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EAD

SOCIEDADE BRASILEIRA

Profª Lis Furlani Blanco


Reformulação Profª Patrícia Alves de Cerqueira
SOCIEDADE BRASILEIRA

Profª Lis Furlani Blanco


Reformulação Profª Patrícia Alves de Cerqueira
UNIDADE 01 - ESTRANHAMENTO E DESNATURALIZAÇÃO DA
REALIDADE

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Promover uma primeira reflexão e sensibilização em relação ao


pensamento sociológico, isto é, estimular o pensar sociológico de nossa realidade.
Pensar a realidade de forma sociológica é fazer uma análise da sociedade
de forma crítica, que questione o senso comum tão difundido em nossa sociedade.
Mas o que seria então o senso comum? Como diferenciar o senso comum de um
olhar sociológico e a partir desse novo olhar, compreender a nossa realidade?
Ao vivermos em sociedade, costumamos olhar para o ambiente ao nosso
redor e as pessoas que estão a nossa volta de forma natural, isto é, encarando as
relações entre as pessoas, e entre estas e o ambiente, como algo que sempre foi
assim e sempre será. Damos explicações aos fatos que acontecem em nossa
sociedade que são baseadas em nossas pré-noções, fazendo juízos de valor de tudo
o que acontece. Entretanto, para desenvolver uma análise sociológica da realidade,
é preciso mudar esse olhar já acostumado que temos.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O conjunto mais alargado de crenças que uma comunidade tem por


verdadeiras e partilha durante certo período de tempo. O senso comum
é um "saber" que resulta da experiência de vida individual e coletiva. Os
hábitos e costumes, as tradições e rituais, os "ditos" e provérbios, as
opiniões populares, etc., são habitualmente referidos como
manifestações do senso comum. A sua aprendizagem é uma condição
necessária para a socialização de cada membro da comunidade,
funcionando como um mecanismo regulador do seu pensamento e da
sua AÇÃO. Do ponto de vista da CIÊNCIA e da FILOSOFIA, os processos
de justificação das crenças de senso comum afiguram-se muitíssimo
superficiais e falíveis, e é freqüente tais crenças resistirem mal a um exame
crítico mais minucioso, pelo que a sua ampla aceitação não é uma
garantia de que sejam verdadeiras. (Dicionário Online de Filosofia –
disponível em: http://www.defnarede.com/s.html)
Ao observarmos a definição do dicionário de filosofia sobre senso comum,
percebemos que o senso comum apesar de ser condição necessária para a
socialização dos membros de uma comunidade, é apresentado também como um
conjunto de crenças, que não passam por um crivo científico, isto é, que não são
questionadas e por isso podem não ser verdadeiras.
As ciências sociais, como o próprio nome já elucida, são consideradas
ciências e por isso têm um método de análise que de certa forma comprova dentro
de determinado campo de legitimidade, as análises realizadas. Nesse sentido, o
conhecimento construído através das ciências sociais, é no mínimo, diferente do
chamado senso comum.
Para compreendermos o que é a sociologia, o ofício do sociólogo, e a origem
das ciências sociais, e conceber o homem como um ser social é necessário
desenvolvermos uma sensibilidade que permita buscar uma explicação de como e
por que os fenômenos sociais ocorrem, recusando sempre as explicações de que
“sempre foram assim” ou “devem ser assim”. O recurso metodológico para isso é
dado pelo princípio do estranhamento, ou seja, o olhar da Sociologia para o objeto
de sua análise é um olhar distanciado.
Para além de um olhar de estranhamento, isto é, que compreenda a
realidade, enxergando de forma crítica tudo aquilo que lhe parece natural, é
necessário também desenvolver uma atitude de desnaturalização. A
desnaturalização seria então, uma atitude metodológica de construção do
conhecimento. Ao longo desta e das próximas unidades, veremos que a maneira
como olhamos as coisas que nos cercam, que todo olhar humano é socialmente
construído. Ele depende, portanto, de nossa educação, de nossos hábitos e
costumes, do país em que moramos, da idade que temos, entre muitos outros
fatores.
De acordo com Berger, diferentemente do senso comum, a ciência possui
um caráter de universalidade. Isto quer dizer que não se baseia em opiniões que
variam de pessoa em pessoas, mas sim buscam explicações mais generalistas que
tenham validade para todos os fenômenos analisados. Segundo a autora, essa
universalidade é indissociável da base objetiva que caracteriza a ciência: as
explicações científicas são baseadas em rígidos parâmetros que visam deixar de
lado a subjetividade.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Pensando nas ciências sociais, e na dificuldade que temos como atores em


nossa sociedade de desenvolver um olhar distanciado e que busque um
estranhamento e desnaturalização de nossa realidade, propomos uma análise do
texto a seguir, visando compreender como nossas pré-noções determinam de
forma clara a visão sobre nossa própria sociedade.

“Ritos Corporais entre os Nacirema” – MINER, Horace. A. K. Romney e P. L. Vore


(eds.): You and Others – readings in Introductory Antropology. Winthrop Publishers,
Cambridge 1973, pp. 72-76 (Tradução: Selma Erlich).

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de


comportamento que os diferentes povos apresentam em situações semelhantes,
que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos.
De fato, embora nem todas as combinações de comportamento
logicamente possíveis tenham sido descobertas em alguma parte do mundo, o
antropólogo pode suspeitar que elas devam existir em alguma tribo ainda não
descrita. Este aspecto foi expresso, com relação à organização clânica, por Murdock
(1949-71). Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema
apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como um
exemplo dos extremos a que pode atingir o comportamento humano.
Foi o professor Linton, há vinte anos atrás (1936-326), o primeiro a chamar a
atenção dos antropólogos para o ritual dos Nacirema, mas a cultura desse povo
permanece insuficientemente compreendida ainda hoje. Trata-se de um grupo
norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e
Tarahumare do México e os Carib e Awarak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua
origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos
Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem a sua nação; ele é, por outro
lado, conhecido por duas façanhas de força – ter atirado um colar de conchas usado
pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po-To-Mac e ter derrubado uma
cerejeira na qual residia o Espírito da Verdade.
A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente
desenvolvida, que evoluiu em um rico habitat natural. Apesar do povo dedicar
muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos destes
trabalhos e uma considerável porção do dia são dispendidos em atividades rituais.
O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde assomam como
o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja,
por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a ele associada são singulares.
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o
corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a
doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas
características através do uso das poderosas influências do ritual do cerimonial.
Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos
mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas, e, de fato, a
alusão à opulência de uma casa, muito frequentemente, é feita em termos do
número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de
madeira, toscamente pintadas, mas as câmaras de culto das mais ricas paredes de
pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas aplicando placas de cerâmica as
paredes de seu santuário.
Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles
associados não são cerimônias familiares, são cerimônias privadas e secretas. Os
ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente
o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo
estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e
obter descrições dos rituais.
“Olhando de longe e de cima, de nossos altos postos de segurança na
civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas
sem seu poder e orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como
o fez, suas dificuldades práticas, nem poderia o homem ter avançado aos estádios
mais altos da civilização.”

Ao realizarmos a leitura do texto, em um primeiro momento por causa da


linguagem utilizada e da forma como o autor trata o povo “Nacirema”, isto é, como
um povo que vive em um lugar remoto e distante, tendemos a pensar que os
“Nacirema” são uma comunidade “primitiva”, que tem sua sociedade organizada
através de mitos e ritos. Entretanto, com um olhar analítico, longe do senso comum,
percebemos que a sociedade estudada no texto, é muito parecida com a nossa
própria sociedade. Os ritos e mitos descritos no texto são parte de nossas atividades
cotidianas, mas quando citados da forma que o autor fez, não percebemos o
quanto nossa sociedade também é baseada em crenças, como a ciência, a
medicina, etc.
Nesse sentido, o texto acima deve servir como instrumento de reflexão sobre
a questão do senso comum, e de como desenvolver um olhar crítico e distanciado
sobre a realidade para que possamos compreendê-la de forma profunda e
complexa.
Para saber mais: o conceito primitivo é um conceito não mais utilizado na
antropologia, por remeter a uma ideia de escalonamento civilizatório, ou seja,
compreender as sociedades como que em um crescente de evolução, que tem um
ponto máximo a alcançar que é o nosso modelo de sociedade ocidental.
UNIDADE 02 - A VIDA EM SOCIEDADE: A CONDIÇÃO HUMANA

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Discutir um tema crucial para as Ciências Sociais: o homem como


um ser social. Para isso tentaremos compreender a relação do homem com a
sociedade, através da compreensão dos processos pelos quais o homem adquire

sua identidade como ser humano, e assim, como ser social, conjuntamente com a
forma através da qual o homem obtém os meios de sua sobrevivência, também a
sua relação com o espaço (onde), a temporalidade (quando) e o modo como vive,
atentando para tudo o que os homens produzem e que faz deles seres humanos e
sociais
Tomando a teoria da Evolução de Darwin, podemos perceber que para a
preservação das espécies animais como um todo, e seu aprimoramento ao longo
do tempo é necessário o desenvolvimento dos hábitos de vida, convivência e
sociabilidade. O ser humano, como espécie animal também necessita de uma vida
em sociedade, e desenvolveu processos de convivência, reprodução, acasalamento
e defesa. Para além de atividades que podem ser consideradas apenas “instinto” o
homem também desenvolveu habilidades, técnicas, modos e comportamentos que
dependem do aprendizado. É nesse ponto que gostaríamos de focar o estudo dessa
unidade. Naquilo que diferencia e aproxima o homem dos outros animais.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O homem como animal, mas ao mesmo tempo membro de uma espécie


específica, pode ser compreendido como diferente dos animais por grande parte
de seu comportamento não ser desenvolvido de maneira “natural”, isto é, sua
relação com o mundo e com outros seres de sua espécie não depende da
transmissão de genes. Ele é segundo Costa, um animal que necessita de
aprendizado para adquirir a maior parte de suas formas de comportamento.
Se pensarmos em um exemplo que todos devem conhecer, como o caso do
Menino Mogli, que cresce na floresta sem nenhum semelhante humano, e mesmo
assim desenvolve comportamentos compatíveis com os seres humanos
socializados, podemos perceber que na verdade, este tipo de situação é muito
improvável de acontecer, pois para se tornar humano, o homem aprende
conjuntamente com outros membros de sua espécie, como viver.

Assim, de acordo com Costa,


Para que um bebê humano se transforme em um homem propriamente
dito, capaz de agir, viver e se reproduzir como tal, é necessário um longo
aprendizado, em que gerações mais velhas transmitem as mais novas
suas experiências e conhecimentos. Essa característica da humanidade
dependeu, entretanto, da nossa capacidade de criar sistemas de símbolos
que constituem as linguagens, por meio das quais somos capazes de nos
comunicar, transmitindo aos outros o legado de nossa experiência de
vida, compartilhando sentidos que a ela atribuímos. (p.13)

Dessa forma, pode-se dizer que o pensamento humano é único, pois


diferentemente dos outros animais, somos capazes de transformar nossa
experiência vivida, através da criação, e ao mesmo tempo, significarmos sobre essas
experiências, para assim, transmita-la aos demais seres humanos.
Segundo Karl Marx,
pressupomos o trabalho sob forma exclusivamente humana. Uma aranha
executa operações semelhantes às do tecelão, e a abelha supera mais de
um arquiteto ao construir sua colmeia. Mas o que distingue o pior
arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção
antes de transformá-la em realidade. No fim do processo do trabalho
aparece um resultado que já existia antes idealmente na imaginação do
trabalhador. Ele não transforma apenas o material sobre o qual opera; ele
imprime ao material o projeto que tinha conscientemente em mira, o qual
constitui a lei determinante do seu modo de operar e ao qual tem de
subordinar sua vontade. E essa subordinação não é um ato fortuito. Além
do esforço dos órgãos que trabalham, é mister a vontade adequada que
se manifesta através da atenção durante todo o curso do trabalho. (O
capital, vol. I, cap. VII)
É perceptível então, que através do pensamento, e este sendo colocado em
prática, o homem é capaz, segundo Cristina Costa, de projetar, ordenar, prever e
interpretar. Vivendo em grupo, o ser humano começou a travar com um mundo ao
seu redor uma relação dotada de significado e sentido. O homem é, portanto, um
ser social, que só existe enquanto tal, a estabelecer relações com outros membros
de sua espécie, e ao mesmo tempo significar sobre essas relações, criando,
aprendendo, desenvolvendo.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Pensar o Homem como ser social é um pressuposto básico das ciências


humanas, que assim estudam as relações deste com seu meio e com outros
membros de sua espécie. As relações entre os seres humanos, isto é, as relações
sociais, constituem a base da sociedade. A forma pela qual essas relações ocorrem
são fatos sociais e são eles que determinam o comportamento e a vida em
sociedade.
Desde o surgimento das ciências sociais, aparecia um interesse na
compreensão do homem como ser social, e assim, nas diferenças entre os homens
e os demais animais. Seria o homem capaz de voltar ao seu estado natural? É
possível para um ser humano que viveu na natureza longe de seus pares, terem
naturalmente as características que nós, seres socializados, desenvolvemos?
Buscamos então, um caso muito conhecido na sociologia, do menino
selvagem, que foi estudado por diversos cientistas sociais, desde a origem desta
disciplina. O tal caso, gerou até alguns filmes, e livros, como o conhecido “O enigma
de Kaspar Hauser” de Werner Herzog.
Segue então, o texto de discute a questão do homem como ser social,
através de um exemplo real, ocorrido na França durante o século XIX:
O “menino selvagem de Aveyron" – Anthony Giddens
No dia 9 de Janeiro de 1800 uma estranha criatura surgiu dos bosques
próximos ao povoado de Saint-Serin, no sul da França. Apesar de andar em
posição ereta se assemelhava mais a um animal do que a um ser humano, porém,
imediatamente foi identificado como um menino de uns onze ou doze anos.
Unicamente emitia estridentes e incompreensíveis grunhidos e parecia carecer do
sentido de higiene pessoal, fazia suas necessidades onde e quando lhe apetecia.
Foi conduzido para a polícia local e, mais tarde, para um orfanato próximo. A
princípio escapava constantemente e era difícil voltar a capturá-lo. Negava-se a
vestir-se e rasgava as roupas quando lhes punham. Nunca houve pais que o
reclamassem.
O menino foi submetido a um minucioso exame médico no qual não se
encontrou nenhuma anormalidade importante. Quando foi colocado diante de
um espelho parece que viu sua imagem sem reconhecer-se a si mesmo. Em uma
ocasião tratou de alcançar através do espelho uma batata que havia visto refletida

nele (de fato, a batata era segurada por alguém atrás de sua cabeça). Depois de
várias tentativas, e sem voltar à cabeça, colheu a batata por cima de seu ombro.
Um sacerdote que observava ao menino diariamente descreveu esse
incidente da seguinte forma: Todos estes pequenos detalhes, e muitos outros que
poderiam aludir, demonstram que este menino não carece totalmente de
inteligência, nem de capacidade de reflexão e raciocínio. Contudo, nos vemos
obrigados a reconhecer que, em todos os aspectos que não tem a ver com as
necessidades naturais ou a satisfação dos apetites, se percebe nele um
comportamento puramente animal. Se possui sensações não desembocam em
nenhuma ideia. Nem sequer pode comparar umas as outras. Poderia pensar-se
que não existe conexão entre sua alma ou sua mente e seu corpo.

Posteriormente, o menino foi enviado para Paris, onde se ocorreram


tentativas sistemáticas de transformar-lhe “de besta em humano”. O esforço
resultou só parcialmente satisfatório. Aprendeu a utilizar o quarto de banho,
aceitou usar roupa e aprendeu a vestir-se sozinho. No entanto, não lhe
interessavam nem as brincadeiras nem os jogos e nunca foi capaz de articular
mais que um reduzido número de palavras. Até onde sabemos pelas detalhadas
descrições de seu comportamento e suas reações, a questão não era a de que
fosse retardado mental. Parece que ou não desejava dominar totalmente a fala
humana ou que era incapaz de fazê-lo. Com o tempo fez escassos progressos e
morreu em 1828, quando tinha por volta de quarenta anos.
http://vestibularsociologia.blogspot.com.br/2008/04/o-menino-selvagem-de-aveyron.html

Victor aprendeu a andar, a comer, a vestir- se e a fazer objetos por


intermédio do contato com outras pessoas. Mas não assimilou apenas as coisas
práticas da vida. Ao estabelecer relações com outros seres humanos, aprendeu
também a comportar-se, a expressar sentimentos e a agir da mesma forma que as
pessoas com as quais passou a conviver. Em uma palavra, ele socializou-se.
Os estudos de como os seres humanos se relacionam na vida prática
e afetiva, das formas pelas quais interagem uns com os outros, estabelecendo
regras e valores, constitui tarefa de um grupo de disciplinas reunidas sob o nome
de Ciências Sociais.

Para ampliar seu conhecimento nas questões de vida em sociedade e


condição humana acesse o link:
http://crv.educacao.mg.gov.br/sistema_crv/index.aspx?ID_OBJETO=102904&tipo=
ob&cp=4E6127&cb=&n1=&n2=Roteiros%20de%20Atividades&n3=Ensino%20M%
C3%A9dio&n4=Sociologia&b=s
UNIDADE 03 - AS BASES HISTÓRICAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
RENASCIMENTO / ILUMINISMO

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Elucidar o contexto histórico do surgimento das ciências sociais


(Renascimento e Iluminismo), e compreender a relação da disciplina em si, com o
desenvolvimento da ciência moderna.

ESTUDANDO E REFLETINDO
Se buscarmos os embriões das ciências sociais, seu ponto de partida se dá
na Grécia (pré-história do pensamento social). Exemplos dessa embrionagem são
os historiadores, poetas, filósofos, juristas e oradores que procuravam meios de dar
ao homem possibilidades de conhecer os mecanismos da vida social, mas num
estado ainda amorfo (sem forma) de ciência.
O Renascimento é considerado um dos mais importantes momentos na
história do Ocidente, por estabelecer uma ruptura com o mundo medieval e tudo
que remetia a ele, e iniciar um processo que levaria ao mundo moderno urbano,
burguês e comercial. A ideia de homem e indivíduo sofreu grandes transformações
com o Renascimento e incentivou uma nova postura deste em relação à natureza
e ao conhecimento. Com as bases lançadas pelo Renascimento foi possível o
desenvolvimento de outro movimento que definiu de vez os parâmetros para a
ciência moderna. O Iluminismo possibilitou o surgimento de uma sociedade
inteligível, isto é, as características do homem e de seu individualismo e laicidade
que foram estimulados no Renascimento, se dirigem para a ciência, e assim para a
compreensão da sociedade, que de acordo com Castro, passa ser vista como uma
realidade diferente e própria, sobre a qual interferem os homens como agentes.
É nesse contexto então, que surgem as ciências sociais, advindas das ciências
naturais. Nesse sentido, esta unidade pretende percorrer o caminho do surgimento
desta disciplina, para que o seu estudo contemporâneo seja compreendido.
A filosofia do Iluminismo preparou, segundo Costa, o terreno para o
surgimento das ciências sociais no século XIX, lançando base para a sistematização
do pensamento científico.
Enquanto na Idade Média a Igreja Católica considerava pecaminosa a
atividade lucrativa, no capitalismo, o lucro tornou-se a principal atividade. Neste
contexto, liberto da tutela da Igreja católica, o homem se sente livre para pensar e
criticar a realidade que vê e vivencia.
Passam a questionar e dissecar a realidade social, emergindo assim, uma
nova classe social: a burguesia comercial. Na
esteira desses acontecimentos temos um conjunto de intelectuais que começam a
tematizar esta situação e preparar o arcabouço para a interpretação desta nova
realidade emergente, como Thomas Morus, autor da obra “A utopia” e Maquiavel,
autor d’ O Príncipe, entre outros.

Capa do Livro “A Utopia” obra do autor Thomas Morus.


Fonte: http://opiniaoalexcontin.blogspot.com.br/2012/05/tomas-morus-politica-e-
atualidade.html
Segundo Costa,
A formulação do pensamento social em bases científicas dependeu do
aparecimento de condições históricas exigindo a análise da vida social em
sua especificidade e concretude. Dependeu também do amadurecimento
do pensamento científico e do interesse pela vida material do homem.
Resultou ainda do aprofundamento das análises filosóficas,
especialmente as propostas pela Ilustração (Iluminismo) e estimuladas
pelas Revoluções Burguesas. (p.64)

Desenvolvem-se a ciência e a tecnologia, exigindo da sociedade tomar


medidas urgentes ao desenvolvimento científico: melhorar as condições de vida;
ampliar a expectativa de sobrevivência humana a fim de engrossar as fileiras de
consumidores e, principalmente, de mão-de-obra disponível; mudar os hábitos
sociais e formar uma mentalidade receptiva às inovações técnicas. Vários aspectos
da filosofia da Ilustração prepararam o surgimento das ciências sociais no século
XIX. O primeiro deles foi à sistematização do pensamento científico. Os efeitos de
novos inventos, como o para-raios e as vacinas, o desenvolvimento da mecânica,
da química e da farmácia, eram amplamente verificáveis e pareciam coroar de êxitos
as atividades científicas. A prática de elaboração dos projetos científicos para o
desenvolvimento da indústria passa a ser aplicada à sociedade, pois sem um
planejamento racional dos meios de transporte terrestres e marítimos, da
distribuição e armazenamento dos produtos, da melhoria da infraestrutura, todo o
esforço produtivo estaria perdido.
A ciência se fundava, portanto, como um conjunto de ideias que diziam
respeito à natureza dos fatos e aos métodos para compreendê-los. Por isso, as
primeiras questões que os sociólogos do século XIX tentarão responder serão
relativas à definição dos fatos sociais e ao método de investigação. Neste
contexto, surgiram diferentes formas de avaliar as mudanças sociais que eram tão
recorrentes na época, como o darwinismo social, o organicismo, o evolucionismo,
todos baseados em princípios das ciências naturais para compreender o homem e
suas relações.
BUSCANDO CONHECIMENTO

Veja neste link: http://www.youtube.com/watch?v=rS8iKbcnMbw um


documentário que aborda as principais ideias do Renascimento e o Iluminismo.
UNIDADE 04 - AS BASES HISTÓRICAS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
POSITIVISMO

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o contexto histórico do Positivismo e a relação da


disciplina em si, relacionada à Sociologia.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Para Costa, as diferentes formas de ver a realidade, procurava diferenciar e


identificar os princípios que governam a vida social do homem, mas foi, entretanto,
o positivismo que conseguiu de forma pioneira, sistematizar o pensamento
sociológico.
Foi ele o primeiro a definir precisamente o objeto, estabelecer conceitos
e uma metodologia de investigação e, além disso, a definir a
especificidade do estudo científico da sociedade. Conseguiu distingui-lo
de outras áreas do conhecimento, instituindo um espaço próprio à ciência
da sociedade. Seu principal representante e sistematizador foi o pensador
francês Auguste Comte. (p.72).

Comte logrou assim o termo “Sociologia” e é por isso, considerado o pai das
Ciências Sociais. O vocábulo sociologia foi empregado pela primeira vez por
Auguste Comte em 1889. Ele aparece no volume IV do Curso de Filosofia Positiva
com a seguinte redação:
Acredito que devo arriscar, desde agora, esse termo novo, sociologia,
exatamente equivalente à minha expressão, já introduzida, de física social,
a fim de poder designar por um nome único esta parte complementar da
filosofia natural que se relaciona com o estudo positivo do conjunto de
leis fundamentais apropriadas aos fenômenos sociais.

Entretanto, apesar do grande avanço para as ciências sociais como um todo,


a maioria dos primeiros pensadores sociais do positivismo, estão intimamente
ligados a uma reflexão que ainda é de natureza mais filosófica, sobra a história e a
ação humana.

Positivismo (fr. positivisme) I. Sistema filosófico formulado por Augusto *Comte.


tendo como núcleo sua teoria dos três estados, segundo a qual o espírito
humano, ou seja, à sociedade, a cultura, passa por três etapas: a teológica, a
metafísica e a positiva. As chamadas ciências positivas surgem apenas quando a
humanidade atinge a terceira etapa, sua maioridade, rompendo com as
anteriores. Para Comte, as ciências se ordenaram hierarquicamente da seguinte
forma: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia; cada uma
tomando por base a anterior e atingindo um nível mais elevado de
complexidade. A finalidade última do sistema é política: organizar a sociedade
cientificamente com base nos princípios estabelecidos pelas ciências positivas.

JAPIASSÚ, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3.ed. ver. E ampl. Rio
de Janeiro: J. Zahar, 1996

BUSCANDO CONHECIMENTO

Para compreender a origem das ciências sociais é importante buscar os


pensadores que deram nome e desenvolver o arcabouço teórico necessário para
que esse tipo de pensamento se tornasse uma ciência, com as características
necessárias para tanto. Nesse sentido, leia o texto abaixo sobre o fundador da
sociologia e analise o texto buscando pensar na relação entre a história de
desenvolvimento da ciência como um todo e das ciências humanas especificamente
com o pensamento de Auguste Comte.
Auguste Comte
Auguste Comte: o fundador da sociologia ou física social
Publicado em 26 de janeiro de 2011

TAGS: Auguste Comte, Sociologia

Ilustração: André Toma

A maioria dos seres humanos, por ser dominada pela afetividade, poderia ter sua
existência moldada conforme as exigências da doutrina social do “progresso dentro
da ordem”.
Lelita Oliveira Benoit
Seduzido pela personalidade do nobre decadente Henri de Saint-Simon (1760-
1825), Auguste Comte aceitou ser, a partir de 1817, seu secretário particular por uma
quantia mensal de 300 francos. Contudo, logo após o início da colaboração,
começou a se desenhar o desentendimento entre o mestre e o discípulo. O jovem
secretário tinha como tarefa transformar em textos o pensamento do mestre. No
entanto, começou a desenvolver ideias próprias, entrecruzando-as com aquelas
que deveria reproduzir. É dessa época a primeira e mais sintética fórmula positivista:

“Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto”.


As raízes contraditórias do positivismo
Foi também nesses anos de juventude que Comte escreveu um texto, até hoje
pouco conhecido, intitulado A Indústria (1817). Não era um texto qualquer. O jovem
escritor Comte, em estilo límpido, desenhou o projeto esperado pelo mestre Saint-
Simon. Acreditava que somente aprofundadas reflexões políticas, seguidas da
elaboração de um plano de “reorganização social”, poderiam erradicar a anarquia
que, tendo começado em 1789, com a Revolução Francesa, permanecera até o início
do século 19. A Indústria deveria se tornar a primeira pedra do edifício de uma nova
e grande Enciclopédia destinada a guiar a reorganização social futura em bases não
anarquistas. Em A Indústria, encontram-se reflexões que anunciam a doutrina
socialista posterior (como o projeto do planejamento da economia), entrecruzadas
a conceitos já propriamente do relativismo positivista. Esse projeto foi abandonado
por Comte logo em 1819, mas iniciava-se ali a autêntica história da filosofia
positivista.
Ainda naqueles anos de juventude, Comte escreveu outro ensaio, bem mais célebre,
no qual são desenvolvidos princípios positivistas. Intitulava–se Plano dos Trabalhos
Científicos Necessários para Reorganizar a Sociedade (1822) ou,
simplesmente, Opúsculo Fundamental. Desenha-se, nesse ensaio, um vasto plano
para reorganizar a sociedade francesa mergulhada na crise e na anarquia
posteriores à Revolução Francesa. Após aprofundadas reflexões sobre a
natureza espiritual da crise europeia, Comte procura se fazer escutar pelos
cientistas que, conforme pensava, constituíam a única autoridade respeitada na
Europa decadente, sendo o único poder capaz de dirigir a reorganização social,
para convencê-los a tomar em mãos o poder social ou, nas palavras de Comte,
ensinar-lhes “a tratar a política de maneira positiva”.
Elabora então Comte, pela primeira vez, o mais célebre de todos os seus conceitos,
a teoria ou lei dos três estados. Segundo o positivismo, o espírito humano
necessariamente se desenvolveu no decorrer de três fases ou estados: o teológico,
o metafísico e o positivo. A expressão “o espírito humano” significa, bem
restritamente, “conhecimento científico”. Assim sendo, ao se referir aos três estados
do espírito humano, Comte nos remete, acima de tudo, a certas fases da história
das ciências. A lei dos três estados, assim concebida, seria um conceito filosófico
“compreensível para os cientistas”. De forma sintética, Comte expõe-lhes a história
do espírito humano, como se segue: “Pela própria natureza do espírito humano,
cada ramo de nossos conhecimentos está necessariamente obrigado, em sua
marcha, a passar sucessivamente por três estados teóricos diferentes; o estado
teológico ou fictício; o estado metafísico ou abstrato; enfim, o estado científico ou
positivo”.
O estado teológico permaneceu enquanto a humanidade, por meio de seus sábios,
fazia poucas observações realmente positivas, ou seja, fundadas em observações
efetivas dos fenômenos naturais. Como então os fatos conhecidos eram poucos,
somente era possível ligá-los por meio de “fatos inventados”. Desse modo, naquele
estágio inicial das ciências, para explicar as leis que regem os fenômenos naturais,
os sábios recorreriam a “agentes sobrenaturais”. Mas, de qualquer modo, ao menos
provisoriamente, as explicações teológicas ajudaram a inteligência humana a sair
do estado de torpor e debilidade, próprio da ignorância primitiva, e se aventurar
em novas observações, em busca de novos conhecimentos.
O segundo momento ou estado do desenvolvimento das ciências é chamado pelo
positivismo de “metafísico” e teria um “caráter bastardo”. Aliás, a palavra “bastardo”
parece bastante adequada para qualificar o estado metafísico: diz-se que é
bastardo aquilo que é híbrido, que resulta, como nos conhecimentos metafísicos,
de enunciações que entrecruzam ideias teológicas com ideias positivistas. Na
história do espírito humano, o estado metafísico teria ocorrido quando a ciência
fazia tentativas de ligar os fatos por meio de ideias que não são completamente
sobrenaturais, mas que não são inteiramente naturais e que são causados por
“entidades ou abstrações personificadas”. Por exemplo, para explicar os fenômenos
observados no mundo físico, orgânico e bruto, os sábios metafísicos recorrem à
natureza, ou seja, a uma espécie de entidade metafísica ou abstração personificada,
relativa ao conjunto dos fatos físicos. Na verdade, escreve Comte, o espírito
humano, quando no estágio metafísico, se bem que procurando limitar a absurda
pretensão de tudo conhecer, restringindo-se aos fatos observáveis, ainda assim tem
injustificáveis ambições de conhecer “pelas causas absolutas”.
O que caracterizaria o último estado teórico – o estado positivo – seria que, em sua
vigência, os sábios passam a admitir que há limites intransponíveis para a
capacidade humana de conhecimento. Imbuídos de tal genuíno espírito positivo,
explica-nos Comte, os sábios pretendem, no exercício da ciência, apenas conhecer
o que está dado – os fatos e suas leis positivas –, sem se preocupar com a explicação
pelas causas e os fins últimos. Desse modo, o conhecimento científico não poderia
avançar além de limites claramente estabelecidos, ou seja, nada se poderia
conhecer senão as leis de coordenação e sucessão dos fenômenos naturais,
deduzidas dos fenômenos observáveis.
Segundo Comte, o estado positivo seria o definitivo; tendo-o atingido, o espírito
humano não alcançaria patamar mais elevado. Aliás, a história do desenvolvimento
progressivo das ciências seria ela própria um fato positivo e observável na história
interna de cada ciência. Teria sido com base nessas observações epistemológicas
que o positivismo pôde estabelecer a própria lei dos três estados.
Portanto, os estados do espírito humano reduzem-se a modos ou métodos de
conhecimento, e a lei dos três estados da ciência foi pensada por Comte, antes de
tudo, como uma categoria epistemológica, ou seja, relativa à filosofia das ciências.
Como veremos a seguir, é sobre esse fundamento epistemológico que é pensada
e construída a física social ou sociologia, nas páginas da obra mais importante de
Comte, publicada em quatro volumes, o Curso de Filosofia Positiva (1830-1842).

FONTE: http://cacsunc.wordpress.com/2011/09/10/auguste-comte-o-fundador-da-sociologia-ou-
fisica-social-2/
UNIDADE 05 - O OFÍCIO DO CIENTISTA SOCIAL

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o ofício do cientista social, isto é, entender o que estuda


o profissional das ciências sociais e qual o seu impacto na sociedade.
As ciências sociais, como já foi dito anteriormente, surgiram em um contexto

histórico específico o que originou certas características intrínsecas a essa disciplina,


entretanto, ela também se transforma ao longo do tempo, e é no ofício do cientista
social que estas mudanças acontecem. É objeto de estudo das ciências sociais, o
ser humano e suas relações sociais, com outros seres humanos, bem como com o
ambiente ao seu redor. Dessa forma, as ciências sociais desenvolvem certa
metalinguagem, pois podem também estudar e analisar a própria ciência, visto que
essa é fruto de uma relação, dos seres humanos com seu meio.
O objetivo das ciências sociais consiste, muito genericamente, em ampliar o
conhecimento sobre o ser humano em suas interações sociais e estudar a ação
social em suas diversas dimensões, e é através de um método de investigação
científica que esse conhecimento é dado.
Assim, é de extrema relevância compreender a importância das ciências
sociais para a compreensão da realidade, e para isso é necessário entendermos o
que ela é, de onde se originou e qual a sua função na sociedade.

ESTUDANDO E REFLETINDO

As ciências sociais, como o próprio nome já diz, abrangem mais de uma


disciplina em sua definição. A antropologia, ciência política e a sociologia fazem
parte da definição de ciências sociais, bem como a economia também pode ser
colocada neste grupo, e até mesmo a demografia e as relações internacionais.
Apesar de todas as disciplinas terem uma origem conjunta, é característica
essencial à ciência, como um todo, a especificação dos conteúdos, e a
especialização desses em áreas cada vez menores.
Assim, cada área das ciências sociais é vista de maneira separada, mas com
uma ligação clara, quando estudada profundamente. Um cientista social, facilmente
percebe a conexão e a nebulosidade dos limites entre cada disciplina. Entretanto,
pode-se definir de maneiras diferentes cada área específica do conhecimento nas
ciências sociais, tanto de acordo com o foco de estudo quanto ao método.
Talvez, por exemplo, para definirmos a antropologia em oposição às outras
disciplinas, poderíamos dizer, que a antropologia como disciplina se confunde com
seu método, pois está comprometida com ele, isto é, fazer antropologia é também
pensar a antropologia. Apesar de ser comum a definição da antropologia como
ciência que estuda as culturas, e as compara, isto é, buscando compreender as
semelhanças e diferenças culturais entre os diferentes agrupamentos humanos, de
maneira, micro, em contraposição com a sociologia, que seria o macro, pode-se
dizer que o verdadeiro diferencial da antropologia está em seu método, a
etnografia. Diferentemente das outras áreas específicas, a antropologia propõe
uma mediação entre formas diferentes de ver o mundo, ao através da etnografia,
buscar compreender ao outro e a si mesmo.

A etnografia é o método de pesquisa da antropologia, no qual o antropólogo vai a campo


estudar e conviver com o seu objeto de estudo, tendo sempre em vista que este objeto é também
um sujeito na ação tanto do próprio antropólogo, como dele próprio e do mundo.

A sociologia seria então, essa ciência mais macro, que estuda as ações sociais
e as interações que ocorrem na sociedade; os grupos e os fatos sociais, a divisão
da sociedade em classes e camadas, a mobilidade social, os processos de
cooperação, competição e conflito na sociedade.
É objetivo da ciência política o estudo das formas de distribuição de poder
na sociedade, assim como da formação e do desenvolvimento das diversas formas
de governo.
Todavia é importantíssimo lembrar que todas essas ciências podem sim ter
o mesmo objeto de estudo, entretanto a análise seria diferente por ter focos
divergentes.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O texto abaixo mostra claramente o ofício do cientista social. Através dessa


entrevista com o sociólogo José de Souza Martins, pode-se perceber que tipo de
análise um cientista social faz da realidade, e a distinção entre uma análise científica
e crítica da realidade e o senso comum, ou até mesmo uma análise de jornalistas,
psicólogos e outros especialistas.

Brasil é país de linchamentos (Estadão)

Abaixo reproduz-se a entrevista do sociólogo José de Souza Martins, concedida ao


jornal O Estado de São Paulo e publicada em 17 de Fevereiro de 2008, acerca do
tema Linchamento.
Flávia Tavares

No fim de semana passado, três homens suspeitos de roubo foram linchados na


periferia de Salvador. No sábado, Emílio Oliveira Silva e Michael Santa Izabel,
acusados de saquear residências da vizinhança, foram linchados por mais de 30
pessoas. Emílio foi morto a pauladas. Domingo, a vítima foi um homem de
identidade desconhecida. Ele também foi perseguido por mais de 30 moradores,
que o acusavam de roubar uma TV. Morreu no local, a 200 metros de onde Emílio
e Michael foram atacados. Na noite de segunda-feira, em Ribeirão Preto (SP), o
estudante Caio Meneghetti Fleury Lombardi, que invadiu um posto de gasolina,
atropelou o frentista Carlos Pereira Silva e tentou fugir, sofreu uma tentativa de
linchamento. Por fim, na quinta-feira, um adolescente da Fundação Casa (ex-
Febem) foi linchado até a morte por outros internos, em Franco da Rocha (SP).
Foram cinco casos noticiados em 6 dias. Não se trata de uma epidemia - em nosso
contexto, é algo normal. José de Souza Martins, sociólogo e colaborador do Aliás,
estuda linchamentos há quase 30 anos e documentou 2 mil casos. Ele faz uma
estimativa surpreendente: no Brasil, possivelmente o país que mais lincha no
mundo, há 3 ou 4 casos por semana. Geralmente, nas periferias das cidades, com
São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro à frente.
A análise minuciosa de como se dão essas atrocidades é dolorosa, mas reveladora.
Mais de 500 mil brasileiros e brasileiras, incluindo crianças, participaram de
linchamentos nos últimos 50 anos - e quase ninguém foi punido. A seqüência de
agressões vai do apedrejamento à mutilação. Não é uma questão de pura maldade:
é a população agindo, equivocadamente, onde a Justiça não atua.
José de Souza Martins, de 69 anos, professor de sociologia da Faculdade de
Filosofia da USP, está lançando dois livros - uma reedição ampliada de Sociabilidade
do Homem Simples (Ed. Contexto) e o inédito A Aparição do Demônio na Fábrica
(Ed. 34), ambos sobre a cultura operária. Na entrevista a seguir, ele discorre sobre
o fenômeno do linchamento, tema que pretende, em breve, transformar em livro.

O Brasil é o país que mais lincha no mundo?

Possivelmente. Isso nos últimos 50 anos, período que minha pesquisa abrange. Não
dá para ter certeza, porque linchamento é o tipo de crime inquantificável. Mesmo
os americanos, quando tentaram numerar seus casos, tiveram fontes precárias. O
linchamento é um crime altruísta, ou seja, um crime social com intenções sociais. O
linchador age em nome da sociedade. É um homem de bem que sabe que está
cometendo um delito e não quer visibilidade. Por outro lado, no Código Penal
brasileiro não existe o crime de linchamento, somente o homicídio. Então, ele não
aparece nas estatísticas. Os casos são diluídos. Estimo que aconteçam de 3 a 4
linchamentos no País por semana, na média. São Paulo é a cidade que mais lincha.
Depois, vêm Salvador e Rio de Janeiro.

Que análise o senhor faz de um país habituado ao linchamento?

As sociedades lincham quando a estrutura do Estado é débil. Há momentos


históricos em que isso acontece. Na França, depois da 2ª Guerra Mundial, quando
não havia uma ordem política, havia a tonsura (a raspagem dos cabelos) de
mulheres que tiveram relações sexuais com nazistas. Era uma forma de estigmatizar,
para que ela ficasse marcada. O linchamento original, nos Estados Unidos, tinha
essa característica.

O que configura um linchamento?

É uma forma de punição coletiva contra alguém que desenvolveu uma forma de
comportamento antissocial. O antissocial varia de momento para momento e de
grupo para grupo. Na França, ter traído a pátria era um motivo para linchar. No
caso da Itália, aconteceu o mesmo. No Brasil, é o fato de não termos justiça, pelo
menos na percepção das pessoas comuns. Nesse caso do atropelamento de um
frentista em Ribeirão Preto, por exemplo, o delegado decidiu inicialmente por crime
culposo (depois mudou para doloso). As pessoas que tentaram linchar o rapaz
acreditavam que não haveria justiça, já que a pena seria mais leve por conta da
atenuante.

Qual o perfil de quem é linchado?

Em geral, é linchado o pobre, mas há várias exceções. Há uma pequena


porcentagem superior de negros em relação a brancos. Se um branco e um negro,
separadamente, cometem o mesmo crime, a probabilidade de o negro ser linchado
é maior.

Que criminoso é mais vulnerável?

O linchado pode ser desde o ladrão de galinha até o estuprador de criança. Sem
dúvida, os maiores fatores são os casos de homicídio. Se a vítima do assassino é
uma criança ou um jovem, ou se houve violência sexual, os linchamentos são
frequentes. Há muitas ocorrências por causa de roubo, especialmente se o ladrão
é contumaz. Acredito que tenha sido o caso dos rapazes em Salvador. A própria
população estabelece uma gradação da pena que vai impor ao linchado. Esta é a
dimensão de racionalidade num ato irracional.

Como funciona essa gradação?

Um ladrão de galinha vai sair muito machucado - e pode acontecer de ele morrer.
Mas o risco de ser queimado é mínimo. Com o estuprador é o contrário. Há também
uma escala de durabilidade do ódio. Se um ladrão sobreviver durante 10 minutos
de ataque, está salvo. Tem havido muitas tentativas de linchamento em acidentes
de trânsito. Mas normalmente a polícia chega logo e evita o ataque.

Mulheres são linchadas?

É raríssimo. Nos 2 mil casos que estudei, há dois ou três em que uma mulher foi a
vítima. Agora, há muitas mulheres linchadoras no Brasil. Mulheres e crianças.

Quem são os linchadores no Brasil?


Não há tanto uma divisão de ricos e pobres. De modo geral, os linchamentos são
urbanos. Ocorrem em bairros de periferia. Porém, há linchamentos no interior do
País, onde quem atua é a classe média. O caso mais emblemático é o de Matupá,
no Mato Grosso. O linchamento foi filmado e passado pela televisão, no noticiário.
Três sujeitos assaltaram o banco, a população conseguiu linchá-los e queimá-los
vivos. Isso foi a classe média. E quando a classe média lincha, a crueldade tende a
ser maior, porque ela tem prazer no sofrimento da vítima. O pobre é igualmente
radical, porém é mais ritual na execução do linchamento.
UNIDADE 06 - FORMAÇÃO SOCIAL DO BRASIL

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Desenvolver um panorama histórico da formação social do Brasil


para compreender então, o contexto específico de sua formação e as
consequências que se apresentam até a contemporaneidade.

Como é de conhecimento de todos, o Brasil assim como a maioria dos países


da América Latina, foi colonizado após o seu “descobrimento”, e teve imposto o
sistema colonial de exploração. Esta situação permitiu nesse sentido, um
desenvolvimento específico do país, que não pode, em muitos aspectos, ser
comparado com o de seu descobridor e nem com outros países do hemisfério
norte, mas que teve sua história influenciada e transformada intrinsecamente por
estes.
A formação social do país, isto é, a sua estrutura e estratificação social, sua
formação política, ideológica, assim como o sistema capitalista que o define,
organizam a vida em sociedade, e as relações que se dão neste sistema. É por isso,
de extrema importância compreender como se deu a formação social do Brasil,
para que seus problemas e questões atuais possam ser analisados a luz de um
contexto histórico específico de desenvolvimento. Questões como a divisão social
de classes, do trabalho, a organização dos trabalhadores, os movimentos sindicais
e sociais, a ascensão das classes C e D, a vitória do PT por três governos
consecutivos, todas essas questões contemporâneas podem ser vistas como
extremamente ligadas à formação social do Brasil desde 1500.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Pode-se dizer que o Brasil tem um traço distintivo em sua formação social.
De acordo com Fernando Novais, a história do Brasil nos três primeiros séculos
estava ligada a história da expansão comercial e colonial europeia na época
moderna. Segundo o autor, o Brasil colônia tinha problemas e mecanismos da
política imperial lusitana, sendo assim um prolongamento de sua metrópole. Como
já foi dito anteriormente, o caráter de exploração mercantil marcou o tipo de vida
econômica das colônias. A produção do Brasil colonial era ajustada às necessidades
da procura europeia. Assim o sistema colonial determinou o modo de produção,
que garantia uma ampla margem de lucro, devido aos regimes de trabalho escravo.
Segundo Novais, a economia colonial permitiu um atraso tecnológico no
país, de caráter predatório, com uma sociedade de castas que era necessária para
manter a escravidão.

A sociedade colonial no Brasil se prolongou até o século XIX. Com a vinda


da família real portuguesa a sociedade brasileira sofreu uma grande mudança, pois
passou a ser uma colônia com a presença da realeza. Assim, foi à chegada da família
real um ponto importante no desenvolvimento de diversas áreas da sociedade
brasileira. Foi nesse contexto que a educação passou a ser uma preocupação no
país, deixando de estar tão associada ao ensino religioso conduzido pelos jesuítas.
Foi também um período que se desenvolveu o comércio, pois a família real tinha
necessidades de consumo diferentes dos moradores da colônia. Na segunda
metade do século XIX ocorreram transformações importantes na história do Brasil.
A abolição da escravatura se deu como uma necessidade do país, por causa do
desenvolvimento da economia capitalista: o trabalho escravo era oneroso e havia a
necessidade de desenvolvimento de um mercado interno, principalmente por
pressão da Inglaterra que buscava um mercado consumidor para os produtos de
seu país. É através da economia do trabalho assalariado que nasce o mercado
interno. E é o café que propicia o início do desenvolvimento dos primeiros núcleos
produtivos industriais, porém a indústria da época atendia as demandas
subordinadas a acumulação agroexportadora.
Nasce no fim do século XIX a indústria de bens de consumo assalariado,
além do surgimento de uma nova camada da população brasileira ligada a
atividades financeiras e os profissionais liberais.
De 1889 a 1930 é momento denominado de 1ª República, o qual marca a
transição do capitalismo comercial para o capitalismo industrial no Brasil. O estado
oligárquico é a forma da primeira república, tentando manter a sua estabilidade,
através do abafamento da oposição civilista, isto é, oriunda da classe média, e
reprimindo também a contestação do movimento operário. A partir dos anos 20
ocorre uma crise que abala a dominação da república oligárquica homogeneizada
pelo café, tudo isso devido à crise de 29 conjuntamente com uma crise social
(trabalhadores, classe média, tenentismo e coluna prestes) e a ruptura entre Minas
Gerais e São Paulo nas eleições de 1930. Essa ruptura entre os dois estados veio de
um quadro de descontentamentos, no qual São Paulo acreditava que Minas iria
aceitar um lugar subalterno na política do país. Nasce então, uma aliança contra
São Paulo, no qual Getúlio Vargas era candidato do Rio Grande de Sul, mas que
perde para Julio Preste, por causa de corrupção.
Em outubro de 1930 ocorre a denominada Revolução de 30, com uma
reestruturação econômica institucional profunda e uma reorganização das
burguesias. Nesse momento, a burguesia agrária não foi eliminada, mas houve uma
recomposição orgânica das várias frações dominantes e o povo era a base. A
burguesia industrial era, no entanto, débil e cabia ao Estado o papel de desenvolvê-
la. Neste contexto houve uma ampliação de espaço dos diversos setores agrários,
da burguesia nascente e das camadas médias da sociedade brasileira. A classe
trabalhadora passa a fazer parte do cenário econômico e político. Durante a época
em que Getúlio estava no poder existia uma polarização clara entre esquerda e
direita, e a classe operária tinha o papel decisivo na nova arquitetura do poder e no
desenvolvimento do capitalismo industrial no Brasil. Em 1945 ocorre a primeira
crise do getulismo, que não deixava de ser uma crise no Estado Novo, buscando o
fim dos regimes fascistas e propostas de democratização. A partir de 1946, Dutra
entra no poder, promulgando uma nova constituição que é mais democrática,
porém liberal.
A década de 50, com a eleição de Getúlio, marca uma retomada no
movimento sindical, na qual as massas começaram a lutar para ir além dos espaços
que lhes eram reservados, transcendendo o esquema nacional desenvolvimentista.
De 1955 a 1960 podemos ver um discurso varguista sem o Vargas. Com Juscelino
Kubitschek propõe-se um projeto político de país, isto é, um incentivo nacionalista,
mantendo assim uma democracia burguesa institucionalmente consolidada, com
apoio de várias camadas da população.
Após 1961 ocorrem diversas situações, como a renuncia de Janio Quadros, a
posse de João Goulart com um sistema parlamentarista, que levam ao Golpe Militar
de 1964.
A ditadura militar no país marcou profundamente a sociedade brasileira,
tanto em aspectos propriamente sociais, como no campo da economia e da política.
Foi um período de grande repressão, no qual os direitos básicos dos seres humanos
eram negados. Foi também um período de crescimento econômico, que dependia
exclusivamente do grande endividamento do país, tendo consequências até hoje
em nossa economia.
Entretanto, foi durante a ditadura militar que os movimentos sociais
passaram a ter uma maior organização criando as demandas que foram
posteriormente incorporadas na Constituição de 1988. No período pós-ditadura
esses movimentos lutaram para trazer a democratização para o país e
principalmente uma melhoria nos espaços políticos de representação e uma
diminuição na desigualdade social, fruto do crescimento sem divisão de benefícios.
Com a chegada do neoliberalismo no país, os movimentos sociais se viram
em uma encruzilhada, pois tendo no neoliberalismo a premissa de um Estado
reduzido, isto é, que só cumpre com algumas necessidades básicas do cidadão, os
movimentos sociais, em grande parte, tentaram se institucionalizar para continuar
na luta pelos direitos.
Os anos 90 viram o ápice do neoliberalismo com Collor e a tentativa de uma
recuperação com Fernando Henrique e posteriormente a chegada no poder de um
dos filhos do movimento sindical brasileiro, Lula. Todas essas transformações são
essenciais para a formação do que definimos hoje como sociedade brasileira, que
tem sua especificidade em seu passado de colonização, mas que tem suas
características transformadas ao longo de seu processo histórico de
desenvolvimento.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O link abaixo traz um texto que faz uma reflexão sobre os movimentos
sociais na atualidade, sua participação e sua interação com o Estado e com a
sociedade civil.
http://socializandosociologia.blogspot.com.br/2010/06/movimentos-sociais-texto-
didatico-de.html
UNIDADE 07 - FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Desenvolver um panorama histórico da formação econômica do


Brasil para compreender então, o contexto específico de sua formação e as
consequências que se apresentam até a contemporaneidade.

Assim como a formação social do país foi marcada de forma importantíssima


pelo contexto da colonização e do imperialismo, a formação econômica do país
teve todo o seu desenvolvimento marcado pelas consequências da forma de
colonização aplicada por Portugal.
A chamada industrialização tardia, a qual define até hoje, as características
de nossa política econômica, teve origem por causa da forma com que a
colonização se deu no Brasil, e como foram administrados os recursos obtidos na
época.
É de extrema relevância a compreensão do desenvolvimento da formação
econômica de nosso país, para entendermos e analisarmos as dinâmicas e políticas
econômicas da atualidade, que se dão desta forma, por causa das fortes influências
de nosso passado de colonização.

ESTUDANDO E REFLETINDO

É conhecimento comum à importância da revolução industrial no


desenvolvimento de todos os países do mundo, tanto aqueles que foram seus
precursores como aquelas nações que tiveram um desenvolvimento tardio das
forças de produção industrial.
No Brasil, a industrialização foi um agente definidor do desenvolvimento do
país até o presente momento. De acordo com a CEPAL (Comissão Econômica para
América Latina) para a industrialização ser considerada completa é necessário
completar a pirâmide da industrialização:

Bens de 
Capital 

Bens de consumo 
duráveis 

 
Ind. de Insumos Básicos 

Ind. de Bens de Consumo não duráveis 

Os países que tiveram a chamada Industrialização Original, isto é, a


Inglaterra, que começou com a revolução, tinha em 1850, completado todo o
desenvolvimento da pirâmide, posteriormente, países como EUA, Alemanha, Japão,
e URSS, tiveram a industrialização que é considerada atrasada, e se deu por volta
de 1900. Já o Brasil e outros países da América Latina, iniciaram a industrialização
tardiamente, o Brasil, por exemplo, só iniciou seu processo de industrialização por
volta de 1959, mais de um século depois da Inglaterra.
Existem diversas teorias sobre o porquê da industrialização tardia no país, e
a própria Cepal, desenvolveu uma periodização para a economia brasileira, que
posteriormente foi alvo de várias críticas.
Uma dessas críticas, feita por João M. Cardoso de Mello, que foi um membro
da Cepal, porém teceu alguns pontos de discordância com esta, propõe uma nova
periodização para a economia Brasileira. A Cepal propunha uma periodização na
qual, o período colonial no Brasil era considerado primário-exportador (entre 1808
e 1930) e que a partir de 1930 já poderíamos considerar a existência de um período
de industrialização, mais especificamente, uma industrialização para a substituição
da importação, este período era dividido então em 2 etapas, a da indústria leve, até
os anos 50 e da indústria de bens de consumo duráveis e bens de capital a partir
de 1955. Ou seja, para a Cepal, a formação econômica e social brasileira deixa de
ser predominantemente mercantil a partir de 1930, com o capital industrial.
Para João Manoel, é a partir de 1888 (com a abolição da escravatura) que o
Brasil passa a ter o modo capitalista de produção como estrutura dominante. A sua
nova periodização divide a história econômica brasileira em três grandes períodos:
até 1808, a economia era considerada colonial, e era vigente o sistema colônia-
metrópole, a partir de 1808 até 1888, a economia poderia ser denominada como
mercantil-escravista, porém já com um caráter nacional, de 1888 em diante pode-
se dizer que o Brasil tinha uma economia exportadora capitalista retardatária.
Essa crítica via a periodização da Cepal como uma visão que não levava em
consideração os condicionamentos sociais e políticos do processo de
desenvolvimento econômico brasileiro.
No Brasil, diferentemente da Inglaterra que teve o capital inicial para a
industrialização proveniente de banco, foi o café que propiciou o acumulo de
capital originário. Porém para um desenvolvimento completo da industrialização, é
necessário um complexo de fatores, como trabalho assalariado, mercado interno e
burguesia nacional.
Com o café, houve o surgimento e consolidação do capital industrial e assim
uma concentração de capital monetário, ele possibilitou a transformação de força
de trabalho em mercadoria, e criou o mercado interno. No auge do café, o Brasil
tinha capacidade de importar alimentos, meios de produção e capital.
Assim, em 1988 iniciou-se a industrialização brasileira, porém só se
desenvolveu nesse período a indústria de bens de consumo, isto porque existia um
monopólio das tecnologias necessárias à industrialização (bens de produção), assim
como dos mercados industriais.
De 1933 até 1935, ocorreu a segunda etapa da industrialização. O centro
dinâmico da economia se desloca, segundo Celso Furtado, para dentro do país, e
se desenvolve assim as indústrias de insumo de base, criando empregos e
consolidando o mercado interno. Porém essa industrialização é restringida, ou seja,
é insuficiente para implantar bens de produção, pois existe como já foi dito
anteriormente, uma descontinuidade muito grande de tecnologias necessárias para
o desenvolvimento deste tipo de indústria. A terceira etapa da industrialização
brasileira se dá a partir de 1955, quando houve a implantação de blocos de
investimento altamente complementar, gerando assim um grande salto
tecnológico. Foi propiciada nesta época a implantação das forças produtivas
capitalista, integrando assim a pirâmide da industrialização de forma vertical. É
importante ressaltar, entretanto, que esse processo foi coordenado totalmente pelo
Estado, através de incentivos, o que possibilitou a rapidez do processo, isto é, em
seis anos a pirâmide estava completa, atraindo capital e fábricas internacionais. O
decisivo papel do Estado se deu através do tripé: capital nacional, capital
estrangeiro e a intervenção do estado através da articulação desses dois tipos de
capital e do incentivo ao crédito. Nesse momento, as empresas de bens de capital
são privadas, principalmente de origem estrangeiras (pois tinham a tecnologia
necessária), e os insumos e infraestrutura era em sua maioria estatal.
Todo esse desenvolvimento só foi possível através do PLANO DE METAS,
isto é, uma política econômica do Estado, que ampliava a participação direta do
setor público. Esse plano tinha como objetivo principal desenvolver a
industrialização no país, e deixava em segundo plano, questões relacionadas à
inflação e dívida externa. Foi nesse período que se desenvolveram as usinas de
grande porte, como as de energia, o setor de transporte (rodovias, ferrovias e o
setor marítimo). Houve assim, nesse momento da história do país, um tratamento
favorável a entrada de capital estrangeiro e um estímulo a inversões privadas
prioritárias (reserva de marcado: lei do similar). A inflação teve um caráter
subordinado, e o BNDES que surgia nessa época teve um papel muito importante
nesse processo.
Dessa forma, todos os instrumentos da política econômica foram orientados
para a industrialização, principalmente a indústria pesada. Ocorreu assim, um
aumento da inflação, e proporcionou um déficit na balança de pagamento.
Também não se preocupava com a má distribuição de renda, juntamente com uma
dinamização das expansões privadas e uma elevação dos gastos com o setor
público. Em 1964, a instabilidade política trazida com o golpe militar era refletida
na economia. O Brasil já tinha completado o processo de industrialização e não
dependia do café, ocorrendo uma mudança nos padrões de consumo e
sociabilidade. Entretanto, apesar de que com as reformas de base a industrialização
ter sido completada, as instituições econômicas ainda eram baseadas no sistema
agrário. A tradição centralizadora do Estado teve um caráter mais coercivo durante
a ditadura militar, abrindo caminho para uma intervenção estatal crescente na
economia. Todavia, o autoritarismo tecnocrático militar não seguiu uma direção
coerente na economia, desenvolvendo uma política de exclusão que acentuou de
maneira exorbitante a desigualdade no país. Houve uma crescente
internacionalização do setor industrial moderno atado ao crédito bancário
internacional, porém as vantagens imediatas desse grande endividamento não
foram dividas pela população. Entre 1968 e 1963 ocorreu o que até hoje é
denominado de ‘Milagre Econômico’, no qual através do cumprimento das metas
do antigo plano de metas, ocorre uma abertura financeira da economia e um
favorecimento interno da acumulação, todos apoiados no sistema de crédito. Nesse
sentido, o emprego e o consumo aumentam, mas as custas de um endividamento
absurdo, que tem consequências até hoje.
No fim da ditadura, após o choque do petróleo e com a Moratória Mexicana,
o Brasil teve que recorrer ao FMI, trazendo uma dependência financeira que trouxe
um arrocho salarial e grandes crises, como por exemplo, na área da habitação.
Até a contemporaneidade, vivemos as consequências da industrialização
tardia, do crescimento econômico acelerado durante os governos militares, que
trouxeram um grande endividamento, mas que os benefícios em curto prazo destes
endividamentos não foram divididos para toda a população. Após a ditadura o
Brasil teve que se organizar em todos os campos, tanto na parte econômica, quanto
social e política, e por isso, o neoliberalismo, doutrina política já vigente em muitos
países da Europa e América do Norte, demorou a chegar e trazer suas mudanças
ao país.
É com o governo de Collor que o neoliberalismo chega com toda a força no
Brasil, trazendo grandes privatizações, e uma reforma estatal, que desaparece com
a ideia de cidadania e direitos universais. Ocorre um ajuste em todas as áreas da
economia para pagamento de juros e controle da dívida externa.
Assim, fica clara a relação entre a nossa industrialização tardia e as
consequências que esta trouxe para o desenvolvimento da economia atual. A
formação econômica do Brasil tem uma especificidade, o passado colonial
Brasileiro, mas não deixa de estar inserida no contexto do capitalismo mundial, e
por isso suscetível as mudanças da economia das grandes potencias do mundo
moderno.

BUSCANDO CONHECIMENTO

O link abaixo mostra um artigo que busca uma interação entre a formação
econômica brasileira e o contexto atual da economia no país. Nesse sentido, leia o
texto e reflita sobre o conteúdo dessa unidade.

http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=421
UNIDADE 08 - FORMAÇÃO CULTURAL DO BRASIL

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender de que forma as dinâmicas de colonização,


escravidão, imigração e regionalização colaboraram e a ainda colaboram para a
chamada “formação cultural do país”, buscando entender temas como o de

identidade, nacionalidade, mistura e etnia.


A colonização e a escravidão foram definidoras do desenvolvimento do país
em todas as áreas de sua formação. Tanto a formação econômica, social, como a
cultural foram marcadas profundamente por essa relação assimétrica de poder. É
comum, talvez por causa da hegemonia e ideologização do pensamento, um
discurso que vê no Brasil a mistura de grupos distintos que definiriam o chamado
jeitinho brasileiro. Se vê nesse discurso também uma fatalização de nossas
características, como se essas fossem intrínsecas de nossas origens, antes vistas
como “raciais”.
Nesse sentido, é com o objetivo de questionar certas visões hegemônicas
que essa unidade se apresenta a vocês. Pensar o Brasil de forma livre de
estereótipos e senso comum, buscando entender a sua especificidade bem como o
que se assemelha e em que se relaciona com os outros países, é uma necessidade
assombrosa no contexto atual, de crescimento de grupos extremistas por todo o
mundo, que evocam nacionalismo e identidade como sua bandeira, e que tem sua
expressão no Brasil, tanto ligados ao preconceito regional, como racial.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Para pensar a formação cultura do Brasil, uma pergunta vem em nossa


mente: O que é ser brasileiro? O que faz de todos nós cidadãos do Brasil? A ideia
de ser parte de uma nação tem atrelada em si questões muito complexas. Conceitos
como identidade, nacionalidade, território, entre outras permeiam a discussão
sobre o que é ser brasileiro.
Quando os portugueses primeiros chegaram ao local que hoje é definido
como Brasil, existiam aqui grupos nativos, que posteriormente, sem muita
oportunidade de escolha foram definidos e enquadrados à nação brasileira. A
questão da identidade nacional nos países colonizados sempre gera um debate
polêmico. Pretende-se então, nesta presente unidade expor alguns debates
pertinentes a esta temática, para que possamos desvencilhar nosso olhar cada vez
mais, do senso comum.
Os primeiros estudiosos da cultura brasileira advinham da experiência
colonial, no qual o espaço de produção do conhecimento estava ligado ao
questionamento sobre a diversidade humana.
Os primeiros contatos entre os colonizadores e colonizados trazia a
problemática relação entre nós e os outros, na qual os portugueses viam os
indígenas como ‘outros’ extremamente diferentes e por causa da doutrina
evolucionista vigente no pensamento da época, esses ‘outros’ tão diferentes eram
vistos como animais, menos civilizados, sem alma. Os ameríndios, como um todo,
são analisados de forma generalizada, sem perceber as nuances entre os diversos
grupos.

Dança dos Índios Tupinambás, em gravura do livro


Duas Viagens ao Brasil de Hans Staden.
O contexto da colonização, inserido na ideia de exploração, utiliza da ideia
de desenvolvimento evolucionista da sociedade para justificar a exploração dos
indígenas pelos portugueses. É com essa mesma justificativa que a escravidão é tão
aceita e difundida em um momento posterior.

É na interação entre portugueses, indígenas e negros que começa a surgir


algo que é denominado de nacionalidade brasileira. Entretanto, essa “mistura” de
raças (como eram consideradas as diferentes etnias e grupos étnicos) era vista de
forma negativa, levando segundo o pensamento da época, à degenerescência da
população brasileira.
Todavia, é simples perceber que a nacionalidade, ou até mesmo a
identidade, são fenômenos construídos. Ninguém nasce com características
naturais de um determinado grupo, pois como já vimos, o homem é um ser social,
que se constrói em sua humanidade através de suas relações.
Segundo o antropólogo Renato Ortiz, a história brasileira é apreendida em
termos deterministas, clima e raça explicando a natureza indolente do brasileiro, as
manifestações tíbias e inseguras da elite intelectual, o lirismo quente dos poetas da
terra, o nervosismo e a sexualidade desenfreada do mulato (cultura brasileira e
identidade nacional).
Nesse sentido, é importante perceber que a teoria racialista foi determinante
no pensamento sobre a formação do povo brasileiro, e por isso existem até hoje
formas de se pensar que são baseadas na concepção de que o povo brasileiro é
formado pela junção de três raças distintas (branco, negro e índio). Entretanto, é
preciso desenvolver uma análise crítica que compreenda a sociedade brasileira
como historicamente construída, fruto de um contexto específico, e que nem por
isso tem características intrínsecas definidas de forma maniqueístas como boas ou
ruins.
O Brasil como uma nação, foi construído e é construído nas relações que se
dão entre pessoas, entre os membros desta comunidade imaginada (Benedict
Anderson), e é nas relações que as identidades vão se formando. Não existe
ninguém naturalmente brasileiro, espanhol, português ou africano. O
“jeitinho brasileiro” é só mais uma maneira, fruto do senso comum, de determinar
nossas atitudes de acordo com características ditas biológicas ou genéticas. É claro
que diversos pensadores tiveram uma contribuição importantíssima na análise da
formação social e cultural do país. Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Roberto da Matta,
foram precursores de novas visões anticoloniais sobre o povo brasileiro, mas tem
ainda alguns pontos dignos de crítica.
Assim como os países europeus tiveram sua identidade construída ao longo
do tempo, países colonizados como o Brasil, a América Latina em geral, e as nações
do continente africano, estão construindo sua identidade e formando aquilo que
consideramos como nação.

BUSCANDO CONHECIMENTO

A questão de miscigenação e da mistura das raças, pensando que essa


mistura traria certas características naturais ao povo brasileiro, tem sido muito
criticada na atualidade, principalmente por estar sempre relacionada a
características negativas, tidas como intrínsecas a população brasileira por causa de
sua herança colonial. O link abaixo traz um texto, que faz uma crítica a esse tipo de
análise, e é de extrema relevância por analisar a cultura brasileira de forma não
tendenciosa e superficial.

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/historia/0002.html
UNIDADE 09 - VIDA CIDADÃ EM SOCIEDADE

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Compreender o desenvolvimento histórico do conceito de


cidadania e de como esta se desenvolveu no Brasil.
A ideia de cidadania é fruto de um momento histórico específico e se

transforma conjuntamente com as mudanças que ocorrem na sociedade. Desde a


Grécia antiga até atualmente o conceito de cidadania foi se reformulando e
atendendo as características particulares da sociedade e do sistema no qual se
insere.
No Brasil, a cidadania demorou a ser vista como um conceito importante e
abrangente e é somente com o fim da ditadura militar e com os movimentos sociais
que esta ideia passou a significar algo para as populações mais desprivilegiadas.
Nesse sentido, é de extrema relevância compreender o desenvolvimento
histórico da cidadania em um contexto mais geral e no Brasil, para que assim
possamos pensar no longo caminho percorrido para que ela se tornasse um
conceito mais abrangente, e quais seriam então, os desafios para o futuro.

ESTUDANDO E REFLETINDO

O conceito de cidadania surge na Grécia e sua origem está ligada ao


desenvolvimento das póleis gregas, entre os séculos VIII e VII a.C. Neste contexto,
o cidadão era o indivíduo homem, acima de 21 anos, e rico. Isto é, não eram
considerados cidadãos, todas as mulheres, crianças, escravos e forasteiros,
excluindo da cidadania, ou seja, dos direitos e deveres, grande parte da população.
Entretanto, é só com a Modernidade que a ideia de cidadania como, o
exercício pleno dos direitos políticos, civis e sociais, uma liberdade completa que
combina igualdade e participação numa sociedade ideal, talvez inatingível
(Carvalho), se estabelece.
No Brasil, durante o período colonial, pode-se dizer segundo José Murilo de
Carvalho, que ocorreu a chamada negação da Cidadania. Apesar dos países na
Europa estarem desenvolvendo cada vez mais a ideia de cidadania, no Brasil, com
a sociedade colonial estruturada a partir da unidade produtiva do latifúndio e da
mão-de-obra escrava (indígena e africana) eram excluídos a maior parte da
população das condições dignas de vida, e a cidadania tornava-se, assim um
privilégio de uma elite.
Os nativos (índios) e africanos ficavam de fora de todas as dimensões da
cidadania: perderam a liberdade, tiveram as culturas subjugadas, foram excluídos
do novo modelo econômico, tiveram de trabalhar forçados para contribuir na
acumulação do capital, não estudavam, eram vítimas de violências física e moral -
não sendo considerados seres humanos com direitos. O preconceito marcou a
história do Brasil desde o início. Em três séculos de colonização (1500-1822), os
portugueses tinham construído um enorme país dotado de unidade territorial,
linguística, cultural e religiosa. Mas tinham também deixado uma população
analfabeta, uma sociedade escravocrata, uma economia monocultora e
latifundiária, um Estado absolutista. “À época da independência, não havia cidadãos
brasileiros, nem pátria", escreveu Carvalho.
Essas características da sociedade colonial definiram toda a construção da
cidadania no país. Demorou muito para que fosse possível que as mulheres,
crianças, índios, negros e imigrantes, pudessem efetivamente desfrutar dos direitos
e deveres de cidadão, pois mesmo podendo votar e participar de algumas decisões
políticas, estes eram (e são ainda) uma população marginalizada.
Segundo Luis da Silva, quando o Brasil se tornou país em 1822, a estrutura e
os processos sociais, políticos e econômicos não mudaram. A mesma elite se
manteve no comando dos destinos do Novo País, com a mesma lógica de
exploração e exclusão. Tanto que a primeira Constituição brasileira (1824) restringia
os direitos políticos ao definir quem podia ou não votar. O voto censitário excluía a
maioria do direito ao voto e do direito de ser votado, pois exigia a comprovação
de renda mínima e excluía as mulheres e analfabetos. A participação política da
população durante o período imperial e republicano, portanto, foi insignificante.
Apenas na Constituição de 1881 foi eliminada a exigência de comprovação
de renda para votar e ser votado. Mas continuaram excluídos os analfabetos,
escravos e mulheres. Porém, não havia justiça eleitoral e ética, sendo assim,
aconteciam todas as formas de fraudes e manipulações nas eleições.
O coronelismo, entendido como um sistema político da primeira república
que consistia num compromisso entre coronéis, chefes políticos da área rural e o
poder público, impedia a ampliação dos direitos políticos e civis. Os direitos sociais
nunca tiveram na agenda desta época e a maior parte da população continuava
iletrada e analfabeta politicamente. Outro grande obstáculo à cidadania brasileira
foi à manutenção da unidade produtiva alicerçada na grande propriedade
(latifúndio). A Lei de Terras (1850), por exemplo, impedia o acesso à terra que não
fosse por meio de compra. Assim, preparavam o contexto para a libertação dos
escravos, não permitindo que os mesmos ocupassem terras e se tornassem
proprietários, como era comum antes.
Desta forma, a abolição dos escravos jogou um contingente humano imenso
na completa exclusão social e econômica. Sem-terra, sem empregos e analfabeta,
a maioria ficou na indigência, indo para as periferias urbanas que, mais tarde,
tornar-se-iam as grandes favelas urbanas formadas por seus descendentes. O ano
de 1930 foi um divisor de águas na história do País, com a aceleração das mudanças
sociais e políticas que permitiram à dimensão social da cidadania dar sinais de
gestação. A criação de uma legislação trabalhista e previdenciária transformou as
relações entre capital e trabalho, e a legislação social começou a dar uma nova
configuração à história dos trabalhadores brasileiros. Desta maneira, o
estabelecimento de normas diminuiu consideravelmente a exploração dos
trabalhadores urbanos e assalariados.
Com o governo populista de Vargas os direitos sociais no Brasil tiveram um
relevante desenvolvimento, principalmente no âmbito trabalhista. Os direitos
políticos estavam sofrendo grandes transformações, e surgiram neste contexto
muitos sindicatos e partidos políticos. De acordo com Carvalho, o voto passa a ser
secreto e juízes profissionais tratam da legislação eleitoral, fiscalizando, alistando,
apurando votos e reconhecendo os eleitos. A cidadania política dá nova
performance ao contexto sociopolítico e a cidadania brasileira começa a dar sinais
de amadurecimento.
Entretanto, em 1937 com a ditadura Vargas, isto é, o Estado Novo, os direitos
políticos ficam de certa forma, restritos e coloca-se fim à relativa liberdade política
conquistada até então.
Após a de Vargas veio uma experiência democrática, a primeira da História
do Brasil. Voltaram a acontecer eleições e foi elaborada uma nova constituição. A
Constituição de 1946 manteve, até 1964, as conquistas sociais do período anterior
e garantiu os tradicionais direitos civis e políticos, permitindo, inclusive, a liberdade
de imprensa e a organização política.
Entretanto, existiam ainda algumas restrições a certas liberdades políticas,
mas em 1964, todas essas liberdades foram cerceadas. A democracia e a cidadania
sofreram um imenso golpe com a ditadura militar. Além de toda a liberdade política
ser restringida, e os direitos civis também terem sofrido um grande golpe, os
direitos sociais foram extremamente reduzidos. Durante a ditadura ocorreu uma
grande acentuação na desigualdade social, pois as questões dos direitos sociais
foram deixadas de lado em virtude da busca pelo crescimento econômico rápido.
Era claro que nessa época não havia direito à cidadania no Brasil. Prisões
foram feitas sem mandado judicial, presos eram mantidos sem comunicação, sem
direito a defesa e além de tudo era torturado infringindo claramente os direitos
humanos. Não havia liberdade de pensamento.
Em 1985 a ditadura terminou e iniciou-se um processo de redemocratização.
A sociedade civil organizada através de diversos tipos de movimentos sociais lutava
pela cidadania e por todos os direitos que foram suprimidos durante a ditadura. A
constituição de 1988 foi fruto direto da demanda dos movimentos sociais brasileiros
até então. Entretanto, apesar desse avanço legislativo, a cidadania não acompanhou
as mudanças políticas e civis. A redemocratização, por si só, não se mostrou
garantia de nada. De1988 até o presente momento, muitos avanços foram feitos,
mas basta olhar as notícias no jornal para começarmos a questionar que cidades é
essa que vivemos.
Muitas vezes a cidadania é confundida com apensas o cumprimento dos
direitos políticos, isto é, do direito de voto. Mas isso basta?
Com a redemocratização do país, veio à crise econômica, imensas dividas,
além da falta de dinheiro para políticas públicas. A concentração de renda e riqueza
continua crescendo e até hoje, esta ideia de cidadania ampliada, que não se limita
ao direito do voto, é um desafio.
Não se pode dizer que não houve avanços no período pós-ditadura, pois a
constituição de 1988 trouxe importantes avanços sociais e trabalhistas. Todavia,
devemos perceber que a cidadania brasileira nos últimos 20 anos merece um
estudo mais aprofundado e um questionamento cotidiano. Devemos pensar quais
são os limites da cidadania no momento em que vivemos e que cidadania
reivindicamos como direito.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Até o presente momento, discutimos nesta unidade a história da cidadania.


Com um enfoque mais atual, que questiona a ideia de cidadania que temos na
atualidade e os limites de nossa participação como cidadãos, o link abaixo traz um
artigo que é um interessante referencial para desenvolvermos uma análise da
cidadania em nossa sociedade.

https://www.diplomatique.org.br/print.php?tipo=ar&id=132
UNIDADE 10 - EXPECTATIVAS PARA O FUTURO DA SOCIEDADE
BRASILEIRA

CONHECENDO A PROPOSTA DA UNIDADE

Objetivos: Após a leitura e reflexão sobre os temas das unidades anteriores,


esta unidade final tem como objetivo principal, a reflexão sobre o Brasil
contemporâneo e os desafios para o futuro. Através da compreensão de como se
faz uma análise sociológica da realidade, longe do senso comum, a presente
unidade pretende apresentar temas atuais para possíveis reflexões.
O Brasil tem características na atualidade que só podem ser entendidas a luz
de sua formação histórica tanto no âmbito cultural, quanto social, político e
econômico. Essas esferas não estão, no entanto, dissociadas e se relacionam de
maneira complexa e contraditória, formando o que chamamos de realidade
brasileira atual.
O contexto de colonização definiu de forma clara o desenvolvimento de
nosso país, e é buscando a compreensão do passado que se pode propor novas
ações para o futuro. Como já foi dito anteriormente, não se pretende aqui formar
cientistas sociais, mas sim trazer a vocês uma análise crítica do contexto atual do
Brasil, e a origem dessa problemática.

ESTUDANDO E REFLETINDO

Após a introdução que realizamos sobre como se constrói o conhecimento


nas ciências sociais, o que faz o cientista social, e como devemos olhar para a
realidade com um olhar crítico, baseado no estranhamento e desnaturalização da
realidade, propomos nesta ultima unidade, mais do que expor conceitos, fazer uma
reflexão sobre a problemática brasileira atual através de análises de textos e
reportagens sobre o que está acontecendo no Brasil nos dias de hoje.
A luz dos conhecimentos adquiridos sobre a formação do Brasil, tanto social
quanto econômica e cultural, podemos dizer que nosso país se encontra
atualmente em um momento muito propicio ao crescimento, mas que deve tomar
cuidado para não crescer novamente, sem pensar no aspecto social do país.
A questão da cidadania, e dos movimentos sociais se mostra como uma
forma de se pensar a realidade buscando novas possibilidades para a população
marginalizada, que sempre esteve de fora dos ganhos do desenvolvimento.
Se realizarmos uma análise da sociedade com um olhar distanciado do senso
comum, perceberíamos claramente nos problemas tão comuns em nosso cotidiano,
como desemprego, moradores de rua, fome, enchentes, que estes têm origem na
formação do Brasil como uma nação. Não podemos desvencilhar esses problemas
da questão da urbanização, da divisão de terras, da formação da sociedade
brasileira dividida em classes, da industrialização tardia, do passado de colonização
e exploração.
O que se propõe nessa disciplina é compreender que a realidade, para ser
compreendida de forma crítica, tem que ser vista através de seu contexto histórico,
e não descolada deste, e assim tem que ser pensada como uma construção social
que se deu em um contexto específico e não está dada naturalmente.

BUSCANDO CONHECIMENTO

Utilizando os saberes adquiridos nas outras unidades desta disciplina, leia o


texto abaixo sobre a questão da cidadania nos dias atuais e reflita sobre como
podemos transformar nossa realidade cotidianamente com pequenas mudanças
em nossa vida.

Exercício da cidadania requer aprendizagem e prática


Transformar princípios e valores em atitudes que beneficiam toda a sociedade é um
exemplo de cidadania
Agência USP

Atitudes como não jogar lixo na rua, dar lugar ao idoso em meios de transporte
coletivo e esperar que as pessoas saiam do metrô antes de entrar são questões
corriqueiras na vida da população que se encaixam perfeitamente na concepção de
cidadania pretendida pelo cientista jurídico Ovídio Jairo Rodrigues Mendes. "No
entanto, pela correria diária, essas atitudes não são observadas e acabam por se
tornar problemas sociais. E a cidadania requer aprendizagem e prática, sob pena
de funcionar como mero rótulo", destaca.
Mendes estudou o tema em sua dissertação de mestrado “Concepção da
Cidadania", apresentada em 2010 na Faculdade de Direito (FD) da USP. De acordo
com o cientista jurídico, simbolicamente, comportar-se como cidadão implica em
quatro momentos: o surgimento do problema social (questões que afetam a
comunidade), entendimento e análise lógica desta questão, procura racional de
uma solução adequada para o caso, e a confirmação, para o cidadão, de que a
solução encontrada satisfaz o problema social enfrentado.
Para Mendes a questão da cidadania está, hoje, mais vinculada a uma relação de
consumo do que a um processo de formação de personalidade. "Quando a pessoa
vai fazer um documento no Poupatempo, ela pega um pedaço de papel e, com
este ato, se considera um pouco mais cidadã. Mas cidadania não é isso: é viver em
harmonia com o outro, transformar princípios e valores em atitudes que não
beneficiam só interesses individuais, mas interesses coletivos. Por exemplo, eu varro
a rua para evitar que o lixo se acumule e prejudique tanto a mim quanto aos meus
vizinhos", explica.
Segundo o pesquisador, a concepção de cidadania adquire seu formato de acordo
com o problema a afligir a comunidade. O jurista argumenta que "talvez por isso
seja tão difícil ser cidadão, principalmente em um país de tradição democrática
recente como o Brasil e onde a educação formal não é valorada como elemento
fundamental na diferenciação entre 'súdito' [aquele que simplesmente segue a
vontade do governante] e 'cidadão' [capacidade para procurar e agir de maneira
mais autônoma possível em prol de interesses próprios, limitado tão somente pelo
ordenamento legal e pelo respeito ao bem comum]".
A pesquisa de Mendes não teve a intenção de limitar-se à doutrina jurídicas (teorias
de direito) e à jurisprudência (decisões dos tribunais). O foco foi direcionado para
"buscar uma maneira de elaborar uma teoria que o público comum e não só
cientistas jurídicos ou pessoas esclarecidas se identificassem para uma conceituação
do que seja cidadania".
Para realizar o estudo, o cientista jurídico considerou diferentes tipos de narrativa
sobre a conceituação de cidadania nas teorias dos filósofos Aristóteles, Thomas
Hobbes e Jean-Jacques Rousseau; passando a uma análise das transformações
sofridas pela concepção do termo no pós-independência no Brasil Império, no
Estado Novo e no processo de redemocratização do Brasil, considerando questões
políticas e econômicas; para, ao final, levantar algumas hipóteses sobre a
espetacularização da cidadania e a transformação dos cidadãos em plateias para
projetos de poder de políticos profissionais, principalmente na fase brasileira atual.
Segundo o pesquisador, o estudo não intenciona julgar as sociedades dos teóricos
pesquisados e suas concepções de cidadania, mas sim apenas tê-las como modelo-
padrão para a formação de um conceito baseado em valores e princípios simples
de vida em sociedade, como o respeito ao outro e o respeito à liberdade.
Mendes assinala que a concepção de cidadania para não ser apenas formal, requer
a capacidade de a pessoa dispor de objetivos racionalmente possíveis de como
tornar concretos seus ideais. "Como toda regra, a formulação teórica de uma
concepção de cidadania tem como primeiro passo a intuição para a identificação
de regras sobre o assunto dentro da Constituição ou de leis inferiores, tornando a
sua definição mais palpável ou palatável ao cidadão comum ", diz.

Visão egocêntrica de mundo


O pesquisador, no entanto, não se limita a questões individuais. "Muitas decisões
governamentais não privilegiam a sociedade como um todo, mas o interesse de
setores da população", conta. Ele cita o atual discurso de muitos meios de
comunicação, sobre diversos acontecimentos cotidianos, como acidentes,
enchentes, crimes. "Esse discurso vale-se de argumentações opinativas e não da
lógica, e só acabam por inflamar a teia de queixas e reclamações vazias. Assim, os
'cidadãos' reclamam da ausência do Estado porque precisam encontrar um
culpado, pois pagam impostos e, por isso, devem ser servidos; enquanto que, do
outro lado, o Estado se defende das reclamações, acusando os cidadãos de serem
os provocadores para todas as desgraças cotidianas", destaca.
"A culpa está ao mesmo tempo dos dois lados. Falta a consciência de cada um ou
uma orientação que esclareça dentro do conceito de cidadania a diferença entre
achismos e racionalidade. O achismo é o não viver, pois não há reflexão; a
racionalidade é ter a capacidade de interagir, de buscar causas e soluções, que se
proponham críticas e equilibradas quanto a interesses individuais e coletivos",
conclui.
Disponível: http://www.usp.br/agen/?p=46280
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