!
mento capitalista do Brasil. Disponível em: HTTP://
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / quantos filhos em www.ufrgs.br/decon/publionline/textosdidaticos/tex-
vão rezaram! todid14.pdf. Acesso em: 12 dez. 2010.
Quantas noivas ficaram sem casar/ Para que fosses nosso, ó
mar! PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil con-
temporâneo – Colônia. 6. ed. São Paulo: Brasilien-
se, 1961.
Valeu a pena? Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador / tem que passar além da OLIVEIRA, Carlos Alonso Barbosa. O processo de
dor. industrialização: do capitalismo originário ao atra-
Deus ao mar o perigo e o abismo deu. Mas nele é que sado. Campinas: UNICAMP-IE (mimeo).
espelhou o céu”
(PESSOA, Fernando. Mar Português. Rio de Janeiro: José
Aguiar, 1960)

22
Unidade 01

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
CONTEXTO HISTÓRICO DA EUROPA À ÉPOCA
DA COLONIZAÇÃO

AULA 3

AS TRÊS VIAS DE CONSTITUIÇÃO DO CAPITALISMO

Objetivos
• Identificar a influência das atividades comerciais para
a afirmação do capitalismo.
• Relacionar o trabalho com a geração de riquezas no
mundo em transformação e o poder das empresas.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO filme O Nome da Rosa


Em 1980, o escritor italiano
mostra tão bem. Umberto Eco lança seu livro II
Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro A (re)descoberta Nome Della Rosa pela editora
do homem, seus ques- Bompiani, e em 1986, o livro vira
era a coisa mais importante do mundo.
filme . A história se passa nos
tionamentos, as inves-
Hoje, tenho certeza. (Oscar Wilde, dramaturgo, idos de 1327 em um mosteiro
tigações ou as explica- Beneditino na Itália, onde havia o
escritor e poeta irlandês) ções sobre as leis e as maior acervo de obras cristãs do
coisas, a organização mundo. Naquela época, a Igreja
Você deve estar se perguntando novamente: o que Católica, unida às monarquias,
e a interpretação de não aceitava que as pessoas
a formação econômica tem a ver com um poeta irlan- ideias, o avanço das comuns tivessem acesso aos
dês? É que muitos escritores/poetas iluministas inter- pesquisas e uma larga seus fundamentos religiosos
pretavam e criticavam o mercantilismo, o absolutismo, ou sequer questionassem seus
visão lógico-científica dogmas ou fossem contra
a Igreja e falavam em nome do povo. O que os fisio- desencadearam movi- eles. Para punir quem se
cratas entendiam de economia? Quais os verdadeiros mentos literários, com intrometesse nas questões da
interesses econômicos naquela época? E quais as ra- participação popular. fé católica, existiu a Inquisição e
zões do descontentamento popular? seus representantes que agiam
As ideias libertárias, sem qualquer compaixão ou
Essas são perguntas às quais responderemos que serviram como piedade.
durante nossa aula de hoje. Também trataremos das argumentos contra as
relações entre os reis, a burguesia e seus interesses práticas mercantis que
comuns, além do papel dos poetas num mundo que es- impediam a livre circu-
tava se transformando devido ao comércio, à expansão lação de mercadorias,
da fé católica, à acumulação de capitais e à presença além de fomentar a
do trabalhador nas cidades europeias. A passagem do consciência de quanto
sistema feudalista para o inicial capitalismo foi marcada os trabalhadores eram
pelo entrave entre os nobres e os reis apoiados pelos explorados pelos bur-
burgueses, detentores dos investimentos, capazes de gueses, tornaram pos-
ampliar os horizontes comerciais, buscar novos pro- síveis a divulgação e
http://www.adorocinema.com/filmes/
dutos fora da rota mediterrânea ou báltica e manter a expansão dos ideais nome-da-rosa/ Acesso em: 21 dez.
um comércio favorável. Entre os séculos XVI e XVIII, iluministas e dos libe- 2010.
multiplicaram-se autores e doutrinas para justificar e le- ralistas. Com certeza, 2-. Para Smith, o trabalho sem
gitimar o Estado autoritário e o Absolutismo moderno, você já ouviu a expres- a gerência governamental,
destacando-se Maquiavel, com O Príncipe, um defen- são “laissez faire, lais- produziria a prosperidade
sor do poder irrestrito do soberano, mesmo se ele se se passer” (= deixai fa- econômica, além de gerar
afastasse dos princípios morais vigentes. Vamos recor- a acumulação de riquezas,
zer, deixai passar), pois benéfico para toda sociedade.
dar isso? “o mundo anda por si Adam Smith, um economista
mesmo” era o lema dos escocês, que publicou 5 livros
sobre a liberdade econômica
2 TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS fisiocratas. O que isso e o respeito aos direitos de
significava realmente?
E SEUS IMPACTOS NA VIDA propriedade e ainda confrontou
as ideias de Quesnay (
Que o mundo comer-
ECONÔMICA cial regia-se por leis
médico da corte de Luis XV
que defendia a agricultura)e
naturais, sem a inter- de Vincent de Gournay (dizia
2.1 OS TEÓRICOS EUROPEUS ferência do Estado; o que a acumulação de capital
Iniciando nosso percurso pela Idade Média, quan- preço de qualquer mer- seria resultante das atividades
secundárias(=indústria) e das
do a Igreja usava da razão para manter seu poder cadoria seria regulado terciárias(=comércio em geral).
e divulgar a fé católica, tudo o que a Igreja dizia era pelo próprio mercado e
considerado verdade pura, absoluta e inquestionável. os impostos não pode- HTTP://pt.wikipedia.org/wiki/
liberalismo_econ%C3%B3mico
Lembre-se de que apenas as ordens religiosas e a elite riam depreciar a renda Acesso em: 17 dez. 2010.
tinham acesso ao conhecimento filosófico, conforme o dos produtores.

24
AULA 3 • AS TRÊS VIAS DE CONSTITUIÇÃO DO CAPITALISMO

O que tornava esses liberalistas diferentes dos pra- The Fable of the Bees, publicado em 1714, pelo mé-
ticantes do mercantilismo/absolutismo? Para Quesnay, dico holandês emigrado para a Inglaterra, Bernard de
um dos representantes desse grupo de teóricos, o comér- Mandeville (1607/1733), foi a maneira irônica de mos-
cio era fraco, estéril, improdutivo; apenas as atividades trar que os vícios humanos, tais como inveja, ganância,
como a agricultura, a pecuária e a mineração produziam vaidade e orgulho, eram elementos fundamentais para
riquezas. Ou seja, o excesso da produção agropecuária a prosperidade de uma nação. Os vícios de cada abe-
seria suficiente para suprir as necessidades básicas de lha constituiriam um bem comum para a colmeia, assim
uma sociedade, assim como o crescimento comercial, como para os seres humanos viciados. A colmeia era
a presença do artesão e a organização administrativa formada por dois grupos de canalhas: os assumidos e
de qualquer nação. Antes dele, Maquiavel (1469/1527) os dissimulados. Também existiam a lei, a justiça e a
mostrou como houve a ruptura com o divino; Hobbes ideia divina. Todos os vícios individuais traziam algum
(1588/1679), com seu Leviathan, trata do pacto social, benefício coletivo. Para sustentar a ganância de uma
enquanto Locke (1632/1704) publica seus livros: Ensaio abelha, por exemplo, eram necessárias várias outras
sobre o Entendimento Humano e Dois Tratados sobre abelhas trabalhando em diversas áreas e construindo
o governo, relacionando a fonte da propriedade com o tudo aquilo que os grandes vícios de uma abelha dese-
trabalho e a acumulação de bens. javam. Não fossem esses vícios, não haveria a justiça
Por acaso, você já ouviu falar sobre o livro A fábu- (nem quem defender, quem acusar ou quem julgar), o
la das abelhas? Não? Então leia um pouquinho da sua avanço tecnológico não faria sentido, não haveria com-
história no pé da página. Foi mais uma demonstração petição, e a economia não circularia. Mais tarde, todas
de como a sociedade era vista pelas lentes de pessoas as abelhas tornam-se virtuosas, gerando estagnação
ligadas à corte e que se preocupavam com a socieda- para o grupo e, consequentemente, haverá desem-
de. prego. Claro que a publicação foi contestada naquela
BIANCHI (1987, p. 18) traz aspectos daquela épo- época e até hoje tem seus defensores. Disponível em:
ca em Hume (1711/1776), que publicou O tratado da http://www.investidura.com.br/biblioteca-juridica/re-
natureza humana (3 tomos em 1739 e 1740), onde ele sumos/economia-politica/1193-fabula-das-abelhas-
diz: ”nenhuma qualidade é mais interessante na natu- mandeville.html. Acesso em: 21 dez. 2010.
reza humana que a nossa propensão em simpatizar Assim, o governo não deveria interferir na econo-
com os outros e nos comunicarmos com os seus sen- mia e o homem deveria procurar seus interesses indi-
timentos[...]” e ainda “a avareza ou o amor ao ganho é viduais para que toda a sociedade prosperasse. Mais
uma paixão universal que age em todos os homens...” tarde, R. Malthus, Ricardo e Stuart Mill contribuiriam
Para Bianchi (1987, p. 18), decisivamente para a base do liberalismo econômico
iniciado por Smith. Bem, você percebeu que o libera-
[...] o desejo de melhorar sua condição,
expresso anteriormente em desejo de po-
lismo aumentou a liberdade individual e de expressão,
der, passa para o desejo de ganho ou de buscou a formação de governos mais representativos
melhorar sua própria condição; o homem, e constitucionais, deu mais garantia legal da proprieda-
além de um ser do desejo, é também um
ser de necessidade, e a sociedade apare- de contando com mais pessoas defensoras da liberda-
ce para Hume como um meio útil de obter de econômica e de expressão. Segundo Schumpeter
certos fins, realizando desejos e resolven-
do necessidades.
(1966, p. 186-187), “é das cinzas do sistema mercantil
que emerge, como fênix, o sistema político de Smith”.
Contudo, a obra clássica, em termos econômicos, E essa foi a grande contribuição do Iluminismo para a
foi A riqueza das nações (1776), de Adam Smith, que, formação econômica capitalista mundial.
influenciado por HUME, contestou o mercantilismo (leia
no QUADRO 1, a seguir, o item 2). Para ele, a expansão
2. 2 TRANSFORMAÇÕES
do comércio entre nações e suas trocas comerciais (ma- SOCIOECONÔMICAS OU AS TRÊS VIAS
térias-primas e bens industrializados) levariam à divisão DE CONSTITUIÇÃO DO CAPITALISMO
internacional do trabalho, aumentariam a produtividade e Com o cercamento dos campos na Inglaterra, uma
beneficiariam a todos. Para aumentar a riqueza de uma grande mão de obra dirigiu-se para os centros urbanos.
nação, bastaria aumentar a produtividade do trabalho. Para Vanice T. Gomes (2010, p. 4),

25
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

[...] na economia mercantil, a produção O capitalismo, segundo o dicionário Michaelis


social, sob forma de mercadoria, passa a
(p.422), é uma
ter um determinado valor, e, para a troca,
é necessária a utilização de um símbolo,
organização econômica em que as ativi-
o dinheiro, que representa um intermedi-
dades de produção e distribuição, obe-
ário essencial nas relações sociais, crian-
decendo aos princípios da propriedade
do assim as relações de produção. Es-
privada, da competição livre e do lucro,
sas relações de produção têm diferentes
produzem uma divisão da sociedade em
elementos: meios de produção, força de
duas classes antagônicas, porém vincula-
trabalho e terra, que pertencem consecu-
das pelo mecanismo do mercado: a dos
tivamente às classes sociais capitalistas,
possuidores dos meios de produção e a
trabalhadores assalariados e proprietá-
do proletariado industrial e rural.
rios de terras.
Se no capitalismo tudo tem um valor, o seu real
A revitalização da vida urbana, o aumento das tro-
significado deveria ter um correspondente e, por mui-
cas comerciais e da produção de mercadorias, o de-
tos anos, a moeda inglesa (libra esterlina) foi refe-
senvolvimento científico tecnológico, com fortes vín-
rência mundial. Após a Segunda Guerra, em Bretton
culos com a produção, e a subordinação do homem à
Woods (EUA), durante uma conferência, ficou estabe-
natureza possibilitaram a acumulação de riquezas em
lecido que o dólar americano passaria a ser a moeda
escala e velocidade nunca imaginadas. E é claro que,
mundial. Hoje, você faz transações com cartões de
nem sempre, as transformações socioeconômicas oci-
crédito que funcionam como referência e equivalência
dentais ocorreram de forma pacífica, simultânea e sem
do dinheiro.
oposição, contudo modificaram profundamente o modo
As formações capitalistas distintas em várias re-
como a sociedade se organizava e sua maneira de pro-
giões, em tempos diferenciados e no decorrer da pró-
duzir. A Inglaterra, ao promover a Revolução Industrial,
pria evolução social foram consideradas por Moore
alterou também sua estrutura social, criando novas for-
JR. (1983, p. 273) como sendo as três vias constituin-
mas de organização cultural, apresentando invenções
tes do capitalismo. Veja de que forma bacana a Laura
e inovações no processo produtivo dos bens de con-
Valladão de Mattos (2010, p. 3) resumiu as ideias de
sumo e ainda garantindo um crescimento econômico
Moore.
independente da agricultura.

QUADRO 1
As três vias de constituição do capitalismo

Via Caracterização Local de ocorrência

1ª ou Revolução Capitalista; movimentos violentos, com longa alteração Inglaterra, França e


Burguesa política até atingir a democracia moderna ocidental; Estados Unidos,
aliança do capitalismo à democracia parlamentar, após respectivamente.
as revoluções Puritana, Francesa e Guerra Civil.

2ª ou Prussiana Capitalista; políticas reacionárias até atingir o fascismo, Alemanha, Japão e Itália.
sem ocorrência de surtos revolucionários.

3ª ou Comunista Originária, embora não exclusiva, das revoluções entre Rússia e China e, nos
camponeses. anos de 1960, Índia (ainda
inacabada).

3 AS EMPRESAS
Com o fim do Absolutismo na Inglaterra, a acumulação de capital, as recompensas excepcionais fornecidas pe-
las indústrias iniciais e o problema agrário (Cercamento ou Enclosures Acts) resolvido, a burguesia inglesa, ansiosa
por conquistar novos mercados, exigia maior participação no poder, mais liberdade econômica e o fim das restrições

26
AULA 3 • AS TRÊS VIAS DE CONSTITUIÇÃO DO CAPITALISMO

mercantilistas. Esses elementos combinados levaram a organizar sua sociedade, situando o homem como cen-
profundas transformações no mundo trabalhista, na pro- tro do universo, em oposição à organização do mundo
dução, no meio ambiente e nas cidades, facilitando que teológico-cristão da Idade Média.
a primeira Revolução Industrial acontecesse em ter- As monarquias absolutistas europeias que estabe-
ritório inglês e em alguns outros espaços europeus, leceram monopólios determinaram o preço de produtos
mas em uma dimensão menor. Houve um expressi- e dos salários, proibiram a importação ou a exportação
vo aumento populacional e as condições humanas e de determinados produtos e fortaleceram-se através do
ambientais causavam horror e repulsa aos visitantes. acúmulo de metais, da busca de uma balança comer-
Veja o que disse Alexis de Toqueville ao visitar os ar- cial favorável, de medidas protecionistas e assim a ma-
redores londrinos: “Desta vala imunda, a maior cor- nutenção do extrativismo nas colônias estava com os
rente da indústria humana flui para fertilizar o mundo dias contados. Era preciso mostrar que a terra cultivada
todo. Deste esgoto jorra ouro puro. Aqui, a humani- traria riqueza, enquanto os industriais a diversificariam
dade atinge o seu mais completo desenvolvimento e e, finalmente, o comércio a distribuiria. A intervenção
sua maior brutalidade, aqui a civilização faz milagres governamental comprometia o desenvolvimento dos
e o homem civilizado torna-se quase um selvagem”. burgueses capitalistas que não praticavam o comércio
(in: HOBSBAWN, E. J. A era das revoluções (1789 e acreditavam que o governo deveria dar apenas con-
-1848). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p. 43). dições para que o mercado fluísse naturalmente.
A partir da Revolução Industrial (RI), as formas de O liberalismo econômico propunha a liberdade de
trabalho foram substituídas pelo trabalho assalariado, e produzir, vender e comprar, onde, como e quando a
toda a vida social deveria gerar lucros, daí a constituição burguesia quisesse. A liberdade dos empresários e a
de empresas lucrativas. Se a industrial têxtil (século XIX) individual trariam a riqueza das nações, conforme Smi-
cresceu, ultrapassando o próprio mercado, a lucrativida- th defendia. Se no feudalismo a terra pertencia ao se-
de caiu de maneira assustadora; era hora de investir em nhor feudal e os meios de produção/trabalho eram do
ferrovias, siderurgia, eletricidade, petróleo, etc. servo, deduz-se que havia uma relação social, direta,
As grandes empresas absorviam as pequenas e de subordinação e domínio sobre o mais fraco, você
passavam a controlar a maior parte do mercado de um concorda? Pois então, no sistema capitalista, os meios
determinado setor produtivo, originando os trustes, car- de produção representam o capital, o trabalho é o pró-
téis, eliminando a concorrência; os bancos passaram a prio trabalho assalariado, e a terra, objeto de compra
investir em atividades industriais, ou as grandes empre- e venda. Pode-se dizer que o capitalista é obrigado a
sas criavam seus próprios bancos ou associavam-se a comprar a força do trabalhador e o direito de uso da
eles. Estava criado o capitalismo financeiro! Hoje você terra do proprietário. É um ciclo que poderá levá-lo a
encontra uma grande quantidade de conglomerados em- adquirir mais riqueza, através do lucro e da exploração
presariais espalhados pelo mundo inteiro e desfrutando do trabalhador e da terra, ou prejuízo, se não souber
de todos os privilégios dos mercados globais. Você con- administrar bem sua empresa ou empreitada. É nesse
corda com o que Oscar Wilde disse a respeito do di- ambiente de transformações econômicas, políticas, re-
nheiro e eu coloquei como epígrafe na introdução desta ligiosas e culturais que apareceram as ideias liberais e
nossa aula? Ah, o dinheiro move o mundo mesmo! que, segundo Novais (1989, p. 66) foram “produtos das
Sabemos que o poder das organizações financei- tensões sociais geradas na desintegração do feudalis-
ras empresariais do mundo inteiro é enorme, como se mo em curso, para a constituição do modo de produção
fosse um polvo atraindo tudo o que lhes proporcione capitalista” que conhecemos até hoje.
lucros, que é o objetivo do sistema capitalista. Agora Enquanto tudo isso acontecia, muitos trabalhado-
economize seu fôlego, pois trataremos desse assunto res saiam do campo em direção às cidades na busca
brevemente, assim como o caso do Brasil será analisa- de melhores condições de vida, pois os campos esta-
do na próxima aula. Até lá! vam ocupados pelo cultivo (linho, algodão) ou criação
(ovelhas, fornecedoras da lã) e não havia segurança
4 RESUMO nas estradas. Claro que nem sempre achavam o que
A partir dos séculos XV e XVII, o Renascimento e o procuravam nos centros urbanos que floresciam na Eu-
Iluminismo obrigaram a Europa a se transformar e re- ropa Ocidental, e, assim, contribuíam para o aumento

27
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

da mão de obra barata e necessária às demais ativida- GOMES, Vanice Terezinha. Formas de modernização
des urbanas. das sociedades: capitalismo X crises sociais. Revis-
As mudanças que ocorreram dentro da própria evo- ta Científica. Ano I, nº 1. Faculdade de Balsas (MA)
2010. Disponível em: http://www.unibalsas.edu.br/re-
lução do sistema capitalista, isto é, inicialmente comer-
vista/index.php/unibalsas/article/viewFile/8/8 Acesso
cial, acumulando lucros conforme o desenvolvimento em: 21 dez. 2010.
das atividades terciárias, passando pela fase concor-
LEME O. G. Desenvolvimento econômico. Arquivo
rencial /industrial monopolista, assumem hoje a forma
IL. Resumo exposição para o IEE- Instituto de Es-
monopolista, financeira e global, através dos conglome- tudos Empresariais de Porto Alegre,15 jan. 1996
rados e empresas virtuais. São elas que determinam a Disponível em : http://www.institutoliberal.org.br/
evolução econômica neste mundo globalizado. conteudo/download.asp?idc=2799 Acesso em: 16
dez. 2010.
5 ATIVIDADES MATTOS, Laura Valladão de. As razões do laissez-
faire: uma análise do mercantilismo e da defesa da
1. Pesquise as principais revoluções ocorridas na In- liberdade econômica na riqueza das nações. Revis-
glaterra, ao longo do século XVII, e como elas re- ta de Economia e Política, v. 27, n. 1. São Paulo,
sultaram em transformações econômicas, políticas jan./mar.2007. Disponível em: www.sielo.br. Acesso
e religiosas no país. em: 16 dez. 2010.
2. Segundo Toqueville, as cidades inglesas eram re- MICHAELIS 2000: moderno dicionário da língua
pulsivas. Como você explica a metáfora: “deste es- portuguesa- Rio de Janeiro: Reader’s Digest; São
goto imundo jorra ouro”? Paulo: Melhoramentos, 2000, v. 2.
3. Explique o que você entendeu do QUADRO 1, As MOORE JUNIOR, Barrington. As origens sociais
três vias constituintes do capitalismo. da ditadura e da democracia: senhores e campo-
4. Muitos historiadores situam a Primeira Divisão In- neses na construção do mundo moderno. Lisboa:
ternacional do Trabalho – DIT - entre 1750 e 1850, Marins Fontes, 1983.
quando os países eram classificados como países
exportadores de produtos manufaturados e os pa- DICAS
íses fornecedores de matérias-primas. Após 1945, Filmes
a reorganização da DIT no plano político levou ao
a) A classe operária vai ao paraíso (direção de Elio
Imperialismo e à Conferência de Berlim. Pesquise
Petri, produzido em 1971) conta a história de um
e anote como funciona a “nova” DIT e quais países
excelente operário, muito elogiado pelos chefes,
estão envolvidos nela.
mas muito oprimido pela política de metas impos-
tas pela direção e seu sonho de consumo.
6 REFERÊNCIAS b) Um dia sem mexicanos (direção: Sérgio Arau,
produzido em 2004) - os ”chicanos” – tão humi-
ASSUNÇÃO, Vânia Noeli Ferreira de. Constituição
do capitalismo industrial no Brasil: a via colonial. lhados pelos americanos – representam a mão de
Verinotio - Revista On-line de Educação e Ciências obra pesada e fazem tudo o que lhes garanta a
Humanas. n. 1, Ano I, 2004. Disponível em: http://www. sobrevivência. De repente são “artigos de luxo” ao
unibalsas.edu.br/revista/index.php/unibalsas/article/ desaparecerem da Califórnia, e os loiros america-
viewFile/8/8. Acesso em: 21 dez. 2010. nos não sabem viver sem os prestimosos serviços
BIANCHI, A. M. A pré-história da economia: de Ma- dos migrantes vizinhos: médicos, policiais, babás,
quiavel a Adam Smith. São Paulo: Hucitec, 1987. garçons, operários, etc. Aparecem explicações di-
COUTINHO, Maurício C. Lições de Economia e vertidas e fantasiosas para o desaparecimento dos
Política Clássica. São Paulo: Hucitec, 1993. 14 milhões de mexicanos, e os californianos apren-
GANEM, Ângela. Adam Smith e a explicação do dem a valorizá-los.
mercado como ordem social. Disponível em: HTTP://
www.ie.ufrj.br/revista/pdfs/adam_smithea ...social.pdf.
Acesso em: 17 dez. 2010.

28
Unidade 01

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
CONTEXTO HISTÓRICO DA EUROPA À ÉPOCA
DA COLONIZAÇÃO

AULA 4

A VIA COLONIAL: O CASO BRASILEIRO, ATRASO


DEMOCRÁTICO E ECONÔMICO

Objetivos
• Entender a situação brasileira de atraso político e
econômico, recorrendo, para isso, aos conhecimentos
sobre as vias de constituição do capitalismo.
• Identificar os elementos responsáveis pelo atraso
democrático e econômico.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO
Prezado aluno, você deve estar se perguntando: o que significa o atraso democrático e econômico brasileiro se,
quase sempre, somos classificados como um país emergente, uma das dez maiores economias mundiais? Pois é,
nem sempre as “coisas” foram bem desenvolvidas no Brasil. Existe toda uma formação histórica, vista no capítulo 1-
aula 02 –que ajuda a responder sua dúvida, mas ela está incompleta. De qualquer maneira, teremos que voltar ao
passado brasileiro para entendermos o contexto econômico em que nos enquadramos. Tenho certeza de que suas
lembranças ajudarão a reencontrar o tal atraso brasileiro. É como se fosse um passe de mágica transportando-nos
ao período colonial. Vamos nessa?

2 CAPITALISMO TARDIO OU RETARDATÁRIO


Você já reparou como a maioria da população brasileira encontra-se a pouco mais de 200 km do litoral? Não? Veja
em um mapa de distribuição da nossa gente e você poderá entender o porquê disso. Diferentemente da Europa, não
tivemos espaço contínuo, concêntricos, abertos à homogeneidade e à diversidade cultural que formaram as polis (=
monarquias primitivas que deram origem às cidades-estado na Grécia antiga) e também não tivemos a libertação de
trabalhadores do campo para serem enquadrados nas oficinas, máquinas, relojoarias, etc. Nossa ocupação dependeu
das atividades desenvolvidas e determinadas pelo capitalismo europeu e, só no século XX, pelos norte-americanos. Daí
a fixação populacional próxima aos eixos de ligação com a metrópole.
O capitalismo nos países periféricos foi imposto de fora, pela força e conivência da classe dominante interna,
desde a era colonial e isso não é mais novidade para você, certo? Então (re)veja o esquema a seguir.

Formação territorial da América portuguesa

POVOAMENTO

Polos Núcleos Fortificações


Econômico Urbanos
s

O capitalismo tardio, típico da América Latina, ba- Smith, e de um bom governo com melhores leis e o
seado no passado colonial e na etapa monopolista cumprimento delas, nem sempre os dois elementos an-
gerou-nos uma estrutura econômica com caracterís- daram juntos no Brasil. Em uma palestra sobre desen-
ticas próprias em que apenas algumas regiões foram volvimento econômico para empresários, na cidade de
beneficiadas com o desenvolvimento territorial e que Porto Alegre , em 1996, Francisco Leme Og salientou
funcionavam como centros difusores do povoamento; a que “o desenvolvimento econômico é fruto do Estado
mineração foi responsável pelos núcleos urbanos que de direito e da economia de mercado, que asseguram
se formaram no interior colonial e as redes marítimas a integridade da iniciativa privada e da qualidade do
ou fluviais se apropriaram do território com as fortifica- capital humano, fruto de investimentos em educação e
ções (caso da Amazônia) e mantiveram a fragmenta- saúde”. No caso brasileiro colonial, não houve nenhu-
ção política e econômica do espaço brasileiro. ma dessas preocupações, o que justificaria nosso atra-
Se a prosperidade de uma nação depende do po- so socioeconômico diante do mundo. Somos ainda um
der da ciência econômica, conforme provocou Adam mero reflexo do processo de inserção no capitalismo

30
AULA 4 • A VIA COLONIAL: O CASO BRASILEIRO, ATRASO DEMOCRÁTICO E ECONÔMICO

internacional. Nosso desenvolvimento econômico se era constituído por um punhado de principados inde-
pautou por uma estrutura local, uma empresa colonial pendentes que impediam sua centralização territorial,
que atendia e atende até hoje aos interesses de grupos sem uma classe burguesa para criar tensões sociais e
internacionais. As enormes diferenças de desenvolvi- sem ligações políticas. Foi denominado de não-clássi-
mento regional e as áreas decadentes são explicadas co ou capitalismo de segunda época ou via prussia-
pelos ciclos econômicos que vivemos e que atendia na. Na Alemanha, progresso social e evolução nacional
aos interesses estrangeiros. não se empurravam mutuamente, mas se encontravam
Esse capitalismo retardatário ou recolonizador, em contraposição. As transformações promovidas na
nos dizeres de Darci Ribeiro, nos manterá dependen- Alemanha tiveram caráter apenas econômico, ou seja,
tes do capital e da tecnologia externos e, internamente, unificação de moeda, liberdade profissional e de circu-
provocará as desigualdades regionais e sociais; tam- lação, mas ainda antidemocrática. Havia a grande pro-
bém estimulará especulação e busca por situações priedade rural (tipicamente feudal) que barrava a ace-
“oportunistas” por parte das burguesias imperialista e leração do processo produtivo. Para alguns autores,
nacional – associadas ou não – para tirar partido mo- há muito similaridade da via prussiana com o caso do
mentâneo, ainda que promova graves danos à eco- Brasil. Você saberia dizer o que há em comum entre os
nomia nacional. Veja o que está acontecendo com a dois países – Alemanha e Brasil? Não? Então vamos
distribuição de royalties do pré-sal e você entenderá a entender o caso brasileiro.
partilha dos benefícios geológicos no Brasil. Por isso, Em seu livro A miséria brasileira, J. Chasin (2000)
valorize seu curso, invista em você, busque atualização nos mostra algumas semelhanças dentro do processo
constante e, com certeza, será mais um vencedor nes- de formação do capitalismo mercantil entre as duas na-
se mundo competitivo. ções: a presença da grande propriedade agrícola, vin-
culada aos mercados externos, a antidemocracia, sem
3 BRASIL E ALEMANHA E O alterar o poder local (seja ele remanescente do feuda-
CAPITALISMO DA SEGUNDA lismo alemão ou das elites usineiras ou mineradoras
brasileiras), com um desenvolvimento gradual e lento,
ÉPOCA e principalmente um “inacabamento” de classes sociais
Nas civilizações pré-industriais, a cidade foi princi- (burgueses X trabalhadores). Veja o que nos diz As-
palmente o lugar de consumo e da circulação de rique- sunção (2004, p. 6) sobre a sociedade e a economia
zas produzidas no campo. A Revolução Industrial trans- brasileiras: “[...] o capitalismo brasileiro então em crise
formou o espaço urbano em área produtora da riqueza. precisava de uma alternativa para a ordem agroexpor-
As grandes cidades (especificamente Londres, com 4 tadora predominante, amplamente caracterizada pela
milhões de pessoas em 1850, e Paris, com 2 milhões alternância entre ciclos econômicos expansionistas e a
de habitantes em 1880) concentravam os conglome- consequente decadência posterior”.
rados comerciais e bancários, as empresas ligadas Também em Coutinho (1967, p. 142) encontramos
ao transporte e os centros de pesquisa e tecnologia, respaldo para a afirmação da nossa dependência:
tão necessários à industrialização crescente como as
fábricas. Além da urbanização, a Revolução Industrial [...] no Brasil, o Estado foi sempre o pro-
tagonista desse processo de moderniza-
impregnou o homem de uma nova cultura: encurtou ção e a burguesia [...] revelou, ao longo
distâncias, unificou mercados e redefiniu o espaço pla- de praticamente toda a história brasileira
netário. E, é claro, a transformação cultural-tecnológica pós-30, que estava muito presa aos seus
interesses econômicos corporativos e in-
mudou a vida econômica de muitos povos. Segundo capaz de chegar ao nível da consciência
Oliveira (1985, p. 86), “[...] a identificação das circuns- ético-política de forma que a privatização
tâncias históricas nos permite reduzir a multiplicidade do Estado aqui assume características pa-
tológicas (mesmo no sentido de um Estado
dos capitalismos nacionais a certos padrões de forma- capitalista).
ção do capitalismo em diferentes nações”. Enquanto
Inglaterra, França, Holanda viviam uma fase de euforia, Os poderes públicos constituídos nos dois países
com o primeiro modo de produção universal ou, confor- apresentaram forte influência social das forças arma-
me denominou Marx, via clássica, o território alemão das, enorme violência policial e repressão contra orga-

31
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

nizações populares e de trabalhadores ou dos direitos e, só recentemente, democratizada. De maneira geral,


humanos. Houve um poder exercido de cima para bai- as economias desenvolvidas apresentam sociedades
xo, sem ouvir os clamores do povo, concentrador de democráticas e, nas subdesenvolvidas, ainda existem
uma renda altíssima e uma maioria com renda muito regimes políticos totalitários, ditaduras, repressão poli-
baixa, típica das desigualdades socioeconômicas. cial, com desconhecimento dos direitos humanos, so-
Depois do exposto, você consegue ver nosso atraso bre as pessoas de baixa renda.
social e econômico diante de um sistema capitalista que
se reinventa todo dia, mas que não está ao alcance de 5 ATIVIDADES
todos? Eu espero que sim.
Na próxima unidade faremos um detalhamento da 1. Elabore um quadro comparativo entre a constitui-
economia colonial brasileira, remontando à ocupação ter- ção capitalista clássica e a prussiana e cite os paí-
ritorial até o período escravagista, e você terá oportunida- ses representantes em cada uma delas.
de de confirmar ou não essa fantástica formação econô- 2. A industrialização tardia apresenta as mesmas
mica e social do Brasil. chances de desenvolvimento industrial e tecnoló-
gico que aqueles participantes da industrialização
4 RESUMO clássica? Justifique sua resposta.

Você percebeu como havia contradições/conflitos 3. Escreva o que você entendeu do fluxograma sobre
entre os grupos sociais que viviam naquele tempo? a formação territorial da América Portuguesa.
Pois é, os iluministas concebiam os homens dotados
de razão, destinados à liberdade e igualdade social, REFERÊNCIAS
atacavam os privilégios da classe dominante e a ma-
ASSUNÇÃO, Vânia Noeli Ferreira de. Constituição
neira como os impostos restringiam as atividades da do capitalismo industrial brasileiro: a via colonial.
maioria da sociedade. Por isso, o passado feudal e a Disponível em: http://www.afoiceeomartelo.com.
acumulação primitiva de capital servem de referência br/posfsa/Autores/Assun%C3%A7%C3%A3o,%20
para entendermos o capitalismo originário, especial- V%C3%A2nia/Constitui%C3%A7%C3%A3o%20
mente o inglês. Com uma crescente população urbana, do%20capitalismo%20industrial%20no%20Brasil.
pdf. Acesso em:20 dez. 2010.
consumidora de produtos manufaturados, a Inglaterra
pode ser considerada a grande incubadora de ideias MELLO, João Manuel Cardoso de. O capitalismo
inovadoras, da liberdade intelectual e do comércio, da tardio. São Paulo: Brasiliense, 1986.
presença da democracia – o primeiro mercado mun- CHASIN, J. A miséria brasileira. Santo André: Ad
dial – e também do modo de produção capitalista. A Hominem, 2000.
participação do governo e da classe trabalhadora é fun- COUTINHO, Carlos Nelson. Literatura e humanis-
damental para a busca do desenvolvimento e do cres- mo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
cimento capitalista. A ausência de um deles pode gerar OG, Francisco Leme. Desenvolvimento econômico.
muitos conflitos entre as várias classes sociais, como Análise Econômica, v. 10, n. 18, 1992.
foi o caso da sociedade alemã. Ali, o desenvolvimento Disponível em: http://seer.ufrgs.br/AnaliseEcono-
do capitalismo não conseguia produzir uma classe bur- mica/article/view/10437/6116. Acesso em: 21 dez.
guesa capaz de assumir a direção da nação. 2010.
Todos os outros países apenas melhoraram as MOORE JUNIOR, Barrington. As origens sociais
condições inglesas para fazerem parte da grande roda da ditadura e da democracia. São Paulo: Martins
de negócio do sistema capitalista. Brasil e Alemanha Fontes, 1983.
apresentam semelhanças apenas em alguns aspectos, OLIVEIRA, Carlos Alonso Barbosa de. O processo
pois enquanto os alemães procuraram acelerar a pro- de industrialização: do capitalismo originário ao
dução nacional, atendendo aos desejos de sua burgue- atrasado. Campinas: UNICAMP (mineo).
sia no pós- guerra, o Brasil continuou como o eterno NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise
fornecedor de matérias-primas baratas, produção agrí- do antigo sistema colonial (1777-1808). São Pau-
cola monocultora, atendendo aos mercados internos lo: Hucitec, 1989.

32
AULA 4 • A VIA COLONIAL: O CASO BRASILEIRO, ATRASO DEMOCRÁTICO E ECONÔMICO

DICA da população, geralmente a mais pobre e mais sofrida.


A crescente concentração de riqueza, o salário mínimo
Filmes
vergonhoso, o desemprego, o aumento da pobreza e da
Prepare uma boa pipoca e um suco bem gelado miséria, a falta de saneamento básico e de assistência
para curtir a dica de hoje. à saúde, fazem parte das situações trágicas vividas na
Os dois filmes brasileiros retratam muito bem a carne pela população mais pobre, com a qual nos depara-
nossa economia e a política em diferentes tempos, que mos em nosso cotidiano.
vão desde um período pré-industrial chegando aos dias
(Disponível em: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.
atuais. Vale a pena conferir! Bom divertimento! aspx?codigo=271. Acesso em: 22 dez. 2010.)
1- Central do Brasil (direção Walter Salles Jr, 1998)
O filme mostra a realidade do Brasil no final do século 2- Pixote, a lei do mais fraco (direção Hector Ba-
XX, caracterizando principalmente as condições de vida benco, 1981)
no subúrbio de uma cidade grande em um país subdesen- Pixote (Fernando Ramos da Silva) foi abandonado
volvido. A massa de migrantes nordestinos que, desde o por seus pais e, morando nas ruas, rouba para sobreviver.
início do século, abandonam o sertão em busca de me- Ele já esteve internado em reformatórios e isto só ajudou
lhores oportunidades na cidade, aumentou o contingente na sua “educação”, pois conviveu com todo tipo de crimi-
de miseráveis nos centros urbanos, que os tratam como nosos e jovens delinquentes que seguem o mesmo cami-
descartáveis, entregando-os ao tráfico e ao assalto como nho. Ele sobrevive tornando-se um pequeno traficante de
alternativa para sobrevivência. O crescimento econômico drogas, cafetão e assassino, mesmo tendo apenas onze
dos últimos 20 anos não repercutiu igualmente nas diver- anos. Disponível em:
sas classes sociais, sendo que as consequências nega- http://www.interfilmes.com/filme_14177_Pixote.A.Lei.do.Mais.Fraco-
tivas desse processo atingiram duramente grande parte (Pixote.A.Lei.do.Mais.Fraco).html Acesso em: 22 dez.2010.

33
Unidade 02

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ANÁLISE DA ECONOMIA COLONIAL BRASILEIRA

AULA 5

A DISCUSSÃO CLÁSSICA SOBRE O TEMA: A OCUPAÇÃO


TERRITORIAL DURANTE A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA

Objetivos
• Comparar alguns processos da formação
socioeconômica da América relacionando-os com
seu contexto histórico e geográfico.
• Confrontar interpretações diversas de natureza
histórico-geográfica comparando diferentes pontos
de vista e identificando os pressupostos de cada
interpretação.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO soais, inteligência, capa-


A arqueóloga brasileira
cidade de transmitir con-
Niede Guidon, comprovou
Meu caro aluno, você viu nas nossas aulas da Uni- fiança ao grupo e pela de forma científica a
dade 1 como o contexto histórico europeu, à época das sua coragem; era mais presença de vários
grandes navegações, foi importante para entender e um cargo simbólico. Cla- povos vindos do Extremo
explicar a própria formação capitalista, ou seja, a acu- ro que faziam guerra na Oriente que atravessaram
mulação primitiva do capital envolvendo transações época em que faltavam a Rússia e o Alaska.
comerciais na Europa, na Ásia, na África e na América, Além disso, descobertas
recursos para a comuni-
arqueológicas chilenas
e que a língua, a religião e o sistema político europeus dade. Os índios eram (e reforçam a teoria do
atingiram o mundo como um todo. Para muitos autores, são) povos com cultu- povoamento da América.
esse foi o verdadeiro espírito da globalização que, com ra, organização social e Os vestígios e inscrições
certeza, você conhece e vivencia hoje; portanto o pro- aparência física diferen- nas cavernas também
cesso globalizante data dos anos “Quinhentos”. Legal ciadas umas das outras. comprovam a presença
esse retrocesso histórico para você compreender o que de povos que aqui
Você aprendeu isso em
viveram há mais de 40
se passa atualmente, né? anos anteriores? Não? mil anos.
Agora é hora de avançarmos na unidade 2, eviden- Viu como é importante a
ciando e analisando alguns aspectos iniciais da eco- Na região de Lagoa Santa
atualização dos conheci-
(MG) você encontra
nomia colonial americana através do apoderamento mentos? Então, só para dados de Luzia, a mulher
territorial pelos ibéricos. Começaremos discutindo o dar uma “movimentação brasileira representante
“descobrimento” e a intencionalidade da posse e ocu- colorida” aos seus pen- desse período. Em São
pação das terras hispânicas e portuguesas no conti- samentos: nos filmes de Raimundo Nonato (PI)
nente americano. A política mercantilista e o pacto co- faroeste, normalmen- existe também um ótimo
lonial são assuntos da aula 06, assim como o sistema museu arqueológico para
te os índios aparecem
você visitar.
de plantation e o extrativismo vegetal e mineral serão iguais e essa é apenas
tratados na aula 07; fecharemos a unidade 2 com a mais uma maneira de (Adaptado de Mário F. Schmidt
Nova história crítica do Brasil -
aula 08: a questão do trabalho escravo e suas conse- mostrar opressão sobre 500 anos de história malcontada.
quências para o mundo capitalista. Ufa! Teremos muito os nossos antepassados. São Paulo: Nova Geração, 1997,
trabalho pela frente e não podemos parar, pois o mundo p.10-11)
Na verdade, há muitos
é uma roda incessante, não é mesmo? Vamos nessa! pontos obscuros da his-
tória dos povos americanos para serem desvendados
2 DESCOBRIMENTO E totalmente à luz de olhos imparciais. Você já assistiu
INTENCIONALIDADE aos filmes O levante dos apaches (exibido inicialmente
em 1952) ou Apaches (de 1954, em que há o lendário
Ainda hoje é comum a crença de que o continente guerreiro índio Jerônimo) ou ainda Brava gente brasi-
americano estava “prontinho” para ser descoberto pelos leira (de 2000)? Não? Eles estão disponíveis em DVD
ibéricos. Na verdade, é preciso recordar que havia um e vale conferi-los.
espaço físico habitado por inúmeros aborígenes, socie- Partindo para atividades mais práticas, como as
dades distintas dos demais povos do mundo, ocupando invenções e descobertas, feitas pelos europeus ou asi-
territórios diferentes, com valores, hábitos e instituições áticos, dos instrumentais básicos na arte das navega-
próprias. A origem de tal grupo remonta há uns 40 mil ções, conforme a aula 01, e do expansionismo da polí-
anos, vindos da China ou Polinésia, atravessando o es- tica mercantilista que buscava uma balança comercial
treito de Bering e fixando-se no litoral (tupis= habitantes favorável para garantir os interesses dos empreende-
costeiros) e no interior (= tapuias) Veja o box. dores europeus na nova terra, você verá como se pro-
A imensa maioria dos nossos indígenas se dedi- cessou a colonização hispânica e portuguesa. Vamos
cava à agricultura, à caça e à pesca. Havia grande voltar ao tempo das grandes navegações!
igualdade social e de relações políticas que excluíam a Oficialmente, em 1502, os espanhóis iniciaram a
presença do Estado. O cacique era um líder, escolhido exploração do litoral Atlântico (isso após a 4ª viagem
pela comunidade por causa de suas qualidades pes- de Cristóvão Colombo); em 1503, foi criada, em Se-

36
AULA 5 • A DISCUSSÃO CLÁSSICA SOBRE O TEMA: A OCUPAÇÃO TERRITORIAL DURANTE
A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA

vilha, a Casa da Contratação, responsável exclusiva ao cristianismo, foi capaz de dizimar milhões e milhões
pelo comércio de mercadorias entre a Espanha e a de pessoas que constituíam os povos americanos em
América, e, em 1513, Vasco de Balboa “descobre” o nome de Deus. E hoje, qual é o papel das Igrejas, das
Pacífico. Qual foi o significado dessas viagens? Sim- pastorais e dos governantes em sua cidade? Pesquise
ples! Significou que os ibéricos tinham certeza ab- isso e faça uma reflexão sobre o assunto. Algo mudou?
soluta da existência das terras além-mar a oeste. A A exploração aos mais fracos continua? Então, que tal
esfericidade da Terra estava comprovada! Imagine a conhecer alguns dos elementos marcantes do trabalho
euforia dos pesquisadores e cientistas daquela época! na América Colonial Hispânica?
E o mapa político da América – recém-apossada – evi-
a) Mita: era um serviço obrigatório, temporário, gratui-
denciava uma longa estrada aberta aos aventureiros
to e em condições insalubres praticado pelos indí-
ibéricos que estivessem dispostos a caminhar por ela,
genas nas regiões andinas e mexicanas – regiões
lapidando-a ou dilapidando-a. Simão de Vasconce-
onde havia ouro e prata. Recebiam alguns “troca-
los, um jesuíta seiscentista português, sintetizou bem
dos” para comprar fumo e álcool até para aguentar
essa posse:
o trabalho. Como eram muito explorados, a morte
Estes dois rios, o das Amazonas e o da não lhes tardava a chegar. Alguns historiadores
Prata, princípio e fim desta costa, são
dois portentos da natureza... São como
denominam-no de cuatéquil.
duas chaves de prata, ou de ouro, que fe- b) Encomienda: trabalho servil na extração de me-
cham a terra do Brasil. Ou são como duas
colunas de líquido cristal que a demarcam tais e na agricultura das haciendas (= plantation ou
entre nós e Castela, não só por parte do fazendas que abasteciam o próprio mercado local);
marítimo, mas também das terras. (1) os “donos”, mineradores ou fazendeiros, eram obri-
Em seu livro História da América, Vicente Tapajós gados a fazer a catequese e pagar impostos pelo
– com sua visão eurocentrista – retrata da seguinte ma- número de indígenas utilizados em suas terras. Era
neira o tratamento dado aos ameríndios: mais uma arrecadação governamental.
A fim de proteger-se e evitar a reação dos c) Escravo: exercia todas as atividades impostas
“Incas”, Pizarro aclamou sucessor do “Im- pelo seu “dono”; ocorreu especialmente no Caribe
perador”, o terceiro filho de Huaina Ca-
pac, chamado Toparca, e com a proteção (Cuba e Porto Rico = áreas do tabaco ou outra agri-
dele entrou em Cuzco, capital do Império, cultura), Aí o comércio era comandado pelos holan-
atitude dos espanhóis que acabou por deses, ingleses, portugueses e italianos.
provocar a revolta dos selvagens, abafa-
da pelos conquistadores. E no caso brasileiro? Flamarion Cardoso (1993, p.
Já Las Casas (2001, p. 32), jesuíta espanhol seis- 80-81), no seu livro O Trabalho na Colônia nos faz re-
centista que acompanhou o tratamento dos índios du- pensar a nossa história econômica:
rante a colonização hispânica, disse que [...] desde o século XV, no sul de Portu-
gal e mais tarde nas ilhas africanas do
[...] a causa pela qual os espanhóis des-
Atlântico, a escravidão de negros em
truíram infinidade de almas foi unicamen-
associação com engenhos de açúcar já
te por não terem outra finalidade senão
tinha certa tradição e desenvolvimento
o ouro, para enriquecer em pouco tem-
antes que começasse (no século XVI) ou
po, subindo de um salto a posições que
se intensificasse (no século XVII) o tráfico
absolutamente não convinham a suas
para o Brasil. [...] Os engenhos brasileiros
pessoas. Enfim não foi senão a avare-
já levavam várias décadas funcionando
za que causou a perda desses povos e
principalmente à base da mão de obra
quando os índios acreditaram encontrar
indígena, quando a importação de africa-
algum acolhimento favorável entre esses
nos tornou-se mais importante. Isto mos-
bárbaros, viam-se tratados pior que os
tra não ser correta a hipótese, bastante
animais e como se fossem menos ainda
popular há alguns anos, de que [...] foi o
que o excremento das ruas; e assim mor-
tráfico que gerou a escravidão de africa-
reram sem fé e sem sacramentos, tantos
nos. [...] pelo contrário, o que aconteceu
milhões de pessoas.
foi que, com a insuficiência crescente da
Assim, a colonização ibérica que contou com o disponibilidade de escravos indígenas,
uma procura já existente passou a ser
apoio da Igreja fazendo o papel de Tribunal da Inquisi- atendida de outro modo, isto é, pela im-
ção, catequizando os colonos e convertendo os índios portação de africanos.

37
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

O tráfico tendeu, aliás, a se desenvolver a cobrança dos tributos, a introdução das


cada vez mais sob o controle de comer- doenças; a cruz simbolizava a introdução
ciantes estabelecidos em cidades como do catolicismo nas novas terras.
o Rio de Janeiro ou Salvador, não em
Lisboa. [...] Pesquisas em curso de João Você se lembra do Tratado de Tordesilhas, que di-
Luis Fragoso procuram provar quantitati-
vamente, para o fim do período colonial, vidiu o mundo sul-americano entre espanhóis e portu-
que grandes comerciantes estabelecidos gueses em 1494, não é? Pois então, se os espanhóis
na praça do Rio de Janeiro acumularam
conseguiram dominar e submeter os índios ao seu
internamente no Brasil, através do tráfi-
co africano, sem qualquer dependência domínio, saqueando as riquezas acumuladas – ouro
financeira para com a Europa, os capitais e prata – dos astecas e incas, montando sua empresa
que em parte investiram na agricultura de
exportação.(2) colonial mineradora, com forte protecionismo econô-
mico, os portugueses, até 1530, só mantiveram aqui
Portanto havia integração de mercados: metrópole expedições de reconhecimento e punição aos navios
X colônia, ainda que os produtos fossem diretamente piratas intrusos e exploradores do pau-brasil. Qual a
controlados por um grupo econômico e se baseassem razão do atraso da colonização portuguesa no Brasil?
na exploração da mão de obra indígena ou escrava. Os O comércio das especiarias rendia-lhes altos lucros e
grandes traficantes de escravos que viviam no Brasil não havia nenhum “investidor” disposto a aplicar ca-
estavam entre os mais ricos da Colônia. E eles também pitais na procura dos metais preciosos (lembre-se de
compravam terras. O setor agroexportador brasileiro que só mais tarde eles foram “encontrados”). Enquan-
estava nas mãos dos latifundiários ao passo que a pro- to as colônias hispânicas continuavam sua exploração
dução para o mercado local era feita pelos pequenos e metalista, as demais atividades – agricultura e pecu-
médios proprietários. Aí tudo combinava para torná-los ária – gravitavam em torno da mineração. Pense um
mais poderosos. Fragoso e Florentino (1993, p. 15-31) pouquinho: como surgiu a sua cidade? Em torno de
nos recordam isso: uma estrada ou ferrovia? Ao redor de uma igreja ou
[...] a estrutura da produção colonial gera comércio? Circundando um lago ou rio? Alguma ati-
os seus mercados de homens e alimen- vidade industrial ou turística? Pois então, a economia
tos, o que, por sua vez, viabiliza a apari-
ção de circuitos internos de acumulação
de uma região depende de seus recursos naturais e/
além das trocas com a Europa.[...] Não ou humanos. E não foi diferente naquela época. Al-
era gratuito que, já se verá fossem os guns núcleos surgiram por causa de seus atrativos e,
grandes comerciantes (os negociantes
de grosso trato) a verdadeira elite colo- se hoje o capital humano passou a ser mais valoriza-
nial.[...] O ponto de vista desse trabalho é do, nem sempre foi assim. Vamos nos embrenhar por
que a consecução do projeto colonizador,
mais do que criar um sistema monocultor
esses caminhos litorâneos e interioranos para com-
e exportador, visava reproduzir em conti- preender o que se passou com alguns povos e suas
nuidade (isto é, no tempo) uma hierarquia atividades econômicas?
altamente diferenciada [...] Constata-se
que o retorno líquido de uma plantation Durante a União Ibérica (1580-1640), Portugal ficou
se aproximava de uma média entre 5% e sob o domínio da Espanha, e as áreas coloniais perten-
10%, já o tráfico de africanos alcançava
uma lucratividade média de 19% por ex-
centes a esses dois Estados acabaram se confundindo;
pedição. (3) some-se a isso o uti possedetis, que foi uma solução
diplomática de apropriação de um novo território com
Terra, exploração de recursos humanos ou não, e
base na ocupação, na posse efetiva da área, e não em
acumulação de capitais circulantes criaram as bases
títulos anteriores de propriedade. Ou seja, foi o direito
para uma economia modificadora das relações sociais
de um Estado apossar-se de terras “alheias”. Portugal
e históricas de um povo, especialmente o latino-ameri-
e Espanha nunca levaram em consideração as comuni-
cano. Não é possível separar o estudo da colonização
dades indígenas, pois o índio não era considerado um
americana do poder do clero, e aí o poeta chileno Pablo
ser humano de pleno direito, apenas um empecilho a
Neruda nos deu esse primor:
ser removido ou a ser domesticado e disciplinado para
A espada simbolizava a superioridade em o trabalho. Só recentemente muitas sociedades indí-
armas dos espanhóis; a fome simbolizava
os trabalhos forçados, como a encomen- genas passaram a ter o seu direito reconhecido sobre
da e a mita, os deslocamentos forçados, as terras.

38
AULA 5 • A DISCUSSÃO CLÁSSICA SOBRE O TEMA: A OCUPAÇÃO TERRITORIAL DURANTE
A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA

Mais tarde aconteceram outros acordos territoriais foi transformar a colônia


O comércio triangular
entre os portugueses e espanhóis no espaço brasileiro, em instrumento de poder
como o Tratado de Lisboa (1681), de Utrecht (1715), de da metrópole, ou o forta- Apesar das proibições
Madri (1750), de El Pardo (1761), de Santo Ildefonso lecimento do poder do metropolitanas, os
grandes armadores e
(1777) e o de Badajoz (1801), e muitos povos foram próprio Estado. Repare
comerciantes do litoral
mortos durante as disputas europeias. Observe que como o povoamento do do norte e do centro
nosso território vem sendo disputado desde os anos território, especialmente puderam jogar com as
seiscentistas e continua até hoje. o brasileiro, está ligado possibilidades comerciais
O espaço geográfico é construído com base nas ao processo histórico e da época e, praticamente,
atividades econômicas, e, no caso americano, os eu- nossa dependência eco- andavam com seus navios
carregados, qualquer que
ropeus desenvolveram novas formas de ocupação ter- nômica tem forte relação
fosse a região para onde
ritorial, afetando a antiga organização socioeconômica com os centros mundiais se dirigissem. A Inglaterra,
dos indígenas. Essas diferentes formas de ocupação e do capitalismo. O mun- no primeiro século da
suas dinâmicas sociais, políticas e econômicas deter- do era pequeno para as colonização, século XVII,
minaram também a extensão do território em algumas atividades comerciais, estava envolvida em
colônias, criando a distinção no modo de exploração culturais e religiosas da guerras civis,
(Revoluções Burguesas
e de povoamento. Você recorda as diferenças entre época. Frotas mercan-
no século XVII) ou em
elas? Não? Então vamos lá! tes sangravam o mundo guerras europeias
A colônia de exploração, típica da América Latina, à procura de materiais (contra Espanha e
foi criada com a finalidade de beneficiar uma minoria e mercados novos! Isso Holanda). Deste modo,
na Metrópole e as elites coloniais; predominava o la- nos lembra o processo apesar das proibições
tifúndio, a monocultura, com produção voltada para o integrador da globali- relativas ao comércio
colonial, as colônias
mercado externo, trabalho escravo e total submissão ao zação, não é mesmo?
possuíam certa autonomia
pacto colonial. Já a colônia de povoamento, que ocor- Você percebeu como a em relação à Inglaterra
reu na América anglo-saxônica (especialmente Estados globalização veio acom- - “salutar negligência” -
Unidos da América), teve o apoio dos ingleses para as- panhando as atividades A partir do século XVIII,
segurar a posse dos territórios e diminuir as pressões socioeconômicas? Na- a Inglaterra procurou
sociais na Metrópole (lembre-se de que havia muita quela época não se di- regulamentar o comércio
e a vida econômica das
gente precisando sair da Inglaterra: camponeses po- zia tal palavra, mas leia
13 Colônias, Por esta
bres expulsos de suas terras, artesãos arruinados pelo o seu significado econô- razão, elas se uniram
crescimento das manufaturas, perseguições religiosas mico, segundo Michaelis e iniciaram a luta pela
e políticas, etc.) e baseou-se na pequena propriedade (2000, p. 1053) e você independência.
familiar, no trabalho livre, no desenvolvimento de um tirará suas conclusões: http://blog.clickgratis.com.br/
mercado interno para atender às necessidades locais e “Fenômeno observado artegeografica/181863/Am
%E9rica%3A+O+Encontro
havia alguma autonomia para comercializar com algu- na atualidade que con-
+entre+dois+Mundos+.html
mas regiões (= comércio triangular). Veja o box. siste na maior integra- acesso 06 Jan 2011
Não foram aspectos naturais ou a qualidade dos ção entre os mercados
colonizadores e seus povos que promoveram as dife- produtores e consumidores de diversos países.”
rentes colonizações no Brasil e nos Estados Unidos. Enfim, a globalização econômica ocorre pela aber-
Razões outras podem ser apontadas sim, mas não tura de novos mercados, salários baixos, desenvolvi-
significa que não poderemos mudar nossa situação de mento tecnológico independente da época e pela faci-
subdesenvolvidos e dependentes do sistema capitalis- lidade de circulação do capital investido. As fronteiras
ta central; poderemos criar uma nova sociedade, espe- territoriais deixaram de ser empecilho para a acumu-
cialmente através da educação e da informação, como lação e aplicação de capitais. Houve um período na
você está fazendo agora com sua vida. formação capitalista em que o Estado foi um grande
O antigo sistema colonial aparece como elemento investidor e atraiu os “aventureiros” para continuarem a
da expansão mercantil da Europa, ditado pelos Interes- (re)construir a estrada do capitalismo; hoje, os estados
ses da burguesia comercial, cuja consequência lógica nacionais e seu territórios inexistem para as grandes

39
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

corporações, e suas aplicações acompanham a movi- português Orlando Ribeiro, em Portugal, o Mediterrâ-
mentação financeira mundial. Elas comandam nossas neo e o Atlântico, mostrou que as atividades marítimas
vidas e “obrigam-nos” a consumir os seus produtos, portuguesas eram muito limitadas em comparação com
não é verdade? Pois bem, se a ocupação das terras na a atividade principal, ou seja, a agricultura, e as trocas
América deixou-o com vontade de sair pelas estradas, quase não usavam moedas. Havia uma necessidade
conhecendo o trabalho dos nossos patrícios, reconhe- de ouro na Europa e isso foi um incentivo à expansão
cendo pedaços da história, com certeza você se sentirá marítima. Nas ilhas de Açores e Madeira plantaram ca-
mais decidido para posicionar-se criticamente sobre o na-de-açúcar; escravos faziam atividades domésticas
mercantilismo e o pacto colonial, assuntos de nossa em Portugal e Espanha, com autorização papal. A es-
aula seguinte. Até lá e boa caminhada! cravidão era considerada uma “obra cristã”! Vasco da
Gama contornou a África, alcançou a Índia e chegou às
terras portuguesas com os navios abarrotados. Dizem
3 RESUMO
que o lucro foi de seis mil por cento. Imagine a alegria
Após o século XIV, os europeus começaram a se da “galera” que investiu em ações náuticas! O Estado
preocupar com a falta de mercados, de alimentos, a ex- português não cunhava moedas de ouro! Daí muitos
ploração dos nobres feudais, a presença de epidemias pesquisadores e historiadores relutarem em classificá-
rondando as populações e fazendo desaparecer enor- lo como capitalista e burguês, mesmo diante de seus
mes contingentes populacionais, e acabaram tendo excepcionais feitos marítimos. O ouro e a prata que
que buscar alternativas para a própria sobrevivência: entraram no território europeu através da colonização
encontrar novos mercados, pois houve retração das ibérica, nos séculos XVI e XVII, desvalorizaram as
atividades locais. O comércio com a Índia assumia im- moedas de outros países, elevando os preços e, cla-
portância crescente diante das transações comerciais, ro, gerando inflação (= revolução dos preços), mas
e a África não era apenas ponto de escala náutica, garantiu transações comerciais marítimas e terrestres
mas entreposto de mercadorias como o marfim, o ouro lucrativas nunca antes imaginadas! Com a garantia da
da Guiné e os escravos (os africanos faziam guerras Igreja, muitos governantes utilizaram-se dos sermões
e escravizavam os prisioneiros e depois os vendiam do clero para domínio, manipulação e extermínio de
aos portugueses, que pagavam com tecidos, cavalos, muitos outros povos. Estava aberta a “porteira” para a
trigo e sal). O senhor feudal tinha riqueza acumuladas exploração dos recursos naturais e humanos na Amé-
da guerra, da predação, do protecionismo estatal, mas rica e na África, seja no mundo colonial de povoamen-
não tinha capital para investir e obter lucro como no to, como no da exploração. Valeu a pena? Responde o
capitalismo. E foi com o Estado-empreendedor que as poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade:
relações sociais e econômicas europeias modificaram
todo um sistema de comércio mundial. A Igreja foi uma Caminho por uma rua / Que passa por muitos países.
instituição coesa, centralizada e hierárquica, durante a
Idade Média, cuja influência será determinante na vida Se não me veem, eu vejo / E saúdo velhos amigos. (5)
socioeconômica e cultural da Europa. As grandes na-
vegações criaram uma mentalidade moderna na Euro- Todos os caminhos americanos foram pisados,
pa, valorizando as atividades individuais, empreende- ocupados, divididos ou dominados pelos conquista-
doras, questionadoras do poder da Igreja, dos nobres dores, aventureiros ou companhias daquele tempo.
e das tradições intelectuais. Houve ampliação dos Hoje, temos uma América Central subdividida em
horizontes geográficos, mercantis, culturais e mentais; países que mal conseguem viver de uma monocul-
muitas fantasias a respeito dos povos pré-colombia- tura e pessoas em extremo estado de pobreza. Co-
nos e suas formações socioeconômicas e culturais. A lonização e globalização podem ser indicativos da
fronteira territorial entre os ibéricos foi transposta facil- tal opressão de sua gente e da exploração de seus
mente, assim como a busca incessante de lucros es- recursos naturais. Contudo isso é outra história para
teve presente nas sociedades pré-capitalistas, através ser vista depois.
da exploração dos recursos naturais e humanos como Valeu nosso percurso até aqui! Vejamos na próxi-
forma de obter rentabilidade crescente. O historiador ma aula como tais fatos se sucederam. Tchau!

40
AULA 5 • A DISCUSSÃO CLÁSSICA SOBRE O TEMA: A OCUPAÇÃO TERRITORIAL DURANTE
A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA

4 ATIVIDADE FRAGOSO, João; FLORENTINO, Manolo. O Arca-


ísmo como Projeto. Rio de Janeiro: Diadorim, 1993.
1. Justifique a afirmativa: “A colonização da América In: SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica do
foi uma enorme chance de recuperação de uma Brasil: 500 anos de história malcontada. São Paulo:
Nova Geração, 1997.
Europa em crise econômica, política, social e reli-
giosa.” LAS CASAS, Frei Bartolomé de. O paraíso destru-
2. Procure um mapa-múndi histórico e acompanhe as ído: a sangrenta história da conquista da América.
Porto Alegre: L&PM Pocket/Descobertas, 2001. In:
idas e vindas dos portugueses e africanos e você
SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica do
terá uma noção do comércio ibérico antes e depois Brasil: 500 anos de história malcontada. São Paulo:
das grandes navegações. Em seguida, elabore um Nova Geração, 1997.
parágrafo sobre a sua pesquisa e o mundo globali-
MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Por-
zado de hoje nessas áreas geográficas. tuguesa. Rio de Janeiro: Reader’s Digest; São Pau-
3. Imagine que você pertence a uma comunidade in- lo: Melhoramentos, 2000. v. 1.
dígena onde existe, no subsolo, uma reserva de PATAJÓS, Vicente. História da América. Rio de Ja-
petróleo offshore (= externa que ocorre quando a neiro, 1968. In: SCHMIDT, Mario Furley. Nova his-
bacia está na plataforma continental). Investidores tória crítica do Brasil: 500 anos de história malcon-
estrangeiros e o capital nacional “disputam” a reti- tada. São Paulo: Nova Geração, 1997.
rada do mineral. Não há demarcação das terras de
sua tribo. Grupos ambientalistas apoiam a perma- DICAS
nência da tribo no local. Há urgência em resolver a
Livros
situação. Como você a resolveria?
4. Elabore um quadro comparativo sobre as colônias 1- Raízes do Brasil – Sérgio Buarque de Holanda -
Cia das Letras, 1995.
de exploração e de povoamento e cite algumas re-
giões onde elas foram praticadas. 2- Casa grande e senzala – Gilberto Freyre - Re-
cord, 1998.
3- Formação do Brasil contemporâneo- Caio Prado
REFERÊNCIAS Júnior - Brasiliense, 1994.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia comple- 4- Brasil – uma história - cinco séculos de um país
ta. São Paulo: Nova Aguilar, 2002. Disponível em: em construção - de 1500 a 2010. Eduardo Bueno
http://www.ufpb/~romero/port/ga_cda.html Acesso – Ed. Leya, 2010 (relançamento- edição revista e
em: 04 jan. 2011. ampliada).
CARDOSO, Ciro Flamarion. O trabalho na colônia. 5- Formação do Brasil Colonial – Maria José C. M
In: Linhares, Maria Yeda (Org.). História Geral do Wehling & Arno Wehling - Nova Fronteira, 2005.
Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1990.
COUTO, Jorge. A gênese do Brasil. In: MOTA, Carlos
Guilherme (Org.). Viagem incompleta: a experiên-
cia brasileira: formação: histórias. 1500-2000. 2. ed.
São Paulo: SENNAC, 1999. Disponível em: HTTP://
books.google.com.br. Acesso em: 04 jan. 2011.

41
Unidade 02

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ANÁLISE DA ECONOMIA COLONIAL BRASILEIRA

AULA 6

A POLITICA MERCANTILISTA E O PACTO COLONIAL

Objetivos
• Compreender as atividades comerciais nas colônias
de povoamento e a exploração através da prática
mercantilista e do monopólio colonial.
• Comparar alguns dos problemas econômicos
coloniais com os do Brasil atual.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO 1- França: privilegiou a produção interna de manufatura


de luxo, exigindo mão de obra qualificada, às vezes vin-
Durante muitos anos, milhares de povos perma- da de outros países, e proibindo a exportação de certas
neceram analfabetos no mundo, completamente des- matérias-primas. O ministro das finanças de Luís XIV,
ligados, desconectados uns dos outros, completamen- Colbert, foi o grande responsável pela agressiva pro-
te diferentes da nossa vida atual. Não existiam tantos dução luxuosa e exploração intensiva do Canadá e de
meios de comunicação e nem tecnologia suficiente para São Domingo-Haiti (na América Central).
aproximá-los. As grandes navegações e descobertas
2- Inglaterra: criou uma poderosa frota mercante e ma-
trouxeram “luz” para eles. E também a dominação, a
nufaturas mais baratas que as francesas e sem seu
exploração, a segregação entre os povos. Pense se,
luxo; as mercadorias que saíssem ou entrassem no
hoje em dia, alguns empresários resolvessem apossar-
Reino Unido deveriam ser transportadas por navios
se de sua cidade e de seus recursos para obter lucros
ingleses (o que prejudicou os comerciantes holande-
imediatos e rentáveis. Como sua comunidade reagiria?
ses); saques aos navios espanhóis carregados de ouro
E se eles tivessem tecnologia desconhecida pelo seu
e prata; piratarias (como as do corsário inglês Francis
grupo e usassem métodos “invencíveis” para obrigá-
Drake), além do comércio lucrativo de escravos e dos
los a fornecer-lhes uma “balança comercial favorável”?
produtos primários (fumo, algodão, anil) das colônias
Pois foi o que o período mercantilista deu aos povos
na América.
do hemisfério sul. A colonização ibérica fez sentido no
“novo mundo”, fornecedor de produtos exportáveis, va- 3- Portugal: iniciou-se com comércio das especiarias,
liosos e que enriqueceram uma elite latifundiária, com de escravos e das atividades no Brasil. Não havia pre-
autonomia econômica e formadora de um mercado in- ocupação com a produção manufatureira e nem com
terno também. Pois, bem, hoje vamos a essa fase de os artesãos.
relações exploratória e contraditória! Será uma grande
4- Espanha: usou o metalismo diretamente das Amé-
viagem! Venha comigo.
ricas para manter-se no comércio internacional. Assim
como Portugal, não investiu em atividades econômicas
2 A EMPRESA COLONIAL produtivas e seus metais foram mandados para a Ingla-
terra (via comércio oficial ou contrabando), tornando-a
O conjunto de relações entre as metrópoles e suas
apta para instalar a Revolução Industrial, alavancada
respectivas colônias em um determinado período his-
pela acumulação de capital obtido com seu comércio
tórico é denominado sistema colonial. Isso significa
na fase mercantilista.
que a colônia deveria existir para satisfazer os interes-
ses do mercado metropolitano: fornecer-lhe produtos Ah! Os holandeses – após várias disputas e guer-
extrativistas e agrícolas rentáveis. Com o colonialis- ras com os espanhóis, somente em 1648 tiveram seu
mo, a política mercantilista atingiu seu objetivo bási- reconhecimento como país: República das Províncias
co: fortalecer o poder do Estado. Foi um somatório da Unidas (berço da atual Holanda) – fundaram a Compa-
economia com os objetivos políticos. Para isso, era nhia das Índias Ocidentais, responsável pelo comércio
essencial uma balança comercial favorável (= expor- do açúcar na Europa, manufaturas de tecidos, de livros,
tar mais do que importar) e uma das medidas usadas de instrumentos óticos (microscópios, por exemplo),
para quantificá-la foi o metalismo (= metais preciosos: criaram o Banco de Amsterdã (o maior e mais confiável
ouro, prata), o incentivo à produção manufatureira in- daquela época) e instauraram em seu país a liberdade
terna, a dificultação da entrada de produtos estran- intelectual, cultural e religiosa.
geiros (= protecionismo, praticado com altas taxas e Você deve estar pensando: são os mesmos que in-
proibições) e o uso do trabalhador sem remuneração vadiram o Brasil colonial? Certíssimo! Primeiramente,
e direitos trabalhistas. Era um período de muitos gas- eles invadiram a capital Salvador, foram expulsos pelos
tos, cobrança de taxas e impostos sobre quase todas portugueses e espanhóis (1624) e retornaram mais bem
as atividades produtivas. preparados, em 1630, com dezenas de navios, mais
Entre os países colonizadores, houve variação na de mil canhões e sete mil homens. Desembarcaram
política mercantilista. Vejamos alguns casos: em Pernambuco, saquearam Olinda, contaram com a

44
AULA 6 • A POLITICA MERCANTILISTA E O PACTO COLONIAL

ajuda do caboclo-guia Calabar e conseguiram ficar na A América Central não ofereceu metais preciosos
região por 24 anos. Foi um dos períodos de maior de- logo de início, daí o pouco interesse dos europeus pela
senvolvimento e enriquecimento na cidade de Recife. área. Mais tarde, franceses, ingleses e holandeses pra-
Burgueses, holandeses e senhores de engenho brasilei- ticaram as atividades primárias (tabaco, açúcar e frutas
ros davam-se otimamente bem! Veja como o comércio tropicais) em algumas ilhas e ali, exploraram os nativos
os atraia! (Esse assunto será trabalhado em outra aula, e seus recursos, usando a mão de obra escrava.
quando nos concentraremos na maior e mais lucrativa
colônia portuguesa de todos os tempos: Brasil). 3 O CASO BRASILEIRO
O que fizeram os empresários e os governantes
“Para muitos é um pecado, ô, ô, ô
ibéricos para “compensar” os gastos com a coloniza-
Que dos impostos que pagamos ao Estado
ção? No caso espanhol, as empresas ocorreram nas
E do lucro que damos ao mercado
formas da mita e da encomienda. Eles aproveitaram
Um pedaço seja destinado ao carnaval...”
um sistema compulsório que era adotado pelos anti-
gos incas, em que certo número de índios era sorteado (Gilberto Gil [ao vivo], Quanta gente veio
para trabalhar nas minas durante quatro meses, inten- ver. CD 2 398422067-2)
sificaram as explorações de trabalho e transformaram
os índios em escravos. A segunda empresa espanhola
A música Lamento de carnaval, gravada em 1998,
foi outra forma de escravidão: um determinado número
fará a ligação do nosso passado com algumas carac-
de índios era entregue a um espanhol (= encomen-
terísticas socioeconômicas atuais. Nem sempre as me-
dero), responsável pela proteção e cristianização dos
didas econômicas representam os interesses de boa
gentios para distribuí-los entre os colonizadores e sem
parte da população, não é mesmo? Acredito que você
nenhuma remuneração. As guerras, as doenças e o
já vivenciou situações em que uma pequena parte da
trabalho forçado exterminaram precocemente as popu-
sociedade se beneficia com os negócios governamen-
lações pré-colombianas; os sobreviventes foram obri-
tais. Uma breve historinha se faz necessário agora. Se-
gados a aceitar a cultura e a dominação estrangeira, o
gundo Mario Schmidt (1997, p. 115):
que acontece com várias sociedades até hoje.
Se o protecionismo ibérico impedia a entrada de [...] Quando os 15 mil nobres portugue-
produtos estrangeiros em suas colônias, o mundo não ses desembarcaram no Brasil (1808), ha-
via um problema: o que fazer com eles?
se constituía somente de espanhóis e portugueses. O Eram um bando de parasitas ociosos. O
que fizeram os franceses com seus artigos manufatu- jeito foi arrumar-lhes empregos públicos.
Para isso, foram criados cargos de vários
rados e os ingleses com sua marinha mercante? Ou os tipos, onde os “aspones” não serviam
holandeses com suas companhias, já que a América para absolutamente nada.
anglo-saxônica (= Estados Unidos da América e Cana- Muitas coisas irritavam os brasileiros.
dá) não foi bastante atraente para os conquistadores Com a chegada da nobreza, as autori-
dades colocavam uma placa escrita P.R.
da época? Fixaram-se nas costas atlânticas, depois de (Príncipe Regente) nas portas das melho-
fracassarem nas tentativas de achar, pelo noroeste, um res casas. Isso queria dizer que o dono
caminho para as especiarias orientais, buscando no- tinha de abandoná-la, porque agora iria
ser a residência de um nobre lusitano. Os
vos caminhos para suas mercadorias. Ali, conforme as cariocas, como sempre, ironizaram: P.R.
necessidades locais ou externas, foram surgindo vilas queria dizer “Prédio Roubado” ou, então,
“Ponha-se na Rua”!
fornecedoras e compradoras de bens manufaturados.
O comércio era intenso, fluente e com ganhos para Os mais altos cargos da burocracia foram reserva-
ambos os lados. Os colonos vindos da Inglaterra ocu- dos para os nobres portugueses.
param a costa leste com suas companhias oficializadas Será que a fortuna dos ricos lusitanos não pode-
pela monarquia inglesa, enquanto a colonização parti- ria nos ajudar na distribuição da renda entre os latino-
cular foi feita pelos perseguidos políticos ou religiosos americanos? Vamos nos aventurar em mais um pouco
(= puritanos), originando dois tipos de colonização: a da economia colonial para responder a essa pergunta.
de povoamento (centro e norte) e a de exploração (sul) Pegue sua fantasia carnavalesca e aproveite nosso
conforme visto na aula 05. desfile, que não cobra impostos de ninguém, para fa-

45
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

zer a travessia histórica de forma tranquila. Um show jesuítas para a nova terra. Ela deveria ser produtiva!
de cultura nos espera! Mais uma demonstração da ligação do clero com a po-
Com o Absolutismo, houve o renascimento comer- lítica, né? E como fizeram com os índios? Aqueles que
cial, a formação e ascensão da burguesia e o enfraque- não conseguiram se submeter às leis religiosas ou po-
cimento dos nobres locais. Em Portugal, não foi diferen- lítico-administrativas foram assassinados ou morreram
te: era necessário descobrir novos mercados e acumular com doenças adquiridas dos colonizadores “brancos”.
capital para fortalecer a sua economia agrícola pobre e Alguma semelhança com a colonização espanhola? O
manufaturas pouco significativas. Os metais preciosos poder local era uma espécie de prefeitura e câmara de
da América Espanhola despertaram o interesse portu- vereadores conjunta. Só poderiam participar dela os
guês pela “nova” terra ocidental sim, mas os lusitanos homens bons: ricos proprietários de terras e de escra-
estavam de olho no comércio açucareiro, que lhes ga- vos, desde que não fossem descendentes de judeus e
rantiria uma balança comercial positiva, já que as transa- nem de negros! O que eles faziam? Segundo Mario
ções indianas estavam em crise e o endividamento com Schmidt (1997, p. 48), tratavam dos assuntos locais,
os holandeses era crescente. A solução seria produzir como “calçamento de ruas, distribuição de água atra-
cana-de-açúcar nos solos brasileiros! Grande terra! Ex- vés dos chafarizes, da coleta do lixo, da defesa contra
celente achado além-mar, né? Adoçamos a vida dos os índios e os corsários, da assistência aos órfãos, da
nossos patrícios desde quinhentos anos e eles ainda regulamentação do comércio.”
conseguiram equilibrar sua balança comercial! Você certamente conhece o papel dos seus gover-
Muito bem, então conheça os seus passos iniciais. nantes municipais, estaduais e federais. Houve mudan-
Primeiramente, 400 pessoas chefiadas pelo tal ça nas obrigações de cada representante do povo da-
Martim Afonso de Souza aportaram no litoral paulista quela época em relação aos nossos atuais? Pesquise
(São Vicente) onde instalaram um engenho açucareiro. sobre isso, se você tiver dúvidas.
Com a necessidade de capital para manter tal inves- O Pacto Colonial foi um controle econômico da
timento, os portugueses começaram a doar terras a Metrópole sobre a Colônia, conforme nos alerta Prado
quem se dispusesse a colonizá-las. Estavam abertas Junior (1994, p. 89):
as porteiras para as capitanias hereditárias. Isso mes-
Se vamos à essência de nossa formação,
mo, o donatário recebia do rei português a Carta de veremos que na realidade nos constituí-
Doação: propriedade para explorar ao seu “bel prazer”, mos para fornecer açúcar, tabaco, alguns
outros gêneros [...] para o comércio euro-
desde que pagasse os impostos. Seus filhos e descen-
peu [...]. É com tal objetivo exterior, vol-
dentes herdariam tais direitos, mas a terra continuaria tado para fora do país e sem atenção às
sendo do governo lusitano. A doação de “pedaços” da considerações que não fossem o interes-
se daquele comércio, que se organizaram
propriedade (= sesmarias) não exigia nenhuma ben- a sociedade e a economia brasileiras.
feitoria, mas o pagamento de impostos aconteceria de
qualquer maneira. Exceto São Vicente e Pernambuco, O que esse pacto impunha à Colônia? Basicamen-
as demais capitanias não tiveram êxito, pois exigiam te duas condições:
investimentos e capital de particulares para fazê-las 1ª) produção de gêneros agrícolas que fossem interes-
progredir. Portugal se viu na obrigação de melhor ad- santes para Portugal (olhe o lucro!);
ministrar seu tesouro e criou o governo-geral na Bahia.
2ª) comércio exclusivo com a Metrópole (garantia de
Para ajudar o tal governador existiram três auxiliares:
balança comercial favorável e mais lucros).
Provedor-Mor (= cuidava das finanças), Ouvidor-Mor
(lidava com as questões judiciárias na Colônia) e o Ainda que as condições de exclusividade portugue-
Capitão-Mor (defensor militar). Todos vieram com seus sa na colônia sejam consideradas como atrasos para o
familiares e conhecidos, claro. E os marajás tiveram nosso subdesenvolvimento, é necessário relembrar o
cadeira cativa no nosso território! Viu que história pare- papel dos pequenos e médios produtores no abasteci-
cida com a música do Gilberto Gil? mento interno, gerando maior renda que a dos agroex-
Os três primeiros governadores trataram de fundar portadores. Esses dependiam do preço internacional de
engenhos, isentaram os proprietários de engenhos dos seus produtos e das conjunturas externas. Somemos a
impostos, trouxeram animais (bois, vacas, bezerros) e isso a imposição lusitana para a produção de gêneros

46
AULA 6 • A POLITICA MERCANTILISTA E O PACTO COLONIAL

alimentícios básicos (caso da mandioca, milho, feijão), o ou da agropecuária tropical. A produção e a circulação
que era desobedecido pela elite agrária das plantation- comercial ficaram atreladas às atividades da Europa.
escravistas (englobando o tráfico de escravos). Eviden- Se, para Caio Prado Junior, o sentido da colonização
temente, as regras mercantilistas serviam tanto para as sempre foi evidente – abastecer o mercado externo de
Metrópoles como para as Colônias: estas deveriam ser produtos tropicais –, para Schmidt, a colônia também
produtivas, independentes daquela, produtoras de algu- foi fonte acumulativa de capital, e o sistema escravis-
mas manufaturas (estaleiros, por exemplo) e com certo ta representou um dos “filões” mais lucrativos daquele
grau de autonomia econômica. Isso representava muito tempo. Segundo dados dos arquivos históricos, 80%
bem os latifundiários e comerciantes escravistas da Co- do tráfico negreiro eram controlados por comerciantes
lônia, que se enriqueciam muito mais do que os ricos se- moradores de Salvador e Rio de Janeiro, o que lhes
nhores de engenho. Todos os países da América Latina rendia altos lucros. Não há dados comprobatórios da
estiveram submetidos ao Pacto Colonial imposto por Es- riqueza lusitana com o comércio de negros africanos
panha e Portugal. Às colônias cabia-lhes fornecer maté- no Brasil antes do século XVII.
rias-primas e alimentos para suas metrópoles e consu- Os portugueses inicialmente usaram a mão de
miam produtos manufaturados fornecidos por elas (mas obra indígena para as atividades agropecuárias, en-
lembrando que essas manufaturas eram produzidas em quanto os proprietários latifundiários eram responsá-
outros países). Isso “impedia” um desenvolvimento in- veis pelo crescimento econômico colonial e usavam o
dustrial nas colônias que se especializaram na produção tráfico de escravos como um dos pontos acumulativos
de alimentos [açúcar, café, algodão no Brasil; café na de capital. Os interesses do tráfico não geraram a de-
Colômbia; trigo e carne na Argentina; açúcar na América manda por negros, mas o contrário. Havia traficantes
Central (Antilhas); e extração de metais preciosos (ouro de escravos tão ricos quanto os mais ricos senhores
e diamante no Brasil, prata e ouro no Peru, Bolívia, Méxi- de engenho; eles também atuavam como financiado-
co, Argentina); estanho na Bolívia]. A evolução histórica res dos investimentos nas atividades primárias de ex-
dos países latino-americanos revela que estes se consti- portação. Portanto a Colônia brasileira não era uma
tuíram em tradicionais exportadores de matérias-primas, mera repetidora e apêndice da Metrópole portuguesa.
essenciais ao desenvolvimento da Inglaterra, uma vez Houve acumulação primitiva endógena no Brasil, as-
que ela foi a maior fornecedora de manufaturas e pro- sim como a presença de alguns trabalhadores livres
dutos industriais para os países ibéricos. A produção da nas atividades agrárias daquela época. Não formamos
América Latina servia para o pagamento das transações uma sociedade servil como no sistema feudal, assim
entre ingleses e povos ibéricos. Constata-se que as co- como ocorreu em Portugal. Não havia, certamente,
lônias eram capazes de produzir internamente capital uma produção de mercadorias para atender os traba-
acumulativo e, em algumas regiões, os traficantes de lhadores livres ou autônomos, pois o capitalismo só se
escravo atuavam como banqueiros que financiavam os tornou dominante na Europa após as revoluções bur-
projetos agropecuários. Tal situação lembra os aconteci- guesas. Nem por isso deixamos de acumular riquezas,
mentos do tráfico de drogas e armas no Brasil de hoje, mesmo que parte dela tenha sido direcionada para a
especialmente na região Centro-Sul, né? Finalmente, os Inglaterra. Se os preços dos produtos voltados para a
recursos de algumas atividades produtivas servem para exportação oscilavam conforme o mercado externo,
financiar outras e manter o mercado aquecido, mesmo os portugueses concediam licença para a produção
que seja o carnaval, tal qual cantou o baiano Gil. Nossa apenas de alimentos básicos, mas os latifundiários
próxima ala carnavalesca será no mundo extrativista e não lhes obedeciam. Em algumas áreas, o senhor de
na monocultura-latifundiária-escravista. Até lá e apro- engenho concedia aos seus trabalhadores (geralmen-
veite para descansar e relembrar algumas músicas de te aos domingos) uma pequena parcela de terra para
carnaval. que produzissem para si mesmos. Havia plantações
Muito “axé” para você! de milho, mandioca, criação de aves, e alguns até
vendiam uma parte de seu excedente agropecuário.
4 RESUMO Com o dinheirinho, tornaram-se pequenos consumi-
A expansão comercial europeia garantiu o início dores de roupas, ‘bijuterias”, presentes, bebidas, etc.
da colonização americana, seja através dos metais produzidos na Inglaterra.

47
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

O pacto colonial apenas reforçou o comércio feito


do vocábulo latino pater [pai]. Não se trata, po-
pelos lusitanos e grupos interessados nas trocas comer-
rém, do pai como genitor de seus filhos – neste
ciais, como os holandeses, por exemplo. Os “flamengos”
caso, usava-se genitor –, mas de uma figura jurí-
eram os responsáveis pela venda, na Europa, dos produ-
dica do antigo direito romano, no qual pater era o
tos “aportuguesados” vindos da África e do Brasil. Tam-
senhor, o chefe, aquele que tem propriedade de
bém eram os financiadores dos senhores de engenho em
uma terra e de tudo o que existe nela. Portanto
sua expansão açucareira. A Inglaterra, mais tarde, substi-
“pai” tem origem no poder patriarcal, e pátria seria
tuiu as metrópoles espanhola e portuguesa nas relações
o que pertence ao pai e está sob o seu poder. A
internacionais dos países latino-americanos. Finalmente,
partir do século XVIII, com as revoluções norte-
podemos dizer que não houve feudalismo e nem capita-
americana e francesa, “pátria” passa a significar
lismo, apenas um sistema econômico típico das áreas de
o território cujo senhor é o povo organizado sob
exploração: a produção colonial nas Américas.
a forma de um Estado independente. Eis por que,
5 ATIVIDADES nas revoltas de independência ocorridas no Bra-
sil no final do século XVIII e início do século XIX,
1. Leia o texto para responder ao que se pede a se- os revoltosos falaram em “pátria mineira”, “pátria
guir. pernambucana” e, finalmente, com o patriarca da
independência, José Bonifácio, passou-se a falar
A nação: uma invenção recente em “pátria brasileira”. Durante todo esse tempo,
“nação” continuava a ser usada apenas para os
É muito recente a invenção histórica de na- índios, os negros e os judeus.
ção, entendida como Estado-nação, definida pela
independência ou soberania política e pela unida- (Adaptado de CHAUI, Marilena. Brasil. Mito
de territorial e legal. Seu momento decisivo ocor- fundador e sociedade autoritária. São Paulo:
reu no século XIX. Fundação Perseu Abramo, 2000.)
A palavra nação vem do verbo latino nascor
(=nascer) e de um substantivo derivado desse 1. A nação é algo imutável ou uma construção histó-
verbo, natio (nação), que significa o parto de ani- rica? Justifique sua resposta com um argumento
mais, o parto de uma ninhada. Por extensão, a atual, comprovando-a.
palavra nação passou a significar os indivíduos 2. Pátria e nação têm atualmente o mesmo significa-
nascidos ao mesmo tempo de uma mesma mãe do? Justifique sua resposta.
e, depois, os indivíduos nascidos em um mesmo 3. Segundo muitos economistas históricos, como
lugar. Quando, no final da Antiguidade e início da Adam Smith e Karl Marx, a acumulação primitiva
Idade Média, a Igreja Romana fixou seu vocabu- do capital concentrou a riqueza nas mãos de pou-
lário latino, passou a usar o plural nationes (na- cos a partir da expropriação de muitos. Atualmen-
ções) para se referir aos pagãos e distingui-los do te, tais ideias têm fundamento socioeconômico? Se
populus Dei, o “povo de Deus”. Assim, enquanto sua resposta for sim, apresente-o.
a palavra povo se referia a um grupo de indivídu-
os organizados institucionalmente, que obedecia REFERÊNCIAS
a normas, regras e leis comuns, a palavra nação CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade
significava apenas um grupo de descendência co- autoritária. In: VESENTINI, José William. Brasil so-
mum e era usada apenas para referir-se não só ciedade e espaço: Geografia do Brasil. 31. ed. São
aos pagãos, mas também aos estrangeiros (em Paulo: Ática, 2002.
Portugal os judeus eram chamados de “homens PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de S. História Ge-
da nação”; e, no Brasil, os colonizadores falavam ral - compacto para o vestibular: textos, comentários
em “nações indígenas”). e questões. São Paulo: FTD, 1996.
Antes da invenção histórica da nação, os ter- SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica do
mos empregados eram povo e pátria, que deriva Brasil: 500 anos de história malcontada. São Paulo:
Nova Geração, 1997.

48
Unidade 02

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ANÁLISE DA ECONOMIA COLONIAL BRASILEIRA

AULA 7

A MARCA DA COLONIZAÇÃO DE EXPLORAÇÃO: O


EXTRATIVISMO E A PLANTATION

Objetivos
• Comparar processos de formação econômica,
relacionando-os com seu contexto histórico-
geográfico.
• Relacionar informações, representadas em formatos
diferenciados, e analisar elementos socioeconômicos
para construir conhecimento consistente.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO vida. Todo serviço e dedicação, além de seus bens ma-


teriais, são perdidos. Não é nenhuma catástrofe, mas
A incorporação do atual território brasileiro é a confirmação de nossa história econômica: lucros
na economia-mundo moderna, a partir do para uma minoria e muito prejuízo para outros. Que
século XVI, deu-se basicamente através
da agricultura. A fundação do novo país,
tal conhecer como tudo se passou? Acredito que você
portanto, foi marcada pela exploração da gostará da empreitada comparativa.
biomassa vegetal (pau-brasil). O choque
entre a exuberância ecológica de nosso
território e a motivação de ganho imedia- 2 O EXTRATIVISMO
to, típicas de uma colônia de exploração,
deu origem a um modelo predatório de A colônia de exploração tinha a finalidade de fornecer
agricultura que dominou todo o período
colonial, permaneceu por todo o perío- elementos básicos para o enriquecimento de Portugal. E
do da monarquia independente e, ainda os portugueses conseguiram seu intento. Azar o nosso!
hoje, apesar das mudanças tecnológicas
Enquanto as colônias de povoamento progrediam atra-
e da diversificação produtiva ocorrida no
século XX, continua exercendo forte influ- vés da pequena propriedade familiar, do assalariamento
ência sobre as mentalidades e as práticas ou do trabalho da própria família, com a formação de
no campo brasileiro.
um mercado interno – responsável pelas trocas externas
(Adaptado de PÁDUA, José Augusto. In: CAMARGO, Aspásia et al. também, conforme visto no comércio triangular – e cer-
(Org.) Meio Ambiente – Brasil: avanços e obstáculos pós Rio-92. São ta autonomia político-administrativa, aqui as coisas não
Paulo: Estação Liberdade/ FGV/ Instituto Socioambiental, 2002. p.
190.) se passaram da mesma forma, e ainda hoje não têm a
mesma intensidade nem frequência que têm por lá. Con-
Prezado aluno, tinuamos com muita terra improdutiva, sem acesso para
É com muita satisfação que iniciaremos mais uma todos que querem trabalhar nela, muita especulação e
aula para nosso estudo da formação econômica brasi- exploração da mão de obra humana. Os boias-frias, os
leira. Você percebeu que o modelo implantado aqui se sem-teto, os sem-terra, etc. estão aí para comprovar tais
baseou no tripé MEL: monocultura de produtos voltados situações herdadas do passado colonial.
para o mercado externo, na escravidão e no latifúndio. Como se deu realmente tal fato? Voltemos à ocu-
As terras foram tratadas como produtos descartáveis, pação dos estrangeiros europeus.
que poderiam ser abandonadas quando se esgotas- As pessoas que aqui chegaram eram de dois ti-
sem, uma vez que existiam enormes extensões territo- pos:
riais para serem usadas. Raciocínio que, hoje, choca- a) umas poucas ricas que podiam comprar escra-
se com a necessidade de preservação e conservação vos para trabalhar no seu latifúndio; b) a maio-
dos solos, você concorda? Repare que nosso texto in- ria constituída de pobres que tiveram que se
trodutório usa a conferência do Rio de Janeiro (1992) submeter aos donos da terra. Imagine então os
como referencial moderno para relembrar a ocupação povos vindos da África! Aqui, os “aventureiros”
fundiária na colônia. O raciocínio era da grandeza das encontraram madeira e alguns itens das espe-
propriedades, a desvalorização do trabalho escravo ciarias orientais, fixaram-se no litoral, estenden-
e a mão do governo fornecendo apoio financeiro aos do-o até os rios amazônicos e nos inseriram no
donos das terras. Hoje, o agronegócio continua rece- contexto mundial, obviamente, sem consultar
bendo apoio governamental, inclusive isenção fiscal nosso povo e explorando-o. É a lógica do ca-
na importação de certos equipamentos ou defensivos pitalismo: transformar tudo em mercadoria, em
agrícolas, para que as nossas exportações primárias comércio ou objeto de compra e venda. O capi-
continuem crescendo com esse setor. tal holandês financiou uma larga produção de
Imagine-se dono de uma porção territorial sujeita a objetos, fossem eles produzidos na Inglaterra,
inundações durante a primavera/verão e com ativida- na própria Holanda, na França ou no Oriente.
de hortigranjeira. No período chuvoso, toda a terra fica Para que a empresa colonial tivesse sucesso,
encharcada, improdutiva, e você a abandona para ini- era importante manter o pacto colonial e suas
ciar outras atividades em outros locais, sem se importar condições de subordinação. Segundo Prado Jr
com todo um trabalho desenvolvido ao longo de sua (1961, p. 118):

50
AULA 7 • A MARCA DA COLONIZAÇÃO DE EXPLORAÇÃO: O EXTRATIVISMO E A PLANTATION

[...] o que procuro é apenas destacar os elementos fundamentais e característicos da organização econô-
mica da colônia. Eles são em todos os setores, a grande unidade produtora, seja agrícola, mineradora ou
extrativa. Esta última, móvel no espaço e instável no tempo, constituindo-se para cada expedição colhedora
e desfazendo-se depois; mas inda assim, grande unidade naquilo em que se reúne [...] um número relati-
vamente avultado de trabalhadores subordinados sob as ordens e no interesse do empresário. É isto que
precisamos sobretudo, considerar, porque é neste sistema de organização de trabalho e da propriedade que
se origina a concentração extrema da riqueza que caracteriza a economia colonial. Concentração de que a
presença na população de 30% de escravos, e mais outra porcentagem ignorada, mas certamente avultada,
de indivíduos desprovidos inteiramente de quaisquer bens e vegetando num nível de vida material ínfimo,
constituem a consequência mais imediata, ao mesmo tempo que um índice seguro daquela organização
econômica do país.

Fica evidente que o grande investidor-comerciante dos produtos extrativos era o responsável pelo cresci-
mento de um mercado interno, das relações de exportação/importação com a Europa e África, e pelo desen-
volvimento de atividades ligadas à construção naval (utilizando carpinteiros portugueses e escravos). Veja o
GRAF. 1.

GRÁFICO 1 - Monopólios da Colônia


Fonte: SCHMIDT, 1997, p. 52.

O pau-brasil também existia na Índia e, como seu tronco tinha um lenho (=miolo) que servia para fabricar um
corante vermelho usado nas manufaturas dos Flandres (região da Holanda) e a madeira era usada na fabricação
de móveis de excelentes preços, esses dois fatores despertaram nos europeus, especialmente nos holandeses, o
interesse pela árvore. Aqui ele era cortado desde o Cabo de São Roque (litoral do Rio Grande do Norte) até o Cabo
Frio (Rio de Janeiro) e constituía um monopólio real. Somente com autorização do monarca português a área pode-
ria ser arrendada. Era cobrado do investidor um imposto de 20% sobre os lucros (o primeiro investidor foi Fernão de
Noronha). Os índios realizavam todo o trabalho pesado: desde o corte até o carregamento para os navios. A relação
entre portugueses e índios era amistosa, cordial e de grande interesse dos lusitanos. Eles não gastavam nada com
os nativos e ainda praticavam o escambo (troca de objetos); o comércio das especiarias rendia-lhes muito mais. A
importância econômica da Colônia até então foi pequena, exceto quando, no século XVII, a produção açucareira
passou a completar o extrativismo. Veja o GRAF. 2.

51
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

GRÁFICO 2 - Comércio de Portugal em 1515 - valores em cruzados


Fonte: Adaptado de SCHIMIDT, 1997, p. 27.

O armazenamento do pau-brasil era feito em postos estratégicos da nossa costa conhecidos pelo nome de
feitorias. Soldados guardavam o tesouro à espera da chegada dos navios transportadores. Somente após receber
a visita “indesejada” dos ingleses, franceses e holandeses em nosso litoral é que os portugueses enviaram expe-
dições de guarda-costas, financiados pelo Estado e pelos burgueses, para expulsar os corsários. De quebra, os
navios portugueses, ao patrulharem as costas brasileiras, encontraram outros produtos exóticos como macacos,
araras, baleias (fornecedoras de óleo), sal marinho e fumo. Ingleses e portugueses tinham uma relação de “amiza-
de”, e os lucros eram divididos entre seus financiadores europeus, por isso não houve maior desgaste entre os dois
países. Os índios ensinaram aos portugueses e a seus descendentes os caminhos dos rios, a caça, a pesca, o uso
de rede, o costume de tomar banho, o hábito de conversar agachado, o uso do guaraná e outros valores. Começa
a chegada dos europeus entre nossos povos, com devastação ecológica e transformação da cultura indígena! Ga-
nhamos ou perdemos? Aguarde...

3 AS PLANTATIONS
Você percebeu como a nossa economia inseriu Portugal na economia-mundo através das atividades dos co-
merciantes que aqui viviam. Eles não estavam sozinhos nessa empreitada; nela estavam também os donos das
terras e seus escravos. Veja o que novamente diz SCHMIDT (1997, p. 48):
Por causa da pressão da Igreja, desde 1570, Portugal fazia leis proibindo a escravidão dos índios. Mas a
lei também dizia que os índios poderiam ser escravizados numa guerra justa, ou seja, quando os colonos
estivessem “na defesa contra um ataque indígena”. Você pode imaginar quantas aldeias de índios foram
invadidas sob a alegação branca de estar se defendendo!

A chamada plantation usou a mão de obra escrava em quase todos os seus serviços, mas o seu senhor, em
alguns casos, conforme já foi dito, dava aos escravos liberdade dominical, gerando também um mercado consu-
midor interno. Muitos pequenos proprietários também possuíam dois ou três escravos que cultivavam alimentos
para o mesmo mercado. Havia milhares de famílias camponesas livres e pobres, quase sempre subordinadas

52
AULA 7 • A MARCA DA COLONIZAÇÃO DE EXPLORAÇÃO: O EXTRATIVISMO E A PLANTATION

aos latifundiários, também produzindo para abastecer Os sistemas agrícolas mundiais (plantation, agri-
a Metrópole. Segundo Schmidt (1997), os alimentos cultura itinerante, de jardinagem ou moderna) continu-
produzidos para consumo interno diferenciavam-se do am usando os três fatores comuns: capital (determi-
esquema plantation-pacto colonial, o grande respon- nante da sua modernidade ou não), terra (definindo o
sável em manter as relações monopolistas. O número tamanho das propriedades) e trabalho (uso da mão de
de homens livres, famílias trabalhadoras e de escravos obra). São frutos da própria evolução social dos países
possivelmente era muito próximo e grande. Havia então (Brasil, Colômbia, América Central continental e insu-
na colônia um mercado consumidor e produtor! Muito lar) e do seu passado histórico. Resumindo, o sistema
bom isso, né? Se “o trabalho enobrece o homem”, aqui de plantation continua até hoje, mais modernizada, e
ele ajudou a criar um importante abastecimento inter- recebe o nome de agronegócio. Falaremos dele ainda
no. Como a produção em monocultura era do interesse em nosso curso. Convido você a continuarmos nosso
do senhor de engenho, nem sempre as leis portugue- percurso na próxima aula, avaliando o papel dos escra-
sas de produzir outros gêneros alimentícios era segui- vos em nossa formação econômica. Até mais!
das pelos latifundiários, interessados nas cotações do
açúcar. À medida que as plantations se expandiam,
o grande comerciante financiava mais e mais projetos
4 RESUMO
açucareiros e outras atividades: artistas e artesãos, O modelo agrícola implantado no país com a coloni-
“decoradores” de igreja, palácios e museus. Para SCH- zação fundamentou-se no trinômio: grande propriedade,
MIDT (1997, p. 91), monocultura de produtos destinados ao mercado externo
Os cariocas do século XVIII viviam numa e mão de obra escrava. Nos séculos XVI e XVII, o açúcar
cidade que crescia com o comércio e a era o produto dominante, acompanhado de outros ali-
navegação. Pelo seu porto, entravam mentos e do pau-brasil em pequena escala, e a terra era
mercadorias portuguesas e de outras
regiões da Colônia. Dali também se ex- utilizada até a sua exaustão Na metade do século XVI,
portavam açúcar, anil, azeite de baleia, a produção portuguesa de açúcar passa a ser mais
couro, etc.
e mais uma empresa em comum com os flamengos,
Muitos comerciantes negociavam com os navios que recolhiam o produto de Lisboa, refinavam-no e
vindos do Oriente ou África (marfim, óleo de amen- faziam a distribuição por toda a Europa. As capitanias
doim, enxofre para fabricar pólvora, etc.). Leia o que hereditárias iniciaram no Brasil a repartição desigual da
disse Sérgio Buarque de Hollanda (1984, p.113): terra que continua concentrada nas mãos de uma mi-
Aos portugueses e, em menor grau, aos castelha- noria, quase sempre a elite agrária e política do país. A
nos coube, sem dúvida, a primazia no emprego do regi- exploração dos recursos humanos (indígenas e negros
me que iria servir de modelo à exploração latifundiária africanos e seus descendentes) e do meio ambiente
e monocultora adotada depois por outros povos. E a continua até o presente. Do período colonial herdamos
boa qualidade das terras do Nordeste brasileiro para a a predominância da produção de alimentos destinados
lavoura altamente lucrativa da cana-de-açúcar fez com à exportação, com prejuízo do abastecimento interno.
que essas terras se tornassem o cenário onde, por mui- Várias atividades foram financiadas pelos europeus
to tempo, se elaboraria, em seus traços mais nítidos, enquanto os aventureiros tomavam posse do território
o tipo de organização agrária mais tarde característica e usavam o comércio escravista como fundamento pri-
das colônias europeias situadas na zona tórrida. mordial de lucros. A plantation permitiu que os senhores
As capitanias hereditárias do período colonial foram de engenho acumulassem capital, explorassem o negro
os primeiros latifúndios brasileiros quando a colônia foi trabalhador e administrassem política e religiosamente
dividida em grandes lotes entre doze donatários. Pode- suas terras. A Igreja Católica Romana, através de re-
se dizer que a ocupação das terras brasileiras promo- comendações papais, isentou aqueles que estivessem
veu uma concentrada estrutura fundiária que vigora até dispostos a evangelizar e cristianizar os índios e negros.
hoje. A organização das terras e os problemas de de- Sua cultura e seus valores foram suplantados pelos di-
marcação delas continuam até o presente, envolvendo tames europeus. Hoje, vários povos latino-americanos
posseiros, grileiros, índios, trabalhadores do campo e ainda vivem na pobreza ou na miséria, oprimidos e sem
das cidades. Veja que a charge abaixo continua atual! alternativas de uma vida melhor devido à herança políti-

53
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

ca, administrativa, cultural e social que lhes foi imposta ginário. A descontinuidade interpõe- se entre as
pelos europeus, sedentos de matérias-primas e alimen- soberanias, as histórias, as sociedades, as econo-
tos tropicais. mias, os Estados, frequentemente – mas não sem-
pre – também entre as línguas e as nações. No re-
5 ATIVIDADES gistro real, é o limite espacial de exercício de uma
soberania [...]. O simbólico remete à participação
1. Interprete, através de colagem ou desenhos, o tre-
em uma comunidade política inscrita num território
cho abaixo.
que lhe pertence: é um sinal identitário. O imaginá-
“A economia global apresenta diversificações in-
rio conota as relações com o Outro, vizinho, amigo
ternas representadas por três regiões principais e
ou inimigo, e, portanto, as relações de comunida-
suas áreas de influência: América do Norte, União
de política com sua própria história e seus mitos
Europeia e a região do Pacífico asiático. Em torno
fundadores [...]. A fronteira não é, então, um limite
desse triângulo de riqueza, poder e tecnologia, o
funcional banal, com simples funções jurídicas ou
resto do mundo organiza-se em uma rede hierárqui-
fiscais. (FOUCHER, 1998, p. 38).
ca e assimetricamente interdependente, conforme
países e regiões diferentes competem para atrair Interprete o texto acima com colagem de imagens
capital, profissionais especializados e tecnologias ou desenhos. Lembre-se de dar um título ao seu tra-
para suas praias [...]. O conceito de uma econo- balho.
mia global regionalizada não representa nenhuma
contradição de termos. Há, de fato, uma economia REFERENCIAS
global porque os agentes econômicos operam em CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São
uma rede global de interação que transcende as Paulo: Paz e Terra, 1999.
fronteiras nacionais e geográficas. Mas essa eco- FOUCHER, Michel. Fronts et frontiéres: um tour du
nomia é diferenciada pelas políticas, e os governos monde géopolitique. Paris: Magnard, 1998. p. 38.
nacionais desempenham um papel muito importan-
HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil.
te nos processos econômicos.” 17. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Edito-
(Adaptado de CASTELLS, Manuel. A sociedade em ra, 1984.
rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 117-119) PÁDUA, José Augusto. In: CAMARGO, Aspásia et
al. (Org.) Meio Ambiente – Brasil: avanços e obs-
2. A “economia” dos índios não era como a dos lu- táculos pós Rio-92. São Paulo: Estação Liberdade/
sitanos. Você consideraria os índios uns “trouxas” FGV/ Instituto Socioambiental, 2002. p. 190.
no relacionamento com os portugueses? Justifique PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil Con-
sua resposta. temporâneo (Colônia). 6. ed. São Paulo: Brasilien-
3. Leia o texto abaixo. se, 1961.
As fronteiras são estruturas espaciais elementares, SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica do
de forma linear, que exercem funções de desconti- Brasil. 500 anos de história malcontada. São Paulo:
nuidade geopolítica, de delimitação e demarcação, Nova Geração, 1997.
nos três registros do real, do simbólico e do ima-

54
Unidade 02

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ANÁLISE DA ECONOMIA COLONIAL BRASILEIRA

AULA 8

O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA:


A “PREFERÊNCIA PELO ESCRAVO

Objetivos
• Reconhecer o papel histórico-econômico dos negros
africanos em nosso país.
• Identificar algumas comunidades negras e seu valor
cultural na formação econômica brasileira.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO pida de ser resolvida, mas existem muitos organismos


nacionais e internacionais que fazem ótimos trabalhos
Meu caro aluno, pela igualdade social e racial no país. Seria interes-
Imagine que você está participando como jurado sante você conhecer as atividades desenvolvidas por
de um concurso para escolher uma única imagem para esses grupos. E se envolver também! Pense nisso!
representar a espécie humana. Qual dessas aí você Para Schmidt (1997), nas relações de escambo, o
escolheria? índio só trabalhava quando estava com vontade, e o
Viu como é uma tarefa difícil, pois são muitas as português exigia tempo integral. Eis aí um conflito pron-
identidades mundiais, e cada povo, no seu tempo, re- to para se desenrolar. Vejamos como o negro africano
presenta um pouco da vida atual do planeta. Um grupo substituiu a mão de obra indígena.
étnico constitui-se das suas semelhanças biológicas ou Como a mão de obra usada de 1540 até 1620 era
culturais e não pela cor ou religião apenas. Nesta aula indígena, é claro que o lusitano estava com dificulda-
iremos rever alguns conceitos e preconceitos sobre o des para conseguir trabalhadores. O que fazer? Lançar
mundo dos índios e negros no Brasil colonial. Na aula mão do escravo, pois não era nenhum pecado escravi-
anterior foi dito que alguns senhores de engenho per- zar as pessoas, segundo as normas do Vaticano. Some
mitiam que famílias negras cultivassem e vendessem a isso as grandes transações envolvendo a compra e a
seus excedentes agrícolas e participasse da formação venda de negros pelos latifundiários de engenho. Dizer
de um mercado interno, não foi mesmo? Pois então, o que o negro se conformou com a escravidão é o mes-
papel histórico e econômico desse grupo precisa ser mo que convidar você para trabalhar 365 dias do ano,
revisado. durante 24 horas. No sistema capitalista, as pessoas
se arrebentam de trabalhar para sobreviver e consumir
2 O NEGRO AFRICANO: ORIGENS e consumir. Entretanto os índios nunca foram capitalis-
DE SUA “PREFERÊNCIA” tas e nem vigorava entre eles os ideais de acumulação
e consumo. Quando havia necessidade para o grupo,
Um dos termos mais corretos para definir a popula- eles sabiam se adaptar a ela e resolvê-la. O índio nun-
ção brasileira é diversidade étnica, já que nosso povo ca foi preguiçoso! Isso tudo é uma invenção do capita-
originou-se de três grupos básicos: o branco, o negro lismo, que precisa de pessoas para explorar. A cultura
e o índio. Essa miscigenação resultou em tipos físicos indígena não enxerga a floresta como uma fonte de
variados, como os mulatos (ou pardos), caboclos (ou recursos econômicos, e por isso se diz que a melhor
mamelucos) e os cafuzos. A mestiçagem brasileira é forma de preservá-la é a demarcação das terras dos
responsável por uma diversidade cultural vista em pou- índios. O território deles não tem fronteiras internacio-
cas regiões mundiais, e nós compartilhamos valores, nais, ou seja, seu espaço é marcado pelo sentimento
linguagens, costumes e formação econômica origina- de apego às terras, a fauna, a flora e às suas tradições
da do trabalho de cada um desses grupos. É por isso e de seus ancestrais. Você recorda que eles eram os
que se fala em “Brasis”. Nem sempre houve harmonia donos das terras e sua população era muito maior do
e equilíbrio de poder entre eles e o capitalismo fornece que existe atualmente; portanto seria justo demarcar
“boas” condições para que as disputas entre os grupos suas terras e homologá-las definitivamente, não é mes-
se façam com muita constância. A exploração e as do- mo? Contudo não é o que acontece atualmente com
enças foram diminuindo a força de trabalho dos índios nossos irmãos indígenas. Pesquise sobre a área Rapo-
para o investidor colonial. Some a isso o papel da cate- sa Serra do Sol em Roraima para você ter certeza de
quese dos jesuítas (ou Igreja Católica X latifundiários) como as “coisas andam” no nosso país.
e você entenderá a “opção” pelos africanos. Os africanos que vieram para a Colônia quase
Você já vivenciou algum episódio ou tomou co- sempre eram capturados nas proximidades da linha
nhecimento de algum que envolvesse preconceito, ra- equatorial e tinham formação sudanesa: eram os hau-
cismo, “queima“ de índio ou morador em rua? Na sua ças, nagôs e mandingas. Muitos já adotavam a religião
cidade existe algum fato que comprove tais situações? islâmica e seus reinos eram muito bonitos e formosos.
Se não, parabéns ao grupo que aí vive! Se sim, é pre- Os bantos eram excelentes agricultores e viviam na re-
ciso mudar tal realidade. Não é uma situação fácil e rá- gião mais ao sul do Equador; correspondiam aos povos

56
AULA 8 • O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA: A “PREFERÊNCIA PELO ESCRAVO

de Angola, do Congo, de Cabinda, de Moçambique e sem qualquer descanso. Não havia salário, nenhum
do golfo de Benguela. No navio tumbeiro, a mortalida- direito trabalhista; apenas o suficiente para sobreviver
de, nos séculos XVII e XVIII, era de 30% e, no século trabalhando enquanto fosse jovem: água, comida míni-
XIX, de 10%. As pessoas vinham amontoadas umas ma e ruim e “esteira sobre o chão duro” para dormir.
sobre as outras, no porão úmido, sem sol, banheiro e Havia investidores pequenos nas vilas, cidades
circulação de ar. Dá para perceber o porquê dos nú- e fazendas, que foram aparecendo e, conforme já foi
meros altos de mortes? Os cadáveres quase sempre dito, muitos escravos tinham autorização para realizar
ficavam amontoados, apodrecendo suas carnes e faci- transações dos seus excedentes nos comércios locais.
litando outras mortes até serem jogados no oceano. E Entretanto a maioria dos escravos não possuía condi-
aqueles que adoeciam também poderiam ser lançados ções de comprar aquilo que era produzido aqui, então
ao mar mesmo antes de morrer. Claro que isso preo- o mercado consumidor interno era limitado. E se não
cupava o comerciante que havia investido na compra há crescimento do poder de compra, como ampliar a
do “material”. Os demais pagariam pelos prejuízos do produção e o mercado internos? Faça uma associação
navio. Ao chegarem aqui os africanos eram chamados com o que você acabou de ler e a fase de industriali-
de boçais e, quando aprendiam a falar o português, zação brasileira. Ora, o capitalismo é um sistema que
recebiam o apelido de ladinos. Os negros africanos, busca o lucro, se não havia consumidores por que pro-
quando chegavam ao Brasil, eram “examinados” pelos duzir objetos que ficariam empatados nas prateleiras?
compradores, especialmente de Salvador, Rio de Janei- Vê a lógica do sistema? É assim que funciona a econo-
ro e Recife: os jovens, sem feridas nos órgãos genitais, mia capitalista.
com dentes bons e olho sem vazar recebiam valores Entretanto os negros africanos reagiam, fugiam
excepcionais. Claro que os africanos não vieram para em bandos, unidos e, quando podiam formavam os
cá voluntariamente! Ninguém quer ser escravizado e quilombos,que eram uma verdadeira “sociedade al-
muito menos discriminado, né? ternativa”. Isso significava que lá não havia um único
proprietário; todos trabalhavam livremente, em coope-
3 O TRABALHO ESCRAVO NOS ração, desenvolvendo atividades agropecuárias e arte-
sanais, além de escolherem seus líderes. Existiam co-
ENGENHOS
munidades desde o Rio Grande do Sul até a Amazônia
Se o índio não atendia às necessidades dos ex- e que se comunicavam com outros grupos, fora do país.
ploradores europeus, e a população lusitana era insufi- Também absorviam outros grupos oprimidos, pobres,
ciente para todas as atividades extrativas ou agrícolas fugitivos da polícia e sem acesso à terra. Também prati-
nos novos territórios, o negro africano já provara que cavam trocas e alguns deles vendiam produtos para os
poderia exercer qualquer trabalho. Por que não lançar fazendeiros. Segundo Schmidt (1998, p. 47),
mão desse povo e do rentável comércio que o tráfico
[...] os quilombos eram odiados pelos
oferecia? A Igreja Católica recebia por cada escravo brancos dominadores. Primeiro, porque
africano desembarcado no Brasil, 5% na forma de im- era um refúgio seguro para os oprimidos
posto (havia exclusividade para os portugueses captu- na colônia. Segundo, porque os quilom-
bolas [pessoas que viviam no quilombo]
rarem os negros africanos, conforme a Bula Romanus não ficavam parados: organizavam ex-
Pontifex, do papa Nicolau V). Ingleses e franceses tam- pedições de guerrilha para atacar as fa-
zendas e libertar outros companheiros,
bém queriam partilhar desse “bolo” , assim como os Terceiro, porque o quilombo era uma
holandeses, em 1670. Você viu que, no caso brasileiro, demonstração prática de que os negros
o tráfico negreiro era controlado pelos nativos do Rio e outros pobres não precisavam nem um
pouco dos ricos para viver bem e formar
de Janeiro, Salvador e Recife. Schmidt (1998, p. 48, uma sociedade mais justa. Era uma bela
grifos da autora) diz que “o capital do tráfico era acu- demonstração de que a História poderia
ter tido outro caminho e que o destino dos
mulado na própria Colônia. Conclusão contrária à dos explorados não é a sujeição eterna!
livros didáticos tradicionais não foi o tráfico que gerou a
escravidão africana, mas o inverso”. Os pequenos proprietários de terras, os escravos
Nas lavouras ou nas minas, o trabalho iniciava-se livres (que viviam nas cidades, vendendo seus objetos
todos os dias pela madrugada e ia até tarde da noite, artesanais, alimentícios ou seus serviços) e os proto-

57
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

campesinatos (aqueles que podiam cultivar a terra aos 4 RESUMO


domingos) ajudaram a formar o mercado consumidor
interno. Havia horticultura em Olinda, Salvador e Rio de Em 1500, quando Pedro Álvares Cabral aportou
Janeiro; da farinha de mandioca, as mulheres faziam nas terras brasileiras e apossou-se delas em nome da
o beiju em quase todas as vilas, fazendas e áreas de Coroa Portuguesa, havia cerca de três milhões de in-
agricultura livre; as frutas eram cultivadas nos quintais dígenas, subdivididos em vários troncos linguísticos,
e nas áreas livres, os frutos nativos eram recolhidos, com valores e culturas diversificados. Os conheci-
enquanto o jacarandá era preparado para ser usado mentos indígenas sobre a fauna, a flora, os acidentes
como madeira para a maioria das construções (por car- geográficos, as rotas e os caminhos permitiram aos
pinteiros vindos de Portugal e pelos homens livres que grupos lusitanos a conquista do território. As popula-
se aventurassem a ganhar “uns trocados”). A igreja ca- ções foram dizimadas pelo trabalho forçado, em algu-
tólica e suas ornamentações empregavam uma grande mas comunidades americanas, ou vítimas de doenças
quantidade de pessoas e nos arredores das vilas de- em outras áreas. Apesar de muitas populações terem
senvolvia uma agropecuária extensiva. Note que isso sido exterminadas, durante o processo de ocupação
significava uma movimentação de atividades lucrativas portuguesa no Brasil, houve a união dos explorado-
ao redor ou nas proximidades das plantations (enge- res europeus com as mulheres indígenas, iniciando a
nhos do Nordeste e, mais tarde, café em São Paulo/ miscigenação tão marcante no país. Se, por um lado,
Paraná ou algodão no Sul), das vilas e das cidades a mão de obra do silvícola não ajudou economica-
nascentes. Tais fatos comprovam a acumulação de ca- mente na acumulação primitiva de capital, por outro
pital na própria colônia, não é mesmo? Pois bem, se lado facilitou a penetração e expansão do território,
o litoral era ocupado pelas atividades latifundiárias, o pertencente à Coroa Espanhola, conforme o Tratado
interior abastecia as plantations com os derivados da de Tordesilhas.
agropecuária e os produtos dos pequenos proprietários Por mais de 300 anos, a África contribuiu para o
que trabalhavam em bases familiares (quase sempre, estabelecimento comercial e a formação de mão de
ligadas aos latifúndios) e tinham uma agricultura volta- obra dentro e fora da América e em alguns locais da
da para o autoconsumo. Viu como a história brasileira Europa. O trabalho escravo fundamentou a econo-
tem fatos marcantes associados à economia? Nossa mia, a cultura, a religião, a música, a culinária, além
gente - independentemente de sua formação étnica da diversidade linguística e social. Quase tudo que se
– representa a grande base de nossa própria econo- construiu na América Portuguesa teve a participação
mia. Os casos de violência contra as pessoas pobres, dos africanos e seus descendentes. O Brasil, do sé-
negras ou homossexuais continuam existindo apenas culo XVI ao XIX, recebeu uma enorme contribuição
pela falta de respeito e consciência da própria socieda- da mão de obra negra: estruturas de produção e de
de. Depende de mim, de você fazê-la mudar, né? Veja construção, os valores monetários, culturais e de re-
o que nos diz novamente Schmidt (1997, p. 41): ligiosidade. Enfim, os engenhos de açúcar, as minas
Infelizmente, o Brasil é um país racista. de ouro e diamantes, os utensílios domésticos das
Os negros são desfavorecidos social- casas mais humildes até o palácio da corte, as estra-
mente e tratados como seres de segun- das, as cargas, os portos, as igrejas e monumentos,
da categoria. Basta ouvir inúmeras ex-
pressões populares e piadinhas idiotas a vida luxuosa e a miserável também. Milhares de
do tipo ‘ crioulo é macaco’, ‘preto quando escravos africanos e seus descendentes criaram for-
não faz na entrada, faz na saída’, ‘lugar
de preto é no chiqueiro’. A propaganda mas de reagir à opressão da sociedade colonial como
faz um racismo sutil, ao mostrar como os “quilombos”. Atualmente, existem vários territórios
símbolo da beleza olhos azuis, cabelos “de negros”, cujas terras foram herdadas de seus an-
louros e lisos [...] Procure se lembrar de
quantos negros você conhece pessoal- tepassados (portanto sem documentação oficial) que
mente que sejam empresários, políticos, têm sido ameaçados pelos interesses econômicos:
generais, cientistas, professores universi-
tários, médicos? Poucos, não é mesmo? construção de hidrelétricas, estradas/ferrovias, inva-
Isso apesar de os negros serem grande sões de fazendeiros, etc. Você certamente já ouviu
parte da população. Não está claro que “histórias” de pessoas desaparecidas ou eliminadas
eles não têm as mesmas oportunidades
que os brancos? pela pressão econômica nacional ou internacional,

58
AULA 8 • O PROBLEMA DA MÃO DE OBRA: A “PREFERÊNCIA PELO ESCRAVO

né? Assim, encerramos mais um capítulo de explo- REFERÊNCIAS


ração sobre os povos e o meio ambiente no Brasil.
MELLO, Evaldo Cabral de. Uma nova Lusitânia. In:
Karl Marx já dizia isso e, se você tiver dúvidas, leia
MOTA, Carlos Guilherme (Org.). Viagem incomple-
O Capital ou o Manifesto Comunista. Nos próximos ta: a experiência brasileira (1500-2000). Formação:
dias estaremos de volta com os “ciclos” econômicos histórias. 2. ed. São Paulo: Ed. SENAC 1999. Dispo-
brasileiros. Até lá! nível em: HTTP://books.google.com.br. Acesso em:
04 jan. 2011.
5 ATIVIDADES SCHMIDT, Mario Furley. Nova história crítica do
Brasil: 500 anos de história malcontada. São Paulo:
1. Leia o texto abaixo e posicione-se sobre a Lei de
Nova Geração, 1997.
Cotas de 20/11/2008.
Para sua diversão, leia o seguinte:
Aprovado projeto de cotas em universida-
Deu o que falar
des federais
A Câmara dos Deputados aprovou nesta PARLAMENTO EUROPEU APROVA LEI QUE
quinta-feira um projeto de lei que destina 50% FACILITA EXPULSÃO DE IMIGRANTES
das vagas em universidades públicas federais e Um polêmico conjunto de regras que harmoni-
escolas técnicas federais de ensino médio a alu- zará as políticas de repatriação de imigrantes nos
nos da rede pública. Além de beneficiar quem te- 27 países da União Europeia recebeu nesta quar-
nha cursado o ensino médio em escolas públicas, ta-feira a última aprovação necessária pelo Parla-
o projeto reserva subcotas para beneficiar negros, mento Europeu para entrar em vigor em 2010.
indígenas e estudantes de baixa renda. Apesar da oposição dos partidos de centro e
De acordo com o novo sistema de cotas ra- de esquerda, o conservador Partido Popular Eu-
ciais e sociais, 25% das vagas reservadas devem ropeu, com maioria na Câmara, conseguiu garan-
ser divididas proporcionalmente entre negros, tir a aprovação do pacote – conhecido como Di-
pardos e indígenas. Os outros 25% serão desti- retiva do Retorno – sem a inclusão de uma série
nados a estudantes cuja renda familiar seja de até de emendas pedidas pelo Partido Socialista, que
1,5 salário mínimo per capta. votou dividido.
A distribuição proporcional deverá ser feita Segundo o maior grupo na Eurocâmara, os
com base em levantamentos do IBGE em cada socialistas queriam, entre outras coisas, reduzir
estado. Por exemplo, em regiões nas quais a o período máximo permitido para a detenção dos
população seja composta 20% por negros, pelo ilegais, fixado em seis meses e ampliáveis até um
menos 20% das vagas terão de ser ocupadas por ano e meio em casos excepcionais.
negros. As instituições de ensino terão até quatro
anos para se adaptar à nova lei. LATINO-AMERICANOS CONDENAM NOVA LEI
DE IMIGRAÇÃO EUROPEIA
Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/
Líderes da América Latina reagiram mal ao po-
brasil/aprovado-projeto-cotas-universidades-
lêmico conjunto de regras que harmonizará as po-
federais. Acesso em: 26 jan. 2011.
líticas de repatriação de imigrantes nos 27 países
da União Europeia e que prevê detenção de até 18
2. As culturas indígenas possuem uma relação divi- meses para imigrantes antes da deportação.
na com os elementos naturais, inclusive as plan- O governo brasileiro, por meio de uma nota
tas e os animais, embora para muitas pessoas do Ministério das Relações Exteriores, informou
isso pareça exótico. No seu município ou no seu que “lamenta a decisão”. (texto adaptado)
estado existem grupos indígenas? Se sim, pes- Disponível em http://www.estadao.com.br/noti-
quise sobre a territorialidade deles, seus hábitos cias/internacional,parlamento-europeu-aprova-
e cultura e monte um quadro ou cartaz sobre sua expulsao-de-imigrantes-ilegais,191628,0.htm.
pesquisa para ser vista por outras pessoas na Acesso em: 13 jan. 2011.
próxima aula.

59
Unidade 03

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
OS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA

AULA 9

O CONCEITO DE CICLOS ECONÔMICOS


NA IDENTIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS
DE ATIVIDADES EXTRATIVAS

Objetivos
• Entender os diferentes conceitos da palavra ciclo.
• Compreender a movimentação econômica das
atividades extrativas brasileiras no início da
colonização.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO [...] duas faces da mesma moeda. O Es-


tado Absolutista não tomava o lugar da
empresa privada. Mas se intrometia na
economia, criando regulamentos para a
O espaço geográfico é a paisagem animada produção, proibindo certas importações de
pelo trabalho e pela vida social. Ele abrange mercadorias, protegendo alguns negócios,
trabalhadores produzindo, consumidores adquirindo etc. [...] Para o país ter o que exportar, o
Estado estimulava o desenvolvimento das
mercadorias, empresários realizando investimentos, manufaturas nacionais e buscava coloni-
administradores e políticos tomando decisões. zar novas áreas. [...] Outra coisa importan-
(Demétrio Magnoli). te, e que muitos livros omitem, é que havia
também a preocupação de aumentar a
população. Seria mais gente produzindo,
Você reparou a sequência de atividades desenvol- mais pessoas no Exército, na Marinha e
nas colônias. Para estimular o crescimen-
vidas pela sociedade nos dizeres do professor Magnoli? to da população, o Estado procurava dar
Pois é, muitas ações humanas ou fenômenos naturais abrigo para os órfãos. Claro que não era
nada gratuito. As crianças sem pai eram
passam por um processo contínuo, “infinito” enquanto forçadas a trabalhar durante horas e horas
duram e de conformidade com os interesses humanos. nas manufaturas do rei.
Na economia também encontramos repetições na pro-
Com algumas adaptações, a mão de obra dos ne-
dução que procura atender aos impulsos humanos de
gros africanos, que já era usada em Lisboa e por um
curiosidade, de consumo e de lucros. Você verá na aula
preço bem acessível, foi ajudada por outros grupos
de hoje que um ciclo econômico atende aos interesses
étnicos da própria Europa que também se ofereciam
de determinados grupos e em tempos diferenciados.
como ajudantes de artesãos, de artista ou dos nobres.
Nem sempre representando o fim da produção. Vamos
A força de trabalho poderia ser resolvida com as bên-
lá?
çãos da Igreja Católica, conforme já foi comentado.
Percebeu como Portugal colonizou o Brasil dentro
2 DEFINIÇÕES E desse esquema ou ciclo vicioso? Recorde que, em aulas
anteriores, dissemos que os lusitanos exigiam que fos-
MOVIMENTAÇÕES ECONÔMICAS
sem cultivados outros produtos quando o preço do açúcar
Segundo o dicionário Michaelis (2000, p. 494), estava baixo? E o que faziam os grandes fazendeiros?
“ciclo é um intervalo de tempo durante o qual se com- Desobedeciam e esperavam o aumento da cana-de-
pleta uma sequência de uma sucessão regularmente açúcar na Europa. Isso significou a aplicação de capitais,
recorrente de eventos ou fenômenos.” Também um por parte dos investidores, em atividades que pudessem
“período econômico da História brasileira: ciclo do alcançar altos lucros. E os pequenos proprietários ou
café”. Ou ainda: “exprime a ideia de um círculo, órbita, homens e mulheres livres? Dedicavam-se às atividades
curva...”. recomendadas além daquelas que já praticavam. É essa
Em termos gerais, na historiografia colonial brasi- repetição de atividades econômicas que forma um ciclo.
leira, vamos encontrar atividades econômicas ligadas, Isso porque nem tudo o que tem seu sucesso decresci-
quase sempre, ao tripé: monocultura, escravismo e la- do necessariamente representa o seu fim. Pode haver
tifúndio. Some a isso: acumulação de capital nativo e uma decaída em algum período, mas não desaparece,
formação primária do mercado interno, especialmente como foi o caso do açúcar, do ouro, do café, da soja,
na área litorânea, onde os portos facilitavam o embar- etc., ainda que, para atingir o clímax do preço de algum
que/desembarque das mercadorias. As cidades de produto, o homem lance mão de outros produtos, degra-
Salvador, Recife e Rio de Janeiro funcionavam como de os recursos naturais indiscriminadamente e explore
pontos referenciais da economia, desligados uns dos seu semelhante. Foi o
outros, atendendo aos interesses de uma pequena elite que ocorreu em nosso CLÍMAX: o ponto mais alto
interna e dos investidores europeus. país. Quantos biomas fo- ou período de maior intensi-
Para Schmidt (1998, p. 17-18), o sistema mercan- ram depredados, né? dade em qualquer coisa ou
tilista, vigente na época, robusteceu o poder do Estado A natureza tropical sucesso concebido como
Absolutista (= fortalecimento do poder político do Esta- oferecia variados produ- crescente ou em desenvol-
vimento; culminância.
do) e foram tos, sem a necessidade

62
AULA 9 • O CONCEITO DE CICLOS ECONÔMICOS NA IDENTIFICAÇÃO DOS MOVIMENTOS
DE ATIVIDADES EXTRATIVAS

de preparar, semear, cuidar, cultivar a terra. Bastava retirá-los da “mãe natureza”: pau-brasil, fauna, flora, ‘drogas do
sertão’, ouro, prata, etc., etc., etc. O olhar do colonizador-investidor daquela época se prolonga com o nosso – am-
bicioso e perguntador – “o que eu posso ganhar (ou explorar) em meu próprio benefício?” Os olhos dos investidores
no Brasil colônia não fizeram nada diferente do que as megaempresas – nacionais ou não – fazem aqui e em outras
partes do mundo no século XXI. A biopirataria no Brasil de hoje não é diferente da que os portugueses, ingleses,
franceses, holandeses ou espanhóis já praticaram.
Repare no mapa das atividades econômicas brasileiras no período colonial.

Arquipélagos econômicos no período colonial

http://www.klickeducacao.com.br/2006/arq_img_upload/simulado/3458/hist39306.bmp Acesso em: 30 abr.2011.

O algodão maranhense, o ouro e os diamantes de e com a criação de gado; os pequenos proprietários


Minas Gerais, Goiás, Bahia e Mato Grosso, as drogas trabalhavam no sistema agropecuário familiar e de au-
do sertão no Amazonas e Pará, a cana-de-açúcar des- toconsumo (e eram conhecidos como caipiras ou cabo-
de o Rio Grande do Norte até São Paulo, a pecuária clos). Assim se formava o mercado consumidor interno.
no interior e no “sertão” nordestino comprovam a movi- Vale relembrar: os pequenos agricultores pouco inte-
mentação econômica distinta, desligada umas das ou- gravam o mercado, contudo constituíam-se numa es-
tras no país, quase sempre acompanhando o caminho pécie de exército de reserva dos grandes proprietários
dos rios e sem qualquer planejamento regional, desde nos momentos de expansão cíclica. Se havia necessi-
que expandiram as fronteiras, com o Tratado de Tor- dade de mais espaço para o latifundiário, as terras dos
desilhas, beneficiando os lusitanos. Mais uma compro- caipiras também eram incorporadas ao engenho (seja
vação do sucesso da empresa mercantilista europeia: pela compra ou pela expulsão violenta daqueles que ali
balança comercial garantida e lucros! Pense nisso. viviam). Segundo Vesentini (2002, p. 51), “as grandes
Se a maioria da população se concentrava na cos- propriedade tendiam a monopolizar o controle da terra,
ta leste (só mais tarde a marcha do café modificará e qualquer aglomerado de pessoas que trabalhassem
tal adensamento populacional), as áreas interioranas para si mesmas, sem elos com o sistema dominante,
abasteciam as plantations com produtos alimentícios era sempre visto com grande suspeita”. Viu como o

63
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

controle socioeconômico e político pertencia aos lati- no mercado europeu, o que facilitou a produção dos
fundiários do Brasil Colônia? Na próxima aula veremos pequenos proprietários. Assim, o poder político e a es-
a herança deixada por esses poderosos dos engenhos. trutura fundiária atuais são reflexos e consequências
Aguarde novas revelações! da herança dos “ciclos” econômicos brasileiros.

3 RESUMO 4 ATIVIDADES
A paisagem é uma lembrança de processos fisio- 1. Explique como funcionava a economia dos arqui-
gráficos e biológicos, ou seja, representa uma herança pélagos coloniais brasileiros usando o mapa que
da atuação de sua sociedade e suas relações ambien- está na aula.
tais. Processos ou fenômenos repetitivos ocorridos em 2. Faça uma pesquisa sobre as características da la-
algum período constituem um ciclo, seja ele natural voura da cana-de-açúcar no Nordeste dos séculos
ou econômico. As atividades econômicas brasileiras, XVI e XVII, envolvendo os seguintes aspectos: lo-
desde o século XVI ao XIX, representando “ilhas” de- calização, tipo de solo, impactos ambientais causa-
sarticuladas entre si e atendendo ao comércio exterior dos por essa atividade e formação da sociedade,
europeu – que visava à acumulação de capital, desco- da cultura e do poder político na região.
berta de novos mercados e de metais preciosos para
fortalecer o poder real – encaixaram-se muito bem no REFERÊNCIAS
Sistema Mercantilista. No caso brasileiro, as atividades
ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico bási-
primárias foram fator de expansão territorial, de enri- co. São Paulo: Ática, 2001, p. 51.
quecimento da Metrópole portuguesa, de concentra-
MAGNOLI, Demétrio. Geia: fundamentos da Ge-
ção populacional litorânea e do desenvolvimento do ografia. São Paulo: Moderna, 2002. MICHAELIS
mercado interno. Pau-brasil, açúcar, algodão, metais 2000. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa.
preciosos, cacau representam alguns de nossos ciclos Reader’s Digest. São Paulo: Melhoramentos, 2000.
econômicos. Paralelamente à atividade no engenho, a VESENTINI, José William. Brasil, sociedade e es-
pecuária, o bandeirantismo apresador (que aprisionava paço - geografia do Brasil. 31. ed. São Paulo: Ática,
índios), a coleta de drogas do sertão e a mineração 2002.
provocaram a interiorização e expansão territoriais em
áreas pertencentes à Espanha. Portugal, beneficiado DICAS DE LEITURA
com tais fenômenos, permitiu que “aventureiros” nati-
1- História da Riqueza do Homem, de Léo Huber-
vos ou não acumulassem capital e que fosse criado um man, publicado pela Zahar (1973).
pequeno mercado interno na colônia. A circulação de
2- O povo brasileiro: evolução e sentido do Brasil,
mercadoria era limitada às trocas de matérias-primas
de Darcy Ribeiro, publicado pela Cia das Letras
e algumas manufaturas produzidas na Europa. Os la- (1995).
tifundiários no Brasil nem sempre obedeciam às de-
3- A era das revoluções, de Eric Hobsbawm, publica-
terminações portuguesas de produzir outros gêneros
do pela Paz e Terra (1982).
agrícolas para compensar os baixos preços do açúcar

64
Unidade 03

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
OS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA

AULA 10

O LEGADO SOCIOPOLÍTICO-ECONÔMICO
DO CICLO DO AÇÚCAR

Objetivos
• Relacionar aspectos da sociedade colonial com o
poder político e econômico.
• Entender a função dos trabalhadores na sociedade
açucareira brasileira.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO

A mão da limpeza (Gilberto Gil)


“O branco inventou que o negro / quando não suja na entrada
Vai sujar na saída, ê / Imagina só/ que mentira danada ê
Na verdade a mão escrava / passava a vida limpando / o que o branco sujava, ê
Imagina só / o que o negro penava, ê /
Mesmo depois de abolida a escravidão / negra é a mão
De quem faz a limpeza / lavando a roupa encardida, esfregando o chão
Negra é a mão da limpeza / é a mão da pureza
Negra é a vida consumida ao pé do fogão
Negra é a mão / de imaculada nobreza
Na verdade a mão escrava / passava a vida limpando
O que o branco sujava, ê /imagina só / êta branco sujão”.

Meu caro aluno, nossa aula abordará a herança 2 ESTRUTURA DOS ENGENHOS
deixada pelos colonizadores na paisagem brasileira ao
longo de mais de três séculos de atividades ligadas ao
AÇUCAREIROS NO BRASIL
açúcar. COLÔNIA
O espaço geográfico nordestino é um bom exem- Certamente você se recorda do papel das capita-
plo da importância das estruturas herdadas dos tempos nias hereditárias na Colônia e da função do donatário de
coloniais. Gilberto Gil fez essa pérola sobre o trabalho promover o povoamento e iniciar a produção econômica
dos negros escravos no Brasil colonial e que hoje, em aqui. Para haver mais agilidade, as terras eram ofere-
algumas comunidades, continua quase igual àquele cidas a quem tivesse recursos para explorá-la em até
período, não é? 05 anos; caso contrário haveria multas e até a perda do
Provavelmente, você já esteve em algum lugar do território. Criadas as sesmarias, o sesmeiro tinha a pro-
Nordeste e se encantou com a comida, a hospitalida- priedade da terra, sem qualquer vínculo de dependência
de, o bom humor, a musicalidade e a religiosidade do pessoal com o administrador, comprovando que, diferen-
povo de lá. A concentração das principais cidades na temente do Feudalismo, não havia vassalos. O tamanho
faixa litorânea demonstra como a sua ocupação ou da propriedade dependia dos recursos disponíveis do
povoamento atendeu às necessidades dos mercados sesmeiro. Assim, encontraremos tamanhos variados na
europeus. O Nordeste foi o principal centro econômico estrutura fundiária brasileira desde aqueles idos.
da América portuguesa nos séculos XVI e XVII. A trans- A casa grande era uma pomposa (para a época)
ferência da capital administrativa de Salvador para o residência do senhor de engenho e sua família, quase
Rio de Janeiro (1793) terá reflexos no eixo econômico sempre rodeada pela senzala; o número de escravo
e expandirá outros núcleos urbanos situados entre os também variava conforme o tamanho da propriedade
paralelos 9ºS (Recife) e 23ºS (São Paulo). Para Mag- (no engenho médio, eram cerca de 50, e mais de uma
noli (2002, p. 197), “a grande propriedade canavieira ou centena nos grandes, onde havia também a produção
pecuarista e o poder dos latifundiários revelam a con- de cachaça nos alambiques). O patriarca tinha poderes
tinuidade do passado no presente”. O mercado interno políticos, religiosos e culturais locais quase “infinitos”.
será fortalecido pela ação dos empresários do tráfico Suas ordens nunca deveriam ser questionadas e sem-
negreiro e dos grandes comerciantes, além da presen- pre seguidas. Claro que esse senhor não era do tipo
ça do pequeno produtor ou trabalhador livre. Um mun- que dava folga dominical para seus escravos. E nem
do de trabalho e trabalhadores espera por você! Seja comprava seus excedentes! E a herança era para o fi-
bem-vindo! lho mais velho, que se tornava o “novo coronel”.

66
AULA 10 • O LEGADO SOCIOPOLÍTICO-ECONÔMICO DO CICLO DO AÇÚCAR

Os engenhos representavam a grande lavou- Os trabalhadores livres eram proprietários de ter-


ra monocultora da cana-de-açúcar e eram de dois ras e poderiam moer a cana em qualquer engenho,
tipos: 1- reais, ou seja, movidos pela água; 2- trapi- desde que deixassem metade de sua produção com
che, movido por tração animal (cavalos e bois, que o dono do engenho. Havia confecção de tecidos para
foram introduzidos na colônia por Tomé de Sousa). Aí vestimenta dos escravos e produção de soda cáusti-
produzia-se de tudo que o engenho necessitava e era ca usada nos engenhos. Eram atividades simples e
onde ficavam as habitações, a capela e a lavoura de manuais feitas tanto por homens como mulheres. Os
subsistência. O número de engenhos em 1570 foi de trabalhadores livres e os das fazendas obrigadas não
60, em 1600 eram 200, e trinta anos depois, 400. Veja eram camponeses, mas possuíam terras e escravos e
que esses números são “bons” indicadores da ativida- pertenciam à camada social influente e dominante da
de açucareira e em pouco espaço de tempo. Foi uma região. Segundo Schmidt (1998, p. 51), “havia peque-
monocultura extensiva, cuja produção aumentava não nas propriedades voltadas para o mercado interno, e o
pelas técnicas, mas pela incorporação de novas terras número de homens livres pobres podia ser tão grande
de cultivo e dependia do preço externo para expandir- quanto o de escravos.” É o que veremos a seguir.
se ou contrair-se. Para financiar a produção no Brasil,
os portugueses contavam com o Banco de Amsterdã 3 OUTRAS ATIVIDADES
(Holanda). Os holandeses compravam o açúcar re-
ECONÔMICAS
finado, revendiam-no, distribuindo-o pela Europa e
ficando, assim, com a maior parte dos lucros. A pro- A Capitania Geral de Pernambuco abrangia também
dução concentrou-se, inicialmente, em Pernambuco e Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. Era o “Nor-
Bahia onde os solos de massapé (argiloso, com boa deste açucareiro” e constituía um espaço econômico e
fertilidade natural devido ao intemperismo químico e a político definido pelo poder dos “barões do açúcar”. Ela
presença de microorganismos) eram favoráveis. Mui- contrastava com a estrutura produtiva do ‘Nordeste algo-
tos engenhos contratavam os trabalhadores livres ou doeiro-pecuarista’, uma paisagem interiorana pontilhada
escravos libertos como gerentes ou mestres do açú- de pequenas explorações primárias: algodão, mandio-
car ou para manutenção das máquinas e ferramentas ca, criação extensiva, combinando com a produção
importadas da Europa. A lenha usada nas fornalhas alimentar de subsistência, cujos donos eram parceiros
era retirada da Mata Atlântica. Que beleza, né? Os dos latifundiários que lhes compravam o algodão como
negros trabalhavam até 16 horas por dia, debaixo de pagamento pelo aluguel da terra. O algodão era vendido
sol ou chuva, sem descanso. Segundo alguns cálcu- para empresas como a Sanbra, a Clayton e a Machine
los, em 14 meses, o senhor de engenho recuperava Cotton. No sudeste da Bahia (início do século XX), estru-
o valor investido na compra do escravo trabalhador turou-se o “Nordeste cacaueiro”, monocultor, latifundiá-
(e o negro continuava trabalhando a vida inteira de rio e voltado para o mercado europeu. Com certeza você
graça...). Apesar da presença de tais “empregados”, é se lembra de livros do baiano Jorge Amado, autor que
bom lembrar que não havia capital investido na produ- tão bem descrevia a vida do interior da Bahia com seus
ção de mercadorias realizada por trabalhadores livres barões, sua riqueza cultural, recheada de infidelidades e
e pelos assalariados, portanto não se deve falar em muito amor pela terra. O porto de Ilhéus e a cidade de
capitalismo ainda. Era uma economia parasitária em Itabuna são fundações daquela época. A Bahia centrali-
relação à da Europa, sem a “mais-valia”, como expli- zava o poder administrativo, jurídico, militar e real e tam-
caria Karl Marx mais tarde. bém oferecia áreas de plantations de tabaco e da própria
A terra era subdividida entre cana-de-açúcar, pas- cana-de-açúcar; seu porto era muito movimentado pelas
tagem e cultivo de alguns alimentos para atender ao embarcações europeias.
consumo do grupo; poderia ser explorada ou não pelo A necessidade de outros espaços para cultivos e a
proprietário. Neste último caso, era conhecida como busca de metais atraía muitos trabalhadores livres, que
fazendas obrigadas ou lavradores obrigados, isto é, se juntaram aos bandeirantes, aos aventureiros e aos
o lavrador recebia apenas metade de sua produção, exploradores. E o ”sertão” foi conquistado! A atividade
além de pagar um aluguel pela terra e ter que fazer a criatória ou de cultivo (como da mandioca, de fácil ma-
moagem da cana no engenho do senhor. nejo e rapidez na colheita) obrigava os grupos a faze-

67
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

rem paradas para reposição de gêneros alimentícios. Com os holandeses financiando, refinando, distri-
O boi foi trazido de Cabo Verde (África) para tração buindo e lucrando com o açúcar, Portugal se viu obri-
animal ou transporte de lenha, das caixas açucareiras gado a incrementar e recuperar a atividade açucareira
ou mesmo para alimentação nas regiões do engenho. e , em 1649, permitiu a criação da Companhia Geral
Foram se formando assim pequenos lugarejos, onde do Comércio do Brasil. Idealizada pelo padre Antonio
havia uma atividade artesanal ligada aos derivados do Vieira e autorizada pelo rei Dom João IV, tinha também
couro e que abastecia os latifúndios com selas, arreios, a exclusividade no tráfico negreiro em todo o Nordes-
chapéus, etc. Peões mestiços e trabalhadores livres te. Ela deveria dar toda segurança para que o nosso
foram contratados para cuidar do gado que era uma açúcar chegasse ao mercado europeu (lembre-se dos
criação extensiva. Foi o ciclo do gado, que se alastrou piratas nos mares, certo?). Com a experiência adquiri-
pelo interior e fez nascerem vilas e alguns núcleos ha- da pelos flamengos (=holandeses), fica claro que a pro-
bitacionais, tanto no Nordeste como no Centro-Sul. dução sofreria concorrência e promoveria a falência de
Nos engenhos houve abandono da agricultura de muitos engenhos brasileiros. E foi o que aconteceu de
subsistência, razão pela qual os pequenos proprietá- fato. Os holandeses “descobriram” que, nas Antilhas, o
rios começaram a se dedicar à produção hortigranjeira, cultivo canavieiro era mais rentável do que aqui, além
e surgiu a necessidade de alguns outros profissionais de ser um lugar mais próximo da Europa. Pense nos
(barqueiros, carpinteiros, pedreiros, barbeiros, cos- lucros deles! Os senhores do engenho brasileiros e os
tureiras, vaqueiros, etc.) que aumentaram o mercado burgueses holandeses davam-se muito bem. No perí-
consumidor interno autóctone. Não dependíamos da odo da invasão holandesa, durante mais de 24 anos,
Metrópole para nos sustentar! as plantações de cana estenderam-se desde São Cris-
Quase sempre os bandeirantes, que acompanha- tóvão até Nova Amsterdã (litorais nordestinos), e Mau-
vam o curso de rios como o São Francisco (lembra-se rício de Nassau permitiu que os latifundiários açuca-
do rio da integração nacional, né?), o Amazonas (com reiros participassem de órgãos da administração como
os produtos da floresta: sementes de guaraná, malva, as câmaras municipais (= conselhos de escabinos). Na
castanha-do-pará, etc.), fundavam povoados, aumen- peça teatral Calabar, de Rui Guerra e Chico Buarque
tavam as trocas entre algumas capitanias e expandiam de Hollanda, há uns versinhos interessantes sobre a
o domínio territorial. traição ou não do mestiço Calabar:

E se a lição aprendida
a vitória não será vã.
Neste Brasil holandês
tem lugar para o português
e para o Banco de Amsterdã.

Veja o GRAF. 1

GRÁFICO 1 – Preços na Bahia -


valores relativos a 1620
Fonte: SCHMIDT, 1998, p. 67.

68
AULA 10 • O LEGADO SOCIOPOLÍTICO-ECONÔMICO DO CICLO DO AÇÚCAR

O mercado lucrativo do tráfico dos escravos com- o gado e a mineração alargaram o território português
pensava os gastos com eles durante todo o trajeto Áfri- por meio do Tratado de Tordesilhas, ampliando o do-
ca - Brasil. Mais tarde, quando o ouro passou a ser um mínio lusitano na América do Sul. Começou aí também
ótimo mercado, Portugal proibiu que os negros africa- a degradação ambiental que se segue até hoje. Aos
nos aportados em Salvador fossem diretamente para pequenos proprietários e suas famílias era permitido
as minas para não prejudicar os grandes comerciantes participar da vida social, política, religiosa e econômi-
de negros. ca, conforme os interesses da camada dominante, que
Ainda segundo Schmidt (1980), ao longo do século tinha certa autonomia em relação à Metrópole. Contu-
XVI, os preços do açúcar brasileiro na Bahia aumenta- do o poder político-administrativo continuava nas mãos
vam sem parar. Naquele período, começaram a chegar dos latifundiários e dos grandes comerciantes de ne-
à Europa grandes quantidades de ouro e prata da Amé- gros tanto na capitania da Bahia, de Pernambuco como
rica Espanhola. Tais riquezas estimularam os negócios. na do Rio de Janeiro.
É que a abundância de metais preciosos fez os preços
subirem automaticamente. Foi a chamada revolução 4 ATIVIDADES
dos preços do século XVI. E é claro que os preços do
1. Leia o trecho escrito pelo sociólogo Francisco de
açúcar acompanharam essa tendência. Quem lucrava
Oliveira sobre o Nordeste.
com o açúcar? Você já sabe: quem o distribuía por toda
“A imagem do Nordeste, que as crônicas dos via-
a Europa.
jantes de fins do século XVIII e princípios do sé-
Mais uma vez “puxaram” o tapete dos nossos caros
culo XIX descreveram em termos da opulência dos
patrícios! Certamente você concordará que os portu-
‘barões’ do açúcar [...] começou a ser substituída
gueses se deixaram levar pelos ventos e não aporta-
pela imagem do Nordeste dos latifundiários do
ram em nenhum lugar rentável, posto que a sua econo-
Sertão, dos ‘coronéis’, imagem rústica, pobre, con-
mia não atingiu índices de crescimento, se comparada
trastando com a dos salões e saraus do ‘Nordeste
com a da Inglaterra, que se tornou a “rainha” dos mares
açucareiro’. Nesse rastro é que surge o Nordeste
e fornecedora de manufaturas para os lusitanos e bra-
das secas.” (1981, p. 35).
sileiros. Mas isso também é outra história para outra
2. Interprete com uma história em quadrinhos (míni-
aula. Até lá!
mo de 04 quadros) o trecho acima. Lembre-se de
colocar um título.
3 RESUMO
Quando o preço do açúcar se contraía na Europa, REFERÊNCIAS
os portugueses procuravam oferecer produtos primá-
MAGNOLI, Demétrio. Geia. Fundamento da Geo-
rios como tabaco, farinha de mandioca, arroz, trigo, grafia - 6. São Paulo: Moderna, 2002.
etc., cultivados por pequenos proprietários fora da área
SCHMIDT, Mario F. Nova História crítica do Brasil:
açucareira. Soma-se a isso o comércio de escravos e 500 anos de história malcontada. São Paulo: Nova
o financiamento dos engenhos para movimentar a eco- Geração, 1998.
nomia colonial. Assim se formou também nas áreas li-
OLIVEIRA, Francisco de. Elegia pra uma re(li)gião.
torâneas um mercado consumidor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
Originalmente da Bahia e de Pernambuco partiram
os primeiros empreendedores em direção ao interior,
DICA DE LEITURA
seguindo o curso do Rio São Francisco para Minas Ge-
rais e a direção norte, atingindo o Maranhão. Aí as ati- Cultura e Opulência do Brasil, livro do jesuíta italia-
vidades pecuaristas estimularam a ocupação e a colo- no André João Antonil, escrito em 1711, sobre a econo-
nização do interior. As bandeiras, missões dos jesuítas, mia colonial brasileira no começo do século XVIII. Belo
a coleta de produtos do sertão, as tropas de muares, Horizonte: Editora Itatiaia.

69
Unidade 03

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
OS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA

AULA 11

A RELAÇÃO ESTABELECIDA ENTRE A MINERAÇÃO


E A FORMAÇÃO DO MERCADO INTERNO

Objetivos
• Entender a mudança do “eixo econômico” colonial do
Nordeste para o Sudeste.
• Avaliar o papel da mineração no contexto
socioeconômico e político no Brasil.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO Vejamos como se deu tal atividade.

“Minerar, sim, pois os bens materiais são essenciais 2 A MINERAÇÃO E AS


à qualidade de vida almejada pela humanidade
e à sua própria sobrevivência; mas fazê-lo com
RELAÇÕES CONFLITUOSAS NA
permanente atenção e todo o cuidado no que COLÔNIA
respeita ao meio ambiente.”
(extraído de www.ibram.org.br. Acesso em: 23 mar. 2003) No início dos anos de 1700, espalhou-se a notícia
do ouro no interior da colônia e, é claro, surgiram pes-
soas de todos os locais do mundo conhecido queren-
Meu prezado aluno, será que as ideias expres-
do enriquecer. A “terra meio sem dono” foi disputada e
sas nos dizeres acima se fizeram presentes no Brasil
pertenceria a quem tivesse mais armas, fizesse mais
Colônia? Você sabe que o Brasil é um país rico em
emboscadas, etc., e a Coroa Portuguesa foi perdendo
recursos minerais, devido à sua estrutura geológica,
sua autoridade.
e tem uma mão de obra abundante e disponível. Isso
Criou-se a Capitania de São Paulo e a das Minas
tornaria os custos da exploração mineral mais baixos,
Gerais, separadas da do Rio de Janeiro, para regula-
mas a falta de conhecimento de todo o subsolo, as cri-
mentar a mineração. Segundo Schmidt (1998, p. 83),
ses econômicas mundiais que diminuem a demanda
internacional e a falta de recursos financeiros e tecno- [...] assim que um sujeito achava ouro,
ele tinha que comunicar à Intendência
lógicos prejudicam a sua exploração. Se voltarmos ao das Minas, que era o órgão colonial que
passado (século XVIII), você verá que as condições administrava a mineração. O descobridor
da área era o primeiro a escolher um pe-
acima estiveram presentes naquela época. Vimos que daço de lote para si; o segundo pedaço
a mineração foi responsável pela formação de vilas e era da Coroa, que o leiloava; o terceiro
cidades no interior do Brasil: as bandeiras adentravam- também seria do descobridor, caso ele ti-
vesse condições de explorá-lo. Os outros
se pelo interior em busca de ouro, pedras preciosas e seriam dos demais pretendentes. Quem
índios, enquanto a pecuária fornecia artigos e animais poderia ser pretendente a essas áre-
as? Os escolhidos eram os que tinham
para as regiões auríferas de Minas Gerais, Mato Gros- mais escravos. Ou seja, na mineração,
so e Goiás, fortaleciam o mercado consumidor interno as oportunidades estavam com os ricos
e fundavam cidades. O ouro era abundante nos rios, proprietários. [...] Na economia do açúcar,
era preciso riqueza para comprar escra-
riachos e ribeirões dessas áreas e, à medida que foi vos e equipamentos. Já na mineração,
acabando, inúmeros aventureiros e empresas minerado- existia, sem dúvida, a chance de um pé-
rapado achar ouro e enriquecer. Mas era
ras buscavam-no em veios dentro da terra, o que exigia muito mais fácil enriquecer quando já se
mais força e trabalho dos escravos. Daí a importância do era rico... o número de pobres ao lado
negro africano forte e com conhecimentos técnicos de de opulentos era grande. Como disse a
historiadora Laura Vergueiro, ‘ a riqueza
mineração. Veja o que diz Cunha: ilusória do ouro trazia atrelada a miséria,
a estrutura econômica premiando poucos
[...] o que se esperava da mão de obra, era e castigando a maioria’. A Intendência
o máximo dispêndio de força física, imposta das Minas tinha, igualmente, função de
pelo tipo de exploração que aqui se realiza- vigilância (evitando o contrabando) e de
va. A introdução do estatuto da escravidão administração da mineração, funcionando
em plena época da ‘libertação’ do trabalho também como tribunal. Além disso, era
um órgão fiscal, responsável pela cobran-
na Europa, pode até parecer um contrassen-
ça dos tributos.
so, dado seu anacronismo com relação aos
padrões morais e sociais então vigentes. Por Desde 1713 as relações entre a Metrópole e os
outro lado, se percebermos o trabalho com-
mineradores estavam tensas devido aos impostos e
pulsório, na sua versão extrema da escravi-
dão, como imposto pelas necessidades de taxas. 20% ou um quinto de cada quantidade de ouro
valorização, no contexto de um mundo imer- encontrada pertenceria à Metrópole, que tratou de co-
so no processo de acumulação primitiva, fica brar mais e mais impostos, e os mineradores queren-
claro que a ‘libertação’ na Europa e a escra-
vidão nos trópicos são duas faces da mesma
do pagar menos. Exemplos: a Taxa de Capitação dos
moeda. (CUNHA, www.editoraabril.com.br. Escravos (cobrada conforme o número de escravos
Acesso em: 7 nov. 2010, p. 10) que o proprietário tinha; se não tivesse nenhum seria

72
AULA 11 • A RELAÇÃO ESTABELECIDA ENTRE A MINERAÇÃO E A FORMAÇÃO DO MERCADO INTERNO

contado como tendo um), e o Censo das Indústrias (im- pertencentes às famílias ricas faziam parte da classe
posto sobre as atividades comerciais e artesanais). A média alta que mandava seus filhos para Lisboa ou Pa-
Sedição de São Francisco foi um movimento contra a ris, a cursar faculdades (lembre-se de que o primogêni-
capitação. Em 1751 ela foi suspensa e Portugal exi- to era o herdeiro das terras, cabendo aos irmãos mais
gia maior arrecadação através da finta e da derrama. novos buscar outra forma de viver). Como Portugal
A sonegação era grande assim como o contrabando não tinha uma estrutura social definida (a nobreza era
(os padres não eram revistados e dizem que eram os produtora de vinhos e os demais dependiam do Esta-
maiores “pecadores” contrabandeando o ouro através do), o jeito era comercializar com os ingleses que ne-
de imagens ocas de santos esculpidas em madeira; daí cessitavam do algodão, do tabaco, do açúcar, do ouro,
a expressão popular “santo do pau oco” para referir-se dos diamantes, etc. produzidos aqui. As trocas eram de
aos falsos). As Casas de Fundição foram instaladas produtos primários (= commodities) pelas manufaturas
nas estradas para registrar e cobrar as movimentações inglesas, que não pagavam tarifas alfandegárias.
do ouro (proibiu-se a circulação do ouro em pó) e as pe- A situação econômica lusitana já vinha depaupera-
pitas eram fundidas, marcadas com o selo real, trans- da muito antes do Tratado de Methuen (1703) e estabe-
formadas em lingotes e ‘quintadas’ (= retirada de 1/5 lecia liberdade para os ingleses comercializarem livre-
do seu peso como imposto para o governo). Nos portos mente seus produtos em troca do vinho português. Fica
de Parati (RJ) e Santos (SP) havia Casas de Fundição. claro que a balança comercial era favorável à Inglaterra.
Particulares em comum acordo com a Metrópole e co- Portugal procura compensar seu prejuízo aumentando a
bravam o direito de entrada (taxa sobre as mercadorias exportação de metais (lembre-se de que metais não são
que entravam na área), o direito de passagem (cursos renováveis e eles já davam sinais de término). Portugal
de água da Capitania), etc. Com tanta cobrança, a po- acabou “financiando” com o ouro brasileiro a Revolução
pulação já estava tensa, irritada (desde a revolta dos Industrial inglesa. Além disso, na Biblioteca de Coim-
Emboabas de 1709/1711). Em 1720, Felipe dos Santos bra (Portugal) existem inúmeros livros encapados com
(pequeno proprietário) e alguns garimpeiros se amoti- o ouro brasileiro! A visita a essa biblioteca dura apenas
naram em Ouro Preto (antes Vila Rica), exigindo o tér- 05 minutos por grupo de até 15 pessoas, para evitar que
mino das Casas de Fundição. Ele foi executado e seu o ar respirado ali “prejudique” as capas dos tais livros.
corpo despedaçado para servir de exemplo. Depois Legal, né?! Mas ainda não é só isso. Há ouro brasileiro
disso houve a separação da Capitania de São Paulo e em quase todas as suntuosas igrejas europeias, princi-
de Minas Gerais. Em 1718, ocorreu o motim de Pitan- palmente nas portuguesas e também nos prédios e nos
gui contra os excessivos impostos. objetos em toda a Inglaterra.
Dizem que o governador Conde de Assumar escre- Claro que o trabalho nas minas era feito pelos es-
veu sobre Minas o seguinte: “a terra parece que evapo- cravos (os africanos já dominavam algumas técnicas e
ra tumultos; a água exala motins; o ouro toca desafo- equipamentos de mineração antes de aqui chegarem)
ros; destilam liberdades os ares; vomitam insolência as em condições mais duras que nas plantations. As pes-
nuvens; influem desordens os astros; o clima é tumba soas precisavam comer, vestir, obter ferramentas para
da paz e berço da rebelião”. Muito apropriado para as o trabalho durante a garimpagem ou mineração, não é
relações conflituosas entre os lusitanos e os “nativos”, mesmo? Então quem não estava nas minas começava
você não acha? a fornecer-lhes o que era necessário. A criação de gado
Agora o “novo furor” econômico estava no interior, renova-se com o fornecimento de arreios, chapéus, se-
onde já começavam a aparecer comunidades mais exi- las, cintos, etc. no mundo minerador. Muitos africanos
gentes em termos de produção e de consumo. Nova- bantos eram excelentes agricultores e também se dis-
mente os trabalhadores livres e escravos em grandes punham a praticar essa atividade em suas “horas” de
quantidades produziam os alimentos, os acessórios folga. É assim que o trabalho nas minas começa a se di-
para as atividades mineradoras e para a criação de versificar, favorecendo o desenvolvimento de um comér-
animais, o cultivo do fumo, do algodão, o artesanato, cio interno, antes dependente das máquinas e equipa-
a ornamentação das Igrejas e habitações, além dos mentos vindos diretamente da Europa. Nos núcleos das
profissionais autônomos, todos compondo o mercado entradas e bandeiras, surgiram vilas, cidades, estradas,
consumidor interno. Médicos, advogados, professores maior comércio, comunicação e trocas entre eles.

73
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Enquanto no Nordeste, o centro social era no en- nem com todas essas medidas Portugal conseguiu me-
genho e seus arredores, nas áreas mineradoras houve lhorar sua balança comercial. Então continuamos com
um crescimento e desenvolvimento urbanos considerá- a nossa dependência externa!
veis. A população das Minas Gerais aumentava com a
chegada de funcionários públicos, intelectuais, aventu- 3 CONTROVÉRSIA
reiros, prostitutas, ladrões, artistas, pedreiros, alfaiates,
Muitos historiadores, como Robert Simonsen,
açougueiros, fazedores de sabão (usando soda cáus-
Celso Furtado, etc., afirmaram que praticamente não
tica aqui produzida), enfim, um mundo urbano se fez
existia um mercado interno. Contudo estudos recentes
presente. A riqueza das igrejas daquele período atesta
contradizem tal pensamento. Veja o que diz COUTI-
o esplendor da mineração. Visite Diamantina, Mariana,
NHO e outros (disponível em: http://wwwdagomen-
Ouro Preto, Goiás Velho, Cuiabá, Cavalcante, Jacobi-
dagomen.blogspot.com/. Acesso em: 30 abr.2011.)
na, se puder! Dizem que os pequenos garimpeiros de
diamantes foram submetidos a torturas e barbaridades A economia mineira representa também
pelos funcionários públicos, responsáveis pela área um sistema movido pela demanda exter-
na, mas seu fluxo de renda típico diferiu
diamantífera. Houve uma grande produção, e os preços do que caracterizou o ciclo açucareiro,
caíram. Quem lucrou? Os joalheiros holandeses, claro! devido aos seguintes fatores:
Os contratos de exportação dos diamantes eram fei- i. O ciclo do ouro foi de curta duração (as
tos entre a Metrópole e os grandes proprietários como minas esgotaram-se em menos de um sé-
culo) e permaneceu confinado a uma re-
João Fernandes de Oliveira (aquele da história com a gião bem restrita. O confinamento facilitou
negra Francisca da Silva, com quem teve 13 filhos e o controle por parte da coroa portuguesa,
levando a uma elevação dos fluxos de tri-
que foi presenteada com um navio para navegar em buto para o exterior do território.
um pequeno lago em Diamantina). São Paulo fornecia
ii. Os escravos eram autorizados a tra-
milho, trigo, frutas e era entreposto de gado; de Salva- balhar apenas nas minas, e não nas
dor vinham os escravos e produtos europeus: tecidos, atividades de subsistência paralelas. Ao
contrário da firma açucareira, a firma mi-
ferramentas, metais e sal; do Rio de Janeiro vinham os neradora não era autossuficiente. Depen-
africanos escravizados e produtos europeus de luxo. dia de outros setores, especialmente para
O sul de Minas criava gado, assim como os Campos a provisão de alimentos. Na verdade, o
ciclo do ouro estimulou a urbanização e a
dos Goytacazes (RJ) para abastecer as minas. Havia economia urbana. Admite-se, portanto, a
saques, contrabando, assaltos, esfaqueamento nas es- existência de atividades econômicas rele-
vantes fora do núcleo minerador.
tradas poeirentas e difíceis da capitania.
A Viradeira (Portugal, 1777) deu continuidade às iii. Os lucros líquidos da atividade mi-
neradora não foram muito elevados,
reformas iniciadas pelo Marquês de Pombal para re- devido ao peso dos tributos.
constituir a economia portuguesa, reforçando o mono-
Incontestavelmente, houve condições de formar
pólio colonial. Ouro, tabaco, açúcar foram explorados
mercado interno. Para Schmidt (1998, p. 88):
ao máximo. Mas deveríamos comprar tecidos, vinho e
manufaturas portuguesas (que eram muito poucas...; [...] o Brasil ainda não existia como uni-
dade econômica, nem tinha uma unida-
quase tudo era fornecido pela Inglaterra). Ampliou-se de administrativa e política. A mineração
a carga tributária na mineração e, mais tarde, Dona ajudou a transformar essa realidade, pois
Maria I incentivou a aquisição de novos e modernos ampliou o mercado interno, diversificou
a economia e ligou diversas regiões da
equipamentos, o uso da cana como combustível nos Colônia por meio do comércio. [...] A so-
engenhos e a expansão da área açucareira paulista e ciedade mineradora também era diferen-
te da dos engenhos. No topo, estavam
de tabaco na Bahia. Mulher danada, hein? É, mas mor- os grandes proprietários de escravos,
reu doida! os grandes comerciantes atravessado-
Apropriando-se das teorias Iluministas da época, res e os altos funcionários da burocra-
cia. É preciso ver que, no final do século
Pombal expulsou os jesuítas do Brasil e de Portugal XVIII, muitos latifundiários tinham lavra
(1759), e o ensino – antes dominado pela Igreja – pas- de ouro, plantação de cana e de man-
dioca e criação de animais. Era comum
sou a ficar nas mãos de particulares ou do Estado. Di- ser grande minerador e latifundiário ao
ferente do que acontece hoje? Pense sobre isso! Mas mesmo tempo.

74
AULA 11 • A RELAÇÃO ESTABELECIDA ENTRE A MINERAÇÃO E A FORMAÇÃO DO MERCADO INTERNO

A novidade foi o aparecimento de um gru- sa. Nem sempre tais condições favoreceram a econo-
po intermediário, que tinha de trabalhar
mia portuguesa, que tinha assinado alguns acordos ou
para sobreviver, mas não era pobre. [...]
Tratava-se dos pequenos comerciantes, tratados com os ingleses envolvendo as trocas comer-
dos funcionários, dos intelectuais, dos ciais entre eles. A colônia só poderia negociar com sua
artesãos e dos artistas que viviam nas
cidades: a classe média colonial. Mais Metrópole, e a Inglaterra era a fornecedora de várias
embaixo, estava um bando de homens li- manufaturas, tanto para os lusitanos como para os na-
vres pobres – brancos, mestiços e negros
tivos sul-americanos e seus “agregados”. Aqui só po-
alforriados. Eram garimpeiros faiscado-
res, aventureiros, biscateiros, soldados. deriam funcionar atividades ‘industriais’ simples desde
Lá no fundo, na base, os escravos. [...] que não atrapalhassem o comércio europeu. Através
No final do século XVIII representavam
mais da metade dos habitantes de Minas. de pepitas de ouro, muitas pessoas se enriqueceram,
Entretanto, com o declínio da minera- e essa riqueza – apesar dos pesados impostos portu-
ção, houve proprietários de escravos que
gueses – possibilitou a formação de um incipiente mer-
acharam que não valia a pena mantê-los
numa área que havia perdido os atrativos cado consumidor, formando uma nova “ilha econômica”
econômicos do passado. Por isso, muitos no interior e obrigando a administração portuguesa a
escravos foram alforriados (libertados).
deslocar seu centro de poder da Bahia para o Rio de
A classe média ajudou a formar o tal mercado inter- Janeiro. Uma nova sociedade que busca a igualdade
no, ainda que, em alguns momentos econômicos, ne- como cidadãos se forma aqui, incentivada pela peque-
cessitássemos do capital externo para que a acumula- na classe média que dava seus primeiros passos nas
ção de capital (re)começasse; contudo, as transações Minas Gerais. Junte a isso o papel das Entradas e Ban-
comerciais aqui desenvolvidas permitiram que a popu- deiras pelo interior, favorecendo a expansão territorial
lação adquirisse autonomia interna. O fim do ciclo mi- portuguesa na Colônia.
nerador foi um dos responsáveis pelo renascimento das Por todas essas razões, e diferentemente do que
atividades agrícolas no Brasil, assunto que será abordado ocorreu no ciclo açucareiro, a mineração estimulou a di-
na próxima aula. versificação de atividades e intensificou as transações
Tchau! monetárias e regionais. Várias estradas foram abertas,
houve aproximação (de forma rudimentar) entre alguns
núcleos populacionais e trocas de excedentes agrícolas,
4 RESUMO
assim como o crescimento da população em Minas Ge-
A corrida aos metais e às pedras preciosas consti- rais fez surgir vários profissionais e aparecer uma classe
tuiu a base da acumulação capitalista na colônia brasi- média no país. Com o término da fase aurífera, outras ati-
leira, exigindo uma administração e fiscalização efetivas vidades comerciais adquiriram importância fundamental
e ainda a cobrança de impostos pela Coroa Portugue- na nossa economia.

5 ATIVIDADES
1. Elabore um texto em que você comente as informações contidas no quadro seguinte, mostrando as razões
econômicas para as revoltas.
As revoltas nativistas
Conflito Quando Onde Quem contra quem Motivos básicos

Revolta dos 1684 Maranhão Cia. Comércio do Maranhão Monopólio da Cia de


Beckman X Jesus
Latifundiários
Emboabas 1709/11 Minas Garimpeiros paulistas Disputa nas áreas de
X mineração
Garimpeiros e comerciantes
forasteiros
Mascates 1710/14 Pernambuco Senhores de Engenho de Olinda Criação da Câmara
X Municipal em Recife
grandes comerciantes de Recife

75
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

2. Justifique com um argumento econômico a afirmativa: “A mineração também foi obra fundamental dos escra-
vos.”
3. Observe os dados sobre a população no Brasil de 1740 a 1770.
POPULAÇÃO NO BRASIL EM 1770 POPULAÇÃO EM MINAS
(% do total) (Milhares de pessoas)
Minas Gerais = 21 1740 1790
Bahia = 19 Escravos = 210 Escravos= 200
Pernambuco = 15 Livres= 90 Livres= 165
Rio de Janeiro = 14
São Paulo = 7
Outras capitanias = 24
(Adaptado de Schmidt, 1998, p. 92)

Explique a concentração populacional no Sudeste brasileiro.

REFERÊNCIAS
COUTINHO, Maurício C. A teoria econômica de Celso Furtado: formação Econômica do Brasil. Disponível
em: http://wwwdagomen-dagomen.blogspot.com/ Acesso em: 30 abr.2011.
CUNHA, André M. A colonização e o desenvolvimento capitalista do Brasil: o capitalismo tardio ou retardatário.
Disponível em: http:///www.ufrgs.br/decon/publionline/textosdidaticos/textodid14.pdf. Acesso em: 29 nov. 2010.
SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil: 500 anos de história malcontada. Ensino Médio. Sociedade e
Cultura. São Paulo: Nova Geração, 1998.

76
Unidade 03

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
OS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA

AULA 12

AS RAZÕES DO RENASCIMENTO AGRÍCOLA BRASILEIRO

Objetivos
• Entender como a agropecuária renovou a economia
brasileira.
• Identificar as “ilhas econômicas” do Brasil.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO dificuldades de adquirir ração humana, daí as questões


de fome e de desnutrição estarem ligadas à renda fami-
A agricultura é o nervo econômico da civilização. liar. Fica evidente que a atividade agropecuária mundial
(Celso. Furtado) tem um papel fundamental na distribuição dos alimen-
tos básicos para a alimentação humana e redução da
fome. Para Almeida e Rigolin (2004, p. 428),
Que tal uma taça de frutas com creme inglês ou [...] para que a pobreza seja reduzida e o
mousse de chocolate? Certamente, você já se deliciou “fantasma” da fome seja afastado, é pre-
ciso que haja um equilibrado crescimento
com uma feijoada ou arroz com pequi ou carreteiro. econômico no mundo. O progresso do se-
Gostou das sugestões? Pois é com essa fome de sa- tor agrícola é fundamental para aumentar
ber que iremos absorver os acontecimentos históricos a renda das pessoas mais pobres e os
níveis de consumo de energia. Um país
e econômicos do Brasil colonial. Você já pensou na fra- com uma participação elevada da agri-
se do Celso Furtado que inicia a nossa aula? Concorda cultura no PIB total e com uma elevada
população rural possui, quase sempre,
com ela? Já imaginou a quantidade de pessoas que baixos índices de renda per capita e altos
não tem acesso aos alimentos básicos? Então vamos índices de desnutrição crônica.
conhecer como eles eram produzidos no período colo-
As cidades continuam atraindo populações despre-
nial? Água na boca, que lá vamos nós!!!
paradas para sua força de trabalho enquanto a mecani-
zação agrícola atinge o campo com muita intensidade.
2 NECESSIDADES HUMANAS Você sabe que a produção mundial de alimentos é su-
ficiente para matar a fome de todas as pessoas, e que
A agropecuária é o conjunto de técnicas produti-
há muito alimento desperdiçado. Algumas populações
vas voltadas para o controle do desenvolvimento da
mundiais apresentam quadro de obesidade, inclusive
flora e fauna para consumo humano e industrial. Ela é
no Brasil; na região do “chifre” da África os índices de
uma das atividades mais antigas, desde a Pré-História
desnutrição, fome e doenças sexualmente transmissí-
(coleta e caça) até os dias atuais (biotecnologia). No
veis continuam aumentando.
Neolítico, o homem chegou ao plantio nas margens
de rios, e hoje, desenvolvendo suas práticas, como os
transgênicos ou organismo geneticamente modifica-
3 COLONIZAÇÃO BRASILEIRA E
dos – OGM –, transformou o espaço natural em espaço A AGROPECUÁRIA
geográfico. A agricultura continua sendo praticada de Durante a maior parte da nossa história, predomi-
maneira diferenciada, conforme a sociedade, o lugar e nou no país uma ocupação litorânea, latifundiária, mo-
o tempo. Isso significa que, com o progresso e as no- nocultora e escravista, constituindo a base da agricultura
vas técnicas, áreas inóspitas ou desérticas apresentam brasileira. Você sabe que a produção em maior escala
hoje excelentes resultados em quantidade e qualidade. atendia aos interesses dos europeus e seus mercados.
Quando um país não produz alimentos em quantidade Nas crises europeias de alguns produtos, era permitido
suficiente para saciar sua população, acaba recorren- e incentivado pela Coroa o cultivo de gêneros alimentí-
do à importação. Aqueles que produzem, exportam e, cios; os pequenos proprietários, homens livres, vaquei-
conforme as leis do mercado, os preços serão aces- ros, peões e escravos libertos cultivavam a terra e ven-
síveis ou não para uma população. Com a Revolução diam seus excedentes no mercado interno.
Industrial (RI), as relações campo X cidade tornaram- No Maranhão, o arroz atendia ao mercado interno,
se mais intensas, e hoje a agropecuária é dependente e o algodão era exportado via Portugal. Por que se deu
da atividade industrial e da cidade. Isso significa que a tal fato? Por causa da necessidade inglesa de algodão
RI substituiu o trabalho humano pela força mecânica. para produzir tecidos (luxuosos ou não) durante a Re-
Equipamentos, máquinas, técnicas apuradas, insumos volução Industrial. Nossos algodoeiros encontravam-
agrícolas, etc. determinam o preço da produção, e esta se no litoral do Pará até a Bahia e no interior de Minas
nem sempre é acessível para todos no mundo. As pes- Gerais e São Paulo.
soas que não conseguem se inserir no mercado de tra- As “drogas do sertão” eram produtos naturais da
balho e estão analfabetas digitalmente terão maiores floresta Amazônica (biopirataria?) como guaraná, cas-

78
AULA 12 • AS RAZÕES DO RENASCIMENTO AGRÍCOLA BRASILEIRO

tanha do Pará, baunilha, urucum, pequi, anil, gergelim, energia (para mover engenhos, moinhos, arar a terra,
pau-cravo, etc. e que chegavam à Europa como espe- etc.), mas algumas raças eram usadas para a produ-
ciarias, sem o mesmo valor das orientais. ção de carne, banha, lã e/ou laticínio. Foi assim que os
O fumo era produzido pelos pequenos proprie- gaúchos alargaram nossas fronteiras, tanto para o sul
tários autônomos, pelo protocampesinato escravo como para o Oeste. (Coitado do Paraguai que, mais
(aqueles que tinham autorização de cultivar roças no uma vez, foi furtado em suas terras!) Ainda no século
fim de semana) e pelos agregados que trabalhavam XVIII, o gado bovino era criado ao longo dos rios São
junto aos latifundiários. Sua venda era feita pelos Francisco, Parnaíba, Canindé e Itapirucu (Nordeste);
grandes comerciantes e latifundiários e servia para no sul de Minas; no norte fluminense e no sul da colô-
comprar escravos islamizados (muçulmanos) da Gui- nia. Para Schmidt (1998, p. 90),
né. Os europeus consumiam esse fumo em forma de
“[...] a criação de gado exigia homens li-
pó (=rapé) ou como cigarro; dizem que alguns médi- vres para cavalgar, e isso dificultava a
cos europeus indicavam o tabaco como remédio para escravidão. No entanto, em 1780, os es-
cravos gaúchos representavam cerca de
asma ou tuberculose. Já pensou quantos morreram
30% da mão de obra das fazendas. Tra-
com esse “remédio”?! balhavam tirando leite, abatendo o gado,
Pense em uma baleia agora. No seu tamanho e salgando a carne, cuidando dos bezerros.
[...] Por outro lado, as fazendas de gado
onde ela vive. Pensou? Pois bem, as baleias eram ca-
gaúchas só puderam crescer por causa
çadas desde Santa Catarina até a Bahia; a matança da fabricação do charque (carne-seca
ocorria principalmente na ponta da Armação (Niterói- salgada) e aí a mão de obra escrava era
fundamental. Trabalho duríssimo, 16 ho-
RJ) e todas as suas partes eram utilizadas: a carne
ras por dia, com o “incentivo” do chicote
como alimento, os ossos para o artesanato, o óleo do feitor. Quando o escravo caía extenu-
para a iluminação e para ser misturado ao cimento nas ado, davam-lhe pontapés aos berros de
“negro preguiçoso!”
construções. Em Florianópolis, segundo guias locais,
existem fortes (hoje, museus) que apresentam esse Você já leu os livros de Erico Veríssimo? Esse es-
tipo de material. A pesca da baleia, cujos rendimentos critor gaúcho descreveu, nos seus vários livros, a lida
eram altos, era exclusividade da Coroa. Reveja o grá- diária na estância (= enorme fazenda especializada na
fico da aula 07. produção de charque) e os afetos e desafetos das famí-
O açúcar era transportado através de carros de lias e seus descendentes. Vale a pena a leitura deles.
bois, jumentos, cavalos, cursos de água até os portos A efetiva colonização ocorrerá mais tarde, com a
de Recife e Salvador e deixava um “rastro” de vilas e chegada dos imigrantes europeus. Aguarde-os com
pequenos povoados que passaram a desenvolver a seus chucrutes, tortas de maçãs, floresta negra, produ-
agricultura de subsistência, além da criação de aves ção de cervejas, etc. A fonte de energia usada nessas
e animais para tração. Eram muito rudimentares, mas atividades? Lenha da caatinga, do cerrado, do pampa
atendiam as necessidades humanas locais. Iniciava- ou da Mata Atlântica. Viu como a degradação acompa-
se assim uma pecuária extensiva, com animais mais nha a evolução tecnológica de uma sociedade? No seu
resistentes aos rigores climáticos (cabras e cabritos, município existem áreas de preservação ambiental?
por exemplo). O couro e os chifres passaram a ser E os “sítios” que já foram destruídos? Como conviver
empregados em adornos, objetos e utensílios domés- com a devastação ambiental e o dilema da exploração
ticos, assim como os intestinos dos animais mortos comercial? Questões que serão respondidas por você
eram usados na fabricação do sabão. No sul do Brasil, agora e por mim, em algumas aulas diante.
os campos e coxilhas eram e ainda são ótimas pasta- A urbanização ocorre quando há maior crescimento
gens naturais. O que fazer com esse rico “patrimônio”? na cidade do que no campo. A agricultura é uma ativi-
Gado, cavalos, mulas, porcos e ovelhas neles! Ops! Os dade essencialmente rural. Máquinas e equipamentos
criadores apenas aproveitaram as condições geomor- irão substituir a mão de obra campesina. Para onde irão
fológicas e climatobotânicas do imenso Brasil. Havia as pessoas do campo? Claro, para as cidades, onde,
gente para ser alimentada e vestida, né? quase sempre, constituirão reserva de mão de obra
Durante o bandeirantismo e a mineração, os ani- abundante, morarão debaixo de pontes, viadutos, em
mais mostraram seu valor como meio de transporte, casas de papelão e mendigarão pelas ruas. Desprepa-

79
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

radas para as novas funções que a cidade exigirá de- pelas riquezas e dispersora da população. A Revolução
las, resta-lhes vender sua força de trabalho aos “novos” Industrial modificou essas relações. Agora, as cidades
latifundiários: empresas do agronegócio que precisam – responsáveis pelo nascimento da indústria moderna
de trabalhadores em determinados períodos da ativi- – atraem as pessoas pelo seu mercado consumidor,
dade agropecuária. Sim, estou falando dos boias-frias, suas tecnologias e infraestruturas essenciais ao fun-
dos sem-teto, dos sem-terra, que nos rodeiam. Você cionamento das fábricas, fornecimento de energia e
se lembra do que foi dito sobre a dependência do cam- abastecimento de água. E, principalmente, como distri-
po para com a cidade? Pois bem, os financiamentos, buidora dos produtos básicos da alimentação de uma
as empresas, os portos, as estradas ligam as cidades, população. Menos pessoas produzindo no campo quer
onde estão os maiores interessados na produção agrí- dizer mais gente consumindo nas cidades. Para resol-
cola: NÓS. Sem a presença do trabalhador rural, do ver o dilema entre produção e consumo, é preciso ob-
“caipira”, provavelmente nossa mesa será mais pobre. ter produtividade, seja através de máquinas e equipa-
Veja o que diz Schmidt (1998, p. 89-900): mentos ou da área plantada. Contudo uma oferta maior
que a procura poderá gerar desequilíbrios, e algumas
[...] o Rio de Janeiro, cidade comercial e
portuária, cheia de marinheiros, escravos populações mundiais, sem acesso aos preços, sofre-
e comerciantes com apetite, recebia ali- rão fome. É preciso que a sociedade se envolva mais
mentos de São Paulo, Santa Catarina e
nos aspectos financeiros de sua comunidade para que
norte do estado. De Minas Gerais vinham
gado, galinhas, queijo, toucinho e tecidos nossos representantes contribuam com leis que sejam
grosseiros. Lá também havia pequenas capazes de alterar tal quadro social para atender às
metalúrgicas que forjavam objetos de
ferro como martelos, pás e ferraduras. necessidades dos povos.
Como você pode ver, uma produção e um No período colonial brasileiro, quando ocorria
mercado interno bem ativos.
contração ou expansão no preço de alguns produtos
Na reorganização da economia brasileira colonial, “nobres” – cana-de-açúcar, algodão, metais precio-
portanto, merecem destaque as atividades agropecu- sos – era permitido o cultivo de gêneros alimentícios
árias exercidas pelos brasileiros e estrangeiros (livres tanto na grande como na pequena propriedade, com
ou não) e que contribuíram com suas matérias-primas o protocampesinato ou com os trabalhadores livres. A
para o desenvolvimento da Revolução Industrial e suas mineração exigia oferta crescente de produtos como
novas formas de produção e exploração. máquinas, equipamentos, roupas, alimentos duráveis,
Seu estômago ficou pesado com tanta informação? etc., e a Coroa se viu obrigada a facilitar algumas ativi-
Não se preocupe, tome um chá de salsaparilha (erva dades manufatureiras básicas: ferramentas, combustí-
medicinal), e nos encontraremos na próxima aula para veis, redes tecidas pelos indígenas, sal (beneficiado no
tratarmos do assunto As condições que dificultaram o litoral), etc. Algodão, carne, tabaco, sementes, óleos de
desenvolvimento nacional colonial. Até mais! animais, além do açúcar, são algumas das matérias-
primas exportadas para a Europa, que, por sua vez,
nos enviava, via Portugal ou diretamente da Inglater-
4 RESUMO ra, produtos manufaturados. Os maiores responsáveis
Nas antigas sociedades, a agropecuária era a ati- pela nossa produção foram os negros escravos que,
vidade econômica mais importante. Na Antiguidade, as quando na África, já dominavam técnicas da plantação
cidades eram o espaço da política, das artes, das ciên- e cultivo de alguns produtos. Portugal, contudo, não
cias, da preguiça, da circulação e do consumo daquilo soube aproveitar a possibilidade de equilibrar sua ba-
que era produzido no espaço rural; o campo represen- lança comercial em relação à Inglaterra e deixou “pas-
tava a própria produção, muito trabalho, responsável sar o trem da sua História”.

80
AULA 12 • AS RAZÕES DO RENASCIMENTO AGRÍCOLA BRASILEIRO

5 ATIVIDADES REFERÊNCIAS
1. Cora Coralina, poetisa goiana, em Todas as vidas, PRADO JR, Caio. Formação do Brasil contem-
mostra-se “roceira”. porâneo - Colônia. 6. ed. São Paulo: Brasiliense,
1962.
“Vive dentro de mim a mulher cozinheira. ALMEIDA, Lúcia Marina; RIGOLIN, Tércio Barbosa.
Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Fronteiras da globalização: Geografia Geral e do
Panela de barro. Taipa de lenha. Brasil. São Paulo: Ática, 2004.
Cozinha antiga toda pretinha [...]
Vive dentro de mim a mulher roceira. DICAS
- Enxerto da terra, meio casmurra. Filmes
Trabalhadeira. Madrugadeira. Analfabeta. 1- Coronel Belmiro Braga (Brasil, 1979) – direção
De pé no chão. Geraldo Sarno.
Bem parideira. Bem criadeira. Narra o choque entre empresários brasileiros e as
pressões exercidas pelo capital internacional.
Seus doze filhos, seus vinte netos.
Vive dentro de mim a mulher da vida. ” 2- Ilha das Flores (Brasil, 1999)
Documentário que evidencia a questão da fome e do
(Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. São lixo na Região Metropolitana de Porto Alegre.
Paulo: Global, 1997, p. 45)

1. Identifique expressões que nos remetem ao


mundo rural e explique-as.
2. Justifique a afirmativa; “o campo expulsa, a ci-
dade atrai”.

81
Unidade 03

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
OS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA

AULA 13

PRINCIPAIS OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO


CAPITALISTA NO BRASIL – COLÔNIA

Objetivos
• Perceber as contradições da economia portuguesa
no Brasil Colônia.
• Identificar alguns fatores socioculturais e
políticos dificultadores do nosso desenvolvimento
econômico.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO O que diferencia uma riqueza qualquer de capital é


a forma como essa riqueza é utilizada. Capital é rique-
Como nota Rosenberg, praticamente “(...) za investida para obter lucros. Acumular metais precio-
qualquer pessoa instruída submetida a um teste sos não significa aumento de riqueza se os metais não
de associação de palavras, quando solicitada gerarem objetos materiais, criados pelo trabalho huma-
a identificar algum personagem histórico com no. O homem é o único ser que produz a si mesmo, sua
o termo ‘laissez-faire’ responderia ‘Adam
cultura, seu meio ambiente, transforma a natureza e o
Smith’”(ROSEMBERG, 1979: 20).
modo como ele se relaciona nessa produção de exis-
A metáfora da mão-invisível de Smith habita o tência física e intelectual ou cultural. Vejamos como os
imaginário de quase todos os economistas e é, portugueses e brasileiros se capitalizaram, produziram
em geral, interpretada como representando a e obtiveram lucros nos anos setecentistas e oitocen-
ideia de que o “mercado” seria uma instituição
tistas!
capaz de “transformar” o autointeresse individual
em benefícios sociais, sem a necessidade de
intervenção da “mão-visível” do Estado1. A este 2 CONTRADIÇÕES
cumpriria apenas garantir a ordem institucional e
administrar a justiça.
PORTUGUESAS
Laura Valladão de Mattos Desde o final do século XVII, os portugueses viviam
em crises financeiras e, para enfrentá-las, o jeito foi ex-
plorar ainda mais a colônia. Como? Arrochando o Pac-
Meu caro aluno, hoje, você verá uma das fases to Colonial (produção apenas de gêneros primários, e
mais turbulentas da História ocorrida no século XVIII: navio estrangeiro não poderia aportar nem comerciali-
os pensadores liberais contestando o mercantilismo e o zar aqui); criação das Companhias Gerais de Comércio
fortalecimento das monarquias absolutistas europeias. (subdividida em do Brasil e do Maranhão) para mono-
Eles entendiam que o comércio e a indústria deveriam polizar os portos e impedir “inimigos” de comercializar
funcionar livremente, pois isso traria mais riqueza e com o Brasil; criação do Conselho Ultramarino em Lis-
desenvolvimento para o país. O escocês Adam Smith boa, responsável pelo controle administrativo colonial
(foto) é um dos maiores representantes do pensamento e por fiscalizar os funcionários e, conforme Caio Prado
econômico iluminista quando, em 1776, publicou A Ri- Jr, fazer o “controle até sobre as saias, adornos, excur-
queza das Nações (RN), obra clássica de contestação sões noturnas e a lascívia das escravas”; nomeação
ao mercantilismo. Para ele, o trabalho era o gerador de juízes de fora no lugar das Câmaras Municipais;
de riqueza e, para aumentar a riqueza de uma nação, substituição do governador-geral pelo cargo de vice-
bastaria aumentar a produtividade do trabalho. Disse rei, dando-lhe maiores poderes sobre os colonos.
também que o homem é mais diligente e produtivo ao A Igreja não estava subordinada ao monopólio
agir em seu próprio benefício. Interferência do Estado? da Companhia do Comércio do Maranhão. Jesuítas e
Nem pensar! Laissez faire, laisse passer franciscanos exportavam drogas do sertão produzidas
(deixai fazer, deixai passar) significaria o Estado se pelos índios amazônicos enquanto os padres carmeli-
afastar realmente da economia. tas não tinham tal isenção. Isso resultou no apoio dos
últimos à revolta dos Beckman.
A colônia brasileira era uma colcha de retalhos
com algumas poucas ligações entre si (lembra-se do
“arquipélago” econômico?). Os latifundiários eram liga-
dos aos interesses portugueses enquanto a maioria da
população, pobre e escrava, lutava pela sobrevivência.
Onde estariam os consumidores de produtos portu-
gueses como vinho, cortiça, etc.? Não existiam, uma
vez que nossos trabalhadores não tinham renda para
comprá-los. Os senhores de engenho eram poucos, se
Fonte: HTTP://www.wiki.com.br. Acesso em: 30 nov. 2010. comparados com a maioria da população. Sem salá-

84
AULA 13 • PRINCIPAIS OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA NO BRASIL – COLÔNIA

rios, os trabalhadores livres também não se dispunham tropicais e seus derivados. Estavam lançadas as ba-
a adquirir as quinquilharias portuguesas. ses da Divisão Internacional do Trabalho – DIT.
Segundo Schmidt (1998, p. 84),
DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO –
[...] para se livrar da União Ibérica, Por- DIT – é uma expressão usada para designar o
tugal precisou de uma aliança com a In-
papel de cada nação na economia mundial em
glaterra. Com isso, acabou enfiando o
pescoço lusitano na corda britânica. Ano certo período. Na DIT vigente no Mercantilismo,
após ano, a economia portuguesa sub- os países colonizados eram obrigados a fornecer
meteu-se aos burgueses de Londres. às metrópoles produtos primários. Estas, por
Os ingleses vendiam manufaturados a sua vez, beneficiavam os bens primários vindos
Portugal e obtinham tratados favoráveis. de suas respectivas áreas coloniais.
Talvez o mais importante tenha sido o de TAMDJIAN, James Onnig. Geografia Geral e do
1654, que, numa cláusula secreta, per- Brasil: estudos para compreensão do espaço.
mitia que os manufaturados britânicos
entrassem pagando baixos impostos al-
Ens. Médio. São Paulo: FTD, 2004. p. 135.
fandegários. Além dessa vantagem, os in-
gleses ganharam o direito de participar di- Uma vez que deveríamos fornecer produtos pri-
retamente de um pequeno comércio com
mários e trocá-los pelas manufaturas, não seria possí-
as colônias portuguesas. Foi assinado em
1703 o famoso Tratado de Methuen. Por vel alcançar uma balança comercial favorável. Desde
ele, Portugal se comprometia a comprar então, ficamos devendo a Portugal e, mais tarde, à
livremente os tecidos ingleses e em troca
a Inglaterra daria preferência aos vinhos Inglaterra, à França, aos Estados Unidos da Améri-
portugueses. ca, etc. As trocas comerciais continuam desfavoráveis
para nós. Não chegamos nem perto do ideal mercan-
Isto deve ser lembrado: antes do Tratado de Me-
tilista!
thuen, os ingleses já dominavam o comércio lusitano,
No feudalismo, não havia capital capaz de gerar in-
apresentando balança comercial positiva, enquanto
vestimento na produção para obter lucros. Os senhores
umas poucas manufaturas portuguesas faziam uma
feudais aumentavam suas riquezas explorando os ser-
cócega pequenina nos ingleses, certo? Vivendo um
vos e guerreando e saqueando os territórios inimigos.
pouco à frente do seu tempo, a Inglaterra reuniu con-
Aqui, não houve senhor feudal, vassalos e servos, mas
dições favoráveis para modificar todo um processo de
exploração do homem negro africano, índio ou branco
produção e ainda explorar a mão de obra abundante
pobre. O grande comerciante ganhava dinheiro com as
vinda do campo e disposta a trabalhar para sobreviver.
transações dos navios negreiros ou com os contraban-
Os portugueses? Esses continuaram no seu mundinho,
dos, mais tarde com a mineração. O aumento territorial
tomando vinho, vendendo especiarias orientais, explo-
beneficiou muito mais os lusitanos do que os nativos.
rando a colônia, vivendo de furos no Pacto Colonial, co-
Perdemos novamente para o Mercantilismo.
brança de taxas e impostos e transformando o território
Continuamos monocultores conforme os interes-
brasileiro em um verdadeiro “arquipélago” econômico,
ses dos mercados europeus. Açúcar, ouro, café são
já que suas diversas regiões eram desligadas umas
alguns exemplos dos ciclos econômicos ou das trocas
das outras, sem comunicação e meios de transportes.
de commodities pelas manufaturas ou industrializados,
Pós-Revolução Industrial.
3 DIFICULTADORES DO Portugal protegia seu comércio de forma eficiente
DESENVOLVIMENTO através dos impostos, taxas alfandegárias, seja no ter-
BRASILEIRO ritório lusitano, nas colônias ou nas benfeitorias africa-
nas. Nos mais de trezentos anos de dominação portu-
Durante mais de três séculos, como colônia portu- guesa, poucas modificações socioculturais ocorreram
guesa, não foram instaladas aqui manufaturas capazes aqui para impedir a aculturação do seu povo. Perde-
de promover transformações no modo de produção. mos novamente!
Claro que os lusitanos não queriam ganhar concorren- Não houve incentivos à manufatura nacional uma
tes e desejavam vender suas manufaturas. Assim, a vez éramos proibidos de iniciar um processo industrial
agricultura tornou-se a principal atividade econômica mais elaborado. As manufaturas vinham também da In-
do Brasil colônia e fornecedora de produtos agrícolas glaterra, França, Oriente, etc.

85
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

O fortalecimento do Estado não ocorreu na colônia, anos: fornecer produtos primários para a Metrópole e
pois não formávamos uma nação unida, capaz de bus- comprar suas manufaturas, diretamente das fontes por-
car seu próprio desenvolvimento. Foi mais fácil receber tuguesa ou inglesa. Com o comércio de algumas mono-
financiamento externo, via Europa, Estados Unidos e culturas, gerando dependência externa e acumulando
Japão. capital nas mãos de alguns “afortunados”, a maioria da
Ainda hoje, sofremos uma dependência financeira população se vê obrigada a iniciar atividades econômi-
e/ou tecnológica de muitos países. Nossa distribuição cas “secundárias” e desenvolver um pequeno merca-
de renda é um dos piores indicadores da vida econô- do interno. Com a atividade mineradora e, apesar de
mica do brasileiro. Uma minoria vive em excelentes muitos considerarem-na pouco duradoura, cria-se uma
condições, enquanto a grande maioria sobrevive com classe média no interior brasileiro e mesmo na região
baixos salários, no meio de desastres naturais como litorânea. Dessa forma, fica mais evidente a desigual
inundações e desabamentos de encostas, em barracos distribuição de rendas, uma vez que o poder político e
de papel ou de restos de madeira apodrecida. Restos econômico continuará atrelando os latifundiários, gran-
nefastos de um colonialismo medonho. des comerciantes e a Igreja. Se Portugal apresentou
Finalmente, há uma mão de obra abundante, bara- contradições através das ações do Marquês de Pom-
ta, reserva de mercado, pouco qualificada para acom- bal, também Dona Maria I vai descartar algumas delas,
panhar as mudanças tecnológicas que o mundo atual fortalecer outras e manter tais contradições no território
exige. colonial. A Inglaterra, grande beneficiária dos tratados
Mas, meu caro aluno, com o aprofundamento nos com Portugal, mais uma vez entrou no mercado brasi-
estudos (via EAD, por exemplo), poderemos melhorar leiro e não nos deixou por muitos e muitos anos. Con-
as condições de educação e alfabetização do país, tinuamos recebendo as sobras econômicas do mundo
para chegarmos à distribuição mais equitativa da ren- capitalista central até hoje.
da. Parabéns pela sua disponibilidade e força de vonta-
de de melhorar! Valeu seu esforço hoje! Até a próxima! 5 ATIVIDADES
1. “Capital é riqueza investida para obter lucros.” Jus-
4 RESUMO tifique a frase.
2. Explique as contradições econômicas portuguesas
Portugal nunca foi uma unidade homogênea em
em relação à Inglaterra.
termos de nação ou território. O poder estava nas mãos
3. Explique de forma crítica a expressão: “Laissez fai-
da nobreza e uns pouco trabalhadores – pagantes de
re, laisse passer” (deixai fazer, deixai passar). Se
impostos – sustentavam um Estado letárgico e suga-
for preciso, faça uma pesquisa sobre a expressão
dor. Dessa maneira não houve preocupação em desen-
francesa.
volver um mercado interno capaz de captar investimen-
4. O Brasil é considerado um país subdesenvolvido;
tos que gerasse lucros. Tal pensamento atravessou o
no entanto está entre os dez maiores industrial-
oceano e aportou nas terras brasileiras. Se, segundo
mente. Como você explica essa contradição? Apre-
Smith, a riqueza de uma nação estava numa maior
sente dois fatos que comprovem sua resposta.
produtividade no trabalho, aqui não havia a preocupa-
ção de investir capital para gerar lucros. Muitos gran-
des comerciantes e latifundiários acumulavam riqueza REFERÊNCIAS
apenas quantitativa, sem gerar outros investimentos. A
MATTOS, Laura Valladão de. As três vias de cons-
exploração da mão de obra escrava garantia-lhes um tituição do capitalismo. Disponível em: www.edito-
aumento de capital que não se tornava circulante. As- raabril.com.br. Acesso em: 7 dez. 2010.
sim, nós também entramos na roda portuguesa e nos SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
tornamos um conjunto de “ilhas econômicas”, desvin- 500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul-
culadas umas das outras, voltadas para o comércio tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.
externo, dependente dos preços do mercado interna- TAMDJIAN, James Onnig. Geografia Geral e do
cional. Com a Divisão Internacional do Trabalho – DIT Brasil: estudos para compreensão do espaço. São
– desempenhamos nossa função, por muitos e muitos Paulo: FTD, 2004.

86
Unidade 03

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
OS CICLOS ECONÔMICOS NO BRASIL COLÔNIA

AULA 14

A HERANÇA COLONIAL E AS CONTRADIÇÕES


DA ECONOMIA BRASILEIRA

Objetivos
• Reconhecer a função da Colônia na formação da
economia brasileira.
• Identificar fatores sociopolíticos das contradições
econômicas brasileiras.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO sem propriedade particular dos meios de produção, o


Estado seria controlado pelo proletariado apenas para
“Aos trabalhadores cabe o que a classe possuidora organizar o funcionamento da sociedade. Os meios de
acha excessivamente mau. [...] Um estado de produção seriam coletivos. O objetivo seria o fim de to-
coisas monstruoso. As melhores sensações que das as desigualdades sociais. Muito louco, né?
podem proporcionar à saúde física, a euforia Naquela época, já se reconhecia que, em uma
intelectual e os mais inocentes prazeres dos sociedade capitalista, o empregado produz mais lucro
sentidos, lado a lado, com a mais cruel miséria! A
para o patrão do que o salário que lhe é pago (a tal da
riqueza rindo-se do alto dos seus brilhantes salões,
rindo-se com uma brutal indiferença, mesmo ao mais valia, lembra-se?). Marx alertava que, com o pas-
lado das feridas ignoradas da indigência! A alegria sar do tempo, haveria mais concentração nas mãos de
zombando inconscientemente, mas cruelmente do poucos. Para ele, o fim do capitalismo era previsível, e
sofrimento que geme ali embaixo! Presentes todos aconteceria uma grande crise econômica, resultando
os contrastes, todas as oposições [...]” em falências, desemprego, etc., e a solução passaria
(Fonte: ENGELS, F. A situação da classe pela luta das classes sociais. De um lado, os proprietá-
trabalhadora na Inglaterra. Disponível em http:// rios dos meios de produção ou burguesia enfrentariam
marxists.org/espanol/m-e/1840/situacion/index.html.
os proletários; a vitória seria dos trabalhadores que, a
Acesso em: 6 out. 2010.)
partir daí, substituiriam os meios de produção particu-
lares pela posse coletiva e estatal (1ª fase = Socialis-
Será que as cidades foram sempre assim: sujas em
mo). Mais tarde, o Estado seria extinto e cada traba-
sua maioria e limpas para poucos? Sujeira e pobreza
lhador receberia conforme suas necessidades (2ª fase
andam de mãos dadas? Trabalhadores bons são aque-
= Comunismo). Aí, o consumismo e a acumulação de
les mais explorados? Saúde e riqueza só combinam
dinheiro ou propriedades, além da ostentação de sím-
com pessoas bonitas?
bolos de riqueza, não existiriam. Claro que esse tipo
Meu prezado aluno, possivelmente você já fez al-
de sociedade nunca ocorreu na prática. Alguns países
gumas dessas perguntas a si mesmo ou a outras pes-
tentaram uma experiência socialista (baseando-se em
soas. Num mundo globalizado, onde a comunicação
alguns parâmetros do Marx), foram chamados de Se-
permite debates, discussões como essas, você, cer-
gundo Mundo e, hoje, Socialismo Real.
tamente, encontrou pessoas posicionando-se critica-
Agora que você se inteirou das ideias socialistas,
mente sobre o capitalismo (selvagem?) ou o socialismo
dá para perceber o que Engels queria dizer sobre as
(utópico?). Na nossa aula, vamos recordar um pouco o
condições do trabalhador, né? Vamos, então, (re)co-
fenômeno da formação do Capitalismo e do Socialismo
nhecer alguns pontos do capitalismo, “ok”?
na Europa e que repercutiram na nossa colônia. Será
Almeida e Rigolin (2004, p. 272) resumem o siste-
um breve relato das condições europeias dos trabalha-
ma da seguinte forma:
dores para que você perceba a importância dos países
fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata Como funciona o capitalismo
para o capitalismo.
• Tem como principal objetivo o lucro.
2 UM BREVE HISTÓRICO • Baseia-se na propriedade privada dos
meios de produção.
Friedrich Engels (filósofo alemão que viveu de
1820/1895) foi um dos fundadores do socialismo cien-
• Tem no dinheiro ou seus similares
tífico ao lado de Karl Marx, no século XIX. Seu pai era (cartões de crédito, cheques) o seu
um rico industrial que possuía fábricas em Manches- principal meio de troca.
ter, cidade que o filósofo visitou algumas vezes, assim • Funciona conforme a lei da oferta e da
como outras cidades inglesas, antes de escrever sobre procura – economia de mercado.
as condições de trabalho nas fábricas. A situação dos
• Nas relações trabalhistas, predomina
trabalhadores ingleses “perturbou” o jovem sensível.
Para ele, uma sociedade não teria divisão de classes o trabalho assalariado. O trabalhador
sociais, nem exploração do homem pelo homem, seria “vende” sua força de trabalho aos

88
AULA 14 • A HERANÇA COLONIAL E AS CONTRADIÇÕES DA ECONOMIA BRASILEIRA

donos dos meios de produção, nia. O mercado interno ainda era incipiente, mas não
recebendo um salário, enquanto o dependia tanto da Europa, uma vez que eram os pe-
quenos proprietários e trabalhadores ou escravos livres
proprietário fica com os lucros.
que o sustentavam.
• No sistema capitalista, a sociedade é
O que fazer diante de condições tão adversas? Bus-
baseada na divisão de classes. car a diversificação econômica, especialmente com o
Originando-se na Europa (séc. XV e XVI), o capita- cultivo de produtos agrícolas e a expansão da pecuária.
lismo se expandiu pela Ásia, África, América e Oceania Também aparecerão profissionais autônomos e outras
na fase da incorporação à economia mundial. Inicial- atividades rentáveis nas cidades. Os trabalhadores ru-
mente representava as relações entre as colônias e as rais já não dependiam do capital emprestado pelos gran-
metrópoles (monopólio). Com a DIT, houve especializa- des comerciantes urbanos (com seus juros altíssimos),
ção de alguns países no cenário mundial: fornecedores e ocorriam trocas entre os vários núcleos periféricos. O
de matérias-primas ou de manufaturas/produtos indus- Pacto Colonial foi, definitivamente, rompido. Contudo
trializados. Veja o fluxograma. nas nossas “colas” estavam os ingleses e holandeses
interessados nos novos mercados, em conceder em-
Metais preciosos, especiarias préstimos financeiros e máquinas/equipamentos rurais
COLÔNIAS e urbanos. Schmidt (1998, p. 102-104) ressalta que
METRÓPOLES Para milhões de brasileiros, homens e
Produtos manufaturados mulheres pobres, escravos e trabalhado-
res braçais livres, a independência deve-
ria melhorar suas condições de vida. Nas
Alguma novidade? Sei que você se lembra de tudo cidades havia grupos de médios, como
isso, mas é que, para introduzir a questão da coloni- professores, advogados, jornalistas, al-
faiates, padeiros, pequenos comercian-
zação do Brasil, tornou-se necessário frisar isso mais tes, barbeiros e sapateiros, que também
uma vez. eram facilmente contaminados pelos ide-
ais revolucionários de independência. [...]
O Brasil nunca esteve isolado do mundo.
3 ECONOMIA COLONIAL Depois da colonização, as ideias vinham
para cá do mesmo jeito que as mercado-
BRASILEIRA rias... Ideias sozinhas não levam a nada.
É preciso haver grupos sociais que pos-
Na sociedade brasileira pré-mineral, a população sam se libertar fazendo a transformação
concentrou-se no litoral. Os portugueses, grandes co- radical da sociedade. [...] É claro que as
elites filtravam as ideias iluministas, dei-
merciantes e senhores de engenho, usando a mão de
xando passar o que lhes interessava: a
obra escrava, criaram vilas, cidades, fortes, portos, ideia de autonomia do país. O que o ilu-
“permitiram” a busca de metais e novos mercados. So- minismo tivesse de democrático era con-
venientemente esquecido.
mente com a mineração foi possível alterar esse qua-
Outras ideias que influenciaram ligavam-
dro: inicia-se uma classe média consciente do papel se ao liberalismo econômico. Era a dou-
do trabalhador. Muitos brasileiros estudaram na Europa trina da burguesia vitoriosa na Revolução
e conviveram com as ideias e ideais dos Iluministas, Industrial. Surgiu na Inglaterra com Adam
Smith, autor de A Riqueza das Nações.
déspotas esclarecidos, grupos religiosos protestantes,
Os seguidores de Adam Smith foram
luteranos, teóricos liberais, etc., e alguns deles trou- mais longe, mostrando que manter colô-
xeram para o Brasil as discussões e os anseios de nias podia ser muito caro para a Metró-
boa parte desses grupos. Houve o reconhecimento e pole, pois tinha uma porção de despesas
com exército, administração, etc. Seria
a conscientização da exploração portuguesa sobre a melhor o fim do Pacto Colonial e a livre
colônia, que continuava fornecedora de produtos pri- concorrência entre os países, para ver
quem conquistaria os mercados das ex-
mários e compradora de manufatura, pagando altos im- colônias.
postos e taxas, e com pequena participação da maioria
da população colonial. Para “compensar” os preços de As ideias liberais econômicas propunham a liber-
alguns produtos no mercado internacional, Portugal dade de produzir, vender e comparar, onde, quando e
exigia pagamentos altíssimos dos moradores da colô- como a burguesia quisesse, garantindo a riqueza na-

89
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

cional. Era tudo o que os brasileiros queriam, não é agroexportadora como nos “cantinhos” onde ocorria a
mesmo? No sentido político, o liberalismo propunha mineração. Com a pecuária, muitas áreas interioranas
liberdade individual, formação de governos represen- se ligaram às litorâneas. Os ideais burgueses de liber-
tativos e constitucionais, liberdade de pensamento e dade e democracia estavam chegando ao interior da
garantia integral dos meios de produção. Os ventos a colônia também.
favor da independência estavam soprando no Brasil,
mesmo que, como se confirmou mais tarde, tenhamos 5 ATIVIDADES
continuado dependentes de outros povos. Mas isso é
assunto para outra aula. Você reparou que quase não 1. Leia o texto seguinte.
falamos de São Paulo? Pois é, desse Estado tão rico e
O ressentimento da elite mineira
empreendedor trataremos nas outras aulas. Não se as-
suste: a cafeicultura é nosso assunto. Vá tomando um Os principais líderes da Inconfidência Minei-
cafezinho ou chá enquanto a aula não chega. Tchau! ra eram homens da elite colonial. Tomás Antonio
Gonzaga tinha se formado em Direito e conseguiu
o cargo de ouvidor. Poeta famoso, dedicou mui-
4 RESUMO tos versos à amada Marília. Cláudio Manuel da
Nas cidades pré-industriais, o campo produzia ri- Costa era também poeta e juiz. Dono de muitas
quezas que circulariam e seriam consumidas nas ci- minas e criação de porcos, emprestava dinheiro a
dades. Ambiente concentrador da população (expulsa juros altíssimos. Morreu na prisão. Disseram que
do campo pelas atividades extensivas daquela época), foi suicídio, mas até hoje suspeita-se de assassi-
as cidades acolheram os novos moradores de forma nato. José de Alvarenga Peixoto era juiz, coronel
desestruturada e sem infraestrutura básica. Alguns e comandante da cavalaria, dono de gado, terras,
pensadores do Socialismo associavam a exploração minas e escravos. Casou-se com Bárbara Helio-
do homem pelo homem e a sujeira urbana ao sistema dora, de rica família paulista. Como poeta, abriu
socioeconômico que estava substituindo as atividades caminho escrevendo babados elogios ao mar-
mercantis: o capitalismo. O poder de acumular capital e quês de Pombal.
de se apossar dos meios de produção (terra, trabalho e Todos eles estavam chateados com o gover-
equipamentos) fez surgirem fortes grupos econômicos no português porque deviam uma grana em im-
na Europa, em especial. É lá também que se deu o postos. Além disso, o corrupto governador minei-
embate entre aqueles que defendiam a coletivização ro, Luis Cunha Menezes, os tinha posto de lado.
dos meios produtivos e os outros. Para os socialistas Preferiu nomear amigos para cargos de destaque.
(utópicos), os proletários poderiam vencer os burgue- Mas a gente não deve achar que eles conspira-
ses, apropriar-se das ferramentas produtivas e ganhar ram contra Portugal apenas para resolver seus
salários conforme as necessidades humanas. Sabe- problemas. (SCHMIDT, 1998, p. 106)
mos que esses ideais ficaram no discurso e nos deba-
tes entre os vários grupos europeus e que tais ideias Apresente dois argumentos retirados do texto que
espalharam-se pelas Américas, principalmente na do comprovam as contradições socioeconômicas do Bra-
Norte, resultando na independência das treze colônias sil Colônia.
inglesas. No caso da América do Sul, a independência 2. Explique a afirmativa de Jean Baptiste Say (1803):
política não conseguiu romper os laços de dependên- “as verdadeiras colônias de um povo comerciante
cia que uniam as ex-colônias à economia europeia. As são os povos independentes de todas as partes do
jovens nações continuaram com uma economia mono- mundo.”
exportadora (agrícola e/ou mineral) e importadora de 3. “A necessidade de mercados cada vez mais exten-
bens manufaturados, especialmente ingleses. sos para seus produtos impele a burguesia para
O campo brasileiro teve papel fundamental na for- todo o globo terrestre. Ela deve estabelecer-se em
mação de um mercado interno, no fortalecimento das toda parte [...] Através da exploração do mercado
atividades urbanas, mas a escravidão foi mantida. O mundial, a burguesia deu caráter cosmopolita à
trabalho escravo era fundamental tanto nas regiões produção e ao consumo de todos os países. Em lu-

90
AULA 14 • A HERANÇA COLONIAL E AS CONTRADIÇÕES DA ECONOMIA BRASILEIRA

gar das velhas necessidades, satisfeitas pela pro- maioria dos trabalhadores e povos no mundo que com-
dução nacional, surgem necessidades novas que, provem a atualidade dos autores.
para serem satisfeitas, exigem produtos das terras
e dos climas mais distantes [...] Em lugar da anti- REFERÊNCIAS
ga autossuficiência e do antigo isolamento local e
ALMEIDA, Lúcia Marina; RIGOLIN, Tércio Barbosa.
nacional, desenvolve-se em todas as direções um Fronteiras da globalização: Geografia Geral e do
intercâmbio universal, uma universal interdepen- Brasil. São Paulo: Ática, 2004.
dência das nações.” ( MARX; ENGELS. Manifesto SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
do Partido Comunista, 1848). 500 anos de história
malcontada. Sociedade e Cultura. Ens. Médio. São
O trecho acima, escrito em 1848, merece uma re- Paulo: Nova Geração, 1998.
leitura. Apresente dois argumentos sobre a situação da

91
Unidade 04

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A ECONOMIA CAFEEIRA

AULA 15

A ADEQUAÇÃO DA CULTURA DO CAFÉ NO BRASIL E


O SEU PAPEL DE CARRO-CHEFE DA ECONOMIA

Objetivos
• Relacionar as atividades agrícolas coloniais com a
cultura do café.
• Compreender como se organizou o espaço geográfico
do Sudeste diante da cafeicultura.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO Acontece que as plantações no estado do Rio de


Janeiro encontraram um relevo acidentado (plantações
[...] Na região onde hoje está a cidade de São “subindo” os morros) e muita chuva, o que determinou
Paulo, diferentemente do que ocorreu no Nordeste
o pouco sucesso do café fluminense. A cana-de-açú-
da monocultura canavieira, a agricultura de
subsistência consistiu no seu ponto forte [...] car, que criara nas terras do oeste paulista toda uma
incluía o trigo, algodão – utilizado para fiar panos infraestrutura para o seu desenvolvimento, favoreceu
grosseiros, franjas e redes – limoeiro, laranjeiras o enraizamento e expansão do café: estradas de ferro
e a vinha [...] os marmeleiros tinham importância particulares vão ligar a área produtora aos portos de
especial, pois a conserva desta fruta constituía Santos (SP) e Paranaguá (PR) equipados para as ex-
o principal produto de exportação paulista. [...]
portações canavieiras ou não, com mão de obra escra-
O bandeirantismo foi fruto social de uma região
marginalizada, de escassos recursos materiais e va abundante, máquinas e equipamentos, solo de terra
vida econômica restrita. [...] roxa, relevo mais aplainado, além do mercado consu-
(DAVIDOFF, 1984, p. 24-25, com adaptações) midor interno. Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto,
Presidente Prudente, Marília, Assis em São Paulo, e
Prezado aluno, você percebeu como a agropecu- Londrina (norte do Paraná) serão as novas regiões do
ária é uma atividade fundamental na economia brasi- cultivo do café.
leira? Ela detém o monopólio da produção nacional Nessa época, a cafeicultura só perdia espaço nas
de alimentos e emprega a maior parte da mão de obra exportações brasileiras para a cana-de-açúcar e o al-
rural. Ocupa cerca de 30% do território do país de for- godão. No final do século XIX representava o principal
ma permanente ou temporária e, logicamente, com produto exportado pelo país (60% do total brasileiro e
uma subutilização do espaço nacional. Como um esta- 75% do comércio mundial de café saíam do Brasil).
do industrializado como é hoje São Paulo inseriu-se na Apesar de não ter mais tal classificação, o café con-
economia-mundo em tão curto tempo? Quem diria que tinua sendo um importante produto da nossa pauta de
a agricultura paulista já teve a produção de marmelo exportação. O estado de São Paulo foi, durante muitas
como atividade especial, né? Dados positivos e tam- décadas, o seu grande produtor, posição que foi per-
bém contraditórios! Eis algumas perguntas que serão dida para o Paraná no final dos anos de 1950. Como
respondidas na nossa aula. Vamos a ela! é uma planta que tende a esgotar o solo muito rapida-
mente, o norte paranaense também teve que erradicar
suas plantações e, desde os meados de 1980, Minas
2 CAFÉ: ORIGENS E PRODUÇÃO
Gerais é o maior produtor de café no Brasil, seguido
Está no norte da África (Etiópia, Sudão e Quênia) a do Espírito Santo, Rondônia, Bahia, Rio de Janeiro e
origem do café que foi comercializado pelos egípcios e São Paulo.
europeus e, em 1570, ele representava um dos produ-
tos do comércio veneziano. Contudo ele era associado 3 A AGRICULTURA HOJE E
aos seguidores de Maomé e por isso era proibido na ONTEM
Europa. Somente após o papa Clemente VIII prová-lo é
que pôde ser vendido livremente nas terras europeias. Atualmente, a soja e seus derivados, a cana-de-
Seu comércio foi feito especialmente pelos holandeses açúcar, o suco de laranja e o café constituem a prin-
através da Companhia das Índias Ocidentais, mas a cipal pauta de exportação do país. Segundo Almeida
primeira loja a vendê-lo foi em Paris e usando o açúcar (2004, p. 435),
para adoçá-lo. Os holandeses e franceses introduzi- [...] essas lavouras ocupam nossos mais
ram-no na América Central (ou “Novo Mundo”). Mudas férteis solos cultiváveis, são dotadas das
mais modernas máquinas do setor e be-
da Guiana Francesa foram “pirateadas” para o Grão- neficiadas por avançados estudos no
Pará e Amazônia, em 1830, mas seu cultivo foi desas- campo biotecnológico.
troso. No início do século XIX, foi transplantado para a Entretanto, o lucro gerado pelas exporta-
Baixada Fluminense, expandiu-se pelo Vale do Paraíba ções desses gêneros não é revertido para
o setor. Ajuda a pagar a dívida externa e a
e atingiu São Paulo, numa época que coincidia com o comprar bens manufaturados de tecnolo-
aumento do consumo no mercado externo. gia de ponta para o nosso parque indus-

94
AULA 15 • A ADEQUAÇÃO DA CULTURA DO CAFÉ NO BRASIL E O SEU PAPEL DE CARRO-CHEFE DA ECONOMIA

trial. [...] Entre os gêneros para abastecer mente ao mês anterior, enquanto outras
o mercado interno destacam-se o feijão, a tiveram aumentos de preços – de 32,7%
mandioca e o algodão. Além desses, são para suco de laranja, de 11,7% para óleo
cultivados arroz, batata, cebola e milho. de soja e de 12,1% para petróleo bruto.
Nessas culturas, que ocupam muitas ve- Em compensação, entre as 23 commodi-
zes terras de pior qualidade, não há apli- ties, apenas nove apresentaram um au-
cação de técnicas sofisticadas, como nas mento do volume exportado. É um sinal
lavouras de exportação. eloquente de que nossa receita de expor-
tação depende muito da evolução anor-
As condições naturais (clima, solo) em malmente favorável de preços nesses
nosso país são, de modo geral, favorá- últimos meses, em razão especialmente
veis às atividades agrárias. [...] Os pro- das condições climáticas adversas que
blemas de nossa agricultura estão mais reduziram a oferta de produtos agrícolas,
ligados à herança colonial de um mode- e do boom da indústria de alguns países
lo voltado para a exportação e à falta de asiáticos que não dispõem de minérios.
uma política de apoio ao setor agrário
mais eficiente.
De outra parte, enquanto nossas expor-
Segundo O Estado de São Paulo (2011): tações para a China acusaram cresci-
mento de 49,8% em relação a janeiro do
As exportações brasileiras dependem dos básicos ano passado, as destinadas aos EUA au-
04 de fevereiro de 2011 | 0h 00 mentaram apenas 15,4% e para a União
Europeia, 38,7%. Estamos cada vez mais
[...] o resultado da balança comercial de dependentes do mercado da China, cuja
janeiro, com saldo positivo de US$424 economia vem dando sinais de arrefeci-
milhões, foi recebido com satisfação pelo mento de ritmo.
fato de que, no ano passado, janeiro ha-
via registrado um déficit de US$179 mi- O modelo agrário, vigente no país desde os idos
lhões. Além disso, as exportações, de coloniais, fundamentado no trinômio latifúndio, mono-
US$15, 215 bilhões, representaram um cultura voltada para o comércio externo e mão de obra
recorde para o mês. O resultado merece
ser recebido, porém, com algum cuidado, escrava, teve na atividade açucareira seu principal pro-
pois esconde a grande fragilidade do co- duto, seguida secundariamente pelas culturas do algo-
mércio exterior.
dão e fumo. As terras eram tratadas como “produtos
É bom notar que, em relação ao mês
descartáveis”, uma vez que, esgotadas pelo uso incan-
anterior, as exportações retrocederam
20,3%, enquanto as importações aumen- sável, eram substituídas por outras áreas. Isso signifi-
taram 4,2%, uma tendência que pode se cou que a extensão territorial dava aos “poderosos” a
manter o ano todo.
noção de que nunca se esgotariam e não havia neces-
No entanto, é mais em relação às expor-
tações que podemos falar em fragilidade
sidade de cuidados com a terra. A improdutividade se
do resultado. Os produtos básicos, em revelaria de forma impiedosa em vários locais. A pros-
relação ao mesmo mês de 2010, acusam peridade do café (1870/1929) permitiu que os estados
crescimento de 56,3%; os semimanufatu-
rados, de 29,4%; e os manufaturados, de de São Paulo e Paraná se inserissem no sistema de
apenas 8,6%. O maior aumento (160,4%) comércio internacional. É assim que Almeida (2004, p.
foi de máquinas de terraplenagem que
têm parte importante de componentes
435) nos recorda:
importados. As duas primeiras categorias
representam 59,2% do total das exporta- [...] a realidade das atividades do cam-
ções, o que indica como é limitada a parti- po reflete atualmente a transição de um
cipação da indústria nas exportações. modelo econômico do país de agroexpor-
tador para o subdesenvolvido industria-
Em princípio, não haveria inconveniente lizado. Conforme a indústria se tornava
em o País ser grande exportador de com- o eixo principal da economia brasileira –
modities, na medida em que as receitas processo consolidado a partir da década
dessas exportações tivessem um caráter de 1950, quando a economia do país era
permanente e não dependessem da con- cada vez mais controlada pelas transna-
juntura econômica de um número muito cionais –, a agricultura ficava mais de-
concentrado de mercados. Não é bem pendente e subordinada à indústria e aos
o que se observa com nossas exporta- interesses econômicos de grupos brasi-
ções. leiros e internacionais.

Das 23 principais commodities que o Bra- Viu como a atividade primária brasileira atual e do
sil exporta apenas quatro tiveram uma
redução de preços em janeiro, relativa- passado apresentam pontos comuns? Continuamos

95
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

exportadores de produtos com preços baixos no mer- dernizar os portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR).
cado internacional e ainda dependentes de empreses Os preços variavam conforme a produção brasileira (as
estrangeiras. Nossa tecnologia já avançou em muitos geadas de 1918 em SP e de 1975 no PR diminuíram a
campos (medicina, esporte, pesquisa científica, etc.), produção; o crédito bancário substituiu os comissários
no entanto o campo continua com a herança do tripé e os grandes capitalistas também contribuíram para as
colonial do M-E-L. A ligação entre os financiamentos mudanças nos cafezais). Os financiamentos urbanos
urbanos e o meio rural, seus “acordos” envolvendo a foram direcionados para a cafeicultura paulista/minei-
política e os “barões” do café serão vistos na próxima ra, e essa nova elite assumiu o poder político nacional,
aula. Aguarde-a. Até mais! como veremos nas próximas aulas.

4 RESUMO 5 ATIVIDADES
Historicamente, as atividades primárias da coleta Safra agrícola deve crescer 7,2% em 2010
florestal, da caça e da pesca foram as que a humani- (Jacqueline Farid, da Agência Estado)
dade praticou em busca de sobrevivência. Segundo al-
guns pesquisadores, o café – cultivado no norte africano RIO - A safra agrícola 2010 deverá totalizar
– tornava os animais mais vigorosos e, portanto, poderia 143,4 milhões de toneladas, com aumento de
fazer o mesmo efeito no homem. Assim surgiu o hábito 7,2% ante a safra anterior (133,8 mi de t), segun-
de se tomar um cafezinho. Sua cultura depende de so- do divulgou há pouco o Instituto Brasileiro de Ge-
los bons, relevo mais plano (podendo ser praticado em ografia e Estatística no Levantamento Sistemáti-
altitudes maiores também) e chuvas regulares. No caso co da Produção Agrícola (LSPA) relativo a janeiro.
brasileiro, foi introduzido no Amazonas e não teve suces- A estimativa é 1,9% maior do que o levantamento
so. De lá, suas sementes foram parar no Rio de Janeiro anterior, de dezembro, no qual o instituto previa
onde foram plantadas e, mais tarde, o café expandiu-se uma produção de 140,7 milhões de toneladas.
pelo Vale do Paraíba, PR, MG, ES, RO, BA etc., confor- A produção de soja deverá atingir 66,1 milhões
de toneladas em 2010, com aumento de 16%
me o desenvolvimento agrícola e o uso de técnicas mais
ante o ano anterior, segundo o IBGE. A área
modernas de cultivo em relevos acidentados. a ser colhida com a leguminosa apresenta
No caso colonial brasileiro, a agropecuária cons- crescimento de 6,0%, e o rendimento médio
tituiu a base da economia, foi a geradora de acúmulo esperado deve ter acréscimo de 9,4%
de capital e do mercado interno, através da cana-de- (respectivamente, 23,0 milhões de hectares e
açúcar, do algodão, da mandioca e de outros gêneros 2.871 kg/ha). A safra 2010 apresentará a maior
área plantada e a maior produção de soja já
alimentícios. A infraestrutura da exportação desses pro-
apuradas no Brasil.
dutos agrícolas beneficiou o cultivo do café no Sudes-
Segundo o documento de divulgação do ins-
te. São Paulo e Paraná, com seus solos de terra roxa,
tituto, “a cultura ocupou áreas antes exploradas
relevo mais aplainado e clima subtropical, foram deter-
com o milho, e, em menor escala, com o algodão
minantes para a expansão da cafeicultura na região. O
e o arroz, devido às maiores cotações e liquidez
poder político açucareiro cedeu espaço para os novos
da soja”. Em Mato Grosso, maior produtor nacio-
“barões” do café. O restante do país continuava a prati-
nal (28,7% de participação na safra total do País),
car uma agricultura “de pobres”: feijão, milho, mandioca
“as condições climáticas são bastante favoráveis,
e arroz; as “de rico”: cana-de-açúcar, café, soja, algo-
e até o momento o excesso de chuvas não afetam
dão, etc. tiveram prioridade internacional. O campo bra-
a colheita”. A estimativa da produção de café em
sileiro tornou-se também subordinado aos interesses
grão é de 2.805.821 toneladas, ou 46,8 milhões
de grupos nacionais e internacionais e modernizou-se.
de sacas de 60 kg de grãos beneficiados, 15,3%
Agora, o destino da mão de obra escrava era outro: as
a mais que o obtido em 2009, segundo o IBGE. A
regiões cafeicultoras do sul. O mercado internacional
área destinada à colheita é de 2.142.549 hectares,
exigia mais produção, e muitos produtores iniciaram a
apenas 0,2% superior ao ano passado. A área to-
importação de máquinas e equipamentos para o setor.
tal ocupada com a cultura no País decresce 1,0%,
Houve necessidade de fazer estradas de ferro e mo-

96
AULA 15 • A ADEQUAÇÃO DA CULTURA DO CAFÉ NO BRASIL E O SEU PAPEL DE CARRO-CHEFE DA ECONOMIA

1. Transfira do texto acima as informações sobre a


constatação verificada em Minas Gerais, Rondô- agricultura brasileira para preencher o quadro-re-
nia, Bahia, Paraná e Rio de Janeiro. O rendimento sumo abaixo.
médio esperado é 1.310 kg/ha, 15,0% maior que o
obtido em 2009. “O acréscimo previsto na produ- Principais produtos agrícolas brasileiros em 2010
ção, em relação à safra colhida em 2009, é con- Produtos Estados Problemas
sequência, principalmente, da particularidade que produtores (se houver)
apresenta o café arábica, espécie predominante
no País (70%), de alternar anos de altas e baixas
produtividades”, dizem os técnicos no documento
de divulgação. A primeira estimativa da produção
de algodão herbáceo em caroço para 2010 é de
três milhões de toneladas, com acréscimo de 2,1%
sobre 2,9 milhões de toneladas obtidas em 2009.
“Embora tenha havido diminuição de 1,0% da
2. Leia o texto.
área plantada, consequência do desestímulo dos
produtores face aos altos custos de produção, di- “No interior, na região de Pinhal, um estranho
ficuldades de financiamentos e baixas cotações da fenômeno ocorre. Falta mão de obra nas
pluma, a produção está acrescida pela perspectiva lavouras de café. O paradoxo ocorre por causa da
de obtenção de rendimento 2,8% superior ao re- instalação de empresas de telecomunicações e
gistrado em 2009”, explicam os técnicos do IBGE. alta tecnologia, segundo o pesquisador Celso Luiz
A estimativa de produção para o milho na primei- Veiga. ‘Essas empresas acabaram absorvendo
ra safra em 2010 é de 33,4 milhões de toneladas, a mão de obra especializada, provocando um
1,3% abaixo da obtida em 2009. De acordo com o grande problema para a cafeicultura da região’.
instituto, a queda é resultado da retração de 9,7% Embora muitos produtores tenham máquinas
na área total plantada. No Paraná, maior produtor para auxiliar na lavoura, o relevo montanhoso da
nacional (18,8% de participação), a redução na região torna inviável o sistema. A solução está
área plantada é de 30,1%. Já a safra de arroz deve num antigo método, usado no começo do século:
ser de 12,0 milhões de toneladas neste ano, 5,2% a parceria. Nesse processo, o trabalhador torna-
menor que a registrada em 2009. O Rio Grande se sócio da lavoura. Ao fim da colheita, divide os
do Sul, principal produtor (60,8% da produção na- lucros com os empresários. ‘Por anos a prática foi
cional), apresenta queda de 8,1% na produção considerada extinta, mas agora ressurge como
esperada e 2,9% na área, “em virtude do excesso uma das alternativas viáveis para a solução
de chuvas que atrasou a semeadura, determinou a daquela região’, diz Veiga. O custo de mão de
perda total de áreas em função do encharcamento obra na cafeicultura representa 30% do total
das lavouras na região da Depressão Central do da saca. Com a utilização de máquinas, esse
Estado, além de uma menor incidência de luz, que, valor cai para 8%. Durante os últimos anos, com
em conjunto, resultaram numa estimativa de queda exceção do ano passado para cá, o café vem
no rendimento médio de 5,4%, em relação a 2009”, tendo alta de preço, o que significa um bom ganho
segundo explica o documento de divulgação. para todos, mecanizados ou não. Veiga diz que
Para o feijão primeira safra, é esperada uma ‘não há previsão de baixa para os próximos anos
produção de cerca de 2,0 milhões de toneladas, no preço do café’, o que, certamente, propiciará
23,1% maior que a obtida em 2009 (1,6 milhão de aos cafeicultores mais estruturados expandir
toneladas). A área plantada ou a plantar é de 2,4 a propriedade, englobando cafezais menores,
milhões de hectares, 0,5% inferior à de 2009. que não suportarão os baixos preços.” (Ibiapaba
Disponível em: http://economia.estadao.com.br/ Neto. O Estado de São Paulo. Suplemento
noticias/not_4380.htm Acesso em: 09 fev. 2011. Agrícola, 07/06/2000).

97
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Atualize o texto anterior, pesquisando sobre a re- Site


gião citada (divisa de SP e MG) e seus problemas agrí- http://www.estadao.com.br/
colas. O texto continua atual? No seu município exis- estadaodehoje/20110204/not_imp675085,0.
tem problemas na agricultura? Se sim, cite-os. Se não, php. Acesso em: 06 fev. 2011.
pesquise em municípios vizinhos e cite-os. Elabore sua
pesquisa em forma de crônica (narração histórica pela DICA
ordem de tempo em que se deram os fatos).
Filme
REFERÊNCIAS O filme The Bucket List (“Antes de Partir”, no Brasil)
foi lançado em 2007 e conta com Jackson Nicholson
ALMEIDA, Lúcia Marina Alves; RIGOLIN, Tércio Bar- e Morgan Freeman, interpretando pessoas desco-
bosa. Fronteiras da globalização: Geografia Geral brindo o valor de algumas aventuras antes da inevi-
e do Brasil. São Paulo: Ática, 2004. tável morte. Vale a pena deliciar-se com fatos reais
MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. Projeto de como o café Kopi Luwak, o mais caro do mundo,
ensino de geografia - natureza, tecnologias, socieda- e seu método inusitado: grãos torrados após serem
de: Geografia do Brasil. São Paulo: Moderna, 2001. ingeridos e defecados por animais em Sumatra. Dis-
ponível em DVD.
SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil.
500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul- Disponível em: http://www.interfilmes.com/
tura. São Paulo: Nova Geração, 1998. filme_16877_Antes.de.Partir-(The.Bucket.List).html.
Acesso em: 06 fev. 2011.
VESENTINI, José William. Brasil, sociedade e es-
paço - Geografia do Brasil. 31. ed. São Paulo: Ática,
2002.

98
Unidade 04

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A ECONOMIA CAFEEIRA

AULA 16

O VÍNCULO ENTRE A COMERCIALIZAÇÃO DO CAFÉ E


OS MECANISMOS DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO

Objetivos
• Entender o funcionamento do mercado interno e
externo do café.
• Compreender o papel da cafeicultura brasileira na
formação do mercado nacional.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO Veja que beleza de construção inicia nossa aula


hoje! A sua legenda traduz muito do papel do café no
mercado brasileiro. Você viu que somente em 1672 é
que o uso do açúcar no café tomou conta do mercado
mundial. Uma doçura, não é mesmo? Que “casamen-
to” perfeito para a agricultura brasileira: café + açúcar.
Claro que essa dupla passou a formar a base econô-
mica colonial, cujos dirigentes já estavam se preparan-
do para a independência. A crise dos Estados Unidos
em 1929 irá influenciar nossa produção e o comércio;
haverá deslocamento de capital para outras atividades
produtivas, reconhecimento da necessidade do uso
de uma mão de obra livre ou assalariada e a queima
Fazenda Santa Genebra, província de São Paulo, 1880. Os
dos estoques. A produção cafeeira representará alguns
produtores agrícolas buscaram modernizar seus empreendimentos tópicos desse ciclo. É uma história recheada de delí-
para manter a competitividade no mercado internacional. cias, falcatruas e muito trabalho intelectual influenciado
Dsiponível em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_ pelos filósofos europeus e conforme os interesses dos
econ%C3%B4mica_do_Brasil. Acesso em: burgueses nacionais. Prepare seu café com leite, se
06 fev. 2011.
quiser, e vamos a essas “novas” interpretações!

2 O PAPEL DA CAFEICULTURA NA ECONOMIA NACIONAL


E INTERNACIONAL
Influenciados pelos ideais do Iluminismo
Os liberais defendiam as seguintes ideias:
europeu e pela independência norte-ameri-
1. O Estado é um acordo entre os cidadãos e para defender os
cana, muitos brasileiros das Minas Gerais,
interesses comuns deles.
Bahia, São Paulo, etc. buscavam igualdade
2- O Estado foi criado para garantir as liberdades individuais. nas leis para todos. As ideias do liberalismo
3- O Estado deve também se submeter à lei. político-econômico também chegavam aqui
junto com as mercadorias (ver box).
4- A lei deve ser a mesma para todos os cidadãos.
O pensamento iluminista não foi criado
5- As principais leis deveriam estar na Constituição, garantidora para resolver as situações da América, contu-
dos direitos e deveres de todos. do defendia o direito dos povos de lutarem con-
6- O Estado seria governado com a separação dos Três Poderes tra os governos opressores, destruindo tiranos
(Executivo, Legislativo e Judiciário). e buscando novos governos. A Inconfidência
Mineira (1789), a Carioca (1794), a Conjuração
7- O governo deveria ser escolhido (votado) pela maioria dos
Baiana (1798) são alguns exemplos (lembrete:
que possuem plenos direitos de cidadania.
tais fatos aparecem aqui apenas para ilustrar
8- Se o governo não atender aos interesses dos cidadãos, eles a situação socioeconômica e política daquela
tem o direito de derrubá-lo e substituí-lo. época, não os decore, certo?).
(SCHMIDT, 1998, p. 103 – Adaptado) Conforme foi dito, muitos latifundiários
ocuparam as terras dos pequenos e médios
proprietários ou de escravos através de acordos agrícolas, e o campo continuou dominados pela burguesia rural.
Assim, houve menor produção de alimentos, e a comida tronou-se mais cara. Armazéns eram saqueados, incen-
diados, e o povo lutava pelo seu direito de alimentação, moradia, igualdade social. Os governos respondiam com
espancamento, torturas, mutilações, enforcamentos, aumento de impostos, etc. Época dura, né?

100
AULA 16 • O VÍNCULO ENTRE A COMERCIALIZAÇÃO DO CAFÉ E OS MECANISMOS
DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO

No final do século XIX, o nosso território apresen- capitalistas para abastecer os crescentes mercados
tava áreas mais valorizadas por causa das atividades externo e interno. É um tempo de investir nas cidades
econômicas exportadoras. Algumas delas estavam li- principais: edifícios comerciais e residenciais acompa-
gadas às regiões de economia de subsistência que as nham a moda europeia, o tempo passava a ser valioso,
abasteciam com gêneros alimentícios, couros e fibras. etc. Veja o que nos relata Priore (1998, p. 77).
Eram as “ilhas econômicas”, com pouquíssimas liga- Entre 1894 e 1930, a vida política nacio-
ções entre si, conforme foi dito. Essas “ilhas monoex- nal foi dirigida pelos grandes fazendeiros
portadoras” ligavam-se aos mercados externos pelos de café, que governavam o país de acor-
do com seus interesses econômicos e so-
portos marítimos e pela rede fluvial amazônica; a cafei- ciais, excluindo não só a grande maioria
cultura tinha frágeis laços com as regiões criatórias de da população brasileira, como também
as oligarquias estaduais não ligadas à
gado do Brasil meridional; no Nordeste, os produtores cafeicultura. O coronelismo, a política dos
do algodão e do açúcar recebiam produtos regionais governadores, a política do café com leite
dos criadores de gado do sertão. e a política de valorização do café garan-
tiam às oligarquias cafeicultoras de São
Alguns produtos primários como o algodão, o açú- Paulo e Minas Gerais a quase exclusivi-
car e o cacau do Brasil estavam perdendo lucratividade. dade das decisões políticas no Brasil.
E o que fizeram os grandes fazendeiros daqui? Passa- Observe os dados de alguns produtos da economia
ram a investir e expandir a área do “ouro negro”. Após brasileira no início do século XIX.
1850, o café passou a ser o principal investimento dos

EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS NO PERÍODO DE 1820 A 1900

Períodos Produtos Quantidade (toneladas)


1820 cacau 11.000
1880 cacau 73.500
1821/1825 açúcar 41.174
1881/1890 açúcar 238.074
1827/1830 borracha 81
1881/1890 borracha 1.632
1900 borracha 24.301.452
1821/1860 café 3.377.000

1861/1889 café 6.804.000


Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki Acesso em: 06 fev. 2011.

Você percebeu o salto espetacular que o café deu no período de 1861 a 1889? Esses números fizeram os ca-
feicultores expandirem suas áreas produtoras, buscarem empréstimos externos e internos (os grandes comercian-
tes do tráfico negreiro tinham capital disponível, lembra-se?), constituírem um mercado interno mais amplo, etc. É
assim que a nova elite política vai começar a se formar. Alguns fazendeiros faziam investimentos em setores como
o de bancos, de estradas ferroviárias ou “fabricazinhas” de produtos leves (higiene pessoal, derivados de milho e
algumas massas). Os maiores exportadores do café estavam em São Paulo, que começava a formar seu nicho
financeiro, com atividades bancárias, de empréstimos e fomento. O setor terciário já estava se firmando com seus
serviços, profissionais liberais, autônomos, vendedores, ambulantes, etc. Estradas de ferro contornavam a capital
paulista e chegavam ao porto de Santos, e havia muita gente buscando trabalho. Em Minas Gerais, exaurida de
seu ouro, ocorrem deslocamentos populacionais para as novas “fronteiras” do café. Objetos e utensílios produzidos
durante a mineração ganham um novo rumo: oeste paulista e norte paranaense. É um novo surto agrícola que sur-
ge na economia brasileira. O mercado interno cresce: os trabalhadores livres cultivavam milho, algodão, café sem
“marca” e outros alimentos para serem vendidos aos consumidores, que recebiam seus pagamentos em dinheiro.

101
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

É uma movimentação financeira sem precedentes na ciantes, donos de pequenos negócios, pequenos fazen-
nossa história econômica. deiros, escravos livres, etc. O próprio movimento baiano
Em termos políticos, a vinda da família real portu- adquiriu características democráticas e teve muita par-
guesa (1808) pouco afetou o comércio e a agricultura ticipação popular. Se você tiver oportunidade, pesquise
paulistas. Continuamos recebendo produtos externos sobre as letras das músicas baianas e veja como elas
como piano austríaco, serrote inglês, queijo suíço, fazem muitas referências a esse período histórico.
porcelana chinesa, chá da Índia, bacalhau português, Politicamente, com a chegada de Dom João VI e
enxofre da África, vinho francês, cerveja holandesa, sua corte, gerou-se uma estrutura administrativa cen-
ou seja, o porto do Rio de Janeiro recebia as mais va- tralizada, capaz de controlar quase todos os pontos
riadas mercadorias mundiais, e o porto de Santos ex- distantes do Rio de Janeiro. Em 1808 viviam na capital
portava matérias-primas. Troca bastante desigual, não 60 mil pessoas e em 1819 eram 112 mil habitantes.
é? Claro que a balança comercial pendia mais para A população quase dobrou em 11 anos. Para captar
as importações, especialmente dos produtos ingleses mais recursos para pagar as despesas do Estado, foi
(“abertura dos portos às nações amigas“); com a ba- criado o Banco do Brasil, que também ampliou crédi-
lança comercial desfavorável, o jeito foi tomar emprés- tos para os fazendeiros e comerciantes. Mais tarde, a
timos externos na Europa. D. João VI adotou medidas família real portuguesa volta para Lisboa e deixa-nos
liberais e também restrições mercantilistas durante sua Dom Pedro I que, atendendo aos interesses dos lati-
permanência conosco para evitar um colapso econômi- fundiários escravistas e dos grandes comerciantes, fez
co maior, já que Portugal estava nas mãos de Napoleão a nossa “independência”, mas continuamos meros ex-
Bonaparte. Ainda segundo Schmidt (1998, p. 114): portadores de produtos básicos baratos e importadores
dos produtos e manufaturas inglesas caras. Balança
[...] ninguém pode acender impune-
mente uma vela a Deus e outra ao comercial favorável novamente para os ingleses que já
diabo. É como diz a grande historia- ensaiavam vários passos na industrialização. Continu-
dora brasileira Emília Viotti da Costa:
“fácil é perceber que, com medidas ávamos dependentes do exterior, e as elites nacionais
que pretendiam conciliar interesses continuavam controlando o país política e economica-
tão contraditórios quanto os dos co- mente. Foram os latifundiários, altos funcionários públi-
merciantes e produtores estrangeiros,
comerciantes e produtores portugue- cos e os comerciantes ligados à Inglaterra e ao tráfico
ses e brasileiros, necessidades da negreiro que controlaram a independência. O povo?
Coroa, não consiga Dom João VI se-
não descontentar a todos [...]. Adotar Sequer foi consultado sobre a permanência de Pedro I
em toda sua extensão os princípios por aqui. Para Schmidt (1998, p. 124),
do liberalismo econômico significaria
destruir as próprias bases sobre as [...] a independência do Brasil teve
quais se apoiava a Coroa. Manter in- muito menos a ver com os sentimen-
tacto o sistema colonial era impossí- tos patrióticos e belos ideais do que
vel nas novas condições. Daí as con- com ganhos materiais das classes
tradições de sua política econômica. dominantes. Os interesses econômi-
Os inúmeros conflitos decorrentes cos da burguesia inglesa fizeram-na
acentuaram e tornaram mais claras, tão dotada de patriotismo brasileiro
aos olhos dos colonos e dos agentes quanto nossos mais ardorosos pro-
da Metrópole, as divergências de in- prietários de terras e escravos.
teresses existentes entre eles, provo-
cando reações opostas: os colonos
perceberam as vantagens de ampliar Em 1822, continuávamos com uma economia vol-
cada vez mais a liberdade, enquanto tada para a exportação agropecuária. A falta de cré-
os metropolitanos convenciam-se da ditos e de ligação entre os núcleos fornecedores de
necessidade de restringi-las”.
alimentos e objetos às cidades explica o pequeno mer-
Socialmente vivíamos em contradições: latifundiá- cado interno. Até 1850, o Imperador teve que melhorar
rios e grandes comerciantes com vida de marajás e a as estradas, as instalações portuárias, a infraestrutura
maioria da população sem acesso a bens básicos de das cidades, vilas e fazendas do país. Os ideais liberais
sobrevivência. A Revolução Francesa e a independência começaram a fincar pé no Brasil!
das Treze Colônias Inglesas serviram de inspiração para O café influenciará a burguesia local. Retornaremos
a classe média brasileira (intelectuais, pequenos comer- à produção monopolista do cultivo, grupos econômicos

102
AULA 16 • O VÍNCULO ENTRE A COMERCIALIZAÇÃO DO CAFÉ E OS MECANISMOS
DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO

recorrerão ao governo exigindo mais lucros e menos b) expansão urbana e industrial concentrada no Su-
impostos, etc. Contudo continuávamos importadores deste e, consequentemente, poder nas mãos das
de bens manufaturados e exportadores de bens primá- elites agrárias paulista e mineira;
rios agrícolas. As trocas internacionais continuarão a c) necessidade de importar mão de obra para as la-
nos prejudicar. O carvão, o cimento, as ferramentas, as vouras cafeeiras e para as incipientes indústrias
máquinas e o ferro e seus artigos pesaram, favoravel- nacionais (o que se revelou mais lucrativo do que o
mente, para a balança comercial inglesa. sistema da escravidão);
A navegação a vapor e a presença das ferrovias (do d) obrigatoriedade de construir estradas (de roda-
W paulista até Santos) contribuíram para a expansão do gem e de ferro) ligando áreas produtoras com as
transporte de carga, aproximando regiões produtoras e exportadoras, especialmente o porto de Santos,
permitindo o crescimento urbano. No Norte e Nordeste, que precisou de melhorias em sua infraestrutura,
os engenhos centrais (grandes usinas produtivas interli- gerando mais empregos, ainda que nem todos
gadas) substituíram os tradicionais; nos cafezais houve os candidatos ao trabalho fossem mão de obra
troca da mão de obra escrava pela assalariada e/ou dos qualificada! Décadas depois novas tecnologias e
imigrantes ou ex-escravos. Houve barateamento nos o aumento da produtividade permitiram o equilí-
custos de produção e a presença governamental dimi- brio comercial brasileiro, salvando muitos comer-
nuiu os impostos cobrados e, ao dar garantias para as ciantes e usineiros. Isso será visto em outra aula.
mudanças, permitiu que nossos produtos agrícolas se Aguarde-a!
tornassem mais competitivos no mercado internacional.
Uma destas medidas ocorreu em 3 RESUMO
1874, quando o gabinete Rio Bran-
co fixou em 40% a taxa de imposto A agricultura no Brasil detinha um papel extreman-
para todas as mercadorias impor-
tadas (o que viria a incentivar a in- te importante: 80% das pessoas em atividade dedica-
dústria nacional), ao mesmo tempo vam-se ao setor agrícola, 13% ao de serviços e 7%
em que criou franquias aduaneiras ao industrial. No interior do país havia uma agricultura
para importações relacionadas a
plantas vivas, sementes, raízes, bul- realizada pelos próprios produtores (sem a utilização
bos e aparelhos mecânicos, com o de escravos), chamada de subsistência, cujos exce-
intuito de desenvolver a agricultura.
(Disponível em: http://pt.wikipedia. dentes produzido por pequenos e médios lavradores
org/wiki/Hist%C3%B3ria_ abasteciam o mercado local. Não havia interligação
econ%C3%B4micadoBrasil. Acesso entre as grandes fazendas açucareias ou do café com
em: 06 fev. 2011.)
as áreas rurais do interior. As estradas limitavam-se
Percebeu as contradições da economia no Brasil? ao litoral ou aos portos (marítimos ou fluviais). As
Os desequilíbrios da pauta de exportação em relação condições naturais aliadas ao poder dos cafeicultores
às trocas externas foram enormes. As medidas liberais tornaram São Paulo e o norte do Paraná as princi-
adotadas por Dom João VI, no Rio de Janeiro, procu- pais regiões cafeicultoras nacionais. O café chegou
ravam conciliar as ideias de Adam Smith com antigas ao Brasil, na segunda década do século XVIII, através
restrições mercantilistas que privilegiavam antigos mo- de Francisco de Melo Palheta, cujas primeiras mudas
nopólios comerciais portugueses. Com a Constituição foram “pirateadas” da Guiana Francesa e plantadas
de 1824, Dom Pedro I elaborou uma mistura entre o no Pará e no Amazonas, sem sucesso, devido às con-
velho regime e o “novo” liberalismo: igualdade da lei dições naturais (clima quente e muito úmido). No sé-
para todos, respeito à Constituição, etc. E, no entanto, culo XIX, as plantações de café espalharam-se pelo
não houve participação popular em nada disso. interior de São Paulo e Rio de Janeiro. Os mercados
O ciclo cafeeiro deixou algumas marcas na econo- nacionais e internacionais, principalmente Estados
mia brasileira, tais como: Unidos e Europa, aumentaram o consumo, favorecen-
a) dependência da exportação do café, cujo preço era do a exportação do produto brasileiro. A elite política
instável no mercado internacional, obrigando o go- deslocou-se do Nordeste para o Centro-Sul (Rio de
verno a queimar os estoques (política de valoriza- Janeiro, capital federal, São Paulo, capital estadual
ção do produto no início do séc. XX); crescente. O oeste paulista e o norte paranaense des-

103
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

pontaram como novos polos do poder e da economia. 2. Relacione duas consequências do ciclo do café na
O café teve seu preço aumentado em vários milhares economia brasileira e explique-as.
nos anos de 1861 a 1889, conforme foi visto no gráfi- 3. Justifique a afirmativa: O Brasil tem vocação para
co. A vinda da família real portuguesa para a colônia uma diversificação de produtos agrícolas, apesar
elevou-nos à condição de Reino-Unido, contudo os do predomínio de produtos tropicais.
interesses econômicos contraditórios entre os estran- 4. As decisões autoritárias de D. Pedro I, fechando
geiros, portugueses e brasileiros não nos permitiram a Assembleia Constituinte e impondo a Carta de
um desenvolvimento integrador e unificado. Somente 1824, provocaram protestos dos liberais no Nor-
décadas mais tarde, a diversificação da produção, as deste. Pesquise e anote as principais reivindica-
novas tecnologias e a produtividade mudarão nosso ções dos cearenses e paraibanos desse episódio.
panorama econômico. Os efeitos da atividade cafeei-
ra, especialmente com o início do processo industrial REFERÊNCIAS
paulista, espalharam-se por quase todas as regiões
PRIORE, Mary Del; NEVES, Maria de Fátima das;
brasileiras e tornaram São Paulo o principal estado ALAMBERT, Francisco. Documentos de História
econômico do país. O poder dos grandes cafeiculto- do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Sci-
res paulistas e mineiros exigiu uma descentralização pione, 1998.
administrativa, o que foi seguido pelos demais no SAINT-HILAIRE, Auguste. Segunda Viagem do
território nacional. Como foram as transações econô- Rio de Janeiro a Minas Gerais. São Paulo: Itatiaia/
micas e financeiras? Serão os assuntos da próxima Edusp, 1974, p. 81, apud SCHMIDT, Mário F. Nova
aula. Conte algumas horas e espere-me! Tchau. história crítica do Brasil: 500 anos de história mal-
contada. São Paulo: Nova Geração,1998. p. 123.
SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
4 ATIVIDADES 500 anos de história malcontada. São Paulo: Nova
1. Leia o texto do historiador (1998, p. 123). Geração,1998.
O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire
(1779-1853) percorreu diversas regiões do Brasil Sites
de 1816 a 1826, recolhendo e estudando mais de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
30 mil plantas, além de animais e minerais. Des- arttext&pid=S0034-71402002000100006 Aces-
creveu os hábitos das populações, chocou-se com so em: 06 fev. 2011.
a destruição do meio ambiente (que já era notável http://www.suapesquisa.com/historiadobrasil/
na época) e fez argutas observações políticas. Al- ciclo_cafe.htm Acesso em: 06 fev. 2011.
gumas delas foram sobre a situação do Brasil no
momento da independência:
DICAS
[...] as revoluções que se operam em Por- Livros
tugal e no Rio de Janeiro não tiveram a
REGO, José Márcio; MARQUES, Rosa Maria (Org.).
menor influência sobre os habitantes des-
ta zona paulista; mostraram-se absoluta- Formação econômica do Brasil, São Paulo: Sarai-
mente alheios às nossas teorias; a mu- va, 2003.
dança de governo não lhes fez mal nem
bem, por conseguinte não se tem o menor MENDONÇA, Marina Gusmão de; PIRES, Marcos
entusiasmo. A única coisa que compreen- Cordeiro. Formação econômica do Brasil. São
dem é que o restabelecimento do sistema Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002.
colonial lhes causaria danos, porque se
os portugueses fossem os únicos com-
pradores de açúcar e café, não mais ven- Filme
deriam suas mercadorias tão caro como CARLOTA JOAQUINA, PRINCESA DO BRASIL (Brasil 1995)
fazem. (SAINT-HILAIRE, 1974, p. 81)
DIREÇÃO: Carla Camurati -100 min
1. Pesquise sobre o período citado no texto as con-
Após a morte do rei de Portugal, D. José I de Bra-
dições do comércio do café e do açúcar e as ra- gança (1777), e a declaração de insanidade da filha
zões de os paulistas considerarem a restauração herdeira, a rainha Dª Maria, em 1792, é levado ao
do Pacto Colonial danosa. trono português seu filho, D. João de Bragança com

104
AULA 16 • O VÍNCULO ENTRE A COMERCIALIZAÇÃO DO CAFÉ E OS MECANISMOS
DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO

sua esposa, a infanta espanhola Carlota Joaquina de Bourbon. Em 1807, estes fogem das tropas napoleôni-
cas e chegam ao Rio de Janeiro. A família real e grande parte da corte e funcionários lusitanos viveram aqui
durante 13 anos. Os desentendimentos familiares tornam-se enormes e muitas aventuras serão narradas, de
forma bem debochada, dessa permanência aqui.
Disponível em DVD.

105
Unidade 04

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A ECONOMIA CAFEEIRA

AULA 17

O SISTEMA DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO


CAFEEIRA E SUAS LIMITAÇÕES

Objetivos
• Identificar o sistema de financiamento do café no
Brasil.
• Compreender o papel das empresas financeiras no
desenvolvimento do mercado nacional.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO Pedro Carvalho de Mello definiu o pano-


rama geral do mercado financeiro e de
Joaquim José Moreira Lima respondia capitais nas décadas de 1870 e 1880
sozinho por quase a metade dos finan- do seguinte modo: “as taxas de retorno
ciamentos hipotecários realizados com estimadas para oportunidades de inves-
capitais locais de Lorena. Esse indivíduo timento de curto prazo, e com um risco
mantinha também, nas localidades de Ba- relativamente bem pequeno, tais como
nanal e Areias, mais 34 hipotecas, soman- depósitos à vista em bancos comerciais
do 875 contos de réis. Seus empréstimos e aplicações em títulos governamentais,
seguiam, grosso modo, o comportamento variavam entre 4% e 6%. As taxas ob-
do valor total das hipotecas. Sua trajetória tidas na aplicação em títulos privados,
de vida é muito característica dos gran- como debêntures e letras comerciais, va-
des “capitalistas’’ da época, pois se casa riavam de 7% a 9%. Para os investimen-
com uma filha do capitão-mor da vila na tos de longo prazo e com um risco rela-
terceira década do século XIX e, atuan- tivamente alto, tais como aplicações em
do inicialmente como lojista de fazenda sociedades anônimas (e numa amostra
seca, pôde acumular um patrimônio ex- que privilegiou aquelas de maior suces-
traordinário como usurário. A atividade so), as taxas de retorno variavam entre
prestamista não se restringia apenas às 9% e 11%, ou mesmo alcançavam 12%”
hipotecas. Ao falecer ele deixou cerca de (MELLO, 1984, p. 238). Devemos res-
1/3 de sua fortuna numa conta corrente saltar que estas opções de investimento
de uma companhia carioca. (MARCON- poderiam apresentar uma relação retor-
DES, 1998, p. 73). no/risco melhor do que a de financiar os
cafeicultores do vale do Paraíba, espe-
Meu caro aluno, nossa aula hoje analisará alguns cialmente ao final do terceiro quarto do
aspectos do texto acima, que retrata o período cafeeiro século XIX (SCHULZ, 1996, p. 227). [...]
o avanço do crédito hipotecário bancário
e suas relações com os fundos de investimentos e hi- em direção ao vale do Paraíba paulista
potecas, especialmente no estado de São Paulo. Você iniciou-se a partir do município do Rio
irá descobrir como os grandes comerciantes e financis- de Janeiro, atingindo Bananal no final
da década de 1860. Todavia, a presença
tas obtiveram lucros extraordinários, o que deu fama a mais expressiva de tais financiamentos
muitos aventureiros no auge do café. O crescimento e só ocorreu a partir do final da década
seguinte. O primeiro financiamento hi-
o embelezamento das grandes cidades (litorâneas, é potecário de bancos registrado nos do-
claro) formaram novas paisagens, e houve o aumento cumentos compulsados ocorreu primeiro
de atividades terciárias (comércio em geral, vendedo- em Guaratinguetá na passagem da dé-
cada de 1860 para a subsequente; em
res, costureiras e alfaiates, ambulantes, “decoradores Lorena, ocorreu ao final da década de
e arquitetos” copiando a moda europeia, prostitutas e 1870. A chegada tardia do crédito bancá-
rio na última localidade deveu-se à forte
boêmios, damas de companhia, moleques de recado, presença de financiadores locais, como,
etc.) que farão crescer o bolo do mercado interno. Não por exemplo, a família Moreira Lima [...].
perca as tramas históricas e aproveite para saborear
Comerciantes do Rio de Janeiro e de Santos foram
um café forte! Beba as delícias que se seguirão...
os principais responsáveis pelos financiamentos, em-
préstimos e hipotecas na região de Rio Claro (SP), ge-
2 DECIFRANDO O SISTEMA rando fluxos intrarregionais de capitais naquela época.
DE EMPRÉSTIMOS NA ERA Entre a produção e o comércio internacional, o
CAFEEIRA produto da cafeicultura passava por várias etapas. Ele
era:
O rápido crescimento do consumo do café no mer-
* transportado (no lombo de animais ou carros de
cado internacional favoreceu a região Sudeste, que
boi) até chegar às estradas de ferro mais próximas
ampliou sua área de cultivo. Junto com o “ouro negro”,
da fazenda;
as fazendas produziam tecidos para os escravos, ali-
* colocado em vagões, era direcionado para os por-
mentação para todos os moradores e trabalhadores
tos exportadores (Santos ou Rio de Janeiro);
da cafeicultura. Contudo os gastos com os escravos
começaram a pesar nos lucros dos fazendeiros, e mui- * armazenado, vendido (pelos comissários do café)
tos contraíram dívidas com os grandes comerciantes antes de ir para o exterior.
locais. Coutinho (s/d, s/p) nos conduz àquele tempo Passava por várias mãos entre o plantio e a ven-
através da visão de outros historiadores: da externa; os comissários do café manipulavam os

108
AULA 17 • O SISTEMA DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO CAFEEIRA E SUAS LIMITAÇÕES

preços, cobravam comissões pela venda, despesas acabou perdendo as eleições para o mineiro Affonso
de armazenagem e juros pelos financiamentos/em- Penna, que se identificava com o Convênio de Taubaté
préstimos. Quase sempre, ficavam com as hipotecas e a valorização do café. Somente em 1909, o preço do
das fazendas. Eles eram comerciantes portugueses, produto começa a subir no mercado internacional, mas
brasileiros ou mesmo grandes fazendeiros que faziam o país ficou endividado. Bancos europeus controlavam
empréstimos, fundavam bancos, controlavam as hipo- o comércio do café e fazendas foram vendidas para es-
tecas e ficavam com os lucros da cafeicultura. trangeiros. Quem lucrou? Os bancos estrangeiros e as
Uma das maiores empresas comerciais cafeicul- Casas Comissárias. O “ouro negro” havia se transfor-
toras do século XIX foi a Prado Chaves (entre as 10 mado em “ouro verde” e, de repente, não se manteve
exportadoras mundiais, era a 7ª e única brasileira; as como tal, enriqueceu uma burguesia estrangeira! Mais
demais eram europeias; mais tarde, durante a crise, ela uma vez ficamos “chupando os dedos”!
comprou 14 fazendas – baratíssimas – pelas hipotecas O início da industrialização no país foi uma conse-
vencidas, que totalizariam 3,5 milhões de pés de café). quência direta da expansão cafeeira, que gerou o mer-
É café demais, né? Junto com ele, o poder político! cado interno somado às políticas protecionistas gover-
A Companhia Intermediária de Café de Santos e a namentais. Tais atividades apresentam em comum um
Cia. Paulista de Armazéns de Santos eram inglesas, e fluxo de renda envolvendo muito dinheiro, ou seja, en-
outras menores eram alemãs e controlavam as remes- volviam transações monetárias: enquanto o café lidava
sas dos nossos produtos para o mundo todo. com o mercado externo, a industrialização decorreu
Os Estados Unidos eram os nossos maiores con- da demanda interna e do redirecionamento de capitais
sumidores de café e, conforme sua economia variava, para alguns setores industriais. Em 1929, os estoques
o preço do produto oscilava por aqui. No final do século eram enormes, e a produção futura, com excelentes
XIX, muitos cafeicultores passaram a especular e in- expectativas, apenas antecipou a crise cafeeira.
vestir nas bolsas de valores norte-americanas. A crise Segundo o economista russo Nikolai Krondatieff,
de 1929 já era anunciada, e a falência de muitos inves- pesquisador da década de 1920, uma economia apre-
tidores era certa. Muitos fazendeiros insistiram nesse senta uma fase de rápido crescimento e acúmulo da ca-
negócio e depois tiveram a ajuda do governo. pital, atravessa uma estagnação e, em seguida, há a fase
Durante a presidência do Marechal Deodoro descendente de redução do crescimento e dos lucros
da Fonseca, seu Ministro da Fazenda, Rui Barbosa empresariais. Mais tarde, o economista austríaco Joseph
(1889/1891), emite papel-moeda em grande quanti- Schumpeter, associou tais ciclos à inovação tecnológica.
dade (encilhamento), gerando inflação, desviando di- O que isso significou? Para Magnoli (2000, p. 71),
nheiro de investimentos internos e, em 1898, a política [...] quando um conjunto de novas tecnolo-
deflacionária de Campos Salles não ajuda os cafeicul- gias encontra aplicação produtiva, as tec-
nologias tradicionais são “destruídas”, isto
tores (o mil-réis perdeu poder de compra no mercado).
é, deixam de criar novos produtos capazes
Em 1902, o cafeicultor paulista Rodrigues Alves assu- de competir no mercado e acabam sendo
me a presidência e não modifica a situação do café. abandonadas. Na fase inicial, ascendente,
do ciclo, as novas tecnologias distinguem
Em 1906, a safra ultrapassa 20 milhões de sacas e o os empresários inovadores dos que con-
consumo mundial cai. Os governantes de São Paulo, tinuam utilizando as tecnologias tradicio-
nais. Os inovadores são “premiados” com
Minas Gerais e Rio de Janeiro reúnem-se em Taubaté
elevadas taxas de lucros e erguem verda-
(SP) e, juntos com o empresário industrial Alexandre deiros impérios empresariais.
Siciliano, redigem um documento para o presidente Na fase de estabilização, os lucros caem
(Convênio de Taubaté) com quatro princípios: 1- es- para patamares menores, pois a maior
parte das empresas adotou o novo con-
tabelecimento do preço mínimo por saca; 2- um em- junto de tecnologias e a competição
préstimo de 15 milhões de libras esterlinas dos bancos tornou-se mais acirrada. Finalmente, a
ingleses para retirar parte da produção do mercado e fase descendente caracteriza-se por um
excesso de oferta em relação à demanda.
restabelecer um preço para o café; 3- criação de um As tecnologias que inauguraram o ciclo
fundo para estabilizar o câmbio do mil-réis (= Caixa de tornaram-se, a essa altura, tradicionais.
A queda acentuada dos lucros prenuncia
Conversão); 4- criação de taxa proibitiva para as novas mais uma ruptura na base técnica que de-
áreas de cultivo de cafezais. O presidente se opôs e flagrará novo ciclo.

109
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Coutinho (s/d, s/p), usando as interpretações de Cel- principal mercado consumidor era o norte-americano,
so Furtado, considerou que o governo não tinha muitas daí que quase tudo o que afetasse os EUA economi-
alternativas quando ocorre a quebra da bolsa de valores camente, chegaria aqui em pouco espaço de tempo.
de Nova Iorque e o despencar dos preços do café no Com preços oscilantes no mercado, a produção bra-
mercado internacional: ou admitia as perdas dos cafei- sileira só crescia (contrariando a lógica do mercado)
cultores brasileiros ou criava um programa sustentável e foi preciso a intervenção de presidentes para que a
de compra do café, garantindo preço mínimo aos fazen- produção não fosse “toda torrada”, provocando mais
deiros. A escolha recaiu sobre a última opção e houve, prejuízos aos cafeicultores. A política do encilhamen-
inclusive, a queima de milhões de pés de café e todo o to de Rui Barbosa provocou inflação, e muitos brasi-
estoque armazenado. Entre 1931 e 1943 chegamos a leiros preferiram aplicar seus capitais nas bolsas de
produzir 72 milhões de sacas de café, mas somente em valores; as determinações do Convênio de Taubaté
1944 houve a oferta regular do produto. Dá para você foram responsáveis pelo controle e restabelecimento
perceber as razões que levaram o governo Vargas a au- do preço. Medidas de proteção para os cafeicultores
torizar a queima dos estoques e da produção, né? foram elaboradas para se evitar uma queda maior da
A cafeicultura trouxe ações urbanizadoras nas prin- renda nacional. A expansão monetária se deu devido
cipais cidades do Sudeste e houve crescimento das ci- aos “riscos” que outros brasileiros resolveram aceitar:
dades médias ou intermediárias; ocorreram melhorias iniciar atividades paralelas à cafeicultura e levar o país
no sistema de transportes (bondes e trens), na arquite- a uma estabilização econômica e financeira através do
tura, no comércio secundário, etc. Muitos trabalhado- setor terciário. O endividamento dos grandes proprietá-
res livres que viviam nas áreas urbanas e periféricas rios coloca-os nas mãos de especuladores e agentes
vendem seus produtos e de outros, aumentando o mer- hipotecários ou mesmo bancos externos. O resultado
cado interno. Os grandes proprietários haviam mudado é uma “quebradeira” no setor e muitas mudanças na
de região (NE para o SE), mas era novamente a classe direção dos negócios de cafezais no Brasil.
média trabalhadora que aumentava o consumo inter-
no. Ainda hoje somos nós que “carregamos” a carga 4 ATIVIDADES
tributária sobre nossos ombros. Pense nisso, pois é o 1. Justifique a expressão: o café foi o “ouro negro” da
assunto da nossa próxima aula. Até lá! economia do período imperial brasileiro.
2. Boa parte dos fazendeiros se endividou no século
3 RESUMO XIX. Como se deu tal fato?
3. Explique como os comissários do café atuavam.
A cafeicultura foi uma das mais importantes ativi-
4. Como o Convênio de Taubaté alterou o ciclo cafe-
dades da economia brasileira no final do século XIX
eiro no Brasil?
e início do XX. Como ou cultivo do café foi iniciado no
5. Transforme os dados em gráficos de barras. Use
estado do Rio de Janeiro, região com relevo íngreme,
1cm= 10% e 1cm = 10 empresas. Em seguida,
muita chuva e poucas técnicas de cultivo, acabou per-
elabore um parágrafo comparativo sobre os dados
dendo terreno para o Vale do Paraíba, o oeste paulis-
apresentados.
ta e o norte paranaense. Ainda usando mão de obra
A) Distribuição dos setores econômicos (1872)
escrava, cultivados em grandes propriedades e pro-
Agricultura (primário) = 80%
curando abastecer o mercado internacional, os cafe-
Indústria (secundário) = 7%
zais deslocaram o poder político do Nordeste para o
Serviços (terciário) = 13%
Sudeste. Na cidade do Rio de Janeiro, deixou marcas
na arquitetura, na infraestrutura urbana, no sistema de B) Empresas fundadas de 1851-1860
transporte, na melhoria do porto, etc. No estado de São Estradas de ferro= 08
Paulo, ligou a área produtora do oeste com a capital Bancos = 14
paulista e o porto exportador, em Santos. Criou um Cia de navegação a vapor = 20
sistema de financiamentos, empréstimos e hipotecas, Cia de seguros = 23
envolvendo transações altíssimas de brasileiros, por- Indústrias = 62
tugueses e europeus, notadamente ingleses. O nosso (Fonte: SCHMIDT, 1998, p. 171)

110
AULA 17 • O SISTEMA DE FINANCIAMENTO DA PRODUÇÃO CAFEEIRA E SUAS LIMITAÇÕES

REFERÊNCIAS mo a eliminar toxinas com mais facilidade. Para quem


gosta da bebida, a especialista em medicina preventiva
COUTINHO, Maurício. A Teoria Econômica de Cel- aconselha não exagerar no consumo.
so Furtado: formação econômica do Brasil. http://
— Para termos acesso a todos os benefícios do
www.eesp.fgv.br/_upload/seminario/48ª049c82c0f8.
pdf Acesso em: 20 dez. 2010. café, o ideal é consumirmos, no máximo, uma xícara
grande, até 50ml da bebida pela manhã e de duas a
MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. Projeto de
três xícaras pequenas durante o restante do dia —
ensino de Geografia: natureza, tecnologias e so-
ciedades. Geografia Geral. São Paulo: Moderna, aconselha.
2000.
Combatendo o envelhecimento precoce
MARCONDES, Renato Leite. A arte de acumular
O Brasil é o segundo maior consumidor – e princi-
na economia cafeeira: Vale do Paraíba, século XIX.
Lorena: Siciliano, 1998. pal produtor – de café, só sendo superado pelos EUA.
No país, existem 195 tipos de café tradicional, 78 ti-
SCHMIDT, Mário Furley. Nova história crítica do
Brasil: 500 anos de história malcontada. São Paulo: pos de café superior e 103 de café gourmet. Mesmo
Nova Geração, 1998. diante de tamanha variedade e possibilidades, Sylvana
afirma que todas as variantes da bebida são ricas em
zinco, magnésio, ferro, proteínas, aminoácidos e uma
Site substância denominada quinídeo, produto da torra, ou
HTTP://WWW.SCIELO.BR/SCIELO. borra, que é um excelente antioxidante.
PHP?SCRIPT=SCI_ARTTEXT&PID=S0034- — Os antioxidantes combatem os radicais livres do
71402002000100006 ACESSO 06 FEV 2011 sangue, principais responsáveis pelo envelhecimento
precoce, e atuam como agentes de prevenção à obe-
sidade, doenças degenerativas e cânceres em geral —
CURIOSIDADE destaca.
Café: descubra como ele pode ajudar você a perder
Mais concentração nos estudos
peso.
Consumido com moderação, ele pode agir como Sylvana lembra ainda que, em São Paulo, existe
estimulante cerebral. O tradicional café é uma das be- um trabalho em andamento em algumas escolas esta-
bidas mais consumidas no mundo. Muito se pesquisou duais nas quais é oferecido café às crianças antes do
sobre ele e já se encontraram motivos para consumi-lo início das aulas.
e para evitá-lo. Segundo a clínica geral e especialista — Nestas escolas, segundo dados oficiais, houve
em medicina anti-aging, Sylvana Braga, no entanto, já uma melhora no índice das notas, no desempenho es-
se comprovou que, quando consumida com modera- colar, na concentração, comprovando os benefícios da
ção, a bebida pode ser uma grande aliada da saúde, cafeína para o desempenho dos estudantes — aponta.
combatendo a obesidade, a depressão e o distúrbio — O café, através da cafeína, é um estimulante ce-
de déficit de atenção. A especialista explica que, para rebral. Ele auxilia na concentração, combate a ansieda-
quem quer perder peso, o consumo regular é bastante de e o desempenho escolar. Há muitos anos, prescre-
indicado, pois ele possui substâncias que auxiliam o vemos cafeína formulada para os casos de distúrbios
corpo a se regularizar. de déficit de atenção em graus variados — ressalta.
— O café é rico em cafeína, o que o gabarita como Rev. Cafeicultura. A revista do agronegócio- Café-
um agente acelerador do metabolismo basal e, por isso, 24/11/2010
ele auxilia no combate à obesidade — afirma Sylvana. Disponível em: http://www.revistacafeicultura.
Segundo ela, o consumo de alimentos e bebidas que com.br/index.php?tipo=ler&mat=36488&cafe--des-
acelerem o metabolismo são importantes para quem cubra-como-ele-pode-ajudar-voce-a-perder-peso.
está fazendo uma dieta, pois elas auxiliam o organis- html. Acesso em: 09 fev. 2011.

111
Unidade 04

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A ECONOMIA CAFEEIRA

AULA 18

A QUESTÃO DA MÃO DE OBRA:


A INADEQUAÇÃO DA POPULAÇÃO NATIVA AO
TRABALHO NA LAVOURA DE CAFÉ

Objetivos
• Reconhecer a importância da mão de obra escrava e
imigrante na cafeicultura.
• Identificar aspectos socioculturais que atrapalharam
o desenvolvimento econômico brasileiro.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO tivas como a do tráfico e a do ventre livre. Os senhores


de escravos e os pequenos proprietários e os escravos
livres eram grupos em constantes conflitos. Muitos de-
les foram resolvidos na base da fidelidade e solidarie-
dade entre os parceiros, mas os escravos urbanos, ao
perceberem as disputas envolvendo os grandes e pe-
quenos donos de terras, aproveitaram para reivindicar
melhorias sociais e a liberdade dos companheiros.
Viu como alguns fatos nos ajudam a compreen-
der outro período histórico econômico de muita luta no
país? Pois é o que veremos na aula de hoje. Vamos a
ela, então.

2 MÃO DE OBRA ESCRAVA


A luta dos escravos, as fugas e a formação dos qui-
lombos, os tratamentos bárbaros dos capatazes e dos
donos, o movimento abolicionista com seus comícios
em que se reuniam enormes contingentes populacio-
FIGURA 2 - Rota dos Imigrantes nais, os fatos econômicos, tudo isso é insuficiente para
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_no_ retratar um dos períodos mais conflituosos da explora-
Brasil. Acesso em: 09 fev. 2011.
ção da mão de obra escrava no Brasil. Em 1822, 38%
da população eram escravos, enquanto em 1872 re-
presentavam apenas 15% (sendo que nas províncias
do Rio de Janeiro estavam 27%, em São Paulo 42%,
Pernambuco detinha 14%, e o Rio Grande do Sul 9%).
Tais dados nos permitem afirmar que, quando a regen-
te Isabel assinou a Lei da Abolição, já era uma mino-
ria de escravos que ainda estava com vínculos servis.
Também podemos dizer que houve o reconhecimento
de que precisávamos de mão de obra barata e urgente
FIGURA 3 - Porto de Santos, porta de entrada de milhões de
imigrantes que foram para as plantações de café para as atividades rurais (lembre-se de que a cafeicul-
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Imigra%C3%A7%C3%A3o_no_ tura usava instrumentos e técnicas de cultivo arcaicos).
Brasil. Acesso em: 09 fev. 2011.
A abolição não ocorreu de uma forma abrupta: foi fruto
amadurecido lentamente pelos proprietários de terras,
Os trabalhadores no Brasil, algumas vezes, eram
arrumando tempo para se adaptar às mudanças.
retratados como capa de revista, postais, etc. para
Veremos uma cronologia apenas para você enten-
esses produtos serem vendidos aos estrangeiros,
der o passo a passo abolicionista:
principalmente, mas, na verdade, eles sofreram muita
discriminação. Ainda hoje encontramos muitos grupos 1. Desde 1808 a Inglaterra não traficava escravos
sociais antinordestinos, antijudeus, antinegros e outros para suas colônias e, em 1831, devido às pressões
grupos que não respeitam as diferenças e promovem dos ingleses, o Brasil decreta o fim do comércio
conflitos internos. humano (daí a expressão “só pra inglês ver”, pois,
Você viu que o café, outros gêneros alimentícios na prática, continuamos traficando escravos afri-
e atividades comerciais paralelas à agricultura cons- canos. A Inglaterra acabou com a escravidão em
truíram nosso mercado interno. Os investimentos em 1838, os EUA o fez em 1865).
imóveis, títulos bancários, ações, dívidas ativas, etc. 2. Em 1844, a tarifa Alves Branco impôs maiores ta-
competiam com o comércio de escravos que continuou rifas alfandegárias (maiores taxas, menores impor-
ocorrendo até 1884. Claro que já existiam as leis proibi- tações; os navios ingleses chegavam aqui cheios

114
AULA 18 • A QUESTÃO DA MÃO DE OBRA: A INADEQUAÇÃO DA POPULAÇÃO NATIVA
AO TRABALHO NA LAVOURA DE CAFÉ

de “supérfluos”, e nós já começávamos a produzir alguns casos, ao internacional. Parte do salário dos
internamente alguns bens de consumo. A pressão trabalhadores livres advinha da venda de sua produ-
da Inglaterra ficou insuportável!). Os ingleses já ção nas faixas de terras cedidas pelos fazendeiros
lançavam seus produtos no mercado africano e e era do tipo familiar. Em 1880, ainda havia muitos
assim poderiam perder essa fatia do mercado, cer- escravos nas fazendas paulistas trabalhando lado a
to? lado com os imigrantes e usando técnicas rudimen-
3. A Lei Eusébio de Queiróz, de 1850, proibiu “defini- tares. Schmidt (1998, p. 192) nos diz que ”o trabalho
tivamente” o tráfico negreiro para o Brasil. Agora a escravo foi implantado no Brasil porque era a única
mão de obra teria que ser nativa. Contudo as taxas possibilidade, numa região de terras abundantes
de natalidade dos escravos no país eram baixas, a e disponíveis, de forçar alguém a trabalhar para o
população pouco crescia e o trabalho aumentava. outro.” A produtividade era pequena, e os cálculos
O que fazer? Os escravistas recorreram ao tráfico mostravam que o jeito era trocar o tipo de trabalha-
interprovincial (ou seja, os escravos do Nordeste dor. Assim, em várias
decadente eram vendidos para o Sudeste, daí a es- O trabalhador Condiceiro
regiões começam a
deveria dedicar 2 a 3 dias
cravidão ter acabado inicialmente naquela região). prevalecer os condi- da semana de graça para o
Lembre-se também de que os negros escravos não ceiros, os foreiros, dono do terreno; no caso de
tinham condições econômicas de consumir produ- trabalhar a mais, receberia
os meeiros, os arren-
uma diferença em salário; o
tos ingleses que chegavam aqui. Essa história de datários, os trabalha- foreiro recebia um pedaço
que éramos o mercado consumidor para a Ingla- dores temporários, de terra maior que o con-
terra é ultrapassada e não encontra respaldo nas os terceiros, os quar- diceiro, mas deveria pagar
melhores pesquisas e nos documentos daquela um foro, ou seja, uma es-
teiros, etc. (ver box). pécie de aluguel de uso da
época. terra, geralmente com pro-
5. Em 1930, com a crise
4. A Lei das Terras (1850) tornou todas as terras de- dutos (o dinheiro era pouco
econômica mundial, usado). Além disso, tinha
volutas propriedades do Estado, que somente po-
os fazendeiros cafei- de fornecer o cambão, ou
deria vendê-las através de leilões (adivinhe quem
cultores venderam seja, um trabalho de 20 a
ganhava os leilões?). Foi um processo perverso 30 dias de graça e ficava
suas terras para se
e violento de relações trabalhistas: a “escravidão obrigado a ajudar a cortar
dedicar às ativida- a cana, recebendo um pe-
por dívidas” ou “cativeiro da terra”, que vitimou a
des urbanas. Muitos queno salário por isso.
população de renda baixa, os escravos livres, os Outro sistema de trabalho,
ex-escravos conse-
imigrantes e os que viviam nas periferias das gran- empregado no lugar da
guiram comprar um escravidão era a parceria
des cidades. Esse “processo” continua existindo
pedaço de terra e, as- (=arrendamento) onde
em vários estados até hoje. Os “gatos” (pessoas 50% da produção da cana e
que contratam a mão de obra para as fazendas) sim, houve aumento
seus derivados pertenciam
buscam as pessoas para trabalhar nos latifúndios, das pequenas e mé- ao dono da terra; como o
prometendo-lhes transporte, moradia, alimentação dias propriedades ru- trabalhador ficava com uma
rais – sustentadoras parte (metade= meeiro,
e salário; não há relações trabalhistas, isto é, é terça parte= terceiro; quar-
uma atividade informal. Ao receber o salário, os do mercado interno ta parte= quarteiro. Geral-
trabalhadores são informados de que as despesas com seus produtos. mente, o trabalhador fazia
pequenos serviços para o
foram descontadas do salário combinado, que nun- Para os negros e a fazendeiro, tanto por favor
ca é suficiente para a quitação da dívida. Policia- população de baixa ren- como por um pequeno pa-
dos por capangas, esses trabalhadores são proi- da, era impossível adqui- gamento.
Em algumas épocas, como
bidos de sair da fazenda enquanto não pagarem rir terras, as relações de a do corte da cana, o núme-
suas dívidas. Você conhece esse “filme”, né? trabalho continuavam vio- ro de assalariados contra-
5. Em 1879 foi decretado que os parceiros que não lentas, os ideais liberais tados podia chegar a 45%
dos empregados; eram os
cumprissem o contrato de trabalho com o fazen- cresciam na Europa, os sazonais ou trabalhado-
deiro poderiam ser presos. Havia muita pressão e ingleses não queriam con- res temporários.
coação física! O trabalho era livre e grande parte da correntes do açúcar das (SCHIMIDT,, 1998, p. 193-
produção estava ligada ao mercado interno e, em 194)
Antilhas e, sem os negros

115
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

no Brasil, a produção açucareira poderia cair. Some a de se deslocarem para regiões onde pudessem viver
isso o espanto que a escravidão no Brasil (último país em paz, sem perseguições e com moradia. Daí o encon-
a acabar com ela nas Américas) causava aos europeus tro da elite fazendeira paulista com os “atravessadores
eufóricos com os ideais de liberdade, fraternidade e europeus” para efetivar as transações. Navios ingleses
economia livre. Alguns intelectuais, artistas e até po- chegaram aos portos de Santos (SP) e de Paranaguá
líticos (liberais ou conservadores) brasileiros da época (PR) abarrotados de italianos, alemães, espanhóis,
começavam a se manifestar sobre o assunto. O aboli- ucranianos, eslavos e até judeus, sírios, libaneses e
cionismo foi um movimento urbano e defensor da razão japoneses. Esse último grupo veio para trabalhar nos
nacional, isto é, da ideia de que, sem a escravidão, o cafezais, assim como parte do grupo italiano; os espa-
Brasil se tornaria ordeiro, homogêneo, moderno. nhóis ficaram nas áreas produtoras de banana e café;
Acreditando que um país cheio de trabalhadores no núcleo urbano central e dedicando-se às atividades
livres e europeus (“raça superior”) poderia ingressar comerciais da capital, fixaram-se os judeus, libaneses e
na modernidade, o sentimento atingiu até a população sírios; os alemães e eslavos dedicaram-se à agricultura,
de baixa renda. Em Recife e Salvador, os jangadeiros à criação de animais e ao artesanato no sul do país; e a
recusavam-se a transportar escravos que seriam ven- outra parte dos italianos iniciou, no Rio Grande do Sul, o
didos no Sudeste; marinheiros denunciavam os navios cultivo de uvas e a produção de vinho.
clandestinos com escravos; cariocas negavam-se a De 1887 a 1930 chegaram ao Brasil 36% de italia-
imprimir panfletos antiabolicionistas; ferroviários pau- nos, 29% de portugueses, 15% de espanhóis, 7% de
listas escondiam negros foragidos; negros fugidos ata- alemães, e outros grupos formavam os 13% restantes
cavam fazendas e soltavam os companheiros, e com (incluindo os judeus da Europa Central e Oriental). Eram
isso muitos açoites e chicotes foram freneticamente trabalhadores instruídos, inteligentes, sofisticados e que
usados contra os negros; abolicionistas sofriam aten- contribuíram para o aumento do mercado interno e várias
tados e massacres e eram perseguidos pela polícia; aplicações financista no país. O abastecimento local e
fazendeiros alforriavam seus escravos, tudo em bus- nacional era garantido pelos pequenos e médios produto-
ca da liberdade. As mulheres buscavam seus direitos res que também substituíram a mão de obra escrava pe-
elementares como o de estudar até a faculdade e o los novos trabalhadores. Algumas famílias de imigrantes
de votar. Algumas delas tornaram-se ativistas, levan- cultivaram a terra em pequenas propriedades, usando a
tavam fundos para ajudar na campanha abolicionista, força de trabalho familiar e praticando a policultura (bem
escreviam em jornais (de alcance no perímetro urbano diferente da fase da colônia de exploração, do modelo
e para as classes média e alta). Foi um reboliço! agroexportador nordestino, né?). Mas também sofreram
Ainda assim, muitos brasileiros, mesmo os pobres, a exploração dos fazendeiros e grandes comerciantes
encaravam o trabalho manual como uma coisa de escra- (reveja o box). A economia cafeeira foi responsável pelas
vo, de “gente inferior” ou de “negro”. Puro preconceito, pressões dos fazendeiros sobre o governo para facilitar
né? Sob os efeitos da onda iluminista e do liberalismo a vinda de estrangeiros para o Brasil. Destes, muitos se
econômico, muitos imigrantes europeus, sem terra por lá decepcionaram com o que lhes foi oferecido e acabaram
ou fugindo de perseguições político-religiosas e influen- dirigindo-se para o Uruguai e a Argentina.
ciados pela propaganda do governo brasileiro, chega- O uso da mão de obra assalariada foi a primeira
ram ao país na esperança de obter um pedaço de terra fase do capitalismo no país, através da formação de
para si e suas famílias. Começava a onda imigratória! uma renda familiar ou individual e das desigualdades
sociais. Os ex-escravos e os pobres não tinham como
3 MÃO DE OBRA IMIGRANTE se sustentar e acabaram formando as favelas. Até 1930,
o país tinha uma reserva de mão de obra composta,
A expansão da cafeicultura trouxe um sério proble- basicamente, por nativos, analfabetos, desqualificados
ma para os donos de cafezais: a necessidade de traba- tecnicamente, que permanecia fora do mercado de tra-
lhadores em suas terras. A compra dos escravos nor- balho. Muitas pessoas do meio rural transformaram-se
destinos não resolveu a questão da escassez de mão em camponeses (um sistema parecido com a época
de obra e foram obrigados a contratar os trabalhadores feudal) e outros eram os pequenos proprietários que
livres. Havia disposição de inúmeras famílias europeias cultivavam a terra.

116
AULA 18 • A QUESTÃO DA MÃO DE OBRA: A INADEQUAÇÃO DA POPULAÇÃO NATIVA
AO TRABALHO NA LAVOURA DE CAFÉ

O ciclo cafeeiro, após a independência, inaugura presentes no país. Na mesma proporção que cresciam
financiamentos de atividades variadas com capital na- as áreas cultivadas, também havia necessidade de tra-
cional. O trabalho assalariado, segundo Coutinho e balho livre. O número de ex-escravos prontos para o
Furtado (s/d, s/p), impôs novas características ao fluxo trabalho era pequeno e muitos nativos acreditavam-se
de renda: superiores aos demais e recusavam-se a trabalhar.
[...] as exportações de café garantem a
A cafeicultura iniciada no Rio de Janeiro atinge São
disponibilidade de divisas internacionais. Paulo, Minas Gerais, Paraná e outros estados em me-
Parte destas divisas é destinada ao paga- nor escala. Com seu enorme desenvolvimento rural e
mento dos bens de consumo dos fazen-
deiros, que são importados. Outra parte urbano, a cafeicultura viu-se diante da necessidade da
dos rendimentos é convertida em moeda mão de obra, já que a abolição da escravatura deixou
nacional e gasta em salários ou em ou-
tros insumos para a lavoura cafeeira. Os
os grandes proprietários sem trabalhadores permanen-
salários e outras despesas em dinheiro tes. A fortuna paulista, feita através do “ouro negro” e
no mercado interno ativam o mecanismo de aplicações financeiras, foi responsável pela vinda
multiplicador, dinamizando a economia
interna. O ciclo do café estimulou a urba- dos imigrantes europeus e a adoção dos primeiros tra-
nização e a expansão das atividades eco- balhadores assalariados no país. Italianos e japoneses
nômicas urbanas em geral. A expansão
da lavoura cafeeira dependia, como nos
chegaram para trabalhar na cafeicultura enquanto ou-
outros ciclos exportadores, da demanda tros grupos da Europa Ocidental, Central e Oriental vão
externa. Enquanto os preços fossem sus- se fixar em outros estados, praticando a policultura.
tentados em níveis elevados, novos capi-
tais acorreriam para a atividade. Os tamanhos das propriedades vão sofrer mudan-
ças; muitos trabalhadores nativos não aceitam as condi-
Além desses trabalhadores estrangeiros com suas
ções de condiceiro, foreiro, meeiro, parceiro, arrendatário,
práticas agrícolas, é importante ressaltar que muitos
terceiros, trabalhadores livres e temporários, etc. A mão
nativos praticavam uma atividade de subsistência, res-
de obra imigrante era mais preparada, mesmo para ati-
ponsável pela demanda interna do mercado de traba-
vidades rudimentares. Muitos estrangeiros começaram a
lho e sustentação. Em outras palavras, o café e seu
comprar terras que eram vendidas pelos fazendeiros fa-
desenvolvimento – em qualquer uma das regiões do
lidos, e algumas enormes propriedades transformaram-
país – proporcionaram uma permanente oferta de mão
se em médias e pequenas. A monocultura foi substituída
de obra dos imigrantes, dos trabalhadores brasileiros
pela policultura feita pelos imigrantes europeus.
do setor de subsistência e dos ex-escravos, e essa
Com as mudanças no campo, as cidades passam
disponibilidade de força trabalhista elevou a renda e o
pelo processo de embelezamento, iniciado com a che-
padrão de vida no Brasil. Ainda que as condições de
gada da família real portuguesa no Rio de Janeiro. Os
trabalho não fossem as melhores, ocorreu a ligação
barões do café, que fizeram a avenida Paulista se tor-
entre os setores mais dinâmicos com os de baixos ren-
nar uma das mais prósperas, agora investem nas ati-
dimentos, essenciais para a nova atividade: a indústria.
vidades industriais em início de implantação, especial-
É o setor secundário que dará impulso ao Brasil e que
mente no Sudeste.
será tratado nas próximas aulas. Aguarde-me. Tchau!
4 ATIVIDADES
3 RESUMO
1. Leia o documento abaixo.
A segunda metade do século XIX, no Brasil, trouxe
um crescimento sem precedentes e um deslocamento
“Nós éramos governados por um príncipe
do poder político e econômico do Nordeste para o Su-
dócil e beneficente, que era generoso com seus
deste. Com as leis proibitivas do tráfico negreiro e com a
inimigos, que nos havia dado a Independência e
abolição lenta, mas gradual, da escravatura, o trabalho
a Constituição, que era o primeiro garantidor das
servil estava chegando ao fim. Nas cidades mais im-
nossas liberdades, que nos livrou dos horrores de
portantes e até nas medianas, a propagação das ideias
uma guerra civil.
abolicionistas, de liberdade, de menor interferência go-
Da estabilidade do governo anterior provinha
vernamental e de busca interior ganhava adeptos e sim-
necessariamente a segurança pública, mãe do
patizantes. Atitudes e atos de recusa também se faziam

117
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

comércio, da agricultura, das artes e das ciências. A) Faça um paralelo entre a chegada dos imigran-
Eis o que hoje nós temos. Nossa população e tes europeus ao Brasil cafeeiro e os tunisianos
nossos fundos, elementos essenciais para a pros- que pretendem atingir a Itália.
peridade de um país nascente, fogem de dia em B) No seu município ou em áreas adjacentes exis-
dia, os fundos públicos estão reduzidos a nada, a tem migrantes? Faça uma entrevista sobre o
emigração é espantosa, as artes estão em ócio, modo de vida deles e compare as condições de
as ciências recuam, a ignorância, o orgulho e o trabalho do grupo com as dos trabalhadores da
egoísmo se apossam de nós.” segunda metade do século XIX.
(O Caramuru, nº 11, Rio de Janeiro, 4. Leia o trecho publicado pelo jornal O Estado de
12/04/1832, apud PRIORE, 1998, p. 46-47). São Paulo em 30/10/1929.

“[...] Compreende-se a relutância do Sr. Pre-


Imagine-se numa praça pública atual fazendo parte
sidente da República em emitir papel-moeda sem
de uma multidão que assiste a um diálogo entre pes-
efeitos comerciais para os negócios do café. A
soas oponentes e partidárias do governo. Crie os diálo-
emissão pode perturbar o plano financeiro e, per-
gos/discussões com base no trecho acima, envolvendo
turbado este, abaladas estariam a defesa do café
os dois grupos e escreva o que você ouviu.
e a defesa do câmbio. Mas, sem recorrer à emis-
2. No seu município existem os chamados “gatos”?
Se não, procure saber se na sua região esse traba- são, o governo encontrará meios para socorrer
lho é feito. Em seguida, elabore um paralelo entre São Paulo. Existem fora da Caixa de Estabiliza-
as condições de trabalho no mundo rural e no urba- ção, em poder do Banco do Brasil, dez milhões
no e escreva uma conclusão sobre o tema. de “esterlinos” que poderiam ser utilizados provi-
3. Leia o texto para responder ao que se pede sobre ele. soriamente, por via de empréstimos a São Paulo
ou por outra maneira que ao governo parecesse
Itália decreta estado de emergência por mais curial, no amparo da economia paulista até
fluxo de imigrantes da África que os mercados monetários do mundo nos pu-
Motivo é chegada de milhares de dessem fornecer a soma de que necessitamos
imigrantes, na maioria da Tunísia, ao país. para a liquidação definitiva da crise e para impri-
Medida, aprovada em sessão extraordinária, mir outro rumo ao plano da defesa do café [...] O
permite à Itália controlar fluxo. café em “stock” cobre largamente a importância
O governo italiano decretou neste sábado do empréstimo e os grandes grupos, com interes-
(12) “estado de emergência humanitária” pela ses no Brasil, serão os primeiros a, passada a tor-
chegada nos últimos dias de mais de 3 mil imi- menta que varreu os mercados monetários, acu-
grantes, procedentes, em sua maioria, da Tunísia, dir em auxílio a São Paulo e apoiar a restauração
da ilha mediterrânea de Lampedusa, em um con- da nossa prosperidade econômica.” (SCHIMIDT,
tínuo fluxo de embarcações com origem no norte 1998, p. 80)
da África. Em comunicado de imprensa, o Execu-
tivo presidido por Silvio Berlusconi informou que a Faça o que se pede sobre o texto acima.
medida foi aprovada em uma sessão extraordiná-
A) Procure o significado das palavras desconheci-
ria de emergência do Conselho de Ministros, con-
das por você e anote-os.
vocada neste sábado para fazer frente à chegada
de “inúmeros cidadãos norte-africanos ao territó- B) Existem medidas de proteção no texto. Identifi-
rio meridional”. (Da EFE 12/02/2011 12h50 - Atu- que e anote-as.
alizado em 12/02/2011 13h22. Disponível em: C) O articulista do jornal apresentou uma preo-
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/02/ cupação com a economia paulista. Que grupo
italia-decreta-estado-de-emergencia-por-fluxo-de- econômico era foco dos cuidados do governo?
imigrantes-da-africa.html. Acesso em: 12 fev. 2011). Por quê?

118
AULA 18 • A QUESTÃO DA MÃO DE OBRA: A INADEQUAÇÃO DA POPULAÇÃO NATIVA
AO TRABALHO NA LAVOURA DE CAFÉ

REFERÊNCIAS SLENES, Robert W. Grandeza ou decadência? O


mercado de escravos e a economia cafeeira da pro-
COUTINHO, Maurício. A teoria econômica de víncia do Rio de Janeiro (1850-1888). In: COSTA,
Furtado. Em http//www.ufrgs;br.-decon-virtuais- Iraci Nero da. Brasil: história econômica e demográ-
eco02209b-pasta-artigos-Importacoes.pdf.url. Aces- fica. São Paulo: IPE-USP, 1986, p. 103-56.
so em: 20 dez. 2010.
PRIORE, Mary Del; NEVES, Maria de Fátima das; Filme
ALAMBERT, Francisco. Documentos de Histó- Gaijin – Caminhos da Liberdade – 1980 (Brasil). Di-
ria do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: reção: Tizuka Yamasaki – 104 minutos- disponível
Scipione, 1998. Disponível em: http://g1.globo.com/ em DVD.
mundo/noticia/2011/0 Acesso em: 12 fev. 2011.
Sinopse
SCHMIDT, Mário F. Nova História crítica do Brasil:
500 anos de História mal contada. São Paulo: Nova Japão, 1908. Em virtude de haver muita miséria no
Geração, 1998. país e poucas perspectivas de trabalho, muitos japone-
ses emigravam em busca de oportunidades. Como a
Site companhia de emigração só aceitava grupos familiares
http//educacao.uol.com.br/historia-brasil/ul- que tivesse pelo menos um casal, assim Yamada (Jiro
t1689u46.html Acesso em: 09 fev. 2011. Kawarazaki) e Kobayashi (Keniti Kaneko), que eram
http://www.google.com.br/search?sourceid=navclien irmãos, veem como solução que Yamada se casasse
t&aq=0h&oq=&hl=pt-BR&ie=UTF-8&rlz=1T4SUNC_ com Titoe (Kyoko Tsukamoto), que tinha apenas 16
pt-BRBR370BR372&q=filme+gaigin Acesso em: 11 anos. Yamada e Titoe tinham acabado de se conhe-
fev. 2011. cer e, juntamente com um primo, partem para o Brasil.
Após 52 dias de viagem chegam ao Brasil e vão tra-
DICAS balhar na Fazenda Santa Rosa, em São Paulo, pois
Livros a expansão cafeeira era intensa. Porém eles se depa-
FRAGOSO, João Luís. Homens de grossa aventu- ram com um capataz que trata os colonos hostilmente,
ra: acumulação e hierarquia na Praça Mercantil do exigindo sempre que trabalhem até a exaustão. Além
Rio de Janeiro 1790-1830. Rio de Janeiro: Civiliza- disso, são roubados pelos donos da fazenda, sendo
ção Brasileira, 1998. tratados com respeito apenas por outros colonos e por
Tonho (Antônio Fagundes), o contador da fazenda.

119
Unidade 05

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO BRASIL

AULA 19

OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA NO


BRASIL DURANTE O AUGE DA ECONOMIA CAFEEIRA

Objetivos
• Analisar os principais obstáculos ao desenvolvimento
capitalista e a economia cafeeira
• Relacionar o desenvolvimento da cafeicultura e o
capitalismo no Brasil.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO aço no país. Aço fundamental na vida do homem mo-


derno. Alguns desses assuntos farão parte de nossas
São Paulo próximas aulas. Houve facilidades? Sim, mas as dificul-
dades estarão presentes, como você verá. Vamos aos
Rui Ribeiro Couto
obstáculos internos à nossa industrialização?
A neblina das manhãs de inverno
-ó São Paulo enorme, ó São Paulo de hoje, ó
São Paulo ameaçador! – 2 OBSTÁCULOS INTERNOS
A neblina das manhãs de inverno Você viu que, durante a crise cafeeira, o governo
amortece um pouco o orgulho triunfante das tuas se viu obrigado a fazer concessões ao principal gru-
chaminés. po econômico paulista (aula 18, atividade 4). Em uma
A neblina esconde o contorno das grandes fábricas economia emergente, é necessário haver uma justapo-
ao longe, sição dos seguintes elementos: demanda interna com
perdidas na planície, entre o chato casario proletário. um mercado consumidor aquecido, infraestrutura bási-
E tudo cor de barro novo, como se fosse manchado ca eficiente e continuidade nos processos industriais.
de sangue. No caso brasileiro, a defesa do café fez desviar parte
Nas ruas do centro agita-se a pressa do comércio. do capital estatal; nossa capacidade de importação era
Nos bairros burgueses, no entanto, há o silêncio. enorme, não possuíamos portos suficientes, nem trans-
As alamedas adormecem sob o silêncio. portes e telecomunicações articulados. Para completar,
Os jardins adormecem sob o silêncio. tínhamos um pequeno mercado consumidor. Tais fatos
são evidenciados pelo professor COUTINHO (2010, p.
Prezado aluno, os versos do escritor santista e em- 4), quando ele diz que
baixador na antiga Iugoslávia abrem a nossa aula hoje. [...] o início do processo de industrializa-
Você percebe um misto de observações do cotidiano ção no Brasil foi uma consequência direta
do desenvolvimento do mercado interno
e da paisagem urbana paulista? De um lado os pro- produzido pela expansão do café, bem
letários com seus casarios, a presença da fábrica, o como pelas políticas de proteção adota-
das. Em uma perspectiva mais ampla,
corre-corre no centro; e do outro os donos do capital a industrialização deve ser vista como a
e suas mansões ajardinadas. Foram experiências vi- resposta às restrições às importações, as
vidas pelo ativo participante do movimento modernista quais levaram ao “processo de substitui-
ção de importações” – um processo de
brasileiro, revelando uma cidade invadida pelo cimento ajustamento da estrutura de oferta sob
e pela indústria, reflexo dos anos até 1930, quando o severas restrições na capacidade de im-
portar. Em segundo lugar, cabe destacar
café foi o produto essencial na nossa economia. Some que o dinamismo do processo de indus-
a isso a presença dos imigrantes europeus no Sudes- trialização depende tanto da existência de
te, a instalação de uma fundição de ferro pelo francês demanda interna quanto da capacidade
de a economia adaptar sua estrutura de
Jean Antoine de Monlevade, na cidade de São Miguel oferta e superar os diversos obstáculos
do Piracicaba (hoje, João Monlevade/MG) e a criação com que se depara. Os mais importantes
obstáculos são as descontinuidades na
da Sociedade Auxiliadora da Indústria no Rio de Janei- estrutura industrial interna, as deficiências
ro. Os excedentes de capital oriundos da exportação de infraestrutura e o pequeno tamanho do
cafeeira puderam ser aplicados em novas atividades mercado, diante das economias de escala
prevalecentes no setor industrial. De todo
industriais. Bacana essa interligação de concreto e do modo, o crescimento da produção indus-
sentimento humano, né? Em termos espaciais, ago- trial interna deve ser visto como uma res-
posta às mudanças de preços relativos,
ra, já tínhamos os ingredientes básicos para a insta- que por sua vez foram subprodutos dos
lação de novas e pequenas fábricas. Desde 1844, a movimentos drásticos da taxa de câmbio
tarifa Alves Branco permitia a importação de máquinas que sucederam ao colapso das exporta-
ções. A imposição de tarifas protecionis-
e equipamentos mais baratos, e havia uma cobrança tas e de outros controles administrativos
de sobretaxas nos produtos importados, encarecendo- às importações proporcionou mudanças
suplementares nos preços relativos, es-
os demais; em 1935, foi criada a segunda unidade da timulando a produção local. Finalmente,
Cia. Siderúrgica Belgo Mineira, auxiliar na produção de a contínua expansão do mercado interno

122
AULA 19 • OBSTÁCULOS AO DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA NO BRASIL DURANTE
O AUGE DA ECONOMIA CAFEEIRA
e da produção industrial colocou a capa- dirigentes brasileiras em se libertarem
cidade de importação sob permanente dessa importação e por meio de uma
pressão, levando à continuidade do pro- educação “colonizada” e de formas ins-
cesso de substituição de importações. No titucionais impedirem a participação dos
caso do Brasil, as dimensões considerá- trabalhadores nas tomadas de decisão.
veis do mercado impeliram o processo Na minha opinião, só esta participação
de substituição de importação a fases suscitaria os meios de educação e as
superiores, vale dizer, à produção interna formas institucionais capazes de tornar o
de bens de consumo duráveis, de bens desenvolvimento técnico e científico bra-
intermediários e até mesmo de alguns sileiro menos ilusório e dependente dos
equipamentos. países capitalistas ocidentais.

Desde o final do século XVIII, a Inglaterra restabe- A professora Letícia Canêdo nos relembra a impor-
leceu a liberdade de locomoção dos pobres, famintos e tância da educação e do conhecimento técnico que en-
miseráveis, expulsos do campo, que puderam se dirigir volve qualquer país que queira alcançar o pleno desen-
para as fábricas. No Brasil, o panorama era bem diver- volvimento econômico. É isso que você vem fazendo
so. Em 1888, quando foi abolida a escravidão, a onda através do nosso curso, não é? Pois então, tivemos no
de imigrantes pobres chegou com hábitos urbanos, Brasil um período em que as elites governavam para
alfabetizados e com habilidades técnicas desconheci- si e para os grandes empresários, daí a nossa depen-
das por aqui (nossas atividades eram rudimentares). A dência externa de financiamento e de tecnologia. Não
maior parte dos países europeus já havia aperfeiçoado havia preocupação com a educação e com a forma-
suas máquinas e as técnicas de produção. ção técnica do trabalhador. Na próxima aula iremos
A industrialização, base da sociedade moderna, (re)ver os principais fundamentos do desenvolvimento
precisa de um constante aprimoramento tecnológico. capitalista no Brasil, e você poderá constatar como os
Há o domínio da cidade sobre o campo e da técnica obstáculos citados hoje foram decisivos para o nosso
sobre a natureza. Isso gera a urbanização e uma maior pouco amadurecimento industrial, social e econômico.
divisão do trabalho entre as pessoas e regiões. O que Até mais!
isso significa realmente? Significa que surge um núme-
ro maior de profissionais e atividades nas cidades ou 3 RESUMO
regiões ou países e no mundo de forma integrada ou A atividade industrial originou-se na Europa Oci-
interdependente, promovendo a urbanização. No caso dental, especialmente na Inglaterra e, após o século
brasileiro, começou com quase um século de atraso em XX, difundiu-se pelo resto do mundo de forma diferen-
relação à Europa. Nos anos de 1930 já tínhamos algu- ciada. A industrialização de uma sociedade traz enorme
mas atividades nos setores de metalurgia, siderurgia, mudança no espaço, seja urbano ou rural, e promove a
petroquímica, mas é a partir de 1950, com a implanta- divisão de trabalho entre as pessoas e países. Ela liga-
ção do setor automobilístico, que ingressamos de fato se ao desenvolvimento tecnológico e às inovações. No
na Segunda Revolução Industrial. Atualmente, já esta- caso do Brasil, mesmo durante o auge dos cafezais,
mos dentro da Terceira Revolução Industrial. Contudo tínhamos um mercado consumidor crescente, mas de-
nossa economia enfrenta dificuldades para acompa- pendente das exportações; as estradas, os portos e o
nhar essa nova transformação industrial, pois a mão de setor logístico eram precários. Os trabalhadores eram,
obra é, quase sempre, pouco qualificada, resultado de em sua maioria, despreparados para as necessidades
um sistema educacional insuficiente e ainda com uma dos poucos setores industriais nascentes no país. Havia
das distribuições de renda mais injustas do mundo. capital acumulado do café para ser aplicado em outras
Para CANÊDO (1994, p. 4), atividades e, se não fossem os imigrantes europeus
[...] uma educação inexistente no Brasil de que eram alfabetizados, conhecedores de algumas téc-
bacharéis da época, que também alijou nicas, dos equipamentos e das máquinas, estaríamos
os trabalhadores dos centros de decisão
com uma industrialização ainda mais atrasada. O go-
do governo. Isto significou a industrializa-
ção brasileira dependente da importação verno federal desviou parte do capital para investimento
da técnica dos países já industrializados, em outras atividades para socorrer fazendeiros paulista
principalmente na forma de máquinas e
habilidades para operá-las. E até hoje o do café. Deixou-se de investir em educação, conheci-
que se percebe é a recusa das classes mentos técnicos, e ficamos com uma enorme mão de

123
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

obra disponível, mas sem conhecimentos industriais. A SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
renda dessas pessoas não conseguiu acompanhar a 500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul-
difusão das técnicas e a adaptação da economia e da tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.
sociedade ao mundo industrializado.
DICAS
4 ATIVIDADES
A) Filmes
1. Procure assistir ao filme Central do Brasil (1998, A Origem
direção de Walter Salles) e depois escreva um pa- O cineasta britânico Christopher Nolan volta às te-
rágrafo comparativo entre o Brasil moderno e o lonas com A Origem, uma história de ficção-científica
arcaico, em termos de industrialização e urbaniza- sobre um caçador de sonhos que se dedica à espiona-
ção, mostrado no filme. gem industrial, filme no qual trabalhou durante mais de
2. Elabore uma justificativa para cada um dos seguin- dez anos e que constitui, segundo o diretor, o “maior
tes fatores que interferiram no processo de indus- desafio” de sua carreira. A espionagem e o mundo dos
trialização brasileira: fim da abolição, chegada de sonhos estão unidos nesta superprodução de mais de
imigrantes e cultura do café. US$ 200 milhões, que promete ser o filme do ano, de-
3. Transforme os dados a seguir em dois gráficos de vendo estrear em 16 de julho em quase todo o mundo.
barras. “Como diretor, fazer A Origem foi realizar um sonho, já
que me permitiu criar um mundo irreal, novo e diferen-
Título: Importações do Brasil – 1921 e 1929 – te”, afirmou Nolan hoje, em Londres, na apresentação
(milhares de libras) do filme, que foi presenciada por parte do elenco, lide-
País 1921 1929 rado por Leonardo DiCaprio.
Estados 7.700 24.000 Disponível em: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/cinema/c
hristopher+nolan+explora+mundo+dos+sonhos+em+a+origem/
Unidos n1237704489357.html. Acesso em: 14 fev. 2011.
Grã-Bretanha 2.700 19.500 Espaço e industrialização no Brasil (direção Ana
Alemanha 800 11.300 Nery, prod. 1992, duração 30’)
França 300 5.800 É uma teleaula de Geografia, dentro do Projeto Ipê,
Fonte: SCHIMIDT, 1998, p. 245. que aborda a industrialização, suas consequência no
meio rural, concentração urbana, mudanças físicas,
REFERÊNCIAS sociais e ambientais, novas relações e contradições
humanas. É uma forma crítica do ir e vir no espaço e
CANÊDO, Letícia Bicalho. A revolução Industrial
no tempo, entre o próximo e o distante para explicar a
(discutindo a História). São Paulo: Atual, 1994.
ocupação espacial brasileira. Vale conferir.
COUTINHO, Maurício C. A teoria econômica de
Celso Furtado: formação econômica do Brasil.
B) Livros
Disponível em: http://www.portalsaofrancisco.
BRUE, Stanley L. História do pensamento econô-
com.br/alfa/periodo-imperial-do-brasil/periodo- mico. São Paulo: Pioneira Thomson, 2005.
imperial-1.php - e http://www.eesp.fgv.br/_uplo-
ad/seminario/48a049c82c0f8.pdf. Acesso em: 06 COUTINHO, Maurício C. Lições de economia polí-
dez. 2010. tica clássica. São Paulo: Hucitec 1993.

PRIORE, Mary Del; NEVES, Maria de Fátima das; FOLEY, Duncan. Para entender el capital: la teoría
ALAMBERT, Francisco. Documentos de História económica de Marx. México D.F.: Fondo de Cultura
do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Sci- Económica, 1989. [traduzido para o português].
pione, 1998. HUNT, E. K. História do pensamento econômico.
Rio de Janeiro: Campus, 1981.

124
Unidade 05

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO BRASIL

AULA 20

O AMADURECIMENTO DOS FUNDAMENTOS


DO CAPITALISMO NO BRASIL

Objetivos
• Identificar alguns conceitos primários do
capitalismo.
• Entender os principais fundamentos do capitalismo.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO do mercado: a dos possuidores dos meios de produção


e a do proletário industrial e rural.” Viu que no sistema
[...] Sair como cangaceiro para a rua, baixando o capitalista teremos uma divisão de classes sociais: os
facão e disparando tiros sobre um povo que se ergue,
que “mandam” e os que “cumprem” o que se mandou? A
consciente, protestando contra a fome, é indigno e
vil, e é a este papel que agora vos querem forçar os consciência do soldado no trecho introdutório remete-nos
governantes. a essa dualidade social. Nem sempre foi assim.
Resta à vossa consciência responder. Só podemos falar em industrialização no Brasil no
O que ides fazer? final do século XIX, quando foi abolida a escravidão e
(Edgar Carone, 1984, p. 106) houve uma expansão da relação assalariada, com ou
sem os imigrantes. A mão de obra escrava dificultava
Meu caro aluno, mais uma vez iniciaremos nossa a modernização, a inovação tecnológica e a aquisição
aula com um convite à reflexão sobre o papel dos tra- de máquinas, já que a compra de escravos também era
balhadores no mundo capitalista: os donos do poder, um investimento. E eram caros: pagos à vista antes de
ávidos pelos lucros, e o povo que anseia e busca mu- eles começarem a trabalhar, a produzir. Seu dono tinha
danças socioeconômicas para melhoria de suas vidas. que evitar suas fugas, vigiar a execução correta dos
O documento acima é um fragmento do manifesto dos serviços, etc.
soldados na grande greve brasileira de 1917 e retrata O que diferencia o trabalho escravo do assalaria-
um pouco do tempo dos governos ditatoriais, de uma eli- do? Assalariado não constitui investimento alto e à vista;
te econômica concentrada no Sudeste e da participação ele trabalha primeiro e recebe depois (semanal, mensal,
popular em alguns episódios da nossa história. Como etc.). Sua contratação pode ocorrer de acordo com a ne-
vimos, o Brasil ingressou com muito atraso na primei- cessidade do trabalho e pode ser demitido nas crises; o
ra Revolução Industrial (cujas bases eram as têxteis, as escravo devia ser sustentado em tempo integral, inde-
alimentícias e de bebidas) e distante uns 50 anos da Se- pendentemente de crise. O rendimento do assalariado
gunda Revolução (iniciada aqui por volta de 1930, com permite-lhe comprar bens de consumo (conforme seu
os setores da siderurgia, metalurgia, petroquímica, me- poder aquisitivo, claro) enquanto os escravos não rece-
cânica, eletroeletrônica e a automobilística nos anos de biam salários. Quase sempre, os donos dos meios de
1950). Contudo, para chegarmos aos tipos de indústria, produção não investem na especialização do trabalhador
teremos que rever alguns conceitos importantes dentro assalariado e este não necessita de constante vigilância
do sistema capitalista. Que tal (re)vê-los agora? sobre o trabalho a ser executado. Isso gera o lucro.
O que significa meios de produção? Corresponde
2 SISTEMA CAPITALISTA – às terras, às máquinas e aos equipamentos, à força de
trabalho. Trabalho é diferente de emprego, ou seja,
ALGUNS CONCEITOS BÁSICOS
este possui uma conotação mais limitada, associada
O dicionário Michaelis (2000, p. 422) traz definições a assalariamento; trabalho tem conotação mais ampla:
da palavra capital como “posses, quer em dinheiro, quer pode-se trabalhar em troca de salário, alimento, rou-
em propriedades, possuídas ou empregadas em uma pa, moradia ou porque se sente bem. Você pode fazer
empresa comercial ou industrial, por um indivíduo, firma, parte de um grupo de voluntários combatendo dengue
corporação, etc.”, ou ainda como “riquezas ou valores ou incêndio ou doando seu tempo a instituições as-
acumulados, destinados à produção de novos valores”. sistenciais: isso é trabalho. Na evolução capitalista, a
Então pode ser qualquer objeto, coisa que sirva de meio produção agrícola e artesanal cedeu lugar a uma pro-
de ação ou utilidade permanente. Exemplos: combustível, dução em larga escala, e tiveram início as formas ou
matéria-prima, rendimento de uma posse, etc. E o que é regulamentos para os trabalhadores e empregadores
capitalismo? Também é no dicionário que encontrare- que buscavam mais produção e produtividade (lembra-
mos seu conceito: “organização econômica em que as se da mais valia? Pois ela é a palavra-chave dessa
atividades de produção e distribuição, obedecendo aos relação trabalhista). Assim, a exploração da mais va-
princípios da propriedade privada, da competição livre e lia cresceu de maneira exponencial para os donos dos
do lucro, produzem uma divisão da sociedade em duas meios de produção enquanto a miséria acompanhava
classes antagônicas, porém vinculadas pelo mecanismo os proletários.

126
AULA 20 • O AMADURECIMENTO DOS FUNDAMENTOS DO CAPITALISMO NO BRASIL

Aqui vamos distinguir outros dois conceitos: Divi- ção e a livre concorrência do mercado, cujos preços
são Internacional do Trabalho – DIT – e a Divisão são determinados pela oferta e procura. Existem outros
Técnica do Trabalho. A primeira sigla representa a fatores que, secundariamente, estão ligados a esse sis-
maneira como os países fazem as trocas comerciais; tema e que são: a acumulação permanente do capital,
no período colonial nós fornecíamos produtos primá- a exploração dos meios de produção e dos recursos
rios e comprávamos bens manufaturados. Atualmente, naturais e humanos, a busca incessante do lucro ou
muitos países continuam nessa DIT, comprando in- da produtividade, a concorrência e a inovação. Alguns
dustrializados e vendendo produtos primários (bens autores acrescentam o papel do dinheiro (plástico, dos
que não sofreram transformação, como petróleo bruto, cartões) e do mercado financeiro (ações e emprésti-
trigo, arroz, minério de ferro, etc.). Já a divisão técni- mos). Os investimentos financeiros são operações de
ca do trabalho refere-se à organização do trabalho no curto prazo e os investimentos produtivos são mais
interior das unidades produtivas conforme a tecnologia longos, impulsionam a modernização econômica e es-
empregada. Quase sempre, os países centrais são os timulam a industrialização nos países que ainda não
fornecedores de materiais industrializados e com tec- o fizeram (desde que haja possibilidade de lucros ou
nologia; restando aos países periféricos os bens pri- vantagens, né?).
mários. As trocas comerciais ficam desfavoráveis aos Os proprietários dos meios de produção organizam
últimos (déficit na balança comercial e no balanço de seus negócios em condições de concorrência, maxi-
pagamentos); aos primeiros, ocorre o superávit (ba- mizando seus lucros, diminuindo os custos de produ-
lança positiva). Essa influência política das potências ção e ampliando os mercados, isto é, quanto maior o
mundiais é chamada de geografia dos capitais. Adi- crescimento dos negócios e a acumulação de capitais,
vinhe quem sai ganhando nas transações comerciais? mais baixas deverão ser as estatísticas de falência, e
O mundo da época colonial mudou muito nas últimas a melhor localização (para qualquer negócio) é aquela
décadas? que possibilita maior rentabilidade. Os custos de trans-
Veja o que escreveu o nobre francês Alexis de To- ferências (despesas de transportes, matérias-primas,
queville em visita à Inglaterra de 1848: energia, comunicação e mercadorias) são analisados
Desta vala imunda a maior corrente da in-
friamente, e a indústria moderna tende a se concentrar
dústria humana flui para fertilizar o mundo em determinadas áreas do espaço geográfico, confor-
todo. Deste esgoto jorra ouro puro. Aqui a me sua produção e mercado. É por isso que existem
humanidade atinge o seu mais completo
desenvolvimento e sua maior brutalidade; muitas empresas com sedes nos países desenvolvidos
aqui a civilização faz milagres e o homem e suas fábricas localizam-se no mundo em desenvolvi-
civilizado torna-se quase um selvagem.
(TOQUEVILLE, 1848, apud HOBSBA-
mento. São as transnacionais.
WM, 1996, p. 43). Essas novas empresas e as regiões mais indus-
trializadas do mundo são também aquelas onde há
Percebe-se que as condições de trabalho, também
a presença das inovações e aplicação de tecnologia.
para a maioria da população brasileira, ainda se apre-
Elas se beneficiam do ambiente geográfico já instala-
sentam em péssima situação, e os salários continuam
do, do mercado consumidor ascendente, da força de
muito baixos. Não tivemos a passagem do artesanato
trabalho, quase sempre qualificada, além das fontes
para a manufatura como na Europa, o que garantiu ao
energéticas, leis flexíveis e um sistema de transportes
povo europeu uma evolução do trabalhador em termos
e logísticas eficiente. A dinâmica da desconcentração
de técnicas, mas nem por isso nossa força de traba-
industrial tende a diminuir ou mesmo reverter seu cur-
lho deve ser desprezada pelos empresários, você não
so rumo a uma nova reconcentração espacial nas re-
acha? Se você tiver dúvida, volte à introdução e reflita
giões ricas e industrializadas e é conhecida como eco-
sobre ela.
nomia de aglomeração. No Brasil essa convergência
3 FUNDAMENTOS DO da indústria ou reconcentração industrial fez aparecer,
a partir dos anos de 1990, os aglomerados industriais
CAPITALISMO ou cluster, que se referem às concentrações locais
O capitalismo apresenta-se como um sistema em de certas atividades econômicas. Exemplos disso?
que existe a propriedade privada dos meios de produ- Indústrias de mobiliário em Votuporanga (SP) e Uber-

127
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

lândia (MG), de software em Campina Grande (PB), transportes, das telecomunicações, da infraestrutura
Juiz de Fora (MG, ligada ao agronegócio), Fortaleza portuária e também da mão de obra qualificada. Com
(CE), Pato Branco (PR, ligada à avaliação e terapia isso, o mercado consumidor era fraco, e as trocas co-
da fala e da linguagem), Petrópolis (RJ), de joias em merciais não favoreciam os países subdesenvolvidos
Limeira (SP), etc. (hoje, chamados de periféricos). No caso do Brasil, a
Nota-se que são atividades variadas, tecnológicas região Sudeste concentrava a elite política e econô-
e que acompanham o alinhamento industrial aos gran- mica que, com a crise da cafeicultura, viu-se obrigada
des movimentos de capital. Para MAGNOLI (2000, p. a reconhecer os gastos elevados com escravos e ad-
216), mitir a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os imi-
[...] nas últimas décadas do século XX, com
grantes representavam uma força de trabalho alfabe-
o esgotamento do fordismo e a emergência tizada, conhecedora de técnicas de produção e com
da revolução técnico-científica, os novos custos mais baratos. Havia uma consciência maior
padrões locacionais parecem apontar no
sentido da desconcentração espacial das sobre as condições de trabalho, melhoria de vida, e
indústrias e na emergência de novos polos as cidades atraíam as pessoas, provocando o proces-
produtivos, afastados das aglomerações
tradicionais. No plano internacional, essa
so de urbanização (que está estreitamente ligado à
tendência é resultante da industrialização industrialização e capitalização) e casos de greves e
de vastas regiões do mundo subdesenvol- embates entre governantes (via segurança pública) e
vido, em especial no Sudeste Asiático e na
América Latina, que ocupam fatias cada vez proletários. Atualmente, os donos do capital necessi-
mais significativas da produção mundial em tam de mão de obra especializada em tarefas frag-
muitos setores.
mentadas e que possa render-lhes altos lucros. Para
O processo de expansão do capitalismo contou isso atravessam as fronteiras nacionais; a produção é
com a industrialização e a urbanização, pois ambas em larga escala; as trocas comerciais continuam bus-
colocaram à disposição dos empresários uma enorme cando o superávit (= exportação maior que importa-
mão de obra nas cidades e seus arredores. E é des- ção) e destinam-se aos mercados internos e externos.
sa maneira que ocorre a desconcentração espacial A organização interna das fábricas acompanha o uso
industrial ou deseconomia de aglomeração, signi- da tecnologia (divisão técnica do trabalho) e os capita-
ficando o deslocamento das concentrações empre- listas tecnológicos dominam os mercados.
sariais por causa de custos elevados. Alguns fatores
locacionais e de atração/repulsão do setor secundário 4 ATIVIDADES
(=industrial) serão analisados na nossa próxima aula.
Aguarde a industrialização brasileira. Tchau! 1. Tom Clausen, então presidente do Bank of Ameri-
ca, queria “uma empresa internacional que tenha
se desprendido de toda identidade nacional.”
3 RESUMO
Carl Gerstacker, presidente de uma transnacional
A economia capitalista de mercado caracteriza- norte-americana do setor químico, tinha uma ideia
se pela propriedade privada do capital, das máqui- prática a respeito: “sonho há muito tempo em com-
nas e equipamentos, da terra, dos edifícios, etc., que prar uma ilha que não seja de nenhuma nação e
representam os meios da produção. Busca também a estabelecer a sede mundial da Dow Chemical no
livre concorrência do mercado, que deve ser regula- terreno realmente neutro dessa ilha, sem dever
do apenas pela oferta e procura; anseia pelos lucros obrigação para qualquer nação ou sociedade”.
em menor tempo e explora os recursos naturais e Um antigo presidente da IBM, transnacional norte-
humanos. americana de computadores, afirmou certa vez
Na etapa inicial da industrialização moderna – que, do ponto de vista empresarial, as fronteira
ocorrida há pouco mais um século na Europa, EUA, políticas nacionais “são tão reais como a linha do
Japão, Canadá e, mais recentemente, na América Equador.”
Latina, Ásia e alguns locais na África – os custos de Comprove a veracidade das afirmativas acima le-
transferências (de região para outra) eram muito altos vando em consideração as características do capi-
devido ao fraco desenvolvimento da tecnologia, dos talismo atual.

128
AULA 20 • O AMADURECIMENTO DOS FUNDAMENTOS DO CAPITALISMO NO BRASIL

2. Leia o texto a seguir. PRIORE, Mary Del; NEVES, Maria de Fátima das;
ALAMBERT, Francisco. Documentos de História do
Crises financeiras Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Scipione,
“Os fluxos de capital estrangeiro irrigam os 1998.
mercados financeiros nacionais. Uma parte TREVISAN, Leonardo. A República Velha: História
desses capitais, investida em ações, proporciona popular nº 5. 3. ed. São Paulo: Global, 1982.
recursos para as empresas instaladas no país HOBSBAWM, Eric. A era das revoluções (1789-
receptor; outra parte proporciona recursos para 1848). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
o governo desse país. Assim, a entrada de
capitais financeiros contribui para movimentar DICAS
a economia como um todo. Contudo os Livros
investimentos financeiros geram dispêndios Formação econômica do Brasil: tópicos especiais.
Luiz Eduardo Simões de Souza. São Paulo: LCTE
para os receptores, que pagam juros, às vezes Editora, 2005.
muito elevados, pela utilização desse capital.
CUNHA, André Moreira. A colonização e o desen-
Além disso, há o problema da “fuga de capitais”, volvimento capitalista do Brasil.
que deflagra crises financeiras capazes de
Disponível em: http://www.ufrgs.br/decon/publionli-
desorganizar toda a economia de um país.
ne/textosdidaticos/textodid14. Acesso em: 14 fev.
[...] A saída acelerada de capitais financeiros 2011.
elimina as condições de financiamento do
VERSIANI, Flávio Rabelo (Org.). Formação Econô-
governo e das empresas no país onde estavam mica do Brasil: a experiência da industrialização.
originalmente aplicados. No caso dos países São Paulo: Saraiva, 1978.
subdesenvolvidos, que dispõem de pequenas
reservas de capitais, esses episódios provocam
Filme
crises financeiras de grandes proporções, que Coronel Belmiro Gouvêa (Brasil, 1979 – direção
se expressam como recessões ou depressões.” Geraldo Sarno): narra o choque entre os primeiros
(MAGNOLI, 2002, p.197) empresários brasileiros e as pressões exercidas
pelo capital internacional.
A) Cite um episódio recente de crise financeira no
mundo e explique a razão de sua ocorrência. PARA SABER
B) Explique as expressões “fuga de capitais” e
O Código Comercial de 1850
”recessões ou depressões” no sistema capita-
No mesmo ano da Lei da Terra, o Parlamento apro-
lista.
vou o Código Comercial, que estabelecia as leis que
REFERÊNCIAS regiam os negócios no país. Numa de suas partes, re-
gulava a atuação dos bancos no financiamento da pro-
CARONE, Edgard. Movimento operário no Brasil dução. Com isso, foram postos de lado os comissários
(1877-1944). 2. ed. São Paulo: Difel, 1984.
do café, comerciantes intermediários e financiadores.
MAGNOLI, Demétrio. Géia: fundamentos da Geo- Foi mais um passo no avanço do capitalismo no Brasil.
grafia. 7. ed. São Paulo: Moderna, 2002. (SCHMIDT, 1998, p. 191).
MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. Projeto de
ensino de Geografia: natureza, tecnologias e so-
ciedades. Geografia Geral. São Paulo: Moderna,
2000.

129
Unidade 05

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO BRASIL

AULA 21

FATORES INTERNOS E EXTERNOS QUE ESTIMULARAM


O DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA BRASILEIRA

Objetivos
• Identificar os fatores internos e externos estimulantes
da industrialização brasileira.
• Entender as relações entre alguns fatores do nosso
desenvolvimento industrial.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

de emprego e remuneração dos trabalhadores. Segun-


do MAGNOLI (2002, p. 119-120),
[...] a estrutura setorial está em perma-
nente transformação. Ao longo do tempo,
ocorre transferência da força de trabalho
entre os setores de atividades e mudanças
na capacidade de oferta de empregos de
cada um dos setores. O desenvolvimento
econômico é impulsionado pela transfor-
mação da estrutura setorial de atividades.
A evolução da estrutura setorial não acon-
tece de modo aleatório. Em todas as socie-
dades modernas, uma parcela decrescente
da força de trabalho é absorvida pelo Setor
Primário, ou seja, pela agropecuária e o ex-
trativismo de produtos vegetais, animais e
FIGURA 1 – Farol minerais. Em consequência, uma parcela
Fonte: http://commons.wikimedia.org cada vez maior da mão de obra participa do
setor Secundário (= construção civil, indús-
trias de transformação, mineração, pesca
Meu caro aluno, que fotografia linda abre nossa aula! industrial) e do Terciário (= comércio, ser-
O mundo atual é marcado pelo crescimento exponencial viços, administração pública, profissionais
liberais e autônomos, etc.). Essa transfe-
dos fluxos globais que movimentam mercadorias, capi- rência setorial do emprego é motor do fenô-
tais, pessoas e informações. A intercomunicação entre meno mundial de urbanização.
os países e suas regiões precisa de porto seguro para A redução relativa do emprego no Setor
aportar, local onde se faça luz, presença das inovações e Primário é um processo já bastante anti-
go. Nos países desenvolvidos, começou
criações. O sucesso empresarial depende da transforma- no século XIX, acelerou-se na primeira
ção da tecnologia em um padrão para o mercado; caso metade do século XX e completou-se nas
contrário, teremos acúmulo de “ruínas” tecnológicas. Os últimas décadas. Atrás desse processo,
encontra-se o crescimento da produti-
produtos tecnológicos exibem curto ciclo de vida, impul- vidade do trabalho agrícola, obtido pelo
sionam o consumo e acabam ampliando os lucros das emprego das tecnologias modernas.
empresas. Quem não se arriscar a acompanhar essa
Máquinas e equipamentos, fabricação do aço, de-
movimentação acabará, inevitavelmente, fora do mer-
senvolvimento da atividade petroquímica, especiali-
cado global. Muito dessa desarticulação mercadológica
zação e divisão do trabalho ou novos mecanismos de
ou mesmo dessas inovações e pioneirismo aconteceram
produção representam a transferência dos recursos
no Brasil e estimularam o desenvolvimento da indústria
econômicos, a adaptação da economia e da socieda-
nacional. Quem não soube aproveitar a luminosidade do
de às condições impostas pela 2ª Revolução Industrial.
farol, perdeu-se em pleno “mar” da expansão empresa-
Mas, na metade do século XIX, nossa massa trabalha-
rial! Que tal conhecer os fatos? Siga-me!
dora era constituída de escravos que praticavam uma
agricultura rudimentar, regida pelo plantio e colheita e o
2 FATORES INTERNOS tempo marcado pelas estações. Não havia número de
E EXTERNOS PARA O escravos suficiente para acompanhar as necessidades
CRESCIMENTO INDUSTRIAL do setor secundário (as taxas de natalidade entre os
negros eram baixas enquanto a mortalidade era alta,
BRASILEIRO significando crescimento natural baixo também). Éra-
A Revolução Industrial mudou a noção de trabalho mos uma massa trabalhadora pequena e o campo ne-
e dividiu os trabalhadores ativos do mundo em seto- cessitava de um número maior de força de trabalho.
res econômicos, uma vez que a industrialização iniciou A moderna economia industrial implica o declínio
a transferência da mão de obra da atividade primária proporcional da produção agrícola, o crescimento (rápi-
para a industrial e dessas duas para o comércio e os do) da população urbana e o aumento de alimentos para
serviços. Também diferenciou o trabalho, conforme a abastecer a população urbana, o que exige mais pro-
qualificação e formação profissional, para os critérios dutividade agrícola. Também no Brasil, famílias inteiras

132
AULA 21 • FATORES INTERNOS E EXTERNOS QUE ESTIMULARAM O ESENVOLVIMENTO
DA INDÚSTRIA BRASILEIRA

deslocavam-se da periferia ou campo para a área urba- sobre eles: os trabalhadores precisavam
aprender a trabalhar no ritmo exigido pelo
na, desapareciam as pequenas propriedades agrícolas,
capitalista; precisavam também respon-
aumenta o preço dos aluguéis e moradias nas cidades; der aos estímulos monetários e não parar
os deslocamentos exigiam mais gastos com transpor- o trabalho quando se sentiam em condi-
ções de sobreviver sem ele.
tes, etc. Lembre-se dos deslocamentos dos nordestinos
e que, durante muitos anos, Minas Gerais foi o estado Como a industrialização brasileira foi do tipo tardia,
brasileiro que mais “espalhou” sua gente. Muitos pobres, as máquinas, os equipamentos e as tecnologias foram
sem título de propriedade da terra, foram desalojados importados dos países do Hemisfério Norte. Isso signifi-
e tornaram-se andarilhos ou miseráveis nos centros ur- cou que nossa atividade fabril usou máquinas movidas à
banos. Essa disponibilidade de trabalhadores tornará a eletricidade ou à combustão. Nossas empresas foram de
mão de obra barata, o que não atendia aos requisitos grande porte e eliminaram os pequenos artesãos ou ma-
mínimos da sobrevivência humana. Os prenúncios da nufatureiros, levando-os à falência. A exportação do café
industrialização, expulsando trabalhadores do campo originou uma moeda forte (mil reis) capaz de comprar
para a cidade, exigiam uma mão de obra capaz de aten- máquinas e equipamentos industriais; mais tarde (1929
der às unidades fabris. Isso não tínhamos. e 1939/1945), o produto terá dificuldades de exportação,
A presença dos imigrantes agora era essencial, de- e aí os capitalistas dirigirão seus investimentos financei-
fendiam alguns fazendeiros e políticos da época. Os ros para a indústria de bens de consumo duráveis (têxtil,
primeiros trabalhadores assalariados no Brasil foram de vestuário, gráfica, mobiliário, etc.) e não duráveis: ali-
os europeus e aumentaram o mercado consumidor do mentos, bebidas, couro e derivados, etc. Agora, produzí-
país, pois já tinham o hábito de consumir produtos ma- amos aqui o que antes era importado.
nufaturados nos seus países de origem. O governo Durante o governo de Pedro II, aconteceram algu-
brasileiro pagou a passagem desses estrangeiros, e a mas investidas industriais como as do Irineu Evangelista
falta de terras na Europa facilitou a decisão de viajarem de Souza (Visconde de Mauá) e dos europeus (ingleses)
até aqui. Entre os anos 1887 e 1930 chegaram 36% com a construção de estaleiros, prensas, guindastes,
de italianos, 29% de portugueses, 15% de espanhóis, caldeiras, transportes urbanos e gás. Pequenas oficinas
7% de alemães e 13% de outras nacionalidades. Nem faziam os trabalhos de marcenaria, serrarias, fiação e
sempre encontraram boas condições de moradia e tra- tecelagem, chapelaria, moinho de trigo, fabricação de
balho. Em 1904, o italiano Antonio Piccarolo chegou ao bebidas e conservas para atender ao consumo local; os
Brasil e descreveu suas relações trabalhistas assim: bens de produção, máquinas e equipamentos, matérias-
primas e grande parte dos bens de consumo continu-
[...] o velho tipo de fazendeiro, ignorante e avam sendo importados, especialmente da Inglaterra.
rude que não conhece outro direito que o
seu, tende rapidamente a desaparecer. O Isso significou déficit na balança comercial brasileira. E
fazendeiro mandou seu filho à escola na o governo continuou com a política econômica oficial de
Europa, conhecer as doutrinas modernas,
e é este jovem que constitui hoje a gera- apoiar o mercado agroexportador.
ção dirigente, que volta ao lar paterno, à Os investimentos em infraestrutura (ferrovias, melho-
direção da fazenda, completamente diver- rias portuárias, fontes de energia e expansão da rede ban-
so do seu pai, fazendeiro inculto e pouco
preparado. (TREVISAN, 1982, p. 36). cária) no estado de São Paulo facilitaram a implantação,
a continuidade e o crescimento das indústrias na região.
Ainda bem que existia a esperança de vida melhor
Começamos a industrialização! Ela ocorre no momento
para eles, né? Segundo Canêdo (1984, p. 54),
em que as indústrias norte-americanas, europeias e ja-
E os famintos e miseráveis, expulsos de ponesas começaram a se dirigir para outros países, em
suas terras, puderam se dirigir também às busca de mercado consumidor, mão de obra, energia e
indústrias, com perspectivas de salários
regulares. A chegada à indústria de traba- matérias-primas mais baratas. Claro que chegaram aqui.
lhadores de origem agrícola ou mais ampla- Os países subdesenvolvidos da América Latina
mente rural é um fenômeno histórico, inse-
parável do fenômeno da industrialização.
experimentaram, entre 1930 e 1970, um processo de
modernização econômica, mas dependente dos capi-
Tendo conseguido um número suficiente
de trabalhadores, o problema seguinte tais e das tecnologias geradas nos países desenvolvi-
ficou colocado no controle do capitalista dos. A nossa industrialização baseou-se no modelo da

133
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

substituição das importações. MAGNOLI e ARAÚJO Acreditava-se que o país tinha “vocação essencial-
(2002, p. 106-107) reforçam que mente agrícola”, e o governo continua incentivando o
[...] a proteção do mercado interno, através
setor primário. Contudo dependíamos das importações
de mecanismos alfandegários e fiscais, da Europa e dos EUA no item bens de produção ou de
combinou-se com a atração de conglome- base. O que contribuiu para a virada? A queda da Bolsa
rados transnacionais e com os investimen-
tos do Estado na indústria pesada. Esse de Valores de Nova Iorque (1929), fazendo os cafeiculto-
grupo de países abrange, essencialmente, res investirem em outros setores produtivos, já que mui-
o Brasil, o México e a Argentina, que exi-
bem industrialização diversificada e merca-
tos deles perderam muito dinheiro com os investimentos
dos internos de dimensões significativas. em ações nos Estados Unidos; a entrada dos imigrantes
(1870/1930) para substituir a mão de obra escrava no
O significado disso para a economia foi a implanta-
campo e, que diante das péssimas condições de vida
ção de uma política de tributação alfandegária sobre os
e trabalho, vieram para as cidades, abriram pequenas
produtos importados e o estímulo à produção interna
oficinas voltadas para o abastecimento interno, especial-
através de subsídios ou isenção de impostos. A indus-
mente na cidade de São Paulo; os investimentos em in-
trialização concentrou várias atividades econômicas,
fraestrutura ferroviária, portuária, energética e a criação
atraiu a população, acentuou processos poluidores,
da rede bancária. Some a isso o poder aquisitivo do tra-
desenvolveu tecnologias e outros aproveitamentos de
balhador assalariado imigrante e o consequente aumen-
recursos naturais, além de intensificar as relações com
to do mercado consumidor interno. O comportamento
diferentes países no grande mercado global.
positivo do comércio exterior refletia esse dinamismo
Você percebeu como as ligações internas e com os
interno. Contudo a I Guerra Mundial (1914/1918) levou a
demais países foram essenciais no processo industrial
uma redução dessas transações comerciais internacio-
brasileiro? Mudou muita coisa nos dias atuais? Você
nais dos bens de consumo, o que estimulou a criação de
sabe que não, pois vivemos no mundo globalizado e,
pequenas fábricas capazes de suprir as necessidades
com a mundialização da economia, não é possível des-
de um mercado de consumo em formação.
ligar-se dos demais países. Somos uma “aldeia global”!
Esses elementos contribuíram para que o crescimen-
Na próxima aula trataremos do assunto das empresas
to industrial brasileiro – antes subordinado às conjuntu-
transnacionais no país. Aguarde-me. Tchau!
ras internacionais, às relações externas, às oscilações
dos mercados de capitais externos, às taxas de juros
3 RESUMO internacionais – saísse da condição de substituição de
Até a década de 1930, a organização espacial das importações e passasse a depender de si mesmo. Atra-
atividades econômicas no Brasil era dispersa, embora vés da participação dos governos (federal, estadual e al-
o eixo São Paulo/Rio de Janeiro já fosse responsável guns municipais) e dos capitais de investimento nacional
por mais da metade do valor da produção industrial bra- e internacional, a virada se efetivou. Contudo agora se
sileira (produzíamos alguns navios, caldeiras, prensas, iniciava uma nova situação: as ligações com o capitalis-
guindaste, desde o período de Pedro II). Éramos um mo internacional e seus investimentos no país. Um novo
“arquipélago” econômico: o desenvolvimento era inde- “farol” irá se abrir para a industrialização brasileira.
pendente em cada região. Enquanto o Sudeste produ-
zia o café, grande responsável pelo acúmulo de capital 4 ATIVIDADES
que seria usado em outras atividades, também recebia 1. Leia o texto seguinte.
os imigrantes europeus, trazendo seus conhecimentos
técnicos para o crescimento do setor secundário. Os O desenvolvimento industrial
principais portos de exportação (Santos e Rio de Ja- numa sociedade aberta
neiro) aqui se localizavam e melhorias urbanas e por- Armando de Queiroz Monteiro Neto
tuárias aconteciam, enquanto no Nordeste, a principal
Com o advento do Real, o mercado brasileiro
atividade econômica estava atrelada ao setor primário
se expandiu, incluindo a indústria. Houve uma mu-
(algodão, cana-de-açúcar, cacau,) e, no Norte, a borra-
dança não só no mercado consumidor brasileiro em
cha era comercializada com os europeus. O Brasil me-
que novos produtos foram disponibilizados e o poder
ridional oferecia os derivados da pecuária e bebidas.

134
AULA 21 • FATORES INTERNOS E EXTERNOS QUE ESTIMULARAM O ESENVOLVIMENTO
DA INDÚSTRIA BRASILEIRA

aquisitivo aumentou, mas também no acirramento


REFERÊNCIAS
da concorrência. Como consequência, a utilização CANÊDO, Letícia Bicalho. A Revolução Industrial:
de tecnologias novas no processo produtivo e a discutindo a História. São Paulo: Atual, 1994.
adoção de modernas práticas de gestão empresarial MAGNOLI, Demétrio. Géia: fundamentos da Geo-
elevaram sobremaneira a produtividade da indústria grafia- 7. ed. São Paulo: Moderna, 2002.
brasileira, condição básica para o crescimento eco- TREVISAN, Leonardo. A República Velha: história
nômico. A adaptação à maior concorrência mundial popular. 3. ed. São Paulo: Global, 1982.
levou as empresas industriais brasileiras à busca de
maior competitividade e eficiência, tendo a produtivi-
PARA SABER
dade por trabalhador aumentado a uma taxa média
anual próxima a 8% na década de 1990. Verdade em meio-termo (Redação Carta
As empresas que passaram por esse processo Capital, 14 de janeiro de 2011, às 16h 13min)
de reestruturação produtiva ajustaram-se ao modo Açúcar e colonização, de Vera Lucia Amaral
de produção das suas concorrentes no mercado Ferlini
internacional, tornando-se, em alguns casos, mais
eficientes e produzindo a custos menores produtos Com o seu Açúcar e colonização, a historia-
de maior qualidade. A crescente penetração dos dora da Universidade de São Paulo Vera Lucia
produtos brasileiros no mercado mundial é conse- Amaral Ferlini dá importante contribuição para o
quência natural do desenvolvimento e da moderni- debate entre os partidários da clássica tese de
zação do nosso parque industrial. Caio Prado Júnior, de que a grande proprieda-
Nos últimos cinco anos, as exportações qua- de territorial, o chamado latifúndio, dominou toda
se dobraram. Somente no ano de 2004, mil novas a economia colonial, e os favoráveis à recente
empresas passaram a exportar e 600 novos pro- tese do historiador Jorge Caldeira, de que havia
dutos se incorporaram à pauta de exportações. O na Colônia uma vibrante economia de pequenos
que se assiste, portanto, é à força de uma indús- empreendedores, totalmente independente dos
tria dinâmica, que está comprometida em ampliar grandes interesses agrários.   A autora do novo
sua produção, melhorar sistematicamente a qua- trabalho se vê, ao que tudo indica sabiamente,
lidade dos seus produtos, ter preços competitivos em um meio termo. Para ela, o latifúndio de Pra-
e, por consequência, ampliar a participação no do Júnior é na verdade em grande parte um mito,
mercado internacional. já que o fulcro da economia colonial do açúcar do
Nordeste não era a grande propriedade produtora
Disponível em: http://www.dc.mre.gov.br/
de cana-de-açúcar, esta sim, produzida principal-
imagens-e-textos/temas-brasileiros-1/portugues-
mente por pequenas propriedades. Esse fulcro,
industria-no-brasil-1 Acesso em: 16 fev. 2011.
ela procura demonstrar, era o engenho escravis-
ta, uma propriedade territorial não muito extensa,
a) Elabore um parágrafo comparativo entre a situ- mais industrial do que agrícola. Mas, ao contrário
ação geral da indústria brasileira até 1930 e os de Caldeira, ela não vê os pequenos empreende-
dados do texto acima. dores como autônomos. Pelo contrário, Vera Lu-
2. Segundo Armando de Queiroz de Monteiro Neto, cia Amaral Ferlini mostra, documentação à mão,
“houve uma mudança não só no mercado consu- que o engenho concentrava a produção e a mer-
midor brasileiro em que novos produtos foram dis- cantilizava, controlando os pequenos produtores
ponibilizados e o poder aquisitivo aumentou, mas e determinando quem estava incluído na socie-
também no acirramento da concorrência.” Explique dade e quem não estava. In medio virtus, diziam
a afirmativa do ex-presidente da CNI. os antigos.
3. Se as importações interferem no fluxo de pagamen-
Disponível em: http://www.cartacapital.com.
tos de uma nação, pesquise sobre o atual comér- br/carta-na-escola/verdade-em-meio-termo.
cio externo brasileiro, anotando suas dificuldades e Acesso em: 17 fev. 2011.
seu balanço de pagamentos.

135
Unidade 05

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO BRASIL

AULA 22

O PAPEL DESEMPENHADO PELOS


INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS NO PROCESSO
DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

Objetivos
• Reconhecer os principais investidores na
industrialização brasileira.
• Entender o papel desempenhado pelos grupos
externos na indústria nacional.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO 2 O PAPEL DO ESTADO NO


O que é política industrial na atualidade
DESENVOLVIMENTO NACIONAL
A indústria fez aparecer uma nova classe social: os
Política industrial é um conjunto coordenado
proletários, que não tinham reconhecidos ainda seus
de ações, envolvendo setor público e setor priva-
direitos trabalhistas. Alguns grupos formaram asso-
do, visando ampliar a competitividade da indús-
ciações que recolhiam mensalidades e doações dos
tria. O objetivo final é impulsionar o crescimento
trabalhadores para, quando algum associado fosse de-
econômico e o emprego do setor industrial. Assim,
mitido ou adoecesse, pudesse pegar “emprestado” na
a política industrial é um componente de uma es-
caixinha! Greves? Nem pensar! Com o desenvolvimen-
tratégia de fortalecimento da indústria e parte in-
to industrial ou capitalista, muitas empresas faliram ou
dispensável de uma política de desenvolvimento.
foram compradas por grupos empresariais. Iniciava-se,
A promoção da competitividade constitui o foco da
assim, o capitalismo monopolista.
política industrial praticada atualmente no mundo
O Brasil sempre recebeu investimentos ingleses, es-
desenvolvido e em países que buscam promover
pecialmente no setor terciário (serviços como empresas
seu desenvolvimento.
de gás, bondes, ferrovias, iluminação pública, telégrafos,
A política industrial, como política de promo-
companhias de navegação, seguros e ainda faziam em-
ção da competitividade, é indissociável da concor-
préstimos para o país). Alguns exemplos: a Light and Po-
rência, da atualização tecnológica e do aumento
wer (inglesa do setor de energia), a Bond & Share (norte-
da produtividade, não sendo seus objetivos criar e
americana, do ramo da eletricidade), a Ford e a General
disseminar setores e empresas privilegiadas, ine-
Motors (dos EUA, que montavam os automóveis aqui),
ficientes e que sobrevivem à sombra da proteção
a Cia Anglo e as Swift e Armour (frigoríficos norte-ame-
e do subsídio.
ricanos). Segundo estudos mais recentes, os imigrantes
Disponível em: http://www.iedi.org.br/admin/
também participaram do bolo industrial com uma grande
pdf/pol_desenvolv_industrial.pdf. Acesso em:
17 fev. 2011. fatia, como é o caso da família Matarazzo, dona de um
dos maiores comércio de secos e molhados em Soro-
Caro aluno, o Instituto de Estudos para o Desen- caba (SP) e Porto Alegre (RS). Em 1911, ela chegou a
volvimento Industrial – IEDI – criado em 1989, por 44 possuir 365 fábricas em todo o país e adotou o nome de
empresários nacionais, procura pensar e apresentar Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo – IRFM.
soluções e propostas para conduzir o desenvolvimento Acompanhe o QUADRO 1 sobre o capital interna-
industrial em parceria com o Estado. Vem contribuindo cional no Brasil no início do século XX.
para acelerar o crescimento sustentado, o aumento de QUADRO 1
empregos, a erradicação da pobreza, a preservação Número de companhias estrangeiras
ambiental e uma distribuição de renda pessoal mais que se instalaram no Brasil
justa. Há a prática de uma política industrial alicerçada País Época Quantidade
no desenvolvimento concorrencial, inovador, tecnoló-
Estados Unidos 1891/1903 36
gico, eficiente e conhecedor do papel das instituições
1904/1914 96
privadas e do Estado. Isso pode parecer ilusório e fan-
1915/1920 25
tástico, mas é real. Nem sempre foi assim.
1921/1928 30
Durante muitos anos o Estado brasileiro não se
Grã-Bretanha 1891/1903 11
preocupou em planejar e nem regulamentar o merca-
1904/1914 61
do; muitos “aventureiros” nacionais e internacionais
1915/1920 46
aportaram por aqui, levando vantagens econômicas.
1921/1928 59
Por isso devemos conhecer o passado industrial brasi-
leiro juntamente com as ações desses investidores no Alemanha 1891/1903 05
processo da nossa industrialização. Veja as engrena- 1904/1914 20
gens que marcaram nossa industrialização no período 1915/1920 01
de 1930 a 1955. 1921/1928 04

138
AULA 22 • O PAPEL DESEMPENHADO PELOS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS NO
PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

França 1891/1903 12 modernização, outras funcionando conforme os dita-


1904/1914 35 mes do mercado norte-americano ou japonês. Para
1915/1920 03 Vesentini (2002, p. 17),
1921/1928 10
[...] além disso, essa tecnologia importa-
Fonte: SCHMIDT, 1998, p. 245. da é destinada à produção de artigos que
custarão muito mais para a maioria da
população dos países do Sul, por causa
Aí está representado o interesse e a permanência da distribuição muito desigual da renda.
de muitas empresas externas no mercado brasileiro no No final, apenas uma minoria privilegiada
final do século XIX e início do XX. Há decréscimo das acaba usufruindo esses bens “modernos”,
que serão produzidos pelas indústrias
europeias no período da 1ª Guerra Mundial, enquanto mais avançadas (automóveis, microcom-
as norte-americanas aumentaram sua participação na putadores, eletrodomésticos sofisticados,
etc.). Assim, esse tipo de progresso dos
nossa indústria. Os norte-americanos, no século XX, países subdesenvolvidos, baseado em
superaram os ingleses, investindo no setor secundá- capitais e tecnologias estrangeiros, aca-
rio e bancário também. Vários outros grupos compra- ba por agravar as desigualdades sociais,
pois aumenta o exército de reserva de
vam nosso café, negociavam em Londres, Chicago e trabalhadores desses países e facilita às
Nova Iorque e obtiveram muito lucro. Pode-se falar empresas pagarem baixos salários, pois
aumenta a concorrência entre as pessoas
em imperialismo inglês e norte-americano desde essa por qualquer emprego.
época. Os banqueiros ingleses emprestavam dinheiro
para particulares, e o governo do Brasil usava-o para Nos anos de 1930, uma onda de nacionalismo
amortizar dívidas, financiar fazendeiros, construir por- sacudiu o Brasil. O café era produzido, processado,
tos e ferrovias, aparelhar as Forças Armadas, etc. A transportado da área cultivada até os portos, comercia-
eliminação gradual do comissário ou intermediário da lizado, industrializado e movia o setor financeiro e ban-
cafeicultura (exportação e importação) fez com que cário. Contudo a crise de 1929 obrigou os capitalistas a
os “novos” comerciantes ou exportadores estrangei- “desviarem” suas aplicações para outras modalidades
ros fossem direto aos produtores nacionais ou espa- produtivas. Houve investimentos no setor de logística,
lhassem seus representantes pelo interior do país. isto é, nas vias de circulação (ferroviária, rodoviária e
Aumentamos nosso mercado consumidor interno! Já portuária), na produção de matérias-primas ou bens
podíamos consumir produtos norte-americanos no de consumo não duráveis para atender à população e
campo, e cidades menores passaram a fazer contato aos imigrantes. Os meios de transportes serviam agora
direto com Chicago, onde eram realizadas as princi- para distribuir mercadorias para todo o país, promo-
pais transações mundiais das commodities, ou seja, vendo a integração nacional. Uma “nova” classe social
nosso milho, algodão, feijão cana-de-açúcar tinham emergia no país, junto com os imigrantes, ávidos pelo
preços internacionais outra vez! Os norte-americanos consumo desses bens: a média, originária das peque-
assumiram o papel de mandantes mundiais no lugar nas atividades lucrativas do setor terciário.
dos europeus: assumiram a hegemonia no setor ban- Até a Primeira Guerra Mundial, o governo não ha-
cário, e o padrão-ouro mundial passou a ser o dólar via adotado nenhuma política de incentivo à industria-
após a Segunda Guerra Mundial. lização, exceto quando aumentava as tarifas alfande-
Vimos que o Brasil faz parte do grupo de países gárias que, sem saber, protegia as iniciativas privadas;
que praticaram a industrialização tardia ou retarda- quando provocava a desvalorização da moeda nacio-
tária, pois foi feita, em grande parte, com capital es- nal ou ainda, as duas medidas ao mesmo tempo. Em
trangeiro, tem base maior nas indústrias de bens de 1931, foi publicado o relatório Sir Otto Niemeyer – o
consumo e utilizou tecnologia adquirida dos países primeiro documento que mostrou a fraqueza da nossa
centrais. A tecnologia importada é poupadora de mão economia agroexportadora – dependente do comércio
de obra, e as taxas de crescimento demográficas são mundial e sujeita às crises mais rapidamente que ou-
maiores que dos países desenvolvidos, há uma oferta tros países. Foi proposta a diversificação da agricultura
de trabalhadores maior que o de empregos, aumen- que, somada à renda do setor, poderia investir em áre-
tando o setor informal nos países periféricos. Como as industriais. Não foi aceita. Em 1942/43, os EUA en-
ficaram nossas indústrias? Algumas delas buscando viaram-nos outro grupo de planejamento: como o Brasil

139
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

poderia colaborar com a luta armada! E a economia? é parte relevante da história e do avanço
da indústria no Brasil. O capital produtivo
Deveria continuar dependente do exterior!
de origem externa contribui com novas
Segundo o IEDI, é papel do Estado promover con- tecnologias e mercados para o progresso
tínuas ações para formulação e implementação de um do país.
projeto político industrial. O governo não substitui a O país deve, no entanto, manter a prer-
rogativa de limitar o ingresso de capitais
iniciativa privada, mas é o principal agente e empre- não produtivos e de orientar o capital
endedor dos programas de desenvolvimento: “cabe ao estrangeiro produtivo de acordo com os
Estado assegurar condições econômicas para o exer- interesses nacionais.
cício competitivo da produção e da empresa nacional, A não intervenção do governo na economia e a au-
no país e no exterior, através da preservação da esta- torregulação econômica através do livre comércio, que
bilidade de preços e de políticas cambial, tributária e de vigoraram até a década de 20, caracterizaram o capi-
taxa de juros adequadas ao investimento e à produção. talismo (liberal), mas entraram em crise aqui também.
(IEDI, 1989, p. 1). As razões da crise? Isso será um dos nossos assuntos
Como praticar desenvolvimento socioeconômico da próxima aula. Vamos buscar nas relações políticas e
sustentável sem prejuízo da estabilidade? Ainda se- econômicas as explicações para nosso quadro de for-
gundo o IEDE (1989, p. 1): ças no século passado. Aguarde-me!
[...] a política de desenvolvimento indus-
trial é um instrumento do avanço econô- 3 RESUMO
mico e social e de uma maior inserção ex-
terna, sem prejuízo da estabilidade. Visa Durante muitas décadas, no Brasil, os governantes
o crescimento sustentado da economia não planejavam nem regulavam as relações do mer-
e do emprego, o aumento da competiti-
vidade e a desconcentração regional da
cado. Várias empresas nacionais não tiraram proveito
indústria. A estabilidade de preços é con- dos nossos recursos. Somente após 1945, encontrare-
dição necessária, mas não suficiente para mos uma preocupação com os investimentos agroin-
o êxito dessa política. As principais ações
da política de desenvolvimento industrial dustriais, mas ainda mantendo vantagens para alguns
consistem em criar condições e incenti- grupos. Em 1920, a população economicamente ativa
var o aumento da produtividade, a maior
agregação de valor e a inovação tecno-
– PEA – distribuía-se com 69,7% no setor primário,
lógica em todos os setores industriais e 13,8% no secundário e apenas 16,5% no terciário (in-
regiões do país. cluindo os serviços domésticos e temporários). Esses
A palavra-chave é competitividade, que deve ser trabalhadores, explorados pelo capitalismo nacional e
contínua, tecnológica e com aplicação do conhecimen- internacional, não tinham seus direitos trabalhistas re-
to à produção, de forma que os custos básicos (fiscal, conhecidos.
de capital e de salário), somados à infraestrutura, per- A permanência do capital estrangeiro entre nós foi
mitam a efetiva competição em nível internacional dos intensa (ver quadro-resumo), especialmente o norte-
produtos brasileiros. Independentemente da origem do americano que, logo após a Primeira Guerra Mundial,
capital, do seu porte e setor, são as empresas indus- assumiu a liderança econômica e política mundial. Esse
triais que promovem o desenvolvimento de um país. É capital externo “abocanhou” as fatias mais significati-
nisso que o IEDI acredita: vas (e lucrativas) da nossa indústria, quer no setor se-
cundário, quer no terciário. Continuamos dependentes
As políticas e ações do setor público e das
organizações privadas, voltadas, princi- das decisões externas para promoção da melhoria de
palmente, ao desenvolvimento tecnológi- vida dos nossos trabalhadores e, enquanto isso, alguns
co, empresarial e financeiro e ao aumento
da competitividade, devem ser direciona-
políticos e empresários se aliavam aos grupos interna-
das para as empresas nacionais. cionais. Após a década de 1930, houve uma proposta
de intervenção no modelo agroexportador brasileiro,
Um objetivo permanente da política e do
desenvolvimento industrial deve ser o for- sujeito às variações cambiais do mercado mundial.
talecimento do setor externo do país, de Não ocorreram mudanças significativas para nossa
forma a evitar as limitações ao crescimen-
to doméstico decorrentes da excessiva economia. A iniciativa privada nacional irá se preocupar
dependência de capitais externos. A par- com as decisões governamentais da política industrial
ticipação de empresas de capital externo

140
AULA 22 • O PAPEL DESEMPENHADO PELOS INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS NO
PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO BRASILEIRA

brasileira, conforme os objetivos e metas do Instituto de Estudos e Desenvolvimento Industrial, recentemente. Hoje,
empresários nacionais e internacionais percorrem um mesmo caminho: a produtividade e o retorno financeiro posi-
tivo aliado às melhorias de trabalho das pessoas. Uma política industrial promotora da competitividade necessita de
atualização tecnológica (importância do trabalho mental), sem privilégios entre os promotores da industrialização,
para que a produtividade ocorra de forma mais homogênea no país.

4 ATIVIDADES
1. Interprete os dados sobre a indústria brasileira.

Disponível em:
http://www.iedi.org.br/artigos/artigos/artigos/analise_iedi_20110211_emprego_
industrial_2010_bom_com_final_de_ano_ruim.html. Acesso em: 17 fev. 2011.

2. Leia o texto:

Modernização do Brasil: o verso e o reverso

Nos últimos cinquenta anos, notadamente, o Brasil passou por um intenso processo de modernização,
isto é, de industrialização e urbanização. Ele deixou de ser um país agrário e rural e tornou-se urbano e indus-
trial. Essa mudança, claro, foi acompanhada por inúmeros avanços: maior acesso à eletricidade, aos meios
de comunicação em massa (rádio, televisão), diminuição das taxas de mortalidade geral e infantil, de analfa-
betismo, de população sem acesso à água encanada. Mas o Brasil continua a ser um dos poucos países com
milhões de adultos analfabetos, com milhões de residências sem água tratada ou esgoto. Nossa moderniza-
ção, enfim, foi mais econômica, particularmente industrial, mas não eliminou os enormes bolsões de pobreza
nem, principalmente, as violentas desigualdades sociais. (VESENTINI, 2002, p. 18)

141
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Após a leitura do texto, elabore um questionário so- C3.A3o_e_desenvolvimentismo_.281945-1964.29.


bre as condições de vida da população do seu municí- Acesso em: 17 fev. 2011.
pio ou arredores, aplique-o e escreva suas conclusões,
confirmando ou não o texto.
PARA SABER
WAL-MARTIZAÇÃO
REFERÊNCIAS A Wal-Mart é uma companhia norte-americana de
IEDI. Disponível em: http://www.iedi.org.br/admin/ supermercados, presente em 12 países. É também a
pdf/pol_desenvolv_industrial.pdf. Acesso em: 17 fev. maior empresa do mundo. O seu faturamento é supe-
2011. rior ao Produto Nacional Bruto de vários países (só na
SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil: Europa é maior do que o PNB da Dinamarca, Grécia,
500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul- Finlândia e Portugal, por exemplo). A Wal-Mart continua
tura. São Paulo: Nova Geração, 1998. a crescer, prevendo-se que suas atividades internacio-
VESENTINI, José William. Brasil, sociedade e es- nais sejam responsáveis por um substancial acréscimo
paço: Geografia do Brasil. 31. ed. São Paulo: Ática, no seu volume de vendas, já de si impressionante.
2002. Uma edição recente do Wall Street Journal (18 no-
vembro, p. M4) dava conta da sua influência na Econo-
Dicas mia do globo. Indicava, por exemplo, que a Wal-Mart
Livros: representa cerca de 10% do total das exportações da
BAER, Werner. A Economia Brasileira. 2. ed. (re- China, sendo o 8º maior parceiro comercial daquele
vista, ampliada e atualizada). São Paulo: Nobel, país, à frente da Rússia e da Inglaterra. Como a WM
2003. se limita a comprar, contribui, sozinha, para agravar o
(Nesse livro, o autor faz uma breve análise desde deficit comercial nas relações entre os Estados Unidos
o período colonial até a década de 1970. Aborda
e a China. Posted by LS @ 11/25/2004 Luiz Se-
profundamente a economia brasileira até 2002 e
os vários planos econômicos a partir da década de queira –
1970).
Walmartização do trabalhador comerciário
SANDRONI, Paulo. Traduzindo o economês - para brasileiro...?
entender a economia brasileira na época da globali-
zação. São Paulo: Best Seller, 2000. A ‘’walmartização’’ da força de trabalho no comér-
(Livro muito bom, que explica de maneira simples cio, termo alusivo às conhecidas práticas de relações
os termos econômicos presentes nos noticiários da do trabalho do gigante varejista Wal-Mart, é uma ten-
atualidade. Leitura indispensável para entender o
dência que vai se intensificando no setor. Ou seja: a
mundo atual.)
elevação da produtividade, do lucro, com o sacrifício
SANDRONI, Paulo. Dicionário de Economia do do salário, do emprego e com o aumento do ritmo de
século XXI. Rio de Janeiro: Record, 2005.
trabalho. (Osvaldo Bertolino, no Portal da CTB)
(Dicionário de termos econômicos, além de
biografias de pensadores e economistas. Obra super Disponível em: http://abnegado.blogspot.
completa.) com/2004/11/walmartizao.html. Acesso em:
Disponível em: 14 fev. 2011.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_
econ%C3%B4mica_do_Brasil#Industrializa.C3.A7.

142
Unidade 05

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
ORIGENS E DESENVOLVIMENTO DA INDÚSTRIA NO BRASIL

AULA 23

CONSTITUIÇÃO DO QUADRO DE FORÇAS


POLÍTICO-ECONÔMICAS NO FINAL DA DÉCADA DE 1930

Objetivos
• Identificar as principais forças políticas no final dos
anos de 1930.
• Entender as relações político-econômicas no Brasil
pós-1930.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO da inflação e de aumento dos empréstimos externos.


Vários grupos das oligarquias estaduais pressionavam
O imperialismo no Brasil consiste em ampliar o governo para melhor atendê-los política e economica-
as suas fronteiras econômicas e integrar um mente (liberação de recursos para sua região). Outros
sistema coerente, em que a circulação das se irritavam com as medidas governistas e apoiavam
riquezas e utilidades se faça livre e rapidamente, aqueles das forças armadas que começaram se revol-
baseada em meios de transporte eficientes, tando desde os anos de 1920. Em 1922, a Semana de
que aniquilarão as forças desintegradoras Arte Moderna serviu para mostrar o conhecimento e o
da nacionalidade. [...] Desde que o mercado reconhecimento de artistas, intelectuais, estudantes e
nacional tenha a sua unidade assegurada, operários sobre o país, com suas mazelas e riquezas.
acrescendo-se a sua capacidade de absorção, Isso motivou grupos políticos a se engajarem em movi-
estará solidificada a federação política. A mentos ligados aos ideais de nacionalismos, participa-
expansão econômica trará o equilíbrio desejado ção popular, liberdade nas decisões coletivas pelo bem
entre as diversas regiões do país. No momento comum. Veja o que PRIORE (1998, p. 82-83) nos relata
nacional só a existência de um governo central daquela época.
forte, dotado de recursos suficientes poderá [...] Se não aproveitarmos o momento po-
trazer o resultado desejado. (Presidente Getúlio lítico e econômico para radicalizar nosso
programa, seremos ridiculamente en-
Vargas, 1938-1947, p. 164-5, com adaptações, volvidos pelos bernardes*e epitácios*,
apud PRIORE, 1998, p. 93). sacrificando, por um problemático auxílio
material, a grande força material de que
dispúnhamos, fruto do sacrifício de nume-
Meu caro aluno, iniciaremos nossa aula hoje usando rosos companheiros. Dia a dia aumenta
em mim a convicção de que os tais libe-
um trecho escrito pelo ex-presidente Getúlio Vargas. Se
rais desejam de tudo menos a revolução...
você fizer uma pesquisa em todos os municípios brasilei- resta-nos um único caminho: o caminho
ros, provavelmente em 90% deles encontrará uma aveni- pelo qual venho há muito me batendo e
que consiste em levantarmos com toda a
da, alameda, rua ou praça com o seu nome. O latifundiário coragem uma bandeira de reivindicações
gaúcho conseguiu governar provisoriamente o país e pas- populares, de caráter prático e positivo,
capazes de estimular a vontade das mais
sou a ser o alvo crítico principalmente dos paulistas. An-
amplas massas de nossa paupérrima po-
tigos políticos ligados aos cafeicultores e aos liberais de- pulação das cidades e do sertão.
mocratas aliados à crise econômica dos cafezais fizeram
* Bernardes e epitácios: alusão aos presidentes
eclodir a guerra civil, chamada Revolução Constituciona-
Artur Bernardes e Epitácio Pessoa, defensores das oli-
lista de 1932, contra o governo federal (que suspendeu a
garquias estaduais.
Constituição). É nessa disputa política e econômica que
Essa carta foi escrita em agosto de 1929, por Luis
iremos nos enveredar para fechar a unidade 05 (Origens
Carlos Prestes, principal figura do movimento tenentis-
e desenvolvimento da indústria no Brasil), contando como
ta, em 1925, líder da famosa Coluna Prestes e, mais
se deu o quadro sociopolítico, que nos levou a formar a
tarde, dirigente do Partido Comunista Brasileiro. Fica
Assembleia Constituinte, esse importante documento em
evidente a insatisfação de grupos ligados às forças ar-
nossas vidas. Convido-o a embrenhar-se nos fatos históri-
madas e a convocação do povo a lutar por melhores
cos envolvendo disputas locais e regionais, busca do bem-
condições de vida. Quem mandava no país eram as
estar social e da harmonia para o povo, conforme Vargas
oligarquias estaduais e as famílias controladoras da
deixou-nos acima, e, especialmente, convido-o a entender
política: governador, prefeito, vereador, deputado, etc.
como as forças políticas interferiram na industrialização.
Como éramos federalistas, cada Estado tinha autono-
2 AS FORÇAS POLÍTICAS mia para formar seus partidos (não eram nacionais: o
PRP- Partido Republicano Paulista, o PRM, de Minas
BRASILEIRAS NA PRIMEIRA Gerais e o PRR, do Rio Grande do Sul; os dois primeiros
METADE DO SÉCULO XX eram mais importantes). A política do café com leite ou
Desde a política do Encilhamento (governo Deodo- a política dos governadores representam muito bem
ro da Fonseca), o país vivia um período de crescimento essa fase nacional. O presidente da República apoia-

144
AULA 23 • CONSTITUIÇÃO DO QUADRO DE FORÇAS POLÍTICO-ECONÔMICAS NO FINAL
DA DÉCADA DE 1930

va a oligarquia estadual dominante e os deputados * Nos anos de 1960, o nome foi alterado para Partido
federais (no Rio de Janeiro, capital, certo?) apoiavam Comunista Brasileiro (PCB), e os inconformados criaram
o presidente no Congresso Nacional. Em 1909, Minas o PC do B; hoje não existe mais PCB e sim, PPS, o PC
Gerais uniu-se ao Exército e ao Rio Grande do Sul e do B continua, agora, sem ligação com a China.
elegeram o sobrinho de Deodoro da Fonseca: Hermes A derrota da tropa constitucionalista de 1932 não
da Fonseca. Nas eleições de 1914/1918, retorna a po- impediu que muitos dos seus desejos fossem negocia-
lítica do café com leite através de Wenceslau Brás. No dos junto ao governo federal: em 1934 foi promulga-
Rio Grande do Sul, destacava-se o senador Pinheiro da a 3ª Constituição brasileira; em 1935, militantes do
Machado (assassinado em 1915) e, no Nordeste, cada Partido Comunista liderados por Luis Carlos Prestes
estado disputava os favores do governo federal, mas organizaram uma revolução social que ficou conheci-
não formavam um bloco regional. Pinheiro Machado da como Intentona Comunista ou Integralista; em 1937
chegou a “flertar” com eles, mas não houve aliança. Ar- surge a União Nacional dos Estudantes – UNE – de
thur Bernardes fazia um governo instável e não apoiou onde sairão nomes políticos importantes para a afirma-
o candidato Assis Brasil, da oligarquia gaúcha; Borges ção do regime democrático que se pretendia.
de Medeiros era, mais uma vez, o candidato da presi- Em 1937, Getúlio Vargas, influenciado pelas ideias
dência. O Pacto Pedras Altas colocou fim à guerra civil nazistas e fascistas europeias, desferiu o golpe contra
que se instalou no Rio Grande do Sul, em 1922. Mais o estado de direito: criação do Estado Novo. Foi apoia-
tarde, a Aliança Liberal (gaúchos + mineiros) levará do pelos cafeicultores, empresários, industriais, grupos
Getúlio Vargas ao poder, mesmo contra a posição dos da esquerda e classe média urbana, receosos da ex-
paulistas e rachando a política do café com leite. pansão da esquerda e do crescimento dos comunis-
No meio da Primeira Guerra Mundial, para ajudar tas. Houve o fechamento do Congresso Nacional, das
os cafeicultores, o governo federal emitiu papel-moeda Assembleias e das Câmaras Municipais e intervenção
sem lastro (política do Encilhamento), provocou infla- federal nos estados, além de muita violência. Os direi-
ção, o que piorou a vida dos trabalhadores do campo tos às liberdades democráticas foram limitados (nem
e da cidade. A variação da taxa cambial favorecia os pensar em agremiações políticas ou imprensa e cultura
exportadores (de café, cacau, mate, açúcar, borracha, livres); quem se opusesse seria preso e/ou deportado;
couro, etc.), prejudicava os importadores de máquinas, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda
combustíveis, etc. e aumentava a dívida externa (de- – DIP – responsável pela vigilância nacional dos meios
víamos em libra e, com o real – o plural dessa moeda de comunicação e propaganda do presidente; foi criada
era réis – valendo menos, passamos a dever mais aos a “Hora do Brasil” (hoje, Voz do Brasil), etc.
ingleses). Olha o processo inflacionário outra vez! Algumas concessões trabalhistas foram permitidas;
Não tivemos partidos políticos fortes; alguns imi- adoção do salário mínimo, regulamentação da jornada
grantes italianos e espanhóis fundaram sindicatos ope- trabalhista, inclusive o trabalho infantil, indenização em
rários com base nas ideias anarquistas ( eles odiavam caso de dispensa do trabalhador sem justa causa, etc.
o capitalismo, o Estado e a Igreja). Veja o que nos diz Ocorreu o fortalecimento do estado e a economia se-
SCHMIDT (1998, p. 249): guia sem sobressaltos.
Em 1943, ocorreu o Manifesto dos Mineiros, exi-
No Brasil, alguns militantes sindicais, en- gência dos liberais, que questionava o autoritarismo
tusiasmados com o extraordinário acon-
tecimento (da Revolução Russa) basea- varguista e que acaba publicando uma emenda à
do nas ideias do socialismo científico de Constituição permitindo a criação de partidos políticos
Marx e Engels, chegaram à conclusão de
que o anarquismo não estava com nada. e prometendo eleições para 1945. Apoiando Vargas
Achavam que os trabalhadores precisa- surgem os partidos PTB (Partido Trabalhista Brasileiro)
vam ter uma organização central forte, tal e o PSD (Partido Social Democrata). A UDN (União De-
como na Rússia: um partido político revo-
lucionário. Assim, vários ex-anarquistas, mocrática Nacional) era opositora e de direita; o PCB
entre operários, estudantes e intelectuais sai da ilegalidade decretada por Vargas. Uma contradi-
fundaram aquele que deveria ser o parti-
do do proletariado: o Partido Comunis- ção acompanhou-o: como ele poderia defender a de-
ta do Brasil* (PCB), nascido em Niterói mocracia da ameaça comunista utilizando instrumen-
(RJ), em março de 1922. tos antidemocráticos e impondo um regime ditatorial? A

145
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Constituição de 1937 previa eleições para o Congresso presidência com o objetivo de preparar a volta de Getú-
que nunca foram realizadas. Ainda não se sabem as lio anos mais tarde. Industrialmente não houve avanço
respostas corretas para esses questionamentos. Quem nem crescimento. No Estado Novo tivemos “alterações”
sabe você descobrirá documentos históricos capazes significativas como a perseguição aos sindicalistas, co-
de oferecer-nos a verdadeira intenção de Getúlio? Vá munistas, fechamento do Congresso Nacional, interven-
pensando nisso... Até a próxima! tores federais no lugar de governadores e prefeitos, etc.
O presidente inicia construções para as unidades de
3 RESUMO base e construções de estaleiro, gerando mais empre-
gos. Mas aí entram as contradições varguistas: criação
O Encilhamento de Rui Barbosa e Deodoro da Fon- das leis trabalhistas, instituição do salário mínimo, voto
seca repercutiu durante anos na economia brasileira feminino, entre outras garantias de trabalho, e a manu-
devido à inflação, emissão de papel-moeda, especula- tenção de um governo ditatorial! O operariado brasileiro
ção financeira, etc. As dívidas com as importações au- daquela época, certamente, apoiou o lado que lhe dava
mentavam, mesmo beneficiando apenas os exportado- garantias em vez de incertas aventuras revolucionárias.
res da monocultura agrícola. O governo emitia papéis Fim do Estado Novo. Vargas voltará!
financeiros sem lastro, o que abria espaço para grupos
criticarem-no abertamente, como os anarquistas e al- 4 ATIVIDADES
guns sindicalistas paulistas. Na política não tínhamos
1. Leia os textos sobre a Revolução de 1930.
grupos partidários fortes, capazes de enfrentar o gover-
A) Visão dos Tenentes
no. O Sudeste foi a região original da industrialização,
I- [...] Se a revolução era necessária em acresci-
especialmente o estado de São Paulo, mas o Rio de
da à história da República em 1924, com maior
Janeiro tinha o poder político (era a capital federal) e Mi-
razão o é em 1928. Não há, portanto, entendi-
nas Gerais, com suas oligarquias políticas, era voz ativa
mento possível entre a revolução e o governo,
também. Não é novidade a política do café com leite,
a menos que este último se decida a aceitar a
levando paulistas e mineiros à presidência através dos
aplicação do programa revolucionário. [...]
Partidos PRP e PRM. Somente em 1922, o PCB é for-
mado no país, mas será declarado ilegal e só em 1943 (Discurso de Miguel Costa, líder do movimento
sairá da ilegalidade. Não havia participação popular. tenentista de 1930).
Com a Primeira Guerra Mundial, houve redução das
importações no Brasil, uma vez que os países europeus II- [...] Não! [...] Não sou democrático e sim
dedicavam-se às atividades bélicas. O jeito era começar revolucionário, francamente revolucionário. A
a produzir aquilo que antes era importado. Quem ini- revolução continua a ser, para mim, a solução
ciou? Alguns imigrantes e empresários da cafeicultura. mais viável para esse complexo problema bra-
Contudo foi um período curto, já que em 1920 come- sileiro. Ela é o meio de provocar a transforma-
çamos a importar máquinas, matérias-primas e energia. ção radical, absoluta, do atual regime imperia-
Com uma balança comercial desfavorável, o governo lista. [...]
se viu obrigado a investir e incentivar aqueles que se (Discurso de Maurício de Lacerda, líder do
dispusesse a fabricar produtos por aqui. Houve cresci- Movimento Tenentista de 1930).
mento das unidades fabris, operários mais conscientes,
que exigiam melhores condições de trabalho e de vida, B) Visão da Esquerda
e a formação de grupos para discutir os rumos do país. [...] A corajosa marcha da Coluna Prestes exer-
Em 1934, o Manifesto dos Mineiros reivindica espaço ceu enorme influência no despertar das massas
político para os demais grupos políticos e econômicos desesperançadas e apáticas. Simultaneamente,
além dos companheiros de Vargas. Assim, de fileiras sua atividade levou a luta a uma camada mais
organizadas saem pessoas para formar, junto com as ampla da população e apresentou uma platafor-
direções políticas estaduais, os primeiros partidos políti- ma realmente capaz de atrair as massas. Quan-
cos: PTB e PSD, que apoiarão Getúlio Vargas em 1945. do da revolução de 1922 e da mesma forma em
A UDN era oposição. O candidato de Vargas vence a 1924, os revolucionários se bateram por peque-

146
AULA 23 • CONSTITUIÇÃO DO QUADRO DE FORÇAS POLÍTICO-ECONÔMICAS NO FINAL
DA DÉCADA DE 1930

nas reformas democráticas e liberais, insurgi- caíram em 1930, a Nação vê renascer a sua
ram-se contra a “falta de liberdade, de justiça”, consciência política e olha o futuro, com ânimo
etc. Mas, com o desenrolar do movimento, seu de caminhar pelos seus próprios passos, sem
programa clamou por uma revolução mais pro- a tutela dos falsos guias que a conduziram ao
funda. O confisco das grandes propriedades, a desprestígio político e à ruína econômica. A
eliminação dos impostos exorbitantes lançados Revolução de 1930 criou, evidentemente, uma
sobre o campesinato empobrecido, a repartição nova mentalidade nacional. Marcou o início de
do latifúndio, o controle dos imperialistas e da uma etapa de consciência política. [...]
burguesia local foram reivindicações feitas pe- (Gal. Waldomiro Castilho de Lima, interventor
los evolucionários. [...] federal no governo de São Paulo em
(Discurso de Astrogildo Pereira, um dos 20/07/1933).
primeiros e principais líderes do Partido Elabore um texto identificando a versão que cada
Comunista Brasileiro, proferido em Moscou, um dos documentos acima oferece sobre o movimento
em 1929) de 1930.
C) Visão de um Liberal 2. Pesquise as principais características e propostas
[...] Tem-se procurado indispor o Partido Demo- dos partidos políticos da era Vargas e compare-os
crático com os revolucionários brasileiros [...]. com os atuais.
Nem o Partido Democrático pode ser contra os 3. Leia o panfleto enviado aos soldados brasileiros no
revolucionários, uma vez que deles conta em sua período de 1917 a 1920.
direção e em suas fileiras numerosos elementos “Irmãos soldados!
participantes do movimento verificado, nem pode Vocês vieram da pobreza como nós.
como agremiação política organizada ser pela Quando terminarem o serviço militar,
irão para o campo, para o balcão, para
revolução [...]. Se amanhã, porém, eu entender
a fábrica e serão escravos dos patrões.
que essa atitude é inútil, que é melhor entregar- Por isso, parem de reprimir seus irmãos!
me aos azares de um movimento armado, contra Juntem-se a nós contra os exploradores!”
(SCHIMIDT, 1998, p. 247).
o poder constituído como único meio de salvar o
Brasil, eu deixarei de ser democrata arregimen- Identifique os grupos sociais do texto.
tado, para ser ou voltar a ser revolucionário [...].
Nada vejo de paridade entre uma coisa e outra. REFERÊNCIAS
Revolução é uma contingência a que tanto pode DE DECCA, Edgar. 1930: o silêncio dos vencidos.
ser levado um membro do Partido Democrático São Paulo: Brasiliense, 1982.
como um cidadão qualquer [...].
PRIORE, Mary Del; NEVES, Maria de Fátima das;
(Um membro do Partido Democrático em ALAMBERT, Francisco. Documentos de História
07/02/1929 em O Combate). do Brasil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Sci-
pione, 1998.
D) A versão “oficial”
O Brasil atravessa hoje uma fase extraordina- SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
riamente delicada. Marca-se a transição entre 500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul-
tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.
duas etapas de sua história política e, se nos
espíritos que veem os fenômenos sociais com
ponderação e clarividência, não é permitido PARA SABER MAIS
supor que a um período de política oligárquica Livros
como a que tivemos até 1930, suceda imedia-
tamente, como nas mutações de cenografia, História do Brasil - Luiz Koshiba - Editora Atual
um outro de plena integração do país no re- História do Brasil - Bóris Fausto - EDUSP
gime republicano, entretanto, é evidente que, Esses dois são livros didáticos que oferecem inter-
desperta do sono cataléptico que dormira, ao pretações atualizadas e com visão de outros autores
embalo dos cantos de sereia dos reguletes que sobre a história brasileira do século passado.

147
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 24

OS EFEITOS DA GRANDE DEPRESSÃO SOBRE A


POLÍTICA ECONÔMICA BRASILEIRA

Objetivos
• Compreender o quadro econômico mundial após a
quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque.
• Relacionar a situação político-econômica brasileira
com a crise de 1929.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Meu caro aluno,


Hoje teremos uma aula diferente. Para dar início à nossa unidade 06 e para abrir a aula 24, quero lhe propor
uma pesquisa sobre o livro Foto de uma conversa, de Cristovam Buarque. É uma linda entrevista entre o autor e
Celso Furtado, feita em Paris (1991). Veja nos sites abaixo.
http://www.fflch.usp.br/dh/pos/he/index.php?option=com_content&view=article&id=5&Itemid=22 Acesso em:
11 fev. 2011.
http://www.centrocelsofurtado.org.br/interno.php?cat=3&lg=pt&it=89&TpPag=1&mat=69 Acesso em: 14 fev.
2011.

Foto de uma conversa, de Cristovam Buarque

(VERA LUCIA AMARAL FERLINI)


Este livro é a fotografia de uma conversa entre dois professores e economistas brasileiros que foram além
da profissão: homens de ação, pensadores sobre problemas do Brasil e do mundo, executores de projetos
nascidos de suas ideias. Como primeiro ministro do Planejamento do Brasil, Furtado elaborou e executou um
plano de desenvolvimento para o país, com o objetivo de quebrar o círculo vicioso da pobreza e do atraso em
relação ao resto do mundo; criou e dirigiu a SUDENE, dando início à luta pela superação das desigualdades
regionais.
Cristovam, como reitor da Universidade de Brasília, governador do Distrito Federal e ministro da Educa-
ção, defendeu que o caminho é uma revolução educacional e executou diversas de suas ideias, das quais a
mais conhecida é a Bolsa Escola, ampliada para a Bolsa Família.
Ambos tinham a preocupação ética de superar as injustiças e as desigualdades; centraram suas ativi-
dades políticas na necessidade de reformas democráticas; os dois encaram os problemas sociais com uma
visão econômica heterodoxa, sem descuidar do humanismo.

Também em Brasília, o caderno Pensar do Correio


Brasiliense, de 17 de fevereiro de 2007, trouxe a se-
guinte reportagem:

FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL, de Celso


Furtado, permanece entre as obras que melhor
explicam o país e ganha reedição da Companhia
das Letras.

UNANIMIDADE NACIONAL

(Nelson Torreão, da equipe do Correio)


Quando faziam as entrevistas para Conversas
com economistas brasileiros (Editora 34 Ltda., São
Paulo, 1996), Ciro Biderman, Luis Felipe L. Cosac e
José Marcio Rego se defrontaram com uma unanimi-
dade – de Delfim Netto a Maria da Conceição Tava-
res, passando por Roberto Campos, todos os entre-
vistados citavam Formação Econômica do Brasil, de
http://i.s8.com.br/images/books/cover/ Celso Furtado, entre os livros mais importantes que
img7/19374974.jpg Acesso em 29 abr.2011. haviam lido.

150
AULA 24 • OS EFEITOS DA GRANDE DEPRESSÃO SOBRE A POLÍTICA ECONÔMICA BRASILEIRA

A obra deve sua importância à originalidade das metodológico. Quando analisa a dificuldade do país
teses defendidas por Furtado sobre o desenvolvimen- para se adaptar ao padrão-ouro, na fase da transição
to econômico do Brasil. Recorrendo às ferramentas do trabalho escravo para o assalariado, Furtado escre-
de análise da escola estruturalista – da qual Furta- ve: “Esse problema não preocupou os economistas eu-
do e o economista argentino Raul Prebisch foram os ropeus, que sempre teorizaram em matéria de comér-
pais – Formação Econômica do Brasil sustenta que o cio internacional em termos de economias de grau de
subdesenvolvimento do país se deve a características desenvolvimento mais ou menos similar, com estrutu-
históricas que tornam o país diferente das economias ras de produção não muito distintas e com coeficientes
desenvolvidas. Ao reivindicar essas especificidades, de importação relativamente baixos.” (Formação Eco-
Furtado descarta, como inapropriada, a aplicação de nômica do Brasil, p. 161-2).
conceitos da teoria econômica europeia ao caso bra- Outra contribuição importante de Formação econô-
sileiro. As respostas para entender o problema do sub- mica do Brasil é a descrição da gênese do processo de
desenvolvimento nacional não deveriam ser buscadas industrialização do país. Nos últimos capítulos do livro
apenas na teoria econômica, mas também nas estrutu- Furtado demonstra que “(...) a industrialização do Brasil
ras sociais, política e institucionais que se geraram ao dos anos 30 se fez sem política de industrialização pro-
longo da história. É nesse ponto que reside a primeira priamente. Esta surgiu com Volta Redonda, muito tem-
contribuição metodológica de Formação Econômica po depois. Houve industrialização, só que sem política.
do Brasil, primeiro volume da obra completa do au- Isso até hoje impressiona. E como foi possível então?
tor, que será publicada integralmente pela Companhia Mostrei a criação de demanda efetiva, que decorria do
das Letras – o próximo lançamento será A economia grande pecado que era queimar café. Queimaram oi-
latino-americana. O enfoque globalizante de Formação tenta milhões de sacas de café, e isso criou uma de-
Econômica do Brasil, que impressionou Delfim Netto manda efetiva que sustentou a economia.” (entrevista
– “aquela interpretação integral, global, transmite uma em Conversas com economistas brasileiros, p. 75).
lógica para a história que é absolutamente fantástica” Para demonstrar suas teses, Furtado recorre a
– é, como disse Furtado aos autores de Conversas comparações com a economia norte-americana, o que
com economistas brasileiros, uma das chaves para a em certos casos resulta em conclusões surpreenden-
permanência da obra: “A novidade que impressionou tes. Por exemplo, a de que, depois do crack da Bolsa
muita gente, inclusive na Europa – [Fernand] Braudel, de Valores de Nova York, em 1929, os Estados Unidos
um importante historiador, admirou-o muito por isso –, continuaram afundando, enquanto Brasil crescia já a
foi que eu coloquei o país na história global. O Brasil partir de 1932: “Portanto, não crescia como economia
nasce como parte de um processo de desenvolvimento reflexa, mas por dinâmica própria. Inventei o concei-
e expansão da Europa. Essa ligação entre a formação to de deslocamento do centro dinâmico. Isso fez com
da economia brasileira e o processo da economia glo- que muita gente compreendesse melhor o Brasil, o que
bal era uma visão nova.” (p. 75). considero o lado mais sedutor do livro” (entrevista em
Da interpretação de Furtado sobre os ciclos eco- Conversas com economistas brasileiros, p. 75).
nômicos brasileiros – a agricultura tropical da cana- A crise de 1929 marca, para Furtado, o fim de uma
de-açúcar, a economia escravista mineira do ciclo do fase da economia brasileira, a partir da qual os inves-
ouro, a transição para o trabalho assalariado, com o timentos se deslocam do setor exportador para seto-
fim da escravidão – emerge uma estrutura produtiva res do mercado interno. Essa ideia de “deslocamento
dupla, caracterizada pela convivência entre um setor do centro dinâmico” transformou-se, nas palavras de
de alta produtividade, ligado às exportações, e outro, Ricardo Bielschowsky (Pensamento econômico brasi-
o setor de subsistência, de baixa produtividade. Essa leiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo, 4 ed.,
dualidade, que impediu o crescimento do mercado in- Rio de Janeiro: Contraponto, 2000), “numa espécie de
terno, responde pelas dificuldades do processo de de- paradigma da análise da história econômica brasileira
senvolvimento brasileiro, como a baixa capacidade de da primeira metade do século 20.” (p. 141). Acesso
investir, as recorrentes crises fiscais e do balanço de em: 19 nov. 2010.
pagamentos e a inflação. A correta interpretação desse Ao nos referirmos à formação econômica do Brasil
fenômeno exigia, para Furtado, um novo instrumental não se pode deixar de citar o trabalho de Celso Furtado

151
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

que, mesmo sem ter formação em economia, vivenciou fatos e manuseou documentos que retratavam a realidade
nacional, sem nenhuma interpretação oficial e internacional. Foi isso que esse funcionário público fez para nós.
Espero e desejo que você perceba também a importância do ponto de vista de outros economistas brasileiros que
contribuem efetivamente com suas explicações do “economês” em nossa vida. Que as ideias declaradas acima
sirvam de estímulo para você entender e analisar criticamente nossa formação econômica.
Agora, sim! Vamos à nossa aula de fato.

1 INTRODUÇÃO
A dança de rua – Street Dance – é um conjunto de estilos de danças com movimentos detalhados (acompanha-
dos de expressão facial) e as seguintes características: movimentos fortes, rápidos, sincronizados e harmoniosos,
simétricos de pernas, braços, cabeça e ombros; assimétricos de pernas, braços, cabeça e ombros; coreografados.
As músicas, independentemente do estilo de Street Dance, têm a batida forte como principal característica A
dança de rua originou-se nos Estados Unidos, em 1929, época da quebra da Bolsa de Valores de Nova York e da
grande crise. Músicos e bailarinos dos cabarés americanos urbanos desempregados, como consequência da crise,
passaram a realizar suas performances nas ruas. Nas décadas seguintes, outros ritmos de origem afro-americana,
como o Blues e o Rhytm and Blues, influenciaram a dança de rua. Disponível em: http://www.infoescola.com/
danca/danca-de-rua/. Acesso em: 19 fev. 2011.
Meu prezado aluno, o texto acima é de Thais Parievitch e constituirá a introdução do nosso assunto hoje, pois
vamos falar de algumas condições socioeconômicas após a quebra da Bolsa de Valores nos Estados Unidos. Você
percebeu como o nível de emprego caiu justamente no país que tinha a linha de frente da produção industrial? Pois
é, em aulas anteriores, comentamos sobre o ciclo de Kondratiev, e agora você terá a oportunidade de entendê-lo
melhor. Veja a FIG. 1.

FIGURA 1 - Preços no mercado dos EUA, França e Reino Unido – 1790/1920


Fonte: Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nikolai_Kondratiev. Acesso em: 20 fev. 2011.

Dá para perceber que a ascendência representa a prosperidade – P – enquanto a depressão – D – está


em descendência, certo? Os ciclos, com duração de 40 a 60 anos, mostram as flutuações características do
capitalismo com direito à recessão – R – e E, uma previsão pouco provável; para o autor Kondratiev, era uma
antevisão de crise no socialismo. Ele foi um dos teóricos da NEP soviética, publicou seu livro em 1924 e provou
estatisticamente as “ondas longas” ou ciclos econômicos envolvendo os Estados Unidos, a França e a Inglaterra.
Seus companheiros russos não gostaram nem um pouco dos seus estudos, e por isso ele foi preso, condenado

152
AULA 24 • OS EFEITOS DA GRANDE DEPRESSÃO SOBRE A POLÍTICA ECONÔMICA BRASILEIRA

e, em 1938, fuzilado em seu cárcere. Deixou-nos her- ocupar a mão de obra e cair os índices de desemprego,
deiros como Joseph Schumpeter, Carlota Perez, Ernst entre outras medidas sociais.
Mandel, e, no Brasil, Theotônio dos Santos e Ignacio A Bolsa de Valores de Nova York demorou a re-
Rangel. O último mostrará, em 1950, a dualidade eco- fletir o declínio da produção e a queda nas vendas no
nômica brasileira: de um lado, nossa dinâmica interna; mercado interno e no externo. Títulos e ações caíram
do outro, nossas relações com as economias centrais. vertiginosamente em 29 de outubro, e, em poucos dias,
Não havia dados estatísticos em sua análise. Mais tar- milhares de investidores ficaram arruinados, pequenas
de, Furtado ocupará esse vácuo, de forma brilhante e médias empresas faliram, despedindo trabalhadores.
para a época. Viu como os músicos e dançarinos da vida noturna nas
principais cidades mostravam seus trabalhos? Era a
2 ALGUNS ASPECTOS DA CRISE luta pela sobrevivência! E viva a street dance!
Em 1937, houve a segunda depressão e, como na
NORTE-AMERICANA DE 1929
Europa já existia uma situação tensa, o governo norte-
Ao término da Primeira Guerra Mundial, os Estados americano passou a incentivar a indústria de armamen-
Unidos tinham suas indústrias com alto grau de eficiên- tos, reativando a economia. Assim terminou a crise de
cia e produtividade, produzindo os mais variados bens 29 nos Estados Unidos da América.
de consumo a preços baixos. O mesmo ocorria no setor No caso brasileiro, Vargas seguiu a mesma linha,
primário, pois a utilização das máquinas e equipamento promovendo a industrialização e o crescimento econô-
liberava famílias e grupos para os centros urbanos. A mico. Na agricultura, comprou o café dos produtores e
mecanização provocou um enorme crescimento urba- queimou-o (os EUA queimaram o trigo na mesma épo-
no e engrossou o exército industrial de reserva (mão ca). Em 1953 foi criado o Instituto Brasileiro do Café
de obra qualificada e disponível). Os produtos norte- – IBC (extinto em 1990, pelo então presidente Collor)
americanos espalharam-se pelo mundo, assim como para controlar o “preço” do café; o Instituto do Açúcar
seu capital, ocupando o espaço que era da Inglater- e do Álcool – IAA – voltou-se para o mercado interno.
ra, da França e da Alemanha. Para Schimidt (1998, p. Feijão, arroz, mandioca, milho, carne e derivados re-
283-284), de repente, o mundo descobriu “as lâmpadas presentavam cerca de 36% do valor da produção agrí-
e rádios da General Eletric, o sabonete Palmolive, a cola nacional. Em 1935, Vargas autorizou a entrada de
pasta Kolynos, o talco Night & Day, os filmes Kodak, a produtos dos EUA por aqui (industriais brasileiros recla-
aveia Quaker, os enlatados Swift e, o sabor dos sabo- maram da concorrência norte-americana, mas o café
res, o elixir dos deuses ianques, a Coca-Cola”. tinha, naquele país seu maior comprador! Viu a troca?).
A crise de 1929 tinha feito todos os países capitalis- Para Furtado (1974, p. 83),
tas abandonarem o liberalismo econômico. O presiden-
[...] com a crise mundial de 1929 era pra-
te dos EUA, F. Roosevelt, em 1932, instituiu o plano de ticamente impossível a continuação da
recuperação nacional através do New Deal, seguindo obtenção de crédito no exterior para fi-
nanciar a retenção de novos estoques de
as ideias do economista inglês J. M. Keynes. O Estado café visando conter a queda dos preços.
deveria interferir na economia com obras públicas, ge- Por outro lado, mesmo que as perdas ad-
rando empregos, criando empresas estatais, controlan- vindas da crise se traduzissem em desva-
lorização cambial, o que teria como con-
do as atividades econômicas privadas e a circulação da sequência baratear o preço internacional
moeda. Essa presença do Estado na economia perdu- do café, pelo lado da demanda do mer-
cado internacional não poderia absorver
rou até os anos de 1980 e foi seguida por quase todos toda produção existente, haja vista que a
os países que adotavam o capitalismo. queda do preço do café teria pouco im-
O New Deal incentivou a diminuição da produção pacto na sensibilidade da demanda. Des-
se modo, o modelo de desenvolvimento
agrícola (olhe a oferta e procura, outra vez!), instituiu o econômico baseado nas exportações
planejamento industrial com o objetivo de controlar os cafeeiras viu seu final com o advento da
crise de 1929.
preços e limitar a produção e estabeleceu um salário
mínimo. Os operários deveriam se filiar aos sindicatos; O Brasil quase não tinha indústria de base (= de
houve recuperação e preservação dos solos agrícolas produção: aço, cimento, navios, trens, maquinário pe-
e a instituição de programas de reflorestamento para sado, petroquímica, etc.), e era preciso muito capital

153
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

para os investimentos, cujos lucros seriam demorados. dos), e os empresários brasileiros investiram nas ativi-
Restava ao governo federal dar o exemplo: então, em dades industriais lucrativas. Bresser Pereira (1985, p.
1940 é criada a Companhia Nacional do Petróleo; em 118) diz que
1942 é implantada, em Volta Redonda (RJ), a Compa- [...] a capacidade ociosa existente nas
nhia Siderúrgica Nacional com capital e tecnologia nor- empresas brasileiras foi prontamente
te-americana (bem que os alemães tentaram derrubar utilizada. A indústria desta época se con-
centrava, basicamente, na produção de
os ianques!), a estatal Companhia Vale do Rio Doce bens de consumo que exigiam máquinas
em 1943 (hoje, empresa privada: Vale) e, em 1944, a e equipamentos comuns, destacando-se
as indústrias alimentícias, farmacêuticas,
Companhia Nacional Álcalis (CNA), além da Fábrica metalúrgica, artigos de higiene e limpeza,
Nacional de Motores (FNM). perfumaria, entre outras.
Em 1938, os poços de petróleo já eram naciona- Como resultado desta expansão, verifi-
lizados, de forma que o Conselho Nacional do Petró- cou-se que em 1935 a produção industrial
leo – CNP – abriu espaço para a criação da Petrobras foi 27% maior que a de 1929, chegando a
ser 90% maior que a de 1925. Em termos
mais tarde. As transformações geradas por Vargas mo- absolutos, nos anos de 1920 foram cria-
dernizaram o país, diminuíram o poder das oligarquias dos 4.697 estabelecimentos industriais,
enquanto na década seguinte foram cria-
estaduais e permitiram a industrialização tardia do Bra- dos 12.232.2 Portanto, a década de 1930
sil, baseando-se no planejamento e no uso de capital pode ser considerada como a época que
estatal. Nesse período foram criados seis órgãos de impulsionou o desenvolvimento industrial
brasileiro e o processo de substituição
planejamento de alcance nacional, mas não houve um das importações de bens leves de con-
projeto efetivo de industrialização articulado e definido sumo.
para o país. Com o advento da Segunda Guerra Mun-
Assim, nossa atividade industrial contou com dois dial, a atitude do governo foi idêntica
àquela que havia sido adotada imediata-
fatores: de um lado, a política de manutenção da de- mente após a crise de 1929. Esta política
manda e do poder aquisitivo interno (compra do café mais uma vez manteve a renda do setor
cafeeiro e a demanda interna para os pro-
pelo governo) e o aumento dos produtos manufatura- dutos industriais.
dos vindos do exterior e sua consequente queda de
Além disso, entre 1937 e 1945 ocorreu
importação. Nem todos os agricultores tiveram acesso uma melhora nas relações de intercâm-
aos financiamentos e vantagens concedidas pelo go- bio e um incremento na demanda por ex-
verno. E mais, o atraso na acumulação de capital só foi portações, tendo em vista que os países
industrializados haviam direcionado sua
superado nos anos de 1950. produção para as atividades de guerra, o
O preço mínimo do café era garantido pelo IBC e que acabou reduzindo significativamente
a oferta de produtos importados para o
foram mantidos os empregos na exportação agrária e Brasil.
nas atividades ligadas ao setor. Novamente Furtado
Estes fatores ocasionaram uma nova
(1974, p. 213) relata: onda de oportunidades para a realização
de investimentos e a esperança de outro
[...] o valor do produto que estava sendo surto de desenvolvimento industrial. Po-
destruído era muito inferior ao montante rém tal fato não ocorreu devido à elevada
de renda que estava sendo criado. Des- dependência da indústria brasileira às im-
te modo, os investimentos não se desti- portações de equipamentos.
navam a aumentar a produção, mas sim
manter o nível de emprego e de deman- Deste modo, durante a Segunda Guerra
da agregada. Visando manter a renda do Mundial se inviabilizou o aumento da pro-
setor cafeeiro, o governo impulsionou a dução na magnitude exigida pela deman-
demanda para os produtos industriais, da existente, o que fez com que muitas
que tiveram a partir de então o papel de fábricas operassem com uma capacidade
substituir as importações dos bens manu- além da normal.
faturados.
Não se pode deixar de reconhecer que a “Era Var-
Os produtos importados sofreram com a desvalori- gas” reestruturou o território brasileiro com base em
zação cambial e com a queda do poder aquisitivo das uma centralização administrativa. Foi com seu governo
populações capitalistas mundiais, mas nosso poder de que o Estado passou a investir em infraestrutura: am-
compra aumentou (não tínhamos muitos desemprega- pliação das estradas, aumento da capacidade energé-

154
AULA 24 • OS EFEITOS DA GRANDE DEPRESSÃO SOBRE A POLÍTICA ECONÔMICA BRASILEIRA

tica e criação das indústrias de base. Medidas protecio- o interesse dos cafeicultores e evitar diminuição da
nistas beneficiaram o crescimento e desenvolvimento renda interna. Ele criou o Ministério do Trabalho (as
do nosso parque industrial e houve ampliação do mer- leis trabalhistas, sindicais e sociais inserem-se nesse
cado consumidor interno. O estado de São Paulo – em contexto), empresas de planejamento e de fomento
virtude da economia cafeeira – foi o que mais recebeu como bancos e seguradoras, incrementou a indústria
vantagens: ferrovias estatais, melhoria nos portos como de base através de empresas como a CSN, CVRD,
o de Santos, instalação de usinas hidroelétricas, insta- PETROBRAS, CNA, etc.
lação e ampliação da rede bancária e, claro, geração Internamente, houve investimentos particulares em
de milhares de empregos que provocou o êxodo rural outras atividades industriais e do capital proveniente
e a chegada de migrantes nordestino para ocupar as da cafeicultura, ampliação do mercado interno, mão de
vagas disponíveis. obra disponível e produção de bens de consumo (durá-
A street dance chegou à região portuária de San- veis e não duráveis). A centralização do poder federal,
tos (SP) nos anos de 1970, sofrendo influências das a crise internacional e a ameaça da Europa com um
ruas, academias e do cinema norte-americano. Aqui possível conflito aumentaram nossas chances de cres-
também foram pessoas desempregadas e de des- cimento industrial.
cendência afro-brasileira que fizeram a dança de rua Se havia ociosidade na capacidade das pequenas
crescer e se espalhar pelo país. Muito bom quando a atividades industriais, o governo tratou de incentivar a
economia pode se ligar à cultura e capacitar pessoas produção de bens leve de consumo não duráveis, já
para uma integração nacional, né? Esse assunto de que a 1ª GM dificultava sua importação. Após 1940,
economia+cultura+renda nacional será o tema da pró- pode-se dizer que a base do Estado capitalista brasi-
xima aula. Aguarde-a com movimentos fortes, sincroni- leiro evidenciou-se com o acúmulo interno de capitais,
zados, harmoniosos, simétricos ou não, para você não desenvolvimento de indústria de base no setor privado
ficar parado por aí... Até breve! e da infraestrutura estatal: fontes de energia, estradas
e melhoria dos portos. Contudo não se pode negar que
3 RESUMO o café foi a condição e o resultado para a industria-
lização. Começávamos a diversificar nossa pauta de
Industrialização significa um processo abrangente exportação!
de difusão de maquinofaturas, produção em grande
escala baseada na racionalização e na divisão técnica 4 ATIVIDADES
do trabalho, com a formação de um grupo proletário
1. Nos primeiros anos do século XX, o território bra-
urbano e intensificação dos antagonismos de classes
sileiro ainda se encontrava fragmentado em “ilhas”
sociais: proletariado e “burgueses”. No caso do Bra-
econômicas regionais. Defina a expressão “arqui-
sil, não reuníamos todos esses atributos e, por isso,
pélago econômico” e explique por que ele foi utili-
a década de 1930 é um marco histórico na fase inicial
zado para explicar a situação econômica no início
do processo industrial. A crise de 1929 ocorrida nos
do referido século.
Estados Unidos acorrentou também as economias ca-
pitalistas mundiais. Lá foram elaborados vários planos 2. Com a industrialização brasileira, ocorreu a urba-
para recuperação agrícola, industrial e para manuten- nização e o êxodo rural somou-se às migrações
ção de renda do trabalhador. Aqui, a crise chegou à inter-regionais. Explique e exemplifique essa situ-
produção cafeeira, cujos estoques eram enormes, ação.
pois o consumo internacional diminuiu, o preço des- 3. Para o historiador Bóris Fausto (1997, p. 227), a
pencou e a demanda interna poderia ser alterada tam- sociedade brasileira era “como um organismo so-
bém. Caindo os preços do café, muitos agroexporta- cial em que predominavam os interesses do setor
dores ameaçavam com demissão de trabalhadores, agrário-exportador, voltado para a produção de
e a população urbana desempregada começava a café, representado pela burguesia paulista e parte
crescer. Para não atingir as oligarquias dos cafezais, da burguesia mineira.”
Getúlio Vargas decretou a compra do café, queiman- Comprove com um exemplo a veracidade da afir-
do-o (como os EUA fizeram com o trigo) para manter mativa de Fausto.

155
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

REFERÊNCIAS PARA SABER MAIS


Livros
FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiogra-
fia e história. 16. ed. São Paulo: Companhia das Le- KONDRATIEV, Nicolai. Los ciclos largos de la
tras, 1997. coyuntura econômica. México DF: UNAM, 1992.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Bra- MANDEL, Ernst. O capitalismo tardio. São Paulo:
sil. 12. ed. São Paulo: Nacional, 1974. Abril Cultural, 1985.

PEREIRA, Luis Carlos Bresser. Desenvolvimento e RANGEL, Ignácio. O quarto ciclo de Kondratiev. Re-
crise no Brasil 1930-1983. São Paulo: Brasiliense, vista de Economia Política, v. 10, nº 4 (40), out.-
1985. dez., 1980, p. 30-43.
SERRA, José. Ciclos e mudanças estruturais na
economia brasileira do pós-guerra. In: Desenvolvi-
Site mento capitalista do Brasil: ensaios sobre a crise.
http://www.portalcse.ufsc.br/gecon/coord_ São Paulo: Brasiliense, 1982. v. 1.
mono/2004.2/Jos%E9%20Adoril%20dos%20
Santos.pdf. Acesso em: 20 fev. 2011.

156
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 25

A POLÍTICA DE DEFESA DO CAFÉ UTILIZADA


DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO E SEU
IMPACTO SOBRE A RENDA NACIONAL

Objetivos
• Entender como a cafeicultura criou a renda interna
no Brasil.
• Analisar aspectos socioeconômicos da crise de 1929
no Brasil.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO dos Unidos inflamavam o comércio com seus produtos:


cinema hollywoodiano, jazz, fox-trot, charleston, or-
São Paulo questras repetindo nos bailes as músicas tocadas no
Sérgio Milliet rádio (de válvulas eletrônicas, importado dos EUA). Foi
Dos violoncelos dos viadutos uma farra total (mas apenas entre os ricos e os intelec-
sobe a sinfonia da circulação tuais, não se esqueça)! Os países-fábrica dominavam
São Paulo! o mundo com seus produtos e capitais; as economias
A Rua São João cheira a café. coloniais atreladas à produção primária e dependente
Confundem-se os estilos nessa riqueza sem cultura dos produtos e capitais ou investimentos externos au-
Agricultura mentavam suas dívidas internas. Outra farra!
Apicultura Após os anos de 1930, o Governo reforçou a sua
Que loucura! capacidade de intervenção sobre a sociedade civil e,
Longínquo o desafio dos trens e das usinas logicamente, sobre os operários, especialmente os sin-
O sol faz brilhar multicor a bandeira das ruas dicalizados estrangeiros. A presença da colônia italiana
Inevitável associação de ideias: no estado mais forte em termos agrário e industrial é
Bandeirantes! evidente, até hoje, nas ruas paulistanas. A presença do
Mas para que conquistas? capital fez diferença no modo de vida dos paulistas, e
Spaghettis nacionalistas aí a Grande Depressão atingiu-os como um balde de
Avassalaram nosso Ipiranga água gelada nas noites frias paulistanas! É o que vere-
Ironia dos “Independência ou Morte”! mos a seguir.
(MILLIET, Sérgio.Poemas análogos. São Paulo:
Niccolini & Nogueira, 1927, p. 95) 2 DESENVOLVIMENTO DA
CAFEICULTURA E A FORMAÇÃO
Meu caro aluno, outra vez iniciamos nossa aula com
um poema fantástico de um crítico e ensaísta partici-
DA RENDA NACIONAL
pante do movimento modernista de 1922 e que nos re- Vimos que as atitudes do presidente Getúlio Vargas,
mete à historiografia brasileira, fatos socioeconômicos especialmente quanto ao setor agrícola, promoveram o
e a passagens urbanas cotidianas. A presença do rural início da industrialização como alternativa para reduzir
se faz através da apicultura, dos cafés transformados nossa dependência externa. Você sabe que não existe
em cultura, não é mesmo? Os “anos loucos” (década nenhuma indústria que crie mercado para si própria. É
de 1920) dos intelectuais e elites foram um tempo de preciso haver consumidores locais ou uma nova fonte
diversão, juventude e descompromisso (“pour épater le de divisas no caso de exportações. Então, a criação e a
bourgeois”, o que significa “para chocar o burguês”). As localização de indústrias necessitam de um olhar mais
mulheres começavam a ocupar postos de trabalho em atento a esses fatores. Para o Brasil daquela época, os
balcões de lojas, escritórios e fábricas, usando roupas capitais estatal e/ou nacional incentivaram o processo
mais curtas e sensuais, cabelos curtíssimos, fuman- industrial, como veremos adiante.
do em locais públicos, bebendo em festas até cair no Refletindo a desorganização mundial da Grande
chão, dando vexame, e os homens, drogando-se ou Depressão, no Brasil pós-1930, houve queda nos índi-
mesmo tomando banho nus em chafarizes públicos, ces de produção agrária e industrial. Por isso o governo
compunham cenas diárias nos grandes centros brasi- tratou de incentivar a indústria têxtil e de dar isenção
leiros (São Paulo e Rio de Janeiro, especialmente). O para os exportadores de bens de capital e da indústria
poeta Manoel Bandeira fez o seguinte verso: de base. Nosso parque industrial estava sob a influ-
ência do eixo Rio-São Paulo, que concentrou mais de
“uns tomam éter, outros cocaína/
65% da produção. As principais atividades, entre 1933
eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.”
e 1936, eram as têxteis, químicas, de papel, de cimen-
(citado por SCHIMIDT, 1998, p. 254).
to, aço e pneu (já tínhamos automóveis circulando no
Era muita loucura no Brasil rico e no mundo que Sudeste). Assim, também cresciam as importações de
acabara de passar por uma guerra enquanto os Esta- equipamentos para algumas dessas indústrias, aumen-

158
AULA 25 • A POLÍTICA DE DEFESA DO CAFÉ UTILIZADA DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO
E SEU IMPACTO SOBRE A RENDA NACIONAL

tando a dívida externa. Quanta falta os bens de produção faziam! (Bens de produção são máquinas e equipamentos
que constituem os principais meios de transformação das matérias-primas ou ainda instalações industriais, mate-
riais de construção, etc.). Veja os dados em Suzigan (1973).

TABELA 1
Taxas de Crescimento: Produção Industrial, PIB e Importação de
Bens de Capital para a Indústria, 1911-1945 (%)

Produto Interno Bruto Importação de Bens de


Produção Industrial
PIB Capital para a Indústria
**1917-1919** 3,6 - -14,8
**1920-1922** 6,2 3,2 12,3
**1923-1926** 0 1,3 14,0
**1927-1928** 8,0 12,4 -7,2
**1929-1932** 0 0,3 -31,7
**1933-1936** 14,1 7,4 41,0
**1937-1941** 8,3 4,5 -5,5
**1942-1945** 4,3 1,8 -1,1
Fonte: SUZIGAN, 1973, p. 472.

A TAB. 1 evidencia um crescimento percentual da básicos (siderurgia, mineração, álcalis,


petroquímica) e a reforçar a infraestrutura
produção industrial de 1917 a 1922 e de 1933 a 1945;
(energia e transportes). É importante res-
alguns anos entre as duas guerras apresentam insta- salvar, entretanto, que a ação do Estado
bilidade e pouco incorporação de bens de capital para em favor da industrialização nesse perí-
odo não obedeceu a uma estratégia de
a indústria e um ziguezague no PIB – Produto Interno desenvolvimento industrial. Isto só viria
Bruto (medida da riqueza criada no país durante um a ocorrer a partir da segunda metade da
década de 1950.
ano pela soma dos valores gerados nos setores eco-
nômicos; atualmente, é usado o PPC – Paridade pelo A busca pelas matérias-primas baratas e abundan-
Poder de Compra – medido pelo valor do dólar. O PIB tes, pelo mercado consumidor, por mão de obra, fontes
é o principal indicador do tamanho da economia de um energéticas, eficientes meios de transportes e teleco-
país, apesar de refletir apenas a quantificação da eco- municações atualmente são reflexos do período da Se-
nomia dos países; ainda assim é um bom indicador na gunda Revolução Industrial. Os modelos industriais e
Economia. Volte à análise da TAB. I. as forças produtivas afetaram a organização espacial
Para Suzigan (1991, p. 76) mundial, fazendo crescer o número de pessoas nas
cidades; consequentemente houve mais necessidades
[...] a demanda de produtos manufatura-
dos passou a crescer primordialmente em na infraestrutura básica (moradia, educação, seguran-
função da renda gerada nas atividades li- ça, transportes, lazer, etc.). Nem todas as pessoas ti-
gadas ao mercado interno, e o nível da
renda foi sustentado por políticas macro- nham acesso aos serviços básicos de sobrevivência,
econômicas expansionistas implemen- havendo um crescimento exagerado no setor terciário
tadas em defesa do setor exportador. A informal. Tal situação explica o “inchaço” desse setor
proteção à indústria foi aumentada devido
à desvalorização da taxa de câmbio, con- nos países subdesenvolvidos ou com hipertrofia urbana
trole do mercado de câmbio e controles naqueles em desenvolvimento. A busca por melhores
quantitativos das importações, impostos
pela crise cambial. Com isso, a indústria condições de vida, salário, conforto faz muitas famílias
passou a liderar o crescimento, e a indus- deslocarem-se para as áreas de atração econômica. (É
trialização avançou, substituindo impor- o caso da “fuga de cérebros, em que pessoas qualifi-
tações de bens de consumo e de alguns
bens intermediários. Mais tarde, entre fins cadas cientificamente saem dos seus países de origem
da década de 1930 e meados dos anos e dirigem-se para os países centrais, onde encontram
cinquenta, o Estado passou a financiar
e a investir diretamente no desenvolvi- melhores condições de vida) Brasil e Índia lideram esse
mento de algumas indústrias de insumos fenômeno mundial. Veja a TAB. 2.

159
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

TABELA 2
** 1919 ** ** 1939 ** ** 1949 ** ** 1959 **
Distrito Federal 20,1 19,9 14,2 10,4
Rio de Janeiro 7,5 5,6 6,4 7,2
São Paulo 32,2 40,7 48,8 55,5
Total Regional 59,8 66,2 64,4 73,1
Demais Estados 40,2 33,8 35,6 26,9
(*) - Inclui Governo.
Fonte: HADDAD, apud ABREU e VERNES, 1997, p. 26.

Aqui, há crescimento da indústria com reflexos no PIB e, logicamente, na renda nacional. Observe que há declí-
nio no setor primário em relação aos demais ao longo do tempo; muitas pessoas se deslocando para outras áreas
urbanas (cidades médias próximas aos centros de decisão, por exemplo). O PIB per capita representa uma média
da renda nacional por cada habitante. Não é uma parcela real, já que dissimula os contrastes entre os rendimentos
das diferentes classes sociais. Até hoje, os 10% mais ricos do país representam mais da metade do PIB nacional.
Durante muitos anos a classe agrário-exportadora ou a mineradora detiveram a maior renda, portanto, foi detentora
da riqueza nacional. A “nova” classe média alta também começou a participar de uma grossa fatia da renda nacional
e a se juntar com as elites.
Se, durante muitos anos, as oligarquias eram representativas dessa dualidade econômica, o crescimento in-
dustrial que se deu no pós-guerra beneficiou, sobretudo, uma parcela mínima da população, gerando uma classe
média urbana rica que se perpetua até hoje. A massa trabalhadora apropria-se de uma parcela mínima da riqueza
que produz. Em nenhuma nação do mundo a renda nacional é repartida de forma homogênea, mas muito poucas
delas apresentam padrões tão discordantes como o Brasil. Só perdemos para o Paraguai, Guatemala, República
Centro-Africana, Congo, Etiópia e Serra Leoa.
Veja a TAB. 3, que mostra os percentuais da participação de três áreas importantes no Brasil, no período de
1919 a 1959, e você poderá tirar outras conclusões sobre as diferenças entre elas.

TABELA 3

Indústria e Transformação: Participação do Distrito Federal e dos


Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro no Valor de Transformação
Industrial, para Anos Selecionados, 1919-1959 (%)
** 1919 ** ** 1939 ** ** 1949 ** ** 1959 **
Distrito Federal 20,1 19,9 14,2 10,4
Rio de Janeiro 7,5 5,6 6,4 7,2
São Paulo 32,2 40,7 48,8 55,5
Total Regional 59,8 66,2 64,4 73,1
Demais Estados 40,2 33,8 35,6 26,9
Fonte: IBGE apud CANO, 1985, p. 104.

Lembre-se de que o Rio de Janeiro (DF) era a capital nacional que usufruía de todos os acordos e benefícios
governamentais e que começará a perder participação a partir de 1959 (a capital seria transferida para Brasília em
1960), enquanto São Paulo estará em ascendência. Mais uma vez, haverá no estado paulista a concentração das
atividades brasileiras.
Desde 1914, a geografia dos movimentos de capital refletia, com muita fidelidade, a influência política das
potências mundiais, alimentando negócios na América, Ásia e África. Com isso, muitos países apresentavam uma
balança comercial negativa enquanto o balanço de pagamentos dessas potências era positivo.

160
AULA 25 • A POLÍTICA DE DEFESA DO CAFÉ UTILIZADA DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO
E SEU IMPACTO SOBRE A RENDA NACIONAL

(Lembrete: balanço de pagamentos = diferença en- Presidência da República. A partir de


1942 vários racionamentos fizeram com
tre a soma de todos os valores recebidos no exterior e
que o Governo sentisse a necessidade
a soma de todos os valores enviados para o exterior. de intervir de forma mais efetiva no setor
Abrange, além da balança comercial, o intercâmbio de de energia elétrica.
serviços, as transferências de capital entre empresas, Resumidamente, podemos dizer que, de 1935 a
as transferências de capital entre pessoas e os paga- 1937, foram criadas 25 destilarias de óleo, sendo algu-
mentos de dívidas públicas e privadas, segundo Mag- mas particulares, como a de Matarazzo (em São Paulo)
noli; Araújo, 2000, p. 75) e a de Uruguaiana RS); em 1938, os primeiros postos
Para o professor e economista Wilson Suzigan de petróleo foram descobertos na Bahia e, para diminuir
(1991, p. 89-109, com adaptações), alguns setores, as dependências externas, a Refinaria Landulfo Alves
durante o governo Vargas, merecem destaque: iniciou seu refino e distribuição. Em 1942, estrategica-
Na área de energia elétrica, o Gover- mente, Vargas assina com os Estados Unidos um acor-
no teve início com a capacidade geradora do de Cooperação Militar (fornecimento de minerais
do país muito abaixo da demanda da so-
ciedade da época. A maior parte do país estratégicos e bases militares no Nordeste e, em troca,
ainda utilizava os lampiões de querosene, os EUA nos concederiam créditos para a implantação
a lenha e os geradores particulares para da Cia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda (RJ).
iluminar as residências e movimentar as
indústrias. Após 1930, quando a econo- O minério de ferro seria proveniente de Minas Gerais
mia começou a crescer recuperando-se e o carvão (coque siderúrgico) viria de Santa Catarina;
da crise, a oferta de energia encontrava-
se estagnada, com racionamentos que ligando essas áreas à siderúrgica estariam a estrada
prejudicavam qualquer desenvolvimento de ferro Vitória-Minas e a Vale do Rio Doce, hoje, pri-
industrial. O Grupo Light, de origem vatizadas); os portos exportadores do aço seriam o de
canadense, que em 1899 se instalou
em São Paulo, em 1905 no Rio de Ja- São Sebastião (RJ) e Santos (SP).
neiro e que em 1913 se estruturou na Percebeu como o centro industrial começava a for-
Brazilian Traction, Light and Power
Co, após 1920 se consolidou no eixo mar um triângulo (SP/RJ/MG)? Mais uma vez, o Cen-
Rio – São Paulo. tro-Sul comandará a economia brasileira.
Em1927, outro grupo concessionário, a Para suprir as indústrias (pesadas ou de base),
American & Foreign Power Company – a energia seria necessária. Outro financiamento para
AMFORP começou a se instalar no Brasil,
adquirindo pequenas empresas do inte- construir a Companhia Hidroelétrica de São Francis-
rior de São Paulo e depois de outras regi- co – CHESF-, encarregada da Companhia Hidrelétri-
ões do Nordeste, do Sudeste e do Sul do ca de Paulo Afonso, no Nordeste. A energia “viajava”
país. A holding concorrente da Light
no Brasil estabeleceu-se com o nome até as principais áreas industriais do Sudeste para ser
de Empresas Elétricas Brasileiras - usada, certo? As oligarquias estaduais agradeceram
EEB, mas em 1941 passou a chamar-
se Companhia Auxiliar de Empresas e bateram palmas! Só no 2º mandato de Vargas ela
Elétrica Brasileiras – CAEEB, com foi complementada e entrou em funcionamento. Agora
sede no Rio de Janeiro. Em 1934 foi sim, tínhamos petróleo+aço+energia = industrialização
criado o Código de Águas e a Constitui-
ção de 34 redefiniu o direito de proprieda- completa. Esse complexo estatal foi base de susten-
de e do uso de água e as relações entre o tação para o desenvolvimento industrial até os anos
Governo e as concessionárias. O Minis-
tro Juarez Távora responsável pela de 1980 e sem depender da atividade cafeeira. Vale
gestão da água e da eletricidade, em lembrar que nos países desenvolvidos, nessa época,
1933, criou o Departamento Nacional a Segunda Revolução Industrial já tinha se completado
de Produção Mineral com uma Dire-
toria das Águas à qual coube fiscali- e eles estavam na terceira fase industrial. Ainda assim,
zar as concessionárias. deve ficar claro que, sem os investimentos e incentivos
No entanto, na década de 30, as empre- governamentais, estaríamos longe do desenvolvimen-
sas estrangeiras pressionaram através da
to industrial global. A economia-mundo é consequência
justiça para que continuassem implemen-
tando as medidas do setor e a falta de ins- da segunda e da terceira revoluções industriais, com
tituições nacionais fortes fez com que ne- deslocamento geográfico de unidades industriais para
nhuma ação fosse tomada. Em 1939 foi
criado o Conselho Nacional de Águas os países em desenvolvimento, eliminação das frontei-
e Energia Elétrica – CNAEE ligado à ras nacionais, centralização das decisões e do poder

161
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

ou finanças nas grandes cidades do mundo desenvolvido, além da formação de grupos como os conglomerados,
trustes, holdings, etc.
Espere-me que teremos muito o que comentar sobre a vida daquelas pessoas que viviam no Rio de Janeiro e
São Paulo, uma vez que nossa próxima aula será sobre o mercado consumidor brasileiro e a Grande Depressão.
Até lá!

3 RESUMO
O desenvolvimento industrial brasileiro inicia-se por São Paulo, estado que concentrou os principais fatores loca-
cionais de uma empresa: mão de obra barata, capital acumulado com a cafeicultura, meios de transportes eficientes,
fontes energéticas disponíveis e matérias-primas. As ações dos grupos “revolucionários” de 1922 e de 1930 tinham
deixado poucas marcas para os trabalhadores nacionais. A falta de produtos de consumo, máquinas e equipamentos,
somada às dificuldades de importação destes, além da crise de 1929, obrigavam o governo federal a criar espaços
industriais. Para tanto, houve isenção sobre bens de capital e da indústria de base, pois o setor têxtil era um dos
poucos que se desenvolvia no Brasil. Os opositores de Vargas tiveram de reconhecer seu papel de comandante (ao
criar as leis trabalhistas, muitos empresários e políticos se sentiram “traídos”). Continuamos a dar condições para a
atividade agrária, mas sem nos esquecer das “novas” indústrias: bens de consumo não duráveis, peças, máquinas e
equipamentos etc. eram montados por aqui. Com a Europa tentando se estabilizar depois da Primeira Guerra Mundial,
os Estados Unidos da América vão se transformar no maior fornecedor e comerciante do mundo. Passamos a consu-
mir tudo o que era produzido, em larga escala, por lá. Veio a crise da bolsa de valores de Nova York (1929), deixando
muitas pessoas falidas, sem emprego, sem dinheiro e sem esperança. Os brasileiros que haviam investido nas ações
de empresas dos EUA tiveram prejuízos, e muitos deles resolveram investir em atividades mais lucrativas por aqui. Al-
gumas que já existia trataram de ampliar seus negócios, sob o patrocínio de Vargas. Mais tarde, os norte-americanos
com capital suficiente para emprestar à Europa e à América Latina escolhiam os setores nos quais queriam investir.
Bancos, seguradoras, bens de consumo duráveis e não duráveis, ações de empresas do setor industrial básico ou
energético passaram a ser os seus alvos. Haviam se recuperado da Grande Depressão e estavam com fome para
abocanhar todos os setores lucrativos de várias regiões do planeta. E assim o fizeram!
Ao priorizar o complexo industrial com indústrias ligadas ao petróleo, à siderurgia e energia, além da melhoria
em infraestrutura básica e o retorno à indústria naval, o governo - mesmo centralizando todo o poder político – con-
seguiu colocar o Brasil nos trilhos desenvolvimentistas da Segunda Revolução Industrial.

4 ATIVIDADES
1. Observe as informações seguintes.
Características gerais Primeira Revolução Industrial Segunda Revolução Industrial
Começo Por volta de 1760 Final do século XIX
Tecnologia Máquinas a vapor Motor a diesel, à gasolina e elétrico

Principais indústrias Tecidos, bebidas, alimentos e objetos Petroquímica, siderurgia (aço),


de ferro máquinas pesadas (motores,
locomotivas, navios, etc.)

Relacione as principais diferenças entre as duas revoluções industriais.

2. Leia os textos para responder ao que se pede em seguida.


I - Alemanha, 1923: dinheiro vira papel de parede.
“[...] em 1923, no auge da crise econômica, inicia-se o ano com o dólar valendo 18.000 marcos. Em julho, a mo-
eda americana chegou a 160.000 marcos; em novembro, os alemães precisavam amontoar 2,5 trilhões de mar-

162
AULA 25 • A POLÍTICA DE DEFESA DO CAFÉ UTILIZADA DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO
E SEU IMPACTO SOBRE A RENDA NACIONAL

cos para comprar 1 dólar. Naquele mês, em Berlim, http://www.ufpe.br/decon/sitedecon/visao/professor/


um pão, que no começo do ano já valia fantásticos arquivos/acervo/55/versiani_suzigan_Industrializa-
250 marcos, passou a custar 200 bilhões de mar- cao_brasileira___visao_geral.pdf. Acesso em: 24
fev. 2011.
cos. As donas de casa passaram a ir às compras
carregando baldes de dinheiro.” (MARQUES, p. 36, MAGNOLI, Demétrio; ARAUJO, Regina. Projeto de
in: PEDRO; LIMA, 1996). ensino de Geografia: natureza, tecnologias e so-
ciedades. Geografia do Brasil. São Paulo: Moderna,
II - “Na Rússia a revolução da classe trabalhadora 2001.
teve êxito. Mas a desilusão, a fome e a miséria, PEDRO, Antonio; LIMA, Lizânias de Souza. História
que se seguiram à I Guerra Mundial, atraíram mui- Geral - compacto para o vestibular. Textos, comen-
tos recrutas às fileiras dos revolucionários, em toda tários e questões. São Paulo: FTD, 1996.
parte. [...] Isso ocorreu particularmente na Itália e PRIORE, Mary Del; NEVES, Maria de Fátima; LAM-
na Alemanha. Os capitalistas desses países tive- BERT, Francisco. Documentos de História do Bra-
ram pela frente uma classe trabalhadora revolucio- sil: de Cabral aos anos 90. São Paulo: Scipione,
nária que lhes ameaçava o poder.” (HUBERMAM 1998.
apud MARQUES, p. 26. In: PEDRO; LIMA, 1996). SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul-
III - “O caráter intolerável atingido pelo desemprego
tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.
entre as duas guerras, na Grã-Bretanha, deve-se à
conjugação da sua amplitude com a sua duração. O SUZIGAN, Wilson. Indústria brasileira: origem e
desenvolvimento. Campinas: UNICAMP, 1991.
desemprego devastou regiões inteiras: [...] por toda
a parte, lojas fechadas, casas arruinadas, janelas http://books.google.com.br/books?id=motcMsGB1
EMC&pg=PA206&lpg=PA206&dq=Suzigan/econo-
com tábuas e cartão no lugar de vidros. Únicos ofí-
mia/industrializa%C3%A7ao+no+brasil&source=bl&
cios prósperos: o dos corretores de apostas. Nessa ots=ig4- Acesso em: 20 fev. 2011.
existência sem esperança, recorre-se desesperada-
SUZIGAN, Wilson. Industrialização e Po-
mente ao jogo, às apostas.” (BEDARIDA apud MAR-
lítica Econômica: uma interpretação em
QUES, p. 33. In: PEDRO; LIMA, 1996, p. 293). perspectiva histórica. In: Pesquisa e Planejamento
Econômico, v. 5, n.2, 1975, p. 472. Disponível em:
Os três textos se completam ou se contradizem?
http://www.ufpe.br/decon/sitedecon/visao/professor/
Confirmam algum fato? Justifique sua resposta. arquivos/acervo/55/versiani_suzigan_Industrializa-
cao_brasileira___visao_geral.pdf. Acesso em: 24
3. Explique a afirmativa: “A reorganização da econo- fev. 2011.
mia brasileira atingiu tanto a indústria como a agri- VERSIANI, Flávio; SUZIGAN, Wilson. O processo
cultura.” brasileiro de industrialização: uma visão geral.
Brasília: Departamento de Economia – Universidade
de Brasília, 1990.
REFERÊNCIAS http://www.ufpe.br/decon/sitedecon/visao/professor/
HADDAD. Crescimento do Produto Real. Brasil arquivos/acervo/55/versiani_suzigan_Industrializa-
1900-1947. Rio de Janeiro: FGV, 1978; IBGE, 1990. cao_brasileira_visao_geral.pdf. Acesso em: 24 fev.
Estatísticas Históricas do Brasil, apud ABREU e 2011.
VERNES, 1997, p. 26. Disponível em:
http://www.ufpe.br/decon/sitedecon/visao/professor/ PARA SABER MAIS
arquivos/acervo/55/versiani_suzigan_Industrializa-
Livros
cao_brasileira___visao_geral.pdf. Acesso em: 24
PEREIRA, Luis Carlos Bresser. Desenvolvimento e
fev. 2011.
crise no Brasil: 1930-1983. São Paulo: Brasiliense,
IBGE. Censos 1920, 1940, 1950 e 1960. Apud 1985.
CANO. Desequilíbrios regionais e concentração
FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiogra-
industrial no Brasil (1930-1970). Campinas: Edito-
fia e história. 16. ed. São Paulo: Companhia das Le-
ra da Unicamp e Global Editora, 1985. p. 104. Dis-
tras, 1997.
ponível em:

163
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 26

O PAPEL ASSUMIDO PELO MERCADO INTERNO


DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO

Objetivos
• Relacionar o mercado interno com a crise de 1929.
• Posicionar-se criticamente diante de fatos
socioeconômicos brasileiros.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO senfreado e se consideravam o modelo de vida mun-


dial (american way of life). Viver bem era consumir tudo
“Graças à manutenção dos baixos salários na e cada vez mais. Logicamente, as fábricas teriam que
periferia, as empresas transnacionais estão ten- trabalhar com toda capacidade para atender aos ávidos
tando reconstruir o sistema da divisão internacio- compradores. Isso gerou uma enorme produção. E essa
nal do trabalho mediante a deslocação para a pe- rapidez e a superprodução geraram a crise de 1929, pois
riferia de parte crescente da atividade industrial. os trabalhadores, com seus baixos salários, não tinham
Uma periferia semi-industrializada emerge assim condições de comprar aquilo que eles mesmos produ-
sob a forma de um espaço em que se localizam ziam. Mercadorias encalhadas, desemprego, falências
atividades industriais controladas em boa parte foram algumas das consequências da crise iniciada nos
para o mercado desse espaço [...]. A nova divisão EUA e que se espalhou pela Europa, Ásia e América.
internacional do trabalho permite a essas empre- Não havia ninguém para comprar os bens de consumo.
sas alcançar um de seus objetivos: abrir espaço Uma crise econômica leva as pessoas a cortarem aquilo
para a industrialização periférica no quadro da que é supérfluo. Segundo Schimidt (1998, p. 255),
modernização.” [...] café era luxo para os países importa-
(FURTADO, 2000, p. 122). dores, mas para o Brasil ele representa-
va 71% das exportações em 1929. Sem
compradores, o preço internacional foi
Olá, meu caro aluno! Iniciaremos a aula hoje com baixando sem parar, até atingir um pon-
essa reflexão oportuna do Celso Furtado que (re)lem- to tão ridículo, que muitos cafeicultores
afundaram-se nos prejuízos. Certos capi-
bra-nos como no sistema capitalista muitas decisões talistas são tão apegados ao dinheiro que
são tomadas longe dos consumidores. A exploração da se matam quando o perdem todo. Muitos
cafeicultores rasparam o fundo do cofre
força de trabalho é uma das suas características e, na para comprar a bala do revólver com que
fase da Grande Depressão, em nome da ordem e do deram fim às suas vidas.
progresso, a Durante muito tempo ainda, o café foi o
principal produto de exportação do país.
classe operária foi espoliada, recebendo paga- Mas a força dos cafeicultores nunca mais
mentos inferiores ao que produzia. Atualmente encon- seria a mesma. Tinham perdido a condi-
tramos muitos trabalhadores ainda nessas condições. ção para comandar, sozinhos, o Brasil.
Isso ficaria muito claro depois da Revo-
Vamos analisar o papel exercido pelos trabalhadores lução de 1930.
brasileiros no contexto da crise de 1929 e a formação
É dessa maneira que a industrialização no Brasil
do nosso mercado consumidor (urbano).
vai se processar, ou seja, com o desenvolvimento de
atividades paralelas ao café, contando com os imigran-
2 A CRISE E O MERCADO tes e seus conhecimentos técnicos, com a crença de
INTERNO BRASILEIRO muitos pequenos comerciantes nacionais, com o acú-
mulo de capitais provenientes de outras atividades e,
O término da Primeira Guerra Mundial deixou a Eu-
principalmente, dos incentivos estatais.
ropa estraçalhada, sem capital para investir em ativida-
Com o capitalismo industrial, o trabalho tornou-se
des produtivas e de retorno rápido. Os Estados Unidos
mercadoria, e aquele que não possuísse meios de pro-
já tinham passado pelas duas revoluções industriais e
dução nem capital vendia a sua força de trabalho. As
continuavam expandindo seu comércio pelas regiões
grandes cidades do hemisfério norte precisavam de
antes ocupadas pelos europeus. A produção industrial
novos mercados de consumo para seus produtos in-
era a principal fonte de lucro, e o trabalho assalariado
dustrializados; partiram então em busca de consumido-
(trabalha-se para depois receber, certo?) era a forma de
res nos demais países do mundo, especialmente Ásia
consumir esses produtos (escravos não consumiam ma-
e África. Essa nova fase do capitalismo foi chamada
nufaturas nem produtos industriais). Os produtos norte-
Imperialismo. Para Pazzinato e Senise (1995, p. 202),
americanos chegavam com facilidade aos grandes cen-
tros urbanos do Brasil, e nós consumíamos o que eles O desenvolvimento tecnológico de mea-
dos do século XIX causou um aumento
nos ofereciam. Nos anos de 1920, os EUA viviam um significativo da produção industrial, que
clima de total prosperidade econômica, consumo de- gerava grandes lucros para o empresário.

166
AULA 26 • O PAPEL ASSUMIDO PELO MERCADO INTERNO DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO

Isso, porém, acarretava um sério proble- território. O capital acumulado nos anos ou etapas an-
ma: onde reinvestir o excedente de lucro
teriores do capitalismo (antes da 1ª GM) precisava de
e como obter suprimento constante de
petróleo, ferro e cobre para alimentar a outras atividades, fora da indústria, para ser multipli-
crescente produção industrial? A saída cado. Bancos, corretoras de valores e grandes grupos
para os países capitalistas foi a busca de
locais, fora de seus respectivos territórios, empresariais procuraram concentrar seus capitais,
capazes de atender a essas necessida- originando o que se chama de capitalismo financeiro.
des, produzindo lucros garantidos aos
Uma nova classe social emerge: os financistas que, se-
investidores.
gundo alguns autores, provocaram escândalos e mais
Dessa forma, o próprio capitalismo gerou
o processo imperialista, que se realizou escândalos tanto nos Estados Unidos como em outras
através da busca de novas áreas de in- sociedades da época.
teresse econômico para a aplicação dos
excedentes de capital. Participam desse
Os acordos financeiros e tecnológicos dos EUA e
processo todas as nações que haviam Brasil também criaram empregos no nosso país, es-
atingido a nova fase de produção indus- tabilizaram os preços dos produtos agrícolas, aumen-
trial. [...]
taram o número de empregos e da renda nacional ao
O imperialismo promoveu a partilha da
África e da Ásia, estabelecendo áreas de
melhorarem o valor dos salários no país. Dessa manei-
influência, através de estreitos contatos ra, nos inserimos – verdadeiramente – no capitalismo
econômicos, dentro do processo conhe- internacional! Legal, né?
cido como neocolonialismo.
Vargas, ao criar condições para a melhoria de vida
Para sair da crise, o Estado assumiu o papel de em- do trabalhador, buscou também qualificá-lo para outros
preendedor (dono de empresas) e também de planeja- setores industriais e do comércio. Suzigan nos alerta
dor econômico, criando empregos em obras públicas, para a questão dos conhecimentos técnicos para susten-
seguro-desemprego, controlando preços e apoiando os tar a siderurgia no Brasil quando, em 1942, Vargas criou
pequenos empresários (agrícolas ou urbanos) e outros o Serviço Nacional da Indústria – SENAI – (hoje, Servi-
profissionais capazes de gerar outros empregos e au- ço Nacional de Aprendizagem Industrial) e, em 1943, o
mentar a renda interna nacional. Alguns desses passos Serviço Social da Indústria – SESI – para formação da
foram dados no Brasil de Getúlio também. mão de obra para o setor industrial. Durante muitos anos
Os americanos retiraram da Europa todo o dinheiro os cursos técnicos do SENAI, SESI e SENAC estiveram
emprestado, houve falência de bancos, seguradoras e dirigidos aos filhos da classe trabalhadora ligada aos se-
financeiras e aumento do número de desempregados. tores industrial e comercial e, nem sempre atendiam às
No continente sul-americano a crise foi maior, já que reais necessidades do mercado. Hoje, algumas escolas
quase todos os países dependiam das exportações foram reorganizadas para atender aos novos conheci-
de matérias-primas para os EUA. Com a crise, ocor- mentos técnicos, o que tem atraído muitos jovens, in-
reu uma drástica redução das importações e, com me- dependentes dos familiares estarem ligados à indústria
nos dinheiro, os latino-americanos deixaram de fazer ou comércio. O primeiro emprego criado pelo governo
investimentos em seus próprios países, ocasionando federal garante-lhes um estágio de boa qualidade e a
mais desemprego mundial. Para recuperar o sistema grande maioria continua trabalhando na área em que se
capitalista interno, o governo norte-americano criou o especializaram. Na sua cidade tem alguma instituição
New Deal, que buscou conciliar as leis de mercado e desse tipo? Se sim, parabéns! Se não, faça uma cam-
a iniciativa privada, mas interferindo em várias ativida- panha para que escolas profissionalizantes cheguem
des agrícolas ou industriais. Essa “intromissão” na vida até vocês. Pense nisso! Qual a razão de se investir em
particular empresarial obrigou-o a abandonar as ideias cursos técnicos? É que eles funcionam como trampolim
do liberalismo econômico e entrar numa nova era: a para muitos jovens buscarem uma formação superior e
do capitalismo monopolista. A política do New Deal não modernização tecnológica de um país. Sem educação e
alcançou o esperado, contudo a Europa preparava-se formação especializada da população continuaremos no
para mais um conflito interno e, antevendo a Segunda mundo periférico e nossos cientistas “voando” para os
Guerra Mundial, os EUA e seus empresários aumen- países centrais.
taram a produção bélica, gerando novos empregos e Na DIT contemporânea, o tripé “Riqueza+
fazendo a recuperação capitalista dentro do próprio Poder+Tecnologia” determina os fluxos das mercado-

167
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

rias e dos capitais, ou seja, as áreas de especializa- África. Na América Latina eles já eram dominantes.
ções produtivas são também o eixo do comércio mun- O reflexo da Grande Depressão chegou ao Brasil, e
dial e da distribuição dos polos financeiros globais. É foi através do empreendedorismo e planejamento das
fundamental o conhecimento científico e tecnológico atividades industriais, especialmente no Sudeste, que
da população economicamente ativa (PEA), respon- reencontramos a indústria de base (essencial para con-
sável pelo aumento das pesquisas tecnológicas e sua sumir matérias-primas e peças para outras indústrias
divulgação, além da promoção e criação de produtos de bens de consumo). Também houve o renascimento
inovadores. Para muitos capitalistas, ávidos por lucros, industrial nos EUA, pouco antes da Segunda Guerra
isso não é problema para eles resolverem; é “coisa de Mundial, com a fabricação de material bélico. O Brasil,
intelectual e trabalhador sem o que fazer, então que aliado aos EUA, permitiu a presença de inúmeras em-
eles resolvam a situação entre si”. Não concordamos presas de capital por aqui para emprestar dinheiro aos
com tais pensamentos e/ou ações, pois, na prática, há empresários que quisessem abrir indústrias. Aprovei-
muito caminho já trilhado por aqueles que querem me- tando a mão de obra barata e abundante, o crescente
lhorar de vida como você está fazendo. Parabéns pelo mercado consumidor, as fontes energéticas, os meios
investimento em você mesmo! de transportes e os benefícios federais, muitos empre-
Assim, terminamos mais um episódio da Grande endedores nacionais e internacionais abriram suas em-
Depressão e seus reflexos na vida de brasileiros e do presas no país.
Brasil. O modelo de substituição das importações nos
aguarda. Até mais! 4 ATIVIDADES
1. Leia a afirmativa:
3 RESUMO “Todo esse empenho fez com que o número de fábri-
Por volta de 1920, o mundo europeu ainda estava cas chegasse a 49 mil em 1940, com 781 mil empre-
se refazendo da Primeira Guerra Mundial, e os EUA, gados. Eram números quase que três vezes maiores
em expansão comercial e industrial, conquistavam que os de 1920. Assim, quando a guerra estourou,
o mundo com seus produtos e frota mercante. Havia em 1939, o Brasil já tinha uma nova base industrial.
prosperidade econômica, e os norte-americanos eram O processo de substituição das importações foi man-
copiados em todos os cantos da terra. Era o modo tido por meio de acordos de financiamento com os
americano de viver (“american way of live”). A rapidez Estados Unidos. (POMAR, 1998, p. 33)
na produção e no acúmulo de mercadorias acabou ge- Caracterize o processo de substituição de importa-
rando uma superprodução (crise de 1929). Com isso, ções no Brasil.
os salários ficaram mais baixos, mercadorias estoca- 2. Explique o significado das expressões abaixo:
das nas prateleiras, muita falência e desemprego. As a) Grande Depressão
pessoas tiveram que cortar os gastos supérfluos, e o b) New Deal
café brasileiro perdeu os mercados europeus e norte- c) American way of life
americanos. Por ser nosso principal produto de expor- 3. Modernização implica inovações tecnológicas e efi-
tação na época, houve necessidade de contar com o cientes. Qual é o papel do capital humano no mun-
apoio governamental para evitar uma crise maior ainda do atual?
aqui. Atividades paralelas à cafeicultura foram acumu-
lando capital e investindo em pequenas indústrias para REFERÊNCIAS
atender ao mercado interno. A presença desse capital,
ALMEIDA, Lúcia Marina Alves de; RIGOLIN, Tércio
aliado ao conhecimento técnico dos imigrantes, ao mer- Barbosa. Fronteiras da globalização: Geografia
cado consumidor brasileiro, à ausência dos produtos Geral e do Brasil. São Paulo: Moderna, 2004.
importados e ao incentivo tributário e fiscal do governo FURTADO, Celso. Introdução ao desenvolvimen-
Vargas, iniciamos a industrialização e ampliamos nos- to: enfoque histórico-estrutural. Rio de Janeiro: Paz
so mercado. Com a crise nos EUA, houve a criação de e Terra, 2000.
planos e projetos para reerguer a indústria por lá (New ________. Formação econômica do Brasil. 12.
Deal) e ampliação do mercado externo para a Ásia e ed. São Paulo: Nacional, 1974.

168
AULA 26 • O PAPEL ASSUMIDO PELO MERCADO INTERNO DURANTE A GRANDE DEPRESSÃO

PAZZINATO, Alceu Luiz; SENISE, Maria Helena Va- PARA SABER MAIS
lente. História Moderna e Contemporânea. 8. ed.
São Paulo: Ática, 1995. Livros:
BRENER, Jayme. 1929: a crise que mudou o mun-
POMAR, Wladimir. Era Vargas: a modernização do. São Paulo: Ática, 1996.
conservadora. São Paulo: Ática, 1998.
NEVIS, Allan; COMMAGER, Steele H. Breve his-
SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil: tória dos Estados Unidos. São Paulo: Omega,
500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul- 1986.
tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.
FAORO, Raymundo. Os donos do poder. Porto
SUZIGAN, Wilson. Indústria brasileira: origem e Alegre: Globo, 1977.
desenvolvimento. Campinas: UNICAMP, 1991. Dis-
ponível em: http://www.historiamais.com/crise_ MILLIET, Sérgio. Roteiro de café e outros ensaios.
de_1929.htm. Acesso em: 02 fev. 2011. São Paulo: Hucitec, 1982.

169
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 27

CARACTERÍSTICAS DO MODELO DE INDUSTRIALIZAÇÃO


POR SUBSTITUIÇÃO DE IMPORTAÇÃO

Objetivos
• Saber o que é industrialização da substituição de
importação.
• Entender o que é protecionismo de mercado.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO veis a partir do eixo Rio de Janeiro/São Paulo/Minas


Gerais. Antes, tínhamos um território fragmentado em
No modelo agroexportador vigente até as primeiras termos econômicos (ciclos da borracha na Amazônia,
décadas do século XX, a economia brasileira organi- do algodão, cacau e da cana-de-açúcar no Nordeste,
zava-se em função das necessidades dos mercados mineração no Centro Oeste e Minas Gerais), dirigido
internacionais. O intercâmbio externo representava para o exterior e conforme os interesses do capital in-
uma parcela substancial da riqueza nacional: o fluxo ternacional. Agora, os meios de transportes (rodoviário,
de comércio, isto é, a soma das exportações com as principalmente) faziam a ligação entre o Centro-Sul, a
importações, atingia cerca de um terço do PIB. Amazônia e o Nordeste. Durante os governos de Var-
A industrialização por substituição de importações gas e de Juscelino Kubitschek (1950 a 1961), a abertu-
implicou a formação de um mercado interno integrado. ra de estradas de integração nacional foi responsável
A constituição de uma estrutura industrial diversificada por essa unificação. Algumas ferrovias particulares fo-
reduziu a dependência das importações de manufatura- ram compradas pelo governo federal e os portos me-
dos. O mercado interno tornou-se o motor da expansão lhorados; telégrafos e telefones continuaram fazendo a
da economia nacional. O fluxo de comércio começou a integração nacional. Produtos do Sudeste eram nego-
cair, até situar-se abaixo de 15% do PIB. (MAGNOLI; ciados em todo o país. O capital nacional dedicou-se às
ARAÚJO, 2005, p. 261) atividades industriais dos bens de consumo não durá-
veis enquanto o estatal preocupou-se com os interme-
Prezado aluno, diários: transportes e energia. Não houve fechamento
Demetrio Magnoli e Regina Araújo são escritores da economia ao mercado externo.
doutores, graduados em Geografia pela USP; ele é A Companhia Vale do Rio Doce –CVRD – fazia a
também professor graduado em jornalismo e Ciências extração mineral no Quadrilátero Ferrífero de Minas
Sociais (USP) e diretor editorial do Boletim Mundo – Gerais e a siderurgia ganhou “status”, pois o aço per-
Geografia e Política Internacional, razões pelas quais mitiu a produção de bens (peças e mercadorias desti-
iniciarão nossa aula hoje. Sem rodeios, é-nos apre- nadas à indústria ou ao transportes de outras mercado-
sentada a situação econômica que envolve o processo rias), com base no capital estatal. As fontes energéticas
industrial da substituição de importações (ISI) logo na vinham das usinas hidroelétricas como Paulo Afonso
introdução. Alguns conceitos serão básicos para você (1951); a PETROBRAS (1953), responsável pelo refi-
entender essa passagem industrial brasileira, que vai no e transporte do “ouro negro”, também com uso de
de 1946 a 1961 e que, conforme os autores, diversi- capital federal, complementava nosso tripé industrial.
ficará e integrará o mercado interno do país. Você co- Segundo Magnoli e Araújo (2005, p. 190),
nhecerá fatos “explosivos” e pitorescos dessa história,
[...] a industrialização rompeu com o
certo? Vamos a eles, então! isolamento dos mercados regionais. Os
manufaturados de São Paulo e do Rio
de Janeiro, produzidos com tecnologia
2 O PROCESSO INDUSTRIAL DE superior e em escala industrial, invadiram
SUBSTITUIÇÃO todo o país. A competição desigual com
as mercadorias fabricadas nas outras
regiões resultou no predomínio da indús-
A economia agroexportadora brasileira foi supera- tria do Sudeste. A marcha da conquista
da pelo processo de industrialização da substituição se acelerou na década de 1930, quando
Getúlio Vargas eliminou os impostos in-
das importações (ISI) através dos fluxos de capital terestaduais que protegiam os mercados
produtivo, da diversificação de mercadorias (bens de regionais. Na década seguinte, rodovias
produção duráveis) e da expansão do mercado interno começaram a interligar os estados de São
Paulo e Rio de Janeiro ao Sul e ao Nor-
integrado a partir dos anos de 1930. Mesmo durante deste, gerando uma expansão inédita do
a Grande Depressão, alguns industriais mantiveram comércio interno. A tradicional indústria
têxtil doméstica do Nordeste, baseada no
suas fábricas funcionando para fornecer bens de con- algodão, foi destruída pela chegada dos
sumo para a população. tecidos paulistas e cariocas. As novas
Essa unificação do mercado interno deu-se com a vias de circulação serviam também para
produção de bens de consumo duráveis e não durá-

172
AULA 27 • CARACTERÍSTICAS DO MODELO DE INDUSTRIALIZAÇÃO POR SUBSTITUIÇÃO
DE IMPORTAÇÃO
transportar milhões de nordestinos que buscavam oportunidades de trabalho nas principais capitais do Su-
deste.
Durante a Segunda Guerra Mundial e no pó-guerra, a concentração geográfica da indústria se intensificou,
com a implantação das indústrias de bens de produção e de bens de consumo duráveis. O crescimento da
participação do Sudeste na indústria nacional limitou o desenvolvimento industrial do Sul e, principalmente,
do Nordeste. A reorganização da economia nacional atingiu tanto a indústria como a agricultura.

Internacionalmente, os conglomerados transnacionais (empresas com uma rede de filiais espalhadas por vários
países; o mesmo que multinacionais) ultrapassavam suas fronteiras de investimento abrindo filiais em quase todo o
globo. De onde vinham os capitais? Do próprio dinamismo econômico da Europa, dos Estados Unidos e do Japão.
Os governos procuravam viabilizar os investimentos externos liberando as importações de máquinas e equipamen-
tos, criando financiamentos para expandir o mercado interno. O do Brasil, em ascensão, oferecia vantagens e altas
margens de lucros para os investidores estrangeiros e mesmo os nacionais. Dessa forma, houve a expansão do
Produto Interno Bruto (PIB) devido ao crescimento acelerado do setor industrial e certa estabilidade do agrário.
O setor de bens de consumo duráveis (eletrodoméstico, eletrônicos, automóveis, geladeiras, moveis, etc.)
tornou-se o mais significativo. As donas de casa começavam a se entusiasmar com o rádio, a geladeira, o fogão a
gás, a enceradeira, o chuveiro com duas temperaturas, etc. Quase sempre, os maridos trabalhavam nas fábricas
que incentivavam o consumo, explicando (através de cartilhas) que isso geraria mais emprego e ganhos reais de
salários na medida do crescimento das vendas internas. Eles acreditaram no processo e muitos também se endi-
vidaram, tendo que contar com a ajuda dos sindicatos em caso de desemprego ou de crise no setor. Foi um caos
familiar!
Veja o QUADRO 1 a seguir.

QUADRO 1
Taxas médias do crescimento anual da indústria (%)
Categoria de uso dos bens 1955-1962 1967-1973
Consumo de duráveis 23,9 23,6
Consumo de não-duráveis 6,6 9,4
Intermediários 12,1 13,5
De Capital 26,4 18,1
Fonte: KOWARICK, 1988, p. 96.

Quase sempre, para proteger a indústria nacional, economia bandeirante”. Mas a identifica-
ção simplista entre indústria e desenvolvi-
os governos criam mecanismos especiais para fazer
mento é falsa. São Paulo perde indústrias
frente ao mercado externo. Os subsídios estatais e a tradicionais para Minas Gerais, o Paraná
mão de obra barata foram decisivos para a implanta- ou o Ceará. Mas, enquanto perde partici-
pação na produção industrial, reforça ain-
ção de transnacionais. A classe média urbana, base da mais a sua condição de polo financeiro
socioeconômica da modernização industrial, garantia do país.
as vendas e expansão do setor secundário (consumo É essa tentativa de produção industrial interna que
durável). Enquanto isso, o Estado realizava os investi- faz com que o processo seja chamado ISI, ou seja,
mentos na modernização do sistema viário, nas inova- deixa de importar mercadorias que são agora produ-
ções das telecomunicações e das fontes de energia. zidas no próprio país. Há necessidade de proteger as
Segundo Magnoli e Araújo (2001, p. 99): empresas nacionais, daí o aumento de taxas e tarifas
[...] a participação de São Paulo no valor alfandegárias, desestimulando seu consumo e permi-
da produção industrial encontrava-se em tindo que a base nacional se fortaleça. Esse processo
retração. Essa tendência gerou alarido
sobre uma suposta decadência do mais só é valido economicamente para os países que estão
rico estado da federação e serviu para na fase inicial do desenvolvimento, pois o “tiro pode
que políticos e autoridades paulistas,
procurando extrair vantagens eleitorais, sair pela culatra”. Nos anos de 1980, o governo bra-
assumissem o papel de “defensores da sileiro não permitia a importação de computadores de

173
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

empresas estrangeiras (era a reserva da informática),


prioritariamente o mercado interno e dependente
e ficamos atrasados em mais de dez anos em relação
de políticas governamentais que protegessem a
a outros países, uma vez que nosso desenvolvimento
indústria nacional em relação aos seus concor-
tecnológico foi muito lento e de qualidade duvidosa.
rentes internacionais. Ainda nesse capítulo, o au-
Só na década de 1990, com a abertura da economia
tor faz algumas discussões, alicerçado em vários
para o capital externo, pudemos avançar e, hoje, te-
teóricos da Economia Brasileira, sobre os meca-
mos acesso aos melhores processos tecnológicos do
nismos de política econômica que foram adota-
mundo.
dos por Vargas.
Leia agora a resenha de Daniel Arruda Coronel,
No segundo capítulo, A Substituição de Im-
doutorando em Economia Aplicada pela Universidade
portação como Modelo de Industrialização, o
Federal de Viçosa (MG) e bolsista do CNPq.
autor discute o modelo de desenvolvimento apre-
O processo de substituição de importações goado pela Comissão Econômica para a América
Pedro Cezar Dutra Fonseca e Luiz Eduardo de Latina (CEPAL), ou seja, mostra que a periferia,
Souza (Org.) ao especializar-se na exportação de produtos pri-
São Paulo: LCTE, 2009
mários associados à baixa elasticidade-renda nos
O livro O Processo de Substituição de Impor- países do centro, determinava que o crescimento
tações, de autoria de Pedro Cezar Dutra Fonse- do produto nos últimos não se traduzia em uma
ca, professor titular do departamento de Ciências paralela elevação da demanda de importações
Econômicas da Universidade Federal do Rio da periferia. Esse fator, aliado à incapacidade
Grande do Sul (UFRGS), bolsista de produtivi- em reter os ganhos de produtividade, constitui a
dade do Conselho Nacional de Desenvolvimen- base da teoria estruturalista da deterioração dos
to Científico e Tecnológico (CNPq) e renomado termos de intercâmbio, na qual fica explícito que
pesquisador de Economia Brasileira, faz parte o progresso tecnológico na periferia traz, como
da coleção Série Econômica de Bolso da Editora resultado, uma transferência de renda, via comér-
LTC, organizada pelo historiador e professor Luiz cio, das regiões subdesenvolvidas em direção ao
Eduardo Simões de Souza. centro, contrapondo-se, assim, à teoria tradicional
O objetivo do livro de Fonseca é apresentar, das Vantagens Comparativas. Nesse contexto, a
de maneira didática e concisa, o processo de CEPAL propõe um novo modelo de desenvolvi-
substituição de importações, que teve origem no mento econômico alicerçado no setor industrial.
Brasil com o Governo Vargas. Nesse sentido, o Inicia-se, assim, o processo de substituição de
livro está organizado em três capítulos: a contro- importações, que é feito por fases, a saber: bens
vérsia sobre as origens da substituição de impor- de consumo não duráveis; bens de consumos du-
tações; a substituição de importação como mode- ráveis, bens intermediários e bens de capital. O
lo de industrialização e o processo de substituição autor, ainda nesse capítulo, apresenta algumas
de importações na era de Vargas. críticas a esse modelo, merecendo destaque a te-
No capítulo A Controvérsia Sobre as Origens oria do bolo, que apregoava que é preciso aumen-
da Substituição de Importações, Fonseca esbo- tar a renda para depois distribuí-la, a qual corro-
ça o que foi o processo de substituição de im- borou para o aumento das desigualdades sociais,
portações que teve início no Brasil com Getulio e a teoria da dependência proposta por Fernando
Vargas, quando o governo começou a comprar Henrique Cardoso e Enzo Faletto, inspirados em
o excedente de café do setor cafeeiro, somado Max Weber e Karl Max, que criticaram a teoria da
com impostos sobre as exportações e destruição CEPAL por negligenciarem as variáveis políticas
do excedente, o que acarretou, gradativamente, a em suas análises.
mudança do centro dinâmico da Economia Brasi- Por fim, depois de apresentar o modelo e as
leira. O processo de substituição de importações teses que o defenderam e o criticaram, o capí-
pode ser caracterizado por uma industrialização tulo O processo de Substituição de Importações
fechada, ou seja, ser voltada para dentro visando na Era de Vargas volta-se ao processo históri-

174
AULA 27 • CARACTERÍSTICAS DO MODELO DE INDUSTRIALIZAÇÃO POR SUBSTITUIÇÃO
DE IMPORTAÇÃO

bricação de bens de consumo duráveis, uma vez que o


co concreto e centra-se nas políticas e ações
mercado consumidor crescente assim o exigia. O café
governamentais, com Vargas à frente, em seus
foi importante, mas agora deveria abrir espaço para as
dois governos, personagem singular para enten-
atividades industriais dos três estados mais importan-
der o processo do desenvolvimento econômico
tes: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esses
brasileiro. Neste capítulo, o autor discute como
estados conseguiram transformar o arquipélago eco-
já tinha feito anteriormente no clássico “Vargas:
nômico em um país unificado industrialmente, pois os
o capitalismo em construção” (1989) e no artigo
bens ali produzidos eram consumidos em todo o terri-
“Sobre a Intencionalidade da Política Industriali-
tório nacional. Os governos de Getúlio Vargas e Jusce-
zante do Brasil na Década de 1930”, Revista de
lino Kubitschek foram responsáveis por esse processo
Economia Política, v. 23, n. 1, 2003, que Vargas,
e pela integração nacional com a abertura de estradas
ao iniciar a mudança do centro dinâmico do se-
(rodovias), melhoria dos portos (cujos custos são bem
tor cafeeiro para o setor industrial, fez isso inten-
mais baratos para o transporte de cargas em relação
cionalmente, ao contrário do que argumentavam
ao rodoviário), ferrovias, sistema de telecomunicações,
pensadores como Celso Furtado. Para compro-
etc. Ao dar prioridade à indústria de base, Vargas incre-
var isso, o autor destacou algumas ações do
mentou a produção de aço, tão necessário às demais
governo, tais como a reforma tributária de 1934,
indústrias, forneceu condições financeiras para a ins-
de caráter protecionista; o aumento de créditos
talação de fontes energéticas e reorganizou agrícola e
ao setor industrial; a criação de diversos órgãos
industrialmente o Brasil.
voltados à diversificação agrícola e ao beneficia-
Foi dessa maneira que atraiu as transnacionais
mento da agroindústria; e a legislação trabalhis-
europeias, japonesas e norte-americanas para cá, in-
ta. Outro ponto que merece destaque é que Var-
teressadas nos setores como eletricidade, iluminação
gas, para viabilizar o processo de substituição
pública, portos e ferrovias. As vantagens oferecidas
de importações, não isolou o setor primário das
pelo governo eram tentadoras, além da mão de obra
atividades econômicas, mas fez com que tivesse
barata, do crescente mercado consumidor da classe
novas funções, como produzir matérias-primas,
média urbana e dos lucros advindos das atividades
ser mercado consumidor aos produtos industria-
agropecuárias e industriais. Ao produzir internamente
lizados, gerador de divisas para compra de má-
o que antes era importado, passamos da fase inicial da
quinas e insumos necessários à indústria, entre
indústria e nos integramos ao círculo da industrializa-
outros. Termina o capítulo com o nacionalismo
ção mundial.
exacerbado da última fase do governo Vargas,
até os últimos acontecimentos que acarretaram
4 ATIVIDADES
o enlace final de seu governo.
(Disponível em: http://www. 1. Leia o texto IMPERIALISMO, do professor de His-
scielo.br/scielo.php?pid=S0101- tória Mario Schmidt (1998, p. 214).
31572010000200011&script=sci_arttext.
Acesso em: 20 fev. 2011.) O imperialismo é a etapa de desenvolvimento
do capitalismo que corresponde à segunda revo-
Enfim, o livro de Fonseca deve ser saudado pela lução industrial e ao capitalismo monopolista.
academia, pois é mais uma contribuição deste eminen- Os grandes monopólios dos países que vi-
te pesquisador para análise e compreensão do proces- viam a segunda revolução industrial começaram a
so de substituição de importação, tema sempre perti- investir capital em países e colônias da América,
nente para compreender, com acuidade, as origens do África e Ásia. Veja bem a novidade: não apenas
desenvolvimentismo brasileiro. buscavam mercado consumidor para suas mer-
cadorias, como também passavam a abrir filiais
3 RESUMO de empresas nos países periféricos.
Veja o caso da Inglaterra. Ela apoiou a inde-
Após 1930, o Brasil (re)começou seu processo in-
pendência do Brasil porque estava interessada
dustrial, usando fluxo dos capitais produtivos para a fa-

175
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

2. Justifique a afirmativa: “os investimentos america-


em obter um mercado para suas manufaturas. No
nos, ao contrário dos ingleses, concentraram-se
final do século XIX, ainda tinha interesse nesse
nos setores primário e secundário da economia”.
mercado. Mas agora havia uma novidade espe-
(SCHIMIDT, 1998, p. 244).
cial: empresários ingleses passaram a investir ca-
3. Pesquise como a ordem econômica constituída em
pital, a ser donos de empresas no Brasil. Assim,
1945 (Bretton Woods) e as instituições econômicas
os países ricos passaram a formar verdadeiros
multilaterais FMI, BIRD ajudaram a reconstrução
impérios econômicos. Na África e na Ásia, forma-
mundial e faça um comentário (aproximadamente
ram-se colônias europeias. Na América Latina,
12 linhas) sobre sua pesquisa.
o imperialismo agia com mais sutileza. Afinal, já
estávamos independentes. Não podíamos ser co- REFERÊNCIAS
lônias.
FONSECA, Pedro Cezar Dutra; SOUZA, Luiz Eduar-
Vários historiadores acreditam que os países
do. O processo de substituição de importações.
imperialistas enriqueceram muito à custa dos paí- São Paulo: LCTE, 2009. Disponível em:
ses pobres (periféricos). Afinal, controlavam gran- http://www.sep.org.br/artigo/490_c90007bbf8be97-
de parte da economia destes países. Formavam be2d2dc3c7b377c1db.pdf.
verdadeiros impérios econômicos, obtendo lucros Acesso em: 20 fev. 2011.
fabulosos de seus investimentos no estrangeiro. KOWARICK Lúcio. As lutas sociais e a cidade. Rio
Repare que a maioria dos países pobres da de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
atualidade foram ex-colônias e, com certeza, esti- MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. Geografia:
veram submetidos à expansão imperialista. Note a construção do mundo. Geografia Geral e do Brasil.
também que quase todos os países capitalistas São Paulo: Moderna, 2005.
desenvolvidos da atualidade foram nações impe- _________ Projeto de ensino de Geografia: natu-
rialistas no passado. reza, tecnologias e sociedades. Geografia do Brasil.
São Paulo: Moderna, 2001.
Reescreva o texto sobre o imperialismo, posicio- SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil:
nando-se criticamente em relação a ele (a favor ou 500 anos de história malcontada. Sociedade e Cul-
contra). tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.

176
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 28

O CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA

Objetivos
• Entender o que é industrialização restringida.
• Relacionar a industrialização restringida com a
expansão capitalista no Brasil.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO tradição parece existir, na prática ela não existe, pois


de um lado temos uma interligação em redes mundiais
A economia global apresenta diversificações inter-
(portanto global), do outro as decisões governamentais
nas representadas por três regiões principais e suas
com suas políticas de incentivos fiscais constituem o
áreas de influência: América do Norte [...], União Eu-
exemplo da uma economia regional. No caso do Bra-
ropeia [...] e a região do Pacífico asiático [...]. Em torno
sil, o setor siderúrgico na era Vargas representa essa
desse triângulo de riqueza, poder e tecnologia, o resto
industrialização restringida Como se deu isso? Através
do mundo organiza-se em uma rede hierárquica e as-
da união do capital privado nacional e do governo fede-
simetricamente interdependente, conforme países e re-
ral. O Sudeste foi o grande atrativo para alguns setores
giões diferentes competem para atrair capital, profissio-
lucrativos. O capital internacional teve pequena parti-
nais especializados e tecnologias para suas praias [...].
cipação no processo de industrialização restrita. Para
O conceito de uma economia global regionalizada
os professores da UFPR (Departamento de Economia)
não representa nenhuma contradição de termos. Há,
Curado e Cruz (2008, p. 415-417. Acesso em: 23 fev.
de fato, uma economia global porque os agentes eco-
2011), a industrialização restringida seriam
nômicos operam em uma rede global de interação que
transcende as fronteiras nacionais e geográficas, mas [...] as atividades em que o capital estran-
geiro concentrou seus investimentos não
essa economia é diferenciada pelas políticas, e os go- se constituíram no eixo central do proces-
vernos nacionais desempenham um papel muito impor- so de industrialização restringida, quer
tante nos processos econômicos. (CASTELLS, 1999, seja os setores de bens de consumo não-
duráveis, amplamente dominados pelo
p. 117-119, com adaptações). capital privado nacional. Outro aspecto
Prezado aluno, destacado pela literatura é que, muito em-
bora o crescimento dos fluxos de IDE - In-
É com essa interpretação de globalização econômi- vestimento Direto Externo - em atividades
ca feita pelo excepcional professor de Sociologia espa- industriais seja inegável para o período,
nhol Manuel Castells que iniciamos nosso assunto sobre em particular para o período compreen-
dido entre 1943 e 1950, seus montan-
industrialização restringida. Ele conseguiu condensar as tes ainda eram insuficientes para mudar
relações econômicas mundiais do triângulo rico, pode- o padrão dos estoques de IDE no país.
Dados do Banco Central do Brasil deixam
roso, inovador e tecnológico com o “resto” do mundo. claro esse ponto. Em 1950, 27,1% dos
Sim, podemos dizer “resto” considerando as escolhas estoques de IDE no país encontravam-se
feitas por esse grupo no quesito investimento. Quando? na atividade de energia elétrica. O setor
de petróleo, com 12,9%, e bancos, com
Como? Onde? Para que investir? Essas perguntas de- 6,9%, aparecem à frente do setor indus-
verão ser respondidas por nós, que aceitamos as “so- trial com maior aporte de capital estran-
geiro em 1950.
bras” do capital produtivo, enquanto essas decisões po-
dem ter sido tomadas em uma praia paradisíaca. Após Em suma, assiste-se, no período de in-
dustrialização restringida, a um cresci-
1945 e com a reconstituição das economias afetadas mento na importância dos IDEs na indús-
pela guerra, no Brasil vamos encontrar o tripé: capitais tria brasileira. Em grande medida, isso é
fruto das oportunidades abertas pelo rápi-
nacionais + empresas estatais + investimentos transna- do crescimento das atividades industriais
cionais. Cada grupo investidor, mesmo respeitando as no país e do paulatino deslocamento das
fronteiras geográficas e nacionais, procurou concentrar atividades dinâmicas do setor agroexpor-
tador para a indústria. Esse fenômeno
esforços naqueles setores que lhe interessavam. É uma também reflete a conjuntura internacio-
industrialização limitada, conforme nos alerta Castells nal, em que se destaca a consolidação
da hegemonia norte-americana no plano
(1999). O Brasil se permitiu vivenciar um modelo restrito internacional. Não obstante, as informa-
de indústria em algumas áreas É isso que iremos ver na ções disponíveis permitem afirmar que o
aula de hoje, certo? Vamos aos fatos, então! IDE desempenhou papel secundário nes-
sa fase do processo de industrialização
brasileiro comparativamente à importân-
2 DEFININDO INDUSTRIALIZAÇÃO cia do capital privado e estatal de origem
nacional. Ainda assim, merece destaque
RESTRINGIDA o fato de que alguns dos mais importantes
elementos que irão caracterizar o IDEs no
Se, para Castells (1999), a economia é global e período seguinte, a industrialização pesa-
regional ao mesmo tempo, ou seja, uma suposta con- da, com destaque para o papel dos IDE

178
AULA 28 • O CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA

norte-americanos na indústria pesada, já nal podia crescer num ambiente razoa-


se encontravam presentes nessa fase da velmente protegido da concorrência es-
industrialização brasileira. trangeira. Além disso, pela primeira vez,
o governo se interessava pela indústria.
O complexo petrolífero, a siderurgia e o setor elé- As exportações agrícolas, que se reer-
trico da era Vargas caracterizaram a industrialização guiam com dificuldade, financiavam a
importação de máquinas e equipamentos
restringida com o uso do capital estatal para a produ- necessários para a indústria nacional de
ção de bens intermediários e os de consumo duráveis bens de consumo. O êxodo rural, muito
intenso desde a crise cafeeira, propor-
e não duráveis no país pelos nacionalistas. Após 1937 cionava mão de obra para as fábricas. A
houve um relativo aumento de empresas (subsidiárias) substituição dos bens industriais importa-
estrangeiras, principalmente as norte-americanas no dos por bens fabricados no Brasil estava
em plena marcha.
setor dos produtos metálicos e não-metálicos, papel,
equipamentos e aparelhos elétricos, química em geral O Brasil desenvolveu o sistema de montagens de
e tecidos sintéticos. Contudo o papel do Estado e do peças produzidas no exterior, no período entre guer-
capital nacional nesse período foi maior conforme afir- ras, mas as economias não existem isoladamente. As
mam Paul Singer, Wilson Suzigan, entre outros econo- interações comerciais, as transferências de capital, os
mistas, sobre o avanço das transnacionais no Brasil. investimentos, as inovações tecnológicas e de informa-
Era necessária uma nova fonte de divisas para im- ções provocam concorrência entre os produtores dos
portar as máquinas e equipamentos. diversos países. Assim, o intercâmbio internacional e a
Procurando aumentar a renda interna, Getúlio Var- especialização das economias reforçam a Divisão In-
gas investiu no setor de base (energia, transportes, si- ternacional do Trabalho – DIT – que continua refletindo
derurgia, metalurgia, etc.) e “obrigou” os investidores as desigualdades de trocas e desenvolvimento ao longo
nacionais a acompanhá-lo na empreitada. Esse mo- do tempo. Magnoli e Araújo (2005, p. 378) afirmam que
mento econômico durou até 1955. [...] o comércio internacional é um dos
Um conjunto de novas tecnologias, ao encontrar principais motores da globalização. A ex-
pansão do intercâmbio comercial apro-
aplicação produtiva, acaba “destruindo” as atividades funda a divisão internacional do trabalho
tradicionais, podendo gerar falência e desemprego e as especializações produtivas de cada
naquelas mais antigas (ao utilizar tecnologia, mesmo país. De um ponto de vista geral, torna
as economias nacionais mais sensíveis
as mais simples, acabam por afastar o ser humano do às flutuações da economia mundial. [...]
trabalho braçal, né?). O aumento dos bens de capital e A explosão do intercâmbio internacional
resultou, em parte, das políticas de redu-
dos intermediários acompanhou a tendência (de cres- ção de tarifas de importação postas em
cimento) da produção interna, antes dependente das prática desde o final da Segunda Guerra
importações. Portanto, desde 1986, o que Ortiz definiu Mundial, por meio das negociações glo-
bais do GATT. As tarifas médias nos paí-
como industrialização restringida continua válido: é ses desenvolvidos situavam-se em torno
quando a expansão capitalista se realiza em determi- de 40% na década de 1940, retrocederam
para cerca de 16% na década de 1960 e
nados setores, não alcançando a totalidade da popu- continuaram a cair até o patamar de 3%
lação e nem sempre acompanhando a velocidade de em 2000.
produção mundial, pois seu nível industrial é baixo.
Ao implantar as indústrias de bens de consumo du-
ráveis com capital proveniente do complexo cafeeiro,
3 ALGUMAS RELAÇÕES as máquinas substituíram a força de trabalho humana.
CAPITALISTAS NO BRASIL DA O governo federal, incentivando os setores industriais,
fez crescer a indústria de cimento, siderurgia, metalur-
INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA
gia, material elétrico e papéis e mais tarde o petroquí-
De 1930 até 1950, quando o país vivia o modelo de mico. Em 1940, em entrevista à imprensa, o presidente
substituição das importações, também havia o modelo Getúlio Vargas deu a seguinte explicação para a políti-
agroexportador, conforme Magnoli e Araújo (2005, p. 193): ca da siderurgia adotada em seu governo:
As importações de manufaturados tinham A nossa produção siderúrgica atual é re-
desabado, acompanhando a queda das duzida, cara e antieconômica, devido aos
exportações agrícolas. A indústria nacio- processos adotados. Trabalha com pe-

179
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

quenos alto-fornos a carvão de madeira. da. No entanto, entre uma fase e outra,
Ainda mais, seu crescimento depende de houve uma profunda descontinuidade,
reservas florestais, que vão diminuindo que colocou exigências dramáticas à
com o tempo e cuja reconstituição é de- ação estatal.” Segundo JOÃO MANUEL,
morada e custosa, sobretudo se conside- a ação do Estado foi decisiva porque se
rarmos que só pode ser utilizado o carvão mostrou capaz de investir maciçamen-
de madeira de lei. Admitindo-se, mesmo, te em infraestrutura e nas indústrias de
a possibilidade de um reflorestamento re- base sob sua responsabilidade. Ademais,
gular, a siderurgia explorada nessas ba- coube-lhe uma tarefa essencial: estabele-
ses se tornará cada vez mais onerosa e cer as bases da associação com a grande
precária pelo consumo crescente das re- empresa oligopólica estrangeira, definin-
servas florestais. [...] A solução do proble- do, claramente, um esquema de acumu-
ma está, portanto, na grande siderurgia. lação e lhe concedendo generosos favo-
(MAGNOLI; ARAÚJO, 2001, p. 246) res. Segundo SÔNIA DRAIBE, o papel do
Estado no processo de industrialização
Viu como o presidente tinha um discurso consis- e das transformações sociais em curso,
tente e, ao mesmo tempo, ditatorial ao impor-se frente a partir da Revolução de 1930, mereceu
desde há muito tempo a atenção dos
aos opositores? Seu discurso demonstrou que, mesmo cientistas sociais e políticos. A natureza
com os poucos recursos financeiros tão comuns àquela social do Estado que emergiu com a crise
e a Revolução, os fundamentos de classe
época, haveria garantia e confiança no investimento da do poder e as condições políticas da par-
indústria de base no país. Esse “chamado” fará muita ticular autonomia de que parecia dotado
diferença nos anos seguintes ao atrair capitais estran- constituíram as questões que se tratou
de compreender através do conceito de
geiros. A disponibilidade de matérias-primas produzidas Estado de Compromisso. Inegavelmen-
pela indústria de base estatal estimulará a criação de te, coube aos autores que o definiram o
mérito de ao mesmo tempo captar as par-
outras indústrias de consumo duráveis e não-duráveis ticularidades de um momento da transfor-
de menor investimento que as do governo. Ao término mação capitalista no Brasil, que avançava
da Segunda Guerra Mundial, com as dificuldades de em moldes bastante distintos do modelo
democrático-burguês de revolução, e de
importação de equipamentos e máquinas industriais, abrir espaço à temática específica do Es-
o país, usando o capital acumulado durante as crises, tado. [...] (Adaptado)
inicia uma indústria de bens de capital como a de au-
O modelo de industrialização restrita ou limitada tam-
topeças.
bém foi analisado por Villela e Suzigam (1973, p. 70):
Veja o que Draibe (1985, s/p) nos traz sobre a in-
dustrialização restringida, baseando-se em João Ma- [...] em 1919, as indústrias têxteis, de
vestuário e calçados, produtos alimenta-
nuel Cardoso de Mello e em Florestan Fernandes: res, bebidas e fumo eram responsáveis
A industrialização não se fez sob o coman- por cerca de 70% do valor adicionado no
do de um empresário inovador, capaz de setor industrial. [...] O mesmo conjunto de
cumprir as tarefas impostas ao desenvol- setores respondia por 58% desse valor
vimento do capitalismo em condições com em 1939. O crescimento das atividades
as brasileiras. Na verdade, o processo de industriais foi, sobretudo, relevante até
industrialização brasileiro esteve longe de o início da Segunda Guerra Mundial. O
se desenvolver a partir do desdobramen- contexto internacional do período que se
to “natural” de uma estrutura industrial, estendeu de 1933 até o fim da Segunda
que se teria diferenciado gradativamente Guerra Mundial foi marcado por extrema
sob os impactos dinâmicos de sucessivos instabilidade, sobretudo no que se refere
estrangulamentos externos. Já na etapa ao comportamento do mercado financeiro
de industrialização restringida o cresci- internacional, e da retração do ritmo de
mento econômico requereu não somente crescimento da economia mundial. O pe-
uma forte coordenação estatal, mas tam- ríodo imediatamente posterior ao conflito
bém uma ação do Estado, inclusive como marcou a consolidação da hegemonia
empresário, capaz de estender e levar norte-americana no plano internacional.
até os seus limites os estreitos horizontes Na esfera financeira, isso se tornou evi-
do setor privado. Muito mais dramáticas dente a partir da instituição do acordo de
foram as exigências impostas ao Estado Bretton Woods em 1944.
pela industrialização pesada. A fase de
industrialização restringida implicou um No seu segundo mandato (1951/54), Vargas criou
avanço significativo no desenvolvimento órgãos de planejamento com o Banco Nacional de De-
das forças produtivas e da divisão social
do trabalho, avanço que certamente foi
senvolvimento Social – BNDES – que foram fundamen-
precondição para a industrialização pesa- tais para o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek in-

180
AULA 28 • O CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA

crementar nosso desenvolvimento (mesmo que tenha ca), ele isenta indústrias que se dispusessem a inves-
sido com muitos empréstimos e aumento da dívida ex- tir na produção de outros bens de consumo duráveis
terna brasileira). Assunto que abordaremos na próxima (elétrico, autopeças, por exemplo) e consegue atrair
aula. Até mais! capital norte-americano para cá. Os estados de São
Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais continuaram
3 RESUMO recebendo investimentos em infraestrutura e tributos
fiscais. O acúmulo de capital interno acompanha esse
Logo depois da Primeira Guerra Mundial, o Brasil
desenvolvimentismo, e o consumo dos bens produ-
tinha pequenas atividades responsáveis por 70% de
zidos internamente aumenta, gerando maior poder
produção industrial, como foram os casos do setor têx-
aquisitivo das pessoas.
til, do vestuário, dos calçados, dos gêneros alimentícios
Em 1940, o discurso de Vargas atrai investimentos
e da produção de bebidas e de fumo. O café continua
nacionais e internacionais para a indústria de base e de
o grande gerador de divisas internacionais, mas a crise
bens intermediários (construção de navios e de trilhos,
de 1929 deixou um “vácuo” nas exportações brasileiras
além do setor elétrico, especialmente com a presen-
e foi possível manter um parco crescimento na acumu-
ça dos EUA). De 1943 a 1950, o mundo vivenciou um
lação de capital através do algodão, da cana-de-açúcar
freio no crescimento industrial e os países desenvolvi-
e da borracha. Somente a partir da Grande Depressão,
dos, antes exportadores de bens de consumo, veem-
o governo brasileiro começou a se preocupar com as
se forçados a aceitar a produção interna nos países
necessidades internas de consumo. Em 1933, a insta-
dependentes, como foi o caso do Brasil e da Argentina
bilidade financeira e a retração no ritmo de crescimento
na América Latina. Houve estímulos para determinados
industrial dificultavam os empréstimos externos.
setores industriais que usavam baixa tecnologia e por
Aproveitando-se da falta de capitais disponíveis,
um tempo limitado, daí a expressão “industrialização
o governo de Getúlio Vargas investe na indústria de
restringida”. A era de Getúlio Vargas ficou conhecida
base (metalurgia, siderurgia, cimento, trilhos, etc.)
como a “era das indústrias nacionais” até porque havia
e procura atrair investimentos no setor. Ao fornecer
retração econômica no mercado mundial.
energia e meios de transporte eficientes (para a épo-

4 ATIVIDADES
1. Leia os textos abaixo para responder ao que se pede sobre eles.
A) O primeiro é retirado do livro Vinhas da ira, do norte-americano John Steinbeck (ganhador do Premio Nobel
de Literatura em 1962) publicado em 1939.
“Uma família isolada mudava-se de suas terras. O pai pedira dinheiro emprestado ao banco e agora
o banco queria as terras. A companhia das terras quer tratores em vez de pequenas famílias em suas
terras. Se esse trator produzisse os compridos sulcos em nossa própria terra, a gente gostaria do
trator, gostaria dele como gostava das terras quando ainda eram da gente. Mas esse trator faz duas
coisas diferentes: traça sulcos nas terras e expulsa-nos delas. Não há quase diferença entre esse
trator e um tanque de guerra. Ambos expulsam os homens que lhes barram o caminho, intimidando-
os, ferindo-os.” (STEINBECK, 1996, p. 298)
B) O segundo foi publicado pelo jornal Folha de São Paulo e foi escrito pelo ex-presidente José Sarney, em 04
de março de 2005, com o título “Vá tomar banho”.
“A característica mais forte da sociedade industrial foi a sua capacidade nunca prevista de provocar
um êxodo das populações rurais para as cidades. A relação de outrora – de 80% das pessoas vivendo
no campo e 20% nas cidades – inverteu-se vertiginosamente para, em média, 10% no campo e 90%
nas cidades. O Brasil não ficou atrás e, hoje, é mais ou menos essa a proporção que apresenta. O
único estado brasileiro em que quase a metade da população vive no campo é o Maranhão e, por isso
mesmo, ele paga nas estatísticas os índices baixos, que nada mais são do que não entrar no cômputo
econômico essa gente que vive em regime de subsistência, sem a sedução do consumismo das

181
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

metrópoles. O resultado é um maior nível de igualdade. Isso faz com que o Maranhão tenha a melhor
distribuição de renda do Nordeste. O fosso entre ricos e pobres é menor. Se pudéssemos perguntar
onde o homem era mais feliz, se no campo ou se na cidade, certamente a resposta seria no campo,
onde não há os problemas das periferias, da insegurança, da miséria e da fome, onde o mundo da
pobreza descamba para o crime, para as drogas e para todas as espécies de degradação humana. E
ninguém escapa desse clima: ricos e pobres, remediados e biscateiros.”
Faça um paralelo entre a vida do norte-americano após a crise de 1929 e a do brasileiro em 2005, conforme o
senador Sarney.

2. Leia as afirmativas do economista e professor Pedro Cezar Dutra Fonseca, da UFRGS, retiradas do site
http://www.ufrgs.br/decon/VIRTUAIS/eco02013ab/pasta/exercicios/roteiro.pdf
Acesso em: 24 fev. 2011.
A) “Não fosse a firme decisão de algumas nações latino-americanas de substituir importações, até hoje países
como Brasil e Argentina seriam exportadores de matérias-primas, mais pobres e atrasados, sem indústrias
e mais vulneráveis à ordem econômica internacional.”

B) “[...] o processo de substituição de importações, ao fechar a economia e proteger o capital nacional, criou
uma indústria tecnologicamente atrasada e incapaz de expor-se à concorrência externa, ao mesmo tempo
em que manteve a concentração de renda e os péssimos indicadores sociais, ao privilegiar o capital em
detrimento do trabalho.”

Agora, verifique se eles se completam, confrontam-se ou se contradizem. Em seguida, justifique sua resposta
com bons argumentos.

REFERÊNCIAS
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. v. 1.
CURADO, Marcelo; CRUZ, Marcio José Vargas da. Investimento direto externo e industrialização no
Brasil. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/rec/v12n3/01.pdf Acesso em: 22 fev. 2011.
GOMES, Francisco Magalhães. História da siderurgia no Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1983.
DRAIBE, Sônia. Estado e industrialização no Brasil: 1930 – 1960. Disponível em:
http://www.nudes.ufu.br/disciplinas/arquivos/SONIA%20DRAIBE-FORMACAO%20DO%20ESTA-
DO%20BRASILEIRO1.pdf. Acesso em: 24 fev. 2011.
MAGNOLI, Demétrio; ARAÚJO, Regina. Geografia: a construção do mundo. Geografia Geral e do Brasil. São
Paulo: Moderna, 2005.
MATTEI, Lauro; SANTOS JÚNIOR, José Aldoril. Industrialização e substituição de importações no Bra-
sil e na Argentina: uma análise histórica comparada. Disponível em: http://www.sep.org.br/artigo/490_
c90007bbf8be97be2d2dc3c7b377c1db.pdf. Acesso em: 23 fev. 2011.
VILLELA, Annibal V.; SUZIGAN, Wilson. Política do governo e crescimento da economia brasileira: 1889-
1945. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1973.

Para saber mais:


Leia os trechos de um artigo do professor Lauro Mattei e do estudante José Aldoril dos Santos, ambos da UFSC,
sobre o processo ISI (Industrialização da Substituição de Importações) no Brasil e na Argentina, disponível em:
http://www.sep.org.br/artigo/490_c90007bbf8be97be2d2dc3c7b377c1db.pdf
http://www.portalcse.ufsc.br/gecon/coord_mono/2004.2/Jos%E9%20Adoril%20dos%20Santos.pdf.
Acesso em: 20 fev. 2011.

182
AULA 28 • O CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA

Industrialização e substituição de o período entre 1930 a 1945. Do pós-guerra até


importações no Brasil e na Argentina: uma meados da década 1960, ocorreu a intensifica-
análise histórica comparada ção das substituições de importações, quando
Lauro Mattei a industrialização foi conduzida e planejada pelo
José Aldoril dos Santos Junior Estado, período caracterizado como sendo a ter-
ceira fase. A quarta fase vai de 1963 até meados
[...] No início do século XX, a principal ca- da década de 1970, quando ocorreu um inten-
racterística das economias brasileira e Argentina so surto de crescimento industrial. A quinta fase
era que ambas podiam ser consideradas como corresponde à política de abertura comercial im-
agroexportadoras, ou seja, a produção era con- plementada a partir de 1976, levando ao esgota-
centrada em poucos produtos de origem agrícola mento do modelo de desenvolvimento industrial
ou pecuária destinados ao mercado externo. No orientado para o mercado interno.
caso brasileiro, toda dinâmica econômica esta- No Brasil, o processo de substituição específi-
va voltada ao setor cafeeiro, enquanto no caso co de importações também teve início com a crise
argentino a concentração se dava na produção de 1929, sendo que a sua vigência se prolongou
pecuária e de cereais, principalmente o trigo e o até o final da década de 1970, quando ocorreram
milho, oriundos da região do Pampa Úmido (que os choques do petróleo, o aumento da taxa de
engloba as províncias de Buenos Aires, Santa Fé, juros nos Estados Unidos e a crise do endivida-
Córdoba e La Pampa). mento externo brasileiro.
Nesse contexto, enquanto as exportações de Este longo período pode ser subdividido em
produtos primários representavam grande percen- períodos menores: de 1880 até 1929, quando
tagem na composição da renda desses países, as ocorreu o nascimento da indústria em paralelo ao
importações eram a fonte de suprimento dos di- setor dinâmico agroexportador; de 1930 a 1945,
versos tipos de bens manufaturados destinados a ocorreu o nascimento da indústria em paralelo ao
satisfazer a demanda interna. Como o grosso da setor dinâmico agroexportador e quando se ini-
produção interna era voltado basicamente para o ciou o processo de substituição de importações,
exterior, a capacidade para se fazer importações fundamentalmente dos bens de consumo não-
era condicionada pelo preço obtido pelas exporta- duráveis; de 1946 a 1955, que abrange o perío-
ções e pela quantidade de produtos vendida aos do do pós-guerra, quando podem ser observados
outros países. consideráveis índices de crescimento industrial,
Porém, com as sucessivas crises no comér- prosperidade econômica e a consolidação da
cio exterior, sobretudo a partir de 1929, este mo- indústria leve de consumo no Brasil; de 1956 a
delo de desenvolvimento econômico entrou em 1961, caracterizado pelo projeto industrial plane-
colapso em ambos os países em estudo. A partir jado e orientado pelo Estado através do Plano de
de então tem início nos dois países um processo Metas; e o período de crise e “milagre” econômico
de industrialização por substituição de importa- brasileiro entre 1962 e 1973, conjugando-se a for-
ções, como resposta a queda na capacidade de mulação do II PND com a crise da dívida externa
importar provocada pela crise do comércio inter- do início da década de 1980 e o próprio final do
nacional. modelo de substituição de importações no país.
Na Argentina, especificamente, são identifi- [...]
cadas cinco fases distintas para o processo de A divisão internacional do trabalho da época
formação industrial: a primeira compreende os reservou, tanto para o Brasil como para a Argen-
principais anos do período agroexportador, quan- tina, o mercado para as exportações de produtos
do surgem várias indústrias produtoras de merca- primários. Neste sentido, a produção brasileira fi-
dorias ligadas ao setor dinâmico da economia. A cou dominada, basicamente, pelo setor cafeeiro
segunda fase condiz com a chamada substituição que representava, em 1913, 62,3% do total das
de importações não buscada, compreendendo exportações brasileiras. Já na Argentina a produ-

183
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

ção logrou um grau maior de diversificação, pois como mercados promissores para este tipo de
em 1913 o país recebia divisas por uma grande bens.
variedade de cereais, destacando-se o trigo, linha- Em 1913 as importações brasileiras tiveram
ça, centeio, cevada e o milho, além dos produtos origem, principalmente, no Reino Unido, com
pecuários, como a carne congelada, lã e o couro. 24,5% do total, e nos EUA, com 15,7%. Da mes-
Em contraste com o caso brasileiro, na Argenti- ma forma para a Argentina, o principal fornece-
na o principal produto na pauta de exportações dor de importações foi o Reino Unido, com 31%,
(milho) representava apenas 22,5% do total ex- seguido pelos EUA, com 14,7% do total. O de-
portado. Deste modo, as exportações argentinas sempenho do setor exportador argentino implicou
representavam quase 30% da renda total obtida que durante a fase de crescimento econômico
com exportações por toda América Latina. orientado pelas exportações, o país tenha obtido
Comparativamente, as taxas anuais de cres- melhores resultados em relação aos obtidos pelo
cimento das exportações entre 1850 e 1912 foram Brasil. A renda per capita na Argentina, em 1913,
de 6,1%, para o caso argentino, e de 3,7%, para era de 537 dólares enquanto que no Brasil era
o caso brasileiro. Da mesma forma, em 1913, a de apenas 125 dólares. Desta forma, é possível
receita obtida com exportações foi de U$ 510,3 entender a razão pela qual o setor industrial na
milhões para a Argentina e de U$ 315,7 milhões Argentina se desenvolveu acompanhando o setor
privilegiados que esta nação ocupou na divisão exportador mais do que se verificou no Brasil.
internacional do trabalho transformaram este país Em ambos os países a disposição dos recur-
na nação mais rica da América Latina durante os sos para o desenvolvimento da indústria, força de
anos orientados pela dinâmica agroexportadora. trabalho e capital, estiveram ligados ao desen-
Outra diferença importante deste período diz volvimento do setor primário exportador. Quanto
respeito ao destino das exportações: enquanto ao primeiro aspecto, tanto no Brasil como a Ar-
para o caso brasileiro o principal mercado era o gentina, recorreu-se ao uso da força de trabalho
norte americano, representando 32,2% do total migrante, sobretudo italiana. Para a Argentina a
das exportações, para o caso argentino o princi- imigração esteve associada à necessidade de po-
pal mercado era a Grã-Bretanha, representando voar o país. De fato, a imigração para a Argentina
24,9% do total exportado pelo país. foi a mais notável, pois em 1890, mais da metade
Como a dinâmica produtiva estava voltada do aumento da força de trabalho ocorreu devido
para o mercado externo, a oferta de bens inter- à imigração. Buenos Aires se transformou na pri-
namente era satisfeita pelas importações, cuja meira cidade latino-americana com mais de um
capacidade para realizá-las ficava determinada milhão de habitantes. Para o caso argentino, a
pela quantidade de divisas obtidas pelo setor imigração europeia fortaleceu o mercado de tra-
exportador. Também neste quesito verificou-se balho local, propiciando um ganho real para o ní-
que, para o caso brasileiro, o poder aquisitivo das vel global de salários nos anos prévios à primeira
exportações esteve abaixo do verificado pela Ar- guerra mundial.
gentina, tendo em vista que entre 1890 e 1912 o No caso do Brasil a imigração europeia esteve
crescimento do poder aquisitivo das exportações associada ao fim da escravidão e à necessidade
argentinas foi de 5,4%, enquanto que para o caso de preencher a força de trabalho demandada pelo
brasileiro foi de 3%. setor cafeeiro. Entretanto, nem mesmo este flu-
A industrialização na Europa e nos EUA pro- xo migratório conseguiu organizar o mercado de
duziu um excedente de bens manufaturados para trabalho e evitar a ganância dos barões do café
o qual era necessário encontrar novos merca- que não mediram esforços para impedir qualquer
dos. Assim, Argentina e Brasil, por possuírem um aumento de salários. Essa resistência em aumen-
mercado interno de tamanho considerável, terem tar salários teve como efeito concentrar a renda
bases industriais ainda incipientes e participarem obtida pelas exportações nas mãos de poucas
de um sistema de comércio aberto, apareceram pessoas ligadas à oligarquia cafeeira.

184
AULA 28 • O CONCEITO DE INDUSTRIALIZAÇÃO RESTRINGIDA

Em relação à disponibilidade de capital, é cultura e na mineração. Com isso, em 1913 o país


característica dos dois países o intento de me- já contava com 17 bancos comerciais nacionais e
lhorar a eficiência do mercado de capitais, com a 48 bancos estrangeiros.
implantação de bancos modernos. Porém, estes O maior problema enfrentado por estes paí-
se converteram rapidamente em meros financia- ses foi o fato de que os financiamentos sempre
dores dos déficits governamentais. Em 1913, a priorizavam as atividades ligadas ao setor expor-
Argentina já contava com 13 bancos comerciais tador, deixando pouco espaço para as atividades
nacionais, sendo característico também o eleva- ligadas ao mercado interno, tendência que só mu-
do número de sucursais de bancos estrangeiros, daria quando o modelo agroexportador entrou em
atingindo 76 instituições naquele período. Já no crise nos dois países. Desse modo, diante da difi-
Brasil a formação do capital bancário teve início culdade para mobilizar recursos nacionais para a
com o Barão de Mauá que começou a construir acumulação de capital, os dois países adotaram
um império financeiro durante a década de 1850, a prática do endividamento externo como alterna-
para complementar seus investimentos na agri- tiva à falta de capital disponível.

185
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 29

O ESTADO NOVO E A TENTATIVA DE IMPLANTAÇÃO


DE UM MODELO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO

Objetivos
• Evidenciar algumas atividades econômicas da
industrialização brasileira no Estado Novo.
• Diferenciar modelo de processo industrial.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

Meu caro aluno, 2 DIFERENCIANDO CONCEITOS


A nossa aula de hoje se abre com a obra de Candido
Portinari, Trabalhador. Nela os traços marcantes daque-
E EVIDENCIANDO ATITUDES
les que fazem um país foram muito bem retratados por INDUSTRIAIS
esse descendente de italiano, com muita leveza e simpli- Ao período em que Vargas se manteve no poder
cidade. Nascido em Brodoswki (SP), em 1903, e vivendo (1930/1945), especialmente de 1937 a 1945, os his-
com humildade em uma área cafeeira, o pintor vivenciou toriadores conferem o nome de Estado Novo. Seu
o desenvolvimento econômico brasileiro, atravessando significado econômico? Uma política nacionalista, au-
fases dos ciclos econômicos até o início dos anos JK. toritária, caracterizada pela forte presença do governo
Como nenhum brasileiro, ele transpôs nossa economia e como agente fomentador da indústria, especialmente
a fase nacionalista para as telas, desde a série Meninos no setor de base, enfatizador dos recursos naturais e
de Brodoswki, passando pelos títulos Borracha, Fumo, incentivador da produção interna de bens de consumo
Garimpo, Batendo Feijão, Colheita de Milho, Erva Mate, para atender aos interesses dos nacionalistas e, ao
Cana, Ferro, Café, Derrubada de Pau Brasil e Operário, mesmo tempo, atrair capital estrangeiro. Foi uma re-
entre outras, como Mãe Preta e Retirantes. construção do Estado Nacional centralizador, mais for-
Para o jornalista, escritor, crítico de arte e curador te, coeso e capaz de enfrentar o operariado que, desde
Jacob Klintowitz, a obra de Portinari revela a “força pro- 1917, 1918 e 1919, vinha fazendo greves. Em 1931,
dutiva coletiva e as relações sociais que regem toda o recém-criado Ministério do Trabalho, Indústria e Co-
atividade econômica”. E, para a professora da Escola mércio decretou que as assembleias sindicais só pode-
de Comunicação e Artes da USP e pesquisadora do riam se realizar na presença de um funcionário público
CNPq Anna Teresa Fabris, esse paulista revelou ao para elaborar um relatório (bacana essa “democracia”,
mundo a solidez das formas e estruturas geométricas, né?). Houve intervenção nos sindicatos (muita gente foi
sem perder a identidade nacional. E mais: representou presa) e nos poderes estaduais (a figura do interven-
o “estoque humano necessário ao trabalho nos cana- tor estadual foi criada); manipulação dos tenentes (no
viais (segundo Koster), referenciou os negros “robus- início, prestigiava-os, depois, isolava-os, prendia uns,
tos, machos e fêmeas” (de Varnhagen) e nos lembra soltava outros e, por fim, enfraqueceu o movimento);
que o Brasil devia ao “vigoroso braço” africano o fabrico enfrentamento aos jovens instruídos da classe média
do açúcar e a cultura do café, principalmente.” paulista que defendiam as ideias liberais – contrárias
Em 1946, Carlos Drummond de Andrade referiu-se às de Vargas – e às antigas oligarquias que buscavam
ao pintor da seguinte maneira: recuperar o poder no estado. O movimento operário
“...Foi em você que conseguimos a nossa não aderiu ao constitucionalismo paulista de 1932.
expressão mais universal, e não apenas Eis o que nos relata o professor historiador Mário
pela ressonância, mas pela natureza
mesma do seu gênio criador, Schmidt (1998, p. 266-267):
que ainda nos salvaria para o futuro...” [...] as forças militares federais eram mui-
(Disponível em: http://pre-vestibular. to mais poderosas. Assim, São Paulo foi
arteblog.com.br/46287/PORTINARI- derrotado. [...] vitorioso o governo, ele não
interpretacao/) esmagou os cafeicultores, pois sabia mui-
to bem da importância deles. Fez, então,
É exatamente sobre as contradições de um mundo concessões: metade das dívidas bancá-
em alternância (crise e progresso) que iremos falar em rias dos latifundiários foi perdoada e con-
vocaram-se eleições para elaborar uma
nossa aula hoje: um mundo econômico movido pelo nova Constituição. [...] Em 1933, reuniu-
crescimento do capitalismo, do socialismo e da terceira se a Assembleia Constituinte. Tinha sido
eleita com voto direto, obrigatório, secreto.
via. Em outras palavras, das relações entre o centro e Incluindo o voto feminino. Além dos depu-
a periferia capitalista que, com certeza, você já ouviu tados eleitos, havia 40 representantes dos
falar e conhece bastante, não é mesmo? A nossa his- sindicatos dos patrões e dos empregados
(deputados classistas e corporativistas).
tória começará com alguns conceitos, diferenciações e [...] Desde 1932, várias medidas traba-
terminará com uma breve análise das relações sociais, lhistas tinham sido tomadas: oito horas
diárias de trabalho, férias, aposentadoria,
políticas e econômicas durante o Estado Novo, daí a etc. e foram incorporadas à Constituição
presença do quadro Trabalhador. de 1934. Tratava também de assuntos que

188
AULA 29 • O ESTADO NOVO E A TENTATIVA DE IMPLANTAÇÃO DE UM MODELO NACIONAL
DE DESENVOLVIMENTO
tinham sido ignorados nas constituições Itália fascista). Temos então o significado de modelo,
anteriores. Um deles eram medidas nacio-
isto é, aquele (aquilo) que se pretende imitar nas ações
nalistas como a intervenção do Estado na
exploração de minérios e o protecionismo e nas maneiras. Na economia brasileira procuramos
para a indústria. (Adaptado). seguir as ações dos Estados Unidos, após a crise de
Você percebeu a manobra de Getúlio Vargas até 1929, queimando café, como a Argentina queimou uvas.
1937? Não? Pois então, o gaúcho exigiu que constasse Isso foi um modelo. Agora, o processo da substituição
na Constituição eleições diretas para presidente, com di- de importações significou uma série de ações sistemá-
reito ao voto secreto e direto, exceto a primeira eleição, ticas visando certo resultado. O crescimento industrial
que seria de modo indireto. Com poucos opositores, Var- aqui ficou subordinado à conjuntura internacional, às
gas venceu e, com o pretexto de preservar a ordem e a alternâncias do mercado de capitais e às taxas de juros
democracia ameaçadas (pelos comunistas, integralistas externas, às relações com outros países, às duas guer-
e sindicalistas correlatos, segundo o governo), anunciou ras e ainda à concentração de atividades industriais em
pelo rádio a descoberta do plano Cohen (comunistas São Paulo, como principal estado produtor de bens de
tomariam o poder brasileiro à força, assassinando au- consumo e de exportação através do porto de Santos.
toridades, invadindo residências, destruindo indústrias, Tudo eram ações patrocinadas pelo governo federal.
escolas, hospitais, etc.) e denunciou o “plano vermelho” Para Magnoli e Araújo (2005, p. 287)
à população. Apoiado pelas Forças Armadas, ele fechou
[...] os processos de industrialização
o Congresso Nacional e cancelou as eleições presiden- promovem a concentração espacial dos
ciais. Esse foi o golpe de 1937, que foi apoiado também recursos produtivos. Na etapa inicial da
industrialização, os custos de trans-
por políticos tradicionais do Brasil quase todo. Uma nova
ferência (deslocamentos espaciais de
Constituição foi elaborada pelo jurista Francisco Cam- bens, pessoas, serviços e capitais) são
pos, baseada nas leis fascistas da Polônia. Ela tinha elevados, devido ao pequeno desenvolvi-
mento das redes de transportes e comu-
“medidas transitórias e provisórias” que davam plenos nicações. O espaço geográfico oferece
poderes ao presidente e nenhum ao povo. um espectro limitado de opções de loca-
lização para as empresas industriais. As
Economicamente, o governo foi o mediador dos
fábricas instalam-se em escassas locali-
conflitos sociais (daí a expressão populismo de Getú- zações que se destacam pela amplitude
lio). Como a exportação agrária não era capaz de acu- do mercado consumidor, pela oferta de
força de trabalho ou pelos recursos natu-
mular capitais, o jeito foi partir para a industrialização rais e matérias-primas disponíveis.
através de obras públicas, empresas estatais, incentivo Na etapa seguinte, manifesta-se a força
aos pequenos industriais, proteção às fábricas nacio- das economias de aglomeração. Os cen-
tros industriais pioneiros recebem infraes-
nais. Tudo isso gerou emprego, propaganda ideológica truturas de energia, transportes e comuni-
e controle dos sindicatos (a lei do salário mínimo só se cações. O dinamismo industrial impulsiona
efetivou em 1940). As leis trabalhistas eram para os tra- o crescimento demográfico das cidades,
provocando a ampliação dos mercados
balhadores urbanos (não se mexeu no latifúndio nem consumidores e da oferta de força de tra-
em suas relações trabalhistas e sociais). E ele discur- balho. As fábricas, já implantadas, produ-
zem bens intermediários, que funcionam
sava para o povo, para os operários e para intelectuais como insumos para outras fábricas. In-
e artistas. Veja o que disse Carlos Drummond de An- dústria atrai indústria: em torno dos pontos
drade “Lutar com palavras / É a luta mais vã./ No en- pioneiros, formam-se manchas industriais
cada vez mais complexas e diversificadas.
tanto, lutamos / Mal rompe a manhã”. (SCHMIDT, 1998,
p. 276). (Se necessário, volte à aula 21 para rever o Você percebeu como o dinamismo econômico e
crescimento econômico nesse período). a localização industrial dependem de atitudes gover-
De tudo isso que falamos é importante ficar claro namentais? Entre 1940 e 1960, as estratégias de
que o governo de Vargas, tanto no Estado Novo como desenvolvimento das indústrias de base reforçaram a
no segundo mandato, copiou algumas atividades de- tendência de concentração industrial no Sudeste, onde
senvolvidas em outros países, como é o caso da Cons- a siderurgia e os meios de transportes aumentaram
tituição de 1934 (baseada nas ideias do fascismo po- ainda mais o fosso entre este e as demais áreas do
lonês) ou da CLT- Consolidação das Leis Trabalhistas Nordeste e do Sul (hoje, periferias distintas umas das
(inspirada na Carta Del Lavor = Carta do trabalho, da outras); na Amazônia e no Centro-Oeste ficam as “ilhas

189
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

econômicas”; todas elas associadas às metrópoles São nicações para dar suporte às indústrias e, abertura para
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. A consolidação a participação do capital estrangeiro em alguns seto-
do processo industrial brasileiro e suas nuances cons- res econômicos diminuindo os custos de transferência
tituem assunto da próxima aula. da produção. O desenvolvimento interno permitiu a
Que o vigor e a leveza do Trabalhador acompa- formação de economias de aglomeração no Sudeste,
nhem você! Até breve. com o trio São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais; as
demais regiões continuaram atreladas a alguns ramos
3 RESUMO industriais da área central ou ao capital externo. Houve
aumento da renda interna e ocorreu a participação do
Os investimentos em infraestrutura feitos pelo go- país no contexto capitalista internacional.
verno de Vargas – concentrados em São Paulo em vir-
tude da atividade cafeeira – como ferrovias, melhoria 4 ATIVIDADES
dos portos, investimentos em energia, instalação e am-
1. Pesquise sobre a história, a organização e o local
pliação da rede bancária - facilitaram a implantação e o
onde atuam as empresas seguintes: Petrobras, CSN,
crescimento industrial brasileiro. A mão de obra, espe-
Usiminas, Embraer, CVRD (= Vale) e COSIPA. Apre-
cialmente dos imigrantes, permitiu o desenvolvimento
sente suas conclusões em forma de um seminário
das atividades fabris e o aumento do mercado consu-
on line (sugestão: faça isso em dupla ou trio com co-
midor interno, gerando uma renda nacional significativa
legas para fazer essa pesquisa e a apresentação).
para a época. Se no contexto interno havia facilidades
2. Leia o texto seguinte.
para esse desenvolvimentismo, o mesmo ocorria no
“Hoje, no Brasil, 60% da carga são transportados
plano internacional. Mesmo com a retração do comér-
por rodovia, 23% por ferrovia e 17% por hidrovia,
cio externo devido a crises (econômicas ou políticas),
incluindo o transporte por cabotagem. No caso da
houve incentivo à produção interna de bens de con-
soja, item importante na pauta de exportações e
sumo. No caso brasileiro, as importações tornaram-se
que, no Brasil, apresenta produtividade muito supe-
difíceis e, com a participação do Estado no complexo
rior à dos Estados Unidos, o transporte representa
siderúrgico, petrolífero e energético, estavam criadas
35% do preço; 67% da produção de soja são trans-
as bases para que as pequenas indústrias de bens in-
portados por rodovia, 28% por ferrovia e apenas 7%
termediários ou de consumo se ampliassem. A crise do
por hidrovia. Nos Estados Unidos, ao contrário, 61%
café deslocou capital para outros setores, especialmen-
desse transporte são por hidrovia, 23% por ferrovia
te nos arredores da capital paulista, e esse conjunto de
e 16% por rodovia, o que explica o preço final muito
fatores estabeleceu o que se chamou de processo de
mais baixo que no Brasil. Esse preço final depende,
industrialização da substituição de importações - ISI.
naturalmente, também das condições geográficas e
Tal termo refere-se ao fato de o crescimento industrial
dos investimentos realizados, mas no Brasil calcula-
continuar subordinado às estruturas internacionais, os-
se que o preço do transporte de soja, por tonelada/
cilações do câmbio e das taxas de capital e dos juros,
km, é de R$0,056 por rodovia, R$0,016 por ferrovia
além das relações internacionais no pós-guerra.
e apenas R$0,009 por hidrovia.”
A partir de 1937, Vargas assume de fato o Estado
(O ESTADO DE SÃO PAULO. As hidrovias e a
totalitário, centralizador, opressor, atento às necessida-
exportação. São Paulo, 14/07/2000, p. B2, apud
des de alguns setores trabalhistas (caso da indústria)
MAGNOLI e ARAÚJO, 2001, p. 106)
sem alterar a estrutura latifundiária brasileira (não hou-
ve legislação de trabalho para o campo). É nesse con- A) Justifique a importância do sistema de transpor-
texto que ele interfere nas relações sociais e econômi- tes para as exportações brasileiras.
cas do país. Historicamente, é o chamado Estado Novo. B) Imagine-se um defensor dos exportadores de
Somente com o fim da Segunda Guerra Mundial, ele se soja no Brasil. Como você defenderia custos de
desloca do poder para voltar nos anos 50, apoiado pelo transferências mais baixos para seu cliente?
povo, para novo mandato e para manter as condições 3. Explique a afirmativa: “os processos de industria-
de desenvolvimento industrial iniciado. Há a criação de lização promovem a concentração espacial da ri-
empresas estatais, sistemas de transportes e telecomu- queza e dos recursos financeiros e produtivos”.

190
AULA 29 • O ESTADO NOVO E A TENTATIVA DE IMPLANTAÇÃO DE UM MODELO NACIONAL
DE DESENVOLVIMENTO

REFERÊNCIAS exclusivo, vinculadas ao transporte de minérios


KLINTOWITZ, Jacob; FABRIS, Anna Teresa. Porti- em grande quantidade.
nari: interpretação. São Paulo, 2008. (Os artistas). Por sua vez, as hidrovias, que poderiam in-
Disponível em: http://pre-vestibular.arteblog.com. terligar todo o território nacional, nunca tiveram o
br/46287/PORTINARI-interpretacao/. Acesso em: 25 incentivo governamental suficiente para cumprir
fev. 2011.
seu papel agregador. Mesmo os rios mais utiliza-
MAGNOLI, DEMÉTRIO; ARAÚJO, Regina. Projeto dos são aproveitados somente em alguns trechos,
de ensino de Geografia: natureza, tecnologias e so- e o volume de recursos transportados é mínimo.
ciedade. Geografia do Brasil. São Paulo: Moderna,
Livre da concorrência de ferrovias ou hidro-
2001.
vias, as rodovias ganharam maior impulso com
______. Geografia: a construção do mundo. Geogra- a instalação de transnacionais automobilísticas,
fia Geral e do Brasil. São Paulo: Moderna, 2005.
que, ao produzirem veículos em grande quanti-
SCHMIDT, Mário F. Nova história crítica do Brasil: dade, forçavam, indiretamente, a abertura de vias
500 anos de história mal contada. Sociedade e Cul- asfaltadas, tanto ruas como estradas.
tura. São Paulo: Nova Geração, 1998.
Coube às rodovias integrar o território bra-
AMDJIAN, James Onnig; MENDES, Ivan Lazzari. sileiro. Levando e trazendo mercadorias, uma
Geografia Geral e do Brasil: estudos para a com-
grande frota de caminhões passou a percorrer o
preensão do espaço. Ensino médio. São Paulo: FTD,
2004. (Coleção Delta) país dia e noite. Esse modelo de transporte de
carga comandado pelos caminhões movimenta
uma poderosa economia, pois a cadeia vinculada
PARA SABER MAIS
ao transporte rodoviário tem elos com inúmeros
Livros setores: montadoras de caminhões, autopeças,
MELLO, João Manuel Cardoso de. O capitalismo
concessionárias de veículos, seguradoras, em-
tardio. 11. ed. São Paulo: UNESP, 2009.
presas de transporte de cargas e de passageiros,
LESSA, Carlos. Quinze anos de política econômi- sistemas de vigilância eletrônicos, borracharias e
ca. São Paulo: Brasiliense, 1982.
automecânicas, recapeamento de estradas, con-
MANTEGA, Guido. A Economia Política brasileira. cessionárias responsáveis pela administração e
7. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1992. conservação de rodovias via cobrança de pedá-
gios, policiais rodoviários, postos de gasolina.
Para reflexão:
Apesar de tanto dinamismo, o rodoviarismo
Leia o texto dos geógrafos James Onnig Tamdjian
tem aspectos negativos:
e Ivan Lazzari Mendes (2004, p. 152).
• “queima” muita energia;
• é muito poluente, principalmente nos grandes
A industrialização brasileira e o
centros urbanos;
rodoviarismo: prós e contras • há grande desgaste das vias asfaltadas provo-
A integração territorial brasileira, comandada cado pelo peso dos caminhões;
a partir da segunda metade do século XX pela • é muito caro, já que transporta menos carga do
instalação das indústrias transnacionais, foi feita que as ferrovias e as hidrovias.
a partir de rodovias de longo alcance, cuja pratici- Essas desvantagens não impediram que in-
dade é no mínimo duvidosa. vestidores, atraídos pela política de privatização
Consequentemente, outros meios de trans- da década de 1990, transformassem muitas rodo-
porte foram menosprezados, caso das ferrovias, vias em um negócio altamente lucrativo. Conse-
cujo declínio se deu a partir do fim do ciclo do quentemente, muitas rodovias passaram para o
café. Seus críticos argumentavam que o terreno controle da iniciativa privada por meio de conces-
irregular do Brasil era uma barreira física e eco- sões. As concessionárias, por sua vez, passaram
nômica para sua manutenção. Atualmente, as fer- a ser responsáveis pela manutenção e adminis-
rovias mais importantes estão, em caráter quase tração dessas rodovias, cobrando pedágios.

191
Unidade 06

ADMINISTRAÇÃO HOTELEIRA
A LITERATURA SOBRE A INDUSTRIALIZAÇÃO
BRASILEIRA: A ANÁLISE DE CELSO FURTADO

AULA 30

EVOLUÇÃO E CONSOLIDAÇÃO INDUSTRIAL


DO PAÍS NO PÓS-GUERRA

Objetivos
• Relacionar a evolução industrial brasileira com a sua
consolidação.
• Entender como o período pós-guerra permitiu esse
avanço.
FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

1 INTRODUÇÃO neiro (Distrito Federal) e São Paulo, resultando em um


terço da produção nacional. Em 1920, as duas áreas
“O mundo de hoje parece existir sob o signo da respondiam por mais de 40% das fábricas e mais de
velocidade. O triunfo da técnica, a onipresença da com- 50% dos operários. O complexo cafeicultor abriu espa-
petitividade, o deslumbramento da instantaneidade da ço e capital para a industrialização e, mesmo em cri-
transmissão e recepção das palavras, sons e imagens ses do produto (1898/1906, 1909/1910, 1914/1916 e
e a própria esperança de atingir outros mundos con- 1920), o êxodo rural enchia os arredores da capital de
tribuem, juntos, para que a ideia de velocidade esteja força de trabalho. A depressão cafeeira acontecia, mas
presente em todos os espíritos, e sua utilização consti- os investidores externos injetavam capital nas demais
tua uma espécie de tentação permanente. Ser atual ou áreas.
eficaz, dentro dos parâmetros reinantes, conduz a con- A crise de 1929, que aconteceu nos Estados Uni-
siderar a velocidade como uma necessidade e a pressa dos e Europa, retraiu os mercados consumidores, fez
como uma virtude. Quanto aos demais, não incluídos, é decaírem os preços e diminuírem os produtos importa-
como se apenas fossem arrastados a participar incom- dos pelos demais países. Segundo Furtado (2008, p.
pletamente da produção da história.” (SANTOS, 2002, 90), o baixo coeficiente de importação dos anos trin-
p. 162, adaptado). ta refletia-se no reajustamento dos preços e no poder
aquisitivo da população:
Meu caro aluno,
A alta da taxa cambial reduziu pratica-
Ao iniciar nossa última aula, eu gostaria de fazer
mente à metade o poder aquisitivo exter-
uma homenagem a você. Sim, é com você mesmo que no da moeda brasileira e, se bem houve
falo. Durante nossa convivência, você dialogou co- flutuações durante o decênio nesse poder
aquisitivo, a situação em 1938-1939 era
migo, mesmo não nos encontrando pessoalmente. É praticamente idêntica à do ponto mais
esse espírito empreendedor que rege o mundo! Lem- agudo da crise. Esta situação permitira