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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA

INSTITUTO DE ANTROPOLOGIA

CURSO DE ANTROPOLOGIA

MARINA SOUSA LIMA

“TERRA SÓ DEBAIXO DA UNHA”- ORGANIZAÇÃO SOCIAL E MODOS DE


PRODUÇÃO DE UMA CASA DE FARINHA NO MUNICÍPIO DE IRACEMA-RR

Boa Vista, RR

2015
MARINA SOUSA LIMA

“TERRA SÓ DEBAIXO DA UNHA”- ORGANIZAÇÃO SOCIAL E MODOS DE


PRODUÇÃO DE UMA CASA DE FARINHA NO MUNICÍPIO DE IRACEMA-RR

Trabalho de Conclusão de
Curso apresentado como pré-
requisito para conclusão do
curso superior em Antropologia
da Universidade Federal de
Roraima.

Orientadora: Profa. Dra. Marisa


Barbosa Araújo.

Boa Vista, RR

2015
MARINA SOUSA LIMA

“TERRA SÓ DEBAIXO DA UNHA”- ORGANIZAÇÃO SOCIAL E MODOS DE


PRODUÇÃO DE UMA CASA DE FARINHA NO MUNICÍPIO DE IRACEMA-RR

Trabalho de Conclusão de
Curso apresentado como pré-
requisito para conclusão do
curso superior em Antropologia
da Universidade Federal de
Roraima.
Defendida em 15 de julho de
2015 e avaliada pela seguinte
banca examinadora:

__________________________________________________
Profa. Dra. Marisa Barbosa Araújo
Orientadora/ Curso de Antropologia- UFRR

__________________________________________________
Profa. Dra. Manuela Cordeiro
Curso de Antropologia- UFRR

__________________________________________________
Prof. Dr. Bernard José Pereira Alves
Examinador externo- Curso de Ciências Sociais-UFRR
À Mãe Natureza, por todas as dádivas da vida.
Ao Túlio, sinônimo de amor e a razão de acreditar no futuro.
AGRADECIMENTOS

Há muito tempo que conheço a palavra gratidão, mas recentemente descobri seu
real significado. Gratidão não é o obrigado por ser merecedor de algo. Gratidão é
amor, é reconhecer a benção que lhe é concedida e as pequenas/grandes dádivas
da vida cotidiana. Sendo assim, sinto-me abençoada por tudo que vem me
ocorrendo no processo dessa pesquisa e só posso responder com amor e gratidão a
tudo que recebo.

Agradeço de coração a todas trabalhadoras e trabalhadores da mandioca,


agricultores e pessoas de Iracema que pacientemente abriram suas portas para me
receber, em especial à família de Gardenia que me abrigou no período da pesquisa
de campo. À família de Pedro que sempre foi tão amigável comigo. Gratidão por
todo aprendizado de vida e de terra que me proporcionaram, por toda ajuda e apoio.
Sem vocês nada disso faria sentido.

À minha orientadora Marisa Barbosa, por ser uma mulher tão querida, que admiro
como pessoa e como pesquisadora. Com certeza sua contribuição no processo da
compreensão da alteridade e na elaboração da síntese antropológica é algo que
carregarei por toda vida.

A todos trabalhadores e trabalhadoras da casa de farinha de Pedro.

Aos queridos Bryan, Clah, Fella, George, Isah Rocks, Mônica, Murillo KB, Mya,
Naoma e Tays por serem luz em minha vida. Roraimonsters por ser a injeção de
vida que eu precisava no processo de escrita.

Ao colegiado do Instituto de Antropologia e todos os professores que colaboraram


com a minha formação, em especial à professora Manuela e professora Madiana.
Um grande obrigada à Eulyna e Moisés, da parte administrativa.

Aos queridos que conheci no período de intercâmbio acadêmico realizado em 2013


em Pitzer College- California. Ter amigos em todos continentes do planeta foi uma
das coisas mais especiais que me ocorreu no período da graduação. Gratidão!
À minha querida mãe e irmão por serem aquilo que chamo de família, pelo amor e
por finalmente entenderem (ou quase entenderem) o porquê da Antropologia em
minha vida. E à família estendida de Sampa, Nordeste e Brasília, raízes e caule de
mim. Vovô e vovó que tanto amo e morro de saudades e tia Genovi in memoriam.

Aos amigos e amigas do curso de Antropologia que me acompanharam na


graduação, cada um que tive oportunidade de estudar, partilhar momentos, festas
com damurida- as melhores-, lanche e cópia dos textos, ou mesmo os que se
esbarravam nos corredores, muito obrigada por tudo.

Ao Studio Govinda de Yoga, em especial à Charu, por ter sempre uma palavra de
amor e serenidade nos períodos mais difíceis da escrita e ser uma pessoa de luz, a
todas as queridas e queridos que fazem parte dessa prática. Haribol!

Por fim, ao grupo de estudos “Ciclo de oficinas sobre representações,


territorialidades e políticas públicas: o rural no estado de Roraima” da UFRR, que há
mais de um ano venho compartilhando saberes e experiências e foram fundamentais
em algumas escolhas do TCC.
Farinha de Iracema

Esporão de Mandi
Arraia, espinho de Jauari
Toque e aterro
Marraia pra dor
Ferrada de Tucandeira no pé
Choque de Puraqué
É parte das dores
Sabores do Caburaí
Pimenta no nosso
É refresco de Murupi
Farinha pra gente
É a gente com buriti
Açaí e Tambaqui
Com farinha de Iracema
Farinha de Iracema
Iracema
(Neuber Uchôa)
RESUMO

Esta é uma pesquisa que pretende apreender as relações de trabalho, terra e os


modos de produção no município de Iracema-RR. O estudo tem como base a
pesquisa etnográfica realizada numa casa de farinha. A inserção em campo
apresenta-se como uma preocupação na pesquisa e que define a relação da
pesquisadora com os trabalhadores e trabalhadoras da casa de farinha. Trabalho,
modos de produção e relação com a terra perpassam as relações dos trabalhadores
e trabalhadoras da casa de farinha. A discussão teórica da agricultura familiar no
contexto das novas ruralidades auxilia na compreensão dessas relações localizadas
enquanto processos rurais dinâmicos. Grande parte dos trabalhadores e
trabalhadoras da casa de farinha é nordestina ou de ascendência nordestina. Assim
sendo, o processo sócio-histórico de formação do município informa de que maneira
a relação dos trabalhadored se deu com a sociedade amazônica e o tipo de
sociedade que se formava a partir desses encontros. Considerar a casa de farinha
enquanto unidade doméstica de produção significa localizá-la nas suas dimensões
de trabalho e família. Unidade doméstica é entendida na pesquisa como espaço de
trabalho onde há relações sociais entre as pessoas que compartilham um local de
trabalho. O plantio da mandioca faz parte dessas relações e analisá-lo em sua
dimensão cultural é um ponto chave da pesquisa. A perspectiva de compreender os
deslocamentos da população nordestina colabora para iluminar o sentido das novas
relações com a terra e com o trabalho, apreendendo a realidade a partir de um
cenário onde território, espécies novas de mandioca e novas formas de produção
marcam o contexto desses trabalhadores.

Palavras chaves: relações de trabalho, terra, modos de produção.


ABSTRACT

This is a study that aims to understand the relations of labor, land and means of
production in the city of Iracema-RR. The study is based on ethnographic research
conducted in a house of flour. The way fieldwork is conducted is presented as a
concern in the research and defining the relationship between the researcher and the
workers of the house of flour. Work, ways of production and relationship with the land
pervade the relations of workers of the house of flour. The theoretical discussion of
family farming in the context of new ruralities helps in understanding these
relationships as dynamic rural localized processes. Much of these workers of the
house of flour is Northeast (região nordeste) or Northeast descent. Therefore, the
socio-historical process of Iracema tells how the relationship of these workers
occurred among the Amazon society and the kind of society that was formed from
these meetings. Consider the house flour as household production means find it in
their work and family dimensions. Household is understood in research as workspace
where there are social relations between people who share a workplace. The
planting of cassava is one of those relationships and analyzing it in its cultural
dimension is a key point of the research. The prospect of understanding the
displacement of the Northeastern population contributes to enlighten the meaning of
new relationships with the land and with work, seeking to understand the reality from
a scenario where territory, new species of cassava and new forms of production
marks the context of these workers.

Keywords: labor relations, land, ways of production.


LISTA DE FIGURAS
Mapa 1- Bacias Hidrográficas- RR............................................................................23
Figura 1- Seu Militão .................................................................................................29
Mapa 2- Município de Iracema...................................................................................33

Figura 2- Neide e Gardenia descascando mandioca.................................................47

Figura 3- Momento de torrar a farinha........................................................................55

Figura 4- Peneirando a farinha...................................................................................55

Figura 5- Plantio das manivas....................................................................................55

Figura 6- Cortando as manivas..................................................................................55


LISTA DE ABREVIATURAS

INCRA -Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

ISA- Instituto Sócio Ambiental

ITERAIMA- Instituto de Terras e Colonização de Roraima

PA- Projeto de Assentamento

PCN- Projeto Calha Norte

PIN- Programa de Integração Nacional

POLAMAZÔNIA- Programa de Pólos de Desenvolvimento através dos Pólos


Agropecuários e Agrominerais

PA- Projeto de Assentamento

SEPLAN- Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento

TIY- Terra Indígena Yanomâmi


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...........................................................................................................11

CAPÍTULO I- CAPÍTULO I - Projeto de Estado, projeto de vida e uma


abordagem teórica dos novos arranjos nos espaços rurais: explorando o
município de Iracema-RR........................................................................................18

1.1.1 O contexto histórico................................................................................18


1.1.2 Coroa Portuguesa e a fronteira colonial do Rio Branco.........................21
1.1.3 Independência do Brasil e os novos ciclos econômicos.........................24
1.1.4 Território do Rio Branco: o plano é “ocupar”..........................................26
1.1.5 Amazônia e os grandes projetos............................................................29
1.1.6 Democracia e disputa pela terra.............................................................31
1.2 Possibilidades de abordagens teóricas no espaço rural...........................37

CAPÍTULO II- Casa de farinha de seu Pedro: plantio, produção e venda..........43

2.1 Farinha de mandioca na Amazônia...........................................................43

2.2 Casa de farinha de seu Pedro...................................................................46

2.3 O processo de produção na casa de farinha de seu Pedro......................49

CAPÍTULO III- Deslocamentos, saberes e trabalho..............................................56

3.1Produção, trabalho e espaço rural..............................................................56


3.2 Deslocamento e trabalho...........................................................................63

CONSIDERAÇÕES FINAIS.....................................................................................68

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.........................................................................72
11

INTRODUÇÃO

Neste trabalho abordo os aspectos das formas de produção, os arranjos na


mão de obra e a organização social na casa de farinha de seu Pedro. A pesquisa de
campo foi realizada no município de Iracema-RR, no mês de janeiro do ano de 2015.
Tenho como objetivo compreender como trabalho, modos de produção e relação
com a terra são categorias que perpassam as relações entre os trabalhadores e
trabalhadoras da casa de farinha de Pedro. Para isso, entendo a ocupação territorial
do município de Iracema como chave para iluminar os processos atuais de relação
com a terra e com o trabalho; a agricultura familiar e novas ruralidades como
discussão teórica que auxilia no entendimento dos processos rurais como
dinâmicos; e em que medida o modo de produção da farinha é marcado pelas
transações econômicas e pelas relações entre os trabalhadores.
Na casa de farinha de seu Pedro é possível observar o de trabalho familiar
em consonância com o trabalho da prestação de diárias de trabalhadores e
trabalhadoras. É interessante observar que devido a uma produção destinada à
venda, a prestação de diárias, o plantio, colheita e o processamento da mandioca
para obter a farinha são tarefas contínuas. A partir desse cenário tenho como
questões norteadoras a tentativa de apreender como as pessoas compreendem a
atividade, como se organiza a casa de farinha de seu Pedro, quais arranjos e
estratégias perpassam o trabalho e a relação com terra.
O interesse pelas formas de produção e os arranjos na mão de obra e
organização social na casa de farinha se deu primeiramente no ano de 2012 por
conversas com um o colega de curso que é funcionário da Embrapa e, portanto,
realiza visitas técnicas em diversas localidades do estado. Falou-me sobre a
especificidade da casa de farinha de seu Pedro, localizada às margens da BR-174,
que cruza o estado de Roraima no sentido norte-sul. Dessa forma, no âmbito de
uma disciplina do curso, pude visitar no ano de 2013 o local e realizar a pesquisa
exploratória entre os moradores e trabalhadores rurais.
No ano de 2013 realizei sete visitas à casa de farinha de seu Pedro, as quais
denomino de caráter exploratório em virtude da brevidade com que aconteciam: as
visitas era feitas num determinado dia e a volta para capital, Boa Vista, no mesmo
dia. Nas primeiras visitas vivenciei a dificuldade da inserção em campo, com
12

respostas curtas e diretas a perguntas feitas. Durante esse período a pesquisadora


foi uma incógnita: “O que faz aqui? Que curso é esse? Que tipo de pesquisa é
essa?”1. Num período posterior, fui informada de uma situação na qual um
transeunte passou pela casa de farinha com o intuito de produzir algumas imagens
do local. Em seguida, acusou, sem provas, seu Pedro de tê-los furtado. Creio que,
em parte, justifica essa primeira reação em relação à minha presença.
A primeira inserção em campo ocorreu com uma visita à casa de farinha de
Pedro. Não conhecia nenhum dos trabalhadores e nunca havia ido numa casa de
farinha. Cheguei ao local e me apresentei como estudante e expliquei brevemente o
objetivo da visita, falando de minha pesquisa. Alguns olhares de curiosidade, outros
apenas continuaram a fazer seu trabalho. O olhar é duplo, observa-se, mas muito
mais se é observada.
Seguindo o período das visitas no ano de 2013, fiquei um tempo considerável
sem fazer novas visitas aos trabalhadores, retornando apenas no dia 24 de julho de
2014. O porquê do longo período sem ir a Iracema dava o tom inicial de várias das
conversas tidas com os trabalhadores nesse período. No dia posterior também visitei
Iracema, já conhecendo uma segunda casa de farinha e aqui justifico a importância
da inserção - e de que modo ela se dá – como sendo um dos aspectos mais
relevantes na pesquisa de campo.
Aqui sinalizo a inserção através de uma das trabalhadoras como sendo
singular na experiência etnográfica. Creio que tornar o estranho familiar num cenário
empírico, num primeiro momento, se caracterize pela inserção com um quadro de
referência possível aos locais. Ou seja, ao ser socialmente localizada pelos quais
em que eu ficava, pelo trabalho que estava fazendo e pelas pessoas relacionadas à
pesquisa, não mais era uma estranha da capital, mas alguém que começava a se
familiarizar com os códigos locais.
O que fez Geertz (2013) sair daquilo que ele denomina como estágio do sopro
de vento foi a confusão armada com a polícia local na realização de uma briga de
galo- as mesmas são ilegais em Bali, local de sua pesquisa de campo-. Aqui faço
um paralelo com a inserção na presente pesquisa de campo: repetidas vezes era
interrogada de quem era parente e onde estava ficando. Na medida em que os
atores sociais tomavam ciência da pesquisa e de onde eu estava morando, as

1
As falas dos trabalhadores e trabalhadoras da casa de farinha serão destacadas em itálico. As
referências e citações bibliográficas serão escritas em fonte regular.
13

perguntas se estendiam para o andamento da pesquisa, com indicações de lugares


que deveria visitar, moradores que seriam interessante entrevistar e a percepção de
mudanças de roteiros e horários habituais da pesquisadora, configurando-se naquilo
que conhecemos como controle social2.
Sobre a relação da pesquisadora com os trabalhadores, destaco o lugar
social de quem se pesquisa. A pesquisa é acadêmica, inserida numa comunidade
onde os códigos são ditos científicos, onde os grandes acordos baseiam-se em
teoria e a busca pelo conhecimento se consiste nas regras gerais que podem ser
aferidas através de observação, da pesquisa empírica. O ineditismo das visitas, dos
locais, do município e das pessoas em muito se aproxima, pelo menos no plano da
expressão escrita, ao exotismo de que tanto se fala em antropologia. Entretanto,
aqui solicito especial atenção do leitor para os aspectos do encontro. Em pesquisa
antropológica, o olhar se propõe brincar com lentes, o olhar que estranha o familiar e
torna o familiar estranho.
Recordo com apresso as considerações que me foram interpeladas num
congresso no qual eu apresentava os aspectos etnográficos da presente pesquisa.
O lugar social da pesquisadora surgiu como uma inquietude. Ora, alguém alheio à
realidade do interior, do trabalhador rural, do plantio. Vinda da capital nacional para
o estado mais setentrional do país, nunca visitara uma casa de farinha sequer. E
aqui me justifico, como na presente ocasião, através de Mariza Peirano (2000).
Resgatei o texto “Antropologia como Ciência Social no Brasil” no qual a autora trata
da alteridade brasileira e propõe quatro tipos ideias: “alteridade radical, contato com
a alteridade, a alteridade em casa e o nós radical”, justificando a escolha e
momentos históricos onde certos grupos sociais foram mais pesquisados no Brasil e
como a dimensão da alteridade foi característica fundante da Antropologia brasileira,
sendo a sociedade nacional objeto de sua construção teórica.
Os tipos ideias de Peirano (2000) são substanciais para o entendimento de
exotismo, alteridade e encontro. Em quaisquer que seja o nível da alteridade, ao se
portar como pesquisador, como aquele que pretende compreender o modo de vida
de outro, uma posição é marcada. O olhar, mesmo que se conhecido, torna-se
estrangeiro- e o pesquisador consequentemente-. A produção etnográfica traduz em
2
John Comerford (2003) comenta no capítulo I de sua obra -Como uma família- Sociabilidade,
territórios de parentesco e sindicalismo rural- acerca do exercício de controle da circulação de pessoas e a
tentativa de “localizar” tanto moralmente, no âmbito de com quem se relaciona, e nos espaços geográficos que
circula os sujeitos de uma determina localidade.
14

texto escrito, por meio da análise teórica, a pesquisa empírica. E aqui a expressão
que melhor traduz a experiência da pesquisadora, não seria a de exotismo, mas a
do encontro.
Por fim, destaco o desafio de realizar pesquisa etnográfica no curso de
graduação e aspectos teóricos da etnografia. O último período significativo da
pesquisa de campo e que considero ser o de maior aprendizado e desafios, foi o
período de um mês que passei no município de Iracema, mais especificamente na
casa de Gardenia, uma das mulheres que descasca mandioca na casa de farinha de
Pedro. O mês de janeiro de 2015 revelou-se mais que uma experiência acadêmica,
mas uma profunda experiência pessoal. E essas experiências alguma vez já foram
dicotômicas? Creio que não e aqui recordo, em especial, Peirano (1995) em seu
texto icônico “A favor da etnografia”, onde discorre acerca da relação entre pesquisa
de campo e teoria. Sua contribuição consiste no entendimento do ato de observar
como uma ação participante, reflexiva e de relativização, sendo a etnografia a
representação do trabalho de campo em texto.
Além dos desafios gerenciais que grande parte das pesquisas sociais sofre no
Brasil, e aqui me refiro a recursos, transporte, apoio institucional que, em nível de
graduação, tomam proporções maiores, há os desafios de ordem metodológica.
Peirano (1995) fala de uma ‘’rotina comum’’, de certos parâmetros que orientam a
pesquisa etnográfica, mas excluiu a possibilidade de se ensinar pesquisa de campo
com modelos pré-definidos. Ora, como lidar com as diversas situações do campo,
buscando a manutenção dos valores éticos e o rigor científico? Penso que a
resposta esteja no que Mauro Almeida chama de objetividade etnográfica.
Friso agora a questão da objetividade etnográfica debatida por Mauro Almeida
(2003) em conferência posterior à publicação de Peirano (1995). Em sua fala, o
antropólogo, resgata autores clássicos e suas pesquisas etnográficas, como Leach,
Malinowski, Gluckman, Boas. E justifica tal posicionamento: “Na tradição clássica, a
teoria antropológica está contida na etnografia”, ou seja, os dados etnográficos eram
expostos para justificar determinado ponto de vista teórico. E segue a conferência
comentando sobre aquilo que Peirano (1995) chama de desafio da escrita ‘’pós-
etnográfica.” O desafio consiste na tensão entre a teoria nativa e a teoria
antropológica, que deve ser positiva, na medida em que permite novas
interpretações. Ou seja, a descrição dos dados empíricos deve ser de maneira
precisa, permitindo outras interpretações e debate de teorias.
15

O encontro do discurso e da proposta da pesquisa antropológica com as


teorias nativas é que tanto enriquece a Antropologia. E é sobre as marcas da
experiência etnográfica que me proponho a tratar agora, pois estão diretamente
relacionadas com a objetividade etnográfica. Para Almeida (2003, p. 21), essas
marcas são objetivas e ele resgata processos corporais para justificá-las: “O
instrumento principal de um etnógrafo é o seu corpo. Esse corpo é modificado ao
longo da demorada experiência de observação participante.” O encontro é entre
corpos que aprendem uma nova língua, novos códigos, novos hábitos, novos
sabores. E o encontro entre esses corpos sofre desvios e desencontros que
permeiam a pesquisa etnográfica, deixemos que Peirano (1995) fale:

Na antropologia a pesquisa depende, entre outras coisas, da biografia do


pesquisador, das opções teóricas da disciplina em determinado momento,
do contexto histórico mais amplo e, não menos, das imprevisíveis situações
que se configuram no dia a dia local da pesquisa. (PEIRANO, 1995, p. 43)

No que diz respeito à importância da pesquisa de campo no etnólogo, para


ela, é um aspecto pouco discutido na produção antropológica. Muitas vezes deixado
às margens, a repercussão da pesquisa de campo no pesquisador em muito define
a própria pesquisa per si. Não seria sua experiência epistemológica norteadora no
debate teórico que, menos preocupado em confirmar sua teoria, proponha
interpretá-la. A autora também tece críticas em relação à tradição etnográfica
brasileira e afirma que a investigação teórica e o rigor científico não podem ser
superados pela experiência etnográfica e nem confirmá-la em teorias fechadas, mas
confrontá-la, debatê-la e dar base para novas interpretações e leituras
epistemológicas, tornando o processo etnográfico mais que um recurso
metodológico, mas um exercício teórico. Nesse sentido, a presente pesquisa se
propõe a esse desafio da pesquisa etnográfica e de não ser definitiva, mas passível
de outras interpretações.
Por fim, apresento os principais argumentos que norteiam a justificativa da
presente pesquisa: qual a importância da pesquisa antropológica no estado de
Roraima nos espaços rurais? Em que sentido essas pesquisas podem contribuir
para novos debates?
As pesquisas no estado de Roraima com o tema voltado para a Antropologia
Rural têm sido desenvolvidas nas diversas áreas do conhecimento. Diferentemente
16

das populações indígenas que há muito vem sendo pesquisadas por antropólogos
oriundos dos mais diversos institutos de pesquisa, o espaço rural ainda é pouco
explorado pelo olhar da Antropologia, tendo maior destaque, em número de
produções, os estudos históricos, biológicos, geográficos ou agronômicos. Sendo
assim, pesquisar os espaços rurais através das contribuições antropológicas é uma
necessidade mais que acadêmica, mas epistemológica.
Nas últimas décadas, os estudos em Antropologia voltados para a temática
rural têm tratado sobre os aspectos das ruralidades contemporâneas, ocupações do
território, uso coletivo dos recursos naturais, juventude rural, pluriatividade, lutas
políticas dos movimentos sociais, narrativas agrárias e a morte do campesinato,
debates econômicos e estratégias de reprodução social nos espaços rurais. Os
estudos mostram a dimensão dos fenômenos sociais e as diversas maneiras, dentro
da Antropologia Rural, para abordá-los.
Em relação à ocupação espacial no estado de Roraima, constata-se que este
fez parte de um plano governamental de ocupação e, nesse contexto, observamos
projetos de assentamento, movimentos migratórios, grandes latifúndios, madeireiras,
garimpos e demarcação de terras indígenas que hoje compõe o cenário da
ocupação territorial do estado. Nesse sentido, ressalto as considerações de Carneiro
(2012) sobre a revalorização do rural não mais como espaço de produção de bens
materiais, mas como uma rica fonte de bens simbólicos. É este o olhar que a
Antropologia Rural lança sobre o rural, um espaço que está em constante mudança
e é constantemente construído relacionalmente, onde agentes sociais interagem
com sistemas culturais que os circundam.
No cotexto da produção familiar da farinha em Iracema, a diversidade e
heterogeneidade na agricultura familiar revelam mecanismos diversificados através
dos quais pequenos agricultores conseguem viabilizar suas condições de vida e
garantir sua experiência social, política, material e identitária. Em relação às formas
de organização do trabalho e produção, vem sendo empiricamente observadas
dinâmicas no universo rural que revelam o dinamismo das atividades agrícolas e a
construção, ou melhor, negociação de novas identidades sociais.
Para além das classificações arbitrárias dos atores sociais e de formas de
produção e organização, é preciso compreender a realidade que se observa. Assim,
considerar a especificidade dos arranjos sociais de organização do trabalho e da
produção rural e compreendê-los como frutos de diferentes processos históricos é
17

uma contribuição que as pesquisas antropológicas têm a fazer. Deste modo,


pesquisar de que forma esses novos arranjos da agricultura familiar estão
acontecendo nas especificidades locais de Roraima é uma necessidade que vai
além da academia: compreender a realidade que se observa e valorizar as
categorias nativas no entendimento dos contextos sociais é a maior contribuição que
as pesquisas antropológicas têm a fazer.
Para entender as formas de produção, os arranjos na mão de obra e a
organização social da casa de farinha de seu Pedro, divido este texto em três
capítulos. O primeiro capítulo possui duas seções: a primeira dedicada à síntese do
processo de formação sócio-histórico do estado de Roraima, localizando o município
de Iracema no contexto de formação econômica, dos movimentos migratórios e
alguns dos grandes projetos Estatais para a Amazônia; a segunda seção debate as
considerações sobre novos arranjos sociais nos espaços rurais como possibilidades
de abordagens explicativas para as dinâmicas da casa de farinha de Pedro.
O segundo capítulo discute o plantio da mandioca em sua dimensão cultural,
em seguida apresento o processo de produção da farinha, considerando desde o
plantio até a venda. Busco compreender a atividade em seu processo linear e os
trabalhadores e trabalhadoras envolvidos na atividade.
No terceiro capítulo apreendo o processo de deslocamento dos trabalhadores
que, em grande parte, são vindos do nordeste, ou possuem ascendência nordestina-
e as implicações no sentido das relações com a terra e com o trabalho. Configura-se
uma nova realidade: território, cenário, espécies de mandioca e novas formas de
produção marcaram o contexto de mudança desses trabalhadores. A mudança para
o estado de Roraima pode ser compreendida como um marco temporal que
perpassa saberes, relação com a terra e com a produção. Em seguida, busco
compreender como a vivência no espaço rural toma forma um modo específico de
produção: utilizo a relação entre o domínio da moralidade e o domínio econômico,
conceitos trabalhados por Woortmann (1990), a fim de apreender de que forma os
desdobramentos que o deslocamento Nordeste-Roraima toma forma no cenário em
que foi realizada a pesquisa de campo.
18

CAPÍTULO I - Projeto de Estado, projeto de vida e uma abordagem teórica dos


novos arranjos nos espaços rurais: explorando o município de Iracema-RR

1.1.1 O contexto histórico

Nesta seção tenho como objetivo trabalhar dados dos estudos históricos de
Arantes (2009), Becker (1990), Dos Santos (2010), Farage (1991), Magalhães
(2008) e Santos (2004). Tais estudos iluminam o processo de deslocamento de
populações oriundas da região Nordeste para a Amazônica e esclarecem os
desdobramentos dos grandes projetos de ocupação da região. Também abordo os
aspectos de uma entrevista realizada com Militão Pereira, um dos moradores mais
antigos do município de Iracema que tive oportunidade de entrevistar na pesquisa de
campo. Para esclarecer os esforços do resgate da oralidade como componente na
síntese histórica, abordarei alguns conceitos da história oral.
A entrevista realizada com Militão Pereira no dia 14 de janeiro de 2015 é uma
conversa a dois, motivada por mim, pesquisadora e entrevistadora. Conhecido por
várias pessoas em Iracema, inclusive constantemente citado pelos meus
interlocutores. Uma entrevista com ele mostrou-se necessária e quase obrigatória,
considerando o controle social3 como componente de motivações acerca de um
determinado comportamento. E aqui denomino controle social ao engajamento e
observância de certos padrões de alguns trabalhadores da casa de farinha de Pedro
em relação à minha pesquisa e à minha rotina em Iracema.
Motivada com o objetivo de coletar dados a respeito da história do município,
a entrevista sanou a escassez de dados observada na pesquisa realizada em
websites e bibliotecas. Os temas pertinentes foram aqueles relacionados aos
deslocamentos para a cidade, principais acontecimentos do município e como era a
vida no tempo dos primeiros moradores. Sem questionários estruturados, a
entrevista se deu de modo aberto, onde busquei dar profundidade e ênfase a temas
que julguei pertinente à pesquisa. Por meio desse tipo de entrevista, temos a
narrativa de vida como produto da pesquisa da história oral.
Como parte fundamental da pesquisa, a entrevista é um procedimento
metodológico muito valorizado na pesquisa de campo. Assim como os encontros da

3
Ver nota de rodapé número 2, localizada na introdução.
19

vida cotidiana, está sujeita a ruídos, às interferências exteriores, oscilação de humor


dos sujeitos ou mesmo indisposição para responder o que é perguntado. Penso que
essas características inerentes à entrevista não a desvalorizem enquanto fonte
primária de pesquisa. É uma fonte legítima e uma expressão construída
socialmente, assim como as fontes escritas e bibliográficas, deixo que Pollak ilustre
seu pensamento:
Se a memória é socialmente construída, é óbvio que toda documentação
também o é. Para mim não há diferença fundamental entre fonte escrita e
fonte oral. A crítica da fonte, tal como todo historiador aprende a fazer,
deve, a meu ver, ser aplicada a fontes de tudo quanto é tipo. Desse ponto
de vista, a fonte oral é exatamente comparável à fonte escrita. Nem a fonte
pode ser tomada tal qual ela se apresenta. (POLLACK, 1992, p.207)

Seguindo essa linha de pensamento, algumas características devem ser


observadas no momento da entrevista. De acordo com Minayo (2009), a forma de
contato com o entrevistado, a justificativa da entrevista, a apresentação do
pesquisador no que diz respeito à sua instituição de ensino, explicação da pesquisa
em linguagem comum ao entrevistado e esclarecimento da finalidade e uso que a
entrevista se destina. Observando esses procedimentos, busquei conduzir a
entrevista de forma clara e agora pontuo a importância dos mesmos.
Chegando à residência de Militão, localizada em uma das principais avenidas
da cidade, estava com a filha de Gardenia, Adriele. Logo nos apresentamos e Militão
perguntou onde estava ficando. Ao me referir a Gardenia, ele nos recebeu e foi
bastante receptivo. Apresentei-me como estudante da Universidade Federal de
Roraima e sucintamente expliquei do que se tratava minha pesquisa. Nesse primeiro
contato marcamos a entrevista para alguns dias posteriores. Mais uma vez destaco
o aspecto da inserção em campo e a maneira como se dão os contatos. Estar
hospedada na casa de Gardenia me localizava num contexto de interação com os
atores sociais envolvidos na pesquisa e dava suporte para novos contatos.
No dia da entrevista tive a oportunidade de conversar algumas horas na parte
da manhã com Militão. Ele me contou que frequentemente é procurado por pessoas
das universidades da capital e por estudantes de Iracema por ser um dos moradores
mais antigos da cidade. Tal fato é muito importante para ele, mas simultaneamente
acompanha algumas contradições. Militão se incomoda com o fato de não saber o
resultado de suas entrevistas, muito menos o que é feito com as informações
fornecidas, queixando-se da falta de retorno dessas pesquisas. Também me
informou que não se sente à vontade em mostrar alguns documentos e fotos, pois já
20

forneceu alguns materiais que não foram devolvidos. No mesmo dia me comprometi
a levar o texto da presente pesquisa para ele.
A partir desse quadro, avalio os procedimentos necessários à entrevista
citados anteriormente. Em ocasiões como essa, onde um dos moradores mais
antigos é frequentemente entrevistado e já tem uma gama de informações
oral/escritas fornecidas, o cuidado com os procedimentos deve ser redobrado.
Nesse sentido, sinto-me agraciada pela boa vontade, pelos documentos mostrados
e por todas as informações fornecidas por Militão Pereira, um senhor organizado em
suas datas e que anota tudo em seu caderno que não empresta a ninguém. Mantém
consigo suas lembranças, seus documentos, suas impressões de vida.
A partir disso, tratando especificamente dos aspectos da oralidade como
essenciais à história oral, dou especial atenção à memória, que pode ser entendida
enquanto processo e como construção social. As experiências são individualmente
memorizadas, mas coletivamente compartilhadas. Destacamos as considerações de
Duvignaud (1950) no prefácio da obra “A memória coletiva” de Maurice Halbwachs:

(...) a consciência não está jamais fechada sobre si mesma, nem vazia, nem
solitária. Somos arrastados em múltiplas direções, como se a lembrança
fosse um ponto de referência que nos permitisse situar em meio à variação
contínua dos quadros sociais e da experiência coletiva histórica. Isto explica
por que razão, nos períodos de calma ou de rigidez momentânea das
“estruturas’’ sociais, a lembrança coletiva tem menos importância do que
dentro dos períodos de tensão ou de crise – e lá, às vezes, ela torna-se
“mito’’. (Duvignaud, 1950, p. 14)

O depoimento de Militão, mais que um emaranhando de datações,


experiências e histórias de vida, é reconstituição de memórias, testemunha de uma
trajetória que cabe a ele ser o porta-voz. Nesse sentido, a própria construção da
memória é relacional, como mostra Halbwachs (1950):

No primeiro plano da memória de um grupo se destacam as lembranças dos


acontecimentos e das experiências que concernem ao maior número de
seus membros e que resultam quer de sua própria vida, quer de suas
relações com os grupos mais próximos, mais frequentemente em contato
com ele. (HALBWACHS, 1950, p. 45)

As memórias são vivenciadas por pessoas, num determinado período de


tempo, num determinado espaço, faz projeções e é seletiva. Assim como afirma
Pollak (1989, p. 15), “mesmo no nível individual o trabalho da memória é
indissociável da organização social da vida”. Como parte constituinte da vida social,
21

não se pode deixar as memórias às margens, mas reavivá-las. Marcos temporais e


temas importantes datam e são o fio condutor da fala de Militão, pois ele guarda
muitas informações em seu caderno, que serve como um guia e deu suporte no
momento da entrevista que muito me informou sobre a formação do município de
Iracema.
Tendo em consideração os aspectos acerca da oralidade, da memória e da
história oral, busco compreender o processo de formação sócio-histórico da
Amazônia, os grandes projetos estatais e os movimentos migratórios.

1.1.2 Coroa Portuguesa e a fronteira colonial do Rio Branco

Diversos momentos sociopolíticos perpassam as fases históricas de


ocupação no estado de Roraima. Grupos de interesse, grupos de pressão
participaram da ocupação do território roraimense. A ocupação portuguesa,
caracterizada por uma preocupação em defender as fronteiras e afirmar a presença
da Coroa, esteve fortemente baseada, no que se refere à mão de obra e
fornecedores de serviços, na escravização de povos indígenas. As fazendas reais
de gado, num segundo momento, passaram a realizar a função econômica e
garantiam presença europeia.
Fortemente marcada pelos projetos de ocupação da Coroa e, mais tarde,
pelos projetos do Estado brasileiro, a política de ocupação no estado de Roraima é
permeada pela pretensão de ocupar uma área estrategicamente localizada,
fortalecer as fronteiras, ou seja, uma forte ideologia desenvolvimentista que se
preocupava com a ocupação territorial. Para Becker (1990, p. 16), o ponto crítico da
fronteira se caracteriza por:

O dado crucial da fronteira é, pois, a virtualidade histórica que contém:


dependendo da forma de apropriação das terras livres, das relações sociais
e dos tipos e interesses dos agentes sociais aí constituídos ter-se-á a
formação de projetos políticos distintos.

Ações políticas demonstravam uma preocupação em desenvolver Roraima,


no sentido mercantilista, e garantir o controle das fronteiras com a ocupação efetiva,
preocupação esta presente no período tanto de ocupação colonial, como nas
posteriores domínios políticos brasileiros.
22

Num primeiro momento, destaco a ocupação intrusa colonial- século XVII-


onde o extrativismo na bacia do Rio Branco configurava a produção econômica
colonial do norte amazônico. De posição estratégica, foi um território ocupado
predominantemente e por períodos mais prolongados, pelas frentes portuguesas,
que visavam defendê-lo de possíveis empreendimentos expansionistas de
espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Fornecedor de produtos- drogas do
sertão- para o mercado interno e zona fornecedora de força de trabalho escrava
indígena com destino ao Pará, a fronteira colonial do Rio Branco foi marcada pelas
tentativas da Coroa Portuguesa de efetivamente ocupar a região amazônica
(FARAGE,1991).
Na segunda metade do século XVII e meados do século XVIII, a lavoura já
sofria com a falta de organização e de mão de obra para que se mantivesse
sustentável. A caça ao índio nas formas de resgate por “guerra justa”, descimentos e
apresamento4 passa a caracterizar a economia na Amazônia Oriental. Extrativismo e
agricultura escravista configuravam os sistemas econômicos vigentes, entretanto,
incompatíveis, caracterizando mais que uma disputa por mão de obra, mas uma luta
entre a predominância desses dois sistemas. Confinada às áreas mais próximas ao
delta amazônico e ao Maranhão, a agricultura escravista enfrentava várias
dificuldades para que se desenvolvesse na Amazônia Oriental. (FARAGE, 1991)
Assegurar os domínios das fronteiras de ocupação portuguesa na Amazônia
contra invasão dos manufaturados holandeses caracterizava o discurso da Coroa no
século XVIII. Sendo assim, a ocupação do rio Branco visava não tanto o domínio
territorial em si, mas a garantia do domínio de entrada para o vale amazônico. A
criação da capitania de São José do Rio Negro, futuro estado do Amazonas, em
1755, conformava a política de preservação territorial (FARAGE, 1991).
Manuel Lobo D’ Almada foi um dos governadores dessa capitania e
providenciou a construção do forte São Joaquim, em 1755, localizado na confluência
do rio Tacutu com o rio Uraricoera, conforme mapa 1. Com introdução de gado
bovino, essa medida visava à ocupação populacional por parte da população branca
e de cultura europeia. Com os problemas que a agricultura escravista enfrentava, a

4
Farage (1991) explica que apresamento, resgate e escravização por “guerra justa”, e descimentos
configuravam diversas formas de ações empreendidas por traficantes que visavam fornecer mão de obra
escrava indígena.
23

ocupação por colonização pecuária, na forma de criação de fazendas de gado,


tornou-se mais constante que a agricultura (REIS, 1989 apud SANTOS, 2004).

Mapa 1- Bacias Hidrográficas RR.


Fonte: Diversidade Socioambiental de Roraima: subsídios para debater o futuro sustentável
da região, Campos (org.), 2011, p.11.
Destacado em vermelho pela autora: área de confluência do rio Tacutu com o rio Uraricoera,
área de instalação do forte São Joaquim.

Expedições exploratórias para posterior instalação de fazendas seguiram-se


após a instalação do forte São Joaquim a garantiram o projeto amazônico pombalino
de domínio e ocupação. A cultura do gado já prevalecia sobre as tentativas
frustradas da agricultura escravista, fato este que perdurou por anos seguintes: “os
registros da expedição de Hamilton Rice na década de 1920 atestam que a pequena
24

população de Boa Vista sofria problemas de saúde causados por alimentação


inadequada, sobrecarregada de carne e carente de vegetais”. (CAMPOS et al.,
2011) primeira fazenda real instalada foi a de São Bento, na margem esquerda do
rio Branco, em seguida a de São José e por último a de São Marcos. A posterior
privatização das fazendas reais e arregimentação do gado solto favoreceu o
surgimento de uma camada da sociedade, composta por grupos familiares, que
evidenciaram o processo de domínio político e econômico (REIS, 1989 apud
SANTOS, 2004).

1.1.3 Independência do Brasil e novos ciclos econômicos

Em 1822, com a independência do Brasil, novos olhares e relações entre


agentes sociais projetaram a formação de outros planos políticos para a Amazônia.
A capitania de São José do Rio Negro não se elevou à condição de província do
império, mas foi anexada à província do Pará, simbolizando sua insignificância na
nova organização política. Após o período de 1850, a província do Amazonas, já
separada do Pará, adquire relevância econômica na medida em que os seringais
começam a ser explorados (CALMON, 1971 apud SANTOS, 2004).
A província do Amazonas, com seu presidente Tenro Aranha, passa a
desenvolver o cultivo da borracha, cacau e café. Para o rio Branco, planejou-se a
vinda de gaúchos para desenvolver a pecuária e a introdução de criadores mineiros.
Manaus passa a ser polo consumidor dos produtos trazidos da bacia roraimense,
como o rebanho bovino. Houve expansão das antigas fazendas reais. Boa vista do
Carmo, fundada em 1830, deu origem à primeira cidade às margens do rio Branco.
As famílias proprietárias das grandes fazendas formariam aquela que viria a se
tornar a base de uma pequena parcela social detentora de poder político e
econômico. Tais lideranças locais, com o advento da Constituição Republicana de
1891, passam a reivindicar a legalização de terras ocupadas. Em seu relatório às
autoridades imperiais de 1852, Aranha lamenta a falta de mão de obra para a
agricultura e vê a necessidade de implantar uma colônia militar do Rio Branco,
constituída por soldados aptos à agricultura (SANTOS, 2004).
Tenro Aranha já demonstrava certa disposição para incentivar o aumento do
rebanho bovino, encarava a mineração como uma alternativa econômica viável e
lucrativa, atribuía às comunidades indígenas a desordem e já observava as
25

dificuldades impostas à agricultura. A falta de alimentos se agravava na região, que


passou a se integrar aos mercados econômicos nacionais e internacionais, quando a
borracha tornou-se o segundo produto de exportação. Tal quadro político econômico
vem a se perdurar em outros governos e em outros períodos econômicos. Pecuária,
questões em relação a comunidades indígenas, mineração e agricultura revelam-se
pilares que implicariam nos quadros sociais posteriores (SANTOS, 2004).
O crescimento econômico impulsionado pelo ciclo da borracha que se deu a
partir da segunda metade do século XIX atraiu vários deslocamentos populacionais,
principalmente oriundos do nordeste brasileiro. De acordo com Guimarães (2008),
no que diz respeito ao ciclo social no contexto amazônico, foi o mais expressivo. Ou
seja, do final do século XIX e começo do século XX, a grande demanda externa do
látex impulsionou a grande quantidade de extração da borracha na região. O
domínio da produção ultrapassou as fronteiras amazônicas, passando a ser o
segundo produto mais exportado do país, ficando atrás apenas do café.
A decadência do extrativismo ao longo do século XX (primeiro quartel do
século) proporcionou o direcionamento dos extrativistas a outros empreendimentos
econômicos. Mineração de ouro e diamante foram financiadas e o comércio com a
Venezuela e Guiana, controlado. Nesse período já se conformava uma sociedade
local constituída por indígenas, comerciantes e fazendeiros. A disputa por terra e a
luta pela garantia dos direitos indígenas torna-se uma questão latente.
Sobre o impacto social da decadência do extrativismo na região amazônica,
destaco as considerações de Martins (2011, p.133) acerca dos trabalhadores da
borracha e o quadro social delineado no período pós ciclo da borracha:

Quando a economia da borracha entrou em crise e decadência aí por 1910,


muitos desses empreendimentos extrativos, que eram essencialmente
comerciais e não agrícolas, simplesmente encerraram suas atividades.
Ficaram para trás os trabalhadores, dedicados à própria subsistência e
comercialização de excedentes em pequena escala. Essencialmente, houve
um refluxo de economia, expresso diretamente no retorno a uma economia
baseada na produção direta dos meios de vida por parte dos trabalhadores.
Isso tinha sentido, porque os donos de seringais e castanhais eram meros
posseiros ou foreiros que haviam arrendado suas terras do Estado.
Portanto, a partir desse momento, a frente de expansão ficou caracterizada
como uma frente demográfica de populações camponesas e pobres
residualmente vinculadas ao mercado. Ao invés de estagnar, continuou
crescendo e se expandindo pela chegada contínua de novos camponeses
sem terra originários sobretudo do Nordeste, no caso da Amazônia, que
foram ocupando as terras real ou supostamente livres da região.
26

1.1.4 Território do Rio Branco: o plano é ‘’ocupar’’

No período em que foi presidente (1930-1945/ 1951-1954), Getúlio Vargas


tinha como objetivo centralizar os poderes, visando fortalecer o governo central.
Muitos programas de desenvolvimento nacional foram elaborados. De acordo com
Guimarães (2008) a Amazônia se caracteriza como uma região problema em sua
gestão. Com o intuito de resgatá-la da imagem de terras esquecidas, vazio
demográfico e apontá-la como uma riqueza nacional, capaz de trazer muitos
benefícios econômicos ao país, em 1941 o presidente marca a “Marcha para o
Oeste” como um movimento de interiorização, que em muito marca a política para a
região.
Becker (1990, p. 16) explica como os planos políticos direcionam a
racionalidade estatal para as formas de ocupação do território:

O Estado coordena a nova divisão inter-regional do trabalho. Ele reorganiza


o caos das relações sociais impondo-lhes uma racionalidade- a sua- tendo
como instrumento privilegiado o espaço: o econômico se reconsidera em
termos espaciais- fluxos e estoques- e o Estado tende a controlá-lo a
assegurar sua coordenação, integrando e rompendo o espaço anterior, e
produzindo seu próprio espaço; impõe uma ordem espacial, vinculada a
uma prática e concepção de espaço logística, global, de interesses gerais,
estratégicos, contraditória à prática e concepção de espaço local, dos
interesses privados e objetivos particulares.

Ainda em Becker (1990, p. 18), o caráter da fronteira configurava-se por:

Nas décadas de 1950 e 1960, a fronteira teve um caráter de fronteira


agrícola, impulsionada por frações não monopolísticas do capital. Após
1965, a apropriação especulativa de terras passou a dominar, associada a
atividades não produtivas, efetuada pela fração monopolista do capital.

O Estado Novo (1937-1945) marca o começo da intervenção estatal na


Amazônia, o território do Rio Branco, desmembrado do Amazonas em 1943, viria a
ser o futuro estado de Roraima. Em meio a uma ideologia desenvolvimentista,
ocupar a região contra possíveis invasões de estrangeiros e trazer benefícios para
colonos e camponeses norteava a política de ocupação da Amazônia na era
Varguista, a ideia de criar territórios para manter o controle das fronteiras. Na
27

década de 40 três colônias agrícolas5 foram criadas, a do Cantá, do Taiano e a


Fernando Costa. (BAHIANA, 1991 apud SANTOS, 2004).
A criação do Território do Rio Branco teve seus problemas gerenciais, que
surgiram a partir do momento de sua criação, no que diz respeito à contratação de
mão de obra e gestão de recursos. Magalhães (2008) comenta sobre o “Plano de
Recuperação e Desenvolvimento Administrativo do Território do Rio Branco” como a
solução buscada para esses problemas. Ele previa a figura de um governador,
divisões (espécies de secretarias, que incluíam saúde, educação, assistência e
proteção à infância e juventude, produção, obras e serviços industriais, segurança) e
a proteção ambiental com o Parque Nacional da Ilha de Maracá. A gestão do
território ficou sob a responsabilidade da Aeronáutica.
O Decreto-lei 7.775 federal, de 24 de julho de 1945, foi o instrumento legal
que firmou as normas para o governo do território federal. Tal documento propiciou a
configuração de uma estrutura administrativa que perdurou nas décadas seguintes.
Nesse momento, a produção agrícola computava com apenas 5% na participação da
produção econômica do Território do Rio Branco. Ainda em relação aos comentários
de Santos (2004, p. 93) sobre a Era Vargas e pós 1964, destacamos:

Apesar do choque inicial e alguns embates futuros da pequena elite de


latifundiários e comerciantes entre si e com os administradores federais,
mudanças estruturantes ocorreriam, temperadas frequentemente pelo
conflito que se acentuaria na década de 1970 e início da seguinte. A
economia e a vida nos campos do Rio Branco não foram mais as mesmas
após a criação do território, sendo o motor das mudanças a nova
organização administrativa imposta pelo governo central, notadamente no
primeiro governo Vargas e após 1964.

Ainda no contexto da integração, vale ressaltar que o PIN- Programa de


Integração Nacional. De acordo com Magalhães (2008), o programa tinha dois
objetivos principais, que consistiam em dar estrutura para os transportes, com a

5
Convém esclarecer que as colônias variam muito em termos de tamanho e de capacidade de assentamento,
mas no geral são construídas a partir das estradas principais. Os lotes são localizados ao longo das estradas
principais e vicinais. Os tamanhos variam de 50, 60 e 100 hectares. A colonização recente ocupou o sul e o
sudeste de Roraima. Destaca-se aí o maior número de assentamento. Coube ao INCRA promover os
assentamentos. Com a criação do Estado, o ITERAIMA (Instituto de Terras e Colonização do Estado de Roraima)
também passou a realizar assentamentos. (GUIMARÃES, 2008, p. 102). Colônias agrícolas têm e Projetos de
Assentamento têm públicos diferenciados e gestão diferenciada. As Colônias são de gestão municipal e os
Assentamentos seguem os critérios da reforma agrária. Não me prolongo na explicação, pois é preciso mais
pesquisa em relação ao tema.
28

construção de rodovias federais e o de comunicações. A forma que o Estado melhor


julgou ser a de integrar a região amazônica ao nordeste, restante da América do Sul
e centro-sul brasileiro foi através da construção da BR-174, que liga a cidade de
Manaus a Boa Vista, BR-401, que liga Boa Vista a Normandia e BR-210, também
conhecida como Perimetral Norte, que ligaria Pará-Roraima-Manaus, entretanto a
rodovia nunca foi inteiramente construída.
No que diz respeito aos reflexos da administração centralizada na
Aeronáutica, ilustrarei uma situação em que Militão mostra que o sentimento de
abandono, no início dos anos 70, era muito grande. A população de Iracema tinha
acesso a atendimento médico apenas de 20 em 20 dias, não havia escolas, febre
amarela e malária assolavam a população e muitos chegaram a óbito. Todo
atendimento médico mais complexo tinha que ser feito na capital Boa Vista e aqui
destaco a fala de Militão Pereira:

‘’Eles sempre davam assistência com aquele carro que atendia as pessoas.
Eles vieram para cá, Capitão Maduga, Capitão Oliveira, e mais outros.
Chegavam aí, paravam o carro aí e faziam atendimento. Agora você vê
porque começou o negócio aí, naquela época de 73, bem acolá em cima no
alto, eu cheguei e encontrei um caminhão parado no alto, no outro dia,
quando deu umas 8, 9 horas, fui eu ver o caminhão lá. Aí eu fui lá, quando
cheguei lá, estava o motorista trancado dentro da caminhonete, dentro do
caminhão, estava para morrer de suado, e o pium chegava fazia assim:
batia em cima. Aí eu bati assim: “ei companheiro”. “Ei rapaz, eu estou para
morrer aqui” [o homem dentro do caminhão respondeu]. “Rapaz, vamos lá
para casa, aí eu trouxe ele, aí veio para o barraco, aí mandei fazer almoço,
almoçou e jantou, passou uns três dias. E era o motorista do BEC. Vieram
pegar o caminhão. Um dia eu saí aqui na estrada, era tudo um deserto
mesmo, na estrada vinha a caminhonete do BEC. Esse motorista vinha
junto com o capitão, Coronel Oliveira e o Capitão Madruga. Veio, chegou e
parou, aí eu: ‘’digo, ah, agora dessa vez é que eu vou’’. Aí o motorista disse:
‘’é esse daqui, é o homem’’. Abriu a porta e tal: ‘’ você mora aonde?’’ eu
disse: ‘’eu moro bem ali.’’ ‘’como é seu nome?’’ aí eu disse. Vamos lá, aí
nós viemos. O Capitão Madruga mais o Coronel Oliveira e mais outra
comitiva que vieram junto com ele, aí disse: ‘’olha você conhece esse
homem?’’, e eu disse:”conheço’’. ‘’Pois você fez tudo por esse motorista e
esse motorista nosso é uma pessoa de confiança, pois nós viemos pagar.’’’’

Marina- pagar o senhor?

‘’É, vieram me pagar. Aí eu disse eu não quero pagamento não. “Mas nós
queremos pagar”. Eu disse não, mas eu não quero pagamento nenhum.
Olha, eu moro aqui e aqui eu não tenho transporte, não tenho nada. Então
uma vez se eu estou em Boa Vista, ou qualquer lugar, se um motorista dos
seus me trouxer aqui, eu acho bom demais. Eu não quero pagamento não’’.
Depois, ‘’qual é a necessidade maior que tem aqui?’’ Eu disse, a
necessidade aqui são muitas, mas tem duas necessidades aqui que é a
necessidade mesmo do povo. A primeira é que tem muitos pais de família
aqui nessa estrada com filho e não pode estudar, porque não pode tirar
aqui, então aqui não tem colégio’’.
29

Marina- aqui não tinha escola?

‘’Não tinha. E eu disse que estou com um bocado de nome deles aqui.
Parece que eram 16 meninos. E eu digo outra, é na hora que um adoece,
fica a noite todinha gritando, doendo um dente, e não tem socorro nenhum.
E ele disse: ‘’de 12 a 15 dias nós estamos aqui.’’ Aí começou.’’ (TRECHO
DA ENTREVISTA)

Figura 1- Seu Militão e porta retrato com imagens da década de 1970 no dia da entrevista realizada
em janeiro de 2015.

1.1.5 Amazônia e os grandes projetos

O período dos governos militares ditatoriais, de modo geral, foi marcado pela
preocupação de ocupação do território considerada “vazio”. Pacto Amazônico visava
à cooperação internacional no que diz respeito à soberania na região Amazônica. A
rede de transportes, baseado na combinação de vias rodoviárias, hidroviárias e
aéreas pretendia consolidar a ocupação do interior e ser uma aliada no
desenvolvimento da região. A BR-174, rodovia longitudinal que cruza todo o estado
de Roraima e passa por Iracema, foi aberta neste período. Na mesma época,
30

grandes deslocamentos têm como consequência a superação, em números, da


população local (SANTOS, 2004). Sobre a visão não favorável dos militares em
relação à articulação dos movimentos de trabalhadores rurais Santos (2010, p. 32)
afirma que:

O projeto político dos militares para o campo parece ter dado resultados
concretos quando conseguiu a desmobilização de um movimento sindical
de atuação efetiva e passou a trilhar um modelo assistencialista, baseado
na extensão dos deveres do Estado aos Sindicatos dos Trabalhadores
Rurais (STR’s), fomentando assim o chamado “sindicalismo burocrático”. As
consequências desse sindicalismo burocrático foram marcadas pela
fragilidade das Federações em sustentar mobilizações de massa no campo
e em conseguir políticas públicas necessárias à permanência no campo.

Militão também comenta a forma como sua vinda a Roraima foi motivada,
sobre a disputa pela terra que já ocorria no seu estado de origem, onde ele afirma
que havia o costume de plantar em certas terras que foram consideradas “devolutas”
por grupos de fazendeiros que posteriormente o expulsaram dessas terras e ele
ficou impossibilitado de trabalhar com agricultura:

É, aí uma coisa que a gente tudo tem uma serventia. Eu saí do estado do
Maranhão, do meu estado, eu não tinha nenhum sonho de ser o primeiro
pioneiro6 de uma cidade aqui no estado de Roraima. Então hoje eu fico
pensando, até me orgulho de acontecer isso. Porque eu conheço que todos
nós não viemos fazer Roraima, mas aumentar a população de Roraima. Aí
passou eu ser o primeiro pioneiro dessa cidade de Iracema. (MLITIÃO)

Destacamos no ano de 1974 a criação do POLAMAZÔNIA (Programa de


Pólos de Desenvolvimento através dos Pólos Agropecuários e Agrominerais) que
previa atender o estado de Roraima. O programa era ambicioso e tinha projetos nas
áreas da agricultura, habitação, urbanismo, colonização, implantação de estradas,
desenvolvimento da pecuária, pesquisa de recursos minerais e consolidação das
relações comerciais com a Guiana. Guimarães (2008) afirma que havia um sub-
programa ligado ao POLAMAZÔNIA que se chamava POLORORAIMA que, com
recursos do programa federal, destinou-se para a criação de colônias agrícolas,
visando otimizar as redes de transporte e abrir novas fronteiras.
A partir de 1979, foram criados os PA’s (Projeto de Assentamento), dando
continuidade ao processo de ocupação. A década de 80 é marcada por projetos e

6
Militão utiliza a expressão pioneiro para se referir a ele mesmo e a outros moradores que chegarem
na mesmo época que ele ao estado de Roraima. Aqui, não exploro a categoria, pois seria necessária uma ampla
discussão.
31

programas, destaque para o Projeto Calha Norte (PCN) que, alinhado com
estratégias geopolíticas presentes desde o tempo da ocupação portuguesa, visavam
proteger as fronteiras e administrar o território. O PCN, segundo documento do
Ministério da Defesa (2011) visa promover a ocupação e o desenvolvimento
ordenado da Amazônia Setentrional, respeitando as características regionais, as
diferenças culturais e o meio ambiente, em harmonia com os interesses nacionais.
Ainda segundo o Ministério da Defesa (2011), o PCN visa assegurar a
presença do Estado brasileiro, representado pelas Forças Armadas. A região
abrangida pelo projeto é delimitada ao sul pela calha do rio Solimões, no estado do
Amazonas e ao norte pelas fronteiras com os países limítrofes. Perfazendo uma
área de 1.219.00 km², em Roraima, a presença militar se faz em Boa Vista, Bonfim,
Surucucu, Normândia, Pacaraima e Auaris. Iracema e os demais municípios de
Roraima são atendidos pelo projeto.
Na década de 1970, Santos (2010) destaca a criação de colônias agrícolas e
o surgimento de povoados ao longo da BR-174, o município de Iracema surgiu de
um desses povoados. Deslocamentos oriundos do nordeste formariam o quadro da
produção rural com base no trabalho familiar, onde a base do cultivo eram culturas
de ciclo curto. As condições de trabalho no que tange transporte, vicinais, estradas
eram precárias, dificultando o trabalho do pequeno produtor rural. A elite rural já
expandia seus domínios territoriais com a compra de lotes e, nas regiões do Apiaú,
Roxinho- que estava localizado nos domínios municipais de Iracema e Mucajaí- e
Serra Grande, houve predominância de fazendas e chácaras de lazer, quem detinha
usufruía dessas condições eram empresários, servidores públicos políticos.

1.1.6 Democracia e disputa pela terra

O Território do Rio Branco elevou-se à condição de estado com a constituição


de 1988. Santos (2004) enfatiza que três dos seus grandes problemas não foram
solucionados: a questão fundiária, a demarcação das terras indígenas e a
dependência econômica em relação à máquina nacional. O cenário sociopolítico
configurava-se por:
32

Há um contínuo avanço de migrantes em direção à floresta, abrindo


caminho para a extração de madeira e para a pecuária. Esse fluxo segue as
antigas rodovias estratégicas, hoje os eixos de penetração na selva e que
em alguns sítios deram origem a povoados e cidades. Persiste também um
garimpo residual de ouro e diamante, cujas atividades são informais em sua
maioria. (SANTOS, 2004, p. 124).

A expansão da fronteira é perpassada pela a questão fundiária, a demarcação


de terras indígenas e a dependência de repasses federais, nesse sentido, Becker
(1990, p. 21), destaca que:

A expansão da fronteira não se resume a um fenômeno essencialmente


agrícola. A hipótese alternativa é a de que nela se superpõe várias frentes –
agrícola e pastoril, extrativa (mineral e florestal), financeira (representada
pela apropriação não-produtiva da terra) – e uma fronteira urbana é a base
logística para o projeto de sua rápida ocupação.

Ainda em Becker (1990), destaco quatro movimentos que perpassaram as


décadas de 1970 e 1980 no que diz respeito à urbanização do espaço amazônico. A
autora tem o cuidado de não homogeneizar esse espaço e atribui grande
responsabilidade ao Estado para o que ela chama de processo de integração do
território. Sobre os movimentos, cito os núcleos produtivos impulsionados pela
construção das BR Belém-Brasília, Transamazônica e Cuiabá-Porto Velho;
expansão das capitais, especialmente Belém; dispersão de pequenos núcleos
populacionais; centros tradicionalmente vinculados ao transporte fluvial são
sobrepostos, em parte pela construção das rodovias.
Retomada da mineração garimpeira, novas rodovias, avanço para a floresta e
pressão territorial e política de legalização territorial também estiveram presentes na
década de 80. O número de assentados pelo INCRA aumentou e o Instituto de
Terras de Roraima (ITERAIMA) foi criado em 1992. Novas vicinais no formato
conhecido como “espinha de peixe”, formam as estradas administradas pelo estado.
A pressão territorial causada por grupos de colonos avança para a floresta, a
retirada da madeira para posterior implantação de pastagens para a ordem
pecuarista gera conflitos com o INCRA (SANTOS, 2004)
A questão da terra ainda configura a base dos problemas econômicos no
estado de Roraima. O sistema político dominado pela elite rural desfavorece
33

indígenas, camponeses7 e extrativistas. O avanço da pecuária em áreas de projetos


coloniais garante a manutenção do poder político e alargamento do patrimônio
individual. Em relação ao mapa social deste período, Santos (2004, p. 169) oberva
que: “A terra passou a ser utilizada, também, como captadora de capital de giro,
muito mais que para expandir as atividades declaradas, o que não diminui a disputa
por ela. A questão fundiária persistiria [...] agravando-se na década de 1990”.
Na mesma década, a Assembleia Legislativa de Roraima aprovou e
sancionou a Lei n° 083 , em 04 de novembro de 1994, que previa a criação do
município de Iracema, conforme mapa 2.

Mapa 2- Município de Iracema


Fonte: Governo do Estado/SEPLAN

Ainda segundo Santos (2010,) o PA Japão, criado em 1995, originalmente


localizado no município de Caracaraí, formaria mais tarde os domínios territoriais do
município de Iracema. Percebe-se a relação entre a criação dos projetos de
assentamentos e a expansão das vilas e municípios na BR-174. A criação de

7
Santos (2004, p. 245) comenta que: “No âmbito da economia o centro da questão é o problema da terra
indígena. Mas, embora essa luta em Roraima seja antiga, ela não se dá, como em outras partes do Brasil, entre
camponeses e latifundiários ou grandes empresas agrícolas. O embate atual se dá entre índios e seus aliados,
contra os interesses na exploração e expropriação.” Sendo assim, entendemos que camponeses, por oposição
a latifundiários, seriam os pequenos produtores rurais.
34

municípios na década de 1990 segue uma tendência política que, para Santos
(2010, p. 93), se caracteriza por:

A criação destes municípios e de outros na região Norte do estado durante


a década de 1990 pode ter sido creditada e incentivada pelos futuros
prefeitos dos novos municípios e pela classe política que passou a usar
como mote a farta distribuição de lotes de terras e a promessa de
financiamento agrícolas pelos bancos estatais. Alguns pensavam em futuros
eleitores em potencial; outros, como no caso dos prefeitos, no repasse das
verbas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que representa
hoje, uma das fontes principais de renda da maioria dos municípios, o que
pode ser constatado nas Leis de Diretrizes Orçamentárias (LOA).

Arantes (2009) faz um levantamento da regularização fundiária e direito de


propriedade na Amazônia Legal, seu estudo de caso concentra-se nos limites
territoriais do estado de Roraima. De acordo com essa pesquisa, datamos a criação
dos projetos de assentamento8 no município de Iracema, todos localizados na gleba
Caracaraí: São José em 1996, Japão em 1995, Maranhão em 1996, Massaranduba
em 1997 e Ajarani em 2003. Roxinho e Campos Novos são duas colônias agrícolas,
as colônias estão relacionadas com as ações de ocupação territorial: integração,
proteção territorial e desenvolvimento. Elas se encontram nos limites territoriais de
Iracema, sendo o primeiro também perpassado por Mucajaí. O mapa 3 (página 36)
mostra as colônias agrícolas por município. A terra indígena Yanomami (TIY) ocupa
72,8% da área do município, tal área apresenta baixíssima taxa de desmatamento e
de foco de calor (CAMPOS, 2011). Ao ser interrogado sobre os projetos de
assentamento no município de Iracema, Militão Pereira esboça um contexto de
disputa de terras e interesse políticos que sobressaíam interesses de pequenos
produtores:

‘’Nessa época eles faziam assentamento [década de 1980 e 1990] no lote


dos outros, isso aí aconteceu demais. Agora eu nunca fiz porque eu sempre
tive essas terras. Eu não queria mais terras, só essas daqui e estava bom.
Aí começou a política e muitos, para ganhar voto, faziam assentamento em
cima de outras terras que já tinham dono. Isso aí eu sei bem de pertinho’’.
(TRECHO DA ENTREVISTA)

Nos dias atuais ainda se faz presente a disputa pelo território, as pressões
territoriais. Latifundiários tradicionais, posseiros, fazendeiros ligados ao agronegócio
nas terras roraimenses, populações indígenas (que ainda exigem a desintrusão e a
8
Referente à política de criação de assentamento da reforma agrária do INCRA.
35

demarcação de novas terras indígenas, como forma de assegurar seus direitos


fundamentais) são diferentes grupos sociais que disputam a terra.
Becker (1990, p. 21) explica de que maneira o campesinato, entendido pela
autora como um grupo social que utiliza mão de obra familiar e tem uma relação
intrínseca com a terra, tem-se reproduzido em meio às diversas formas de ocupação
territorial:

A capitalização da agricultura nos últimos vinte anos exigiu a formação de


um mercado de trabalho em nível nacional, induzindo à mobilidade do
trabalho e restringindo o campesinato tradicional, cuja dissolução é,
contudo, limitada por contradições do próprio modelo de crescimento, que
criam condições para sua permanência. Estabelece-se então a
diferenciação interna do campesinato no processo de sua
dissolução/reprodução.

Faço ênfase ao fato que, apesar dos planos geopolíticos, em diversos


momentos, direcionarem institucionalmente o processo de ocupação territorial na
região amazônica, há um abismo entre o que é institucionalmente determinado e o
que acontece nos percursos dos atores sociais envolvidos no processo de
ocupação. As diversas motivações, principalmente ligadas a redes afetivas dessas
pessoas, projetam para a ocupação da terra sonhos e modos de vida que não são
institucionalmente previstos, tampouco compreendidos.
Atualmente, tratando da distribuição de terras no município, percebo
que há uma marcação dos lotes no que diz respeito à gestão do Incra sobre os
espaços de Projeto de Assentamento. Entretanto, a configuração espacial não mais
obedece a essa divisão, alguns lotes já foram vendidos, outros começam a
configurar uma concentração de lotes com apenas um dono, que destina essa terra
para gado. Pedro, apesar de ter um pequeno lote numa das vicinais, puxava
mandiocas num lote que pertencia a outro produtor. Não havia trocas comerciais,
pagamento ou parceria no sentido de destinar parte da produção a esse produtor. A
noção de reciprocidade encontra-se no plano da utilização da terra. Na medida em
que há plantio numa terra um há o melhoramento do solo, melhor aproveitamento do
maquinário, quando a roça não está sendo utilizada para o plantio da mandioca, ela
vira pasto9.

9
A Embrapa-Rondônia elaborou um artigo que trata da integração lavoura-pecuária-floresta como
alternativa para a pecuária na Amazônia, trata da importância econômica da pecuária, mas destaca os
problemas ambientais causados por essa produção.
36

Mapa 3- Mapa esquemático das colônias agrícolas/municípios. Fonte: Governo do Estado/SEPLAN,


2011.
37

Como a configuração dos Projetos de Assentamento não mais é original, ou


seja, a elaborada pelo INCRA, já é presente a concentração de terras, nem todos os
agricultores e agricultoras possuem terra. “Esse homem só tem terra debaixo da
unha” é uma significativa fala nativa que está relacionada com trabalho, família e
terra. Não possuindo terras, o trabalhador busca como alternativa de trabalho a
prestação de diárias em outras propriedades. A condição de trabalhador é exaltada,
o homem que lida com a terra tem terra debaixo da unha, mas sem possuir
propriedade, é apenas debaixo da unha que possui terra. Ou seja, é apenas na
qualidade de trabalhador que esse homem tem relação com a terra. A sua relação
não se configura pela posse, mas pelo trabalho.
Na presente seção pude apresentar como a história oral é um componente
fundamental na tentativa de compreender a história enquanto processo social. A
contribuição de pesquisas históricas ilumina o quadro de formação da Amazônia no
que diz respeito aos grandes projetos Estatais, movimentos migratórios e ciclos
econômicos. A partir desse levantamento histórico, busquei apresentar a Amazônia
enquanto espaço socialmente construído e que hoje é um espaço diferenciado por
conta dos movimentos socioeconômicos que o precedem.

1.2 Possibilidades de abordagens teóricas no espaço rural

Na presente seção busco, a partir da discussão acerca da observação de


novas ruralidades enquanto fenômeno social, compreender as conjunturas
socioeconômicas que norteiam a agricultura familiar. Seguindo algumas das
considerações conceituais acerca do debate sobre o rural na atualidade, busco
compreender a casa de farinha de seu Pedro enquanto espaço familiar de produção,
onde a relação com a terra, trabalho e família são pilares norteadores em minha
observação etnográfica. Aqui entendo espaço familiar de produção enquanto espaço
de trabalho e de parentesco onde há relações familiares, de afinidade e de trabalho
entre as pessoas que ali trabalham.
Parto das contribuições conceituais de Mauro Almeida, Maria José Carneiro,
Maria de Nazareth Wanderley, Arilson da Silva Favareto e José Eli da Veiga, a fim
de entender de que maneira os estudos sociais que enxergam a ruralidade como
processo social têm analisado alguns fenômenos relativos às novas conjunturas
38

socioespaciais, econômicas e políticas. Seriam elas realmente novas, ou apenas


desdobramentos de movimentos passados? Em que medida o rural é determinado
pela relação rural e urbano? Como se pode entender os espaços rurais no que se
refere à circulação de bens tangíveis e intangíveis? Qual a importância desses
estudos para a presente pesquisa?
Há muito se observam formas de organização da produção no universo rural
que levam em consideração as relações de parentesco e afinidade, a pequena
produção, uma relação intrínseca com a terra, que garantem a reprodução social
desse universo. Entretanto, nas últimas décadas as formas familiares de produção
rural têm sido abordadas através de novos olhares e informadas por novos
paradigmas pelos estudos rurais. Estudos esses que buscam compreender, por
meio das dimensões do trabalho, da gestão da propriedade familiar, de que forma
reprodução social da agricultura familiar acontece.
Maria José Carneiro (CARNEIRO, 1998), situada em um contexto específico
de pesquisa, propõe uma abordagem acerca do conceito de ruralidade e propõe:

[...] considerar a ruralidade não mais como uma realidade empiricamente


observável, mas como uma representação social, definida culturalmente por
atores sociais que desempenham atividades não homogêneas e que não
estão necessariamente remetidas à produção agrícola ( CARNEIRO, 1998,
p. 56).

Em seguida, a autora, propõe uma nova abordagem de apreensão do


rural, que se desprende dos critérios objetivos, acentuando representações sociais
como chaves de análise e compreensão:

A ruralidade se expressa de diferentes maneiras como representação


social- conjunto de categorias referidas a um universo simbólico ou visão de
mundo- que orienta práticas sociais distintas em universos culturais
heterogêneos, num processo de integração plural com a economia e a
sociedade urbano-industrial (CARNEIRO, 1998, p.59).

Em relação aos arranjos das formas familiares de produção rural, há muitas


pesquisas concluídas e em realização. Destaco os trabalhos de Schneider (2009) no
cenário Sul do Brasil, as pesquisas sobre a realidade dos assentamentos rurais no
Rio de Janeiro realizadas por Carneiro (1997, 1998, 2002), e os estudos acerca de
sitiantes no Nordeste, realizados por Woortmann (1995).
As diversas formas de produção familiar rural ajudam a compreender as
39

relações e arranjos de mão de obra que se assumem na casa de farinha de Pedro.


Alguns dos trabalhadores e trabalhadoras possuem outras atividades de trabalho.
Gardenia, uma das trabalhadoras que descasca mandioca, também trabalha nos
serviços gerais da cidade de Iracema. Mauro, um dos trabalhadores que tive contato
no início da pesquisa, foi para o garimpo. Outra trabalhadora realizava atividades de
revenda de produtos cosméticos. A casa de farinha de seu Pedro tem essa
especificidade no arranjo de mão de obra que pode ser apreendida através das
chaves analíticas propostas por essa autora.
A diversidade e heterogeneidade na agricultura familiar revelam mecanismos
diversificados através dos quais pequenos agricultores conseguem viabilizar suas
condições de vida e garantir sua reprodução social, política, material e identitária. No
que diz respeito às formas de organização do trabalho e produção, vem sendo
empiricamente observadas dinâmicas no universo rural que revelam o aumento de
atividades não agrícolas, a conformação de novas identidades sociais. Parto agora
para o debate que questiona o conceito de novas ruralidades e analisa
desdobramentos do passado com um olhar paradigmático renovado.
No intuito de desvendar o que se acordou chamar de novas ruralidades,
Favareto ( 2007) destaca três dimensões definidoras, que são a relação do rural-
urbano, a contiguidade com a natureza e as relações entre as pessoas. Para ele,
racionalização da vida agrária e superação dos paradigmas que delineavam a
discussão acerca do rural são responsáveis não pelo seu desaparecimento, mas
pela incorporação do rural aos grandes processos de desenvolvimento.
Veiga (2006) analisa dimensões da globalização contemporânea que atuam
diretamente sobre a lógica das áreas rurais. Para ele, a dimensão econômica e a
ambiental definem conjunturas que transformam a ruralidade, provocando não um
renascimento, mas o nascimento de outra ruralidade, onde forças políticas e
econômicas atuam sobre esses territórios rurais e as unidades domésticas de
produção que o constroem respondem ativamente a essas dimensões.
Espaços rurais sendo valorizados como espaços de qualidade de vida estão
sujeitos à ação daquilo que o autor chamou de trindade: “conservação do patrimônio
natural, aproveitamento econômico das decorrentes amenidades, e exploração de
novas fontes de energia (VEIGA, 2006, p.235)”. Portanto, o autor avalia a atuação
dessas duas dimensões nos espaços rurais a fim de melhor compreender as
dinâmicas atuais que exercem força e pressão sobre esses espaços.
40

Assim como Veiga (2006), Wanderley (2001) considera os espaços rurais


enquanto territórios diferenciados e específicos, presentes na sociedade moderna.
Para a autora, o espaço rural é integrado às dinâmicas da sociedade brasileira como
um todo, inclusive às relações de âmbito internacional. Ou seja, não atribui ao rural
característica de autonomia, distanciando-o da ideia de espaço isolado, autônomo e
que tem lógicas pessoais de reprodução. Entretanto, reconhece o espaço rural em
suas particularidades históricas, sociais, culturais e ecológicas. Aqui eu
acrescentaria as particularidades econômicas e políticas. A ideia da autora confirma
os territórios rurais como espaços marcados por uma realidade própria.
Partindo da ideia do rural como espaço diferenciado e com características
próprias a ele, Wanderley (2001) assevera que as representações sociais em muito
corrobora com a ideia de que os espaços rurais e urbanos apresentam
discrepâncias significativas no que diz respeito às identidades sociais, acesso e
reivindicação de direitos e posições sociais dos indivíduos. Ela salienta que essas
diferenças não mais se dão em relação ao acesso a bens materiais ou sociais, nem
ao modo de vida, mas no nível daquilo que a autora chama de “identificações e das
reivindicações na vida cotidiana”. Por fim, Wanderley (2001) aponta a família rural
como responsável por parcela significativa da população rural, sendo motivadoras
de um processo de diversificação técnico-econômica, sociocultural e ambiental dos
espaços rurais.
Assim, considerar particulares as reivindicações na vida cotidiana da casa de
farinha de seu Pedro como oriundas dos contextos rurais, enxergar esses espaços
como dinâmicos e inseridos nos contextos globais de produção, mas valorizando
suas particularidades econômicas, políticas, históricas, culturais, ecológicas e sociais
é o que norteia a análise da pesquisa.
Para apreender a construção de significados acerca do trabalho no roçado,
Ellen Woortmann e Klass Woortmann (WOORTMANN,1997) afirmam a necessidade
de conhecer o modelo cultural e o processo histórico do grupo social. O processo de
trabalho e o saber associado a ele constroem significados para além da
materialidade ou da instrumentalidade do trabalho. Para além dos aspectos
instrumentais de trabalho, parte integrante da reprodução do grupo social no
contexto rural, há também um saber simbólico.
Na organização da unidade rural, as transformações espaciais são mediadas
pelo trabalho. As etapas da preparação da terra: queimada, brocagem, preparo do
41

solo, plantio envolvem trabalho braçal, mas são relacionadas a um saber,


“acumulado e em constante processo de atualização (WOORTMANN, 1997:36)”. Na
realidade observada pelos autores, o processo de trabalho é construído
simbolicamente, marcado pela hierarquia familiar, onde o homem adulto, pai de
família, possui condições de participar de todas as etapas da produção. Já a mulher
além de realizar alguns trabalhos na roça, assume o trabalho no domínio espacial da
casa e de pequenas hortas. Essa organização diz respeito aos espaços de domínio
feminino e espaços de domínio masculino.
Na casa de farinha se seu Pedro há a consonância do trabalho familiar e a
prestação de diárias. Entendo o trabalho como uma chave para compreender a
gestão da propriedade familiar. A gestão de trabalho centrada na figura do pai e do
filho de Pedro, o Pedro Júnior nos informa um aspecto da lógica rural que diz
respeito aos arranjos na mão de obra e organização social dos espaços rurais.
Considerando as transformações espaciais como mediadas pelo trabalho, o trabalho
das pessoas da casa de farinha de seu Pedro são autores do processo de trabalho
que é marcado pela hierarquia familiar.
O artigo “Narrativas Agrárias e a morte do campesinato” de Almeida ( 2007) é
importante por ser um grande levantamento das principais linhas teóricas que
discutiram a ruralidade enquanto fenômeno social ao longo da primeira metade do
século XX, até estudos mais recentes. Apenas de orientação, nas palavras do autor
‘’um mapa de temas e autores’’, o texto debate alguns temas e seus respectivos
paradigmas10. Almeida (2007) aponta que a dissolução e renovação do paradigma
que procura analisar o campesinato enquanto categoria política e social abre novos
caminhos para os estudos da ruralidade.
No artigo mencionado, o autor mostra a mudança de perspectiva dos estudos

10
Segundo Almeida: 1) A tradição europeia e o culturalismo agrário, que enxergava as comunidades
camponesas como sistemas totais de cultura; 2) análise de sociedades camponesas, onde as sociedades
camponesas seriam dependentes da sociedade envolvente, já observando um maleabilidade na estrutura
social, na medida em que enxergava mudanças sociais, as relações de parentesco e compadrio eram vistas
como sendo de sociedades parciais ; 3) modo de produção camponês com as contribuições de Chayanov e
Marx, onde o campesinato era visto como classe, estudos com visão política e microscópica; 4) os estudos de
fronteira têm um recorte temporal de 1970-1980, onde o continnum tempo-espaço e as mudanças locais
acabam com a ideia de uma sociedade parcial, é anunciada a morte o campesinato enquanto categoria política;
e 4) a literatura pós-camponesa, onde há dissolução das grandes narrativas e os traços culturais e econômicos
não denotam nem dependência, nem auto-suficiência, dinamismo, pluralidade, ocupação do território
direcionam novos olhares para ruralidade.
42

rurais ao longo dos últimos anos. Segundo o autor, a variação de temas e


abordagens ocupa um lugar especial na pesquisa antropológica dos estudos rurais
mais recentes: a ideia de território sobrepõe uma estrutura fixa, ou seja, o modelo de
território natural, estrutura rígida e cultura como espelho da ação humana são, em
grande medida, superados para dar lugar a novas análises. Por fim, destaca que
atualmente as abordagens têm sido os lugares nativos, territórios em conflito e
disputa, moradores locais, direito costumeiro, foco biográfico, trajetória religiosa,
democratização rural, entre outros.
Considero significativo debater outro artigo de Almeida (1986),
“Redescobrindo a família rural”, no qual é abordado a compreensão da família rural
dentro dos contextos de ruralidade, levando em consideração estudos mais antigos
e novos desdobramentos. Para ele, a própria ideia de família é uma construção
social, onde pessoas partilham uma linguagem ritual e moral em comum, não é dada
biologicamente, através de laços consanguíneos, mas através de relações de
trabalho e reciprocidade. Ele comenta que na lógica camponesa o trabalho legitima
o acesso à terra e o consumo dos produtos produzidos nela. Sendo assim, percebo
como trabalho, terra e família estão perpassando relações e estão intrinsecamente
relacionados à lógica da produção da unidade doméstica. Considero a maior
contribuição do autor a visão dessa unidade como sendo ativa em relação a
processos políticos e econômicos externos a ela, revisando estratégias e modo de
vida como mecanismos não de sobrevivência, mas articulados com a capacidade de
reinvenção que essas famílias possuem.
Ambos os textos de Almeida (1986, 2007) fazem revisão e debate de longa
literatura dos estudos da ruralidade e são um convite para repensar conceitos e
abordagens analíticas. Creio que pensar a casa de farinha de seu Pedro enquanto
um espaço de produção familiar ilumina a lógica do trabalho rural enquanto
legitimador do acesso à terra, do consumo dos produtos produzidos nela e da
autonomia e controle da produção.
43

CAPÍTULO II- Casa de farinha de seu Pedro: plantio, produção e venda

2.1 Farinha de mandioca na Amazônia

Amplamente consumida por comunidades amazônicas, a farinha tem lugar


especial no prato das pessoas que aqui vivem e é objeto de interesse de
pesquisadores. Sendo assim, inicio o debate com as considerações de Velthem
(2007,2012). A autora realiza pesquisa etnográfica no município de Cruzeiro do Sul,
no estado do Acre. O panorama que permeia as condições do trabalho agrícola está
relacionado com as considerações expressas na introdução da pesquisa que trata
do ciclo da borracha e suas consequências para a Amazônia. Em especial no estado
do Acre, no período do auge da produção do látex, a agricultura era uma atividade
marginal, apenas no seu declínio, onde a agricultura torna-se atividade dos
trabalhadores vindos do nordeste a fim trabalhar na atividade extrativista.
Num primeiro momento, Velthem (2007) preocupa-se com a materialidade da
produção da farinha, tendo como premissa que os objetos envolvidos no processo
só ocupam um espaço na vida social das pessoas, pois são dotados de agência, ou
seja, se expressam de forma simbólica na imaterialidade. A autora considera os
objetos como elementos hábeis a organizarem socialmente e reproduzirem relações
com as pessoas e entre si.
Tratando dos aspectos do plantio, ela afirma que o roçado é feito em áreas de
capoeira, que foram previamente derrubadas, queimadas e limpas. Velthem (2007),
de forma correspondente à presente pesquisa, destaca os aspectos da divisão
sexual do trabalho, afirmando que a atividade de descascar a mandioca é
comumente realizada por mulheres, em situações pontuais, por homens jovens e
solteiros. No âmbito dessas atividades, os objetos assumem lugares e importância
para as pessoas que os utilizam e destaca o processo de fabricação dos objetos e
quem os tem como propriedade, geralmente o genitor da família.
Há uma discussão sobre o uso dos objetos no plano de inovações
provocadas por planejamento governamental. A fim de tornar a produção uniforme e
agregá-la valor comercial, há a recomendação acerca daquilo que é considerada a
boa farinha, na perspectiva institucional, para a exportação. Sendo assim, os
44

trabalhadores devem se adaptar a certas normas, exigências e adequações de


objetos, no que Velthem (2007, p. 617) sustenta: “No geral, os produtores apreciam
ou se adaptam a algumas dessas inovações, transformam outras para se tornarem
mais funcionais e ignoram as que consideram absolutamente desnecessárias, como
a dupla lavagem das mandiocas.”
Portanto, há no plano institucional uma ação que projeta para esses
trabalhadores normatizações que não condizem com sua noção de trabalho e
relação com os objetos. Para a autora, como a produção é de cunho familiar, há um
desdobramento dessas relações para com as relações com os objetos, ou seja, os
mesmos precisam estar dispostos e organizados de forma familiar para que possam
realizar as atividades que se destinam. Sendo assim, há nos objetos características
análogas às relações humanas, como atributos sexuais, dotados de
antropomorfismo e sexualidade, isto é, vão além da mera utilização material. Deixo
que Velthem (2007, p. 625) diga:

Há igualmente uma apreensão coletiva que insere os objetos em um


sistema que reflete diferentes interações que possuem base familiar,
porquanto os artefatos são compreendidos como dotados de laços de
parentesco consanguíneos e afim – grupos de irmãos, genitores e casais.

Em seu artigo que trata da farinha dos municípios de Cruzeiro do Sul e


Marechal Thaumaturgo no que diz respeito às suas características e processo de
produção que a tornam especial, Velthem (2012). A partir das concepções de
práticas, experiências e conhecimentos perpassados pelas condições sociais
inerentes ao processo de produção da farinha especial, a autora trata dos aspectos
técnicos e simbólicos que tornam a farinha feita nessa localidade como única, nas
palavras da autora (VELTHEM, 2012, p. 445):

No Vale do Alto Juruá, a elaboração de padrões de qualidade para a farinha


de mandioca está diretamente relacionada com as representações e as
práticas dos agricultores locai e engloba toda a cadeia produtiva, do cultivo
da mandioca à comercialização da farinha.

Constituído por várias etapas, o processo é determinante para a qualidade


final. Nele são empregados os esforços e os saberes dos agricultores para se
produzir uma farinha superior. O plantio, a forma de descascar, o processo de
45

prensa, tritura e torra são muito importantes. Então, a autora aponta que o valor de
trabalho dos agricultores e dos saberes direcionados para a produção é
desproporcional ao preço final que se atribui ao produto. Demonstrando uma
desvalorização desse investimento humano.
A segunda pesquisa aqui apontada é a de Cardoso (2010), o trabalho de
campo foi realizado com algumas comunidades do rio Cuieiras, no baixo rio Negro.
Ele busca compreender os sistemas socioagrícolas da região, voltando-se para as
práticas e conhecimentos na agricultura que valorizam a biodiversidade. Considera a
mandioca como planta estruturadora, onde seu plantio depende, em grande medida,
de conhecimentos e práticas de plantio da comunidade para a sua sustentação.
Enxerga que nesse processe de manutenção, há práticas e manejos dos territórios e
das plantas que são constantemente atualizados e suscetíveis a mudanças
estratégicas perante mudanças de cenário.
O autor apresenta a casa de farinha como sendo de caráter espacial
permanente, geralmente localizada próxima às áreas de roçado, residência ou de
espaço comunitário e a mandioca como tendo importância simbólica e alimentar. A
roça é o espaço agrícola doméstica onde as mulheres acompanham e cuidam do
desenvolvimento das plantas. Cardoso (2010) comenta que o termo cuidar faz
referência aos cuidados direcionados ao desenvolvimento de uma criança. Há a
seleção de manivas, onde a escolha das plantas é perpassada por processos de
aprendizagem, saberes e práticas, no que se refere o autor:

As estratégias de manejo da roça e da diversidade agrícola a ela associada


se apoiam na criatividade, na inovação e experimentação dos agricultores e
agricultoras. Fazem parte de um pensamento para o qual a diversidade é
tida como um patrimônio (CARDOSO, 2010, p. 93).

Compreendo que a análise do autor abrange aspectos de caráter biocultural,


atribuindo ao plantio de mandioca no baixo Rio Negro um status de atividade
construída dentre de um arcabouço de saberes sobre a natureza. A relação entre
mulheres e plantas é sustentada por relações de reciprocidade, onde cuidados e
proteção são ofertados por elas, recebendo em troca uma boa produtividade, o que
Cardoso (2010) denomina como ecologia simbólica.
Por manter uma proximidade com a abordagem biocultural da pesquisa
anterior, apresento agora as contribuições de Rizzi (2011). Sua dissertação de
46

mestrado teve como lócus a Reserva Extrativista do Alto Juruá e as redondezas de


Cruzeiro do Sul, ambos localizados no estado do Acre. Pesquisa etnobotânica e
etnográfica são os termos utilizados para designar o caráter metodológico da
pesquisa. Compreender a relação entre as pessoas e o local de sua vivência é parte
do objetivo da autora, abarcando aspectos da materialidade, regime de circulação da
farinha, aspectos alimentares e a perspectiva etnobotânica do plantio do tubérculo.
Tratando dos aspectos do processo de domesticação da planta pela ação
humana, Rizzi (2011) considera a mandioca como a principal espécie domesticada
na Amazônia. A propagação do vegetal que se dá através da conservação das
manivas permite a seleção de vegetais através da ação humana. Ao ser
armazenada no próprio solo, a planta resolve um problema em relação a sua
conservação e permite ao agricultor impor o ritmo da colheita de acordo com sua
necessidade, sendo a colheita possível em qualquer período do ano. Sendo assim,
processos biológicos e processos socioculturais perpassam o sentido do trabalho
para o plantio da mandioca.
Estas pesquisas enxergam na produção da farinha de mandioca uma
atividade essencial a diversas populações da Amazônia. Abordam os aspectos
culturais no processo do plantio da mandioca e processamento em farinha. Creio
que são úteis para pensar as diversas possíveis abordagens em relação à produção
de farinha na Amazônia. Aqui o meu intento é mostrar como a produção de farinha
se dá na casa de farinha de seu Pedro a partir das formas de produção, dos arranjos
na mão de obra e da organização social nesta casa de farinha.

2.2 Casa de farinha de seu Pedro

Partindo do pressuposto de que existem processos em curso nos espaços


rurais, que permitem apreender conexões com contextos mais amplos e novas
reconfigurações de formas de produção, trabalho a casa de farinha de seu Pedro
enquanto espaço de produção familiar rural.
Localizada às margens da BR-174, a casa de farinha de seu Pedro é cercada
por meia parede de alvenaria e cerca, coberta com telhado feito de telhas. O local
onde as mulheres descascam mandioca fica localizado ao lado da casa de farinha,
também coberto, mas sem paredes. A roça não fica no mesmo espaço, geralmente
47

os trabalhadores se deslocam de girico, espécie de pequeno trator, ou moto. No


tempo de pesquisa convivi com Pedro, Pedro Júnior, seu filho, sua companheira
Iraneide, suas filhas mais novas Laura e Elza, a mais velha mora em Boa Vista e
seu cunhado Ismael. Os trabalhadores que não pertenciam a esse núcleo familiar
que mais tive contato foram Gardenia, Neide, Francisca, que é tia de Gardenia,
Yago11 (in memoriam) e Bia.
Cerca de dez a quinze pessoas compõe o quadro que forma a força de
trabalho da casa de farinha. Grande parte desses trabalhadores e trabalhadoras é
nordestina ou de ascendência nordestina. Esse número varia com a atividade
necessária, pois algumas como plantio e colheita demandam mais trabalhadores. A
circulação de trabalhadores prestadores de diária é presente. Entretanto, o momento
de torrar a farinha é quase que exclusivo de Pedro e seu filho.

Figura 2- Neide e Gardenia descascando mandioca.

11
Yago foi vítima fatal de um acidente de moto, era grande amigo de Pedro Júnior e ambos
trabalhavam juntos. Registro meu pesar.
48

Na região Norte, a farinha de mandioca é produzida em pequenos


estabelecimentos denominados Casas de Farinha. Para os moradores do município
de Iracema, localizada no estado de Roraima, assim como para a maior parte das
populações rurais da Amazônia, a farinha de mandioca tem sido a fonte alimentar
local mais confiável de energia calórica. Entretanto, o papel da mandioca,
principalmente a farinha, na dieta local vai além de uma fonte segura de alimento. É
principalmente um alimento diretamente ligado à vida cotidiana e à produção rural.
A produção da farinha na casa de farinha de Pedro envolve diversas etapas:
nos trabalhos de colheita, plantio, cevada e torração os homens estão envolvidos; já
nos processos de descascar a mandioca e a venda da farinha, as mulheres estão
presentes. Nas conversas com as pessoas envolvidas no processo de produção da
farinha podemos compreender como esses trabalhadores, atuantes nas diversas
etapas de tal processo, percebem o plantio da mandioca e formam concepções
sobre tal produção.
As atitudes e concepções do grupo sobre a produção da farinha, assim como
as implicações sobre a vida social e os hábitos sociais do grupo são construídas
socialmente. Nesse sentido, a produção de farinha constrói espaços sociais, na
medida em que determina o que comer, como comer, em que hora comer, quem
trabalha na produção do que é comido, de que forma e quando trabalha, em quais
momentos e de que forma é produzida. A compreensão dos hábitos no conjunto das
práticas- de produção- desse grupo encontra-se na valorização da farinha, como
produto que alimenta e que simultaneamente garante o sustento econômico.
Diversos arranjos sociais e de articulações pessoais caracterizam as
diferentes formas que a farinha é produzida na região Norte e revelam os processos
e as inovações do saber que são constantemente atualizados pelas novas situações
vividas nos espaços e nas situações de interação cultural. A produção de farinha na
casa de seu Pedro favorece a formação de grupos de trabalhadores que
compartilham universos simbólicos semelhantes entre si. Nesse sentido, a formação
dos arranjos da mão de obra e da organização social na casa de farinha de seu
Pedro são mais que arranjos estratégicos, mas consequências históricas e fruto das
novas relações de trabalho e com a terra.
Considero a casa de farinha de Pedro como um espaço rural de produção
que determina os processos de trabalho no que diz respeito às etapas de produção
e enquanto ao saber técnico. Produção e consumo estão relacionados a aspectos
49

culturais, na medida em que refletem e constroem representações sociais,


organização do espaço de produção – roçado e casa de farinha-, relações
hierárquicas e de gênero. Na Região Norte, os saberes direcionados para a
produção de farinha são marcados por temporalidades e regionalidades.
Cito como exemplo de como essas formas diferenciadas se dão a presença
da farinha Cruzeiro do Sul, de origem acreana, na Feira do Produtor na capital do
estado de Roraima. Essa farinha de tons amarelos mais claros, de textura mais rala
e fina é vendida a preços mais em conta em relação à farinha de textura mais
crocante e cor amarela mais viva, produzida no estado de Roraima. Os vendedores
da Feira, ao serem perguntados sobre a farinha mais procurada já respondem: “Aqui
eu vendo da fina (Cruzeiro do Sul) e da amarela, que vem das comunidades
indígenas, melhor que a de Iracema não tem, mas a produção deles não chega
aqui”. A farinha Cruzeiro do Sul vende pouco, por isso é mais barata, já a de tons
mais amarelos é a mais procurado e de valor monetário mais valorizado.
A partir dessa observação vejo como algumas características da farinha
determinam sua qualidade e a preferência a determinado tipo de farinha. Para se
conseguir essa variedade diversos processos de produção de tipos de mandioca são
utilizados. A predominância de um determinado tipo e de uma preferência varia de
acordo com as localidades e são determinados por saberes locais. Apresento em
seguida o processo de produção da farinha amarela, mais especificamente, a
produzida na casa de farinha de Pedro, localizada no município de Iracema,
Roraima.

2.3 O processo de produção na casa de farinha de seu Pedro

Apresento agora, de maneira mais detalhada, o processo de produção da


farinha, desde o plantio até a venda. É comum que se pense em plantio na
Amazônia como sendo uma atividade feminina, muito em parte pelos estudos
dedicados a comunidades indígenas (Cf. Cardoso, 2010). Entretanto, no que diz
respeito a agricultores vindos do nordeste, ou filhos de nordestinos, como é o caso
de grande parte dos moradores de Iracema, vemos que esse quadro muda e toma
outras dimensões sociais. Apesar de ter como foco a casa de farinha de seu Pedro,
também visitei outras casas de farinha em Iracema. No que diz respeito aos
agricultores da mandioca de Iracema, vemos homens e mulheres envolvidos no
50

plantio. Falando especificamente da casa de farinha de Pedro, o plantio é tarefa


estritamente masculina.
Em relação ao plantio, observei apenas homens realizando essa tarefa, o que
marca uma divisão sexual do trabalho. As manivas12 são plantadas deitadas, em um
grande balde Ismael carrega várias manivas, a cada passo dispersa uma na terra e
cobre com certa quantidade de terra com os próprios pés. Os meses do plantio, são
preferencialmente os períodos mais secos, pois “a mandioca gosta mais do seco”.
Em água abundante a raiz puba, que é um termo utilizado para dizer que a carne da
mandioca ficou cheia de água, e morre. Também no momento do plantio
observamos uma escolha que denota um saber local e é consequência de uma
circulação de raízes entre os agricultores. A escolha pela espécie Amazonina13, por
ser a que melhor se adapta ao solo do município, que permanece até um ano e meio
debaixo da terra, por ter muita goma 14 e por ser de coloração amarela viva. A partir
de dois anos em seguida debaixo da terra ela perde o líquido, tornando-se
extremamente seca e imprópria para a farinha.
Facões, picaretas e enxadas são utilizados para colher o tubérculo. Os
instrumentos danificam algumas mandiocas, já outras saem inteiras. A atividade
demanda muita força, pois o trabalho gasta muita energia. A respeito da
produtividade, Pedro me informou que é possível colher 80 sacos de mandioca por
hectare, cada saco com capacidade de 80 litros, chegando a uma média de 10
toneladas por hectare: “a mandioca suga muito a terra. Dois plantios dá para fazer,
no terceiro já tem que jogar química na terra. Ela é ácida, trava a garganta na hora”-
informou-me Pedro.
O terceiro momento é o de descascar a mandioca, que na casa de farinha de
Pedro é tarefa comumente realizada por mulheres, a condição da mandioca muitas
vezes norteia parte das conversas. É imprescindível que sejam bem descascadas,
pois influenciam na qualidade da farinha. No que tange ao tamanho e sua casca:
“quando a mandioca está seca, a carne da mandioca fica mais dura, mais difícil de
cortar, também quando está com muita terra” disse uma das trabalhadoras. Quando

12
Quanto utilizo a palavra maniva, referimo-me à parte do caule do tubérculo.
13
Tipo de mandioca majoritariamente plantada em Iracema pelos agricultores da farinha, ela tem
tonalidade amarelada e pode ficar cerca de um ano e meio no solo, é conhecida por ter muita goma e melhor
pela qualidade.
14
Extraída da fécula- substância extraída de tubérculos- da mandioca, a goma serve para fazer tapioca,
também conhecida como beiju em outras localidades.
51

a casca está mais molhada, geralmente as que ficam na parte de baixo do monte de
mandioca, ou as recém-colhidas são as que facilitam o corte. As trabalhadoras da
casa geralmente utilizam vestimentas que protejam o corpo, como calça jeans e
blusas de manga comprida, e retalhos de tecido para proteger as mãos. O excessivo
exercício de amolar as facas de descascar faz com que as mesmas vão se
deformando com uso, adquirindo um formato côncavo. Uma lima está sempre por
perto para que as facas possam ser continuamente amoladas.
Alguns termos dos trabalhadores da casa de farinha de seu Pedro denotam
um processo de humanização da mandioca, fazendo referência a suas partes e
características em relação a atributos humanos. Por conseguinte, é comum ouvirmos
que a mandioca gosta do seco, que não gosta de ficar encharcada, que suas
camadas ao descascar são camadas como as da pele humana- pele, antepele,
casca- capoeira, roça como sendo mandioca e a parte descascada chamada de
carne. É comum nessa região designar mandioca como o tubérculo que se destina à
produção da farinha e macaxeira o tubérculo que pode ser consumido na culinária
através de cozimento, por exemplo.
As mulheres trabalhadoras que descascam a mandioca têm a sua produção
computada através do preenchimento de jacás, um cesto que computa a produção
de mandioca descascada. Nas minhas primeiras visitas à casa de farinha de Pedro
eram feitas de palha, mas gradualmente foram substituídos por carrinhos de
alumínio. O tamanho e a textura da mandioca é de interesse das mulheres, pois as
mandiocas grandes e com a casca mais molhada facilitam o corte e,
consequentemente, o preenchimento do jacá. Dependendo da qualidade da
mandioca, as trabalhadoras fazem de 4 a 6 jacás por dia. Certa vez, ao chegar com
as mandiocas recém colhidas, Pedro Júnior é perguntado sobre o tipo de mandioca
que havia colhido, ao que ele responde: “rapaz, tem de todo tipo. Tem da fina, da
grossa, da pequena e da grande”.
Certa vez tive a oportunidade de observar Pedro Júnior descascando a
mandioca e referiu-se à atividade como ajuda. É interessante observar como essa
categoria nativa de ajuda é acionada nesse contexto e de que maneira pode ser
compreendido no âmbito da divisão sexual de trabalho. A atividade de descascar a
mandioca não é estranha aos homens, em outras casas de farinha que pude visitar
durante a pesquisa de campo, observei homens realizando a atividade. Entretanto,
no núcleo de produção familiar que comporta as pessoas da casa de farinha de
52

Pedro, é comumente realizada por mulheres. Ao referir-se à atividade como ajuda, o


trabalhador não diminui a atividade, mas a marca como atividade feminina.
Após serem descascadas e terem a sua produção computada através da
contagem dos jacás, as mandiocas são levadas para tanques de água. Essa
atividade leva de dois a três dias, quanto maior a intensidade dos raios solares, mais
há fermentação. Esse momento é o de pubar, a mandioca incha com o recebimento
de água e adquire uma consistência mais mole. A opção pelos tanques se dá pelo
fator higiênico. Os mesmos podem ser lavados antes do processo de pubar.
Em seguida, as mandiocas são levadas para o catitu, uma espécie de
triturador, para serem cevadas. Pedro Júnior e Ismael que mexem com o catitu
costumam se referir à atividade como sendo de risco e que demanda uma grande
atenção, pois qualquer desvio do olhar pode causar ferimentos nas graves nas mãos
“o cabra descuidou, já era”, comentou um dos trabalhadores. A mandioca adquire a
consistência de massa e é ensacada para ser levada à prensa. Para fazer a goma é
preciso deixar a massa cevada de molho, mas Pedro adverte: “Tem gente que
mistura, mas para misturar, se o cliente souber, não vai gostar.” Ele simplesmente
dispensa.
O momento da prensa é decisivo para a retirada da água do tucupi, o líquido
“venenoso” retirado da mandioca através da prensa, para que possa ser consumida.
Ela toda deve ser retirada, pois sem nenhum processo de intervenção humana, é
impróprio para o consumo: “galinha que toma a água do tucupi, cachorro que toma,
bicho que toma, morre. Até gente se tomar, morre”- disse Pedro sobre o tucupi. O
tucupi pode ser utilizado para fazer molho de pimenta. Na casa de farinha de Pedro
há uma técnica de prensa que ele desenvolveu: “A prensa do macaco fui eu que fiz,
com a minha própria inteligência”, essa técnica permite que o retentor tenha maior
durabilidade em comparação a outra que demanda excessivas trocas do mesmo.
Para Pedro Júnior, a mudança só foi positiva para a prensa per si: “ela é melhor para
acabar com o peão”, pois é consideravelmente mais dura. Antes de ser levada a
torra, a massa é peneirada.
O momento da torra é especial e cercado de cuidados. Pedro e Pedro Júnior
geralmente comandam essa tarefa. Uma série de procedimentos e cuidados são
tomados para que a farinha não queime e fique no ponto certo. A massa já cevada e
prensada não pode ser colocada muito molhada no forno, daí a necessidade dos
outros processamentos terem sido categoricamente realizados. É preciso saber o
53

momento exato para inserir mais lenha no forno, a quantidade de margarina


utilizada. E aqui destaco que a margarina utilizada é de gordura vegetal. Segundo
Pedro, a de gordura animal não deixa a farinha boa. Pedro sempre prova a farinha
no momento da torra, colocando um punhadinho na mão e jogando rapidamente à
boca.
Após ser escaldada, a farinha vai para a torra final no segundo forno, onde é
depositada mais margarina vegetal. É o momento no qual a farinha adquire
consistência crocante, aspecto amarelo forte e seca completamente. Finalizada essa
atividade, é peneirada novamente e colocadas em objetos feitos de madeira que
lembram o formato de uma mesa. As peneirações garantem uma farinha de
qualidade, pois retiram o excesso de fiapo e deixam a farinha mais fina. Um produto
com excesso de fiapos não é considerado de qualidade. No principio da pesquisa de
campo era depositada na tampa de caixas d’água. As filhas de Pedro, responsáveis
pela venda, continuamente mexem a farinha para que não fique úmida devido ao
vapor de calor que sai do forno.
Farinha d´água, farinha amarela, farinha de puba (em referência ao processo
de produção) costumam ser aleatoriamente utilizados para designar o tipo de farinha
produzida: crocante, tom amarelo forte e de aspecto granulado (diferentemente de
farinhas mais finas).
No momento da torra é comum haver compradores dentro da casa de farinha
à espera para poder compra. Muitos conversam com Pedro, numa dessas conversas
destaco um diálogo especial: “Pedro, tu é flameguista?- interrogou um comprador-
Eu não, sou agricultor – respondeu Pedro.” A referência à atividade trabalhista, à
situação como agricultor é comum estar relacionada a termos como fraco,
trabalhadora da farinha, trabalhador e peão. O trabalho pesado e a relação com a
terra são acionados para marcar a posição de um sujeito que trabalha com a terra e
busca sua independência através do trabalho, que o engrandece como pessoa e é
motivo de orgulho, em oposição a pessoas que apenas esperam os benefícios
governamentais ou favores, como é comum escutar de alguns moradores de
Iracema.
A procura pela farinha da casa de farinha de Pedro é sempre muito grande.
Ismael faz uma observação cômica a respeito do grande número de pessoas que
estacionam seus automóveis na proximidade da casa à procura do produto: “se cada
pessoa que pergunta se tem farinha pagasse dois reias, nem precisa fazer mais.”
54

Cientes de que o dia da farinha costuma ser quinta-feira ou sexta-feira, alguns


consumidores se deslocam para comprar a farinha nessas datas. Outros, na
tentativa de haver litros para vender, ou por desconhecimento, aparecem para
perguntar nos demais dias da semana. Grande parte dos compradores são pessoas
em trânsito (Manaus-Boa Vista), funcionários de órgãos públicos como IBAMA,
FUNAI, PM, SEAPA, EMBRAPA que costumam realizar viagens para o interior do
estado. Os moradores de Iracema não costumam comprar o produto. Pedro acredita
que seja por conta do preço, um litro de farinha vendido da feira realizada todo
domingo custa cerca de R$2,50, já a de Pedro custa R$7,00.
Pedro tem uma boa relação com os clientes e afirma tratar todos por igual:
“litro eu procuro não guardar para ninguém, se guarda para um, tem que guardar
para todos.” Sendo assim, ele busca estabelecer relações de reciprocidade que
sejam possíveis dentro do universo da demanda do produto e sua capacidade de
produzir.
A venda é a última parte do processo. Uma lata com capacidade para 18 litros
comporta 20 litros com os grãos. Para produzir um saco são necessários 200 quilos
de mandioca. Em relação ao peso inicial da mandioca e o peso da farinha produzida,
há uma diminuição de 70%. As filhas de Pedro costumam atender os clientes, medir
a quantidade de farinha num copo com capacidade para um litro e recebem o
dinheiro: “quem recebe dinheiro é a minha menina, se eu receber, gasto tudinho”.
Nesse ponto destaco o aspecto do domínio feminino em relação às finanças. O
controle e computação da produção são feitos pelo provedor da família, mas há
espaços onde, através do trabalho, as mulheres retiram dinheiro para bens
pessoais, como cosméticos, roupas e utensílios para casa.
55

Figura 3- Pedro, Pedro Júnior e Yago (in memoriam) Figura 4- Pedro Júnior e Yago

no momento de torrar a farinha (in memoriam) peneirando a farinha

Figura 5- Mauro e Pedro Júnior Figura 6- Mauro e Ismael cortando

no plantio das manivas manivas


56

CAPÍTULO III- Deslocamentos, saberes e trabalho

3.1 Produção, trabalho e espaço rural

Integrada aos espaços de produção de mercado, a produção de excedente na


casa de farinha de Pedro caracteriza-se por uma produção com uso de mão de obra
familiar associada à prestação de diárias. A farinha produzida abastece o consumo
dos trabalhadores e trabalhadoras da farinha, enquanto que seu excedente – que
supera em muito o consumo local- é destinado à venda. Como expressei no capítulo
II, não há transporte ou meeiros na produção. No máximo alguns pedidos para
enviar a farinha através dos táxis que levam os moradores de Iracema até a capital.
Entretanto, é o comprador que arca com os valores do transporte do táxi. Toda
quantidade de farinha produzida é vendida na própria casa de farinha de Pedro,
localizada às margens da BR-174. Se ela alcança outras localidades é através de
seus compradores: já foi levada para outros estados brasileiros, inclusive para o
exterior.
Saberes, valores, sentimentos, sociabilidades, sentidos de vida, diversas
formas de ocupação do território constroem experiências diversas de trabalho e
socialização. No que diz respeito à casa de farinha de Pedro, o modo de produção
adotado mais se aproxima à produção de excedente. A produção da farinha
comporta uma alternatividade15, na medida em que está inserida no contexto de
consumo e venda - que varia conforme o circuito do mercado e o destino do produto.
Sempre uma quantia do produto é destinada para consumo próprio, nunca falta
farinha na mesa. Há a dependência, quase que integral, da venda da farinha por
parte dos produtos para adquirir outros bens alimentares. Por fim, as relações de
trabalho e produção juntamente com os novos arranjos produtivos no âmbito rural
garantem a experiência de trabalho e de tempo do agricultor dentro do seu espaço
social.
Viver e trabalhar no mundo rural assume formas específicas no que diz
respeito às experiências de tempo e espaço. Como trabalhei no capítulo I, os
espaços rurais reivindicam vivências particulares na medida em que apresentam
15
Alternatividade é aqui entendida conforme as definições de Herédia (1979), onde a produção
familiar não atende todas as necessidades alimentares, fazendo-se necessário comercializar parte da produção
para atender a outras demandas de consumo. Os produtos apresentam a marca da alternatividade ao estarem
inseridos nas esferas de consumo e veda. Sendo assim, a preferência de cultivar os produtos dotados de
alternatividade está inserida no contexto de consumo e venda.
57

especificidades históricas, políticas, culturais e de território. Na casa de farinha de


Pedro há televisão, energia elétrica, suas filhas têm acesso à aplicativos de
celulares e internet e se referem à sede municipal de Iracema como “rua”, “vamos à
rua”, marcando uma forma específica da gestão do espaço rural, onde a casa de
farinha de seu Pedro está no domínio rural e a sede municipal de distancia desse
espaço. O modo de vida relacionado a contextos rurais não exclui a possibilidade de
convivência com outros contextos.
Há a desconfiança e o questionamento que a expansão do agronegócio,
associado à ideia de progresso, avanço científico e de produção, esteja dominando
diversos segmentos dos espaços rurais indiscriminadamente. Os grupos atingidos
por esse movimento respondem e reivindicam seus espaços e seus modos de vida
ativamente. Isto observo em Iracema, na casa de farinha de seu Pedro, a partir da
ideia que as experiências particulares dos espaços rurais no que diz respeito à
vivência é acionada. A impossibilidade de negar o agronegócio enquanto lógica de
produção em expansão não exclui a possibilidade da lógica de produção na casa de
farinha de seu Pedro de questionarem e resistirem a ela.
Os interesses da propagação globalizada do agronegócio nos espaços rurais
podem ser questionados por ação de movimentos sociais. Segundo Brandão (2007),
a resistência tem a possibilidade de ocorrer através de segmentos da questão
agrária, movimentos de caráter ambiental e pelos movimentos que defendem os
direitos humanos. A proposição de gestão social de tempo e espaços diversos, de
modos de vida e modos de trabalho busca assegurar a polissemia e diversidade do
campo. Mais que assegurar direitos como acesso à terra, educação e bens de
consumo, reivindicar uma gestão de tempo e espaço particular é garantir o direito a
um modo de vida específico.
As atividades mobilizadoras que marcam a frente de resistência e as
atividades do campo ligadas à unidade familiar que sofrem um processo de
modernização da “tradicionalidade” são dois aspectos ante a racionalidade
dominante. Essa racionalidade perpassa domínios políticos, econômicos e sociais,
onde a ideia de progresso e avanço está associada às tecnologias associadas à
produção monocultura. A concentração de terra e de renda sempre esteve presente
na base da formação da estrutura agrária brasileira e os arranjos que os pequenos
produtores fazem em suas terras atualizam e constroem um modo de vida que está
constantemente em mudança e em conflito.
58

Racionalidades rurais e populares são o conjunto daquilo que Brandão (2007)


chama de “contra-racionalidades”. Para ele, são situadas em zonas de fronteira
geográfica, social e simbólica, marcando espaços de trabalho e de socialização no
campo. Para além da concepção que as localiza nas marginalidades, suas zonas
são bem específicas e marcadas. A respeito dessa concepção, temos dois
movimentos atuantes, onde uma influência predominante busca a expansão do seu
modo de produção e, em contrapartida, as lógicas contrárias ao modo de produção
do agronegócio privilegiam espaços, tempos e modos de vida divergentes. Inspirado
por ideia de José de Souza Martins em Capitalismo e tradicionalismo, o autor afirma:

A pequena unidade camponesa de tradicional agricultura familiar não é


marginal à expansão do capitalismo agrário e nem é uma experiência social
em extinção. Ao contrário, ela é orgânica e essencial à expansão do
capitalismo no campo (BRANDÃO, 2007, p. 45)

Algumas das conversas que tive com os trabalhadores quando os


acompanhei de girico na roça têm seu conteúdo a respeito do plantio da mandioca,
quais eram as condições da roça e as mandiocas que foram colhidas, os
trabalhadores de diária comentam acerca das outras roças que estão trabalhando,
as próprias condições de trabalho marcam esses assuntos: se a quentura atrapalha,
se a mandioca está boa para descascar, se a colheita foi difícil, se a comida do
almoço foi o suficiente. O universo simbólico dessas conversas está ligado à lógica
de modalidade de tempo, trabalho e experiência no campo inerente à unidade
doméstica de produção.
Sendo o espaço de trabalho um local de relações, o lugar rural tem como
referente a natureza, mas não uma natureza qualquer, mas aquela marcada por
uma transformação através do trabalho. O pensamento da produção de mercado
que considera a natureza um espaço a ser dominado, apropriado e maximizado no
sentido de produzir a maior quantidade possível é aqui negado. A natureza é tida
como um espaço de trabalho de onde se tira o sustento. Na casa de farinha de
Pedro, a vida cotidiana nos espaços rurais se concentra na roça de mandioca e na
casa de farinha.
Além de um espaço de trabalho e de relações, o lugar rural é também um
espaço de transações. Troca-se, de forma simplória, farinha por quantias
59

monetárias. Entretanto, essas trocas não são apenas comerciais, vão além dos
aspectos puramente econômicos. Trocam-se bens, sentidos e modos de vida.
Aqueles que trocam tecem relações, a farinha vai além dos domínios territoriais de
Iracema, chegando à mesa de outras localidades. Comida e símbolos circulam
espaços rurais e não rurais. As transações, mais que entre mercadorias, coisas e
dinheiro, são entre pessoas e diferentes experiências de espaço, trabalho e tempo.
Há equívoco em acreditar que apenas racionalidade da produção de
mercado, que se mostra predominante no sentido das grandes extensões territoriais
e na grande produção de soja- ou no grande número de cabeças de boi-, por
exemplo, no tempo e no espaço. Busquei demonstrar como outras racionalidades,
ou melhor, uma lógica específica de produção que perpassa a casa de farinha de
seu Pedro é possível nos espaços rurais. A partir disso, é de grande importância
discutir as considerações acerca da ética camponesa presentes em “Com Parente
não se neguceia”, de autoria de Klaas Woortmann (1990).
A partir do artigo de Woortmann (1990), busco discutir o domínio da
moralidade camponesa. Esse campo é marcado por valores e sentidos daquilo que
podemos chamar de uma ética camponesa. Não à toa o autor destaca uma fala
nativa para ser o título do artigo. A tentativa de compreender a relação entre o
domínio da moralidade e o domínio econômico dentro da unidade de produção
doméstica é a maior contribuição do artigo. Dimensões do campo social são
perpassadas pelo universo moral do campesinato e, em certa medida, extrapolam o
campo das relações e se refletem no universo econômico mercantil, marcando-o
com a ética camponesa e tecendo relações a partir de valores como trabalho, família
e terra.
Como categorias nucleantes e indissociáveis, terra, trabalho e família são
aspectos dos espaços rurais marcados pelo domínio da moralidade e o domínio
econômico. Segundo o autor, a ordem moral é marcada por um modo específico de
observar as relações com os homens, mais especificamente com a terra. Para além
da ideia de que um domínio sobressaia o outro, o modifique, o marque ou o
determine, busco compreender em que sentido um domínio é perpassado pelo
outro. Ou seja, pensando a moralidade e a economia como relacionais.
Terra, trabalho e família são perpassados pela lógica da ruralidade enquanto
processo social. Essas três dimensões são observáveis em qualquer contexto
empírico onde haja relações sociais, uso dos territórios e trabalho. Entretanto, a
60

especificidade que assumem nos espaços ditos rurais é o que me interessa nessa
abordagem. Sendo assim, a casa de farinha enquanto unidade doméstica de
produção pode ser considerada um espaço de convívio social, de relações
familiares, relações de trabalho e onde ocorrem transações econômicas. A terra
pode ser observada enquanto espaço de transformação, onde a ação humana vai
configurar novos significados e sentidos a ela.
Woortmann (1990) afirma que a noção do modo de produção é instrumento
que melhor ajuda a compreender os trabalhadores localizados nos contextos rurais.
Sendo assim, creio que a seção anterior nos é útil para pensar a casa de farinha de
Pedro para além das classificações de pequeno produtor, por exemplo. Pois além
das classificações produtivas que nos foram preciosas no debate das contra-
racionalidades, penso que localizar o modo de produção dentro desse contexto ( de
contra-racionalidades) é eficaz para perceber o valor simbólico que assume os
arranjos dessa produção dentro do cenário de trabalho e de relação com a terra.
Assim sendo, terra assume o valor de patrimônio da família, lugar em que,
através do trabalho, a família se constrói no que diz respeito aos aspectos
simbólicos. Tratando do trabalho enquanto categoria que é marcada pelo valor ético,
o autor busca compreender o sentido da moralidade presente nos arranjos do
trabalho no espaço rural, afirmando que essa noção não é totalizante. Ou seja,
exclui a possibilidade de instrumentos que meçam a predominância do domínio
moral ou do domínio econômico, mas a todo o momento busca entender a
moralidade nos aspectos que seriam perpassados pela lógica produtivista e
monetária. Sendo assim, campesinidade é característica da ética camponesa, não
um recorte dos grupos sociais, mas uma qualidade pensada no plano das
representações e valores presentes nos grupos sociais.
Integração no mercado e latifúndio, por exemplo, não seriam,
necessariamente, marcados por um nível menos significativo de campesinidade.
Pois na medida em que se pensa nela como uma qualidade expressa no campo das
representações e valores dos diversos grupos sociais, a ordem social assume
características que em muito diferem das relações onde sobressai a lógica
produtivista de mercado. Onde o senso de honra dos trabalhadores e trabalhadoras
perpassa as relações de família, terra e trabalho, há um nível relevante de
campesinidade, observando-se que essa qualidade é pensada num plano
representativo e de valores sociais.
61

É interessante observar que no nível da discussão analítica tipos,


classificações e conceitos são acionados para melhor apreender as abstrações da
observação empírica. No nível abstrato, esses conceitos tentam explicar uma
realidade que se observa, mas não pretende superá-la ou estratificá-la. É uma
leitura epistemológica que pode ser feita de diversos modos. O referencial teórico
funciona como um enquadre, onde localiza em que medida os fenômenos podem
ser lidos através daqueles conceitos. O esforço é de relacionar categorias nativas
com as categorias analíticas. Entretanto, Woortmann (1990, p. 04) chama atenção
para um fato muito importante no processo de relacionar realidade com teoria:
“pequenos produtores concretos não são tipos, mas sujeitos históricos e que, por
serem históricos, as situações empíricas observadas são ambíguas.”
Em relação à ambiguidade das circunstâncias que se observam apresento
duas situações que podem ser analisadas através de diferentes recortes, mas aqui
privilegio as de domínio econômico e de domínio da moralidade. Trato da
ambiguidade como sendo a qualidade que abarca os dois domínios
simultaneamente. A primeira trata da gerência dos litros consumidos pelos
trabalhadores e trabalhadoras da casa de farinha de Pedro. Já a segunda é a
respeito da relação de trabalho do filho de Pedro, Pedro Júnior com os demais
trabalhadores e com o próprio pai. A maneira como reciprocidade, honra e hierarquia
são princípios organizatórios centrais, que atravessam a forma que a representação
dessa relação assume é o que interessa na observação.
Primeiramente, a gerência dos litros consumidos pelos trabalhadores e
trabalhadoras que estão sob o regime do sistema de diárias, diz respeito ao caráter
ético do trabalho. O entendimento da família nuclear é que o pagamento do trabalho
é feito através do dinheiro, sendo o consumo de litros entendido como um
pagamento a mais. Caso o trabalho não fosse remunerado era compreensível que
fosse pago através do recebimento de uma determinada quantidade de litros de
farinha que equivalesse ao serviço prestado. O consumo de farinha é regulado pela
lógica do pagamento do trabalho, não há benefícios concedidos em relação ao
consumo da farinha, que é compreendido como um recebimento a mais.
Ao avisar a quantidade de litros que se pega, o trabalhador ou trabalhadora
pega dois ou três litros da farinha com o copo medidor e coloca numa sacola. O não
aviso da quantidade de farinha que se pegou pode implicar em sanções morais.
Certa vez, dona Francisca, umas das trabalhadoras que descascam mandioca
62

pegou um litro sem autorização e sem pedir a ninguém. Elza, filha de Pedro se
manifestou contrária a esse comportamento e começou a fazer muitas reclamações:
“Elas se acostumaram a ser assim mesmo. Depois o pai briga com a gente, dizendo
que estamos pegando um litro”. Eu perguntei: “mas elas não podem pegar? Já que
estão trabalhando aqui?” E ela respondeu: “Não, ele está pagando. Se ele não
estivesse pagando é como se estivesse ganhando um por fora”. Em seguida a
trabalhadora pagou o que consumiu.
Em segundo lugar, trato das relações de trabalho e família que o filho de
Pedro, Pedro Júnior estabelece: “Eu não sou filho do patrão, me sinto como
qualquer outro peão”. Ele segue longos horários de trabalho, acorda de madrugada
para colocar a massa da mandioca na prensa e vai para roça com os demais
trabalhadores prestadores de diária. Conhece todo o processo de produção e se
sente como qualquer outro peão na medida em que fala com o todos eles e realiza
as mesmas atividades. Não se sente como filho de patrão ou de empresário e não
procura outro tipo de ocupação por respeito ao pai. Destaco o aspecto do caráter
familiar do trabalho enquanto categoria moral onde o pai detém o controle sobre o
processo de trabalho da família.
Como abordei na introdução alguns aspectos da pesquisa de campo no que
diz respeito às preocupações etnográficas, recordo o fato da pesquisa de campo
enquanto domínio das conversas e alvo de preocupações, comentários e sugestões.
Durante o período que passei em Iracema, costumava ser questionada quanto aos
objetivos da pesquisa, ao local em que estava morando- “está na casa de quem?” -.
Sugestões também eram feitas: “você deveria andar mais, ir nos restaurantes da BR,
visitar o Militão16, você está parada demais, já foi muito no Pedro”. Eu seguia à risca
as sugestões, acredito que me foram úteis. O questionamento também esteve
presente: “ mas essa pesquisa é do que mesmo? E o que você faz na universidade?
O que é essa tal de Antropologia?”. Nesse momento a ética da pesquisa é
ressaltada, e observo a necessidade de traduzir códigos para uma possível
linguagem local onde o entendimento se realize.
Resgato esse fato para tratar do controle social 17 enquanto componente da
moralidade camponesa. Estendo o conceito de campesindade para o domínio do
processo de localizar as pessoas tanto geograficamente, quanta na rede de relações

16
Ver capítulo I
17
Ver nota de rodapé número 1.
63

que se constroem, ou seja, no que diz respeito ao aspecto moral. Sendo terra,
trabalho e família três categorias mais gerais e indissociáveis, creio que o controle
social no contexto rural estudado perpassa as mesmas simultaneamente. A
representação desse controle social no plano das ações se configura com as
perguntas demonstradas no parágrafo anterior. Tais perguntas carregam em si a
marca do controle social na medida em que se caracterizam como uma tentativa de
localizar a quem se pergunta no que concerne ao trabalho, às visitas, aos parentes e
o local de estadia.
Nesta seção tentei relacionar o domínio da moralidade e o domínio
econômico e compreender a forma que esses domínios assumem dentro do plano
das representações. Entendendo que a reciprocidade não está apenas implicada
nas coisas trocadas, mas se estende para o plano dos princípios morais, tomando
forma no caráter ético do trabalho, nas relações de hierarquia e no caráter familiar
do trabalho. Para isso, trouxe situações da pesquisa de campo que foram
importantes para a escolha desse recorte teórico, observando a ambiguidade das
situações empíricas que se apresentam. Espero que a leitura a partir de outros
panos de fundo teóricos seja possível.

3.2 Deslocamento e trabalho

O processo de deslocamento regional dos trabalhadores que, em grande


parte, são vindos do nordeste, ou possuem ascendência nordestina implicam em
atualizações das relações com a terra e com o trabalho. Configura-se uma nova
realidade: território, cenário, espécies de mandioca e novas formas e produção
marcaram o contexto de mudança desses trabalhadores. A mudança para o estado
de Roraima pode ser compreendida como um marco temporal que perpassa os
saberes da relação e com a produção.
Ao entrar em contato com os trabalhadores e trabalhadoras da casa de
farinha de Pedro, era comum uma breve conversa inicial na qual, não raro, o local de
origem era acionado. Francisca, Iraneide, Gardenia, Ismael e Pedro são nordestinos,
já Laura, Elza e Pedro Júnior são da geração que nasceu em Roraima. Muitos
moradores da cidade de Iracema têm ascendência nordestina, ou vieram dessa
região brasileira. Como expus no capítulo I, o deslocamento de nordestinos para a
64

região amazônica marca ciclos econômicos e planos governamentais que


direcionaram contingentes populacionais para essa região do país. Diversas foram
as motivações e adversas foram as situações com as quais se deparam no novo
contexto.
Ceará, Piauí e Maranhão são origens comumente acionadas no que diz
respeito ao estado de nascimento ou localidade na qual os pais nasceram antes de
vir morar em Roraima. A época de vivência nesses locais é lembrada como um
período de dificuldades, onde o trabalho era mais “pesado”, utilizavam até roda
d’água e tudo parecia mais penoso do que atualmente. A vinda para Roraima é vista
como algo positivo. O tempo é marcado pela passagem entre as localidades do
Nordeste e a vida em Roraima. Percebo que há uma relação com os objetos
materiais de trabalho e a noção de trabalho. Certos instrumentos tornam o trabalho
mais leve ou mais pesado. Sendo assim, materialidade, noção de trabalho e
deslocamento são três aspectos que estão relacionadas no contexto da mudança.
O trabalho, com advento do catitu, prensa e do forno maquinado 18, por
exemplo, torna-se menos pesado. Ou seja, a materialidade, os aspectos dos objetos
da casa de farinha estão relacionados com o peso do trabalho e com o que é
considerado trabalho. Até mesmo, na fala de um trabalhador, a facilidade em
excesso é associada ao não-trabalho: “com aqueles instrumentos todos é fácil
demais lá, o caba não trabalha”, referiu-se um trabalhador aos instrumentos que
facilitam a produção em algumas propriedades, como trator, forno maquinado,
carros com ar condicionado. A mudança de localidade também é marcada por
mudanças no ritmo do trabalho.
Destaco aqui o aspecto dos saberes nos espaços rurais. Eles também sofre m
influência dos deslocamentos e estão constantemente em atualização, passando por
recombinação de valores e construindo novos arranjos. Na medida em que o
deslocamento marca novos domínios territoriais, novas relações com a terra e com
as plantas, os conhecimentos são atualizados. Trabalhadores vindos do nordeste
não conheciam o tipo de mandioca amazonina19, tão pouco o processo de pubar a

18
O forno de torrar a farinha é feito de ferro. A aquisição do mesmo na casa de farinha de Pedro foi
feita através de empréstimo. Assim como os fornos tradicionais, o maquinado é aquecido a lenha, mas
diferentemente dos fornos que não são maquinados, esse forno é movido a energia. A necessidade de mexer a
farinha a todo momento é reduzida, tornando esse processo facilitado no que diz respeito ao desprendimento
de energia e mão de obra.
19
Ver capítulo II.
65

mandioca na forma que comumente realizam atualmente- muitos deles realizavam o


processo nas beiras dos rios e a quantidade de tempo necessária na água era
menor, pois as espécies de lá eram mais moles-. O corte também era diferenciado,
pois costumava-se descascar a mandioca após ela pubar, procedimento que não
funciona para a amazonina. Até mesmo o tipo de gordura utilizada para torrar é
relevante para preocupações, experimentações e saberes atualizados, sendo
preferencial a gordura vegetal na casa de farinha de Pedro.
Ao iniciar as atividades na casa de farinha em Roraima, Iraneide, esposa de
Pedro, conta que havia muitas dificuldades. Longas distâncias eram percorridas a
pé, não havia forno maquinado. O trabalho contava com a sua participação, no que
ela se refere como sendo mulher trabalhadeira de farinha. Plantio, arrancar
mandioca e descascar eram tarefas realizadas por ela. Com o passar do tempo,
Pedro Júnior, o único filho homem do casal, foi assumindo mais tarefas na roça.
Com isso, Iraneide passou a cuidar mais dos afazeres domésticos e das duas filhas
mais novas, que trabalham na venda da farinha.
A farinhada do Piauí, na fala de Francisca, era diferente. Primeiramente o tipo
de lá é a branca, mais fina e clara em relação à farinha puba. Nesse estado ela
também costumava descascar a mandioca. Amazonina é um tipo que nunca havia
visto no Piauí, a primeira vez foi no estado de Roraima. Em relação à atividade que
a trabalhadora realizava, não vemos grandes mudanças, entretanto o tipo de
mandioca utilizado para fazer o processo de produção da farinha é diferente,
tornando o produto final único e característico das respectivas localidades. Ou seja,
o deslocamento não marca apenas o contato com a nova espécie de mandioca, mas
novas formas de produzir, novas relações com a terra e relações de trabalho são
configuradas no cenário de Roraima.
O momento da venda da farinha também é interessante para observar
relações e arranjos no comércio do produto. No trabalho da venda, há o costume de
se medir a quantidade comprada num copo com capacidade para um litro, ao
perceber tal arranjo para o comércio, logo interroguei Pedro o motivo de medir a
farinha em litro, ao que ele respondeu categoricamente: “Porque é tradição”- e
continuou “Roraima é um estado que tudo sempre veio de fora. Aqui nunca se
produziu nada, nem as coisas mais simples. Até um forno desse (apontando para o
forno da casa de farinha) tem que vir de fora. O que tem aqui é só gado e soja.
Iracema não produz nada. Só tem mandioca, melancia e milho. Aqui teve essa coisa
66

de assentamento, mas tu acha que isso ainda existe? O pessoal vinha tirar o lote,
pegava os empréstimos para fazer as benfeitorias e se mandava no mundo. Rio de
Janeiro, São Paulo, pode escolher qualquer lugar. Outro vinham para tirar o dinheiro
e gastavam para financiar campanha política. A cultura roraimense é indígena e tudo
que vem de fora é invenção, as coisas daqui são indígenas.”
Há todo um saber que perpassa as condições da plantação e determina as
relações com a terra. Numa das visitas à roça com Pedro Júnior, vários dos espaços
me foram apresentados. É interessante observar os limites do olhar de fora.
Conhecendo uma plantação de mandioca com o olhar de quem não planta, as raízes
apresentam grande semelhança e a paisagem se mostra quase uniforme. É a fala
do trabalhador da casa de farinha de seu Pedro que vai desconstruir essa imagem,
colocando diferença, espaços ao que se apresentava uniforme. Daí a importância da
observação participante na pesquisa de campo, da vivência com os atores sociais.
Falando com orgulho das raízes da mandioca, de como bonitas e limpas
estavam, Pedro Júnior, numa das visitas à roça, mostrava as raízes e explicava a
diferença entre as que haviam sido roçadas e as que estavam com mato ao redor.
Novamente, o olhar destreinado não observa grandes diferenças, mas ao
compreender do que se trata, o trabalho na roça fica evidente. As plantas precisam
ser limpas para que cresçam saudáveis, mas nem sempre um pé bonito dá uma raiz
grandiosa. Roçando também é um termo nativo para designar a atividade de deixar
limpa a mandioca, cortando o mato. Para a batata crescer, as condições do solo, da
terra, do adubo são fundamentais. O local do plantio também interfere no
crescimento da batata. Pedro Júnior me mostrava os locais onde a raiz tinha
condições de melhor se desenvolver.
Na roça é onde os trabalhadores tem puxado a mandioca, local destinado ao
plantio do tubérculo, observei que algumas raízes já desenvolvidas, apresentam
uma protuberância do solo. Caculo é quando a raiz sobe e faz levantar a terra, a
superfície que faz o caculo ao levantar a terra. A relação com a terra também marca
uma relação com as plantas, refletindo-se nas relações de trabalho entre as
pessoas. Não apenas a espécie amazonina é plantada na roça, mas também a najá.
Essa espécie não é preferência para fazer farinha puba, pois ela possui pouco
colorau no tucupi20. Ou seja, é uma espécie que é de coloração mais branca e

20
Ver capítulo II.
67

menos brava que a amazonina. Na pesquisa de Rizzi (2011), a classificação das


mandiocas entre bravas e mansas está relacionada com o teor de acidez, sendo as
bravas as mais ácidas.
Acerca da seleção das espécies, nas palavras de Lévi-Strauss (1997, p.24),
temos: “as espécies animais e vegetais não são conhecidas porque são úteis, são
consideradas úteis ou interessantes porque são primeiro conhecidas.” A partir da
citação de Lévi-Straus percebo como a seleção de espécies de mandioca não é
aleatória, mas perpassada por saberes e relação com a terra que determinam as
vantagens e desvantagens de casa espécie. Esse processo está precisamente
acionado pela ação humana. A seleção de espécies depende exclusivamente do
trabalho e do saber do agricultor ou da agricultora. No caso da casa de farinha de
Pedro, o plantio e a ação de arrancar mandioca é, no contexto da divisão sexual do
trabalho, realizado pelos homens.
Ainda em relação às características de acidez da amazonina, apresento uma
situação em pesquisa de campo que corrobora para minhas considerações. “A
mandioca é brava, mas o gado fica manso”- comentário acerca dos aspectos da
espécie amazonina. Trabalhadores que cuidam de gado costumam pegar as cascas
que sobram após as trabalhadoras da casa de farinha de Pedro cortá-las. Essas
cascas são destinas para alimentar o gado. A vaca leiteira gosta muito das cascas
da mandioca e o boi bravo fica logo manso: “vem certeiro nela”. A fala desse
trabalhador evoca o pensamento acerca das restrições alimentares em relação às
partes que constituem a mandioca: casca é boa para gado; tucupi o bicho que toma,
morre; e a batata é destinada ao consumo humano.
Assim sendo, o descolamento espacial não marca apenas uma mudança dos
estados do nordeste para o estado de Roraima. Para além das noções espaciais,
esse deslocamento está marcado pela negociação de saberes, de novos arranjos na
produção e no modo de produzir, atualização de saberes através da seleção de
espécies de mandioca, de instrumentos, do processo de escolha da melhor parte do
lote para a roça de mandioca e dos melhores arranjos na divisão sexual do trabalho.
68

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A título conclusivo, acredito ter sido positivo o esforço de abordar a inserção


na pesquisa de campo como componente substancial para as relações e contatos
que vão se tecendo no decorrer do período da pesquisa. A própria inserção marca
uma posição que serve de suporte para os contatos e para minha localização
enquanto pesquisadora naquele contexto social. Findada a pesquisa de campo, os
desafios de ordem metodológica permanecem como provocadores de
questionamentos. A solução que tentei buscar para os mesmos se encontra na
objetividade etnográfica, ou seja, a descrição dos dados empíricos deve ser de
maneira precisa, permitindo outras interpretações e debate de teorias.
Este trabalho de conclusão de curso buscou apreender as relações de
trabalho, terra e modos de produção numa casa de farinha no município de Iracema-
RR. Elegi as categorias terra, trabalho e produção a fim de iluminar questões que se
apresentavam no contexto da pesquisa de campo. O processo de deslocamento e
ocupação de nordestinos para a sociedade amazônica tornou-se interessante na
pesquisa para observar os modos de produção e a relação com a terra que se
configurou com a vinda para o estado de Roraima. Creio que esse processo
envolveu diferentes formas de contato, trocas e atualização de informações, um
intercâmbio mútuo. Esse processo ocasionou inovações e mudanças em relação
aos aspectos das práticas e saberes. Na pesquisa, a transformação da mandioca
em farinha no contexto amazônico ilustrou parte desse processo.
Para além do paradigma estrutural-funcionalista que pensa a organização
familiar como espaços de produção e consumo, enxergando os novos arranjos na
produção da unidade doméstica familiar como adaptativos e de reprodução, é
preciso observar o conhecimento dos trabalhadores da farinha. As lógicas de
produção presentes na casa de farinha de seu Pedro informam mais que
mecanismos adaptativos. Mas são conhecimentos e saberes atualizados,
perpassados por deslocamentos e relação com a terra, com o trabalho e com o
modo de produção que se transformam, num processo dinâmico. Afinal, a relação
com o tempo e o espaço percorre dinâmicas sociais e lógicas próprias de
sociabilidade e tomam forma em determinados espaços rurais.
A casa de agricultura de Iracema, que é da esfera estatal, vinculada à
69

secretaria de agricultura do estado de Roraima, foi um dos lugares que visitei no


intuito de coletar dados, verificar a possibilidade de consultar mapas e dados da
produção de farinha no município. O período da pesquisa de campo foi marcado por
mudança de governo21. Com a nova governadora assumindo, muitos cargos e
secretarias são ocupados por pessoas ligadas à candidatura da mesma. Encontrar
servidores capacitados a responder os questionamentos na casa de Agricultura foi
uma dificuldade. Numa das visitas fui informada que só “trabalhavam com gado”. Ao
que questionei: “então por que o nome casa de Agricultura?”, ao passo que a
servidora desconversou.
Numa visita posterior, um dos agrônomos me indicou a secretaria de
agricultura em Boa Vista para obter dados. Conversamos sobre a minha pesquisa e
o servidor falava da dificuldade de fiscalização e de fornecer um selo de produção a
essa farinha. Comentou acerca das condições sanitárias das casas de farinha onde
é produzida, a forma como as etapas do processo de produção não seguiam
critérios rígidos de higiene, os locais e instrumentos não eram devidamente
higienizados. Ele, na qualidade de agrônomo compreendeu do que se tratava minha
pesquisa e fez uma observação: “A dificuldade em fiscalizar, dar o selo, é que o selo
vai de encontro com a cultura”. Ou seja, o processo de dar o selo não observa o
modo de se produzir nas casas de farinha superpõe critérios sanitários em relação a
critérios do saber do agricultor ou da agricultora.
Como nenhum Projeto de Assentamento de Roraima foi emancipado, a
responsabilidade de fornecer infraestrutura e assistência fica a cargo do INCRA. A
medida engessa as ações de esfera municipal e estadual. Nas conversas com os
trabalhadores e trabalhadoras, as ações da Casa de Agricultura de Iracema eram
ineficazes e não atendiam às necessidades e direitos dos mesmos. Um exemplo que
ilustra essa situação é a chegada de sementes na instituição e o não repasse das
mesmas ao agricultor: “Quando chega semente aqui, o pessoal não está nem aí, só
lava e joga na panela, não chega nada aqui”- disse-me um agricultor do município.
Na produção na casa de farinha de Pedro, as cascas que sobram após as
mandiocas serem descascadas, são recolhidas por homens que trabalham com
gado. Ele comenta que se dependesse de órgão fiscalizador para regulamentar o
destino do tucupi (que é ácido e prejudicial ao entrar em contato com o solo), levaria

21
Suely Campos foi a governadora eleita nas eleições de 2014, tomando posse no início do ano de
2015.
70

um multa, mas não podem fazer isso, pois não têm alternativa para propor. Afirma
que nunca teve nenhum tipo de ajuda municipal, estadual ou federal em sua
produção. A condição do produtor em Iracema no espaço rural é, em grande parte,
de exclusão das políticas públicas destinadas à agricultura.
A feira que ocorre semanalmente na cidade, nos dias de domingo bem cedo,
é um espaço onde é possível encontrar produtores de várias vicinais do município
de Iracema. Ao indagar sobre a atuação da casa de Agricultura e sua atuação nas
vicinais e nos lotes, muitas eram as queixas e reclamações: “aqui ninguém vem dar
assistência para gente não, somos esquecidos”- disse um dos produtores com sua
produção trazida da vicinal 05 de Iracema. No que se refere aos procedimentos para
montar uma casa de farinha, por exemplo, é preciso que todos os equipamentos
sejam transportados em conjunto, mas as falas são no sentido de comumente faltar
algum equipamento, seja do forno de ferro, ou do catitu, causando a impossibilidade
de fornecimento aos lotes.
Para além da atuação dos servidores, as dificuldades são, principalmente, de
cunho gestacional e institucional. A não emancipação dos Projetos de Assentamento
engessa a atuação dos órgãos municipais e estaduais. Entretanto, no estado de
Roraima vários aspectos políticos e econômicos corroboram para o cenário que se
apresenta nos espaços rurais: inseguridade legal das terras; sobreposição de terras
- algumas terras estão localizadas nos limites de terras indígenas, projetos de
assentamento e áreas de reserva ambiental, tornando a gestão confusa ou omissa
Compreender como a vivência no mundo rural toma forma a partir de
vivências de reciprocidade foi um aspecto abordado no sentido de iluminar as
formas especificas que a experiência de viver e trabalhar no mundo rural assume no
tempo e no espaço. A vivência que os trabalhadores e trabalhadoras assumem nos
espaços rurais possuem especificidades históricas, políticas, culturais e de território.
Considero que essas diferenças vão além da dicotomia rural-urbano. Analisar os
espaços rurais enquanto dinâmicos e abarcadores de diferentes lógicas de
produção, ocupação do espaço e relação com o tempo foi importante para ir além
desta dicotomia. O agronegócio existe enquanto lógica de produção em expansão,
mas não exclui a lógica de outros grupos sociais, em especial da casa de farinha,
que não valida essa lógica do agronegócio.
Relacionei o domínio da moralidade e o domínio econômico a fim de
compreender a forma que esses domínios assumem nas relações que as pessoas
71

constroem na vida cotidiana. Para além das relações monetárias, onde o valor dos
objetos está no pagamento, entendo que as coisas trocadas na casa de farinha
carregam em si marcas importantes. A marca do saber fazer farinha, das relações
de trabalho, da relação com a terra e o modo de produção. O caráter ético do
trabalho é perpassado pelas relações de hierarquia que se assumem no plano das
relações familiares de trabalho, o que implica numa noção específica de moralidade.
Sair do estágio do sopro (Geertz, 2013) na prática antropológica significa o
momento da localização, o pesquisador sai da condição de incerteza e passa a fazer
parte do cenário social que está inserido. A realidade social das pessoas envolvidas
na pesquisa, dos trabalhadores e trabalhadoras da farinha é aqui tratada através de
uma experiência de pesquisa campo e uma posterior analise crítica dos dados. O
exercício da pesquisa de campo e a posterior análise, considerando os desafios da
escrita Antropológica, foi o aspecto da exposição dos dados que busquei abarcar.
72

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