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Sobre os inícios da fenomenologia:

 André Dartigues: O que é fenomenologia

“Pode-se dizer que toda a vida filosófica de Husserl, da Filosofia da Aritmética (1981) às
conferências sobre a Crise das ciências europeias (1935), é denominada pelo sentimento de
uma crise da cultura” [DARTIGUES, 1973, 16]

“Segundo Merleau Ponty “a fenomenologia nasceu de uma crise e sem dúvida também que
essa crise é ainda a nossa” [DARTIGUES, 1973, 16]

“O esforço filosófico de Husserl é, com efeito destinado em seu espírito a resolver


simultaneamente uma crise da filosofia, uma crise das ciências do homem e uma crise das
ciências puras e simplesmente, da qual ainda não saímos” [DARTIGUES, 1973, 16 APUD PONTY,
M. 1964, P. 1]

“Os dez últimos anos do século XIX, período dos primeiros trabalhos de Husserl, se
caracterizam na Alemanha pela derrocada dos grandes sistemas filosóficos” [DARTIGUES,
1973, 16]

- Hegel, Schopenhauer, Marx, Nietzsche e Freud, ou perderam a rotação em volta deles ou se


tornaram interessantes a círculos restritos. [DARTIGUES, 1973, 16]

“É a ciência que doravante preenche o espaço vazio pela filosofia especulativa e, sobre seu
fundamento, o positivismo, para o qual o conhecimento objetivo parece estar definitivamente
ao abrigo das construções subjetivas da metafísica”.

- Matemática e Psicologia como disciplinas notáveis, porque estão obedecendo aos ideais
positivistas;

- Reação ao ideal positivista: as leis descobertas pela ciência tem validez universal? O que
garante isso?

- Tentativa de Kant de resolver isso;

- Entrada de Husserl no universo da Filosofia da Matemática;

- Contato com Brentano: Intencionalidade, Fenomenos Psíquicos e físicos.

 Surgimento da Fenomenologia de Husserl por meio da psicologia descritiva de


Brentano.
“A exploração do campo da consciência e dos modos de relação ao objeto, que a
escola de Brentano persegue com Stumpf e von Meinong, delimita o que se tornará o
campo de análise da fenomenologia de Husserl. Mas essa escola fica na descrição dos
fenômenos psíquicos, e não responde às questões fundamentais que Husserl se
coloca: poderá um conceito lógico ou matemático, como um número, se reduzir à
operação mental que o constitui, por exemplo à numeração? E se ele não se reduz a
isto, não será o estudo da operação mental mais do que uma simples descrição do
psiquismo? Um ultrapassamento da psicologia descritiva de Brentano se verifica
necessário e é este ultrapassamento que Husser realizará sob o nome de
fenomenologia. “ [DARTIGUES, 1973, 18]
 O erro das ciências humanas de se confundirem ou de tentarem agir como ciências
da natureza.
- Crítica de Brentano às ciências humanas do início do século XX, em especial, a
psicologia.
- Aqui inicia o movimento de oposição entre: essas áreas que querem se consolidar
como ciências, adotando o método das ciências naturais e senso chamadas de
explicativas, do outro críticos dessas áreas que dizem que as ciências humanas
possuem como método a descrição e a análise.
“O contato de Brentano terá pelo menos despertado Husserl para as insuficiências das
ciências humanas”, “em especial a psicologia” por “ter tomado os seu método o
mesmo método das ciências da natureza e aplica-los sem discernir que seu objetivo é
diferente” [DARTIGUES, 1973, p. 18].
- Crítica de Dilthey a este respeito em seu Ideias: “nós explicamos a natureza,
compreendemos a vida psíquica”.

 Exemplo de como as ciências explicativas, a saber a Psicologia Construtiva não


determinam exatamente seu objeto e não sabe ao que seus resultados se referem.
“Se nesse ponto a crítica de Husserl encontra-se com a de Dilthey, não é que ele
procure depreciar os resultados que puderam obter as ciências experimentais (e
notadamente a psicologia experimental). Mas essas ciências não determinam
exatamente seu objeto e não sabem, pois, a que se referem os resultados obtidos.
Pensamos aqui nas palavras de Binet: ‘O que é a inteligência?’ respondia: ‘A
inteligência é o que os meus testes medem’. Como admitir que se possa calcular sobre
a sensação, a percepção, a memória etc., sem ter previamente elucidado o que quer
dizer sensação, percepção, memória? Se a psicologia contemporânea quer ser a
ciência dos fenômenos psíquicos, é preciso que ela possa descrever e determinar
esses fenômenos com um rigor conceitual. É preciso que ela adapte a si própria,
através de um trabalho metódico, os conceitos rigorosos necessários” [DARTIGUES,
1973, 19 APUD HUSSERL, 1955, p. 77]

“Se, com efeito, a lógica e com ela a atividade de pensamento deve ser salva do
ceticismo ao qual às entrega a redução empirista...” [DARTIGUES, 1973, 20]

- A fenomenologia é uma alternativa:


o Ao discurso especulativo da Metafísica;
o Raciocínio das ciências positivas;

- Princípio de todos os princípios: a intuição originária como fonte direta para o


conhecimento, que é uma alternativa para não cair na dissolução de especulações
vazias da metafísica; [DARTIGUES, 1973, 21]

- Visão de essências: “que o sentido de um fenômeno lhe é imanente e pode ser


percebido, de alguma maneira, por transparência”. [DARTIGUES, 1973, 22]

Não existe, com efeito, nenhum fenômeno do qual possamos dizer que ele não é nada,
pois o que não é nada não é. Se todo fenômeno tem uma essência, o que se traduzirá
pela possibilidade de designá-lo, nomeá-lo, isso significa que não se pode reduzi-lo à
sua única dimensão de fato, ao simples fato que ele tenha se produzido. Através de um
fato é sempre visado um sentido. Husserl gosta de evocar a esse respeito o exemplo da
‘IX Sinfonia’. Esta pode se traduzir pelas impressões que experimento ao escutar este
ou aquele concerto, pela escritura desta ou daquela partitura, pela atividade do
referente de orquestra ou dos músicos etc. Em cada caso, poderei dizer que se trata da
‘IX Sinfonia’ e, contudo, esta não se reduz a nenhum desses casos, se bem que ela
possa a cada vez se dar neles inteiramente. A essência da ‘IX Sinfonia’ persistiria
mesmo se as partituras, orquestras e ouvintes viessem a desaparecer para sempre. Ela
persistiria, não como uma realidade, como um fato, mas como uma pura
possibilidade.” [DARTIGUES, 1973, 22]

“Vemos em que a intuição da essência se distingue da percepção do fato: ela é a visão


do sentido ideal que atribuímos ao fato materialmente percebido e que nos permite
identificá-lo”. [DARTIGUES, 1973, 22]

“A essência permite identificar um fenômeno, e ela é sempre idêntica a si própria, não


importando as circunstâncias contingentes de sua realização.” [DARTIGUES, 1973, 22]

“A essência não é a coisa ou a qualidade , se ela é somente o ser da coisa , ou da


qualidade, isto é , um puro possível para cuja definição a existência não entra em
conta, poderá haver tantas essências quantas significações nosso espírito é capaz de
produzir; isto é, tantas quantos objetos nossa percepção, nossa memória, nossa
imaginação, nosso pensamento podem se dar”. [DARTIGUES, 1973, 23]

- “As essências são independentes da experiência sensível, muito embora se dê através


dela...” [DARTIGUES, 1973, 223]

“Elas são a racionalidade imanente do ser, o sentido a priori no qual deve entrar todo
mundo real ou possível e fora do qual nada pode se produzir” [DARTIGUES, 1973, 23]

Intuição de essências = Intuição de possibilidades puras.

Tarefa das Investigações Lógicas: “Elucidar a essência das formas puras do


pensamento, as categorias lógicas e gramaticais que nos permitem pensar um ‘objeto
em geral’ e que são, pois, a condição de inteligibilidade das outras regiões. Essas
categorias formais podem, com efeito, ser elas também objeto de uma intuição que
Husserl chama ‘intuição categorial’. “