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Inclusão da Exclusão (2008)

por: Leandro Villela de Azevedo


Doutor em História Social (USP) – Professor de História e Atualidades no Ensino Fundamental e
médio

Inclusão nas escolas não é algo novo. Lembro-me muito bem que há 8 anos
tive o meu primeiro aluno de inclusão. Não nos foi explicado muita coisa, a não
ser que ele tinha algum tipo de deficiência mental e que a ele não se aplicavam
as mesmas regras dos outros alunos. O discurso foi rápido e simples: “pela
nova política do governo somos obrigados a aceitar alunos com deficiência
mental, ele está aqui mais para aprender convívio humano. Ele não tem a
capacidade de aprender como os outros, deve participar de todas as atividades
que os outros participam, mas ele nunca reprovará, nem receberá errado em
nenhuma questão, simplesmente o deixem na sala e garantam que os outros
alunos convivam bem com ele”.
Como naquela época inclusão era novidade, os professores ficaram um pouco
chocados com a notícia, alguns apoiavam em gênero número e grau a atitude
do governo de incluir, outros defendiam em alta voz que aquilo era um
absurdo, mas a maioria, como eu, apenas esperava, meio aturdidos, sem saber
o que fazer, mais instruções ou orientações de como lidar com o menino,
demonstrando sim receio de não dar contra de algo tão diferente em sala, ao
mesmo tempo que, como devia ser natural dos professores, com certo gostinho
de desafio pela frente. No meu caso o desafio seria provar que o menino não
era tão incapaz quanto diziam.
Hoje inclusão não é mais novidade. Mas em 99% das escolas ainda parece ser.
O número de alunos considerados de inclusão aumentou drasticamente. Ao
menos nas escolas particulares aqui de SP, é raro achar um professor que
nunca tenha tido ao menos um aluno nessas condições. Algumas instituições,
inclusive, parecem ter virado máquinas de produção de laudos de algumas
daquelas famosas siglas que geram "inclusão", mas, na maior parte dos casos
alunos continuam sendo entregues como aquele: "esse é um aluno de inclusão"
... e ponto final. A diferença é que os professores não acham mais tão
estranho, os embates são menos acalourados, e especialmente, ninguém
espera mais receber auxílio e treinamento de como lidar com esses casos, pois
simplesmente esperaram por muito tempo que alguém viesse ao seu auxílio, e
nada. É certo que algumas escolas são excessão e que alguns professores,
independente de sua instituição, também são excessão, por aceitar pagar do
próprio bolso, e dispender de seu próprio tempo (pois só sendo professor para
entender o porquê do tempo do bom professor ser tão escasso) e fazer um dos
raros cursos sérios por contra própria.
Quando ouvi falar a primeira vez sobre inclusão, ouvi que haviam alunos cegos
com profissionais que lhes auxiliavam no braile durante as aulas, alunos surdo-
mudos que tinham um "tradutor" de LIBRAS (linguagem de sinais) em sala de
aula. Aquilo parecia fantástico, imaginem o quanto aprenderíamos com um
desses profissionais quando o aluno de inclusão viesse acompanhado desse
apoio. Estranhamente, nesses 8 anos, tive um total de 18 alunos de inclusão,
que estavam “incluídos” em escolas “normais”, mas nunca tivemos um único
profissional, nem que fosse por 5 minutos, especializado naquela doença, para
nos orientar. Ainda porque, a deficiência desses alunos era mental, e não
deficiência auditiva ou visual.
Uma dessas escolas sempre se esforçou muito com cursos, leituras e reflexões
sobre essa dificuldade, e isso faz toda a diferença; mas a não ser esse esforço
de uma entidade em particular, nunca vi um apoio real vindo com a tal lei da
inclusão.
Mas isso em si não seria o pior problema, como eu disse, parece de certa forma
natural que professores gostem de desafio. Mas é necessário saber medir o seu
desempenho, e em especial, ter claro os objetivos por traz da ação. Aquele
primeiro aluno, no princípio, conseguiu até que com relativa facilidade lidar com
a inclusão. A sala achava engraçada a sua forma de agir e parece que ele
gostava de ver que estava despertando riso nos colegas.
Mas quando o riso de brincadeira se torna chacota (e é muito tênue a linha que
separa uma coisa da outra) a pessoa que não sabe se expressar por palavras
usa a violência. Acontece que por ser de "inclusão", não havia o que se pudesse
fazer com o menino, nem tirá-lo da sala, e parece que ele se divertia muito
mais em causar dor do que risos.
Se já é difícil lidar com crianças, imagine quando um lado se sente diminuído ao
ver que o colega bate nos outros, e nada acontece com ele, ao mesmo tempo
aqueles que fazem qualquer brincadeira com ele recebem punição dobrada. Por
que ele não faz prova como os outros, só pinta desenhos? Por que quando ele
picou a prova dele e de outro aluno nada ocorreu com ele?
A falta de informação dada aos alunos só deixava a inclusão cada vez um nome
mais cruel para o que realmente estava ocorrendo aos que o excluíam de todas
as formas possíveis. Resolveram então abrir o jogo com a sala, e a situação se
tornou ainda pior, muitos alunos começam a querer se tornar de "inclusão",
afinal, alguns deles tinham problemas de nota e de certa forma realmente
tinham alguma dificuldade, ainda que não pudesse ser incluída na categoria
"inclusão.
8 anos se passaram. Também se passaram várias escolas do minha vida,
inclusive em uma destas tive uma maravilhosa e triste experiência que relato
em "quando raciocínio vira BigBrother" Mas é certo que as escolas ainda
não estão nem um pouco "inclusivas". Algumas simplesmente por falta de
qualquer vontade em se adaptar, afinal é cômodo "jogar" um aluno pagante
sobre o qual não há qualquer necessidade de olhar especial, apenas instruindo
os professores a "ele não vai fazer nada e vai ser aprovado". Mas a questão é
que mesmo as escolas mais esforçadas neste aspecto, e graças a Deus
atualmente estou em uma dessas, mesmo estas muitas vezes precisam se
desdobrar para achar profissionais especializados que possa instruir os
professores, enviar seus professores a cursos em raras instituições que se
dedicam a isso. Normalmente as associações que dão os laudos de inclusão não
se preocupam em instruir como lidar com aquele aluno. E quando existe
alguma comunicação, é por esforço individual.
Será que uma questão tão moderna como a inclusão, colocada de cima pra
baixo pelo governo, não precisaria de uma igual estrutura governamental para
que funcionasse na prática? Ou será que assim como computadores apodrecem
após serem comprados e instalados nas escolas, por questões burocráticas,
também os nossos alunos e professores precisarão apodrecer para alguém
comece a pensar o que fazer com eles?