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“DOMINIO PUBLICO E DOMINIO PRIVADO DA

ADMINISTRAÇÃO”

Ordenamento do território, direito do urbanismo e Técnicas


Urbanísticas

RELATORIO INDIVIDUAL DE URBANISMO


Joana Campos Costa, 3º Ano, nº2171138

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Índice:
Introdução 2
Desenvolvimento 3
Domínio Publico Vs Domínio Privado 3
Ordenamento do território 5
Técnicas urbanísticas…………………………………………………………………………………………………6
Conclusão ……………………………………………………………………………………………………………………10
Webgrafia/Bibliografia……………………………………………………………………………………………11

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Introdução:
O presente trabalho tem por objeto uma reflexão sobre o domínio público
e domínio privado da Administração Publica, o ordenamento do território, as
técnicas urbanísticas e direito do urbanismo com base num caso em concreto,
nomeadamente sobre os famosos terrenos da feira popular de Lisboa, bem
como, do seu projeto de urbanístico no âmbito da cadeira de Direito do
Urbanismo.

Urbanismo está relacionado com as cidades, com o conjunto de regras


criadas para tentar organizar as cidades ou espaços habitacionais. Assim, em
síntese urbanismo é simultaneamente uma disciplina e uma técnica ligada ao
estudo, à regulação, ao controlo e ao planeamento das cidades no seu sentido
mais amplo. É possível afirmar que os fenómenos urbanísticos assumem nos
dias de hoje um papel determinante na nossa sociedade, e simultaneamente o
direito é um reflexo e uma condicionante dessa realidade, ou seja, o direito
regula e disciplina quase todos os atos que praticamos no nosso quotidiano,
logo seria impossível não regular/intervir no domínio das matérias relativas ás
cidades, surgindo o Direito do Urbanismo.

O direito do urbanismo é uma disciplina extremamente jovem, surgiu


durante o seculo XIX, pois foi nesta altura que se tomou consciência da
necessidade da intervenção “disciplinar” da administração publica devido aos
aglomerados urbanos…

Posto isto debatia-se qual seria o ramo de direito mais habilitado (publico
ou privado) para supervisionar e disciplinar o urbanismo. Consequentemente, e
vamos aprofundar mais ao longo do trabalho o direito do urbanismo é um
direito publico especial do Direito administrativo, sendo por isso, composto
pelas regras jurídicas respeitantes ao ordenamento das cidades, ou seja, do
aglomerado urbano. O que implica que o direito do urbanismo tenha um âmbito
de aplicação essencialmente local.

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Desenvolvimento:

A Feira Popular de Lisboa abriu portas a 10


de junho de 1943 no Parque José Maria Eugénio,
em Palhavã, numa iniciativa do diretor do jornal "O
Século" para financiar colónias de férias para
crianças carenciadas. A colónia já tinha
proporcionado férias a mais de 30 mil crianças e o
financiamento estava a tornar-se difícil, pelo que
João Pereira da Rosa decidiu criar um financiador
empresarial para a obra e pediu autorização para instalar uma feira em Lisboa.
A Feira Popular manteve-se em Palhavã até 1956 e, a 24 de junho de 1961,
abriu em Entrecampos, onde permaneceu até 2003.

Por estar envelhecida e degradada, a Feira Popular de Lisboa fechou


portas a 28 de março de 2003, tendo o então presidente da Câmara, Pedro
Santana Lopes, anunciado que tencionava criar um novo parque de diversões,
mais moderno. Este projeto não se realizou encontrando-se os terrenos sem
qualquer solução prevista e com litígio com uma empresa que afirmava ter
direito a uma parte.

Numa primeira fase importa perceber se os terrenos pertencem ao


domínio publico ou ao domínio privado da administração publica, pelo que, é
importante fazer a distinção entre ambos.

O domínio público designa o poder que o Estado exerce sobre todas as


coisas de interesse público e o poder de propriedade que exerce sobre o seu
patrimônio. Os bens pertencentes ao domínio publico da administração são:
impenhoráveis (são bens inalienáveis, que não podem ser vendidos, nem
apreendidos, nem dados como garantia) e imprescritíveis (bens que não estão
sujeitos a usucapião- o direito de posse adquirido pelo uso prolongado e cuja a
posse pelo Estado é legalmente inquestionável). O art. 84º da Constituição da
República Portuguesa (CRP) consagra os bens que pertencem ao domínio
publico, sendo alguns deles:

o Jazigos minerais;

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o Barragens, represas, valas e canais;
o Redes de distribuição de água e energia elétrica;
o Nascentes de águas minerais e térmicas;
o Linhas telefónicas e telegráficas, etc.
No que concerne ao domínio privado da administração designa o poder
que o Estado tem sobre determinados bens, isto é, aqueles que são
suscetíveis de comércio jurídico, que possuem valor económico de mercado.
São, assim bens de domínio privado os que estão sujeitos a um regime de
direito privado e inseridos no comércio jurídico correspondente, segundo o
disposto no artigo 1304º do Código Civil (de aqui em diante, designado CC). O
artigo 5º do D.L. 477/80, de 15/10 define quais os bens que integram o domínio
privado do Estado, sendo, nomeadamente, os seguintes:
o imóveis: prédios rústicos e urbanos e direitos a eles inerentes;
o direitos de arrendamento dos quais ocupe a posição de arrendatário;
o direitos reais;
o bens móveis corpóreos, com exceção das coisas consumíveis e
daquelas que, sem se destruírem imediatamente, se depreciam muito
rapidamente.
Assim, relativamente aos terrenos em analise, estes pertencem à
Camara de Lisboa, sendo por isso um terreno publico, contudo são do domínio
privado da administração publica.
Tendo em conta a situação em que se encontra os terrenos o Estado, as
regiões autónomas e as autarquias locais estão autorizados a recorrer à
gestão territorial , recorrendo a mecanismos típicos do direito privado, ou seja,
recorrer aos privados para que estes possam explorar aquelas terrenos, como
por exemplo, através da celebração de contratos de concessão, de uma
alienação (compra-venda, troca…), da constituição de um direito de superfície,
etc.

No caso em análise, “recentemente”, a Câmara de Lisboa conseguiu ,


após três anos depois de terem sido colocados à venda em hasta pública,
finalmente, fechar o processo de venda dos terrenos da feira popular, com a
Fidelidade Properties. A empresa pagou cerca de 274 milhões de euros pelos
lotes onde antes estava o parque de diversões da capital, além de uma parcela

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na Avenida Álvaro Pais, tudo na zona de Entrecampos, onde vai construir a sua
sede, pelo que, no
nosso caso
estamos
perante uma
alienação
por parte de
uma empresa
privada,

nomeadamente a compra e venda regulada no art.874º e ss do CC.

Noticia de 12 de Dezembro de 2018

Consequentemente, estes terrenos deixaram de


pertencer ao Estado e passaram a estar na esfera
dos privados. É apartir deste projeto que
podemos falar das técnicas urbanísticas que
estes terrenos serão alvos. Como podemos
observar na fotografia ao lado, temos um espaço
enorme completamente abandonado e é por isso
mesmo que já foi apresentada a operação
integrada entrecampos (iremos visualizar mais à frente) e afirmam que será
das maiores operações urbanística de Lisboa desde a Expo 98 e vai
transformar radicalmente 25 hectares no coração da capital.

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Posto isto, importa perceber no que consiste e compreender o que é o
Ordenamento do Território? O ordenamento do território consiste num sistema
de organização do espaço biofísico, de forma a permitir a ocupação, utilização
e transformação do ambiente de acordo com as potencialidades que este
apresenta. A elaboração/criação de cartas de ordenamento do território permite
definir áreas destinadas às diferentes atividades humanas, como, por exemplo,
locais de habitação, locais para a prática agrícola, zonas de interesse
ecológico, etc.

O ordenamento do território é regulado pela Lei de bases gerais da


política pública de solos, de ordenamento do território e de urbanismo
(LBGPPSOTU) ,que como enuncia Álvaro Santos a Lei de Bases “ assume-se
como uma nova geração de programas e planos que procura repor de forma
coordenada e transversal às necessidades do planeamento atual, adotando
uma visão crítica e inconformista relativamente à expansão física dos
aglomerados urbanos com a consequente degradação e despovoamento dos
centros urbanos, a sobreposição de planos e programas com fragilidades na
coordenação dos valores a salvaguardar e a integração da resposta às
alterações climáticas nos planos diretores municipais”, ou seja, com a criação
desta lei permite regular e “disciplinar” de forma mais eficaz as zonas urbanas,
a expansão física dos aglomerados urbanos, passando haver normas que tem
de ser respeitadas.

É de realçar, assim como o direito do urbanismo está consagrado no


ordenamento jurídico sendo um direito administrativo especial o ordenamento
do território também é um direito. Torna-se até complicado definir Direito do
ordenamento do território devido à “relação” com o direito do urbanismo ser
muito estreitas, e ainda acresce a particularidade de a própria noção de direito
do urbanismo ser alvo, ainda na atualidade, de alguma polémica.

Em segundo lugar, também se prende com o facto de o direito do


ordenamento do território planear alcançar uma grande quantidade de objetivos
recorrendo a meios bastante diversos.

Com o passar dos anos as nossas cidades vão assistindo a uma


degradação progressiva das suas estruturas urbanas, dos seus edifícios, dos

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seus espaços exteriores. Degradação que decorre do envelhecimento do
próprio edifício, da sobrecarga de usos, ou ainda do desajustamento dos
desenhos da sua organização a novos modos de vida.

Por isso, torna-se quase indispensável o desenvolvimento de projetos e


aplicação mecanismo urbanísticos para conservar e melhorar o “corpo” da

cidade. Assim, os mecanismos/técnicas urbanísticas que podemos recorrer


são: reabilitação; alinhamento; expansão e renovação urbana; zonamento;
cidade jardim; cidade linear; regionalismo urbanístico; plano urbanístico e
funcionamento racionalista; requalificação;

Ora, mediante o projeto apresentado na imagem/documento acima e


tendo por base o conceito das técnicas urbanísticas referidas no parágrafo
anterior, concluímos que ao caso sub índice aplicar-se-á , primeiramente, o
plano urbanístico e o funcionamento racionalista, dentro do qual está inserida a
renovação urbana e a requalificação.

O plano urbanístico e funcionamento racionalista são duas técnicas que


se relacionam facilmente entre si. O plano urbanístico é um documento que
consagra quais as técnicas urbanísticas que vão ser utilizadas consoante o
caso em “estudo” ou o espaço. Recentemente observou-se um
desenvolvimento e a aplicação em larga a esta técnica, isto deve-se muito a
uma corrente urbanística Funcionalismo Racionalista. Esta
técnica resultou dos trabalhos desenvolvidos nos CIAM (congressos
internacionais de arquitetura moderna, os quais se realizaram a partir de 1928)
e encontra-se consagrado da Carta de Atenas.

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Na carta de Atenas está presente a critica à irracionalidade das cidades
então existentes, pois existia uma “falta de organização” relativamente aos
espaços, isto é, existiam problemas graves, como por exemplo ao nível
densidade populacional excessiva, inexistência ou insuficiência de espaços
livres, rutura de ligações entre os espaços destinados a habitação e ao
trabalho. Também defende a necessidade de a cidade ser regida pela escala
humana, o que implica que esta seja orientada com base nas quatro funções
essenciais ao homem que habita as cidades: habitar, trabalhar, recrear-se
nas horas livres e circular, pelo que, os planos deviam criar-se tendo sempre
em conta um dos setores destinados àquelas quatro funções e assinalar a
respetiva localização no conjunto, de modo a permitir que a cidade passasse a
ser encarada e concebida como uma unidade funcional.

Por último, nesta carta, defende-se um urbanismo de terceira dimensão,


com prédios construídos em altura, e dotado de grandes espaços verdes, os
quais serviriam para fins de lazer e funcionariam simultaneamente como uma
espécie de linha divisória entre os edifícios destinados à habitação e as vias de
comunicação.

Posto isto, no meu entender a primeira técnica urbanística que se


enquadra melhor neste projeto referido, tendo por base o espaço é a
renovação urbana, uma vez que, se trate de um terreno em que o único edifício
que se encontra “em pé” é o portão, pelo que tudo o resto foi retirado ou como
até destruído. De uma forma mais simples e ao mesmo tempo mais correta
definimos renovação urbana como o derrube de bairros antigos para abertura
de novas ruas e construção de edifícios mais higiénicos e de melhor qualidade
arquitetónica.

No que concerne, ao nosso caso não se trata de derrubarem os bairros


antigos, mas como podemos analisar na imagem acima apresentada trata-se
de um projeto de construção com edifícios mais modernos, com um
formato/arquitetura mais atrativa, segura , de modo a permitir que se torne num
espaço mais higiénico, que suscite beleza e uma maior segurança ao local
onde se encontra.

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Uma outra técnica urbanística que pode estar em causa neste projeto é
a requalificação que consiste na adaptação da estrutura física dos imoveis ou
de uma área urbana, sem alterações significativas, a um uso diferente para o
que foi inicialmente concebido. Um dos programas que apoia a requalificação é
a POLIS (programa nacional de requalificação urbana e valorização ambientar
das cidades).

Relativamente, ao caso em apreço é percetível que mediante a noção


dada no paragrafo anterior não se trata de manter a estrutura física para o
mesmo uso que foi criado, pois antes existia o parque de diversões e agora
prevê-se a criação de um espaço dedicado à habitação, ao comercio, etc.
Todavia, trata-se em adaptar a estrutura física do imóvel naquela área urbana
de modo a tornar um espaço mais harmonioso, atrativo, rentável…

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/feira-popular-porque-e-
que-a-fidelidade-comprou-terrenos-45-acima-do-preco-pedido-
pela-camara-de-lisboa-393346

Esta imagem
é um excerto de uma notícia onde a empresa que adquiriu os terrenos da
antiga Feira Popular explicar o porquê de os ter comprado. O link abaixo da
imagem consagra a notícia na integra.

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Conclusão:

A escolha deste tema foi bastante interessante em vários aspetos, pois


permite perceber que a administração publica é dotada cada vez mais de
muitas funções, o que leva a que muita vezes esta não consiga resolver ou dar
resposta a tudo no tempo certo, e também conseguimos perceber a existência
de um paralelismo entre a boa e má atuação da administração publica, isto é,
se por um lado, a criação desta feira popular tinha como objetivo principal
ajudar/reverter o valor angariado para financiar colónias de férias para crianças
carenciadas, por outro lado, temos um domínio privado da administração que
deixou durante muitos anos os terrenos ao abandono, que muito
provavelmente se tivessem outra “postura” já podiam ter sido aproveitados ou
vendidos. Fazendo uma comparação um pouco fora do contexto, mas é
quase o mesmo que termos um tesouro durante anos na mão e nunca o ter
aberto.

Consequente, compreendemos que o estado por si só em determinados


casos, não “consegue dar conta”, pelo que, quando assim é mais vale recorrer
a determinadas técnicas que permitam que os privados explorem e deem uso
àquele espaço.

O projeto que a nova empresa tem sob estes terrenos é um grande


empreendimento que vai permitir dar uma nova ideologia aquele espaço. E
apesar da existência do domínio publico ser essencial na nossa vida, pois é o

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estado que nos assegura as necessidade básicas/essenciais, isto é, a sua
existência/domínio é necessária para que se consiga assegurar
infraestruturas para os cidadãos, mais importante que isto, é que o domínio
publico seja rentabilizado e reutilizado. Daí por vezes é mais benéfico para o
direito publico conceder, vender o que for preciso aos privados, ainda por cima
quando estamos a falar de um terreno situado na capital do pais, na qual cada
metro quadrado de construção está muito elevado e exige uma maximização
dos recursos disponíveis, não só pelo facto dos terrenos estarem “esquecidos”,
como também pela oportunidade de poder desconcentrar os fluxos
populacionais, ao nível, por exemplo, dos serviços, para aquela zona.

Pessoalmente, nesta situação em concreto, creio que deveria ter havido uma
atuação mais diligente por parte da Administração Local. A reabilitação,
requalifação ou renovação devem ser sempre consideradas antes da venda.
Seria da forma mais elementar de satisfazer o interesse público ,por exemplo, a
construção de residências para estudantes, uma vez que, que existe
“escassez” de habitações ou os preços praticados são elevadíssimos o que
leva muitos jovens a desistirem ou não prosseguirem com os estudos naquela
cidade, bem como a instalação de prédios de renda controlada, estratégia que
a CML tem vindo a mostrar intenções de montar.

Por outro lado, caso continuasse ao abandono e sem nenhum projeto em vista
seria sem dúvida, um exemplo gravoso da má utilização do direito publico, bem
como, da existência de conflitos.

Por fim, só a título de curiosidade a nova Feira Popular de Lisboa deverá


custar, pelo menos, 40 milhões de euros, mas esse valor poderá ascender aos
70 milhões, avança o “Público” esta segunda-feira. O investimento será
suportado pelo futuro concessionário(concessão), uma vez que o novo parque
de diversões será cedido através de concurso público a lançar pela câmara de

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Lisboa. Vai renascer em Carnide onde será construído também um parque
verde.

Webgrafia/Bibliografia:

https://www.dn.pt/portugal/feira-popular-uma-historia-que-comecou-em-1943-
4867966.html

https://www.idealista.pt/news/financas/investimentos/2018/12/12/38203-
terrenos-da-feira-popular-comprados-pela-fidelidade-por-mais-de-200-milhoes

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https://www.investlisboa.com/site/en/news/135-operacao-integrada-de-
entrecampos?fbclid=IwAR002pSDqESnu-Urnhz4BRTrEsSUmy-qBKkqVk-
W3IAK7UfnkWIehQYb6Ec

https://www.idealista.pt/news/financas/investimentos/2019/08/23/40643-projeto-
imobiliario-de-entrecampos-fara-nascer-um-novo-centro-de-negocios-e

https://www.am-lisboa.pt/documentos/1452794422P9fPW4fw2Jx30CY9.pdf?
fbclid=IwAR2KbxMoIK2-
fdrSq8yDNiH_lr9jF134k55zfF62CV3FtJ5Fp2OgFKWrvi8

https://paginas.fe.up.pt/construcao2004/c2004/docs/SAT_02_carta
%20atenas.pdf Versão portuguesa da carta de Atenas (página 7)

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