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Disjunções / Bernard Tschumi

Article · April 2012

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Igor Fracalossi
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10/6/2017 Disjunções / Bernard Tschumi | ArchDaily Brasil

ArchDaily  Notícias  Disjunções / Bernard

Disjunções / Bernard Tschumi


20:00 - 26 Abril, 2012 
por Igor Fracalossi

1. Disjunção e Cultura

O paradigma do arquiteto transmitido a nós através do período moderno é aquele do inventor de


formas, o criador de estruturas hierárquicas e simbólicas caracterizadas, por um lado, por sua
unidade de partes e, por outro, pela transparência da forma ao significado. (O tema arquitetônico
moderno, mais que o modernista, é referido aqui para indicar que essa perspectiva unificada
excede e muito nosso passado recente.) Um número de correlatos bem conhecidos elabora esses
termos: a fusão de forma e função, programa e contexto, estrutura e significado. Sob eles, está a
crença no objeto unificado, centrado, e auto-generativo, cuja própria autonomia é refletida na
autonomia formal da obra. Contudo, em certo ponto, essa prática corrente, que acentua a síntese,
a harmonia, a composição de elementos e a aparente coincidência de partes potencialmente
distintas, se torna alienada da sua cultura externa, das condições culturais contemporâneas.

2. Des-estruturando

Em suas interrupções e disjunções, suas características fragmentação e dissociação, as


circunstâncias culturais atuais sugerem a necessidade de descartar categorias de significado e
histórias contextuais estabelecidas. Poderia valer a pena, portanto, abandonar qualquer noção de

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uma arquitetura pós-modernista em favor de uma arquitetura “pós-humanista”, uma que


tensionaria não só a dispersão do sujeito e a força de regulação social, mas também o efeito de tal
descentramento em toda a noção de forma arquitetônica unificada e coerente. Também parece
importante pensar, não em termos de princípios de composição formal, mas em questionar as
estruturas –isto é, ordem, técnicas, e procedimentos que estão vinculados a qualquer obra de
arquitetura.

Tal projeto está claramente removido do formalismo, no que tensiona a motivação histórica do
signo, enfatizando sua contingência, sua fragilidade cultural, mais que uma essência a-histórica. É
um projeto que, em tempos atuais, só pode confrontar a fenda radical entre significante e
significado ou, em termos arquitetônicos, espaço e ação, forma e função. Que hoje nós estejamos
testemunhando uma surpreendente deslocação desses termos chama atenção não só ao
desaparecimento de teorias funcionalistas, mas talvez também à função normativa da própria
arquitetura.

3. Ordem

Qualquer obra teórica, quando “disposta” na realidade construída, ainda retém seu papel dentro
de um sistema geral ou sistema aberto de pensamento. Como no projeto teórico The Manhattan
Transcripts (1981), e o construído Parc de la Villette, o que é questionado é a noção de unidade. Da
maneira que são concebidas, ambas obras não apresentam nem começos nem fins. São
operações compostas por repetições, distorções, superposições, e assim por diante. Apesar de ter
sua própria lógica interna –elas não são desintencionalmente pluralistas–, suas operações não
podem ser descritas puramente em termos de transformações internas ou sequenciais. A ideia de
ordem é constantemente questionada, desafiada, levada ao limite.

4. Estratégias de Disjunção

Apesar de que a noção de disjunção não é para ser vista como um conceito arquitetônico, ela tem
efeitos que são impressos sobre o sítio, edifício, e até o programa, de acordo com a lógica
dissociativa que governa a obra. Se alguém tivesse que definir disjunção, indo além do seu
significado no dicionário, insistiria na ideia de limite, de interrupção. Tanto Transcripts como La
Villette empregam diferentes elementos de uma estratégia de disjunção. Essa estratégia toma a

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forma de uma exploração sistemática de um ou mais temas: por exemplo, quadros e sequências
no caso de Transcripts, e superposição e repetição em La Villette. Tais explorações não podem
jamais ser conduzidas no abstrato, ex nihilo: se trabalha dentro da disciplina da arquitetura –
ainda que com um conhecimento de outros campos: literatura, filosofia, ou até teoria de filmes.

5. Limites

A noção do limite é evidente na prática de Joyce, e Bataille e Artaud, quem trabalharam no limite
da filosofia e da não-filosofia, da literatura e da não-literatura. A atenção prestada hoje à
aproximação desconstrutiva de Jacques Derrida também representa um interesse pelo trabalho
no limite: a análise de conceitos da maneira mais rigorosa e internalizada, mas também suas
análises desde fora, como para questionar o que esses conceitos e sua história escondem, como
repressão ou dissimulação. Tais exemplos sugerem que existe uma necessidade de considerar a
questão dos limites em arquitetura. Eles atuam como lembretes (para mim) de que meu próprio
prazer nunca emergiu de olhar aos edifícios, às grandes obras da história ou da arquitetura atual,
mas antes em desmantelá-los. Para parafrasear Orson Welles: “eu não gosto de arquitetura, eu
gosto de fazer arquitetura.”

6. Notação

O trabalho em notação empreendido em The Manhattam Transcripts foi uma tentativa de


desconstruir os componentes da arquitetura. Os diferentes modos de notação empregados foram
concentrados em ambiciosos domínios, ainda que normalmente excluídos de grande parte da 
teoriaarquitetônica, indispensáveis ao trabalho nas margens, ou limites, da arquitetura. Apesar de
que nenhum modo de notação, quer matemática quer lógica, possa transcrever a grande
complexidade do fenômeno arquitetônico, o progresso da notação arquitetônica é vinculado à
renovação tanto da arquiteturaquanto dos seus conceitos de cultura associados. Uma vez que os
componentes tradicionais tenham sido desmantelados, reassemblar é um processo estendido;
sobretudo, o que é ultimamente uma transgressão dos cânones clássicos e modernos não deveria
ser permitido para regressar ao empirismo formal. Por isso a estratégia disjuntiva utilizada tanto
em Transcriptscomo em La Villette, na qual os fatos nunca são completamente conectados, e as
relações de conflito são cuidadosamente mantidas, rejeitando a síntese e a totalidade. O projeto
nunca é alcançado, nem as bordas são sempre definitivas.

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7. Disjunção e a Vanguarda

Como Derrida destaca, conceitos arquitetônicos e filosóficos não desaparecem durante a noite.
Apesar da antiga moda da “quebra epistemológica”, rupturas sempre ocorrem em um tecido
antigo que é constantemente desmantelado e deslocado de tal maneira que sua ruptura leva a
novos conceitos ou estruturas. Em arquitetura, tal disjunção implica que a qualquer momento
qualquer parte pode se tornar uma síntese ou totalidade auto-suficiente, cada parte leva à outra,
e toda construção é desequilibrada, constituída pelos traços de outra construção. Poderia ser
também constituída pelos traços de um evento, de um programa. Isso pode levar a novos
conceitos, como o que se pretende aqui, entender um novo conceito de cidade, de arquitetura.

Se nós tivéssemos que qualificar uma arquitetura ou um método arquitetônico como “disjuntivo”,


seus denominadores seriam os seguintes:

- Rejeição da noção de “síntese” em favor da ideia de dissociação, de análise disjuntiva

- Rejeição da oposição tradicional entre uso e forma arquitetônica em favor de uma superposição
ou justaposição dos dois termos que podem ser independentemente ou similarmente submetidos
a métodos idênticos de análise arquitetônica

- Ênfase posta, como um método, na dissociação, superposição, e combinação, os quais


provocam forças dinâmicas que se expandem por todo o sistema arquitetônico, explodindo seus
limites enquanto sugerem uma nova definição

O conceito de disjunção é incompatível com uma visão estática, autônoma e estrutural da


arquitetura.

Mas não é anti-autonomia ou anti-estrutura; simplesmente implica operações constantes e


mecânicas que sistematicamente produzem dissociação no espaço e tempo, onde um elemento
arquitetônico só funciona por colisão com um elemento programático, com os movimentos do
corpo, ou o que seja. Dessa maneira, a disjunção se torna uma ferramenta sistemática e teórica de
fazer arquitetura.

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© Da tradução: Igor Fracalossi

Referência: TSCHUMI, Bernard. “Disjunctions”, em seu: Architecture and disjunction. Cambridge,


Mass.: MIT Press, 1994, pp. 206-213.

Veja mais:

Notícias Artigos

arquitetura teoria

bernard-tschumi

desconstrutivismo

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Cita: Igor Fracalossi. "Disjunções / Bernard Tschumi" 26 Abr 2012. ArchDaily Brasil. Acessado 6 Out 2017.
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