Você está na página 1de 8

Contribuição à metafísica do que em nós é o obscuro

mais consciente
O ainda-não-consciente
O problema inconstrutível do Nós1
Ernst Bloch

O Obscuro
Mas eu mesmo não posso me experimentar e me possuir. Nem mesmo algo tão
insignificante: eu no momento, que estou escrevendo e fumando – justamente esse algo
insignificante, porque está perto demais, me escapa.
No após mais imediato, relaxado, consigo agarrar e, de certa forma, projetar o
filme para mim. É somente assim que o passado imediato se me apresenta, coincide com
o que aparentemente experimentamos como presente. Então é isso que nos faz viver?
Então é isso que, visto de dentro, é aquilo de quando nos tornamos o que a criança, o
adolescente, esperava do futuro? Aqui estou eu como pareço, aqui está o amor, a vida,
conforme os leio, isso é o que é, subjetivamente e experimentado por mim mesmo, ter
vinte, trinta, quarenta, cinquenta anos, ser tão velho quanto a minha mãe naquela época,
como os convidados estrangeiros, e todos os adultos que eu vi objetivamente. Não estar
nunca presente: é esta então a vida "real" desta mulher, deste homem, mais vinte anos e
toda a realização estaria feita? Quando então vivemos autenticamente, quando estamos
conscientemente presentes na região de nossos próprios momentos? Mas, tão
intensamente que isso nos agarra, ainda e sempre nos escapa o fugaz, o obscuro de cada
vivido, assim como as profundezas do pensamento.

O que não é mais consciente


Então é somente quando isto já está um pouco perdido que eu consigo ver o que
eu justamente acabo de querer e experimentar. Mas, ao fazê-lo, o olhar que quer e vê é
perpetuamente alterado, seus conteúdos percebidos são apagados e logo não posso mais
possuir, experimentando-o, mesmo o passado imediato.
Porém, o querer que fugiu, o vivido que escapou, não cessa de durar e de agir,
mesmo que não seja mais consciente. Sobretudo nos sonhos, o desejo que desapareceu
do estado de vigília volta, torna-se mais forte, movido, mesmo quando já não se movem
mais, por reminiscências alucinatórias. Como Freud mostrou, elas representam um
desejo que é esquecido, ou insatisfeito ou repelido da consciência pelo ser moral
desperto, adulto. O inconsciente, ao abrir caminho nos sonhos e em muitas psicoses, ao
se tornar capaz de consciência, tem como mola, motor, o instinto sexual, ou a vontade de


1Do original: BLOCH, Ernst. Contribuion à la métaphysique de ce qui en nous est l’obscur le plus
conscient, le non-encore-conscient, le problem inconstructible du nous. In: L’Esprit de l’Utopie. Paris:
Éditions Gallimard, 1977 (p.229-247)

1
poder, ou ainda qualquer outra coisa, não importa em que categoria se classifiquem os
modos em si já herdados, memorizados, ainda específicos à criatura, de nosso
comportamento motor no mundo. Os desejos da infância, todos sabem, geralmente
preenchem o abismo dos nossos sonhos. Graças a isso demonstrou-se que, tanto em
termos do que aí queremos quanto do que aí vemos, nada se aloja nesta região que já não
tenha existido na infância e na pré-história, e depois foi apagado e rechaçado, enterrado.
Podem existir aqui modos de instinto e experiência alojados tão profundamente que não
apenas o instinto sexual, consumindo de sua maneira usual, se dê rédeas soltas, mas não
apenas, segundo Freud, uma regressão radical e até mesmo uma vontade de morrer, uma
tendência para restabelecer o inorgânico e sua inconsciência no organismo estão em ação
aqui; mas que precisamente também um mundo circundante, mesmo um mundo mágico
que escapou, pode se ver novamente em um sonho ou em uma clarividência atávica,
quando nada permanece e suas forças e conteúdos não correspondem mais à nossa
existência. Apenas de tempos em tempos características aparecem nessa lembrança
devido à vontade de alguma forma superior do homem; somente de tempos em tempos a
obscuridade do sonho atinge uma afinidade velada com o segredo do pressentimento
nele expresso, protegido da luz indiscreta; certamente de tempos em tempos reaparecem
também na lembrança os dourados e melancólicos tempos daquilo que já não é mais,
indicando um objeto mais amplo, utópico, essencial, situado no passado do qual o
salvam. Mas normalmente: mergulhar assim na vida subterrânea, que escapou, no seu
próprio sono e todo esse desabrochar inconsciente, no estado de sonolência da natureza,
só proporciona um relaxamento, um desprendimento ou um primeiro refúgio, mas
nenhuma força à nossa medida; pois a alma tem seu próprio impulso longe de toda
criatura, que aloja não apenas uma chama brilhante e ardente, mas também uma pedra
que cai; e precisamente a chama do Sursum corda brilha mais pura no fogo original da
intenção ascendente do que na criatura envergonhada por raízes, pré-histórica, de vários
paganismos, e também da concha ctônica. O próprio sonho noturno, portanto,
geralmente está enraizado em todos os aspectos no passado, decompõe o que no passado
estava presente e o mantém em seus elementos mortos, em seus estereótipos, na
tendência repetitiva de uma simples "natureza". No fim das contas: é uma ciência que só
quer apreender o que está nesse passado e tal como era, que só tem olhos para o
passado, o material, e reduz totalmente qualquer instinto de luz aos antecedentes da
criatura, que perde todo o fluxo utópico vivo e finalmente se fecha em uma mecânica
vazia – uma ciência, assim, desligada e focada em tudo o que não é mais consciente, para
um passado tão bem estabilizado que em última análise nada mais do que pedras rolam
nele.
Os instintos que aqui reaparecem e os dados que se apresentam ficam assim bem
abaixo de nós, já não ficam na nossa altura. Em nenhum caso podemos deduzir a
percepção da cor, a onda de alegria, ou mesmo o melhor, o superior, o puro, o instinto
ascendente, a consciência pessoal. Pelo contrário, é o oposto: o instinto sexual ou o
instinto de autopreservação ou a vontade de poder apenas formam enclaves,
perturbados, mascarados, escravizados, prelúdios automáticos de nossa vontade e de
nosso instinto em sua "autenticidade", sua "correção", sua "humanidade", sua
"espiritualidade". Certamente, no instinto orgânico, tão voraz, envenenado pelo egoísmo

2
e envolto por qualquer desejo que seja, a vontade de retornar já está descoberta, o
instinto plenamente desperto, assim como no sonho-desejo banal pode operar o sonho
do desejo a priori, o sonho acordado. O mito da felicidade e a vontade de alcançá-la é
uma coisa tão trivial que às vezes teme ser sublime: era isso que o alfaiate de Seldwyla e o
cavaleiro de Zendelwald procuravam na lenda de Keller. que na segunda vez, e mais
completamente, também a filha de Martin Salander na história do arco-íris: e nenhuma
reclamação ou circunstância sexual pode esgotá-la. Da mesma forma, o artista criativo
reconhecidamente também se deixa por muito tempo e por associações, ao nascimento
do claro-escuro, aos filhos fantásticos do caos, ao "meio-delírio" ctônico, donde Goethe,
como um homem que desperta mal, desenhou a descrição de sua Viagem no Harz; mas
sendo feito com precisão (ponto rico em ensino), o jogo da imaginação, ainda
embaraçado na criatura e projetando sem regras um meio-dia retrospectivo, nunca deixa
de traçar caminhos mais curtos do que os de qualquer realidade divergente, ou mesmo
aqueles caminhos do sonho acordado autenticamente criativo. Resta, portanto, de modo
geral, que, apesar dos vários prelúdios e enclaves inseridos organicamente, tudo isso
satisfaz esses instintos da criatura, os vários conteúdos de seu mundo perdido e
inautêntico, e também do velho mundo posterior que talvez se torne novo em uma
clarividência atávica – tudo isso representa no máximo figuras para a vontade autêntica e
própria, e para o conteúdo do mundo das realizações que ela considera verdadeiras.
Porém, quanto ao próprio dado psicanalítico: descoberto pelo Eu que dele se desprende,
se desdobra sob ele e aí se desdobra num automatismo abandonado por Deus,
independente do próprio sujeito que experimenta e compreende – não é o mesmo
número, mas um simples diagrama, onde os mortos enterram o que está morto,
prescrevendo suas regras e suas leis.
Segue-se que mesmo essas regras e essas leis, mesmo esse mito secularizado do
destino, isto é, toda a lógica factual do mundo colocada pela psicanálise, está
gradualmente se esvaziando não apenas de substância, mas também de legitimidade
funcional; e aquele pensamento assim, que se tornou, como requerido pela ciência
positiva, independente do sujeito que experimenta e compreende, progressivamente
perde seu objeto correlativo que é geralmente reconhecível e suscetível de conhecimento.
Pois o pensamento psicanalítico certamente quer apreender o que é sem nós e como era,
mas mesmo nisso não se aprofunda e se contenta em manter os princípios, os elementos.
A razão da psicanálise nunca foi mais do que uma imaginação que se tornou sábia às suas
custas; inicialmente com uma estimativa, um tipo ideal dócil às manipulações quando o
mundo dos fatos impõe negligência, correções, reduções às custas da mente. No entanto,
os custos estão começando a tomar proporções tais que a razão psicanalítica é forçada a
se dessecar em um pobre esquematismo, em um reflexivismo que, de seu oposto se torna
totalmente alógico, só dá conta de termos numéricos, em modelos mais ou menos
calcados na economia, e não tem mais força nem ambição de encarar a própria realidade
em seu cinza alógico, na totalidade do vazio que a invade. Se a psicanálise pudesse refletir
seu universo em um espelho, todo esse bloqueio, essa estagnação, essa ausência de fluxo,
esses estereótipos "regulados", essa indiferença mecânica quanto ao valor, o espelho
refletiria – além de algumas raras figuras que, para dizer a verdade, a psicanálise seria
novamente incapaz de compreensão porque sua apercepção pressupõe um sujeito atual e

3
vivo, e uma afinidade com a utopia – refletiria o reino do passado engolfado, da
imanência sufocante, do absoluto esforço desperdiçado (Umsonst) de um mecanismo.

O saber ainda não consciente e o mais profundo espanto


Porém, na simples memória, em qualquer caso, nós próprios não reaparecemos.
Com efeito: vivemos o nosso ser, mas não o "experimentamos", o que nunca se tornou
consciente também não pode se tornar inconsciente. Na medida em que nunca estivemos
presentes conosco mesmos, nem no instante vivido nem imediatamente depois, não
podemos reaparecer "como tais" em nenhuma região de qualquer memória. Porém, o
mesmo não acontece com a esperança que suscita a experiência vivida, e avança por tudo
aquilo que em nós vive como o "mais silencioso", "a mais profunda" nostalgia, e que nos
acompanha como "sonho desperto" de algum desencanto, alguma realização
indescritível, sozinho em nossa medida.
Como crianças já estamos constantemente impacientes, esperando para
finalmente encontrar uma confirmação para nossa expectativa. Resta no ser humano algo
daquele impulso apaixonado e enigmático que no sábado à noite nos fazia pular a cada
campainha externa, como se finalmente fosse a certa. Assim, onde começa uma nova
vida, há um questionamento aberto, essa efervescência, esse desvelamento velado, que
geralmente é a expectativa do que está por vir. Precisamente, bastava que aqui estas
palavras ressoassem para aquele longínqua e, no entanto, muito próxima, lembrança que
nada mais tem a ver com o instinto da criatura e com o mundo superado de que se supõe
decorrer. Que significado ainda guarda aqui a arte de revelar começos? Não contém na
verdade uma ponta de brasa originária que, no amor humano, na criação do gênio,
começa a brilhar por si mesma? A esta altura, o que a vida nos prometeu, queremos
cumprir a promessa: e nunca este “inconsciente” de uma espécie completamente
diferente, esta forma de viver, de esperar, de apresentar-se projetado para a frente, esta
aspiração da obscuridade à clareza, essa essência que não é realmente consciente, sendo o
"inconsciente" do outro lado e das alturas, não é redutível à paisagem lunar do passado.
Na paisagem lunar do sonho normal, ou mesmo ctônico, e seus conteúdos, que formam
ao nosso redor um círculo morto do orgânico, passado, mito do destino, ou mesmo
mecanismo. Ao contrário, o demônio criativo surge por si mesmo; o amor, antes de
tudo, não é um estado orgânico, mas teológico que se encontra em outro plano que não
o instinto da criatura; ainda mais, toda espiritualidade intensa também tem sua própria
fonte viva dentro de nós. Longe dos sonhos puros e simples do espírito orgânico ou
terrestre, longe das incubações ctônicas do passado submerso: e a quem então ela se
reportaria, senão à exaltada e reanimadora serpente revolucionária, ao verdadeiro Deus
profético Apolo: a quem, senão, o espírito messiânico originário do nosso Eu profundo,
de tal forma que cada vez que permite a Eros o desvelamento (não o "disfarce") em
cores, viagens, cerimônias, saudades do país, retorno ao aprisco, misticismo. É
principalmente nos dias de espera quando o iminente invade o presente, na intensidade
da felicidade, e principalmente na música que visa ao longo da nossa existência espiritual
e quer fazer emergir a palavra (este palavra sussurrada todas as noites ao nosso ouvido,
que sempre parece a mesma mas que nunca sabemos compreender), sobretudo, é no

4
trabalho criativo que esta impressionante fronteira se atravessa claramente para o que
ainda não é consciente. Meio dia, claridade interior nascente, labuta, escuridão, quebra do
gelo, um despertar, uma percepção nascente, um estado e um conceito que, na escuridão
do instante vivido, no indizível a priori misturando-se em nós, dentro de nós, chegando a
nós, no fato total de ser-em-existência dentro de si, estão perto de finalmente acender a
violência da luz idêntica, perto de finalmente abrir o pórtico da visão de si mesmo. Assim
como Leibniz mostrou as raízes da alma e assim descobriu, no Sturm und Drang e também
nas sombras da natureza, o fundus animalis das "pequenas percepções", uma filosofia
igualmente utópica do modo de pensar superior ilumina as alturas que começam a
revelar-se à alma envolvida pelo sopro das aberturas, das carreiras místicas e do crescente
brilho do fogo que se eleva do futuro ao inconsciente de uma ordem superior, o fundo
íntimo, a latência, fecunda no presente, do segredo original em si mesmo, em suma, o criador
inconsciente de nosso advento espiritual.
[...]

Novamente o obscuro (o instante vivido) aplicado ao espanto, e


reciprocamente
Como vimos, não temos nada, nem fora nem dentro, para nos agarrarmos com
firmeza. Daí a impressão irreal de que nunca experimentamos de imediato a experiência
vivida, o que não impede que o presente, onde apenas nós "estamos", nos assombre sem
cessar com ressonâncias e aparências.
Observar de onde devemos olhar não é uma tarefa fácil. É um esforço
semelhante, mas ainda mais difícil do que tirar o instantâneo do reino melancólico das
sombras em que o ser está localizado e possuí-lo em uma presença sem véu. Aí não há
nada mais do que uma simples fraqueza: é claro, toda metafísica à parte, muitas pessoas
não sabem como viver, então elas devem se contentar em ver os outros viverem, ou se
compensar em imagens, em informações, experiências que elas próprias nunca teriam
sido capazes de ter e, assim, viver por procuração. Mas aqui se trata da obscuridade do
próprio vivido, e precisamente do vivido em toda a sua força e potência, tão difícil de
agarrar, cuja cortina cai mil vezes sobre a consciência, velando-a por completo. É aqui
que a queixa tem o seu lugar de nunca poder experimentar senão o que já passou, ou
apenas o que está perto de aparecer; em que o segundo ainda permanece pelo menos
bastante próximo do Eu obscuro, enquanto que a própria "vida", entendida como a
soma de seus instantes, se dilui na irrealidade desses instantes. Assim, não temos
absolutamente nenhuma ideia do que "é" ou de quem "somos"; se há algo
fantasmagórico, é aquele que quer representar aquele que representa. Aqui, tudo começa
por se fundir e se entrelaçar no presente que acabamos de experimentar. É apenas, como
vimos, quando mal termina que podemos nos ressentir da experiência vivida e nos
organizar no espaço, na forma intuitiva de sua simultaneidade, tal como de certa forma
saída do fluxo, ainda composto de metade da realidade vivida e metade de uma
justaposição de conteúdos congelados. Se o passado é reconhecido como tal em grande
estilo, como um mundo do não mais consciente, como um mundo independente do
sujeito que experimenta e apreende, ele é objeto da psicanálise, como vimos acima. Na
realidade vivida e semi-ordenada, o espaço como uma forma intuitiva simples de
simultaneidade ainda era um enclave de tempo, rodeado tanto a montante quanto a jusante,
como uma forma intuitiva de vitalidade: a história ainda o mantém um pouco, conhece
uma sucessão, embora simplesmente linear, de unidades atuantes; ao contrário, na física,

5
em cujo modelo a psicanálise forma seus conceitos, os objetos são ordenados em um
campo de a-historicidade tão característico que o próprio tempo não passa de uma
espécie de dimensão espacial. Só a filosofia da história, devolvendo ao passado seu
movimento, excedendo-o utopicamente, devolve ao tempo, a essa forma intuitiva, a essa
esfera onde opera a vitalidade ativa, seu lugar central; e o conceito de esperança, a
filosofia de valores, conhece uma simultaneidade mais pacífica, uma certa "espacialidade"
de montagem, de formas, de categorias, de esferas, todos juntos centrados na verdadeira
simultaneidade, no espaço interior próximo e distante do desvelamento absoluto e
existencial, os únicos capazes de iluminar o presente. Mas o ser, o presente ou a
realização já são tão difíceis de serem vistos como o vivido real, ou de serem abraçados
pela psicanálise, que ninguém é profeta em seu país – cada época se acredita má e
limitada à sua civilização – e também que, para o historiador, a atualização do curso da
história, seu decrescendo na "atualidade" no sistema da história, é tão dolorosa, sem que
seu sentido político precise ser apreendido com seu significado histórico. Então, o que há
entre a lembrança e a profecia? Nós, este meio de tempo que avança e flutua, no qual nos
encontramos a cada momento vivido, somos a sombra, o germe oculto, a aventura fugaz
e parcial da consciência, como realidade vivida, simples estado afetivo cego e indireto,
imersa em si mesma, uma ilha escura, na qual, no entanto, parece ter escondido todo o
impulso que põe o mundo em movimento. Assim como aí se esconde, quando esse
movimento por si mesmo para, fica suspenso, enfim, quando cessa, o estado de ser
propriamente dito, a realidade e a lógica do próprio mundo. Mas a auto-intuição do Eu é
um problema pela única razão de que, até o momento do processo, do "processo-do-
mundo", do processo de projeção e objetivação por excelência, nenhum face a face
consigo mesmo, nenhuma projeção-de-si-para-além-de-si, nenhum encontro consigo
mesmo ou reflexão total de qualquer momento vivido, tiveram sucesso: nem o teve
qualquer concentração da simples semi-consciência até a identificação com o ser-eu, até a
adesão ao ser em geral.
Compreende-se assim que mesmo dizer “somos seres humanos”, é expor nada
mais que uma forma inautêntica, que é preciso ser tomada como bastante provisória.
Não temos nenhum órgão para apreender o Eu ou o Nós, pelo contrário nos colocamos
na tarefa cega, na obscuridade do instante vivido, cuja escuridão é em última instância a
nossa própria escuridão, nosso ser-desconhecido, ser mascarado, ser não encontrado. Tudo o
que aí se dilui vem do estado atual do sujeito, em função de uma consciência ainda
dispersa, sem unidade nem centro, embora nunca abdique. Mas essa consciência tem ou
uma ação indireta pontual, como a instantaneidade propriamente dita, ou, quando quer
se aproximar mais da existência do ser, uma ação indireta espacial, esférica; tanto que, em
princípio, a consciência do sujeito disperso só alcança o passado e suas leis, sem jamais
poder mover-se para o futuro móvel ou mesmo para o grande presente, tornando-o real
tanto quanto encontrando o que se torna real. Mas certamente – e isto é capital – o futuro, o
topos do desconhecido que aí se aloja, onde só nós aparecemos, onde apenas também faísca,
nova e profunda, a função da esperança, sem a intervenção vã de alguma anamnese –
este próprio futuro nada mais é do que o alargamento da nossa obscuridade, nada mais
do que a nossa obscuridade gerando o que é grande, aumentando a sua latência. Reina aqui, como
em todos os objetos do mundo, no "nada" em torno do qual são construídos, essa meia-
luz, essa latência, esse espanto essencial onde a distância e, no entanto, a maravilhosa
"presença" das sementes de ouro encerrado, encerrado em folhas, animais, pedaços de
basalto; é precisamente por isso que a coisa em si está acima de tudo no que ainda não é, o que cresce no
presente obscuro, no desconhecido, no seio dos objetos. E também Deus não tem apenas de nos
aparecer um pouco que seja para ser, para que todo o processo do mundo se reduza,
visão eleata, a uma relação de movimento entre duas realidades "separadas"; pelo
contrário, porque é o problema do radicalmente novo, da libertação absoluta, do

6
fenômeno da nossa liberdade e da nossa verdadeira capacidade, o próprio Deus também
se possui em nós apenas como um acontecimento fantasmagórico, objetivamente não
acontecido, como uma conjunção do obscuro do instante vivido e do símbolo inacabado
em que a questão absoluta se dá. Quer dizer: o último deus, autêntico, desconhecido,
além de todos os outros, o de nosso desvelamento total "vive" já desde o presente,
embora não seja nem "coroado" nem objetivo; ele "chora", como alguns rabinos
disseram do Messias a quem foi perguntado o que ele estava fazendo, ele grita que não
pode "aparecer" ou salvar; ele é aquele que, no fundo de nós mesmos, diz "Eu sou aquele
que serei": em toda aquela "escuridão do deus vivido", como escuridão antes de sua
possessão, antes de seu rosto finalmente exposto, antes a saída do exílio da verdadeira
essência.
Então parece, e até se torna certo, que a esperança é precisamente aquela através
da qual o obscuro se ilumina. A esperança se aloja na própria obscuridade, participa de
sua opacidade, assim como a obscuridade e o segredo sempre estiveram relacionados; ela
ameaça desaparecer se ficar muito perto, muito reto, nesta escuridão. Inundados de
esperança e espanto, começamos a tremer e as pessoas costumam dizer que neste
momento um homem está passando por cima de nosso futuro túmulo; mas de fato, na
medida em que aí vivemos a questão pura, uma palavra então se aproxima do foco mais
íntimo de nosso ser e de todos, uma palavra passa sobre nosso Eu último. Então, a
obscuridade da proximidade certamente reforça ainda mais a do segredo, que de fato não
pareceria tão obscuro se não fosse a obscuridade da proximidade em si: é assim que
Epimeteu "sonha" na Pandora de Goethe, ele quase não vê mais, e não reconhece mais na
esperança, Elpore, o incontestado sim, se chegar perto demais dela; e é apenas a alguma
distância que o insensível se torna audível, a iluminação do in aeternum non confundar. Mas
precisamente o segredo nunca é mergulhado na obscuridade total, é antes chamado para
dissipá-lo; é assim que a obscuridade do instante vivido desperta por ressonância ao espanto que nos
inunda, é assim que a sua latência se transforma em "visibilidade" nascente, em gozo e
profusão do encontro do Nós. Os múltiplos signos marcam assim a correlação recíproca
entre o obscuro e o espanto da questão pura: é antes de tudo negativa, na medida em que
nenhum dos dois expõe não só formalmente o Novum em si no mundo, mas também
visam materialmente o mesmo Nós, e têm a mesma relação objetal com a subjetividade a
ser desenterrada e com nosso incógnito moral-místico. A escuridão do instante vivido e a
essência da questão inconstrutível se aproximam tanto que precisamente as intenções
simbólicas mais centrais permanecem meio invisíveis, participando da brusquidão do
ângulo de visão atual, exatamente como ele são também capazes, para quem está
fascinado e espantado pela latência em nós muito próximos, de marcar pelo menos no
todo a direção a seguir, a direção da "palavra-de-existência" tocando o centro, da senha
para a descoberta dos nós. Assim se prepara o caminho para a resposta final do único
tema, que nos alimenta, nos ressuscita e se recita, para uma memória vivida plenamente,
apropriada ao seu âmago, para uma presença intensamente objetivada, com esplendor , a
pessoa e a questão que este emergindo.
Também a esperança evocada é mantida resolutamente; partindo do presente e
de sua obscuridade, ela se eleva diretamente sobre si mesma. Só assim o pensamento do
coração projeta a sua clareza perante o país deslumbrante que somos todos nós, onde
progredimos, onde partimos decididamente, à chamada da nossa chegada, da nossa
palavra-chave. Este não é um simples caminho novo em meio ao velho, no sólido real;
pelo contrário, a própria realidade se divide profundamente na direção de seu centro
último, onde o fundus intimus finalmente aparece; e como no conto e no épico
desaparecido, o homem novamente, com infinitamente mais força do que ele mesmo, vai
em direção ao mundo desconhecido, em direção à aventura de um espaço espiritual que
se estende até seu fim ignorado. Mas com mais razão ainda o saber filosófico aqui

7
visualizado é a lâmpada que se metamorfoseia em diamantes, a chegada do ministro às
prisões do demiúrgico Pizarro2. É a ação da grande obra, o elixir da vida, a palavra
salvadora; é um idealismo mágico baseado no sonho verdadeiro latente em tudo, na
questão inconstrutível e na sua coisa em si: saber que isso é o que ainda não é, o futuro
último, a presença finalmente autêntica, o problema do Eu alojado na existência, a ainda
desconhecida e inacabada utopia. Mais uma vez, o pensamento filosófico mostra-se
atraído pelo mito, não aquele que foi usado até agora, mas aquele que antecedeu a grande
virada, esse mito da utopia que, desde os tempos antigos, agitou fundamentalmente tanto
judeus como filósofos, e que só poderia sempre fazer suspeitar, com qualquer teologia do
ser feito, completo, representável, esses preocupados adoradores do deus invisível, o
absoluto sem mistura. Quem quiser rastrear a verdade deve entrar neste reino do único,
mas não como se, para cada objeto, uma gaveta secreta ainda tivesse que esconder
documentos e desdobramentos pomposos, como nos tempos antigos quando se
acompanhava tudo no fundo – deuses, céus, poderes, magnificências, tronos – de um
véu gigantesco que lhe era considerado essencial. Pelo contrário, foi dormindo, sem
barulho, que Ulisses chegou a Ítaca, é justamente a Ítaca que chegou dormindo, esse
Ulisses que se chama Ninguém; uma Ítaca que poderia estar precisamente relacionada
com a maneira como o cachimbo é colocado aqui, ou da qual de repente um objeto
insignificante é dado, a ponto de você perder seu coração e finalmente aparecer o que
sempre pensamos ver. Com uma tal força, tal evidência imediata, que se dá um salto sem
limites para o que ainda não é consciente, para o que é mais profundamente idêntico,
para a verdade e a palavra-chave das coisas; e que, com a súbita intenção significante final
do observador, ao mesmo tempo emerge do objeto a face daquilo que ainda não tem
nome, o elemento da etapa final, consagrado no mundo, que nunca mais o deixa.


2 Alusão a Fidélio de Beethoven.