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AGRUPAMENTO DE ESCOLAS LIMA-DE-FARIA, CANTANHEDE

RESUMOS DE HISTÓRIA A
EXAME FINAL NACIONAL 2020

10º, 11º e 12º ANOS

CURSO CIENTÍFICO-HUMANÍSTICOS DE LÍNGUAS E


HUMANIDADES
FORMAÇÃO ESPECÍFICA

AUTORA
Mariana Marques

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ÍNDICE
10ºANO
Módulo 3
Unidade 2 – O alargamento do conhecimento do Mundo……..………………………..…..……4
2.1. O contributo português: inovação técnica; observação e descrição da
Natureza*……………………………………………………………………………………………………………4
2.2. O conhecimento científico da Natureza: a matematização do real; a
revolução das conceções cosmológicas*……………………………………………………………..6
Unidade 3 – A produção cultural …….…….……………………………………….………………….………8
3.3. A reinvenção das formas artísticas*………………………………………..….………………..8
Unidade 4 – A renovação da espiritualidade e da religiosidade...…………….………………13
4.1. A Reforma protestante*…………………………………………………..………………….……..13
4.2. Contrarreforma e Reforma católica*…………………………………………………………..16

11ºANO
Módulo 4
Unidade 2 – A Europa dos Estados absolutos e a Europa dos parlamentos………………21
2.1. Estratificação social e poder político nas sociedades de Antigo Regime*……21
Unidade 3 – Triunfo dos estados e dinâmicas económicas nos séculos XVII e XVIII….27
3.1. Reforço das economias nacionais e tentativas de controlo do comércio*….27
3.2. A hegemonia económica britânica*………………………………..………………….………34
3.3. Portugal – dificuldades e crescimento económico*………………….………..………37
Unidade 4 – Construção da modernidade europeia ……………………………..…….……..……42
4.2. A filosofia das Luzes*…………………………………………..………….………………………….42
Módulo 5
Unidade 4 – A implantação do Liberalismo em Portugal…………..………..………….………..45
4.1. Antecedentes e conjuntura (1807-1820)*……………………………..….…………….…45
4.2. A Revolução de 1820 e as dificuldades de implantação da ordem liberal
(1820-1834)*……………………………………………………………………….……………………………46
4.3. O novo ordenamento político e socioeconómico (1832/34-1851)*………...…51
Unidade 5 – O legado do Liberalismo na primeira metade do século XIX..……….………56
5.1. O Estado como garante da ordem liberal*…………………………………….…..…….…56

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12ºANO
Módulo 7
Unidade 1 – As transformações das primeiras décadas do século XX….………..…………61
1.1. Um novo equilíbrio global*……………………………………..…………………………….……61
1.2. A implantação do marxismo-leninismo na Rússia; a construção do modelo
soviético*……………………………………………………………………………………………………….…65
1.4. Mutações nos comportamentos e na cultura*…………………………………….……..70
1.5. Portugal no primeiro pós-guerra*……………………………………………………….……..78
Unidade 2 – O agudizar das tensões políticas e sociais a partir dos anos 30……….……82
2.2. As opções totalitárias*……………………………………………..…………………………………82
2.3. A resistência das democracias liberais*……………………………………………….……..88
2.5. Portugal: o Estado Novo*…………………………………………………………………….……..91
Módulo 8
Unidade 1 – Nascimento e afirmação de um novo quadro geopolítico…….………………98
1.2. O tempo da Guerra Fria – a consolidação de um mundo bipolar*………………98
Unidade 2 – Portugal: do autoritarismo à democracia……………………..……………………107
2.1. Imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a 1974*……..107
2.2. Da Revolução à estabilização da democracia*………………………………………….115
Módulo 9
Unidade 1 – O fim do Sistema Internacional da Guerra Fria e a persistência da
dicotomia Norte-Sul………………………………………….……………………………………………………124
1.2. Os polos de desenvolvimento económico*……………………………………………….124
Unidade 2 – A viragem para uma outra era……………………………………………………………131
2.1. Mutações sociopolíticas e novo modelo económico*……………………………….131
Unidade 3 – Portugal no novo quadro internacional………………………………………………139
3.1. A integração europeia e as suas implicações*…………………………………………..139
3.2. As relações com os países lusófonos e com a área ibero-americana*………141

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10º ANO
Módulo 3 – A abertura europeia ao mundo – mutações nos
conhecimentos, sensibilidades e valores nos séculos XV e XVI
Unidade 2 – O alargamento do conhecimento do Mundo
2.1 – O contributo português
Nos séculos XV e XVI, os Descobrimentos marítimos proporcionaram a Portugal
saberes técnicos e científicos.
2.1.1 – Inovação técnica
A náutica
Com os avanços da navegação portuguesa no Atlântico, as técnicas náuticas
evoluíram desde meados do século XV.
Surgiram as caravelas, com dois e depois três mastros dotados de velas
triangulares ou latinas, mais manobráveis, permitindo tirar partido de todas as
variações de direção do vento.
Foram a nau e o galeão, que à vela latina associavam a vela redonda (também
chamada quadrangular).
Navegar por rumo e estima com o apoio da bússola e o cálculo por estimativa das
distâncias percorridas, revelava-se insuficiente.
Os Portugueses ensaiaram, na segunda metade do século XV, um conjunto de
práticas náuticas, dando origem à chamada navegação astronómica. Começaram por
simplificar o astrolábio e o quadrante e inventaram a balestilha. Socorreram-se de
tábuas solares e de regimentos dos astros, elaborados por matemáticos e astrónomos
e introduziram correções na medição das alturas entretanto efetuadas. A latitude
estava finalmente encontrada.
Navegação astronómica – Técnica de navegação marítima que recorre à
observação da altura dos astros e ao cálculo da latitude (e da longitude desde o
século XVIII) para a orientação dos marinheiros.
A cartografia
A cartografia medieval mostrou-se primitiva e simplista. Nos chamados planisférios
T-0, a Terra apresentava-se como um disco plano, constituído por três continentes e
rodeado de oceano. Um outro planisfério corrente no século XV decompunha a Terra
em zonas, considerando como inabitáveis as zonas equatoriais e polares.
Cartografia – Ciência da representação plana, parcial ou total, da Terra, segundo
uma escala numericamente definida e determinadas convenções. Em virtude das

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viagens marítimas ibéricas dos séculos XV e XVI, a cartografia registou notáveis
progressos, que puseram em causa as convicções antigas e medievais. A mais antiga
carta, com inserção de escala de latitudes, é portuguesa e deve-se a Pedro Reinel
(1504)
Outras conceções e representação cartográfica derivavam da obra do geógrafo
grego Ptolomeu (século II) e não admitiam a comunicabilidade entre os oceanos
Atlântico e Índico.
Fruto da expansão marítima dos séculos XV e XVI, a cartografia europeia registou
um aperfeiçoamento notável. Foram revistas as conceções medievais, dando-se a
conhecer muitas regiões da Terra até então ignoradas ou mal conhecidas na Europa.
Em 1489, o cartógrafo alemão Henricus Martellus produziu um planisfério onde se
representou o cabo da Boa Esperança.
Outro exemplo da constante atualização e revisão da cartografia é-nos fornecido
pelo chamado planisfério de Cantino (1502), representando a África com bastante
exatidão e é a mais antiga carta a esboçar um largo trecho do litoral brasileiro.
Os cartógrafos portugueses (Pedro e Jorge Reinel, Lopo e Diogo Homem, Sebastião
Lopes, Bartolomeu Velho, Fernão Vaz Dourado e Luís Teixeira) eram os mais aptos
para traduzir com rigor o mundo conhecido.
2.1.2 – Observação e descrição da Natureza
A expansão marítima dos séculos XV e XVI proporcionou aos Portugueses uma
atenta observação da Natureza, que pôs em causa muitas das conclusões dos
Antigos.
 Explicou-se o funcionamento dos ventos e das correntes marítimas;
 Provou-se que as zonas equatoriais são habitáveis, que a Terra é esférica e que
existem antípodas (pontos diametralmente opostos na superfície da Terra);
 Alargou-se o leque de conhecimentos étnicos, botânicos, zoológicos e
cosmográficos.
Os Portugueses descreveram com objetividade as informações da realidade
observada, evidenciando-se nas descrições de faunas e floras de África, Oriente e
Brasil.
Ao negar ou corrigir os Antigos, os Portugueses ajudaram a construir um novo
saber que tem o nome de experiencialismo.
Experiencialismo – Forma de sabedoria que se identifica com a vivência das coisas,
mais próxima da constatação empírica dos sentidos e do bom senso que da reflexão
científica.

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Todavia, os novos conhecimentos resumiram-se a observações e descrições
empíricas da Natureza e não a resultados de experiências propositadamente
praticadas para a verificação de hipóteses.
Mas se o saber português dos séculos XV e XVI ainda não foi “ciência”, a verdade é
que ele contribuiu para o exercício do espírito crítico que se encontra nas raízes do
pensamento moderno.
2.2 – O conhecimento científico da Natureza
2.2.1 – A matematização do real
O verdadeiro conhecimento científico apenas surgiu no século XVII. Tal se ficou a
dever a um conjunto de notáveis progressos matemáticos, nos campos da álgebra e
da geometria, em que se distinguiram sábios como Frei Luca Pacioli, Tartaglia, Cardan,
Stevin e o português Pedro Nunes, entre outros.
O Homem renascentista revelou uma mentalidade quantitativa. Calculava
distâncias, durações, latitudes, funduras, proporções, etc.
Mentalidade quantitativa – Atitude que leva a compreender todas as facetas da
vida em termos de números e de quantidades. Nos séculos XV e XVI, foi
especialmente notória no ramo dos negócios. Mas também na técnica, na ciência, na
arte, na organização política e nas relações quotidianas, o número foi um a referência
indispensável.
2.2.2 – A revolução das conceções cosmológicas
Combinando o cálculo matemático com a observação e o saber experimental,
sucedeu a chamada revolução das conceções cosmológicas.
Tudo começou com Copérnico, que se atreveu a contrariar a teoria geocêntrica de
Ptolomeu, respeitada desde o século II. De acordo com as ideias ptolemaicas, a Terra,
ocupava o centro do universo finito.
Copérnico negou Ptolomeu, criando uma nova teoria, a revolução coperniciana
(1543).
Revolução coperniciana – Nova conceção de Universo, devida a Copérnico, que
fazia do Sol o centro do Mundo (heliocentrismo). Resultou, a médio prazo (graças às
descobertas de Tycho Brahe, Kepler e Galileu), as seguintes consequências:
- fim do geometrismo ptolemaico;
- substituição do Universo fechado aristotélico pelo mundo infinito;
- descrença na superioridade do conhecimento científico dos Antigos;
- esmorecimento de convicções religiosas.
Segundo Copérnico, a Terra não é o centro do Universo, mas o Sol (teoria
heliocêntrica). Todas as esferas celestes, incluindo a Terra, giram em volta do Sol,

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movimento de translação, tal como giram em torno do próprio centro, movimento de
rotação. Apenas a Lua gira em volta da Terra.
As repercussões culturais das conclusões de Copérnico não foram, de imediato,
sentidas.
Outros sábios prosseguiram o caminho iniciado por Copérnico. No espaço de um
século, a revolução das conceções cosmológicas recebeu um grande impulso.

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Unidade 3 – A produção cultural
3.3 – A reinvenção das formas artísticas – imitação e superação dos
modelos da Antiguidade
O Renascimento assistiu a uma autêntica revolução no campo da arte.
Renascimento – Termo criado pelo pintor e escultor italiano Giorgio Vasari (1511-
1574) para designar, a partir do século XV, um ressurgimento da literatura e das artes
baseado nas obras e nos autores da Antiguidade.
A nova estética irradiou da Itália e apresentou-se marcada pelo classicismo.
Classicismo – Tendência estética característica do Renascimento que considera os
valores clássicos latinos e gregos (nas artes e na literatura) como modelos a imitar.
Também os artistas souberam superar os modelos da Antiguidade, demonstrando
uma notável capacidade técnica ao conceberem espaços perspetivados e ao pintarem
a óleo. Ultrapassaram os clássicos com o seu naturalismo na representação de seres
humanos, animais, paisagens.
Naturalismo – Teoria e atitude filosófica e estética que valoriza a observação e a
imitação da Natureza.
3.3.1 – A pintura
A pintura renascentista comungou da paixão pelos clássicos (representação da
figura humana, temas profanos e assuntos religiosos). A pintura refletia a
redescoberta do Homem e do indivíduo.
O que mais vinca a pintura do Renascimento é a sua originalidade e criatividade.
Pode-se falar na existência de um novo espaço pictórico.
A pintura a óleo
Esta invenção flamenga do século XV é atribuída ao pintor Jan van Eyck.
 Realizada sobre madeira ou tela;
 Durabilidade e possibilidades de retoque;
 Variedade de matizes;
 Gradações de cor – garantiam representações pormenorizadas, efeitos de luz e
sombra.
A terceira dimensão
A descoberta da terceira dimensão ficou a dever-se aos estudos matemáticos
sobre a perspetiva dos arquitetos Brunelleschi e L.B. Alberti e do pintor Piero della
Francesca.
Perspetiva – Processo de representar objetos com três dimensões numa superfície
plana. Na perspetiva linear, as linhas do quadro ou do desenho convergem para o

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fundo, para o chamado ponto de fuga, de modo a criar-se um espaço geométrico no
qual as figuras mais afastadas têm menores proporções. Na perspetiva aérea, a
perceção de afastamento é dada por uma atmosfera nebulosa conseguida através de
um esbatimento das cores que envolvem os objetos. É o chamado sfumato (do
italiano sfumare = esfumar/esbater).
O campo de visão do observador é estruturado por linhas que tendem a unificar-se
no horizonte, confluindo no ponto de fuga.
 Cruzamento de oblíquas e de horizontais com verticais;
 Efeito de luzes e cores;
 Aberturas rasgadas nos fundos arquitetónicos;
 Espaço tridimensional marcado pela profundidade, pelo relevo e pelo volume
das formas.
No século XVI, Leonardo da Vinci tornou-se um grande teórico da perspetiva aérea.
 Utilizava o sfumato;
 Gradação ou esbatimento da luz e da cor, que nos permite ver os objetos locais
com maior nitidez e os mais afastados se transformam em sombras azuladas.
A perspetiva representou uma autêntica desmontagem do conceito medieval de
espaço. Pode-se dizer que o espaço renascentista se apoiou na observação, na
experiência.
A geometrização
Para a composição das cenas, os pintores renascentistas adotaram formas
geométricas, com preferência pela piramidal. Considera-se que a perspetiva e a
geometria foram os grandes fundamentos da composição artística no Renascimento.
A proporção
A procura da proporção entre as dimensões preocupou os pintores renascentistas.
A verdade é que só no Renascimento o espaço pictórico foi construído com um rigor
matemático, indo-se ao ponto de o projetar a partir de uma medida-padrão
(módulo), que servia de referência para as diferentes dimensões.
As representações naturalistas
A expressividade dos rostos eram, de figuras coevas, quando não eram
autorretratos.
 Espontaneidade dos gestos;
 Verossimilhança das vestes e dos cenários;
 Rigor anatómico;
 Paisagem é um elemento essencial da composição pictórica.
3.3.2 – A escultura

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Humanismo e naturalismo são as grandes características da escultura do
Renascimento, que teve uma forte base de dinamização em Florença. Os escultores
renascentistas interessaram-se pelo/a:
 Figura humana;
 Rigor anatómico;
 Expressão fisionómica;
 Espontaneidade;
 Ondulação das linhas;
 Equilíbrio;
 Racionalidade;
 Aperfeiçoamento técnico;
 Estudos de perspetiva.
Escultores: Donatello, Verrocchio, Miguel Ângelo.
3.3.3 – A arquitetura
Simplificação e racionalização da estrutura dos edifícios
 Procurou-se a simetria absoluta
o Nas fachadas, a simetria é visível no rigoroso enquadramento que preside às
portas e janelas.
 Defendia-se a planta circular
o O círculo era a figura geométrica mais perfeita e natural.
 Verificou-se uma matematização rigorosa do espaço arquitetónico a partir de
múltiplos de uma unidade-padrão
o As relações proporcionais, estabelecidas entre as várias partes do edifício
estenderam-se às suas medidas principais: altura, largura e comprimento;
o Cubos e paralelepípedos eram as formas ideais para a integração das
estruturas arquitetónicas;
 Aplicou-se a perspetiva linear (pirâmide visual)
o O espaço surge concebido em função do observador ocupando um lugar
central.
 Retomam-se as linhas e os ângulos retos;
 Preferiram-se as abóbadas de berço e de arestas, em vez das de cruzaria ogival;
 Fez-se da cúpula um elemento dominante (Panteão, Catedral de Santa Maria
das Flores);
 Utilizou-se o arco de volta perfeita, ligado com relações geométricas ao resto da
construção.
A gramática decorativa greco-romana

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 Empregaram-se as colunas e os entablamentos das ordens clássicas, com
preferência pela coríntia e compósita.
 Retomaram-se os frontões triangulares.
 Utilizaram-se os grotescos (ornamentação). Aplicava-se sob a forma de frescos
ou de baixos-relevos, tendo como motivos formas vegetais, etc., associadas a
figurinhas humanas e animais.
Arquitetura civil e urbanismo
O Renascimento construiu palácios e villæ, habitações destinadas ao conforto
terreno de nobres e da rica classe de mercadores.
A racionalidade no urbanismo
Os intelectuais e artistas do Renascimento conceberam projetos de mundos e
cidades ideais e racionalizados.
Um urbanismo regular e racionalizado brotou do génio de artistas e arquitetos do
Renascimento.
 Projetaram planos urbanísticos retilíneos, submetidos a regras de higiene,
funcionalidade e beleza;
 Defendeu-se que as ruas principais fossem amplas, com edifícios da mesma
altura de ambos os lados;
 Levantaram-se várias praças públicas, esgotos.
3.3.4 – A arte em Portugal: o gótico-manuelino e a afirmação das novas
tendências renascentistas
O renascimento artístico começou por se manifestar numa decoração exuberante,
conhecida por plateresco.
Entre a última década do século XV e o primeiro quartel do século XVI, a
arquitetura gótica renovou-se e multiplicou os motivos ornamentais, dando origem a
um estilo denominado Manuelino.
Manuelino – Arquitetura e decoração arquitetónica do gótico final, existente em
Portugal entre finais do século XV e o primeiro quartel do século XVI. Caracteriza-se
pela mescla de vários subestilos (gótico flamejante, plateresco, mudéjar ou
mourisco), com elementos naturalistas, símbolos régios e cristãos.
O gótico-manuelino
O Manuelino é uma arte heterogénea. Manifesta-se na arquitetura e na decoração
arquitetónica e nela se misturam:
 O gótico final, o plateresco e o mudéjar (estilo mourisco com ornatos de linhas
retas e entrelaçadas) hispânicos;
 O naturalismo (troncos, ramagens, flores, conchas, algas, corais, boias, cordas);

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 A importância das colunas;
 Os símbolos régios de D. Manuel I (escudo real, esfera armilar, cruz da Ordem
de Cristo);
 A simbologia cristã (instrumentos da Paixão de Cristo e até as próprias conchas).
Do ponto de vista estrutural, o estilo gótico foi mantido, embora se introduzissem
algumas alterações.
 Os arcos quebrados (em ogiva) deixam de ter a exclusividade, associando-se a
uma profusão de arcos;
 As abóbadas apesentam redes complexas de nervuras, algumas delas curvas. A
abóbada rebaixada e única para as três naves surge como um avanço
tecnológico relativamente ao Gótico.
 Na decoração, o Manuelino caracteriza-se pela exuberância das formas
naturalistas.
 Na arquitetura civil, apresentam-se paços régios, solares nobres, fortalezas
defensivas e ofensivas.
Arquitetos: Mateus Fernandes, Diogo Boutaca e João de Castilho.
A arquitetura renascentista
Podem considerar-se manifestações do Classicismo na arquitetura portuguesa:
 A simplificação das nervuras das abóbadas de cruzaria;
 A utilização de abóbadas de berço redondo e das coberturas planas de madeira;
 A substituição de contrafortes por pilastras laterais;
 A delimitação das naves por arcadas redondas, assentes em colunas toscanas;
 A multiplicação dos frontões, das colunas e dos capitéis clássicos, assim como
dos respetivos entablamentos;
 A expansão do modelo de igreja-salão;
 O aparecimento da planta centrada.
No que se refere à arquitetura civil, destacamos a Casa dos Bicos, em Lisboa; o
Palácio da Quinta da Bacalhoa, em Azeitão.
Arquitetos: João de Castilho, Miguel de Arruda e Diogo de Torralva.
A escultura
Entre fins do século XV e a primeira metade do século XVI, podemos falar num
surto escultório, seja na decoração de púlpitos, pias batismais, seja na estatuária de
túmulos, portais e altares. A artistas nacionais e estrangeiros (flamengos, franceses,
espanhóis, mudéjares) devemos uma obra multifacetada, de crescente capacidade
técnica, onde o Gótico, o Manuelino e o Classicismo se fundem harmoniosamente.
Nomes famosos da escultura foram os de:
 Diogo Pires;

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 João de Castilho e Diogo de Arruda;
 Nicolau Chanterenne, João de Ruão e Filipe Hodarte.
A pintura
Entre meados do século XV e a primeira metade do século XVI, verifica-se uma
renovação na pintura portuguesa, que se aproxima do Renascimento europeu.
No panorama da pintura portuguesa do século XVI, sobressaíram várias escolas ou
oficinas. Destacamos:
 Em Coimbra, a oficina do Mestre do Sardoal, cuja pintura, de forte sentido
decorativo, se mostra ainda demasiado vinculada aos cânones góticos.
 Em Lisboa, as oficinas do Mestre da Lourinhã, que fez da paisagem um elemento
fundamental da composição pictórica, e de Jorge Afonso, que nos deixou uma
obra de grande apuro técnico, influenciada pelo renascimento flamengo e
italiano. Entre os seus discípulos mais famosos contam-se Gregório Lopes e
Cristóvão de Figueiredo.
 Em Évora, a oficina de Francisco Henriques, onde Frei Carlos, fortemente ligado à
estética flamenga, foi relevante.
 Em Viseu, a oficina de Vasco Fernandes (c. 1475-c. 1542). A sua obra, situada
entre 1501 e 1542, revela uma trajetória curiosa, onde se fundem as influências
flamengas com a arte de Dürer e, até, o maneirismo italiano.

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Unidade 4 – A renovação da espiritualidade e da religiosidade
4.1 – A Reforma Protestante
4.1.1 – Individualismo religioso e críticas à Igreja Católica
De 1378 a 1417, o Cisma do Ocidente manteve a Cristandade dividida na
obediência a dois papas.
Os papas do Renascimento não foram modelos de virtudes nem de concórdia
cristã.
Bispos e prelados acumulavam benefícios e ausentavam-se das paróquias. O clero
regular revelava-se ignorante e relaxado.
As práticas religiosas
Sentindo que a Igreja e os seus ministros não prestavam o auxílio adequado,
muitos caíram na superstição e no fanatismo. Outros protagonizaram formas de
piedade bem mais intimistas e individualistas.
As críticas à Igreja
As críticas à Igreja começaram por assumir uma faceta herética. John Wiclif pôs em
dúvida a utilidade do clero e a validade dos sacramentos. Associado a esta heresia
esteve o movimento dos lolardos, padres pobres que se aliaram aos camponeses na
sua luta contra os senhores.
Heresia – É a negação ou dúvida de algumas das verdades da Fé católica por um
cristão batizado.
Condenado como herético, surge-nos Savonarola, que morreu na fogueira, em
1498.
Ninguém melhor que os humanistas soube traçar o quadro dos abusos da Igreja.
Humanista – Em sentido estrito, é o letrado profissional, geralmente eclesiástico
e/ou universitário, que, nos séculos XV e XVI, se esforça por ressuscitar as línguas e as
letras (poesia, teatro, história, filosofia, retórica) da Antiguidade Clássica, procurando
harmonizar o legado greco-romano com os valores morais do cristianismo, de modo
a formar homens cultos e virtuosos.
4.1.2 – A rutura ideológica
A questão das indulgências
A Reforma da Igreja concretizou-se no século XVI devido à ação de Martinho
Lutero, um monge alemão.
Várias leituras bíblicas permitiram a Lutero encontrar a solução para o problema
da salvação da alma, inspirando-lhe uma verdadeira rutura teológica no seio do

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cristianismo. Ficou conhecida por Reforma Protestante e foi despoletada pela
Questão das Indulgências. As indulgências consistiam no perdão (ou remissão) das
penas/penitências devidas pelos pecados perdoados (ex: orações, jejuns,
peregrinações, etc.).
Reforma – Cisma (ou divisão) ocorrido na Igreja Católica durante a primeira
metade do século XVI, que conduziu ao aparecimento das doutrinas protestantes – o
luteranismo, o calvinismo, o anglicanismo, entre outras. Embora com particularismos,
os credos protestantes têm, como pontos comuns, a justificação pela Fé, a
exclusividade da Bíblia como fonte da Fé, o sacerdócio universal e a não aceitação da
supremacia do Papa. São genericamente conhecidos pelo nome de protestantismo.
Necessitando de dinheiro para prosseguir as obras da Basílica de São Pedro do
Vaticano, o Papa Leão X autorizou, em 1515, a pregação da venda de indulgências na
Alemanha do Norte. No dia 31 de outubro de 1517, Lutero afixou as “95 Teses Contra
as Indulgências”. Nelas acusava o Papa e os dogmas da Igreja, pois afirmava que a
salvação depende da Fé e não de boas obras.
Dogma – Verdade religiosa considerada irrefutável e, como tal, não podendo ser
criticada nem analisada. Ex: os sete sacramentos, a Imaculada Conceição.
Excomungado pelo Papa e banido do Império em 1521, restou a Lutero reunir
forças para impor a doutrina que acabava de criar – o luteranismo.
A justificação pela Fé e a doutrina da predestinação
A justificação pela Fé é a grande base doutrinária da reforma praticada por Lutero,
equivalendo a uma nova doutrina da salvação. A Fé era uma questão de eleição, de
graça divina. Independentemente das ações praticadas, diz-se que o luteranismo
abriu caminho à teoria da predestinação.
Predestinação – Vontade de Deus sobre a salvação de cada um. A teologia
reformista dá-lhe grande relevo, sendo a forma mais fatalista de predestinação e
apresentada por Calvino.
Primazia da Palavra sobre o rito; sacerdócio universal; desvalorização dos sacramentos;
a relação do crente com Deus
Sacramento – Sinal sensível instituído por Jesus Cristo e confiado à Igreja, por meio
do qual se presta culto a Deus e se obtém a santificação dos homens. A Igreja
Católica consagra, como dogma, a existência de sete sacramentos. Segundo a
doutrina protestante, os sacramentos são apenas dois (Batismo e Comunhão),
produzindo uma relação pessoal com Deus sem criar um estado de graça.
Lutero considerava a Bíblia como única fonte de Fé, e autoridade doutrinal.
Para Lutero a prática cristã define-se pela relação pessoal do crente com Deus e
não pelo comportamento com regras, leis e ritos estabelecidos pelos homens.

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Rito – Manifestação exterior da fé religiosa através de atos (como sacrifícios),
palavras (como orações) e gestos (como genuflexões) praticados uniformemente.
4.1.3 – As igrejas reformadas
A expansão do luteranismo
Os burgueses das cidades entusiasmaram-se com os princípios mais simples da
nova religião. Os príncipes e a pequena nobreza ficaram com os bens da Igreja
Católica e por isso aderiram à nova Igreja. Os camponeses esperavam a vir a obter
alguns desses bens, provocando a revolta dos camponeses contra os seus senhores.
A imprensa, invenção alemã, auxiliou na expansão dos escritos de Lutero e da nova
Bíblica traduzida.
O calvinismo
O protestantismo de Calvino foi o mais significativo dos movimentos reformistas
que se seguiram à rutura luterana. Em 1536, publicou um livro onde defende a sua
doutrina, o calvinismo.
Da predestinação absoluta resultou uma acentuada intolerância para com as
outras doutrinas, uma vez que os fiéis calvinistas se sentiam parte de um grupo de
eleitos – os predestinados.
A Reforma na Inglaterra: o anglicanismo
Henrique VIII sem um filho varão do seu casamento com Catarina de Aragão,
solicitou a anulação do matrimónio. Autorizou a tradução da Bíblia e secularizou os
bens das ordens religiosas, mas manteve-se fiel à doutrina católica. No reinado de
Isabel I consolidou-se o anglicanismo, num compromisso entre o catolicismo e o
calvinismo.
Os calvinistas queixavam-se da Igreja anglicana que aos seus olhos era igual a uma
igreja católica. Fez da reforma religiosa uma arma de reforço da autoridade real.
4.2 – Contrarreforma e Reforma católica
A resposta da Igreja Católica à discórdia protestante assumiu-se como uma
contrarreforma e uma reforma católica. Contrarreforma porque efetuou um combate
doutrinário, ideológico e repressivo ao protestantismo. Reforma católica porque
procurou responder às expectativas dos crentes, renovando-se e restaurando o
catolicismo.
4.2.1 – Reafirmação do dogma e do culto tradicional. A reforma disciplinar
O Concílio de Trento

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Em 1545 reuniu-se o concílio, que pretendia debelar a crise da Cristandade,
convocado pelo Papa Paulo III. O Concílio terminou os seus trabalhos em 1563, com
uma condenação inequívoca do protestantismo.
Concílio – Assembleia de eclesiásticos, geralmente bispos e cardeais, presidida pelo
Papa; destina-se a regulamentar ou a determinar a doutrina, a liturgia e a disciplina
cristãs. É uma reunião solene, capaz de levar a decisões importantes; neste aspeto
distingue-se do sínodo, cuja autoridade é menor.
Principais decisões tomadas:
 Condenação dos princípios da predestinação e da justificação pela Fé,
reafirmando-se o papel das obras humanas na salvação das almas;
 Confirma-se a existência do Purgatório;
 Manteve-se a Bíblia em latim, rejeitando-se as traduções para língua vulgar;
 Proclamou-se, como fontes de Fé, a Bíblia e a tradição;
 Mantiveram-se os sete sacramentos – Batismo, Confissão, Eucaristia, Crisma,
Matrimónio, Penitência, Extrema-Unção;
 Reforçou-se o poder do Papa;
 Manteve-se o culto dos Santos e da Virgem Maria;
Sobre a reforma disciplinar o Concílio de Trento proclamou:
 Proibição de acumulação de benefícios eclesiásticos;
 A residência obrigatória dos padres e bispos nas paróquias e dioceses;
 As visitas pastorais dos bispos às paróquias das dioceses;
 Manutenção do celibato eclesiástico;
 Proibição da ordenação de sacerdotes e bispos com idades inferiores a 25 e 30
anos, respetivamente;
 Criação de seminários para a formação dos futuros clérigos.
Seminário – Instituição estabelecida em quase todas as dioceses católicas para a
formação espiritual, científica e literárias dos futuros sacerdotes. A sua criação foi
imposta pelo Concílio de Trento, em 1563.
Catecismo – Resumo sistemático das principais verdades da doutrina cristã,
elaborado com objetivos pedagógicos para mestres ou alunos de todas as idades
(crianças, jovens, adultos). Publicado em 1566, o Catecismo Romano, que o arcebispo
de Milão, São Carlos Borromeu, redigiu, destinava-se a ajudar os párocos a porem em
prática as disposições do Concílio de Trento.

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4.2.2 – O combate ideológico
O Índex
Segundo a Igreja Católica, o combate à heresia protestante deveria passar pela
prevenção e vigilância intelectual da Cristandade.
Intelectual – Indivíduo que se dedica às coisas do espírito: produção literária,
reflexão filosófica. No Renascimento, os intelectuais por excelência foram os
humanistas.
Índex – Catálogo de obras e autores proibidos pela Igreja Católica. A sua
elaboração integra-se no contexto da Contrarreforma, estando a cargo da
Congregação do Índex (criada em 1543). Só em 1966 esta instituição seria suprimida
pelo Papa Paulo VI, na sequência do Concílio Vaticano II.
A Inquisição
Inquisição (1231) – Tribunal da Igreja Católica instituído para combater e punir
heresias, bruxaria e quaisquer manifestações de carácter público ou privado
contrárias ao catolicismo. Também foi chamado de Santo Ofício, em virtude de o
combater à heresia constituir uma causa santa.
O Tribunal da Inquisição seria o instrumento ideal de erradicação do
protestantismo. Instruía processos com bases em denúncias anónimas, usava a

18
tortura para obter confissões, condenava a penas de prisão, à morte na fogueira e
confiscava os bens dos culpados.
O proselitismo das novas congregações: a Companhia de Jesus
A Companhia de Jesus foi uma das muitas congregações religiosas que
contribuíram para a renovação do catolicismo. O seu proselitismo em muito ajudou à
expansão do catolicismo.
Proselitismo – Atividade religiosa exercida com extremo zelo e fervor, no sentido
de angariar adeptos. Os padres da Companhia de Jesus deram um grande exemplo de
proselitismo, através da missionação, da pregação, do ensino e da direção de
consciência. Por isso, aquela ordem religiosa é considerada um dos instrumentos da
Contrarreforma e da Reforma católica.
Os jesuítas consideravam-se “soldados de Cristo”, acrescentando aos três votos
pronunciados (pobreza, castidade, obediência ao superior), um quarto voto de
obediência incondicional ao Papa, sob cuja tutela a ordem foi colocada.
Como professores, os jesuítas distinguiram-se pela sua rede de colégios que
forneciam um excelente ensino secundário e uma sólida formação cristã.
4.2.3 – O impacto da Reforma católica na sociedade portuguesa
O Concílio de Trento e a Companhia de Jesus
O Concílio de Trento contou com a presença de distintos membros da Igreja
portuguesa. Melhor instruído e disciplinado, em virtude da formação recebida nos
novos seminários, o clero português soube responder às dúvidas e inquietudes das
populações, confortá-las e aproximá-las de Deus.
A Inquisição e o Índex
Na segunda metade de Quinhentos, o clima de intolerância religiosa instalava-se no
país. O Tribunal da Inquisição, introduzido em 1536, instituiu a censura prévia em
1540 e, em 1547, fez publicar o primeiro índex de livros proibidos.
Para além das acusações de heresia protestante, a bruxaria, a bigamia, a sodomia e
a blasfémia constituíram motivos fortes para se incorrer na ira da Inquisição.
A Inquisição portuguesa utilizou todos os métodos à sua disposição: tortura para
obter confissões, condenações à morta na fogueira, em auto de fé, etc.
No conjunto da sociedade portuguesa, a Inquisição deixou fortes marcas.

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11º ANO
Módulo 4 – A Europa nos séculos XVII e XVIII – sociedade, poder
e dinâmicas coloniais
Unidade 2 – A Europa dos Estados absolutos e a Europa dos
parlamentos
2.1 – Estratificação social e poder político nas sociedades de Antigo
Regime
2.1.1 – Uma sociedade de ordens assente no privilégio
Entre o século XVI e o fim do século XVIII, a Europa vive uma época que os
historiadores designam por Antigo Regime, uma sociedade hierarquizada em ordens
ou estados.
Antigo Regime – Época da História europeia compreendida entre o Renascimento e
as grandes revoluções liberais que corresponde à Idade Moderna. Socialmente, o
Antigo Regime caracteriza-se por uma estrutura fortemente hierarquizada,
politicamente, corresponde às monarquias absolutas e, economicamente, ao
desenvolvimento do capitalismo comercial.
Ordem/estado – Categoria social que goza de um grau determinado de dignidade e
prestígio, correspondente à importância da função social que desempenha. A ordem
(ao contrário da classe social) assenta mais no nascimento do que na riqueza,
perpetuando-se por via hereditária e admitindo uma mobilidade social reduzida. Uma
das ordens de Antigo Regime, o clero, foge, pelo celibato imposto aos seus membros,
à transmissão hereditária, mas reflete, na sua hierarquia interna, a diversidade social
das duas outras ordens.
A cada ordem corresponde um estatuto jurídico próprio e os seus elementos
distinguem-se pelo traje e pela forma de tratamento.
São três as ordens ou estados em que se divide a sociedade do Antigo Regime: o
clero, a nobreza e o terceiro estado (ou povo). Esta estratificação social mantém vivos
muitos dos privilégios e atributos que se atribuíam às ordens. No entanto, as ordens
foram-se fracionando numa pluralidade de grupos diferenciados, cada um com o seu
estatuto próprio.
Estratificação social – Divisão da sociedade em grupos hierarquicamente
organizados, consoante o seu prestígio, poder e riqueza.
O clero ou o primeiro estado
O clero mantém-se como o estado mais digno, porque é o mais próximo de Deus.

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Ordem privilegiada, o clero é também uma ordem rica:
 Grandes proprietários;
 Recebem um imposto a dízima (décima de Deus);
 Recebem muitas outras doações, prendas e heranças;
 É o único estado a que não se acede por nascimentos mas por tonsura;
 Fazem parte do clero membros de todos os grupos sociais mas ocupam cargos
distintos.
Estratos Funções
Alto Clero  Desempenham cargos na Corte e na
(cardeais, arcebispos, bispos e administração central;
abades dos mosteiros)  Muitos são professor nas Universidades.
Baixo clero  Oficiavam os serviços religiosos;
(padres das paróquias)  Orientavam espiritualmente os paroquianos;
 Orientavam a escola local.
Privilégios
 Isento de impostos;
 Isento de prestar serviço militar;
 Lei privada, “foro eclesiástico” – os seus membros regem-se por leis inscritas no
Direito Canónico, são julgados em tribunais próprios;
 Privilégio de conceder asilo aos fugitivos;
 Não são obrigados a alojar os soldados do rei.
A nobreza ou segundo estado
A nobreza, próxima do rei, é a ordem de maior prestígio.
Estratos Funções
Nobreza de sangue/nobreza de espada  Ocupam cargos principais.
(príncipes, duques, condes, marqueses)
Nobreza administrativa/de toga  Ocupava cargos administrativos no
(origem na burguesia letrada) governo central.
Privilégios
 Ocupa os cargos de poder na administração e no exército;
 Tem um regime jurídico (leis) próprio que lhe garante a superioridade perante as
classes populares;
 São grandes proprietários fundiários;
 Estão isentos de impostos.
O povo ou terceiro estado
É a ordem mais heterogénea, desde burgueses ricos e letrados que algumas vezes
foram promovidos pelo rei à nobreza até pessoas que viviam numa miséria extrema.

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No topo deste grupo estão os homens de letras (professores das universidades,
cargos administrativos, etc.) e a burguesia comercial e financeira. Depois surgem
alguns ofícios considerados superiores como de joalheiro, boticário, etc. São os
burgueses, a elite do Terceiro Estado. Vêm depois aqueles cujo trabalho “assenta no
corpo”, os lavradores que têm terra própria ou de renda e os artesãos. Por fim, os
mendigos, vagabundos e indigentes.
Todos os membros do Terceiro Estado, ricos ou pobres, pagam impostos. Os
camponeses representam 80%, ou mais, da população.
A diversidade de comportamentos e de valores. A mobilidade social
Cada estrato tinha as suas insígnias e os seus distintivos.
 Nobres – usavam a espada e adornavam-se com os tecidos mais ricos (apenas
eles eram autorizados);
 Bispos – exibiam o anel e o báculo;
 Clérigos – exibiam a tonsura e batina preta;
 Doutores, licenciados e bacharéis – usavam a batina (ou toga) e carapuças
(dependendo da faculdade em que haviam cursado).
Cada um esperava receber o tratamento a que tinha direito.
Esta diversidade de estatuto está plenamente consignada no exercício da justiça.
Porém, mesmo nesta estrutura rígida, onde tudo parece previsto, a mobilidade
social existe e, a longo prazo, o Antigo Regime salda-se por uma ascensão do Terceiro
Estado e pela decadência dos critérios sociais baseados no nascimento.
Mobilidade social – Transição dos indivíduos de um para outro estrato social, quer
em sentido ascendente quer em sentido descendente. Numa sociedade de ordens
esta mobilidade é sempre reduzida, uma vez que o critério de diferenciação social
assenta no nascimento. Porém, no Antigo Regime, o desenvolvimento do capitalismo
comercial conduziu à ascensão da burguesia, que viu reforçadas tanto a sua valia
económica como a sua dignidade social. Este processo culminará com o embate das
revoluções liberais que destruirão a sociedade de ordens, instaurando o
atual modelo de organização social em classes.

23
Foi o dinheiro, o estudo, a dedicação aos cargos do Estado e o casamento que abriu
à burguesia os caminhos que conduzem ao topo.
Foi a sua diferente postura perante a vida e a sociedade que ditou o percurso da
nobreza e da burguesia.
2.1.2 – O absolutismo régio
O vértice da hierarquia social é representado pelo rei.
A legitimidade deste poder supremo só poderia ser encontrada na vontade de
Deus.
Os fundamentos do poder real
Foi o clérigo francês Bossuet quem melhor teorizou os fundamentos e atributos da
monarquia absoluta.
Segundo Bossuet, o poder real conjuga quatro características básicas:
 É sagrado, provém de Deus que o conferiu aos reis para que estes o exerçam em
seu nome.
 É paternal, por isso, o rei deve satisfazer as necessidades do seu povo, proteger
os fracos e governar brandamente, cultivando a imagem de “pai do povo”.
 É absoluto, uma vez que o príncipe deve tomar as suas decisões com total
liberdade.
 Está submetido à razão, isto é, à sabedoria, visto que Deus dotou os reis de
capacidades que lhes permitem decidir bem e fazer o povo feliz.
Monarquia absoluta – Sistema do governo que se afirmou na Europa, no decurso
do Antigo Regime. Concentra no soberano, que se considera mandatado por Deus, a
totalidade dos poderes do Estado.
O exercício da autoridade. O rei, garante da ordem social estabelecida
O rei absoluto concentra em si toda a autoridade do Estado: ele legisla, ele
executa, ele julga.
Uma vez que as suas ações estão legitimadas por si próprias, os monarcas
absolutos dispensam o auxílio das outras forças políticas.
O rei torna-se o garante da ordem social estabelecida.
A encenação do poder: a corte régia
Tal como Luís XIV é o paradigma do rei absoluto, Versalhes é o paradigma da corte
real.
Nobres, conselheiros, “privados do rei”, funcionários viviam na corte e para a
corte, seguindo as normas impostas por uma hierarquia rígida e uma etiqueta
minuciosa.

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Esta sociedade da corte servia de modelo aos que aspiravam à grandeza, pois
representava o cume do poder e da influência.
Sociedade de corte – Grupo de pessoas que rodeia o rei e participa na vida da
corte. Trata-se de um conjunto razoavelmente vasto e organizado que partilha os
mesmos valores e o mesmo padrão de vida. A sociedade de corte atingiu o seu
período áureo nos séculos XVII e XVIII, assumindo então um lugar central no conjunto
da sociedade.
A vida em Versalhes era, quotidianamente, uma encenação do poder e da grandeza
do soberano.
2.1.3 – Sociedade e poder em Portugal
A preponderância da nobreza fundiária e mercantilizada
Em 1640, a nobreza portuguesa recuperou do rude golpe que lhe vibrara Alcácer
Quibir. Lisboa tinha, de novo, uma corte e Portugal um rei que não dividia com o país
vizinho.
Bem posicionada na administração do Império, a fidalguia portuguesa junta os
rendimentos que tira da terra, dos cargos que exerce e das dádivas reais, àqueles que
provêm do comércio, a nobreza mercantiliza-se, dando origem a um tipo social
específico: o cavaleiro-mercador.
Boa parte dos lucros do comércio marítimo português não frutificava nem
contribuía para o desenvolvimento de uma burguesia enriquecida e enérgica. Pelo
contrário, no nosso país a burguesia teve sérias dificuldades em se afirmar.
A criação do aparelho burocrático do Estado absoluto
Os monarcas absolutos sentiram a
necessidade de reestruturar a
burocracia do Estado, redefinindo as
funções dos órgãos já existentes e
criando outros, capazes de se
ocuparem dos múltiplos assuntos
que era necessário resolver.
D. João IV cria um núcleo
administrativo central – as
secretarias – e intervém em áreas
fundamentais como a defesa, as
finanças e a justiça.
Na segunda metade do século XVII, esta estrutura governativa foi-se aperfeiçoando
e o rei tomou com mais firmeza as rédeas da governação. O reforço do poder real

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esbateu o peso político da nobreza e conduziu também ao apagamento do papel das
Cortes como órgão de Estado.
Coube a D. João V encarnar, em Portugal, a imagem do rei absoluto. O rei procedeu,
em 1736, à reforma das três secretarias existentes, redefinido as suas funções e
alterando-lhes o nome.
Em meados do século XVIII, a máquina burocrática do Estado continuava pesada,
lenta e insuficiente.
O absolutismo joanino
Naquela época, a imagem de Luís XIV impunha-se na Europa como modelo a seguir,
quer no que respeita à autoridade com que dirigiu os negócios do Estado, quer no
que toca à magnificência de que se rodeou.
Para além da recusa em reunir Cortes e do controlo pessoal que exerceu sobre a
administração pública, D. João V procurou sempre expressar a sua superioridade face
à nobreza.
D. João V realça a figura régia através do luxo e da etiqueta. Uma rígida
hierarquização marca o protocolo da corte: nas audiências, na cerimónia do beija-
mão, na assistência à missa, nas saídas e procissões, nos banquetes, nos espetáculos,
todos ocupam um lugar definido de acordo com o seu título ou o seu cargo.
O rei é o centro das atenções e o centro do poder.
Esta “vocação de grandeza” que sempre demonstrou complementa-a D. João V
com uma política de mecenato das artes e das letras.
 Patrocina importantes bibliotecas;
 Promove a impressão de variadas obras;
 Funda a Real Academia de História;
 Chama para a corte os melhores artistas plásticos estrangeiros;
 Custeia a aprendizagem, em Itália, aos pintores portugueses mais dotados;
 Empreende uma política de grandes construções;
o Edificam-se igrejas ou recobrem-se os seus interiores com o brilho da talha
dourada;
o Remodela-se o Paço da Ribeira;
o Edifica-se a Patriarcal “resplandecente de ouro e azul”;
o Constrói-se o Palácio-Convento de Mafra.
Em termos de política externa, o rei procurou a neutralidade face aos conflitos
europeus, salvaguardando, no entanto, os interesses do nosso império e do nosso
comércio.
Com o mesmo objetivo, o monarca não olhou a despesas para engradecer as
nossas representações diplomáticas, que deslumbraram os contemporâneos.

26
Em plena época barroca, o brilho e a ostentação significavam autoridade e poder.
a

27
Unidade 3 – Triunfo dos estados e das dinâmicas económicas nos
séculos XVII e XVIII
3.1 – Reforço das economias nacionais e tentativas de controlo do
comércio
3.1.1 – O tempo do grande comércio oceânico
Gerar capital, investi-lo e aumentá-lo, privilegiando o grande comércio, tornou-se o
motor da economia europeia que entrou na era do capitalismo comercial.
Capitalismo comercial – Sistema económico que se afirmou nos séculos XVI a XVIII
e se caracteriza pela procura do maior lucro, pelo espírito de concorrência e pelo
papel determinante do comércio como motor do desenvolvimento económico.
Junta-se uma próspera rota atlântica que une a Europa, a África e a América. Eixo
deste comércio triangular, o tráfico negreiro não parou de crescer.
Comércio triangular – Circuito de comércio atlântico que ligava os continentes
europeu, africano e americano. Este comércio, que prosperou sobretudo nos séculos
XVII e XVIII, era suportado pelas necessidades de mão de obra das colónias
americanas que dependiam dos contingentes negros para as suas plantações e
explorações mineiras.
Tráfico negreiro – Intenso comércio de escravos negros que canalizou para a
América grande número de africanos, na sua maioria comprados ou aprisionados nas
costas de Guiné, de Angola e de Moçambique.
3.1.2 – Reforço das economias nacionais: o Mercantilismo
A expansão do comércio transoceânico coincidiu com a afirmação das monarquias
absolutas, que viram no domínio das áreas comerciais e na riqueza que estas
proporcionavam a forma de aumentar o seu poderio. Eram necessários capitais para
custear a magnificência dos príncipes, reforçar o aparelho de Estado e mobilizar
exércitos que impusessem a supremacia do país relativamente aos seus vizinhos.
Valorizando a atividade mercantil, esta doutrina tomou o nome de Mercantilismo.
Mercantilismo – Teoria económica enunciada nos séculos XVI, XVII e XVIII, que
defende uma forte intervenção do Estado na economia. O objetivo dessa intervenção
era o aumento da riqueza nacional, identificada com a quantidade de metais
preciosos acumulados pelo país. São características do Mercantilismo as medidas de
tipo protecionista e monopolista.
Os pensadores mercantilistas estavam firmemente convencidos de que a riqueza
de um Estado se media pela quantidade de metais preciosos que este possuísse. Toda
a ação económica deveria ter em vista a canalização, para o país, de uma parte
significativa do dinheiro que circulava no comércio europeu.

28
Tal só seria possível se a balança comercial fosse favorável, isto é, se o valor das
exportações excedesse o das importações. Havia que produzir internamente o mais
possível, de forma a reduzir o volume de mercadorias importadas e, inversamente,
incrementar as vendas ao estrangeiro.
Balança comercial – Termo que designa a relação entre o montante das
importações e das exportações. Caso o volume das exportações ultrapasse o das
importações, a balança comercial é positiva, o que se identifica com a prosperidade
do país.
Competia ao Estado tomar todas as medidas necessárias para atingir este objetivo.
Estas medidas traduziam-se num apertado protecionismo económico que fomentava
a produção e salvaguardava os produtos e as áreas de comércio nacionais da
concorrência estrangeira.
Protecionismo – Política económica que impede a livre iniciativa e a livre circulação
de mercadorias. O protecionismo traduz-se, geralmente, quer por um aumento dos
direitos alfandegários sobre as importações quer pela concessão de exclusivos e
privilégios industriais. O objetivo destas medidas é permitir o desenvolvimento das
produções internas que, desta forma, se tornam mais competitivas.
Pode-se dizer que a atuação dos governos se deveria pautar por três linhas
fundamentais:
 O fomento da produção industrial, com vista a promover a autossuficiência do
país bem como a exportação de produtos manufaturados;
 A revisão das tarifas alfandegárias, sobrecarregando os produtos estrangeiros e
aliviando as taxas que pesavam sobre as exportações nacionais, de modo a
torná-las mais competitivas;
 O incremento e reorganização do comércio externo, de forma a proporcionar
mercados de abastecimento de matérias-primas e de colocação dos produtos
manufaturados.

29
O Mercantilismo em França
Preocupado com a grande quantidade de mercadorias que entravam no reino pela
mão dos Holandeses, Colbert pôs todo o seu empenho no desenvolvimento das
manufaturas.
Manufatura – Num sentido lato, o termo designa as diferentes atividades
industriais que não empregam maquinaria e que, por isso, são características das
épocas pré-industriais. Em sentido restrito, aplica-se às grandes unidades
transformadoras típicas dos seculos XVII e XVIII que recorriam já à divisão do trabalho
e ao uso de tecnologia própria (mas não de maquinaria).
1. Setor manufatureiro
É precisamente a importância conferida ao setor manufatureiro, bem como a sua
feição altamente dirigista, que caracterizam o Mercantilismo francês, também
conhecido por colbertismo.
Com o fim de evitar as importações, Colbert introduziu novas indústrias recorrendo
à importação de técnicas e mão de obra estrangeira, à criação de novas manufaturas
incitando os produtores a associar-se, concedendo privilégios vários, como
monopólios de fabrico, incentivos fiscais e subsídios.
Assim nasceram as célebres manufaturas reais, que funcionavam como unidades-
modelo de produção. Em troca dos privilégios e subsídios concedidos, o Estado

30
arrogava-se o direito de regulamentar minuciosamente a atividade industrial:
matéria-prima, qualidade, horas de trabalho, preços, tudo era controlado através de
um corpo de inspetores criados para o efeito.
2. Setor comercial
No que se refere ao comércio, Colbert investiu fortemente no desenvolvimento da
frota mercante e da marinha de guerra, procedendo à criação de grandes companhias
monopolistas, às quais reservou, em exclusivo, os direitos de comércio sobre
determinada zona.
Companhia monopolista – Associação económica, geralmente de cariz comercial,
com direitos exclusivos sobre determinado produto ou área de comércio. Nos séculos
XVII e XVIII organizaram-se numerosas companhias monopolistas, na sua maior parte
destinadas ao comércio colonial. As mais poderosas foram as Companhias das Índias
Orientais, às quais os Estados (Holanda, Inglaterra, França) conferiram poderes de
conquista, administração e defesa no Oriente.
O colbertismo representa a corrente mais dirigista de todo o Mercantilismo. Tanto
pelo seu carácter espetacular, como pela personalidade carismática do seu
impulsionador, o colbertismo foi o modelo mercantilista mais adotado pelos países
europeus.

O sistema mercantil em Inglaterra

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Em Inglaterra, as medidas de tipo mercantilista foram implementadas lentamente,
procurando resolver as dificuldades económicas que iam surgindo. Assumiram, por
isso, um carácter mais flexível, adaptando-se aos tempos e às circunstâncias, o que
lhes proporcionou um elevado grau de eficácia.
Para além desta flexibilidade, o mercantilismo inglês distingue-se pela valorização
da marinha e do setor comercial. Em Inglaterra, a concorrência holandesa fazia-se
sentir sobretudo nas áreas dos transportes marítimos e do comércio externo.
Entre 1651 e 1663, foi promulgada uma série de leis – os Atos de Navegação –,
destinadas a banir os Holandeses das áreas do comércio britânico.
 Todas as mercadorias estrangeiras que entrassem em Inglaterra seriam
obrigatoriamente transportadas em embarcações inglesas ou do país de origem;
 Reservou-se à marinha britânica, em exclusivo, a navegação de cabotagem e o
transporte para Inglaterra das mercadorias coloniais;
 Para evitar fraudes, foi determinada a composição da equipagem dos navios sob
pavilhão britânico, que deveria ser constituída maioritariamente por nacionais
do país.
Assim destruída a concorrência da Holanda, a frota mercante inglesa não
encontrou entraves ao seu crescimento, tanto mais que os Atos de Navegação foram
complementados por uma política de expansão territoriais, sobretudo na América do
Norte e nas Antilhas.
O setor comercial foi ainda reforçado com a criação de grandes companhias de
comércio, às quais se concederam numerosos monopólios. A mais célebre e bem-
sucedida foi a Companhia das Índias Orientais, que recebeu, em 1661, poderes
soberanos de justiça civil, organização militar e direção de guerra no Oriente.
Esta política protecionista surtiu os efeitos desejados: o poderio comercial e
marítimo da Inglaterra consolidou-se, permitindo-lhe disputar, com êxito, o primeiro
lugar na cena económica internacional.
3.1.3 – O equilíbrio europeu e a disputa das áreas coloniais
Durante o Antigo Regime, as nações europeias aceitavam a ideia de que
constituíam uma comunidade regulada por um certo equilíbrio de poder. Tal queria
dizer que se procurava, dentro do possível, evitar que as relações internacionais
fossem dominadas por uma potência hegemónica. Era esta preocupação que ditava o
jogo das alianças e a intervenção dos diversos países nas guerras que então se
travaram.
No decurso dos dois séculos, o equilíbrio europeu foi particularmente frágil e
mantido à custa de numerosos conflitos.

32
A partir da segunda metade do século XVII, as motivações económicas estiveram na
origem da maior parte destes conflitos. Sendo o comércio o setor da economia que
movimentava mais capitais e produzia maiores lucros, os soberanos aperceberam-se
que o domínio comercial facilmente se transformava no poderio militar indispensável
ao engrandecimento do Estado.
Dado que a generalização das medidas protecionistas tinha levantado grandes
entraves à circulação de mercadorias no circuito europeu, os olhares voltaram-se
para as áreas coloniais, que se tornaram o centro de acesas rivalidades.
As áreas sob domínio europeu eram exploradas em sistema de exclusivo colonial
pela respetiva metrópole. Este sistema permitia ao Estado dominador regular as
produções e os preços sem ter em conta a concorrência dos outros países, impedidos
de aí realizarem quaisquer negócios. A importância atribuída à constituição dos
impérios coloniais, autênticos “impérios de comércio”, essenciais à vitalidade
económica das nações europeias.
Exclusivo comercial – Forma de exploração económica que reserva para a
metrópole os recursos e o mercado das colónias. Trata-se de uma medida
protecionista cujo objetivo é garantir a obtenção de matérias-primas e produtos
exóticos a baixo preço, bem como escoar as produções manufatureiras do país
dominador.
Face à evidente decadência dos Estados ibéricos, a disputa da supremacia no
grande comércio marítimo travou-se essencialmente entre a Holanda, a Inglaterra e a
França. Pode-se distinguir, nesta luta, duas fases:
 A primeira, entre 1651 e 1689, opôs a Holanda e a Inglaterra. Os dois países
travaram entre si três guerras, no termo das quais a Holanda perdeu para a
Inglaterra as suas colónias americanas e parte das suas possessões no Oriente.
Estas guerras marcam o fim da hegemonia comercial holandesa, que durava há
mais de meio século;
 A segunda, que decorreu entre 1689 e 1763, foi marcada pela rivalidade anglo-
francesa, que se materializou numa longa série de conflitos por questões de
território, mercados e abastecimentos de produtos coloniais.
Este período de tensão culminou na Guerra dos Sete Anos (1756-1763) que,
iniciada na Europa, rapidamente se estendeu aos territórios de além-mar.
A guerra consagrou a vitória inglesa, reconhecida no Tratado de Paris. Por este
tratado, a França abandonou as suas possessões nas Índias, comprometendo-se a
retirar os efetivos militares das cinco feitorias que aí conservou. Na América, cedeu à
Inglaterra o Canadá, o vale do Oaio, a margem esquerda do rio Mississípi; em África,
as feitorias do Senegal. Entregou, ainda, a Luisiana à Espanha, para a compensar da
perda da Florida, anexada pelos ingleses.

33
Foi assim que, após mais de um século de conflitos, a Inglaterra se tornou a maior
potência colonial e marítima da Europa. A sua hegemonia económica perdurará por
todo o século XIX.
3.2 – A hegemonia económica britânica
3.2.1 – Condições do sucesso inglês
Os progressos agrícolas
O principal problema a resolver era o do esgotamento dos solos. Daí a necessidade
do pousio que deixava em descanso, cada ano, cerca de um terço do solo arável.
Para evitar o pousio e renovar a terra, a “nova agricultura” aperfeiçoou um sistema
de rotação de culturas.
Tal prática não só proporcionava o aproveitamento integral da terra como permitia
uma articulação perfeita entre a agricultura e a criação do gado.
Este novo sistema era incompatível com os tradicionais direitos de pasto
comunitário que obrigavam a deixar abertos todos os campos onde, após as
colheitas, os gados da região pastavam livremente. O campo aberto (open field)
revelava-se altamente prejudicial à rentabilização da terra, pelo que os grandes
proprietários desencadearam um processo de vedações (enclosures) das suas
propriedades.
As vedações constituíram um elemento essencial à modernização da agricultura
inglesa. Nestes campos cercados selecionaram-se as sementes, aperfeiçoaram-se as
alfaias. Eles foram “verdadeiros laboratórios de inovações agrícolas”.
O setor agrícola viu crescer a sua produtividade, aumentando substancialmente os
recursos alimentares do país.
O crescimento demográfico e a urbanização
O crescimento demográfico da segunda metade do século atingiu especialmente a
Inglaterra. Este fenómeno foi um resultado e um fator do desenvolvimento
económico: a abundância e a criação de postos de trabalho fazem aumentar a taxa de
nupcialidade e o número de nascimentos, enquanto a morte regride; por sua vez, o
crescimento populacional estimula o consumo e fornece mão de obra jovem aos
diversos setores de atividade.
Para além do crescimento demográfico, registou-se uma acentuada migração para
os centros urbanos que absorveram a mão de obra excedentária dos campos.
Centro nevrálgico de toda esta vitalidade económica, Londres torna-se a maior
cidade da Europa, atingindo, no fim do século XVIII, cerca de um milhão de
habitantes.
A criação de um mercado nacional

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Ao crescente número de consumidores juntava-se, em Inglaterra, a inexistência de
alfândegas internas que encarecessem as mercadorias e dificultassem o seu
transporte, como era vulgar em França ou na Alemanha. Criou-se, assim, um
verdadeiro mercado nacional, unificado, onde os produtos e a mão de obra podiam
circular livremente.
Mercado nacional – Diz-se da capacidade aquisitiva da procura interna que, no
caso da Inglaterra, no século XVIII, foi favorecida por:
 Revolução demográfica;
 Abolição dos entraves à circulação dos produtos;
 Incremento dos transportes;
 Crescimento urbano.
Foi exatamente com o objetivo de diminuir os custos de circulação que a Inglaterra
se empenhou, ainda no século XVIII, no melhoramento dos transportes. Os Ingleses
construíram um complexo sistema de canais por onde se expediam, com vantagem,
as mercadorias pesadas. Ampliaram, igualmente, a rede de estradas, introduzindo
melhoramentos no piso que se tornou convexo e com valetas, sendo,
posteriormente, macadamizado.
O desenvolvimento das vias de circulação não só favoreceu a criação de um
mercado nacional, como proporcionou a necessária ligação entre as regiões do
interior e as cidades portuárias, articulando consumos e produções internas com o
extenso mercado colonial inglês.
O alargamento do mercado externo
Os produtos ingleses impunham-se no continente europeu, quer pela sua excelente
qualidade quer pelo seu baixo preço.
Era dos longínquos mercados transoceânicos que os Ingleses retiravam os seus
maiores dividendos.
Mais de metade da frota britânica singrava em direção às Américas, quer
diretamente quer passando pela periferia africana, inscrevendo-se nas rotas do
comércio triangular.
No Oriente, quer as responsabilidades da conquista quer os direitos de comércio
foram transferidos para a Companhia das Índias Orientais.
Tendo-se apropriado de rotas e tráficos e estabelecido um domínio territorial
consistente, a Companhia enchia os seus navios com as sedas, as especiarias, os
corantes, o chá, as porcelanas e os panos de algodão indianos, muito apreciados na
Europa pela sua finura e qualidade.
Para além do lucrativo comércio Ásia-Europa, os Ingleses imiscuíram-se nos
circuitos de troca locais, o country trade.

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Em finais do século XVIII, 85 a 90% das transações externas da Índia estavam nas
mãos da companhia que manipulava os preços a seu favor.
O sistema financeiro
A superioridade inglesa assentava num sistema financeiro avançado, facilitador do
desenvolvimento económico.
Em Londres funcionava, desde o fim do século XVI, uma das primeiras bolsas de
comércio da Europa, onde se centralizavam os grandes negócios da cidade. Assim
nasceu a bolsa de valores londrina.
Bolsa de valores – Instituição financeira em que se transacionam bens mobiliários,
como fundos do Estado, ações e obrigações.
A atividade bolsista foi um importante fator de prosperidade económica, já que
permitiu canalizar as poupanças particulares para o financiamento de empresas,
alargando assim o mercado de capitais.
A operacionalidade do sistema financeiro foi reforçada em 1694, com a criação do
Banco de Inglaterra. Estava especialmente vocacionado para realizar todas as
operações necessárias ao grande comércio: aceitação de depósitos, transferências de
conta a conta, desconto de letras e também financiamentos, sempre que era
necessário, por exemplo, equipar os navios do comércio colonial.
Além destas operações, o banco tinha ainda a capacidade de emitir notas, que
circulavam como uma verdadeira moeda.
A atividade do Banco de Inglaterra foi complementada pela de dezenas de pequenas
instituições – os country banks –, que, espalhados pelo país, realizavam, em escala
mais reduzida, o mesmo tipo de operações. A gestão capitalista do setor agrícola, os
lucros comerciais e as estruturas financeiras, constituíram a base económica da
Revolução Industrial.
3.2.2 – O arranque industrial
O processo de industrialização iniciou-se em Inglaterra, na segunda metade do
século XVIII, sob o impulso de um conjunto vasto de fatores:
 Os avanços agrícolas;
 A dinâmica demográfica;
 O alargamento dos mercados;
 A capacidade empreendedora dos britânicos;
 O avanço tecnológico.
Nesta época, uma cadeia de inovações revolucionou a indústria.
A indústria têxtil

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Foi o aumento da procura, interna e externa, bem como a abundância de matéria-
prima, que impulsionaram os progressos no setor algodoeiro.
A dinâmica assim adquirida repercutiu-se em novos melhoramentos. “Se houve um
take off (arranque industrial) a seguir a 1787, o algodão foi efetivamente o
responsável”.
A metalurgia
O desenvolvimento do setor têxtil foi acompanhado pelo da metalurgia que
fornecia máquinas e outros equipamentos.
No século XIX, o crescimento deste setor intensificou-se. A partir da década de
1830, a metalurgia, ultrapassando o têxtil, tornou-se no principal setor industrial.
A força do vapor
Havia muito tempo que se procurava aproveitar a força expansiva do vapor como
força motriz.
A máquina a vapor de James Watt constituiu o primeiro motor artificial da História.
Com ela foi possível mover teares, martelos, locomotivas que, anteriormente,
dependiam do trabalho humano ou das forças da Natureza.
A manufatura cedera lugar à maquinofatura, cerne da Revolução Industrial.
Um tempo de mudança
Conhecidas como Revolução Industrial, as transformações tecnológicas
ultrapassaram muito o setor económico.
Revolução Industrial – Em sentido estrito, é um conjunto de transformações
técnicas e económicas que se iniciaram na Inglaterra na segunda metade do século
XVIII e se alargaram a quase todos os países da Europa e da América do Norte no
decorrer do século XIX. Considera-se, geralmente, que foi a invenção da máquina a
vapor e a sua subsequente aplicação aos transportes e à indústria que provocaram a
rápida mudança nos modos de produção (da manufatura passou-se à
maquinofatura). Em sentido lato, a Revolução Industrial significa o conjunto de
modificações estruturais profundas que se estabeleceram na economia, na sociedade
e na mentalidade do mundo ocidental, no período atrás referido.
Como resultado desta revolução, grandes vagas de camponeses migraram para as
cidades; uma nova classe, a burguesia industrial, elevou-se ao topo da sociedade e do
poder político; os transportes aceleraram-se e encurtaram distâncias.
Pioneira de todas estas transformações, único país a “arrancar” no século XVIII, a
Grã-Bretanha tomou a dianteira da Europa, guiando-a em direção a uma época nova: a
do capitalismo industrial.
3.3 – Portugal – dificuldades e crescimento económico

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3.3.1 – Da crise comercial de finais do século XVII à apropriação do ouro
brasileiro pelo mercado britânico
No século XVII, Portugal vivia sobretudo da reexportação dos produtos coloniais,
tais como o açúcar, o tabaco e as especiarias.
Os holandeses, franceses e ingleses que constituíam os nossos principais
mercados, passam a consumir as suas próprias produções, reduzindo
acentuadamente as compras feitas em Lisboa.
Os efeitos negativos destas novas zonas produtoras, conjugadas com a política
protecionista de Colbert, desencadearam uma crise comercial grave em Portugal.
Entre 1670 e 1692, os armazéns da nossa capital abarrotavam de mercadorias sem
compradores. O excesso de oferta refletiu-se nos preços, que baixaram sem cessar.
Esta grave crise privou Portugal dos meios necessários ao pagamento dos produtos
industriais que importava. Produzir internamente o que até aí se adquiria ao
estrangeiro pareceu aos nossos governantes a solução mais viável.
O surto manufatureiro
Nesta política distinguiram-se os vedores da Fazenda de Pedro II, D. João de
Mascarenhas, 1º marquês de Fronteira, e, sobretudo, D. Luís de Meneses, 3º conde
de Ericeira.
Este ministro procurou equilibrar a balança comercial do reino substituindo as
importações por artigos de fabrico nacional. Neste sentido:
 Procedeu à contratação de artífices estrangeiros;
 Criou indústrias (vidros, fundição de ferro, tecidos), às quais concedeu privilégios
e subsídios;
 Praticou uma política protecionista da indústria nacional, através da promulgação
de leis pragmáticas, que proibiam o uso de diversos produtos de luxo
importados;
 Recorreu à desvalorização monetária com o fim de tornar os produtos
portugueses competitivos no mercado externo;
 Criaram-se várias companhias monopolistas, às quais se deram privilégios fiscais:
a Companhia do Cachéu (escravos), a Companhia do Maranhão (comércio
brasileiro), etc.
A inversão da conjuntura e a descoberta do ouro brasileiro
Cerca de 1690, a crise comercial dá sinais de se extinguir. Uma série de conflitos
político-militares transforma as relações comerciais entre os países europeus,
prejudicando holandeses e franceses, os nossos mais diretos concorrentes.
Escoam-se os stocks dos armazéns, os preços das mercadorias coloniais elevam-se
e reativam-se as vendas dos tradicionais produtos do reino: sal, azeite e vinho. Quis

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que a esta retoma do setor comercial se viesse juntar a concretização de um velho
sonho: a descoberta de importantes jazidas de ouro no Brasil. Durante muito tempo,
nenhuma quantidade significativa de ouro se encontrou, apesar das muitas
expedições ou entradas.
Estas expedições, na sua grande maioria de iniciativa particular, tiveram como
centro São Paulo. A captura de escravos era rendosa o suficiente para motivar
colonos e aventureiros que afrontavam os muitos perigos do sertão. Foi a bandeiras e
aos seus bandeirantes que ficou a dever-se a descoberta de jazidas de ouro, no
último quartel do século XVII.
Bandeirante – Indivíduo participante numa bandeira, termo pelo qual ficaram
conhecidas as expedições armadas que percorriam o interior do Brasil em busca de
ouro e escravos. As bandeiras prolongaram-se do século XVI ao século XVIII, tendo
como centro São Paulo, pelo que os bandeirantes são também conhecidos como
“paulistas” ou “gentes de São Paulo”. A ação dos bandeirantes foi também da maior
importância para o conhecimento do território e para a fixação das fronteiras do
Brasil.
O ouro brasileiro não se revelou um incentivo ao desenvolvimento económico.
A apropriação do ouro brasileiro pelo mercado britânico
O país encontra, de novo, a sua vocação mercantil e o esforço industrializador
esmorece.
Em 1703, o projeto industrializador recebe mais um rude golpe: a assinatura, entre
Portugal e Inglaterra, do Tratado de Methuen.
O Tratado de Methuen foi responsabilizado pela derrocada da nossa indústria e
pela subsequente preponderância britânica.
Na realidade, o tratado não fez mais do que acelerar processos já em curso. Desde
meados do século XVII que os Portugueses pagavam em benefícios económicos.
O Tratado de Methuen estimulou o crescimento das exportações dos nossos
vinhos: em 1777, o mercado britânico representava 94% das nossas exportações
vinícolas! Simultaneamente, o défice comercial com a Inglaterra atingia cifras
alarmantes.
Este défice foi o maior caudal por onde se esvaiu a riqueza vinda do Brasil. Calcula-
se que, por esta via, cerca de três quartos de todo o ouro recebido tenha ido parar às
mãos dos Ingleses!
3.3.2 – A política económica e social pombalina
A crise e a consciência da nossa excessiva dependência face à Inglaterra coincidiram
com o governo do Marquês de Pombal, ministro de D. José I. O Marquês pôs em

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prática um conjunto de medidas tendentes ao reforço da economia nacional, suporte
imprescindível à grandeza do rei e do Estado que servia.
Objetivos: a redução do défice e nacionalização do sistema comercial português.
Seguindo máximas mercantilistas, Pombal impôs ao Estado e a si próprio essa
tarefa.
Em 1755, é criada a Junta do Comércio, órgão com amplos poderes, ao qual passou
a competir a regulação de boa parte da atividade económica do reino.
 Encarregava-se de reprimir o contrabando;
 Intervir na importação de produtos manufaturados;
 Vigiar as alfândegas;
 Coordenar a partida das frotas para o Brasil;
 Licenciar a abertura de lojas e a atividade dos homens de negócios.
A nacionalização e reorganização do comércio passaram também pela criação de
companhias monopolistas privilegiadas, para competir com os ingleses. Fundou a
Companhia das Vinhas do Alto Douro.
Em conjunção com estas medidas, Pombal enceta a revalorização do setor
manufatureiro, perseguindo empenhadamente os mesmos objetivos que haviam
norteado o conde da Ericeira.
Pertencentes ao Estado ou a particulares, todas as manufaturas pombalinas
receberam privilégios (instalações, subsídios, exclusivos).
Consciente de que o progresso económico passava pela promoção social da
burguesia, o Marquês procurou valorizar a classe mercantil, conferindo-lhe maior
estatuto e tornando-a mais capaz. Em 1759, criou-se em Lisboa, sob a designação de
Aula de Comércio, a primeira escola comercial da Europa. Objetivo: fornecer uma
preparação adequada aos futuros comerciantes.
Em 1770, o grande comércio foi declarado “profissão nobre, necessária e
proveitosa”, conferindo à alta burguesia, acionista das companhias monopolistas, o
estatuto nobre, que abria as portas de acesso a numerosos cargos e dignidades.
Igualmente se ficou a dever a Pombal o fim da distinção entre cristãos-novos e
cristãos-velhos, bem como a subordinação do Tribunal do Santo Ofício à Coroa.
A prosperidade comercial dos finais do século XVIII
Os resultados da política pombalina fizeram-se sentir de imediato.
Nos decénios que se seguiram, foi graças às medidas pombalinas que Portugal
viveu a sua melhor época comercial de sempre: entre 1796 e 1807, a balança
comercial obteve saldo positivo, revelando-se superavitária em relação à maioria dos
nossos parceiros comerciais.

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41
Unidade 4 – Construção da modernidade europeia
4.2 – A filosofia das Luzes
4.2.1 – A apologia da Razão e do progresso
No século XVIII desenvolve-se a crença no valor da razão humana como motor do
progresso, primeiro aplicada às ciências e logo nas reflexões sobre o desenvolvimento
das sociedades humanas. O uso da Razão conduziria ao aperfeiçoamento moral do
Homem, das relações sociais e das formas do poder político, promovendo a
igualdade e a justiça. A Razão seria a luz que guiaria a Humanidade.
Era a saída das trevas, o século XVIII, por isso ficou conhecido por “século das
Luzes”. Luzes ou Iluminismo designa o conjunto das novas ideias que marcaram a
época.
Iluminismo – Corrente filosófica que se desenvolveu na Europa do século XVIII e
que se caracterizou pela crítica à autoridade política e religiosa, pela afirmação da
liberdade e pela confiança na Razão e no progresso da ciência, como meios de atingir
a felicidade humana. Originárias da Inglaterra (Enlightenment) e da Holanda, as
“Luzes” fizeram da França o seu principal centro e, especialmente de Paris,
irradiaram para a Europa e para o Mundo. Na Alemanha, por exemplo, o movimento
é conhecido pelo nome de Aufklarüng (esclarecimento) e na Espanha por Ilustración
(ilustração).
4.2.2 – O direito natural e o valor do indivíduo
A valorização da Razão, da qual são dotados todos os homens independentemente
da sua condição social, vinha estabelecer um princípio de igualdade que punha em
causa a ordem estabelecida. Crescia a convicção de que todos os indivíduos possuem
determinados direitos e deveres que lhes são conferidos pela Natureza. Este
pensamento, base do direito natural, foi enfaticamente defendido pelos iluministas,
que consideraram o direito natural superior às leis impostas pelos Estados.
Os iluministas determinam um conjunto básico de direitos inerentes à natureza
humana:
 Direito à liberdade;
 Direito a um julgamento justo;
 Direito à posse de bens;
 Direito à liberdade de consciência.
4.2.3 – A defesa do contrato social e da separação dos poderes
A liberdade e igualdade defendidas pelos iluministas entravam em contradição
com a autoridade dos governos. Para solucionar este problema Locke propôs a

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celebração de um pacto livremente assumido entre os governantes e os governados.
O povo conferia ao governo a autoridade necessária.
A questão foi retomada por Rousseau que reafirmou que o poder político deriva
de um pacto ou contrato estabelecido entre o povo e os seus governantes – o
contrato social; reforça a ideia de que este pacto tem por finalidade o
estabelecimento de leis justas e que a obediência a essas leis em nada diminui a
dignidade dos homens. É do povo que provém todo o poder – soberania popular.
A teoria do contrato social veio transformar radicalmente o estatuto do indivíduo
no seio da comunidade política: da posição de mero súbdito, ao qual apenas
competia obedecer, elevou-se à condição de cidadão, a quem pertencem as decisões
políticas fundamentais.
Formulada por Montesquieu, a teoria da separação dos poderes advoga o
desdobramento da autoridade do Estado em três poderes fundamentais: poder
legislativo, que faz as leis; poder executivo, encarregado de as fazer cumprir; e poder
judicial, que julga os casos de desrespeito às leis. A concentração destes poderes na
mesma entidade equivale à tirania; só a sua separação garante a liberdade dos
cidadãos.
4.2.4 – Humanitarismo e tolerância
Os progressos do direito natural fizeram mais evidente a desumanidade com que
eram tratados os mais fracos e desfavorecidos. Uma das áreas em que os atropelos à
dignidade humana mais se faziam sentir era a do direito penal, que mantinha vivas a
tortura, a execução ou os trabalhos forçados. A crueldade destas práticas mereceu
aos iluministas a censura.
Isto levou ao desenvolvimento da fraternidade humana e muitos países suavizaram
a sua justiça. No século XIX, este humanitarismo desenvolveu-se conduzindo à luta
pela abolição da escravatura.
Desenvolve-se o espírito de tolerância religiosa. O pensamento iluminista advoga a
separação entre a Igreja e o Estado.
Embora a maioria dos iluministas tenha permanecido fiel à Igreja Católica, todos se
ergueram contra a intolerância, o fanatismo e a superstição.
4.2.5 – A difusão do pensamento das luzes
Os iluministas defendiam ideais que eram opostos à sociedade em que viviam, as
suas críticas à sociedade, ao absolutismo, à Igreja suscitaram, nos setores mais
retrógradas da sociedade críticas e perseguições.
Algumas monarcas (como Frederico II da Prússia e Catarina II da Rússia) mostraram
apreço por estas ideias e mantiveram correspondência com alguns iluministas.

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Colocadas no centro da vida intelectual da época, as propostas iluministas invadiram
os salões aristocráticos, os clubes privados, os cafés mais populares.
D’Alembert e Diderot publicaram A Enciclopédia ou Dicionário Racional das
Ciências, das Artes e dos Ofícios. A Enciclopédia pretendia ser um sumário de todo o
conhecimento humano.
Contribuiu para os avanços da
ciência e da técnica e para a
difusão das ideias
iluministas.

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Módulo 5 – O Liberalismo – ideologia e revolução, modelos e
práticas nos séculos XVIII e XIX
Unidade 4 – A Implantação do Liberalismo em Portugal
4.1 – Antecedentes e conjuntura (1807-1820)
Ao abrir o século XIX, Portugal parecia escapar aos ventos do Liberalismo que
sopravam fortemente na França revolucionária e dela irradiavam para o resto do
continente. O príncipe D. João (futuro D. João VI), que o estado de loucura de sua
mãe, D. Maria I, fizera regente, governava um país profundamente arreigado ao
Antigo Regime. As atividades primárias predominavam. Pesadas obrigações senhoriais
condenavam o campesinato à miséria.
O absolutismo estava para durar, tanto mais quanto se escudava na ação
repressiva da Inquisição, da Real Mesa Censória e da Intendência-Geral da Polícia.
Nos centros urbanos, uma burguesia comercial, ligada aos tráficos com o Brasil,
ansiava pela mudança. Os ideais da Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade e
Fraternidade), pouco a pouco, espalhavam-se, sobretudo entre a burguesia. Surgem
lojas maçónicas.
Uma conjuntura favorável lançou em breve o país no caminho das transformações
liberais, permitindo materializar as aspirações de mudança. Referirmo-nos ao impacto
que as Invasões Francesas tiveram em Portugal.
4.1.1 – As invasões francesas e a dominação inglesa em Portugal
Efeitos das invasões francesas
Napoleão Bonaparte decretou, em finais de 1806, o Bloqueio Continental, nos
termos do qual nenhuma nação europeia deveria comerciar com as Ilhas Britânicas.
O Príncipe Regente adotou uma política ambígua. Esta atitude custou ao país, de
1807 a 1811, o flagelo das três invasões napoleónicas.
O embarque da família real para o Brasil permitiu a Portugal manter a
independência do Estado. O preço a pagar revelou-se bem alto. Não só pela
devastação e pela destruição que as invasões causaram, mas pelo domínio político e
económico que a Inglaterra exerceu entre nós.
Corte ausente, ingleses presentes
De 1808 a 1821, Portugal viveu na dupla condição de protetorado inglês e de
colónia brasileira. D. João VI teimava em permanecer no Brasil, proclamado reino em
1815, para grande descontentamento dos Portugueses, que sofriam a humilhação da
presença inglesa. O marechal Beresford, incumbido de reestruturar o exército e
organizar a defesa do reino contra os Franceses, tornou-se generalíssimo e

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comandante-chefe das tropas portuguesas. Beresford exerceu um rigoroso controlo
sobre o funcionalismo e a economia, reativou a Inquisição e encheu as prisões de
suspeitos de jacobinismo. Em 1817, o general Gomes Freire de Andrade e mais 11
oficiais do exército foram executados, por suspeita de envolvimento numa
conspiração.
A situação económica e financeira assumia contornos de elevada gravidade. As
despesas ultrapassavam as receitas, a agricultura definhava e o comércio decrescia.
Contribuíram a abertura dos portos do Brasil, em 1808, ao comércio internacional,
assim como o tratado de comércio de 1810 com a Grã-Bretanha. Este tratado é
considerado uma confirmação do Tratado de Methuen.
Privada de importantes tráficos a burguesia portuguesa sofreu sérios prejuízos.
A rebelião em marcha
Não espanta que a agitação revolucionária lavrasse no seio da burguesia.
No Porto, notável centro da atividade mercantil, fundou-se, em 1817, uma
associação secreta com o nome de Sinédrio, cujos membros pertenciam à Maçonaria.
O Sinédrio propunha-se intervir logo que a situação se revelasse propícia, o que veio
a acontecer em 1820.
Beresford embarcou para o Rio de Janeiro, a fim de solicitar ao rei dinheiro para
pagamento das despesas militares, além de mais amplos poderes para reprimir a
crescente onda de agitação.
A ausência do marechal favoreceu a ação do Sinédrio, cujos membros se lançaram
com entusiasmo no aliciamento de figuras militares capazes de consumar a tão
desejada revolução. Esta viria a ocorrer a 24 de agosto de 1820.
4.2 – A Revolução de 1820 e as dificuldades de implantação da ordem
liberal (1820-1834)
4.2.1 – O vintismo
O triunfo da Revolução vintista
O movimento sucedido no Porto, a 24 de agosto de 1820, foi essencialmente um
pronunciamento militar com larga participação de negociantes, de magistrados e até
de proprietários fundiários de ascendência aristocrática.
Entre os dirigentes da revolução, contam-se os nomes do brigadeiro António da
Silveira, dos coronéis Sepúlveda e Cabreira, e dos burgueses Manuel Fernandes
Tomás, José Ferreira Borges e José da Silva Carvalho. Todos eles vieram a fazer parte
da Junta Provisional do Supremo Governo do Reino.
A Manuel Fernandes Tomás coube a redação do Manifesto aos Portugueses, no
qual se davam a conhecer os objetivos do movimento. Os homens de 1820

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veiculavam um profundo nacionalismo e respeito pela monarquia e pelo catolicismo.
Apelavam à aliança do rei com as forças sociais representadas nas Cortes.
Em Lisboa, a 15 de setembro, um movimento autónomo de oficiais subalternos,
apoiados por burgueses e populares, expulsou os regentes e constituiu um governo
interino.
A 28 de setembro, os governos do Porto e de Lisboa fundiram-se numa nova Junta
Provisional do Supremo Governo do Reino, com Freire de Andrade na presidência,
António da Silveira na vice-presidência e Manuel Fernandes Tomás como
encarregado dos Negócios do Reino e Fazenda.
O novo Governo exerceu funções durante quatro meses, conquistando a
unanimidade do país e até do Brasil. Teve, como principal tarefa, a organização de
eleições para as Cortes Constituintes, que iniciaram os seus trabalhos a 24 de janeiro
de 1821.
Como a Junta Provisional do Governo Supremo do Reino reconheceu, a revolução
vintista triunfou sem derramamento de sangue.
A Constituição de 1822
Coube às Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa,
reunidas desde janeiro de 1821, a elaboração do mais antigo texto constitucional
português, promulgado pelo rei D. João VI a 1 de outubro de 1822.
A Constituição de 1822 é baseada na Constituição espanhola de 1812 e nas
Constituições francesas de 1791, 1793 e 1795. Reconhece os direitos e os deveres do
indivíduo, garantindo a liberdade, a segurança, a propriedade e a igualdade perante a
lei; afirma a soberania da Nação, cabendo aos varões maiores de 25 anos, que
soubessem ler e escrever, a eleição direta dos deputados; e aceita a independência
dos poderes legislativo, executivo e judicial. Não reconhece qualquer prerrogativa à
nobreza e ao clero.
A Constituição de 1822 foi fruto da ala mais radical dos deputados presentes às
Cortes Constituintes, cuja ação é conhecida por vintismo.
Vintismo – Tendência do liberalismo português, instituída na sequência da
Revolução de 1820 e consagrada na Constituição de 1822. Caracteriza-se pelo
radicalismo das suas posições, ao proclamar o princípio da soberania popular, ao
limitar as prerrogativas reais e ao não reconhecer qualquer situação de privilégio à
nobreza e ao clero.
No que se refere à religião, os deputados conservadores entendiam que o
catolicismo deveria ser a única religião permitida no reino, ao mesmo tempo que
advogavam uma censura prévia aos escritos sobre a Igreja e a religião.

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Sobre o funcionamento das Cortes Legislativas, os deputados conservadores
defenderam o sistema inglês bicameral: uma Câmara de Deputados do Povo e uma
Câmara Alta, que representaria as classes superiores. Mas a ala radical presente nas
Constituintes impôs a solução oposta – Câmara única.
O mesmo aconteceu com o problema do veto, solucionado a contento dos
radicais: quando não concordasse com uma lei, o monarca poderia remetê-la ao
Congresso para efeito de segunda votação, mas esta seria definitiva e de aceitação
obrigatória para o rei.
Precariedade da legislação vintista de carácter socioeconómico
Nas Cortes Extraordinárias e Constituintes, também chamadas de Soberano
Congresso, pulsou o coração da vida política portuguesa.
Entre as medidas mais significativas que as Cortes tomaram, contam-se:
 A extinção da Inquisição e da censura prévia;
 A instituição da liberdade de imprensa e da liberdade de ensino (das primeiras
letras);
 A fundação do primeiro banco português, o Banco de Lisboa;
 A transformação dos bens da Coroa em bens nacionais;
 A suspensão dos noviciados nas ordens regulares e o encerramento de
numerosos mosteiros e conventos considerados injustificáveis;
 A supressão do pagamento da dízima à Igreja;
 A eliminação das justiças privadas, bem como dos privilégios judiciais quanto a
assuntos criminais e civis;
 A reforma dos forais e das prestações fundiárias.
A reforma dos forais pretendeu libertar os camponeses dos vínculos de cariz
senhorial, procurando solucionar o atraso da agricultura. Os deputados das Cortes
suprimiram, em 1821, todo um conjunto de direitos banais e de tributos pessoais,
entre os quais se citam o monopólio de fornos e lagares, o relego (obrigatoriedade de
os camponeses só venderem o seu vinho após o escoamento da colheita dos
proprietários), a aposentadoria (dever de alojar e alimentar os senhores e suas
comitivas), as coudelarias (dever de sustentarem cavalos para a guerra), as portagens
e as jeiras (trabalho gratuito na reserva ou quintã do senhor).
A ação do vintismo revelou-se plena de contradições, tendo sido tomadas medidas
liberais. A legislação vintista manifestou-se precária.
4.2.2 – A desagregação do Império Atlântico: a independência do Brasil
A caminho da separação

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De 1808 a 1821, D. João VI e a corte residiram no Brasil. Transformada em sede da
monarquia portuguesa e elevada a reino em 1815, a antiga colónia acusou um
extraordinário progresso económico, político e cultural.
Se ao desenvolvimento acrescentarmos a influência do profundo sentimento de
liberdade coletiva que, desde o início do século, vinha arrastando as colónias
americanas da Espanha para a independência, compreendemos os anseios
autonomistas dos brasileiros. Em 1789, ocorreu uma rebelião nacionalista em Vila
Rica (atual Ouro Preto), dirigida por estudantes e homens esclarecidos que chegaram
a projetar a independência de Minas Gerais e a formação de um governo
republicano. A revolta ficou conhecida por Inconfidência Mineira. Outro movimento
independentista sucedeu em 1817: a Revolução Republicana de Pernambuco que,
embora condenada ao fracasso, defendeu o separatismo do Nordeste brasileiro.
A atuação das Cortes Constituintes
A Revolução Liberal de 24 de agosto de 1820 forçou o regresso de D. João VI a
Portugal, onde chegou a 3 de julho do ano seguinte. Pressionado pela opinião pública
brasileira a manter-se na América, o monarca sentiu a inevitabilidade de uma
independência próxima. Talvez por isso tenha dito ao seu primogénito o Príncipe Real
D. Pedro, que lá permaneceu como regente.
A independência veio a verificar-se em 7 de setembro de 1822 e teve, como
motivos próximos, a política antibrasileira das Cortes Constituintes de Portugal. A
maioria dos deputados queria restituir o Brasil à condição de colónia, rejeitando o
estatuto de “Reino Unido” de que usufruía. Com esse objetivo, legislaram no sentido
de anular os benefícios comerciais atribuídos ao Brasil e de o subordinar
administrativa, judicial e militarmente a Lisboa. Golpe profundo no patriotismo
brasileiro foi dado com a ordem de regresso a Lisboa, em setembro de 1821, do
príncipe regente D. Pedro, a pretexto de concluir a sua educação na Europa.
Aconselhado a desobedecer, D. Pedro permaneceu no Brasil num ambiente de
elevada tensão e animosidade contra as Cortes Constituintes. Chegou-se ao ponto de
serem consideradas inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem no Brasil.
A independência declarada por D. Pedro nas margens do Ipiranga, em São Paulo, a
7 de setembro de 1822, só viria a ser reconhecida por Portugal em 1825, tendo
contribuído o esforço da diplomacia britânica, sinceramente empenhada no mercado
americano após ter perdido as suas colónias da América do Norte.
4.2.3 – A resistência ao liberalismo
A conjuntura externa desfavorável e a oposição absolutista
A Revolução de 1820 deparou-se com várias dificuldades, sucedendo-se num
tempo em que as grandes potências procuravam eliminar os vestígios da Revolução
Francesa. Em 1815, constituíra-se a Santa Aliança entre a Rússia, a Áustria e a Prússia.

49
Destinava-se manter a ordem política estabelecida na Europa após o Congresso de
Viena. Foi completada pela Quádrupla Aliança, que contou com a participação da
Inglaterra e da França, servindo uma e outra para reprimir vários movimentos liberais
e nacionalistas.
O ambiente hostil ao vintismo ficou patente em tentativas de bloqueio comercial
ao nosso país, na recusa de passaportes para portugueses e no apoio fornecido aos
opositores absolutistas.
Apesar de os vintistas terem declarado que não pretendiam subverter as
instituições-base do país (monarquia e religião católica), a nobreza e o clero mais
conservadores encetaram a contrarrevolução absolutista (1823).
A revolta – que ficou conhecida por Vila-Francada – terminou quando o rei D. João
VI intimou o filho para se lhe apresentar e retomou o comando da situação. Ao
mesmo tempo remodelou o Governo, entregando-o a liberais moderados, e propôs-
se a alterar a Constituição.
Em abril de 1824, os partidários de D. Miguel prenderam os membros do Governo
e semearam a confusão em Lisboa, no sentido de levar o rei a abdicar e a confiar a
regência à sua esposa. Auxiliado pelo corpo diplomático, D. João VI conseguiu debelar
o golpe, conhecido por Abrilada, e disciplinar o filho rebelde, a quem apontou o
caminho do exílio.
A Carta Constitucional e a tentativa de apaziguamento
O falecimento de D. João VI, em 1826, agravou as tensões que desestabilizavam a
cena política dos últimos anos. O problema delicado da sucessão não fora resolvido
pelo monarca falecido, que o remeteu para um Conselho de Regência provisório,
presidido pela sua filha, a infanta D. Isabel Maria.
D. Pedro considerou-se o legítimo herdeiro da Coroa portuguesa e tomou um
conjunto de medidas conciliatórias. A 26 de abril, confirmou a regência provisória da
infanta D. Isabel Maria. No dia 29, outorgou um novo diploma constitucional, mais
moderado e conservador – a Carta Constitucional.
Sendo a Carta Constitucional um diploma outorgado pelos governantes, ao
contrário das constituições, que são aprovadas pelos representantes do povo,
obviamente seria de esperar uma recuperação do poder real e dos privilégios da
nobreza.
Carta Constitucional – Documento regulador da vida política de um Estado, cuja
iniciativa pertence aos governantes, que a outorgam à Nação.
As Cortes compunham-se de duas câmaras, sendo a Câmara dos Deputados eleita
através do sufrágio indireto, por indivíduos do sexo masculino, que tivessem, pelo
menos, 100$000 réis de renda líquida anual; quanto à Câmara dos Pares, os seus

50
membros, em que se incluíam a alta nobreza, o alto clero, o príncipe real e os
infantes, eram nomeados a título vitalício e hereditário.
Através do poder moderador, a figura real era engrandecida, pois podia nomear os
Pares, convocar as Cortes e dissolver a Câmara dos Deputados, nomear e demitir o
Governo, suspender os magistrados, conceder amnistias e perdões e vetar. Ao
contrário das constituições mais radicais, os direitos do indivíduo eram relegados para
o fim do diploma.
A eliminação do vintismo não foi suficiente para derrotar a contrarrevolução
absolutista, novamente liderada pelo infante D. Miguel.
A guerra civil
D. Miguel regressou a Portugal em 1828. A sua adesão ao Liberalismo revelou-se
falsa, uma vez que se fez aclamar rei absoluto por umas Cortes convocadas à maneira
tradicional, isto é, por ordens.
Cercada a cidade do Norte pelas forças absolutistas, viveu-se o episódio mais
dramático da guerra civil entre liberais e absolutistas – o Cerco do Porto.
4.3 – O novo ordenamento político e socioeconómico (1832/24-1851)
4.3.1 – A ação reformadora da Regência de D. Pedro
Importância da legislação de Mouzinho da Silveira
Aboliram-se de vez os pequenos morgadios, os forais e os dízimos e extinguiram-se
os bens da Coroa e respetivas doações. Com estas medidas pretendia-se
disponibilizar mais terra e trabalho para as massas rurais.
A libertação da terra fez-se acompanhar da libertação do comércio e da eliminação
de situações de privilégio na organização das atividades económicas.
 Extinguiram-se as portagens e demais encargos sobre a circulação interna de
mercadorias;
 Diminuíram-se os direitos de exportação;
 Suprimiram-se os monopólios do sabão e do vinho do Porto.
Em 1833, publicou-se o primeiro Código Comercial. Teve como autor Ferreira
Borges e refletiu os princípios de livre produção e circulação dos produtos, do
liberalismo económico.
Outras medidas de Mouzinho da Silveira permitiram lançar as bases de uma nova
organização administrativa de índole centralizadora. O país ficou dividido em
províncias, comarcas e concelhos, chefiados, respetivamente, por prefeitos,
subprefeitos e provedores, todos eles funcionários de nomeação régia.
A instituição do Registo Civil teve como objetivo enquadrar civilmente os cidadãos
na administração pública.

51
Nas reformas judiciais:
 Introduziu-se o princípio do júri;
 Dividiu-se o país em círculos judiciais (depois chamados distritos de relação),
estes em comarcas, por sua vez divididas em julgados e estes últimos em
freguesias;
 No cume da pirâmide judicial, erguia-se o Supremo Tribunal da Justiça, instalado
em Lisboa, composto por juízes-conselheiros e com jurisdição sobre todo o
reino.
Nas finanças:
 Eliminação do secular sistema de tributação local;
 Surgiu um sistema de tributação nacional devidamente centralizado;
 Criou-se o Tribunal do Tesouro Público;
Na verdade, seria com a razão das leis que o seu ministro demoliria os
particularismos e privilégios de Antigo Regime, ajudando à construção do Estado e da
sociedade verdadeiramente modernos.
Outras reformas
A questão religiosa constituiu o mais melindroso assunto com que se debateu o
liberalismo português. O vintismo legislou contra o clero e contra as ordens
religiosas. Os primeiros governos liberais promoveram a hostilidade do clero, o que
ficou patente na adesão prestada aos golpes da Vila-Francada e da Abrilada e ao
restauro do Absolutismo com D. Miguel.
O facto de muitos mosteiros terem apoiado ativamente o absolutismo miguelista
permitiu ao Ministério de D. Pedro efetivar uma série de medidas tendentes à
eliminação do clero regular.
 Expulsaram-se os Jesuítas;
 Proibiram-se os noviciados.
Finalmente, por um decreto de 1834, da autoria de Joaquim António de Aguiar, o
novo ministro da Justiça, extinguiram-se todos os conventos, mosteiros, colégios e
hospícios das ordens religiosas masculinas, cujos bens foram confiscados e
incorporados na Fazenda Nacional.
Em 1834-35, o Estado liberal procedeu à venda dos bens nacionais em hasta
pública. Este expediente permitiu a Silva Carvalho, o novo ministro da Fazenda, pagar
as dívidas contraídas, evitando recorrer a um impopular aumento de impostos. Só
uma minoria de burgueses endinheirados beneficiou dessa venda, o que gerou um
descontentamento em amplas franjas sociais.
4.3.2 – Os projetos setembrista e cabralista
A Revolução de Setembro de 1836

52
A vitória definitiva do Liberalismo, em 1834, não significou a estabilidade que o
país há tanto ansiava. Passados dois anos, a Revolução de Setembro agitou a cena
política. O movimento ocorreu em Lisboa e teve um carácter eminentemente civil,
verificando-se, depois, a adesão militar.
Protagonizada pela pequena e média burguesias e com largo apoio das camadas
populares, a Revolução de Setembro reagiu tanto aos excessos de miséria, em que a
guerra civil mergulhara o país, como à atuação do Governo cartista. Este era acusado
de corrupção e de apenas defender os interesses da alta burguesia, enriquecida com
os bens nacionais, vendidos em hasta pública e cumulada de títulos de nobreza.
Atuação do Governo setembrista
O novo Governo, onde sobressaíram as figuras do visconde Sá da Bandeira e do
parlamentar Manuel da Silva Passos (Passos Manuel), declarou-se mais democrático,
empenhando-se em valorizar a soberania da Nação e reduzir a intervenção régia.
Preparou-se um novo diploma constitucional, a Constituição de 1838, que funcionou
como uma aliança entre o espírito monárquico da Carta de 1826 e o radicalismo
democrático da Constituição de 1822. O monarca perdeu o poder moderador. A
Câmara dos Pares, escolhida pela realeza, transformou-se em Câmara dos Senadores,
eleitos pelos cidadãos.
Por sua vez, a orientação económica do setembrismo procurou corresponder aos
propósitos de desenvolvimento nacional da pequena e da média burguesias,
decididas a libertar o país da tutela estrangeira, o mesmo é dizer da Inglaterra. A
pauta protecionista, de 1837, obrigava ao pagamento de direitos todos os produtos
que entrassem nas alfândegas da metrópole e ilhas adjacentes.
Setembrismo – Fação radical do liberalismo português, defensora de princípios do
vintismo, como o da soberania nacional ser a fonte de toda a autoridade. Opositor da
Carta Constitucional, o setembrismo vigorou de 1836 a 1842.
A perda do mercado brasileiro levou os dirigentes setembristas a virarem-se para a
exploração colonial em África. Para atrair o investimento de capitais para outras áreas
mais produtivas, proibiu-se o tráfico de escravos nas colónias a sul do equador.
Preocupado com a formação de elites qualificadas – políticas, jurídicas e técnicas –
e com a instrução de amplas camadas da população, o setembrismo promoveu uma
reforma do ensino primário, secundário e superior.
 Criaram-se Escolas Médico-Cirúrgicas, Escolas Politécnicas no Porto e em Lisboa,
os Conservatórios de Artes e Ofícios;
 Reformou-se a Universidade;
 Inaugurou-se o ensino liceal.

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Um certo fracasso caracteriza a política económica setembrista. Não se atreveu a
abolir taxas gravosas para os pequenos agricultores, nem penalizou com impostos os
grandes proprietários.
Para o fracasso económico do setembrismo, aponta-se a falta de capitais
(desviados para fins financeiros e usurários) e de vias de comunicação, bem como a
permanente instabilidade política.
O cabralismo e o regresso à Carta Constitucional
O Governo setembrista enfrentou constantes tentativas da restauração da Carta
Constitucional. Em fevereiro de 1842, num golpe de Estado pacífico, foi o próprio
ministro da Justiça, António Bernardo da Costa Cabral, quem pôs termo à Constituição
de 1838.
A nova governação, conhecida por cabralismo, alicerçou-se nos princípios da Carta
e fez regressar ao poder a grande burguesia.
Sob a bandeira da ordem pública e do desenvolvimento económico, Costa Cabral
apostou no fomento industrial, nas obras públicas, na reforma administrativa e fiscal:
 Difundiu-se a energia a vapor;
 Surgiu a Companhia das Obras Públicas de Portugal (1844) para construção e
reparação das estradas;
 Levantaram-se algumas pontes;
 Publicou-se o Código Administrativo (1842) de cariz centralizador;
 Tornou-se mais eficaz a cobrança de receitas e contribuições;
 Criou-se o Tribunal de Contas (1849) para fiscalizar todas as receitas e despesas
do Estado;
 Reformou-se a Saúde, proibindo-se os enterramentos nas igrejas (1846).
A inovação e a exigência das medidas de Costa Cabral, aliadas ao autoritarismo que
rodeou a sua implementação, estiveram na origem de uma série de motins populares
basicamente camponeses.
Em 1846-1847, vive-se um clima de verdadeira guerra civil entre os adeptos do
cabralismo e uma ampla frente de setembristas, cartistas puros e até miguelistas,
coligados em Juntas Revolucionárias.
As primeiras movimentações sucederam no Minho, em abril e maio de 1846, e são
conhecidas pelo nome de revolta da “Maria da Fonte”.
A demissão do Governo e a saída de Costa Cabral e seu irmão para Espanha não
foram suficientes para trazer a acalmia social e política.
A guerra civil reacendeu-se com a chamada “Patuleia”, que decorreu de outubro
de 1846 a junho de 1847.
Esteve-se perante uma rendição honrosa para as tropas patuleias.

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55
Unidade 5 – O legado do Liberalismo na primeira metade do
século XIX
5.1 – O Estado como garante da ordem liberal
5.1.1 – O Liberalismo, uma ideologia centrada na defesa dos direitos do
indivíduo
Os direitos naturais ou direitos do Homem
No rescaldo das revoluções liberais, e com particular intensidade no século XIX, o
mundo ocidental assistiu à implantação de um novo sistema de organização política,
económica e social conhecido por Liberalismo.
No cerne do Liberalismo está a ideologia liberal, que sobrevaloriza os direitos do
indivíduo, uma vez que considera ser a sociedade composta de indivíduos e não de
grupos. Esses direitos são a liberdade, a igualdade, a segurança e a propriedade. O
Liberalismo apelida-os de direitos naturais, pois derivam da condição humana que é
naturalmente livre e igualitária.
Os liberais fazem da defesa da liberdade individual o centro da sua ideologia,
apropriadamente chamada de Liberalismo.
Os direitos do cidadão; o cidadão, ator político
Para além de Homem, o indivíduo é, segundo o Liberalismo, um cidadão que
intervém na governação.
De várias maneiras se expressava a intervenção política dos cidadãos. Como
eleitores, escolhiam os representantes para as assembleias e demais cargos políticos.
Como detentores de cargos, elaboravam as leis e administravam o país, a nível central
e local. Mas participando nos clubes, assistindo às assembleias onde apresentavam
petições e interpelavam os deputados ou lendo/escrevendo nos jornais, o cidadão
anónimo intervinha na vida pública e condicionava as decisões dos Estados.
A burguesia, através do sufrágio censitário, reservou para si o poder político e
controlou o acesso às funções públicas e administrativas. Este foi o liberalismo
moderado, que fez do Estado o garante dos interesses burgueses.
5.1.2 – O liberalismo político; a secularização das instituições
O Liberalismo faz da consagração dos direitos individuais o supremo objetivo das
instituições e dos regimes políticos. Pretende um Estado neutro, que respeite as
liberdades e que faça aplicar uma lei igual para todos.
Para evitar o despotismo, quer o resultante do exercício do absolutismo régio,
quer o proveniente da ditadura popular, o liberalismo político socorre-se de uma
variedade de fórmulas que limitam o poder.

56
O constitucionalismo
É através dos textos constitucionais que os liberais legitimam o seu poder político,
substituindo um regime herdado do passado e produto do costume por um regime
assente na ordem jurídica.
A separação dos poderes
Os liberais moderados fazem também depender os direitos e garantias dos
cidadãos da observância rigorosa da separação e do equilíbrio dos poderes político-
constitucionais.
Para os liberais moderados, o princípio da separação e do equilíbrio dos poderes
não invalida, porém, o reforço do poder executivo, característica existente na Grã-
Bretanha e à qual atribuem a prosperidade económica e a concórdia civil do país.
A representante da Nação
A Nação soberana não exerce o poder de forma direta, mas confia-o a uma
representação dos “prudentes”, que são os “os proprietários”. Aos cidadãos
possuidores de um certo grau de fortuna pertence a exclusividade do direito de
eleger e de ser eleito.
Nos parlamentos, denominados de Câmara, Dieta, Estados Gerais ou
simplesmente Assembleia, encontra-se sediada a representação nacional, a quem
cabem as funções legislativas. O liberalismo moderado revela-se partidário do
bicameralismo, segundo o qual uma Câmara Baixa, de deputados eleitos se completa
com uma Câmara Alta, composta pelos descendentes da aristocracia ou outros
vultos preeminentes, todos eles da escolha do monarca.
A secularização das instituições
O Estado neutro, que respeita e defende os direitos individuais, assume-se
também como um Estado laico que separa as esferas temporal e espiritual e
seculariza as instituições que se libertam da influência religiosa.
Defensores da liberdade religiosa e das liberdades civis de consciência, de
pensamento, de expressão, de ensino, os liberais encetam uma série de reformas
destinadas a emancipar o indivíduo e o Estado da tutela da Igreja.
Institui-se o registo civil para os nascimentos, casamentos e óbitos, anteriormente
confinados à competência exclusiva da Igreja e obrigatoriamente inscritos nos
registos paroquiais.
Com o encerramento, nos países católicos, das congregações religiosas e o
desaparecimento dos seus hospitais e escolas, o Estado liberal viu-se, por sua vez, na
obrigação de criar uma rede de assistência e de ensino absolutamente laicos.

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A expropriação e a nacionalização do fundo patrimonial das ordens religiosas
contribuíram para debilitar o poderio económico da Igreja, base da sua indiscutível
influência política.
Influenciada pelo racionalismo das Luzes e pelos progressos científicos do século
XIX, a retirada do poder à Igreja, encetada pelo Liberalismo, acompanhou uma certa
descristianização dos costumes, bem como episódios de anticlericalismo.
5.1.3 – O liberalismo económico; o direito à propriedade e à livre iniciativa
Defensor dos direitos e das liberdades individuais, o Liberalismo reage contra
qualquer forma de tirania política e económica. O liberalismo económico tem raízes
no fisiocratismo: ambas as correntes defendem a iniciativa individual e a ausência
estatal de intervenção na economia, insurgindo-se, assim, contra o dirigismo
mercantilista.
Liberalismo económico – Doutrina económica, baseada no individualismo, na
liberdade absoluta de cada membro da sociedade e na ideia da ordem natural,
segundo a qual a iniciativa privada deve atuar livremente para que os desejos e os
interesses de todos sejam satisfeitos da melhor maneira possível.
Consequentemente, o Liberalismo é contra qualquer intervenção do Estado em
matéria económica; não lhe reconhece outra atribuição que não seja garantir a
liberdade total da iniciativa privada na produção e na comercialização dos bens.
O enciclopedista Quesnay foi um dos teóricos do fisiocratismo. Criticou as práticas
comunitárias de cultivo dos solos, como as pastagens comuns, que considerava
pouco rentáveis.
Gournay, outro fisiocrata, advogou a liberdade de produção industrial e de
circulação das mercadorias.
A Adam Smith se deve as linhas-mestras do liberalismo económico. Só a livre
iniciativa em busca da riqueza promoveria o trabalho produtivo, a poupança, a
acumulação de capital, o investimento. Preconizou também as chamadas leis do
mercado, assentes no livre jogo da oferta e da procura e na livre concorrência.
Das ideias apontadas decorre a necessidade da ausência de intervenção do Estado
na regulação da economia, o qual deveria abster-se de práticas protecionistas e
monopolistas, de lançar impostos sobre a circulação, de fixar preços e salários, de
controlar a contratação de mão de obra.
5.1.4 – Os limites da universalidade dos direitos humanos; a problemática
da abolição da escravatura
Nos seus textos jurídicos (Declarações dos Direitos e Constituições), os liberais
definiram a liberdade, a igualdade e a propriedade como direitos humanos universais,

58
possíveis de serem usufruídos por todos os indivíduos, em todos os tempos e lugares,
dado derivarem da condição humana.
Porém, os Estados liberais nem sempre garantiram aqueles direitos, que tiveram
os seus limites.
 A propriedade continuou privilégio dos abastados;
 A igualdade dos homens foi-o apenas perante a lei e nunca uma verdadeira
igualdade de oportunidades;
 O voto censitário predominou nos diplomas constitucionais;
 A liberdade, o princípio mais sagrado da ideologia liberal, viu-se desvirtuada.
Na França e nos Estados Unidos da América
Na França, uma série de medidas foi tomada, quer pela Assembleia Nacional
Constituinte, quer pela Convenção, a fim de pôr cobro ao esclavagismo.
Também na jovem república dos Estados Unidos da América os princípios da
liberdade e da igualdade, inscritos na sua Declaração da Independência em 1776,
conviveram, contraditoriamente, durante quase um século com a escravatura dos
negros.
O afrontamento entre abolicionistas e esclavagistas intensificou-se na segunda
metade do século XIX, vindo a culminar numa violenta guerra civil de 1861 a 1865 – a
Guerra da Sucessão, que opôs os estados do Sul aos do Norte.
A abolição da escravatura em Portugal
A problemática da abolição da escravatura em Portugal gravitou em torno da
proibição do tráfico negreiro.
Razões filantrópicas, económicas e diplomáticas conjugaram-se, no século XIX, para
que Portugal também extinguisse o tráfico esclavagista.
Na raiz da pressão britânica residiam, porém, motivações económicas. Interessava
à Grã-Bretanha o controlo dos recursos agrícolas e minerais das colónias das
economias europeias suas dependentes, que era o caso de Portugal.
Motivos económicos e filantrópicos levaram o visconde de Sá da Bandeira a
decretar a proibição de importação e exportação de escravos das colónias
portuguesas ao sul do equador, concretizada em dezembro de 1836.
Finalmente, em fevereiro de 1869, o rei D. Luís assinava e fazia publicar o decreto
do Governo, presidido pelo agora marquês de Sá da Bandeira, onde se determinava
que: “Fica abolido o estado de escravidão em todos os territórios da monarquia
portuguesa, desde o dia da publicação do presente decreto”.

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60
12ºANO
Módulo 7 – Crises, embates ideológicos e mutações culturais na
primeira metade do século XX
Unidade 1 – As transformações das primeiras décadas do século
XX

1.1 – Um novo equilíbrio global


Depois de quatro anos de destruição e morte, a Primeira Guerra Mundial chegou
ao fim em 11 de novembro de 1918, quando a Alemanha capitulou perante os
Aliados.
A Conferência da Paz teve início em janeiro de 1919, em Paris. Contou apenas com
a presença das potências vencedoras e foram três a liderar os debates: a França com
Clemenceau, a Grã-Bretanha com Lloyd George, e os Estados Unidos com Wilson.
A mensagem em 14 pontos, documento que o presidente Wilson lera um ano antes
perante o Congresso americano, serviu de base às negociações. Defendia a prática de
uma diplomacia transparente, a liberdade de navegação e de trocas, a redução dos
armamentos, o respeito para com as nacionalidades e a criação de uma liga de
nações.

61
Apesar da dificuldade em obter consensos, os acordos de paz surgiram a partir de
junho de 1919. Concretizaram-se nos tratados de Versalhes, de Saint-Germain-en-
Laye, Trianon, de Neuilly e de Sèvres, assinados com a Alemanha, a Áustria, a Hungria,
a Bulgária e o Império Otomano, respetivamente. A eles se ficou a dever uma nova
geografia política e uma nova ordem internacional.
1.1.1 – A geografia política após a Primeira Guerra Mundial. A Sociedade
das Nações
O triunfo das nacionalidades e da democracia
Os tratados de paz conduziram a uma profunda transformação do mapa da Europa
e do Médio Oriente.
Depois da queda do Império Russo, na sequência da revolução bolchevista de
outubro de 1917, os impérios alemão, austro-húngaro e otomano desmoronam-se.
Povos que viviam oprimidos no território dos impérios alcançam a independência
política, proliferando os estados-nação. Na Europa, à Finlândia, à Estónia, à Letónia e
à Lituânia, libertas do poder russo, juntam-se a Polónia, a Checoslováquia, a
Jugoslávia e a Hungria, que se separa da Áustria. Na Ásia, a Arábia nasce como um
Estado independente, a Síria, o Líbano, o Iraque (Mesopotâmia) e a Palestina são
transformados em mandatos da França e da Grã-Bretanha.
Outros estados ampliam as suas fronteiras.
 A França recupera a Alsácia-Lorena;
 A Bélgica ganha os cantões de Eupen e Malmédy;
 A Itália obtém o Tirol e a Ístria;
 A Dinamarca vê regressar a parte norte de Schleswig;
 A Roménia recebe a Transilvânia e a Bessarábia;
 A Grécia toma posse da Trácia.
Para os vencidos, as perdas afiguraram-se deveras pesadas e violentas.
 A Áustria ficou reduzida aos Alpes Orientais e a uma pequena parte da planície
danubiana, num total de 80 000 km2,;
 A Bulgária viu-se privada do acesso ao Mediterrâneo;
 A nova Turquia reduziu-se a Constantinopla e à Ásia Menor.
A grande perdedora foi a Alemanha, considerada, pelas cláusulas do Tratado de
Versalhes, responsável pela guerra.
 Viu-se amputada de 1/7 do seu solo, de 1/10 da sua população e cortada em
duas, já que o “corredor de Dantzig” (Polónia) separou a Prússia Oriental do
restante território alemão;
 Perdeu todas as suas colónias, a frota de guerra, parte da frota mercante, as
minas de carvão do Sarre (para a França, durante 15 anos);
 Foi obrigada a reparar financeiramente os prejuízos causados pela guerra.

62
O exército alemão:
 Desprovido de artilharia pesada e de carros de assalto;
 Ficou reduzido a 100 000 homens;
 O serviço militar deixou de ser obrigatório;
 O Estado-Maior alemão foi extinto;
 A margem esquerda do Reno (Renânia) sofreu a ocupação aliada e uma faixa de
50 km ficou desmilitarizada na margem direita.
A Sociedade das Nações: esperança e desencanto
A Sociedade das Nações (SDN) empenhou-se na cooperação entre os povos, na
promoção do desarmamento e na solução dos litígios pela via da arbitragem pacífica.
Quando criada, a Sociedade das Nações foi um instrumento da esperança.
Esperança de povos e de antigos combatentes que desejavam que a Grande Guerra
tivesse sido a última. Tal não veio acontecer, tanto por incapacidade da SDN como da
nova ordem internacional que se revelou ameaçada desde a própria Conferência de
Paz.
Humilhados, os povos vencidos sempre rejeitaram os tratados em cuja elaboração
não participavam. A Alemanha ficou de rastos com o diktat (refere-se aos tratados
impostos pelos mais fortes aos mais fracos) de Versalhes. O orgulho ferido do seu
povo acabou por permitir a ascensão do nazismo e o segundo conflito mundial. Para
cúmulo, nem a Alemanha nem qualquer dos vencidos foram chamados a colaborar
na SDN como estados-membros.
Quanto aos vencedores, nem todos se mostravam satisfeitos com os tratados de
paz. A Itália falava de uma “vitória mutilada”, por não se cumprirem com as
promessas feitas.
A regulamentação de fronteiras e a não resolução da questão das “minorias
nacionais” inquinaram as relações internacionais. A questão das reparações de guerra
tornou-se outro obstáculo a uma paz duradoura e ao “espírito de Genebra”.
O Congresso americano, dominado por uma minoria de republicanos isolacionistas
desde 1919, não ratificou o Tratado de Versalhes e os Estados Unidos desistiram de
participar na Sociedade das Nações. A SDN viu-se impossibilitada de desempenhar o
seu papel de organizadora da paz.
1.1.2 – A difícil recuperação económica da Europa e a dependência em
relação aos Estados Unidos
A Primeira Guerra Mundial afetou de modo desigual as economias nacionais e as
trocas internacionais. Se provocou o declínio da Europa, beneficiou países
extraeuropeus. Entre estes, destacaram-se os Estados Unidos, que se elevaram à
categoria de primeira potência mundial.

63
O declínio da Europa
No seu rescaldo, a Primeira Guerra deixou uma Europa arruinada, no plano
humano e material.
Durante a guerra, a Europa tornou-se extremamente dependente dos Estados
Unidos, seu principal fornecedor. Acumulou dívidas. Finalizado o conflito, as
economias europeias registaram grandes e naturais dificuldades de reconversão. A
Europa continuou compradora de bens e serviços americanos e viu o endividamento
agravar-se.
O recurso à emissão massiva de notas afigurou-se, aos dirigentes europeus, a
melhor solução para multiplicar os meios de pagamento e fazer face às dívidas. Mas a
circulação de uma maior quantidade de moeda fiduciária provocou uma
desvalorização monetária que se traduziu numa alta de preços interna.
A fraqueza da moeda europeia fazia-se sentir desde o início do conflito mundial,
em virtude do abandono do padrão-ouro (Gold Standard) e da consequente
inconvertibilidade das moedas.
Em 1920, a Europa viu-se a braços com uma inflação galopante. Em 1922, o Estado
austríaco declarou falência e foi colocado sob o controlo financeiro da SDN. Em 1923,
na Alemanha, a desvalorização do marco era de tal ordem que as notas se utilizavam
como combustível, para forrar paredes ou para as crianças brincarem.
Inflação – Alta geral de preços derivada de distorções existentes entre a procura
dos produtos e a oferta de bens, a quantidade de moeda que circula e a
produção/circulação de riquezas. Quando a oferta de bens não corresponde à
procura dos compradores capazes de pagar, estes últimos, para conseguirem as
mercadorias, sujeitam-se a pagar mais caro e fazem subir os preços. Em geral, a
inflação tem origens na necessidade de criar meios de pagamento suplementares
através, por exemplo, da emissão de papel-moeda.
A ascensão dos Estados Unidos e a recuperação europeia
Fornecedores dos países beligerantes e dos mercados mundiais, durante e depois
da guerra (na qual só entraram depois de 1917) e possuidores de uma elevada
parcela do ouro mundial, os Estados Unidos apresentavam, em 1919, uma imagem
de sucesso, patente numa prodigiosa capacidade de produção e na prosperidade da
sua balança de pagamento.
Mas a economia americana não ficou imune às dificuldades da Europa. Em 1920-
21, registou mesmo uma crise breve, mas violenta, relacionada com a diminuição da
procura externa. A produção industrial desceu, o índice de preços caiu e o
desemprego cresceu.

64
O taylorismo conheceu um período áureo, nos Estados Unidos e na Europa. A
concentração capitalista de empresas tornou-se uma medida necessária para
rentabilizar esforços e relançar a economia nos países industrializados.
Entretanto, a Europa procurava a estabilidade monetária. Em abril-maio de 1922
reuniu-se, para o efeito, a Conferência de Génova. Aí se decidiu que as moedas
europeias deveriam voltar à convertibilidade por intermédio do Gold Exchange
Standard, que substituía o Gold Standard anterior à guerra.
Foi, porém, nos créditos americanos que repousou a recuperação económica
europeia. Empréstimos avultados seguiram, desde 1924, para a Europa,
nomeadamente para a Alemanha, permitindo-lhe pagar as reparações devidas à
França e à Inglaterra. Ficaram estes países, em consequência, em condições de
reembolsar os Estados Unidos das dívidas de guerra e dos empréstimos, entretanto
efetuados. A dependência da Europa em relação aos Estados Unidos estava
consagrada.
Entre 1925 e 1929, sob o lema de uma produção de massa para um consumo de
massa, viveram-se os anos da prosperidade americana e os “felizes anos 20” na
Europa, caracterizados por um clima de otimismo e de confiança no capitalismo
liberal. A produção de petróleo e de eletricidade conheceu notáveis progressos e
eletrodomésticos e automóveis satisfazem a febre consumista de americanos e
europeus.
1.2 – A implantação do marxismo-leninismo na Rússia: a construção
do modelo soviético
Em outubro de 1917, a Rússia viveu uma revolução que fez do país o primeiro
Estado socialista do mundo. Em Marx buscaram os revolucionários a inspiração. Em
Lenine encontraram o líder incontestado e o grande responsável pela implementação
dos princípios marxistas. As suas ideias e a sua ação deram corpo ao chamado
marxismo-leninismo.
Marxismo-leninismo – Desenvolvimento teórico e aplicação prática das ideias de
Marx e Engels na Rússia por Lenine. Caracterizou-se por enfatizar:
 O papel do proletariado, rural e urbano, na conquista do poder, pela via
revolucionária e jamais pela evolução política;
 A identificação do Estado com o Partido Comunista, considerado a vanguarda do
proletariado;
 O recurso à força e à violência na concretização da ditadura do proletariado.
1.2.1 – 1917: o ano das revoluções
Uma situação explosiva

65
Quando o ano de 1917 se iniciou, o imenso Império Russo, governado
autocraticamente pelo czar Nicolau II, era palco de inúmeras tensões sociais e
políticas.
 Os camponeses, que constituíam 85% da população, clamavam por terras,
concentradas nas mãos dos grandes senhores e latifundiários;
 O operariado, escasso mas fortemente reivindicativo, exigia maiores salários e
melhores condições de vida e de trabalho;
 A burguesia e a nobreza liberal desejavam a abertura política e a modernização
do país.
A contestação política era protagonizada pelos socialistas-revolucionários, que
reclamavam a partilha de terras; pelos sociais-democratas, divididos em bolcheviques
e mencheviques; pelos constitucionais-democratas, adeptos do parlamentarismo à
maneira ocidental.
A participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial, desde 1914, na qualidade de
país da Entente, mais não fizera, do que agravar as fraquezas do regime
(desorganização da economia, falta de géneros, fome e a incompetência do czar e
dos seus ministros).
Da Revolução de fevereiro à Revolução de outubro
Num ambiente de generalização descontentamento e oposição ao czarismo,
sucederam-se na capital do império, Petrogrado, entre 23 e 27 de fevereiro,
grandiosas manifestações de mulheres, acompanhadas de greves dos operários da
cidade. Reunidos numa assembleia popular denominada Soviete, os operários
incitavam ao derrube do czar.
A adesão dos soldados ao Soviete resultou no assalto do Palácio de Inverno.
Desprovido de apoios, Nicolau II abdicou a 2 de março. O czarismo chegou ao fim e a
Rússia tornou-se uma república.
O Governo Provisório enfrentou momentos bem atribulados. Dirigidos por Lvov e,
depois, por Kerensky, empenhou-se na instauração de uma democracia parlamentar
e na continuação da guerra com a Alemanha.
Entretanto, toda a Rússia cobria-se de sovietes que contavam nas suas fileiras com
operários, camponeses, soldados e marinheiros. Apelavam à retirada imediata da
guerra, ao derrube do Governo Provisório, à entrega do poder aos sovietes, à
confiscação da grande propriedade. Estas reivindicações estavam incluídas nas
famosas “Teses de abril”, documento que Lenine divulgou logo que chegou à Rússia.
Sovietes – Conselhos de camponeses, operários, soldados e marinheiros da Rússia.
Os primeiros sovietes, apenas com operários, remontam à Revolução de 1905 e
foram instalados nas fábricas, como focos de ligação e dinamização dos grevistas.
Contidos pelo fracasso do movimento, reapareceram em fevereiro de 1917. A

66
Revolução bolchevista de outubro buscou nos sovietes a legitimação popular e fez
deles a base da futura organização do Estado da URSS.
Em 24 e 25 de outubro, Petrogrado assistiu a uma nova revolução. Milícias
bolcheviques, conhecidas por Guardas Vermelhos, controlaram pontos estratégicos
da cidade, assaltaram o Palácio de Inverno e derrubaram o Governo Provisório nele
sediado.
O II Congresso dos Sovietes, reunido em Petrogrado, entregou, de imediato, o
poder ao Conselho dos Comissários do Povo, composto exclusivamente por
bolcheviques. Lenine ocupou a presidência, Trotsky a Pasta da Guerra e Estaline a das
Nacionalidades.
Pela primeira vez na História, os representantes do proletariado conquistavam o
poder político.
1.2.2 – Da democracia dos sovietes ao centralismo democrático
A democracia dos sovietes; dificuldades e guerra civil (1918-1920)
O novo Governo iniciou funções com a publicação dos decretos revolucionários
que procuraram responder às aspirações das massas populares e às reivindicações
dos sovietes.
 O decreto sobre a paz convidava os povos beligerantes à negociação;
 O decreto sobre a terra aboliu, sem indemnizações, a grande propriedade,
entregando-a a sovietes camponeses;
 O decreto sobre o controlo operário atribuía aos operários das empresas a
superintendência e a gestão da respetiva produção;
 O decreto sobre as nacionalidades conferia a todos os povos do antigo Império
Russo o estatuto de igualdade e o direito à autodeterminação.
Os primeiros tempos da Revolução de outubro viveram-se sob o signo da
democracia dos sovietes.
Depois de arrastadas negociações em Brest-Litovsk, sob a direção de Trotsky, a
Rússia assinou em 3 de março de 1918 uma paz separada com a Alemanha. Perdeu a
Polónia, a Ucrânia, as províncias bálticas (Estónia, Letónia e Lituânia) e a Finlândia, ou
seja, 1/4 da sua população e das suas terras cultiváveis, 3/4 das minas de ferro e de
carvão. Foi, segundo Lenine, uma paz desastrosa mas necessária.
Proprietários e empresários criavam os maiores obstáculos à aplicação dos decretos
relativos à terra e ao controlo operário. Concorreram para a débil adesão da
população russa ao projeto bolchevique.
A resistência ao bolchevismo resultou num dos mais dramáticos episódios da
revolução russa, a terrível guerra civil iniciada em março de 1918 e que se prolongou
até 1920.

67
Os brancos, designação pela qual ficaram conhecidos os opositores ao
bolchevismo, contaram com o apoio de corpos expedicionários da Inglaterra, França,
Estados Unidos e Japão, desejosos de evitar a expansão do bolchevismo.
Os desentendimentos gerados nas hostes brancas e o receio das populações do
regresso dos antigos privilegiados contribuíram para o desfecho da guerra: a vitória
dos vermelhos, os bolcheviques, que dispuseram de um coeso e disciplinado Exército
Vermelho, organizado por Trotsky desde janeiro de 1918.
O comunismo de guerra, face da ditadura do proletariado (1918-1821)
A ditadura do proletariado assume-se como uma etapa transitória, embora
necessária, no processo de construção da sociedade socialista. O proletariado
retiraria “todo o capital à burguesia” e centraliza todos os instrumentos de produção
nas mãos do Estado, entendido como representante exclusivo e legítimo do
proletariado.
Ditadura do proletariado – Segundo a teoria marxista, é a etapa por que deve
passar a revolução socialista antes da edificação do comunismo. A ditadura do
proletariado surge para desmantelar a estrutura do regime burguês, possibilitando a
supressão do Estado e a eliminação da desigualdade social.
Este estádio é o comunismo, a que Marx chamava “a forma mais alta de
organização da sociedade”.
Comunismo – Etapa final para que caminha a revolução proletária. Caracteriza-se
pelo desaparecimento das classes sociais, pela extinção do Estado e pela instauração
de uma sociedade de abundância.
Lenine jamais escondeu os seus propósitos de implementação imediata da
ditadura do proletariado. Na Rússia bolchevista, ela revestiu-se de aspetos bem
específicos. Marx entendia o proletariado formado pelos operários vítimas da
exploração capitalista. Lenine incluía nele os camponeses, pois tinha em
consideração o atraso industrial da Rússia e as suas estruturas arcaicas e rurais.
Lenine tomou medidas enérgicas, conhecidas pelo nome de comunismo de guerra.
A democracia dos sovietes chegou ao fim com o abandono dos decretos
revolucionários que concediam a terra aos camponeses e o controlo das fábricas aos
operários.
Toda a economia foi nacionalizada, o que está de acordo com a proposta de Marx
de “centralização dos meios de produção nas mãos do Estado”.
Apelando ao heroísmo revolucionário para desenvolver a produção, o Governo
bolchevique instaurou o trabalho obrigatório dos 16 aos 50 anos; prolongou o tempo
de trabalho; reprimiu a indisciplina; atribuiu o salário de acordo com o rendimento.

68
Para emancipar o povo e o subtrair ao controlo de influências nefastas, o novo
poder soviético apostou na promoção cultural. Combateu-se o analfabetismo e
nacionalizaram-se os museus, obras artísticas, literárias e científicas, declarado
património do Estado e do povo.
A ditadura do proletariado foi, porém, a ditadura do Partido Comunista, nome
adotado pelo Partido Bolchevique em março de 1918. Em janeiro deste ano, já a
Assembleia Constituinte fora dissolvida e, até 1922, todos os partidos políticos seriam
proibidos – à exceção do comunista –, tal como os jornais “burgueses”.
O Terror institucionalizou-se. A Tcheca, polícia política criada em dezembro de
1917, foi investida de elevados poderes, na ausência de uma justiça organizada.
Prendia os suspeitos e julgava-os rapidamente. Os campos de concentração
proliferavam, tal como as execuções sumárias.
O centralismo democrático
Desde 1922, a Rússia converteu-se na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
(URSS), um Estado multinacional e federal cujas repúblicas, iguais em direitos,
dispunham de uma Constituição e de uma certa autonomia.
Para Lenine, impunha-se que o Estado soviético fosse forte, disciplinado e
democrático, de modo a garantir a vitória do socialismo. A conciliação da disciplina e
da democracia conseguiu-se com a fórmula do centralismo democrático.
Centralismo democrático – Princípio básico que norteia a organização do Partido e
do Estado comunistas, segundo o
qual todos os corpos dirigentes
são eleitos de baixo para cima,
enquanto as suas decisões são de
cumprimento obrigatório para as
bases.
O Estado forte e democrático
da URSS era impensável no
quadro do pluralismo partidário.

69
A Nova Política Económica (1921-1927)
Foi bem alto o preço a pagar pela vitória da Rússia bolchevista na guerra civil
(1918-1920). Em inícios de 1921, a economia do país estava na ruína. A produção de
cereais descera para metade da de 1913.
 Obrigados a entregar a produção ao Estado, os camponeses não produziam,
escondiam ou destruíam as suas colheitas;
 O inverno de 1920/21 foi extremamente rigoroso e foi seguido de uma seca que
originou 3 milhões de mortos de fome;
 A produção industrial diminuiu para níveis inferiores aos de 1913;
 Os transportes estavam paralisados.
Em fevereiro de 1921, Lenine muda a sua estratégia económica. O Comunismo de
Guerra cedeu lugar à Nova Política Económica (NEP), um recuo estratégico que
recorreu ao capitalismo, já que o socialismo não deveria edificar-se sobre ruínas.
As medidas da NEP:
 Agricultura:
o As requisições foram substituídas por um imposto em géneros;
o A coletivização agrária foi interrompida;
o Os camponeses aumentaram as produções;
o A percentagem de terras incultas desceu de 25% para 2,6%;
o A produção de trigo duplicou.
 Indústria:
o Desnacionalizaram-se as empresas com menos de 20 operários;
o Fomentou-se o investimento estrangeiro;
o Vieram técnicos, máquinas e matérias-primas do estrangeiro;
o Suprimiu-se o trabalho obrigatório;
o Para estimular a produtividade, atribuíram-se prémios;
o Construíram-se as primeiras centrais hidroelétricas;
o As produções de hulha, petróleo e aço registaram aumentos.
Embora o regresso ao capitalismo tivesse sido parcial – os transportes, os bancos, a
média e grande indústria e o comércio externo continuaram nacionalizados –, não
deixaram de se fazer sentir as críticas. Uma classe de camponeses abastados (os
kulaks) e de pequenos comerciantes (os nepmen) suscitou os ódios dos bolcheviques
e do Partido Comunista.
1.4 – Mutações nos comportamentos e na cultura
1.4.1 – As transformações da vida urbana
A nova sociabilidade

70
Os citadinos dirigem-se para o trabalho à mesma hora, partilham os mesmos
transportes, consomem os mesmos produtos, habitam casas semelhantes e mesmo
os lazeres tendem para a massificação.
O crescimento da classe média e a melhoria do nível de vida proporcionam uma
nova cultura do ócio, que a cidade fomenta, oferecendo inúmeras distrações.
A convivência entre os sexos torna-se mais livre e ousada.
O gosto pelo movimento, pela “ação”, fomenta a prática desportiva que entra nos
hábitos quotidianos. O ritmo de vida acelera-se e, nos anos 20, torna-se quase
frenético.
A crise dos valores tradicionais
Entre 1914 e 1918, a brutalidade da Primeira Guerra Mundial pôs em causa as
instituições, os valores espirituais e morais, todo o edifício social que tinha sustentado
a ordem burguesa do século XIX.
O impacto da destruição gerou um sentimento de descrença e pessimismo, que
afetou tanto os intelectuais como a gente comum.
Uma vaga de contestação a todos os níveis abalou a sociedade que se viu sem
referentes sólidos. A família, a indissolubilidade do casamento, a moral sexual, o
papel da mulher, os preceitos religiosos, as regras de conduta social deixaram de ter
um padrão rígido e foram aberta e sistematicamente subvertidas. Instalou-se um
clima de anomia.
Anomia social – Ausência de um conjunto de normas consistente e genericamente
aceite pelo grupo social. A anomia pressupõe a fragilidade e a relativização dos
valores que ditam a conduta dos indivíduos. É uma característica das sociedades
atuais em que as mudanças rápidas impedem a consolidação de um código social
rígido.
Este relativismo de valores acelerou as mudanças já em curso que invadiram o dia a
dia das grandes cidades.
A emancipação feminina
O movimento feminista organizado remonta ao século XIX. Por volta de 1850, as
reivindicações centravam-se no direito das mulheres casadas à propriedade dos seus
bens, à tutela dos filhos, ao acesso à educação e a um trabalho socialmente
valorizado.
Feminismo – Movimento de contestação e luta empreendido pelas mulheres com
vista ao fim da sua situação de dependência e inferioridade relativamente ao sexo
masculino. As reivindicações do movimento feminista centram-se, pois, na igualdade
(jurídica, social, económica, intelectual e política) entre os dois sexos.

71
Cerca de 1900, o direito de participação na vida política (direito ao voto) passou a
assumir um papel preponderante nas reivindicações femininas.
As sufragistas inglesas procuraram atrair a atenção pública recorrendo a meios
extremos que incluíam longas e ruidosas marchas públicas, apedrejamentos de
polícias e montras e greves de fome.
Em Portugal fundou-se, em 1909, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e,
mais tarde, a Associação de Propaganda Feminista (1911) e contaram com mulheres
prestigiadas como Ana de Castro Osório, Carolina Beatriz Ângelo, Adelaide Cabete,
Maria Veleda, entre outras.
Com exceção de um pequeno punhado de países como a Austrália ou a Finlândia,
as pretensões políticas feministas chocaram, até à Primeira Guerra Mundial, com uma
forte oposição.
As convulsões da guerra vieram alterar este estado de espírito. Com os homens nas
trincheiras, as mulheres viram-se libertas das suas tradicionais limitações como donas
de casa, assumindo a autoridade do lar e o sustento da família.
Este esforço reforçou a autoconfiança feminina e granjeou-lhe a valorização social
que até aí lhe faltava.
1.4.2 – A descrença no pensamento positivista e as novas conceções
científicas
Por meados do século XIX, o positivismo estabelecera uma confiança absoluta no
poder do raciocínio e da ciência, que considerava capazes de desvendar todos os
mistérios do Universo.
No início do século XX, o pensamento ocidental rebela-se contra este quadro de
estreita racionalidade, valorizando outras dimensões do conhecimento.
Na Filosofia, Henri Bergson defende haver realidades que escapam às leis da Física
e da Matemática e só podem ser compreendidas através de uma outra via, a que
chama intuição.
O intuicionismo de Bergson teve grande impacto na comunidade intelectual, que viu
nele uma libertação das normas rígidas do racionalismo. Mas foi a própria ciência,
com as suas desconcertantes descobertas, que mais contribuiu para a ruína do
pensamento positivista.
O conhecimento de que o átomo não era a unidade mais pequena da Natureza
abriu à Física um campo de estudos até então desconhecido, o da microfísica, área
em que o alemão Max Planck desempenhou um papel pioneiro.
A teoria quântica veio a ter profundas repercussões no avanço da microfísica pois
permitiu explicar o comportamento dos átomos e das suas partes constituintes.

72
Revelou-se assim um mundo onde não existem regras fixas, sendo impossível
determinar, com rigor, o que está a acontecer e prever o que acontecerá.
Foi Albert Einstein e a sua Teoria da Relatividade quem protagonizou a revolução
científica do início do século. Einstein destruiu as mais sólidas bases da Física ao negar
o carácter absoluto do espaço e do tempo.
As teorias de Max Planck e Einstein provocaram um profundo choque na
comunidade científica que se viu obrigada a reconhecer que o Universo era mais
instável do que até aí se pensava e a verdade científica menos universal do que se
tinha acreditado.
Abriu-se assim uma nova conceção filosófica – o relativismo – que aceita a
subjetividade do conhecimento, o mistério e a desordem, como partes integrantes do
Universo, rejeitando o pensamento positivista fundamentais na clareza, na ordem, na
explicabilidade de todos os fenómenos.
Relativismo – Abordagem científico-filosófico que admite a impossibilidade do
conhecimento absoluto e acredita que o conhecimento depende das condições, do
tempo, do meio e do sujeito que conhece.
As conceções psicanalíticas
A ideia de que o Homem possui uma mente estritamente racional ficou também
seriamente comprometida pelos estudos do médico austríaco Sigmund Freud.
Freud depressa compreendeu que, sob o estado hipnótico, os pacientes se
recordavam de pensamentos, factos e desejos que aparentemente haviam
esquecido. O indivíduo não controla e da qual não tem consciência, mas que se
manifesta no comportamento – o inconsciente. Foi com base nesta descoberta que
Freud elaborou, a partir de 1897, os princípios do que veio a chamar psicologia
analítica ou psicanálise.
Psicanálise – Ciência psicológica criada por Sigmund Freud que abarca um corpo
doutrinal teórico (sobre o psiquismo), um método de pesquisa e um processo
terapêutico. A psicanálise abriu à Psicologia um novo campo de fenómenos (o
inconsciente), através do qual procura explicar comportamentos até aí tidos como
inexplicáveis.
Segundo a psicanálise, o psiquismo humano estrutura-se em três níveis distintos: o
consciente, o subconsciente e o inconsciente.
O indivíduo tem tendência para bloquear desejos ou factos indecorosos e
culpabilizantes, remetendo-os para o inconsciente onde ficam aprisionados, num
aparente esquecimento. Os impulsos e sentimentos assim recalcados persistem em
afluir à consciência, materializando-se em lapsos, esquecimentos súbitos, pequenos

73
gestos de que não nos damos conta ou em distúrbios psíquicos a que Freud chama
neuroses.
Um método de tratamento das neuroses baseia-se em grande parte na “livre
associação”, em que, sob a orientação do médico, o paciente deixa fluir, livremente,
as ideias que lhe vêm à mente, e na análise dos sonhos, considerados por Freud a “via
régia de acesso ao inconsciente”.
1.4.3 – As vanguardas: ruturas com os cânones das artes e da literatura
Nas primeiras décadas do século XX, uma autêntica explosão de experiências
inovadoras convulsiona as artes. Artistas e escritores derrubam as convenções
académicas, criando uma estética inteiramente nova.
Este movimento cultural, conhecido como modernismo, irradiou de Paris que era o
centro artístico da Europa. A cidade era o cerne da vanguarda cultural europeia, plena
de talentos e entusiasmo.
Modernismo – Movimento cultural das primeiras décadas do século XX que
revolucionou as artes plásticas, a arquitetura, a literatura e a música, estendendo-se
também às restantes manifestações culturais. O modernismo reivindica a liberdade
de criação estética repudiando todos os constrangimentos, em especial os preceitos
académicos.
Vanguarda cultural – Movimento inovador no campo artístico, literário ou em
qualquer outra área da cultura que rejeita os cânones estabelecidos e antecipa
tendências posteriores.
O fauvismo
 Quando? – 1905
 Onde? – Salon d’Automne, Paris
 Objetivo – Buscavam pintar as sensações e espírito livre da sociedade em
transformação
 Características: colorismo muito intenso; primado da cor sobre a forma; cor
desenvolve-se em grandes manchas que delimitam planos; colorido
autonomiza-se completamente do real
 Pintores (Henri Matisse): André Derain; Maurice de Vlaminck.
Fauvismo – Corrente vanguardista, marcadamente francesa, iniciada em 1905 e
liderada pelo pintor Henri Matisse. Defende o primado da cor na pintura e utiliza-a
com total liberdade, em tons fortes agressivos, negligenciando a precisão da
representação. Como grupo, os fauves tiveram uma curta duração desmembrando-se
por volta de 1908.
O expressionismo
 Quando? – 1905

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 Onde? – Alemanha
 Objetivo – Tentativa de abalar o conservadorismo, grito de revolta individual
contra uma sociedade moralista e hierarquizada
Die Brücke (A Ponte)
 Quando? – 1905
 Onde? – Dresden
 Características: arte impulsiva, fortemente individual; grandes manchas de cor,
intensas e contrastantes; temática pesada (angústia, desespero, morte, sexo,
miséria social); formas primitivas e simples; forte tensão emocional; formas
distorcidas; cores intensas
 Pintores (Ernst Ludwig Kirchner): Max Pechstein; Otto Mueller.
Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul)
 Quando? – 1911
 Onde? – Munique
 Características: desenho menos pesado; intelectualização bastante maior
 Pintores (Vassily Kandinsky/Franz Marc): August Macke; Paul Klee.
Como corrente organizada, o expressionismo permaneceu um movimento
marcadamente alemão, embora tenha cruzado influências com os pintores de Paris.
Expressionismo – No sentido lato, designa as formas artísticas que tendem para a
expressão subjetiva e emotiva. Num sentido restrito, designa uma corrente de
vanguarda das três primeiras décadas do século XX, marcadamente alemã, que
proclama como objetivo da arte a representação de emoções e insiste na escolha de
temas fortes de índole psicológica e social.
O cubismo
 Quando? – 1907
 Onde? – Paris
 Objetivo – Verdadeira libertação da arte
 Características: geometrismo; estilização volumétrica da arte africana
 Pintores (Pablo Picasso): Georges Braque
O cubismo analítico
 Quando? – 1908
 Características: geometrizaram e simplificaram formas; tratamento lógico e
construtivo dos volumes; destruição completa das leis da perspetiva; os motivos
são minuciosamente decompostos em facetas geométricas que se intercetam e
sucedem; volume aberto; cores restringem-se a azuis, cinzentos e castanhos
O cubismo sintético. Os novos materiais
 Quando? – 1911

75
 Características: processo de reconstrução/recriação; elementos fundamentais
reagrupados de uma maneira mais coerente e mais lógica; pormenor eliminado;
cor regressa; juntam aos materiais objetos comuns (madeira, cartão, tecidos,
etc.)
Em síntese:
 Destruiu as leis tradicionais da perspetiva e da representação;
 Alargou os horizontes plásticos introduzindo neles materiais comuns;
 Proporcionou meios de expressão a outras correntes.
Cubismo – Movimento artístico iniciado por Picasso e Braque, cerca de 1907, que
rejeita a representação do objeto em função da perceção ótica e a substitui por uma
visão intelectualizada globalizante de tipo geométrico. Distingue-se entre o cubismo
analítico (até 1912 sensivelmente) e o cubismo sintético (de 1912 até meados dos
anos 20).
O abstracionismo
 Quando? – 1910
 Onde? – Rússia
 Pintores (Vassily Kandinsky)
O abstracionismo sensível ou lírico
 Características: forma abstrata é uma linguagem universal; as abstrações de
forma e de cor, tal como a música, atuam diretamente na alma
O abstracionismo geométrico
 Quando? – 1911-1914
 Características: supressão, na obra de arte, de toda a emotividade pessoal e
também de tudo o que é efémero ou acessório; linhas retas e figuras
geométricas
Abstracionismo – Movimento artístico que rejeita o tema ligado à realidade
concreta, à descrição do visível. A obra de arte abstrata procura uma linguagem
universal capaz de superar as diferenças intelectuais culturais dos espectadores.
O futurismo
 Quando? – 1909
 Onde? – França
 Objetivo – Glorifica o futuro
 Características: exaltação da guerra; representação do mundo industrial: a
cidade, a máquina, a velocidade, o ruído; simultaneísmo e a decomposição
fragmentada
 Pintores (Filippo Marinetti)

76
Futurismo – Movimento artístico criado pelo escritor F. Marinetti em 1909.
Caracteriza-se pela rejeição total da estética do passado e pela exaltação da
sociedade industrial. Os futuristas nutrem particular admiração pela tecnologia
moderna e pela velocidade.
O dadaísmo
 Quando? – 1916
 Onde? – Zurique
 Objetivo – Desprezo pelo mundo violento sacudido pela guerra, sociedade e
pelas suas regras, desprezo pela própria arte
 Características: fome de absurdo; destruir os fundamentos da Arte; negar a arte
e o seu valor; antiarte
 Pintores: Max Ernst; Hans Arp; Duchamp
Dadaísmo – Movimento de contestação artística que recusa todos os modelos
plásticos e a própria ideias de arte. Nascido na Suíça, em 1916, o dadaísmo difunde-
se internacionalmente e atinge o seu apogeu em França, cerca de 1920.
Verdadeiramente desconcertante e inovador, levando ao extremo a espontaneidade
e a irreverência, Dada influenciou os mais importantes movimentos artísticos da
segunda metade do século XX, como o Happening, a Pop Art e a Arte Conceptual.
Diretamente, a via dadaísta desembocou, por intermédio de alguns dos seus
membros (F. Picabia, Man Ray, Max Ernst, André Breton…) no movimento surrealista.
O surrealismo
 Quando? – 1924
 Onde? – França
 Objetivo – Desprezo pelo mundo violento sacudido pela guerra, sociedade e
pelas suas regras, desprezo pela própria arte
 Características: Influência de Freud e da psicanálise; “Modelo da arte”
deslocava-se para o mundo da interioridade, era agora procurado na mente do
artista
 Pintores (André Breton): Salvador Dalí; Paul Éluard; André Masson
Surrealismo – Movimento estético iniciado em França, em 1924, que, tendo
aparecido no campo da literatura, se estendeu rapidamente à pintura, à escultura e
ao cinema. O movimento surrealista fez a apologia da arte como mecanismo de
projeção do inconsciente, recorrendo aos mais diversos meios para expressar a
realidade interior do artista.
Em síntese
As vanguardas:
 Libertaram a figuração da sujeição ao modelo;
 Desconstruíram o espaço pictórico;

77
 Adotaram novos objetos temáticos;
 Alargaram o universo da pintura;
 Introduziram um conjunto vasto de novos materiais artísticos.
Os caminhos da literatura
No início do século XX, uma verdadeira revolução pôs em causa os valores e as
tradições literárias. A literatura percorreu, nesta época, todas as vias que a expressão
escrita permite percorrer. Nas primeiras décadas de novecentos, as obras voltam-se
para a vida psicológica e interior das personagens. Se a modernidade das obras se
situa ao nível do tema e da sua abordagem, outras há que se destacam pela
introdução de novas formas de expressão, ao nível da linguagem e da construção
frásica. Estas correntes romperam convenções e abriram as portas a obras de grande
valor, verdadeiramente inovadoras.
1.5 – Portugal no primeiro pós-guerra
1.5.1 – As dificuldades económicas e a instabilidade política e social; a
falência da 1º República
A 1º República portuguesa (1910-1926) esteve longe de proporcionar a acalmia de
que o país tanto necessitava.
O parlamentarismo contribuiu para uma crónica instabilidade governativa. Em 16
anos de regime, houve 7 eleições gerais para o Congresso, 8 para a Presidência e 45
governos. O laicismo da República originou um violento anticlericalismo. A proibição
das congregações religiosas, as humilhações impostas a sacerdotes e a excessiva
regulamentação do culto granjearam à República a hostilidade da Igreja e do país
conservador e católico.
Dificuldades económicas e instabilidade social
Em março de 1916, Portugal entrou na Guerra, integrando a causa dos Aliados. A
sua participação no conflito mundial acentuou os desequilíbrios económicos e o
descontentamento social.
 A falta de bens de consumo, os racionamentos e a especulação desesperaram
os Portugueses;
 Com a produção industrial em queda, o défice da balança comercial cresceu;
 A dívida pública disparou;
 A diminuição das receitas orçamentais e o aumento das despesas conduziram os
governos ao expediente: o da multiplicação da massa monetária em circulação
que desvalorizou a moeda e originou uma inflação galopante.
O processo inflacionista permaneceu para além da guerra.
As classes médias sentiram-se traídas pela República, de quem tinham sido o
grande sustentáculo. Nos anos 20, o seu poder de compra achou-se reduzido a

78
metade do que fora em 1910. A situação desesperada do operariado originou
frequentes greves, manifestações. Alguns grupos mais extremistas recorriam à
violência.
O agravamento da instabilidade política
A Guerra trouxe consigo o agravamento da instabilidade política. Em 1915, o
general Pimenta de Castro dissolveu o Parlamento e instaurou uma ditadura militar.
O major Sidónio Pais, em dezembro de 1917, destituiu o Presidente da República,
dissolveu o Congresso e fez-se eleger presidente por eleições diretas, em abril de
1918. Autoproclamava-se o fundador de uma “República Nova”. Apesar de ser visto
por muitos como o “salvador da Pátria”, foi assassinado em dezembro de 1918.
Em janeiro/fevereiro de 1919, houve guerra civil em Lisboa e no Norte. Os
monárquicos proclamaram na cidade do Porto a “Monarquia do Norte”.
No entanto os diversos partidos republicanos continuam a desentender-se. Entre
1919 e 1926 houve 26 governos.
À instabilidade governativa somavam-se atos de violência. Foi o caso da célebre
“Noite Sangrenta” (19 de outubro de 1921), em que ocorreu o assassinato do chefe
do Governo, António Granjo.
A falência da 1º República
A oposição conspirava contra a República:
 A Igreja opunha-se ao ateísmo republicano. Em 1915, funda o Centro Católico
Português. As aparições de Fátima, em 1917, tiveram um papel no declínio do
anticlericalismo;
 A alta burguesia (grandes proprietários e capitalistas) agita o tema da ameaça
bolchevista. Criaram, em 1922, a Confederação Patronal, transformada em
União dos Interesses Económicos;
 As classes médias sentem-se ameaçadas pelo caos económico e social e temem
a sua proletarização.
Com exceção dos políticos do Partido Democrático e dos sindicalistas, ninguém
defendeu a República em 1925-26. A 1º República portuguesa caiu, em 28 de maio de
1926, às mãos de um golpe militar.
1.5.2 – Tendências culturais: entre o naturalismo e as vanguardas
No início do século XX, em Portugal a corrente naturalista reunia as preferências do
público, das instituições oficias e da crítica.
Embora os políticos republicanos se revelassem culturalmente conservadores, a
República acabou por propiciar os primeiros sinais de mudança nos gostos e padrões
estéticos. Foi assim que um conjunto de jovens artistas e escritores se propôs, desde

79
os anos 10 do século XX, agitar a cena cultural nacional com a originalidade, a ousadia
e o cosmopolitismo das suas propostas estéticas. Conhecidas por modernismo, nelas
se mesclavam as vanguardas europeias como o cubismo, o futurismo, o
expressionismo, o abstracionismo.
Distinguem-se duas gerações de modernismo. Ambas nasceram nas últimas
décadas do século XIX.
O primeiro modernismo (1911-1918)
Na pintura, o primeiro modernismo ficou ligado a um conjunto de exposições
realizadas com regularidade desde 1911, em Lisboa e no Porto. Nelas encontramos
artistas como Manuel Bentes, Almada Negreiros, Jorge Barradas.
Os desenhos apresentados, muitos deles caricaturas, perseguiam objetivos de
sátira política, social e anticlerical. Entre enquadramentos boémios e urbanos,
avultavam as cenas elegantes de café e as cenas populares com as suas figuras
típicas.
Este primeiro modernismo sofreu um impulso notável com a eclosão da Primeira
Guerra Mundial, principalmente quando regressaram Amadeo de Souza-Cardoso,
Guilherme Santa-Rita, Eduardo Vieira e o casal Robert e Sonia Delaunay.
Destes regressos resultou a formação de dois polos ativos e inovadores: um em
Lisboa, liderado por Almeida Negreiros e Santa-Rita; outro polo radicou-se no Norte
em torno do casal Delaunay, de Eduardo Vieira e de Amadeo.
Com a publicação de Orpheu, revista de que apenas saíram dois números em 1915,
o modernismo português revelou a sua faceta mais inovadora, polémica e
emblemática: a do futurismo. A revista contou com a colaboração de Mário de Sá-
Bandeira, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, entre outros.
Apesar da curta duração da revista, desempenhou um papel importante.
Promoveu novas formas literárias e artísticas e contestou o naturalismo. Apesar de
terminada a revista, o movimento cultural manteve-se vivo.
O segundo modernismo (anos 20 e 30)
Nos anos 20 e 30, decorreu um novo ciclo no movimento modernista, que
continuou a conciliar as letras e as artes plásticas.
A revista Presença surgiu, em Coimbra, em março de 1927 e foi publicada até
1940. Foi fundada por José Régio, Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões.
Seguiram a linha do pensamento fundado pela revista Orpheu e lutaram contra o
academismo literário, por uma crítica livre.
Em 1933, António Ferro assumiu a direção do Secretariado da Propaganda
Nacional. A partir então, a quase totalidade dos artistas modernos foi utilizada na
construção da imagem de “novidade” que o Estado Novo pretendia criar.

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O impacto do modernismo na escultura e na arquitetura
Escultura
À semelhança do ocorrido na pintura, também a escultura da primeira década do
século XX ficou marcada pela hegemonia do gosto naturalista, de características
modernistas nos anos 20.
Caraterísticas: simplificação geométrica das formas e volumes; busca da
essencialidade plástica; facetação das superfícies.
Escultores: Francisco Franco; Diogo de Macedo; Canto da Maia.
Arquitetura
Os primeiros sinais de uma nova linguagem arquitetónica datam dos anos 20.
Caraterísticas: uso do betão armado; predomínio da linha reta sobre a curva;
despojamento decorativo das paredes; utilização de grandes superfícies de vidro, nos
terraços e coberturas planos.
Arquitetos: Cristino da Silva; Carlos Ramos; Pardal Monteiro; Cottinelli Telmo;
Cassiano Branco.

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Unidade 2 – O agudizar das tensões políticas e sociais a partir dos
anos 30
2.2 – As opções totalitárias
No mundo ocidental, o século XX despontou sob o signo do demoliberalismo.
Com o passar dos anos 20, um novo sistema de exercício do poder confrontou o
demoliberalismo. Movimento ideológicos e políticos subordinaram o indivíduo a um
Estado omnipotente, totalitário e esmagador. Na Rússia soviética, o totalitarismo
adquiriu uma feição revolucionária: nasceu da aplicação do marxismo-leninismo e
culminou no estalinismo. Já na Itália e posteriormente na Alemanha, o Estado
totalitário foi produto do fascismo e do nazismo e revestiu um cariz mais
conservador.
Totalitarismo – Sistema político, no qual o poder se concentra numa só pessoa ou
no partido único, cabendo ao Estado o controlo da vida social e individual.
2.2.1 – Os fascismos, teoria e práticas
Nos anos 30, a depressão económica acentuou a crise da democracia liberal. Uma
vaga autoritária e ditatorial a Europa. Designam-se por fascistas as novas experiências
políticas que tiveram no fascismo italiano e no nazismo alemão os grandes
paradigmas.
Fascismo – Sistema político instaurado por Mussolini na Itália, a partir de 1922.
Profundamente ditatorial, totalitário e repressivo, o fascismo suprimiu as liberdades
individuais e coletivas, defendeu a supremacia do Estado, o culto do chefe, o
nacionalismo, o corporativismo, o militarismo e o imperialismo. Por extensão, o
termo fascismo designa também todos os regimes totalitários da direita e até mesmo
simples regimes autoritários.
Nazismo – Sistema político instaurado por Hitler na Alemanha a partir de 1933.
Para além de perfilhar os princípios ideológicos do fascismo, distinguiu-se pelo
racismo violento, fundamentando-o numa suposta superioridade biológica e
espiritual do povo ariano, ao qual pertenceriam os alemães. Ao Estado nazi – erigido
em Estado racial – incumbiria não só a preservação da raça superior, libertando-a do
contacto com os elementos impuros – daí as perseguições aos judeus –, mas também
a sua expansão – do que resultou a teoria do “espaço vital” e o imperialismo alemão.
Uma nova ordem antiliberal e antissocialista, nacionalista e corporativista
O Estado totalitário fascista define-se pela oposição firme ao liberalismo, à
democracia parlamentar e ao socialismo.
O fascismo entende que acima do indivíduo está o interesse da coletividade, a
grandeza da Nação e a supremacia do Estado. A apologia do primado do Estado sobre

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o indivíduo leva o fascismo a desvalorizar a democracia partidária e o
parlamentarismo. O exercício do poder legislativo por assembleias é menosprezado
pelo fascismo, que rejeita a teoria liberal da divisão dos poderes e faz depender a
força do Estado do reforço do poder executivo.
Para além do liberalismo e da democracia, também o socialismo merece ao
fascismo a total reprovação. Para o fascismo, a luta de classes é algo de abominável
porque divide a Nação e enfraquece o Estado. Por isso, o fascismo concebeu, na
Itália, um modelo peculiar de organização socioeconómica, o corporativismo,
destinado a promover a colaboração entre as classes.
Corporativismo – Forma de organização socioeconómica que defende a
constituição de corpos profissionais (corporações) de trabalhadores, patrões e
serviços, que conciliam os seus interesses de modo a promoverem a ordem, a paz e a
prosperidade, ou seja, o bem-estar geral.
Outro motivo da hostilidade fascista relativamente ao socialismo deriva do seu
nacionalismo fervoroso, exaltador das glórias pátrias, ser absolutamente incompatível
com os apelos socialistas ao internacionalismo proletário.
O totalitarismo do Estado fascista exerceu-se a vários níveis:
 Político: a oposição política foi aniquilada;
 Económico: as atividades económicas sofreram uma rigorosa regulamentação;
 Social: a sociedade enquadrou-se em organizações afetas ao regime, que a
controlaram;
 Cultural: a própria verdade foi monopolizada pelo Estado, que impedia a
liberdade de pensamento e de expressão.
Elites e enquadramento das massas
Ao contrário do demoliberalismo, que acredita na igualdade entre os homens e
defende o respetivo acesso à governação, o fascismo parte do princípio de que os
homens não são iguais, a desigualdade é útil e o governo só aos melhores, às elites,
deve competir.
Os chefes (o Duce na Itália fascista, o Führer na Alemanha nazi) foram promovidos
à categoria de heróis. Deviam ser seguidos sem hesitação, prestando-lhes um
verdadeiro culto que raiava a idolatria. Mas as elites não incluíam apenas os chefes.
Delas faziam parte a raça dominante (para Hitler era a raça ariana), os soldados e as
forças militarizadas, os filiados do partido. Consideradas cidadãs inferiores, às
mulheres nazis estava destinada a vida do lar e a subordinação ao marido; os seus
ideais resumiam-se aos três K – Kinder, Küche, Kirche (crianças, cozinha, igreja).
Numa sociedade profundamente hierarquizada e rígida, as elites mereciam o
elevado respeito das massas. A obediência cega das massas obcecou a prática

83
fascista, avessa à vontade individual e ao espírito crítico. Por isso, os ideais fascistas
se inculcavam primeiramente nos jovens.
 Itália: 4 anos – “Filhos da Loba”; 8 aos 14 anos – “Balillas”; 14 anos –
Vanguardistas; 18 – Juventudes Fascistas.
 Alemanha: 10 anos – início; 18 anos – Juventudes Hitlerianas.
A arregimentação de italianos e alemães prosseguia na idade adulta, deles se
esperando a total adesão e a identificação com o fascismo. Contava-se com diversas
organizações de enquadramento de massas:
 O Partido único (Nacional-Fascista na Itália, Nacional-Socialista na Alemanha) e
as milícias cuja filiação se tornava indispensável para o desempenho das funções
públicas e militares e de cargos de responsabilidade;
 A Frente do Trabalho Nacional-Socialista e as corporações italianas, que
forneciam aos trabalhadores condições favoráveis na obtenção de emprego
(substituíram os sindicatos livres, entretanto proibidos e desmantelados);
 A Dopolavoro na Itália e Kraft durch Freude na Alemanha, associações
destinadas a ocupar os tempos livres dos trabalhadores com atividades
recreativas e culturais que não os afastassem da ideologia fascista.
Uma máquina de propaganda promoveu o culto do chefe, publicitou as realizações
do regime e submeteu a cultura a critérios nacionalistas e até racistas.
Propaganda – Conjunto de meios destinados a influenciar a opinião pública. Nos
Estados totalitários, a propaganda procura inculcar nas massas a sua ideologia e os
seus valores culturais e morais. Entre os meios utilizados, citam-se os discursos, a
imprensa, panfletos, cartazes, a rádio, o cinema, a televisão, marchas, canções,
uniformes, emblemas, manifestações.
Grandiosas manifestações, onde avultavam as paradas, os uniformes e os
estandartes, foram alvo de uma cuidada encenação teatral que entusiasmava as
multidões.
O culto da força e da violência e a negação dos direitos humanos
A repressão policial e a violência, exercida pelas milícias armadas e pela polícia
política, tornaram-se decisivas para garantir o controlo da sociedade e a sobrevivência
do totalitarismo.
Ambas as ideologias defenderam o culto da força e a “natureza selvagem” do
Homem. Na Itália, ainda Mussolini não conquistara o poder e já os esquadristas
semeavam o pânico com as suas “expedições punitivas”. Em 1923, os esquadristas
foram reconhecidos oficialmente como milícias armadas do Partido Nacional-Fascista.
Receberam a designação de Milícia Voluntária para a Segurança Nacional, cabendo-
lhes vigiar, denunciar e reprimir qualquer ato conspiratório. Idênticas funções

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competiam à polícia política, criada em 1925 e muito a propósito apelidada de
Organização de Vigilância e Repressão do Antifascismo (OVRA).
Na Alemanha, em 1921 e 1923, respetivamente, o Partido Nacional-Socialista criou
as Secções de Assalto (S.A.) e as Secções de Segurança (S.S.), milícias temidas pela
brutalidade das suas ações, em que os espancamentos e a tortura eram
procedimento corrente.
As milícias e a polícia política (Gestapo) exerceram um controlo apertado sobre a
população e a opinião pública. Incentivavam a vigilância mútua, indo ao ponto de
mentalizar as crianças para apresentarem queixa dos pais que contrariassem as
disposições nazis.
A criação dos primeiros campos de concentração, em 1933, completou o
dispositivo repressivo do nazismo. Administrados pelas S.S. e pela Gestapo, neles se
encerravam os opositores políticos.
A violência racista
O desrespeito do nazismo pelos direitos humanos atingiu os cumes do horror com a
violência do seu racismo. Para Hitler, os povos superiores eram os arianos, que
tinham nos alemães os seus mais puros representantes. Estas ideias encontravam-se
descritas no Mein Kampf, obra que Hitler redigiu na prisão, depois do fracasso do
putsch de Munique, em 1923.
Obcecados com o apuramento físico e mental da raça ariana (alemães altos e
robustos, louros e de olhos azuis), os nazis promoveram o eugenismo, aplicando as
leis da genética na reprodução humana.
Procedia-se à eliminação dos alemães “degenerados” (deficientes mentais,
doentes incuráveis e velhos incapacitados), remetidos para câmaras de gás em
centros de eutanásia.
Aos Alemães competiria fatalmente o domínio do Mundo, se necessário à custa de
submissão e/ou eliminação dos povos inferiores. Judeus, ciganos e Eslavos, cujos
territórios da Europa Central e Oriental forneciam aos Alemães o tão necessário
espaço vital (Lebensraum).
Logo em 1933, começou a primeira vaga de perseguições antissemitas: boicotaram-
se as lojas de judeus, interditou-se o funcionalismo público e as profissões liberais
aos não arianos e instituiu-se o “numerus clausus” nas universidades.
O segundo movimento antijudaico iniciou-se em 1935, com a adoção das Leis de
Nuremberga, para a “proteção do sangue e da honra alemães”: os alemães de origem
judaica foram privados da nacionalidade; o casamento e as relações sexuais entre
arianos e judeus foram proibidos.

85
Em 1938, realizou-se a liquidação das empresas judaicas e o confisco dos seus
bens. Nesse ano, ficou célebre o pogrom da “Noite de Cristal” (9-10 de novembro),
em que foram destruídas sinagogas e lojas dos judeus. O segregacionismo foi levado
a pontos extremos: os judeus deixaram de poder exercer qualquer profissão e de
frequentar lugares públicos, passando a ser identificados pelo uso obrigatório e
vexatório da estrela amarela.
A fase mais cruel do antissemitismo chegou com a Segunda Guerra Mundial. Os
nazis puseram em prática um meticuloso plano de destruição do povo judaico, que se
veio a saldar no genocídio de quase 6 milhões de judeus. Em janeiro de 1942, na
Conferência de Wannsee, essa destruição adquiriu a dimensão de um extermínio,
designado por “solução final do problema judaico”.
Antissemitismo – O mesmo que hostilidade aos Judeus. No século XIX, o
antissemitismo assumiu, em alguns países europeus, o carácter de racismo, ao
identificar o povo judeu como uma raça inferior e destruidora. Esta forma de
antissemitismo atingiu o auge em pleno século XX, na Alemanha nazi, originando a
morte de milhões de judeus.
Genocídio – Política praticada por um governo visando a eliminação em massa de
grupos étnicos, religiosos, económicos ou políticas. Embora a História registe
múltiplos genocídios, foram os regimes totalitários que levaram a extremos a prática
do genocídio. O genocídio judaico durante a Segunda Guerra Mundial é também
apelidado de Holocausto ou, em hebreu, de Shoah (catástrofe).
Os judeus acabaram deportados para campos de concentração. Campos de
trabalho foi a designação que a perversidade nazi lhes atribuiu. Campos de morte foi
no que se tornaram pelas carências alimentares e de higiene, pelas doenças, pela
brutalidade dos trabalhos forçados, pelas execuções sumárias, pelos massacres nas
câmaras de gás.
Nos campos de concentração terminaram os seus dias milhões de judeus, mas
também muitos ciganos e eslavos, cujo único crime foi o de não terem nascido arianos.
A autarcia como modelo económico
A recuperação da economia preocupou os regimes de Itália e da Alemanha, que
sofreram de uma forma contundente a crise do pós-guerra e os efeitos da Grande
Depressão. Em ambos os países se adotou uma política económica intervencionista e
nacionalista que ficou conhecida pelo nome de autarcia.
Na Itália
 Realizaram-se grandes batalhas de produção:
o “batalha da lira” – estabilização da moeda;
o “batalha do trigo” (1925) – aumento da produção de cereais, diminuição das
elevadas importações;

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o “batalha da bonificação” – recuperação de terras, criação de novas
povoações nas zonas a sul de Roma;
O comércio foi alvo de enquadramento do Estado, que subiu os direitos
alfandegários e controlou o volume das importações e das exportações. A criação,
em 1931 e 1933, do Instituto Imobiliário Itálico e do Instituto para a Reconstrução
Industrial permitiu ao Estado financiar as empresas em dificuldade e intervir
fortemente no setor industrial. Este dirigismo económico do Estado fascista atingiu a
sua plenitude em 1934-35, quando a Itália se lançou na aventura colonial da
conquista da Etiópia, que lhe permitiu a exploração de fontes de energia e minérios e
a criação de produtos de síntese química como a borracha artificial.
Na Alemanha
Hitler chegou ao poder na Alemanha em janeiro de 1933. Uma política de grandes
trabalhos, em arroteamentos e na construção de autoestradas, aeródromos, pontes,
linhas férreas, permitiu, nos anos seguintes, reabsorver o desemprego.
Entre 1936 e 1939, o Estado reforçou a autarcia e o dirigismo económico. Fixaram-
se os preços. Em cereais, açúcar e manteiga, a Alemanha tornou-se autossuficiente.
O vasto programa de rearmamento permitiu que a indústria alemã se elevasse ao
segundo lugar mundial nos setores de siderurgia, química, eletricidade, mecânica e
aeronáutica.
2.2.2 – O estalinismo
De 1928 a 1953, Estaline foi o chefe incontestado da União Soviética.
Coletivização dos campos e planificação económica
A coletivização dos campos avançou a ritmo acelerado. O movimento foi
empreendido com brutalidade contra os kulaks (pequenos proprietários, na sua
maioria, que tinham beneficiado com a NEP), a quem foram confiscados terras e
gado.
As novas quintas coletivas, ou cooperativas de produção, chamavam-se kolkhozes.
A partir de 1930, o Partido Comunista criou as Estações de Máquina e Tratores,
cabendo a cada uma alugar máquinas e técnicos a um grupo de kolkhozes.
Apesar da resistência à coletivização, os resultados acabaram por ser satisfatórios,
especialmente no que respeita ao trigo, ao algodão e à beterraba para açúcar.
A produção industrial desenvolveu-se sob o signo da planificação.
 Primeiro plano quinquenal (1928-1932) – indústria pesada:
o Promoveu investimentos maciços;
o Recorreu a técnicos estrangeiros;
o Apostou na formação de especialistas e engenheiros;

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o Caderneta de trabalho obrigatória;
o Despedimento sem aviso prévio por ausência injustificada.
 Segundo plano quinquenal (1933-1937) – indústria ligeira, bens de consumo
(vestuário e calçado)
 Terceiro plano quinquenal (1938-interrompido em 1941 com a entrada da URSS
na 2º Guerra Mundial) – indústria pesada, hidroelétrica e química
O totalitarismo repressivo do Estado
O Estado estalinista revelou-se omnipotente e totalitário. Toda a sociedade ficou
enquadrada em organizações que a vigiavam, desde os jovens, inscritos nos Pioneiros
e, depois, nas Juventudes Comunistas, aos trabalhadores, obrigatoriamente filiados
nos sindicatos afetos ao Partido Comunista.
A própria cultura exaltou a grandeza do Estado soviético e rendeu culto à
personalidade do seu chefe, Estaline, chamado de “pai dos povos”. O Partido
Comunista transformou-se num partido de quadros, profundamente burocratizado e
disciplinado, o que facilitava o reforço dos poderes do Estado. O Estado totalitário
aguentou-se à custa de uma repressão brutal, levada a cabo pela NKVD, a nova
polícia política. A partir de 1934, a URSS enveredou pela repressão crónica,
caracterizada pelas purgas e pelos processos políticos. Até ao fim da década, cerca de
2 milhões de pessoas sofreram a deportação para os campos de trabalhos forçados e
700 mil foram executados.
2.3 – A resistência das democracias liberais
2.3.1 – O intervencionismo do Estado
A depressão dos anos 30 revelou as fragilidades do capitalismo liberal. O
economista britânico John Keynes duvidou da capacidade autorreguladora da
economia capitalista, chamando a atenção para a necessidade de um maior
intervencionismo por parte do Estado.
Intervencionismo – Papel ativo desempenhado pelo Estado no conjunto das
atividades económicas a fim de corrigir os danos ou os inconvenientes sociais
derivados da aplicação estrita do liberalismo económico. Concretizou-se no controlo
dos preços, em leis sobre os salários, na legislação do trabalho e de carácter social. O
intervencionismo esteve também na origem da participação do Estado como
empresário e produtor de serviços públicos. Entre estes, contam-se a produção e a
distribuição de energia, os caminhos de ferro, os correios, os telefones.
O New Deal
Em 1932, os Estados Unidos da América elegeram um novo presidente, o
democrata Franklin Roosevelt, que se propôs tirar o país da crise. Influenciado por
Keynes, Roosevelt decidiu-se pela intervenção do Estado federal na economia

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americana, pondo em prática um conjunto de medidas que ficaram conhecidas pelo
nome New Deal.
New Deal – Literalmente, significa nova distribuição e é a expressão pela qual
ficaram conhecidas as reformas e iniciativas económicas e sociais implementadas
pelo presidente dos EUA Franklin Delano Roosevelt, a partir de 1933, para ultrapassar
a Grande Depressão. O New Deal assentou numa forte intervenção na Banca e nos
créditos, que foram incentivados, na atribuição de prémios de produção, no
reajustamento entre o nível salarial e o dos preços, na desvalorização do dólar e
numa política intensiva do comércio externo.
Primeira fase (1933-1934) – relançamento da economia e a luta contra o desemprego
e a miséria:
 Medidas financeiras rigorosas:
o Encerramento temporário de instituições bancárias;
o O dólar foi desvinculado do padrão-ouro e sofreu uma desvalorização de
41%, o que baixou as dívidas externas e fez subir os preços.
 Política de grandes trabalhos:
o Através da construção de estradas, de vias-férreas, de aeroportos, de
habitações e de escolas;
o TVA (Tennessee Valley Authority) – criação de barragens hidroelétricas e
fábricas e da normalização da navegação dos seus rios;
o Criou campos de trabalho para os desempregados mais jovens, que se
ocuparam na rearborização e na luta contra a erosão dos solos.
 Proteção da agricultura:
o Agricultural Adjustment Act (AAA) – empréstimos bonificados aos
agricultores e de indemnizações que os compensassem pela redução das
áreas cultivadas.
 Proteção da indústria e ao trabalho industrial:
o National Industrial Recovery Act (NIRA) – fixação de preços mínimos e
máximos de venda e de quotas de produção, que evitassem a concorrência
desleal;
o Garantia aos trabalhadores de um salário mínimo e da liberdade sindical.
Segunda fase (1935-1938) – cunho social:
 Lei Wagner (1935) – liberdade sindical e o direito de greve;
 Social Security Act (1935) – reforma por velhice e invalidez; institui o fundo de
desemprego e o auxílio aos pobres;
 Fair Labor Standard Act (1938) – salário mínimo e reduziu a 44 horas a duração
semanal de trabalho.
Foi nesta fase que o Governo Federal americano assumiu na plenitude os ideais do
Estado-Providência, isto é, do Estado intervencionista que promove a segurança

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social de modo a garantir a felicidade, o bem-estar e o aumento do poder de compra
dos seus cidadãos, melhorias sem as quais o crescimento económico se tornaria
inviável.
2.3.2 – Os governos de Frente Popular e a mobilização dos cidadãos
O intervencionismo do Estado permitiu às democracias liberais, como a americana,
resistirem à crise económica e recuperarem a credibilidade política.
No caso da França, embora a Grande Depressão aí não tivesse atingido a amplitude
sofrida nos Estados Unidos ou na Alemanha, a verdade é que a crise francesa se
eternizava pela insistência dos governos em políticas deflacionistas.
Desacreditados perante a opinião pública, os governos enfrentavam as críticas da
esquerda, que pedia soluções inspiradas em Keynes e no New Deal, e a contestação
da direita. Ligas nacionalistas de pendor fascista acusavam a tibieza dos governos
democráticos, reclamando uma atuação autoritária.
Iniciou-se uma apreciável mobilização dos cidadãos, que convergiu numa ampla
coligação de esquerda denominada Frente Popular. Propôs-se deter o avanço do
fascismo na França.
Os governos da Frente Popular mantiveram-se entre 1936 e 1938 e a sua grande
figura foi o socialista Léon Brum. Forneceram um notável impulso à legislação social,
na sequência de um vasto movimento grevista.
O Governo interveio na mediação do conflito, resultando os “Acordos de
Matignon” celebrados em 7 de junho. Neles se determinou a assinatura, em cada
empresa, de contratos coletivos de trabalho entre empregadores e assalariados, em
que se aceitava a liberdade sindical e se previam aumentos salariais. Novos diplomas
limitaram a 40 horas o horário de trabalho e concederam a todos os trabalhadores o
direito a 15 dias de férias pagas por ano.
Com estas medidas, a Frente Popular dignificava a classe trabalhadora e combatia
a crise, pela subida do poder de compra e pela criação de mais emprego em virtude
da diminuição do horário de trabalho.
Dignificar os trabalhadores e combater a crise foram as finalidades de outras
medidas tomadas pela Frente Popular, de que se destacam o aumento da
escolaridade obrigatória até aos 14 anos, a criação de albergues da juventude, o
incremento dos desportos de massa, do cinema e do teatro populares, controlo
exercido pelo Estado no Banco de França, a nacionalização das fábricas de
armamento e a regularização da produção e do preço dos cereais.
A Frente Popular terminaria em abril de 1938, minada por querelas internas, pela
oposição dos grandes empresários e pelo próprio fracasso da política económica de
Blum.

90
Também em 1936 triunfara em Espanha uma Frente Popular decretando a
separação da Igreja e do Estado, o direito à greve e à ocupação das terras não
cultivadas, o aumento dos salários em 15%. Em julho do mesmo ano, a Frente
Nacional (monárquicos, conservadores e falangistas) pegou em armas contra a
República democrática, dando origem a uma das mais cruéis guerras civis do século
XX.
2.5 – Portugal: o Estado Novo
2.5.1 – O triunfo das forças conservadoras; a progressiva adoção do
modelo fascista italiano nas instituições e no imaginário político
Da ditadura militar ao Estado Novo
A 28 de maio de 1926, um golpe de Estado promovido pelos militares pôs fim à 1º
República parlamentar portuguesa. Instalou-se uma ditadura militar, que se manteve
até 1933. Desentendimentos entre os militares provocaram uma sucessiva mudança
de chefes do Executivo, desde o comandante Mendes Cabeçadas aos generais Gomes
da Costa e Óscar Carmona.
Em 1928, a ditadura recebeu um novo alento com a entrada no Governo de um
professor de Economia da Universidade de Coimbra, António de Oliveira Salazar e
sobraçou a pasta de Finanças, com a condição por si expressa de superintender nas
despesas de todos os ministérios.
Com Salazar nas Finanças, o país apresentou, pela primeira vez num período de 15
anos, saldo positivo no Orçamento. Este sucesso logo qualificado de “milagre”,
conferiu prestígio ao novo estadista e explica a sua nomeação, em julho de 1932,
para a chefia do Governo, num ministério predominantemente civil.
Não escondendo o seu propósito de instaurar uma nova ordem política, Salazar
emprenhou-se na criação das necessidades estruturas institucionais. Em 1930,
lançaram-se as Bases Orgânicas da União Nacional e promulgou-se o Ato Colonial.
Em 1933, foi a vez da publicação do Estatuto do Trabalho Nacional e da Constituição
de 1933, submetida a plesbicito nacional. Ficou consagrado um sistema governativo
conhecido por Estado Novo, tutelado por Salazar, do qual sobressaíram o forte
autoritarismo do Estado e o condicionamento das liberdades individuais aos
interesses da Nação.
Repetindo insistentemente os slogans de um “Estado forte” e de “Tudo pela Nação,
nada contra a Nação”, Salazar repudiou o liberalismo, a democracia e o
parlamentarismo e proclamou o carácter autoritário, corporativo, conservador e
nacionalista do Estado Novo.
Deste modo, o ditador convenceu grande parte do país da justeza da sua política,
obtendo o apoio de quantos haviam hostilizado a 1º República e desacreditado na

91
sua ação: a hierarquia religiosa e os devotos católicos; os grandes proprietários
agrários e a alta burguesa ligada ao comércio colonial e externo; a média e pequena
burguesias pauperizadas; os monárquicos, os integralistas e os simpatizantes do
ideário fascista; os militares.
A concretização do seu ideário socorreu-se de fórmulas e estruturas político-
institucionais decalcadas dos modelos fascistas, particularmente do italiano.
Conservadorismo e tradição
António de Oliveira Salazar foi uma personalidade extremamente conservadora. O
Estado Novo distinguiu-se pelo seu carácter profundamente conservador e
tradicionalista. Repousou em valores e conceitos morais que jamais alguém deveria
questionar: Deus, a Pátria, a Família, a Autoridade, a Paz Social, a Hierarquia, a
Moralidade, a Austeridade.
Criticou-se a sociedade urbana e industrial, fonte de todos os vícios, e enalteceu-se
o mundo rural, refúgio seguro da virtude e da moralidade. Protegeu-se a religião
católica, definida, na década de 50, como religião da Nação portuguesa. Reduziu-se a
mulher a um papel passivo do ponto de vista económico, social, político e cultural.
Quanto às manifestações culturais procurou-se resguardá-las de tudo o que soasse a
influência estrangeira, encarada com desconfiança e até hostilidade.
Nacionalismo
O Estado Novo perfilhou um nacionalismo exacerbado. Erigiu em desígnio supremo
da sua atuação o bem da Nação, expresso no slogan “Tudo pela Nação, nada contra a
Nação”.
A recusa do liberalismo, da democracia e do parlamentarismo
O Estado Novo afirmou-se antiliberal, antidemocrático e antiparlamentar. A Nação
representava um todo orgânico e não um conjunto de indivíduos isolados. O
interesse da Nação sobrepunha-se aos direitos individuais. Os partidos políticos
constituíam um elemento desagregador da unidade da Nação e um fator de
enfraquecimento do Estado. Salazar declarou-se um acérrimo opositor da democracia
parlamentar.
Para Salazar, só a valorização do poder executivo era o garante de um Estado forte
e autoritário. Subalternizado o poder legislativo, quem sobressaía era a figura do
Presidente do Conselho. Salazar encarnou na perfeição a figura do chefe providencial,
intérprete supremo do interesse nacional. A consolidação e o robustecimento do
Estado Novo passaram pelo culto ao chefe, que fez de Salazar o “salvador da Pátria”.
Corporativismo
O Estado Novo português mostrou-se empenhado na unidade da Nação e no
fortalecimento do Estado. Negou o divisionismo fomentado pela luta de classes

92
marxista, propondo o corporativismo como modelo da organização económica, social
e política.
Corporações:
 Corporações morais – instituições de assistência e caridade;
 Corporações culturais – universidades; agremiações científicas, técnicas,
literárias, artísticas e desportivas,
 Corporações económicas – Casas do Povo, Casas dos Pescadores, os Grémios,
Sindicatos Nacionais.
Juntamente com as famílias, as corporações concorriam para a eleição dos
municípios. Corporações e municípios enviavam os seus delegados à Câmara
Corporativa, considerada a sede genuína da representação orgânica da Nação.
O enquadramento das massas
A longevidade do Estado Novo pode explicar-se pelo conjunto de instituições e
processos que conseguiram enquadrar as massas e obter a sua adesão ao projeto do
regime. Cite-se o Secretariado da Propaganda Nacional (SPN), criado em 1933,
liderado por António Ferro.
Para congregar “todos os Portugueses de boa vontade” e apoiar
incondicionalmente as atividades políticas do Governo, fundou-se, em 1930, a União
Nacional. Em fins de 1934, realizaram-se as primeiras eleições legislativas dentro do
novo quadro político e os 90 deputados eleitos à Assembleia Nacional pertenciam
única e exclusivamente à União Nacional, transformada em verdadeiro partido único.
Obrigou-se o funcionalismo público a fazer prova da sua fidelidade ao regime
através de um juramento. Recorreu-se a organizações milicianas. A Legião Portuguesa
defender “o património espiritual da Nação”. Quanto à Mocidade Portuguesa, de
inscrição obrigatória para os jovens dos 7 aos 14 anos, destinava-se a ideologizar a
juventude, incutindo-lhe os valores nacionalistas e patrióticos do Estado Novo.
Controlou-se o ensino, especialmente ao nível do primário e do secundário. Em
1936, surgiu a Obra das Mães para a Educação Nacional, uma organização destinada à
formação das “futuras mulheres e mães”. Fundou, em 1935, a Fundação Nacional
para a Alegria no Trabalho (FNAT), controlando os tempos livres dos trabalhadores,
providenciando atividades recreativas e “educativas” norteadas pela moral oficial.
O aparelho repressivo do Estado
Como outros regimes ditatoriais, o Estado Novo rodeou-se de um aparelho
repressivo que amparava e perpetuava a sua ação. A censura prévia à imprensa, ao
teatro, ao cinema, à rádio e à televisão, abrangeu assuntos políticos, militares, morais
e religiosos, assumindo o carácter de uma ditadura intelectual. Ao “lápis azul” da
censura cabia a proibição da difusão de palavras e imagens “subversivas” para a
ideologia do Estado Novo.

93
A polícia política – Política de Vigilância e de Defesa do Estado (PVDE), designada de
Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) após 1945 – distinguiu-se por
prender, torturar e matar opositores ao regime.
2.5.2 – Uma economia submetida aos imperativos políticos
O autoritarismo do Estado Novo e a conjuntura depressiva dos anos 30
convergiram no abandono das políticas económicas liberais. Desde os finais da
década de 20 e até aos anos 40, o país enveredou por um modelo económico
fortemente intervencionista e autárcico.
A estabilidade financeira
Controlo financeiro pelo ministério das Finanças e por Salazar, visando o equilíbrio
orçamental.
Meios/estratégias:
 Gestão rigorosa das contas públicas e diminuição das despesas;
 Aumento das receitas com a criação de novos impostos: imposto de salvação
pública sobre os rendimentos dos funcionários públicos; imposto complementar
sobre o rendimento; imposto sobre o rendimento dos profissionais liberais;
imposto de salvação nacional sobre o açúcar, a gasolina e os óleos minerais;
revisão da contribuição predial e industrial;
 Aumento das taxas alfandegárias sobre os produtos importados.
FOI POSSÍVEL OBTER SALDOS POSITIVOS QUE FORAM CONSIDERADOS PELA
PROPAGANDA UM “MILAGRE FINANCEIRO” DE SALAZAR.
Defesa da ruralidade
 A agricultura era entendida como motor da economia e como determinante
para alcançar a autarcia.
 A agricultura ocupava mais de 50% da população ativa.
 A ruralidade foi objeto de forte propaganda: o mundo rural era associado aos
valores da simplicidade, do trabalho, da humildade e da família.
Meios/estratégias:
 Lançamento de campanhas de produção inspiradas nas “batalhas” de Mussolini:
o Campanha do trigo;
o Campanhas para desenvolver a vinha, a produção do azeite, da cortiça, da
batata e da fruta.
 Plano de florestação para aumentar o número de terras aráveis.
 Aproveitamento de recursos hidráulicos: construção de barragens, de represas e
de canais.
 Desenvolvimento da colonização interna para fixar populações no interior.
MAS O MUNDO RURAL E A AGRICULTURA PERMANCERAM POBRES E ATRASADOS.

94
Obras públicas
 A lei de Reconstituição Económica promoveu um vasto programa de obras
públicas.
 O programa implementado visava modernizar o país, desenvolver a economia e
combater o desemprego.
Meios/estratégias:
Criação e melhoria de infraestruturas:
 Construção de estradas, de autoestradas e de pontes;
 Melhoria na rede ferroviária;
 Criação do metropolitano de Lisboa e de aeroportos;
 Melhoramento e alargamento dos portos nacionais;
 Construção de barragens e de centrais hidroelétricas;
 Desenvolvimento dos meios de comunicação;
 Construção de equipamentos públicos: escolas, tribunais, etc;
 Restauro de monumentos nacionais.
AS OBRAS PÚBLICAS FORAM UMA IMAGEM DE PROPAGANDA DO REGIME.
O condicionamento industrial
 Indústria pouco desenvolvida e pouco produtiva.
 A lei de condicionamento industrial tinha como objetivos:
o Submeter a iniciativa privada ao controlo do Estado;
o Limitar o desenvolvimento e a modernização dos setores secundário e
terciário;
o Tomar o Estado no mediador entre os interesses privados e os interesses
coletivos;
o Favorecer a formação de concentrações empresariais e de monopólios
(setor dos adubos ou do cimento);
o Limitar a concorrência;
o Favorecer o nacionalismo económico.
O CONDICIONAMENTO INDUSTRIAL LIMITOU A INOVAÇÃO E O PROGRESSO,
CONSIDERADO UMA AMEAÇA PARA A ESTABILIDADE SOCIAL.
A corporativização dos sindicatos
O corporativismo foi a forma de organização económico-social adotada pelo
Estado Novo, inspirado no modelo italiano.
 A publicação do Estatuto do Trabalho Nacional instituiu o corporativismo e foi
depois integrado na Constituição de 1933.
A organização corporativa das forças produtivas o sociais (trabalhadores e patrões)
visava:

95
 O controlo das relações laborais pelos organismos do Estado;
 A conciliação dos interesses dos indivíduos e dos grupos sociais com os
superiores interesses da Nação;
 A proibição do sindicalismo livre;
 A promoção da unidade nacional contra a luta de classes e os interesses
individuais ou de grupo;
 Favorecer a manutenção de bairros salários e de longas jornadas de trabalho;
 Criação de uma estrutura corporativa.
Organismos do corporativismo:
 Câmara corporativa;
 Corporações;
 Sindicatos nacionais;
 Grémios;
 Casas do Povo;
 Casa dos Pescadores.
A política colonial
O Ato Colonial (1930) consagrou a política colonial do Estado Novo, sendo integrado
na Constituição de 1933.
A política colonial assentava nos seguintes princípios:
 Na ideia de Império Colonial Português, composto pela metrópole e pelas
colónias;
 Na ideia de vocação imperial de Portugal, valorizando o papel civilizador de
Portugal no mundo;
 Na ideia de Portugal como um país pluricontinental e plurirracial, cuja missão
civilizadora era a educação e a cristianização dos povos autóctones;
 Na ideia de que a economia das colónias deve submeter-se aos interesses e
diretrizes da metrópole;
 Na defesa da complementaridade entre a economia colonial e metropolitana: as
colónias eram mercados de escoamento dos produtos industriais
metropolitanos e forneciam matérias-primas a baixo preço.
Meios/estratégias da política colonial:
 Recurso a campanhas de propaganda oficial e de doutrinação nas escolas e nas
instituições: panfletos, cartazes, textos;
 Realização de exposições de divulgação e promoção dos valores da política
colonial portuguesa e da ideia de Portugal como país pluricontinental e
plurirracial:
o Exposição Colonial do Porto (1934)
o Exposição do Mundo Português (1940)

96
2.5.3 – O projeto cultural do regime
Bem cedo o Estado Novo compreendeu a necessidade de uma produção cultural
submetida ao regime. Por isso, artistas, escritores, jornalistas, cineastas, ensaístas
sentiram as malhas apertadas da censura, que, sob o pretexto da subversão,
atingiram de forma discricionária pedaços da criação cultural portuguesa.
O Estado Novo concebeu um projeto totalizante que fez de artistas e escritores
instrumentos privilegiados da inculcação e da propaganda do seu ideário. Esse
projeto cultural, a que se chamou “política do espírito”, pois pretendia elevar a mente
dos portugueses e alimentar a sua alma, viria a ser implementado pelo Secretariado
da Propaganda Nacional (1933), que António Ferro dirigiu com devida mestria. Ferro
convenceu o ditador português da importância das manifestações culturais para o
regime se mostrar à população, pretendo conciliar duas posições opostas sobre o
que deve ser um projeto cultural: conservadorismo e vanguarda.
Realização de grandes eventos oficiais para promoção do regime: Exposição
Colonial do Porto (1934) ou Exposição do Mundo Português (1940); Participação na
Exposição Internacional de Paris (1937) e na Exposição Universal de Nova Iorque
(1939).

Módulo 8 – Portugal e o Mundo da Segunda Guerra Mundial ao


início da década de 80 – opções internas e contexto
internacional
Unidade 1 – Nascimento e afirmação de um novo quadro
geopolítico
1.2 – O tempo da Guerra Fria – a consolidação de um mundo bipolar

97
1.2.1 – Um mundo dividido
A rutura
Quando, em 1946, Churchill afirmou que uma “cortina de ferro” dividia a Europa, o
processo de sovietização dos países de Leste era já irreversível. Sob a tutela
diplomática e militar da URSS, os partidos comunistas ganhavam força e tomavam o
poder. Para coordenar a sua atuação, tornando-a mais eficiente, criou-se, em 1947, o
Kominform (Secretariado de Informação Comunista), que se tornou um importante
organismo de controlo por parte da URSS.
O seu dinamismo constituía uma ameaça ao modelo capitalista e liberal, ameaça
essa que era preciso conter.
Em 1947, os Estados Unidos assumem, fortemente, a liderança da oposição aos
avanços do socialismo. O presidente Truman expõe a sua visão de um mundo dividido
em dois sistemas antagónicos: um, baseado na liberdade; o outro, na opressão. Aos
Americanos competiria, perante o enfraquecimento da Europa, liderar o mundo livre
e auxiliá-lo na contenção do comunismo (containment) – é a célebre doutrina Truman.
Para além de formalizar a divisão do mundo em duas forças opostas, a doutrina
Truman deixava também clara a necessidade de ajudar a Europa a reerguer-se
economicamente.
É neste contexto que o secretário de Estado americano George Marshall anuncia,
em junho de 1947, um gigantesco plano de ajuda económica à Europa, o European
Recovery Plan (ERP). Conhecido como Plano Marshall, este auxílio foi acolhido com
entusiasmo pela generalidade dos países europeus que viram reforçados os laços que
os uniam aos EUA.
Pouco depois, um alto dirigente soviético, Andrei Jdanov, formaliza, por sua vez, a
rutura entre as duas potências: o mundo divide-se em dois sistemas contraídos: um,
imperialista e antidemocrático, é liderado pelos Estados Unidos; o outro, em que
reina a democracia e a fraternidade entre os povos, corresponde ao mundo
socialista, liderando a União Soviética.
Em janeiro de 1949, Moscovo “responde” ao Plano Marshall, lançando o Plano
Molotov, que estabelece as estruturas de cooperação económica da Europa Oriental.
Foi no âmbito deste plano que se criou o COMECON (Conselho de Assistência
Económica Mútua), instituição destinada a promover o desenvolvimento integrado
dos países comunistas, sob a égide da União Soviética.
O primeiro conflito: a questão alemã
A expansão do comunismo no primeiro ano da paz fez com que ingleses e
americanos olhassem a Alemanha, não já como o inimigo vencido, mas como um
aliado imprescindível à contenção do avanço soviético. O renascimento alemão

98
tornou-se uma prioridade para os americanos, que intensificaram os esforços para a
criação de uma república federal constituída pelos territórios sob a ocupação das três
potências ocidentais, a República Federal Alemão (RFA).
A União Soviética protestou contra aquilo que considerava uma clara violação dos
acordos estabelecidos mas acabou por desenvolver uma atuação semelhante na sua
própria zona, que conduziu à criação de um Estado paralelo, sob a alçada soviética, a
República Democrática Alemã (RDA).
Numa tentativa de forçar a retirada
dessas forças, Estaline bloqueia aos
três aliados todos os acessos
terrestres à cidade.
O Bloqueio de Berlim, que se
prolongou de junho de 1948 a maio
de 1949, foi o primeiro medir de forças
entre as duas superpotências. O
Mundo temeu um novo conflito
armado.
Nas décadas que se seguiram, as
relações internacionais refletiram
instabilidade e impregnaram-se de um
clima de forte tensão e desconfiança: foi o tempo da Guerra Fria.
A Guerra Fria
O afrontamento entre as duas superpotências e os seus aliados prolongou-se até
meados dos anos 80.
Durante este longo período, os EUA e a URSS intimidaram-se mutuamente,
gerando um clima de hostilidade e insegurança que deixou o Mundo num
permanente sobressalto. É este clima de tensão internacional que designamos por
Guerra Fria.
Guerra Fria – Num sentido amplo, a expressão designa o clima de tensão e
antagonismo entre o bloco soviético e o bloco americano (1947-1985, aprox.). Numa
aceção mais restrita, a Guerra Fria corresponde à primeira fase desse mesmo
afrontamento (de 1947 a 1955, aprox.). São características salientes da Guerra Fria a
corrida aos armamentos, com particular relevância para o nuclear, a proliferação de
conflitos localizados e crises militares nas mais diversas zonas do Mundo, bem como
uma visão simplista e extremada do bloco contrário.

99
Mais do que as ambições hegemónicas das duas superpotências, eram duas
conceções opostas de organização política, vida económica e estruturação social que
se confrontavam: de um lado, o liberalismo, assente sobre o princípio da liberdade
individual; do outro, o marxismo, que subordina o indivíduo ao interesse da
coletividade.

1.2.2 – O mundo capitalista


A política de alianças dos Estados Unidos
Uma vez enunciada a doutrina Truman, os Estados Unidos empenharam-se por
todos os meios na contenção do comunismo. O Plano Marshall permitiu a
reconstrução da economia europeia em moldes capitalistas e estreitou os laços entre
a Europa Ocidental e os seus “benfeitores” americanos.
A tensão provocada pelo Bloqueio de Berlim acelerou as negociações que
conduziram, em 1949, ao Tratado do Atlântico Norte, firmado entre os Estados
Unidos, o Canadá e dez nações europeias. A operacionalização deste tratado deu
origem à Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN (NATO).
A sensação de ameaça e a ambição em consolidar a sua área de influência
lançaram os EUA numa autêntica “pactomania” que os levou a constituir um vasto
leque de alianças. Para além da OTAN, firmaram-se alianças multilaterais:
 América (Organização dos Estados Americanos – OEA, 1948);
 Oceânia (Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos – ANZUS, 1951);
 Sudeste Asiático (Organização do Tratado da Ásia de Sudeste – OTASE, 1954);
 Médio Oriente (Pacto de Bagdade, 1955, depois, Organização do Tratado
Central – CENTO).

100
Estas alianças foram complementadas com diversos acordos de carácter político e
económico, de tal forma que, cerca de 1959, três quartas partes do Mundo alinhavam,
de uma forma ou de outra, pelo bloco americano.
A política económica e social das democracias ocidentais
Para além do respeito pelas liberdades individuais, considerou-se que o regime
democrático deveria assegurar o bem-estar dos cidadãos e a justiça social.
Nesta altura, sobressaíam no panorama político europeu as forças do socialismo
reformista e da democracia cristã.
Em países como a Itália ou a RFA, o receio das ideologias aparentadas com o
socialismo deu a vitória eleitoral aos democratas-cristãos.
A democracia cristã tem a sua origem na doutrina social da Igreja, que condena os
excessos do liberalismo capitalista, atribuindo ao poder político a missão de zelar
pelo bem comum.
Democracia cristã – Corrente política inspirada pela doutrina social da Igreja. A
democracia cristã pretende aplicar à vida política os princípios de justiça, entreajuda
e valorização da pessoa humana que estiveram na base do cristianismo. Deste modo,
embora de índole conservadora, esta ideologia defende que a democracia não se
limita à aplicação das regras do sufrágio universal e da alternância política, mas tem
por função assegurar o bem-estar dos cidadãos.
Noutros países, como a Inglaterra, a Holanda ou a Dinamarca, são os partidos
sociais-democratas que ascendem ao poder. Adeptos da social-democrata, estes
partidos conjugam a defesa do pluralismo democrático e dos princípios da livre-
concorrência económica com o intervencionismo do Estado, cujo objetivo é o de
regular a economia e promover o bem-estar dos cidadãos.
Social-democracia – Corrente do socialismo que teve origem nas conceções
defendidas por Eduard Bernstein, na II Internacional (1899). A social-democrata
rejeita a via revolucionária proposta por Marx, opondo-lhe a participação no jogo

101
democrático, como forma de atingir o poder, e a implementação de reformas
socializantes, como meio de melhorar as condições de vida das classes trabalhadoras.
Partindo de ideologias diferentes, sociais-democratas e democratas-cristãos
convergem no mesmo propósito de promover reformas económicas e sociais
profundas. Na Europa do pós-guerra, os governos lançam-se num vasto programa de
nacionalizações, que atinge os bancos, as companhias de seguros, a produção de
energia, os transportes, a mineração, entre outros setores.
Revê-se o sistema de impostos, reforçando-se o carácter progressivo das taxas.
Um tal conjunto de medidas modificou, de forma profunda, a conceção liberal de
Estado dando origem ao Estado-Providência que marcou fortemente a vida das
democracias ocidentais.
A afirmação do Estado-Providência
A abrangência das medidas adotadas em Inglaterra e a ousadia do estabelecimento
de um sistema nacional de saúde (National Health Service), assente na gratuitidade
total dos serviços médicos e extensivo a todos os cidadãos, serviram de modelo à
maioria dos países europeus.
O sistema de proteção social generaliza-se a toda a população, passando a
acautelar as situações de desemprego, acidente, velhice e doença; estabelecem-se
prestações de ajuda familiar (“abono de família”) e outros subsídios aos mais pobres.
Ampliam-se as responsabilidades do Estado no que concerne à habitação, ao ensino e
à assistência médica.
Este conjunto de medidas visa a redução da miséria e o mal-estar social, e
assegura uma certa estabilidade à economia.
A prosperidade económica
O crescimento económico do pós-guerra estruturou-se em bases sólidas: os
governos não só assumiram grandes responsabilidades económicas como delinearam
planos de desenvolvimento coerentes, que permitiram estabelecer prioridades,
rentabilizar a ajuda Marshall e definir diretrizes futuras; internacionalmente, os
acordos de Bretton Woods, a criação do GATT e de espaços económicos alargados
(CEE) consolidaram as relações económicas entre os países.
O capitalismo emergiu dos escombros da guerra e atingiu o seu auge. Entre 1945 e
1973, a produção mundial mais do que triplicou e em certos setores multiplicou-se
por dez.
Estes cerca de trinta anos de uma prosperidade material sem precedentes ficaram
na História como os “Trinta Gloriosos”.
Entre as suas características, podemos destacar:
 A aceleração do progresso tecnológico;

102
 O recurso ao petróleo como matéria energética por excelência;
 O aumento da concentração industrial e do número de multinacionais;
 O aumento da população ativa – mão de obra feminina no mercado de trabalho,
o baby-boom, mão de obra mais qualificada;
 A modernização da agricultura;
 O crescimento do setor terciário.
A sociedade de consumo
O efeito mais evidente dos “Trinta Gloriosos” foi a generalização do conforto
material. O pleno emprego, os salários altos e a produção maciça de bens a preços
acessíveis conduziram à sociedade de consumo, que transformou os lares e o estilo
de vida da maioria da população dos países capitalistas.
Sociedade de consumo – Sociedade de abundância característica da segunda
metade do século XX. Identifica-se pelo consumo em massa de bens supérfluos, que
passam a ser encarados como essenciais à qualidade de vida. A sociedade de
consumo é também identificada com a sociedade do desperdício, já que a vida útil
dos bens é artificialmente reduzida pela vontade da sua renovação.
Nesta sociedade de abundância, o cidadão comum é permanentemente
estimulado a despender mais do que o necessário. Uma publicidade bem orquestrada
lembra as pequenas e grandes maravilhas a que todos “têm direito” e que as vendas
a crédito permitem adquirir.
1.2.3 – O mundo comunista
O expansionismo soviético
A expansão do mundo comunista fez-se sob a égide da URSS.
Europa
A primeira vaga da extensão do comunismo atingiu a Europa Oriental e, com
exceção da Jugoslávia, fez-se sob a pressão direta da URSS.
Os novos países socialistas receberam a designação de democracias populares. Por
oposição às democracias liberais, as democracias populares defendem que a gestão
do Estado pertence às classes trabalhadoras. Estas “exercem o poder” através do
Partido Comunista, que representa os seus interesses. A Europa de Leste reconstrói-se
de acordo com a ideologia marxista e a interpretação que dela faz o regime soviético.
Em 1955, os laços entre as democracias populares foram reforçados com a
constituição do Pacto de Varsóvia, aliança militar que previa a resposta conjunta a
qualquer eventual agressão. O Pacto de Varsóvia constituiu uma organização
diametralmente oposta à OTAN, simbolizando as duas coligações o antagonismo
militar que marcou a Guerra Fria.

103
O esmagamento militar da “Primavera de Praga” (protestos e rebeliões na cidade
de Praga) levou o líder soviético Brejnev a assumir que a soberania dos países do
Pacto de Varsóvia se encontrava limitada pelos superiores interesses do socialismo.
Outra preocupação para os dirigentes comunistas da Europa de Leste era a
situação de Berlim. A cidade tornara-se numa ponte de passagem para o Ocidente. O
problema acabaria por ser solucionado em 1961, com a construção, pela RDA, do
Muro de Berlim, que se tornou no símbolo da Guerra Fria.
Ásia
Fora da Europa, o único país em que a implantação do regime comunista se ficou a
dever à intervenção direta da URSS foi a Coreia.
A Coreia foi dividida em dois Estados: a norte, a República Popular da Coreia,
comunista, apoiada pela URSS; a sul, a República Democrática da Coreia,
conservadora, sustentada pelos Estados Unidos. A posterior invasão da Coreia do Sul
pela República Popular do Norte, com vista à reunificação do território sob a égide do
socialismo, desencadeou uma violenta guerra (1950-1953), em que se viveram
momentos de grande tensão e afrontamentos entre os dois blocos.
Nos restantes casos, o triunfo do regime comunista ficou a dever-se a movimentos
revolucionários nacionais que contaram com o incentivo ou o apoio declarado da
URSS.
Tal é o caso da China, onde, em outubro de 1949, Mao Tsé-Tung proclamou a
instauração de uma República Popular.
América Latina e África
O ponto fulcral da expansão comunista na América Latina foi Cuba, onde, em 1959,
sob o comando de Fidel Castro e Che Guevara, derruba o ditador pró-americano
Fulgêncio Batista.
Fruto do seu alinhamento com o bloco soviético, Cuba desempenhará também um
papel ativo ou na proliferação do comunismo. Nos anos 70, a URSS ajuda diretamente,
ou por intermédio de Cuba, as guerrilhas marxistas da Guatemala, El Salvador e
Nicarágua. O mesmo aconteceu em África com o impulso dado à instauração de
regimes comunistas em Angola e Moçambique, para onde foram enviados
contingentes militares cubanos.
Opções e realizações da economia de direção central
Logo que a guerra terminou, a URSS retomou o modelo de planificação económica
que tinha implementado nos anos 20. Tal como já tinha acontecido, a indústria
pesada e as infraestruturas recebem prioridade absoluta.

104
Os novos países socialistas europeus que, com exceção da Checoslováquia e da
RDA, eram essencialmente agrícolas, industrializaram-se rapidamente. Esta
industrialização foi um dos maiores êxitos das economias planificadas.
No entanto, o nível de vida das populações não acompanha esta evolução
económica.
Os bloqueios económicos
Passado o primeiro impulso industrializador, as economias planificadas começam a
mostrar, de forma mais vidente, as suas debilidades.
 As empresas não gozam de autonomia na seleção das produções, do
equipamento e dos trabalhadores, na fixação de salários e preços ou na escolha
de fornecedores e clientes;
 Uma gestão burocrática limita-se a procurar cumprir as quantidades previstas
no plano, sem atender à qualidade dos produtos ou ao potencial de
rentabilidade dos equipamentos e da mão de obra;
 Na agricultura, a falta de investimento, a má organização e o desalento dos
camponeses refletem-se de forma severa na produtividade.
Implementou-se, nos anos 60, um vasto conjunto de reformas em praticamente
todos os países da Europa socialista.
Um novo plano, iniciado em 1959, reforça o investimento nas indústrias de
consumo, na habitação e na agricultura, setor em que é lançado um vasto programa
de arroteamento.
A duração do trabalho semanal reduz-se (de 48 para 42 horas), bem como a idade
da reforma, que se estende aos trabalhadores agrícolas. Nas empresas, procura-se
incentivar a produtividade, aumentando a autonomia dos gestores face aos altos
funcionários do Estado e iniciando um sistema de prémios aos trabalhadores mais
ativos. No entanto, os efeitos destas medidas ficaram muito aquém das expectativas.
Na década de 70, sob a orientação de Leonidas Brejnev, a burocracia reforça-se e
alastra uma onda de corrupção sem precedentes.
As dificuldades soviéticas refletiram-se, de forma mais ou menos grave, em todos os
países-satélites.
1.2.4 – A escalada armamentista e o início da era espacial
A escalada armamentista
Quando, em setembro de 1949, os Russos fizeram explodir a sua primeira bomba
atómica, a confiança do Ocidente desmoronou-se. Em 1952 testava-se, no Pacífico, a
primeira bomba de hidrogénio – a bomba H –, com uma potência mil vezes superior à
bomba de Hiroxima. A corrida ao armamento tinha começado levando as duas

105
superpotências à produção maciça de armamento nuclear. O mundo viu também
multiplicarem-se as armas ditas “convencionais”.
O poder de destruição das novas armas introduziu na política mundial uma
característica nova: a dissuasão. O mundo, ameaçado de destruição, tinha resvalado,
para o “equilíbrio instável do terror”.
O início da era especial
Surpreendendo o mundo, a URSS colocou-se à cabeça da conquista do Espaço
quando, em outubro de 1957, conseguiu colocar em órbita o primeiro satélite
artificial da História, o Sputnik 1. No mês seguinte, lançou o Sputnik 2, de maiores
dimensões, levando a bordo a cadela Laika, que se tornou o primeiro viajante
espacial.
Nos anos que se seguiram, a aventura espacial alimentou o orgulho nacional das
duas nações (URSS e USA). Nos primeiros tempos, os Soviéticos mantiveram a
liderança e, em 1961, fizeram de Yuri Gagarin o primeiro ser humano a viajar na
órbita terrestre. No entanto, no fim da década de 60, coube aos americanos Neil
Armstrong e Edwin Aldrin o feito de serem os primeiros homens a pisarem a Lua.

106
Unidade 2 – Portugal: do autoritarismo à democracia
2.1 – Imobilismo político e crescimento económico do pós-guerra a
1974
2.1.1 – Coordenadas económicas e demográficas
A estagnação do mundo rural
Apesar das campanhas de produção dos anos 30 e 40, o país agrário continuava
um mundo sobrepovoado e pobre, com índices de produtividade muito inferiores à
média europeia.
Desde os anos 30 que os estudos sobre a situação da agricultura portuguesa
apontavam como essencial o redimensionamento da propriedade, que apresentava
uma profunda assimetria Norte-Sul: no Norte predominava o minifúndio, que não
possibilitava a mecanização; no Sul estendiam-se propriedades imensas, que se
encontravam subaproveitadas. Havia também que rever a situação dos rendeiros,
uma vez que mais de um terço da área agrícola era cultivada em regime de
arrendamento precário e, por isso, pouco propício ao investimento. Elaboraram-se
planos de reforma que tomaram como referência a exploração agrícola média,
fortemente mecanizada, capaz de assegurar um rendimento confortável aos seus
proprietários e contribuir também para a elevação do consumo de produtos
industriais. Ergueu-se, porém, a cerrada oposição dos latifundiários do Sul, que
utilizaram a sua grande influência política para os inviabilizarem.
Assim, as alterações na estrutura fundiária acabaram por nunca se fazer e a política
agrária esgotou-se em subsídios e incentivos vários que pouco efeito tiveram e
beneficiaram os grandes proprietários do Sul e os grandes vinhateiros. A manutenção
dos preços agrícolas em níveis muito baixos desincentivou o investimento e
contribuiu para agravar as dificuldades do setor.
Na década de 60, quando o país enveredou decididamente pela via
industrializadora, a agricultura viu-se relegada para segundo plano e foi olhada por
muitos como um “caso sem solução”. A década saldou-se por um decréscimo brutal
da taxa de crescimento do Produto Agrícola Nacional e por um êxodo rural maciço,
que esvaziou as aldeias do interior.
Fruto desta situação, cresceu a disparidade entre a produção e o consumo
alimentar, o que elevou o défice agrícola.
A emigração
A emigração reduziu-se drasticamente nas décadas de 30 e 40, devido à Grande
Depressão e à Segunda Guerra Mundial. Estas duas décadas correspondem a um
crescimento demográfico intenso que sobrepovoou o país, originando um excesso de
mão de obra que a economia não foi capaz de absorver.

107
Esta pressão demográfica resultou numa imensa debandada dos campos, quer em
direção às cidades do litoral, quer ao estrangeiro.
O contingente migratório português provinha de todo o Portugal. Rumou em
direção à Europa (França) e às Américas do Norte e do Sul. Os altos salários do mundo
industrializado, o clima de repressão política e a rejeição de muitos face ao
recrutamento para a Guerra Colonial potenciaram o fluxo migratório.
Grande parte desta emigração fez-se clandestinamente.
O Estado procurou salvaguardar os interesses dos nossos emigrantes, celebrando,
no início dos anos 60, acordos com os principais países de acolhimento. Estes
acordos permitiam a obtenção de regalias sociais e a livre concorrência, para
Portugal, das remunerações amealhadas. O país passou a receber um montante
muito considerável de divisas: as remessas dos emigrantes.
Tal facto, que muito contribuiu para o equilíbrio da nossa balança de pagamentos
e para o aumento do consumo interno, induziu o Governo a despenalizar a
emigração clandestina e a suprimir alguns entraves, como o da exigência dos
diplomas escolares.
Consequências:
 Contribuiu para o envelhecimento da população;
 Privou o normal convívio com as famílias um grande número de portugueses.
Para o Estado Novo, a emigração foi um fator de pacificação social e de equilíbrio
económico.
O surto industrial
A política de autarcia empreendida pelo Estado Novo não atingiu os seus objetivos.
Portugal continuou dependente do fornecimento estrangeiro em matérias-primas,
energia, bens de equipamento e outros produtos industriais, adubos e alimentos.
Quando os países que tradicionalmente nos forneciam se envolveram na guerra, os
abastecimentos tornaram-se precários e grassou a penúria e a carestia.
Logo em 1945, a Lei de Fomento e Reorganização Industrial estabelece as linhas-
mestras da política industrializadora dos anos seguintes, considerando que o seu
objetivo final é a substituição das importações. Portugal continuava, no pós-guerra, a
seguir um ideal de autarcia que o colocava à margem da economia mundial.
O nosso país assinou, em abril de 1948, o pacto fundador do OECE, integrando-se
nas estruturas de cooperação previstas no Plano Marshall.
Embora pouco tenhamos beneficiado da ajuda financeira americana, a
participação na OECE reforçou a necessidade de um planeamento económico,
conduzindo à elaboração dos Planos de Fomento que, a partir de 1953, caracterizam a
política de desenvolvimento do Estado Novo.

108
 I Plano de Fomento (1953-1958):
o Criação de infraestruturas (eletricidade, transportes e comunicações)
 II Plano de Fomento (1959-1964):
o Indústria transformadora de base (siderurgia, refinação de petróleos,
adubos, químicos, celulose…)
Os anos 60 trouxeram alterações significativas à política económica portuguesa. No
decurso do II Plano, o nosso país viria a integrar-se na economia europeia e mundial:
em janeiro de 1960, Portugal torna-se um dos países fundadores da EFTA –
Associação Europeia de Comércio Livre, que reúne 7 países que não pretendiam
aderir à CEE; ainda no mesmo ano, dois decretos-leis aprovam o acordo do BIRD e do
FMI; em 1962, assina-se, em Genebra, o protocolo do GATT.
A adesão a estas organizações marca a inversão da política de autarcia do Estado
Novo.
Em 1968, a nomeação de Marcello Caetano para o cargo do presidente do
Conselho inaugura, com o III Plano de Fomento (1968-73), uma orientação
completamente nova.
 Põe-se a tónica no normal funcionamento da concorrência e do mercado;
 Na concentração empresarial;
 Numa política agressiva de exportações;
 Captação de investimentos estrangeiros.
Esta política conduziu à consolidação dos grandes grupos económico-financeiros e
ao acelerar do crescimento nacional, que atingiu, então, o seu pico.
A urbanização
Nos anos 50 e 60, o processo de urbanização acelerou-se e absorveu, em parte, o
êxodo rural. Crescem as cidades do litoral oeste onde se concentram as indústrias e
os serviços. Em Lisboa e no Porto espraiam-se os subúrbios. Nestes arredores,
autênticos “dormitórios” das grandes cidades, concentra-se a maior parte da sua
população a maior parte da sua população ativa. As expressões “Grande Porto” e
“Grande Lisboa” ganham significado.
Esta expansão urbana não foi acompanhada da construção das infraestruturas
necessárias ao acolhimento de uma população de poucos recursos: faltam as
habitações sociais, as estruturas sanitárias, uma rede de transportes eficiente,
aumentam as construções clandestinas, proliferam os bairros de lata, degradam-se as
condições (incremento da criminalidade, da prostituição…)
No entanto, o crescimento urbano teve também efeitos positivos, contribuindo
para a expansão do setor dos serviços e para um maior acesso ao ensino e aos meios
de comunicação.

109
O fomento económico nas colónias
Até aos anos 40, o Estado Novo desenvolvera um colonialismo típico, baseado na
produção de produtos primários e no desencorajamento do desenvolvimento
industrial. As décadas seguintes seriam marcadas por um reforço da colonização
branca, pela escalada dos investimentos públicos e privados e pela maior abertura ao
capital estrangeiro. Angola e Moçambique receberam uma atenção privilegiada.
Numa política concertada com a metrópole, o Estado procedeu:
 Criação de infraestruturas: caminhos de ferro, estradas, pontes, aeroportos,
portos, centrais hidroelétricas;
 Desenvolvimento dos setores agrícola e extrativo virados para o mercado
externo;
 Desenvolvimento do setor industrial: progressiva liberalização da iniciativa
privada, expansão do mercado interno (devido ao afluxo de colonos brancos),
reforço dos investimentos nacionais e estrangeiros.
O fomento económico das colónias recebeu um forte impulso após o início da
guerra colonial. O deflagrar do conflito (1961 em Angola e 1964 em
Moçambique) não só coincidiu com a época de maior dinamismo da economia
portuguesa como veio reforçar a necessidade de uma presença nacional mais
forte.
2.1.2 – A radicalização das oposições e o sobressalto político de 1958
Um clima de otimismo instala-se entre os opositores ao Estado Novo. Acredita-se
na força da vaga democrática que percorre a Europa julgando-a capaz de forçar a
abertura do regime. Em 8 de outubro, nasce o MUD – Movimento de Unidade
Democrática, que congrega as forças até aí clandestinas da oposição.
O impacto deste movimento, que dá início à oposição democrática, ultrapassou
todas as previsões.
Oposição democrática – Termo que designa, correntemente, a oposição legal ou
semilegal ao Estado Novo, a partir de 1945. Aproveitando a relativa abertura
proporcionada pela revisão constitucional desse mesmo ano, as forças oposicionistas
passam a ter maior visibilidade, sobretudo nas épocas eleitorais, em que lhes é
permitido que atuem legalmente, embora com inúmeras restrições.
O MUD formula algumas exigências, que considera fundamentais: o adiamento das
eleições por seis meses, a reformulação dos cadernos eleitorais, a imprescindível
liberdade de opinião, de reunião e de informação.
As esperanças goraram-se. Nenhuma das reivindicações do Movimento foi
satisfeita e este desistiu por considerar que o ato eleitoral não passaria de uma farsa.

110
As listas de adesão ao MUD, forneceram à polícia política as informações necessárias
para uma repressão eficaz e cirúrgica.
O clima de Guerra Fria foi tomando conta da Europa e as preocupações das
democracias ocidentais orientaram-se para a contenção do comunismo, objetivo que
o salazarismo servia em pleno. Em 1949, o nosso país tornou-se membro fundador da
NATO, o que equivalia a uma aceitação clara do regime pelos parceiros desta
organização.
Nesse mesmo ano, as forças oposicionistas voltam a ter nova oportunidade de
mobilização, desta vez em torno da candidatura de Norton de Matos às eleições
presidenciais, mas face a uma severa repressão, Norton de Matos apresentou a sua
desistência, pouco antes das eleições.
Nos anos que se seguiram, a oposição democrática dividiu-se e enfraqueceu. O
Governo pensou ter controlado a situação até que, em 1958, a candidatura de
Humberto Delgado a novas eleições presidenciais desencadeou um autêntico
terramoto político.
O anúncio do seu propósito de não desistir das eleições e a forma destemida como
anunciou a sua intenção de demitir Salazar, caso viesse a ser eleito, fizeram da sua
companha um acontecimento ímpar no que respeita à mobilização popular.
Os anos de 1959-62 foram marcados por um forte recrudescimento da oposição.
Enquanto a instabilidade crescia ao ponto de se tentarem dois golpes de força para
derrubar o regime, a ditadura portuguesa mostrava bem o seu carácter repressivo.
A má imagem que o regime projeta no estrangeiro reforça-se com o exílio de
Humberto Delgado. Obrigado a procurar refúgio no Brasil, o general lidera, de longe,
a luta contra o salazarismo. É neste papel que assume a responsabilidade política do
apresamento do navio português “Santa Maria”, tomado de assalto, a 22 de janeiro de
1961, por um comando revolucionário encabeçado por Henrique Galvão, em pleno
mar das Caraíbas.
2.1.3 – A questão colonial
Apenas cinco anos decorridos sobre a Exposição do Mundo Português, o impacto
da Segunda Guerra Mundial e a aprovação da Carta das Nações Unidas alteraram
profundamente a conjuntura internacional em que decorrera a primeira década do
Estado salazarista.
Soluções preconizadas
A adaptação aos novos tempos processou-se, numa primeira fase, em duas
vertentes complementares, uma ideológica, outra jurídica.
 Termos ideológicos

111
A “mística do império” que, na década de 30, fora um dos pilares do Estado
Novo, é substituída pela ideia da “singularidade da colonização portuguesa”.
Os Portugueses haviam demonstrado uma surpreendente capacidade de
adaptação à vida nas regiões tropicais, onde, por ausência de convicções
racistas, se tinham entregues à miscigenação e à fusão de culturas. Esta teoria,
conhecida como lusotropicalismo, serviu, nos anos 50, para individualizar a
colonização portuguesa, retirando-lhe o carácter opressivo que assumia no caso
das outras nações. Acrescentava-se o papel histórico de Portugal como nação
evangelizadora.
 Termos jurídicos
Opta-se por eliminar as expressões colónia e império colonial de todos os
diplomas legais. Em 1951, revogou-se o Ato Colonial e inseriu-se o estatuto dos
territórios por ele abrangidos na própria Constituição Portuguesa. Portugal
deixou, legalmente, de ter colónias. Estas designadas por Províncias
Ultramarinas, ganharam equivalência jurídica a qualquer província do
continente: o país estendia-se “do Minho a Timor”. O “Império Português”
desaparecera, substituído pelo “Ultramar Português”.
Embora externamente a manutenção do colonialismo português cedo fosse posta
em causa, a nível interno, a presença portuguesa em África não sofreu praticamente
contestação até ao início da guerra colonial.
Esta quase unanimidade de opiniões veio a quebrar-se com o início da luta armada
em Angola, em 1961. Confrontavam-se duas teses divergentes, a integracionistas e a
federalistas.
A primeira defendia a política até aí seguida, pugnado por um Ultramar
plenamente integrado no Estado português; a segunda considerava não ser possível,
face à pressão internacional e aos custos de uma guerra em África, persistir na
mesma via. Advogava a progressiva autonomia das colónias e a constituição de uma
federação de estados que salvaguardasse os interesses português.
A aposta no federalismo teve também defensores nas altas esferas do Governo e
das Forças Armadas que não conseguiram demover Salazar. Salazar agiu com a
determinação que lhe era peculiar, enviando para Angola os primeiros contingentes
militares.
A luta armada
A recusa do Governo português em encarar a possibilidade de autonomia das
colónias africanas fez extremar as posições dos movimentos de libertação que, nos
anos 50 e 60, se foram formando na África portuguesa.
 Angola

112
o 1955: UPA (União das Populações de Angola) – 1962: FNLA (Frente Nacional
de Libertação de Angola);
o 1956: MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola);
o 1966: UNITA (União para a Independência Total de Angola).
 Moçambique
o 1962: FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique)
 Guiné
o 1956: PAIGC (Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde)
O confronto armado iniciou-se no Norte de Angola em março de 1961, mas em
breve a guerra alastrou pelo território, obrigando à mobilização de milhares de
portugueses.
Em 1963, o conflito estendeu-se à Guiné e, no ano seguinte, a Moçambique.
Abriram-se assim três frentes de combate, que exigiram dos Portugueses um
sacrifício desproporcionado: o país mobilizou 7% da sua população ativa e
despendeu, na Defesa, 40% do Orçamento Geral do Estado.
A resistência portuguesa ultrapassou, em muito, os prognósticos da comunidade
internacional, que previam a capitulação rápida desta nação pequena e
economicamente atrasada.
O isolamento internacional
Internacionalmente, a questão das colónias ganhou dimensão aquando da entrada
do nosso país na ONU, em 1955. Portugal recusou-se de imediato a admitir que as
disposições da Carta relativas à administração de “territórios não autónomos” lhe
fossem aplicadas, argumentando que as províncias ultramarinas eram parte
integrante do território português.
Seria esta a primeira de uma série de derrotas que, progressivamente, foram
isolando os Portugueses e que se intensificaram, na década de 60, com a aprovação
da Resolução 1514 e o início da guerra colonial.
Em 1961, Portugal esteve particularmente em foco nas Nações Unidas, acabando
esta organização por condenar o nosso país devido ao persistente não cumprimento
dos princípios da Carta e das resoluções aprovadas. Estas condenações repetiram-se
insistentemente, com apelos claros a Portugal para que reconhecesse o direito à
autodeterminação das colónias africanas. Tal postura conduziu ao desprestígio do
nosso país, que foi excluído de vários organismos das Nações Unidas.
Para além das dificuldades que lhe foram colocadas na ONU, Portugal viu-se a
braços, no início dos anos 60, com a hostilidade da administração americana.
2.1.4 – A primavera marcelista

113
Reformismo político não sustentado
Em setembro de 1968, face à doença grave de Salazar, o presidente da República
vê-se obrigado a encetar os procedimentos institucionais para a sua substituição. A
escolha recaiu sobre o professor Marcello Caetano que se permitia discordar da
política salazarista. Apresentava-se como um político mais liberal, capaz de alargar a
base de apoio do regime.
Logo no discurso da tomada de posse, Marcello Caetano define as linhas
orientadoras do seu Governo: continuar a obra de Salazar, sem prescindir da
necessária renovação política. Pretendia-se “evoluir na continuidade”, concedendo
aos portugueses a “liberdade possível”.
Nos primeiros meses de mandato, o novo Governo dá sinais de abertura, que
enchem de esperanças os opositores políticos: faz regressar do exílio algumas
personalidades (bispo do Porto, Mário Soares); modera a atuação da polícia política
(depois Direção-Geral de Segurança – DGS); ordena o abrandamento da censura
(depois Exame Prévio); abre a União Nacional (1970: Ação Nacional Popular – ANP).
Foi neste clima de mudança, que ficou conhecido como “primavera marcelista”,
que se prepararam as eleições legislativas de 1969. O Governo alargou o sufrágio
feminino (a todas as mulheres escolarizadas), permitiu maior liberdade de campanha
à oposição, bem como a consulta dos cadernos eleitorais e a fiscalização das mesas
de voto.
O ato eleitoral saldou-se por uma série de atropelos aos princípios democráticos e
o mesmo resultado de sempre: 100% dos lugares de deputados para a União
Nacional; 0% para a oposição.
Goradas as esperanças de uma real democratização do regime, Marcello Caetano
viu-se sem o apoio dos liberais e alvo da hostilidade dos núcleos mais conservadores.
Obrigado a reprimir um poderoso surto de agitação estudantil, greves operárias e
até ações bombistas, Marcello Caetano liga-se cada vez mais à direita e inflete a sua
política inicial. As associações de estudantes mais ativas são encerradas, a legislação
sindical aperta-se, a polícia política desencadeia uma nova vaga de prisões.
Alvo de todas as críticas, incapaz de evoluir para um sistema mais democrático, o
regime continua, ainda, a debater-se com o grave problema da guerra colonial.
O impacto da guerra colonial
O chefe do Governo redigiu um minucioso projeto de revisão do estatuto das
colónias, no sentido de as encaminhar para a “autonomia progressiva”.
O projeto contou com a oposição tenaz da maioria conservadora da Assembleia
Nacional e acabou amputado das soluções mais inovadoras. Angola e Moçambique

114
passaram à categoria de “Estados honoríficos”, sendo dotados de novas instituições
governativas que continuavam fortemente dependentes de Lisboa.
A luta armada foi endurecendo e, embora controla em Angola e Moçambique, a
situação militar deteriorou-se na Guiné.
Externamente, cresceu o isolamento português: em 1970, o Papa Paulo VI recebe
os líderes dos movimentos do MPLA, FRELIMO e PAIGC; na ONU, recrudesce a luta
diplomática, sofrendo o país a maior de todas as humilhações quando, em 1973, a
Assembleia-Geral reconhece a independência da Guiné-Bissau, à rebeldia do Estado
português.
Internamente, a pressão aumenta e o regime esboroa-se. Os deputados liberais
começam a abandonar a Assembleia Nacional, proliferam os grupos oposicionistas de
extrema-esquerda, cresce a contestação dos católicos progressistas.
As próprias Forças Armadas dão sinais de uma inquietação crescente.
O general António de Spínola publica em fevereiro de 1974, a obra Portugal e o
Futuro, proclamando abertamente a inexistência de uma solução militar para a
guerra de África.
2.2 – Da revolução à estabilização da democracia
2.2.1 – O movimento das forças armadas e a eclosão da revolução
Nos primeiros anos da década de 70, o impasse em que se encontrava a Guerra
Colonial começou também a pesar sobre o exército. Foi este sentimento que
transformou um movimento de oficiais, no movimento revolucionário que derrubou
o Estado Novo.
O Movimento dos Capitães nasceu em julho de 1973, como forma de protesto
contra dois diplomas legais que facilitavam o acesso dos oficiais milicianos.
As reivindicações adquiriram um cariz político, orientando-se para a
democratização do regime e para o fim da guerra de África.
Marcello Caetano faz ratificar, pela Assembleia Nacional, a orientação da política
colonial (5 de março) e convoca os oficiais generais das Forças Armadas para uma
sessão solene em que seria reiterada a sua lealdade ao Governo. Gosta Gomes e
Spínola não compareceram à reunião (14 de março) sendo exonerados dos seus
cargos.
Estes acontecimentos deram força àqueles que, dentro movimento (agora
denominado Movimento das Forças Armadas – MFA), acreditavam na urgência de um
golpe militar que, restaurando as liberdades cívicas, permitisse a tão desejada
solução para o problema colonial.

115
Depois de uma tentativa precipitada, em março, que as forças governamentais
debelaram com facilidade, o MFA preparou minuciosamente a operação militar que,
na madrugada do dia 25 de abril de 1974, pôs fim ao Estado Novo.
Operação “Fim-Regime”
A operação “Fim-Regime” do Movimento das Forças Armadas decorreu sob a
coordenação do major Otelo Saraiva de Carvalho, de acordo com o plano
devidamente definido: depois da transmissão, pela rádio, das canções-senha, as
unidades militares saem dos quartéis para cumprirem, com êxito, as missões que lhes
estavam destinadas: ocupação das estações de rádio e da RTP, controlo do aeroporto
e dos quartéis-generais das regiões militares de Lisboa e do Norte.
A resistência do quartel terminou cerca de 18 horas, quando Marcello Caetano se
rendeu ao general Spínola.
No fim do dia, o “Movimento dos Capitães” sagrava-se já vitorioso. Apesar dos
insistentes pedidos para que, por razões de segurança, a população civil se
recolhesse em casa, a multidão acorrera às ruas em apoio dos militares a quem
distribuía cravos vermelhos. Só a polícia política resistia ainda. Render-se-ia na manhã
seguinte, não sem provocar os únicos quartos mortos da “Revolução dos Cravos”.
2.2.2 – A caminho da democracia
Entre a “Revolução dos Cravos” e a institucionalização, em 1976, de um regime
pluralista democrático, o País viveu um período de grande instabilidade. Marcado
pelo entusiasmo popular e pela aquisição das tão desejadas liberdades cívicas, o
período pré-constitucional conheceu também grandes tensões sociais e fortes
afrontamentos políticos.
O desmantelamento das estruturas do Estado Novo
No próprio dia da revolução, Portugal viu-se sob a autoridade de uma Junta de
Salvação Nacional, constituída por acordo entre o MFA e a hierarquia das Forças
Armadas. A Junta tomou imediatamente um conjunto de medidas tendentes à
liberalização da política partidária e ao desmembramento das estruturas do regime
deposto:
 O presidente da República, América Tomás, e o presidente do Conselho,
Marcello Caetano, foram destituídos, bem como todos os governadores civis e
outros quadros administrativos. Pouco depois, Américo Tomás e Marcello
Caetano partiram para o exílio, no Brasil;
 A PIDE-DGS, a Legião Portuguesa e as Organizações de Juventude foram
extintas, bem como a Censura (Exame Prévio) e a Ação Nacional Popular;
 Os presos políticos foram amnistiados e libertados e as personalidades no exílio
puderam regressar a Portugal;

116
 Foi autorizada a formação de partidos políticos que operavam
clandestinamente.
O MFA comprometeu-se a passar o poder para as mãos dos civis, definindo o prazo
máximo de um ano para a realização de eleições constituintes. A Junta de Salvação
Nacional nomeou como presidente da República o general António de Spínola, que
escolheu a advogado Adelino da Palma Carlos para chefiar o I Governo Provisório.
Assim se dava início à democratização, um dos três D (Democratizar, Desenvolver,
Descolonizar) que nortearam o Movimento das Forças Armadas.
Tensões político-ideológicas na sociedade e no interior do movimento revolucionário
No dia 1 de maio de 1974, gigantescas manifestações de rua celebraram o
regresso da democracia. No entanto, os anos de 1974 e 1975 ficaram marcados por
uma enorme agitação social, pela multiplicação dos centros de poder e por violentos
confrontos políticos.
O período “Spínola”
Poucos dias passados sobre o golpe militar, os anseios de justiça social,
longamente reprimidos, tinham já explodido numa onda de reivindicações laborais,
greves e manifestações constantes. Carente de autoridade e incapaz de assumir uma
efetiva liderança do país, o I Governo Provisório demitiu-se menos de dois meses após
a tomada de posse, deixando o presidente Spínola isolado na quase impossível tarefa
de conter as forças revolucionárias. De facto, o poder político fracionara-se já em dois
polos opostos: de um lado, o grupo afeto ao general Spínola; do outro, a comissão
coordenadora do MFA e os seus apoiantes.
Spínola vai progressivamente perdendo terreno face às forças esquerdistas do
MFA, adeptas da “independência pura e simples” dos territórios ultramarinos e da
revolução social. A nomeação do brigadeiro Vasco Gonçalves para chefiar o II
Governo Provisório e a presença reforçada de militares no elenco governativo
consagra a perda de influência do presidente que denuncia a situação instável em
que o país se encontra.
Depois de ter reconhecido o direito dos povos africanos à independência, António
de Spínola acabará por se demitir (30 de setembro) na sequência do fracasso de uma
manifestação em seu apoio, boicotada pelas forças de esquerda.
A Junta de Salvação Nacional, que o impacto da demissão de Spínola reduzira a
três membros (o general Costa Gomes e os almirantes Pinheiro de Azevedo e Rosa
Coutinho), indigita Costa Gomes para a Presidência da República.
A radicalização do processo revolucionário
A partir desse momento, a Revolução tende a radicalizar-se. Otelo Saraiva de
Carvalho, o estratega do 25 de Abril, aparece cada vez mais afeto à extrema-

117
esquerda. À frente do Comando Operacional do Continente – COPCON, assina de
ânimo leve uma série de ordens de prisão de elementos moderados. O primeiro-
ministro Vasco Gonçalves, que chefiará quatro governos provisórios (do II ao V),
evidencia uma forte ligação ao Partido Comunista, que adquire crescente
protagonismo no aparelho do Estado.
Numa tentativa de contrariar esta inflexão à esquerda e recuperar o poder, Spínola
encabeça, em 11 de março de 1975, um golpe militar que fracassa, obrigando o
general e alguns oficiais a procurar refúgio em Espanha.
Os acontecimentos de 11 de março são tomados como uma “ameaça
contrarrevolucionária” e contribuem para acentuar o radicalismo que já se fazia
sentir. Nessa mesma noite, numa Assembleia das Forças Armadas, forma-se o
Conselho da Revolução, que passa a funcionar como órgão executivo do MFA.
Concentrando os poderes da Junta de Salvação Nacional e do Conselho de Estado
(que se extinguem), o Conselho da Revolução tornou-se o verdadeiro centro do poder.
Evidenciando uma ligação ao ideário comunista, o Conselho da Revolução propõe-se
orientar o Processo Revolucionário em Curso – PREC que conduziria o país rumo ao
socialismo.
Entretanto, a agitação social cresce, orientando por uma filosofia igualitária e pela
miragem do poder popular.
 Procedem-se a saneamentos sumários de quadros técnicos e outros
funcionários considerados “de direita”;
 Nas empresas privadas, as comissões de trabalhadores assumem o comando,
impedindo os proprietários de entrarem nas instalações e destituindo os corpos
gerentes;
 Nas cidades e vilas constituem-se “comissões de moradores” e “comités de
ocupantes” que levam a cabo a ocupação de casas vagas, do Estado ou de
particulares, quer para fins habitacionais, quer instalação de equipamentos
sociais de iniciativa popular (creches, centros clínicos, parques infantis);
 No Sul, a Reforma Agrária toma uma feição extremista com a ocupação das
grandes herdades pelos trabalhadores rurais, que as transformam em “unidades
coletivas de produção”.
Poder popular – Poder direto do povo, que toma em mãos a resolução dos seus
problemas e a gestão dos meios de produção. Exerce-se, normalmente, através de
conselhos ou comissões eleitas localmente. O poder popular é um conceito
revolucionário, ligado à ideologia marxista.
Este ambiente anárquico gerou um clima de opressão e medo nas classes média e
alta que impediu milhares de portugueses a abandonarem o país.
As eleições de 1975 e a inversão do processo revolucionário

118
A inversão do processo deveu-se ao forte impulso dado pelo Partido Socialista à
efetiva realização, no prazo marcado, das eleições constituintes prometidas pelo
Programa do MFA.
Estas eleições, as primeiras em funcionou o sufrágio verdadeiramente universal
(puderam votar os cidadãos com mais de 18 anos, independentemente do sexo e do
grau de escolaridade), realizaram-se no dia 25 de abril de 1975, marcando a vida
cívica e política portuguesa. Tanto a campanha como o ato eleitoral decorreram
dentro das normas de respeito e de pluralidade democrática.
Os resultados da votação foram determinantes para a inflexão da via marxisto-
revolucionária. Em contrapartida, as forças de esquerda mais radical receberam uma
votação muito modesta.
Reforçados por este apoio eleitoral, os socialistas encabeçam a luta das forças
moderadas contra o radicalismo revolucionário. Em julho, o PS e o PSD abandonam o
IV Governo (que se desfaz) e mobilizam todos os seus recursos no sentido do
regresso ao espírito inicial, democratizante, do MFA.
Neste verão de 1975 (conhecido como “Verão Quente”), a oposição entre as forças
políticas atinge o rubro, expressando-se em manifestações de rua, assaltos a sedes
partidárias e pela proliferação de organizações armadas revolucionárias de direita e
de esquerda.
Em pleno “Verão Quente” um grupo de nove oficiais do próprio Conselho da
Revolução critica abertamente os setores mais radicais do MFA, pronunciando-se por
uma “prática política realmente isenta de toda e qualquer influência dos partidos” e
pelo afastamento da “equipa dirigente” do movimento. Uma atuação destas forças
moderadas leva à destituição do primeiro-ministro Vasco Gonçalves, à formação de
novo Governo e à nomeação do capitão Vasco Gonçalves para o comando da região
militar de Lisboa, em substituição de Otelo.
Estas alterações são o rastilho para um último golpe militar, em 25 de novembro,
encabeçado pelos paraquedistas de Tancos, em defesa de Otelo e do processo
revolucionário. Este golpe que, por pouco, não coloca o país numa guerra civil, acaba
por se malograr e as tentativas da esquerda revolucionária para tomar o poder.
Política económica antimonopolista e intervenção do Estado no domínio económico-
financeiro
A onde agitação social que se desencadeou após o 25 de Abril foi acompanhada de
um conjunto de medidas que alargou a intervenção do Estado na esfera económica e
financeira. Tomadas em parte sob a pressão das forças político-sociais de esquerda,
estas medidas tiveram como objetivo a destruição dos grandes grupos económicos,
considerados monopolistas, a apropriação do Estado, dos setores-chave da economia e
o reforço dos direitos dos trabalhadores.

119
A intervenção do Estado em matéria económico-financeira encontrava-se já
prevista no Programa do I Governo Provisório, que referia a nacionalização dos
bancos emissores (Banco de Portugal, Banco Nacional Ultramarino, Banco de Angola),
em setembro.
Nacionalização – Apropriação pelo Estado de uma unidade de produção privada ou
de um setor produtivo. Ao contrário da “estatização”, a nacionalização não
determina a perda da personalidade jurídica e da autonomia financeira. Portugal não
acompanhou o processo de nacionalizações que se registou na Europa após a
Segunda Guerra Mundial. Em contrapartida, na sequência do 25 de Abril, foram
nacionalizadas, por curto espaço de tempo, as instituições financeiras, as empresas
ligadas aos setores económicos mais importantes, bem como grandes extensões de
terra agrícola.
Em novembro, o Estado arroga-se o direito de intervir nas empresas cujo
funcionamento não contribuísse “normalmente para o desenvolvimento económico
do país”.
A radicalização do processo revolucionário após o 11 de março vai alargar este
intervencionismo estatal.
Logo no rescaldo do golpe, aprova-se a nacionalização de todas as instituições
financeiras. No mês seguinte, um novo decreto-lei, considerando a necessidade de
“reconstruir a economia por uma via de transição para o socialismo”, determina a
nacionalização das grandes empresas ligadas aos setores económicos de base.
No Sul do país, o mundo rural vive uma situação explosiva. As tensões há muito
acumuladas entre os proprietários das terras e os trabalhadores agrícolas, sujeitos a
uma situação de miséria crescente, desembocam num confronto aberto, que
encaminha as explorações agrícolas para uma via coletivista.
Em janeiro de 1975, registam-se as primeiras ocupações de terras pelos
trabalhadores e rapidamente esse movimento se estende a uma vasta zona do Sul.
O processo da reforma agrária recebeu entre abril e julho do mesmo ano,
cobertura legal. Mais uma vez sob a pressão das forças políticas de esquerda, o
Governo avança com a expropriação das grandes herdades, com vista à constituição
de Unidades Coletivas de Produção (UCP). Cada UCP detinha a posse plena das alfaias
agrícolas e uma total liberdade de autogestão, através de comissões eleitas pelos
trabalhadores.
Reforma agrária – Processo de coletivização dos latifúndios do Sul do país, que
decorreu entre 1975 e 1977. São traços característicos da reforma agrária a
ocupação de terras pelos trabalhadores
Em complemento desta política socializante, foi aprovada legislação com vista à
proteção dos trabalhadores e dos grupos economicamente desfavorecidos.

120
 Destacam-se as novas leis laborais, que dificultavam os despedimentos;
 Instituição do “salário mínimo nacional” e o aumento das pensões sociais e da
reforma.
A opção constitucional de 1976
Apesar de eleitos democraticamente, os deputados não possuíam total liberdade de
decisão. O MFA impusera a assinatura de um compromisso que preservara as
conquistas revolucionárias. Conhecido como Primeiro Pacto MFA-Partidos foi
substituído por um segundo pacto, mais moderado mas igualmente condicionador da
capacidade legislativa da Constituinte.
A Constituição reitera a via de “transição para o socialismo” já encetada e
considera “irreversível” as nacionalizações e as expropriações de terras efetuadas.
Mantém como órgão de soberania, o Conselho da Revolução considerado o garante
do processo revolucionário.
A Constituição define Portugal como “um Estado democrático”, reconhece o
pluralismo partidário e confere a todos os cidadãos “a mesma dignidade social”. O
respeito pela vontade popular exprimiu-se ainda na concessão de autonomia política
às regiões insulares dos Açores e da Madeira e na instituição de um modelo de poder
local descentralizado e eleitos por via direita.
A nova Constituição entrou em vigor no dia 25 de abril de 1976, exatamente dois
anos após a “Revolução de Cravos”.
2.2.3 – O reconhecimento dos movimentos nacionalistas e o processo de
descolonização
Logo na noite de 25 de abril, a afirmação do “claro reconhecimento do direito à
autodeterminação” dos territórios africanos, que constava do programa previamente
elaborado pelo MFA, foi eliminada. Em seu lugar declarava-se a intenção de
implementar “uma política ultramarina que conduza a paz”.
O processo descolonizador
Ainda no rescaldo do golpe militar, as pressões internacionais começam a fazer-se
sentir. A 10 de maio, a ONU e a OUA apelam à Junta de Salvação Nacional para que
consagre o princípio da independência das colónias.
A nível interno, a “independência pura e simples” das colónias colhia o apoio da
maioria dos partidos que se legalizaram depois do 25 de Abril e também se
orientavam os apelos das manifestações que enchiam as ruas do país.
Intensificaram-se as negociações com o PAIGC (para a Guiné e Cabo Verde), a
FRELIMO (para Moçambique) e o MPLA, a FNLA e a UNITA (para Angola), únicos
movimentos aos quais Portugal reconhece legitimidade para representarem o povo
dos respetivos territórios.

121
Com exceção da Guiné, cuja independência foi efetivada logo em 10 de setembro
de 1974, os acordos institucionalizavam um período de transição, bastante curto, em
que se efetuaria a transferência de poderes.
No entanto, Portugal encontrava-se numa posição muito frágil, quer para impor
condições, quer para fazer respeitar os acordos. Não foi possível assegurar os
interesses dos portugueses residentes no Ultramar.
Em Moçambique, os confrontos, que rapidamente tomaram um cariz racial,
iniciaram-se quase de imediato, desencadeando a fuga precipitada da população
branca.
Mas o caso mais grave foi o de Angola: os três movimentos mostraram-se
incapazes de ultrapassar os seus antagonismos; o Governo de transição nunca
funcionou e acabou por ser abandonado pela FNLA e pela UNITA, o que obrigou o
nosso país a decretar a suspensão do Acordo de Alvor, não chegou a proceder-se à
constituição de forças armadas mistas.
Nos meses de setembro e outubro, uma autêntica ponte aérea evacua de Angola os
cidadãos portugueses que pretendem regressar. Em 10 de novembro, o Presidente da
República decide transferir o poder para o povo angolano, não reconhecendo
qualquer estrutura governativa afeta aos movimentos de libertação.
Os territórios africanos não tiveram um destino feliz: Guiné: tornada república
popular, foi palco de violência política e golpes de Estado militares; Moçambique:
que arvorou em paz a bandeira da independência, foi depois sacudido por uma
sangrenta civil patrocinada pelos Estados de minoria branca da região; Angola: o
Governo do MPLA acabou por ser reconhecido internacionalmente mas nem por isso
a paz voltou ao território.
2.2.4 – A revisão constitucional de 1982 e o funcionamento das
instituições democráticas
A Constituição de 1976 foi objeto de crítica por parte de várias forças partidárias,
que a acusavam de um excessivo comprometimento com o socialismo e de um
acentuado défice democrático. Assim a Assembleia de República procedeu à primeira
revisão constitucional.
Concluída em setembro de 1982 a revisão manteve inalterados os artigos que
proibiam retrocessos nas nacionalizações e na reforma agrária e manteve os
princípios socializantes, embora mais suavizados.
As alterações de maior vulto deram-se ao nível das instituições políticas.
 Foi abolido o Conselho da Revolução como órgão coadjuvante da Presidência da
República, o que libertou o poder central de qualquer condicionamento militar.

122
 Limitaram-se os poderes do presidente e aumentaram-se os da instituição
parlamentar.
O regime viu reforçado o seu cariz democrático-liberal, assente no sufrágio
popular e no equilíbrio entre os órgãos de soberania:
 Presidente da República
o Eleito por sufrágio direto por um período de 5 anos;
o Não pode exercer mais de dois mandatos consecutivos;
o É assistido por um Conselho de Estado que tem poder consultivo;
o Tem o poder de veto suspensivo das leis;
o Pode demitir o Governo, dissolver a Assembleia da República e convocar
eleições legislativas;
o O nosso sistema político chama-se semipresidencialista.
 Assembleia da República
o Constituída por deputados eleitos por círculos eleitorais correspondentes
aos distritos e às regiões autónomas, por um período de 4 anos;
o Os deputados organizam-se por grupos parlamentares de acordo com os
partidos por que foram eleitos;
o É o órgão legislativo.
 Governo
o É o órgão executivo;
o É constituído por ministros e secretários do Estado;
o O primeiro-ministro é designado pelo Presidente da República de acordo
com os resultados eleitorais das legislativas;
o O Governo pode legislar através de decretos-leis e de propostas de lei que
são apresentadas à Assembleia da República.
 Tribunais
o Tem o poder judicial;
o Os juízes são nomeados pelos conselhos superiores da Magistratura;
o O Tribunal Constitucional, criado pela revisão de 1982, tem a função de
garantir o cumprimento da Constituição.
O governo das regiões autónomas exerce-se através de uma Assembleia Legislativa
Regional, um Governo regional e um ministro da República, designado pelo Chefe de
Estado, a quem cabe nomear o Governo regional e promulgar os diplomas legais,
entre outras funções.
Quanto ao poder local, estruturou-se este em municípios e em freguesias,
dispondo ambos de um órgão legislativo (Assembleia Municipal e Assembleia de
Freguesia) e de um órgão executivo (Câmara Municipal e Junta de Freguesia).

123
Módulo 9 – Alterações geoestratégias, tensões políticas e
transformações socioculturais no mundo atual
Unidade 1 – O fim do sistema internacional da Guerra Fria e a
persistência da dicotomia Norte-Sul
1.2 – Os polos do desenvolvimento económico
1.2.1 – A hegemonia dos Estados Unidos
A prosperidade económica
A “livre empresa” continua no centro da filosofia económica do país e o Estado
incentiva-se, assegurando-lhe as condições de uma elevada competitividade: a carga
fiscal é ligeira, os encargos com a segurança social diminutos e as restrições ao
despedimento ou à deslocação da mão de obra quase não existem.
Pátria de gigantescas multinacionais, os Estados Unidos vivem também de uma
densa rede de pequenas empresas, algumas de grande dinamismo e espírito de
inovação.
Os setores de atividade
Marcadamente pós-industrial, a economia americana apresenta um claro
predomínio do setor terciário, que ocupa 75% da população ativa e é responsável por
cerca de 80% do PIB. Em conformidade, a América é o maior exportador de serviços
do Mundo, sobretudo na área dos seguros, transportes, restauração, cinema e
música.
Altamente mecanizadas, sabendo rentabilizar os avanços científicos, as unidades
agrícolas e pecuárias americanas têm uma elevadíssima produtividade, fazendo os
Estados Unidos os maiores exportadores de produtos agrícolas do mundo, só
superados pela União Europeia no seu conjunto.
Pelo seu dinamismo, a agricultura americana alimenta ainda um conjunto vasto de
indústrias, desde a produção de sementes e maquinaria agrícola até à embalagem,
comercialização e transformação dos seus produtos. Este verdadeiro complexo
agroindustrial que envolvia, no início do século XXI, mais de 20 milhões de
trabalhadores tornou-se o centro de gigantescas multinacionais.
A indústria americana sofreu, no último quartel do século passado, uma
reconversão profunda. Os setores tradicionais, como a siderurgia e o têxtil, entraram
em declínio.
Novos laços comerciais
Numa tentativa de contrariar o predomínio comercial da União Europeia, Clinton
procurou estimular as relações económicas com a região do Sudeste Asiático,

124
revitalizando a APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico), criada em 1989. O
presidente impulsionou a criação da NAFTA (Acordo de Comércio Livre da América do
Norte), que estipula a livre circulação de capitais e mercadorias (não de pessoas)
entre os EUA, o Canadá e o México.
O dinamismo científico-tecnológico
Tal como nos tempos da Guerra Fria, os Estados Unidos são, hoje a nação que mais
gasta em investigação científica.
O avanço americano fica a dever-se à criação precoce de parques tecnológicos – os
tecnopolos –, que associam universidades prestigiadas, centros de pesquisa e
empresas, que trabalham de forma articulada.
A hegemonia político-militar
A libertação do Kuwait (conhecida por Guerra do Golfo) iniciou-se em janeiro de
1991 e exibiu, perante o mundo que a seguiu “em direto” pela televisão, a
superioridade militar dos Estados Unidos.
Este primeiro conflito pós-Guerra Fria inaugurou “oficialmente” a época da
hegemonia militar americana.
Verdadeira hiperpotência, os Estados Unidos têm sido considerados, nas últimas
décadas, os “polícias do Mundo”, em virtude do papel preponderante e ativo que têm
desempenhado na geopolítica do globo.
 Multiplicaram a imposição de sanções económicas (interdição de venda de
produtos tecnológicos, alimentares…) como recurso para punir os “infratores”,
quer se trate de violação de direitos humanos, repressão política, suporte de
organizações terroristas quer de agressões militares;
 Reforçaram o papel da OTAN, que, com o fim do comunismo na Rússia e a
dissolução do Pacto de Varsóvia, teria perdido a sua razão de existir;
 Assumiram um papel militar ativo, encabeçando numerosas intervenções
armadas pelos motivos mais díspares, desde as causas puramente humanitárias
até ao combate ao terrorismo.
1.2.2 – A União Europeia
A consolidação da Comunidade: do Ato Único à moeda única
Os Estados-Membros da CEE acordaram o estabelecimento de uma política
agrícola comum, de ajudas às regiões menos favorecidas, de um sistema monetário
europeu, entre outras medidas.
Apesar destes avanços, a Comunidade enfrentava, no início dos anos 80, um período
de marasmo e descrença nas suas potencialidades e no seu futuro. Só em 1985, graças
à ação do novo presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, a Comunidade
reencontra a dinâmica perdida.

125
Os esforços do novo presidente conduziram, em 1986, à assinatura do Ato Único
Europeu, que previa, para 1993, o estabelecimento de um mercado único onde, para
além de mercadorias, circulassem, livremente, pessoas, capitais e serviços.
Governos, empresas e sindicatos mobilizaram-se para o projeto do mercado único,
que se concretizou na data prevista (1993).
Em 1990, começam as negociações com vista ao aumento das competências da
Comunidade. Estas negociações desembocam no Tratado da União Europeia,
assinado em Maastricht, em 1992.
O Tratado de Maastricht estabeleceu uma União Europeia (UE) fundada em três
pilares: o comunitário, de cariz económico e o mais desenvolvido; o da política
externa e da segurança comum (PESC) e o da cooperação nos domínios da justiça e
dos assuntos internos.
Maastricht representou um grande passo em frente no caminho da União, quer pelo
reforço dos laços políticos, quer por ter definido o objetivo da adoção de uma moeda
única.
A 1 de janeiro de 1999 inauguram oficialmente o euro, que entra nos mercados de
capitais. Na mesma altura, começa também a funcionar um Banco Central Europeu,
que define a política monetária da União.
O alargamento geográfico
Em 1981, a Grécia torna-se membro efetivo da comunidade; a adesão dos dois
países ibéricos formaliza-se em 1985, com efeitos a partir do ano seguinte.
A estrada destes três novos membros colocou à CEE o seu primeiro grande
desafio, já que se tratava de um grupo de países bastante atrasado relativamente aos
restantes membros.
Em 1992, o Conselho Europeu de Lisboa recebeu as candidaturas da Áustria,
Finlândia, Suécia e Noruega, países cuja solidez económica contribuiria para o reforço
da Comunidade.
Entretanto, os desejos de adesão dos países de Leste eram olhados com
apreensão, limitando-se a Comunidade a implementar planos de ajuda às economias
em transição.
O princípio da integração das novas democracias é aceite e a Cimeira de
Copenhaga (1993) define os critérios que devem condicionar as entradas na União:
instituições democráticas, respeito pelos Direitos do Homem, economia de mercado
viável, aceitação de todos os textos comunitários.
As dificuldades de construção de uma Europa política

126
Nos últimos 50 anos, os Europeus têm-se dividido no que toca ao futuro do seu
continente: há os que se opõem a toda e qualquer forma de união europeia, os que a
defendem exclusivamente num quadro de colaboração entre estados soberanos
(unionistas) e os que apostam na criação de uma espécie de Estados Unidos da
América, com um governo federal único e supranacional (federalistas).
No entanto, o euroceticismo e a resistência a todas as medidas que impliquem
transferências de soberania não são exclusivas da Inglaterra.
Para além de ter introduzido o poderoso elemento de coesão que é a moeda
única, o Tratado criou a cidadania europeia e alargou a ação comunitária a questões
como o direito de asilo, a política de imigração e a cooperação nos assuntos internos.
Reforçou os mecanismos para a criação de uma política externa e de defesa comum.
A forma relutante como muitos europeus veem a União resulta da fraca implantação
popular do sentimento europeísta.
Cidadania europeia – Criada pelo Tratado da União Europeia, a cidadania da União
é cumulativa com a cidadania nacional e exprime-se pelo direito de voto nas eleições
europeias e autárquicas na zona de residência do cidadão, independentemente desta
se situar no seu pais de origem. Estabelece ainda o direito de apresentar propostas
(coletivas) à Comissão Europeia, endereçar petições ao Parlamentar Europeu,
apresentar queixas e beneficiar de proteção diplomática, nos países terceiros, por
parte das embaixadas ou consulados de qualquer dos Estados-membros, caso não
existam delegações do país de origem.
Novas perspetivas
O Conselho Europeu de Laeken decidiu convocar, para 2002, uma Convenção para
o Futuro da Europa, que encarregou de apresentar propostas sobre três matérias:
“aproximar os cidadãos do projeto europeu e das instituições europeias; estruturar a
vida política e o espaço público europeus numa União alargada; fazer da União um
fator de estabilização e uma referência na nova ordem mundial”.
Desta Convenção resultou um projeto de constituição europeia que previa a
criação de um ministro dos Negócios Estrangeiros da Europa, responsável pelas
posições em matéria de política externa, e o prolongamento do mandato do
presidente do Conselho Europeu. Tais decisões tinham como finalidade dar “um
rosto” à União.
1.2.3 – O espaço económico da Ásia-Pacífico
Os quatro dragões: Hong Kong, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan
O sucesso do Japão serviu de incentivo e de modelo à primeira geração de países
industriais do Leste asiático. Estes países tinham poucos trunfos em que se apoiar:
careciam de terra arável, de recursos mineiros e energéticos, bem como de capitais.
Enfrentavam os problemas da superpopulação.

127
Tomando como objetivo o crescimento económico, os governos procuraram atrair
capitais estrangeiros, adotaram políticas protecionistas, concederam grandes
incentivos à exportação e investiram fortemente no ensino.
Compensado a escassez de capitais, a industrialização asiática explorou uma mão
de obra abundante e disciplinada, capaz de trabalhar longas horas diárias por muito
pouco dinheiro. Esta mão de obra esforçada e barata permitiu produzir, a preços
imbatíveis, têxteis e produtos de consumo corrente. Desenvolveram-se outros
setores, como automóvel, a construção naval e as novas tecnologias.
Da concorrência à cooperação
Os Novos Países Industrializados (NPI) da Ásia confrontavam-se com dois
problemas graves: o primeiro era a excessiva dependência face às economias
estrangeiras, quer em termos financeiros e energéticos, sobretudo, na esfera
comercial; o segundo era intensa rivalidade que os separava, já que concorriam com
os mesmos produtos, nas mesmas zonas.
Nos anos 70, os países asiáticos foram induzidos a procurar mercados e
fornecedores mais próximos da sua área geográfica. Voltaram-se para os membros
da ASEAN, organização económica que aglutinava alguns países do Sudeste Asiático
(Tailândia, Malásia, Indonésia e Filipinas).
As duas partes deram início a uma cooperação regional estreita: o Japão, a Coreia
do Sul e Taiwan iniciaram a exportação de bens manufaturados e tecnologia para os
países do Sudeste e começaram a investir fortemente na exploração das suas
reservas petrolíferas. Obtiveram, em troca, os produtos primários que pretendiam.
Este intercambio permitiu a emergência de uma segunda geração de países
industrializados na Ásia: a Tailândia, a Malásia e a Indonésia.
O crescimento asiático alterou a balança da economia mundial, até aí concentrada
na tríade EUA, Europa, Japão. A Ásia tornou-se a região mais poluída do mundo e a
sua mão de obra permaneceu pobre e explorada.
A questão de Timor
Em 1974, a Revolução dos Cravos agitou também Timor-Leste. Nasceram três
partidos políticos: a UDT (União Democrática Timorense), que defendia a união com
Portugal num quadro de autonomia; a APODETI (Associação Popular Democrática
Timorense), favorável à integração do território na Indonésia; e a FRETILIN (Frente
Revolucionária de Timor-Leste Independente), com um programa independentista,
ligado aos ideais de esquerda.
O ano de 1975 foi marcado pelo confronto entre os três partidos. O nosso país
acabou por se retirar de Timor sem reconhecer a legitimidade de um novo governo.

128
Em 7 de dezembro desse mesmo ano, o líder indonésio Suharto ordena, em nome
da sua cruza anticomunista, a invasão do território.
Face ao sucedido, Portugal corta relações diplomática com Jacarta e apela às
Nações Unidas, que condenam a ocupação e continuam a considerar Timor-Leste um
território não autónomo, sob a administração portuguesa.
Os guerrilheiros da FRETILIN encabeçam a resistência contra o invasor, que se viu
obrigado a aumentar sucessivamente o contingente militar estacionado no território.
A 12 de novembro de 1991, as tropas ocupantes abrem fogo sobre uma multidão
desarmada que homenageava, no cemitério de Santa Cruz, um independentista
assassinado.
Com a ajuda dos media, Timor mobiliza a opinião publica mundial e, em 1996, a
causa ganha ainda mais força com a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao bispo de
Díli, D. Ximenes Belo, e ao representante da Resistência timorense no exterior,
Ramos Horta.
O povo timorense decidiu o seu destino através de um referendo, assina a 30 de
agosto de 1999.
O referendo deu uma inequívoca vitoria à independência, mas desencadeou uma
escalada de terror por parte das milícias pró-indonésias.
1.2.4 – Modernização e abertura da China à economia de mercado
A “era Deng”
A missão de mudar a face da China foi assumida por Deng Xiaoping, um comunista
que Mao afastara durante a Revolução Cultural.
Seguindo uma política pragmática, simultaneamente arrojada e cautelosa, Deng
dividiu a China em duas áreas geográficas distintas: o interior, essencialmente rural,
permaneceria resguardado da influência externa; o litoral abrir-se-ia ao capital
estrangeiro, integrando-se plenamente no mercado internacional.
O sistema agrário foi profundamente reestruturado. As terras foram
descoletivizadas e entregues aos camponeses, que puderam comercializar os
excedentes, num mercado livre. Face a estas medidas, a produção agrícola chinesa
cresceu 50% em apenas cinco anos. Quanto à indústria, sofreu uma modificação
radical. A prioridade à indústria pesada foi abandonada em favor dos produtos de
consumo e a autarcia em favor da exportação.
Em 1980, as cidades de Shenzhen, Zuhai, Shantou e Xiamen foram consideradas
Zonas Económicas Especiais (SEZ), dotadas de uma legislação ultraliberal, favorável
aos negócios. As empresas de todo o mundo foram convidadas a estabelecer-se nestas
áreas, quer através de contratos de parceria com as empresas locais, quer pela
simples abertura de filiais.

129
Desde 1981 que o crescimento económico da China tem sido impressionante. O PIB
aumentou a uma taxa que ronda os 10% ao ano, tornando-se, em 2010, o segundo
maior PIB do mundo.
A competitividade do país alicerçou-se numa massa inesgotável de trabalhadores
mal pagos e sem regalias sociais, que fluiu ininterruptamente dos campos.
Neste país socialista, as desigualdades entre o litoral e o interior e entre os ricos e
os pobres cresceram exponencialmente.
A integração de Hong Kong e Macau
A aproximação da China ao Ocidente favoreceu as negociações para a integração
dos dois enclaves que se encontravam, ainda, em mãos europeias: Hong Kong, sob
administração britânica desde o século XIX, e Macau, colónia fundada pelos
Portugueses em 1557.
Os Ingleses acordaram, em 1984, a transferência da soberania de Hong Kong para
a China, a partir de 1 de julho de 1997. O acordo instituía uma “Região Administrativa
Especial”, com um elevado grau de autonomia. Garantiu-se o funcionamento
democrático das instituições políticas do território, que conservou uma moeda
própria.
Com a integração dos dois enclaves encerrou-se, para Portugueses e Britânicos, um
longo ciclo de domínio político no Oriente.

130
Unidade 2 – A viragem para uma outra era
2.1 – Mutações sociopolíticas e novo modelo económico
2.1.1 – O debate do Estado-Nação
O Estado-Nação, assente na coincidência entre território, povo e governo, surge
como um dos principais legados do liberalismo no século XIX.
No século XX, os Estados-Nação registam uma expansão planetária, tornando-se o
elemento estruturador da ordem política internacional.
 O desmembramento dos impérios autoritários após a 1ºGM faz multiplicar os
Estados-Nação no hemisfério norte;
 Na 2ºGM, o Estado-Nação triunfa no hemisfério sul, mercê dos movimentos de
descolonização incentivados pela ONU.
Reconhecem alguns especialistas que a fórmula do Estado-Nação, considerada o
modelo de organização política mais coerente do ponto de vista jurídico e mais justo,
se revela ineficaz, face aos desafios que a nova ordem internacional provoca. Em
torno da crise/desatualização do Estados-Nação ou da sua imprescindibilidade no
mundo instalou-se o debate.
Um conjunto de fatores determina a crise do Estado-Nação:
 São as forças desintegradoras a nível local e regional, que entravam as funções
reguladoras do Estado;
 Os imensos conflitos étnicos que minam a autoridade do Estado central e
dificultam a tomada de consciência nacional;
 Os nacionalismos separatistas, como o Quebeque no Canadá, o escocês na Grã-
Bretanha, o basco e o catalão na Espanha;
 A crescente valorização das diferenças e especificidades de grupos e indivíduos.
A globalização das principais atividades económicas, dos media e da comunicação,
a circulação de capitais e de pessoas à escala mundial, as migrações, a criminalidade
transfronteira e o terrorismo, os grandes problemas ambientais não se resolvem
apenas no quadro do Estado-Nação.
Apesar das forças de desintegração que o ameaçam e das entidades
supranacionais que o ultrapassam, o modelo do Estado-Nação não se esgotou,
continuando o melhor garante de um desenvolvimento planeado, da resolução dos
problemas económicos e sociais, da transmissão de valores democráticos e
humanistas e da proteção contra os perigos externos.
2.1.2 – A explosão das realidades étnicas
Os povos agitam-se no mundo com uma intensidade acrescida desde as últimas
décadas do século XX. Os motivos apresentam-se diversificados, por remontarem a

131
antagonismos históricos ou por se ligarem ao desaparecimento dos regimes
comunistas e de outros regimes ditatoriais.
As tensões étnicas e separatistas são despoletadas pela pobreza e pela
marginalidade em que vivem os seus protagonistas, contribuindo para os múltiplos
conflitos que têm afetado a África, os Balcãs e o Médio Oriente, o Cáucaso, a Ásia
Central e Oriental.
As novas guerras são intraestáticas:
 África – as etnias dificultam a coesão política e vários dos Estados;
 Ex-Jugoslávia – as repúblicas foram dilaceradas pela “guerra étnica”;
 Estado de Israel – os Palestinianos se encarniçam na luta pela libertação dos
seus territórios;
 Médio Oriente – o povo curdo aspira a constituir-se em Estado.
 Região do Cáucaso – as tensões étnicas mostram-se violentas em território da ex-
União Soviética
 Afeganistão – as últimas décadas têm assistido a um crescendo de violência e
desentendimento
 Índia – vê-se a braços com a etnia sikh, que professa um sincretismo hindu e
muçulmano e se digladia de morte com a maioria hindu
 Sri Lanka – a etnia tâmil enfrenta os budistas cingaleses
 Tibete budista – vive uma integração forçada que tem merecido a repulsa da
comunidade internacional
 Timor-Leste – em 2002, logrou emancipar-se da Indonésia, depois de cruéis
massacres da sua população
O genocídio tem sido a face mais terrível dos conflitos étnicos que, nas últimas
décadas, atingiram o mundo. Multidões de refugiados cruzam fronteiras, clamando
pelo direito à vida.
2.1.3 – As questões transnacionais, migrações, segurança, ambiente
Migrações
Segundo o Fundo das Nações Unidas para a População, em 2000 existiam no
mundo cerca de 150 milhões de pessoas a viver num país que não aquele onde tinham
nascido.
 Motivos económicos – pobreza, emprego, melhor qualidade de vida;
 Motivos político-militares – conflito israelo-palestiniano, desmembramento da
URSS, colapso do comunismo na Europa Oriental e balcânica, da Guerra do
Golfo, intervenções americanas no Afeganistão e no Iraque, “Primavera Árabe”
no Norte de África e no Médio Oriente;

132
 Perseguições étnicas;
 Fundamentalismos religiosos.
Estes motivos levaram a: guerras civis, genocídios, movimentos de
populações em fuga, refugiados
No que se refere à geografia dos movimentos migratórios, o Sul apresenta-se
como uma área de vastos fluxos talvez porque nele se situam algumas das
populações mais carenciadas do globo. Contínuos fluxos migratórios dirigem-se
das Américas do Sul e Central procurando atingir os Estados Unidos que, com a
Europa, constituem polos de atração à escala planetária.
Se, nos locais de partida, os migrantes significam uma fonte apreciável de
divisas e de alívio de problemas, pela menor pressão exercida no mercado
laboral, já nos países de acolhimento provocam reações complexas e
problemáticas, defrontando-se os imigrantes com inesperadas rejeições, como
as reações xenófobas.
É neste contexto de hostilidade, inesperada e indesejada em países
democráticos, que apelos à integração e apreciáveis esforços se encetam para
promover a interculturalidade.
Interculturalidade – Processos de relações recíprocas que se estabelecem
entre duas culturas distintas, que procuram conhecer-se, compreender-se e
partilhar pontos de vista e experiências. Fruto das crescentes migrações, a
interculturalidade aprofunda os laços entre a cultura do país do acolhimento e
as novas culturas que nele se fixam.
No âmbito da Comunidade Europeia, implementam-se intercâmbios escolares
que facilitam as trocas pessoas e pedagógica, como é o caso do programa
Erasmus.
Segurança
Os problemas relativos à segurança são uma das questões transnacionais com que
a humanidade se debate de forma particularmente aguda. Desde 11 de setembro de
2001 tornou-se impossível ignorar essa ameaça internacional que é o terrorismo,
quando o Estado mais poderoso do mundo se viu atingido no seu coração financeiro,
Nova Iorque, e no seu centro nevrálgico político-militar, o Pentágono, em
Washington.
Embora o terrorismo não constitua um fenómeno novo, o terceiro quartel do
século XX, e mais acentuadamente o período posterior a 1990, assistiu a uma
escalada terrorista que assumiu proporções inesperadas, constituindo um verdadeiro
desafio para os Estados.

133
Nas últimas décadas, o terrorismo transformou-se numa ameaça à escala
planetária, ignorando fronteiras e poucos lugares poupando. As redes terroristas são
difíceis de combater. Ligam-se às organizações internacionais criminosas,
nomeadamente ao tráfico de armas, droga, pessoas e órgãos humanos.
Associada ao terrorismo, encontra-se a proliferação de armas e a falta de controlo
sobre a sua existência. Já não bastam os países que se recusam a assinar tratados
para a limitação do armamento nuclear, como o Paquistão, Israel e a Coreia do Norte.
Somam-se as armas nucleares, como as: as armas químicas, que libertam gases, e as
armas biológicas, que difundem vírus, bactérias e toxinas.
Ambiente
O ambientalismo constitui uma questão incontornável do nosso tempo e um
desafio a ter em conta no futuro.
A degradação do planeta acelerou-se no último século, mercê do crescimento
demográfico e das transformações económicas experimentadas pela Humanidade.
Problemas ambientais
 Destruição de florestas tropicais – solos mais vulneráveis à seca e à erosão;
 Poluição;
 Chuvas ácidas;
 Destruição da camada de ozono;
 “Efeito de estufa”/aquecimento global.
Tentativas de resolução
Por causa da camada de vida da Terra ser contínua e interligada e atendendo às
múltiplas agressões que sobre ela pairam, os cientistas lançam sistemáticos aletas
para o estado de perigo e de catástrofe iminente em que o ecossistema mundial
entrou.
 Em 1992, a Conferência das Nações Unidas para o Ambiente e o
Desenvolvimento/Cimeira da Terra, realizada no Rio de Janeiro. A tal se chamou
“desenvolvimento sustentável”;
 Em 1997, o Protocolo de Quioto estabelecia a meta global de redução em 5%
dos gases causadores de “efeito de estufa” até 2012.
2.1.4 – Afirmação do neoliberalismo e globalização da economia
Os choques petrolíferos dos anos 70, a inflação, o abrandamento das atividades
económicas e o desemprego, que duplicou na década, testemunhavam uma
poderosa crise.
Denominada de neoliberalismo, uma nova doutrina económica propõe-se, nos
anos 80, reerguer o capitalismo, na Grã-Bretanha com a primeira-ministra Margaret
Thatcher e nos Estados Unidos com Ronald Reagan.

134
Neoliberalismo – Adaptação do liberalismo económico do século XIX pelo
capitalismo dos anos 80 do século XX. Criticando a intervenção do Estado na vida
económica e social, o neoliberalismo defende o respeito pelo livre jogo da oferta e da
procura. O economista norte-americano Milton Friedman (1912-2006) foi um dos
impulsionadores do neoliberalismo, ao defender a redução das emissões monetárias
e das despesas do Estado.
Atento ao equilíbrio orçamental e à redução da inflação, o neoliberalismo
envereda por medidas de rigor.
 Diminuição da despesa pública, através da privatização das empresas, restrição
do emprego pelo Estado e cortes na segurança social;
 Limitação das emissões monetárias e o controlo exercido sobre os salários,
permitindo descer a inflação.
Ao contrário do Estado-Providência, o Estado neoliberal diminui fortemente a sua
intervenção económica e social. Pelo contrário, valoriza a iniciativa privada, incentiva
a livre concorrência e a competitividade.
No mundo dos anos 80, caminhava-se a passos largos para a globalização da
economia.
Na última década do século XX, a globalização apresenta-se como fenómeno
incontornável. Apoiadas nas modernas tecnologias da informação e da comunicação
(TIC), a conceção, a produção e a comercialização de bens e serviços, bem como os
influxos dos imprescindíveis capitais, ultrapassam as fronteiras nacionais e organizam-
se à escala planetária.
Globalização – Vocábulo, de origem anglo-saxónica, que designa a organização à
escala mundial da produção e da comercialização de bens e serviços, como se o
mundo constituísse um enorme mercado comum. Para além da dimensão
económica, a globalização faz-se acompanhar da troca de conhecimentos e de
informações à escala mundial. Por isso se fala, também, numa globalização cultural.
Os mecanismos da globalização
A liberalização das trocas
Os Estados recuam as medidas protecionistas e enveredam de um modo geral e
progressivo pelo livre-câmbio. Desde finais dos anos 80 que o comércio internacional
acusa um crescimento excecional, mercê de progressos técnicos nos transportes
(mais rápidos e mais baratos) e da criação de mercados comuns.
Trata-se de vastas regiões onde as mercadorias circulam livremente: a União
Europeia (que sucede à CEE); a Nafta, que reúne o Canadá, os EUA e o México; a
Mercosul, fundada pela Argentina, o Brasil, o Uruguai e o Paraguai; a Asean, que
integra nações do Sudeste Asiático; a Comesa, que inclui país do Oriente e Sul da
África.

135
Em 1995, a Organização Mundial do Comércio (OMC), sucede ao GATT na
regulação do comércio internacional.
 Rentabilizar os recursos mundiais e a fazer crescer a produção e o comércio de
mercadorias e serviços à escala planetária;
 Incentiva a cooperação entre os Estados-membros.
Ainda nos anos 90, novas possibilidades se abrem ao comércio internacional e ao
capitalismo, mercê do colapso do comunismo na URSS, na Europa Oriental e Balcânica
e da abertura económica da China.
À medida que o século XXI avança, deparamo-nos com um fluxo comercial
prodigioso e o mundo quase parece um mercado único. A oferta de bens e serviços é
cada vez mais igual nas diversas regiões do planeta, em virtude de uma uniformidade
de gostos culturais fomentada pela publicidade e pelos media.
Como polos dinamizadores das trocas mundiais, citam-se a União Europeia, a
América do Norte e a Ásia. Os países emergentes, designados por BRICS (Brasil,
Rússia, índia, China e África do Sul), bem como os países do Golfo exportadores de
hidrocarbonetos assumem-se como parceiros relevantes na dinâmica económica
global.
O movimento de capitais
Desde 1990, os investimentos externos (sob a forma de empréstimos e de ações)
ultrapassam o montante de um bilião de dólares.
Um novo conceito de empresa
Prosseguindo uma tendência para a internacionalização, as grandes empresas
sofrem mudanças estruturais e adotam estratégias planetárias. Desde os anos 90,
aumenta o número de empresas em que a conceção do produto, as respetivas fases
de fabrico e o setor da comercialização se encontram dispersos à escala mundial.
Eis-nos perante as firmas da era da globalização, as chamadas multinacionais ou
transnacionais. Surge a deslocalização das fábricas, sendo-lhe atribuída a principal
razão do desemprego crónico que grassa no mundo.
A crítica à globalização
O crescimento económico proporcionado pelo neoliberalismo e pela globalização
suscita acesos debates em finais dos anos 90.
Os seus defensores lembram que as medidas tomadas permitiram resolver a
gravíssima crise inflacionista dos anos 70.
Já os detratores da globalização invocam o fosso crescente entre países
desenvolvidos e países em desenvolvimento, frisando que existem casos gritantes de
pobreza e exclusão.

136
O crash de 2008 precipitou uma recessão à escala mundial, com Estados em risco
de bancarrota, falências de empresas e o desemprego em crescimento exponencial.
Sob o lema de que “um outro mundo é possível”, a alterglobalização contrapõe-lhe
o projeto de um desenvolvimento equilibrado, que elimine os fossos entre homens e
povos, respeite as diferenças, promova a paz e preserve o planeta.
2.1.5 – Rarefação da classe operária; declínio do sindicalismo e da
militância política
O fim dos operários?
Um conjunto de fatores determina, a partir do último quartel do século XX, o recuo
do setor industrial e a rarefação da classe operária, levando a que se fale na existência
de uma era pós-industrial marcada pelo “fim dos operários”.
Nos anos 70, as dificuldades económicas provocam uma acentuada crise em ramos
que tinham sido o motor do crescimento, como o têxtil, as minas de carvão, a
siderurgia, a construção naval e a própria indústria automóvel.
Nos anos 80, a política de privatização e de incentivos à iniciativa privada do Estado
neoliberal permite aos empresários rendibilizar custos, mediante despedimentos em
massa e a flexibilização de salários e do trabalho.
É sob o signo da globalização, em aceleração nos anos 90, que o mundo operário
parece entrar num inexorável declínio.
 A elevada automatização;
 As deslocalizações, aumentam o número de desempregados nas sociedades
desenvolvidas;
 A exclusão e a delinquência urbanas.
O próprio setor de serviços parece funcionar em moldes industriais, com muitos
dos seus trabalhadores perfilados em escritórios e balcões, face aos computadores e
às caixas registradoras.
Declínio do sindicalismo e da militância política
Nas sociedades desenvolvidas, chegámos ao fim do século XX com um mundo do
trabalho profundamente alterado na sua estrutura e composição.
 O setor primário quase desaparece e o terciário explode;
 As greves diminuem e os sindicatos perdem filiados.
Mas o fator mais poderoso da crise do sindicalismo relaciona-se com a rarefação
da classe operária.
O declínio do sindicalismo traduz uma outra crise, que é a do exercício da cidadania
nas sociedades democráticas. Tal défice de participação democrática denota-se

137
nomeadamente nos partidos políticos, que perdem militantes e mostram pouca
eficácia na mobilização das massas.
Nas atuais democracias ocidentais, os partidos são mais do que locais de reflexão e
debate, são empresas ou aparelhos destinados à conquista do poder político. A
militância política converte-se em carreira. A diminuição da militância política não
preocupa os dirigentes partidários.
À nova face dos partidos políticos e da política se atribui o desinteresse crescente
que os cidadãos manifestam pelos atos eleitorais. A abstenção afigura-se como
sintoma de deserção cívica e de desvitalização política.

138
Unidade 3 – Portugal no novo quadro internacional
3.1 – A integração europeia e as suas implicações
Em 1 de janeiro de 1986, Portugal integra-se na Comunidade Económica Europeia.
3.1.1 – A evolução económica
O impacto imediato da integração
A integração na CEE segue-se a um período particularmente difícil para os
Portugueses. As elevadas taxas de juro; a forte inflação que consumia os salários; o
desemprego; o escasso desenvolvimento tecnológico; o débil dinamismo
empresarial; as carências na rede de comunicações.
Em 1986, a integração na CEE proporciona a Portugal vantagens assinaláveis.
Chegam apoios de ordem técnica e um largo afluxo de capitais no âmbito dos
Fundos Estruturais e dos Fundos de Coesão.
O impacto dos fundos comunitários faz-se sentir nos anos posteriores a 1986:
 As infraestruturas desenvolvem-se e modernizam-se com um vasto programa de
obras públicas;
 Cresce o peso do comércio com os países da CEE, particularmente com a
Espanha;
 As exportações aumentam, em volume e valor acrescentado;
 Amplia-se marcadamente o grau de abertura da economia portuguesa;
 O défice da balança de transações correntes diminui;
 O produto interno bruto (PIB) cresce significativamente;
 Ocorre uma progressiva terciarização da sociedade;
 Melhora a produtividade do trabalho;
 Desce a taxa de desemprego e ascende o nível das remunerações;
 Melhoram as regalias sociais, como pensões e subsídios;
 Expande-se o acesso ao ensino;
 Melhoram os índices de desenvolvimento humano (IDH), nomeadamente com a
descida acelerada da mortalidade infantil;
 Aumenta o bem-estar e expande-se o consumo privado, o que denota
progressos no nível de vida.
Os desafios dos anos 90
A década de 90 abre-se com novos desafios para os países comunitários. O Tratado
de Maastricht (1922), que institui a União Europeia, define as condições de
integração da União Económica e Monetária, tendo em vista a adoção da moeda
única.

139
Portugal integra o grupo de 11 membros que aderem à moeda única em 1999. O
euro circulará, a partir de 2002, com toda a normalidade. Num mundo cada vez mais
competitivo, Portugal prossegue o seu programa de modernização.
 O Estado procede à privatização de empresas, o que lhe proporciona receitas
adicionais;
 Verifica-se um boom na concessão de crédito;
 A Bolsa de Valores anima a economia;
 O setor terciário explode, com a proliferação das grandes superfícies comerciais,
das telecomunicações, a expansão bancária e os progressos da informatização;
 O investimento em infraestruturas continua uma aposta forte;
 Grandiosos projetos de obras públicas.
O aumento do poder de compra da população não deve fazer esquecer os pontos
fracos da nossa economia. A agricultura e as pescas sofrem um inexorável declínio.
Recebem investimentos comunitários mas não suportam a concorrência europeia.
Quanto à indústria, beneficia do investimento de algumas multinacionais, apontando-
se a fábrica AutoEuropa, em Palmela, como sendo o investimento mais importante
efetuado, nos anos 90, no nosso país.
As dificuldades do terceiro milénio
Ao entrar no terceiro milénio, Portugal enfrenta uma conjuntura difícil.
 Sofre os choques petrolíferos que sucedem desde 1999;
 Assiste ao recrudescimento do terrorismo;
 Acusa os efeitos da quebra económica norte-americana;
 Recessão mundial relacionada com a crise dos mercados financeiros em 2002.
A economia evolui desfavoravelmente.
 Encerram empresas que não resistem à crise enquanto as transnacionais
deslocalizam as suas filiais;
 O desemprego acelera-se;
 O crescimento anual médio do PIB regride;
 Cessa a convergência nos níveis de vida e bem-estar com os outros parceiros da
União.
A dívida pública, impulsionada pelo acréscimo das despesas e pela acumulação dos
défices orçamentais, conhece um aumento explosivo, levando Portugal a solicitar um
resgate financeiro em 2011.
Até 2014, o país cumpre um rigoroso programa de contenção orçamental ditado
pelo FMI, pelo BCE e pela União Europeia – a chamada troika.
 Confrontam-se com falências de empresas e instituições bancárias;
 o agravamento do desemprego;
 A degradação das condições de vida;

140
 O crescimento da emigração.
3.1.2 – As transformações demográficas, sociais e culturais
Desde a integração de Portugal na CEE, a paisagem humana do país regista
acentuadas alterações. A melhoria das condições de vida e dos cuidados de saúde
concorrem para um aumento da esperança de vida e do fluxo imigratório.
A população não cessa de envelhecer, o que, sendo comum aos parceiros
europeus, se acelera mais em Portugal.
Portugal adquire uma atratividade jamais conseguida, tornando-se, desde os anos
90, o porto de abrigo para populações oriundas dos países lusófonos, do Brasil e do
Leste Europeu. Já no terceiro milénio, o país confronta-se com o empreendedorismo
da comunidade chinesa nas lides do comércio a retalho.
Nos anos 2000, o fluxo imigratório abranda ao invés da emigração que cresce com
a conjuntura de recessão económica. Ao entrar-se na segunda década, o saldo
migratório passa a ser novamente negativo, tal como antes da adesão à CEE.
A natalidade desce de forma tão acentuada que se fala num baby bust.
A sociedade portuguesa apresenta-se mais aberta do que na altura da integração
da CEE. O papel da mulher ganha protagonismo: o seu nível de instrução suplanta o
dos homens e entra maciçamente no mercado de trabalho.
A tradicional família nuclear recua, em virtude dos divórcios, das uniões de facto,
das famílias monoparentais, dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
3.1.3 – A consolidação da democracia
Com a integração de Portugal na Comunidade, o país entendia melhor preservar as
jovens instituições democráticas, ameaçadas por projetos revolucionários e tentações
totalitárias, nesses anos conturbados que se seguiram à Revolução de 25 de Abril.
Desde a integração europeia que o percurso democrático português se faz sem
sobressaltos de maior. Portugal usufrui de prestígio democrático, merecendo a
confiança dos parceiros comunitários e do mundo.
 Junho de 2004 – Durão Barroso – presidir aos destinos da União Europeia
expressa o prestígio do país;
 2005 – António Guterres – presidir ao Alto-Comissariado das Nações Unidas
para os Refugiados.
3.2 – As relações com os países lusófonos e com a área ibero-
americana
Ancorado na União Europeia, que ajuda a construir, Portugal não negligencia, em
matéria de política externa, as suas ligações ao mundo da lusofonia.

141
 Brasil, que deu o seu “grito de Ipiranga”, em 1822;
 Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) – independentes em
1974-75;
 Timor-Leste – independentes em 2002.
No quadro da política internacional portuguesa, sobressai a Comunidade Ibero-
Americana, na qual o nosso país beneficia das boas relações que mantém com a
Espanha e com o Brasil.
As relações de Portugal com os países lusófonos e com a área ibero-americana
afiguram-se de indubitável pertinência nos tempos atuais. Valorizar uma língua e
tradições históricas, que se não podem escamotear, significa afirmar uma identidade
e preservar um património.
3.2.1 – O mundo lusófono
Portugal e os PALOP
Depois de um período algo conturbado após a independência das colónias,
Portugal começou a normalizar as suas relações.
Angola:
1982 – assinatura de um protocolo de cooperação económica (trocas comerciais);
1996 – acordo de cooperação financeira (reconversão da dívida/investimento).
Angola representa cerca de 80% das nossas exportações para os PALOP.
Moçambique:
1996 – adesão à Comunidade de Países Língua Portuguesa.
Associa-se à África do Sul e à Commonwealth.
Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Guiné:
Estabeleceram protocolos de assistência e cooperação com Portugal (educação,
economia, cultura, ciência, etc.) – Planos Indicativos de Cooperação (PIC).
2003 – o Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD) coordena a ajuda
de Portugal aos países lusófonos.
Guiné Equatorial:
2014 – adesão à Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa.
Adotou o português como língua oficial.
Aboliu a pena de morte.
Portugal e o Brasil
O Brasil e Portugal estabelecem relações económicas entre os dois países
incrementando-se nos anos 90.
Brasil: contribui com produtos primários

142
Portugal: encontra, no Brasil, boas condições para o investimento na
metalomecânica, têxtil, energias alternativas, turismo, telecomunicações
EDP, SONAE, CIMPOR, Portugal Telecom – empresas portuguesas que
beneficiaram do clima de cooperação existente.
A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa/CPLP (1996): Angola, Brasil, Cabo
Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste
(2002), Guiné Equatorial (2014) – comunidade policêntrica (os membros têm
igualdade soberana e um deles assume a presidência); multiétnica e multicultural;
concentração político-diplomática; cooperação económica, social, cultural, jurídica e
técnico-científica.
A língua portuguesa tem desempenhado um papel fundamental e facilitador no
estabelecimento das mais variadas parcerias e laços comerciais no seio da CPLP. A
Comunidade dedica à elevação do português a língua internacional, naquilo que
alguns entenderam ser o contributo mais notável da comunidade lusófona.
3.2.2 – A área ibero-americana
Membros da União Europeia e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa,
Portugal mantém ainda colaboração ativa na Comunidade Ibero-Americana (CIA), com
propósitos de intercâmbio educativo, cultural, económico e empresarial, científico e
técnico.

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