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PROFESSOR OLAVO DE

CARVALHO
ARTIGOS DE 2000
PARTE I
Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 29 de
abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e
audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais
tão diferentes quanto Jorge Amado, Arnaldo Jabor, Ciro Gomes, Roberto
Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, Herberto Sales, Josué
Montello e o ex-presidente da República José Sarney já expressaram sua
admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho.
A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania
da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia
“científica”. Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel entre a
objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual,
vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é
reduzido a um formulário impessoal e uniforme para uso da classe
acadêmica. Acreditando que o mais sólido abrigo da consciência individual
contra a alienação e a coisificação se encontra nas antigas tradições
espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de
Carvalho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas
tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e
científica para a resolução de problemas da cultura atual. Um exemplo
dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus
Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos
verbais nas línguas sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para
refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é
sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, onde descobre,
entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que
subentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram
respostas a muitas questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Uma
Filosofia Aristotélica da Cultura — Introdução à Teoria dos Quatro
Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme “O
Silêncio dos Inocentes” (“análise fascinante e — ouso dizer — definitiva”,
segundo afirma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de
Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro) que aplica a uma
disciplina tão moderna como a crítica de cinema os critérios da antiga
hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento culmina em O
Jardim das Aflições(1995), onde alguns símbolos primordiais como o
Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição
chinesa, etc., servem de moldes estruturais para uma filosofia da História,
que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como
ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando
em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro da cultura Ocidental.
A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra
de arte.
É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de
Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das
demonstrações e a amplitude das referências culturais se aliam a um
estilo dos mais singulares, que introduz na ensaística erudita o uso da
linguagem popular — incluindo muitos jogos de palavras do dia-a-dia
brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como
súbitas mudanças de tom onde as expressões do sermo vulgaris,
entremeadas à linguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem
conotações imprevistas e de uma profundidade surpreendente.
A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmica, onde, com
eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos
prestígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu
livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou
para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma
multidão de leitores devotos, que esgotaram em três semanas a primeira
edição da obra, e em quatro dias a segunda.
Contrastando com a imagem de rancoroso ferrabrás que seus adversários
quiseram sobrepor à sua figura autêntica, Olavo de Carvalho é
reconhecido, entre quem desfruta de seu convívio, como homem de
temperamento equilibrado e calmo mesmo nas situações mais difíceis, e
como alma generosa capaz de levar às últimas conseqüências, mesmo em
prejuízo próprio, o dom de amar, socorrer e perdoar.

Roxane Carvalho
30 ensinamentos de Olavo de Carvalho para começar a semana
um pouco mais inteligente
Por Marlon Belotti.
1- O tempo é a substância da vida humana. O dinheiro que se perde, ganha-se de
novo. O tempo, nunca.

2- Um homem maduro é aquele em cuja alma todos os sentimentos e emoções –


ternura, ódio, esperança, pressa, indiferença, todos eles – são balizados pela
consciência da morte.

3- Não prostitua a sua personalidade em troca da aceitação pelo grupo. É um preço


muito alto a ser pago.

4- O mistério da existência não é dado a qualquer um, mas para aquele que dá tudo e
mais alguma coisa em troca de obtê-lo.

5- O medo de enxergar o tamanho do mal já é sinal de submissão ao demônio.

6- Aquilo que é nobre e elevado só transparece a quem o ama.

7- Quando você vê um casal bonito e fica sinceramente feliz com a felicidade deles, é
sinal que Deus o está ajudando de muito perto.

8- Deus perdoa os adúlteros, os mentirosos, os ladrões e até os assassinos, mas não


perdoa quem não perdoa. Posso estar enganado, mas suspeito que no inferno há
menos adúlteros do que cônjuges virtuosos que lhes negaram o perdão.

9- A mais perfeita forma de amizade somente é possível para aqueles que buscam a
Verdade. Pessoas mundanas, por melhores que sejam, jamais conhecerão a dimensão
espiritual de um verdadeiro amigo.

10- Se um pai conseguir educar uma criança até os cinco anos sem nunca fazê-la
chorar, ela vai amá-lo, respeitá-lo, admirá-lo e obedecê-lo pelo resto da vida.

11- As pessoas que mais se angustiam na vida são aquelas que padecem de uma
desesperadora falta de problemas.

12- O capital intelectual é o que define o destino das nações.

13- A paciência é o começo da coragem. E é mesmo. Se você não consegue sofrer


calado, sem choramingar nem amaldiçoar o destino, muito menos vai conseguir agir
certo quando surgir a oportunidade.

14- O amor é sobre tudo um instinto de defender o ser amado contra a tristeza.

15- As portas do espírito só se abrem à perfeita sinceridade de propósitos.

16- Não há ingenuidade maior do que querer parecer esperto.

17- O que você quer ter sido quando morrer?


18- O Brasil só tem DOIS problemas: uma incultura MONSTRUOSA e a ânsia do brilho
fácil.

19- Pare de propor soluções nacionais, seu filho da puta. Faça algo para se educar e
educar as pessoas em torno.

20- Não existe caminho das pedras. O Brasil só pode ser melhorado cérebro por
cérebro.

21- Já expliquei mil vezes: Não tenho nenhuma solução para os problemas nacionais,
mas tenho algumas para você deixar de ser burro.

22- Estudar pouco e discutir muito é a desgraça do brasileiro.

23- À medida que vai se empoderando, o sujeito sai logo enfoderando todo mundo em
torno.

24- O comodismo conservador é tão obsceno quanto o fanatismo esquerdista.

25- A moral burguesa só se preocupa com pequenos deslizes sexuais porque é covarde
demais para enxergar os grandes crimes do satanismo universal.

26- Ser jovem é uma doença que o tempo cura.

27- Em grego, “idios” quer dizer “o mesmo”. “Idiotes”, de onde veio o nosso termo
“idiota”, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua
própria pequenez.

28- Quanto ao politicamente correto: só crianças acreditam que mudando o nome de


algo, ele passa a ser o que elas desejam.

29- O Brasil é o país em que famílias de bandidos mortos em conflito de facções nos
presídios tem o direito a uma indenização do Estado e as vítimas destes mesmos
criminosos da sociedade não faz jus a nada.

30- A vocação é algo para o qual você tem uma resistência específica. A minha
resistência específica é a burrice humana.
Maniqueísmo, ignorância e mendacidade

J. O. de Meira Penna

3 de janeiro de 2000

Em 27 de dezembro de 1999, eu estava meio mal de saúde. Quando fico doente,


abstenho-me de ler jornais, porque senão demoro mais para sarar. Mas nesse dia me
dei mal, porque perdi, no Jornal da Tarde, a melhor coisa que já se escreveu neste
país sobre as doutrinas do Dr. Emir Sader, aí honrado com o título de Emir dos
Crentes, o mais apropriado, sem dúvida, à sua austera carranca doutrinária. Só agora
pude ler esta pequena maravilha, que me foi enviada pelo autor, o meu caro amigo
José Osvaldo de Meira Penna, um escritor do qual se deve ler tudo, tudo o que ele
publica. – O. de C.

Numa de suas obras principais, A Nova Ciência da Política, atribui Eric Voegelin a
Dario Hystapis, o xá que fundou o Império persa no 5.° século antes de Cristo, a
primazia de um fenômeno ominoso que perdurou até nosso século. Após haver sido
integrado à civilização ocidental, ele constitui, na verdade, a essência da Ideologia,
essa “religião civil” de nossa época. Trata-se da iniciativa do rei Aquemênida de
atribuir a si próprio a defesa do Bem e da Verdade, projetando sobre seus adversários,
quaisquer que fossem, a pecha de serem os defensores da mentira e do mal. O
origem dessa dicotomia ética aplicada à política se encontra no próprio dualismo
original da religião dos iranianos, desde que seu fundador, Zarathushtra ou Zoroastro,
cindiu em dois a divindade, concedendo a Ormudz ou Ahura Mazda as qualidades de
bondade e veracidade, a ele opondo Arihman, o “grande satã”, deus do mal e da
mentira. O dualismo transcendente tomaria uma forma mais pronunciada nos
ensinamentos de um outro profeta, Mani ou Manichaeus, que viveu 800 anos depois e
influenciou as seitas gnósticas de princípios de nossa era. Fundador de uma religião
conhecida como maniqueísmo, Mani contaminou de mitologia mágica dualística todas
as heresias que ameaçariam a ortodoxia católica na Idade Média, Cátaros,
Albigenses, etc. Não nos esqueçamos que S. Agostinho, o maior filósofo cristão,
professou o maniqueísmo em sua mocidade, a tal ponto que muitos críticos
reconhecem em sua teologia reminiscências do dualismo ético, tão entranhado agora
na mente humana que é difícil dele nos libertarmos.

Foi Agostinho, no entanto, quem melhor desenvolveu a interpretação correta que S.


Paulo fez do Evangelho de Cristo, segundo a qual é em nós mesmos que devemos
procurar a oposição entre o Bem e o Mal. No maniqueísmo, ao contrário, somos nós,
seus professos, donos da verdade e da justiça, enquanto detestáveis são aqueles que
não pensam como nós porque portadores da maldade e da mentira. É fácil avaliar a
importância dessa psicopatologia na postura do ideólogo moderno, fiel ao cego
dogmatismo de suas mais estapafúrdias doutrinas e sempre disposto a acusar de
mentiroso, injusto, perverso e egoísta seus adversários. A dialética do Bem e do Mal
que o maniqueísmo provoca leva o alegado defensor da Verdade a recorrer a qualquer
instrumento para eliminar o Outro. A faca do assassino (do árabe hashishim, comedor
de haxixe), os fogos da Inquisição, o Gulag e Auschwitz, a bomba terrorista da “guerra
santa” dos aiatolás, o tiro na nuca no porão do KGB e o paredón para punir o traidor
vendido aos interesses alienígenas, tornaram-se banais em nossa época. Orwell
descreveu magnificamente o “duplo-pensar” totalitário que justifica o crime. O ideólogo
pensa estar defendendo a justiça e a verdade, de tal modo que a prisão moscovita se
transforma em “amorzinho” (Lubianka) e o genocídio é a justa recompensa dos
“capitalistas burgueses”. Voegelin descobre traços do processo psicopatológico que
cinde a realidade histórica, necessariamente complexa e cinzenta, na simplicidade
dualística do branco X preto ou, como se prefere hoje dizer, da “esquerda” e “direita”.
O nazismo e o marxismo, em suas várias vertentes, são as manifestações mais
clamorosas da enfermidade mental. Claro. O nacionalismo xenófobo se tornou, porém,
a partir da 1.ª Guerra Mundial, a expressão coletiva mais banal da esquizofrenia
paranóica. A corrupção da verdade em seu oposto, a Grande Mentira dialética, é
também suscetível de ser diagnosticada como Pseudologia Epidêmica ou
Pseudodoxia Fantástica. Assim como o católico atribuía ao protestante todos os
males, o nazista os atribui aos judeus, o marxista aos liberais e o latino patrioteiro aos
americanos.

As observações acima vêm a propósito da ira incontida, verdadeira rebordosa histérica


que maltrata os “esquerdistas” (chamêmo-los assim, já que tanto apreciam esse
grotesco termo jacobino) diante do colapso da URSS, da queda do Muro de Berlim e
do fenômeno da globalização, aparentemente irreversível. A adoção quase universal
das receitas liberais, mesmo pelos partidos tidos como de “esquerda”, o Labour de Mr.
Blair, a Gauche de Monsieur Jospin, o regime de Deng Xiaoping e Jian Zemin (Dois
Sistemas, Um Só País), a “Concertación de Izquierda” do Chile, o Justicialismo
argentino e mesmo, entre nós, o PSDB de FHC – se traduz por programas de abertura
ao mercado global e privatizações. Assim mesmo, o annus mirabilis de 1989
(saudemos essa data maior do século 20!) concedeu a esse pessoal um tempo
suficiente para que se recomponham. Afinal de contas, a revolução liberal foi uma
“revolução de veludo”, como a denominou o presidente checo Vaclav Havel. Os
liberais, não somos vingativos, reconhecemos nossos próprios defeitos e
insuficiências, não absolutizamos nossas idéias, reconhecemos que elas evoluem e se
integram em outras receitas. Se tivéssemos imitado Lenin, Stalin, Hitler, Mao ou Fidel
Castro, os socialistas que escapassem do paredón ou da bala na nuca estariam hoje
encerrados todos num Gulag apropriado, maior do que a ilha de Cuba. Ao invés, eles
voltaram ao poder sob títulos diversos. São “populistas”, “petistas”, “social-
democratas” ou “socialistas cristãos”. Agarram-se aos cargos e mordomias. Escrevem
nas folhas mais conservadoras do País. Colaboram com os mais opulentos bilionários.
Chamam Roberto Campos de Bob Fields. E até mesmo o senador Roberto Freire é
convidado de honra num simpósio da Fundação Konrad Adenauer (ó manes do der
Alte!).

No Brasil, é mais óbvio seu descaramento. Um exemplo supino é o do Emir dos


Crentes, mais conhecido como professor Sader. Perdoe-me esse eminente “sociólogo”
levantino e guru do PT se lhe renovo o merecido galardão, do “Prêmio Imbecil Coletivo
de 1996”, a ele concedido por Olavo de Carvalho. Suas idéias são bastante
características. Definem o mecanismo de transferência de culpa, dialética mendaz,
deslealdade e cínica hipocrisia “xiita” (mas será que o professor é sunita?). Um
exemplo é a tentativa de contrapor ao “Livro Negro do Comunismo” (cem milhões de
mortes) um pseudo “Livro Negro do Capitalismo”. Ao denunciar o “desconhecimento
da história”, indigitar o “pensamento único” e utilizar o truque de interpretar de modo
estreitíssimo os dogmas marxistas-leninistas, ele atribui a 1.ª Guerra Mundial (20
milhões de mortes) ao capitalismo. Admiravelmente simples! Só que em 1914 a
França e a Grã-Bretanha eram governados por partidos de esquerda – os dois líderes,
René Viviani e Clemenceau, ambos socialistas, e Lloyd George um liberal de esquerda
apoiado pelo Labour. Um único prestigioso socialista se opôs ao conflito, Jean Jaurès,
e foi assassinado por ser germanófilo. O reich bismarckiano era, similarmente, dirigido
pelos social-democratas e, dos dois lados da cerca, todos os socialistas aplaudiram e
votaram os orçamentos de guerra de seus respectivos governos. O mesmo em 1939.
Atribuir ao “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, os Nazistas de
Hitler, um vezo “capitalista” é uma aberração da inteligência. Em 1939, capitalistas
eram os judeus… Todos os liberais austríacos e alemães que, no pós-guerra, iriam
erguer a “economia social de mercado” e promover o “milagre alemão”, homens como
Adenauer, Eucken, Machlup, Ludwig Erhard, von Mises e Hayek, se encontravam no
ostracismo, na cadeia ou no exílio.
Mas porventura os militares nipônicos que, em 1932, invadiram a Manchúria, em 1937
a China, promoveram o rapto de Nanking e, em 1941, bombardearam Pearl Harbor
seriam também burgueses capitalistas? E o Pacto Molotov-Ribbentrop de agosto de
1939, que desencadeou a guerra (50 milhões de mortes) permitindo a Hitler liquidar
separadamente com a Polônia, a Escandinávia e a França, enquanto Stalin, o outro
parceiro, se locupletava com a outra fatia da Polônia, os Estados bálticos e a Finlândia
– foi por acaso firmado por capitalistas burgueses? E como foi mantido e se expandiu
o Império soviético (60 milhões de vítimas)? Quem invadiu a Coréia do Sul em 1950, o
Tibet em 1951 e a Índia setentrional em 1963? Não foi o Vietnã de Ho Chimin que
assolou a Kampuchea democrática (um milhão de mortes) e entrou em guerra com a
China maoísta em 1979? Não foi o Iraque que atacou o Irã e a URSS que ocupou o
Afeganistão? E a Iugoslávia de Milosevitch não era comunista quando se desintegrou
em sangrenta guerra civil (300 mil mortos)? O ilustre Emir dos Crentes deve aprender
história no curso primário antes de escrever “Em Defesa da História” nos jornais
burgueses de Brasília, Rio e São Paulo, essas mesmas folhas que acusa de
colaborarem no “festival do pensamento único que assola nossa imprensa”. Mas talvez
tenha razão: o festival de pensamento único que assola nossa imprensa e o “clima de
impunidade” com idéias estrambólicas é a mesma orgia ideológica de que o
comendador está, precisamente, gozando com seus comparsas…
J.O. de Meira Penna é embaixador, escritor e presidente do Instituto Liberal de
Brasília. E-mail: meirapen@zaz.com.br

“Dogma” e a mentira

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 6 de janeiro de 2000

Sou contra a proibição de qualquer filme, mas não quero ser cúmplice de uma
operação montada para enganar o público. A Igreja e a TFP, que pediram a proibição
de Dogma , não são o poderoso establishment oprimindo um pobre artista libertário,
que é como procuram apresentá-las os apóstolos da liberação do espetáculo.
Guardadas as proporções que as separam, ambas são organizações debilitadas,
perseguidas, boicotadas e marginalizadas, em luta contra a máquina internacional do
anticristão. Quando o establishment quer impedir que você veja um filme, ele não pede
às autoridades civis que proíbam sua exibição: ele simplesmente tira o filme de
circulação com um memorando administrativo, como a Disney fez com Sete Anos no
Tibete e Kundun , que cometiam o pecado mortal de denunciar o massacre de 1
milhão de tibetanos pelo governo chinês e assim arriscavam prejudicar os interesses
comerciais que unem os EUA ao seu sangrento “parceiro privilegiado” do Extremo
Oriente. Quando isso aconteceu, não houve um intelectual brasileiro que protestasse,
um militante de esquerda que visse aí qualquer atentado à liberdade de expressão.

Se a TFP e a Igreja pedem a proibição do filme, é porque não têm meios de lutar
contra a propaganda anticristã com as próprias armas dela. Quem tem dinheiro opõe
anúncio a anúncio, espetáculo a espetáculo. Quem não tem, pede socorro ao
Ministério da Justiça.

Não apóio os que pedem a proibição de Dogma , porém é preciso denunciar toda
tentativa de manchar a nobreza da sua causa, tão respeitável, ao menos em tese,
quanto a da liberdade de expressão.

Essa causa é, no fundo, o direito e o dever de qualquer fiel católico se precaver contra
uma propaganda cujos efeitos, de há muito, já passaram da esfera do boicote moral à
do genocídio puro e simples. A propaganda anticristã aplanou o caminho e anestesiou
as consciências para o massacre de pelo menos 30 milhões de cristãos no mundo
comunista. Não há rigorosamente diferença alguma, quanto à periculosidade, entre um
filme anti-semita e um filme anticristão. Em ambos os casos trata-se de preparar ou
legitimar genocídios. Podemos querer a liberação desses espetáculos, mas não sem
expressar a repulsa que nos inspiram e não sem pedir desculpas àqueles cujos
sentimentos eles ofendem. Em vez disto, o que fazem os defensores de Dogma é
desrespeitar esses sentimentos uma segunda vez, usando de uma retórica truculenta
que transforma o ofendido em malfeitor. O texto do manifesto que fazem circular pela
Internet trai claramente a sanha comunista que o inspira, ao utilizar-se do típico jargão
stalinista para qualificar a TFP de “organização fascista pequeno-burguesa” –
expressão que denota, além do tradicional preconceito de classe, a típica
inconsciência social do militante comunista, que, ignorando a classe a que pertence,
usa o nome dela como se fosse um insulto e, ademais, insulto aplicável somente aos
outros.

Não morro de amores pela TFP e não hesitaria, noutras circunstâncias, em


argumentar que é estúpida e herética, mas não vejo sentido em bater em quem já está
apanhando. A TFP, que nunca cometeu crime nenhum exceto o da babaquice, recebe
da imprensa o tratamento que se dá a uma quadrilha de malfeitores, enquanto notórios
seqüestradores, assassinos e assaltantes de bancos são premiados com dinheiro
público e elevados ao céu das beatitudes por uma mídia comprometida e servil. Numa
hora dessas, iria eu me associar covardemente à investida unânime de massas e
elites contra um punhado de fanáticos inermes e encurralados?

Quanto à Igreja Católica, apelando ao mecanismo repressivo do Estado, ela só faz é


posar de membro de um establishment que a despreza e achincalha, e tornar-se
voluntariamente vítima da mentira generalizada que faz dela a encarnação do poder, e
da indústria internacional de um desamparado grupo de artistas independentes que
gemem sob o tacão da autoridade. Dogma é só mais um prego fincado na cruz de
Cristo. Mas Cristo, sangrando, não haveria de querer posar no palanque ao lado de
Anás e Caifás. Antes mais um prego do que tamanha desonra.

Recebi pela Internet pedidos de aderir à luta pela proibição e pela liberação do filme.
Aos primeiros devo responder: vocês têm todo o meu respeito, mas não o meu apoio.
E aos segundos: vocês têm todo o meu apoio, mas não merecem o meu respeito.
A origem da burrice nacional

Olavo de Carvalho

Bravo!, dezembro de 1999 / janeiro de 2000

Repetidamente um fenômeno tem chamado a atenção de professores estrangeiros


que vêem lecionar no Brasil: por que nossas crianças estão entre as mais inteligentes
do mundo e nossos universitários entre os mais burros? Como é possível que um ser
humano dotado se transforme, decorridos quinze anos, num oligofrênico incapaz de
montar uma frase com sujeito e verbo? É fácil lançar a culpa no governo e armar em
torno do assunto mais um falatório destinado a terminar, como todos, em uma nova
extorsão de verbas oficiais.

Difícil é admitir que um problema tão geral deve ter causas também gerais, isto é, que
não pertence àquela classe de obstáculos que podem ser removidos pela ação oficial,
mas àquela outra que só nós mesmos, o povo, a “sociedade civil”, estamos à altura de
enfrentar, não mediante mobilizações públicas de entusiasmo epidérmico, e sim
mediante a convergência lenta e teimosa de milhões de ações anônimas, longe dos
olhos turvos da nossa vã sociologia.

Ora, a condição mais óbvia para o desenvolvimento da inteligência é a organização do


saber. Nossas energias intelectuais mobilizam-se mais facilmente em torno de uns
poucos núcleos de interesse fortemente hierarquizados do que numa dispersão de
focos de atenção espalhados no ar como mosquitos. Discernir o importante do
irrelevante é o ato inicial da inteligência, sem o qual o raciocínio nada pode senão
patinar em falso em cima de equívocos. Se, porém, cada homem tivesse de realizar
por suas forças essa operação, reduzindo a um esquema quintessencial de sua
própria invenção a totalidade dos dados disponíveis no ambiente físico, milhões de
vidas não bastariam para que ele chegasse a obter um começo de orientação no
mundo. A cultura, impregnada na sociedade em torno e resultado de sucessivas
filtragens da experiência acumulada, dá pronto a cada ser humano um quadro dos
ãngulos de interesse essencial, de modo que não resta ao indivíduo senão operar
nesse mostruário um segundo recorte, em conformidade com os seus interesses
pessoais.

Quando digo que a cultura está impregnada na sociedade em torno, isto significa que
a seleção dos pontos importantes transparece na organização das cidades, nos
monumentos públicos, no estilo arquitetônico, nos museus, nos cartazes dos teatros,
na imprensa, nos debates entre as pessoas letradas, nos giros da linguagem corrente,
nas estantes das livrarias e, last not least, nos programas de ensino.

Quem quer que desembarque num país qualquer da Europa ou em alguns da Ásia já
obtém, por um primeiro exame desse mostruário, uma visão bem clara dos pontos de
interesse mais permanente, que constituem uma espécie de fundo de referência
cultural, bem distinto dos focos de atenção mais atual e momentânea que se recortam
sobre esse fundo sem encobri-lo.

Só de andar pelas ruas, o cidadão aí pode enxergar os marcos que o situam num
lugar preciso do mapa histórico, desde o qual ele pode medir quanto tempo as coisas
duraram e qual a sua importância maior ou menor para a vida humana.

Se ele olha para os cartazes dos teatros, nota que certas peças estão sendo
reencenadas este ano porque são reencenadas todos os anos, ao passo que outras,
que fizeram algum sucesso no ano passado, desapareceram do repertório. Basta isto
para que ele adquira um senso da diferença entre o que importa e o que não importa.
Ao entrar em qualquer livraria, o contraste entre as estantes onde estão sempre
expostos os mesmos títulos essenciais e aquelas onde os lançamentos mais recentes
se revezam mostra-lhe a diferença entre o patrimônio escrito de valor permanente e o
comércio livreiro de alta rotatividade.

Na escola, ele sabe que vai aprender certas coisas que seus pais, avós e bisavós
também aprenderam, e outras que são novidade e que talvez terão desaparecido do
currículo na geração seguinte.

Tudo, em suma, no ambiente plástico e verbal contribui para que o indivíduo adquira,
sem esforço consciente, um senso de hierarquia e de orientação no tempo histórico,
na cultura, na humanidade.

No Brasil isso não existe. O ambiente visual urbano é caótico e disforme, a divulgação
cultural parece calculada para tornar o essencial indiscernível do irrelevante, o que
surgiu ontem para desaparecer amanhã assume o peso das realidades milenares, os
programas educacionais oferecem como verdade definitiva opiniões que vieram com a
moda e desaparecerão com ela. Tudo é uma agitação superficial infinitamente confusa
onde o efêmero parece eterno e o irrelevante ocupa o centro do mundo. Nenhum ser
humano, mesmo genial, pode atravessar essa selva selvaggia e sair intelectualmente
ileso do outro lado. Largado no meio de um caos de valores e contravalores
indiscerníveis, ele se perde numa densa malha de dúvidas ociosas e equívocos
elementares, forçado a reinventar a roda e a redescobrir a pólvora mil vezes antes de
poder passar ao item seguinte, que não chega nunca.

Nesse ambiente, a difusão das novidades intelectuais, em vez de fomentar discussões


inteligentes, só pode atuar como força entrópica e dispersante. Não há nada mais
consternador do que uma inteligência sem cultura, despreparada, nua e selvagem que
se nutre do último vient-de-paraîte e arrota uma sucessão de perguntas cretinas onde
a sofisticação pedante do raciocínio se apóia na mais grosseira ignorância dos
fundamentos do assunto. Acrescente-se a esses ingredientes a arrogância juvenil
estimulada pelas lisonjas demagógicas da mídia, e tem-se a fórmula média do
estudante universitário brasileiro. É impossível discutir com ele. Quando a mente
assim deformada entra a produzir objeções numa discussão, seu interlocutor culto e
bem intencionado, se não é muito enérgico no emprego da vara-de-marmelo, leva
desvantagem necessariamente: quem pode vencer um debatedor tenaz que, confiante
na aparente correção formal do seu raciocínio, está protegido pela própria ignorância
contra a percepção da falsidade das premissas? Com um sujeito assim não cabe a
gente argumentar. Cabe apenas transmitir-lhe as informações faltantes — educá-lo,
em suma. Mas, precisamente, ele não vai deixar você educá-lo, porque a ideologia de
rebelde posudo que lhe incutiram desde pequeno o faz pensar que é mais bonito
humilhar um professor do que aprender com ele. Eis como o menino inteligente se
transforma num debatedor idiota, vacinado para todo o sempre contra qualquer
conhecimento do assunto em debate.

As objeções cretinas nascem, decerto, de um impulso saudável. Não há mais notório


sinal de inteligência filosófica do que a capacidade de perceber contradições, a
sensibilidade para a presença de problemas. O brasileiro tem isso até demais.
Contrariando o lugar-comum que afirma a nossa falta de vocação para a filosofia, eu
diria que somos o povo mais filosófico do planeta. A prova disso é o nosso senso de
humor. O engraçado nasce, como as perguntas filosóficas, da percepção de
incongruências lógicas ou existenciais.

Mas que destino terá o jovem pensador que, a braços com o debate filosófico, se veja
privado de uma perspectiva histórica, de uma visão da evolução das discussões, de
um conhecimento enfim, do status quaestionis? Mesmo na doce hipótese de que por
natural instinto de comedimento ele se recuse ao bate-boca estéril e prefira trancar-se
em casa para raciocinar a sós, ele não passará nunca de um especulador maluco, de
um novo Brás Cubas a rebuscar em vão soluções já mil vezes encontradas, a
polemizar com as sombras de seus próprios enganos, a esgotar-se em perguntas
estéreis e em tentativas de provar o impossível. Enfim, cansado e amedrontado de um
mergulho solitário que não arrisca levá-lo senão ao hospício, ele aderirá, por mero
instinto autoterapêutico, ao discurso padronizado mais à mão. Uma carteirinha do PC
do B lhe dará um sentimento de retorno à condição humana. E não há nada mais
perigoso no mundo do que um idiota persuadido da sua própria normalidade.

Tal é o destino da maior parte da nossa jovem inteligência. (1)

Quem esteja consciente dessas coisas não poderá deixar de admitir que elas são a
conseqüência inapelável da nossa incapacidade, ou recusa, de absorver o legado
histórico da Europa e do mundo. Quanto mais nos “libertamos” de um passado que
daria sentido de historicidade à nossa inteligência, mais nos tornamos escravos de
uma atualidade invasiva que a desorienta e debilita.

Nesse sentido, os movimentos de “libertação” e de “independência”, que cortaram


nossas ligações com as raízes européias, não nos libertaram senão da base mesma
da nossa autodefesa, para nos deixar, inermes e sonsos, à mercê das perturbadoras
casualidades da mídia e da moda. Roubaram-nos o mapa do mundo, para nos deixar
perdidos no meio de um deserto onde é preciso recomeçar sempre o caminho, de
novo e de novo, para não chegar a parte alguma. Destituíram-nos do senso da
hierarquia e das proporções, para nos tornar escravos de debates viciados e
conjeturações ociosas que não nos deixam pensar nem agir.

Oferecer a um povo esse tipo de falsa libertação é algo que está, para mim, na escala
dos grandes crimes, na escala do genocídio cultural. E não é de espantar que, no
meio de tantas hesitações e equívocos, ninguém seja capaz de perceber a ligação
óbvia entre esse tipo de iniciativas “modernizantes” e o estado catastrófico de uma
cultura que se entrega sem reação, por mínima que seja, ao estupro midiático
internacional. Não é de espantar que ninguém note o elo de cumplicidade — secreta
mas indissolúvel — entre o fetichismo da independência estereotipada e a realidade
da dependência crescente.

Não me perguntem portanto o que acho de Mários, Oswalds, Menottis, Bopps e tutti
quanti, bem como de seus cultores e discípulos atuais que, desmantelando o idioma
sob pretextos morbidamente artificiosos e pedantes, o entregam inerme nas mãos de
quem faz dele a lixeira dos detritos do inglês midiático. Nem me peçam, em público,
para opinar sobre quaisquer outros importadores de novidades culturais que de
tempos em tempos refazem o Brasil no molde do último figurino.

Esse tipo de reformador cultural deslumbrado, que, sem uma autêntica visão universal
das coisas e movido somente pela comichão de atualismo, quando não pela ânsia de
épater le bourgeois, se mete a destruir valores que não compreende, é a praga mais
nefasta que pode se abater sobre uma cultura em formação, induzindo-a a destruir as
bases em que começava a se erguer e não pondo em seu lugar senão pseudo-valores
efêmeros cuja rápida substituição abrirá cada vez mais, sob os pés dela, o abismo
sem fim das duvidas ociosas e das perguntas cretinas.

Se queremos preservar e desenvolver a inteligência do nosso povo, em vez de a


esfarelar em tagarelice estéril, o que temos de importar não é a novidade: é toda a
História, é todo o passado humano. Temos de espalhar pelas ruas, pelos cartazes,
pelos monumentos, pelas livrarias e pelas escolas as lições de Lao-Tsé e Pitágoras,
Vitrúvio e Pacioli, Aristóteles e Platão, Homero e Dante, Virgílio e Shânkara, Rûmi e
Ibn ‘Arabi, Tomás e Boaventura.

Quem, antes de fortalecer a inteligência juvenil com esse tipo de alimento, a perturba e
debilita com novidades indigeríveis, é nada menos que um molestador de menores,
um estuprador espiritual. E, se o faz com intuito político ou comercial, o crime tem
ainda o agravante do motivo torpe.

8 de novembro de 1999

NOTA

Tão desprovido de retaguarda histórica está o nosso povo, que o impacto do show
business, entre nós, é mais profundo e devastador do que em qualquer outra parte.
Tombando como bombas sobre uma superfície mole e disforme onde nada lhes
resiste, as imagens dos os ídolos da TV assumem a dimensão de arquétipos
formadores. O peso de 50 milênios de história da civilização recua para uma distância
inalcançável, torna-se evanescente e como que irreal, enquanto umas aparências que
se agitam na telinha ocupam todo o espaço visível e se impõem como a única
realidade. Querem medir a profundidade desse impacto? Reparem nos nomes das
pessoas. A cada nova investida da mídia, uma nova geração de brasileiros se
desgarra da história para flutuar, como asteróides errantes, no mundo das identidades
imaginárias: chamam-se “Michael” ou “Diane”, quase que invariavelmente grafados
Máiquel, ou Máicom, e Daiane). Inútil explicar isto pelo mero senso de macaquice. O
fenômeno reflete uma doença mais profunda: a completa vulnerabilidade de um povo
desprovido do senso de retaguarda histórica. Não estou criticando os pais dessas
crianças. O que os motiva é um impulso elevado e nobre. Dar nome a uma criança é
libertá-la da escravidão natural e protegê-la sob o manto da tradição e da cultura. É
subtraí-la da insignificância empírica para elevar sua existência a um sentido universal.
O nome de um anjo, Miguel, Gabriel, faz de seu nascimento uma mensagem de Deus.
O nome de um santo, João, Pedro, Teresa, Inês, alista-a entre os beneficiários de
acontecimentos miraculosos. Os de um animal nobre, de um astro do céu — Leão,
Hélio e Eliana — associam-na ao simbolismo espiritual das coisas da natureza. Ao
chamar suas crianças de Máiquel e Daiane, o brasileiro pobre expressa o protesto da
sua alma contra a sociedade que as condenou a uma existência irrisória e cinzenta, e
busca associá-las à corrente dos prestígios que representa a vida realizada, plena,
feliz. Mas, em primeiro lugar, Máiquel e Daiane são falsos sentidos universais. Não
são nomes de gente. São griffes, copiadas errado de uma língua desconhecida, falada
num país distante do qual essas crianças estão ainda mais excluídas do que de uma
possível vida feliz na sua terra natal. Para augurar uma vida feliz a essas crianças
seria preciso chamar-lás Miguel e Diana, nomes de forças sutis sem referência
geopolítica. A modulação norte-americana exorcisa o arcanjo e a deusa, não deixando
em seu lugar senão os rótulos que farão de duas vidas humanas os reflexos anônimos
de duas imagens efêmeras. Há nesse hábito brasileiro um fundo de autocondenação,
um evidente sintoma depressivo. Chamar a uma criança Máiquel ou Daiana é declarar
que ela só seria feliz se tivesse nascido nos Estados Unidos. Mas ao mesmo tempo
seu próprio nome, com grafia errada, prova que não nasceu. Ela está, portanto,
condenada ao infortúnio.

Esses nomes não são bons augúrios, como os do arcanjo São Miguel e da deusa
Diana: são pragas sinistras lançadas sobre inocentes. Precisamente por carregar
nome grotescos essas crianças terão dificuldade de ascender socialmente no seu
próprio país. Em segundo lugar, o personagem cujo nome se copia é, em si mesmo,
um nada, um fogo-fátuo, destinado a desaparecer sob a maré de novas imagens da
mídia. Aos quarenta anos, quem carregue seu nome será um anacronismo vivo, como
o é hoje quem se chame Neil ou por conta de Neil Sedaka ou Pat em homenagem a
Pat Boone.

As intenções dos pais terão se desvanecido junto com essas glórias de quinze
minutos. Os nomes dessas crianças serão as marcas aviltantes de uma irrecorrível
condenação à insignificância.
Dois estilos de pensar

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 20 de janeiro de 2000

Há duas maneiras de criticar uma idéia ou proposta política. A primeira é fazê-la em


nome da razão e da experiência histórica acumulada. A segunda é julgá-la em nome
de um ideal de sociedade futura. Lukács dizia que só esta segunda maneira é legítima,
pois só pode enxergar os males do presente, segundo ele, quem esteja empenhado
em moldar o futuro. Mas isto é um típico jogo de palavras marxista, pois não há futuro
predeterminado: os futuros possíveis são em número indefinido, e indeterminado o
número de imagens que o presente mostrará nessa coleção de espelhos sem-fim. Se
atrelamos ao futuro nossa visão do presente, só há um modo de escapar da hesitação
eterna: é escolher entre esses futuros um que seja do nosso agrado e tomá-lo
arbitrariamente como medida do presente. Mas isto é fazer do gosto pessoal o juiz
supremo em assuntos públicos, o que nos coloca na difícil contingência de admitir a
insignificância da nossa opinião entre muitas outras, neutralizando-a como se nada
tivéssemos dito, ou ao contrário impô-la pela força a todos os que não vêem razão
nenhuma para aceitá-la.

Julgar em nome do futuro é julgar em nome do próprio umbigo.

Podemos, é claro, argumentar em favor da nossa escolha. Podemos alegar que esse
é o melhor dos futuros possíveis, que o mundo caminha para ele inelutavelmente, etc.
Mas isto só nos levará a uma irracionalidade maior ainda, pois, não podendo dizer
com razoável certeza quando esse futuro há de se realizar, nem se a Humanidade
chegará viva até lá, estaremos tomando como medida para o julgamento do presente
uma hipótese a realizar-se em prazo indeterminado – o que é, para dizer o mínimo,
pueril e irresponsável: juramos que “o futuro” será assim ou assado e ao mesmo
tempo confessamos não saber sequer quão futuro ele será. É o mesmo que dizer que
vai dar a cabra no jogo do bicho, com a ressalva de que não se sabe se é amanhã, no
ano que vem ou no “Dia de São Nunca”. Querer tomar uma imagem tão deslizante
como fundamento inabalável para julgar uma realidade concreta do presente é uma
atitude tão despropositada, que deveria bastar para desqualificar intelectualmente, no
ato, quem fosse pego nesse flagrante delito.

Eis por que não posso levar a sério, no mínimo que seja, a esquerda intelectual,
brasileira ou de qualquer outro lugar. Conforme já expliquei noutro escrito ( O Imbecil
Coletivo II), ser esquerdista é julgar o presente à luz do futuro; e é precisamente isto o
que permite a todo esquerdista mudar de critério e de discurso a cada nova etapa,
adiando indefinidamente para o futuro o julgamento da veracidade das suas
pretensões, sem precisar jamais – literalmente jamais – responder no presente pelas
conseqüências de seu passado.

O esquerdismo é uma completa perversão da inteligência, uma abolição do senso do


real e das conexões de causa e efeito. É o complexo de Peter Pan intelectual.

E o direitismo? Ora, é a esquerda que estatui a direita, apontando à execração pública


aqueles que, a seu ver, são os donos do presente e portanto os herdeiros das culpas
passadas. Estes reagem como podem. Em geral contaminam-se do espírito futurista
da esquerda, apenas divergindo dela na escolha do seu futuro predileto (a glória
nacional, o reino de Deus na Terra, a “paz perpétua”, etc.) e operando sobre o
presente a mesma inversão de critérios que os esquerdistas fazem a seu modo. Não
espanta que acabem imitando os esquerdistas até mesmo no vocabulário – deixando-
se infectar pelo atrativo mágico da palavra “revolução”, por exemplo – e sobretudo nas
técnicas (Hitler admirava e copiava os métodos de Stalin). Aí fica difícil distingui-los.
O único direitismo respeitável é aquele que se recusa a esse jogo, mas firma um pé na
realidade presente, outro na experiência do passado, discutindo com os esquerdistas
como um adulto severo que reconduz à razão um grupo de adolescentes turbulentos e
pretensiosos. Era assim que Raymond Aron discutia, e o que nele mais enfezava os
esquerdistas era que ele tinha o mau hábito de ter razão. Os confrontos dele com
Sartre foram um duelo entre a sabedoria e a vaidade. Sartre terminou mal, jogado ao
lixo pelos jovens que procurava pateticamente lisonjear. Perdeu aquilo que mais
desejava: o aplauso. Aron ganhou tudo o que queria: a prova de que conhecera a
verdade. Não entesoureis para vós tesouros na terra.
A sabedoria perene

por Wagner Carellli

República, seção “Palavra do Diretor”, fevereiro de 2000.

NB – A entrevista a que Wagner Carelli se refere está no número de fevereiro da


República. Uma transcrição integral será reproduzida nesta homepage dentro de
algumas semanas. – O. de C.

Olavo de Carvalho é o mais importante pensador brasileiro hoje, o mais — talvez o


único — original, o mais estimulante, o mais elaborado e ao mesmo tempo mais
acessível. Ler sua entrevista ao redator-chefe Reinaldo Azevedo e aos editores Fábio
Santos e Michel Laub, nas págs. 60-66, é desfrutar à larga o prazer que se extrai do
argumento do espírito, princípio ativo da cultura — o prazer supremo, segundo
Aristóteles. Não por acaso, Olavo é o filósofo brasileiro mais profundamente ligado ao
e versado no pensamento de Aristóteles, na interpretação do qual sua obra — dele,
Olavo — estabelece um ponto de mutação: o entendimento do pensar aristotélico tem
um antes e um depois em seu livro Uma Filosofia Aristotélica da Cultura — Introdução
à teoria dos quatro discursos.

Fosse Olavo um homem de liderar movimentos (“Não tenho nenhuma pretensão a


orientar a política”), de produzir ideologias (“Se o Brasil quiser um ideólogo, que
procure outro”), sua entrevista serviria de convocatória ao levante de um pensamento
particularmente não-conformista. Particularmente, porque nada do que Olavo propõe é
lateral a um determinado pensamento ou deflagra aí uma “problemática”, mas emerge
como a perfeita acepção do que é pensado e estabelece patamares confiáveis e
sucessivos para sua evolução; o que até então se tinha como a corrente central de um
certo pensar é que, sob tal extraordinária luz, passa a parecer de uma lateralidade
espinhosa.

Olavo é um professor, porém, e sua entrevista é uma cartilha. Todo intelectual, nos
muito freqüentes e desesperados momentos em que bate a tentação de seus inversos
— o dinheiro, a fama, outro poder que não o de pensar –, deveria levá-la sob o braço e
recorrer a sua sábia e irredutível orientação. Olavo abomina o dedo que seus pares
mantêm em riste contra tudo e todos ao redor, a assumida vitimização que o
intelectual exibe como medalha em que lhe vale o ingresso nos salões dos supostos e
constrangidos culpados. Ele diz que faz o que gosta, que ninguém é responsável por
suas opções e que, se quisesse ser rico, iria fazer outra coisa: é um pensador que não
se ressente de exclusão, de perda de posição, poder ou glória para o universo
fulgurante que criou a aliança do dinheiro e da tecnologia. Não se porta como um
exilado da prosperidade; nem, amuado, finge esquecer que seu argumento conforma o
mundo e precede a ação dos homens — seria irresponsabilidade e imodéstia, duas
atitudes antagônicas à clareza do espírito.

Olavo sabe do caráter divino, demiúrgico, do argumento do pensador; sabe que


enunciá-lo é dar a conhecer o parecer de Deus. No reconhecimento dessa condição
não vai o pecado da soberba — só aceitação, e humilde, até; pecado, aí, é negar-se o
dom atribuído, não se imaginar um instrumento da criação, julgar-se uma entidade
social fortuita e cosmicamente desconectada. Pecado é subestimar-se, descumprir
sua missão, fugir à tarefa de pensar em um país arredio, suscetível, temeroso ao
pensamento. E se assim deve ser, Olavo, a quem todos os equívocos são imputados,
é o intelectual sem pecado: generoso com a verdade, feroz com a redundância do erro
e luminoso, brilhante, no indicar os caminhos da correção e da grandeza. Em sua
hierarquia de valores, ele diz nesta memorável entrevista, o que vem primeiro é o
destino eterno do homem: é só o que interessa. Só podemos aspirar à eternidade, ele
quer dizer: nada há de menor, de mesquinho, de finito em nossas vidas — só o que
inventamos para escapar à perenidade de nossa essência. Somos eternos. “O resto é
conversa mole”, diz Olavo, na paradoxalmente dura e confortadora sabedoria de sua
extraordinária conversa. Se não formos por ele, não seremos sequer por nós.
Inteligentes e burros

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 3 de fevereiro de 2000

Há quatro décadas o chamado “debate nacional” consiste exclusivamente no confronto


de privatistas e estatistas. Quem os ouve tem a impressão de que todo o problema do
Brasil é escolher entre esses dois partidos. Isso mostra apenas incapacidade de
aprender com a experiência: privatismo e estatismo já se revezaram no poder mil
vezes, e nenhum deles jamais conseguiu qualquer resultado positivo exceto à custa de
oportunas concessões ao outro. Quando se apegam às respectivas ortodoxias, só
conseguem é meter os pés pelas mãos: entre a política de reserva de mercado que
atrasou em dez anos a informática brasileira e as privatizações desastradas do
governo FHC, o diabo até hoje hesita em dizer de qual gostou mais.

Quem é que não percebe que, dessas duas políticas, às vezes a razão está com uma,
às vezes com a outra, conforme as circunstâncias do momento, e que portanto não há
entre elas verdadeiro confronto ou debate, apenas uma simulação de hostilidade,
sempre pronta – felizmente – a fazer o contrário do que prega?

Sufocado pelo Estado no tempo do Império, o capitalismo brasileiro floresceu sob a


proteção do mesmo Estado, na década de 30. Depois, quem ajudou mais os
capitalistas do que o governo JK, eleito por uma aliança de estatistas históricos? E
quem ampliou mais a economia estatal do que o regime militar criado, em teoria, para
defender a iniciativa privada?

Todo mundo sabe que, uma vez no poder, o governante brasileiro não faz o que sua
teoria manda, mas o que as circunstâncias permitem – e, quando chega aonde quer, é
pelo caminho que não quis. Esse pragmatismo começou com d. João VI e pode
parecer escandaloso aos estrangeiros, mas tem a seu favor dois argumentos
definitivos: ele existe e funciona, enquanto as teorias ortodoxas só existem como
hipóteses que seus próprios defensores são os primeiros a abandonar quando trocam
a cátedra universitária por uma pasta ministerial.

Mas, se é assim, por que prosseguimos numa discussão que é puro teatro? O
espantoso não é que os brasileiros combinem pragmaticamente estatismo e
privatismo. Isso é apenas sabedoria instintiva. O espantoso é que continuem a
raciocinar, em teoria, como se aqueles dois elementos cuja mistura tem dado certo na
prática fossem coisas heterogêneas e imescláveis por natureza.

O que isso mostra é que temos mais inteligência prática do que teórica. Sabemos
resolver os problemas quando se apresentam, mas, quando nos metemos a explicar o
que fizemos ou o que vamos fazer, fazemos a maior meleca mental, apelamos a
estereótipos abstratos que não têm nada a ver com a realidade e, no fim, de tanto
discutir bobagem, acabamos por inibir e paralisar a própria inteligência prática que
vinha funcionando tão bem!

Essa disparidade está aliás imbricada na própria constituição psíquica da Nação


brasileira. Poucos povos do mundo podem competir com o nosso em agilidade, em
destreza para superar, pelo improviso, os obstáculos econômicos mais temíveis. Por
opressiva que se torne a situação, o povo, como ele próprio diz, sempre “se vira”.
Notem a sutileza da expressão: virar-se é mudar de caminho, é tentar, é experimentar
outra coisa, é esquecer as idéias fixas e deixar-se conduzir pelo senso de
oportunidade. Em comparação com isso, a nossa classe intelectual, com seu discurso
rígido e estereotípico, parece um bando de velhotas reumáticas, amedrontadas e
mesquinhas, imobilizadas em suas cadeiras de rodas e amaldiçoando em linguagem
pedante um mundo que não compreendem. Quem diria que pessoas sem instrução
pudessem ser tão inteligentes e pessoas instruídas pudessem ser tão burras?

Querem um exemplo? O florescimento da “economia informal”, que na década de 80


chegou a responder por metade do nosso PNB, foi um prodígio de inventividade
popular – talvez o mais pujante surto de puro capitalismo liberal que já se viu neste
mundo. Diante desse fenômeno, os teóricos liberais permanecem alheios e
indiferentes: só têm olhos para a Malásia, a Indonésia, a Cochinchina do capitalismo
utópico. E os esquerdistas, então! Já se viu coisa mais alienada do que oferecer uma
perspectiva socialista a um povo que acaba de descobrir que tem o gênio dos
negócios? Nossos intelectuais estão sempre com a cabeça no mundo da lua,
raciocinando por esquemas aprendidos por incapacidade de fazer abstrações a partir
da experiência real. E ainda querem que o povo leia seus livros, porca miséria!
Vocações e equívocos

Olavo de Carvalho

Bravo!, fevereiro de 2000

Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta a


cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra coisa que pareça interessante, já deve ter
ouvido mil vezes a pergunta: “Você faz isso por dinheiro ou por prazer?” Tão
infinitamente repetível é essa fórmula, que ela deve revelar algum traço profundo e
permanente do modo brasileiro de ver as coisas – um lugar-comum ou topos da nossa
retórica diária.

Ora, todo lugar-comum é um recorte que enfatiza certos aspectos da realidade para
momentaneamente dar a impressão de que os outros não existem. Logo, para
compreendê-lo é preciso perguntar, antes de tudo, o que é que ele omite.

O que está omitido na pergunta acima é a possibilidade de que alguém se dedique de


todo o coração a alguma coisa sem ser por necessidade econômica nem por prazer –
ou, pior ainda, que continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante
do mundo mesmo quando ela só dá prejuízo e dor de cabeça. O que está omitido
nessa pergunta — e no modo brasileiro de ver as coisas — é aquilo que se chama
vocação.

Vocação vem do verbo latino voco, vocare, que quer dizer “chamar”. Quem faz algo
por vocação sente que é chamado a isso pela voz de uma entidade superior — Deus,
a humanidade, a História, ou, como diria Viktor Frankl, o sentido da vida.

Considerações de lucro ou prazer ficam fora ou só entram como elementos


subordinados, que por si não determinam decisões nem fundamentam avaliações.

No mundo protestante, germânico, há toda uma cultura e uma mística da vocação, e a


busca da vocação autêntica é mesmo o tema do principal romance alemão, o Wilhelm
Meister de Goethe. Nos países católicos a importância religiosa da vocação,
consolidada na ética escolástica do “dever de estado” (por exemplo, o dever dos pais
de família, dos comerciantes, dos militares etc.), foi perdendo relevo depois do
Renascimento, cavando-se um abismo cada vez mais fundo entre o sacerdócio e as
atividades “mundanas”, esvaziadas de sentido na medida em que só o primeiro é
considerado vocacional em sentido eminente. No Brasil, para agravar as coisas, a
população foi constituída sobretudo de três espécies de pessoas: portugueses que
vinham na esperança de enriquecer e não conseguiam voltar, negros apanhados à
força e índios que não tinham nada a ver com a história e de repente se viam mal
integrados numa sociedade que não compreendiam. É fácil perceber daí o
imediatismo materialista dos primeiros (o qual, quando frustrado, se transforma em
inveja e azedume que tudo deprecia, e que com tanta facilidade se disfarça em
indignação moralista contra a corrupção e as “injustiças sociais”), e mais ainda a total
desorientação vocacional do segundo e do terceiro grupos, brutalmente amputados do
sentido da vida e por isto mesmo facilmente inclinados a sentir-se marginalizados
mesmo quando já não o são mais.

Um pouco da ética da vocação existe ainda entre nós graças à influência dos
imigrantes, especialmente alemães, árabes e judeus, mas existe de modo tácito,
implícito, jamais consagrado como valor consciente da nossa cultura e muito menos
valorizado pelas escolas e pelos governos.

A realização superior do homem na vocação é então substituída pela mera busca do


emprego, visto apenas como meio de subsistência e sem nenhuma importância
própria no que diz respeito ao conteúdo. A adaptação conformista a um emprego
medíocre e sem futuro é considerado o máximo do realismo, a perfeição da
maturidade humana. Tudo o mais é depreciado (e por isto mesmo hipervalorizado e
ansiosamente desejado) como “diversão”. Assim, entre o trabalho forçado e a diversão
obsessiva (da qual o Carnaval é a amostra mais significativa), acumula-se na alma do
brasileiro a inveja e uma surda revolta contra todos os que levem uma vida grande,
brilhante e significativa, sobre os quais, mesmo quando são pobres, paira a suspeita
de serem usurpadores e ladrões, pelo menos ladrões da sorte. Daí a famosa
observação de Tom Jobim: “No Brasil, o sucesso é um insulto pessoal.” Sim, nesse
meio não se compreende outra lealdade senão o companheirismo dos fracassados,
em torno de uma mesa de bar, despejando cerveja na goela e maledicência no
mundo. Este é um país de gente que está no caminho errado, fazendo o que não quer,
buscando alívio em entrenenimentos pueris e desprezíveis, quando não francamente
deprimentes.

Nossa ciência social, atada com cabresto maxista e cega às realidades psicológicas
mais óbvias da nossa vida diária, jamais se deu conta da imensa tragédia vocacional
brasileira que condena milhões de pessoas a viver presas como animaizinhos, entre a
dor inevitável e o prazer impossível.

É que a explosiva acumulação de paixões infames, inevitável nessa situação, é o


caldo de cultura ideal para a germinação dos ressentimentos políticos. E uma ciência
social rebaixada a instrumento auxiliar da demagogia não há de querer lançar luz
justamente sobre aquela treva confusa da qual a demagogia se alimenta.
A moral de Frei Betto

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 17 de fevereiro de 2000

“Num mundo em que o requinte dos objetos merece veneração muito superior ao
modo como são tratados milhões de homens e mulheres, em que o valor do dinheiro
se sobrepõe ao de vidas humanas e as guerras funcionam como motor de
prosperidade, é hora de nos perguntarmos como é possível corpos tão perfumados ter
mentalidades e práticas tão hediondas. E por que idéias tão nobres e gestos tão belos
floresceram nos corpos assassinados de Jesus, Gandhi, Luther King, Che Guevara e
Chico Mendes.” (Frei Betto.)

Esse parágrafo, publicado na Folha de S. Paulo na semana passada pelo conhecido


ex-frade, é daqueles que colocam o leitor numa situação bastante penosa. A primeira
dificuldade que aí se apresenta é a de explicar como os belos gestos dos mártires
referidos poderiam ter florescido “nos seus corpos assassinados”, em vez de fazê-lo
em vida dos personagens. Afinal, estar vivo é o pressuposto de poder fazer alguma
coisa, boa ou má.

Em segundo lugar, o rol das lindezas morais citadas é ele próprio imoral. Pois,
protestando contra a inversão hierárquica que coloca os bens materiais acima dos
seres humanos, ao mesmo tempo inverte os valores ainda mais radicalmente, ao
nivelar como “gestos nobres” de igual estatura o ato de dar a própria vida e o de tirar a
vida alheia em massa. Se Jesus Cristo disse que a perfeição do amor é morrer pelas
criaturas amadas, o ex-ministro da Fazenda de Cuba, dr. Ernesto Guevara, não deixou
à posteridade outro ensinamento moral senão aquele que ele próprio assim resumiu
com concisão quase bíblica:

“O ódio é um elemento da luta – ódio impiedoso ao inimigo, ódio que ergue o


revolucionário acima das limitações naturais da espécie humana e faz dele uma
eficiente, calculista e fria máquina de matar.”

O valor dos homens se mede não somente por seus atos, mas também por seus
ideais. Aquele que num momento de exaltação se deixa levar pelo ódio em vez de
reprimi-lo por esforço consciente é um pobre-diabo, vítima de paixões naturais
incontroláveis. Mas aquele cuja ambição espiritual é cultivar o ódio homicida como
disciplina interior, sacrificando a própria consciência moral no altar da frieza inumana e
vangloriando-se de por esse meio elevar-se “acima das limitações naturais da
espécie”, é caracteristicamente aquilo que em mística se chama um “asceta do mal”,
um aspirante a demônio, alguém que escolheu livremente descer abaixo dos animais e
tornar-se uma personificação viva do infranatural. No inteiro repertório das
possibilidades humanas não há outra mais abjeta e desprezível.

Que, transformado nisso, o iniciado em seguida proclame a necessidade de “no perder


la ternura jamás”, é apenas a inevitável e clássica compensação melosa da perda dos
sentimentos naturais. A lágrima de ternura escorrendo no canto do olho mecânico de
uma “máquina de matar” é, com efeito, o supra-sumo do sentimentalismo grotesco,
caricatura satânica da piedade humana.

Que a palavra “satânico”, aí, não se compreenda como insulto ou força de expressão.
É termo técnico, para designar precisamente o de que se trata. Qualquer estudioso de
místicas e religiões comparadas sabe que as práticas de dessensibilização moral são
o componente mais típico das chamadas “iniciações satânicas”. Enquanto o noviço
cristão ou budista aprende a arcar primeiro com o peso do próprio mal, depois com o
dos pecados alheios e por fim com o mal do mundo, o asceta satânico tanto mais se
exalta no orgulho de uma sobre-humanidade ilusória quanto mais se torna incapaz de
sentir o mal que faz. Nos estágios mais avançados dessa jornada em direção à
inconsciência, o treinamento de máquinas de matar se torna, aos olhos do aprendiz,
moralmente indistinguível do ensinamento evangélico, igualando Che Guevara e Jesus
Cristo.

Aí o parágrafo da Folha coloca para o leitor um problema tão incômodo quanto o de


saber como os homens ilustres puderam realizar gestos nobres depois de mortos: é o
de adivinhar se o ex-frade escreveu essas coisas às tontas e só porque as leu em
algum lugar, ou se ele as tirou de um “saber de experiência feito”, isto é, se no seu
aprendizado de revolucionário ele chegou a desenvolver na sua pessoa aquelas
virtudes guevarinas que colocam o cidadão acima da espécie humana e abaixo da
capacidade de fazer distinções morais elementares. Quem se interessa por ele que
investigue isso. Eu não quero nem saber.
Kant e a mediação entre espaço e tempo

Apostila do Seminário de Filosofia

Anotação para desenvolvimento oral em classe

(Continuação do tema “Ser e Conhecer”)

17 de fevereiro de 2000

Este assunto será tema da próxima aula do Seminário de Filosofia em São Paulo e no
Rio (fevereiro de 2000). Divulgo aqui este rascunho para que os alunos possam
estudá-lo com antecedência. — O. de C.

Kant diz que o espaço não pode ser percebido empiricamente porque o simples ato de
situarmos alguma coisa “fora” de nós já pressupõe a representação do espaço. O
espaço não é portanto uma propriedade das coisas, mas uma forma sobreposta às
coisas pela minha intuição delas.

Mas aí o espaço está identificado com o “fora”, com a exterioridade, e não posso, só
com base na pura representação da exterioridade, dizer que algo está fora de mim:
esta afirmação é claramente a de uma relação entre o fora e o dentro, e pressupõe
portanto a representação de ambos. Só que o “dentro”, para Kant, é o puramente
temporal e inespacial: o espaço é a forma a priori da exterioridade como o tempo é a
da interioridade. Ora, se só possuo uma representação espacial do fora, enquanto do
dentro tenho somente uma temporal, não posso, rigorosamente, dizer que nada em
particular está fora de mim, porque a existência espacial em geral já consiste em estar
fora. Dizer que algo está fora é, então, apenas dizer que não tem uma existência
puramente temporal, mas que além de existir no tempo tem alguma outra
determinação especificamente diferente. Em que consiste essa determinação? Parece
impossível defini-la exceto negativamente, isto é, dizendo que na coisa percebida fora
há um algo que não é tempo.

A pura existência temporal, inespacial, — que Kant identifica com a interioridade —


apresenta similar dificuldade. Se tentamos dizer em que consiste, temos de nos
contentar com excluir o espaço, e aí se torna impossível distinguir entre a
inespacialidade e a simples inexistência.

Essas dificuldades provêm da identificação entre “espaço” e “fora”, entre “tempo” e


“dentro”. Sem admitirmos um “espaço interior” e um “tempo exterior”, não temos como
dizer que alguma coisa está fora de nós, porque isto resulta em excluí-la do tempo,
nem dentro, porque resulta em excluí-la do espaço, suprimindo em ambos os casos
sua existência empírica, que segundo Kant consiste precisamente em estar no tempo
e/ou no espaço.

Sem a mediação entre espaço e tempo, nenhuma percepção é possível. Mais ainda,
essa mediação não pode ser puramente racional, mas tem de estar imbricada na
estrutura mesma da percepção, porque caso contrário o ato de situar algo dentro ou
fora seria a conclusão de um raciocínio e não um ato de percepção, que é
precisamente o que Kant diz que ele é. No entanto, o conceito dessa mediação é
incompatível com a redução kantiana do espaço e do tempo a formas a priori da
sensibilidade projetadas sobre as coisas; porque a exclusão mútua do dentro e do fora
constitui, para Kant, a estrutura mesma do ato de percepção: se houvesse um território
intermediário entre tempo e espaço, esse território seria ele próprio a suprema forma a
priori da sensibilidade, abrangendo e distinguindo espaço e tempo. Mas não há em
Kant menção a esse terceiro fator: além do espaço e do tempo, há só as categorias da
razão.
Ora, esse fator mediador é absolutamente necessário, e a partir do momento em que o
admitimos já não podemos aceitar a doutrina de que espaço e tempo são formas
projetadas, pela simples razão de que o “dentro” e o “fora”, portanto o espaço e o
tempo, perderam seu caráter absoluto de categorias e, tornando-se relativos a um
terceiro fator, se contaminaram perigosamente de um componente empírico.

Ou é impossível distinguir dentro e fora, ou essa distinção tem algo de empírico e


portanto espaço e tempo não são formas a priori.

O terceiro fator, que nos tira desse imbroglio, é, este sim, uma forma a priori da
sensibilidade, e se chama existência (subentendendo-se: “existência versus
inexistência”). Só se pode perceber como existente o que tem existência, e ter
existência é estar inseparavelmente — embora sob aspectos distintos — no espaço e
no tempo. Do mesmo modo, o inexistente é percebido como ausente do espaço e do
tempo, e esta ausência ajuda a compor o quadro onde estão presentes as coisas
presentes. O que quero dizer com “sob aspectos distintos” é que aquilo que é
inespacial em essência e no seu puro conceito tem de se tornar espacial
existencialmente e secundum quid para poder ser percebido, como por exemplo a
tristeza ou a alegria que “em si” são pura temporalidade inespacial mas só podem ser
vivenciadas em algum lugar do espaço (interno e externo), pela simples razão de que
não vivenciamos empiricamente conceitos e essências puras, mas coisas e estados
que existem no espaço e no tempo. Mutatis mutandis, o intemporal “em si” tem de se
temporalizar existencialmente para existir ante a percepção.

Mas o mediador, para operar essas chaves da percepção, tem de ser supra-espacial e
supratemporal. A forma a priori que denomino existência tem portanto dentro de si o
quadro inteiro das distinções: temporal-inespacial, temporal-espacial, espacial-
atemporal e espacial-temporal. Se não o tivesse, não poderia projetá-las sobre os
dados da experiência. Mas, para que o tenha, é preciso que ela própria não dependa
dessas distinções, e sim se estruture internamente segundo uma distinção muito mais
abrangente, que é a do real e do irreal, o primeiro constituindo-se da dupla de polos
temporal-espacial (isto é, a essência temporal que se espacializa existencialmente) e
espacial-temporal (a essência espacial que se temporaliza existencialmente) e o
segundo da dupla espacial-atemporal e temporal-inespacial, ambos constituídos de
essências puras não existencializáveis, ou meras possibilidades. Por isto defino a
metafísica como ciência da possibilidade (e impossibilidade) universal, isto é, como
quadro delimitador não só do conhecimento mas do real mesmo. (1) Neste sentido, a
estrutura da percepção já tem uma estrutura dedicidamente metafísica.

Kant admitiu o par existência-inexistência apenas como categoria da razão, mas


obviamente ele está embutido já na estrutura mesma da percepção, na medida em
que todo perceber tem uma natureza escalar e contrastante e consiste em notar não
só as presenças, mas as ausências que lhes servem de pano-de-fundo. Os próprios
juízos de existência seriam impossíveis se não houvesse, com anterioridade lógica se
não cronológica, a percepção de existência, a qual por sua vez não pode ser
concebida senão como oposto complementar da percepção de inexistência. O ver
alguma coisa não pode ser concebido senão como não ver alguma outra coisa — por
exemplo, o oco da sua ausência — no lugar dela.

Tempo e espaço são formas da existência, bem como — negativamente — da


inexistência. Quando, através de sua manifestação espacial, percebo algo que em si
não é espacial, como por exemplo uma melodia, o que estou percebendo é uma
existência parcial e deficiente: a melodia não existe como substância no sentido físico
do termo, mas como efeito da ação de determinados corpos — os instrumentos de
música, por exemplo, ou os órgãos da fonação humana. Percebo, no mesmo instante,
que essa melodia tem uma estrutura matemática, a qual por sua vez é independente
do tempo e do espaço, e que neste sentido tem uma existência ainda mais deficiente,
como mera potência que é. Se eu não pudesse perceber essas formas deficientes,
também não poderia perceber as eficientes ou plenas que lhes fazem contraste e que
são perceptíveis justamente por esse contraste.

Existência-inexistência é, pois, forma a priori da sensibilidade e não somente da razão.


Já o tempo e o espaço não podem ser formas a priori, mas apenas o resultado da
diversificação da experiência quando esta é enfocada sob a categoria existência-
inexistência, donde resulta a percepção diferenciada do espacial-temporal, do
espacial-intemporal, etc.

De outro lado, existência-inexistência não poderia ser uma forma a priori da


sensibilidade se não fosse também uma forma a priori dos dados sensíveis em si
mesmos, de vez que o mais simples ato de percepção depende de certas qualidades
que têm de se apresentar nos objetos mesmos e sem as quais não poderíamos
percebê-los. Existência-inexistência é ao mesmo tempo categoria gnoseológica e
ontológica: é a forma da percepção dos objetos no espaço e no tempo e
inseparavelmente a forma da presença desses objetos no espaço e no tempo.

Nota

(1) V. a apostila Breve Tratado de Metafísica Dogmática (aulas de 1991) logo mais
nesta homepage.

Lição de teologia
Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 2 de março de 2000

Um amigo meu, cristão devoto e estudioso, preparou uma caprichada tradução dos
Comentários de Ricardo de S. Vítor ao Apocalipse . Teólogos e filósofos, Ricardo e
seu confrade Hugo, ambos da abadia de S. Vítor na França, escocês o primeiro, saxão
o segundo, são daqueles pensadores para os quais o qualificativo de “gênios” é
micharia. Não há gênio pessoal que explique os lampejos de pura sabedoria celeste.
Os dois escreveram pouco. Mas esse pouco está entre as jóias supremas do tesouro
espiritual da Igreja e da Humanidade. A tradução foi enviada a uma editora católica e
daí repassada a um teólogo para apreciação. Resposta do teólogo:

“Esta tradução tem a sua utilidade e importância como livro documentário para fins de
pesquisa por acadêmicos… Mas, como livro na linha pastoral para o povo simples de
hoje, infelizmente perdeu o seu valor… É produto da mentalidade do século 12…”

E por aí vai, inclusive recomendando, em lugar do perempto Ricado de S. Vítor, a obra


Como Ler o Apocalipse: Resistir e Denunciar , escrita por um sr. José Bortolini. Não li
essa obra, mas, pelo título, atualidade não lhe falta, já que a palavra “denunciar” faz
vibrar a corda mais sensível dos corações midiáticos, apelando àquilo que a militância
do escândalo considera o primeiro e mais alto dever moral do homem.

Esse parágrafo é cheio de ensinamentos, dos quais, até onde alcançam as minhas
luzes, pude apreender os seguintes:

1) A teologia católica, em vez de se desenvolver por acumulação, somando as


descobertas de hoje às dos séculos passados como o fazem todas as demais
teologias – muçulmana, judaica, vedantina ou budista –, evolui por substituição ,
colocando o moderno no lugar do antigo, exatamente como se faz na moda
indumentária ou nos catálogos das gravadoras de rock .

2) O catolicismo também se distingue das demais religiões porque, enquanto estas


dão maior credibilidade às interpretações mais próximas da fonte originária da
revelação, os católicos, inspirados pelo espírito do progresso, tanto mais se
aprofundam na compreensão da mensagem de Jesus Cristo quanto mais se afastam
d’Ele no tempo e mais se esquecem do que os santos disseram d’Ele no século 12,
isto para não falar do 11, do 10.º e de outros mais antigos ainda.

3) Por força talvez do avanço tecnológico, o habitante das grandes cidades de hoje
tornou-se mais “simples” do que os lavradores, boiadeiros, artesãos e fiandeiras do
século 12, todos eles sofisticados e eruditíssimos leitores de Ricardo de S. Vítor.

4) As visões espirituais dos sábios, dos santos e profetas refletem menos a luz da
eternidade do que as limitações mentais da sua época histórica, sendo tão datáveis e
perecíveis quanto as cotações da bolsa ou os pareceres dos teólogos de aluguel. Por
força desse implacável desgaste entrópico, as palavras dos próprios apóstolos,
remotas de 12 séculos em relação às de Ricardo de S. Vítor, empalidecem ainda mais
do que estas ante a majestosa atualidade evangélica do sr. Bortolini.

Não é maravilhoso que a exegese católica da Bíblia possa ser tão inerme ante a ação
desgastante do tempo e, não obstante, estar sempre subindo para aqueles patamares
cada vez mais altos de compreensão que, até o momento, culminam na pessoa do sr.
Bortolini? Ó santíssima evolução!, proclamaria, em êxtase, o pe. Teilhard. Joãozinho e
Maria, atrasados pagãozinhos, precisavam deixar sinais no chão para se orientar na
floresta. Os católicos foram abençoados com o dom de tanto mais saber onde estão
quanto mais se esquecem do caminho percorrido. Não me perguntem como isso é
possível. É um novo mistério da fé, substituído, pela moderna teologia, àqueles
admitidos nos tempos bárbaros de Ricardo de S. Vítor. Convém denominá-lo, com a
devida unção, “mistério da historicidade”, fazendo a festa de sua comemoração
coincidir, no calendário litúrgico, com o natalício de S. Antonio Gramsci, padroeiro
desse gênero de coisas.

O que não é mistério de maneira alguma é que uma Igreja que se rebaixa a esse
ponto ante o espírito mundano, chegando a desprezar os ensinamentos de seus
mestres porque não estão atualizados com a última versão dos Pokemons , corre o
risco de terminar como aquela prostituta velha do Livro de Ezequiel , que, já não
encontrando clientes que lhe paguem, tem de lhes dar dinheiro para que a possuam.
Consciência crítica e inconsciência geral

Olavo de Carvalho

20 de março de 2000

Rascunho para uma conferência

Convidado a participar do Seminário Internacional “Novo Mundo nos Trópicos”,


realizado no Recife de 21 a 24 de março de 2000 em homenagem ao centenário de
nascimento de Gilberto Freyre, comecei a tomar umas notas que, prolongando-se
muito além do que poderia caber nos 20 minutos ali reservados a cada expositor,
acabaram sendo abandonadas e cedendo lugar a comunicação completamente
diversa, reproduzida em outro lugar desta homepage. Como essas notas, no entanto,
não fossem totalmente destituídas de interesse, julguei que seria útil colocá-las
também à disposição dos visitantes. — O. de C.

Certas condutas típicas de um povo são tão repetitivas que acabam por receber um
nome e uma explicação padronizados. Conduta, nome e explicação formam assim a
unidade de uma auto-imagem que, ao tornar-se um lugar-comum, um topos, reforça os
três ao mesmo tempo: a conduta é agora um ato consciente, a reincidência voluntária
num modo de agir que tem nome e se conhece a si mesmo. Independentemente de
receberem uma valoração positiva ou negativa, o understatement inglês, a
meticulosidade germânica, o teatralismo italiano, a ranhetice francesa, o praticismo
americano, o sentimentalismo russo, a modéstia japonesa, a melancolia judaica são
reconhecidos num relance, tanto pelo observador quanto pelo agente mesmo, de
modo que o primeiro saiba o que fazer e o segundo compreenda o que está
acontecendo: o esquema de conduta é ao mesmo tempo um padrão de
reconhecimento. A cultura superior, seja sob a forma de expressão literária ou de
ciência social, dá a essa síntese a consagração que faz dela um emblema nacional. Aí
todo mundo sente que sabe o que está fazendo, sabe do que está falando e sabe, em
suma, onde está. Os lugares-comuns servem exatamente para isso e se chamam
lugares precisamente por isso. Eles constituem, na selva da linguagem, as clareiras
onde as pessoas se reúnem e conversam, pois con/versar não é outra coisa senão
versar sobre as mesmas coisas, e des/conversa é quando um sujeito, fingindo falar da
mesma coisa, fala de outra, frustrando a comunicação. Sua conduta, aí, já não pode
ser explicada pelo padrão convencional: requer a investigação de motivações pessoais
ocultas: ele parece estar na clareira mas já fugiu para o meio do mato. Quando a
transparência da conversa é nublada pela obscuridade da desconversa, a
tranquilidade cede lugar a conjeturas inquietantes. O elo da solidariedade social foi
rompido, há alguém conspirando na sombra. Basta esta observação para notarmos
até que ponto esses lugares-comuns, essas sínteses autoconscientes de conduta,
nome e interpretação, constituem a base da convivência humana.

No Brasil, porém, tem acontecido um fenômeno muito peculiar, que assinala a


anormalidade e a ineficácia da nossa conversação nacional.

Algumas de nossas condutas mais típicas e repetíveis têm uma conotação


declaradamente negativa, de modo que se torna mais fácil acusá-las nos outros do
que reconhecê-las em nós mesmos. Quando dizemos que nosso povo é leviano, fútil,
inconseqüente, irresponsável, só podemos usar essas expressões para explicar a
conduta alheia, não a nossa, pois confessar-se leviano ou fútil não é explicar a própria
conduta e sim problematizá-la. Quando digo que fulano ou beltrano é fútil e
irresponsável, cheguei a uma conclusão e, de certo modo, livro-me do sujeito. Se digo
que eu próprio sou essas coisas, não posso me livrar de mim mesmo e dar o caso por
encerrado. Tenho de fazer alguma coisa: corrigir-me, encontrar alguma justificativa
que me tranquilize ou, no mínimo, tentar persuadir-me, se puder, de que o melhor é
relax and enjoy. Não cheguei portanto a uma conclusão, mas ao começo de um
problema.

Por isto, quando com ou sem justiça usamos essas expressões pejorativas para
explicar as condutas de nossos conterrâneos, rompemos a unidade dos lugares-
comuns: criamos situações nas quais só podemos sentir que sabemos o que está
acontecendo se ao mesmo tempo supomos que aquele de quem falamos não sabe o
que está fazendo. Ou então devemos admitir que é um cínico, decidido a relax and
enjoy às nossas custas.

Mas, ao mesmo tempo, essas expressões constituem efetivamente lugares-comuns,


pois, sempre que usadas, são de inteligibilidade imediata para quem ouve. Só que têm
esta peculiaridade: servem apenas para que as pessoas se comuniquem sobre os
ausentes, não sobre os presentes. Uma assembléia na qual todos admitissem em voz
alta que são levianos ou trapaceiros se dissolveria imediatamente numa anarquia
geral, numa troca de socos ou numa efusão de arrependimento coletivo.

Esses lugares-comuns têm portanto a característica peculiar de que só podem reunir


uma parte da coletividade à custa de excluir outra. Nós, os responsáveis,
conversamos sobre os levianos. Nós, os sinceros e honestos, conversamos sobre os
fingidos e cínicos. Se eles entrassem na sala, mudaríamos de assunto na hora ou
teríamos de armar uma cena deprimente.

Para facilitar, chamarei a esse tipo de expressões lugares-comuns ambíguos, porque


são como a “árvore de dourados pomos” do soneto célebre, que “só está onde nós a
pomos e nunca a pomos onde nós estamos”. Ao contrário dos lugares-comuns
“normais”, que servem ao mesmo tempo para o reconhecimento mútuo e para o auto-
reconhecimento, esses só servem à primeira finalidade se excluem a segunda. Só
permitem que saibamos do que estamos falando se, decididamente, não estamos
falando de nós mesmos. Só criam uma ponte de comunicação entre o falante e o
ouvinte na medida em que erguem um muro entre consciência e autoconsciência. Só
lançam uma luz sobre o objeto da conversa quando projetam uma sombra sobre o
sujeito que fala. Não são instrumentos para a intercomunicação, mas para a
comunicação apenas. São instrumentos para um homem falar sem ser falado. São
instrumentos para falar mal.

Ora, em qualquer sociedade é sempre normal, necessário e não raro justo falar mal de
alguém.

O que não é normal nem provavelmente justo é que o vocabulário com que
conversamos sobre nosso próprio povo se constitua predominantemente de
instrumentos para falar mal. Pois aí esse povo nunca pode tomar consciência de si
como um todo. Cada cidadão ou grupo só pode falar “do povo” quando se exclui dele.
Ninguém pode reconhecer o todo na parte, o coletivo no individual, o genérico no
íntimo. A unidade analógica de macrocosmo e microcosmo está rompida. E como essa
unidade é, na mente humana, o padrão mesmo do nexo entre autoconsciência e
cosmovisão, o resultado é que cada um só pode sentir que conhece a sociedade onde
está se, no mesmo instante, se desconhece a si mesmo. E, se é verdade que aquele
que se desconhece a si mesmo perde a autoridade para julgar o próximo, um
vocabulário no qual cada um só pode julgar o próximo desconhecendo-se a si mesmo
é o vocabulário da inconsciência geral que se traduz em geral intercondenação.

Tal é, no momento, o vocabulário da conversação brasileira. Basta ler os jornais, ouvir


os noticiários de TV ou conversar com os vizinhos para ouvir diariamente os termos
“impunidade”, “corrupção”, “falta de ética”, “sem-vergonhice” usados como descrições
apropriadas dos caracteres mais salientes da sociedade brasileira, ao mesmo tempo
que, sob a pressão das classes falantes e de campanhas internacionais, se torna
elegante e obrigatório negar ou desmoralizar como mentiras ideológicas as mais
óbvias qualidades humanas dessa sociedade, como a boa convivência entre as raças,
a cordialidade, a tolerância religiosa, o caráter ordeiro e pacífico, etc.

Ora, se a maior parte das palavras de que disponho para falar sobre o meu povo
designa coisas francamente ruins, não tenho mais um vocabulário que me permita
falar dele e de mim ao mesmo tempo. Se falo dele, não falo de mim; se falo de mim,
não tenho meios de me compreender como caso particular de uma regra geral. Mas
apreender o geral no particular e o particular no geral é simplesmente a operação
essencial da inteligência humana. Bloquear essa intelecção a pretexto de sanear o
panorama político é destruir a alma de uma nação pelo prazer de castigar alguns de
seus filhos piores. É atear fogo ao tribunal para punir os réus.

Arrebatada numa torrente de maledicência, nossa opinião pública se vangloria de


estar subindo na escala da “consciência crítica” no instante mesmo em que solapa as
bases de qualquer consciência possível.

Um exemplo de lugar-comum ambíguo consagrado não só na mídia como numa


enxurrada de trabalhos acadêmicos é o famoso “autoritarismo” da sociedade
brasileira. Com isto, não se pretende dizer que o povo brasileiro seja mandão, mas,
precisamente ao contrário, que é um povo que tem dificuldade de tomar suas próprias
decisões e de agir sem o beneplácito de uma autoridade. O número dos indivíduos
autoritários seria na verdade bem pequeno. Eles constituem uma elite que faz e
acontece, enquanto a maioria só é autoritária às avessas, isto é, na sua necessidade
de obedecer. O padrão autoritário da elite, admite-se no entanto, se repete em escala
menor entre o povinho, quando por exemplo um guarda de trânsito ou um caixa de
banco age com autoridade ministerial ou mesmo legislativa, improvisando normas que
se sobrepoem à lei escrita e impondo-as, sem contestação, ao cidadão atônito que,
desconhecendo as leis, tem de admitir como lei a autoridade de ocasião.

Esse fenômeno já foi descrito milhares de vezes na literatura e na ciência social. Ele
constitui um topos, mas um topos é uma síntese de conduta, nome e interpretação. A
conduta pode surgir espontaneamente dentro da prática diária, mas o nome e a
interpretação são criações da classe letrada, da reflexão dos intelectuais. Esse nome e
essa interpretação, por sua vez, refluem sobre a conduta, modelando-a, canalizando-a
e delimitando as possibilidades de corrigi-la, reforçá-la ou modificá-la quando isto
entrar em linha de consideração.

Nesse topos em particular, a primeira coisa que me surpreende é o nome, que


subentende uma interpretação rebuscada e indireta. Autoritarismo é mandar. A
compulsão de obedecer denomina-se subserviência. Quando um sociólogo denomina
“autoritarismo” à conduta do brasileiro que não age sem as bênçãos da autoridade, ele
não está nomeando a conduta, mas algo que supõe ser a causa dela. A denominação,
aí, subentende que o brasileiro não é subserviente porque é, mas porque o obrigam a
ser. E quem o obriga é a elite autoritária. Pode ser até que as coisas sejam realmente
assim, mas saber se são ou não são depende de exame, e para quê haveremos de
examinar as causas profundas de um fenômeno se o seu próprio nome já nos fornece
uma explicação? Para percebermos o quanto esse procedimento denominativo é
esquisito e anormal, imaginem como ficaria, por exemplo, o sentimentalismo russo se
em vez de ser designado por um nome descritivo já fosse desde logo nomeado pela
designação de suas supostas causas. Teríamos de saber o que foi que mexeu com os
sentimentos russos e os tornou assim. Eles já não seriam um povo sentimental, mas
um povo submetido a situações comoventes. Mas como qualquer um, submetido a
situações comoventes, se inclina a tornar-se sentimental, estaríamos com isso dizendo
que o povo russo não é mais nem menos sentimental do que qualquer outro, mas
apenas que alguém o comoveu. Com isso, a especificidade da sua conduta estaria
dissolvida numa conjeturação de causas, e aí não distinguiríamos mais um russo de
um japonês.

Esse modo de denominar as coisas é muito rebuscado e esquisito, mesmo porque se


a conduta é um dado de experiência acessível a qualquer observador, a conjeturação
das causas é um problema científico sujeito a controvérsias sem fim. Denominar à
subserviência brasileira “autoritarismo” reflete menos o dado imediato observável do
que uma seletividade ou um viés na mente do observador que lhe dá nome. Ora, este
observador consiste precisamente nas classes letradas e, dentro delas,
especificamente dos cientistas sociais. A denominação escolhida não nos garante a
veracidade da causa apontada, mas nos garante que a classe que lhe deu nome tende
a enxergar o fenômeno desde um ponto de vista especial, ignorando os demais pontos
de vista possíveis. A subserviência brasileira pode ser ou não ser o reflexo de um
autoritarismo, mas as classes letradas estão preocupadas acima de tudo com o
problema da autoridade e enxergam tudo através dele.

Levadas e de certo modo hipnotizadas pela denominação introjetada sobre o


fenômeno, suas investigações estão assim fadadas a tomar sempre a mesma direção:
sublinhar cada vez mais o autoritarismo das classes dominantes, excluindo a priori
outras causas talvez mais determinantes.

Como, por outro lado, a classe acadêmica e universitária está impregnada de uma
mitologia progressista na qual a história caminha para a liberdade crescente, e como
não desiste de crer nisso nem mesmo diante do fato brutal do totalitarismo moderno,
então é fatal que tudo aquilo que lhe cheire a autoridade coatora deva lhe parecer um
resíduo de um passado autoritário, condenado a dissipar-se ao longo da evolução
democrática. Deste modo, a subserviência de um cidadão ao guardinha é explicada
como “resíduo da mentalidade colonial”, como eco do temor do escravo ante o chicote
do sinhozinho, mesmo quando o guardinha é negro e o cidadão que se encolhe é um
descendente de altivos poloneses. O ridículo imensurável desta explicação é
obscurecido pela sua comodidade e pelo fato de ser repetida em livros assinados por
autoridades acadêmicas diante das quais os estudantes se encolhem como o cidadão
ante o guardinha.

Se perguntamos por que a classe acadêmica tende a repetir essa pseudo-explicação


ao ponto de fazer dela um cacoete, a resposta deve ser procurada na constituição
mesma desta classe. Composta essencialmente de jovens de classe média e alta
militantes de movimentos políticos de esquerda, repetidamente frustrados em suas
ambições pelo governo Vargas e depois pelo regime militar, a classe dos estudantes
de ciências sociais comporta um número imenso de pessoas que se dedicaram ao
estudo teórico da sociedade e da política por terem sido privadas dos meios de ação.
A ciência social é aí um sucedâneo e um complemento da militância, e a situação
existencial dessas pessoas se define essencialmente por seu confronto com a
autoridade e pela frustração de seu desejo de mandar. Quem se sente sufocado por
uma autoridade são os estudantes de ciências sociais, não o povo brasileiro em geral
sobre o qual eles projetam ingenuamente sua auto-interpretação.

Mas, para impugnar uma teoria, não basta desmascará-la como projeção ideológica
de interesses e preconceitos de classe, porque às vezes as ideologias também dizem
a verdade. É preciso mostrar os fatos que essa teoria esconde e que, se levados em
consideração, exigiriam substituí-la por uma teoria melhor.

Os fatos que a teoria do “resíduo colonial autoritário” omite são de duas ordens: (1) um
autoritarismo, mesmo real, não produz por si a subserviência, mas pode produzir
exatamente o contrário: a rebelião e o espírito de independência; (2) uma coisa
notável nas origens da sociedade brasileira é a ausência completa de um corpo de
normas e valores concensuais legitimados pela religião e entretecidos na vida
cotidiana, servindo de padrões de julgamento eficientes e automatizados, seja nas
situações da vida pública, seja da vida privada. Encontramos esse sistema de normas
vigente com toda a força das certezas inabaláveis, já desde os primeiros passos da
república norte-americana. A ideologia da independência e dos Fouding Fathers, com
uma imensa retaguarda ética e religiosa, é para os americanos um ponto de referência
inabalável nas discussões públicas e nos julgamentos das controvérsias privadas. Não
apenas esse conjunto constituiu desde o início uma idelologia coerente e explícita,
mas nela se expressavam tanto os anseios da nação quanto os sonhos e ambições
dos cidadãos particulares. Tão forte foi aí a solidariedade do micro e do macro que os
pais fundadores e seus sucessores no governo da república americana puderam ser
cultuados, sem falsificações notáveis, como modelos das qualidades humanas que os
cidadãos aspiravam realizar.

Nada disso existiu nem existe no Brasil. Desde o início, nossa independência se
destaca pela sua absoluta falta de cosmovisão própria, obrigada a costurar às pressas
pedaços de discursos franceses e americanos absolutamente deslocados da situação
social real e com freqüência incoerentes entre si. Os valores afirmados em público
serviam só para ser afirmados em público ou, pior ainda, para criar um arremedo de
justificação ante os observadores estrangeiros. Nunca foram convicções profundas
que pudessem orientar a construção de uma nova sociedade e muito menos penetrar
nas almas dos cidadãos e tornar-se a expressão de seus sonhos íntimos. Os próprios
governantes, a um tempo, maçons e fiéis de uma igreja que excomungava a
maçonaria, não podiam sequer sonhar em ter um corpo de valores coerente, mas
tiveram de exercitar desde o início a duplicidade entre palavra e ação, a duplicidade de
motivos que reduz toda a moral pública a um conjunto de pretextos nos quais no fundo
ninguém acredita.

Ora, onde as normas são um amálgama confuso de pretextos, ninguém pode acreditar
nelas, e aquilo em que não acreitamos não pode ser um guia para orientar nossas
ações. Desde o início da nossa vida independente, cada brasileiro vive desprovido de
critérios de julgamento, perdido entre nuvens e sombras, tateante e incerto, sem
jamais saber se o que faz é certo ou errado, se pode revelar suas motivações íntimas
em público ou se deve ocultá-las para não ser ridicularizado. É simplesmente
impossível atribuir à mera coincidência o fato de que todos os personagens do escritor
mais representativo do Brasil-Império, todos, sem exceção, sejam criaturas de fumaça,
vacilantes entre a mentira proposital e o auto-engano inconsciente. Mesmo o melhor
deles, o conselheiro Aires, só encontra a unidade da sua alma na contemplação
esteticista de um cético melancólico que, incapaz de agir, observa o mundo com uma
certa pena que não chega sequer a ser uma decidida piedade cristã.

Ora, a falta de convicções profundas, a ausência da fé normativa só deixa à alma


individual duas alternativas: perder-se na hesitação e na incerteza covarde ou, ao
contrário, afirmar a vontade própria num ato de arbitrariedade que passe por cima de
todas as considerações morais. Daí a divisão dos brasileiros entre o cidadão encolhido
e o guardinha autoritário. Na ausência de normas, cada um faz o que pode; tudo
depende do acaso que acabará dando sempre a vitória aos mais impudentes e brutais.

O próprio autoritarismo surge daí: é a afirmação da vontade de poder que não


reconhece nenhuma autoridade acima de si e, na indeterminação geral, vence ao
afirmar suas próprias determinações livremente criadas. Também não pode ser pura
coincidência que o nosso mais durável ditador, e ao mesmo tempo um dos nossos
mais eficientes governantes, tenha tido como leitura de cabeceira e inspiração
constante de suas ações as obras de Nietzsche. No ambiente de incerteza e vacilação
geral, fala mais alto a voz do Super-Homem que improvisa suas próprias normas. A
famosa “lei de Gerson”, que é senão o reconhecimento de que a única norma vigente
é aquela que legitima a vitória do mais descarado?

Em sua permanente revolta contra qualquer resíduo de autoridade ou de moral


religiosa, a classe letrada confunde o seu próprio interesse de luta edípica com as
necessidades da nação brasileira e, ajudando a destruir o pouco de sentimento moral
que resta na família brasileira, promovem aquele mesmo ambiente de incerteza e
hipocrisia no qual cada cidadão não tem alternativa senão ceder ante a arbitrariedade
do mais brutal ou aprender ele próprio a arte da brutalidade.

As classes letradas e mais especificamente os cientistas sociais no Brasil estão em


completo divórcio com a realidade da vida e não conseguem, com seu linguajar onde o
pedantismo imita a ciência, senão expressar a imensa distância que existe entre o
foco da sua atenção e o alegado objeto de seus estudos.
A sociedade de desconfiança – e o que sobra no fundo dela

2 de abril de 2000

Uma recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo, publicada em O Estado de S.


Paulo no domingo, 2 de abril de 2000, mostrou que os jovens brasileiros de 14 a 24
anos não confiam nos partidos, no governo, na escola, nos juízes nem nos padres,
mas confiam em suas famílias. 80 por cento deles confiam totalmente nos pais, 18 por
cento confiam parcialmente, só um por cento não confia nada. Os outros índices de
confiança total foram: deputados e senadores, 1 por cento; governo, 1 por cento;
juízes, 12 por cento; padres, 30 por cento; professores, 39 por cento. A classe que
mais se aproxima da família na ordem da confiabilidade – os professores – não
merece metade da confiança que os jovens têm nos pais.

Os representantes das classes suspeitas centamente interpretarão isso como sinal de


alienação da juventude, mas, da minha parte, acho que o julgamento desses jovens é
equilibrado e certeiro, pelo menos muito mais que o da minha geração, que negava
confiança aos pais e a concedia ao primeiro demagogo que aparecesse.

Um por cento de desconfiança é uma grande vitória da família contra todos os poderes
unidos que buscam ferozmente destruí-la atirando os filhos contra os pais. É uma
vitória dos sentimentos naturais contra os ardis de todos os intrigantes políticos,
intelectuais e eclesiásticos que buscam atirar os jovens contra a autoridade paterna
para poder usurpá-la e desfrutar dela em benefício próprio.

Esse resultado é também uma boa ocasião para os profissionais da mídia tomarem
consciência de que seus poderes, espetaculosos e medonhos o quanto pareçam, são
limitados a longo prazo. Três décadas de ataque maciço à família – no cinema, na TV,
nos livros e nas escolas – só resultaram nisto: os jovens acreditam na família e em
mais ninguém.

A pesquisa não perguntou se acreditam na mídia, mas pelo menos num ponto essa
pergunta já está respondida: eles não acreditam em nada do que a mídia diz contra a
família.
Ignorância e poesia

Olavo de Carvalho

9 de abril de 2000

Minha amiga Graça Salgueiro chamou-me a atenção para as frases dos vestibulandos
da UFRJ/1999 publicadas algum tempo atrás pelo Jornal do Brasil como exemplos de
burrice juvenil. Pois fiquem sabendo que entre elas há verdadeiros achados –
provando que nos abismos da ignorância podem ocultar-se tesouros de intuição
poética. Sinceramente, algumas são tão boas que eu gostaria de tê-las escrito:

“O nervo ótico transmite idéias luminosas ao cérebro” parece saído diretamente de um


livro de filosofia natural do século XVIII.

“O problema fundamental do terceiro mundo é a superabundância de necessidades”


não ficaria nada mal num artigo de Roberto Campos.

“A igreja ultimamente vem perdendo muita clientela” é a expressão correta de um fato


puro e simples, pelo menos para quem sabe no que a Igreja se transformou.

“O sol nos dá luz, calor e turistas” é lindo. Parece saído de uma crônica de Carlinhos
Oliveira, ou mesmo de Rubem Braga.

“A harpa é uma asa que toca” é uma maravilha, um verso digno da Anthologia graeca.
Ezra Pound daria pulos de entusiasmo.

“A insônia consiste em dormir ao contrario.” Stanislaw Ponte Preta daria um braço


para produzir uma frase dessas.

“A fé é uma graça através da qual podemos ver o que não vemos” é talvez a mais
exata definição da fé, aliás bem próxima de uma de S. Paulo Apóstolo.

“A Previdência Social assegura o direito à enfermidade coletiva” é José Osvaldo de


Meira Penna no seu melhor estilo.

Eu daria um 10 a todos esses meninos e os aprovaria no curso de Letras. No mínimo,


eles escrevem melhor do que os repórteres do JB.

O. de C.
500 anos em cinco notas

Olavo de Carvalho

Bravo!, abril de 2000

Em primeiro lugar, os quinhentos anos de Brasil não são de Brasil: são de um império
português de ultramar que se desmembrou sob os golpes da diplomacia inglesa,
prestimosamente auxiliada por intelectuais nativos que achavam estar fazendo um
grande benefício para as gerações vindouras. O que representaria no mundo de hoje
um bloco político-econômico Portugal-Brasil-África era coisa que não podiam imaginar,
mas que os ingleses imaginavam perfeitamente bem e por isto mesmo temiam como à
peste. O espectro do império mulato emergente assombrava as noites britânicas como
a profecia de uma nova expansão moura. Vocês viram o filme Queimada, de Gillo
Pontecorvo? É a história do Brasil.

A independência brasileira sacrificou no altar dos interesses momentâneos de


senhores de terras um projeto de envergadura mundial, colocando-nos imediatamente
sob o jugo de bancos ingleses que, mais tarde, nos atirariam à aventura genocida da
guerra do Paraguai.

Nada mais ilustrativo do que a vida trágica do nosso Patriarca. O Andrada acreditava
num projeto-Brasil superior ao do império luso, e por isto mesmo, logo após a
Independência, se opôs vigorosamente a fazer empréstimos no Exterior. O impulso
profundo que movia as rodas da história não demorou a esmagar as cegas ilusões do
pioneiro: o Andrada foi demitido e enviado para o exílio, enquanto a nova classe
dirigente iniciava a novela sem fim da dívida externa. A Independência não veio para
ampliar o horizonte brasileiro, mas apenas para estreitar o português. Missão
cumprida, o chefe do movimento podia ser jogado fora.

A vulgata marxista de hoje nos impinge a lenda de que a Independência e a queda do


Império foram etapas de uma revolução destinada a nos coroar de glórias. Mas isso só
prova que o “marxismo” é Marx para crianças. Marx em pessoa dizia que as colônias
da África e da América Latina que se tornassem independentes cairiam ipso facto fora
da História. Caíram.

Pensem nisso, rotuladores de plantão, antes de me nomear apologista do colonialismo


luso. Não se trata de defender regimes — coisa de desocupados como vocês –, mas
de contar a História.

Nesses quinhentos anos, o Brasil foi sobretudo uma criação da iniciativa oficial,
especialmente militar, passando de atropelo sobre a passividade atônita de uma
sociedade civil desconjuntada e inerme. Historiadores esquerdistas repetem que a
História no Brasil se faz por cima, sem o povo. Têm razão. Mas daí deduzem que
precisamos de uma grande revolução para dar chance ao povo. É o protótipo do non
sequitur. Nenhuma revolução jamais integrou povo nenhum na História, pela simples
razão de que os regimes revolucionários têm de ser hipercentralizados ou morrer no
nascedouro. Cada revolução cria uma nova classe governante infinitamente mais
distante do alcance do povão do que os donos do Ancien Régime. Revoluções servem
apenas a uma jovem elite voraz, semente da futura Nomenklatura. Para se integrar na
História um povo não precisa de revoluções. Precisa de paz e tempo, lei e ordem. E
intelectuais honestos, que discutam as coisas com franqueza, sem segundas
intenções políticas. É a única esperança.

O que mais falta no momento é o último item da lista. A geração de intelectuais que
atualmente está no comando não tem nenhuma franqueza, suas palavras são um
festival de arrière-pensées. Para começo de conversa ela é desonesta ao usar a
palavra “poder” como sinônimo de governo. A elite do poder não é o governo: é um
vasto sistema de conexões que abrange as instituições de cultura, a mídia, as
diretorias de empresas, as igrejas, os partidos, o establishment educacional etc. etc.,
enfim, a rede inteira hoje dominada por aqueles mesmos que fingem estar de fora e
ser heróicos coitadinhos em luta contra os de cima. No Brasil, “poder” tornou-se
sinônimo de FHC. Todos os outros dizem ser a massa anônima dos deserdados.
Quando um João Moreira Salles financia um traficante em fuga, isto é a prepotência
do poder em todo o esplendor da sua feiúra: o poder do dinheiro aliado cinicamente ao
poder de matar. Mas ninguém diz isso. Uma escorregadia desconversa geral dá ao
conluio do ricaço com o bandidão o ar de uma solidariedade entre excluídos. Isso é
fraude, e a elite vive dessa fraude. Por isso mesmo nenhum acadêmico, no Brasil, se
aventura a fazer um estudo como o clássico The Power Elite de C. Wright Mills.
Ninguém deseja confessar que está entre os que mandam.

Essa mentira é básica demais, é central demais para que qualquer setor do nosso
debate público escape de ser contaminado por ela. Um povo tem o direito de saber,
em primeiro lugar, quem manda nele. Um povo não pode assumir seu destino nas
mãos se a elite que hipocritamente o convida a fazê-lo se esconde por trás de bodes
expiatórios, eleitos precisamente para isso. Nesse sentido, do Império para cá, o povo
foi cada vez mais excluído: no tempo de Pedro II o poder da elite intelectual estava à
mostra, seu telhado de vidro rebrilhava ao alcance de todas as pedras como o telhado
dos deputados e ministros. Hoje ele se tornou invisível sob os ataques que move aos
ocupantes de cargos nominais.

Bem escondidinha, a elite pode cultivar em segredo os intuitos mais perversos,


sempre posando de coorte de anjos.

Assim, por exemplo, uns anos atrás ocorreu-lhe a idéia de que todos os valores
positivos ainda dotados de credibilidade numa época de degradação geral podiam ser
reciclados para servir ao imediatismo de suas ambições políticas.

O mais notório desses valores foi a “ética”. É natural que um povo que se sente
ludibriado sem saber por quem tenha um fundo e dolorido anseio de moralidade. Com
um pouco de esperteza, esse anseio pode ser pervertido em desconfiança, a
desconfiança em ódio, o ódio em instrumento de destruição sistemática de lideranças
indesejáveis.

A existência da vasta máquina de espionagem política que se montou desde então


para pôr em movimento a fábrica de denúncias e manter a nação em sobressalto já
constitui, por si, a total corrupção do sistema. Quanto mais intensamente essa
máquina atua, mais a atmosfera se sobrecarrega de chantagens, deslealdades,
mentiras. Mas a máquina permanece invisível, lançando petardos contra a corrupção
que ela própria alimenta. Seu primeiro efeito é embotar na mente do público o senso
da gravidade relativa dos males. Hoje um funcionário que desvie uma verba,
corrompendo uma repartição, já parece mais criminoso do que o espião que grampeia
telefones, desvia papéis, usurpa a função policial do Estado e corrompe todo o
sistema.

A ética não é uma ciência exata. Seu exercício depende de um esprit de finesse capaz
de avaliar quantidades não mensuráveis. Existe em todo ser humano um
conhecimento espontâneo dos princípios morais. Os princípios não são regras: são
critérios formais que embasam as regras. As regras variam conforme os tempos e
lugares, mas subentendendo sempre os mesmos princípios. Qualquer selvagem sabe
que aquilo que põe em risco a comunidade inteira é mais grave do que o que dana
apenas uma parte dela. Qualquer analfabeto compreende que o que é mais básico e
geral deve ser preservado com mais carinho do que aquilo que é periférico e
particular.

As virtudes morais de um povo podem ser arranhadas aqui ou ali pelo


descumprimento de regras específicas. Mas se a percepção dos princípios gerais é
embotada, não é uma ou outra virtude que cai: é a possibilidade mesma de distinguir
entre a virtude e o vício. É nesse preciso instante que o discurso de acusação moral
se transforma na caça oportunista aos bodes expiatórios. Tão confundido e atordoado
pelos moralistas de ocasião tem sido o povo brasileiro, que já começa a aceitar como
normais e louváveis a delação de parentes, o grampo generalizado e a nova escala de
valores na qual surrupiar um dinheiro do Estado é mais criminoso do que matar,
estuprar, vender tóxicos para crianças. Crenças como essas destroem, na base,
qualquer ordem possível e alimentam ad infinitum a criminalidade.

Não foi só a “ética”. Iguais reciclagens sofreram as noções de caridade, de paz, de


direito, de história. Todas as palavras que expressam as aspirações mais altas foram
prostituídas, rebaixadas, moídas na máquina do oportunismo. E a aliança do
banqueiro com o assassino brilha no altar da “solidariedade”.

A destruição da lingugem precede o embotamento das consciências. Para elevar a


moralidade de um povo é preciso aguçar o seu senso dos valores, não embotá-lo.
Quem, a pretexto de punir políticos corruptos, destrói as bases mesmas da moral
pública, ou é um idiota irrecuperável ou tem uma agenda secreta. A diferença é que a
idiotice sente alguma vergonha de si mesma; a ambição política, não.

Quando me pergunto como a geração atualmente no poder – a minha geração – pôde


se sujar tanto, a pergunta automaticamente se inverte: Como ela poderia permanecer
limpa, se entrou no cenário desprovida de qualquer crença positiva, e confiante
apenas no maquiavelismo da ação política? Sim, os jovens letrados dos anos 60 não
acreditavam em nada, exceto em tomar o poder. Riam de Deus, do bem, da
moralidade, prosternavam-se de adoração ante os mais mínimos desejos e caprichos
de suas almas egoístas, embelezados por uma moral ad hoc fornecida por charlatães
franceses e americanos. Eram cínicos, perversos, aproveitadores ingratos,
exploradores de seus pais. Cada um deles, quando dava uma transada ou fumava um
baseado, se acreditava merecedor da gratidão da humanidade: estava fazendo a
revolução, pombas!

Hoje essa gente tem o poder e refaz o Brasil à sua imagem e semelhança. Por isto,
em quinhentos anos de História, nunca estivemos tão baixo.
Direto do inferno

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 13 de abril de 2000

O clamor obsessivo dos intelectuais, dos políticos e da mídia pela “supressão das
desigualdades” e por uma “sociedade mais justa” pode não produzir, mesmo no longo
prazo, nenhum desses dois resultados ou qualquer coisa que se pareça com eles.
Mas, de imediato, produz ao menos um resultado infalível: faz as pessoas acreditarem
que o predomínio da justiça e do bem depende da sociedade, do Estado, das leis, e
não delas próprias. Quanto mais nos indignamos com a “sociedade injusta”, mais os
nossos pecados pessoais parecem se dissolver na geral iniqüidade e perder toda
importância própria.

Que é uma mentira isolada, uma traição casual, uma deslealdade singular no quadro
de universal safadeza que os jornais nos descrevem e a cólera dos demagogos
verbera em palavras de fogo do alto dos palanques? É uma gota d’água no oceano,
um grão de areia no deserto, uma partícula errante entre as galáxias, um infinitesimal
ante o infinito. Ninguém vai ver. Pequemos, pois, com a consciência tranqüila, e
discursemos contra o mal do mundo.

Eliminemos do nosso coração todo sentimento de culpa, expelindo-o sobre as


instituições, as leis, a injusta distribuição da renda, a alta taxa de juros e as hediondas
privatizações.

Só há um problema: se todo mundo pensa assim, o mal se multiplica pelo número de


palavras que o condenam. E, quanto mais maldoso cada um se torna, mais se inflama
no coração de todos a indignação contra o mal genérico e sem autor do qual todos se
sentem vítimas.

É preciso ser um cego, um idiota ou completo alienado da realidade para não notar
que, na história dos últimos séculos, e sobretudo das últimas décadas, a expansão
dos ideais sociais e da revolta contra a “sociedade injusta” vem junto com o
rebaixamento do padrão moral dos indivíduos e com a conseqüente multiplicação do
número de seus crimes. E é preciso ter uma mentalidade monstruosamente
preconceituosa para recusar-se a ver o nexo causal que liga a demissão moral dos
indivíduos a uma ética que os convida a aliviar-se de suas culpas lançando-as sobre
as costas de um universal abstrato, “a sociedade”.

Se uma conexão tão óbvia escapa aos examinadores e estes se perdem na


conjeturação evasiva de mil e uma outras causas possíveis, é por um motivo muito
simples: a classe que promove a ética da irresponsabilidade pessoal e da inculpação
de generalidades é a mesma classe incumbida de examinar a sociedade e dizer o que
se passa. O inquérito está a cargo do criminoso. São os intelectuais que, primeiro,
dissolvem o senso dos valores morais, jogam os filhos contra os pais, lisonjeiam a
maldade individual e fazem de cada delinqüente uma vítima habilitada a receber
indenizações da sociedade má, e, depois, contemplando o panorama da delinqüência
geral resultante da assimilação dos novos valores, se recusam a assumir a
responsabilidade pelos efeitos de suas palavras. Então têm de recorrer a subterfúgios
cada vez mais artificiosos para conservar uma pose de autoridades isentas e
cientificamente confiáveis.

Os cientistas sociais, os psicólogos, os jornalistas, os escritores, as “classes falantes”,


como as chama Pierre Bourdieu, não são as testemunhas neutras e distantes que
gostam de parecer em público (mesmo quando em família se confessam reformadores
sociais ou revolucionários). São forças agentes da transformação social, as mais
poderosas e eficazes, as únicas que têm uma ação direta sobre a imaginação, os
sentimentos e a conduta das massas. O que quer que se degrade e apodreça na vida
social pode ter centenas de outras causas concorrentes, predisponentes, associadas,
remotas e indiretas; mas sua causa imediata e decisiva é a influência avassaladora e
onipresente das classes falantes.

Debilitar a consciência moral dos indivíduos a pretexto de reformar a sociedade é


tornar-se autor intelectual de todos os crimes – e depois, com redobrado cinismo,
apagar todas as pistas. A culpa dos intelectuais ativistas na degradação da vida social,
na desumanização das relações pessoais, na produção da criminalidade desenfreada
é, no seu efeito conjunto, ilimitada e incalculável. É talvez por eles terem se sujado
tanto que suas palavras de acusação contra a sociedade têm aquela ressonância
profunda e atemorizante que ante a platéia ingênua lhes confere uma aparência de
credibilidade. Ninguém fala com mais força e propriedade contra o pecador do que o
demônio que o induziu ao pecado. O discurso dos intelectuais ativistas contra a
sociedade vem direto do último círculo do inferno.
Drogas e prioridades

Olavo de Carvalho

Folha de S. Paulo, segunda-feira, 24 de abril de 2000

O dr. José Carlos Dias, ao sair do Ministério da Justiça alertando o governo para “não
transigir com os reacionários e a direita”, mostrou que estava no cargo menos para
combater o tráfico de drogas do que para fazer política de esquerda. Que esses
objetivos fossem conflitantes, nada mais natural: a esquerda fez a apologia das drogas
desde a década de 60 e é moralmente responsável pela disseminação do vício. Se,
passados quarenta anos, a troca de gerações no poder eleva um esquerdista à
posição de repressor oficial do tráfico, ele pode até se esforçar para dar uma
aparência verossímil ao seu desempenho, mas acabará se traindo mais dia menos dia
e confessando que sua luta não era contra os traficantes e sim contra “a direita”. De
fato, como poderia desejar mover guerra ao tráfico um adepto confesso da liberação
das drogas? E o ex-ministro não se limitou a suportar como formalidade incômoda seu
papel de comandante nessa luta, mas arrogou à sua pessoa o controle dos meios
práticos de combate, condenando as iniciativas independentes. Como explicar o
ciumento apego desse homem ao comando de uma guerra que declaradamente não
era a sua, exceto pela hipótese de que ao assumi-lo ele tivesse outros objetivos, mais
discretos e a seu ver mais relevantes?

Para um esquerdista, a luta ideológica é tudo. Todos os demais objetivos e desejos


humanos, por mais elevados e urgentes, devem ser subordinados a essa exigência
primeira, única e obsediante: derrubar a democracia capitalista, instaurar em seu lugar
o império da nomenklatura. O combate às drogas não constitui exceção. Se nas
circunstâncias do momento ele serve acidentalmente ao supremo objetivo político,
pode até ser usado. Se é inútil ou indiferente a esse fim, deve esperar pacientemente
na longa fila de prioridades. E se por acaso se opõe aos intuitos revolucionários, deve
ser substituído pela propaganda das drogas e pela resistência a todo esforço
repressivo, como o foi nos anos 60 e 70. Os esquerdistas, enfim, não têm nada contra
ou a favor das drogas: simplesmente servem-se delas ou da sua repressão conforme
lhes convenha.

Não estou pondo em dúvida a moralidade pessoal do ex-ministro, estou apenas


dizendo aquilo que sempre disse: que não existe nem pode existir esquerdista
intelectualmente honesto, que esquerdismo é, por definição, desonestidade intelectual.
Essa desonestidade pode permanecer disfarçada durante algum tempo, mas desponta
em toda a plenitude da sua feiúra sempre que um esquerdista sobe a um cargo de
poder no “Estado burguês”: aí não é mais possível esconder a dupla lealdade que o
compromete, de um lado, com a defesa do Estado, de outro, com a sua destruição.
Por mais elevada que seja sua intenção, ele terá de apelar a todas as complacências
dialéticas de uma moralidade frouxa para se acomodar a uma condição objetivamente
contraditória. Ninguém pode passar por isso sem se corromper interiormente e sem
espalhar no ambiente os germes da sua inconsistência. Ser esquerdista, nessas
horas, é necessariamente incorrer na maldição bíblica: bilinguis maledictus, maldito o
homem de duas línguas.

Isso tornou-se patente não só no caso do ex-ministro Dias como também no do ex-
subsecretário da Segurança do Rio de Janeiro, Luís Eduardo Soares, criatura bifronte,
que com uma de suas cabeças perseguia os policiais envolvidos com o tráfico e com a
outra dava respaldo ao amigo banqueiro para ajudar um traficante a estudar guerrilha.
A explicação do aparente paradoxo reside, como sempre, na unidade do critério
ideológico subjacente às ações opostas: há um tráfico bom e um tráfico mau. O mau é
aquele que se alia a velhas elites policiais comprometidas com o passado, com o
regime militar e, numa palavra, com a “direita”. O bom é aquele que almeja fazer
parceria com os guerrilheiros de Chiapas para armar no Brasil a maior guerra civil de
todos os tempos e instaurar aqui o “reino de Deus na Terra”, que é como Frei Betto,
uma indiscutível autoridade em assuntos celestes e terrestres, denomina o regime
cubano. A Banda Podre não é podre por ser podre, mas por ser “de direita”. A
podridão esquerdista é pura e sem mácula como uma hóstia consagrada. Confirma-o
a beatificação de João Moreira Salles, celebrada na Sala da Cinemateca pela fina flor
do radicalismo chique quando do lançamento do filme “Notícias de uma Guerra
Particular”, um ataque moralista ao hediondo costume que os policiais têm de atirar
nos traficantes que atiram neles. Contra esse modo “militaresco” (sic) de lidar com os
pobres e oprimidos capitães do tráfico, o seráfico cineasta propõe um método
alternativo mais humano e cristão: dar-lhes dinheiro para que vão ao Exterior
aprimorar seus conhecimentos da técnica de matar.

Perseguir os traficantes, ajudá-los ou simplesmente esquecê-los é, pois, para a


mentalidade esquerdista, uma simples questão de oportunismo. Prioridade, mesmo, só
existe uma: eliminar a execrável “direita”, seja com a ajuda dos traficantes, seja a
despeito deles, seja enterrando-os na mesma cova com os “reacionários”. O ex-
ministro Dias pode, na sua imaginação subjetiva, ter tentado levar a sério o papel de
supremo-comandante do combate às drogas. Mas seu velho comprometimento
ideológico, mais durável e exigente que as obrigações passageiras de um cargo
público, acabou por prevalecer. Outro tanto passou-se na alma do Dr. Luís Eduardo
Soares.

Se fosse possível existir um esquerdista intelectualmente honesto, esse homem de


exceção compreenderia que a erradicação do flagelo das drogas é um objetivo que
deve estar acima de toda picuinha ideológica, que esquerdistas, direitistas e quantas
mais facções políticas existam devem unir-se incondicionalmente numa guerra qual
depende a salvação das futuras gerações. Mas esse homem não é o ex-ministro Dias,
como também não é o dr. Soares.

13 de abril de 2000

Apêndice

Apelo dramático ao sr. Caio Aguilar Fernandes

“No mínimo confusas as idéias do sr. Olavo de Carvalho (“Drogas e prioridades”, Folha
de S. Paulo, 24 de abril de 2000): abusando da adjetivação e de generalizações
mancas como argumento de autoridade, vincula a esquerda nacional à disseminação
das drogas na atualidade. Nada mais intelectualmente honesto que isso.”

Caio Aguilar Fernandes

( Ribeirão Preto, SP)

“Painel do Leitor”, Folha de S. Paulo, 25 de abril de 2000.

Nota de Olavo de Carvalho

Se alguém conhece o signatário da coisa acima reproduzida, favor solicitar-lhe que


forneça, para alívio do perplexo e inconsolável autor do artigo mencionado, os
seguintes itens:

Lista das confusões que observou no artigo e provas de que elas estão no texto, não
na cabeça do leitor.
Lista dos adjetivos sobrantes, e razões pelas quais os referidos seriam dispensáveis.

Lista das generalizações mancas e provas de que mancam.

Explicação de como uma generalização afirmada pelo próprio autor de um texto pode
ser ao mesmo tempo um argumento de autoridade invocado por ele.

1 de maio de 2000
A loucura triunfante

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 27 de abril de 2000

Durante décadas, a esquerda acreditou que havia neste país duas burguesias: uma
nacionalista, empenhada em desenvolver a nossa economia; outra, aliada aos
interesses norte-americanos e decidida manter o Brasil na condição de fornecedor de
matéria-prima barata. A estratégia era portanto simples: aliar-se com a “burguesia
nacional” contra o imperialismo.

A fórmula de Luiz Carlos Prestes, do agrado de Moscou que então advogava uma
linha de luta eleitoral pacífica, tinha a vantagem de tornar o comunismo palatável a
muitas famílias de ricaços e de abrir assim aos comunistas o acesso a altos postos no
governo.

Na década de 60, a aliança rompeu-se. A incapacidade dos “burgueses progressistas”


para reagir contra o golpe militar deixou os comunistas órfãos e eles entraram num
surto de autocrítica do qual a estratégia de Prestes emergiu desfeita em cacos. O livro
de Caio Prado Jr., A Revolução Brasileira, publicado se não me engano em 1969, teve
um formidável impacto desagregador. Ele alegava que não havia burguesia nacional
nenhuma, que eram todos uns malditos imperialistas. Logo, o melhor era mandar a
estratégia eleitoral às favas e partir para a luta armada, conclusão endossada por um
livreto infame, também de muito sucesso, Revolução na Revolução, de Régis Debray.
Tudo parecia muito científico, mas deu no que deu.

Os anos seguintes foram marcados pelo estancamento das fontes francesas, pelo
desmantelamento do comunismo no Leste Europeu e pela formidável ascensão da
“nova esquerda” norte-americana, que tão bem soube se aproveitar dos movimentos
de direitos civis e juntar suas forças com a avassaladora onda psicótica da New Age
que ia dissolvendo, um por um, os pilares da cultura tradicional norte-americana.
Somou-se a isso a disseminação das idéias de Antonio Gramsci, o fundador do
Partido Comunista Italiano, que em vez da tomada violenta do poder por uma
organização monolítica pregava a lenta penetração da esquerda na administração
estatal e nos órgãos formadores da opinião pública por meio de redes flexíveis de
colaboradores informais. Ao mesmo tempo, as nações ricas começavam a implantar o
projeto de globalização e governo mundial, causando revolta entre os nacionalismos,
mas, sobretudo, atraindo o concurso de ambiciosos intelectuais esquerdistas de todos
os países, que, na esperança de aplicar a estratégia de Gramsci em escala global,
iniciaram a “longa marcha” para dentro dos organismos internacionais, onde hoje
reinam soberanos sobre os “movimentos sociais” plantados por engenheiros
comportamentais no Terceiro Mundo e sobre os programas educacionais que vão
moldando a mente da Humanidade futura.

A esquerda brasileira assimilou confusamente essas transformações, endossando a


esmo os slogans dos novos movimentos sociais globalistas – feminismo, gays,
“minorias raciais”, etc. -, e enxertando-os, aos trancos e barrancos, no ideário híbrido
onde reminiscências da guerrilha já se mesclavam absurdamente a apelos
nacionalistas herdados da aliança com a “burguesia progressista”.

Por isso é que hoje nossos esquerdistas podem, ao mesmo tempo, bufar de
indignação patriótica ante o leilão de empresas estatais e inflamar-se de entusiasmo
belicoso no apoio a protestos grupais divisionistas, insuflados por organizações
estrangeiras para debilitar o poder nacional. Por isso é que podem berrar contra o
“desmanche do patrimônio nacional”, ao mesmo tempo que aderem fanaticamente a
uma visão afro-indigenista da História que resulta em negar a legitimidade da
existência do Brasil enquanto nação. Por isso é que podem clamar contra a política do
FMI e servir às organizações que lhe dão suporte no plano cultural e psicossocial. Por
isso é que podem, ao mesmo tempo, querer salvar a economia e destruir o País.

Nossa esquerda, em suma, enlouqueceu. Mas enlouqueceu enquanto subia na vida.


Encontrando as portas abertas pela omissão covarde de todas as outras correntes de
opinião e pela ajuda de empresários idiotas que repetem às tontas “o comunismo
morreu”, a esquerda colhe hoje os louros de 30 anos de “longa marcha”, imperando
sobre os meios de comunicação, sobre o aparelho educacional e sobre a
administração pública, repetindo, do alto do pódio, seu discurso monológico e insano.
Ela nunca teve tanto poder e tanto medo.

Ela tem todos os meios à sua disposição: mas já não tem nada a transmitir exceto os
germes de sua decomposição intelectual.

Foi o contágio da loucura esquerdista que transformou os festejos dos 500 anos numa
palhaçada grotesca e masoquista. É ele que está no fundo de toda a angústia e a
incerteza da vida brasileira hoje em dia.
Lógica e consciência

Olavo de Carvalho

Nota para uma das próximas aulas do Seminário de Filosofia

10 de maio de 2000

A coesão de raciocínio lógico ou é a suprema expressão da continuidade de


consciência de uma personalidade bem integrada ou é um formalismo aprendido, oco
e sem vida. Dessa diferença depende a eficácia ou ineficácia do discurso lógico em
“apreender a realidade”. Mas, para complicar as coisas, essa não é uma diferença que
ressalte das simples qualidades formais do discurso, as quais podem ser as mesmas
num caso e no outro. Para apreendê-la, é necessário uma recapitulação não só dos
atos intuitivos pelos quais a mente apreendeu os objetos dos conceitos
correspondentes, mas também daqueles pelos quais a unidade dos nexos lógicos
entre esses conceitos se tornou visível como unidade entre os objetos e suas
propriedades reveladas à intuição; e é necessário que esta dupla recapitulação
mesma não se esgote na pura análise, mas reconquiste a unidade do ato intuitivo
único correspondente à apreensão da tripla unidade do discurso, do objeto e da
estrutura discursiva imanente ao objeto.

Como a maior parte das pessoas não é capaz de fazer nada disso, o discurso lógico
lhes parece mero formalismo precisamente porque o seu discurso lógico é mero
formalismo; e, de certo modo, a construção desse formalismo já lhes é tão dificultosa
que lhes parece inconcebível que alguém consiga efetuar análoga construção não
com meros signos, mas com percepções e coisas. Tal operação lhes parece tão
impossível como alterar um objeto real mediante simples modificações no seu
desenho rabiscado num papel. No entanto, é nessa aparente “mágica” que reside o
poder do pensamento eficaz, que essas pessoas contemplam sem compreender e
sem mesmo chegar a admitir que exista, e para cujos efeitos visíveis têm de encontrar
então algum tipo de explicação realmente mágica e irracional.

Nesse tipo de mentalidade, que pode se considerar dominante entre os


autodenominados “homens comuns” — um título que lhes parece credor de honras
especiais –, a “impressão de realidade” se esfuma e se desfaz à medida que eles se
afastam das percepções imediatas e dos sentimentos mais intensos e se aventuram
nos domínios do pensamento abstrato. A abstração, neles, é efetiva separação, e não
aquela simples duplicação dos níveis de atenção que para o filósofo experimentado é
operação corriqueira.

A causa dessa dificuldade reside, segundo me parece, num insuficiente domínio da


imaginação, a função mediadora que permite ir e vir entre as representações sensíveis
e os conceitos abstratos. A diferença entre a mente apta e a inapta para a filosofia
reside sobretudo em que a primeira possui um mundo imaginário mais organizado e
integrado – mais estetizado, de certa maneira. Através dos graus sucessivos de
formalização estética, a mente transita mais facilmente da experiência direta à reflexão
verbal e vice-versa, enquanto a imaginação desordenada bloqueia a passagem
mediante a interposição de uma massa de imagens disformes e inconexas,
carregadas de apelos inconciliáveis.

Mas, por caridade, não confundam essa qualidade imaginativa com alguma espécie de
talento artístico, “criatividade” ou coisa assim. Aquilo a que estou me referindo nada
tem a ver com a criação de produtos artísticos, pois não é uma estetização de
determinadas formas em particular, com a finalidade de transformá-las em obras, em
quadros, em poemas e em músicas, mas sim uma estetização global do campo de
experiência individual tomado como um todo e, portanto, não objetivável artisticamente
já que toda objetivação pressupõe o estreitamento do campo de atenção até o limite
da singularidade de um só objeto.

A reflexão filosófica exige, assim, uma expécie de apreensão estética da vida mesma,
e ela começa, precisamente, no ponto em que essa apreensão, ao defrontar-se com
aquilo que na realidade é absolutamente inestetizável, encontra o seu próprio limite e
requer a entrada em cena de uma superior estratégia cognitiva.

O uso do termo “estético” também não deve induzir ao erro de supor que se trate de
uma apreensão meramente contemplativa, objetivante e “desinteressada”, pois ela
inclui necessariamente a autoconsciência do sujeito enquanto inseparavelmente
cognoscente, agente e paciente no drama universal aí apreendido. Talvez coubesse
falar em “sentimento do mundo”, se a palavra sentimento não tivesse conotações tão
mesquinhas hoje em dia.

Admito que o conceito que estou procurando expressar, embora claro no seu conteúdo
próprio e interno, não é nítido o bastante, isto é, suficientemente distinto de outros
conceitos em torno, e por isto ainda é preciso recorrer a imagens e símiles para sua
exposição, provisória portanto, mas suficiente para o momento.

Enfim, sem uma certa integração estética da visão pessoal do mundo, o acesso à
filosofia está bloqueado. Mas, como a imaginação é diretamente condicionada pelos
sentimentos e desejos, uma certa limpidez psíquica – ao mesmo tempo uma
consciência clara dos próprios sentimentos e desejos e um senso aguçado da
responsabilidade pessoal de harmonizá-los numa totalidade pessoal capaz de
projetar-se numa ação coerente sobre o exterior e compor ao longo do tempo uma
“unidade biográfica” – é a condição moral sine qua non do aprendizado filosófico. A
filosofia não é para as almas toscas, mal arranjadas, provisórias e meio submergidas
no “inconsciente”. A filosofia pressupõe a maturidade, num sentido muito mais
exigente do que a mera adaptação ao entorno imediato que esse termo usualmente
designa. A filosofia responde a perguntas que só o indivíduo amadurecido pode fazer
a si mesmo e, nesse sentido, ela, radicalmente, não é coisa para crianças, seja no
sentido etário do termo, seja no sentido daquele resíduo de puerilismo que parece
irremovível da alma da quase totalidade dos nossos contemporâneos.
Gritos e sussurros

Olavo De Carvalho

São Paulo, Jornal da Tarde, 11 de maio de 2000

A esquerda nacional está indignada com o veto do governo à divulgação de uma


entrevista de João Pedro Stédile pela TV Cultura. Por toda parte ergue-se a denúncia:
“Censura!” E esta palavra exerce automático efeito revoltante, trazendo-nos a
evocação de uma época em que cada um tinha de andar com uma rolha na boca,
infame chupeta que nos reduzia à menoridade. Em princípio apóio, pois, qualquer
protesto contra qualquer censura, sobretudo quando a vítima é o ferocíssimo líder
emeessetista, um cidadão que, conforme já observei, quanto mais fala mais se enrola.

Também protestei ante um pedido de prisão emitido contra ele tempos atrás.

Já disse que preciso do sr. Stédile livre e saudável para um dia eu poder pegá-lo de
jeito, diante das câmeras de tevê, e demonstrar ao Brasil inteiro, como demonstrei ao
público presente no nosso debate na Bienal do Livro de Porto Alegre em 1998, que se
trata de um formidável embrulhão. Se fazem muito mal ao coitado, fico inibido de
submetê-lo à merecida palmatória dialética. Portanto advirto às autoridades: deixem-
no em paz. Apenas emprestem-no para mim por uns minutos.

Não obstante, ao prestar aqui minha solidariedade ao sr. Stédile na sua condição de
censurado (uma das poucas coisas que temos em comum), devo assinalar, de
passagem, que o faço com certas reservas.

Em primeiro lugar, não sei se as autoridades estão totalmente erradas no caso. Digo
isto porque a TV Cultura é propriedade pública: se não é lícito usá-la para fazer
propaganda do governo, também não há de ser muito honesto usá-la para fazer
propaganda contra ele. Uma tevê estatal – e a Cultura, malgrado as sutilezas da sua
constituição, é no fim das contas exatamente isso – pertence ao Estado e não às
facções que o disputam. Ela está acima dos conflitos políticos do momento. Ou ela
deve recusar-se a servir de caixa de ressonância a esses conflitos, ou, se não puder
fugir disso, deve ao menos tratar as partes conflitantes em pé de igualdade. A
entrevista, portanto, não deveria ter chegado a ser gravada. Mas, uma vez que o foi,
censurá-la não é solução que preste. O certo seria transmiti-la seguida de sua
refutação por um porta-voz do governo (ou, se me permitem oferecer meus humildes
préstimos, por este que lhes fala).

Em segundo lugar, não é certo chamar de censura somente as ações oficiais que
tendam a impedir o livre debate. Censura é toda manifestação de um poder – oficial ou
privado – que bloqueie o confronto de idéias ou a divulgação de informações. E o fato
é que em cada redação deste país há uma tropa de choque incumbida de vetar
notícias e comentários que prejudiquem o MST ou, de modo geral, a esquerda (eu
próprio já fui vítima dessa máquina uns pares de vezes e por isso tenho autoridade
para dizer ao sr. Stédile que sei o quanto dói). Só ignoram o bloqueio o JT, o Estadão
e, de vez em quando, Veja. O resto é um amém de ponta a ponta, com esporádicos
peixes varando a rede a título de salvação das aparências. Esse tipo de censura não
desagrada em nada o sr. Stédile, e não creio que sua entrevista guardasse revelações
mais importantes do que a massa daquelas que, graças aos fiéis agentes do Robin
Hood dos Pampas, têm sido sonegadas ao público brasileiro.

Em terceiro, a gritaria geral ante o caso da entrevista contrasta de maneira


escandalosa com o silêncio total em torno de um outro e recente ato de censura – ato
ainda mais temível e revoltante porque não partiu de uma autoridade brasileira, mas
de um poder estrangeiro. Refiro-me às tentativas do Greenpeace para calar a
divulgação de notícias sobre a ameaça de ONGs européias e norte-americanas à
soberania nacional. O órgão difusor das notícias e a vítima dessas pressões foi o
boletim de um certo “Movimento de Solidariedade Latino-Americana”, de cuja diretoria
faz parte o dr. Enéas Carneiro, um cidadão pelo qual tenho a mesmíssima dose de
estima e consideração que sinto pelo sr. Stédile, mas que, como este, é um cidadão
brasileiro e deve ter assegurado o seu direito de falar, escrever e publicar o que bem
entenda. E ainda mais deprimente é a comparação entre o clamor de indignação num
caso e a omissão cúmplice no outro, quando se considera que o sr. Stédile disputa o
direito mais ou menos duvidoso de difundir suas opiniões numa tevê estatal, e o dr.
Enéas o de imprimir com seu próprio dinheiro um boletim de fundo de quintal. Quando
uma facção política exige o privilégio de vociferar em todos os megafones e nega à
sua adversária o direito de sussurrar entre quatro paredes, já não é preciso temer o
próximo advento de uma ditadura: porque ela já está entre nós.
Uma experiência com o Santo Daime

6 de junho de 2000

Já faz uns meses que saiu, em República, a narrativa do sr. Otávio Frias de Oliveira
Filho de suas experiências com o Santo Daime, das quais saiu mais cético do que
nunca.

Como o assunto é de muito interesse para meus alunos, acho que não é tarde para
fazer, em torno desse relato, algumas observações, a primeira das quais é a própria
expressão da minha surpresa ante o fato de que um cético esperasse obter, da
ingestão de uma substância alucinógena – acompanhada ou não da audição de
pregações sobre suas supostas virtudes revelatórias – alguma conclusão válida a
respeito dos fenômenos espirituais e místicos em geral.

Transes induzidos por drogas simplesmente desligam algumas defesas pragmáticas


habituais e deixam o sujeito voando, durante uns minutos, pela variedade de mundos
que sua fantasia possa criar com reminiscências de leituras, imagens soltas na
memória e sensações ampliadas. Isso tem tanto a ver com o conhecimento espiritual
quanto um bebê fazer pipi na fralda tem a ver com o Kama-Sutra. O que um sujeito
consegue com tais “experiências” é apenas danar a pouca aptidão que ainda lhe reste
para conhecimentos dessa ordem, e eu gostaria que este meu aviso chegasse ao sr.
Otávio Frias Filho em tempo de preservá-lo desse efeito.

O conhecimento espiritual é bem alheio a qualquer gênero de “experiências”,


principalmente porque reside na aquisição, espontânea ou voluntária, de uma nova
maneira de ser geral e permanente que, por isto mesmo, não pode ser objeto de
sensação ou experiência tanto quanto a personalidade mesma, considerada em
conjunto, jamais o é.

Essa nova maneira também pouco tem a ver com mudanças exteriores na conduta ou
nos sentimentos, mas se manifesta não raro por efeitos de ordem bem sutil e pouco
perceptíveis ao meio, como por exemplo a aquisição de um discernimento intelectual
fora do comum, da compreensão imediata e intuitiva do sentido das Escrituras, da
capacidade de aplacar instantaneamente ódios e temores, de discretos dons curativos,
etc., conforme a variedade inesgotável das propensões individuais.

Do ponto de vista cognitivo, a mudança consiste principalmente num “recuo” que


permite a seu beneficiário olhar a vida presente numa outra escala. Um de seus mais
óbvios e primários sinais é o “sentido de eternidade”, que, para encurtar a explicação,
direi que é a capacidade de enxergar o fluxo do tempo como se fosse um círculo, onde
cada ponto está ligado a um centro que por sua vez não flui (não confundir com o
“eterno retorno”, que é apenas a aparência materializada e caricatural que essa noção
adquire para quem a conhece apenas por seus reflexos no imaginário).

Essa aquisição – e o sentido de eternidade é apenas um primeiro passo numa série


potencialmente ilimitada de conquistas espirituais – nada tem a ver com “vivenciar
uma experiência”. Ela é um modo de ser no qual, sem qualquer mudança sensível, a
consciência do homem espiritual é incorporada e potencializada de maneira
permanente e mesmo imperceptível a não ser por seus efeitos a longo prazo. A
distância que isso guarda de toda “experiência” é similar àquela que existe entre um
animal pintado na tela e um animal vivo.

Uma outra característica do conhecimento espiritual é o seu caráter imediato,


incontestável e nítido, que torna desnecessária qualquer explicação suplementar e, ao
contrário, produz a capacidade de explicar de maneira perfeitamente clara – a quem
conheça a mesma linguagem por outras fontes, é certo – uma infinidade de coisas que
o próprio sujeito antes não sabia nem imaginava. O conhecimento espiritual é
freqüentemente descrito como luz sobre luz, ou como uma luz dentro de outra luz,
precisamente porque nada tem de enigmático mas é a solução de muitos enigmas
exceto o derradeiro, que é o mistério de sua claridade mesma. Visões e sonhos, em si,
nada têm de espiritual, podendo ser apenas, acidentalmente, o veículo psíquico – e
quase “corpóreo” – que transporta o conhecimento. A maior parte dos conhecimentos
espirituais se transmite sem qualquer imagem ou sensação. O teste decisivo é aquilo
que fica, aquilo que se incorpora na alma como evidência intuitiva permanente, pouco
importando o canal psíquico do qual tenha se aproveitado casualmente ou mesmo a
completa ausência de um canal identificável. O sr. Otávio Frias, que saiu da sua
experiência carregando todas as dúvidas com que entrou, deve portanto estar ciente
de que sua “experiência” não teve nada de espiritual e consistiu apenas de uma
excitação neuronal momentânea.

Mas que nada tenha tido de espiritual não quer dizer que seja nula do ponto de vista
dos efeitos espirituais que dela podem resultar para o sujeito do experimento, que
neste caso se diria mais propriamente sua vítima. Pois uma das marcas características
da pseudo-espiritualidade é precisamente o contraste patético entre a intensidade
psíquica hipertrófica das vivências subjetivas e o seu resultado cognitivo dúbio ou
irrelevante.

Que para pessoas muito presas às limitações da percepção pragmática vulgar uma
experiência desse tipo possa ter às vezes um impacto desestruturante, eventualmente
benéfico pelo fato de abrir seu pensamento à concepção de possibilidades mais
amplas de conhecimento, é coisa que não se pode negar. Mas, de um lado, esse
efeito consiste apenas numa oportunidade de mudar de opinião, o que está longe de
ter qualquer alcance espiritual por mínimo que seja, e, de outro lado, o mesmo
resultado pode advir de qualquer experiência inusitada, como uma doença grave, um
perigo de morte ou uma paixão amorosa intensa.

Uma época em que essas experiências, por si, adquirem o prestígio do “espiritual” (ao
ponto de a inevitável constatação da sua inocuidade servir de argumento em favor do
materialismo), é uma época em que uma mentalidade pueril se assenhoreou de todas
as consciências, dividindo-as entre uma credulidade sonsa e uma suspicácia
apedêutica, que não podem sair do materialismo puro e simples senão para cair
naquilo que o Dalai-Lama chamou “materialismo espiritual”, e do qual certamente a
proposta do Santo Daime é amostra típica e inconfundível.

Nunca é demais lembrar que, se para as classes letradas de hoje essas questões de
espiritualidade são uma selva selvaggia onde só penetram a medo e com emoções de
noviças setecentistas ante um livro picante, outras culturas, antes da nossa, tiveram
extensa prática nesses domínios e deixaram seus conhecimentos registrados em
obras que um homem informado, se deseja opinar nessa área, não deve ignorar. A
tipologia das experiências interiores, por exemplo, é assunto arquiconhecido dos que
se dedicam a estudos teológicos, mesmo dentro do campo católico que não está a
uma distância inacessível do nosso meio, mas ao qual tantos hoje sonegam atenção
por presumir, ingenuamente, que por milagre nasceram providos de um nível de
consciência superior que remete a uma desprezível “idade das trevas” toda a
tecnologia espiritual das épocas que tiveram uma, e principalmente (argh!) a católica.

Para tirar dessa ilusão quem nela esteja. recomendo a leitura de um manual elementar
que ainda umas décadas atrás era estudado em todos os seminários, e que versa
sobre o “discernimento dos espíritos”, isto é, a ciência de distinguir a fonte humana ou
biológica, angélica ou demoníaca de nossas “experiências” interiores. Trata-se de Les
Phénomènes Mistiques Distingués de leurs Contrafaçons Humaines et Diaboliques, de
Mons. Albert Farges, Paris, Maison de la Bonne Presse, 1920. O fenômeno Leonardo
Boff, por exemplo, explica-se inteiramente pela supressão desse tipo de estudos do
programa dos seminários.

Há milhares de obras similares de origem budista, islâmica, judaica etc., atestando a


existência de um consenso mundial a respeito das estruturas do universo espiritual, e
uma gigantesca antologia foi reunida por Whitall N. Perry em A Treasury of Traditional
Wisdom, Pates Manor, Bedfont, Middlesex, Perennial Books, 1981, a cujo estudo seria
bom que o sr. Otávio Frias Filho – ou qualquer outro interessado – se dedicasse
atentamente antes de se entregar a novas “experiências”.
Olavo de Carvalho

Os pensadores e o êxtase

Olavo de Carvalho

O Globo, 10 de junho de 2000

Chega a ser insultuoso chamar os filósofos de “pensadores”. Pensar é ir de uma idéia


a outra, seja esvoaçando entre similitudes, seja despencando escada abaixo, do
universal ao particular, como um corpo inerte arrastado pela força gravitacional das
conseqüências. Um gato realiza a primeira dessas modalidades sem muito esforço,
um macaco a segunda. Tão corriqueiras e sem mérito são essas atividades que não
podemos parar de praticá-las. É mais fácil suspender a respiração do que deter o fluxo
incoercível das sinapses. Não é justo que tipos raros e extravagantes como os
filósofos recebam seu nome de algo que todo mundo faz o tempo todo. Alguma
originalidade eles têm de possuir, caramba, pelo menos em dose que justifique lhes
darmos cicuta para que parem de falar, e depois ficarmos nos perguntando por dois
milênios o que é que eles estavam dizendo mesmo.

A originalidade do filósofo consiste em que ele não deixa o pensamento seguir a linha
espontânea da associação de idéias ou o automatismo da pura dedução, mas o obriga
a sair do seu curso natural e voltar-se para uma coisa que não é pensamento. Essa
coisa — o mundo, o ser, a realidade ou como se queira chamá-la — é hostil ao
pensamento porque insiste em ter vontade própria e ignora soberanamente as vias
gramaticais, lógicas e semânticas por onde o nosso pensar escorre com tanta
naturalidade e conforto. “Meus caminhos não são os vossos caminhos, nem os meus
pensamentos os vossos pensamentos, diz o Senhor” (Is. 55:8). O pensamento do não-
filósofo vive de pensamentos: de uma idéia extrai outra, e outra, e outra, alheio a
intervenções superiores, e por aí vai produzindo variações e floreios até que a velhice
o obrigue a começar a repetir-se. Daí a facilidade que esse homem tem de acreditar
nas suas próprias conclusões.

O filósofo, ao contrário, força seu pensamento a alimentar-se de um material estranho


e quase indigerível: fatos, percepções, dados — informações, enfim, que às vezes não
têm sequer nomes pelos quais se possa pensá-las. Se o não-filósofo toma como
premissas seus pensamentos anteriores ou frases aprendidas, o filósofo se obriga a
admitir, como premissa, toda e qualquer coisa que chegue ao seu conhecimento, por
mais inassimilável e esquisita que seja. A grande premissa do pensamento filosófico
chama-se “o dado”.“Dado”, em filosofia, é o contrário de pensado. “Dado” é o que não
fui eu que inventei. “Dado” é o que se impõe por si mesmo, sem que eu precise pensá-
lo para que se dê. Tão funda é a obsessão dos filósofos pelo “dado”, que a maior parte
deles se devotou à busca do Dado absoluto e primeiro, daquilo que se impusesse
mesmo a um pensamento incapaz de pensá-lo. Do “primeiro motor” aristotélico ao
“mundo da vida” de Husserl, passando pela “coisa em si” de Kant e pela “substância”
de Spinoza, o que os filósofos buscaram foi sempre isto: algo que eles não pudessem
inventar. Mesmo o objeto das ciências físicas é já um arranjo intelectual, um recorte
operado pela razão no corpo do dado. Só os filósofos se interessam pelo que
simplesmente está aí, pelo que o ser diz de si mesmo antes que alguém comece a
falar dele.O filósofo é, pois, precisamente o contrário de um “pensador”. Platão
chamava-o “amante de espetáculos”. Sim, o que o filósofo ama é aquilo que, vindo do
espetáculo do ser, transcende infinitamente a clausura do pensar e do pensado. Por
isto ele é também o amante da sabedoria: o caminho para a sabedoria só pode ser
“para cima” e “para fora” — o eu pensante sacrifica-se, consente em deixar de ser o
centro do mundo para ceder lugar à realidade que o transcende. “Ser objetivo é morrer
um pouco”, dizia F. Schuon.
Isto se dá na mais mínima percepção sensível tanto quanto na suprema contemplação
espiritual. O encontro com o Dado supremo toma a forma do “êxtase”. Foi preciso
milênios de imbecilidade acumulada para que a palavra “êxtase” viesse a significar o
arrebatamento de um cretino para dentro de uma caixinha de sonhos; e foi preciso
chegar à última degradação para dar esse nome a uma droga incumbida de
produzilos. Sonhos, afinal, são coisas pensadas, e é da prisão do pensado que o
êxtase nos liberta. O êxtase é a plena presença do dado, é a suprema forma de
realismo, aquela perfeita submissão do pensamento ao real, da qual, num plano mais
modesto, Hegel deu exemplo ao contemplar por longo tempo uma grandiosa
montanha e depois emitir o célebre comentário: “De fato, é assim.” Só o êxtase dá co
nhecimento. O resto é pensamento. Augusto Comte — quem diria? — intuiu isso de
algum modo ao formular sua máxima: “régler le dédans par le dehors”, modelar o
dentro pelo fora. Que outros procurassem ao contrário atrair o homem para “o interior”,
não deve nos confundir. Quando Agostinho clama “noli foras ire”, esse “fora” que ele
nos proíbe não é aquele a que nos referimos eu e Comte — o dado — mas sim “o
mundo” no sentido bíblico do termo: a tagarelice ambiente que, por vir dos outros e ser
tão infindavelmente repetida, nos dá a ilusão de ser por sua vez dado e realidade. É o
pensamento coletivo que encobre o dado e em seguida nos consola de nossa
impotência cognitiva infundindo-nos a ilusão de “fazer história”, de “criar um mundo”
com os nossos pensamentos. Agostinho convida-nos a voltarnos da embriaguez do
pensado para a autenticidade do ser espiritual, tão “externo” ao pensamento quanto a
montanha de Hegel.

Pensar? Que de pensar morresse um burro, nada mais banal. O lamentável é que
tantos “vivam” disso, e, não passando de “pensadores”, se arroguem — ou recebam
de outros burros — o título de filósofos.
O que é falta de decoro?

Olavo de Carvalho

Época, 1o de julho de 2000

Ao executar cassações prematuras de mandatos, o Congresso inibe a justiça e


corrompe o senso moral

Não conheço o senhor Luiz Estevão e não acompanhei os detalhes de sua cassação.
Mas, em princípio, qualquer negociata é menos imoral que o castigo político infligido a
um parlamentar por seus pares antes de transitada em julgado a sentença que o
condena.

Na ânsia de destruir-se para não se tornar suspeito de favorecer-se, o Congresso,


quando não tem provas de corrupção, apela ao subterfúgio da “falta de decoro
parlamentar” e cassa per fas et per nefas. Mas desde quando ser acusado é falta de
decoro? O decoro ou a falta dele residem no que um homem faz, não no que os outros
dizem dele, ainda que quem o diz seja um promotor público.

Na vida civil, haverá falta de decoro em mexer com a mulher do próximo ou em


simplesmente ser acusado de fazê-lo? Indecoroso não é ser acusado. É tomar a
acusação como prova. Não vejo por que deva ser diferente na vida política. Não se
trata de defender o senhor Estevão, do qual, repito, nada sei. Trata-se de devolver às
palavras “moralidade” e “justiça” seu sentido. Hoje elas são sinônimos de carrancas
punitivas.

Mas, para que se tenha uma idéia de quanto essa sinonímia é falsa, vou contar um
episódio. Lembram-se da CPI dos Anões do Orçamento? Foi a mais ampla, a mais
espetaculosa a mais pretensiosa, apregoando-se de acontecimento histórico. A
testemunha-chave era um tal de José Carlos, execrável contador da Comissão de
Orçamento. Ele informou que, dos dois “esquemas de corrupção” então investigados –
um ligado ao desvio de verbas de assistência social, o outro ao favorecimento ilícito de
empreiteiras -, tudo sabia do primeiro, por ser ele próprio quem contabilizava a
safadeza, e nada do segundo, do qual só tivera notícia por ouvir dizer. Nada menos de
16 vezes, durante o exaustivo bombardeio de perguntas, ele repetiu: “Pessoalmente,
nada sei de empreiteiras”. Pois bem: como isso foi noticiado na imprensa? No dia
seguinte, todos os jornais brasileiros, todos, com exceção de O Globo e da Folha de
S.Paulo, trouxeram estampada a manchete: “José Carlos confirma denúncias contra
empreiteiras”. Que fizeram, em resposta, os parlamentares? Acusaram a imprensa de
falsear as notícias e tentar manipular a CPI? Nada disso. Nem um pio. Só sorrisos
diante das lentes dos fotógrafos.

Não há justiça, não há seriedade, não há honestidade onde os políticos se rebaixam


ante a mídia a ponto de negar o que seus olhos vêem, o que seus ouvidos ouvem,
para dizer amém ao que saiu publicado.

Muito menos há justiça, honra ou amor à verdade quando se destrói a carreira política
de um suspeito, intimidando, de quebra, os magistrados que o julgarão. Pois qual juiz
terá a coragem suicida de avaliar com independência uma causa que já foi julgada por
todos? Qual ousará, em caso de inocência do réu, assinar uma sentença que sujeitará
a imprensa, o Congresso, virtualmente a nação inteira a processos por crime de
calúnia e difamação, com obrigação de ressarcimento à vítima por danos morais?
Num tempo em que “coragem” significa posar de bom menino para as câmeras, sob
os aplausos gerais e a proteção do lado mais forte, esse juiz não pode existir. Mas, se
ele não existe, também não existe justiça.
Olavo de Carvalho

Época, 8 de julho de 2000

Invasões de terras e passeatas gays:

o que há de comum entre o discurso sobre a fome e a luxúria?

O receituário da pseudocultura contemporânea manda repetir diariamente, em doses


regulares, por via oral e escrita, a fórmula-padrão segundo a qual a miséria crescente
nos coloca à beira da revolução social. Muito eficaz para eleger deputados e investir
de uma autoridade sacramental e profética os comentaristas de TV, essa fórmula só
falha numa coisa: em descrever a realidade. Nem nossa miséria é crescente, nem a
miséria crescente, onde existiu, produziu jamais revoluções.

De um lado, quase 100 milhões de brasileiros vivem hoje entre o médio, o bom e o
ótimo. E se restam 8% ou 9% de indigentes, que os relatórios internacionais
denunciam com falsa indignação para nos infundir culpa e vergonha, isso prova
apenas que uma nação poderosa e criativa conseguiu tirar da miséria, nas últimas
quatro décadas, 30% de sua população – uma realização maior que a de todos os
New Deals e Planos Qüinqüenais conhecidos.

De outro lado, revoluções não acontecem nunca em países de economia declinante,


nem são jamais efeitos da pobreza. Elas ocorrem quando uma prosperidade
ascendente se junta a uma excessiva centralização do poder.

Essa mistura é explosiva: a expansão do aparato administrativo, jurídico e educacional


sustentado por impostos altos cria uma nova classe de burocratas e intelectuais e,
dando-lhes um poder crescente, desperta neles a ambição do poder ilimitado. É
justamente essa classe, a principal beneficiária da situação, que faz as revoluções.
Quando descobre que não precisa mais respeitar fortunas, prestígios ou tradições, que
agora pode fiscalizar, multar, atemorizar, acusar, denunciar, chantagear, ela já não se
contenta com isso: quer prender, saquear, fuzilar.

Foi assim na França, na Rússia, na China, em Cuba. As revoluções são a revolta dos
novos predadores contra suas vítimas, que nunca são dóceis o bastante. Quem
estranha que a esquerda nacional seja composta essencialmente de funcionários
públicos e de letrados em vez de proletários é quem não sabe que todas as esquerdas
revolucionárias foram assim. As esquerdas proletárias são reformistas, prudentes,
conservadoras.

Mas, se isso mostra a falsidade da fórmula que mencionei acima, mostra também por
que a miséria, apesar de declinante, se torna a cada dia mais vistosa. A miséria é a
única justificativa moral razoável para virar o mundo do avesso. Quando ela diminui, o
discurso legitimador das revoluções perde o gás.

Urge, portanto, alardeá-la. Se ela acabar, não sobrarão para ser explorados pelo
discurso revolucionário senão pretextos menores, postiços, fúteis: brigas de marido e
mulher, insatisfações sexuais, picuinhas de raça, enfim, toda a bobajada residual com
que as rodas de intelectuais revolucionários, nos países ricos, suprem sua
extraordinária falta de assunto. Mas nem a miséria acabou, nem estamos tão longe do
Primeiro Mundo que não possamos sonhar com luxinhos.

Por isso nossos intelectuais revolucionários hesitam, oscilando entre o estilo João
Pedro Stedile e o estilo Marta Suplicy, entre Stalin e Madonna, entre invasões de
terras e festas gays: não sabem se exigem pão para quem tem fome ou uma apoteose
de luxúria para quem tem tudo.
Que é o fascismo?

Olavo de Carvalho

O Globo, 8 de julho de 2000

Benito Mussolini resumiu a doutrina fascista numa regra concisa: “Tudo para o Estado,
nada contra o Estado, nada fora do Estado.” No Brasil, se você é contra essa idéia, se
você é a favor da iniciativa particular e das liberdades individuais, logo aparece um
chimpanzé acadêmico que tira daí a esplêndida conclusão de que você é Benito
Mussolini em pessoa. E não caia na imprudência de imaginar que essa conversa é
demasiado pueril para enganar o resto da macacada. Quando você menos espera,
guinchados de ódio cívico se erguem da platéia, e uma frota de micos, lêmures,
babuínos, orangotangos e macacos-pregos se precipita sobre você, às dentadas,
piamente convicta de estar destruindo, para o bem da humanidade símia, um perigoso
fascista. Cuidado, portanto, com o que diz por aí. Você não faz idéia da autoridade
intelectual dos chimpanzés na terra do mico-leão.

Na verdade, a idéia oficial de “fascismo” que se transmite nas nossas escolas não tem
nada a ver com o fenômeno que em ciência histórica leva esse nome. É uma repetição
fiel, devota e literal das fórmulas de propaganda concebidas por Stálin no fim da
década de 30 para apagar às pressas a raiz comum dos dois grandes movimentos
revolucionários do século e atirar ao esquecimento a universal má impressão deixada
pelo pacto germano-soviético. Nessa versão, o fascismo e o nazismo surgiam como
movimentos “de extrema-direita”, criados pelo “grande capital” para salvar “in extremis”
o capitalismo agonizante. É lindo imaginar aqueles banqueiros judeus de Berlim,
reunidos em comissão médica em torno do leito do regime moribundo, até que a um
deles ocorre a solução genial: “É moleza, turma. A gente inventa a extrema-direita, ela
nos manda para o campo de concentração, e pronto: está salvo o capitalismo.”

No entanto as origens e a natureza do fascismo não são mistério nenhum, para quem
se disponha a rastreá-las em autênticos livros de História.

Todas as ideologias e movimentos de massa dos dois últimos séculos nasceram da


Revolução Francesa. Nasceram dela e nenhum contra ela. As correntes
revolucionárias foram substancialmente três: a liberal, interessada em consolidar
novos direitos civis e políticos, a socialista, ambicionando estender a revolução ao
campo econômico-social, a nacionalista, sonhando com um novo tipo de elo social que
se substituísse à antiga lealdade dos súditos ao rei e acabando por encontrá-lo na
“identidade nacional”, no sentimento quase animista de união solidária fundada na
unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no
lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade.

A conjuração igualitarista de Babeuf e seu esmagamento marcaram a ruptura entre os


dois primeiros ideais, anunciando duzentos anos de competição entre revolução
capitalista e revolução comunista. Que cada uma acuse a outra de reacionária, nada
mais natural: na disputa de poder entre os revolucionários, ganha aquele que melhor
conseguir limpar sua imagem de toda contaminação com a lembrança do “Ancien
Régime”. Mas para limpar-se do passado é preciso sujá-lo, e nisto concorrem, com
criatividade transbordante, os propagandistas dos dois lados: as terras da Igreja,
garantia de subsistência dos pobres, tornam-se retroativamente hedionda exploração
feudal; a prosperidade geral francesa, causa imediata da ascensão social dos
burgueses, torna-se o mito da miséria crescente que teria produzido a insurreição dos
pobres; a expoliação dos pequenos proprietários pela nova classe de burocratas que
se substituíra às administrações locais (e que aderiu em massa à revolução) se torna
um crime dos senhores feudais. A imagem popular da Revolução ainda é amplamente
baseada nessas mentiras grossas, para cuja credibilidade contribuiu o fato de que
fossem apregoadas simultaneamente por dois partidos inimigos.

A terceira facção, nacionalista, passa a encarnar quase monopolisticamente o espírito


revolucionário na fase da luta pelas independências nacionais e coloniais (o Brasil
nasceu disso). A parceria com as outras duas transforma-se, aos poucos, em
concorrência e hostilidade abertas, incentivadas, aqui e ali, pelas alianças ocasionais
entre os revolucionários nacionalistas e os monarcas locais destronados pelo império
napoleônico.

Pelo fim do século XIX, as revoluções liberais tinham acabado, os regimes liberais
entravam na fase de modernização pacífica. O liberalismo triunfante podia agora
reabsorver valores religiosos e morais sobreviventes do antigo regime, tornados
inofensivos pela supressão de suas bases sociais e econômicas. Ele já não se
incomodava de personificar a “direita” aos olhos das duas concorrentes
revolucionárias, rebatizadas “comunismo soviético” e “nazifascismo”. Assim começou
a luta de morte entre a revolução socialista e a revolução nacionalista, cada uma
acusando a outra de cumplicidade com a “reação” liberal.

Essa é a história. O leitor está livre para tentar orientar-se entre os dados, sempre
complexos e ambíguos, da realidade histórica, ou para optar pelas simplificações
mutiladoras. A primeira opção fará dele um chato, um perverso, um autoritário, sempre
a exigir que as opiniões, essas esvoaçantes criaturas da liberdade humana, sejam
atadas com correntes de chumbo ao chão cinzento dos fatos. A segunda opção terá a
vantagem de torná-lo uma pessoa simpática e comunicativa, bem aceita como igual na
comunidade tagarela e saltitante dos símios acadêmicos.
Assassinato da oportunidade

Olavo de Carvalho

Época, 15 de julho de 2000

Discursos fingidos contra a pobreza estão matando, de modo egoísta, nossa


chance de sair dela

As demonstrações de escândalo ante a pobreza neste país são tão enfáticas, tão
hiperbólicas, que se diria que um padrão de vida de Primeiro Mundo é coisa
simplesmente natural e sua ausência, em qualquer lugar do planeta, é uma
absurdidade inaceitável para a razão humana. Na verdade, a pobreza tem
acompanhado o Homo sapiens desde seu surgimento, e a floração extraordinária de
riquezas em alguns pontos da Terra nos últimos séculos é que é um fenômeno
estranho, carente de explicação satisfatória até o momento. A profusão de livros que
prometem elucidar as “causas do subdesenvolvimento” só tem servido para camuflar o
fato de que o desenvolvimento ainda não foi compreendido de maneira alguma. Só um
maluco pode pretender explicar o que não aconteceu quando não entende sequer o
que aconteceu.

Há três hipóteses básicas para explicar o sucesso econômico: a teoria de Karl Marx,
segundo a qual a riqueza capitalista se forma pela extração da mais-valia (diferença
entre o salário e o valor objetivo do trabalho), a de Max Weber, baseada na
concentração de esforços propiciada pela ética protestante, e a de Alain Peyrefitte, na
qual o desenvolvimento nasce de certas condições culturais e psicológicas que
favorecem a criatividade econômica, a livre negociação e a fidelidade aos contratos. A
primeira foi desmoralizada por seus erros de previsão, por suas falhas lógicas e pela
revelação de que usara estatísticas manipuladas. A segunda entrou em pane porque o
próprio autor morreu sem ter conseguido confirmá-la. A terceira me parece a mais
certa, mas isso é o máximo que posso dizer.

Se simplesmente não sabemos como um fenômeno se produz, por que nos sentir
revoltados por ele não se reproduzir a nosso bel-prazer? Proclamar o direito de todos
a algo que não se sabe como lhes dar é puerilismo. Mas é um hábito de nossa cultura
elevar meros objetivos desejáveis à categoria de “direitos”, punindo o fracasso como
se fosse um delito. Todos queremos uma vida melhor para os brasileiros, mas quem
pretenda nos induzir a crer que a conquista dessa vida é coisa fácil por natureza, que
não a havermos alcançado é uma anormalidade, uma injustiça, um crime, esse é um
mentiroso, um farsante que busca subir na vida pela indústria da intriga e ainda tem o
desplante de insinuar que os demais ramos da indústria é que são desonestos.

A teoria de Peyrefitte não é absolutamente segura, mas é a que melhor tem resistido
às objeções. Se no Brasil não querem prestar atenção nela é por um motivo muito
simples: ela afirma a necessidade imprescindível de uma atmosfera geral de
confiança, em que os controles jurídico-policiais e monopolísticos cedam lugar a
mecanismos unicamente culturais de incentivo à livre iniciativa popular. Ora, no Brasil
isso é impraticável porque nossos políticos e intelectuais estão empenhados em
aumentar o próprio poder mediante campanhas de disseminação da suspeita que
induzam o povo a aceitar mais leis, mais controle, mais burocracia. Eles chamam isso
de “ética”, de “luta contra a miséria”, até de “cristianismo”. Eu chamo de liquidação
maldosa e egoísta de uma oportunidade de sucesso.
A filosofia não é para os tímidos

Entrevista de Olavo de Carvalho a Zora Seljan

Jornal de Letras, Academia Brasileira, julho de 2000

1 – O que é ser filósofo?

É acreditar piamente na capacidade humana de compreender a realidade — e apostar


a vida nessa crença. A apoteose da razão começa com um ato de fé. Hegel já dizia
isso: sem a fé no poder do espírito, nada de investigação filosófica. A filosofia, como o
reino dos céus, não foi feita para os tímidos e recalcitrantes. Mas a essa primeira
aposta segue-se um compromisso, que é o de nada ignorar da realidade
propositadamente. O filósofo tem de abrir-se inteiramente à variedade dos fatos que
se apresentam, sem se refugiar em explicações prematuras. Em vez de inventar
explicações, tem de esperar que a realidade as sugira e as comprove, mesmo que,
nessa espera, ele arrisque ficar quase louco na confusão dos dados. Por isso não
gosto de chamar os filósofos de “pensadores”. Pensar é fácil. O difícil é pensar as
coisas como são – e para isto é preciso contrariar muitas vezes o nosso pensamento,
obrigá-lo a ir para onde não quer. Por isso, também, não vejo diferença substancial
entre filosofia e ciência. As ciências são apenas estabilizações provisórias de certas
investigações filosóficas, para as quais se encontrou um método consensual que pode
ser praticado uniformemente por toda uma comunidade, mas que, de tempos em
tempos, são dissolvidas de novo no mar do questionamento filosófico profundo.

2 – Como vê a situação atual dos estudos filosóficos no Brasil?

Desastrosa, embora menos do que seria de esperar. Revistas como a “Presença


Filosófica”, a “Revista Brasileira de Filosofia” e a “Síntese” de Belo Horizonte (que não
sei se ainda circula) salvam a nossa honra. Mas, no geral, o que se vê é empulhação
ideológica mais rasteira dominando o cenário. Só para dar um exemplo: a capacidade
quase instintiva para distinguir entre um conceito e uma figura de linguagem é a marca
do talento para os estudos filosóficos, a condição inicial para o ingresso na filosofia.
Nossos filósofos acadêmicos mais badalados, depois de décadas de estudo, ainda
não adquiriram essa habilidade elementar. Só se ocupam de espalhar entre os alunos
a confusão e a obscuridade de suas almas toscas, e compensam sua miséria interior
mediante a participação exibicionista em campanhas políticas. O pior é a moda da
filosofia para crianças, um cabide de empregos e um abuso da inocência infantil: a
filosofia não é coisa para crianças, como supõe o nosso execrável Ministério da
Educação. Alquimicamente falando, a filosofia é o enxofre que cristaliza o mercúrio, a
mente volátil, para produzir o sal – a alma perfeita. A cristalização prematura é um
desastre alquímico, o congelamento da alma. Os professores de filosofia estão
ajudando nossas crianças a sufocar suas percepções autênticas sob um discurso
pseudo-intelectual de um artificialismo desesperador.

3 – Como unir senso de humor, eloquência de argumentação e lucidez


filosófica?

Essas coisas vêm sempre juntas ou então não vêm. O fundador da tradição filosófica,
Sócrates, era uma síntese das três. Platão não ficava atrás. E até os escritos que nos
restaram de Aristóteles, meros rascunhos técnicos para exposição em classe, deixam
transparecer o fino senso de humor que certamente animava suas conversações com
os alunos.
4 – Sua reinterpretação de Aristóteles pode levar-nos a uma visão unificada de
toda a filosofia grega?

Sinceramente, espero que sim. Aristóteles estava muito consciente da sua posição no
quadro evolutivo da filosofia que o antecedeu, e todo o seu pensamento é não apenas
uma reflexão sobre essa evolução, mas quase a materialização dela sob a forma de
ordem e sistema – como quando você ouve uma melodia e de repente percebe essa
seqüência temporal sob a forma de um desenho, de um gráfico: o tempo que vira
espaço. Primeiro os gregos conheceram o discurso mitopoético das epopéias e da
lírica, depois o discurso retórico dos sofistas, depois a dialética de Sócrates e Platão e
por fim a estrutura lógica revelada por Aristóteles. Essa seqüência histórica é idêntica
à própria estrutura interna do sistema de Aristóteles, tal como acredito havê-la
desvelado na “teoria dos quatro discursos”. Esse fenômeno de um sistema no qual se
refaz e se perfaz conscientemente a evolução histórica é um grande milagre do
espírito. Alguns místicos islâmicos consideram Aristóteles um profeta, e acho que têm
razão.

5 – Como foi sua experiência recente na Romênia, suas conferências lá, seu
contato com escritores e universidades da terra?

A Romênia é hoje a minha segunda pátria. Tenho tantos amigos lá quanto no Brasil, e
nenhum inimigo exceto o frio. Também tenho ótimos amigos entre os romenos que
vivem aqui, como Gheorghe Legmann, valente batalhador em prol das relações Brasil-
Romênia. Os romenos são um povo cultíssimo, com a alma aprimorada pelo
sofrimento. O número de sábios “per capita” lá é impressionante. É também um país
lindíssimo, a maior reserva natural da Europa, com florestas cheias de ursos e lobos
que nunca ouviram falar de crise ecológica nem do Ibama. Mas os países vizinhos não
deram à Romênia a menor chance. Invadiram e roubaram a infeliz o quanto puderam,
e lhe impuseram a camisa-de-força dos regimes totalitários, primeiro o nazismo,
depois quarenta anos de comunismo. Hoje os romenos, espoliados pela Nova Ordem
Mundial, são um povo cansado, esgotado, descrente, com dificuldade para enxergar
suas próprias qualidades mais óbvias. No entanto, no meio da mais negra miséria, não
perdem o gosto de estudar. São um exemplo para os brasileiros, que só admitem o
estudo como meio de arranjar emprego ou de adornar conversações de salão. Os
romenos adoram o Brasil (deram até o nome de Copacabana a uma praia no Mar
Negro, e o hino da seleção romena de futebol é um samba), e a nossa presença lá faz
bem a eles. Talvez ninguém tenha feito mais para melhorar a auto-imagem dos
romenos do que o embaixador brasileiro, Jerônimo Moscardo, hoje um imbatível “pop
star” em Bucareste. Acho que todo brasileiro deveria passar um tempo lá para ver o
que é dignidade na miséria e para deixar de chorar de barriga cheia. Bucareste é a
capital mais pobre da Europa – e a mais pacífica. Simplesmente não há assaltos à
mão armada. Quando volto a este nosso país onde um frango assado custa dois
dólares, fico perplexo ante a classe média tão gordinha e tão revoltada, que só
reclama da vida e que justifica a violência em nome da “miséria”: queria que essa
gente fosse ver os milhares de meninos de rua que em Bucareste têm de se esconder
no esgoto durante o inverno, e que vêm nos pedir esmola em inglês, francês ou
alemão, com um ar de inocência que dia a dia vai desaparecendo dos olhos das
nossas crianças, corrompidas por falsos educadores.

6 – Como vê a obra de Emil Cioran no pensamento de nosso tempo?

Cioran não pode ser lido ao pé da letra, senão você estoura os miolos, coisa que ele
próprio não fez, o que mostra que estava ciente da dose de ironia dos seus escritos
(ele dizia que era um farsante e que as pessoas perceberiam isso se o
compreendessem). Cioran assume a palavra em nome do demônio, acusador da
humanidade, e nos desafia a assumir a responsabilidade da defesa. Jogando entre
verdades patentes e exageros verossímeis, ele sempre nos deixa uma brecha
salvadora, e é precisamente nesses hiatos, nessas falhas propositais da sua
argumentação, que reside o mais inteligente da sua obra, na verdade mais pedagógica
ou psicoterapêutica do que filosófica. Cioran pode induzir você ao desespero, à
resignação estóica ou a uma retomada da fé e da esperança. Ele pode ser um veneno
ou um remédio: você decide.

7 – Dá-se bem com o computador?

Maravilhosamente. Foi uma afinidade à primeira vista. Na verdade, acho que eu nunca
teria publicado livros se não existisse computador: foi ele, e só ele, que me permitiu
colocar em ordem escritos acumulados ao longo de vinte anos. E hoje a internet é meu
principal meio de informação.

8 – Acha o exercício do jornalismo regular importante na sua obra?

Quando a gente escreve só para um círculo de alunos, como fiz por muito tempo,
tende a criar um estilo compacto, cheio de abreviaturas e subentendidos, que no fim
vira um negócio hermético, ou então a multiplicar as explicações com um didatismo
minucioso que se prolonga demais. Voltar ao jornalismo regular foi uma disciplina
muito saudável, que me obrigou a exercícios diários para conciliar aquilo que Horácio
considerava inconciliável: brevidade e clareza. De outro lado, isso me deu a
oportunidade de colocar em circulação idéias que vim “chocando” na solidão ao longo
de vinte anos, e que me parece que podem ser úteis para o Brasil.

9 – Signo, preferências, família.

Signo: Touro com ascendente Aquário (como Karl Marx, droga!), Lua em Leão, Marte
e Mercúrio em Áries, Júpiter culminante no Escorpião.

Preferências: Livro – A Bíblia e o Corão, as escrituras hindus no comentário de


Shânkara, a Metafísica de Aristóteles, a Divina Comédia, Dostoiévsky inteiro, Walter
Scott e Pío Baroja selecionados, poesias de Camões, Antonio Machado e William
Butler Yeats. Comida – Churrasco. Bebida – Café. Hobby – Fumar em lugares
proibidos. Bichos – Cães e cavalos. Roupa – A mais barata. Perfume – Água e sabão.
Cigarros – Ducados,espanhol, e Romeo y Julieta, cubano, da mesma fábrica dos
charutos (cigarros bons são o meu único luxo). Música – Canto gregoriano; Bach;
Haendel; Wagner; velhas canções italianas e irlandesas; música caipira de qualquer
parte do mundo. Sonho de consumo: um “Irish wolfhound”. Custa uma nota e come
muito.

Família: a melhor coisa do mundo. Pena que os filhos sejam apenas oito.

10 – E o futuro? Qual é o lugar do Brasil no mundo?

Acho que o Brasil passa pelo momento mais difícil e mais decisivo da sua História.
Temos o sonho de ser uma nação e temos o direito de sê-lo, mas, no momento em
que estamos quase para realizar esse sonho, as nações já não estão na moda e o
governo mundial avança a passos de gigante. Nosso desafio é provar que somos
capazes de representar os ideais superiores da humanidade melhor do que o governo
mundial. Mas, para isso, precisamos de três coisas: absorver rapidamente o legado
espiritual de todas as civilizações, aprender a esquivar-nos das alternativas
ideológicas estereotipadas com que a estratégia mundialista nos divide, e superar um
falso nacionalismo nativista, complexado e debilitante, que é hoje facilmente
manipulável pelas esquerdas vendidas à Nova Ordem Mundial. Temos de criar um
novo nacionalismo, capaz de competir no mercado mundial. Costumo chamá-lo de
nacional-liberalismo, com a ressalva de que não é um sistema ideológico mas apenas
um arranjo de ocasião, uma solução brasileira de improviso.

O maior obstáculo são os intelectuais, fortemente apegados a esquemas ideológicos


absurdos, a ressentimentos antimilitares que são muito bem aproveitados (e bem
pagos) pela estratégia mundialista para nos debilitar, e a ódios pessoais racionalmente
inexplicáveis, como essa birra contra o Roberto Campos, um homem que, no campo
das ações e não do blá-blá-blá, fez mais pelo Brasil do que toda a esquerda reunida.
Para dobrar essa gente, só mesmo a paciência do Antônio Olinto.
Sem testemunhas

Olavo de Carvalho

O Globo, 22 de julho de 2000

“Temos de nos desmascarar para alcançarmos aquela autenticidade interior de


uma cultura em que poderemos, um dia, nos reconhecer e nos sentir
realizados.”

J. O. de Meira Penna, “Em berço esplêndido”

Albert Schweitzer, em “Minha infância e mocidade”, lembra o instante em que pela


primeira vez sentiu vergonha de si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim.
Veio uma abelha e picou-lhe o dedo. Aos prantos, o menino foi socorrido pelos pais e
por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert percebeu que a dor já havia passado
fazia vários minutos e que ele continuava a chorar só para obter a atenção da platéia.
Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida
realizada, uma grande vida de artista, de médico, de filósofo, de alma cristã devotada
ao socorro dos pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira
trapaça. Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória, dando-lhe
repuxões na consciência a cada nova tentação de auto-engano.

Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube
da sua vergonha, só ele teve de prestar contas de seu ato ante sua consciência e seu
Deus. Estou persuadido de que as vivências desse tipo – os atos sem testemunha,
como costumo chamá-los – são a única base possível sobre a qual um homem pode
desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autônoma. Só aquele que, na
solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo – e contra si mesmo – é capaz de
julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos
estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos
morais.

A razão disso é auto-evidente: um homem tem de estar livre de toda fiscalização


externa para ter a certeza de que olha para si mesmo e não para um papel social – e
só então ele pode fazer um julgamento totalmente sincero. Somente aquele que é
senhor de si é livre – e ninguém é senhor de si se não agüenta nem olhar, sozinho,
para dentro de seu próprio coração.

Mesmo a conversa mais franca, a confissão mais espontânea não substituem esse
exame interior, porque aliás só valem quando são expressões dele, não efusões
passageiras, induzidas por uma atmosfera casualmente estimulante ou por um
sincerismo vaidoso.

Mais ainda, não é apenas a dimensão moral da consciência que se desenvolve nesse
confronto: é a consciência inteira – cognitiva, estética, prática. Pois ele é ao mesmo
tempo aproximação e distanciamento: é o julgamento solitário que cria a verdadeira
intimidade do homem consigo mesmo e é também ele que cria a distância, o espaço
interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos são
assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem esse “mundo”
pessoal conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações
entram e saem – como os alimentos – transformadas em detritos.

Ora, nem todos os seres humanos foram brindados pela Providência com a percepção
espontânea e o julgamento certeiro de seus pecados. Sem esses dons, o anseio de
justiça se perverte em inculpação projetiva dos outros e em “racionalização” (no
sentido psicanalítico do termo). Quem não os recebeu de nascença tem de adquiri-los
pela educação. A educação moral, pois, consiste menos em dar a decorar listas do
certo e do errado do que em criar um ambiente moral propício ao auto-exame, à
seriedade interior, à responsabilidade de cada um saber o que fez quando não havia
ninguém olhando.

Durante dois milênios, um ambiente assim foi criado e sustentado pela prática cristã
do “exame de consciência”. Há equivalentes dela em outras tradições religiosas e
místicas, mas nenhum na cultura laica contemporânea. Há as psicanálises, as
psicoterapias, mas só funcionam nesse sentido quando conservam a referência
religiosa à culpa pessoal e ao seu resgate pela confissão diante de Deus. E, à medida
que a sociedade se descristianiza (ou, mutatis mutandis, se desislamiza, se
desjudaíza etc.), essa referência se dissolve e as técnicas clínicas tendem justamente
a produzir o efeito oposto: a abolir o sentimento de culpa, trocando-o ora por um
endurecimento egoísta confundido com “maturidade”, ora por uma adaptatividade
autocomplacente, desfibrada e cafajeste, confundida com “sanidade”.

A diferença entre a técnica religiosa e seus sucedâneos modernos é que ela


sintetizava numa mesma vivência dramática a dor da culpa e a alegria da completa
libertação – e isto as “éticas leigas” não podem fazer, justamente porque falta nelas a
dimensão do Juízo Final, da confrontação com um destino eterno que, dando a essa
experiência uma significação metafísica, elevava o anseio de responsabilidade
pessoal às alturas de uma nobreza de alma com o qual as exterioridades da “ética
cidadã” não podem nem mesmo sonhar.

Há dois séculos a cultura moderna vem fazendo o que pode para debilitar, sufocar e
extinguir na alma de cada homem a capacidade para essa experiência suprema na
qual a consciência de si é exigida ao máximo e na qual – somente na qual – alguém
pode adquirir a autêntica medida das possibilidades e deveres da condição humana. A
“ética laica”, a “educação para a cidadania” é o que sobra no exterior quando a
consciência interior se cala e quando as ações do homem já nada significam além de
infrações ou obediências a um código de convencionalismos e de interesses casuais.

“Ética”, aí, é pura adaptação ao exterior, sem outra ressonância íntima senão aquela
que se possa obter pela internalização forçada de slogans, frases feitas e palavras de
ordem. “Ética”, aí, é o sacrifício da consciência no altar da mentira oficial do dia.
Geração perdida

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, São Paulo, 3 de agosto de 2000

Hyppolite Taine conta que, aos 21 anos, vendo-se eleitor, percebeu que nada sabia do
que era bom ou mau para a França nem das ideologias em disputa na eleição.
Absteve-se de votar e começou a estudar o país. Décadas depois, vieram à luz os
cinco volumes das Origines de la France Contemporaine (1875), um monumento da
ciência histórica e um dos livros mais esclarecedores de todos os tempos. O jovem
Taine não votou, mas o Taine maduro ajudou muitas gerações, na França e fora dela,
a votar com mais seriedade e conhecimento de causa, sem deixar-se iludir pelas
falsas alternativas da propaganda imediata. Saber primeiro para julgar depois é o
dever número um do homem responsável – dever que o voto obrigatório, sob a escusa
de ensinar, força a desaprender.

Taine foi muito lido no Brasil, e seu exemplo deu alguns frutos. Entre os que tiveram
seu caminho de vida decidido pela influência dele contou-se o jovem Affonso
Henriques de Lima Barreto. Ele aprendeu com Taine que as coisas podem não ser o
que parecem. Como romancista, ele fixou a imagem da ambigüidade constitutiva das
atitudes humanas no duelo de personalidades do major Quaresma com Floriano
Peixoto, onde o passadista se revela um profeta e o progressista um ditador tacanho e
cego. Mas a mensagem dessa história, ainda que consagrada pelo cinema, não se
impregnou na mente das novas gerações. Talvez não venha a fazê-lo nunca,
precisamente porque, amputada da ética taineana da prioridade do saber, que lhe
serve de moldura, ela se reduz a uma observação casual que pode ser dissolvida
numa enxurrada de lugares-comuns. Hoje, de fato, raramente se encontra um jovem
que não queira, antes de tudo, “transformar o mundo”, e que, em função desse “parti
pris”, não adie para as calendas gregas o dever de perguntar o que é o mundo.

Sim, no Brasil cultura e inteligência são coisas para depois da aposentadoria. Quando
todas as decisões estiverem tomadas, quando a massa de seus efeitos tiver se
adensado numa torrente irreversível e a existência entrar decisivamente na sua etapa
final de declínio, aí o cidadão pensará em adquirir conhecimento – um conhecimento
que, a essa altura, só poderá servir para lhe informar o que ele deveria ter feito e não
fez. Antevendo as dores inúteis do arrependimento tardio, ele então fugirá
instintivamente do confronto, abstendo-se de julgar sua vida à luz do que agora sabe.

Embalsamado num nicho de diletantismo estético, o conhecimento perderá toda a sua


força iluminante e transfiguradora, reduzindo-se a um penduricalho inócuo, adorno
inofensivo de uma velhice calhorda. Eis onde termina a vida daquele que, na
juventude, em vez de esperar até compreender, cedeu à tentação lisonjeira do
primeiro convite e se tornou um “participante”, um “transformador do mundo”.

Eu também caí nessa, mas tive a sorte de minha carreira de transformador do mundo
ser detida, logo no início, por uma chuva de perplexidades paralisantes que me
forçaram a largar tudo e a ir para casa pensar. Acossado de perguntas que
ultrapassavam minha capacidade de resposta, fui privado, pelo bom Deus, da
oportunidade de tentar moldar o mundo à imagem da minha própria idiotice.

Mas essa sorte é rara. O Brasil é o país do gênio prematuro, degradado em bobalhão
senil logo na primeira curva da maturidade. Quando contemplo esse circo decrépito da
revista Bundas, onde cômicos enferrujados se esforçam para repetir as
“performances” de 30 anos atrás, que na sua imaginação esclerosada se petrificaram
em emblemas estereotipados de “vida” e “juventude”; quando, lendo Caros Amigos,
vejo homens de cabelos brancos se esfalfando para recuperar sua imagem idealizada
de patota juvenil dos “Anos Dourados”, não posso deixar de notar que em todas essas
pessoas que falam em nome do futuro o sentimento dominante é a saudade de si
mesmas. Não falta a esses indivíduos a consciência de que suas vidas falharam. Mas
atribuem a culpa aos outros, ao governo militar que impediu sua geração de “chegar
ao poder”. No entanto, a desculpa é falsa, porque, mal ou bem, eles estão no poder.
Eram jovens militantes, hoje são deputados, são catedráticos, são escritores de
sucesso, são formadores de opinião. Por que, então, lambem com tanta nostalgia e
ressentimento as feridas da sua juventude perdida? É porque ela foi perdida num
sentido muito mais profundo e irremediável que o da mera derrota política. E agora é
tarde para voltar atrás.
Miséria lingüística

Olavo de Carvalho

O Globo, 5 de agosto de 2000

Aquela história do sujeito que tinha apenas três neurônios – o de emissão, o de


recepção e o de bloqueio geral – já se tornou demasiado complexa para ser verdade.
Três, afinal, já é um silogismo, o começo de uma dialética. O normal, hoje, é ter um
neurônio só, que acende ou apaga por reflexo condicionado. Isso, evidentemente, se
você é um intelectual, um privilegiado que conseguiu, mediante aprendizado
universitário, condicionar o neurônio. Se não, ele acende ou apaga ao acaso.

Por exemplo, outro dia escrevi que o fascismo foi um dos movimentos revolucionários
do começo do século. Um jornalista que me leu, sendo comunista desde o ADN,
adorando revoluções e não concebendo que alguém desgostasse delas, entendeu que
era um elogio do fascismo. No mesmo artigo, mostrei que o dogma comunista que
explica o nazismo como ideologia capitalista era uma piada grotesca, dado que os
nazistas identificavam “capitalistas” com “judeus” e odiavam por igual as duas coisas,
estando nisto, aliás, perfeitamente concordes com Karl Marx. Sabem o que o sujeito
concluiu daí? Que eu estava falando mal dos judeus! É bem possível que essa reação
seja autodefesa neurótica de um comunista, ferido no seu ponto fraco de discípulo de
um racista professo. Karl Marx, afinal, era o mesmo que se referia aos russos como
“lixo étnico”, celebrava como preço do socialismo a destruição de uns quantos “povos
inferiores” e, no seu círculo familiar, usava costumeiramente de expressões do tipo
“negro pernóstico”. O seguidor devoto de um guru desse naipe tem razões para se
sentir de rabo preso e espumar de ódio à simples menção da afinidade de nazismo e
comunismo, afinidade que, no regime comunista, o rabino Schneerson e seus
discípulos bem experimentaram na carne, e que, é claro, os comunistas fazem tudo
para esconder, mesmo à custa de projetar intenções anti-semitas num notório
apologista do judaísmo.

Mas, enfim, por malícia e burrice ou por burrice em estado puro, o fato é que, odiando
capitalistas e não conseguindo imaginar que alguém julgasse normal e decente a
profissão de capitalista, o sujeito achou que falar em capitalistas judeus era falar mal
dos judeus.

Isso é o que, no Brasil de hoje, se chama “ler”. Não direi quem é o jornalista, em
primeiro lugar, porque, por mais que eu o diga, isto não fará com que ele seja alguém.
Segundo, porque não se trata de um caso isolado de burrice individual, e sim de
sintoma de burrice ambiental.

Terceiro, porque não acredito poder desinfetar o ambiente jogando naftalinas nas
baratas uma por uma. Infelizmente, também não conheço nenhum spray intelectual
que, espalhado no ar, faça aumentar a quota de neurônios per capita. Só o que posso
é tentar extrair, dos casos singulares, o que têm de genérico que ajude a explicar
outros casos.

No exemplo acima, o notável é que o cidadão, vendo em mim um direitista, um inimigo


portanto, nem por um instante suspeitou que no vocabulário do inimigo as palavras
teriam valores diversos (a rigor, inversos) dos que tinham no seu. Perceber essas
diferenças é um instinto semântico, que se aprimora pela leitura. Sua perda ou atrofia
assinala o analfabetismo funcional. Observada num profissional das letras, é
alarmante. No jornalismo de duas décadas atrás, tão óbvio rombo de compreensão
não passaria despercebido ao mais sonolento dos copy-desks. Por favor, não me
atribuam intuito polêmico ou de revide. Não se pode armar uma discussão partindo de
tão baixo. Este caso, para mim, é apenas uma amostra de laboratório, não mais
odiosa, em substância, do que uma lombriga ante o analista clínico. Só que,
surpreendidas em estado de proliferação pandêmica, até lombrigas se tornam
temíveis. E o fato é que o modus legendi do aludido cidadão está se tornando de uso
geral. A língua dos nossos debates públicos está se reduzindo a um instrumento no
qual se pode xingar, denunciar, acusar, caluniar – mas não se pode compreender
nada. O escritor que, por medo de interpretações maliciosas, se rebaixe a escrever
nos cânones dela, logo deixará de ser um escritor para ser um garçom de fast-food
mental.

As grandes crises e revoluções fazem-se sempre antecipar, na esfera lingüística, por


uma simplificação redutiva que rebaixa a comunicação a uma troca de estimulações
padronizadas. Hyppolite Taine descreve, nas “Origines de la France Contemporaine”,
a longa degradação que foi tornando a língua francesa do século XVIII um sistema de
fórmulas prontas, bom para as generalidades da oratória revolucionária, mas no qual
não se podia traduzir Dante nem Shakespeare, criar personagens de carne e osso ou
expressar uma única impressão viva. Thomas Mann, Jacob Wassermann e sobretudo
Karl Kraus observaram análogo declínio na língua alemã do pré-nazismo. A língua
portuguesa do Brasil, nas últimas décadas, começou por perder duas pessoas verbais
– fato inédito nos idiomas ocidentais modernos – restringiu drasticamente o
vocabulário das classes “cultas”, aboliu a prioridade dos termos próprios e hoje vai
perdendo, com o faro das nuances, até mesmo a capacidade de distinguir entre
sentido direto e indireto. O que nos falta é um Karl Kraus para documentar essas
perdas e revelar como os totalitários de sempre tiram proveito da miséria lingüística
que eles mesmos criaram.
Nacional-masoquismo

Olavo de Carvalho

Época, 12 de agosto de 2000

O nacionalismo brasileiro quer

conservar os anéis e sacrificar os dedos

“Pseudomorfose” é formação simulada. Na filosofia de Oswald Spengler, designa a


cultura que começa a tomar impulso próprio, mas depois se revela nunca ter passado
de apêndice, de sombra de uma vizinha mais forte.

O Brasil é uma pseudomorfose da cultura americana? Não sei, mas, se algo pode ser
alegado em favor dessa hipótese, está justamente no modo brasileiro de ser
nacionalista. É no estilo de nossa auto-afirmação nacional que se vêem com nitidez os
traços de um espírito servil e dependente, que quanto mais clama por autonomia mais
o faz nos termos ditados de fora, e quanto mais se remexe mais aperta o laço que o
prende.

A política de dominação global age em quatro frentes: a abertura econômica, a


implantação de padrões culturais, a conquista da hegemonia territorial e o
enfraquecimento divisionista dos Estados nacionais. Dos quatro pontos, o menos
perigoso é o primeiro: a experiência mundial já provou que qualquer país pode
beneficiar-se da globalização econômica sem perder nada da identidade cultural e da
soberania territorial e política. Mas nosso nacionalismo oferece obstinada resistência à
penetração estrangeira no campo econômico e se abre gostosamente,
deleitosamente, canalhamente a ela em tudo o mais. Por exemplo, quem não viu,
ainda há pouco, as mesmas pessoas que fervem de indignação ante a venda de
empresas estatais irem engrossar o cordão do indigenismo importado, que além de
lutar pela transferência de fatias inteiras de nosso território para a administração de
ONGs estrangeiras ainda tem a impérvia cara-de-pau de negar, em nome de direitos
ancestrais recém-inventados em Nova York e Genebra, a unidade da cultura brasileira
e a legitimidade mesma da existência do Brasil enquanto nação? Nada neste mundo
pode explicar que uma ou duas ou 100 empresas públicas sejam bens tão mais vitais
e mais dignos de ser preservados que a unidade cultural, o território e a soberania
juntos.

Na mesma linha de conservar os anéis sacrificando os dedos, os apóstolos de estatais


não vêem nada de mais em que parcelas da administração pública sejam transferidas
para ONGs financiadas do Exterior, como se vem fazendo com o “serviço civil”, que
anualmente porá a mão-de-obra gratuita de milhões de jovens brasileiros à disposição
de entidades notoriamente ligadas a interesses estrangeiros.

Pior ainda, esses mesmos sujeitos estão na linha de frente do combate destinado a
destruir o modelo brasileiro de integração racial para implantar, em lugar dele, o
americano. O modelo brasileiro não é perfeito, mas é, até agora, o melhor do mundo.
Ele consiste em dissolver as diferenças de raça no convívio diário, no sincretismo
cultural e na miscigenação, com um mínimo de interferência estatal no processo. O
americano constitui-se de grupos separados, cada um fortemente impregnado de sua
identidade racial, convivendo sob a proteção do Estado-bedel e de uma parafernália
de leis que fomentam a suspeita de todos contra todos, na base cínica do dividir para
reinar. Trocar aquele por este é um despropositado sacrifício masoquista, é importar o
problema em vez de exportar a solução.

Com nacionalistas como esses, quem precisa de imperialistas?


Petismo e revolução armada

Entrevista de Olavo de Carvalho à Rádio Gaúcha

21 de agosto de 2000

Transcrição de Luiz Triches dos Reis

NB – Todas as correções que introduzi estão assinaladas entre colchetes. – O.


de C.

Ranzolin: O senhor é filósofo e jornalista, conhecido dos gaúchos pelos artigos


que publica em Zero Hora. Por que o senhor tem afirmado que a esquerda
tornou-se hegemônica?

Olavo de Carvalho – Veja que, desde que começou o regime militar, a esquerda
brasileira começou uma vasta operação, que já vem de muitas décadas, que consistia,
primeiro, em infiltrar-se em todos os escalões do aparelho de Estado. Segundo: tomar
de maneira avassaladora todos os meios de comunicação, as instituições culturais, o
aparato educacional e até mesmo os consultórios de psicologia, consultórios de
aconselhamento matrimonial, todos os canais por onde o povo ouve alguma coisa.
Isso chama-se, na estratégia do teórico esquerdista Antonio Gramsci, que é a grande
influência da esquerda brasileira, a “Revolução Cultural”. Ou seja, operar uma
transformação tão sutil na escala de valores, no imaginário, na mente das pessoas,
que se possa fazer uma transição para um governo comunista quase que de maneira
indolor. A dor só será sentida depois, quando os comunistas já estiverem com o poder
na mão e começarem as perseguições, as ações punitivas. Mas a transição ninguém
percebe que já está acontecendo, e acontece diariamente, diante dos nossos olhos,
sendo que o público está muito mal-informado. Veja, por exemplo, o PT. Ele é um
partido sui generis. Se você vê a propaganda do PT, o que [os candidatos dele] falam
em palanques, anúncios, artigos e discursos na Câmara, é uma coisa. Se você lê o
material interno, discutido em congressos do PT, é outra. Para fora eles falam em
combate à corrupção, em democracia. Dentro, eles falam em tomada do poder, em
luta de classes, em toda aquela velha conversa comunista. É um partido que por
dentro é uma coisa, por fora, é outra. Isso já é uma coisa de uma desonestidade tão
grande, que nem vejo como um partido desses possa existir legalmente. É o único
partido que adquiriu os meios e o direito de agir na esfera legal e na ilegal. Por um
lado participa de eleições, por outro lado, tem ramificações [clandestinas] e apóia o
movimento armado. Ou uma coisa ou outra. Ou você participa da esfera legal, das
eleições, ou você parte para a esfera ilegal e pega em armas e faz uma revolução
armada. Agora, o PT tem o direito de atuar nas duas frentes.

Ana Amélia: Se há essa infiltração da esquerda dentro do “establishment”


governamental e em todas as áreas que o senhor acabou de citar, como é que
eles não denunciaram os desmandos no caso do TRT de São Paulo, por
exemplo, já que eles estão dentro do sistema?

Olavo de Carvalho – Veja, tudo isso é feito de uma maneira lenta e calma. O processo
é de uma sutileza fantástica. Na Itália, onde essa técnica foi utilizada pela primeira
vez, o Partido Comunista tinha preparado a tomada do poder durante quarenta anos,
tanto que ofereceram ao seu secretário-geral, Palmiro Togliati, o cargo de primeiro-
ministro. Ele não aceitou, por achar que era prematuro. Isso depois de quarenta anos.
Imagine a sutileza do negócio. Isso não é feito do dia para a noite. E veja: incentivar a
corrupção para depois denunciá-la é uma coisa característica [dos comunistas]. A
atividade cultural da esquerda, dentro das escolas, sobre a mente popular, visa
sempre destruir o centro de valores, o centro de moral. Isso incentiva [a corrupção, é]
uma das principais causas da corrupção. Aí, quando a corrupção acontece, o partido a
denuncia. E jamais assume a sua responsabilidade por esse estado de coisas.

Ranzolin – Professor, não quero perder a oportunidade de perguntar o que o


senhor quer dizer quando afirma que dentro da ideologia comunista o
significado de luta pela democracia tem um significado específico, bem diferente
do que tem na linguagem corrente.

Olavo de Carvalho – Isso é uma questão clássica, vem de 1910, quando o Lenin fez a
revolução na Rússia. Você faz a revolução em duas etapas, a primeira [é]
democrática, e a segunda é a revolução socialista. Exatamente como na Rússia, onde
houve duas revoluções, exatamente como na China, ou em Cuba. Primeiro uma
mudança democrática que só serve para abalar a estrutura do sistema. Na hora em
que ele está destruído, você cria um caos, onde o grupo que comanda o processo
adquire o poder absoluto. “Luta pela democracia” é um termo técnico, uma etapa para
a revolução comunista. No Brasil, ninguém mais sabe disso. Fora do círculo que
promove isso, o povo não sabe. O povo não tem mais informação, está acreditando
que o comunismo acabou, que não existe mais, não é? A própria esquerda alimenta
isso. Abrindo um parêntese: eu não sou contra a esquerda, não. O que não deve
existir é uma esquerda revolucionária, isto é, a pior das corrupções, das maldades. As
pessoas só acreditam em corrupção quando envolve dinheiro. Quando é uma
corrupção gigantesca, que envolve a tomada do poder, para instalação de um poder
absoluto, [o povo] não percebe que isso é corrupção.

Ranzolin – Mas aqui no Brasil houve, o senhor mesmo tocou nesse ponto, uma
luta pela redemocratização, uma luta para retomar a normalidade democrática.
Aí o senhor diz que apenas uma parte dos objetivos foi alcançada, a parte
menor. Qual era a parte maior?

Olavo de Carvalho – No plano da esquerda — esse plano inclusive está escrito, está
falado –, a revolução tinha duas etapas. A primeira era a redemocratização, que era
simplesmente para criar uma situação caótica, seguida pela tomada do poder. É
exatamente o que está acontecendo. Se você [examinar] todo o processo
redemocratizatório e a Constituição de 1988, [verá que ele] é todinho conduzido pela
esquerda. Um grupo de esquerda muito discreto, não necessariamente formado pelas
pessoas que aparecem. Não estou falando em Luíza Erundina e Olívia Dutra, mas de
gente muito mais sofisticada, que estudou o marxismo por vinte ou trinta anos,
[pessoas] que estão habilitadas a implementar esse processo da revolução sutil, da
revolução cultural, que eles chamam também de revolução passiva, o que é maligno,
porque a revolução passiva é a que acontece sem ninguém perceber e onde a falta de
reação do povo é interpretada pela cúpula comunista como aprovação.

Ranzolin – O senhor é a favor da extinção da esquerda?

Olavo de Carvalho – De maneira nenhuma! Todo país tem de ter esquerda, centro e
direita. O que não pode é um partido usar instrumentos revolucionários.

Ana Amélia – O senhor citou alguns partidos que estariam comprometidos com
essa revolução. Agora, o PPS, o PSB de Arraes, o PDT de Brizola, o PSDB,
estariam nessa linha?

Olavo de Carvalho – O PSB eu não tenho informações corretas, eu não posso dizer.
Mas as ligações entre o PT e o MST são evidentes. Há uma parceria. Um faz as
coisas na esfera da violência e o outro se senta no Parlamento. Se você olhar a
história do comunismo, vai ver que é assim há séculos. Só que a fórmula é escondida
do povo. O povo não sabe dessa diferença [entre os] discurso das teses internas do
PT e a sua propaganda. Essa diferença é notável. Mas o povo não lê esses
documentos.

Ranzolin – O que fazer para fortalecer a democracia do País, em última análise?

Olavo de Carvalho – Em primeiro lugar, é necessário que os partidos que não são de
esquerda, que não são coniventes com essa coisa, tomem consciência de que nós
estamos vivendo em um processo revolucionário em preparação acelerada. Estamos à
beira da tomada do poder pelos comunistas num processo revolucionário. O Brasil foi
designado para ser o lugar onde a fênix comunista vai renascer. Isso é uma decisão
firme tomada [pela] esquerda, o processo está em curso, acontecendo [sob as] nossas
barbas. A primeira coisa é tomar consciência e se informar urgentemente. E adquirir
também o senso de ter as informações para perceber que coisas que outros partidos
consideram imorais, para os comunistas são perfeitamente normais. Por exemplo,
você fazer uma campanha só de fachada, sem a intenção verdadeira de levar aquilo
adiante, é uma coisa impensável. Para os comunistas, não. Por exemplo, a famosa
Campanha Contra a Fome e a Miséria, do Betinho. Para o público o Betinho dizia uma
coisa, em particular [dizia que seu objetivo] não era nada daquilo. Era chegar à
socialização dos meios de produção. Dentro do regime comunista. [Em] público, [a
campanha] era [para] socorrer os pobres numa emergência, no recinto privado eram
recursos para fazer a revolução. Essa campanha contra a corrupção que [está] aí,
você veja que nos autos de acusação nunca tem gente da esquerda, nunca tem gente
deles. Compreendeu? Isso está muito bem articulado. Se você pegar a classe
jornalística de São Paulo e Rio, 75% são petistas e estão coniventes com isso.

Ana Amélia – O fato de eles cuidarem mais da moralidade não é para ter essa
imagem de pureza perante a opinião pública?

Olavo de Carvalho – Bom, é muito simples, de fato eles cuidam mais da moralidade.
Pelo seguinte: eles têm mais poder sobre os seus militantes. Eles visam ao processo
revolucionário e não vão permitir que os seus militantes estraguem a revolução
roubando um pouquinho de dinheiro aqui e ali. São muito policiados, nesse sentido.
Eles passam a impressão [de honestidade], mas essa honestidade é só com o
dinheiro público. O que eles estão fazendo por trás, essa desmontagem do sistema,
essa operação revolucionária clandestina, é infinitamente mais desonesta do que
qualquer desvio do dinheiro público.

Ana Amélia – Como é que a direita está se articulando contra isso?

Olavo de Carvalho – Em primeiro lugar, não existe mais direita nenhuma. Há partidos
muito enfraquecidos que nem têm uma tomada de posição. O pessoal do PFL só tem
discurso em favor da iniciativa privada. E ponto. Como um discurso desses pode se
opor a uma operação dessas [dimensões]? Não há ninguém no PFL que saiba disso
que eu estou falando!

Ana Amélia – Nem o ACM?

Olavo de Carvalho – Que ACM? Aquele não sabe nada. É um homem ingênuo. É um
bobão. É isso o que eu estou dizendo: [é] preciso cultura, é preciso conhecimento, é
preciso ter estudado história. Nossos políticos são todos semi-analfabetos, não lêem
livros. A história das revoluções comunistas ninguém conhece no Brasil, e [ela] está
acontecendo de novo sob as nossas barbas.

Ana Amélia – Nesse aspecto, pelo menos um setor não está agindo com a
sutileza que o senhor comenta. É o caso do MST. Que é um dos movimentos
mais importantes…
Olavo de Carvalho – (interrompendo) O MST é um dos braços. Como eu disse,
existem duas frentes, ou dois andares. Existe a atuação legal, através do Partido
Comunista (1), e a ilegal, que é preparar a guerrilha, os guerrilheiros, a rede de
espionagem. O MST é uma das alas do negócio. Mas em perfeita consonância com o
resto da esquerda. Não se estudam mais essas coisas. As pessoas ignoram. Na
juventude fui comunista. Estudei as obras de Lenin, de Karl Marx. Fui um comunista
até muito aplicado. Para um comunista experiente, isso que eu disse é arroz-com-
feijão, mas, para a população brasileira, isso aqui é um [mistério] (2), ninguém tem a
menor idéia disso. Tem pessoas aí que, se você [lhes disser] que o PT é um partido
comunista, dirão que você está maluco, porque o PT jamais fala isso em público.
Então, eu digo: leiam as atas dos congressos do PT, leiam o material interno do PT,
que não é secreto, e vocês verão que as decisões, a estratégia, tudo é exatamente
igual a todos os partidos comunistas do mundo.

Ranzolin – E qual é professor, qual é o recurso ideológico dos liberais dentro


desse quadro?

Olavo de Carvalho – Veja bem, em primeiro lugar: nunca se deve desejar destruir a
esquerda. Tem de existir uma esquerda. Mas ela deve ser disciplinada para abdicar
dos recursos revolucionários. Ela não pode ao mesmo tempo participar do processo
eleitoral legal e estar tramando a guerrilha, treinando guerrilheiros, juntando armas,
criando um aparato de espionagem. Como existe hoje uma rede de espionagem
petista, todos sabemos que existe, com um serviço secreto muito mais vasto que
qualquer serviço secreto do governo. Então, temos um partido político que tem o
privilégio de operar secretamente campos de guerrilha – e não é bem um partido, é um
aglomerado de partidos de esquerda – que tem uma série de direitos e de
possibilidades que os [outros] partidos não têm. Você imagine, por exemplo: se se
descobrisse que o PFL está treinando um grupo de terroristas para soltar bombas no
PT, toda a cúpula do PFL seria presa na mesma hora. No entanto, nós descobrimos
que o PT, o PC do B, através de suas ligações clandestinas, estão treinando
guerrilheiros, e não acontece nada… Note bem que o Governo Fernando Henrique é
cúmplice disso aí.

Notas

(1) Evidente lapsus linguae da minha parte. Eu quis dizer Partido dos
Trabalhadores.Mas no fundo é a mesma coisa.

Na transcrição consta “estouro”, mas lembro-me claramente de ter dito “mistério”.


O país dos bois de piranha

Olavo de Carvalho

Zero Hora (Porto Alegre), 27 de agosto de 2000

A opinião pública brasileira nunca soube grande coisa dos métodos de ação
comunistas. Desinteressando-se do assunto desde que lhe disseram que o
comunismo não existe mais, passou a saber menos ainda. Quanto menos sabe, mais
tolamente se deixa enganar por velhos e banais expedientes de camuflagem que o
estudioso, mesmo amador e ocasional, reconhece à primeira vista. E não me refiro só
ao povão, mas às classes letradas, aos dirigentes políticos e empresariais. A
ignorância do assunto, entre essas pessoas, é total, compacta e renitente. Daí a
facilidade com que qualquer militante com uns aninhos de treinamento em Cuba faz a
todas elas de idiotas, usando-as de instrumentos para operações que têm por objetivo,
quase declaradamente, a sua destruição.

É difícil, hoje em dia, encontrar alguém que tenha, por exemplo, a mais remota
consciência de que toda campanha publicitária e jornalística por trás da qual haja o
dedo comunista é quase infalivelmente o disfarce de alguma operação que visa a
objetivos bem diversos dos alegados. Vou ilustrar como a coisa funciona. Durante uma
década houve uma mobilização maciça de jornalistas, intelectuais e artistas do mundo
todo para despertar a indignação da humanidade ante a situação dos chamados
“meninos de rua” do Brasil. Eram reportagens, filmes, programas de TV, cartazes,
reuniões, espetáculos de teatro, exposições, um escarcéu dos diabos. Com essa
campanha, obteve-se da sociedade o apoio para a instalação de ONGs destinadas a
socorrer os pobres meninos. Hoje elas são, no Rio de Janeiro, 450. Os meninos à
solta nas ruas da cidade são 440, segundo rigorosa contagem da Faperj, Fundação de
Amparo à Pesquisa. Há portanto uma ONG para cada um e ainda sobram dez ONGs.
Elas recebem verbas do Exterior e amparo oficial, fazem lobby à vontade no Senado e
na Câmara e, na reforma do Estado, obtiveram o direito de assumir sob seus cuidados
fatias inteiras da administração pública federal (como por exemplo o “serviço civil”,
hoje sob as ordens do Viva-Rio).

Os meninos desamparados não sumiram das ruas, mas, de um ano para cá, deixaram
de ser assunto, desapareceram do cardápio de urgências da mídia. Sim, para que
continuar falando em meninos de rua? O objetivo da campanha foi atingido: estender
mais um tentáculo do Estado paralelo que hoje nos governa. Os meninos, como
papéis higiênicos usados, foram jogados fora.

O público não tem nem mesmo idéia de que esse gênero de operações exista. Sua
inteligência, privada de informações a respeito e desviada para escândalos financeiros
escavados por colaboradores das mesmas operações, pode mesmo negar-se a
admitir que exista alguém capaz de tanta malícia. Sim, nosso povo está tão idiotizado
pelo noticiário, que já não consegue conceber malícia e safadeza senão em vulgares
desvios de dinheiro público. Que interesses e ambições infinitamente mais vastos
possam usar de doses desproporcionalmente maiores de astúcia maquiavélica, eis
algo que nem passa pela sua imaginação. Enquanto houver Sérgios Nayas e Lalaus
para servir de bois de piranha – “y que los hay, los hay” -, os condutores da grande
fraude poderão continuar operando tranqüilos ante os olhos sonsos de um povo
hipnotizado.

A operação que mencionei é das mais simples, para os profissionais da área. Outras
bem maiores envolveram continentes inteiros, produzindo um efeito bem próximo do
engano universal. A mais notável foi o “antifascismo” dos anos 30, truque inventado
por Karl Radek, que mobilizou milhares de intelectuais do Ocidente numa onda de
entusiasmo romântico que marcou profundamente as manifestações culturais da
época — tudo só para encobrir a secreta colaboração com que Stalin e Hitler, já quase
uma década antes do famoso pacto, se ajudavam a liquidar suas respectivas
oposições internas. E pensar que até hoje há intelectuaizinhos imbecis que vivem da
nostalgia desse “antifascismo” de encomenda…

O que confunde ainda mais as pessoas, nas operações que mencionei, é que vêem
por trás delas o apoio norte-americano e, habituadas a raciocinar segundo as
categorias estereotipadas da época da guerra fria, supõem que nada pode haver de
comunista nessas coisas. Quando compreenderão que, no novo mundo unipolar, os
remanescentes comunistas se tornaram um dos principais instrumentos da política
exterior norte-americana? Desaparecida a União Soviética, neutralizada a China pelo
narcótico dos compromissos comerciais, os comunistas deixaram de ser uma ameaça
para EUA, mas no mesmo instante se tornaram úteis para a sua estratégia, na precisa
medida em que, desarmados para uma guerra entre potências, obrigados a ações
mais dispersas e regionais, ainda têm organização e meios para constituir ameaça
para aqueles Estados menores e mais fracos dentro dos quais atuam – aqueles
mesmos Estados que a política globalista visa a enfraquecer ou destruir. Tudo isso é
claro, depois que a gente percebe. Mas quantos percebem?
Astúcias Indígenas

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 31 de agosto de 2000

Os índios que anarquizaram os festejos de 500 anos de Brasil e foram reprimidos pela
polícia estão exigindo uma indenização bilionária. Um dos pretextos é: “danos
culturais”. Mas quanto o Estado deveria cobrar deles pelo dano que, a serviço de
potências estrangeiras, infligem à cultura nacional ao negar publicamente a
legitimidade da existência do Brasil enquanto nação? Sim, quando proclamam que o
território é deles, que todos os que viemos nas caravelas ou nas levas de imigrantes
somos intrusos e usurpadores, o que reivindicam é a reintegração de posse do maior
latifúndio que já existiu na face da Terra, e a conseqüente dissolução do Estado
indevidamente instalado na sua propriedade por um bando de posseiros, arrivistas e
criminosos.

Um Estado que aceita discutir nesses termos não precisa nem mesmo ser destruído:
ele já acabou. Pois o protesto dos índios não se voltou contra o governo, contra o
regime, contra esta ou aquela lei: voltou-se, com toda a força de uma irracionalidade
fingida, contra a civilização brasileira no todo – excetuado o elemento indígena – e
portanto contra a existência do organismo estatal que é a cristalização jurídica e
política da sua obra de cinco séculos. Que o façam de maneira acentuadamente
paradoxal, abrigando-se à sombra das leis de um Estado soberano para negar a
soberania do mesmo Estado, é um curto-circuito lógico que poderia ser atribuído à
ingenuidade pretensiosa de povos ainda mal despertos para as realidades complexas
da civilização moderna, se não fosse antes um nonsense planejado, obra da astúcia
dos estrategistas europeus e norte-americanos que os orientam, todos eles bem
treinados na técnica de suscitar crises pela estimulação contraditória da opinião
pública, na arte de desarmar a reação de um povo pelo choque dos sofismas
paralisantes. Criar “movimentos sociais” no Terceiro Mundo é hoje uma profissão
especializada, ensinada a alunos europeus e norte-americanos em cursos de alto nível
nos organismos internacionais. Nenhuma, absolutamente nenhuma reivindicação ou
agitação se elevou neste país nos últimos vinte anos sem ser planejada por
engenheiros sociais estrangeiros, subdiada por fundações e governos estrangeiros,
respaldada pela mídia estrangeira e enquadrada meticulosamente numa estratégia
global em que os interesses dos reclamantes entram apenas como gatilhos para
desencadear transformações que vão muito além do que esses enfezados marionetes
possam imaginar.

Cada um desses movimentos é pura chantagem, calculada para desferir um golpe


mortal na soberania do Estado brasileiro. É mais um passo na marcha incessante e
brutal de centralização, onde um poder maior, com pretensões ao monopólio, dissolve
os poderes intermediários com a ajuda dos grupos menores, descontentes com a
situação local.

Já escrevi, outrora, em defesa das culturas indígenas. Mas, hoje, discutir a justiça ou
injustiça da causa indígena em abstrato e fora do contexto político mundial é cair num
engodo lógico, num jogo de diversionismo hipnótico. Ninguém que queira justiça
começa por negar a autoridade do próprio tribunal ao qual recorre. O que os índios e
seus mentores estão exigindo não é justiça: é a destruição do tribunal.

A manifestação ocorrida nos festejos tem as marcas inconfundíveis de uma operação


planejada por cientistas comportamentais para gerar artificialmente um
constrangimento sem saída: permiti-la seria dar caráter oficial à negação da
legitimidade do Estado brasileiro; reprimi-la é expor-se a humilhações na mídia
internacional e a chicanas jurídicas como esse grotesco pedido de indenização.

Os índios, um dia, foram povos indefesos, que só sobreviveram à derrota graças à


generosidade do vencedor, generosidade que eles próprios jamais tiveram para com
as tribos que guerreavam. Hoje, eles são uma arma temível nas mãos das potências
que regem o mundo, e aproveitam-se dessa situação para tirar vantagens abusivas e
destruir o Estado que os acolheu e lhes deu direitos especiais. A malícia de sua
estratégia revela que já não têm mais nada do pretenso caráter “primitivo” que um dia
justificou a promulgação desses direitos: alcançaram a maioridade, tornaram-se um
grupo político moderno, astucioso e perigoso, aliado de interesses imperialistas e
inimigo jurado da nação brasileira.
Paradoxo estatal

Olavo de Carvalho

Época, 9 de setembro de 2000

Se a universidade forma a classe dominante, por que produz tão poucos empresários?

Se você perguntar a um marxista o que é universidade, ele lhe dirá que é a máquina
de autoperpetuação da ideologia da classe dominante; a engenhoca de fazer com que
os filhos de capitalistas pensem como capitalistas.

Praticamente todos os membros mais falantes da nossa classe falante acreditam


nisso.

O que eu queria era que um deles estivesse na minha pele, terça-feira passada, no
Forum Universidade-Empresa promovido na PUC gaúcha pelo Instituto de Estudos
Empresariais. Pois a questão que ali me foi proposta mostrou como esse sentencioso
lugar-comum é apenas uma bolha de sabão, que não resiste a um sopro.

A questão foi: Por que a universidade brasileira não forma pessoas com mentalidade
de empresários, e sim de empregados? A premissa da pergunta é um fato notório: os
recém-formados se queixam sempre de falta de vagas no mercado de trabalho, nunca
de dificuldades para iniciar seus próprios negócios. Trazem com o diploma a
expectativa de arranjar emprego, não de assumir a responsabilidade pessoal de criar
empregos para quem não tem diploma. Gerar riqueza e oportunidades é obrigação do
Estado: não deles. Bela classe capitalista!

Respondi o seguinte: as idéias que fizeram a cabeça das nossas elites foram sempre
autoritárias, coletivistas e uniformizantes — o jesuitismo ou ideologia da Contra-
Reforma; o positivismo ou ideologia do Estado científico redentor; o marxismo ou
socialismo internacional; o fascismo ou socialismo nacional. Em todas, o objetivo da
educação é formar algum tipo de militante. E que perspectiva de futuro tem um
militante? Uma só: tornar-se membro da nomenklatura, ascender na burocracia. Tal é,
pois, o ideal de vida implícito que a nossa educação transmite aos jovens. O burocrata
é o inverso do empresário: ele não concebe a vida como disputa em campo aberto, e
sim como “plano de carreira”, fechado e garantido. E o burocrata frustrado se revolta
contra o Estado que lhe sonega, junto com essa garantia, um sentido de vida

Mas a resposta é menos interessante do que a pergunta e do que o fato mesmo de


que fosse formulada por um jovem empresário, chocado com o espírito servil de seus
companheiros de geração, espírito que, com a maior facilidade, se transmuta em
rebelião de escravos — com burgueses no papel de escravos. A constatação desse
paradoxo basta para explodir o lugar-comum acima citado: pois ou a universidade não
é o que os marxistas dizem, ou a classe dominante no Brasil não é empresarial e sim
burocrático-estatal. No primeira hipótese, adeus teoria marxista da ideologia. Na
segunda, a universidade forma, sim, a classe dominante; mas não uma classe
capitalista, e sim uma já socialista ou quase, a qual, quanto mais cresce, tanto mais
multiplica, com as vagas universitárias que ela adora ampliar, o exército de burocratas
sem emprego, em cujo ressentimento ela em seguida se escora para clamar por mais
socialismo, mais Estado, mais burocracia. E, neste caso, jovens socialistas, quando é
que vocês vão perceber que o que solapa o seu sentido de vida não é o capitalismo –
entidade fantasmal num país sem empresários –, mas sim a ideologia que faz de
vocês mendigos de cargos e se alimenta da falta de cargos?
O maior dos genocídios

Olavo de Carvalho

O Globo, 9 de setembro de 2000

Quando escrevi — na revista Época — que no Brasil o grupo mais discriminado eram
os cristãos, nada disse sobre as perseguições que sofriam em escala mundial. Digo
agora: nenhuma comunidade humana ofereceu mais vítimas à sanha assassina dos
totalitários do que a Igreja cristã. Só na Ucrânia os mortos na perseguição religiosa
chegaram a 4 milhões. É impossível um calculo global exato, mas, entre as revoluções
francesa, russa, mexicana, espanhola, chinesa e cubana, o número de cristãos que
pereceram nas mãos do regime que professou, nas palavras de Lênin, “extirpar o
cristianismo da face da Terra”, não foi inferior a 15 milhões.

Se isso não foi o mais vasto genocídio da História, a aritmética elementar foi revogada.

A maioria dessas vítimas eram ortodoxos, mas a Igreja de Roma não saiu ilesa: em
“Catholic Martyrs of the Twentieth Century: A Comprehensive World History” (New
York, Crossroad Publishing, 2000), o historiador Robert Royal mostra que pelo menos
um milhão de católicos foram sacrificados no altar do comunismo.

Esse fato só é ignorado do público graças à omissão proposital da hierarquia romana


e dos intelectuais católicos. Estes são hoje um dos esteios da revolução comunista
que, partindo da Colômbia, ameaça alastrar-se por toda a América Latina. Mas não se
pode dizer que sua escolha seja individual e extra-oficial. Em 1962, na cidade francesa
de Metz, emissários do Vaticano e do governo de Moscou assinaram um acordo
secreto pelo qual a Igreja se comprometia a não fazer, durante o Concílio Vaticano II,
nenhuma condenação ao comunismo. O pacto, inicialmente desmentido pelas
autoridades vaticanas, foi revelado pelo arcebispo de Metz e depois confirmado por
“La France Nouvelle”, boletim do Partido Comunista Francês, pelo diário católico “La
Croix” e pelo próprio cardeal Tisserant, encarregado pela Igreja de assinar o
documento e zelar pela sua aplicação.

Daí por diante, todas as acomodações e cumplicidades com os assassinos de cristãos


tinham, por assim dizer, a chancela conciliar. Mesmo a CNBB, entidade dedicada à
glamurização beata do comunismo, não pode ser acusada de desobediência.

Por isso é que, mais exatas ou menos exatas, as acusações ciclicamente repetidas de
que o Vaticano foi omisso ante as perseguições de judeus não me espantam: por que
é que o pastor há de proteger as ovelhas do vizinho, quando com tanta solicitude
entrega ao lobo as suas próprias?

Os judeus, ao organizar-se mundialmente para preservar a memória de seus mortos,


fizeram algo mais do que agir na defesa de seu próprio direito: agiram no interesse da
espécie humana, fazendo da insistente rememoração dos horrores da II Guerra um
baluarte contra a revivescência do totalitarismo nazista. Cumpriram seu dever para
com todos nós que, nascidos depois do Holocausto, poderíamos ter-nos deixado
enganar pelas promessas de novos tiranos salvadores se a memória de seus feitos
hediondos tivesse se apagado com o tempo em vez de nos ferir os olhos e alertar o
coração a cada vez que nos chegam novos e novos documentos sobre esses fatos.

Contra o comunismo os judeus também não se calaram. Devemos a autores judeus


algumas das primeiras e mais dramáticas revelações dos horrores por trás da Cortina
de Ferro. Arthur Koestler, ex-agente do Comintern, tornou-se objeto de ódio mundial
dos comunistas ao descrever a técnica da destruição psicológica dos acusados nos
Processos de Moscou. Menahem Begin deu-nos o conhecimento do que se passava
nos campos de concentração soviéticos na época em que Stalin brilhava nas telas do
Ocidente como a melhor alternativa a Hitler.

E não pensem que, ao revelar essas coisas, eles tentem poupar os membros da sua
própria comunidade envolvidos em cumplicidade com o comunismo. Ainda
recentemente, os editores dos escritos do rabino Itzhak Schneerson, o grande líder
espiritual preso, torturado e exilado pelos comunistas, não hesitaram em denunciar
que entre os mais ferozes repressores do judaísmo na Rússia estavam os membros
da famigerada Seção Judaica do Partido Comunista, que se prevaleciam de suas
ligações de língua e parentesco para servir de espiões e desmantelar a comunidade
judaica por dentro.

Por que os católicos não têm idêntica coragem de cortar na própria carne para expelir
do seu meio os devotos de São Guevara? Será que estes se tornaram maioria entre
os fiéis, como já o são na CNBB?

Mas o exemplo de coragem não vem só dos judeus. Vem também dos protestantes,
como o pastor Richard Wurmbrand. Este notável homem espiritual romeno teve
destino análogo ao do rabino Schneerson: 16 anos de cárcere, incontáveis torturas
depois confirmadas por uma comissão médica da ONU. Espantado com a ênfase mais
anti-religiosa do que anticapitalista da propaganda comunista na prisão, ao ver-se livre
ele se dedicou a pesquisas históricas que resultaram na descoberta de que Karl Marx
nem sempre fora um adepto do materialismo, mas andara metido num culto satanista
e, segundo depoimento de sua empregada e amante Helene Demuth, fazia estranhos
ritos dentro de casa. Publicados estes achados em “Marx and Satan” (Bartlesville,
Oklahoma, The Voice of the Martyrs, 1986), o livro tornou-se um sucesso de
distribuição clandestina nos países comunistas, ao mesmo tempo que, no Ocidente, os
intelectuais de esquerda, inclusive católicos, faziam o possível para abafar sua difusão
e a discussão séria de suas revelações.

De que adianta proclamar que o catolicismo tem o monopólio da salvação, se tantos e


tão ilustres são entre os católicos os que servem ao império da danação?
Origens do Comunismo Chique

Olavo de Carvalho

Zero Hora, 10 de setembro de 2000

Já na década de 20, Stalin, julgando com razão que seria muito difícil controlar uma
revolução do outro lado do Atlântico, decidiu que o Partido Comunista dos EUA não
devia ser organizado com vistas à tomada do poder, mas à sustentação financeira e
publicitária do comunismo europeu. Por isso o comunismo americano sempre se
dedicou menos à organização do proletariado do que à arregimentação de milionários,
artistas de Hollywood e intelectuais de renome. Para o embelezamento da imagem
comunista, era importante que esses “companheiros de viagem” não se tornassem
membros do Partido, mas conservassem sua figura de personalidades independentes,
de modo que suas manifestações de apoio, acionadas nos momentos propícios,
parecessem iniciativas pessoais e livres, ditadas pela coincidência inocente e
espontânea entre os objetivos comunistas e os altos ideais de uma humanidade
apolítica.

O sucesso do novo estilo, que contrastava com a imagem tradicional de austeridade


proletária, fez com que fosse adotado também na Europa Ocidental, marcando toda
uma época. Mais que uma época: o “glamour” do comunismo chique perpetuou um
modelo pelo qual ainda se recorta o figurino da intelectualidade mundana em Nova
York, invejado e imitado pela macacada letrada do Terceiro Mundo: vão a uma
exposição de Sebastião Salgado e saberão do que estou falando.

Pessoas que ignoram esses fatos têm uma resistência obstinada a acreditar que
efeitos tão vastos possam ter sido planejados por uma elite discreta, quase secreta.
Preferem apegar-se à crença tola de que tudo acontece espontaneamente – crença
que repousa na hipótese de um fluido metafísico em vez da ação concreta de homens
atentos e espertos sobre homens distraídos e tolos. Mas a propagação espontânea
tem, sim, algum papel. Os técnicos do Comintern, contando com a facilidade com que
modas e cacoetes se espalham entre intelectuais mundanos, usavam calculadamente
esse efeito e o denominavam “criação de coelhos”.

A própria elite às vezes tem simplesmente sorte. Ninguém poderia prever que o estilo
do comunismo norte-americano iria sobreviver à queda de prestígio do regime
soviético, perpetuando-se sob a forma da “New Left”, que nos anos 60 pôde continuar
trabalhando pelo totalitarismo sem que sua bela imagem de independência fosse
contaminada pelo que se passava na URSS. Mas às vezes também dá azar. Os dois
principais responsáveis pela criação do comunismo chique, Karl Radek e Willi
Münzenberg, terminaram mortos por ordem de Stalin, tão logo o sucesso mesmo da
operação os tornou inúteis. A idéia inicial fora concebida por Radek, um dos pioneiros
da Revolução Russa, e realizada sob a direção de Münzenberg, um gênio da
propaganda.

Para vocês fazerem uma idéia da eficiência diabólica de Münzenberg, basta


mencionar que foi ele o criador do mito Sacco e Vanzetti. Décadas depois do
julgamento, demonstrada mil vezes a culpa de um e a cumplicidade de outro no
assassinato de um homem desarmado que implorava por piedade, desmascarada a
trama publicitária pelas confissões de membros da equipe de Münzenberg, o que
ainda resta na imaginação popular é a lenda dos operários inocentes sacrificados por
uma sórdida trama capitalista.

“Expert” em farsas duráveis, Münzenberg foi ainda o inventor de outros instrumentos


típicos da propaganda comunista que de tempos em tempos são novamente retirados
da cartola e sempre funcionam, como o “manifesto de intelectuais”, a passeata de
celebridades e, “last not least”, os julgamentos simulados, eleições simuladas,
plebiscitos simulados. A CNBB, portanto, tem por quem puxar. O estilo é o homem.

Münzenberg foi também o criador daquilo a que chamava “política da retidão”. É um


elemento fundamental do comunismo chique: consiste em não bater de frente na
sociedade democrática, mas em parasitar o prestígio de seus ideais morais, fazendo
com que “companheiros de viagem” criteriosamente selecionados posem como seus
mais representativos porta-vozes. Assim o apelo a esses ideais pode ser modulado e
dirigido conforme os interesses de uma estratégia que sutilmente, e como quem não
quer nada, vai levando a sociedade cada vez mais longe deles e mais perto da
revolução comunista. Nossas campanhas da “ética” e “contra a miséria” foram apenas
a aplicação dessa técnica: nem elevaram o padrão moral da nação nem diminuíram a
pobreza, mas criaram a atmosfera na qual, hoje, o treinamento de guerrilheiros é
financiado por verbas do governo sem que isto suscite o menor escândalo. O espírito
de Willi Münzenberg continua baixando no terreiro político brasileiro.
Vocabulário da insensatez

Olavo de Carvalho

O Globo, 16 de setembro de 2000

Duas habilidades que a educação deve desenvolver no estudante são o senso das
relações e proporções no mundo real e o senso das nuances e ambigüidades na
linguagem.

Daí a importância da matemática e das línguas em todo ensino. As duas estão


estreitamente ligadas: sua articulação permite perceber as coisas com nitidez e
verbalizá-las com exatidão. Não é preciso dizer que isso não serve só para os estudos
e o trabalho, mas entra na constituição da personalidade, da consciência e dos valores
pessoais.

Nem é preciso informar que esse efeito não se produz espontaneamente: sua
conquista depende de uma luta interior. Conduzir a alma nessa luta é a mais alta
finalidade da educação, que por isso mesmo recebe seu nome da raiz “ex ducere” =
“conduzir para fora”: letras e números transportam a alma para além do seu horizonte
imediato de sensações e reações, abrindo-lhe o acesso à dimensão da cultura, da
História, do espírito.

Sem ter chegado até aí, ninguém está apto a participar utilmente de um debate
público. Tão logo sai do círculo da sua prática corriqueira para opinar sobre questões
maiores, a alma impropriamente educada está tão desguarnecida, tão fora do seu
elemento, que em sua performance as funções da percepção e da linguagem se
invertem.

Se a percepção normalmente serve para a orientação na realidade e a linguagem para


a articulação e expressão das realidades percebidas, no homem mal instruído que se
debate com questões elevadas a capacidade de aprender direto da percepção torna-
se muito reduzida, e desenvolve-se em seu lugar o hábito de criar falsas impressões a
partir da linguagem: ele reage às palavras por associações emocionais diretas, sem
passar pela referência aos fatos percebidos. Daí uma atmosfera de falsa coerência,
em que a simples coordenação de emoções dentro da psique funciona como
substitutivo do senso de realidade: basta que a reação do indivíduo a uma idéia lhe
seja habitual e familiar para que ele creia saber toda a verdade a respeito.

Em contrapartida, a estranheza, o medo, a aversão são tomados como provas de que


a idéia é falsa e inaceitável em si. O julgamento já não se baseia no exame do objeto,
do assunto, mas na simples constatação passiva do estado interior do próprio sujeito.
Quando essa reação subjetiva é confirmada por análogas reações de outras pessoas
do seu grupo de referência, aí então a falsa sensação de realidade é reforçada ao
ponto de tornar-se uma certeza inabalável, um dado do senso comum.

Infelizmente, boa parte da educação brasileira hoje em dia — do primário ao


doutorado — visa a aprisionar as pessoas definitivamente nesse estado de auto-
referência grupal.

Para averiguar quanto essa deficiência intelectual está hoje disseminada nas classes
letradas, basta analisar um pouco a linguagem da mídia e dos debates políticos. Os
termos mais carregados de valorações, os mais decisivos e de efeito mais garantido
são justamente aqueles que não designam nada, absolutamente nada de real, mas
apenas um complexo de emoções produzidas pela pura imaginação.
O termo conservador, por exemplo, tem no linguajar midiático brasileiro um conjunto
de conotações negativas que, bem examinadas, revelam não corresponder a
nenhuma corrente política existente ou concebível, mas expressar apenas a ojeriza
mental suscitada, na mente coletiva, por uma imagem de fantasia.

O conservador, nessa acepção, é um catolicão moralista e retrógrado, saudoso de


uma civilização agrária tradicional, mas ao mesmo tempo é um industrialista voraz
sem o mínimo respeito pela ecologia; é um adepto da Nova Ordem Mundial e um
nacionalista xenófobo; é um neoliberal que anseia por desmontar o Estado e um
fascista que sonha em instaurar o Estado autoritário onipotente; é um fundamentalista
que tem horror à teoria da evolução e um darwinista social entusiasta do domínio
tecnocrático dos fracos pelos fortes, sendo ademais um fanático e um corrupto
aproveitador sem convicções. Eventualmente é também malufista.

É evidente que o tipo assim delineado não existe e não pode sequer ser concebido
como possível. Não obstante, o epíteto conservador é usado correntemente para
lançar sobre sua vítima todas essas suspeitas ao mesmo tempo e torná-la tanto mais
asquerosa quanto mais indefinível e envolta em mistério. O conservador é aí
propriamente um Frankenstein, composto heteróclito de peças inconexas e sem a
mínima possibilidade de encaixe. Não podendo existir no mundo real, ele é apenas a
projeção das imagens disformes que se agitam na mente que o criou para temê-lo e
odiá-lo. E é tanto mais fácil odiá-lo quanto menos ele pode existir no mundo real.

Uma discussão empreendida com esse tipo de vocabulário jamais será outra coisa
senão um intercâmbio de alucinações. Alucinações, é claro, podem ser disciplinadas e
uniformizadas, de modo que, todos delirando ao mesmo tempo segundo a mesma
pauta, o geral sentimento de concordância forneça à coletividade de alucinados uma
forte impressão de realidade e todos saiam persuadidos de que sabiam do que
estavam falando.

Confúcio dizia que, para moralizar um país, é preciso começar pela restauração do
sentido das palavras. Mas no Brasil essa restauração não vai acontecer, porque teria
de começar por enviar para o hospício os moralizadores.
Tudo o que você queria saber sobre a direita – e vai continuar não sabendo

Olavo de Carvalho

O Globo, caderno Prosa & Verso, 22 de setembro de 2000

O leitor sabe quem são von Mises, Hayek, Rothbard, Kirk, Muggeridge, Horowitz,
Sowell, Babbit, Scruton, Peyrefitte, Jouvenel, Voegelin, Guénon, Nasr, Schuon,
Lindblom, Rosenstock-Huessy, Rosenzweig, Kristol? Se perguntar a um direitista culto,
ele lhe dirá: São os principais pensadores de direita do século XX. Mas, se procurar os
seus nomes na lista de verbetes deste “Dicionário Crítico do Pensamento de Direita”,
não os encontrará. Em lugar deles, topará com uma lista de tarados, psicopatas,
esquisitões, assassinos e genocidas — de Röhm a Eichmann –, muitos deles de
identidade ideológica incerta, além de autores de terceira ordem e personagens de
importância episódica. De escritores significativos, só os mais enfezados e atípicos,
como Charles Maurras, que terminou excomungado por um papa conservador, e Ezra
Pound, cujos escritos políticos ninguém leu e que o próprio autor do verbete só
conhece por referência indireta. Dos direitistas normais sobraram apenas Ortega,
Pareto, Schmitt, Michels, Mosca, Heidegger, Gentile e Burke, além de alguns
brasileiros. Em compensação, há verbetes sobre Walt Disney, cuja única contribuição
ao “pensamento de direita” foi delatar uns agentes comunistas, sobre Eleonora Duse,
da qual só não se pode dizer que não deu nada porque foi amante de um direitista, e
sobre Monica Lewinsky, que para a direita só deu assunto.

Se você quer saber o que é a direita, não há de ser aqui que vai obter uma resposta.
Mas, se quer saber o que a esquerda deseja que você imagine que a direita é, então,
amigo, este é o livro para você. Devore estas páginas em que 120 professores
torraram o melhor de seus neurônios e uma substancial verba de pesquisa, e sairá
ignorando tudo o que é preciso ignorar para passar de ano na escolinha de militantes
em que se transformou a universidade brasileira.

É verdade que o Dicionário começa com uma introdução onde o organizador mostra
não ignorar o assunto de todo. Mas, se ele sabe o que é conservadorismo, então por
que permite tanto esforço, no resto do livro, para confundi-lo com fascismo e nazismo,
que tiveram contra si as mais poderosas forças conservadoras da modernidade, o
“establishment” norte-americano e o Império Britânico? De 282 verbetes, 67 são sobre
nazismo — a quarta parte do livro, sem uma menção sequer ao fato de que eminentes
conservadores julgam o nazismo um movimento de esquerda. Especialmente útil para
consolidar a noção falsa é a profusão de verbetes sobre anti-semitismo, todos
omitindo que esse fenômeno nada tem de essencialmente direitista, já que endossado
por Karl Marx e praticado abundantemente na URSS.

Um “dicionário do pensamento de esquerda” que, omitindo a maioria dos autores


essenciais, ao mesmo tempo enfatizasse os cem milhões de mortos, o Gulag, os
Processos de Moscou e o trabalho escravo que construiu as economias da URSS e da
China, mesmo sem faltar com a verdade nos detalhes, seria considerado pura
propaganda direitista e não mereceria comentário. Mas este é propaganda enganosa,
que atribui à direita pecados notórios da esquerda, como por exemplo a política racial
norte-americana que fortalece as identidades dos grupos separados, incentivando o
orgulho e a divisão.

As 460 páginas do livro, divididas pelo número de autores, resultam em menos de


quatro para cada um, seguidas de indicações bibliográficas que raramente
ultrapassam o total de cinco títulos e quase nunca se reportam a textos originais. Não
obstante, o organizador proclama que redigi-las custou quatro anos de trabalho e não
poderia ter sido feito sem o auxílio financeiro de três instituições patrocinadoras.
Espero, pelo bem da reputação intelectual da equipe, que isso não seja verdade.

O que não se pode negar é que se trata de obra original: este é, nos anais da história
editorial, o primeiro livro dedicado a um dos autores que o subscrevem.
A pergunta que resta

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, São Paulo, 28 de setembro de 2000

Candidato à reeleição, o prefeito de Governador Valadares (MG), Bonifácio Mourão,


mandou imprimir panfletos que mostravam a foto de dois homens beijando-se
apaixonadamente e, abaixo dela, a inscrição: “É isto o que o PT quer para as nossas
famílias. Diga não a essa aberração.”

A Justiça Eleitoral mandou apreender os panfletos, sendo aplaudida pela mídia


elegante, a qual aproveitou a ocasião para qualificar o prefeito de neonazista.

Não sou idiota o suficiente para deixar de captar o sentido profundo da mensagem
que, com essa decisão, as autoridades eleitorais transmitem ao povo brasileiro. É o
seguinte:

1) Se é ilegal um candidato qualificar de aberrante o conúbio homoerótico enquanto


tal, muito mais o será chamar de aberrante o projeto de lei que confere a essa
modalidade de relação o estatuto de união matrimonial sob a proteção do Estado.

2) Se, em projeto, essa lei já não pode ser criticada como aberrante, muito menos o
poderá quando aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente da República.

3) Se é proibido um candidato falar contra os casamentos gays agora que eles ainda
não estão na lei, muito mais o será quando estiverem.

4) Assim, embora o uso da palavra “aberração” seja lícito e costumeiro no linguajar de


quem condene e deseje revogar alguma lei ou mesmo algum dispositivo
constitucional, a lei dos casamentos gays desfruta de um privilégio especialíssimo, que
amordaça por precaução os que venham a pensar em criticá-la, antes de aprovada, ou
em pedir sua revogação, depois.

5) Se é ilícito um candidato referir-se aos casamentos gays usando um termo bastante


comedido que significa apenas “erro” ou “perturbação”, muito mais o será empregar,
no mesmo contexto, o termo bem mais pesado “abominação”, que significa coisa
asquerosa e digna de repulsa. Como é este último precisamente o termo utilizado no
Antigo Testamento para qualificar a conduta homossexual, com mais presteza ainda a
Justiça Eleitoral deveria apreender os panfletos se, em vez da declaração pessoal do
candidato, estampassem o versículo 24 do capítulo 14 do Terceiro Livro dos Reis. Se
é proibido imprimir as opiniões do sr. Mourão, proibidíssimo portanto é publicar, ao
menos em tempo de eleições, esse trecho das Sagradas Escrituras.

6) Como a declaração ostentada nos panfletos, de que o PT deseja ver casamentos


gays entre os membros de nossas famílias, é uma simples verdade empiricamente
comprovável – pois afinal todos os gays provêm de alguma família e o projeto de lei
que os une em matrimônio é criação da bancada petista, na pessoa da aliás candidata
à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy -, a proibição da circulação desses papéis
deve ser compreendida no preciso sentido de que, contra os gays ou contra o projeto,
mesmo a evidência mais patente não pode ser alegada nas campanhas eleitorais,
cabendo apenas discutir se poderá sê-lo fora delas.

7) Mas se no caso está proibido não somente alegar fatos, mesmo comprovadamente
verdadeiros, mas também emitir opiniões, seja as brandas como a do prefeito Mourão,
seja, mais ainda, as duras e contundentes como a do Livro dos Reis, isto é, se contra
o homossexualismo e contra o projeto de d. Marta não se pode alegar nem juízos de
fato nem juízos de valor, então essa proibição abrange, simplesmente, todas as
afirmações e todas as negações.

Restam, portanto, somente as interrogações. Aproveito-me dessa margem de


liberdade que escapou à vigilância cívica dos juízes eleitorais, e pergunto, “data
venia”, a todos os gays, a seus apóstolos e à autora do projeto:

Vocês querem mesmo que essa sua lei, já antes de aprovada – e mais ainda depois -,
seja defendida mediante a proibição de todos os argumentos adversos, ou estariam
dispostos a concordar comigo se eu dissesse que a iniciativa da Justiça Eleitoral de
Minas é um abuso de autoridade, uma aberração jurídica e uma abominação moral?

Na segunda hipótese, vocês terão demonstrado que sabem sacrificar os interesses


imediatos do seu grupo em prol de um direito mais geral e mais alto, que é a liberdade
de expressão assegurada pela Constituição a todos os brasileiros. Na primeira, nossa
conversa acabará aqui mesmo, pois já terei concluído, com pouca margem de erro,
quem é o neonazista neste episódio.
Socialismo e cara-de-pau

Olavo de Carvalho

O Globo, 7 de outubro de 2000

Um dos mais notórios apóstolos do socialismo nestas plagas, cujo nome não
declinarei para que não digam que é perseguição, gabava-se outro dia de que a
esquerda sempre foi a primeira a reconhecer o fracasso da URSS.

Quatro décadas de experiência não bastaram para me habituar à cara-de-pau


esquerdista. Ainda me surpreendo quando, batendo nela com os nós dos dedos, ouço
o inconfundível “toc-toc” da madeira velha. Como os livros anticomunistas foram
desaparecendo de circulação desde os anos 60, enquanto seus contrários
abarrotavam cada vez mais as prateleiras das livrarias (mostrando que a censura
extra-oficial das patrulhas foi muito mais persistente do que a censura governamental),
é uma delícia, para essa gente, poder falar à platéia jovem com a plena segurança de
que ela ignora tudo da história do socialismo, ou pelo menos de que só a conhece pela
versão conveniente.

Nenhum sujeito com menos de 50 anos conhece hoje os nomes de Viktor Kravchenco,
Walter Krivitsky, Elizabeth Bentley, Whittaker Chambers. Se os conhecesse, saberia a
que prodígios de falsificação e difamação organizada a esquerda pôde chegar para
ocultar a divulgação de qualquer notícia que pudesse manchar a santa imagem do
comunismo.

Kravchenco, um exilado russo em Paris, publicou em 1946 o primeiro testemunho


detalhado sobre os campos de concentração soviéticos. Imediatamente ergueu-se
contra ele o vozerio maciço da intelectualidade francesa – numa gama que ia do
comunista Roger Garaudy e seu “companheiro de viagem” Jean-Paul Sartre até as
revistas católicas “Esprit” e “Témoignage Chrétien” (pois na França os Boffs & Bettos
já abundavam naquela data) – para acusá-lo de ser um mentiroso a soldo da CIA.
Homem simples, Kravchenco enfrentou com brio a assembléia de vacas sagradas,
processando seus detratores e trazendo para diante do júri dezenas de ex-
prisioneiros, entre os quais Margarete Buber-Neumann, neta do eminente filósofo
Martin Buber, que confirmaram de ponta a ponta seu depoimento. Sartre et caterva
foram condenados a pagar indenização, mas o vencedor, velho e extenuado, morreu
logo depois da batalha. Então foi fácil para seus inimigos fazer baixar sobre o caso
uma pesada e durável cortina de silêncio. O livro de Kravchenco, “Escolhi a liberdade”,
é hoje impossível de encontrar exceto em sebos.

Whittaker Chambers e Elizabeth Bentley, ex-agentes do Comintern, descreveram as


operações secretas de que tinham participado nos EUA, deixando claro que o Partido
Comunista americano e sua rede de colaboradores informais nos meios elegantes não
eram senão uma fachada da espionagem soviética. O establishment universitário fez o
possível para desqualificar os depoimentos de ambos, ainda que confirmados pelo de
Krivitsky, um general com alto posto na NKVD que fugiu para o Ocidente e, logo após
contar o que sabia, apareceu morto a tiros num hotel em Washington, sendo sua
memória sepultada sob densas camadas de material acadêmico difamatório. As
memórias de Chambers, “Witness”, um dos mais belos livros da língua inglesa,
desapareceram dos catálogos das editoras.

Após o fim da Guerra Fria, os governos ocidentais suspenderam todo esforço


sistemático de propaganda anticomunista. A esquerda, em vez de retribuir o gesto
cavalheiresco, aproveitou-se da trégua unilateral para consolidar sua posição nos
meios intelectuais. Nas décadas de 70 e 80, a produção de teses anti-Kravchenco,
anti-Chambers etc. foi tão intensa que, na entrada dos anos 90, a doutrina de que a
esquerda americana era puramente autóctone e sem qualquer ligação significativa
com a URSS podia se considerar triunfante. Então… Bem, então veio a queda da
URSS e a abertura dos arquivos da KGB. Aí houve choro e ranger de dentes.
Toneladas de telegramas, de bilhetes cifrados, de ordens de serviço, de recibos
milionários vieram à tona. Hoje não é mais possível ocultar: cada palavra de
Kravchenco, de Krivitsky, de Bentley, de Chambers era verdade, assim como as de
Robert Conquest, o primeiro historiador científico dos Processos de Moscou,
fartamente difamado entre seus pares. O estado de espírito atual, entre acadêmicos
que estudam o assunto, pode ser resumido nos títulos de dois livros de pesquisadores
que mergulharam a fundo nos arquivos de Moscou. O primeiro é o de John Lewis
Gaddis, publicado pela Oxford University Press: “We now know”, “Agora nós
sabemos”. O segundo é o de Richard Gid Powers (Yale University Press), “Not without
honor”, “Não sem honra” – o reconhecimento de que o anticomunismo americano não
foi uma sórdida campanha de mentiras, mas um sério esforço de fazer prevalecer a
verdade sob o fogo cerrado de um exército mundial de prestigiosos vigaristas. Até ao
remoto Brasil a onda de revelações trouxe alguma luz, mostrando que o famoso “ouro
de Moscou”, longamente explicado como invenção maldosa da CIA, havia com efeito
tilintado nos bolsos de nossos grotescos heroizinhos comunistas.

Depois disso, que mais restava à esquerda senão passar um tardio e vergonhoso
recibo do fato consumado? Foi assim que em 1997 apareceu o “Livro negro do
comunismo”, que, comprovando item por item as denúncias direitistas que a esquerda
mundial desmentira desde a década de 30, ainda procurava diminuir a extensão
quantitativa do desastre mas não conseguia reduzir o número de vítimas do
comunismo para baixo da cifra dos cem milhões. Mesmo assim, o livro não saiu sem
provocar reações indignadas (tipo “Onde já se viu dar munição ao inimigo?”), nem sem
suscitar a produção de um atabalhoado e ineficacíssimo contraveneno, o qual, sob o
título “O livro negro do capitalismo”, só é levado a sério, precisamente, pela anônima
figuraça aludida no início deste artigo, cujo anonimato preservo, também, por julgar
que esse deveria ser o seu estado natural.
Herpes mental

Olavo de Carvalho

O Globo, 14 de outubro de 2000

“O PT alcançou sucesso nas eleições porque mudou de discurso, colocando eficiência


e moralidade no lugar da ideologia”: tal é uma afirmação que desde há uma semana
passa de boca em boca, exatamente como o herpes labialis, propagando-se por
contágio epidérmico sem a menor interferência do cérebro. Se chamado a intervir no
caso, esse esquecido órgão que outrora prestou relevantes serviços à evolução animal
teria talvez chamado a atenção do distinto público para os seguintes detalhes:

• 1. A referida mudança não data da última campanha eleitoral, mas de dez anos atrás.
Ela está abundantemente documentada nas edições antigas das mesmas revistas e
jornais que agora a alardeiam como novidade.

• 2. Todos os sucessos eleitorais do PT desde há uma década foram sempre


atribuídos à mesmíssima causa, que ressurge ciclicamente como o nec plus ultra do
diagnóstico politológico bem comportado.

• 3. O discurso da moralidade não é uma alternativa à ideologia, mas obviamente é ele


próprio uma ideologia. É a ideologia tradicional da classe média udenista, que elegeu
Jânio Quadros — substancialmente a mesma que depois votou em Fernando Collor de
Mello.

• 4. O PT adotar esse discurso não significa que tenha mudado nem de ideologia nem
de estratégia, mas apenas que a absorção de uma parte dos argumentos ideológicos
do adversário foi ali considerada, numa determinada fase dessa estratégia, um
expediente útil para a consecução de seus objetivos.

Ninguém que desconheça o modus operandi comunista pode compreender o PT. E


quem é que o conhece, hoje, fora dos quadros dirigentes petistas (e emeessetistas, e
pecedobistas etc.) que, precisamente, têm interesse em mantê-lo o mais discreto
possível? Atualmente, a diferença de horizonte de visão entre a elite esquerdista e
seus adversários é a que existe entre um urubu no céu e uma toupeira na sua toca.
Não que o petismo seja sinal de superior inteligência. É que, simplesmente, ele tem a
seu favor a perspectiva de 150 anos de experiência acumulada dos movimentos
revolucionários, continuamente revista e adaptada às circunstâncias pelo esforço
intelectual coletivo, ao passo que seus inimigos não têm senão suas opiniões
pessoais, frutos de experiências limitadíssimas adquiridas em lutas políticas
provincianas. Daí a freqüência com que estes, acreditando-se espertos precisamente
porque não têm a menor idéia do tamanho da encrenca em que estão metidos, são
feitos de idiotas e acabam colaborando com a estratégia petista pelos mesmos meios
com que acreditam poder enfrentá-la.

Um desses meios é a idéia de conquistar o PT para a modernidade capitalista pelo


pretenso método pavloviano de cobri-lo de injúrias quando ele “se excede” em
passeatas e badernas, e de afagos quando ele “muda de discurso” e se faz de
bonzinho. A fragilidade dessa manobra, na qual nossos liberais e conservadores
parecem ter apostado tudo, salta aos olhos de quem conheça a história do rato que
imaginava ter programado o cientista para que lhe desse um queijo sempre que ele se
submetesse a um choque.

Há um século e meio a tradição marxista tem o know how de dosar truculência e


sedução segundo um timing perfeito destinado a controlar na mente do seu adversário
as quotas de temor e de esperança necessárias a paralisá-lo, desorientá-lo e induzi-lo
a colaborar. Perto desse saber acumulado, toda a pretensa esperteza dos politicões
tradicionais brasileiros é ingenuidade de meninos. Intelectualmente retardatária, senão
retardada, a direita brasileira está hoje infinitamente abaixo de poder compreender as
sutilezas de um processo histórico que a esquerda vem sabendo prever e conduzir
com mão de mestre. A ascensão eleitoral esquerdista não é senão a manifestação
mais espalhafatosa de um fenômeno que qualquer um teria percebido dez anos atrás
se não tivesse medo de percebê-lo. Diante desse espetáculo, nossa direita reage
como sempre: apegando-se a tranqüilizantes verbais, por medo de sentir medo.

Há pelo menos dez anos a esquerda detém o monopólio das iniciativas psicológicas e
os meios de fazer o adversário dizer, a cada momento, o que ela quer que ele diga.
Por exemplo, primeiro ela promove uma onda de invasões de prédios públicos, para
amedrontar. A direita, timidamente e da boca para fora, protesta contra a “baderna”.
Ato contínuo, a esquerda baixa as armas, se faz de educada, discursa serenamente
em favor da eficiência e da moralidade. Seus adversários respiram aliviados e lhe
concedem um novo crédito de confiança, investida do qual ela corta as cabeças de
meia dúzia deles mediante denúncias de corrupção e paralisa os restantes jogando-os
uns contra os outros num asqueroso festival de recriminações cruzadas. Quando,
extenuados e desmoralizados, os sobreviventes esboçam diante das câmeras um
sorriso amarelo para dar a impressão de que estão muito felizes com a “purificação”
de suas fileiras, a esquerda volta a atacar pelo outro lado, desencadeando novas
invasões de prédios públicos e vociferando ameaças de luta armada.

Há dez anos a política nacional consiste nisso e somente nisso: a auto-imolação da


direita no altar do moralismo punitivo no qual ela própria convidou a esquerda a oficiar
o ritual.

Não, a esquerda não mudou de ideologia, apenas de fórmula publicitária, numa


periódica troca de camuflagem que já o próprio Lênin recomendava. Basta comparar
com os discursos alardeados em público as teses mais discretamente discutidas nos
congressos partidários, para ter a prova inequívoca de que o PT não mudou de
marxista para democrático-progressista como a lagarta se transforma em borboleta,
mas como o camaleão se transforma em galho, em folha ou no que mais seja preciso
para permanecer camaleão.
O futuro da liberdade

Olavo de Carvalho

O Globo, 21 de outubro de 2000

Na sua última entrevista, publicada postumamente em setembro de 1997, François


Furet dizia que o maior problema da sociedade liberal-capitalista é sua dificuldade de
construir um corpo político, pois a idéia mesma que funda o liberalismo, a doutrina da
autonomia individual, resiste a encarnar-se na forma de uma estrutura política, de um
Estado. O sucesso do comunismo e do fascismo, prosseguia o historiador, deveu-se
ao fato de que, em contraste com essa incapacidade crônica do liberalismo, pensavam
o corpo social como unidade e davam a essa unidade uma expressão política também
unitária, por meio do Partido-Estado.

Esse diagnóstico fornece a melhor explicação para o fato de que no próprio seio do
liberalismo as tendências centralizadoras e estatizantes ressurgem ciclicamente sob
novas roupagens e novas denominações, algumas delas diabolicamente enganosas
porque alegam inspirar-se nos próprios ideais do liberalismo.

A constatação desse estado de coisas sugere automaticamente uma pergunta: uma


sociedade politicamente centrífuga não tem outra alternativa senão ceder de vez às
ofertas de unificação totalitária ou viver eternamente de arranjos de ocasião entre a
liberdade de jure e as concessões de facto a um crescente poder centralizador?

Furet não dá nenhuma resposta, mas passa de raspão por ela e nem percebe que é
uma resposta. A dificuldade de encontrar uma fórmula política, segundo ele,
manifestou-se da maneira mais patente naquela sucessão de crises que foi a
Revolução Francesa, ao passo que “permaneceu escondida no caso da Revolução
Americana, revolução demasiado fácil, transcorrida sob as bênçãos da religião a um
povo cristão, que não teve a necessidade de renegar um passado aristocrático e
feudal e teve ainda a sorte de encontrar uma centena de grandes homens políticos”.

Não é muito certo dizer que os americanos tiveram “dificuldade” de encontrar uma
fórmula política. O que eles tiveram foi uma profunda indiferença pela busca dessa
fórmula. O testemunho é de Aléxis de Tocqueville: meio século depois da
independência, as pequenas comunidades, núcleos da vida americana, ainda se
orgulhavam de viver à margem de toda autoridade central, unidas às comunidades
vizinhas tão-somente pelos laços de comércio, religião e cultura. A dificuldade
apareceu mais tarde e, de certo modo, artificialmente. Apareceu por iniciativa da
própria classe política, que buscou forçar a unificação jurídico-administrativa do país,
condição prévia para a consecução dos grandes planos imperiais que tinha em vista.
Conforme assinalei em meu livro “O jardim das aflições” (cinco anos antes da dupla
Negri & Hardt a quem a nossa intelectualidade símia credita essa descoberta), as
ambições centralizadoras e imperialistas germinavam no espírito dessa classe já antes
mesmo da Revolução e cresceram inteiramente por fora das aspirações da sociedade
americana, a qual, sendo indiferente ao Estado, teria de sê-lo mais ainda ao
crescimento dele para além-fronteiras.

Se essa sociedade pôde evitar os conflitos que viriam a marcar a História da França,
foi graças a três fatores. Primeiro, a religião, uma religião tanto mais arraigada na alma
do povo quanto mais livre da contaminação estatal, pois fora justamente para proteger
seu culto religioso de toda interferência governamental que os pioneiros tinham vindo
para o Novo Mundo. Essa religião, popular e extra-oficial, mas ao mesmo tempo
conservadora e apegada às tradições, dava aos americanos sua unidade moral, mais
funda e decisiva que qualquer unidade política. Em segundo lugar, a economia. Sua
base, religiosa até à medula, era a “sociedade de confiança” de que fala Alain
Peyrefitte, ou a “ethics of loyalty” enaltecida por Josiah Royce: a liberdade de comprar
e vender, fundada na comum expectativa da lealdade espontânea de todos para com
todos.

Por fim, a cultura. Até hoje a elite americana – presidentes de empresas, oficiais do
Exército, homens de letras – provém de uns 200 colégios particulares, que,
desprezando os supostos avanços tão afoitamente assimilados pela pedagogia
estatal, conservaram quase intacto o método educacional de antes da Revolução,
baseado nos “três rr” – reading, writing, arithmetics – e na leitura dos clássicos: a boa
e velha liberal education. Esse método produziu a “centena de grandes homens” que
decidiu o destino da América.

Religião livremente fiel às tradições, economia sã fundada na moral religiosa e uma


elite de homens conscientes dos valores básicos da civilização: eis os três fatores que
puderam superar a contradição entre liberalismo e estrutura política, poupando ao
povo americano os fracassos sangrentos da Revolução Francesa. Pois esta, em
contrapartida, ocorreu numa sociedade onde a religião era burocratizada e infectada
de mundanismo, a economia era centralizada pelo Estado sanguessuga e a cultura
era um festival de insanidades, obra da nova classe intelectual leviana e fútil, vaidosa
e cheia de afetado desdém pelo que estivesse acima da sua compreensão. Não
podendo apostar nem na religião, nem na cultura, nem na economia, a França arriscou
tudo – e tudo perdeu – na busca insana do corpo político perfeito.

Eis aí a lição que François Furet nos deu sem perceber: o futuro de uma sociedade
baseada na liberdade individual não depende do utópico e insaciável “aperfeiçoamento
das instituições”, mas da religião sincera, da ética nos negócios e da formação
intelectual da elite: de tudo aquilo, enfim, que é desprezado por um país louco que, à
imitação da França revolucionária, deposita todas as suas esperanças na política e no
Estado.
Efeitos da ‘grande marcha’

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, São Paulo, 26 de outubro de 2000

A Justiça Eleitoral existe, como o próprio nome o diz, para que as eleições sejam
justas. Mas ela se compõe de funcionários públicos e, desde que apareceu neste país
um fenômeno chamado “a grande marcha da esquerda para dentro do aparelho de
Estado”, essa classe vem se tornando cada vez mais suspeita de estar interessada em
tudo, menos em eleições justas. Pois a “grande marcha” consiste em ocupar o maior
número de empregos públicos, com a finalidade de colocar o aparelho de Estado a
serviço de um partido, o qual então passa a exercer o governo sem ser governo,
desfrutando das prerrogativas do poder sem as suas concomitantes
responsabilidades.

Essa operação foi calculada por seu inventor, Antonio Gramsci, para ser realizada de
maneira lenta e sorrateira, de modo que os próprios governantes acabem sendo
responsabilizados pelos efeitos globais nefastos das ações de funcionários infiltrados
na burocracia para desmoralizá-lo e enfraquecê-lo.

Um exemplo da eficácia alucinante desse procedimento foi obtido já durante o governo


militar. O regime, por ser autoritário e não totalitário, desejava a apatia política do povo
e não fez nenhum esforço para doutriná-lo segundo os valores do movimento de 1964
(o totalitarismo, ao contrário, exige doutrinação maciça). Essa atitude deixou à mercê
da oposição de esquerda a rede de instrumentos editoriais, jornalísticos e escolares de
formação da opinião pública (o que, entre outras coisas, resultou na ampliação
formidável do mercado de livros esquerdistas). Uma das poucas tentativas de
doutrinação feitas pelos militares foi a introdução, nas escolas, das aulas de
“Educação Moral e Cívica”. Mas tão displicente foi essa tentativa que o Partido
Comunista se aproveitou da oportunidade para lotar de bem treinados agitadores as
cátedras da nova disciplina, as quais assim se tornaram uma rede de propaganda
comunista subsidiada pelo governo. É claro que muitos professores ideologicamente
descomprometidos também se apresentaram para suprir as vagas, mas os militantes
faziam o mesmo como tarefa partidária, de modo que, no conjunto, o plano comunista
de apropriar-se dos recém-abertos canais de doutrinação não concorreu com uma
premeditação igual de signo ideológico contrário, mas apenas com a resistência
amorfa de uma massa politicamente indiferente e sem direção. A brutal politização
marxista das escolas, que hoje culmina nas barbaridades ideológicas impingidas às
crianças pelos manuais publicados pelo próprio Ministério da Educação, começou
precisamente aí.

O mais notável foi que, ocupado em reprimir a guerrilha, o governo militar não apenas
deu rédea solta à ala “pacífica” e gramsciana da esquerda, mas até lhe concedeu
substanciais incentivos. O principal editor comunista da época jamais deixou de
receber subsídios oficiais, até que, com a abertura política, começou a ter dificuldades
financeiras e acabou vendendo sua empresa.

Jamais interrompida, rarissimamente denunciada, a “grande marcha” parece enfim ter


chegado à Justiça Eleitoral, que, nos últimos tempos, tomou pelo menos três decisões
bastante suspeitas. Primeiro, proibiu menções adversas à aliança do PT com o
movimento “gay” (v. meu artigo no JT de 20 de setembro); depois, mandou distribuir
cartazes que incentivavam o eleitor a votar “para mudar”, o que é mensagem de signo
ideológico indiscutivelmente nítido; por fim, vetou propagandas do candidato do PPB à
Prefeitura de São Paulo que apresentavam sua concorrente como adepta da causa
abortista – uma afirmação cuja veracidade é empiricamente confirmável por qualquer
um.

Cada uma dessas decisões, isoladamente, pesa pouco. Somadas – se ainda não
vierem outras –, talvez não sejam capazes de decidir uma eleição. Mas, na escala
minimalista de uma estratégia que aposta antes na somatória de milhares de ações
imperceptíveis do que nos riscos da propaganda espetacular, elas vêm engrossar o
caudal da “revolução cultural” gramsciana, a mutação sutil e persistente dos padrões
de percepção do povo brasileiro, cujos resultados, em São Paulo e em outras cidades
importantes, já estão em vias de se traduzir em resultados eleitorais superficialmente
limpos e profundamente sujos.

É impossível não ver simultaneamente um efeito da “grande marcha” na greve da


polícia pernambucana, claramente ilegal e insurrecional, e em mil e um outros fatos
que parecem isolados, mas cuja origem comum está sempre num funcionalismo
público bem adestrado para trabalhar contra quem paga seu salário.
A verdadeira direita

Olavo de Carvalho

O Globo, 5 de novembro de 2000

Se nas coisas que escrevo há algo que irrita os comunas até à demência, é o
contraste entre o vigor das críticas que faço à sua ideologia e a brandura das
propostas que lhe oponho: as da boa e velha democracia liberal. Eles se sentiriam
reconfortados se em vez disso eu advogasse um autoritarismo de direita, a monarquia
absoluta ou, melhor ainda, um totalitarismo nazifascista. Isso confirmaria a mentira
sobre a qual construíram suas vidas: a mentira de que o contrário do socialismo é
ditadura, é tirania, é nazifascismo.

Um socialista não apenas vive dessa mentira: vive de forçar os outros a desempenhar
os papéis que a confirmam no teatrinho mental que, na cabeça dele, faz as vezes de
realidade. Quando encontra um oponente, ele quer porque quer que seja um nazista.
Se o cidadão responde: “Não, obrigado, prefiro a democracia liberal”, ele entra em
surto e grita: “Não pode! Não pode! Tem de ser nazista! Confesse! Confesse! Você é
nazista! É!” Se, não desejando confessar um crime que não cometeu, muito menos
fazê-lo só para agradar a um acusador, o sujeito insiste: “Lamento, amigo, não posso
ser nazista. No mínimo, não posso sê-lo porque nazismo é socialismo”, aí o socialista
treme, range os dentes, baba, pula e exclama: “Estão vendo? Eis a prova! É nazista! É
nazista!”

Recentemente, cem professores universitários, subsidiados por verbas públicas,


edificaram toda uma empulhação dicionarizada só para impingir ao público a lorota de
que quem não gosta do socialismo deles é nazista. Não se trata, porém, de pura
vigarice intelectual. A coisa tem um sentido prático formidável. Ajuda a preparar
futuras perseguições. Consagrado no linguajar corrente o falso conceito geral, bastará
aplicá-lo a um caso singular para produzir um arremedo de prova judicial. Para
condenar um acusado de nazismo, será preciso apenas demonstrar que ele era contra
o socialismo. Hoje esse raciocínio já vale entre os esquerdistas. Quando dominarem o
Estado, valerá nos tribunais. Valerá nos daqui como valeu nos de todos os regimes
socialistas do mundo.

Intimidados por essa chantagem, muitos liberais sentem-se compelidos a moderar


suas críticas ao socialismo. Mas isso é atirar-se na armadilha por medo de cair nela.
Já digo por que.

Socialismo é a eliminação da dualidade de poder econômico e poder político que, nos


países capitalistas, possibilita – embora não produza por si — a subsistência da
democracia e da liberdade. Se no capitalismo há desigualdade social, ela se torna
incomparavelmente maior no socialismo, onde o grupo que detém o controle das
riquezas é, sem mediações, o mesmo que comanda a polícia, o exército, a educação,
a saúde pública e tudo o mais. No capitalismo pode-se lutar contra o poder econômico
por meio do poder político e vice-versa (a oposição socialista não faz outra coisa). No
socialismo, isso é inviável: não há fortuna, própria ou alheia, na qual o cidadão possa
apoiar-se contra o governo, nem poder político ao qual recorrer contra o detentor de
toda riqueza. O socialismo é totalitário não apenas na prática, mas na teoria: é a teoria
do poder sintético, do poder total, da total escravização do homem pelo homem.

A formação de uma “nomenklatura” onipotente, com padrão de vida nababesco,


montada em cima de multidões reduzidas ao trabalho escravo, não foi portanto um
desvio ou deturpação da idéia socialista, mas o simples desenrolar lógico e inevitável
das premissas que a definem. É preciso ser visceralmente desonesto para negar que
há uma ligação essencial e indissolúvel entre elitismo ditatorial e estatização dos
meios de produção.

O socialismo não é mau apenas historicamente, por seus crimes imensuráveis. É mau
desde a raiz, é mau já no pretenso ideal de justiça em que diz inspirar-se, o qual, tão
logo retirado da sua névoa verbal e expresso conceitualmente, revela ser a fórmula
mesma da injustiça: tudo para uns, nada para os outros.

Porém, no próprio capitalismo, qualquer fusão parcial e temporária dos dois poderes já
se torna um impedimento à democracia e ameaça desembocar no fascismo. Não há
fascismo ou nazismo sem controle estatal da economia, portanto sem algo de
intrinsecamente socialista. Não foi à toa que o regime de Hitler se denominou
“socialismo nacional”. Stalin chamava-o, com razão, “o navio quebra-gelo da
revolução”. Por isso os socialistas, sempre alardeando hostilidade, tiveram intensos
namoros com fascistas e nazistas, como nos acordos secretos entre Hitler e Stalin de
1933 a 1941, na célebre aliança Prestes-Vargas etc. Já com o liberalismo nunca
aceitaram acordo, o que prova que sabem muito bem distinguir entre o meio-amigo e o
autêntico inimigo.

Por isso mesmo, é uma farsa monstruosa situar nazismo e fascismo na extrema-
direita, subentendendo que a democracia liberal está no centro, mais próxima do
socialismo. Ao contrário: o que há de mais radicalmente oposto ao socialismo é a
democracia liberal. Esta é a única verdadeira direita. É mesmo a extrema direita: a
única que assume o compromisso sagrado de jamais se acumpliciar com o socialismo.

Nazismo e fascismo não são extrema-direita, pela simples razão de que não são
direita nenhuma: são o maldito centro, são o meio-caminho andado, são o abre-alas
do sangrento carnaval socialista. Os judeus, perseguidos em épocas anteriores,
podiam usar do poder econômico para defender-se ou fugir: o socialismo alemão,
estatizando seus bens, expulsou-os desse último abrigo. Isso seria totalmente
impossível no liberal-capitalismo. Só o socialismo cria os meios da opressão perfeita.

Não, a crítica radical ao socialismo não nos aproxima do nazifascismo. O que nos
aproxima dele é uma crítica tímida, debilitada por atenuações e concessões. E essa,
meus amigos, eu não farei nunca.
Precauções de leitura

Olavo de Carvalho

O Globo, 18 de novembro de 2000

Uma grande bobagem que você pode fazer ao estudar a história das idéias filosóficas
é compará-las umas às outras no mesmo plano, como teorias científicas ou visões da
realidade, diferentes apenas segundo o ponto de vista adotado, os talentos pessoais
de seus criadores e a mentalidade das épocas.

Muitas doutrinas famosas não são de maneira alguma teorias sobre a realidade, nem
tiveram jamais a pretensão de sê-lo. Surgidas no bojo de grandes projetos de ação
política, são ficções propositais calculadas para produzir impressões na opinião
pública e predispô-la às condutas que se supõem adequadas à consecução desses
projetos. São, no sentido mais estrito, informação estrategicamente manipulada. Não
se destinam a diagnosticar, descrever ou compreender a realidade, mas a produzi-la –
ou melhor, a produzir uma falsa realidade que atue sobre a realidade efetiva, no
mesmíssimo sentido em que um falso rumor de traição conjugal, soprado aos ouvidos
de um marido ciumento, pode induzi-lo a um crime passional de verdade.

Não são teorias: são atos políticos. Discuti-las como teorias pode ser útil apenas para
desmascarar a falsa identidade científica que se arrogam, mas, precisamente, esse
desmascaramento não pode ser feito sem um conhecimento prévio do projeto que
encobrem e que ocultamente as modela.

Uma precaução elementar no estudo de qualquer doutrina é averiguar se seu autor


corresponde ao tipo do homo theoreticus, do estudioso sincero que irá às últimas
conseqüências na investigação da verdade, pouco importando a quem favoreçam ou
desfavoreçam os resultados de suas investigações, ou se, ao contrário, é um líder, um
chefe, um homem de ação e revolucionário interessado em transformar o mundo.
Neste último caso, a hipótese de que a verdade objetiva prevaleça em seu
pensamento é uma casualidade que pode se dar aqui ou ali, em afirmações parciais,
mas que no conjunto deve ser considerada improvável e remota.

Há, evidentemente, o caso intermediário do educador, que é homem de ação e produz


teorias. A diferença é que a ação do educador visa a transformar almas individuais –
as de seus alunos atuais e virtuais – e não o Estado, as leis e a sociedade, pelo
menos de maneira direta e intencional. Esse tipo de ação não só é compatível com a
fidelidade ao saber objetivo, mas de certo modo a exige.

Até certo ponto, todo filósofo é um educador e não pode deixar de sê-lo. Idêntica
observação pode-se fazer, mutatis mutandis, quanto ao “médico de almas”, que é um
tipo especial de educador.

Há também a possibilidade de que o autêntico homem de saber, em certas


circunstâncias, tome posição em questões políticas específicas, sem comprometer-se
num plano de reforma do mundo que chegue a determinar, por si, os princípios de sua
doutrina. Se esse é o caso, suas opções políticas refletirão sua orientação teórica
geral (ou as mudanças dela), e não ao inverso.

Mas, feitas estas ressalvas, vigora a distinção entre o homo theoreticus e o homo
politicus. A noção marxista de ideologia, com sua hipótese pueril de que todas as
idéias têm, por igual, objetivos políticos inconfessados, só serviu para obscurecer essa
distinção, que não obstante continua indispensável.
Platão, por exemplo, é caracteristicamente homo politicus. Na sua famosa “Carta
sétima”, ele admite que o objetivo de sua obra é a reforma do Estado. Mas não seria
preciso isso para alertar-nos da conveniência de ler os seus escritos não como
descrições da realidade, e sim como montagens de uma realidade postiça que ele
quer impingir a seus discípulos em vista de um resultado. Como autor de um projeto
político, Platão não deve ser julgado só pelo teor intelectual de suas idéias, mas
segundo a elevação das intenções, a lisura dos métodos e o caráter útil ou danoso dos
resultados de sua ação na História.

Se não fosse por isso, certas argumentações capciosas que ele atribui a Sócrates — e
que não teriam o menor sentido justamente no contexto de uma disputa entre o novo
espírito de rigor socrático e o arsenal consagrado de prestidigitações sofísticas que ele
pretende desmascarar – teriam de ser explicadas como lapsos de lógica ou como
mentiras gratuitas.

A primeira hipótese deve ser afastada porque muitos desses erros são demasiado
grosseiros para alguém que não podia ignorar os critérios dialéticos que, na sua
própria academia, já vinham sendo ensinados por um seu discípulo (Aristóteles). A
segunda faria de Platão um leviano indigno de atenção.

Platão, pois, quando mente, tem algo em vista, como é próprio dos políticos, e muitos
de seus erros são mentiras propositais. Isto deve ser levado em conta na interpretação
da sua obra, enquanto a de Aristóteles se coloca mais na pura dimensão teorética e
pode ser compreendida de maneira mais literal. Quando ele diz algum absurdo (y que
los hay, los hay), é simples erro científico, que pode danificar em mais ou em menos o
conjunto do sistema, mas não requer a sondagem de motivações ocultas.

Mas, se tais precauções são indispensáveis no estudo dos clássicos, quanto mais não
o seriam no da produção científica de uma época em que praticamente toda a classe
acadêmica vive a soldo de governos, serviços secretos, partidos políticos, ONGs e
outras organizações decididas a moldar o mundo? Nessa época, a autoridade
intelectual em estado puro é tão rara quanto o puro heroísmo ou a pura santidade. A
quota de ação política embutida na produção acadêmica é tão imensa que, num
impressionante número de casos, a leitura de teses universitárias só é proveitosa para
técnicos em informação estratégica, aptos a identificar e neutralizar, nelas, o elemento
de desinformação. Para os demais, é apenas auto-intoxicação mental.
A mentira como sistema

Olavo de Carvalho

Jornal da Tarde, 23 de novembro de 2000

Logo que me afastei do Partido Comunista, aos 22 anos, conservei uma visão do
marxismo como teoria errada, mas valiosa. Três décadas de estudos persuadiram-me
de que ele é uma doutrina não apenas falsa, mas mentirosa até à medula.

Marx mente nos seus pressupostos filosóficos, mente na sua apresentação da


História, mente nas suas teorias econômicas e mente nos dados estatísticos com que
finge comprová-las. De sua obra nada se aproveita, exceto o treino dialético que se
ganha em duelar com um mentiroso astuto.

Perguntar se suas mentiras são propositais ou inconscientes – e nesta última hipótese


tentar salvar uma suposta “boa intenção” por trás da falsidade – é ignorar por completo
as diferenças entre consciência normal e sociopática.

Karl Marx foi com toda a evidência um sociopata, uma alma na qual a nebulosa
mistura de verdade e falsidade era um traço permanente, uma compulsão irresistível,
não se aplicando a esse caso a distinção entre a reta intenção da vontade e as falhas
involuntárias da inteligência, com que explicamos os erros dos homens normais.

É impossível não perceber algo dessa mistura já em Hegel, seu antecessor e, de certo
modo, mestre. Toda a filosofia de Hegel funda-se na premissa de que “o Ser, sem
suas determinações, é idêntico ao Nada”, uma afirmação à qual ele confere validade
objetiva absoluta embora sabendo que ela só tem significado quando referida não ao
Ser e sim apenas ao conhecimento que temos dele, e que ampliada para fora desse
domínio é uma sentença totalmente desprovida de significado. Digo “embora sabendo”
porque é impossível que um homem dotado da destreza lógica de Hegel não
percebesse, nessa pedra fundamental da sua doutrina, a rachadura lógica entre uma
meia-verdade e um “flatus vocis”. Mas Hegel, firmemente decidido a construir um
sistema universal, não se deteve ante o que, aos olhos de sua ambição, pareceu um
detalhe desprezível. Seguiu em frente, misturando em doses cada vez mais
complexas as meias-verdades às meias mentiras à medida que a construção se
avolumava.

Marx partiu dessa monstruosa falsificação teorética para erigir, em cima dela, a
falsificação da existência real, a ação historicamente falseada de milhões de seres
humanos que consagraram suas próprias vidas e sacrificaram milhões de vidas
alheias no altar da mentira sistematizada.

Como foi possível que chegasse a recrutar tantos discípulos, a agitar tão vastas forças
sociais e políticas, a desfigurar a face do mundo a ponto de torná-lo indistingüível do
inferno?

O sociopata, como o esquizofrênico, é uma alma dividida, mas dividida de tal modo
que as partes separadas, sem jamais juntar-se num confronto consciente, concorrem
para uma meta comum determinada pela vontade, o que o torna notavelmente
capacitado para a ação – ao contrário do esquizofrênico – na mesma medida em que
incapacitado para o julgamento moral de si próprio.

Enquanto na psique normal a base da ação eficaz é a coerência entre consciência


cognitiva e vontade, no sociopata é a separação delas que produz aquela
desenvoltura, aquela liberdade, que lhe permite agir eficazmente onde o homem são
seria detido por escrúpulos de consciência. A força de vontade, no sociopata, não
reflete a firmeza de uma convicção madura e consciente, mas a inescrupulosidade de
um desejo avassalador que vence todas as hesitações sufocando a voz da
consciência quando esta lhe cobra os direitos da verdade ou simplesmente lhe
relembra a fragilidade da condição humana. A força do homem são está na unidade da
sua alma; a do sociopata, na impossibilidade de unificar-se, que o leva a espalhar a
dubiedade e a confusão por onde passe. A primeira é idêntica à “simplicidade” bíblica;
a segunda, à complexidade irremediável de uma ruptura interna que se automultiplica
indefinidamente. A primeira reflete o “sim, sim – não, não” do mandamento de Jesus; a
segunda é a voz do “bilingüis maledictus”, o homem de língua bífida incapaz de dizer
sem desdizer.

Daí a diferença entre a dialética clássica, de Sócrates e Aristóteles, e a dialética


moderna de Hegel e Marx. A primeira era a arte de reduzir as contradições à unidade;
a segunda, a técnica de fazê-las proliferar até que não possam mais ser abrangidas na
unidade de uma visão intelectual e extravasem para a vida ativa, semeando o ódio e a
guerra sem fim. A primeira supera as contradições da “práxis” na unidade superior da
consciência contemplativa; a segunda alastra para o reino da “práxis” o ódio a si
mesmo que atormenta o intelecto incapaz de repouso contemplativo.
Guerras santas

Olavo de Carvalho

Bravo!, novembro de 2000

Grande parte das culturas antigas concedia aos chefes, aos guerreiros e poderosos o
direito de livrar-se, quando bem entendessem, dos fracos indesejáveis. Crianças,
velhos e doentes podiam ser mortos por simples capricho de homens jovens e
saudáveis que não queriam trabalhar para sustentá-los. Isso foi assim durante
milênios. Foi assim no Egito, na Babilônia, no Império Romano, na China, na Arábia
pré-islâmica. Foi assim entre os celtas, germanos, vikings, africanos, maias, aztecas e
índios brasileiros. Foi assim quase por toda parte. O número de inocentes enterrados
vivos, queimados, entregues às feras ou despedaçados em rituais sangrentos em
nome dessa lei bárbara é incalculável.

É toda uma humanidade que foi eliminada do caminho dos fortes, ambiciosos e
triunfantes senhores de antigamente.

O morticínio permanente só foi interrompido graças à ação de duas forças que


emergiram bem tarde no cenário da História: o cristianismo, no Ocidente, o islamismo
no Oriente. Antes delas, o judaísmo já conhecia a incondicionalidade do “Não
matarás”. Mas o judaísmo não é uma religião proselitista: os judeus, nação minoritária,
limitaram-se a praticar entre si um modo de vida mais elevado e mais humano, sem
poder ou pretender ensiná-lo aos povos em torno. (O budismo e o hinduismo também
tiveram acesso a verdades similares, mas seu caso é especial e deixarei para analisá-
lo noutra oportunidade.) Essencialmente, foi graças à moral cristã e à lei muçulmana
que o universal direito à vida, revelado inicialmente aos judeus, se tornou patrimônio
de todos os homens.

Não houve, ao longo da história, fato mais decisivo. Pois ele não importou somente
numa extensão quantitativa. Ao transferir-se para classes de pessoas que antes não o
desfrutavam, ou que o desfrutavam somente como concessão de outras pessoas, o
direito à vida sofreu radical mutação qualitativa: passou de relativo a absoluto, de
condicionado a incondicionado e condicionante. Tornou-se o primeiro de todos os
direitos, do qual todos os demais decorrem.

Conceder ao ser humano um direito qualquer, de propriedade ou herança, por


exemplo, negando-lhe ao mesmo tempo o direito de existir, é, de fato, apenas uma
piada demoníaca. Mas essa piada foi o “script” verdadeiro das vidas de milhões de
seres humanos.

Hoje em dia qualquer criança compreende que a prioridade do direito à vida é algo
simplesmente lógico, que flui da natureza das coisas. Apóstolos dos “direitos
humanos” tomam-no como uma obviedade elementar, como o pressuposto indiscutido
e indiscutível dos seus discursos.

Mas poucos se lembram de que o reconhecimento dessa obviedade natural não foi
natural nem óbvio. Para disseminá-lo, foi necessário vencer as resistências
prodigiosamente obstinadas das culturas antigas. Monges, pregadores, santos foram
trucidados por toda parte aonde levassem essa mensagem, tão evidente em si mesma
quanto hostil a toda organização social fundada na precedência de outros direitos:
direitos de sangue, direitos territoriais, direitos de casta. Para muitas culturas, ceder
nesse ponto era abdicar de instituições, leis, privilégios milenares. Era autodestruir-se,
era dissolver-se na unidade maior da cultura recém-chegada, portadora da nova lei.
Muitos povos souberam adaptar-se à transição sem grandes perdas, tornando-se eles
próprios porta-vozes da melhor notícia que a humanidade já havia recebido. Outros
obstinaram-se na defesa de direitos imaginários. Por isso foi necessário destruir suas
culturas.

A cada guerra empreendida pelos exércitos cristãos e islâmicos contra as nações que
rejeitavam sua lei, foram garantidas, à custa da morte de uns milhares de soldados, as
vidas de milhões de seus descendentes. A extensão dessa obra salvadora é
imensurável. Jamais um bem tão fundamental foi legado a tantas gerações de seres
humanos.

Por isso essas guerras foram santas. Por isso foi santa a vontade de domínio que
fortaleceu mais os portadores do novo direito universal do que os defensores de
costumes locais. Dos descendentes dos povos derrotados, que hoje, movidos por um
saudosismo artificial e fingido, se prevalecem dos direitos recebidos dos vencedores
para fazer a apologia das culturas derrotadas e condenar sua destruição como um
crime inominável, a maioria, se os vencidos tivessem triunfado, simplesmente não
existiria. Em algum ponto da história de suas famílias a continuidade da sua linha
ancestral teria sido interrompida: sua bisavó teria sido sepultada viva, seu tetravô
entregue às feras, o tetravô de seu tetravô estrangulado no berço ou largado no chão
até morrer de fome — tudo sob as bênçãos de reis, hierofantes e tradições veneráveis.

Em cada grupo de índios que aparecem gritando contra a destruição de sua cultura
ancestral, uma coisa é certa: se ela não tivesse sido destruída, muitos deles não
teriam vivido para ver a luz do dia.

Eu próprio, descendente de celtas e germanos, com muita probabilidade não estaria


aqui escrevendo, se algum monge cristão não tivesse detido no ar o braço do
sacerdote bárbaro, erguido para o sacrifício de um meu antepassado.

Por isso, alegar os “direitos humanos” como argumento para condenar a destruição de
culturas que viveram de ignorá-los e desprezá-los é não apenas um contra-senso
lógico, mas uma mentira existencial. Se os direitos do ser humano são primeiros e
incondicionais, os direitos das culturas têm de ser, necessariamente, secundários e
relativos. Para que os homens sejam iguais em direitos, é preciso que entre as
culturas prevaleça não a igualdade, e sim a hierarquia que coloca no lugar mais alto
aquelas que reconhecem a igualdade dos homens, a começar pela incondicionalidade
do direito à vida. Entre a igualdade dos homens e a igualdade das culturas há uma
incompatibilidade radical, que somente pode ser ignorada por uma ideologia
autocontraditória, esquizofrênica e perversa.

Não obstante, é essa ideologia que prevalece hoje no ensino e nos meios de
comunicação, induzindo crianças e jovens a revoltar-se, em nome do direito e da
liberdade, contra as condições sem as quais esse direito e essa liberdade jamais
teriam podido vir a existir.

Transmitir semelhante ideologia às novas gerações é cindir as inteligências em


formação, cavando um abismo intransponível entre sua visão estereotipada do
passado histórico e sua percepção da realidade presente. É destruir na base a
possibilidade de toda consciência histórica, e, com ela, as condições de acesso à
maturidade intelectual responsável.

É verdade que o discurso incriminatório contra as grandes culturas que humanizaram


o planeta está na moda, que repeti-lo faz um professor brilhar ante a classe — ou ante
as câmeras — como modelo de sujeito moderninho e de mente aberta. Mas até
quando nós, pais, havemos de tolerar que a inteligência de nossas crianças seja
sacrificada no altar das vaidades de professores que não sabem o que dizem?
Olavo de Carvalho

Zero Hora, 3 de dezembro de 2000

Numa época em que a guerrilha comunista domina um país vizinho e no Brasil um


partido marxista-leninista com serviço secreto privado e uma bela retaguarda armada
está em vias de chegar ao poder, qualquer resistência ao comunismo é,
surpreendentemente, acusada de estar “fora de moda”. Ressoando aos ouvidos de um
povo que tem um terrível complexo de atraso, essa acusação tem imediato efeito
paralisante. Preso em flagrante delito de pedofilia, um brasileiro não sentiria tanta
vergonha quanto ao ser denunciado como “demodé” ou “ultrapassado”.

Mas a acusação tem ainda uma nuance mais sutil: ela insinua que o anticomunismo
está ultrapassado porque seu inimigo não existe mais; combater o comunismo é lutar
contra fantasmas do tempo da guerra fria. A ditadura comunista que oprime um bilhão
e trezentos milhões de chineses, vietnamitas e tibetanos não existe, Fidel Castro não
existe, os guerrilheiros da Colômbia não existem, Chavez não existe e a revolução
camponesa do MST também não existe: nós é que, por sermos retrógrados e
desinformados, resistimos às suas agressões como se eles existissem. Se fôssemos
pessoas modernas, consentiríamos em que essas criaturas da nossa imaginação,
caso não pudessem provar sua inexistência, ao menos decretassem a nossa,
suprimindo-nos do rol dos existentes. Aí estaríamos na moda. Mais que socialistas,
seríamos socialites.

O problema é que a crença na inexistência do comunismo é coisa ainda mais antiga


do que a guerra fria. O comunismo jamais gostou de admitir que existe. Na década de
20 a OGPU (antepassada da KGB) já pagava a escritores exilados para que
escrevessem livros demonstrando que o comunismo na Rússia tinha acabado. Mao
Tsé-tung foi apresentado em comunicados oficiais do Kremlin como um inofensivo
“socialista cristão”, Fidel Castro como um progressista democrático estilo americano.
Depois de 1917, ninguém no mundo fez jamais uma revolução comunista anunciando
que era uma revolução comunista. Se querem ter idéia do tremendo investimento que
o comunismo tem feito, em dinheiro e esforço, para provar que não existe, leiam “New
Lies for Old”, de Anatoliy Golitsyn (Atlanta, Clarion House, 1990). O autor é um ex-
agente da KGB que testemunhou pessoalmente algumas dessas gigantescas
operações de desinformação.

De outro lado, também é errado imaginar que o anticomunismo é coisa de museu.


Arquivos históricos não são museus: são depósitos de bombas. Desde a abertura dos
arquivos da KGB, o anticomunismo tornou-se o grande assunto nos círculos
acadêmicos civilizados. Ela mostrou que tudo aquilo que nos anos 60 nós, jovens
militantes, rejeitávamos como mentiras sórdidas do imperialismo, era pura verdade.
Acreditávamos que os Rosenbergs tinham sido vítimas de um complô: os arquivos da
KGB mostraram que eram mesmo espiões. Acreditávamos que os artistas demitidos
de Hollywood eram inocentes perseguidos por discriminação ideológica: os
documentos mostraram que cada um deles era um colaborador recrutado pela KGB.
Acreditávamos que o “ouro de Moscou” era um mito criado pela CIA: hoje sabemos
que bilhões de dólares saíram do Kremlin para financiar revoluções, golpes de Estado
e assassinatos políticos. Acreditávamos que os planos comunistas de domínio mundial
eram pura invencionice do Pentágono: hoje temos as provas de que eram uma
realidade. Agora, que cartas, contracheques, ordens de serviço e memorandos estão à
disposição de quem queira conferi-los nos arquivos de Moscou, já não podemos
refugiar-nos sob a desculpa de sermos “inocentes úteis”. Como resumiu o historiador
John Lewis Gaddis no título de um recente best seller sobre a história do
anticomunismo, “We Now Know”: agora sabemos. Sabemos que, hoje, acreditar em
comunistas seria inocência perversa. Sabemos? Quem “sabemos”? No Brasil ninguém
sabe. Excetuando as buscas de William Waack, das quais a suposta vítima de
discriminação ideológica, Olga Benário, emergiu como comprovada espiã do serviço
secreto militar soviético, nenhum brasileiro quis saber nada, e o que se vem
descobrindo no mundo continua excluído da nossa imprensa e das nossas livrarias,
graças ao esforço de devotados vigilantes. Por isso ainda há quem diga que ser
anticomunista no ano 2000 está tão fora de época quanto estava dez anos atrás. Nem
mesmo em meras questões de moda é prudente acreditar nessa gente. Por isso é
preciso também rejeitar com veemência a mentira de que essas excursões de
militantes petistas a Cuba, das quais a mais recente levou a Havana 220 deles em
companhia do sr. Luís Ignácio Lula da Silva, são meras viagens de saudosismo. A
revolução continental da qual o eterno candidato se proclama eterno apaixonado não é
coisa do passado. Neste mesmo momento, prisioneiros sofrem tortura e fome nos
campos de concentração montados pelas FARC com o apoio de Cuba e sob os
aplausos do PT, enquanto o sr. Lula pretende que acreditemos que seus contatos com
o alto escalão cubano são apenas festinhas de sessentões nostálgicos. Para acreditar
nisso a gente tem de estar não apenas fora do tempo: tem de estar fora de si.
Olavo de Carvalho

Época, 9 de dezembro de 2000

O sujeito pensa que disse, mas não disse nada

Não posso deixar de aplaudir a sugestão do ministro Weffort de que o grego e o latim
devem voltar a nossas escolas. A sugestão, é claro, parecerá odiosa aos cretinos que
imaginam que a cultura é um instrumento que você compra para fazer com ela o que
quiser, e com base nessa premissa alegam que as línguas clássicas “não servem para
nada”. É característico do semiletrado não compreender a cultura senão como
utensílio ou como adorno, sem enxergar que ela não existe para nós fazermos alguma
coisa com ela, mas para ela fazer algo conosco: para nos construir e nos fortalecer
enquanto seres capazes de consciência.

Nada no repertório dos conhecimentos humanos tem esse poder educativo como os
estudos clássicos. Uma boa injeção de gramática latina e filosofia grega, na juventude,
nos torna imunes, na idade madura, à infinidade de estupefacientes culturais que hoje
danam as melhores inteligências.

Não digo que esse remédio, sozinho, possa deter a alucinante precipitação da
inteligência nacional ladeira abaixo. Mas pode melhorar a compreensão da linguagem,
que hoje raia, nas elites, o analfabetismo funcional.

Arrastados no declínio da fala geral, mesmo os homens mais preparados acabam por
perder de todo a compreensão do que lêem e mesmo do que dizem.

Tomo como exemplo a declaração do deputado José Genoíno: “Há dois documentos
da Igreja que prezo muito e coloco no mesmo patamar do Manifesto Comunista: Os
Dez Mandamentos e O Sermão da Montanha”.

Se Os Dez Mandamentos põem Deus acima de todas as coisas, o homem que diz
amá-los tanto quanto a uma filosofia que professa expulsar Deus dos céus está, no
ato, declarando que para ele o culto a Deus e o ódio a Deus valem exatamente o
mesmo. Obviamente pode-se desprezar por igual essas duas coisas, ou amá-las em
sentido desigual, mas jamais amá-las por igual. Isso decorre da simples apreensão do
sentido do enunciado, e é esta apreensão que na declaração do deputado falha por
completo.

Considerados na mesma clave de sentido, Os Dez Mandamentos e o Manifesto


Comunista nunca têm valores idênticos. Se um diz a verdade, o outro mente.

Não há terceira alternativa. Nem Genoíno nem qualquer outro ser humano pode amá-
los “no mesmo patamar” sem, no ato, declarar guerra àquilo que diz. Se ele afirmasse
que seu coração oscila entre dois pólos, ou então que ama os dois textos em planos
diversos, ou que nenhum deles lhe diz nada exceto como documento histórico, tudo
estaria bem. Ao expor como emblema convencional da harmonia dos contrários algo
que, de fato, é a mútua hostilidade dos incompatíveis, ele cai no tipo de linguagem
auto-hipnótica que hoje domina nossos debates públicos, uma linguagem que, em vez
de despertar a consciência, a entorpece.

Quando tentei explicar isso a uma platéia que não era de iletrados nem de estudantes,
mas de juízes de Direito, alguns me objetaram que eu estava exigindo rigor lógico de
uma frase que deveria ser compreendida em sentido poético ou plurissenso; e tive a
maior dificuldade para explicar à platéia a diferença entre a multiplicidade de sentidos
da fala poética e a ausência de sentido de uma afirmação que se eletrocuta a si
mesma. Pois para compreender isso é preciso captar a diferença entre uma mera
contradição lógico-formal (já que uma verdade pode ser perfeitamente expressa em
termos contraditórios) e a contradição efetiva, real, entre dois atos interiores que não
podem coexistir exceto como erro de auto-interpretação do falante, isto é, como sinal
de que ele, rigorosamente, não sabe o que diz.
O maior problema do mundo

Olavo de Carvalho

Época, 30 de dezembro de 2000

De todas as “questões para o próximo milênio”, esta é uma que ninguém sabe
resolver

O maior problema do mundo não é a miséria, não é a guerra, não é a delinqüência. É


dar uma função socialmente útil às pessoas que produzem esses males, de modo que
parem de produzi-los. Nenhum desses problemas surge do acaso ou do mero efeito
inconsciente das ações das massas anônimas. Cada um deles surge da iniciativa de
pessoas e grupos dotados do poder de agir.

Só há três classes de pessoas poderosas: os ricos, os chefes político-militares e os


intelectuais. Dessas três, só a primeira encontrou seu lugar no mundo. Ela organizou
tão bem sua atividade que, além de liberar forças produtivas jamais sonhadas (como
salientava Marx), tornou a economia uma máquina de prosperidade geral capaz de
funcionar sozinha, sem muita interferência do Estado. A classe dos ricos – a burguesia
– cumpriu seu papel: abrir o caminho de dias melhores para toda a humanidade. Só
que, para fazer isso, ela tornou a economia o centro da vida, organizando as outras
duas esferas do poder – a político-militar e a intelectual – pelo modelo de
administração das fábricas ou dos bancos. O capitalismo racionalizou e burocratizou o
Estado, a Justiça, os exércitos e a vida intelectual. Um chefe militar é hoje um
funcionário, como é funcionário o homem de ciência. Na vida político-militar não há
mais lugar para caudilhos ou condottieri, tal como na esfera do conhecimento há cada
vez menos lugar para o sábio independente.

Isso fez com que entre essas duas esferas e a da economia surgisse uma diferença
radical. Na economia há patrões e empregados, os primeiros apostando na
inventividade pessoal e no risco, os segundos na segurança e na rotina. Tanto a
margem de iniciativa dos primeiros quanto as garantias sociais dos segundos se
ampliam com o tempo, diferenciando bem os tipos humanos correspondentes. Nada
disso há nas esferas político-militar e intelectual. Aí não há patrões. Todos são
empregados. Todos estão enquadrados no regulamento que reduz ao mínimo o
campo das decisões e da criatividade pessoal. O gênio, a inventividade, a audácia
refluem para a única esfera restante: a economia. Por isso ainda é possível um Bill
Gates. Mas já imaginaram um Bill Gates da política, da guerra, da ciência, da filosofia?
Não, não há mais lugar no mundo para Júlio César, Carlos Magno, Leibniz ou
Aristóteles.Tudo isso estaria muito bem se as pessoas dotadas de gênio e iniciativa
nessas esferas se conformassem com o estado de coisas. Mas essa conformidade
não parece ser compatível com a natureza humana. As personalidades vigorosas,
rejeitadas pelo sistema, continuam surgindo. Não encontrando espaço, abrem-no com
os cotovelos. Num sistema que as acolhesse, teriam sido gênios criadores. Rejeitadas
pelo mundo real, rejeitam a realidade. Inventam outra, impossível, e tornam-se
artífices da destruição. Tornam-se Lenin, Hitler, Stalin, Mao. Tornam-se chefes de
máfias. Tornam-se inventores de idéias macabras, capazes de seduzir as massas e
levá-las ao suicídio. Tornam-se os senhores da morte, da miséria, do caos.Nosso
tempo não produziu nenhum Aristóteles, nenhum Moisés, nenhum criador de mundos.
Produziu mais gênios do Mal que qualquer outro período da História. Sem eles, a
existência, ou pelo menos a dimensão atual de todos os males apontados no início
deste artigo, seria inconcebível.Já sabemos como organizar a economia. Só não
sabemos organizá-la de modo a evitar a marginalização que transforma os gênios em
titãs excluídos e os devolve à História na forma de furacões. Este é o maior problema
do mundo. Teremos um milênio inteiro para encontrar sua solução?
Cumprindo meu dever

Olavo de Carvalho

O Globo, 30 de dezembro de 2000

Um homem de pensamento deve ser fiel à verdade tal como ela se lhe apresenta a
cada momento no exame das questões concretas, sem deixar-se envolver por uma
atmosfera mental que tinja todo o seu horizonte de consciência com uma tonalidade
geral e prévia de “esquerda”, de “direita” ou seja lá do que for. Pessoalmente, nunca
me manifestei a favor de nenhuma política “de direita”, e é por pura indução psicótica e
ressentimento de complexados que uns sujeitos de esquerda tentam enxergar em mim
um feroz direitista. Deduzem isto das críticas que lhes faço. Raciocinam na base
schmittiana do “Quem não está conosco está do outro lado”, mostrando que nem
sequer em imaginação podem conceber que exista uma inteligência livre, capaz de
atacar o mal sem cair no automatismo mentecapto de supor que a simples inversão da
ruindade faria dela um bem.

Logicamente falando, a posição política de um indivíduo jamais pode ser inferida das
críticas, por mais duras, que dirija a uma ideologia ou partido, pela simples razão de
que críticas idênticas podem ser feitas desde várias posições ideológicas. O sionismo
foi atacado com igual vigor pela extrema-direita e pelos comunistas. O
fundamentalismo islâmico é tão abominado pelos cristãos conservadores quanto pela
esquerda feminista e gay ou pelos liberais modernistas e ateus.

Só uma tomada de posição positiva em favor de determinadas políticas é que define


identidade e compromisso ideológicos. A crítica é livre e pode vir de todas as direções.

A mentalidade comunista, no entanto, desconhece a tal ponto a liberdade de


pensamento, subjuga tão pesadamente a inteligência ao comando partidário, que
chega a catalogar a ideologia de um sujeito não pelas intenções e valores que ele
professe, mas pela simples conjecturação hipotética e quase sempre paranóica do
benefício político ou publicitário que partidos ou correntes possam auferir de suas
palavras, ainda que oportunisticamente e contra a vontade dele. Na imaginação dos
comunistas, ninguém afirma “x” ou “y” com a simples intenção de dizer a verdade, mas
sempre com a premeditação de algum resultado político, mesmo remotíssimo. É que
eles pensam assim, eles são indiferentes à verdade e à falsidade e só abrem a boca
em vista de efeitos políticos. Por isso imaginam que o resto da Humanidade também é
assim.

Foi com base nesse raciocínio alucinadamente projetivo que o Estado soviético
chegou a condenar como crime a indiferença política, por julgar que ela denotava
sinistras intenções contra-revolucionárias. Boris Pasternak foi parar na cadeia por
conta disso.

Da minha parte, estou persuadido de que o homem de pensamento deve ser


escrupulosamente comedido ao opinar a favor de qualquer política em especial: ele
deve simplesmente fazer a crítica do que é ruim e perverso, deixando ao público e aos
políticos, àqueles que se orgulham de ser “homens práticos” e que têm o dever de sê-
lo, a decisão de políticas positivas que hão de suprimir ou remediar o mal.

Ademais, se critico a esquerda é porque hoje só existe esquerda. Não há direita


nenhuma no Brasil. Há direitistas, mas cada um fechado nas suas convicções
privadas, sem qualquer ação de conjunto. A prova mais patente é que a palavra
“direita” só aparece na imprensa com conotações sombrias e criminais, jamais como a
designação de uma corrente política que tenha o direito de existir como qualquer
outra. Apontar um homem como direitista é acusá-lo de conspirador, de golpista, de
corrupto, de torturador. Tanto é assim, que qualquer delito cometido em interesse
próprio por analfabetos coronéis do sertão é imediatamente atribuído à “direita”, o que
é pelo menos tão absurdo quanto enxergar motivação ideológica esquerdista em todos
os crimes cometidos por meninos de rua. Só se pode falar nesse tom, impunemente,
de uma minoria de párias sem voz nem poder. O curioso é que aqueles mesmos que
sem temor de represália falam da direita nesses termos, provando com isto que ela
não tem poder nenhum, querem nos fazer crer que ela existe, que ela é uma força
organizada e manda no Brasil. Tudo isso é puro histrionismo de uma esquerda que
sabe que está no poder mas não deseja assumir as responsabilidades de sua
situação.

Hoje o establishment é esquerdista, a oposição também. Leiam as cartilhas de


marxismo-leninismo do Ministério da Educação e me digam se um governo que educa
as crianças nessa mentalidade não é comunista em espírito, conformado
provisoriamente com o capitalismo que não pode suprimir. E qual governo sem forte
inspiração comunista desejaria a supressão do sigilo bancário? Nessas condições,
seria hipocrisia eu falar mal da “direita” só para me fazer de bom menino e afetar uma
independência estereotipada. A independência autêntica não teme os rótulos que lhe
queiram impor e não foge deles mediante o apelo a discursos de ocasião. Diz o que
tem de dizer, e pronto. A confusão que façam em torno dela corre por conta da malícia
e da sem-vergonhice de cada um.
Militares e a Memória Nacional

Olavo de Carvalho

Ternuma, 31 de dezembro de 2000

Como todos os meninos da escola na minha época, eu não podia cantar o Hino
Nacional ou prestar um juramento à bandeira sem sentir que estava participando de
uma pantomima. A gente ria às escondidas, fazia piadas, compunha paródias
escabrosas.

Os símbolos do patriotismo, para nós, eram o supra-sumo da babaquice, só igualado,


de longe, pelos ritos da Igreja Católica, também abundantemente ridicularizados e
parodiados entre a molecada, não raro com a cumplicidade dos pais. Os professores
nos repreendiam em público, mas, em segredo, participavam da gozação geral.

Cresci, entrei no jornalismo e no Partido Comunista, freqüentei rodas de intelectuais.

Fui parar longe da atmosfera da minha infância, mas, nesse ponto, o ambiente não
mudou em nada: o desprezo, a chacota dos símbolos nacionais eram idênticos entre a
gente letrada e a turminha do bairro.

Na verdade, eram até piores, porque vinham reforçados pelo prestígio de atitudes
cultas e esclarecidas. Graciliano Ramos, o grande Graciliano Ramos, glória do
Partidão, não escrevera que o Hino era “uma estupidez”?

Mais tarde, quando conheci os EUA, levei um choque. Tudo aquilo que para nós era
uma palhaçada hipócrita os americanos levavam infinitamente a sério.

Eles eram sinceramente patriotas, tinham um autêntico sentimento de pertinência, de


uma raiz histórica que se prolongava nos frutos do presente, e viam os símbolos
nacionais não como um convencionalismo oficial, mas como uma expressão
materializada desse sentimento.

E não imaginem que isso tivesse algo a ver com riqueza e bem-estar social. Mesmo
pobres e discriminados se sentiam profundamente americanos, orgulhosamente
americanos, e, em vez de ter raiva da pátria porque ela os tratava mal, consideravam
que os seus problemas eram causados apenas por maus políticos que traíam os
ideais americanos.

Correspondi-me durante anos com uma moça negra de Birmingham, Alabama. Ali não
era bem o lugar para uma moça negra se sentir muito à vontade, não é mesmo?

Mas se vocês vissem com que afeição, com que entusiasmo ela falava do seu país! E
não só do seu país: também da sua igreja, da sua Bíblia, do seu Jesus. Em nenhum
momento a lembrança do racismo parecia macular em nada a imagem que ela tinha
da sua pátria.

A América não tinha culpa de nada. A América era grande, bela, generosa. A maldade
de uns quantos não podia afetar isso em nada. Ouvi-la falar de matava de vergonha.

Se alguém no Brasil dissesse essas coisas, seria exposto imediatamente ao ridículo,


expelido do ambiente como um idiota-mor ou condenado como reacionário um
integralista, um fascista.
Só dois grupos, neste país, falavam do Brasil no tom afetuoso e confiante com que os
americanos falavam da América.

O primeiro era os imigrantes: russos, húngaros, poloneses, judeus, alemães, romenos.


Tinham escapado ao terror e à miséria de uma das grandes tiranias do século (alguns,
das duas), e proclamavam, sem sombra de fingimento: “Este é um país abençoado!”
Ouvindo-nos falar mal da nossa terra, protestavam: “Vocês são doidos.

Não sabem o que têm nas mãos”.Eles tinham visto coisas que nós não imaginávamos,
mediam a vida humana numa outra escala, para nós aparentemente inacessível.
Falávamos de miséria, eles respondiam: “Vocês não sabem o que é
miséria”.Falávamos de ditadura, eles riam: “Vocês não sabem o que é ditadura”.

No começo isso me ofendia. “Eles acham que sabem tudo”, dizia com meus botões.
Foi preciso que eu estudasse muito, vivesse muito, viajasse muito, para entender que
tinha razão, mais razão do que então eu poderia imaginar.

A partir do momento em que entendi isso, tornei-me tão esquisito, para meus
conterrâneos como um estoniano ou húngaro, com sua fala embrulhada e seu
inexplicável entusiasmo pelo Brasil, eram então esquisitos para mim.[

Digo, por exemplo, que um país onde um mendigo pode comer diariamente um franco
assado por dois dólares é um país abençoado, e as pessoas querem me bater.

Não imaginam o que possa ter sido sonhar com um frango na Rússia, na Alemanha,
na Polônia, e alimentar-se de frangos oníricos.

Elas acreditam que em Cuba os frangos dão em árvores e são propriedade pública.
Aqueles velhos imigrantes tinham razão: o brasileiro está fora do mundo, tem uma
medida errada da realidade.

O outro grupo onde encontrei um patriotismo autêntico foi aquele que, sem conhece-
lo, sem saber nada sobre ele exceto o que ouvia de seus inimigos, mais temi e
abominei durante duas décadas: os militares.

Caí no meio deles por mero acaso, por ocasião de um serviço editorial que prestava
para a Odebrecht que me pôs temporariamente de editor de texto de um volumoso
tratado O Exército na História do Brasil.

A primeira coisa que me impressionou entre os militares foi sua preocupação sincera,
quase obsessiva, com os destinos do Brasil.

Eles discutiam os problemas brasileiros como quem tivesse em mãos a


responsabilidade pessoal de resolvê-los. Quem os ouvisse sem saber que eram
militares teriam a impressão de estar diante de candidatos em plena campanha
eleitoral, lutando por seus programas de governo e esperando subir nas pesquisas
junto com a aprovação pública de suas propostas.

Quando me ocorreu que nenhum daqueles homens tinha outra expectativa ou


possibilidade de ascensão social senão as promoções que automaticamente lhes
viriam no quadro de carreira, no cume das quais nada mais os esperava senão a
metade de um salário de jornalista médio percebi que seu interesse pelas questões
nacionais era totalmente independente da busca de qualquer vantagem pessoal.

Eles simplesmente eram patriotas, tinham o amor ao território, ao passado histórico, à


identidade cultural, ao patrimônio do país, e consideravam que era do seu dever lutar
por essas coisas, mesmo seguros de que nada ganhariam com isso senão antipatias e
gozações.
Do mesmo modo, viam os símbolos nacionais – o hino, a bandeira, as armas da
República – como condensações materiais dos valores que defendiam e do sentido de
vida que tinham escolhido. Eles eram, enfim, “americanos” na sua maneira de amar a
pátria sem inibições.

Procurando explicar as razões desse fenômeno, o próprio texto no qual vinha


trabalhando me forneceu uma pista.

O Brasil nascera como entendida histórica na Batalha dos Guararapes, expandira-se e


consolidara sua unidade territorial ao sabor de campanhas militares e alcançara pela
primeira vez, um sentimento de unidade autoconsciente por ocasião da Guerra do
Paraguai, uma onda de entusiasmo patriótico hoje dificilmente imaginável.

Ora, que é o amor à pátria, quando autêntico e não convencional, senão a recordação
de uma epopéia vivida em comum?

Na sociedade civil, a memória dos feitos históricos perdera-se, dissolvida sob o


impacto de revoluções e golpes de Estado, das modernizações desaculturantes, das
modas avassaladoras, da imigração, das revoluções psicológicas introduzidas pela
mídia.

Só os militares, por força da continuidade imutável das suas instituições e do seu


modo de existência, haviam conservado a memória viva da construção nacional.

O que para os outros eram datas e nomes em livros didáticos de uma chatice sem par,
para eles era a sua própria história, a herança de lutas, sofrimentos e vitórias
compartilhadas, o terreno de onde brotava o sentido de suas vidas.

O sentimento de “Brasil”, que para os outros era uma excitação epidérmica somente
renovada por ocasião do carnaval ou de jogos de futebol (e já houve até quem
pretendesse construir sobre essa base lúdica um grotesco simulacro de identidade
nacional), era para eles o alimento diário, a consciência permanentemente renovada
dos elos entre passado, presente e futuro.

Só os militares eram patriotas porque só os militares tinham consciência da história da


pátria como sua história pessoal.

Daí também outra diferença. A sociedade civil, desconjuntada e atomizada, é


anormalmente vulnerável a mutações psicológicas que induzidas do Exterior ou
forçadas por grupos de ambiciosos intelectuais ativistas apagam do dia para a noite a
memória dos acontecimentos históricos e falseiam por completo a sua imagem do
passado.

De uma geração para outra, os registros desaparecem, o rosto dos personagens é


alterado, o sentido todo do conjunto se perde para ser substituído, do dia para a noite,
pela fantasia inventada que se adapte melhor aos novos padrões de verossimilhança
impostos pela repetição de slogans e frases-feitas.

Toda a diferença entre o que se lê hoje na mídia sobre o regime militar e os fatos
revelados no site de Ternuma vem disso. Até o começo da década de 80, nenhum
brasileiro, por mais esquerdista que fosse, ignorava que havia uma revolução
comunista em curso, que essa revolução sempre tivera respaldo estratégico e
financeiro de Cuba e da URSS, que ele havia atravessado maus bocados em 1964 e
tentara se rearticular mediante as guerrilhas, sendo novamente derrotada.

Mesmo o mais hipócrita dos comunistas, discursando em favor da “democracia”, sabia


perfeitamente a nuance discretamente subentendida nessa palavra, isto é, sabia que
não lutava por democracia nenhuma, mas pelo comunismo cubano e soviético,
segundo as diretrizes da Conferência Tricontinental de Havana.

Passada uma geração tudo isso se apagou. A juventude, hoje, acredita piamente que
não havia revolução comunista nenhuma, que o governo João Goulart era apenas um
governo normal eleito constitucionalmente, que os terroristas da década de 70 eram
patriotas brasileiros lutando pela liberdade e pela democracia.

No Brasil, a multidão não tem memória própria. Sua vida é muito descontínua, cortada
por súbitas mutações modernizadoras, não compensadas por nenhum daqueles
fatores de continuidade que preservava a identidade histórica do meio militar.

Não há cultura doméstica, tradições nacionais, símbolos de continuidade familiar. A


memória coletiva está inteiramente a mercê de duas forças estranhas: a mídia e o
sistema nacional de ensino.

Quem dominar esses dois canais mudará o passado, falseará o presente e colocará o
povo no rumo de um futuro fictício.

Por isso o site de Ternuma é algo mais que a reconstituição de detalhes omitidos pela
mídia.

É uma contribuição preciosa à reconquista da verdadeira perspectiva histórica de


conjunto, roubada da memória brasileira por manipuladores maquiavélicos,
oportunistas levianos e tagarelas sem consciência.

Perguntam-me se essa contribuição vem dos militares? Bem, de quem mais poderia
vir?
FONTE : http://www.olavodecarvalho.org

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