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A PROPRIEDADE PRIVADA

A livre iniciativa e a propriedade privada se tratam de princípios e direitos basilares para


a liberdade do exercício de quaisquer atividades económicas lícitas, desenvolvidas no
país, bem como a troca de energia humana para o conforto e justiça social.1

Tratar do tema propriedade é estar sujeito à diversos riscos culturais. O termo


propriedade é plurívoco, sendo um verdadeiro locus retórico que evoca uma miríade de
doutrinas, ideologias, concepções e tradições históricas diferentes.

Um primeiro risco cultural é adoptar uma visão histórica ligada à tradição da


modernidade, limitada a uma concepção individualista e potestativa da relação entre os
homens e os bens.

Um segundo risco, decorrente do primeiro é a “absolutização” da ideia de propriedade


nos moldes em que foi pensada na modernidade. Nesse viés, a propriedade acaba por ser
entendida como uma construção praticamente imutável e estática, o que implica
eliminar a historicidade própria do conceito. A doutrina jurídica tem sido utilizada para
fundamentar esta noção absoluta. Destaque-se, por exemplo, a doutrina do direito
natural, que vislumbra a propriedade como anterior ao Estado e como um direito
inalienável, intrínseco à própria humanidade. Nesse sentido, cumpre trazer a lúcida lição
de Sérgio Said Staut Jr: “A concepção individualista e potestativa de propriedade é
absolutizada e imunizada de qualquer reflexão crítica. A forte propaganda
revolucionária burguesa conseguiu naturalizar o que em realidade é histórico”.

Comece por se dizer que a noção de direito de propriedade privada, em abstrato, designa
num primeiro momento “uma relação privada de uma pessoa ou entidade com
determinados bens”, de que resulta para os demais consociados, num segundo momento
ou dimensão, um dever de abstenção ou de não perturbação, uma obrigação universal
de respeito.

Refira-se ainda que o direito de propriedade privada é também um princípio objectivo


da organização económica, reconduzindo-se (tal como as liberdades de profissão e de
empresa) ao valor da liberdade económica enquanto decisão constitucional fundamental
ou prévia. Na verdade, a garantia deste direito fundamental implica desde logo a
consagração no texto constitucional de um modelo de economia de mercado (ainda que
social) e de livre circulação dos factores de produção, em contraposição ao modelo de
direção central e planificada da economia — modelo de economia de mercado esse que
confere aos privados a primazia no que respeita à apropriação, uso, frutificação e livre
disposição de bens patrimoniais.

Como direito económico, o direito de propriedade abrange os meios de produção ainda


que a Constituição(CRA) estabeleça, quanto a estes, algumas especificidades
relativamente a propriedade dos bens em geral. De facto, o direito de propriedade
privada não é reconhecido como um direito absoluto podendo ser objecto de limitações
ou restrições, as quais se relacionam com princípios gerais de direito( função social da
propriedade, abuso de direito), com razões de utilidade pública ou com a necessidade de
conferir a eficácia a outros princípios ou normas constitucionais incluindo outros
1
Anderson Bastos, Livre iniciativa, propriedade... o trinômio econômico do Estado.
direitos económicos ou sociais e as disposições da organização económica tal qual ela é
conformada na Constituição.

A propriedade privada ou o Direito de propriedade privada apresenta determinados


componentes que poderão caracterizá-lo, sendo estes os seguintes:

- O direito de a adquirir, ou seja, o direito de acesso à propriedade;


- O direito de usar e fruir dos bens de que se é proprietário;
- A liberdade de transmissão, isto é, o direito de não ser impedido de transmitir a
propriedade, por vida ou por morte;
- O direito de não ser privado dela.

Livre iniciativa económica

A livre de iniciativa económica tem a ver com o livre exercício da atividade económica .
Esta liberdade de iniciativa económica decorre de um primado de liberdade, que
permite a todo agente económico, público ou privado, pessoa física ou jurídica, exercer
livremente, nos termos das leis, atividade económica em sentido amplo. Parte de um
conceito de liberdade de exercício da profissão, para trabalhadores, e da liberdade do
exercício de uma atividade económica , para empresas.

A livre de iniciativa económica relaciona-se intimamente com a liberdade, permitindo o


exercício da atividade económica de forma livre. Todavia, essa liberdade deve ser
garantida em consonância com a livre concorrência, ou seja, deve-se relacionar a
liberdade propriamente dita, com a isonomia necessária para que se evitem formação de
cartéis ou monopólios, reprimindo, desta forma, o abuso do poder económico, para que
o mercado não seja dominado por uma ou poucas pessoas, em prejuízo ao próprio
Estado e à sociedade em geral.

Para se ter uma noção mais abrangente acerca da livre iniciativa, compete neste
momento, trazer ao trabalho a conceituação do termo, o que é feito por Maitê Cecília
Fabbri Moro:

Consoante ensinamento que encontra maior respaldo a nível Constitucional, a liberdade


de iniciativa, como valor de um Estado Democrático de Direito, deve ser entendida de
forma ampla, não somente na seara económica. Há, igualmente, de ser compreendida
como vector interpretativo das demais normas sobre a Economia. A nível dessa escolha
constitucional, depreende-se que a opção foi pelo modelo económico capitalista de
mercado.

A liberdade de iniciativa, além de merecer a ponderação perante os demais princípios, é


afetada por algumas regras, que lhe impõem excepções. Trata-se, aqui, basicamente, dos
casos de prestação de alguns serviços, caracterizados como públicos, dos casos de
monopólio (que incidem nas atividades económicas em sentido estrito) e, ainda, dos
casos de regulamentação normativa de determinadas atividades económicas.
RELAÇÃO ENTRE PROPRIEDADE PRIVADA E LIVRE INICIATIVA

A análise da relação existente entre a livre iniciativa económica e a propriedade privada.


De início, é realizada uma abordagem geral sobre a propriedade privada interligando os
conceitos. Examina-se, em seguida, a livre iniciativa económica privada, abordando
noções de atividade económica. E, de facto, é o que acima já foi abordado.

Por conseguinte, na intenção de relacionar estas duas figuras vamos fazê-lo com base
em critérios de diferenciação facilmente obtidos através da análise da abordagem inicial
e individualizada que foi feita das duas figuras.

QUANTO A NATUREZA

Ficou claramente evidente que, tanto a propriedade privada bem como a livre iniciativa
afiguram-se como princípios fundamentais e estruturantes de qualquer ordem
económica assente num sistema económico de Economia de mercado ou Capitalista. O
que faz então com que estes sejam princípios basilares de ordem económica interligados
entre si e coexistindo para a maior e melhor dinâmica da atividade económica.

QUANTO AO SEU VALOR

Aqui não falamos do valor pecuniário destas figuras, o que logicamente não se concebe,
não falamos também do seu valor ideológico, mas sim o valor de liberdade que destas
figuras advêm. A liberdade é um factor determinante de toda e qualquer ordem jurídica
justa, não estando isenta, logicamente, a ordem económica. Este valor de liberdade
surge da atribuição a propriedade privada e a livre iniciativa como tendo uma natureza
de princípios fundamentais, conforme aponta o primeiro critério.

ENQUANTO CRITÉRIO DE ORGANIZAÇÃO

É uma verdade la palice que, tanto a propriedade privada quanto a livre inciativa
apresentam-se como um princípio objectivo da organização económica. Na medida em
que eles modelam e estruturam a ordem económica estadual ou interna, também
legitimam ou configuram o modo de intervenção e até mesmo o modo de regulação da
atividade económica bem como dos agentes económicos. Logo, estas duas figuras
também comungam neste sentido.

QUANTO AO RECONHECIMENTO CONSTITUCIONAL

Neste prisma não será diferente, na medida em que tanto a propriedade privada bem
como a livre iniciativa relacionam-se ou comungam na medida em que as duas figuras
têm uma ampla aceitação a nível Constitucional, sendo mesmo matéria com dignidade
ou reconhecimento constitucional. Visto que o conceito Constitucional de propriedade
privada engloba em geral todos os direitos subjectivos de conteúdo patrimonial estes só
são exercidos por meio da livre iniciativa económica. E a garantia destes princípios que
também podem ser vertidos em direito e também plasmada na Constituição.

QUANTO AS RESTRIÇÕES

Neste último ponto, a propriedade privada e a livre iniciativa comungam no sentido de


que ambas não são direitos absolutos, o seu exercício vê-se restrito ou limitado em
determinadas circunstâncias. Mas, tais circunstâncias só podem ser definidas por lei.
Ficando assim evidente que qualquer limitação ou restrição a estes só se legitima
quando por lei e consagrada.

BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

Prata, Helena, Lições de Direito Económico, Luanda: Casa das ideias, 2008

Amorin, João Pacheco, Direito de propriedade privada e garantia constitucional da


propriedade dos meios de produção, FDUC
Matias∗, João Luis Nogueira e Rocha, Afonso de Paula Pinheiro ,Repensando o direito
de propriedade-
Santos,António Carlos dos, Gonçalves, Maria Eduarda e Marques, Maria Manuel
Leitão, Direito Económico, Coimbra: Almedina, 5ª ed.,2004

Castro, Aldo Aranha de e, Genovez, Simone -A APLICABILIDADE DOS


PRINCÍPIOS DA LIVRE INICIATIVA E DA LIVRE CONCORRÊNCIA COM VISTAS
AO DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

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