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O AGENTE ECONÔMICO REFLEXIVO

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UM N O V O D E S A F I O P A R A A P S IC O L O G IA O R G A N I ZA C I O N A L

SIGMAR MALVEZZI
P H D P S I C O L O G I A O R G A N I Z A C IO N A L , L A NC A S T E R U N I V E RS I T Y
PESQUISADOR EM PSICOLOGIA DO TRABALHO
Professor no Brasil das Universidades:
Pontificia Universidade Católica de São Paulo PUC-SP
Fundação Getulio Vargas FGV - SP
Universidade de São Paulo USP-Sp

Dentre as mudanças que circulam, compõem e transformam a sociedade atual, a


profissionalização é uma das mais problemáticas. Impondo um redirecionamento
radical na capacitação dos indivíduos, a re-profissionalização altera a
probabilidade de êxito de seu desempenho profissional que é uma condição
básica da sobrevivência e realização pessoal. A reprofissionalização é produto da
metamorfose das empresas que substituem as estruturas, a engenharia de tarefas
e manuais pelo trabalho "just-in-time" em equipes flexíveis, autônomas,
interdependentes e polivalentes. A origem dessa metamorfose é competitividade
sanguinária, desencadeada e exponenciada pelo processo de globalização da
sociedade. Operando num ambiente globalizado, a empresa enfrenta a adaptação
como rotina, reagindo através da crescente flexibilidade. A empresa flexível
funciona através das decisões de muitos indivíduos; ou seja, da descentralização
porque seus problemas exigem diagnósticos constantes e os manuais não podem
prever todas as alternativas possíveis num mundo de imprevistos. Qual é o
profissional requerido pela empresa flexível? Quais são os insumos de trabalho
desse profissional? Responder a essas questões é o objetivo deste ensaio sobre a
re-institucionalização do trabalho na forma do agente econômico reflexivo - a
forma de trabalho profissional esperada pela sociedade no século XXI.

A GLOBALIZAÇÃO

A origem destas mudanças está no fenômeno da globalização, um processo


complexo e multifacetado, potencializado pela rápida e generalizada substituição
da tecnologia eletro-mecânica pela tecnologia da teleinformação. É uma nova
sociedade (pós-moderna) que emerge da sociedade moderna. A globalização é
um fenômeno múltiplo decorrente da alteração de cinco pilares básicos da
articulação dos negócios, da sociedade e da cultura. Um primeiro pilar é a
compressão do espaço e do tempo (o aspecto ontológico da globalização). A
generalizada incorporação da teleinformação em todas as atividades está
mudando os padrões de espaço sob pontos de vista: (1) o espaço muda enquanto
distância porque permite que as pessoas e instituições conduzam eventos a
1
Texto utilizado por el autor en cursos de la Especialización en procesos Psicosociales para la Efectividad
Organizacional y de la Maestría en Psicología: Psicología Organizacional y del Trabajo. Instituto de Psicología
– Universidad del Valle. Colombia. 2001–2004. Del Original MALVEZZI, S. El agente económico reflexivo.
Desarrollo y Capacitación, Buenos Aires, v. 49, p. 16-19, 1999.
milhares de quilômetros de distância como se estivessem presentes a eles; e (2) o
espaço muda enquanto lugar porque a reprodução de documentos e textos em
discos compactos ou disquetes permite que uma área, hoje, ocupada por um
metro cúbico de dados possa ser contida em um disquete que ocupa um espaço
desprezível. Um segundo pilar da sociedade alterado pela globalização é a
possibilidade de rápida incorporação de capital financeiro e tecnologia aos
negócios dificultando o controle sobre as regras do jogo comercial e,
consequentemente, a estabilidade da empresa com influência direta na
competitividade (o aspecto econômico da globalização).

O terceiro pilar é a imprevisibilidade de acontecimentos políticos, sociais e


culturais sobre os negócios, limitando a possibilidade de planejamento. Mais e
mais freqüentemente, os profissionais envolvidos nos negócios enfrentam fatos
emergentes. (o aspecto sociológico da globalização)que os obrigam a reavaliar a
situação e redirecionar suas ações. A vida profissional exige conhecimentos
generalizados, para se dar conta dos imprevistos. O quarto pilar (o aspecto
antropológico) pode ser resumido no contínuo bombardeio de significantes sobre
os sujeitos e objetos, mudando seu significado, valor e sua utilidade funcional.
Esta possibilidade complica a relação do indivíduo com o trabalho, porque limita a
autonomia da subjetividade humana. É comum os profissionais encontrarem-se
sufocados por muitas informações que veiculam novos valores e significados aos
objetos e pessoas. É a importância do capital simbólico na sociedade atual.
Finalmente, a possibilidade real de se experimentar e viver diferentes identidades
(o sentido psicológico da globalização), complica o relacionamento social e
profissional e o investimento numa identidade profissional.

Desafiadas por alterações tão significativas nos negócios, as empresas estão


sendo forçadas a rever sua forma de ser e de atuar. De um modelo análogo ao
funcionamento de uma orquestra, na qual todos têm uma partitura que direciona
seu trabalho sob a busca de sinergia por parte do maestro (na empresa, por parte
do gerente), a empresa está sendo redesenhada para um modelo mais similar ao
jogo de basquetebol, no qual não há partituras, mas apenas diretrizes dadas pelo
treinador. Os jogadores criam suas tarefas durante o próprio jogo. Por esse
motivo, para se compreender o funcionamento dos negócios na sociedade
globalizada e o profissional que atua nela, impõe-se o exame dos efeitos da
globalização na empresa.

EFEITOS DA GLOBALIZAÇÃO NA EMPRESA

Se a regra é a convivência com eventos imprevisíveis que podem alterar as


variáveis do jogo durante o próprio jogo, através da incorporação de capital
financeiro e do conhecimento aos negócios, a burocracia perde sua força, porque
é um instrumento de controle eficaz num ambiente estável que pressupõe e
valoriza o funcionamento regularizado dos processos. Diante de um ambiente em
significativa mutação, não é possível manter o funcionamento regular dos
processos sem riscos de sobrevivência. A empresa perderia sua capacidade de
adaptação, e portanto, teria seus riscos aumentados. Esse fato explica a
desagregação da estrutura burocrática e o enfraquecimento dos instrumentos
tradicionais de autoridade gerencial. A empresa não somente não necessita mais
de burocracia, como esta a impede de desenvolver a flexibilidade. Outra
conseqüência importante da globalização na condução dos negócios é a
necessidade compulsória de automação como forma singular de economia de
recursos. A automação diminui o número de procedimentos, o tempo de produção
e as pessoas envolvidas. Além disso, a automação regulariza o processo como
também diminui os erros. Com tais predicados, a automação funciona como um
fator vital para a competitividade porque afeta diretamente duas das mais
importantes variáveis das relações comerciais que são os custos e a rapidez dos
negócios.

Afetadas por sua porosidade para receber capital e tecnologia num mundo que
muda seus valores pelo manejo do capital simbólico através do bombardeio de
significantes, as atividades econômicas ocorrem dentro de um contexto que
agrega diversidade à sua articulação. Como se sabe, as variáveis do mercado são
dependentes da estrutura política, social e institucional, por esse motivo os
negócios ganham complexidade, incerteza e ambigüidade, gerando problemas
como a dificuldade de medição dos preços, até a distinção entre risco e
oportunidade. A evolução econômica e a inversão em técnica e pessoal depende
do acesso a múltiplas fontes de informação e à atualização do conhecimento. Hoje
se vive e se trabalha em uma sociedade na qual a inserção nas redes de
informação diferencia o desempenho do agente econômico, assim como o
conhecimento é a principal fronteira entre as empresas. Na era da globalização, a
eficácia de uma empresa depende de seu capital intelectual e de seu capital
social. O primeiro é o conhecimento disponível na empresa, a velocidade de sua
combinação em sistemas mais complexos e o modo de sua utilização para
agregar valor aos negócios. O segundo é o acesso permanente a fontes de
informação e a propriedade compartilhada de informações.

Tais condições exigem decisões artesanais que é o trabalho do agente econômico


reflexivo. Este atua dentro de um sistema gerencial que é menos fundamentado
na autoridade e a hierarquia e muito mais na criação e coordenação das
competências requeridas para a transformação de necessidades , expectativas e
valores em qualidade dos produtos e serviços. A criação dessas competências é
possível através do manejo do capital intelectual e do capital social. Dessa forma,
esse agente tem, através da combinação desses dois recursos, um instrumento de
poder mais eficaz que os instrumentos da autoridade porque é mais voltado para a
criação do que para a punição e o controle.

A GESTÃO POR COORDENAÇÃO DE COMPETÊNCIAS

A criação e coordenação de capacidades de transformação é a forma de gerência


da empresa flexível. Julgar uma batalha na qual os papéis mudam durante o jogo
é uma situação que no permite estruturas e tarefas fixas. Assim é a condução dos
negócios hoje. A alteração de uma variável no contexto pode inviabilizar um plano
que marchava bem até o momento anterior a essa mudança. Por isso a gestão da
empresa atual é uma atividade mais dependente de diagnósticos e avaliações que
de uma estrutura e papéis fixos. Equipes dinâmicas e integradas ajudam mais
uma empresa que uma estrutura de níveis hierárquicos. A empresa é chamada a
recriar sua capacitação para manejar o negócio nas condições do cenário num
particular momento e prever o controle sobre os momentos seguintes desse
cenário ou dentro de um cenário distinto. Portanto, administrar é o manejo das
capacidades das pessoas para formar comunidades de ação, capaz de aprender o
cenário de um particular momento e re-ler os processos envolvidos no problema
para se dar o passo seguinte com mais certezas. Essa condição de uma equipe
provém de sua natureza de comunidade de ação. Comunidade significa
integração, compromisso e aprendizagem. A equipe de trabalho é construída
através da contínua aprendizagem organizacional, ou a aquisição e socialização
do conhecimento através dos indivíduos e sua conseqüente transformação em
standards coletivos de desempenho. Na empresa o importante não é ter
indivíduos que aprendem mas grupos que absorvem o conhecimento, o
incorporam, e o transformam em conduta coletiva.

Assim compreendida, a comunidade de ação demanda igualmente o


compartilhamento da responsabilidade sobre a análise estratégica e sobre os
resultados (participação). Todos acompanham os passos de cada um e conhecem
o motivo da ação do outro. Cada um recebe “inputs” do todo e o todo recebe de
cada um. La comunidade de ação depende também da atenção dirigida para o
objetivo como um valor prioritário em suas atividades, o qual, em outras palavras,
depende do compromisso, como combustível da ação. O desenvolvimento do
compromisso provém de uma relação de reciprocidade entre o empenho do
indivíduo na realização dos objetivos do grupo (neste caso, da empresa)
(empresabilidade) e o empenho da empresa na realização pessoal e profissional
dos indivíduos (empregabilidade). Do ponto de vista da gestão de recursos
humanos, a coordenação de competências é a criação do sujeito coletivo através
da articulação dos agentes econômicos reflexivos comprometidos com a
realização dos resultados recíprocos e em comum com a empresa. Em poucas
palavras, é a contínua reconstrução da comunidade de ação capacitando-a para
seu autodesenvolvimento partir do manejo do seu capital social e capital
intelectual dentro de relações de reciprocidade com a empresa. É um trabalho de
ajuste do processo de transformação do produto ou serviço, por parte das
mesmas equipes, para operar de forma otimizada no cenário dos negócios.

Num mundo caracterizado pela diversidade, ambigüidade, incerteza e


complexidade, o fluxo de transformação dos produtos ou serviços é criado como
algo aqui e agora pela comunidade de ação. O profissional que trabalha nesse
jogo é o agente econômico reflexivo que é o profissional que busca agregar valor
a seu trabalho através ¿?. Como esta forma de trabalho está ficando mais
freqüente, se pode dizer que estamos reinstitucionalizando o trabalho. Até a
industrialização a forma predominante de trabalho era a artesanal. O artesão era
um trabalhador que necessitava de habilidades motoras e criatividade. As
indústrias transformaram os artesãos em operários e ??. Aqueles eram
trabalhadores que necessitavam somente das habilidades motoras e estes do
conhecimento da produção e do manejo das pessoas. Na era da empresa flexível
o operário e o supervisor estão sendo empregados pelo empreendedor que é o
agente econômico reflexivo.

O TRABALHO DO AGENTE ECONÔMICO REFLEXIVO

O agente econômico reflexivo é o profissional que atua através da reflexão. Se


pressupõe nele, a capacidade para identificar e desenvolver recursos e os
coordenar para a produção de um fim, dentro de condições de incerteza e
ambigüidade. Ele trabalha numa relação de sujeito para sujeito, atuando mais
como facilitador que como negociador. É um profissional que tem a crítica e a
hermenêutica como suas principais ferramentas. Ele é um agente que assume o
papel social de criar valor econômico mas trabalhando independentemente de
estruturas e manuais tendo como principal ferramenta sua reflexão. Esse trabalho
é alimentado por alguns insulso que indicam suas principais atividades para
produzir reflexões.

O primeiro “input” é a busca do consenso; uma conseqüência das condições de


complexidade, incerteza e ambigüidade. É difícil ter certezas. Para criar
competências, o profissional necessita de integrar suas percepções às percepções
dos outros, fazer seus argumentos conhecidos, assim como conhecer os
argumentos dos outros. Isto significa buscar a validação de sua percepção através
da busca do consenso sobre a organização dos negócios. O segundo “input” é a
valorização da crítica como instrumento de busca da certeza. A crítica evidencia
aspectos que podem ser fracos e que necessitam melhor articulação. A crítica ao
status quo, como fonte de energização da equipe. Um terceiro “input” é
benchmarking. O agente econômico reflexivo depende do conhecimento e
comparação para competir com padrões de excelência. Para tanto ele considera
as diferentes possibilidades trazidas pela diversidade e os possíveis referenciais
para compreender a situação frente a valores e parâmetros distintos. Uma
situação complexa pode ser organizada de diferentes maneiras através de
diferentes sentidos. O agente reflexivo não pode limitar-se a um só sentido porque
ele limita seu acesso às potencialidades da situação. O agente econômico atua
preocupado com seus referenciais, é crítico deles e busca ampliá-los. Um outro
“input” relacionado a este é a elaboração de cenários. Como o ambiente é incerto
e ambíguo, o agente econômico reflexivo trabalha considerando diferentes
cenários. Ele necessita conhecer como os eventos impactam. uns sobre os outros
e qual é a dinâmica que esse impacto cria no todo. O agente maneja a cadeia de
eventos que funciona dentro de regras que só são conhecidas a partir do cenário.

Um outro “input” que o agente necessita é o conhecimento do funcionamento das


variáveis independentes e a forma como os mediadores atuam sobre elas. Isso
exige atenção aos incidentes, como forma de identificação de um mediador que
mudou a rotina e gerou outro resultado para a variável independente. Finalmente,
todos sabem que nenhuma pessoa trabalha bem em um ambiente de incertezas e
ambigüidades sem o feed back. O agente econômico reflexivo necessita da
valorização das competências que sua articulação promoveu na produção e os
valores que seu trabalho acrescentou. ao resultado. Como seu trabalho não é
isolado, mas uma comunidade de ação, a partir da criação de conhecimentos
entre seres hermenêuticos, ávidos de realização pessoal e profissional, o critério
de valorização leva em conta esses três elementos. Assim, se o conhecimento
cresce, os indivíduos devem crescer em realização pessoal e a empresa na
transformação.. Essa ponte entre uso e acumulação de conhecimento garante que
o processo sofrerá menos as incertezas internas por parte dos indivíduos que o
compõem. Por isso, o agente econômico no conclui um trabalho sem a valorização
das competências criadas e as possibilidades no aproveitadas de construção de
outras.

A empresa vive dentro de um ambiente de muitas mudanças. Ela não pode mais
contar com a força da estrutura e da burocracia. O caminho para ela é a reflexão.
Refletir sobre esta nova forma de trabalho que tem potencialidade para resgatar a
condição de sujeito que foi tirada do operário é a mais importante missão para os
profissionais de recursos humanos nesta década.

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