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O Processo conta a história de Josef K.

, um homem preso e processado por um


sistema autoritário, burocrático, inacessível, incompreensível e inalcançável. A natureza
de seu crime nunca é revelada a Josef e nem ao leitor. No dia de seu trigésimo
aniversário, K. é preso por dois agentes que não se identificam, e não explicitam para
quem trabalham. Apesar de preso, ele não é levado para a cadeia, e é instruído a esperar
por ordens de um comitê. Ele tenta descobrir em vão o que fez de errado,
ziguezagueando na tentativa de contornar os obstáculos burocráticos que possivelmente
o levariam a uma resposta sobre seu caso. Mais tarde, no banco em que trabalha, K.
encontra os agentes que o prenderam levando chicotadas por terem pedido suborno
àquele (ele tinha reportado o ocorrido). Josef tenta dissuadir o carrasco, mas não
consegue. O tio de K. lhe sugere um advogado. Eles vão à casa deste, e Josef acaba por
fazer sexo com a enfermeira, Leni. O advogado lhe parece inútil e ele acaba seguindo o
conselho de seus clientes para visitar um pintor chamado Titorelli, que supostamente
sabe muito sobre os procedimentos da corte. Este lhe diz que, até aquele momento,
ninguém conseguira ser inocentado, e que qualquer tentativa de defesa seria, portanto,
inútil. Josef vai à casa do advogado com intenção de dispensá-lo, mas acaba
conhecendo lá um cliente chamado Block, o qual lhe oferece algumas dicas. O processo
de Block já durava cinco anos, e o advogado constantemente diminuía aquele por ser
tão dependente dele. Josef deve ciceronear um cliente italiano e eles combinam de se
encontrar em uma catedral, mas o cliente não aparece. K. entra e fala com um padre que
lhe conta uma parábola sobre um homem que queria bater à porta da justiça , e que para
isso espera uma vida inteira e não consegue passar nem da primeira porta (são inúmeras
portas com porteiros). Esse homem pergunta por que tinha sido o único a tentar passar
por aquela porta, e o porteiro lhe diz que tal porta fora destinada somente para ele, e que
agora ele iria fechá-la. Na noite anterior a seu trigésimo - primeiro aniversário, dois
homens o levam. Ele não oferece resistência, e aceita o inevitável. Eles o levam para um
local e lhe mostram a faca de dois gumes, esperando que ele se mate e faça o trabalho
por eles, mas ele não consegue, então um homem segura seu pescoço e o outro enfia a
faca em seu coração girando-a duas vezes. Josef K. morre como um cão... como um cão.

Essa impotência diante das decisões arbitrárias de um sistema autoritário e


burocrático não se resume ao mundo sombrio e fictício de Kafka. Podem-se encontrar
inúmeros exemplos de desrespeito à liberdade e aos direitos civis ainda nos dias de hoje,
quando a coletividade se considera tão evoluída. A Convenção de Genebra institui as
chamadas violações graves, e uma delas é o ato de privar alguém de seu direito a um
julgamento justo. Ora um julgamento não pode ser justo quando é tão secreto que nem
mesmo o acusado sabe o crime que cometeu. Inocentes são presumidos culpados e são
executados, assim como Josef K.

Os detentos de Guantanamo Bay são presos sem acusações formais por tempo
indefinido, e não são protegidos pela Convenção de Genebra. Hoje, ainda existem lá
167 prisioneiros, a maioria deles sem ter sido julgada ou acusada. Suas sentenças são
segredo até mesmo para os próprios detentos, que ignoram as acusações específicas
contra eles, e são proibidos de participar dos procedimentos de corte, as notícias que
seus advogados podem lhes dar são limitadas, e até mesmo o acesso destes é limitado
(eles não podem ver a evidência contra seus clientes - e portanto não têm como saber se
esta foi obtida por meio de tortura ou coação - e não podem apelar antes da execução).

Na Eritréia, a polícia prendeu, em 2008, 23 mulheres e crianças. Pelo menos duas


famílias inteiras ainda estão na prisão e não foram, contudo, acusadas, quanto mais
julgadas e condenadas. Elas foram privadas de qualquer chance de defesa, seguindo o
exemplo do caso público de três pessoas que estão na prisão há mais de 15 anos sem
acusação formal ou julgamento (também naquele país).

Estima-se que em Cingapura existam pelo menos 1000 pessoas detidas sem
acesso a advogado, acusação formal ou julgamento. Na China, já nem se tem ideia de
quantas pessoas estão presas sem direito a um processo justo. Além de milhares de
chineses detidos, existem muitos estrangeiros encarcerados que recebem serviços de
tradução ineficientes e que não têm acesso aos detalhes de seu caso (seus advogados
também não podem examinar as acusações exatas). Sem saber com precisão que crimes
cometeram e quais as acusações, encontrar material relevante para a defesa é uma
questão de pura sorte, já que não sabem contra o que estão se defendendo.

Outras tantas ditaduras, fossem/sejam capitalistas ou comunistas,


aplicavam/aplicam técnicas semelhantes, podendo deter o suspeito por tempo
indeterminado. Na maior parte das vezes, quando do confronto com o sistema ditatorial,
nem se descobre que o suspeito está detido, ele simplesmente desaparece. Não é preciso
ir tão longe para encontrarmos uma realidade kafkiana imposta pelo sistema. Aqui
mesmo no Brasil, durante a ditadura, quantos jovens foram presos e não tiveram direito
a um processo justo? Quantos desapareceram? Quantos precisaram se exilar para
continuarem vivos? Nessa época, os textos de Kafka eram bastante populares no Brasil.
Eles foram utilizados para relacionar o Estado ditatorial brasileiro com o autoritarismo
presente nas obras kafkianas. Com o silenciamento à crítica e a outorgação do AI-5, os
intelectuais liam esse autor como forma de superar tal silenciamento, através de
discussões literárias sobre um contexto conflitante similar ao vivido aqui. Assim,
quando alguns críticos mencionavam os textos kafkianos, eles estavam malhando o
silêncio imposto, tentando driblar a perseguição política, e fazendo uma crítica velada
ao sistema autoritário brasileiro.

E o que dizer das tais leis antiterrorismo, que garantem à polícia o direito de
prender sem provas, acusações formais ou processo? Os direitos dos cidadãos já não se
aplicam aos indivíduos. Com o Estado encontrando novas formas de manter o poder e
de prolongar a vida-média do autoritarismo, utilizando-se de subterfúgios disfarçados de
preocupações com a segurança nacional, o cidadão encontra-se cada vez mais privado
de liberdades previamente garantidas pela democracia. Na Malásia, suspeitos de
terrorismo podem permanecer presos sem acusação formal ou julgamento por tempo
indefinido; na Uganda, por 360 dias; nos EUA, por tempo indefinido (se forem
suspeitos de serem “inimigos combatentes”); no Reino Unido, 28 dias. Os EUA e o
Reino Unido, que afirmam lutar pela liberdade e democracia, tolhem os direitos de seus
próprios cidadãos, colocando-os frente a frente com um Estado kafkiano e autoritário,
instaurando uma política de terror, para que possam assim servir-se das leis que lhes
permitam passar por cima de direitos assegurados pela Convenção de Genebra,
supostamente em nome de um bem maior. Nesses países, as acusações contra
presumidos terroristas são mantidas em segredo, e os acusados não podem saber das
provas contra eles. Ora então os governos dos EUA e do Reino Unido se equiparam
com o governo da China, sabidamente repressor dos direitos civis, em termos de
arbitrariedade quando da prisão de um suspeito. O que é que aconteceu com a
presumida inocência até que se prove o contrario? Essa frase efetivamente faz parte da
Constituição do Reino Unido (o ônus da prova cabe ao acusador), da Convenção pela
Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais – Europa, e da
Constituição Americana, embora nesta última não seja explicitamente (similaridades são
encontradas nas 5a, 6a, e 14a emendas).

Até mesmo os nazistas tiveram direito a processos justos, representados por


advogados, acusados formalmente, julgados e condenados. Em contraste, muitos
indivíduos retidos não recebem direito algum. Mais de 600 detentos foram liberados de
Guantanamo Bay sem pedido algum de desculpa e sem acusações formais. Poder-se-ia
tentar compreender tais medidas se as referidas investigações criminais fossem
específicas e acuradas, mas se pensarmos em quantas pessoas são erroneamente
acusadas e acabam até mesmo sendo executadas, não é possível sentirmos tranquilidade
em relação ao poder excessivo do Estado, porque sabemos que poderemos ser os
próximos... nós somos todos potenciais Josef K.

Mas não é apenas a ditadura e o abuso governamental, por excelência explícitos,


que devemos temer. As burocracias públicas são também uma forma de ditadura velada,
um suplício para os que precisam lidar com estas. Esse é o detestado Estado
burocrático, com seus inúmeros papéis e cargos, com suas normas e regras ilógicas,
com seu passo desapressado e seu controle da coletividade... Até mesmo para tirar
alguém que tenha sido erroneamente condenado existe burocracia... o coitado deveria
ser liberado às pressas, para compensar o tempo perdido, mas não... dias se passam para
que a liberação seja aprovada e entre em vigor. É provável que os mais afetados pela
máquina burocrática sejam os menos favorecidos. Quando pensamos nas filas da
emergência dos hospitais, dos postos de saúde, ou de qualquer outro órgão público
percebemos como a burocracia também pode acorrentar os cidadãos, privando-os de
algo que parece tão banal quanto a liberdade de escolher o que fazer com o seu próprio
tempo. Assim ocorreu com Josef K., que apesar de não ter ido para a prisão, passava
todo seu tempo disponível tentando descobrir maneiras de solucionar seu caso, sem
liberdade de passar seu tempo como bem entendesse, razões tais que, concatenadas,
afetaram sua psique de forma substancial, gradualmente esmagando-o como a um
inseto submisso, preparando-o para aceitar seu inevitável fim nas mãos de um sistema
autoritário e indecifrável.

Precisamos é de um Estado verdadeiramente democrático e, quem sabe, apenas


parcialmente burocrático. É possível compreender que a máquina do governo precise de
um pouco de burocracia para que tenha tempo de lidar com os milhões de
requerimentos que o povo faz diariamente. Mas daí a afogar a população em um mar de
documentos a serem assinados e em uma lista de infindáveis filas a serem enfrentadas,
já é demais. Meu namorado veio para o Brasil há dois anos e meio, e, desde sua
chegada, tem sido vítima da burocracia. Assim que chegou, ele pediu visto de
permanência com base em filho. O processo se estende desde então, já gastamos mais
de 1000 reais em taxas, já fomos à Polícia Federal e a outras repartições públicas e
consulados pelo menos 30 vezes, cada uma dessas vezes ficamos entre duas e três horas
à espera de atendimento. Sem o visto de permanência, ele não pode ter CPF e nem
Carteira de Trabalho, e, portanto, só pode trabalhar irregularmente. No entanto, a
Polícia Federal o questiona sobre como ele sustenta a família, no que parece ser uma
“pegadinha”, pois se ele não pode trabalhar legalmente, como é que deve conseguir
sustentar sua família? Às vezes até penso que é tudo parte de uma tática para fazer com
que os estrangeiros desistam de morar aqui e acabem indo embora de vez... só não
entendo o porquê!
Bibliografia:

http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=4715916

http://en.wikipedia.org/wiki/Presumption_of_innocence

http://gazetilha.noblogs.org/post/2010/07/10/supremo-tribunal-americano-suspeito-
inimigo-combatente-n-o-mais-pessoa/

http://kironreid.co.uk/news/000056/this_is_where_labour_brought_us__a_kafkaesque_s
tate_where_the_accused_could_not_know_the_evidence_against_them.html

http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1828469,00.html

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2009/jan/11/guantanamo-obama-white-house

http://www.nybooks.com/articles/archives/2010/oct/14/what-do-about-guantanamo/

http://www.culturabrasil.pro.br/ditadura.htm

http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao23/materia01/

http://compartilhandoecriandoinformacao.blogspot.com/2008/01/ditadura-militar-no-
brasil-2.html

http://www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3484&bd=1&pg=1&lg=

http://terrorism.about.com/od/counterterrorism/tp/Terrorist-Suspects-Detention-.01.htm

http://www.literarytraveler.com/authors/franz_kafka_prague.aspx

http://victorian.fortunecity.com/vermeer/287/index.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Before_the_Law

O Processo – Franz Kafka