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10º Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” – Especialização em Direito Processual

Civil
Módulo I – Princípios Fundamentais do Direito Processual, Processo de
Conhecimento e Sistema Recursal (meios de impugnação)
Aula 1: Visão contemporânea dos princípios constitucionais no Processo Civil
Expositor – Prof. Doutor Nelson Nery Júnior

Seminário 19.08.2020
Palestra 24.08.2020

SÚMULAS

QUESTÃO 01

Pastifício Santa Amália promoveu demanda judicial em que pleiteia a revisão


de contrato de financiamento e prestação de serviços de assessoria
financeira firmado com a corretora Axe Capital. O autor alegou abusividade
do contrato, o pagamento de expressivos valores a título de orientação
financeira, que nunca trouxe resultado concreto, a ausência de repasses da
integralidade dos valores liberados pela instituição financeira credenciada
Banco Axe, bem como que a relação teria se dado de forma maliciosa, em
prejuízo da sociedade, em razão de atos de coação praticados pelo antigo
administrador do Pastifício. A defesa apresentada sustenta a regularidade do
contrato, a prestação dos serviços e, ainda, a ausência de responsabilidade
da corretora pelo resultado (operação de meio), não podendo ser
responsabilizada por atos que são, conforme descreve a inicial, praticados
pelo antigo administrador do Autor, o qual deveria ser incluído como
litisconsorte. O juiz não reconhece a hipótese de litisconsórcio passivo.
Aberta a instrução ocorreu a produção da prova pericial e da prova oral. Em
razões finais o Autor apresentou documentos. Sem dar vista dos
documentos, o juízo proferiu a sentença acolhendo os pedidos do Pastifício,
condenando a Ré Axe Capital ao pagamento de danos materiais de R$
5.300.000,00, corrigidos desde a data da citação. Com base nesses dados,
pergunta-se:
a) eventual identificação de que o julgamento da causa ocorreu de forma
contrária à ordem cronológica de conclusão (CPC, art. 12), haveria
fundamento para requerer a nulidade da sentença?
b) após haver rejeitado a ampliação subjetiva da lide, o juiz poderia, no
momento destinado para a sentença, reconhecer ter se equivocado e
determinar a citação do ex-administrador do Pastifício para integrar a lide?
c) ao não abrir prazo para a Ré se manifestar sobre as provas produzidas em
razões finais, essa supressão comportaria nulidade diante do que dispõem
os arts. 9º e 10 do CPC, mesmo que a sentença não faça qualquer referência
a esses documentos? Caso o juiz tenha registrado na sentença a
impertinência dos documentos e, por isso, a desnecessidade de intimação da
Ré, a resposta seria a mesma?
d) caso o Autor tomasse conhecimento de que a Ré, antes da sentença,
estaria transferindo seus bens aos filhos dos sócios, de modo a inviabilizar a
eventual futura execução, poderia requerer alguma providência urgente para
impedir os filhos dos sócios de revender esses bens? Seria necessário e
possível propor incidente de desconsideração da personalidade jurídica?
Caso esse fato ocorresse após o acórdão da apelação a resposta seria a
mesma?
e) se o juízo reconhecer a prescrição para julgar improcedente o pedido
deverá abrir o prévio contraditório? E se a motivação do julgamento
considerar regra de direto material não suscitada pelas partes, o juízo deverá
abrir o contraditório antes da sentença? e se o juiz, por ocasião da sentença,
considerar que a matéria controvertida se resolve com a inversão do ônus da
prova, deverá abrir o prévio contraditório?

TURMA 01

1.a) Não, uma vez que o previsto no caput do artigo acima mencionado aduz
apenas a preferência no atendimento à ordem cronológica pelo juiz. Além disso, a
não obediência da ordem cronológica não traz nenhum vício para o processo.
1.b) Neste caso, talvez fosse necessário fazer a distinção entre o litisconsórcio
facultativo e necessário. Supondo ser facultativo, surgiu o debate acerca do Juiz
proferir o julgamento ou anular todos os atos até então. Supondo o litisconsórcio
necessário, o Juiz deveria reabrir a instrução, incluindo a nova citação.
1.c) Deveríamos analisar caso a caso, a fim de que sejam averiguados eventuais
prejuízos. Todavia, é inconveniente a não oportunizarão pelo Juiz de dar vista dos
documentos às partes. 1.c.i) Se houve o devido registro, não haveria necessidade
do contraditório.
1.d) Pedido do reconhecimento da fraude contra credor/execução. Tutela
antecipada de urgência, medida cautelar contra alienação de bens. 1.d.i)Talvez
não houvesse necessidade, uma vez que não há confusão de patrimônio. Hipótese
de ação pauliana.
1.e) Por ser considerada matéria de ordem pública, o juiz pode decidi-la de ofício.
Todavia, a fim de se evitarem decisões surpresas, torna-se convincente a
oportunizarão do contraditório às partes. 1.e.i) Toda a construção do processo
seguiu um determinado caminho, controvertendo as partes sobre um determinado
assunto, dessa maneira, seria interessante a abertura do contraditório (mesmo
raciocínio de se evitar a decisão surpresa). 1.e.ii) Por ocasião do saneamento do
processo, o juiz deve fixar os pontos controvertidos, dando ciência às partes sobre
as provas que deverão ser produzidas.

TURMA 02
1.a A norma tem por escopo orientar a organização de trabalho, estabelecendo os
critérios segundos os quais o julgador fará a prioridade de julgamento dos feitos,
visando à efetivação do princípio constitucional da razoável duração do processo.
Não se trata de norma impositiva, razão pela qual inexiste nulidade decorrente de
sua inobservância. Eventualmente, poder-se-á apurar a responsabilização
funcional de servidores que tenham preterido processo que deveria receber
prioridade.
1.b-Observado o devido processo legal e a sucessão lógica dos atos processuais,
é defeso promover alteração dos polos da lide após o saneamento do feito. Ao dar
estabilidade subjetiva à lide, ato contra o qual não houve insurgência das partes,
não poderia o Juiz retroceder e incluir sujeito antes excluído. A questão estaria
preclusa. A turma entendeu, majoritariamente, não se tratar de caso de
litisconsórcio necessário.
1.c- A produção de prova documental deve observar regras sobre o momento
oportuno da prática do ato, não se permitindo a juntada de documento após
encerramento da fase de instrução. Caso surja documento novo, ao fim da
atividade probatória, em relação ao qual fará o juiz referência na sentença, deverá
dar ciência à parte contrária, em observância ao contraditório e ampla defesa.
Tratando-se de documento impertinente, cujo teor não serviu como razão de
decidir, é caso de desentranhamento. Ainda que desse modo não proceda o Juiz,
não se vislumbra prejuízo à parte adversa e, consequentemente, nulidade a se
reconhecer.
1.d -Tutela provisória cautelar incidental de arrolamento ou bloqueio de bens,
sendo necessário o manejo de incidente de desconsideração da personalidade
jurídica caso já efetivada a transferência patrimonial. Igual medida se tomaria após
prolação do Acórdão da apelação, já que possível a formulação do pedido de
desconsideração a qualquer momento. Debateu o grupo sobre a possibilidade de o
incidente de desconsideração alcançar os filhos dos sócios (terceiros estranhos ao
quadro social da empresa), indicando, uma parte da turma, posição acerca de
possível efeito “expansivo” da desconsideração. Indicou-se, assim, a medida de
registro de protesto de alienação de bens, como forma de tolher nova transferência
patrimonial.
1.e- Observa-se o contraditório com a dialeticidade dos fatos – a parte tem de
tomar conhecimento dos fatos aduzidos, e com oportunidade de sobre eles se
manifestar –, não estando o Juiz vinculado às questões de direito aduzidas.
Embora se trate de questão de ordem pública, deve o Juiz, previamente ao
reconhecimento de prescrição ou decadência, submeter a questão ao
conhecimento das partes, evitando surpresa no julgamento. A distribuição da regra
do ônus da prova igualmente não tem o condão de provocar a imprevisibilidade da
decisão judicial, devendo o Juiz, ao vislumbrar aplicação da regra, conferir às
partes oportunidade de manifestação.

TURMA 03
sem súmula

TURMA 04
R.A: Ordem cronológica do artigo 12 do CPC - O princípio da cronologia busca
reverenciar a razoável duração do processo e o tratamento igualitário entre as
partes. Todavia, em razão da celeridade processual que o processo digital trouxe,
se torna inviável a observância da referida ordem, uma vez que processos de
baixa complexidade demandam menos tempo para seu deslinde, não havendo
lógica em se postergar seu julgamento. Há ainda inúmeras exceções à regra
previstas no ordenamento jurídico que de per si já nos levariam ao
descumprimento do artigo.
R.B: Há duas correntes, prevalecendo aquela que entende ocorrer a preclusão “pro
judicato”, que é aquela que se opera em relação ao órgão jurisdicional. Dirige-se
ao juiz e não às partes. Dispõe o artigo 505, do CPC de 2015, “que nenhum juiz
decidirá novamente as questões já decididas, relativas à mesma lide”.
A seguir, o escólio dos ilustres doutrinadores:
"A disposição em exame veda ao juiz, em regra, a revisão e, por conseguinte, o
proferimento de nova decisão a respeito de questões já decididas, relativas à
mesma lide" (Antonio Carlos de Araujo Cintra. Comentários ao Código de
Processo Civil, 3ª ed., vol. IV, Forense, RJ, 2008, p. 324).
"O que é importante é que o art. 471 põe por princípio a
preclusividade das resoluções judiciais, de modo que só há exceções a ele, se
expressas (art. 471, II), ou se ocorre o que se prevê no art. 471, I (Pontes de
Miranda. Comentários ao Código de Processo Civil, Tomo V, 3ª ed., editora
Forense, RJ, 1997 p. 147).
R.C: Pode o Magistrado aplicar ao caso fundamento diverso daquele trazido aos
autos pelas partes (iuria novit curia), desde que lhes oportunize se manifestem
acerca da matéria aventada, mesmo que se encontre dentre aquelas sobre as
quais deva decidir de ofício, de modo a se evitar a violação do princípio da
vedação às decisões-surpresa. Ademais, o enunciado 282 do Fórum Permanente
de Processualistas Civis (FPPC), prevê que “para julgar em enquadramento
normativo diverso daquele invocado pelas partes, ao juiz cabe observar o dever de
consulta, presente no artigo 10”. No mesmo sentido já se manifestou o Colendo
Superior Tribunal de Justiça, no julgamento dos Embargos de Declaração no Resp
1.280.825-RJ. Logo, a ausência de oportunização de manifestação às partes
estará a ferir/violar norma federal, dando azo à interposição de inúmeros recursos.
R.D: Poderia ser interposto arresto cautelar; protesto contra alienação de bens ou
ainda, averbação junto à matrícula do imóvel quanto à existência do débito para
valer contra terceiros. Não é possível a proposição de incidente de
desconsideração da personalidade jurídica, tendo em vista que atingiria o
patrimônio do sócio, não o de seus filhos, que já têm os bens transferidos aos seus
respectivos nomes.
R.E: No direito brasileiro prevalece o princípio do contraditório, de modo que,
mesmo em se tratando de matéria de ordem pública, necessária sua observância.

TURMA 05

1) O entendimento geral da Turma foi o de que, em regra, o descumprimento da


ordem cronológica prevista no art. 12/CPC, não gera nulidade da sentença, uma
vez que não há perspectiva de que forma a nulidade reclamada pudesse causar e
reparar eventual prejuízo das partes do processo que perdeu a ordem do
julgamento (sentença ou acórdão).
Além disso, conforme definido no Enunciado 34 da EFAM, A violação das regras
dos arts. 12 e 153 do CPC/2015 não é causa de nulidade dos atos praticados no
processo decidido/cumprido fora da ordem cronológica, tampouco caracteriza, por
si só, parcialidade do julgador ou do serventuário.
Ainda, é sabido que, a inovação do CPC aplicando a ordem cronológica de
julgamento dos processos, gerou várias discussões e polêmicas, das quais
resultou na alteração do art. 12/CPC ainda no período de vacatio legis, com a
vinda da Lei 13.256 de 2016, que instituiu nova redação, passando a constar: “ Os
juízes e os tribunais atenderão, ‘preferencialmente’, à ordem cronológica de
conclusão para proferir sentença ou acórdão". Dessa forma, o julgamento por
ordem cronológica passou a ser preferencial e não mais uma obrigação.
b) O questionamento a respeito da citação ou não do litisconsórcio após a rejeição,
gerou o entendimento de duas correntes:
b.1) a primeira corrente entendeu pela impossibilidade de citação do litisconsórcio,
ainda que se trate de matéria de ordem pública, conforme previsão contida no art.
507/CPC: É vedado à parte discutir no curso do processo as questões já decididas
a cujo respeito se operou a preclusão. mesmo sendo matéria de ordem pública.
b.2) a segunda corrente considerou a possibilidade de citação antes da sentença,
por se tratar de matéria de ordem pública, cabendo ajustes na decisão saneadora,
respeitando-se, contudo, o contraditório.
Ainda foi citado o art. Art. 493/CPC, que prevê: Se, depois da propositura da ação,
algum fato constitutivo, modificativo ou extintivo do direito influir no julgamento do
mérito, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de ofício ou a requerimento da
parte, no momento de proferir a decisão.
Parágrafo único. Se constatar de ofício o fato novo, o juiz ouvirá as partes sobre
ele antes de decidir.
Assim como também foi observada a importância da citação do litisconsórcio para
a eficácia da sentença com a presença de todos os litisconsortes do processo, nos
termos do art. 114/CPC, que estabelece: O litisconsórcio será necessário por
disposição de lei ou quando, pela natureza da relação jurídica controvertida, a
eficácia da sentença depender da citação de todos que devam ser litisconsortes.
c.1) na hipótese referida, haverá nulidade porque a sentença, embora não se refira
às provas produzidas em razões finais, permitirá à presunção lógica de que
referidas provas foram levadas a efeito para a formação do convencimento do juiz,
considerando a juntada nos autos, passando a fazer parte do conjunto probatório
e, por essa razão, deveria ser objeto de análise pela parte contrária a fim de não
haver violação do contraditório e cerceamento de defesa.
c.2) Na hipótese de o juiz ter registrado na sentença a impertinência dos
documentos juntados nas razões finais, não haverá nulidade, considerando a
menção de que eles eram desnecessários para a convicção e o deslinde do
desfecho proferido na sentença, o que permite, por si só, a desnecessidade de
intimação da parte prevista no art. 10/CPC.
Além disso, mencionou-se que deve ser oportunizada manifestação da parte
contrária na hipótese de juntada de documentos novos em alegações finais.
Contudo, cabe ao autor provar que não teve acesso aos documentos e que são
documentos novos.
d) Na hipótese proposta, se foi constatado que a ré, antes da sentença, estivesse
transferindo seus bens aos filhos dos sócios, de modo a inviabilizar eventual futura
execução, cabível incidente preparatório de tutelas de urgência em situações
patrimoniais que demandam resposta rápida e efetiva do poder judiciário, a
permitir, em caráter excepcional – especialmente quando o prévio conhecimento
da tutela provisória pleiteada pode frustrar o seu cumprimento, impondo-se a
concessão “inaudita alters pars”. Dessa forma, poderá haver o bloqueio,
frustrando-se eventual transferência do patrimônio dos sócios, garantindo-se,
portanto, futuro cumprimento do título judicial formado, evitando-se ainda fraude à
execução.
Entendeu-se ainda que, antes da sentença, indevido o incidente da
desconsideração da personalidade jurídica por ausência de título executivo.
Foi acolhido ainda o entendimento de que após o acórdão que julgou a apelação,
mantendo eventual sentença de procedência, cabível também a medida incidental
preparatória de tutelas de urgência.
e.1.2) Eventual reconhecimento de prescrição para julgar improcedente o pedido
deve o juiz abrir prévio contraditório, tanto para questões de direito, como para as
de fatos, em razão do art. 10/CPC.
e.1.2) Contudo, foi aduzido um segundo entendimento baseado no Enunciado 06
da Enfam, que definiu não constituir julgamento surpresa àquele lastreado em
fundamentos jurídicos, ainda que diversos dos apresentados pelas partes, desde
que embasados em provas submetidas ao contraditório. Ou seja, há restrição dos
fundamentos de fato em que o juiz não pode decidir, inviabilizando a abertura do
contraditório, ao menos que fosse questão probatória.
e.3) Sim. Diante de eventual inovação do ônus processual, determinante para o
desfecho da lide, é possível a inversão do ônus da prova não só em relações
consumeristas, em que se presume a vulnerabilidade, mas também nos termos do
art. 373 §1º do CPC, que distribui o ônus da prova para a parte que tiver melhores
condições de produzi-la, evitando-se, contudo, a sua transformação em “prova
diabólica”, ou seja, excessivamente difícil ou impossível, vedado pelo § 2º do
mesmo artigo.

TURMA 06
a) Houve concordância parcial da turma, a majoritária entende que, no caso
apresentado, a análise não poderá ser pautada somente na ordem cronológica,
pois, além do art. 12 trazer em seu bojo a palavra “preferencialmente”,
concedendo possibilidade de optar pela celeridade e isonomia do processo;
também deverá ser comprovado prejuízo para efetiva nulidade da sentença.
A outra parte da turma entende que, o seguimento deverá ser obrigatório,
defendendo a transparência na ordem das causas para dar efetividade ao
processo e ao contraditório, possibilitando o controle social, ou seja, se a ordem
não for obedecida restará um ônus de fundamentação por parte do julgador e, a
arguição da nulidade da sentença estaria possível se outros tipos de vícios fossem
encontrados durante a instrução.
b) A parte majoritária da turma entende que, tratando-se de litisconsórcio passivo
facultativo, não há que se falar em citação para sentença, visto que no caso
apresentado, já ocorreu a instrução do processo, inclusive o colhimento de provas.
No entanto, se fosse considerado litisconsórcio necessário, a postura do juiz
estaria de acordo pois, se não citar todos os litisconsortes que deveriam fazem
parte da demanda, poderá ocorrer arguição da nulidade da sentença/ extinção do
processo (litisconsorte ulterior) | (Art. 115, § único).
c) A parte majoritária da turma entende que, defendendo a celeridade do processo,
não há que se falar em nulidade se os documentos não forem necessários para
formulação da sentença, o juiz deveria apenas consignar a impertinência dos
documentos, porém, se os documentos forem necessários no momento da
fundamentação da sentença, deverá intimar a outra parte para que o contraditório
seja efetivo (permitir que a parte contrária tente o convencimento). Nesse caso, o
contraditório foi analisado sob ótica de retardo aos atos processuais.
Por um outro lado, no que compete a oportunidade das partes se manifestarem
(art. 10), a outra parte da turma entende que o contraditório deverá se absoluto,
quando analisado sob ótica constitucional, não abrindo precedentes para
recebimento de provas, sem a oportunidade da manifestação contrária, sob pena
de nulidade da sentença (art. 9).
d) Considerando a o momento processual, parte da turma entende que a
providência urgente a ser requerida pela parte é a adoção de uma tutela
antecipada em caráter cautelar, de modo a resguardar a possibilidade de
satisfação do crédito do autor. Todavia, não há que se falar em proposição de
incidente de desconsideração da personalidade jurídica neste momento do
processo.
Outra parte da turma, majoritária, entendeu que não é possível se utilizar deste
processo e das medidas de uma tutela cautelar antecipada ou mesmo de um
incidente de desconsideração de personalidade jurídica, que não possui o condão
de alcançar os filhos dos sócios do réu.
e) A parte majoritária da turma entende que, de acordo com o art. 487, parágrafo
único, o juízo, mesmo se reconhecer a prescrição de ofício durante a instrução
processual, deverá abrir o prévio contraditório, visto que fundamento legal, não
anula o exposto no art. 10. Quanto a regra de direito material não suscitada pelas
partes, de acordo com o art. 489, II, desde que o magistrado cumpra com os
elementos essenciais, expondo os fundamentos e analisando as questões de fato
e de direito, não há que se falar em contraditório. Quanto a inversão do ônus da
prova, o juiz deverá abrir o prévio contraditório, de acordo com o art. 373.

QUESTÃO 02

Leandro, de 23 anos, influenciador digital é devedor de despesas de


condomínio, de forma que figura no pólo passivo de execução ajuizada em
2017. Após resultar infrutífera a diligência tendente à constrição BACENJUD,
mediante o Sistema RENAJUD foi possível realizar o bloqueio de um
automóvel GM/Chevette, ano 1987, que estava em nome de Leandro. Na
audiência de conciliação, contudo, o executado informou ter alienado o
automóvel há anos sem que houvesse comunicação da alienação aos órgãos
de trânsito, bem como a ausência de patrimônio para a satisfação da dívida
de condomínio. Diante desse cenário, o credor postulou ao juiz a apreensão
da CNH e passaporte, além do bloqueio de perfil do devedor em redes
sociais, até o cumprimento da obrigação, nos termos do art. 139, IV, do CPC.
Nesse quadro, pergunta-se:
a) é razoável a adoção das providências sancionatórias de natureza indutiva
como método para buscar a satisfação do direito? É indispensável a
frustração das medidas voltadas à identificação da responsabilidade
patrimonial?
b) se a conduta social de Leandro revelar ostensivo sinal de riqueza admite-
se a aplicação da regra?
c) é possível cumular o emprego de medidas indutivas previstas no art. 139,
IV, do CPC?

TURMA 01
2.a) Considerando o previsto no artigo 139, IV, do CPC, trata-se de uma norma em
aberto, logo, faz-se necessário sua calibração com o caso concreto, de maneira
que a análise seja feita de forma contextual. Levantou-se a utilização, pelo juiz, dos
princípios da razoabilidade e proporcionalidade. Sugeriu-se averiguação conjunta
com o artigo 805 do mesmo Código, uma vez que, em razão da qualificação das
partes, as medidas precisam ter efetividade. Considerou-se a profissão de digital
influencer do réu, bem como a rede social como seu instrumento de auferir lucro
para pagamento de suas dívidas. Sustentou-se, ainda, a possibilidade do credor
requerer a penhora do imóvel. Pontuou-se eventual inconstitucionalidade da
apreensão da CNH do devedor, já que tal situação poderia afetar seu direito de ir e
vir. Por fim, concluiu-se que o deferimento do pedido do autor tem cabimento após
serem exauridas as medidas de praxe (esgotamento da busca de bens). Se não
forem encontrados bens, há de se cogitar o artigo 139, IV. No entanto, trata-se de
uma situação corriqueira atualmente. 2.a.i.) Não necessariamente indispensável,
mas totalmente viável.
b) Neste caso, entendeu-se pelo deferimento do pedido do autor.
c) Existe a possibilidade, contudo, pontuou-se pelo esgotamento da procura de
bens. Por fim, falou-se acerca do bloqueio da rede social do réu e o consequente
impedimento do mesmo de se pronunciar, pois a sociedade deve conhecer o que
todos têm a dizer.

TURMA 02
2.- A imposição de medidas indutivas e coercitivas tem caráter residual, como
reforço e incentivo à satisfação voluntária da dívida pelo devedor, desde que a
medida se apresente útil, proporcional e razoável. É preciso que se esgotem as
medidas típicas de constrição patrimonial, porém vislumbrando-se indícios de que
o devedor oculta sua real condição econômica. Podem ser cumuladas, sempre
respeitada a proporcionalidade e razoabilidade. Há quem entenda só aplicável a
determinado tipo de crédito.

TURMA 03
sem súmula

TURMA 04
R.A: É evidente que limitações a direitos civis tão caros devem ser realizadas com
cautela, atentando-se à sua necessidade e adequação para efetivação da
pretensão no caso concreto.
O C. STJ deliberou recentemente sobre a matéria (REsp 1.782.418/RJ e
1.788.950/MT), admitindo a adoção de medidas executivas atípicas, com
fundamento no art. 139, IV, do NCPC, mas de forma subsidiária, caso fique
demonstrado que o devedor possua bens penhoráveis mas esteja se furtando ao
pagamento do débito, e “por meio de decisão que contenha fundamentação
adequada às especificidades da hipótese concreta, com observância do
contraditório substancial e do postulado da proporcionalidade”.
O princípio da efetividade do processo deve ser equilibrado com a observância de
outros dois princípios o da razoabilidade e da proporcionalidade, os quais, por sua
vez, devem ser empregados sem perder de vista a necessária sintonia com o
benefício que a medida irá produzir à satisfação do direito do credor ou à
continuidade do processo.
R.B: Sim, desde que sejam exauridos todos os meios legais de busca e localização
de seus bens e mediante a utilização do princípio da ponderação.
R.C: Sim, é possível, se exauridas as buscas de bens e valores por outros meios
postos à disposição da parte e do Poder Judiciário.

TURMA 05
No caso vertente, vários entendimentos foram suscitados:
a.1.1)Sim é possível. O juiz pode usar de meios coercitivos como multa, busca e
apreensão, bloqueio de bens, entre outros, para dar efetividade às medidas
judiciais, nos termos do artigo supracitado, 139, IV, art. 380, § único (provas), art.
400, § único (exibição de documentos), art. 403, § único (documento em pode de
terceiro). Como exemplo, no julgamento do Recurso em Habeas Corpus nº 97.876,
Ministro Luis Felipe Salomão, publicada em 09/08/2018, decidiu que a
jurisprudência do STJ já se posicionou no sentido de que a medida de suspensão
da habilitação não ocasiona ofensa ao direito de ir e vir.
a.1.2) Inquestionavelmente, com a decretação da medida, segue o detentor da
habilitação com capacidade de ir e vir, para todo e qualquer lugar, desde que não o
faça como condutor do veículo. No entanto, as demais medidas mostram-se
desproporcionais. A uma porque se trata de dívida “propter rem”, cuja penhora e
posterior leilão possibilitará o adimplemento da dívida com reserva de eventual
saldo remanescente a favor do executado. A duas que a apreensão de passaporte
ofende o direito de ir e vir e o bloqueio de perfil não guarda relação com a dívida
em si.
a.1.3) No caso em tela, despesas de condomínio, no entanto, a solução mais
simples e célere seria o leilão do imóvel gerador de despesas.
a.1.4) possibilidade do próprio bem para o pagamento, inviabilidade de bloqueio de
perfil, eis que se trata de atividade laborativa. Em razão disso, deve-se recorrer
também, não ao bloqueio, mas das quantias pagas pelo perfil, objeto de busca na
fonte.
a.1.5) as medidas seriam “censura”.
b.1.) se a conduta social de Leandro revelar ostensivo sinal de riqueza admite-se a
aplicação da regra, ganhando especial relevância se o devedor não possui
patrimônio, mas ostentando sinal de riqueza incompatível com suas declarações
patrimoniais.
c) é possível cumular o emprego de medidas indutivas previstas no art. 139, IV, do
CPC, contudo, as medidas ser adequadas ou permitidas serem objeto de amplo
debate. Por exemplo, a possibilidade de apreensão de CNH e bloqueio de cartões
de crédito, conforme julgado a seguir:

EXECUÇÃO MEDIDAS EXECUTIVAS ATÍPICAS - MEDIDAS INDUTIVAS E COERCITIVAS BLOQUEIO DE


CARTÃO DE CRÉDITO CABIMENTO – O princípio constitucional da dignidade humana (art. 1º, III, CF) deve
ser analisado tanto da ótica do devedor como do credor. Na aplicação do ordenamento jurídico, incumbe ao
juiz resguardar a dignidade da pessoa humana, a razoabilidade e a eficiência (art. 8º, CPC/2015) - Diante do
esgotamento das tentativas de localização de bens do devedor, incumbe ao juiz determinar todas as medidas
indutivas e coercitivas que assegurem o cumprimento da ordem judicial, qual seja a de satisfazer o crédito
postulado em juízo. Parte credora que tem direito às providências que induzam ou forcem o devedor a pagar a
dívida, bem como que obstem a prática de manobras fraudulentas, com nítida intenção de furtar-se ao
cumprimento de sua obrigação. No caso em tela, é preciso considerar que a execução tramita há mais de 7
(sete) anos, tendo o exequente exaurido todos os meios de localização de bens em nome do devedor, todos
sem sucesso Requerimento de bloqueio de cartão de crédito de titularidade do devedor que se mostra cabível
Leitura do art. 139, II, III e IV, CPC/2015 RECURSO PROVIDO NESSA PARTE. EXPEDIÇÃO DE OFÍCIO
Requisição de pesquisa em nome do executado junto ao Centro Notarial de Serviços Eletrônicos
Compartilhados (CENSEC) Admissibilidade Dever de colaboração com o Poder Judiciário e incidência do
princípio da cooperação. Parte credora que não alcançará o desiderato sem a intervenção do Poder Judiciário
Exequente que já buscou outros meios de localização de bens, porém sem êxito Arts. 139, II, 378 e 380, I do
CPC/2015. Considerando a necessidade e a utilidade da medida, impõe-se o deferimento do pedido
RECURSO PROVIDO NESSA PARTE. PEDIDO DE SUSPENSÃO DA CARTEIRA DE HABILITAÇÃO (CNH)
DESCABIMENTO Providência que se mostra prematura e que não está ligada diretamente ao direito de crédito
Medida que se mostra de duvidosa eficácia, desproporcional e inadequada, considerando que não se cuida de
infração de trânsito, prevista na Lei nº 9.503/97 (Código de Trânsito Brasileiro) RECURSO DESPROVIDO
NESSE TÓPICO. (AI nº. 2023864-43.2017.8.26.0000, 23ª Câm. de Dir. Privado, rel. Des. Sérgio Shimura, j.
21.JUN.2017)(grifamos)
TURMA 06
a) A turma de forma unânime entende que: sim, é razoável a adoção das
providências sancionatórias de natureza indutiva para a satisfação do direito
pleiteado, considerando o contexto do artigo 139 do CPC. Todavia, é indispensável
que as tenham sido esgotados os meios típicos para a satisfação do crédito para
que tais medidas indutivas sejam aplicados, de modo a preservar a própria
sistemática regular do Código de Processo Civil.
Ressalte-se que, tratando-se de bem imóvel que pode ser executado, é possível
entender que as medidas indutivas não devem ser aplicadas se há outras medidas
típicas que podem ser empregadas e solucionam o problema (considerando a
dívida como propter rem).
b) A turma de forma unânime entende que: sim, a conduta do devedor ostentação
é apta a ensejar a aplicação da regra processual em comento, visto que tais sinais
de riqueza entram em conflito com a dificuldade de execução pelos meios
tradicionais, uma vez que o devedor que ostenta riquezas possivelmente pode
saldar com seu débito.
c) A turma de forma unânime entende que: sim, não há vedação legal para a
cumulação das medidas indutivas permitidas pelo artigo 139, IV do CPC, de modo
que tal aplicação inclusive é estimulada pelo princípio da eficiência processual e do
resultado útil do processo. Lembrando sempre que, tais medidas podem se
constituir em exagero e possivelmente ofensa aos direitos constitucionais, quando
empregados de maneira inadequada pelo magistrado.

QUESTÃO 03
Em ação de responsabilidade civil derivada de contrato de transporte, o autor
ajuíza ação de indenização em face de empresa de ônibus, narrando, na
causa de pedir, a imprudência de seu motorista. A ré contesta, afirmando que
não houve imprudência. Na forma do art. 357, §2º, CPC, as partes realizam
convenção processual, delimitando, como questão de fato, a imprudência do
motorista, e, como questão de direito, a responsabilidade subjetiva. A
convenção é homologada.
Pergunta-se: Pode o juiz, posteriormente, julgar procedente o pedido, com
base em responsabilidade objetiva? Em caso positivo, há alguma cautela
anterior ao julgamento que deva o juiz tomar?

TURMA 01

3) Em regra, o contrato de transporte de pessoas estará sujeito à incidência do


CDC, pelo qual a responsabilidade é objetiva. De todo modo, nessa espécie de
contrato, mesmo no regime do CC, a responsabilidade civil é objetiva (arts. 734 e
735 do CC).
Assim, a convenção processual celebrada, por afastar a responsabilidade objetiva
da transportadora, não pode prevalecer. Seria possível sustentar sua nulidade, nos
termos do art. 190, parágrafo único, do CPC, até porque contrária ao art. 51 do
CDC.
Estabelecida a ilegalidade da cláusula, restou controversa no grupo a possibilidade
de o juiz, após homologá-la, vir a reconhecer tal nulidade. Foi levantado o
argumento de que a questão teria sido atingida pela preclusão. Por outro lado,
argumentou-se que o art. 1º do CDC estabelece que suas normas são “de ordem
pública e interesse social”, o que poderia afastar a incidência da preclusão e
permitir o reconhecimento da nulidade de ofício e a qualquer tempo, decidindo o
juiz a lide, então, com base em responsabilidade objetiva. Ponderou-se, contudo,
se adotar essa posição não implicaria inviabilizar a preclusão para qualquer
questão que envolva prejuízo ao consumidor, o que poderia não ser razoável.
Por fim, se se aceitar que o magistrado pode decidir com base em
responsabilidade objetiva, deve ele tomar a cautela de abrir contraditório prévio
para que as partes se manifestem a respeito da eventual ilegalidade do negócio
processual.

TURMA 02
3 - O artigo 357, §2°, do Código de Processo Civil dispõe que  as partes podem
apresentar ao juiz, para homologação, delimitação consensual das questões de
fato sobre as quais recairá a atividade probatória, especificando os meios de prova
admitidos, bem como as questões de direito relevantes para a decisão do mérito.
Estabelece, ainda, que tal delimitação, se homologada, vincula as partes e o juiz.
Entende-se que a vinculação do magistrado a que se refere o dispositivo diz
respeito tão somente àquilo que será objeto prova, que no caso concreto diz
respeito à imprudência do motorista, contemplando a questão de fato delimitada, e
sua responsabilidade subjetiva, questão de direito. Entretanto, tais delimitações
não vinculariam sua decisão. Desse modo, não obstante as partes tenham
convencionado que a questão de direito objeto de atividade probatória seria a
responsabilidade subjetiva do motorista, é possível a prolação de sentença com
base em responsabilidade objetiva da empresa de ônibus, a qual, inclusive é a
única que figura no polo passivo da demanda. A responsabilidade subjetiva do
motorista poderia ser objeto de ação regressiva, posteriormente. Neste sentido,
considerando que a responsabilidade objetiva configura fundamento a respeito do
qual as partes não tiveram oportunidade de se manifestar, deve o magistrado ouvi-
las a tal respeito, em observância ao quanto disposto no artigo 10 do CPC, sob
pena de violação do princípio da vedação à decisão surpresa.

TURMA 03
sem súmula

TURMA 04
3.R: Não houve consenso.
De um lado, argumenta-se que a matéria não pode, em tese, ser objeto de
transação, mesmo no âmbito processual, porque relacionada a norma de ordem
pública, no caso, o CDC. Para tanto. Necessária a prévia comunicação das partes,
do art. 10, do CPC.
Preponderou, no entanto, que, diante da homologação da convenção processual, o
magistrado fica vinculado à escolha das partes. Portanto, não poderá julgar
procedente o pedido, com base em responsabilidade objetiva, uma vez que
ocorreu a preclusão “pro judicato”, conforme disposto no artigo 505 do CPC. Nesse
sentido: BUENO, Cassio Scarpinella Manual de Direito Processual Civil - volume
único – 6. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2020, p. 620.

TURMA 05
3) O juiz pode se recusar a homologar a convenção a fim de preservar seu livre
convencimento. Mas, uma vez homologado, o juiz permanece vinculado, sob pena de
“venire contra factum proprium”.
Ressaltou-se ainda que as partes podem convencionar a aplicação de determinada
legislação, contudo, não podem convencionar o instituto, ou seja, não pode podem
convencionar “contra legem”, até em preservação do princípio da boa-fé objetiva e da
segurança jurídica.

TURMA 06
A turma de forma unânime entende que: os negócios processuais são novidade
trazida pelo código de processo civil de 2015 e, em casos de direitos
disponíveis/patrimoniais, devem ser respeitados os procedimentos convencionados
pelas partes, de modo a dar vazão à integralidade da norma exposta no artigo 357,
§2º. Todavia, não há que se falar em negociação entre as partes acerca de direito
material, de modo que a responsabilização objetiva, nos casos em que é prevista
pela legislação, não comporta negociação no sentido de sua alteração entre os
litigantes.
E a cautela a ser tomada pelo magistrado, no caso em comento, é justamente ouvir
as partes e adotar postura compatível com a dialética processual adotada no artigo
10 do Código de Processo Civil, bem como participar e permitir a participação
conjunta de todos os envolvidos no processo na construção do julgamento,
considerado o posicionamento contraposto ao do negócio das partes.

QUESTÃO 04
No cenário de pandemia que lamentavelmente temos vivenciado tem sido
amplamente divulgada a importância da auto-regulação dos interesses dos
contratantes, mediante renegociação dos contratos, presente as
extraordinárias circunstâncias determinadas pelos reflexos do impedimento
ao desenvolvimento de certas atividades e da imposição do isolamento
social. Considerando o alargamento do campo de atuação dos mecanismos
alternativos de solução de controvérsias diante da garantia da
inafastabilidade da prestação jurisdicional, em cotejo com a exigência
processual de comportamento das partes em consonância com a diretriz da
boa-fé objetiva, da qual é possível extrair, entre outros, o dever de
renegociação, é possível condicionar o reconhecimento do legítimo interesse
processual à comprovação de tentativas de solução amigável dos litígios? E
nos casos em que se verifica a existência de via administrativa predisposta à
solução de controvérsias? O acionamento prévio de tais meios de solução de
conflitos pode se prestar a condicionar legitimamente o acesso à Justiça?

TURMA 01
4) Ainda que a situação de pandemia seja extraordinária, condicionar o
reconhecimento do legítimo interesse processual à comprovação de tentativas de
solução amigável dos litígios não se mostra como caminho adequado, uma vez
que feriria o princípio do acesso à justiça que é garantido constitucionalmente.
Neste sentido, foi ressaltado que a imposição de tal requisito se mostraria um
pouco autoritária, sem que houvesse uma lei ou um entendimento jurisprudencial.
Foi ressaltada ainda a questão do teor que tais tentativas teriam que observar, uma
vez que o mero condicionamento à comprovação de tentativa de solução amigável,
não significa necessariamente que a proposta realizada atenderia aos interesses
de partes, considerando que não existem bases e limites estabelecidos como
critério. Assim, ainda que o dever se boa-fé seja extremamente relevante,
entendeu-se que o dever se renegociação poderia ser aplicado perante o próprio
Poder Judiciário, garantindo as partes tanto o acesso à justiça, como também uma
possibilidade de solução amigável do litígio.
Em relação à questão sobre a existência de via administrativa predisposta à
solução de controvérsias, foi salientado que o princípio do acesso à justiça e o
princípio da inafastabilidade da jurisdição não são absolutos e o acionamento da
via administrativa pode ser exigido quando esta for de notória existência, como, por
exemplo, nos casos de seguro DPVAT, ressaltando-se que não é necessária a
comprovação do exaurimento da via administrativa como condição ao acesso à
justiça.

TURMA 02
4 - No atual cenário de pandemia há de se buscar vários métodos adequados para
resolução de controvérsias, especialmente os métodos autocompositivos,
estimulando-se a conciliação e a mediação, prevenindo-se a instauração de
litígios. O interesse processual não pode ele ser condicionado à demonstração de
tentativa obrigatória de solução amigável do litígio, por violar o princípio da
inafastabilidade da jurisdição e impor restrição a direito de ação não prevista em
lei. Traduz-se o interesse processual no binômio necessidade e utilidade. Pelo
prisma da necessidade, é possível condicionar o reconhecimento do legítimo
interesse processual à demonstração de direito violado e pretensão resistida da
outra parte, mas não à demonstração de tentativa de composição entre as partes.
Do mesmo modo, condicionar o reconhecimento do interesse processual ao
acionamento de via administrativa predisposta à solução de controvérsias,
infringiria o princípio da inafastabilidade da jurisdição previsto no art. 3º do CPC e
no art. XXXV da CF. Apenas a Constituição Federal poderia prever exceção a tal
princípio, com a criação de instância administrativa de curso forçado, a exemplo, a
Justiça Esportiva, que é a única prevista pela Magna Carta.

TURMA 03
sem súmula

TURMA 04
4.R: O princípio da inafastabilidade da jurisdição previsto no artigo 5º, inciso XXXV,
da Constituição Federal, garante o acesso do cidadão à via jurisdicional,
independentemente do esgotamento prévio das vias administrativa e conciliatória.
Tal condicionamento implicaria em diminuição à garantia constitucional do acesso
à justiça, não havendo embasamento legal para tanto.
O ordenamento jurídico, entretanto, contempla exceções à regra de
inafastabilidade da jurisdição, entendidas como necessário esgotamento da via
administrativa para socorrer-se ao Poder Judiciário. São elas: ações relativas à
disciplina e competições esportivas; ato administrativo que contrarie súmula
vinculante (art. 7º, §1º, da Lei 11.417/06); indeferimento da informação de dados
pessoais ou omissão em atender este pedido para que nasça o interesse de agir
no habeas data; e, por fim, o indeferimento de pedido perante o INSS ou omissão
em atender o pedido administrativo para obtenção de benefício previdenciário.

TURMA 05
4) O princípio da inafastabilidade da jurisdição, na visão tradicional, implica no
reconhecimento de que o direito de ação é incondicionado. Contudo, referido
entendimento acarretou o colapso do sistema jurisdicional. Com a intenção de atingir a
celeridade processual e dando-se maior ênfase aos meios alternativos de resolução de
conflitos, foi estabelecido no CPC/15, no art. 334, regras a ser adotadas nas ações civis
para a realização de audiências de conciliação ou de mediação, antes da fase instrutória.
Inclusive houve previsão de multa de até dois por cento da vantagem econômica
pretendida ou do valor da causa pelo não comparecimento injustificado do autor ou do réu
à audiência de conciliação, considerado como “ato atentatório à dignidade da justiça”, que
se reverterá em favor da União ou do Estado (§8º, art. 334/CPC). Desse modo, trata-se de
alternativas como forma de solução do conflito e de novos conceitos de acesso à justiça.
Dessa maneira, não só em razão da excepcionalidade pela pandemia da COVID-19, deve-
se buscar a tentativa de solução amigável dos litígios como renegociação de dívidas,
diminuição de aluguéis, etc.
Por sua vez, quando há a possibilidade de resolver via administrativa, o entendimento
jurisprudencial é no sentido de que é necessário prévio pedido nessa esfera,
especialmente na relação entre particulares e empresas, a exemplo dos pedidos de
exibição de documentos contra instituições financeiras. Assim, admissível a exigência de
requerimento prévio da via adminsitrativa como condição para o acesso à jurisdição, haja
vista que tal medida historicamente teve por objetivo coibir as milhares de demandas por
exibição de documentos, especialmente contra instituições financeiras, cujo objetivo
camuflado era a busca de honorários. Nesse sentido:

Medida cautelar de exibição de documentos com caráter satisfativo, travestida de ação de preceito cominatório de
obrigação de fazer. Sentença de extinção. Na vigência da nova ordem processual civil, não há mais interesse processual na
ação exibitória satisfativa, pois se trata, hoje, de meio de prova incidental na ação proposta (art. 396 e ss. do novo CPC) ou,
quando muito, deve-se propor a produção antecipada de provas para obtenção do documento pretendido a fim de fazer o
exame do seu conteúdo e verificar interesse em propositura de outra ação (art. 381 e ss. do novo CPC). Gratuidade
judiciária restabelecida à autora. Apelo provido em parte. (TJSP; Apelação 1064865-16.2017.8.26.0100; Relator
(a): Soares Levada; Órgão Julgador: 34ª Câmara de Direito Privado; Foro Central Cível - 9ª Vara Cível; Data do
Julgamento: 17/01/2019; Data de Registro: 17/01/2019)

BANCÁRIOS Ação de obrigação de fazer - Pretensão de exibição de contratos. Sentença de extinção sem julgamento de
mérito. Injuridicidade de ação autônoma por não contemplada no NCPC. Pretensão exibitória somente passível de dedução
através do procedimento da tutela cautelar de caráter antecedente (NCPC, art. 305), ou então quando não pedida tutela
através do procedimento probatório da Produção Antecipada de Provas (NCPC, art. 381, III). Falta de interesse processual
caracterizada, na modalidade adequação. Manutenção da extinção, nos termos do NCPC, art. 485, VI. Recurso desprovido,
e majorados honorários advocatícios (NCPC, art. 85, § 11),observada gratuidade de justiça e a condição suspensiva do
NCPC, art. 98, §3º. (TJSP; Apelação Cível 1012043-10.2017.8.26.0566; Relator (a): José Wagner de Oliveira Melatto
Peixoto; Órgão Julgador: 37ª Câmara de Direito Privado; Foro de São Carlos - 5ª Vara Cível; Data do Julgamento:
29/04/2019; Data de Registro: 29/04/2019)

“APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER - EXIBIÇÃODEDOCUMENTOS-


PEDIDODETUTELAPROVISÓRIA DE URGÊNCIA - Sentença de procedência – Insurgência da ré - Cabimento - Ação
intentada pela autora que se revela verdadeiro pedido de ação de exibição de documentos apenas nominada de Ação de
Obrigação de Fazer - Ação de Exibição de Documentos que não subsiste de forma autônoma com a entrada em vigor do
Código de Processo Civil de 2015 - Inteligência dos arts. 396 a 404 e 305 a 310 do NCPC - Hipótese em que a ação de
obrigação de fazer foi ajuizada sem indicar o efetivo alcance do direito substancial entre o pedido de tutela final (qual o
cumprimento de obrigação de fazer que pretende ver tutelado) e o pedido de tutela provisória formulado (exibição de
documento) - Ausência de demonstração de requerimento prévio administrativo válido não atendido - Aplicabilidade do
entendimento pacificado no Resp. nº 1.349.453/MS, do C. STJ, para fins de aplicação do art. 543- C, do CPC - Contrato de
prestação de serviços celebrado através de via telefônica, sem assinatura de contrato físico e individualizado - Possibilidade
do consumidor contratante obter a cópia das cláusulas gerais do contrato e faturas mensais com demonstração de serviços e
valores, pelo site da operadora do serviço contratado, utilizando-se do número do contrato(número do telefone) e dados
pessoais do contratante - Avanços e comodidades da vida moderna - Sentença reformada para julgar improcedente a ação,
invertendo-se os ônus sucumbenciais em desfavor da autora, observando-se o contido no art. 12 da Lei 1.060/50 -
RECURSO PROVIDO.” (Apelação nº 1023762-66.2016.8.26.0002, Rel. Sergio Alfieri, 35ª Câmara de Direito Privado, DJ
24/04/2017).

“OBRIGAÇÃO DE FAZER. Exibição de planilha de cálculo. Inadequação da via eleita. Carência da ação reconhecida, por
ausência de interesse de agir. Extinção do processo, nos termos do art. 485, § 3º, do CPC. Sentença reformada, de ofício.
RECURSO PREJUDICADO.”(Apelação nº 1045943-58.2016.8.26.0100, Rel. Carlos Von Adamek, 38ªCâmara de Direito
Privado, DJ 19/04/2017).

“AÇÃO CAUTELAR DE EXIBIÇÃO DE DOCUMENTOS. Indeferimento da petição inicial. Ausência de interesse


processual. Em que pese ter sido denominada ação de obrigação de fazer, verifica-se que se trata de ação de exibição de
documento. Código de Processo Civil de 2015 que não prevê procedimento autônomo para essa finalidade. Exibição que
deve ser requerida em incidente do processo principal ou em produção antecipada de prova. Inadequação da via eleita.
Extinção mantida. Recurso desprovido.”(Apelação nº 1008715-92.2016.8.26.0506, Rel. Milton Carvalho, 36º Câmara de
Direito Privado, DJ 20/04/2017).

TURMA 06
A turma de forma unânime entende que: não é possível condicionar o
reconhecimento do interesse processual ao esgotamento das instâncias
administrativas, de modo a inviabilizar a apreciação processual do pedido do
interessado que ainda não tentou as tratativas de solução amigável do litígio,
havendo inclusive previsão expressa no Código de Processo Civil acerca da
inafastabilidade da jurisdição (art. 3º). Embora ocorram exceções previstas na
jurisprudência brasileira, tal qual o esgotamento da via administrativa nos casos
envolvendo benefícios do INSS, a regra permanece a impossibilidade de
condicionamento do direito de ação às vias administrativas ou extrajudiciais.

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