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Veronica Manole

O DEBATE PARLAMENTAR
EM PORTUGUÊS (PORTUGAL, BRASIL) E ROMENO:
ANÁLISE PRAGMÁTICO-DISCURSIVA

Casa Cărţii de Ştiinţă


Cluj-Napoca - 2020
Referenţi ştiinţifici:
Prof. dr. emerit Maria Helena Araújo Carreira (Universitatea Paris VIII)
Prof. dr. Isabel Margarida Duarte (Universitatea din Porto)

Coperta: Dumitru Furculiţă

Editură acreditată CNCS - B

Descrierea CIP a Bibliotecii Naţionale a României


MANOLE, VERONICA
O debate parlamentar em português (Portugal, Brasil) e romeno :
análise pragmático-discursiva / Veronica Manole. - Cluj-Napoca :
Casa Cărţii de Ştiinţă, 2020
Conţine bibliografie
ISBN 978-606-17-1511-4
81

Tehnoredactare: Adrian Cristian Pop


Casa Cărţii de Ştiinţă
B-dul Eroilor nr. 6-8, Cluj-Napoca, 400129
Tel./fax: 0264-431920; e-mail: editura@casacartii.ro
―Tout l‘art du dialogue politique consiste à parler tout
seul à tour de rôle.‖ (André Frossard)

―Don‘t answer the question you were asked.


Answer the question you wish you were asked.‖
(Robert McNamara, político americano)

―Le lieu du politique se caractérise par une donnée


irréductible: on y discute entre soi tout en
s‘adressant à des tiers.‖ (Marc Abélès, Un ethnologue à
l‘Assemblée)
ÍNDICE

Introdução 1
Preâmbulo jurídico-político 5
1. O papel dos parlamentos nos sistemas políticos atuais 6
1.1 Parlamentarismo, presidencialismo, semi-presidencialismo 6
1.2 A relação com o executivo 8
1.3 A liberdade de expressão dos parlamentares 9
1.4 O contexto político em 2011 e 2012 em Portugal, no Brasil e na Roménia 11
2. A organização institucional das reuniões parlamentares 12
2.1 Tipos de reuniões 12
2.2 A tomada de palavra segundo os regimentos 13
2.3 A disposição espacial dos parlamentares 14

1. A ARQUITETURA DO DISCURSO PARLAMENTAR 17


1.1. Abordagens linguísticas do discurso parlamentar 18
1.1.1 Estado de arte 18
1.1.1.1 O discurso parlamentar português 22
1.1.1.2 O discurso parlamentar brasileiro 23
1.1.1.3 O discurso parlamentar romeno 23
1.1.2 Algumas definições 25
1.1.2.1 O discurso público 26
1.1.2.2 O discurso político 28
1.1.2.3 O discurso parlamentar 31
1.1.2.3.1. Sub-géneros do discurso parlamentar 33
1.1.2.3.2. Os atores do discurso parlamentar 34
1.1.2.3.3 A identidade (dos) parlamentar(es) 38
1.2 O corpus 41
1.2.1 Critérios de seleção 42
1.2.1.1 O sub-corpus português 43
1.2.1.2 O sub-corpus brasileiro 43
1.2.1.3 O sub-corpus romeno 44
1.2.2 Do oral à escrita 46
1.2.2.1 Os ―beneditinos‖ da escrita 46
1.2.2.2 Oral vs. escrita? / Oral e escrita? 47
1.2.2.3 Correções e supressões de conteúdo 49
1.2.2.4 Correções gramaticais 51
1.2.2.5 Reformulações para esclarecer a mensagem 52
1.2.2.5.1 Explicação das siglas 52
1.2.2.5.2 Eliminação de traços de oralidade 53
1.2.2.6 O uso do registo formal 56
1.2.2.7 Alterações da dinâmica do turno de fala 57
1.3 A construção sequencial do debate parlamentar 61
1.3.1 A sequência de abertura 65
1.3.2 O corpo da interação 80
1.3.2.1 A exposição 81
1.3.2.2 A resposta detalhada 85
1.3.2.3 As perguntas dos requerentes 93
1.3.2.4 A sessão de questões e respostas 96
1.3.2.5 A conclusão 107
1.3.3 A sequência de fecho 112
1.4 A negociação do turno de fala 117
1.4.1 O papel do moderador 121
1.4.2 Estratégias de negociação 127
1.4.3 Uma tipologia das interrupções 135
1.5 Responder às perguntas 145
1.5.1 ―Não responder às perguntas parlamentares é uma estratégia...‖ 146
1.5.2 Uma tipologia das perguntas 152
1.5.3 Estratégias de evitamento 158
1.5.4 Vagueza e imprecisão 176
Conclusões parciais 191

2. O TRATAMENTO NO DISCURSO PARLAMENTAR 195


2.1 Considerações teóricas 197
2.1.1 Tratamento, adresare, referire em português e romeno 199
2.1.1.1 Elocução 199
2.1.1.2 Alocução 200
2.1.1.3 Delocução 208
2.1.2 Questões problemáticas 210
2.1.2.1 Alocução dupla e destinatário in absentia 211
2.1.2.2 Delocução in praesentia 213
2.1.3 Formas de tratamento e (des)cortesia parlamentar 216
2.2 A imagem de si: o tratamento pronominal elocutivo 221
2.2.1 Eu, nós e a gente 224
2.2.2 Eu, como... 231
2.2.3 Nós 233
2.2.3.1 Nós1 – genérico 234
2.2.2.2 Nós2 – eu 235
2.2.3.3 Nós3 – eu e o interlocutor 235
2.2.3.4 Nós4 – os da sala 236
2.2.3.5 Nós5 – os políticos 237
2.2.3.6 Nós6 – o partido 239
2.2.3.7 Nós7 – a oposição 242
2.2.3.8 Nós8 – os parlamentares 243
2.2.3.9 Nós9 – a instituição 244
2.2.3.10 Nós10 – os cidadãos 246
2.2.3.11 Nós11 – os do oeste do país 247
2.2.3.12 Nós12 – o país 249
2.2.3.13 Nós13 – polémico 250
2.2.4 Nós vs. os outros 251
2.2.5 Nós, nós, nós 253
2.3 A imagem do(s) outro(s): o tratamento pronominal alocutivo e delocutivo 257
2.3.1 Vossa Excelência 258
2.3.1.1 Usos congruentes 259
2.3.1.2 Usos neutros 260
2.3.1.3 Usos incongruentes 261
2.3.2 Dumneavoastră e domnia voastră 266
2.3.2.1 Dumneavoastră, domnule 266
2.3.2.2 Dumneavoastră, domnilor 274
2.3.2.3 Domnia voastră 279
2.3.3 Você(s), dumneata e voi 280
2.3.4 El, dânsul, dumnealui, domnia sa e Excelenţa Sa 289
2.3.5 Ele e eles 302
2.4 A imagem do(s) outro(s): o tratamento nominal alocutivo e delocutivo 307
2.4.1 Tratamento institucional 307
2.4.1.1 Estrutura interna 310
2.4.1.2 Função discursivo-textual 317
2.4.1.3 Função interlocutiva 325
2.4.2 Tratamento relacional 333
2.4.2.1 Amigo(s) 334
2.4.2.2 Colega(s) 338
2.4.2.3 Irmão(s) 345
2.4.3 Tratamento profissional e académico 347
2.4.4 Tratamento pessoal: o senhor + nome / apelido 352
2.4.5 Tratamento pessoal: nome / apelido 356
2.4.6 Tratamento genérico: o(s) senhor(es) 358
2.4.7 Tratamento genérico: doamnelor şi domnilor 362
2.5 A negociação do tratamento 369
2.5.1 Tratamento elocutivo 370
2.5.2 Tratamento alocutivo 371
2.5.3 Tratamento delocutivo 374
Conclusões parciais 379
Conclusões finais 381
Referências bibliográficas 385
Résumé en français 405
Introdução

―A discussão vai larga e degenerada, ja principia a cansar a camara, e ha muito


que enfastiou a Nação. E comtudo, eu espero d‘ella um grande fructo, uma
utilidade immensa, inappreciavel, com que não so a Camara mas toda a Nação
hade ganhar muito: — a prova indirecta, o testimunho irrefragavel, a convicção
unanime de que não era este o modo, de que não era certamente este o stylo de
discutir a resposta a um discurso da Coroa.‖ (Almeida Garrett)

Com esta avaliação metalinguística começava a 8 de fevereiro de 1840 um dos


seus discursos parlamentares o visconde João Baptista da Silva Leitão de Almeida
Garrett, deputado pela Ilha da Terceira: por um lado, lamentando a ―degeneração‖ da
―discussão‖ parlamentar da época e, ao mesmo tempo, mantendo a esperança quanto
ao seu ―fructo‖ para a Câmara e para a Nação. Nestas duas considerações do escritor
e político português do século XIX encontra-se talvez a justificação desta análise, que
se debruça sobre ―a discussão‖ parlamentar com instrumentos oferecidos pelas
ciências da linguagem e não pela ciência política.
Tirando algumas particulariadades estilísticas típicas do português dos meados
do séculos XIX, o breve trecho garrettiano é de uma atualidade surpreendente, dado
que os debates parlamentares parecem tornar-se cada vez mais agressivos 1 – ou
―degeneram‖, nas palavras de Almeida Garrett –, mas, ao mesmo tempo, mantêm a
sua importância fundamental – o ―fructo‖ – para a nação e para o funcionamento da
democracia.
Com base nestas reflexões sobre a natureza agonal dos debates parlamentares e
a relevância das mesmas para as sociedades democráticas, tentaremos na nossa
investigação responder à pergunta: ―Como se fala hoje nos parlamentos de Portugal,
do Brasil e da Roménia?‖. Sendo esta interrogação demasiado geral e abrangente, pois
abre perspectivas de pesquisa muito variadas – como comprova a diversidade dos
estudos apresentados no estado de arte –, decidimos limitar as análises comparativas a
dois aspetos que nos pareceram relevantes: a arquitetura dos debates parlamentares –
com a sua estrutura sequencial, o funcionamento da negociação conversacional e a
dinâmica do binómio pergunta-resposta – e a construção das relações interlocutivas,
das imagens de si e dos outros através de usos estratégicos das formas de tratamento.

1 Maria Aldina Marques numa entrevista para o jornal Publico confirma que há um nível
crescente de agressividade nos debates parlamentares: http://www.publico.pt/politica/
noticia/debates-na-assembleia-da-republica-estao-mais-agressi-vos-e-musculados-1595625
[última consulta 2.09.2015].

1
Um primeiro desafio que enfrentámos nos momentos iniciais desta investigação
foi compreender o contexto em que funcionam os debates parlamentares portugueses,
brasileiros e romenos, ou seja os três sistemas políticos, resultantes de tradições políticas
e de histórias diferentes. Dada a natureza essencialmente referencial de qualquer corpus
político (Mayaffre 2005: 4), considerámos necessário entender o quadro institucional em
que decorrem os trabalhos parlamentares, tanto do ponto de vista jurídico – através das
normas constitucionais e regimentais –, como do ponto de vista político – atores
envolvidos, ideologias veiculadas – para melhor analisar os debates.
Os resultados das nossas tentativas de compreensão do papel do poder legislativo
no âmbito dos sistemas políticos de Portugal, do Brasil e da Roménia encontram-se no
Preâmbulo jurídico-político e no anexo intitulado Breve história parlamentar, em que fazemos
uma análise comparada do funcionamento e da evolução dos três órgãos legislativos.
Embora possam parecer demasiado detalhadas num trabalho que privilegia a análise
linguística, estas abordagens complementares, que enfocam a dimensão jurídíca, política
e histórica dos parlamentos, ajudaram-nos a selecionar um corpus de debates
comparáveis do ponto de vista temático (ver a secção 1.2.1 Critérios de seleção).
Por conseguinte, começamos o nosso trabalho por definir o discurso
parlamentar em articulação com o discurso político e o discurso público. Em seguida,
criamos um corpus com coerência cronológica e temática, composto por trinta e três
debates que decorreram em 2011 e 2012 e em que o poder legislativo exerce a sua
prerrogativa de fiscalizar o poder executivo: onze interpelações ao governo na
Assembleia da República de Portugal, onze audiências públicas de membros do
governo na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos
Deputados do Congresso Nacional du Brasil e onze reuniões plenárias do Parlamento
da Roménia, em que os senadores e os deputados debateram moções simples ou
moções de censura.
Um segundo desafio da nossa investigação prende-se com as particularidades
do corpus, tomando em consideração o processo de ―retextualização‖ (Oliveira 2013)
que ocorre nas transcrições oficiais feitas pelos serviços parlamentares de taquigrafia e
arquivos. Sem afirmar a sua inadequação para o estudo linguístico 2 , fazemos uma
comparação entre as gravações áudio e vídeo de três reuniões e as respetivas
transcrições e destacamos algumas limitações que o uso deste corpus podia ter para o
estudo linguístico, sendo as mais relevantes: a impossibilidade de fazer demasiadas

2 No que diz respeito às transcrições oficiais dos debates parlamentares, há autores, como
Mollin (2007), que as carateriza como um pesadelo para os linguistas, mas há também
abordagens menos categóricas, como Zafiu (2004), que destacam suas limitações, mas não os
elimina de entre as fontes possíveis para as análises linguísticas. Nós situamo-nos na segunda
categoria, considerando que as transcrições oficiais constituem um corpus que pode ser
aproveitado nos estudos linguísticos, tomando em consideração a impossibilidade de fazer
afirmações demasiado categóricas sobre os resultados obtidos.

2
generalizações em relação aos registos de língua e inviabilidade dos possíveis
resultados baseados exclusivamente em análises quantitativas.
Depois da definição do discurso parlamentar e da análise do corpus, fazemos
uma análise da arquitetura dos debates, com base no quadro teórico da linguística
interacionista e da análise do discurso, insistindo em três componentes: i) a estrutura
sequencial – a abertura, o corpo da interação; o fecho (Kerbrat-Orecchioni 1990) – e as
particularidades de configuração em cada sub-corpus; ii) o impacto dos resultados das
negociações conversacionais (Kerbrat-Orecchioni 2005) para o sucesso das interações;
iii) a estrutura textual e argumentativa das perguntas parlamentares e das respostas, com
estratégias de evitamento (Clayman 2001; Rasiah 2010) e usos de imprecissão lexical e
vagueza textual (Gruber 1993). Assim, a primeira parte do livro, através dos seus cinco
capítulos – 1.1 Abordagens linguísticas do discurso parlamentar, 1.2 O corpus, 1.3 A
construção sequencial do debate parlamentar, 1.4 A negociação do turno de fala, 1.5
Responder às perguntas – procura descrever os debates parlamentares, observando o
ritual institucional – e os deslizes do mesmo nas interações propriamente ditas –, as
disputas sobre o tempo disponível, o papel dos oradores – destacando-se a autoridade
discursiva do Presidente –, o trabalho de figuração (facework) quando se colocam
perguntas e se dão respostas.
A segunda parte do volume analisa o uso das formas de tratamento –
elocutivas, alocutivas e delocutivas – e o seu papel na configuração da distância
interlocutiva (Carreira 1997) – no eixo distanciamento vs. afastamento – e da
construção discursiva de imagens de si e dos outros. Num primeiro momento,
fazemos um enquadramento teórico do tratamento – em articulação com os conceitos
―adresse‖ da linguística francesa, ―adresare‖ e ―referire‖ da linguística romena,
descrevendo o inventário de formas – com base em critérios morfológicos e
pragmáticos. São também apesentados usos menos canónicos dos debates
parlamentares, como a alocução dupla e a delocução in praesentia, bem como o papel
das formas de tratamento no funcionamento da (des)cortesia parlamentar.
Os quatro capítulos de análise que integram a segunda parte – 2.1 A imagem de si: o
tratamento pronominal elocutivo, 2.2 A imagem do(s) outro(s): o tratamento pronominal alocutivo e
delocutivo, 2.3 A imagem do(s) outro(s): o tratamento nominal alocutivo e delocutivo, 2.4 A negociação
do tratamento – concentram-se na identidadade (dos) parlamentar(es), com as suas
múltiplas facetas, e no seu duplo papel em interação enquanto mecanismo de
autoapresentação e de relacionamento com o(s) outro(s), através da construção de
relações consensuais ou conflituais, de regulamentação da distância. São privilegiadas as
análises qualitativas, que revelam usos concretos em contextos específicos, as
comparações de natureza quantitativa tendo um caráter pontual, sendo aproveitadas
apenas em casos de diferenças significativas de usos, que não poderiam ser afetadas de
forma categórica pela retextualização das transcrições.
Esta análise dos debates parlamentares, que se baseia num quadro teórico
essencialmente interacionista, permite-nos, em primeiro lugar, fazer comparações
intra-linguísticas, entre duas variantes do português e inter-linguísticas, entre duas

3
línguas românicas, o português e o romeno. Em segundo lugar, permite-nos destacar
diferenças e semelhanças no funcionamento e na organização do discurso político em
três países com tradições democráticas, culturais e sociais diferentes.
Voltando às considerações de Almeida Garrett, feitas há quase dois séculos,
este estudo permitiu-nos observar a tensão evidente entre a norma institucional e o
desacordo ritualizado no discurso parlamentar, responsável, talvez, pela ―discussão
larga e degenerada‖.

***

Este volume é uma versão ligeiramente modificada da tese de doutoramento


que defendemos a 1 de dezembro de 2015 na Universidade Paris VIII. O presente
trabalho não teria sido possível sem as bolsas concedidas pela Pró-Reitoria da Pós-
Graduação da Universidade de São Paulo e pela Associação Internacional dos
Lusitanistas, que nos propiciaram o acesso a materiais bibliográficos fundamentais
durante os estágios de investigação feitos na Universidade de São Paulo em 2012 e na
Universidade do Porto em 2013. Os nossos agradecimentos vão também para a École
doctorale ―Pratiques et théories du sens‖ e para o Laboratoire d‘Études Romanes (EA 4385), que
apoiaram as nossas participações em congressos e conferências internacionais durante
os estudos de doutoramento.
Gostaríamos de expressar o nosso enorme agradecimento à Professora
Doutora Maria Helena Araújo Carreira, que orientou com paciência e delicada
diplomacia a nossa tese. Queríamos também agradecer aos membros do júri –
Professora Doutora Isabel Margarida Duarte (Universidade do Porto), Professora
Doutora Liana Pop (Universidade Babeş-Bolyai), Professora Doutora Aldina Marques
(Universidade do Minho) e Professora Doutora Jacqueline Penjon (Universidade Paris
III) – a leitura cuidadosa da tese, as sugestões feitas e as discussões estimulantes
durante a defesa. À colega Andreea Teletin agradecemos a ajuda constante com os
trâmites burocráticos na Universidade Paris VIII e as frequentes e esclarecedoras
discussões sobre a análise do discurso.

4
Preâmbulo jurídico-político
...de facto, é tudo de acordo com a lei, portanto, não
é preciso mudar a lei. Não é preciso mexer na lei.
(DAR, 28/01/2011, I Série — Número 44)

A análise comparativa do discuso parlamentar português, brasileiro e romeno


apresenta desafios que não se relacionam apenas com o uso da língua, mas também
com o funcionamento de três sistemas políticos que têm histórias e normas jurídicas
diferentes (ver infra Anexo 3. Breve história parlamentar). Visto que o discurso não pode
ser analisado fora do seu contexto3, consideramos que conhecer melhor os sistemas
políticos em que funcionam os três parlamentos escolhidos para esta investigação é
uma etapa essencial da análise.
Portanto, uma breve contextualização jurídica e política permitir-nos-á
compreender melhor o quadro institucional do funcionamento dos debates
parlamentares e as suas particularidades nos três países, pois ao analisarmos o discurso
parlamentar português, brasileiro e romeno, não comparamos apenas duas línguas – o
português com duas das suas variedades – e três culturas, mas também três sistemas
políticos diferentes. O Brasil é uma federação que adotou o presidencialismo como
sistema de organização do Estado, modelo político prevalente no continente
americano, ao passo que Portugal e a Roménia são Estados unitários, que escolheram,
como a maioria das democracias europeias, um modelo político mais próximo do
parlamentarismo, o semi-presidencialismo.
Em primeiro lugar, as diferenças identificasas prendem-se com a estrutura das
três instituições legislativas. O órgão legislativo do Brasil – chamado Congresso,
denominação mais comum na tradição presidencialista – e o da Roménia são
bicamerais, sendo compostos por Senado e Câmara dos Deputados, ao passo que a
Assembleia da República de Portugal tem uma estrutura monocameral. Se no Brasil a
existência do parlamento bicameral se justifica pela estrutura do Estado, visto que o
Senado representa os interesses dos membros da federação – os 26 estados e o
Distrito Federal – e a Câmara dos Deputados representa o povo brasileiro, na
Roménia, país cujo Estado é unitário, o parlamento bicameral justifica-se apenas por
razões históricas (ver infra Anexo 3. Breve história parlamentar).

3Veja-se, por exemplo, a oposição língua / discurso: ―La langue définie comme système de
valeurs virtuelles s‘oppose au discours, à l‘usage de la langue dans un contexte
particulier, qui filtre ces valeurs et peut susciter de nouvelles [...]. La « langue » définie
comme système partagé par les membres d‘une communauté linguistique s‘oppose au «
discours », considéré comme un usage restreint de ce système‖ Maingueneau (2002: 185-
186, nosso negrito).

5
Em segundo lugar, são de igual importância os mecanismos do funcionamento
institucional dos parlamentos de Portugal, do Brasil e da Roménia segundo os quadros
regimentais e legais em vigor, por exemplo as normativas jurídicas, as atribuições, a
relação com o poder executivo. Estas informações serão utilizadas na criação de um
corpus coerente do ponto de vista temático, com reuniões que partilham uma série de
caraterísticas e que podem ser comparadas.
Por último, para além da organização jurídica e do funcionamento institucional
dos três parlamentos, a sua estrutura política e partidária é igualmente relevante para a
análise do discurso. A Câmara dos Deputados do Brasil é uma das mais fragmentadas
do mundo (Nicolau 2011: 386), por causa do grande número de partidos que a
compõem, ao passo que nos órgãos legislativos português e romeno 4 há menos
partidos políticos, que podem formar coligações parlamentares ou governamentais
mais facilmente. Por conseguinte, estudaremos também a estrutura política de cada
legislatura nos três países en 2010 e 2011, as ideologias veiculadas pelos partidos e os
seus representantes para compreender melhor os discursos produzidos nos debates.

1. O papel dos parlamentos nos sistemas políticos atuais


Neste subcapítulo fazemos uma apresentação de algumas particularidades da
organização do poder legislativo no âmbito dos sistemas políticos dos três países.
Apresentaremos os artigos dos regimentos parlamentares que dizem respeito à relação
com o executivo e concentrar-nos-emos no estatuto dos parlamentares, com maior
enfoque na liberdade de expressão garantida constitucionalmente.

1.1 Parlamentarismo, presidencialismo, semi-presidencialismo


O princípio mais importante na organização democrática dos estados modernos é
a separação dos três poderes, definidas por Montesquieu em L‘esprit des lois: i) o poder
legislativo, atribuído ao parlamento, ii) o poder executivo, exercido pelo governo, iii) o
poder judiciário, exercido pelos tribunais. Se o poder judiciário é, pela sua natureza,
independente no exercício das suas funções e prerrogativas 5 , as relações entre o
legislativo e o executivo podem variar em função dos regimes políticos de cada país.
No regime parlamentar há um equilíbrio e uma interdependência entre o poder
legislativo e o poder executivo. O governo é responsável perante o parlamento, mas,
por sua vez, o executivo pode dissolver a instituição legislativa; para governar, o

4 Apesar de os parlamentos serem as instituições que excercem o poder legislativo, enquanto


órgãos de soberania nacional, têm competências no que diz respeito a outras questões do
Estado: expressar-se em questões de política externa, fiscalizar o poder executivo, oferecer
apoio e assessoria a outras instituições públicas, etc.
5 No entanto, devemos tomar em consideração o papel dos representantes políticos –

parlamentares ou membros do executivo – na nomeação dos magistrados.

6
executivo deve ter o apoio da maioria dos parlamentares. Os membros do governo
são frequentemente parlamentares e participam nas reuniões plenárias e nos trabalhos
do legislativo; o governo pode ter também iniciativas legislativas. O princípio
fundamental deste sistema é a interdependência e a colaboração entre o executivo e o
legislativo, um exemplo sendo a organização política do Reino Unido, com o sistema
Westmister. O Chefe do Estado –monarca, nas monarquias, ou presidente, nos
regimes republicanos – e o Chefe do Governo são dissociados.
O postulado principal do regime presidencial, criado nos Estados Unidos da
América e adotado sobretudo na América Latina, é a separação estrita dos poderes. O
executivo e o legislativo são eleitos por sufrágio universal, tendo os mesmo grau de
legitimidade para tomar as suas decisões políticas. A iniciativa e os procedimentos
legislativos são exclusivamente da competência do congresso. O governo não pode ser
―chumbado‖ pelo poder legislativo, e o executivo não pode dissolver o congresso. Outra
caraterística dos regimes presidenciais é a designação Chefe do Estado para o cargo de
presidente, sendo este ao mesmo tempo o chefe do governo. Nos regimes presidenciais,
os parlamentos não podem fiscalizar a atividade do governo através de moções de censura,
mas usando outros mecanismos: audiências públicas dos ministros em comissões
parlamentares de especialidade, Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI).
O regime semi-presidencial, adotado em países europeus, é um sistema misto6
com três caraterísticas principais: i) o Presidente da República é eleito através de
sufrágio universal direto; ii) o Presidente da República dispõe de poderes
consideráveis7; iii) o governo é reponsável perante o parlamento e, por sua vez, pode
dissolvê-lo. Este regime seria essencialmente uma variante do parlamentarismo, com
prerrogativas ampliadas do Chefe do Estado (o Presidente da República).
No que diz respeito à situação política atual dos três países selecionados para a
nossa investigação, Neto & Lobo (2012) e Verheijen (1999) afirmam que Portugal e a
Roménia têm regimes semi-presidenciais, ao passo que o Brasil é uma federação
presidencialista. No entanto, é preciso clarificar a esta classificação.
Devido ao grande número de partidos que integram o legislativo brasileiro, o
regime presidencialista deste país foi definido por Abranches (1988) como um
―presidencialismo de coalizão‖. Tomando em consideração o poder dos Estados e a
complexidade da fragmentação social do Brasil, que integra diferenças regionais,

6 O jurista e politólogo Maurice Duverger descreveu este sistema pela primeira vez no livro Échec
au roi (1978). Uma apresentação sintética do conceito encontra-se em Duverger (1980: 166, nosso
negrito): ―A political regime is considered as semi-presidential if the constitution which established
it, combines three elements: (1) the president of the republic is elected by universal suffrage,
(2) he possesses quite considerable powers; (3) he has opposite him, however, a prime
minister and ministers who possess executive and governmental power and can stay in
office only if the parliament does not show its opposition to them‖.
7 No entanto, em diferentes sistemas semi-presidenciais, os poderes do presidente podem ser

reduzidas.

7
culturais, étnicas, raciais, económicas, é muito difícil, mesmo para os partidos mais
influentes, ter uma maioria absoluta no Congresso Federal, o que obriga as forças
políticas a criarem coligações amplas para conseguir apoio para as suas iniciativas
legislativas ou, no caso dos executivos, para poder governar 8 . Este aspeto será
importante para a dinâmica interacional, visto que os membros do Congresso devem
cooperar para realizar projetos políticos.
No que diz respeito a Portugal, o regime semi-presidencial adotado permite
uma certa partilha de poderes entre o presidente e o primeiro ministro. O presidente
mantém prerrogativas constitucionais importantes, apesar da consolidação da figura
do primeiro ministro com a revisão constitucional de 1982. O parlamento pode
―chumbar‖ o governo através de moção de censura, ao passo que o presidente pode
dissolver o legislativo. A prática recente mostrou que as coligações são frequentes na
política portuguesa, para garantir a maioria na Assembleia da República e o apoio das
medidas governamentais.
Na Roménia, o semi-presidencialismo foi adotado depois da Revolução de 1989
sem uma tradição que justique a opção, pois no país tinha sido governado por um
regime ditatorial comunista durante quase meio século. No semi-presidencialimo
romeno, o presidente é eleito por sufrágio universal e o primeiro ministro é
responsável perante o parlamento; as coligações são muito frequentes ao nível
parlamentar e governativo. Enquanto democracia mais recente, a Roménia conheceu
nas últimas duas décadas alternâncias no governo entre a esquerda e a direita e
coligações parlamentares entre diferentes partidos. Segundo o artigo 89 da
constituição romena, o presidente pode dissolver o parlamento.

1.2 A relação com o executivo


Como já pudemos observar, o regime presidencial pressupõe a separação estrita
de poderes. No entanto, para evitar que um dos poderes ultrapasse os seus limites no
exercícios das prerrogativas, existe um sistema de freios e contrapesos, que estabelece
um equilíbrio institucional de controle recíproco ao nível mais alto do Estado.
Embora o governo brasileiro não seja responsável perante o Congresso Federal da
mesma maneira como são os governos português e romeno, o órgão legislativo
brasileiro possui mecanismos para fiscalizar a atividade do poder executivo. Este
sistema de freios e contrapesos confere ao Congresso Federal a possibilidade de
controlar e fiscalizar com rigor a atividade do governo (artigo 49). De forma simétrica,
o Presidente da República, que representa o poder executivo, pode exercer o direito
de veto para as leis adotadas pelo Congresso Nacional (artigo 84).

8 ―A lógica de formação das coalizões tem, nitidamente, dois eixos: o partidário e o


regional (estadual), hoje como ontem. É isto que explica a recorrência de grandes coalizões,
pois o cálculo relativo à base de sustentação política do governo não é apenas
partidário-parlamentar, mas também regional‖ (Abranches 1988: 21-22, nosso negrito).

8
Segundo a Constituição brasileira (artigo 50), um ministro do Estado pode
comparecer perante a Câmara dos Deputados ou o Senado a pedido do Congresso ou
por iniciativa própria. São mais frequentes as audiências públicas perante as comissões
de especialidade de cada câmara, durante as quais os ministros devem responder às
perguntas dos deputados e senadores sobre as decisões do governo, as políticas
adotadas ou outros problemas de atualidade da sua área de competência. Após a
convocação oficial da Câmara dos Deputados ou do Senado, o ministro tem um prazo
de trinta dias para comparecer perante o congresso, constituindo as ausências não-
justificadas crime de responsabilidade (artigos 255-258 do Regimento da Câmara dos
Deputados).
Em conformidade com o regimento da Assembleia da República de Portugal, o
parlamento examina o programa do governo, que é debatido em reuniões públicas. O
primeiro ministro comparece perante a Assembleia da República todos os quinze dias
(artigo 224) e cada ministro pelo menos uma vez por sessão legislativa (artigo 225).
Durante as últimas dez reuniões da sessão legislativa, na Assembleia da República
organiza-se um debate sobre o Estado da Nação (artigo 228), a uma data estabelecida
junto com o Presidente da República e o Governo. Outros procedimentos que visam a
relação com o Governo são os votos de confiança, as moções de censura, as
interpelações, etc., devidamente apesentados no regimento da Assembleia da República.
A relação entre o parlamento e o executivo no âmbito do sistema político
romeno está regulamentada nos regimentos das duas câmaras legislativas, inclusive do
regimento das reuniões conjuntas do Senado e da Câmara dos Deputados: a
organização do debate sobre o programa do governo e a lista dos ministros, as
moções simples e de censura, a adoção de um projeto de lei através do mecanismo de
voto de confiança. Cada deputado pode fazer perguntas orais ou escritas e
interpelações aos ministros e ao primeiro ministro para solicitar explicações sobre as
ações governamentais e outros assuntos do Estado.

1.3 A liberdade de expressão dos parlamentares


Após esta breve apresentação da relação institucional entre o poder legislativo e
o poder executivo nos três países, consideramos também útil conhecer alguns aspetos
do estatuto dos parlamentares para compreender melhor os discursos produzidos em
reuniões públicas. A caraterística mais relevante para a nossa investigação é que,
segundo a Constituição, os parlamentares não podem ser responsabilizados
juridicamente pelas opiniões políticas expressas no exercício do seu mandato.

Artigo 157.º Imunidades. 1. Os Deputados não respondem civil, criminal ou


disciplinarmente pelos votos e opiniões que emitirem no exercício das suas
funções. (Constituição da República Portuguesa, VII revisão constitucional 2005)

9
Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por
quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. (Constituição da República Federativa do
Brasil, EC no 35/2001)

Art. 72. Al. 1 Deputaţii şi senatorii nu pot fi traşi la răspundere juridică pentru
voturile sau pentru opiniile politice exprimate în exercitarea mandatului.
[Art. 72. Alínea 1. Os deputados e os senadores não podem ser responsáveis
juridicamente pelos votos ou pelas opiniões políticas exprimidas no exercício do
seu mandato.](Constituição da Roménia, nossa tradução)

Graças a este direito constitucional, a liberdade de expressão dos parlamentares


é muito ampla, pois as afirmações expressas em plenários, reuniões das comissões ou
dos grupos parlamentares, bem as ações políticas feitas no exercício do seu mandato
não podem ser processadas em instâncias civis ou criminais. Este grau de libertadade
de expressão teria consequências ao nível do discurso, porque em teoria os
parlamentares podem fazer afirmações não-penalizáveis pelas legislação sobre o
direito à imagem. No entanto, os moderadores das reuniões têm o direito retirar a
palavra aos oradores cujos discursos se tornarem ofensivos e os deputados podem
intervir para a defesa da honra. Nos regimentos há normas que definem a deontologia
parlamentar e o comportamento adequado dos senadores e deputados, inclusive no
que diz respeito ao uso da língua.

Art. 89. Alínea 3. O orador é advertido pelo Presidente da Assembleia


quando se desvie do assunto em discussão ou quando o discurso se torne
injurioso ou ofensivo, podendo retirar-lhe a palavra. (Regimento da
Assembleia da República de Portugal, nosso negrito)

Art. 242 Constituie abateri disciplinare parlamentare următoarele fapte săvârşite


de deputaţi dacă, potrivit legii, nu constituie infracţiuni: […] d)
comportamentul injurios sau calomniator la adresa unui parlamentar ori a
altui demnitar în şedinţele de plen, de comisii sau de birou ori în afara
acestora, dar cu privire la exercitarea mandatului de parlamentar; […] f)
perturbarea activităţii parlamentare prin nerespectarea normelor de conduită,
de curtoazie şi de disciplină parlamentară. (Regimento da Câmara dos
Deputados, nosso negrito)
[Art. 242 Se, de acordo com a lei, não são infrações, os seguintes constituem
desvios parlamentares: […] d) comportamento injurioso ou caluniador em
relação a um parlamentar ou a outro dignitário, nas reuniões plenárias,
das comissões ou das bancadas ou fora das mesmas, relacionadas com o
excercer do mandato de parlamentar; […] f) a perturbação da atividade
parlamentar através do incumprimento das normas de conduta, de cortesia
e de disciplina parlamentar.]

10
1.4 O contexto político em 2011 e 2012 em Portugal, no Brasil e na
Roménia
Como este estudo incidirá sobre debates que ocorreram em 2011 e 2012,
queríamos apresentar brevemente o contexto político nesses dois anos, sobretudo nos
que diz respeito à configuração partidária de cada um dos três parlamentos.
Para a Assembleia da República de Portugal, 2011 e 2012 correspondem a duas
legislaturas, a XIa legislatura – eleição a 27 de setembro de 2009 –, que começou a 15
de outubro de 2009 e terminou a 19 de junho de 2011, e XIIa legislatura – eleição
antecipada a 5 de junho de 2011 –, de 20 de junho de 2011 até à organização das
eleições legislativas a 4 de outubro de 2015. A configuração política da XIa legislatura é
a seguinte: Partido Socialista 97 deputados, Partido Social Democrata 81 deputados,
CDS-Partido Popular 21 deputados, Bloco de Esquerda 16, Partido Comunista
Português 13, Partido Ecologista ―Os Verdes‖, 2 deputados. PS formou o governo
liderado pelo primeiro-ministro José Sócrates. A estrutura partidária da XIIa legislatura
é a seguinte: Partido Social Democrata 108 deputados, CDS-Partido Popular 24
deputados, Partido Socialista 74 deputados, Partido Comunista Português 14
deputados, Bloco de Esquerda 8 deputados, Partido Ecologista ―Os Verdes‖ 2
deputados. O governo foi formado pela coligação entre PSD e CDS-PP, sendo
primeiro-ministro o presidente do PSD Pedro Passos Coelho.
No caso do Congresso Nacional do Brasil, 2011 e 2012 correspondem à 54a
legislatura, que decorreu de 1 de fevereiro de 2011 até 31 de janeiro de 2015, as eleições
gerais sendo organizadas a 3 de outubro de 2010, junto com a disputa presidencial. A
configuração partidária da Câmara dos Deputados é bem mais fragmentada, com
deputados que pertecem a 22 partidos diferentes: Partido dos Trabalhadores 88
deputados, Partido do Movimento Democrático Brasileiro 78 deputados, Partido da
Social Democracia Brasileira 54 deputados, Partido Progressista 48 deputados,
Democratas 42 deputados, Partido da República 38 deputados, Partido Socialista
Brasileiro 33 deputados, Partido Democrático Trabalhista 26 deputados, Partido
Trabalhista Brasileiro 21 deputados, Partido Social Cristão 17 deputados, Partido
Comunista do Brasil 15 deputados, Partido Verde 14 deputados, Partido Popular
Socialista 12 deputados, Partido Republicano Brasileiro 9 deputados, Partido da
Mobilização Nacional 4 deputados, Partido Socialismo e Liberdade 3 deputados, Partido
Trabalhista do Brasil 3 deputados, Partido Humanista da Solidariedade 2 deputados,
Partido Republicano Progressista 2 deputados, Partido Renovados Trabalhista Brasileiro
2 deputados, Partido Social Liberal 1 deputado, Partido Trabalhista Cristão 1 deputado.
O governo é chefiado por Dilma Ruseff, do Partido dos Trabalhadores. Não
apresentamos a estrutura partidária do Senado Federal porque nos corpus da nossa
investigação incluímos audências pública da Câmara dos Deputados.
No caso do Parlamento da Roménia, 2011 e 2012 correspondem à VIª
legislatura – de 2008 até 2012, com eleições legislativas a 30 de novembro de 2008 – à
VIIª legislatura, 2012 até 2016, as eleições tendo sido organizadas a 9 de dezembro de

11
2012. Na legislatura de 2008-2012, a configuração partidária foi a seguinte: Partido
Democrata Liberal (114 deputados e 51 senadores), Partido Social Democrata (110
deputados e 45 senadores), Partido Nacional Liberal (64 deputados e 22 senadores),
União Democrata dos Húngaros da Roménia (22 deputados e 9 senadores), outras
minorias étnicas (19 deputados). O governo foi chefiado por Emil Boc, presidente do
Partido Democrata Liberal. Na VIIª legislatura, a estrutura partidária é a seguinte:
União Social Liberal, coligação entre o Partido Social Democrata e o Partido Nacional
Liberal (273 deputados e 122 senadores), Alianţa România Dreaptă, coligação do Partido
Democrata Liberal, Partido Nacional Camponês Cristão Democrata e Força Cívica
(56 deputados e 22 senadores), Partido do Povo Dan Diaconescu (47 deputados e 21
senadores), União Democrata dos Húngaros da Roménia (19 deputados e 9
senadores), outras minorias étnicas (18 deputados). O chefe do governo é Victor
Ponta, presidente do Partido Social Democrata.
Na Europa foi um período marcado pela crise económica. Em Portugal (2011-
2014) e na Roménia (a partir de 2010) foram implementadas medidas de austeridade
conforme os Memorandos de Entendimento com instituições internacionais, Portugal
concluindo o programa de ajustamento em 2014 e a Roménia continuando com
sucessivos programas stand-by sob a supervisão do Fundo Monetário Internacional até
2015. No debate público brasileiro destacaram-se vários desenvolvimentos do
―Mensalão‖, escândalo de corrupção sobre compra de votos de parlamentares federais
e o início de outras operações policiais, como a operação Porto Seguro, que será o
assunto de um dos debates do nosso corpus.

2. A organização institucional das reuniões parlamentares


Os parlamentos são instituições políticas com atribuições complexas: gerir o
processo legislativo em todas as áreas de atividade do país, criar programas de
cooperação com outras instituições do país ou do estrangeiro, fiscalizar a atividade do
governo ou de outras instituições públicas, etc. Os trabalhos parlamentares decorrem
em reuniões plenárias, mas também em comissões permanentes, extraordinárias, de
inquêrito, cujos membros são especialistas nas respetivas áreas. Os deputados e os
senadores organizam-se também em grupos parlamentares em função da orientação
política ou das coligações criadas, para concentrar melhor os seus esforços e impor
projetos ou iniciativas legislativas ou para fiscalizar a atividade governamental.

2.1 Tipos de reuniões


Segundo o regimento da Assembleia da República (artigo 53), são considerados
trabalhos parlamentares: as reuniões do Plenário, da Comissão Permanente da
Assembleia, das comissões parlamentares, das subcomissões, dos grupos de trabalho

12
criados no âmbito das comissões parlamentares, dos grupos parlamentares, da
Conferência de Líderes, da Conferência dos Presidentes das Comissões Parlamentares
e das delegações parlamentares. A reunião plenária pode funcionar só se estiverem
presentes pelo menos um quinto do número de Deputados (artigo 58), sendo a ordem
do dia fixada pelo Presidente da Assembleia, com uma antecedência mínima de quinze
dias (artigo 59). No que diz respeito aos tipos de debates ou de intervenções feitas na
tribuna parlamentar, o regimento menciona: as declarações políticas, os debates de
atualidade, os debates temáticos, os debates de urgência, os votos de congratulação,
protesto, condenação, saudação ou pesar (artigo 71-75). A atividade de fiscalização do
executivo decorre em reuniões dedicadas à apresentação do programa do Governo, ao
voto de confiança, às moções de censura ou às interpelações (artigos 214-230).
No Congresso Nacional Brasileiro, os trabalhos decorrem nas duas câmaras, o
Senado e a Câmara dos Deputados, em reuniões plenárias ou em reuniões das
comissões permanentes ou temporárias (especiais, de inquérito). De acordo com os
regimentos internos, as reuniões da Câmara dos Deputados são: preparatórias,
ordinárias, extraordinárias e solenes (artigo 65), ao passo que as do Senado são
classificadas em deliberativas (ordinárias e extraordinárias), não-deliberativas e
especiais (artigo 154). As comissões das Câmaras dos Deputados têm um presidente
cujas atribuições (artigo 41) principais são: assinar a correspondência e demais
documentos expedidos pela Comissão, convocar e presidir todas as reuniões, manter a
ordem e a solenidade necessárias nas reuniões, dar à Comissão e às Lideranças
conhecimento da pauta das reuniões, etc.
De acoro com o artigo 82 do regimento do Senado e o artigo 142 da Câmara
dos Deputados, os parlamentares romenos exercem a sua atividade em reuniões
plenárias, no âmbito de comissões – permanentes, especiais e de inquérito –, de
grupos parlamentares. No último dia de atividade em plenário, os senadores votam a
ordem do dia da semana seguinte, ao passo que na Câmara dos Deputados é a Mesa
permanente que a propõe. A ordem do dia pode ser modificada através da votação da
maioria dos senadores e deputados presentes nos trabalhos. Os presidentes da Câmara
dos Deputados e do Senado verificam se há quórum e são responsáveis pelo bom
funcionamento dos debates. No que diz respeito às reuniões plenárias cujo objetivo é
a fiscalização da atividade governamental, os procedimentos são semelhantes em
ambas as câmaras do parlamento romeno. As moções simples são debatidas em
plenários de cada câmara, ao passo que as moções de censura são debatidas em
reuniões conjuntas das duas câmaras.

2.2 A tomada de palavra segundo os regimentos


Os debates parlamentares decorrem em conformidade com as normas
regimentais, que estipulam a organização das intervenções dos oradores no que diz
respeito ao tempo de fala, ao objetivo da intervenção e às medidas tomadas nos casos
de desvios do protocolo regimental. Os presidentes desempenham o papel principal

13
na organização da tomada de palavra e na organização em boas condições dos
debates, sendo a sua prerrogativa conceder ou retirar a palavra, fazer apelo às normas
regimentais em situações conflituosas.
Segundo o regimento da Assembleia da República, os deputados podem tomar
a palavra para: fazer declarações políticas, apresentar projetos de lei, de resolução ou
de deliberação, exercer o direito de defesa, participar nos debates, fazer perguntas ao
Governo sobre quaisquer atos deste ou da Administração Pública, invocar o
Regimento ou interpelar a Mesa, fazer requerimentos, formular ou responder a
pedidos de esclarecimento, reagir contra ofensas à honra ou consideração ou dar
explicações, interpor recursos, fazer protestos e contraprotestos, produzir declarações
de voto (artigo 76). A ordem dos intervenientes deve ficar visível para os deputados
que estão presentes no hemiciclo (artigo 77).
No Regimento Interno da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional do
Brasil (artigos 174-175), menciona-se que o orador só poderá falar uma vez e pelo
prazo de cinco minutos na discussão de qualquer projeto. A duração das intervenções
pode ser prolongada pelo Presidente; nas comissões, a duração das intervenções e
anunciada no início dos debates (ver infra 1.31. A sequência de abertura). Os deputados
não podem desviar-se do assunto do debate, usar linguagem imprópria e ultrapassar o
prazo regimental.
As regras da tomada de palavra são similares nas duas câmaras do Parlamento
da Roménia. De acordo com o regumento da Câmara dos Deputados, os secretários
da Mesa organizam as listas com os intervenientes, os parlamentares tomam a palavra
em conformidade com a ordem estabelecida, tendo a autorização do Presidente; os
ministros podem tomar a palavra em qualquer momento do debate, todas as vezes que
a solicitarem. Ninguém pode tomar a palavra sem o consentimento do Presidente,
devendo os oradores falar na tribuna ou em outro lugar da sala com microfone
instalado (artigos 176-177).

2.3 A disposição espacial dos parlamentares


A disposição espacial dos parlamentares nas salas de reuniões poderia, talvez,
influenciar o decorrer dos debates; segundo Ilie (2006: 192), o quadro espacial da
Câmara dos Deputados do Reino Unido, com os assentos do poder e da oposição
situados vis-à-vis favorece um tom de debate mais agressivo.
A sala do plenário da Assembleia da República é semi-circular – daí o nome
hemiciclo – e a disposição dos deputados é estabelecida pelo Presidente da Assembleia
em conjunto com os representantes dos grupos parlamentares (artigo 66). Todos os
assentos são situados face à tribuna do Parlamento, sendo os assentos dos membros
do Governo posicionados face aos deputados, o que poderá favorecer o debate
confrontacional (Marques 2010a: 82).

14
As salas de reuniões plenárias do Congresso Nacional do Brasil têm também
estrutura semi-circular, com lugares especiais para oradores, situados face aos
deputados ou senadores. Os trabalhos das comissões decorrem em salas mais
pequenas; todos os oradores falam ao microfone, o Presidente e os secretários ficam
na Mesa central, ao passo que os deputados e os ministros – ou outros participantes –
interpelados ficam sentados na sala, face à Mesa. Esta disposição espacial não deveria
favorecer a confrontação verbal, contudo tal confrontação ocorre, como veremos na
nossa análise.
A disposição dos assentos nas duas salas plenárias do Parlamento da Roménia é
semi-circular, ―parecida com uma sala de teatro ou com um anfiteatro‖ (Ilie 2010c:
200), falando os oradores – parlamentares, membros do governo e outros convidados
– na tribuna, face ao auditório, composto por deputados e pelas galerias; este
posicionamento não parece encorajar os confrontos verbais diretos, como ocorre no
Parlamento britânico. No entanto, os debates contraditórios são frequentes no
Parlamento Romeno, pois o discurso parlamentar é intrinsecamente conflituoso,
qualquer que seja a organização espacial em que se posicionam os seus atores.

***

Este preâmbulo jurídico-político permitiu-nos conhecer melhor o contexto dos


discursos parlamentares português, brasileiro e romeno: a estrutura dos sistemas
políticos de cada país, a relação entre o poder legislativo e o poder executivo, as
normas constitucionais sobre a liberdade de expressão dos parlamentares, o contexto
político recente e a organização institucional da interação verbal (tipologia das
reuniões, gestão regimental da tomada de palavra, disposição espacial dos oradores).
Estas informações permitir-nos-ão analisar com mais rigor, na primeira parte do
volume, os debates parlamentares, sobretudo componentes da organização
interacional, como a estrutura sequencial, a negociação do turno de fala e a dinâmica
das perguntas e das respostas.

15
1. A arquitetura do discurso parlamentar

A primeira parte do livro é dedicada ao que chamamos a ―arquitetura do


discurso parlamentar‖, ou seja, elementos chave a partir dos quais se organizam as
interações deste sub-género discursivo: as sequências interacionais, a negociação dos
turnos de fala, o binômio conversacional pergunta-resposta. Antes da análise
propriamente dita, debruçar-nos-emos sobre o corpus, com as suas particularidades e
as limitações que advêm da relação entre o oral e a escrita nas transcrições oficiais dos
debates parlamentares.
No primeiro capítulo, fazemos um estado de arte detalhado dos estudos que se
debruçam sobre o discurso parlamentar 9 , com instrumentos oferecidos pelas
abordagens linguísticas: pragmática, retórica, análise do discurso, análise crítica do
discurso. É também um dos nossos objetivos nesta primeira etapa propor uma
definição do discurso parlamentar em função da sua relação com o discurso público e
com o discurso político.
O segundo capítulo apresenta o corpus deste estudo, destacando os critérios
para selecionar debates disponíveis nos sites dos três parlamentos escolhidos para criar
um corpus homogêneo e representativo. Fazemos também uma sucinta descrição de
algumas limitações que o uso das transcrições oficiais poderia ter para a análise do
discurso.
No terceiro capítulo propomos uma análise do ritual interacional dos debates
parlamentares, com enfoque na sua estrutura sequencial – a sequência de abertura, o
corpus da interação e a sequência de fecho –, apresentando as particularidades em
contexto português, brasileiro e romeno.
O quarto capítulo concentra-se na dinâmica da negociação dos turnos de fala e
propõe algumas análises de negociações que ocorrem num sub-género discursivo
supostamente inflexível, dada a regulamentação regimental dos debates.
O quinto capítulo desta primeira parte trata de uma questão fundamental da
dinâmica interacional, o binómio conversacional pergunta-resposta e as suas
particularidades no discurso parlamentar, com exemplos da organização discursiva das
perguntas parlamentares e estratégias de evitamento ou de vagueza que possam
ocorrer nas respostas.

9Sendo este trabalho uma versão ligeiramente alterada da tese de doutoramento defendida na
Universidade Paris VIII em 2015, o estado da arte não contém estudos publicados após essa data.

17
1.1. Abordagens linguísticas do discurso parlamentar

Nada disso se conseguiu descobrir, nada disso se conseguiu


analisar, hoje, neste debate. (DAR, 27/01/2011 – I Série
— Número 43)

Ao contrário do que diz o lema que escolhemos para este capítulo, os estudos
linguísticos, bastante numerosos, aliás, conseguem descobrir muito sobre o discurso
parlamentar. Depois do preâmbulo jurídico e político, que teve como objetivo a
contextualização do funcionamento do discurso político nas três instituições
legislativas escolhidas, pretendemos fazer neste capítulo uma apresentação das
abordagens linguísticas que se debruçaram sobre este sub-género discursivo.
A primeira parte do capítulo é dedicada à apresentação de estudos linguísticos
sobre o discurso parlamentar, que é objeto de numerosas análises recentes, sobretudo
do ponto de vista da análise do discurso, da pragmática e da retórica. Por um lado,
procuraremos destacar trabalhos sobre o discurso parlamentar em geral,
independentemente do legislativo em foco, mas, num segundo momento, tentaremos
apresentar trabalhos de investigação que se debruçam sobre os três legislativos
escolhidos por nós: a Assembleia da República, o Congresso Federal do Brasil e o
Parlamento da Roménia.
A segunda parte do capítulo contém a definição do discurso parlamentar e a
descrição dos seus sub-géneros principais. Com efeito, faremos uma apresentação de
algumas caraterísticas discursivas dos debates parlamentares, dos atores que
participam nos mesmos e das identidades que assumem neste tipo de interação.

1.1.1 Estado de arte


O discurso parlamentar foi, sobretudo na última década, objeto de numerosos
estudos linguísticos, em particular nas áreas da análise (crítica) do discurso, da
pragmática, da retórica. Aliás, Ilie (2006: 188) afirma que apesar da visibilidade das
instituições legislativas, o interesse científico para a análise deste tipo de discurso é
muito recente, com uma única exceção, o discurso parlamentar britânico. Embora haja
estudos anteriores, é nos anos 2000 que a investigação na área do discurso parlamentar
conhece um desenvolvimento muito prolífico 10 , com a publicação de diferentes
volumes e estudos interdisciplinares, que incorporam abordagens linguísticas e
perspetivas da ciência política. Tomando em consideração a diversidade das
abordagens teóricas e dos legislativos estudados, optamos por uma apresentação
cronológica de volumes e de números temáticos dedicados ao discurso parlamentar e
continuaremos com estudos publicados em revistas cientícias com temáticas variadas.

10 Veja-se também o levantamento feito por Ilie (2006: 188).

18
O volume Racism at the Top. Parliamentary Discourses on Ethnic Issues in Six European
States, editado por Ruth Wodak e Teun van Dijk (2000), analisa manifestações
discursivas do racismo em debates parlamentares de seis países europeus: os
problemas étnicos no parlamento austríaco (Sedlak 2000: 107-168), os debates
parlamentares sobre a política de emigração em Espanha (Martin Rojo 2000: 169-220),
o discurso sobre imigração e nacionalidade no parlamento francês (van der Valk
2000a: 221-260), o discurso sobre imigrantes ilegais, asilo e integração na Holanda
(van der Valk 2000b: 261-281), os debates que dizem respeito à lei de 1996 sobre asilo
e imigração (Jones 2000: 283-310) e a questão da segurança e solidariedade na Itália
(ter Val 2000: 311-354). Teun van Dijk (2000: 45-79) propõe uma análise teórido dos
debates parlamentares que se debruça sobre particularidades de organização e
funcionamento discursivo, como a estrutura, os tópicos, a coherência, os implícitos, os
atores, a argumentação etc.
Alguns anos mais tarde, é publicado o volume Cross-cultural perspectives on
parliamentary discourses editado por Paul Bayley (2004), com trabalhos dedicados a
alguns parlamentos europeus e ao Congresso Americano. As análise propostas visam
aspetos diferentes: os insultos nos parlamentos britânico e sueco (Ilie 2004: 45-86), as
interrupções nos parlamentos britânico e italiano (Bevitori 2004: 87-109), os debates
sobre a Crise do Golfo de 1998 nos parlamentos britânico e italiano (Vasta 2004: 112-
149), os debates sobre Kosovo na Câmara dos Comuns do Reino Unido e a Câmara
dos Deputados da Itália (Dibattista 2004: 151-184), ameaça e medo em debates
parlamentares do Reino Unido, da Alemanha e da Itália (Bayley et al 2004: 185-236),
discurso sobre o trabalho nos parlamentos britânico e espanhol (Bayley & San Vicente
2004: 237-269), o debate na Câmara dos Representantes do Congresso Americano
sobre o impeachment do presidente Clinton (Miller 2004: 271-300), o papel dos
contextos na análise dos conflitos no parlamento mexicano (Carbó 2004: 301-337) e a
relação entre texto e contexto no discurso parlamentar, com um exemplo do Palace of
Westminster (van Dijk 2004: 339-372).
Embora se trate de uma obra de ciência política, consideramos que o volume
Deliberative politics in action: analysing parliamentary discourse (2004) de Jürg Steiner, André
Bächtiger, Markus Spörndli e Marco R. Steenbergen traz contribuições importantes
sobre a análise do discurso parlamentar, sobretudo no que diz respeito à qualidade dos
debates. A análise comparativa dos debates parlamentares de Alemanha, Suíça, o
Reino Unido e os Estados Unidos da América revelam diferenças entre os discursos
produzidos em regimes políticos presidencialistas e parlamentaristas. Os autores criam
um Discourse Quality Index em que englobam diferentes parámetros, como a
participação, o nível de justificação dos argumentos, o respeito pelos interlocutores e a
procura de consenso político.
Paul Chilton coordenou em 2002 um volume temático da revista Journal of
Language and Politics sobre o discurso parlamentar, com estudos sobre os debates que
dizem respeito às línguas minoritárias na Irlanda (Wilson & Stapleton 2002: 5-30), os
discursos nacionalistas e cívicos em debates parlamentares de Espanha (Grad Fuchsel

19
& Martin Rojo 2002: 31-70), a relação entre discurso e metadiscurso (Ilie 2002: 71-92),
o conhecimento nos debates parlamentares (van Dijk 2002, 93-129) e o discurso
zapatista no Congresso Mexicano (Carbó 2002: 131-174).
Em 2010, é publicado um número temático da revista Journal of Pragmatics sobre
o discurso parlamentar, sob a coordenação de Cornelia Ilie: Pragmatic Perspectives on
Parliamentary Discourse. Os nove artigos propõem reflexões sobre: a configuração de
perspetivas de análise deste género discursivo (Ilie 2010a: 879-884), o uso estratégico
das formas de tratamento nos parlamentos britânico e sueco (Ilie 2010e: 885-911), a
representação do discurso parlamentar grega na imprensa nacional (Archakis &
Tsakona 2010: 912-923), o discurso pseudo-parlamentar durante a ditadura comunista
na Roménia (Frumuşelu & Ilie 2010: 924-942), a problemática da violência doméstica
no discurso parlamentar francês e espanhol (Lorda 2010a: 943-956), os debates pré-
eleitorais e as promessas políticas (Komlósi & Tarrósi 2010: 957-972), o uso de
metáforas e da argumentação no discurso parlamentar chileno (Santibáñes 2010: 973-
989) e o discurso da União Europeia entre polifonia e opacidade discursiva (Fløttum
2010: 990-999).
No mesmo ano, Cornelia Ilie edita o volume European parliaments under scrutity
(2010), que contém onze capítulos dedicados ao discurso parlamentar da Europa. Os
estudos propõem análises sobre as componentes políticas da identidade parlamentar
(van Dijk 2010: 29-56), a co-construção da identidade no discurso parlamentar (Ilie
2010b: 57-78), a construção do locutor no discurso parlamentar português (Marques
2010a: 79-107), a ritualização na apresentação dum novo governo no parlamento
italiano (Antelmi & Santulli 2010: 111-134), as interrupções nos debates do
parlamento austríaco (Zima et al 2010: 135-164), as questions au gouvernement na Assemblée
Nationale francesa (Lorda 2010b: 165-189), a contestação e as relações interpessoais no
discurso parlamentar romeno (Ilie 2010c: 193-221), o discurso sobre a transição
política no parlamento polaco (Ornatowski 2010: 223-264), a construção do alocutário
no discurso parlamentar checo (Madzhariva Bruteig 2010: 265-302), os argumentos ad
hominem nos parlamentos holandês e europeu (Plug 2010: 305-328) e as estratégias
retóricas nos parlamentos britânicos e espanhol (Íñigo-Mora 2010: 329-372).
Em 2012, Liliana Ionescu-Ruxăndoiu, em colaboração com Melania Roibu e
Mihaela-Viorica Constantinescu, edita o volume Parliamentary Discourses across Cultures:
Interdisciplinary Approaches, que contém dezassete capítulos, dos quais nove são
dedicados ao discurso parlamentar romeno 11 . Os seis capítulos que utilizam
abordagens linguísticas debruçam-se sobre o antisemitismo como estratégia política no
discurso parlamentar no final do século XIX e no início do século XX (Stachowitsch
& Falter 2012: 49-60), os debates do parlamento canadense sobre o casamento entre
pessoas do mesmo sexo (Trembley 2012: 61-72), as sub-culturas de partido no
parlamento búlgaro (Pastarmadzhieva 2012: 73-89), a força argumentativa no debate

11Estes capítulos serão apresentados na secção dedicada aos estudos sobre o discurso
parlamentar romeno (infra 1.1.1.4.).

20
parlamentar (Norén 2012: 91-104), a concessão em debates parlamentares franceses
(Svensson 2012: 105-116), emoções e argumentação no discurso parlamentar
português (Marques 2012: 117-132).
No que diz respeito aos estudos publicados em revistas ou em volumes
coletivos, mencionamos contribuições que se debruçaram sobre a o funcionamento da
(des)cortesia e a argumentação: a (des)cortesia nos debates Question Time no
parlamento britânico (Harris 2001: 451-472; Pérez de Ayala 2001: 143-169; Bull &
Wells 2012; Murphy 2014: 76-104), os clichés e a argumentação em debates do
parlamento britânico (Ilie 2000: 65-84), os insultos como forma cognitiva de
confronto (Ilie 2001: 235-263), o discurso e o metadiscurso (Ilie 2003a: 269-291), as
caraterísticas histriónicas e agonais (Ilie 2003b: 25-53), os comentários no discurso
parlamentar britânico (Ilie 2003c: 253-264), as interrupções no discurso parlamentar
britânico (Ilie 2005a: 415-430) usos das formas de tratamento no parlamento sueco
(Ilie 2005b: 174-188). Há também análises do processo de transcrição dos debates
parlamentares: o sistema Hansard do parlamento britânico (Slembrouck 1992: 101-
119), com os seus problemas de precisão (Mollin 2007: 187-210). Outros estudos
analisam a problemática do conhecimento (van Dijk 2002: 93-129) ou a linguagem
parlamentar britânica (Chilton 2004: 92-109).
Na linguística de expressão francesa não encontrámos um número comparável
de estudos. A partir dos anos ‘80, Teresa Carbó publica uma parte das suas
investigações sobre o discurso parlamentar mexicano sobre a população indigena
(Carbó 1983: 3-26), a problemática identitária e as diferenças na linguagem
parlamentar mexicana (Carbó 1987: 31-44). Nos anos ‘90, Elisabeth Miche analisou
em debates parlamentares de Genebra as formas de retoma (Miche 1995: 241-265) e a
organização polifónica (Miche 1996: 95-128).
Depois de 2000, encontramos contribuições sobre o discurso parlamentar
francês: os debates sobre a emigração (Cabasino 2001), a ironia como estratégia
argumentativa (Cabasino 2006: 271-284), a apostrophe nominale (Détrie 2006), a lingagem
injuriosa e a interpelação (Cabasino 2010a), as formas nominais de tratamento no
conflito verbal (Cabasino 2010b: 169-200), as formas nominais em questions au
gouvernement (Détrie 2010: 143-168). Há também estudos sobre a credibilização de si
(Micheli 2007: 67-84), o uso das emoções na argumentação em debates sobre a pena
de morte (Micheli 2010).
Sem ser completo, este estado de arte de estudos publicado em inglês e em
francês mostra que os debates parlamentaes de diferentes países europeus e dos
Estados Unidos da América foram analisados com metodologias muito diferentes e
que há resultados notáveis no que diz respeito à descrição da sua estrutura discursiva,
das estratégias argumentativas, pragmáticas e retóricas usadas pelos locutores. Nas
secções seguintes concentrar-nos-emos em estudos que tratam os debates
parlamentares portugueses, brasileiros e romenos, que constituem o objeto da nossa
investigação.

21
1.1.1.1 O discurso parlamentar português
No que diz respeito aos trabalhos sobre o discurso parlamentar português,
mencionamos o volume de Marques (2000), dedicado exclusivamente a este género
discursivo, que analisa a organização enunciativa da interpelação ao governo. Feita a
partir de um corpus de 24 debates da VIª legislatura da Assembleia da República
(1991-1995), a análise concentra-se principalmente na configuração das vozes
discursivas. Usando como metodologia o quadro teórico da linguística enunciativa
francesa, Marques (2000) propõe uma descrição da estrutura da interpelação ao
governo, como os papéis do moderador e da audiência, as vozes do debate, insistindo
sobre os valores do pronome nós na construção do locutor, a construção da imagem
individual através do pronome eu e da relação interpessoal, bem como a configuração
do povo enquanto ―participante na periferia da relação interlocutiva‖ e dos
destinatários. O último capítulo propõe uma análise transversal dos discurso de
abertura e de fecho. Depois da publicação deste volume, a linguista portuguesa
continua a análise do discurso parlamentar com trabalhos sobre os apartes (Marques
2005: 193-216), as estratégias de documentação na polémica parlamentar (Marques
2007: 99-124), a arrogância e a construção do ethos dos políticos (Marques 2008a: 1-
10), a cortesia linguística e a imagem do outro (Marques 2008b: 277-296), a construção
do locutor entre a esfera pública e a esfera privada (Marques 2010a: 79-108), o valor
argumentativo das expressões idiomáticas (Marques 2010b: 263-273), a construção
dialógica da divergência de opiniões (Marques 2011: 133-146), a emoção e a
argumentação no discurso parlamentar português (Marques 2012: 117-132), os usos
das formas de tratamento (Marques 2014: 145-172).
Mencionamos o projeto financiado pela Assembleia da República e
desenvolvido por Rute Costa e Raquel Silva entre 2005 e 2007 no Centro de
Linguística da Universidade Nova de Lisboa, Base de Dados Terminológica e Textual para a
Assembleia da República 12 , que constitui um instrumento muito útil para os que se
interessam pela terminologia parlamentar. No que diz respeito à problemática das
transcrições das reuniões parlamentares, sobre a qual nos debruçaremos também (ver
infra 1.2.2. Do oral à escrita), o estudo de Ribeiro (2010) faz uma síntese das diferenças
entre o oral e a transposição para a escrita feita pelos serviços da Assembleia da
República. Mosteiro (2006: 301-315) propõe uma análise histórica da relação entre oral
e a escrita com base nos arquivos parlamentares do século XIX. Ramos (2005: 67-96)
faz uma análise antropológica das relações complexas entre a identidade portuguesa e
a identidade europeia no discurso parlamentar português pós 25 de Abril, salientando
posicionamentos que revelam complementaridade (Portugal / Europa), ora oposição
(Portugal ≠ Europa). Sousa e Lemos Martins (2013: 84-100) observam no seu
trabalho como se declina o conceito de ―portugalidade‖ num corpus de debates
parlamentares bastante abrangente (1935-2012).

12 Disponível online: http://terminologia.parlamento.pt/pls/ter/terwinter.home [última consulta


1.09.2015].

22
1.1.1.2 O discurso parlamentar brasileiro
No Brasil, os debates do Congresso Nacional não despertaram ainda o grande
interesse dos linguistas, visto que não encontrámos muitos projetos de investigação ou
publicações. Encontrámos, porém, um número significativo de dissertações de
mestrado e teses de doutoramento que se debruçaram sobre este género discursivo.
As análises linguísticas dedicam-se à configuração das relações discursivas no
Congresso Nacional do Brasil, a partir de uma reflexão sobre os apartes (Waldek 1996:
299-308), a dinâmica da interação verbal e o seu cruzamento com as relações de poder
(Abreu 2005: 329-356), a sistematização do discurso parlamentar (Gomes Paiva 2007:
83-127), as estratégias retóricas usadas por um deputado federal para se defender de
acusações (da Cunha 2010: 19-31), os discursos sobre a defesa da imunidade
parlamentar (Paes dos Santos 2010: 133-148), a legitimação ou a banalização da
corrupção (Veras da Silva & Tiba Rádis Baptista 2011: 723-748). Mencionamos também
estudos que analisam a problemática do género no discurso parlamentar brasileiro,
sobretudo a representação da condição das mulheres (Campos & Miguel 2008: 471-508)
e os papéis discursivos dos homens e das mulheres (Miguel & Feitosa 2009: 201-221).
No que diz respeito aos trabalhos académicos dedicados aos discurso
parlamentar brasileiro, mencionamos a tese de doutoramento de Dulce Elena Coelho
Barros (2008) que propõe uma análise da representação das mulheres, bem como
diferentes dissertações de mestrado que se debruçam sobre o papel da ideologia na
argumentação (Gomes Paiva 2006), a revisão do discurso parlamentar no âmbito do
departamento de taquigrafia da Câmara dos Deputados (Martins de Sousa 2009), o
papel e as limitações do revisor das transcrições parlamentares (Dourado 2008).
Oliveira (2013: 313-337) tem também uma análise sobre as estratégias de retextualização
na passagem do oral para a escrita nas transcrições oficiais.

1.1.1.3 O discurso parlamentar romeno


Graças sobretudo ao projeto de investigação: Discursul parlamentar romanesc:
tradiţie şi modernitate. O abordare pragma-retorică [O discurso parlamentar romeno: tradição
e modernidade. Uma aborgagem pragma-retórica], desenvolvido por linguistas da
Faculdade de Letras da Universidade de Bucareste e orientado por Liliana Ionescu
Ruxăndoiu 13 , os estudos sobre o discurso parlamentar romeno são numerosos. Os
resultados do projeto foram publicados num número temático da Revue roumaine de
linguistique (IV/2010), em atas dos colóquios anuais do Departamento de Linguística
da Faculdade de Letras de Bucareste e nas atas do colóquio internacional Parliamentary
Discourses across Cultures: Interdisciplinary Approaches (23-24 de setembro de 2011,
Bucareste), editadas por Liliana Ionescu Ruxăndoiu et al (2012).
A abordagem pragma-retórica, que permitiu aos investigadores cruzar
diferentes teorias sobre a interação verbal, provou-se muito fértil, destacando

13 Para uma descrição geral do projeto, veja-se Ionescu-Ruxăndoiu (2010c, 328-332).

23
particularidades variadas da dinâmica discursiva em debates parlamentares romenos,
tanto em sincronia, como em diacronia. Mencionamos estudos sobre a comunicação
bona-fide e non bona-fide no discurso parlamentar do século XIX (Constantinescu 2010),
o uso do humor enquanto estratégia da (des)cortesia (Constantinescu 2011: 261-269),
o ataque ad hominem (Constantinescu & Roibu 2010: 101-113), o posicionamento
discursivo na argumentação (Ionescu-Ruxăndoiu 2009a: 435-442), a modalisação
(Ionescu-Ruxăndoiu 2009b: 271-277), a descortesia in absentia (Ionescu-Ruxăndoiu
2010a: 59-72; 2010b: 343-351), as estratégias de descortesia no discurso parlamentar
entre 1866-1938 (Ionescu-Ruxăndoiu 2011a: 283-291), as formas nominais de
tratamento no discurso parlamentar do final do século XIXe e início do século XX
(Ionescu-Ruxăndoiu 2011b: 271-280), avaliação de dicto nas intervenções de Armand
Călinescu, um político romeno de entre as duas guerras (Roibu 2011: 281-287), a
agressividade verbal no presente e no passado (Roibu & Constantinescu 2010: 354-
364), as manifestações de emoção e de descortesia no discurso de condenação do
comunismo (Ştefănescu 2010a: 73-100), os tropos conceptuais no discurso de Mihail
Kogălniceanu sobre o Ato de União (Ştefănescu 2010b: 381-396), a abordagem
etnometodológica na análise do debate parlamentar (Ştefănescu 2011: 289-303), o
posicionamento discursivo e a persuasão no discurso de Titu Maiorescu e Nicolae
Iorga (Vasilescu 2010: 365-380), o quadro teórico para a análise da identidade
parlamentar (Vasilescu 2011: 305-314), estratégias evidenciais e epistémicas
(Costantinescu 2014: 132-148).
No volume Parliamentary Discourses across Cultures, editado por Ionescu-
Ruxăndoiu et al (2012), há análises sobre o discurso epidíctico nas declarações políticas
feitas no Parlamento da Roménia (Zafiu 2012: 113-150), o estilo do discurso
nacionalista (Chelaru-Murăruş 2012: 151-172), a configuração da imagem de si (Albu
2012: 173-195), a historização da democracia (Ionescu-Ruxăndoiu 2012: 197-208), a
construção da identidade parlamentar entre 1866 e 1923 (Vasilescu 2012: 209-226), a
política ―do fato consumado‖ no discurso parlamentar do século XIX (Ştefănescu
2012: 227-250), a avaliação de dicto no discurso do século XIX (Uţă-Bărbulescu &
Roibu 2012: 251-262), o uso das citações (Constantinescu 2012: 263-282) e o debate
sobre as pensões entre 1860 e 1920 (Hariton 2012: 283-310).
Há também estudos desenvolvidos fora deste projeto de investigação, que se
debruçam sobre os atos de fala e as práticas retóricas (Ilie 2010d: 333-342), a
contestação e as relações interpessoais no discurso parlamentar romeno (Ilie 2010c:
193-221), o discurso pseudo-parlamentar durante o regime comunista (Frumuşelu &
Ilie 2010: 924-942), a violência verbal (Milică 2011: 32-24), o uso do calão (Milică
2013: 211-230) e as formas de tratamento no discurso parlamentar atual (Săftoiu 2013:
44-66). Mencionamos também as crónicas publicadas por Rodica Zafiu na revista
România Literară que se debruçam sobre as fórmulas estereotipadas (Zafiu 2004), a
oralidade (Zafiu 2006) e as metáforas (Zafiu 2007) no discurso parlamentar romeno.
Este estado de arte mostra que o discurso parlamentar é uma área de
investigação muito rica, sobre a qual linguistas se debruçaram usando diferentes
instrumentos oferecidos pela nova retórica, pela pragmática ou pela análise do

24
discurso, inclusive a análise crítica do discurso, orientação privilegiada sobretudo na
linguística de expressão inglesa. As abordagens apresentadas são heterogéneas tanto
do ponto de vista do enquadramento teórico, como do ponto de vista dos corpora
utilizados, pois encontrámos estudos sincrónicos e diacrónicos sobre parlamentos
nacionais (da Europa, dos Estados Unidos da América, da América Latina) ou sobre o
Parlamento Europeu, o único legislativo supranacional democraticamente elegido.
Na segunda parte deste sub-capítulo faremos uma proposta para a definição do
discurso parlamentar, os seus sub-géneros e a configuração da identidade parlamentar.

1.1.2 Algumas definições


...o Sr. Ministro decretou que as coisas estão bem; inventou uma
realidade paralela, onde as coisas estão bem. E estão bem por
definição, porque não podem correr mal, porque o Sr. Ministro
não concebe, sequer, a possibilidade de que estas coisas não
possam correr bem. Correm bem, por definição. (DAR,
27/04/2012 – I SÉRIE — NÚMERO 101)

O discurso parlamentar é um sub-género do discurso político, que por sua vez,


é um tipo de discurso público. Embora bastante óbvia, esta relação de classificação
categorial (discurso parlamentar ∈ discurso político ∈ discurso público) é necessária
para delimitar o objeto de investigação e para estabelecer critérios de análise
adequados, que devem ter como ponto de partida as caraterísticas típicas do discurso
analisado: o cenário discursivo, os atores, as estratégias adotadas pelos locutores, etc.
Para fazer a descrição desta classificação triádica – discurso público, discurso
político, discurso parlamentar –, definimos os termos chave que incorporam as
dicotomias seguintes: espaço público vs. espaço privado, espaço público vs. espaço
político, discurso sobre a política vs. discurso político.

discurso
público

discurso
político

discurso
parlamentar

Figura nº 1. Classificação do discurso parlamentar.


25
1.1.2.1 O discurso público
O discurso público situa-se no que é chamado espaço público 14 ou esfera
pública e abrange mensagens veiculadas pela comunicação social, independentemente
da sua natureza: jornais, rádio, televisão e, mais recentemente, a internet, com os seus
sub-géneros de expressão, como as redes sociais, os fóruns, os blogues, que redefinem
a maneira em que se comunica presentemente.
Segundo todas as aceções, público opõe-se a privado. O que é privado pertence
a um indivído e não é acessível aos outros, ao passo que o espaço público é reservado
a assuntos relevantes para toda a comunidade. No entanto, as relações entre público e
privado nem sempre são estáveis e as definições unanimamente aceites numa época
podem ser rejeitadas ulteriormente (Blanc & Causer 2005: 8). Na sociedade mediática
atual, assistimos a um desenvolvimento constante do que é público, em detrimento do
privado ou até do íntimo. Desta forma, o espaço público e os discursos por ele (ou
nele) criados não se reduzem exclusivamente aos debates sobre assuntos de interesse
público, como problemas sociais, económicos, políticos, ecológicos, etc., que têm
impacto em toda a comunidade, mas também a discussões sobre assuntos que se
tornam públicos por casusa da intervenção dos média – por exemplo, a vida privada
das pessoas muito conhecidas: políticos, artistas, desportistas etc. –, ou os faits divers.
Nesse sentido, as ciências sociais falam de uma ―privatização do público‖ ou da
―publicidade do privado‖ (Blanc & Causer 2005: 8) para descrever a situação desses
dois polos nos nossos dias.
Se o espaço público se multiplica graças ao desenvolvimento constante dos
média e à sua importância na vida quotidiana, é verdade também que ele se fragmenta,
em função de diferentes fatores, como o público alvo, o canal, a mensagem veiculada,
etc. Por conseguinte, o discurso público pode abranger diferentes aspetos da realidade
quotidiana: as notícias com temáticas variadas, apresentadas pela televisão, pela rádio,
pelos jornais e pelas agências noticiosas; as mensagens que circulam através dos meios
eletrónicos, como os sites da internet, os fóruns, as redes sociais, os blogues, etc.
Uma das componentes do discurso público é o discurso dos agentes políticos,
que utilizam a comunicação social para chegar ao público alvo, os eleitores. Através

14 Conceito do filósofo alemão Jürgen Habermas, definido como ―le processus, au cours
duquel le public constitué par les individus faisant usage de leur raison s‘approprie la
sphère publique contrôlée par l‘autorité et la transforme en une sphère où la critique
s‘exerce contre le pouvoir de l‘Etat, s‘accomplit comme une subversion de la conscience
publique littéraire, déjà dotée d‘un public possédant ses propres institutions et de plates-formes
de discussion‖ (Habermas 1978/1962: 61, nosso negrito). O conceito será refinado 30 anos de
pois, para integrar o papel dos média, Habermas falando de um ―espace public politique, dans
lequel se croisent au moins deux processus: la génération communicationnelle du
pouvoir légitime d‘une part, et d‘autre part, l‘utilisation manipulatrice des médias dans la
création d‘une loyauté des masses, d‘une demande et d‘une soumission face aux impératifs
systémiques‖ (Habermas 1992: 184, nosso negrito).

26
dos média, as mensagens dos políticos (chefes de Estado, membros do governo,
membros dos partidos, candidatos às funções públicas, etc.) são transmitidas ao
público com ou sem a intervenção dos próprios média. No entanto, é preciso fazer a
distinção entre o discurso político, ou seja discurso produzido por agentes políticos
quando se debruçam sobre assuntos do Estado e outros tipos de discursos públicos
que tratam assuntos relacionados com a política, como as notícias sobre a vida privada
dos políticos, sem qualquer relação com a atividade política dos mesmos. Neste
segundo caso, trata-se de um fait divers, que pertence ao discurso mediático, mas não é
discurso político propriamente dito. Por esta razão, van Dijk (1997) considera
fundamental o papel do contexto e não apenas o dos atores para afirmar se um
discurso que tem uma relação com a vida político é ou não um discurso político15.
Enquanto sub-género do discurso político, o discurso parlamentar tem uma
dimensão pública intrínseca, conferida quer pela exposição mediática feita pelos
jornalistas que assistem às reuniões16, quer pelo princípio democrático fundamental do
caráter público dos trabalhos parlamentares, através da criação de canais especializados
que transmitem as reuniões (ARTV em Portugal, TV Câmara e TV Senado no Brasil),
pela publicação em diários oficiais das transcrições dos debates. Mais recentemente, esta
visibilidade do discurso parlamentar foi aumentada graças à internet, os parlamentos
arquivando nos sites oficiais grande parte da sua atividade: a agenda dos trabalhos, os
procedimentos legislativos, os diplomas e as leis em debate, os regimentos, os textos
adotados, as transcrições e as gravações dos trabalhos em reunião plenária ou em
comissões. Os sites dos parlamentos contêm também informações sobre a atividade de
cada parlamentar: as propostas de leis e as resoluções que são da sua iniciativa, as
intervenções em reuniões públicas, os relatórios, as interpelações ao governo, as
declarações políticas, etc. Este procedimento tem o objetivo de fazer mais transparente
a atividade parlamentar, permitindo ao mesmo tempo um escrutínio democrático direto
dos representantes no legislativo.

15 Van Dijk faz muito claramente esta distinção no caso dos políticos: ―Another, but overlapping
way of delimiting the object of study is by focusing on the nature of the activities or practices
being accomplished by political text and talk rather than only on the nature of its
participants. That is, even politicians are not always involved in political discourse […] we
may finally take the whole context as decisive for the categorization of discourse as « political » or
not. […] That is, politicians talk politically also (or only) if they and their talk are
contextualized in such communicative events such as cabinet meetings, parliamentary
sessions, election campaigns, rallies, interviews with the media, bureaucratic practices,
protest demonstrations, and so on‖ (van Dijk 1997: 13-14, nosso negrito).
16 Nas salas plenárias há galerias onde os jornalistas com acreditação podem assistir aos

debates. Os cidadãos têm também a possibilidade de assistir aos debates em plenário com base
num cartão de acesso, em função dos lugares disponíveis nas galerias.

27
1.1.2.2 O discurso político
Faremos também algumas considerações sobre o funcionamento do discurso
político, visto que se situa num campo social17 complexo, que pressupõe a existência
de um contexto, mas também diferentes atores cujas ações o (re)definem
constantemente. Aliás, o papel do contexto é considerado fundamental para o
discurso político:

―À la différence de nombreux textes, religieux ou littéraires par exemple, qui


sont souvent lus et commentés sans prendre en compte, du mois à un certain
niveau, leur contexte sociohistorique, les textes relevant du discours
politique ne sont habituellement lus que pour être mis en relation avec un
« exterieur » : conjoncture, situation, circonstances…‖ (Maingueneau 2010:
85, nosso negrito).

Por conseguinte, os atores políticos e os textos por eles produzidos encontram-se


numa relação de estrita dependência com o contexto, independentemente da sua natureza:

―Les acteurs politiques produisent des textes, mais eux-mêmes et leurs textes
sont produits par tout un complexe de pratiques. L‘analyste est ainsi amené
à faire passer au premier plan les rites de communautés de producteurs de textes
politiques, qui sont à la fois la condition et le produit de ces rites‖ (Maingueneau
2010: 87, nosso negrito).

Como todos os tipos de discurso, o discurso político constrói-se na


encruzilhada de um campo de ação e de um campo de enunciação, o resultado sendo
um contrato de comunicação (Charaudeau 2005: 40), ou seja o discurso político
configura-se na intersecção do fazer e do dizer. Visto que nos regimes democráticos os
políticos devem ter a legitimidade do povo para agir em assuntos do Estado, torna-se
imprescindível a comunicação com os eleitores para obter votos e justificar ações.
Portanto, há uma relação indissolúvel entre o dizer e o fazer, o segundo não sendo
legítimo sem o primeiro, o que cria relações complexas entre os atores que participam
neste processo: os que fazem política – políticos que desempenham funções nas

17 Usamos a noção champs social [campo social] na aceção de Pierre Bourdieu: ―en termes
analytiques, un champ peut être défini comme un réseau, ou une configuration de relations
objectives entre des positions. Ces positions sont définies objectivement dans leur existence et
dans les déterminations qu‘elles imposent à leurs occupants, agents ou institutions, par leur
situation actuelle et potentielle dans la structure de la distribution des différentes espèces de
pouvoir (ou de capital) dont la possession commande l‘accès au profits spécifiques qui sont en
jeu dans le champ, et du même coup, par leurs relations objectives aux autres positions
(domination, subordination, homologie, etc.)‖ (Bourdieu & Wacquant 1992: 73)

28
instituições do Estado, que agem no interesse da polis, mas também os sindicalistas,
os militantes dos partidos, etc. –, os eleitores e os média.
Portanto, para a análise do discurso político, é imprescindível conhecer o
quadro ou o contexto essencial para a sua definição e os atores que o constroem.
Usando a terminologia de Charaudeau (2005: 40-49), devemos delinear ―le dispositif
de la situation de communication‖ – o que na linguagem corrente poderíamos chamar
enquadramento – e ―les instances‖, ou seja os atores que participam na interação
desenvolvida no campo político.
Tal como é definido por Charaudeau (2005), o dispositivo é de natureza
conceitual. Por um lado, o mesmo estrutura a situação de comunicação em função
dos papéis dos atores e as relações estabelecidas entre os mesmos, por outro lado,
depende das condições materiais dentro das quais o discurso é produzido
(Charaudeau 2005: 41). O linguista francês descreve também a relação de encaixe que
se estabelece entre o macrodispositivo conceptual que estrutura todas as situações de
comunicação e o microdispositivo material que delimita as mesmas em diferentes
variantes. No que diz respeito ao discurso político, o mesmo pode ser caraterizado
pelo seu macrodispositivo concepual – interação verbal que trata assuntos do Estado
ou que visa a obtenção do poder – e pelos seus microdispositivos materiais ou as suas
variantes: o debate eleitoral, a declaração de imprensa, o talk-show político, as
estrevistas na rádio ou na televisão, as intervenções no parlamento, etc. Charaudeau
descreve assim também um quadro teórico que define a relação entre um género
discursivo e os seus sub-géneros.
Os atores que participam no contrato de comunicação política não são pessoas
em carne e osso, mas ―catégories abstraites, désincarnées et détemporalisées définies
[…] par la place qu‘elles occupent dans le dispositif et auxquelles les individus sont ren-
voyés‖ (Charaudeau 2005: 42). Por esta razão, o linguista francês prefere falar de
instâncias e não de pessoas. No que diz respeito ao discurso político, as suas instâncias
são: i) a instância política, a que exerce o poder ; ii) a instância adversária, formada
também por atores da instância política, mas que se opõe à mesma, tendo, por
conseguinte, outro tipo de relação com o poder do que a instância política ; iii) a
instância mediática, ou seja o canal que transmite mensagens, mas tendo a sua
independência para criticar a instância política ; iv) a instância cidadã. A instância política
e a instância adversária situam-se no lugar da governação – ―tout ce qui participe à la
gestion du pouvoir dans un groupe social, quelle que soit sa dimension‖ (Charaudeau
2005: 43) –, a instância cidadã no lugar da opinião e a instância mediática no lugar de
mediação. A dinâmica que se estabelece entre as quatro instâncias consta na Figura nº 2.
As duas instâncias que se situam no lugar da governação devem justificar as suas ações,
propor programas de governo e solicitar o apoio da instância cidadã.

29
Figura nº 2. Instâncias do dispositivo de comunicação política (Charaudeau 2005: 42).

Se a sistematização proposta por Charaudeau (2005: 42-49) é enriquecedora e


toma em consideração a multiplicidade das relações entre as instâncias do dispositivo
de comunicação política, consideramos que a representação da sua dinâmica é
redutora, pois as relações propostas pelo linguista francês são, como se pode observar
na Figura nº 2, unidirecionais.
Na nossa opinião, no campo político as relações entre os diferentes atores são
essencialmente bidirecionais. Por exemplo, os políticos que têm o poder (ou a
instância política), sejam quais forem as suas funções no Estado, lançam mensagens
contra os adversários políticos (a instância adversária), mas a oposição critica também
os atores do poder. A instância adversária comunica com a instância cidadã,
informando os eleitores sobre a atividade da instância política e propondo uma
alternativa. A oposição pode também recorrer aos média para iniciar campanhas
contra as ações do poder, para mobilizar os cidadãos, etc. É verdade que os cidadãos
usam os média – a imprensa, a televisão, a rádio – para tornar conhecidas as suas
opiniões junto dos políticos, mas há também a possibilidade de diálogo direto com os
mesmos, pois representantes das comunidades (ou os cidadãos comuns) podem ter
reuniões com políticos e, com o desenvolvimento dos meios eletrónicos de
comunicação, qualquer cidadão pode contactar com o seu deputado por e-mail ou
através das redes sociais, meios cada vez mais usados no marketing político.
É verdade que a natureza muito heterogénea do público não permite uma
comunicação direta entre políticos e muitos dos eleitores, mas o mesmo acontece no
caso da comunicação política feita através dos média. Através da televisão, da rádio,
dos jornais ou da internet os políticos comunicam com um público ideal e imaginário,
que nunca poderão conhecer pessoalmente – em contrapartida, os agentes políticos
usam as sondagens para conhecer a opinião pública sobre determinados assunto –; no
entanto, durante uma reunião face a face com um leader de sindicato ou com um
representante de uma organização não-governamental um político poderá conhecer
diretamente os problemas de um grupo social ou de um indivíduo.
É evidente que a comunicação social é um meio muito eficaz de transmitir às
massas as mensagens dos atores políticos, mas ela não é um veículo inerte; antes pelo

30
contrário, os média têm o papel de fazer um escrutínio rigoroso das decisões políticas e
apresentar ao público os possíveis deslizes da classe política18. Os cidadãos podem usar a
comunicação social para transmitir mensagens, mas os jornalistas podem também ter
posicionamentos próprios e apresentá-los quer aos políticos, quer aos cidadãos.
Estas relações bidirecionais (Figura nº 3) encontram-se no centro do campo
político e refletem-ne a nível discursivo, razão pela qual a análise do discuro político
deveria tomá-las em consideração nas suas abordagens.

Figura nº 3. Relações entre as instâncias da comunicação política (a nossa


reinterpretação).

1.1.2.3 O discurso parlamentar


O discurso parlamentar é, como já referimos, um sub-género do discurso
político, que é produzido e que funciona no lugar da governação. Se aplicarmos no
quadro teórico de Charaudeau (2005), que descreve o dispositivo de comunicação
política, podemos considerar que o discurso parlamentar é essencialmente composto
por mensagens oriundas da instância política e pela instância adversária.
Como em outros tipos de discurso político – por exemplo, o discurso eleitoral
–, entre as instâncias do dispositivo de comunicação do discurso parlamentar
estabelecem-se relações complexas; os discursos produzidos pela instância política e
pela instância adversária encontram ecos no seio da instância mediática – televisão,
rádio, jornais, internet19 – e também no seio da instância cidadã, com as suas vertentes

18 Lembramos aqui o conceito de watchdog journalism, em que o jornalista desempenha um papel


de cão de guarda, fazendo um escrutínio muito cuidadoso da atividade política.
19 No entanto, devemos mencionar que a internet tem um papel triplo, sendo ao mesmo tempo

meio de expressão pública da instância mediática – com jornais disponíveis online, blogs, canais de
televisão e da rádio a emitir também na internet –, da instância política e adversária – com sites
oficiais das instituições do Estado, dos partidos políticos, sites, blogues ou páginas de redes
sociais dos parlamentares –, da instância cidadã, que pode assim comunicar de forma direta com
os políticos, por exemplo fazendo comentários nas páginas das redes sociais.

31
principais, a mais restrita sendo a dos eleitores do círculo eleitoral e a segunda, bem
mais abrangente, constituída pelos cidadãos na sua totalidade.
A instância mediática e a instância cidadã podem reagir aos discursos
parlamentares e ter uma influência direta ou indireta sobre os mesmos. Os
parlamentares têm gabinetes nos círculos eleitorais em que foram votados e os
cidadãos têm o direito de pedir audiências para apresentar os problemas ou propor
projetos. Existem também grupos de lóbi ou grupos de pressão que podem impor
assuntos na agenda dos trabalhos, que têm a capacidade de influenciar as intervenções
públicas dos parlamentares, criando redes complexas de influências junto do discurso
parlamentar. Se integramos os lóbis na categoria mais abrangente da instância cidadã,
porque representam os interesses de grupos privados, podemos essencialmente
representar a dinâmica comunicacional desenvolvida junto da atividade parlamentar
como na Figura nº 4. Por um lado, podemos observar a instância política e a instância
adversária que comunicam e sse censuram mutuamente, ambas comunicando direta o
indiretamente (através da instância mediática) com a instância cidadã. Por sua vez, a
instância mediática e a instância cidadã comunicam com a instância política ou com a
instância adversária, tendo também instrumentos de comunicar entre si.

Figura nº 4. A dinâmica comunicacional na atividade parlamentar.

A nossa análise incidirá sobretudo na dinâmica interacional entre a instância


política e a instância adversária, cujos representantes assumem o protagonismo nos
debates parlamentares.

32
1.1.2.3.1. Sub-géneros do discurso parlamentar
O discurso parlamentar pode classificar-se em sub-géneros em função de
diferentes critérios: i) institucionais, ii) retóricos, iii) pragma-linguísticos, iv) a relação
entre o oral e a escrita.
Do ponto de vista da organização institucional20, podemos classificar o discurso
parlamentar nos seguintes sub-géneros: a declaração política, a interpelação ao
governo, a moção simples, a moção de censura, a audição pública, a audiência pública,
etc. A linguagem parlamentar tem as suas caraterísticas, que se prendem com fórmulas
estereotipadas impostas pelos regimentos, usos de clichés da linguagem administrativa
ou jurídica, emprego obrigatório formas de tratamento canónicas – sobretudo no
discurso parlamentar português –, uma certa agressividade inerente na disputa política,
uma organização rigorosa do turno de fala. Existem tentativas institucionais de
regulamentação ou de descrição da linguagem usada no parlamento, através dos
regimentos, das intervenções metalinguísticas dos parlamentares, que serão analisadas
também neste trabalho.
Do ponto de vista retórico21, o discurso parlamentar é um género essencialmente
deliberativo, com elementos dos géneros epidíctico e judiciário22, os últimos dois, talvez,
em menor proporção (Ilie 2006: 190). O género epidíctico aparece sobretudo em sessões
solenes de abertura da legislação, em sessões com participação de personalidades da vida
pública 23 , mas pode ser encontrado em situações prepoderantemente deliberativas. O
género judiciário evidencia-se nos debates parlamentares quando o objetivo do orador é
acusar ou defender24. No entanto, a componente principal da retórica parlamentar é a sua
natureza deliberativa. Nas suas intervenções, os parlamentares propõem-se convencer a
audiência para votar ou não votar, pretendem influenciar as decisões sobre os projetos

20 O papel do contexto na delimitação de sub-géneros do discurso parlamentar é fundamental,


como veremos, na construção de corpora comparáveis de debates portugueses, brasileiros e
romenos, pois nem sempre as equivalências terminológicas correspondem a equivalências
institucionais. Por exemplo, apesar de terem o mesmo nome, as interpelações são instrumentos
institucionais muito diferentes na Assembleia da República de Portugal e no Parlamento da
Roménia.
21 Trata-se dos três géneros da retórica de Aristóteles, descritos a partir de três elementos: o orador,

o assunto tratado e o público. O género deliberativo serve para aconselhar ou desaconselhar, o


género judiciário para defender ou acusar, o epidíctico para fazer elogios ou criticar.
22 Aristóteles descreve em Retórica os géneros deliberativo ou político, que tem como objetivo

persuadir o auditório para tomar uma decisão, judiciário ou forense, que procura o voto do
auditório a favor das ideias do orador e epidíctico ou de exibição, que tem o objetivo de elogiar
ou censurar.
23 Um exemplo é o discurso do Rei Mihai I da Roménia, que foi convidado a proferir um

discurso perante as câmaras conjuntas do parlamento, em ocasião do seu 90º aniversário.


24 Por exemplo, o discurso do presidente romeno Traian Băsescu para condenar oficialmente o

regime comunista perante as câmaras conjuntas do parlamento.

33
políticos, mas a componente judiciária tem um papel de destaque, pois criticar os
adversários faz parte do jogo político.
Do ponto de vista pragma-linguístico, o discurso parlamentar é um discurso
político, tendo como caraterísticas principais, por um lado, uma forte ritualização
institucional, e, por outro lado, uma dimensão confrontacional intrínseca. Aliás, é
entre estas duas dimensões, a institucional e a confrontacional, que oscila o discurso
parlamentar permanentemente, num frágil equilíbrio. Alguns autores falam de um
conflito ritualizado:

―O Discurso Político Parlamentar é um discurso agónico, agressivo, mas não é


ofensivo, mercê da criação de um mundo discursivo político, que livra os
participantes (funcionalizados) de responsabilidades e agressões. O conflito
está ritualizado‖ (Marques 2008b, nosso negrito).

Do ponto de vista da relação entre o oral e a escrita, o discurso parlamentar é


um diálogo en différé (Cabasino 2001: 25), pois não se verifica nos debates
parlamentares a espontaneidade das conversas quotidianas. Um parlamentar muitas
vezes faz uma leitura de discursos anteriormente preparados – moções, interpelações,
declarações políticas, etc. – e quando não lê e responde a perguntas tem tempo de
preparação, enquanto ouve o orador e espera que o presidente lhe conceda a palavra.
Portanto, as caraterísticas principais do discurso parlamentar prendem-se, do
ponto de vista retórico com a sua natureza essencialemnte deliberativa, do ponto de
vista pragma-retórico com a tensão entre os constrangimentos institucionais e a
agressivide intrínseca e, no que diz respeito a oralidade, tem particularidades impostas
pelo ritual institucional de gestão dos turnos de fala.

1.1.2.3.2. Os atores do discurso parlamentar


Na Figura nº 4, fizemos um esboço das instâncias (Charaudeau 2005) do discurso
parlamentar. Dada a natureza essencialmente pública deste tipo de discurso, a dinâmica
interacional torna-se bastante complexa, sobretudo do ponto de vista das relações que se
estabelecem entre o emissor das mensagens políticas e o(s) seu(s) destinatário(s).
Tomemos um exemplo concreto. Quando faz uma declaração na tribuna do
parlamento, o orador visa um público muito variado. Em primeiro lugar, deve tomar
em consideração o presidente da sessão, que tem uma autoridade discursiva e
institucional na gestão dos debates, destacada, por exemplo, em (137) no subcapítulo
2.1.3 Formas de tratamento e (des)cortesia parlamentar. Em segundo lugar, o orador visa o
interlocutor direto, o único ator que pode responder e com quem pode ter um
diálogo. As outras instâncias (mediática ou cidadã) ou os destinatários indiretos podem
reagir à mensagem, mas não podem dar uma resposta imediata.

34
No entanto, muitos outros atores assistem estes discursos, formando um
auditório plurifacetado, que designámos destinatários indiretos, com duas categorias
principais, os destinatários presentes e os destinatários ausentes na sala de debates (ver
Figura nº 5). Usando a classificação de Goffman (1981), Ilie (2010b: 69) fala de
overhearers [os que ouvem por acaso], com duas categorias, bystanders [espetadores] e
eavesdroppers [os ―ouvidos indiscretos‖]. Os destinatários indiretos presentes são os
colegas da bancada, os adversários políticos das outras bancadas, os jornalistas
acreditados, as pessoas que assistem nas galerias, ao passo que os destinatários
indiretos ausentes são os média no seu conjunto, os militantes do partido, os eleitores
do círculo eleitoral, mas também todos os cidadãos que querem fazer um escrutínio
democrático da atividade parlamentar.
Perelman & Olbrechts-Tyteca (1992/2005) consideram que no caso dos
debates parlamentares o auditório deve ser definido em função das intenções do
orador e não de critérios puramente materiais:

―Como definir um semelhante auditório? Será a pessoa que o orador interpela


pelo nome? Nem sempre: o deputado, que no Parlamento inglês, deve dirigir-se
ao presidente pode estar procurando convencer não só os que o ouvem, mas
ainda a opinião pública do seu país. [...] em matéria de retórica, parece-nos
preferível definir o auditório como o conjunto daqueles que o orador quer influenciar
com a sua argumentação‖ (Perelman & Olbrechts-Tyteca 1992/2005: 21-22).

Aliás, embora não estejam presentes em carne e osso na sala de debates, a


presença dos destinatários indiretos ausentes é recuperada a nível discursivo nas
intervenções dos oradores, como acontece três vezes no exemplo (1), o objetivo
sendo a legitimação das decisões políticas. O exemplo selecionado é relevante porque
mostra a dinâmica interacional entre todos os diferentes atores do discurso
parlamentar. Para uma melhor visualização da representação discursiva dos atores
políticos no texto que selecionámos, optámos pelas seguintes soluções gráficas:

a) o emissor: um sublinhado mais espesso: (ex. para mim);


b) os destinatários diretos:
 para a presidente da Assembleia da República, destinatário obrigatório
segundo as normas regimentais, um sublinhado interrupto: (ex. Sr.ª
Presidente)
 para a deputada Mariana Mortágua, o destinatário direto, um sublinhado
simples (ex. Sr.ª Deputada Mariana Mortágua);
c) os destinatários indiretos:
 para as respostas de deputados presentes na sala, itálico: (ex. O Sr. Filipe Lobo
d‘Ávila (CDS-PP): — Boa pergunta!)

35
 para a instância cidadã, o negrito: (ex. E os ELEITORES3 que estão em
casa podem fazer essa pergunta);
 para a instância mediática, um sublinhado duplo: (ex. E o que dizem os jornais).

Figura nº 5. Emissor e destinatário(s) no discurso parlamentar.

(1) O Sr. Secretário de Estado dos Assuntos Europeus: — Sr.ª Presidente, Sr.ª
Deputada Mariana Mortágua, a Sr.ª Deputada passa demasiado tempo a ler
jornais, desde o The Guardian até ao The New York Times, passando por
jornais gregos, alemães… Mas as decisões políticas ainda não são tomadas
pelos jornais, são tomadas pelos ELEITORES1. E a pergunta importante a fazer
é: qual é o ELEITOR2 que confiaria na Sr.ª Deputada Mariana Mortágua
para elaborar um orçamento?
O Sr. Filipe Lobo d‘Ávila (CDS-PP): — Boa pergunta!
O Sr. Secretário de Estado dos Assuntos Europeus: — E os ELEITORES3 que
estão em casa podem fazer essa pergunta: qual o ELEITOR4 que confiaria
nas suas ideias para elaborar um orçamento?
O Sr. Filipe Lobo d‘Ávila (CDS-PP): — Boa pergunta!
O Sr. Secretário de Estado dos Assuntos Europeus: — São, primeiro, ideias,
confusas; são, depois, ideias fanáticas — as suas ideias são, do ponto de vista
orçamental, ideias fanáticas! —,…
Aplausos do PSD e do CDS-PP.

36
… são, em terceiro lugar, ideias sem a mais pequena consciência histórica. Há
uma disciplina chamada História que nos ajuda a perceber de onde é que vêm os
problemas. A maior parte dos problemas europeus vêm precisamente das
soluções que a Sr.ª Deputada recomenda.
O Sr. José Magalhães (PS): — O Prof. Mattoso reincarnou!
Risos do PS.
O Sr. Secretário de Estado dos Assuntos Europeus: — Em 2009, qual era a
situação da União Europeia? Em muitos países era de completa
insustentabilidade orçamental que resulta das ideias que defende. Parece-me que
acredita que qualquer nível de investimento será sempre recuperado. Não é
verdade, sabemos que não é verdade. Qualquer análise rigorosa mostra isso. Se
olhar mais para trás, para os anos 90, descobrirá facilmente que o défice de
competitividade da Europa resulta de problemas estruturais antigos, que
continuam por resolver em muitos países, e em Portugal começaram a ser
resolvidos, mas têm de continuar a ser resolvidos. Não há nada na história
económica dos últimos 20 anos que sustente as suas ideias. Por isso, a pergunta
é muito simples: qual é o ELEITOR5 responsável que confiaria em si para
elaborar um orçamento? E o que dizem os jornais, para mim, é menos
importante do que esta pergunta fundamental, porque nós vivemos numa
democracia. (Reunião plenária de 17 de outubro de 2014)

Em primeiro lugar, notamos a presença do destinatário direto, a deputada a


quem responde o orador: ―Sr.ª Deputada Mariana Mortágua, a Sr.ª Deputada‖ e do
destinatário obrigatório, o presidente, pois é norma regimental os locutores referirem
o presidente quando tomam a palavra: ―Sr.ª Presidente‖. Em segundo lugar, observa-
se que a instância cidadã (os eleitores) é mencionada cinco vezes, tendo a terceira
ocorrência: ―E os eleitores que estão em casa podem fazer essa pergunta‖ um caráter
pseudo-alocutivo, pois o locutor convida simbolicamente os eleitores a fazer uma
pergunta sobre o assunto debatido.
Aparecem também reações dos destinatários indiretos presentes na sala, quer
verbais: ―O Sr. Filipe Lobo d‘Ávila (CDS-PP): — Boa pergunta!‖, ―O Sr. José
Magalhães (PS): — O Prof. Mattoso reincarnou!‖, quer não-verbais: ―Aplausos do
PSD e do CDS-PP‖, ―Risos do PS‖. Embora seja sobretudo uma referência e não um
destinatário propriamente dito, encontramos no trecho destacado a instância
mediática: ―Mas as decisões políticas ainda não são tomadas pelos jornais‖, ―E o que
dizem os jornais, [...] é menos importante [...] porque vivemos numa democracia‖. E,
por último, notamos também a presença de meios linguísticos para a afirmação de si
do locutor, enquanto indivíduo: ―Parece-me‖, ―para mim‖, mas também enquanto
membro de um grupo mais alargado ―nós‖, que refere a sociedade portuguesa no seu
conjunto.
Portanto, neste fragmento de uma intervenção, podemos observar toda uma
dinâmica interlocutiva das instâncias que constrõem o dispositivo material dos debates
parlamentares. Essencialmente, é esse o cenário discusivo em que se constrói, com
esses atores.

37
1.1.2.3.3 A identidade (dos) parlamentar(es)
Se as relações entre as instâncias discursivas constituem um elemento
fundamental para a análise do funcionamento da interação nos debates políticos (ver
infra 1.4. A negociação do turno de fala), é também importante conhecer as identidades
veiculadas na produção dos discursos.
Em primeiro lugar, a identidade pode ser definida, de pontos de vista
sociológicos e psicológicos, em termos de pertença a um grupo ou em oposição com
outros indivídios ou grupos. Nos debates parlamentares, a construção discursiva de si
em comparação com os outros assume maior importância, pois os políticos fazem
parte de partidos e se definem, portanto, como membros de um grupo com uma certa
ideologia (nós). Ao integrarem um partido, os políticos adotam uma ideologia e
rejeitam ideologias dos adversários, definindo-se também em oposição com os outros
(nós vs. vocês, nós vs. eles).
Em segundo lugar, a identidade prende-se com toda a complexidade social de
um indivíduo. Assim, um político tem uma identidade social, que reflete a sua
formação, o facto de pertencer a uma comunidade linguística, social ou profissional, a
sua experiência de vida, etc. Ele tem também uma identidade política, relacionada,
como já vimos, com o facto de pertencer a um partido, com determinadas convicções
ideológicas, manifestando-se ambas as facetas identitárias na produção do discurso.
Por sua vez, as identidades políticas revelam-se também bastante complexas.
Van Dijk (2010: 37-38) defende que ―as identidades políticas são identidades sociais
no domínio político‖25 e que podem ser classificadas em duas categorias: identidades
políticas profissionais (dos membros das instituições políticas, como o parlamento, o
governo, os partidos políticos) e identidades políticas relacionais (dos membros da
oposição, dos ativistas). Ao tomarem a palavra em reuniões, os parlamentares
assumem a sua identidade social (de género, idade, nacionalidade, etc.), mas também –
ou sobretudo – as suas identidades políticas profissionais e relacionais (enquanto
senadores ou deputados, membros de partidos que detêm o poder ou da oposição,
grupos políticos que veiculam uma determinada ideologia). Análises detalhadas de
debates parlamentares mostram mecanismos complexos de co-construção discursiva
identitária (Ilie 2010b), de construção da instância elocutiva através da deixis social
(Marques 2000) ou através do (meta)posicionamento discursivo (Vasilescu 2010;
Vasilescu 2011). Charaudeau (2002b) defende que a identidade tem também
componentes que se situam fora da dimensão psicológica ou social e introduz os
conceitos de identidade discursiva (que pode ser descrita com base em categorias
locutivas, as modalidades de tomar a palavra, o papel desempenhado na interação) e
identidade de posicionamento (que se constrói em função dos valores e crenças
adotadas pelo locutor).

25 ―Political identities are social identities in the political domain‖ (Van Dijk 2010: 37).

38
Se na criação de modelos teóricos, é preferível tomar em consideração
sobretudo ―catégories abstraites, désincarnées et détemporalisées‖ (Charaudeau 2005:
42), a análise empírica dos dados deveria relacionar-se também com os jogos das
identidades dos locutores que entram nestas categorias, pois os atores do discurso
parlamentar são indivíduos complexos, com identidades plurifacetadas, relacionadas
com a política, evidentemente, mas também com as componentes sociais,
profissionais, pessoais, etc.
Para a análise da identidade discursiva, usaremos sobretudo o termo imagem
(imagem de si e dos outros), para designar o inglês face da teoria da cortesia linguística.
A expressão face threatening acts (FTAs) por exemplo, será traduzida com a expressão
―atos ameaçadores para a imagem‖, e face flettering acts (FFAs) com a expressão ―atos
valorizantes para a imagem‖ do interlocutor. Esta opção – em detrimento de face,
termo empregue, por vezes, em português em trabalhos de linguística – seria coerente
com a terminologia de trabalhos de análise do discurso político em que se fala sobre a
imagem pública e a imagem pessoal dos locutores (Gruber 1993).
Após este enquadramento teórico, em que fizemos um levantamento de
estudos dedicados aos debates parlamentares e em que tentámos definir o discurso
parlamentar articulando-o com o discurso público e com o discurso político e
descrevendo os seus sub-géneros principais, os seus atores e as identidades veiculadas
pelos mesmos, debruçar-nos-emos no próximo capítulo no corpus que criámos para
este trabalho.

39
1.2 O corpus
Tivemos oportunidade de dizer aqui quais são as nossas
prioridades, porque não podemos ir a tudo, temos de
escolher. (DAR, 27/01/2011 – I Série — Número 43)

As escolhas feitas na criação de um corpus colocam alguns problemas, sendo a


mais importante ―la pertinence […] en relation avec les présupposés théoriques‖
(Charaudeau 2009). Por exemplo, como decidimos trabalhar com diários oficiais dos
três órgãos legislativos selecionados – Assembleia da República de Portugal,
Congresso Nacional do Brasil, Parlamento da Roménia –, seria impossível fazermos
uma análise dos marcadores da oralidade, porque estas expressões linguísticas se
perdem quando os serviços de taquigrafia e arquivo fazem a transcrições dos debates
(ver infra 1.2.2. Do oral à escrita).
Se consideramos a definição que Sinclair propõe para o corpus, coloca-se
imediatamente a questão da representatividade dos dados analisados: ―a collection of
pieces of language that are selected and ordered according to explicit linguistic criteria
in order to be used as a sample of the language‖ (Sinclair 1996). Em cada legislatura há
centenas de reuniões em que se debatem assuntos muito diferentes, que abrangem a
vida social e política de um país em toda a sua complexidade. Qual será o número
representativo de debates que possam integrar o nosso corpus e que nos permita
extrapolar os resultados ao discurso parlamentar no seu conjunto?
Por outro lado, no caso do discurso político, utilizar apenas critérios linguísticos
explícitos pode não ser suficiente para criar um corpus com debates parlamentares
comparáveis e, do nosso ponto de vista, o contexto político assume um papel
fundamental. Aliás, Damon Mayaffre, na introdução do número temático Les corpus
politiques : objet, méthode et contenu da revista Corpus salienta também a importância do
contexto: ―les corpus politiques […] sont tout entier référentiels: c‘est dans leur nature,
leur vocation, leur raison d‘être, de renvoyer au monde réel‖ (Mayaffre 2005: 4).
Um desafio na criação do corpus é a heterogeneidade das interações, pois os
debates parlamentares de Portugal, do Brasil e da Roménia decorrem em
circunstâncias extralinguísticas diferentes do ponto de vista cultural, político, social,
etc. Por conseguinte, selecionar debates comparáveis, tendo em conta os sistemas
políticos pode tornar-se problemático. A heterogeneidade do discurso parlamentar –
do ponto de vista institucional, retórico, pragma-linguístico, relação oral-escrita (ver
supra 1.1.2.3.1. Sub-géneros do discurso parlamentar) – determinou-nos a operar
delimitações muito estritas na seleção temática dos debates. Por esta razão, decidimos
escolher apenas um sub-género institucional do discurso parlamentar, nomeadamente
os debates em que o poder legislativo exerce a função de fiscalizar o poder

41
executivo 26 : interpelações ao governo na Assembleia da República de Portugal,
audiências públicas na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, da Câmara dos
Deputados do Congresso Nacional do Brasil, moções simples e moções de censura no
Parlamento da Roménia.
Nas secções seguintes fazemos uma apresentação dos critérios extralinguísticos
que usámos na criação de um corpus que considerámos: relevante e homogéneo do
ponto de vista temático.

1.2.1 Critérios de seleção


Os sítios oficiais dos parlamentos oferecem uma quantidade impressionante de
dados: gravações vídeo e áudio, transcrições oficiais de reuniões plenárias ou em
comissões, bem como uma grande variedade de documentos escritos (projetos de leis,
diplomas, regimentos, declarações políticas, moções, interpelações, etc.). Esta abundância
de materiais permite ao investigador fazer análises complexas sobre a linguagem
parlamentar, oral ou escrita. Para delimitarmos os debates incorporados no corpus,
usámos dois critérios extralinguísticos: o critério cronológico e o critério temático.
Sendo o nosso objetivo análisar o discurso parlamentar contemporâneo,
fizemos uma seleção temporal e selecionámos debates que deocrreram em 2011 e
2012. Estes dois anos correspondem ao seguintes ciclos eleitorais: na Assembleia da
República de Portugal, o fim da 11ª legislatura (15 de outubro de 2009 – 16 de junho
de 2011) e o início da 12ª legislatura (20 de junho de 2011 – setembro / outubro de
2015); no Congresso Nacional do Brasil, 54ª legislatura (1 de fevereiro de 2011 – 31 de
janeiro de 2015); no Parlamento da Roménia, o último ano da 6ª legislativa (2008 –
2012) e o primeiro ano da 7ª legislatura (2012 - 2016).
Após este recorte temporal, fizemos outra delimitação, que diz respeito ao
conteúdo das reuniões parlamentares; como já referimos, a nossa análise debruçar-
se-á nos debates em que o poder legislativo exerce sua a função de fiscalizar o
poder executivo. Num primeiro momento, selecionámos as onze interpelações ao
governo decorridas na Assembleia da República em 2011 e 2012. As interpelações
ao governo são um dos mecanismos institucionais através dos quais o parlamento
português pode controlar a atividade do poder executivo. Num segundo
momento, tentámos selectionar debates para corpora comparáveis brasileiros e
romenos, criando um sub-corpus de onze audiências públicas da Comissão de
Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados do Congresso
Nacional du Brasil e onze reuniões plenárias do Parlamento da Roménia, em que
os senadores e os deputados debateram moções simples ou de censura. Apesar das
diferenças de procedimentos que advêm das particularidades de cada sistema

26 Como já mostrámos no Preâmbulo jurídico-político, esta função é exercida de maneiras


diferentes nos três sistemas políticos contemplados, o que constuiu outro desafio, que nos
levou a fazer leituras sobre o direito constitucional português, brasileiro e romeno.

42
político, o corpus tem no seu conjunto um caráter homogéneo, conferido quer
pela temática, quer pela dimensão temporal do total de trinta e três debates.

1.2.1.1 O sub-corpus português


O sub-corpus português contém, como já referimos, reuniões plenárias em que
se debatem as seguintes interpelações ao governo:
i) Sobre ―Sector Empresarial do Estado‖, 26.01.2011;
ii) Sobre ―Orientações do Governo para a política de transportes públicos, centrada no
transporte ferroviário‖, 27.01.2011;
iii) Centrada na legislação laboral, 16.02.2011;
iv) Consequências orçamentais das Parcerias Publico-Privadas, 16.03.2011;
v) Centrada na política de saúde, 12.10.2011;
vi) Sobre ―Desemprego, precariedade, alterações às leis do trabalho‖, 26.10.2011;
vii) Centra-se nas consequências do pacto de agressão na vida dos portugueses - a grave crise
económica em que se traduz a aplicação do ―memorando de entendimento‖,
21.03.2012;
viii) Centrada na ―política de saúde‖, 11.04.2012;
ix) Sobre Política orçamental e de crescimento, 26.04.2012;
x) Sobre ―Políticas de educação‖, 10.05.2012;
xi) ―Uma política alternativa para o país: aumento da produção nacional, renegociação da
dívida, melhor distribuição da riqueza‖, 18.10.2012.

1.2.1.2 O sub-corpus brasileiro


O sub-corpus brasileiro contém as seguintes audiências públicas de membros
do governo na Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos
Deputados do Congresso Nacional du Brasil:
i) Esclarecimentos sobre as políticas públicas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, a
falta de medicamentos para combater a AIDS e a matéria veiculada pelo jornal O
Globo sobre pronunciamento do Sr. Jorge Hage Sobrinho, Ministro-Chefe da
Controladoria-Geral da União, a respeito de fraudes e falta de fiscalização na saúde,
12.04.2011;
ii) Esclarecimentos acerca de matéria divulgada na imprensa sobre fraudes e falta de
fiscalização nas áreas de saúde e educação, e de outros assuntos referentes à
Controladoria-Geral da União, 4.05.2011;
iii) Discussão sobre as denúncias veiculadas na imprensa referentes à venda ilegal de terras
destinadas à reforma agrária, 24.08.2011;
iv) Esclarecimentos do Sr. Carlos Lupi, Ministro de Estado do Trabalho e Emprego,
sobre denúncias de desvio de recursos em convênios do referido Ministério, 10.11.2011;
v) Debate sobre assuntos relativos ao Exame Nacional de Ensino Médio – ENEM,
23.11.2011;

43
vi) Debate sobre os seguintes temas: eventual interferência do Governo na empresa Vale e
aumento nas alíquotas do IPI e incidentes sobre alguns veículos importados
comercializados no Brasil, 23.11.2011;
vii) Discussão sobre a crise na segurança pública no País, em especial no Estado de São
Paulo, e esclarecimentos sobre as operações Porto Seguro e Durkheim da Polícia
Federal, 4.12.2011;
viii) Debate sobre questões acerca de irregularidades nos hospitais federais no Rio de Janeiro,
8.05.2012;
ix) Debate com a Ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de Relações Institucionais, sobre
denúncias de irregularidades na compra de 28 lanchas, por parte do Ministério da
Pesca, 16.05.2012;
x) Debate sobre as dificuldades encontradas pelo Governo Federal para a conclusão das
obras de transposição do Rio São Francisco, 22.05.2012;
xi) Esclarecimentos sobre as recentes interrupções no fornecimento de energia elétrica
ocorridas no País, 28.11.2012.

1.2.1.3 O sub-corpus romeno


O sub-corpus romeno contém onze reuniões plenárias, em que o parlamento
fiscaliza o poder executivo, debatendo os deputados e os membros do governo dez
moções simples e uma moção de censura.
Moção de censura em reunião conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado:
i) ―Codul Boc - salarii mici, somaj mare, firme falimentate‖ [O código Boc – salários
baixos, desemprego alto, empresas à falência], 16.03.2011.
Moções simples em reuniões plenárias do Senado:
ii) ―Agricultura – falimentară, dar politizată‖ [A agricultura à falência, mas
politizada], 2.05.2011;
iii) ―Căldura care îngheaţă România : regimul Băsescu-Boc‖ [O calor que congela a
Roménia: o regime Băsescu-Boc], 3.10.2011;
iv) ―Politica externă este a României, nu a PDL‖ [A política estrangeira é da
Roménia, não do Partido Democrata Liberal], 23.05.2011;
v) ―Nesiguranţa lui Igaş, pericol pentru siguranţa cetăţeanului‖ [A incerteza do
ministro Igaş, um perigo para o cidadão], 6.12.2011.
Moções simples em reuniões plenárias da Câmara dos Deputados:
vi) ―Sistemul sanitar din România: alarmă de cod roşu‖ [O sistema de saúde da
Roménia: alarme de código vermelho], 9.05. 2011;
vii) ―Un flagel naţional – plantele etnobotanice‖ [Um desastre nacional – as plantas
psicoativas], 6.06.2011;
viii) ―Panglicile doamnei ministru Boagiu‖ [As fitas da senhora ministra Boagiu],
21.10.2011;
ix) ―Brambureala din educaţie duce la plagiat şi eşec şcolar!‖ [A bagunça da Educação
causa plágio e insucesso escolar!], 2.10.2012;

44
x) ―Dăunatorii USL distrug agricultura‖ [Os parasitas da União Social Liberal
destroem a agricultura], 9.10. 2012;
xi) ―Guvernul USL - Frâna de motor a bugetului‖ [O governo da União Social
Liberal – o freio de motor do orçamento], 23.10.2012.

Na próxima secção tentaremos descrever este corpus do ponto de vista da


relação entre o oral e a escrita, visto que as transcrições oficiais, redigidas pelos serviços
parlamentares, não foram feitas para a análise linguística, o que pode constituir uma
limitação para os resultados da investigação.

45
1.2.2 Do oral à escrita
Aliás, estou à espera da resposta do Secretário de Estado,
pois tenho aqui as gravações e as actas das últimas audições
com o Sr. Ministro das Obras Públicas... (DAR
17/03/2011 – I Série — Número 64)

O objetivo desta secção é fazer uma análise da relação entre o oral e a escrita
através de uma comparação de gravações vídeo e áudio de reuniões parlamentares
com as transcrições oficiais correspondentes. Na nossa opinião, esta etapa de
investigação é essencial nos estudos do discurso parlamentar que usam as transcrições
oficiais, porque oferece informações sobre o grau de autenticidade deste tipo de
corpus e os eventuais limitações para a análise linguística. Antes de avaliarmos a
relação entre a linguagem oral e a linguagem escrita, apresentamos brevemente os
serviços de taquigrafia e arquivos que redigem as transcrições dos debates
parlamentares.

1.2.2.1 Os ―beneditinos‖ da escrita


Nos parlamentos português, brasileiro e romeno existem serviços
especializados em taquigrafia e transcrição, que garantem a preservação do conteúdo
dos debates. Porém, o trabalho destes bénédictins de l‘écrit (Abélès 2001) – expressão
que o etnólogo francês emprega para designar os estenógrafos, os revisores e outros
funcionários da Assemblée Nacionale que trabalham nesta área – não é um relato fiel das
reuniões.
Segundo Oliveira (2013), no caso das transcrições das reuniões do Congresso
Nacional do Brasil trata-se sobretudo de um trabalho de ―retextualização‖, que pode
influenciar a perceção do estilo do orador. Além do mais, a adaptação do registo
formal opera uma verdadeira ―descaraterização‖ estilística dos oradores que
privilegiam certos registos da língua. Ribeiro (2010: 95-96) propõe uma análise
contrastiva a nível microtextual entre a transcrição oficial e a sua própria transcrição
de dois debates que decorreram na Assembleia da República de Portugal e identifica
vinte e cinco caraterísticas da oralidade eliminadas do ―relato fiel‖, que o DAR afirma
fazer, das quais mencionamos a eliminação do pronome pessoal eu, as sobreposições,
o uso incorreto dos verbos, os erros de concordâncias entre sujeito e verbo. Rodica
Zafiu afirma que transcrições dos debates parlamentares romenos são interessantes
para os linguistas, mas evoca as alterações em relação à linguagem oral:

―E clar că aceste stenograme nu corespund perfect interesului strict lingvistic:


cei care transcriu dezbaterile parlamentare normalizează în mod automat unele
trăsături ale oralitãţii (suprimînd anumite ezitări, bîlbîieli, poate chiar greşelile
prea evidente) şi nu e exclus sã introducă, uneori, propriile deprinderi lingvistice:
lucruri care, desigur, nu schimbă sensul, dar nici nu permit prea multe

46
generalizări asupra limbajului; e ceea ce deosebeşte astfel de texte de transcrierile
profesioniste, în care accentul cade tocmai pe fidelitatea înregistrării formei, a
expresiei‖ (Zafiu 2004, nosso negrito).
[É óbvio que estas transcrições não correspondem perfeitamente ao interesse
estritamente linguístico: os que transcrevem os debates parlamentares normalizam
automaticamente alguns traços da oralidade (suprimindo certas hesitações, gaguejos,
talvez até os erros mais evidentes) e não se exclui a possibilidade de introduzirem,
por vezes, os seus próprios hábitos linguísticos: coisas que, de certeza, não mudam o
significado, mas nem permitem demasiadas generalizações sobre a linguagem; e o
que faz diferença entre estes textos e as transcrições profissionais, em que se acentua
a fidelidade da preservação da forma, da expressão.]

No entanto, apesas das suas limitações, estes documentos oferecem aos linguistas a
possibilidade de fazer análises do discurso parlamentar, como já vimos no caso dos
estudos apresentados no estado de arte, a maioria feitos a partir deste tipo de corpus,
sendo o exemplo mais frequente o Hansard Report para o Parlamento Britânico. Em
seguida, faremos a nossa análise da relação entre o oral e a escrita para identificar as
possíveis limitações da investigação determinadas pelas alterações feitas nas transcrições
oficiais em cada um dos três sub-corpus: português, brasileiro e romeno.

1.2.2.2 Oral vs. escrita? / Oral e escrita?


Selecionámos de forma aleatória três reuniões para este estudo sobre a relação
entre o oral e a escrita27: i) o debate da interpelação ao governo sobre a política de
saúde na Assembleia da República, com a presença do ministro Paulo Macedo
(12.10.2011); ii) a audiência pública do ministro Carlos Lupi na Comissão de
Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional
do Brasil (10.11.2011); iii) o debate da moção simples contra a ministra de Transportes
e Infraestrutura Anca Boagiu na Câmara dos Deputados do Parlamento da Roménia
(21.11.2011).
No que diz respeito à dimensão deste corpus, as très gravações têm no seu
conjunto cerca de 9 horas e 20 minutos e as transcrições oficiais têm 82000 palavras.
As transcrições foram feitos seguindo as convenções propostas por Marion Sandré
(2013: 94-97).
+ ++ +++ Pausa muito breve, breve, média
+3+ Pausa de três segundos
de con— Truncagem de uma palavra
: :: ::: Alongamento de um som
↑ Intoação montante

27 Parte dos exemplos analisados encontram-se também em Manole (2013).

47
↓ Intoação descendente
>…< Passagem pronunciada com débito muito rápido
<…> Passagem pronunciada com débito lento
MaIOres DOIS Acentuação de uma sílaba ou de uma palavra mono-silabica
… Passagem pronunciada com uma voz forte
… Passagem pronunciada com uma voz fraca
(risos) Descrição dum comportamento (fenómeno pontual)
(sorriso) "…" Descrição dum comportamento (fenómeno entre aspas)
[irónico] Comentário do transcritor
[…] Corte feito pelo transcritor
(X, XX, XXX) Sílaba(s) indecifrável(eis)
(bem ?) Sequência com transcrição incerta
(por/para) Hesitação entre duas formas
Tabela nº 1. Convenções de transcrição (Sandré 2013).

Uma das perguntas que se coloca quando se trabalha com transcrições do oral é
a sua adequabilidade enquanto corpus para a análise do discurso. Na nossa opinião, é
importante saber em que medida este corpus de oral transcrito é ou não um relato fiel
dos factos de língua da interação verbal dos debates parlamentares. Esta questão
corrobora-se com problemáticas variadas de metodologia, nomeadamente a criação, a
seleção e a utilização de corpora para a análise do discurso, a transcrição do oral, a
representação do discurso, mas também a relação entre o oral e a escrita. No que diz
respeito à tradição dos estudos sobre as transcrições parlamentares, a nossa análise
continua outras investigações sobre a relação oral / escrita no parlamento italiano
(Cortelazzo 1985), francês (Cabasino 2001; Cabasino 2010; Serverin & Bruxelles
2008), britânico (Slembrouck 1992; Mollin 2007), brasileiro (Oliveira 2013), português
(Ribeiro 2010) e europeu (Norén 2015).
Antes da apresentação dos nossos resultados, mencionamos também algumas
particularidades dos debates parlamentares enquanto género discursivo, sobretudo no
que diz respeito a sua oralidade. Segundo Cabasino (2001, 2010), os debates
parlamentares são por excelência um género híbrido, englobado elementos de oral
espontâneo, mas também escrita verbalizada, uma vez que os parlamentares leem na
tribuna oficial documentos e discursos já redigidos. A interação verbal nas reuniões
parlamentares decorre quase no seu conjunto – excepto os apartes – de acordo com um
ritual institucional muito bem definido nos regimentos, apresentado pelo presidente no
início de cada reunião (ver infra 1.3.1. A sequência de abertura). Ao contrário de um diálogo
face a face em contexto informal, que se carateriza por um grau alto de espontaneidade,
numa reunião parlamentar a ordem dos intervenientes, o tempo de fala, o assunto
debatido são conhecidos com antecedência. Graças a esta caraterística, Cabasino (2001,
2010) afirma que o debate parlamentar é um dialogue en différé.

48
Portanto, a complexidade da relação oral / escrita está relacionada, por um
lado, com a natureza híbrida dos debates em si, mas, por outro lado, com as alterações
feitas pelos serviços de taquigrafia e arquivo. Nesta análise, que se concentra
sobretudo no segundo aspeto, identificámos as seguintes alterações: correções e
supressões de conteúdo, correções gramaticais, reformulações para esclarecer a
mensagem, o uso do registo formal, alterações do turno de fala.

1.2.2.3 Correções e supressões de conteúdo


No início da audiência pública do ministro brasileiro Carlos Lupi, o presidente
da comissão faz um erro quando menciona o artigo do regimento da Câmara dos
Deputados que estipula as condições segundo as quais os membros do governo
comparecem perante este órgão legislativo, dizendo ―artigo 219‖ em vez de ―artigo
119‖. Na transcrição o erro desaparece, sendo corrigido pelo transcritor.

(2a) O Sr. Presidente (Deputado Nilson Leitão) – Pedindo a proteção divina,


declaro aberta esta reunião de audiência pública, destinada a receber o Sr. Carlos
Lupi, Ministro de Estado do Trabalho e Emprego, que veio espontaneamente a
esta Comissão, nos termos do art. 219, inciso II, do Regimento Interno
desta Casa, para falar sobre denúncias de desvio de recursos em convênios do
referido Ministério. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

(2b) NL – pedindo::↑ a proteção divina + declaro aberta a reunião de audiência


pública +++ destinada a receber o senhor Carlos Lupi ++ Ministro de Estado do
Trabalho e Emprego que veio < esponTANeamente > a esta Comissão + nos
termos do artigo cento e dezenove inciso dois + do regimento interno desta
casa + para falar sobre deNÚNcias de desvio de recursos em convênios do
Ministério de Trabalho e Emprego (Nossa transcrição)

Há também supressões de conteúdo, sobretudo se as frases exprimem


comentários pessoais, por vezes irónicos. No exemplo (3), observamos que a frase
―Conhecem-nos da sua filosofia em casa‖, pronunciada pelo ministro português Paulo
Macedo, não aparece na transcrição oficial. Neste caso, o locutor faz uma análogia
entre o orçamento do Estado e o orçamento familiar defedendo que, tal como em
família, na administração pública as despesas não devem ultrapassar as receitas.

(3a) O Sr. Ministro da Saúde (Paulo Macedo): - Não podemos despender, no


nosso dia-a-dia, mais do que aquilo que é o nosso rendimento. As famílias e os
portugueses sabem isso. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

49
(3b) PM – não podemos despender no nosso dia-a-dia mais do que aquilo que é
o nosso rendimento ↓ + as famílias e os portugueses sabem isso + conhecem-
nos + da sua filosofia + em casa ↓ (Nossa transcrição)

No exemplo (4a), o comentário da deputada Luísa Salgueiro, ―O senhor


ministro gosta muito dos números‖ foi também omitido. Nesta reunião, a estratégia
discursiva da deputada é de criticar o ministro de Saúde por se concentrar sobretudo
nos assuntos financeiros da gestão do SNS (Sistema Nacional de Saúde), ignorando a
importância da medicina. Ela apresenta estatísticas ―Sr. Ministro, os números são
estes‖ e acrescenta um comentário ―O senhor ministro gosta muito dos números‖
para mostrar que os seus argumentos são os mesmos que os usados pelo governo para
justificar os cortes no SNS. Por causa desta supressão, a intenção manifestamente
crítica expressa pela oradora na sua intervenção através deste comentário não consta
nas transcrições.

(4a) A Sr.ª Presidente: — Tem agora a palavra a Sr.ª Deputada Luísa Salgueiro.
A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Renovo os cumprimentos a V. Ex.ª, Sr.ª
Presidente, ao Sr. Ministro da Saúde e aos Srs. Secretários de Estado, bem como
às Sr.as e aos Srs. Deputados. Sr. Ministro, como comecei por dizer, nesta
interpelação ao Governo, centrada na política de saúde, o Partido Socialista faz
questão de trazer para a primeira linha de debate a matéria dos cuidados
continuados. […] Sr. Ministro, os números são estes: neste momento, temos
5595 camas nesta rede, estão prontas para entrar em funcionamento 1000 e
estão em construção 2000. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(4b) PR – muito obriga::da ++ muito obrigada senhor deputado João Semedo


++ eeeh ++ mais uma vez as minhas desculpas + tem agora a palavra a senhora
deputada Luísa Salgueiro do PS + faz favor ↑
LS – > muito obrigada < + renovo os cumprimentos à vossa exceLÊNcia + ao
senhor ministro + às senhoras secretárias de esTA:do + aos senhores secretários
de estado + às senhoras e aos senhores deputados + como eu ia começar por
dizer + nesta interpelação ao governo sobre na política de saú:de + o Partido
Socialista faz questão de trazer para a primeira linha de deba::te + a matéria dos
cuidados continuados ↓ […] > senhor ministro os números são estes e o
senhor ministro gosta muito de números < + neste momento temos cinco
mil quinhentas e noventa e cinco camas nesta rede + estão prontas para
entrar em funcionamento MIL ↓ e estão em construção DUAS MIL ↓ (Nossa
transcrição)

Devemos acrescentar que estas alterações podem ser também o resultado da


intervenção dos oradores, que têm algum tempo disponível para verificar as
transcrições e aprovar a sua publicação definitiva. No exemplo (4), a gravação vídeo
mostra que a deputava estava de facto a ler um texto e o comentário provavelmente

50
não constava no mesmo, pois foi feito levantando o olhar da folha; é possível que no
caso dos textos escritos estes sejam introduzidos no DAR sem os comentários feitos
pelos oradores durante a leitura.

1.2.2.4 Correções gramaticais


Outra categoria de modificações encontradas nas transcrições oficiais diz respeito
à correção gramatical dos discursos produzidos. Vejamos dois exemplos do corpus romeno:
em (5a) substitui-se a palavra repercursiuni [repercussões] com a forma correta repercusiuni (<
fr. répercutions), ao passo que em (6a) a correção feita visa a concordância entre sujeito e
verbo. Como podemos observar em (6b), no corpus oral os verbos são conjugados no
singular, se investea [investia-se], s-a investit [investiu-se], mas no corpus escrito, (6a), o
transcritor usa o plural, se investeau [investiam-se], s-au investit [investiram-se].

(5a) Doamna Anca Daniela Boagiu (ministrul transporturilor şi infrastructurii) : -


Cred în acelaşi timp că atât vreme cât unii politicieni vor face, mai puţin
responsabil, declaraţii publice care sunt preluate foarte repede în plan internaţional
ca fiind realităţi, cu repercusiuni asupra a ceea ce România face, România va
pierde. (Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[A senhora Anca Daniela Boagiu (ministra dos transportes e da infraestrutura) : -
Ao mesmo tempo, acho que enquanto alguns políticos fizerem, de forma menos
responsável, declarações públicas divulgadas depois muito rapidamente a nível
internacional como sendo realidades, com repercussões sobre o que a Roménia
faz, a Roménia vai perder.]

(5b) ADB : cred în acelaşi timp că atâta vreme cât unii politicieni vor face ++
mai puţin responsabil ++ declaraţii publice care sunt preluate foarte repede în
plan internaţional + ca fiind realităţi + cu repercursiuni asupra a ceea ce
România face ++ România va pierde (Nossa transcrição)
[ADB : ao mesmo tempo acho que enquanto alguns políticos fizerem ++ de
forma menos responsável ++ declarações políticas depois divulgadas muito
rapidamente a nível internacional + como sendo realidades + com repercussões
sobre o que a Roménia faz ++ a Roménia vai perder]

(6a) Domnul Ioan Oltean : V-aş mai da o informaţie pentru cultura


dumneavoastră generală, stimaţi reprezentanţi ai opoziţiei, că dacă în 2008, din
totalul sumei alocate pentru investiţii în Ministerul Transporturilor şi în
infrastructura Ministerului Transporturilor, se investeau 5.652 milioane lei, ceea
ce reprezenta 1,1% din PIB, în 2011 s-au investit 11.104 milioane lei, ceea ce
reprezintă 2%. (Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[O senhor Ioan Oltean : - Dar-lhes-ia mais uma informação, para a vossa cultura
geral, estimados representantes da oposição. Se em 2008, do total da verba para
investimentos do Ministério dos Transportes e da infraestrutura do Ministério

51
dos Transportes se investiam 5.652 milhões lei, o que representa 1,1% do PIB,
em 2011 investiram-se 11.104 milhões de lei, o que representa 2%.]

(6b) IO : v-aş mai da o informaţie pentru cultura dumneavoastră generală ↓


stimaţi reprezentanţi ai opoziţiei +++ că dacă în dois mil e oito + din totalul
sumei alocate pentru investiţii în Ministerul Transporturilor şi în infrastructura
Ministerului Transporturilor + se investea cinci mii şase sute cincizeci şi două
milioane lei + ceea ce reprezenta UNU VIRGULĂ UNU la sută din din PIB, în
două mii unsprezece s-a investit unsprezece mii o sută patru milioane lei + ceea
ce reprezintă DOI la sută (Nossa transcrição)
[IO : dar-lhes-ia mais uma informação para a vossa cultura geral ↓ estimados
membros da oposição +++ se em 2008 + do total da verba para investimentos
do Ministério dos Transportes e da infraestrutura do Ministério dos Transportes
+ investia-se cinco mil seiscentos e vinte milhões de lei + o que representa UM
VÍRGULA UM por cento do PIB, em dois mil e onze investiu-se onze mil
centro e quarenta milhões de lei + o que representa DOIS por cento]

Este tipo de alterações não nos permitiria fazer demasiadas generalizações, por
exemplo, sobre o registo de língua usado, visto que este nivelamento (para cima) do grau
de correção gramatical apaga as diferenças estiliísticas entre os discursos dos oradores.

1.2.2.5 Reformulações para esclarecer a mensagem


A terceira categoria de alterações, cujo objetivo é fazer com que a mensagem
fique mais clara, abrange as explicações das siglas e a eliminação de alguns traços da
oralidade, como as hesitações, as elipses, as repetições, as frases inacabadas, etc. O
segundo tipo de alteração constitui, na nossa opinião, uma das limitações mais
importantes na utilização das transcrições como corpus para a análise linguística.
Quando os traços de oralidade são eliminados, é quase impossível falar de um ―relato
fiel‖ do que se passa nas reuniões, como se afirma na descrição do DAR. As
transcrições do DAR seriam mais semalhantes à ―oralidade‖ que encontramos em
romances ou outros géneros literários, em que o discurso oral é representado na
forma escrita com constrangimentos impostos pelas normas do texto literário.

1.2.2.5.1 Explicação das siglas


No que diz respeito à explicação das siglas – uma das normas de redação do
DAR –, vejamos um exemplo da transcrição portuguesa (7a), em que as abreviações
usadas com frequência na linguagem parlamentar e administrativa são escritas por
extenso: SNS [Serviço Nacional de Saúde], PPP [parcerias público-privadas]. A mesma
estratégia é usada também no casos dos nomes de instituições, como IDT [Instituto
da Droga e da Toxicodependência], BCE [Banco Central Europeu] e FMI [Fundo
Monetário Internacional]. Apenas as siglas dos partidos ou das coligações políticas,

52
PS, PSD, CDS-PP, não são explicadas. Acrescentamos que em geral os locutores não
explicam as siglas nas suas intervenções orais, talvez por serem tão frequentes na
linguagem política e por serem conhecidas pelo público.

(7a) A Sr.ª Paula Santos (PCP): — No âmbito da toxicodependência e do


alcoolismo, a extinção do Instituto da Droga e da Toxicodependência
(IDT) pode significar a desagregação das respostas públicas e a liquidação da
estratégia, que os resultados obtidos demonstraram ser correcta, de combate à
toxicodependência e aos problemas ligados ao álcool. […] O Ministro da Saúde
não se afirmou como o Ministro do Serviço Nacional de Saúde (SNS) mas,
sim, do sistema de saúde, pondo ao mesmo nível, como se tratasse tudo do
mesmo, o público e o privado. […] PS, PSD e CDS-PP subscreveram e
aceitaram o programa de agressão do Fundo Monetário Internacional (FMI),
da União Europeia e do Banco Central Europeu (BCE), que impõe
medidas de austeridade que visam a degradação do SNS […] como está bem
visível na parceria público-privada (PPP) do Hospital de Braga. (Reunião
plenária de 12 de outubro de 2011)

(7b) PS – no âmbito da toxicodependência e do alcoolismo + a extinção do


IDT + pode significar a desagregação + das respostas PÚBLICAS + e a
liquidação da estratégia + que os resultados obtidos demonstraram ser correta +
de combate à toxicodependência + e aos problemas ligados ao álcool +++ o
ministro da saúde não se afirmou como o ministro do SNS + mas sim do
sistema de saúde + pondo ao mesmo NÍVEL + como se tratasse TUDO DO
MESMO + o público e o privado […] PS + PSD e CDS < SUBSCREVERAM
> e aceitaram o programa de agressão do FMI + da União Europeia + e do
BCE + que impõe medidas de austeridade que visam a degradação do SNS […]
como está bem visível + na PPP do Hospital de Braga (Nossa transcrição)

1.2.2.5.2 Eliminação de traços de oralidade


Quando analisa a eliminação dos traços de oralidade em debates parlamentares
que decorrem no órgão legislativo francês, Cabasino afima o seguinte :

―Tout ce qui constitue la matérialité de l‘oral, son économie d‘organisation,


mais aussi les ratés (redondances, reprises, hésitations, ruptures de constructions,
souplesse dans l‘ordre des mots), les variations du débit ou de l‘intensité vocale
et les modalités intonatives définissant les réactions individuelles des
sénateurs sont effacés au profit d‘une homogénéisation, d‘une graphie
aseptisée ou seuls les points d‘exclamation laissent entrevoir des interventions
émotionnellement chargées‖ (Cabasino 2001: 26, nosso negrito).

53
Na nossa opiniáo, torna-se evidente que as análises do discurso parlamentar
feitas exclusivamente a partir de transcrições oficiais terão algumas limitações
impostas pelo viés decorrente da natureza intrínseca deste corpus, nomeadamente da
sua retextualização (Oliveira 2013). Em (8a) observamos que as repetições são
suprimidas e que o discurso é reformulado. Além do mais, nem são usados sinais de
pontuação para indicar as pausas ou as hesitações. Esta grafia higienizada elimina a
repetição da expressão deve ser, importante para analisar as estratégias discursivas do
locutor. Usando seis vezes o verbo dever, o locutor instiste no caráter obrigatório das
políticas públicas que dizem respeito à proteção do Sistema Nacional de Saúde. Se esta
intenção transparece no discurso oral, na transcrição torna-se quase invisível.

(8a) O Sr. Nuno André Figueiredo (PS): — O Serviço Nacional de Saúde é uma
conquista deste País, que deve ser respeitado, modernizado e sempre
desenvolvido e apoiado. Deve continuar a ser um dos melhores bens dos
portugueses. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(8b) NAF – o serviço nacional de saúde + é uma CONQUISTA ↑ deste país


deve ser respeitado + deve ser modernizado ↑ deve ser + de alguma
forma + eh + totalmente + eh + sempre +++ deve ser + deve ser sempre
APOIADO ↑ deve ser desenvolvido e deve de alguma forma + um + se
continuar a ser um dos bens + um dos melhores bens dos portugueses (Nossa
transcrição)

Em (9a), as reformulações e as supressões dizem respeito a um episódio de


interação espontânea, a gestão do turno de fala, uma das responsabilidades do
Presidente do Parlamento ou da Comissão (ver infra 1.4. A negociação do turno de fala). O
exemplo (8a) é ilustrativo para a eliminação das sobreposições que aparecem
frequentemente nas interaçõoes espontâneas dos debates parlamentares. Os
fragmentos ―aguardar um pouco. É que a culpa é minha aqui‖ e ―não, senhora
presidente‖ são pronunciados ao mesmo tempo pelas duas oradoras. No entanto, na
transcrição oficial, feita pelos serviços parlamentares, as sobreposições são ausentes.

(9a) Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Sr.ª Presidente, Sr. Ministro da Saúde, nesta
interpelação ao Governo sobre política de saúde, o Partido Socialista quer trazer
para a primeira linha de debate a matéria…
A Sr.ª Presidente: — Sr.ª Deputada, peço desculpa, mas houve uma falha da
minha parte. É que quem está inscrito a seguir para formular o seu pedido de
esclarecimento é o Sr. Deputado João Semedo. A Sr.ª Deputada Luísa
Salgueiro importa-se de aguardar um pouco?
A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Não, Sr.ª Presidente, não me importo.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)

54
(9b) LS – muito obrigada senhora presidente + senhor ministro + senhoras e
senhores secretários de estado + > senhoras e senhores deputados < + o partid-
< nesta interpelação ao governo sobre política de saúde o Partido Socialista quer
trazer para a primeira linha de debate a matéria do cuidados >
PR : peço desculpa senhora deputada ↑ há de facto aqui uma falha meu + minha
+ quem está inscrito é o senhor deputado ++ eh ++ João Semedo ++ a
senhora deputada importa-se de +++ eh:: +++
[aguardar um pouco ++ é que a culpa é minha aqui
LS :[não senhora presidente ↑(Nossa transcrição)

Embora o espaço não nos permita fazer uma análise quantitativa muito
detalhada, os dados destes três reuniões mostram que as transcrições romenas tendem
a preservar mais traços de oralidade do que as transcrições portuguesas e brasileiras.
Os exemplos (10) e (11) ilustram esta afirmação, refletindo a preservação das
hesitações ou de alguns marcadores discursivos cujo uso está restrito só à linguagem
oral. Em (10a) o transcritor mantém duas vezes a interjeção păi [bom, pois bem28],
presente também no corpus oral, ao passo que no exemplo (11a) encontramos a
interjeção de [claro!].

(10a) Doamna Anca Daniela Boagiu (ministrul transporturilor şi infrastructurii):


— Păi, în anul 2001, s-a încheiat un contract cu firma, operatorul de marfă privat
SERV TRANS, în baza căruia, practic, acesta avea la dispoziţie gratuit
locomotivele şi vagoanele. Păi, aşa întreprinzător privat să tot fii. Statul îţi dă şi tu
câştigi. Minunat. (Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[A senhora Anca Daniela Boagiu (Ministra de Transportes e Infraestrutura): —
Bom, em 2001, celebrou-se um contrato com a empresa, a operadora privada de
transportes de mercadoria SERV TRANS, segundo o qual, a mesma tinha à sua
disposição, de graça, locomotivas e carruagens. Pois bem, assim é que vale a
pena ser empreendedor. O Estado dá e tu ganhas. Maravilha.]

(10b) AB : păi + în anul 2001 s-a încheiat un contract cu firma ++ operatorul


de marfă privat serv trans + în baza căruia practic acesta avea la dispoziţie
gratuit locomotivele şi vagoanele păi ++ aşa întreprinzător privat să tot fii +
STATUL îţi dă şi TU câştigi + minunat (Nossa transcrição)
[AB : bom + em 2001 celebrou-se um contrato com a empresa ++ operadora
privada de transportes de mercadorias serv trans + segundo o qual a mesma
tinha à sua disposição de graça locomotivas e carruagens bem ++ assim é que
vale e pena ser empreendidor + O ESTADO dá e TU ganhas + maravilha]

28 Tomando em consideração a dificuldade de traduzir os marcadores de oralidade, propomos


apenas algumas traduções aproximativas. Para um estudo aprofundado sobre os desafios da
tradução do oral, veja-se Pop (2011).

55
(11a) Domnul Relu Fenechiu: — Acolo nu s-a pus problema nici renegocierii
contractului, nici ruperii contractului şi căutării unei alte firme, că, de!, trebuia
să se termine lucrarea repede, era la domnul prim-ministru acasă. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[O senhor Relu Fenechiu: — Aí nem se colocou a hipótese de renegociar o
contrato, nem de rescindir o contrato e procurar outra empresa, porque claro! A
obra tinha ser ser acabada rapidamente, estava na terra do senhor primeiro ministro.]

(11b) RF : acolo nu s-a pus problema nici renegocierii contractului + nici ruperii
contractului şi căutării unei alte firme ++ că ::: DE ↑ trebuia să se termine
lucrarea repede + era la domnul prim-ministru acasă (Nossa transcrição)
[RF : aí nem se colocou a hipótese de renegociar o contrato + nem de rescindir
o contrato e procurar outra empresa ++ porque ::: CLARO ↑ a obra tinha de
ser acabada rapidamente + estava na terra do senhor primeiro ministro]

1.2.2.6 O uso do registo formal


Para ilustrar esta categoria de transformações, apresentamos um exemplo do
corpus brasileiro, em que a intervenção do transcritor diz respeito à relação entre o
registo formal e o registo informal. Na variedade brasileira do português, a oposição
formal / informal é evidente no caso dos pronomes pessoais. Castilho (2010: 477) fala
até de dois paradigmas de pronomes pessoais que são usados na lingua culta e na
lingua coloquial. Por exemplo, no caso da primeira pessoa do plural, no registo culto
prefere-se nós, ao passo que no registo coloquial a gente é a expressão predominante. Se
no corpus oral, em (12b) encontramos um uso abundante da expressão a gente, no
corpus escrito, em (12a), na transcrição aplica-se as normas do registo formal e fazem-
se as transformações seguintes: ―vemos o nosso fillho‖ em vez de ―a gente vê o filho
da gente‖, ―nos sentimos‖ em vez de ―a gente se sente‖, ―amigos nossos‖ em vez de
―amigos da gente‖, ―sentimo-nos‖ em vez de ―a gente se sente‖. Esta transformação,
bastante frequente no sub-corpus brasileiro29, mostra uma preocupação em preservar
na escrita o registo formal da língua. Embora o conteúdo informacional não seja
alterado, notamos que o estilo comunicacional do locutor sofre uma transformação
quase completa. Por esta razão, seria arriscado fazer generalizações categóricas de
natureza estilística sobre os debates parlamentares sem um confronto das transcrições
oficiais com as gravações vídeo ou áudio, pois a dimensão diastrática da língua não
está refletida plenamente nos diários oficiais.

29No entanto, devemos mencionar que nem todas as ocorrências de a gente são substituídas por
nós, algumas sendo analisadas no capítulo 3.2. A imagem de si: o tratamento pronominal elocutivo.

56
(12a) O Sr. Ministro Carlos Lupi - Quando vemos o nosso filho olhando a
nossa face na televisão, dizendo que se montou um esquema de corrupção, de
cobrança de propina no Ministério do Trabalho, nos sentimos profundamente
agredidos, profundamente maculados. Amigos nossos, como é o caso do
meu chefe de gabinete, que eu coloco não somente as mãos, mas a perna, o
corpo no fogo, porque eu o conheço há 25 anos... Sentimo-nos
profundamente agredidos, porque é uma denúncia anônima. (Audiência
Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

(12b) CL : então quando a gente vê o FILho da gente < olhANDO a face da


gente na televisão > + e dizendo que se MONTOU ↑ um esquema de
corrupção ↑ + de cobrança de propina no Ministério do Trabalho + a gente se
sente profundamente agredido + profundamente maculado + aMIgos da
gente + como é o caso do meu chefe de gabinete + > que eu coloco não as
mãos coloco as mãos mas a perna < o CORPO no fogo porque eu o conheço
há vinte e cinco anos ++ conhenço e ASSUMO + há VINTE E CINCO anos
+ e a gente se sente proFUN::damente agredido porque é uma denúncia
anô::nima (Nossa transcrição)

1.2.2.7 Alterações da dinâmica do turno de fala


Outra categoria de transformações que identificámos é a simplificação dos
episódios de oralidade espontânea, sobretudo nos turnos de fala. Como observaremos
mais adiante (ver infra 1.4. A negociação do turno de fala), o presidente assume um papel
central nos debates parlamentares. Segundo os regimentos, ele representa a autoridade
que concende a palavra aos intervenientes, garante que a ordem das inscrições na lista
dos oradores seja respeitada, fiscaliza o uso do tempo de cada interveniente, faz apelos à
ordem se for necessário, etc. O presidente tem, de alguma maneira, o papel de mediator
/ moderador entre os diferentes intervenientes no debate parlamentar. Embora haja
regras fixas de organização do debate, o turno de fala pode ser por vezes o resultado de
uma negociação entre oradores e o presidente. As negociações mais frequentes dizem
respeito ao uso do tempo – o presidente avisa quando um orador deve concluir a sua
intervenção, alguns oradores solicitam mais tempo –, mas há também situações em que
se negocia o conteúdo da intervenções, o uso da cortesia, etc.
No exemplo (13a), que integra a sequência de abertura, observamos que o
transcritor eliminou grande parte da introdução feita pela Presidente da Assembleia da
República. Trata-se de um episódio sem muito conteúdo fundamental para o decorrer
do debate, mas pela sua natureza fática – estabelece os termos da interação, mostra o
ritual do uso das formas de tratamento, dos agradecimentos – torna-se importante
numa análise linguística. Façamos uma comparação entre a transcrição oficial do DAR
e a nossa:

57
(13a) A Sr.ª Presidente: — Não havendo expediente, vamos entrar directamente
na ordem do dia, que consiste na apreciação da interpelação n.º 1/XII (1.ª)
— Centrada na política de saúde (PCP). Para abrir o debate, tem a palavra,
pelo partido interpelante, a Sr.ª Deputada Paula Santos.
A Sr.ª Paula Santos (PCP): — Sr.ª Presidente, Sr. Ministro da Saúde, Srs.
Deputados: A Constituição da República Portuguesa consagra o direito à saúde
a todos os portugueses, independentemente das condições socioeconómicas.
Esta é a matriz que deveria orientar as políticas de saúde, mas não tem sido esta
a opção de sucessivos governos. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(13b) PR – boa tarde senhores depuTAdos + senhores membros do


governo + senhores jornalistas ++ cumprimento os senhores membros
do gove:rno + que já chegaram ao pleNÁrio + vou abrir a sessão que está
+ eh desde já + eh formalmente aberta + podem abrir as galerias + e eh
++ não havendo expediente para leitura + vamos entrar diretamente na ordem
do dia ++ eh ++ que consiste numa interpelação ao goVERno + eh + da
autoria do PCP + eh + em matéria de saúde ↑ para apresentar + eh +
para abrir o debate + tem a palavra + pelo partido interpelante + a senhora
deputada Paula Santos ↑ + faz favor senhora deputada ↑ +19+
PS – obrigada senhora presidente + senhora presidente ↑ + senhor
ministro ↑ + senhores deputados ↑ + a constituição da República Portuguesa
+ consagra o direito à saúde a todos os portugueses ↓ + independentemente das
condições socioeconómicas + ESTA é a matriz que deveria orientar as políticas
de saúde + mas não tem sido esta a opção de sucessivos governos (Nossa
transcrição)

Como se pode notar, na transcrição omitiram-se quase na sua totalidade os


traços que mostram o ritual de cortesia, como as formas de tratamento e os
agradecimentos; conhecendo a existência deste tipo de supressões é relevante para
uma análise que se concentra nos mecanismos de (des)cortesia do discurso
parlamentar, pois as conclusões demasiado categóricas baseadas exclusivamente em
corpora escritos seriam questionáveis.
Da mesma forma, em (14a) observamos que um agradecimento do locutor não
aparece nas transcrições, o que altera claramente a dinâmica da gestão do turno de fala.

(14a) O Sr. Ministro da Saúde (Paulo Macedo): — Sr.ª Presidente, Sr.as


Deputadas, Srs. Deputados: A interpelação do PCP, perante a qual hoje somos
colocados, consiste sobretudo numa iniciativa política decarácter ideológico,
como ficou claro. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(14b) PM : muito obrigado senhora presidente + senhoras deputadas senhores


deputados +2+ a interpelação do (hesitação) Partido Comunista Português +
perante a qual hoje somos colocados + consiste sobretudo numa iniciativa
política de caráter ideológico + como ficou claro ↓ (Nossa transcrição)

58
Em (15a) observamos que, ao contrário do exemplos anteriores, no corpus
escrito há conteúdo acrescentado (e não eliminado). Esta situação pode ser o resultado
de uma intervenção do transcritor, mas também das revisões que os próprios deputados
podem fazer antes da publicação definitiva do DAR. Notamos que são acrescentadas
expressões de agradecimento ou de mitigação de atos diretivos, o que pode sugerir a
preocupação de criar um ethos mais cortês, mais protocolar dos oradores. No caso do
ministro Paulo Macedo, há também conteúdo a mais nas transcrições. Se no corpus oral
ele diz apenas ―muito obrigado‖, no corpus escrito a frase final é mais desenvolvida:
―Muito obrigado pela tolerância, Senhora Présidente‖. Vejamos também a inclusão de
uma forma nominal de tratamento adicional, ―Senhora Presidente‖. Se neste caso
concreto ela foi acrescentada, em outros contextos pode ser eliminada.
Por esta razão, numa análise dos usos das formas de tratamento – sobretudo se
for de natureza quantitativa –, a fidelidade da transcrição é relevante, pois as
transcrições que não são feitas por linguistas têm limitações evidentes. Por outro lado,
consideramos que podem ser feitas análises com base em transcrições deste tipo –
aliás, como mostram muitos dos trabalhos apresentados no estado de arte –, desde
que se tome em consideração este viés e que não se tire conclusões definitivas,
sobretudo de natureza estatística. A problemática do uso das transcrições feitas por
não-linguístas foi destacada por Constantin de Chanay (2010: 249-294), que mostrou
no seu trabalho as omissões das formas de tratamento numa transcrição jornalística
dum debate presidencial, portanto, uma transcrição que não tinha sido feira para a
análise linguística.

(15a) A Sr.ª Presidente: — Sr. Ministro, peço desculpa por interrompê-lo,


mas tenho de alertá-lo para que já excedeu em quase 2 minutos o tempo
que tinha disponível. Agradeço-lhe, pois, que faça o favor de concluir.
O Sr. Ministro da Saúde: — Vou terminar, Sr.ª Presidente. Sr.ª Presidente,
Sr.as e Srs. Deputados: O Governo e o Ministério da Saúde têm clara consciência
da tarefa que é exigida. Não nos vamos desviar. Não pretendemos a
popularidade fácil nem a demagogia populista. Não nos intimidamos, porque
sabemos o que é necessário para Portugal. Todos nós queremos um Serviço
Nacional de Saúde, pilar de sustentação de todo o sistema de saúde, baseado na
solidariedade e que possa perdurar para além das crises. Muito obrigado pela
tolerância, Sr.ª Presidente. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(15b) PR : senhor ministro + eu peço desculpa + já excedeu em quase


dois minutos o tempo disponível ↑
PM : [vou vou terminar senhora presidente muito obrigado
PR : [obrigada
PM : [senhoras presidente senhoras e senhores deputados ++ o governo e o
Ministério da Saúde têm clara consciência da tarefa que é exigida ++ não nos
vamos desviar não pretendemos a popularidade fácil nem a demagogia populista

59
+ não nos intimidamos porque sabemos o que é necessário para ++ Portugal
++ todos nós queremos um serviço nacional de saúde pilar de sustentação de
todo o sistema de saúde + basa ++ baseado na soli + soli + solidariedade e que
possa perdurar para além das crises + muito obrigado (Nossa transcrição)

Esta breve análise da relação oral / escrita entre as gravações áudio e vídeo e as
transcrições oficiais de uma amostra de três debates, um de cada sub-corpus, revela a
existência de algumas transformações que advêm das estratégias de transcrição e de
retextualização do oral: correções de conteúdo, correções gramaticais, reformulações
para esclareces a mensagem, supressões de conteúdo, alterações para tornal o estilo
comunicativo mais formal, alterações na gestão do turno de fala. Conhecer estas
diferenças, como temos defendido ao longo desta secção, é relevante para a análise do
discurso parlamentar, sobretudo para a nossa investigação, em que nos debruçamos
sobre a organização sequencial, a negociação do turno de fala e os usos das formas de
tratamento. Há bastantes argumentos, então, para considerar problemática a escolha
deste tipo de corpus para uma análise linguística. Se estas transcrições podem parecer,
num primeiro momento um corpus pronto a usar, uma análise rigorosa mostra que
têm limitações, ou segundo alguns especialistas, que estamos perante um verdadeiro
presente de grego. Aliás, Sandra Mollin é muito intransigente deste ponto de vista:

[…] it is always risky to rely on non-linguist transcribers for corpus compilation,


but transcribers with a policy of making systematic changes to the spoken
language as it was originally produced are a linguist‘s nightmare. (Mollin
2007: 204, nosso negrito)

A nossa abordagem é menos categórica. É verdade, os ―beneditinos da escrita‖,


como são chamados por Abélès (2000), fazem um trabalho enorme de reformular,
corrigir, suprimir ou acrescentar conteúdo aos debates orais, para que fiquem mais
claras para a publicação. No entanto, longe de serem um pesadelo, como afirma
Mollin (2007: 204), este tipo de corpus, apesar das suas imperfeições para uma análise
linguística, é um acervo que vale a pena analisar, pois é um testemunho quase
completo de um sub-género do discurso político produzido num país. A palavra-
chave neste contexto e ―quase‖. Portanto, ao contrário do que se afirma la descrição
do DAR, não se trata de um ―relato fiel‖ das reuniões. É a tarefa do investigador saber
até que ponto estas transcrições se adequam às suas análises e em que medida as
conclusões tiradas podem ser generalizadas ou não. Neste trabalho utilizaremos as
transcrições oficiais como corpus para a nossa investigação, mas cientes das suas
lacunas, não nos debruçaremos em análises muito pormenorizadas de natureza
estatística e não faremos generalizações facilmente questionáveis, que advêm da
natureza híbrida deste corpus: por um lado, autêntico, na medida em que reflete o
conteúdo informacional dos debates, por outro lado, inautêntico, por se afastar,
algumas vezes, da interação verbal propriamente dita no que diz respeito à língua
usada nos debates.

60
1.3 A construção sequencial do debate parlamentar

A interpelação é feita nos termos do artigo 227.º do


Regimento e a tipologia do debate é a seguinte: a abertura é do
PCP, a que se segue o Governo e, depois, os diferentes
partidos. O encerramento cabe, primeiro, ao PCP e, depois,
ao Governo. (DAR, 19/10/2012, I Série — Número 13)

Este capítulo propõe uma análise do ritual interacional em debates


parlamentares; preferimos a noção de ―interação‖ – e não a de ―conversação‖ –
porque nos parece mais adequada para os contextos institucionais. Do ponto de vista
teórico, situamo-nos na linha de Goffman que afirma:

―Par interaction (c‘est-à-dire l‘interaction face à face), on entend à peu près


l‘influence réciproque que les partenaires exercent sur leurs actions
respectives lorsqu‘ils sont en présence physique immédiate les uns des
autres ; par une interaction, on entend l‘ensemble de l‘interaction qui se
produit en une occasion quelconque quand les membres d‘un ensemble
donné se trouvent en présence continue les uns des autres; le terme « une
rencontre » peut aussi convenir‖ (Goffman 1973: 23, nosso negrito).

Debruçar-nos-emos sobre a estrutura sequencial que consideramos essencial


para a descrição da ―ossatura‖ dos debates. Desta forma, faremos uma descrição
pormenorizada dos debates, identificando as três sequências propostas por Kerbrat-
Orecchioni (1990: 220) para a configuração de um esquema interacional global: a
sequência de abertura, o corpo de interação – que pode ter, como veremos neste
capítulo, um número variável de sub-sequências, em função da tipologia da interação
em cada sub-corpus – e a sequência de fecho.

***

Todas as interações, independentemente da sua natureza, têm uma organização


intrínseca30, que diz respeito à estrutura geral das sequências e dos turnos de fala, à
dinâmica da proxémica verbal, às manifestações da cortesia linguística. Estas normas
devem ser conhecidas e respeitadas31 pelos participantes para que a conversação possa

30 Segundo Kerbrat-Orecchioni (1990: 75, nosso negrito), ―à un niveau très général de


fonctionnement, on dira que les interactions sont construites et interprétées à l‘aide d‘un
ensemble de règles qui s‘appliquent, dans un cadre contextuel donné, sur un matériau
de nature sémiotiquement hétérogène (unités verbales, paraverbales, et non verbales)‖.
31 ―Le système de la régularisation n‘est qu‘un aspect de la collaboration‖ (Traverso 1999: 17).

61
avançar em boas condições. Se os postulatos da organização interacional não são
respeitados, o decorrer da interação pode ser afetado ou, em casos extremos, os
participantes podem recorrer à violência verbal ou até física32.
Ao nível macro, é importante que os participantes conheçam e respeitem as
regras do funcionamento do quadro comunicativo (Kerbrat-Orecchioni: 1990: 75-
130), ou seja o contexto – o lugar, o objetivo, os participantes –, o quadro
participativo – os participantes, as relações interlocutivas, o seu papel na interação –, o
acesso ao contexto e as particularidades da interação verbal em que participam33. Ao
nível micro, os participantes devem conhecer os mecanismos linguísticos da interação
verbal, nomeadamente as fórmulas de abertura, de fecho, as regras de gestão dos
turnos de fala, as estratégias de negociação do significado, etc.
Visto que o debate parlamentar é um tipo de interação que decorre num
enquadramento institucional bem definido, os participantes deveriam privilegiar uma
linguagem formal, adequado à importância da função pública de alto relevo
desempenhada pelos deputados e senadores. No entanto, veremos na segunda parte
deste volume que esta regra nem sempre é respeitada, pois o discurso parlamentar tem
uma dimensão conflitual intrínseca e os deslizes da linguagem formal ocorrem com
alguma frequência no ―calor‖ dos debates.
No que diz respeito à organização sequencial das reuniões que integram o
nosso corpus, delimitamos a estrutura triádica geral proposta por Kerbrat-Orecchioni
(1990: 220): a sequência de abertura, o corpo de interação – neste caso, o debate
propriamente dito, com diferentes sub-sequências intermédias, como a apresentação, a
resposta detalhada, a sessão de perguntas e respostas, etc. – e a sequência de fecho. A
duração de cada sequência e a ordem dos intervenientes são estabelecidas pelos
secretários da mesa, que fazem as inscrições. O papel de moderador é desempenhado
pelo presidente da Assembleia da República, que dá a palavra aos participantes e é
responsável pelo bom funcionamento do debate (ver infra 1.4.1. O papel do moderador).
Vejamos um exemplo do corpus brasileiro. No início da audiência pública, o
presidente estabelece quase todos os termos de funcionamento do debate, em
conformidade com o regimento da Câmara dos Deputados, mencionando
cuidadosamente:
i) a motivação dos trabalhos: ―aprovada pelos Requerimentos nºs 11, de 2011, do
Deputado Vanderlei Macris, e 29, de 2011, do Deputado Delegado Waldir‖;
ii) o objetivo dos trabalhos: ―destinada a obter esclarecimentos sobre as políticas
públicas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, a falta de medicamentos para
combater a AIDS e a matéria veiculada pelo jornal O Globo sobre

32 Estes episódios, apesar de insólitos e de ilustrarem sobretudo faits divers da vida política atual,
não são singulares na história parlamentar, como mostra o número temático Violence des échanges
en milieu parlementaire da revista Parlement(s), Revue d‘histoire politique. nº 14/2010.
33 A título de exemplo, veja-se em Kerbrat-Orecchioni (1990: 117-119) as particularidades de

algumas tipologias de interação verbal, como a conversação quotidiana, o debate, a entrevista.

62
pronunciamento do Sr. Jorge Hage Sobrinho, Ministro-Chefe da Controladoria-
Geral da União, a respeito de fraudes e falta de fiscalização na saúde‖;
iii) os participantes: ―Sr. Ministro de Estado da Saúde, Alexandre Padilha‖, ―Cada
Deputado inscrito para interpelações‖;
iv) a duração das intervenções: ―o tempo reservado ao convidado é de 20 minutos,
prorrogáveis‖; ―cada Deputado inscrito […] 3 minutos‖; ―O Sr. Ministro terá
igual tempo para responder‖; ―réplica e a tréplica pelo mesmo prazo‖;
v) a tipologia das trocas conversacionais: ―não podendo ser aparteado‖; ―facultadas a
réplica e a tréplica‖; ―vedado ao orador interpelar qualquer dos presentes‖.

(16) O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Declaro aberta a reunião


de audiência pública da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle,
aprovada pelos Requerimentos nºs 11, de 2011, do Deputado Vanderlei
Macris, e 29, de 2011, do Deputado Delegado Waldir, destinada a obter
esclarecimentos sobre as políticas públicas desenvolvidas pelo Ministério
da Saúde, a falta de medicamentos para combater a AIDS e a matéria veiculada
pelo jornal O Globo sobre pronunciamento do Sr. Jorge Hage Sobrinho,
Ministro-Chefe da Controladoria-Geral da União, a respeito de fraudes e falta de
fiscalização na saúde. Convido para tomar assento à mesa o Sr. Ministro de
Estado da Saúde, Alexandre Padilha. Esclareço aos presentes que, de acordo
com o art. 256 do Regimento Interno desta Casa, o tempo reservado ao
convidado é de 20 minutos, prorrogáveis, não podendo ser aparteado.
Cada Deputado inscrito para interpelações poderá fazê-lo estritamente
sobre o assunto da exposição, pelo prazo de 3 minutos. O Sr. Ministro
terá igual tempo para responder, facultadas a réplica e a tréplica, pelo
mesmo prazo, vedado ao orador interpelar qualquer dos presentes.
Concedo a palavra ao Sr. Alexandre Padilha, Ministro de Estado da Saúde.
(Audiência Pública N°: 0252/11 DATA: 12/04/2011)

Depois da sequência de abertura, segue o corpo de interação – a primeira sub-


sequência é, de acordo com o presidente, a exposição do ministro Alexandre Padilha,
seguida por uma sessão de perguntas e pela conclusão –, terminando a reunião com a
sequência de fecho (ver a Figura nº 6). Nas reuniões com ordens de dia mais
complexas, a estrutura sera ligeiramente diferente, nomeadamente no que diz respeito
ao corpo de interação, que terá uma estrutura multisequencial, sendo cada assunto do
debate uma sequência interacional.
A estrutura sequencial ternária dos debates parlamentares – com as respetivas
sub-sequências – poderá ser resumida como na Figura nº 6. Nos subcapítulos que
seguem fazemos descrições ilustrativas para cada sequência e sub-sequência destacada

63
I. A sequência de II. O corpo da interação III. A sequência de fecho
abertura 1. Exposição; 1. Fórmulas estereotipadas
1. Saudação; 2. Resposta detalhada; de encerramento;
2. Apresentação da 3. As perguntas dos 2. Agradecimentos;
condição de quórum; requerentes; 3. Votos;
3. Declaração da abertura 4. Sessão de questões e 4. Informações sobre o
da reunião; respostas; próximo reencontro.
4. Leitura do expediente; 5. Conclusão.
5. Apresentação da ordem
do dia;
6. Apresentação das regras
do debate;
7. Concessão da palavra ao
primeiro orador.

Figura nº 6. A estrutura sequencial e sub-sequencial das reuniões parlamentares.

64
1.3.1 A sequência de abertura
O Sr. Presidente: — Sr.as e Srs. Deputados, vamos
dar início, de imediato, à nossa ordem do dia, de que
consta a interpelação ao Governo n.º 12/XI (2.ª)
(DAR, 27/01/2011, I Série — Número 43)

Tal como no case de outros tipos de interações verbais, a sequência de abertura,


bem como a sequência de fecho nos debates parlamentares são essencialmente
ritualizadas, ao contrário do corpo de interação, que apresenta uma maior diversidade
estrutural. Segundo Kerbrat-Orecchioni (1990: 220), estas duas sequências
enquadradoras ―ont une fonction essentiellement relationnelle, et une structure
fortement stéréotype‖ nas interações verbais, ao passo que ―les sections constitutives
du [corps de l‘interaction] ont une organisation plus aléatoire et polymorphe‖34. As
funções da sequência de abertura, agrupadas no quadro mais geral da função fática,
são muito diferentes, visto que neste episódio inicial os participantes estabelecem o
contato e o canal, legitimam-se enquanto interlocutores, propõem os temas da
discussão, definem o desenrolar da interação. Em outras palavras:

―la phase d‘ouverture comporte de nombreuses négociations, explicites et


implicites, en ce qui concerne les identités, la relation, le but de la
rencontre, son type et son style, et parfois, son existence même‖ (Kerbrat-
Orecchioni 1990: 221, nosso negrito).

As saudações constituem os elementos distintivos desta fase da interação,


sendo acompanhadas por outras expressões que têm o objetivo de ―quebrar o gelo‖.
Nas conversas quotidianas, essas podem ser verbais, como dar as boas vindas,
manifestar o interesse para com o interlocutor, mostrar a cordialidade, expressar o
prazer em relação ao encontro, fazer perguntas sobre a família, a saúde, mas também
não-verbais, como fazer gestos de aproximação, manter o contacto visual e o contacto
físico, etc.
Nas reuniões parlamentares, o ritual de abertura apresenta algumas diferenças
em relação à conversação familiar, decorrendo do caráter institucional destes
interações verbais. A primeira diferença prende-se com o papel dos participantes. Se
numa conversação informal, os dois interlocutores participam de forma ativa no ritual
de abertura – empregando estratégias verbais e não-verbais descritas no parágrafo
anterior –, numa reunião parlamentar o protagonista da sequência de abertura é o
presidente, que desempenha o papel de moderador ou de árbitro da interação, com
responsabilidades definidas no regimento. Em geral, todos os atos que visam a

34 No entanto, veremos mais adiante que o grau de imprevisibilidade do corpo de interação nos
debates parlamentares é bastante reduzido, graças ao caráter institucional deste tipo de
interação.

65
participação na interação – as saudações, as boas-vindas, a apresentação do tema, etc.
– são proferidos pelo presidente, não sendo verbalizada a (possível) resposta dos
outros participantes. Uma resposta verbalizada, direta e individual seria impossível,
tomando em consideração o número muito grande de participantes na interação (nas
reuniões plenárias há centenas de deputados e senadores). No entanto, os
parlamentares têm a possibilidade de pedir formalmente a palavra para expressar a sua
opinião sobre a ordem do dia ou o desenrolar dos trabalhos através da votação, o que
constitui uma resposta direta, imediata, não verbalizada às perguntas do presidente.
Outra diferença entre a sequência de abertura de uma conversa familiar e a de
um debate parlamentar diz respeito à temática, que deve estar de acordo com o
enquadramento geral destas interações institucionais, sendo excluídas as manifestações
de familiaridade. No entanto, isto não significa que as aberturas das reuniões
parlamentares não contêm uma certa cordialidade ou que o presidente se limita em
todas as reuniões à apresentação do tema e dos intervenientes; como veremos mais
adiante, os votos e as boas-vindas são usados algumas vezes nesta fase da interação.
Para delimitar a sequência de abertura, selecionámos como início a primeira
intervenção feita por um dos locutores – no nosso corpus, é quase sempre o presidente
– e como fim a parte da interação em que o presidente concede a palavra ao primeiro
orador. Os exemplos (17)-(20) são ilustrativos para o decorrer do ritual de abertura em
reuniões de interpelação ao governo na Assembleia da República de Portugal. A
estrutura típica desta sequência interacional contém as sub-sequências seguintes: a
saudação (ou as saudações), a apresentação da condição do quórum, a declaração da
abertura da reunião, a leitura do expediente, a apresentação da ordem do dia, a
apresentação das regras do debate e a concessão da palavra (ver também a Figura nº 6).
A saudação35 da audiência, muitas vezes eliminada das transcrições oficiais36 ,
permite estabelecer o contacto e situa-se no registo formal da língua: ―Bom dia,
senhores deputados‖. Se nas conversas informais a saudação propriamente dita pode
ser seguida por uma saudação complementar, no nosso corpus não encontrámos esta
situação. Aliás, a estrutura binária saudação / saudação – o interlocutor responde à
saudação com outra saudação –, frequente em interações familiares, está também
ausente no corpus de debates parlamentares, por razões objetivas, que se prendem
com o número de participantes.
As trocas seguintes têm o papel de estabelecer e definir a tipologia da interação.
Com a apresentação da condição de quórum, ―temos quórum‖ em (17), (18) o
presidente garante o decorrer da reunião em conformidade com as normas
regimentais que dizem respeito ao funcionamento dos trabalhos parlamentares. Se

35 Kerbrat-Orecchioni (2001: 110-116) faz a distinção entre a saudação propriamente dita


(―Bonjour!‖) e a saudação complementar (―Comment ça va?‖), sendo a segunda preferida pelos
interlocutores que participam em interações informais e que partilham uma ―história
conversacional‖.
36 Ver supra os exemplos (13a) e (13b) do sub-capítulo 1.2.2. Do oral à escrita.

66
houver quórum, na fase seguinte o presidente declara aberta a reunião ―declaro aberta
a sessão‖ em (17) e (18), condição indispensável para o desenrolar deste tipo de
interação. A leitura do expediente pode ser omitida se não houver documentos a
serem apresentados no plenário, como podemos observar em (17): ―não havendo
expediente, passamos de imediato ao debate da interpelação‖.

(17) O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, temos quórum, pelo que declaro
aberta a sessão. [...] Srs. Deputados, não havendo hoje expediente para ser
anunciado, passamos de imediato ao debate da interpelação n.º 11/XI (2.ª) —
Sobre o sector empresarial do Estado (CDS-PP). Vamos aguardar um pouco a
chegada dos membros do Governo. [Pausa.] Para iniciar o debate, tem a palavra
o Sr. Deputado Paulo Portas. (Reunião plenária de 27 de janeiro de 2011)

A etapa dedicada ao expediente, cuja responsabilidade é do secretário da Mesa,


―Srs. Deputados, o Sr. Secretário vai fazer o favor de ler o expediente‖ em (18), ―O Sr.
Secretário vai proceder à leitura do expediente‖ em (19), pode ter uma duração variável e
consiste na leitura de atos normativos, propostas de leis e outros tipos de documentos
analisados, propostos e adotados pelo parlamento. No âmbito da sequência de abertura,
cujo papel é por excelência o de definir a situação de comunicação social, a leitura do
expediente funciona como uma ilha informativa, cujo conteúdo não é incorporado na
estrutura global da interação. A apresentação do expediente, que tem uma certa
independência informacional em relação às outras sub-sequências, está claramente
delimitada na sequência de abertura, sendo circunscrita pelo convite do presidente: ―Srs.
Deputados, o Sr. Secretário vai fazer o favor de ler o expediente‖ e, em algumas ocasições,
pela declaração de fecho do secretário: ―É tudo, Sr.ª Presidente‖.
A série de atos rituais continua com as saudações dos membros do governo que
participam na reunião: ―Em primeiro lugar, cumprimentando desde já os membros do
Governo aqui presentes‖ em (18), ―Antes de mais, cumprimento o Sr. Ministro da
Economia e do Emprego, os Srs. Secretários de Estado do Emprego e a Sr.ª Secretária de
Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, que se encontram presentes‖ em (18).
Em seguida, o presidente faz a apresentação da ordem do dia: ―Srs. Deputados,
vamos entrar na ordem do dia de hoje que consiste, nos termos do artigo 227.º do
Regimento, no debate da interpelação n.º 6/XII (1.ª). Sobre políticas de educação,
apresentada pelo PS‖ em (18), ―Vamos entrar na nossa ordem do dia, que hoje consta
do debate da interpelação n.º 2/XII (1.ª) — Sobre desemprego, precariedade e
alterações às leis do trabalho (BE)‖ em (19). Esta etapa tem a função de caraterizar o
debate a nível macro, estabelecendo a temática.
A nível micro, a dinâmica da interação é definida com a apresentação das regras
do debate, como se pode observar em (20): ―A interpelação é feita nos termos do
artigo 227.º do Regimento e a tipologia do debate é a seguinte: a abertura é do PCP, a
que se segue o Governo e, depois, os diferentes partidos. O encerramento cabe,

67
primeiro, ao PCP e, depois, ao Governo‖. Nesta etapa o presidente define a ordem
segundo a qual os participantes na interação – parlamentares, membros do Governo –
podem intervir, em conformidade com as normas regimentais e menciona duas fases
do debate, a abertura e o encerramento.
A última etapa da abertura é a concessão da palavra ao primeiro interveniente,
ou seja um deputado (da oposição) que apresenta a interpelação: ―Para iniciar o
debate, tem a palavra o Sr. Deputado Paulo Portas‖ em (17), ―dou a palavra, para uma
intervenção na fase de abertura do debate, ao Sr. Deputado Rui Santos‖ em (18),
―Tem a palavra a Sr.ª Deputada Mariana Aiveca para abrir o debate‖ em (19), ―Para
abrir o debate, tem a palavra o Sr. Deputado Agostinho Lopes, do PCP‖ em (20).
Com este último ato, a sequência de abertura da sessão é terminada e começa o corpo
de interação, com a leitura do texto da interpelação, sub-sequência que chamámos
―exposição‖.

(18) A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados, temos quórum, pelo que declaro
aberta a sessão. [Eram 15 horas e 13 minutos.] Srs. Deputados, o Sr. Secretário
vai fazer o favor de ler o expediente.
O Sr. Secretário (Duarte Pacheco): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs. Deputados,
deram entrada na Mesa, e foram admitidas pela Sr.ª Presidente, as propostas de
lei n.os 57/XII (1.ª) — Procede à adaptação à administração local da Lei n.º
2/2004, de 15 de janeiro, que aprova o estatuto do pessoal dirigente dos
serviços e organismos da administração central, regional e local do Estado, que
baixa à 5.ª Comissão, e 58/XII (1.ª) A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados,
vamos entrar na ordem do dia de hoje que consiste, nos termos do artigo
227.º do Regimento, no debate da interpelação n.º 6/XII (1.ª). Sobre
políticas de educação, apresentada pelo PS. Em primeiro lugar,
cumprimentando desde já os membros do Governo aqui presentes, dou a
palavra, para uma intervenção na fase de abertura do debate, ao Sr. Deputado
Rui Santos. (Reunião plenária de 10 de maio de 2012)

(19) A Sr.ª Presidente: — O Sr. Secretário vai proceder à leitura do


expediente. O Sr. Secretário (Duarte Pacheco): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs.
Deputados, entraram na Mesa, e foram admitidas pela Sr.ª Presidente, as
seguintes iniciativas legislativas: proposta de lei n. º 29/XII (1.ª) — Procede à
sexta alteração ao Regulamento das Custas Processuais, aprovado pelo Decreto-
Lei n.º 34/2008, de 26 de Fevereiro, que baixou à 1.ª Comissão; projectos de lei
n.os 94/XII (1.ª) [...] — Recomenda ao Governo a adopção de medidas de
apoio ao acesso à habitação por jovens (PS), que baixou à 11.ª Comissão. É
tudo, Sr.ª Presidente.
A Sr.ª Presidente: — Muito obrigada, Sr. Secretário. Vamos entrar na nossa
ordem do dia, que hoje consta do debate da interpelação n.º 2/XII (1.ª) —
Sobre desemprego, precariedade e alterações às leis do trabalho (BE). Antes de
mais, cumprimento o Sr. Ministro da Economia e do Emprego, os Srs.
Secretários de Estado do Emprego e a Sr.ª Secretária de Estado dos

68
Assuntos Parlamentares e da Igualdade, que se encontram presentes. Tem a
palavra a Sr.ª Deputada Mariana Aiveca para abrir o debate. (Reunião
plenária de 26 de outubro de 2011)

(20) A Sr.ª Presidente: — Srs. Deputados, vamos dar início à ordem do dia,
que, como todos sabem, consiste na interpelação ao Governo n.º 7/XII
(2.ª) — Sobre uma política alternativa para o País: aumento da produção
nacional, renegociação da dívida, melhor distribuição da riqueza (PCP). A
interpelação é feita nos termos do artigo 227.º do Regimento e a tipologia
do debate é a seguinte: a abertura é do PCP, a que se segue o Governo e,
depois, os diferentes partidos. O encerramento cabe, primeiro, ao PCP e,
depois, ao Governo. Para abrir o debate, tem a palavra o Sr. Deputado
Agostinho Lopes, do PCP. (Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

No caso do corpus brasileiro, observamos uma organização quase similar da


sequência de abertura. O presidente abre a reunião com uma declaração padrão:
―declaro aberta a reunião‖ em (21a), ―declaro abertos os trabalhos da reunião‖ em
(22a), apresenta o assunto da audiência pública ―destinada a discutir as denúncias
veiculadas na imprensa referentes à venda ilegal de terras destinadas à reforma
agrária‖ em (21a), ―destinada ao debate com a Ministra Ideli Salvatti, da Secretaria de
Relações Institucionais, sobre denúncias de irregularidades na compra de 28 lanchas,
por parte do Ministério da Pesca‖ em (22a).
Por outro lado, observamos também algumas diferenças em relação às
sequências de abertura do corpus sub-português. O presidente da Comissão de
Fiscalização Financeira e Controle faz uma apresentação de alguns dos participantes: ―À
minha esquerda já se encontra o Ministro do Desenvolvimento Agrário, Afonso
Bandeira Florence. À minha direita já se encontra o Dr. Celso Lisboa de Lacerda,
Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA‖ em
(21a), e convida outros participantes a sentarem-se na mesa: ―Convido a Ministra
Izabella Teixeira, do Meio Ambiente, a sentar-se aqui à minha direita. Convido o Líder
do Partido dos Trabalhadores, Deputado Paulo Teixeira, a sentar-se ao meu lado‖ em
(21a). Outra diferença diz respeito ao uso de atos rituais, como os agradecimentos ou na
justificação mais detalhada dos objetivos da audiência, em (21b).
Se nas sequências de abertura do sub-corpus português o presidente se limita a
fazer um enquadramento regimental do objetivo dos debates: ―vamos dar início à
ordem do dia, que, como todos sabem, consiste na interpelação ao Governo [...] feita
nos termos do artigo 227‖ em (20), em (21b), o presidente faz um enquadramento
mais abrangente, referindo reportagens da comunicação social, argumentos dos
deputados requerentes.

(21a) O Sr. Presidente (Deputado Sérgio Brito) - Declaro aberta a reunião de


audiência pública aprovada pelos Requerimentos nºs 135 e 136, de 2011, do
Deputado Vanderlei Macris, e 141, de 2011, do Deputado Mendonça Filho,

69
destinada a discutir as denúncias veiculadas na imprensa referentes à
venda ilegal de terras destinadas à reforma agrária. Composição da Mesa.
À minha esquerda já se encontra o Ministro do Desenvolvimento Agrário,
Afonso Bandeira Florence. À minha direita já se encontra o Dr. Celso Lisboa de
Lacerda, Presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária -
INCRA. Convido a Ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente, a
sentar-se aqui à minha direita. Convido o Líder do Partido dos
Trabalhadores, Deputado Paulo Teixeira, a sentar-se ao meu lado.
(Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

(21b) O Sr. Presidente (Deputado Sérgio Brito) - Eu gostaria de agradecer a


presença de todos os convidados, que prontamente atenderam ao convite da
Comissão de Fiscalização Financeira e Controle, e de tecer algumas
considerações sobre os objetivos desta audiência, levando em consideração
as argumentações dos autores dos requerimentos desta reunião.
Reportagem do programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, em 31
de julho passado, mostrou um flagrante de desrespeito à lei e à natureza:
a ocupação ilegal de terras no Brasil. Áreas de proteção ambiental, que deveriam
ser preservadas, são invadidas e dão lugar a casas de alto luxo. (Audiência
Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

Em todas as audiências públicas incluídas no sub-corpus brasileiro há


apresentações detalhadas sobre das regras de gestão do tempo: ―O tempo reservado
para os convidados é de 20 minutos‖, ―Cada Deputado [...] 3 minutos‖, ―o tempo
reservado para a Ministra é de 30 minutos‖, ―Cada Deputado inscrito para
interpelação poderá fazê-la por 5 minutos‖, a temática das intervenções: ―Cada
Deputado inscrito para interpelações poderá fazê-lo estritamente sobre o assunto‖, a
ordem dos intervenientes: ―Terão preferência no uso da palavra autores de
requerimento e membros da Comissão‖, ―Terão preferência no uso da palavra o autor
do requerimento e os Srs. Líderes partidários‖ – ver na íntegra os exemplos (21c) e
(22c) –, ao passo que no sub-corpus português esta etapa, menos pormenorizada,
como em (20), tem um caráter episódico.

(21c) Antes de iniciar as exposições, quero fazer os seguintes esclarecimentos, de


acordo com o Regimento Interno desta Casa. O tempo reservado para os
convidados é de 20 minutos, prorrogáveis, não podendo haver apartes.
Cada Deputado inscrito para interpelações poderá fazê-lo estritamente
sobre o assunto, por 3 minutos. Os convidados terão igual tempo para
responder, facultadas a réplica e a tréplica pelo mesmo prazo, vedado aos
convidados interpelar qualquer dos presentes. Terão preferência no uso
da palavra autores de requerimento e membros da Comissão. A lista de
oradores já está disponível para inscrições. Passo a palavra à Sra. Ministra do
Meio Ambiente, Izabella Teixeira. (Audiência Pública N°: 1245/11 DATA:
24/08/2011)

70
O exemplo (22a) ilustra outra particularidade das sequências de abertura das
audiências públicas do sub-corpus brasileiro, que consiste na utilização de fórumulas
juratórias, quer de natureza sagrada: ―Sob a proteção Deus‖, quer laicas: ―em nome do
povo brasileiro‖. Embora possa parecer um pouco estranha para quem estiver mais
habituado aos debates portugueses e romenos, como é o noso caso, esta formulação
estereotipada, que é usada pelos presidentes da Câmara dos Deputados do Brasil e que
serve para a legitimação dos trabalhos parlamentares – quer divina, quer popular –, sendo
estipulada no Regimento37, na secção dedicada ao funcionamento das reuniões públicas.

(22a) O Sr. Presidente (Deputado Edson Santos) - Sob a proteção Deus e em


nome do povo brasileiro, declaro abertos os trabalhos da reunião da
Comissão de Fiscalização Financeira e Controle. Em primeiro lugar, eu
gostaria de convidar a Ministra Ideli Salvatti para compor a Mesa. [Palmas.]
Esta reunião é destinada ao debate com a Ministra Ideli Salvatti, da
Secretaria de Relações Institucionais, sobre denúncias de irregularidades
na compra de 28 lanchas, por parte do Ministério da Pesca, em decorrência
do requerimento de autoria de S.Exa. o Deputado Vanderlei Macris. (Audiência
Pública N°: 0594/12 DATA: 16/05/2012)

Os exemplos seguintes mostram uma sub-sequência de negociação das regras


do debate e do turno de fala (22b) incorporadas na sequência de abertura. Como já
observámos, as negociações do turno de fala e as intervenções dos deputados não são
típicas nesta etapa dos debates parlamentares, sendo a abertura uma das sequências
mais rígidas, graças ao seu alto grau de ritualização. A exceção justifica-se pelo facto
de esta audiência pública se seguir a uma reunião deliberativa da mesma comissão,
com uma primeira abertura canónica já feita pelo presidente. As negociações
aparecem, portanto, numa segunda abertura, que começa com a segunda sessão
pública da comissão: ―Sr. Presidente, uma questão de ordem apenas. São duas
reuniões ou uma reunião suspensa? [...] Deputado, são duas reuniões. Nós registramos
duas listas de presença‖ em (22b).

(22b) O Sr. Deputado Vanderlei Macris - Sr. Presidente, uma questão de ordem
apenas. São duas reuniões ou uma reunião suspensa? V.Exa. deu por
encerrada a última reunião. Eu gostaria de um esclarecimento.
O Sr. Presidente (Deputado Edson Santos) - Deputado, são duas reuniões.
Nós registramos duas listas de presença.
[...]
O Sr. Deputado Mendonça Filho - Sr. Presidente, Deputado Edson.

37Ver o artigo nº 79, § 2º do Regimento Interno da Câmara dos Deputados: ―o Presidente


declarará aberta a sessão, proferindo as seguintes palavras: Sob a proteção de Deus e em nome
do povo brasileiro iniciamos nossos trabalhos‖.

71
O Sr. Presidente (Deputado Edson Santos) - Para uma questão de ordem,
Deputado?
O Sr. Deputado Mendonça Filho - Sim, para uma questão de ordem. [...] Eu
tenho o entendimento claro de que a estratégia da bancada do Governo
foi de pegar de surpresa a bancada da Oposição. Só foi comunicado às
Lideranças...
[...]
O SR. PRESIDENTE (Deputado Edson Santos) - Quanto à questão de
ordem suscitada, a Presidência vai indeferir, com base...
(Não identificado) - Sr. Presidente, V.Exa. disse que concederia a palavra à
minha pessoa.
O Sr. Presidente (Deputado Edson Santos) - Não, eu concederia a palavra a
um, ao senhor ou ao Deputado Francischini. (Audiência Pública N°:
0594/12 DATA: 16/05/2012)

A sequência de abertura continua com etapas canónicas, como a leitura dos


procedimentos da audiência – que dizem respeito sobretudo aos limites de tempo e à
ordem dos intervenientes – e a concessão da palavra ao primeiro orador, neste caso a
ministra que comparece perante a Comissão. Notamos também a possibilidade de os
deputados poderem fazer a inscrição no debate durante a intervenção da ministra
(22d), procedimento diferente dos trabalhos da Assembleia da República de Portugal
ou, como veremos, do Parlamento da Roménia.

(22c) O Sr. Presidente (Deputado Edson Santos) - Eu vou proceder à leitura dos
procedimentos desta audiência pública. Antes de iniciar as exposições, quero
fazer os seguintes esclarecimentos. De acordo com o Regimento Interno desta
Casa, art. 221, como foi citado pelo Deputado Vanderlei Macris, o tempo
reservado para a Ministra é de 30 minutos, só podendo ser aparteada no
caso de prorrogação. Cada Deputado inscrito para interpelação poderá
fazê-la por 5 minutos. A Ministra terá igual tempo para responder,
facultadas a réplica e a tréplica pelo prazo de 3 minutos. Terão preferência
no uso da palavra o autor do requerimento e os Srs. Líderes partidários. A lista
de oradores já está disponível para inscrições. (Audiência Pública N°: 0594/12
DATA: 16/05/2012)

(22d) O Sr. Presidente (Deputado Edson Santos) - Passo a palavra para a


Ministra Ideli Salvatti por 30 minutos. No curso da intervenção da Sra. Ministra
os Deputados poderão fazer as suas inscrições. (Audiência Pública N°: 0594/12
DATA: 16/05/2012)

No que diz respeito ao corpus romeno, selecionámos três exemplos de


sequências de abertura, que mostram o decorrer desta etapa segundo o protocolo

72
parlamentar (23) e algumas situações excecionais, que se desviam das normas
regimentais (24b) e (25b). Em (23a)-(23d) a presidente da Câmara dos Deputados abre
os trabalhos seguindo as normas regimentais em vigor. Dividimos esta sequência
inicial em quatro sub-sequências diferentes, em função do conteúdo informacional e
do papel desempenhado no decorrer do debate.
Em (23a), a presidente declara aberta a reunião e faz um levantamento dos
deputados presentes e ausentes e informa que há quórum38.

(23a) Doamna Roberta Alma Anastase: Doamnelor şi domnilor deputaţi, declar


deschisă şedinţa de astăzi a Camerei Deputaţilor şi anunţ că din totalul celor 332
de deputaţi şi-au înregistrat prezenţa, până la această oră, 201; sunt absenţi 131;
participă la alte acţiuni parlamentare 40. Prin urmare, cvorumul legal de lucru
este îndeplinit. (Reunião da Câmara dos Deputados de 9 de maio de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: Senhoras e senhores deputados, declaro
aberta a sessão de hoje da Câmara dos Deputados e informo que do total de 332
deputados, 201 registaram a sua presença até agora; 131 estão ausentes; 40
participam em outras atividades parlamentares. Por conseguinte, temos o
quórum legal dos trabalhos.]

Na etapa seguinte, a presidente informa os deputados sobre os documentos


distribuídos pela secretaria geral da Câmara, alguns a serem analisados durante a
reunião, em conformidade com a ordem do dia. Observamos que se trata de ordens
do dia, do programa de trabalho da semana, das iniciativas legislativas que serão
apreciadas pelas comissões de especialidade, de uma lista de relatórios e dos sumários
do Monitórul Oficial [o equivalente do Diário da República]. Esta etapa tem, portanto, o
papel de organizar diferentes etapas da atividade da Câmara dos Deputados. Sem ser
definida com um termo específico no Regimento, achamos que é muito parecida com
a leitura do expediente do parlamento português e do congresso brasileiro, pois tem o
papel de informar os deputados sobre os assuntos correntes da Câmara.
(23b) Doamna Roberta Alma Anastase: În conformitate cu prevederile
regulamentare, vă informez că au fost distribuite tuturor deputaţilor
următoarele documente: ordinea de zi pentru şedinţele în plen în zilele de luni -
9 mai, şi marţi - 10 mai; programul de lucru pentru perioada 9 - 14 mai; informarea
cu privire la iniţiativele legislative înregistrate la Camera Deputaţilor şi care

38Veja-se o artigo 143, alíneas (1) e (2) do Regimento da Câmara dos Deputados: ―Art. 143. -
(1) Şedinţa Camerei Deputaţilor este deschisă de preşedintele Camerei Deputaţilor. În lipsa
preşedintelui, acesta este înlocuit de unul dintre vicepreşedinţi, prin rotaţie. (2) Preşedintele de
şedinţă este obligat să precizeze dacă este întrunit cvorumul legal, să anunţe ordinea de zi şi
programul de lucru .‖ [Art. 143. – (1) A reunião da Câmara dos Deputados é aberta pelo
presidente da Câmara dos Deputados. Se o presidente faltar, será substituído por um dos vice-
presidentes, de maneira alternativa. (2) O presidente da reunião é obrigado a mencionar se o
quórum legal está atingido, anunciar a ordem do dia e o programa de trabalho.]

73
urmează să fie, evident, avizate de comisiile permanente; lista rapoartelor depuse în
perioada 3 - 9 mai; sumarul privind conţinutul fiecărui Monitor Oficial al
României, Partea I. (Reunião da Câmara dos Deputados de 9 de maio de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: Em conformidade com as normas
regimentais, queria informar-vos que foram distribuídos a todos os
deputados os seguintes documentos: a ordem do dia para as sessões
plenárias da segunda-feira, 9 de maio, terça-feira, 10 de maio; o programa dos
trabalhos para o período 9-14 de maio; o aviso sobre as iniciativas legislativas
registadas na Câmara dos Deputados que serão, evidentemente, visadas pela
comissões permanentes; a lista dos relatórios entregues no período 3-9 de maio;
o sumário do conteúdo de cada número do Monitorul Oficial [Diário da
República], 1ª parte.]

Na terceira etapa da abertura (23c), a presidente apresenta o assunto que consta


na ordem o dia, o debate da moção simples: ―O sistema de saúde da Roménia: alarme
de código vermelho‖, bem como as regras de uso do tempo: o número de minutos
concedidos ao governo, a cada grupo parlamentar e aos deputados independentes. Ao
contrário das reuniões do Congresso Brasileiro, não há informações sobre a ordem em
que cada um dos intervenientes pode falar, uma vez que as inscrições para tomar a
palavra são feitas anteriormente, nos gabinetes de cada líder de grupo parlamentar.
Interrompida por um dos colegas da sala, a presidente responde assegurando-o que
terá a palavra: ―Imediat după ce închei prezentarea, între cele două momente, vă dau
cuvântul, domnule deputat.‖ [Logo que acabe a apresentação, entre os dois
momentos, dou-lhe a palavra, senhor deputado.]

(23c) Doamna Roberta Alma Anastase: - Potrivit ordinii de zi şi programului de


lucru, urmează dezbaterea moţiunii simple intitulată ―Sistemul sanitar din
România: alarmă de cod roşu‖. În legătură cu timpul alocat pentru
dezbaterea acestei moţiuni simple, vă prezint următoarele: moţiunea simplă
va fi citită de către unul dintre semnatari; Guvernului i se rezervă 50 de minute, pe
care le utilizează la începutul şi la încheierea dezbaterilor, pentru dezbateri luându-
se în calcul câte 10 secunde pentru fiecare deputat; timpul maxim alocat astfel...
Imediat după ce închei prezentarea, între cele două momente, vă dau cuvântul,
domnule deputat. Partidului Democrat Liberal: 21 minute; îi sunt alocate Grupului
parlamentar al PSD: 15 minute; Grupului parlamentar al PNL: 10 minute;
Grupului parlamentar al UDMR: 4 minute; minorităţile naţionale: au 3 minute la
dispoziţie; Grupului parlamentar al deputaţilor independenţi: 3 minute; deputaţii
independenţi fără apartenenţă la un grup parlamentar: un minut. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 9 de maio de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: - Segundo a ordem do dia e o programa
dos trabalhos, informamos que segue o debate da moção simples: ―O
sistema de saúde da Roménia: alarme de código vermeho‖. No que diz
respeito ao tempo previsto para o debate da moção simples, apresento as
seguintes informações: a moção simples será lida por um dos assinantes; o

74
Governo tem 50 minutos disponíveis, que usa no início e no fim dos debates;
para os debates tomaremos em consideração 10 minutos para cada deputado; o
tempo máximo previsto de maneira... Logo que acabe a apresentação, entre os
dois momentos, dou-lhe a palavra, senhor deputado. O Partido Democrata
Liberal: 21 minutos; o grupo parlamentar do PSD tem 15 minutos disponíveis; o
grupo parlamentar do PNL: 10 minutos; o grupo parlamentar da UDMR: 4
minutos; as minorias nacionais têm 3 minutos disponíveis; o grupo parlamentar
do deputados independentes: 3 minutos; os deputados independentes sem
vínculo a grupos parlamentares: um minuto.]

Na última etapa da abertura, a presidente submete à votação as propostas


apresentadas, informa o plenário sobre o resultado, pergunta se algum dos deputados
deseja retirar a sua assinatura da moção. Há uma intervenção na sala sobre o
procedimento de votação, mas a presidente esclarece que se trata de voto eletrónico,
com cartões. No momento final de abertura, a presidente faz a passagem para a
sequência principal – o corpo de interação –, concedendo a palavra à deputada da
oposição que vai fazer a leitura da moção.

(23d) Doamna Roberta Alma Anastase: Dacă sunt observaţii? Dacă nu,
supun la vot aceste propuneri. Voturi pentru?
Domnul Mircea Duşa: Pe procedură, vă rog. Doamna preşedinte, aţi schimbat
sistemul de vot?
Doamna Roberta Alma Anastase: Nu, nu, nu! Vă rog să pregătiţi cartelele.
Scuze! O să vă rog să luaţi loc şi să pregătiţi cartelele de vot. Este în
regulă. Votul este deschis. Vă rog să votaţi. Votul s-a încheiat: 123 voturi
pentru, 2 împotrivă, 2 abţineri. Cu majoritate de voturi, propunerile au fost
aprobate. Conform prevederilor regulamentare, întreb dacă este cineva
dintre semnatari care îşi retrage semnătura de pe moţiune? Nu.
Reamintesc, de asemenea, faptul că nu pot fi propuse amendamente. Înainte de
a trece la prezentarea moţiunii, am să-i rog pe liderii grupurilor parlamentare să
depună la secretarii de şedinţă numele deputaţilor înscrişi la dezbatere. Acum o
invit la microfon pe doamna deputat Rodica Nassar, pentru a da citire
moţiunii. Vă rog, doamna deputat, aveţi cuvântul. (Reunião da Câmara dos
Deputados de 9 de maio de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: Há comentários? Se não houver,
submeto à votação estas propostas. Votos a favor?
O senhor Mircea Duşa: Sobre a condução dos trabalhos, por favor. Senhora
presidente, mudou o sistema de votação?
A senhora Roberta Alma Anastase: Não, não, não! Por favor preparem os
cartões. Peço desculpas! Por favor sentem-se e preparem os cartões de
votação. Está tudo bem. A votação está aberta. Por favor votem. A
votação está fechada: 123 votos a favor, 2 votos contra, 2 abstenções. As
propostas foram aprovadas com maioria de votos. Segundo as normas
regimentais, pergunto se algum dos assinantes quer retirar a assinatura

75
da moção? Não. Queria relembrar, também que não podem ser propostas
emendas. Antes de passar à apresentação da moção, pedia o favor aos lideres
dos grupos parlamentares de entregar aos secretários da mesa os nomes dos
deputados inscritos no debate. Agora queria convidar ao microfone a
senhora deputada Rodica Nassar, para fazer a leitura da moção. Faz
favor, senhora deputada, tem a palavra.]

Nos exemplos que se seguem, notamos a presença de momentos não-


canónicos, que não fazem parte do protocolo padrão das reuniões parlamentares. Em
(24a), a presidente da Câmara dos Deputados segue a rotina normal de abertura dos
trabalhos, cumprimentado os ministros e os parlamentares presentes na sala, declara
aberta a sessão e informa que há quórum. A próxima etapa seria a leitura da ordem do
dia, mas em (24b) a presidente decide falar sobre o terramoto do Japão e convida os
colegas a observar um minuto de silêncio em memória das vítimas. Embora não se
trate de um episódio singular no decorrer das reuniões parlamentares da Roménia,
esse tipo de inciativas não está incluído nos regimentos de funcionamento da Câmara
dos Deputados ou do Senado. Trata-se, portanto, de momentos em que a atualidade
do dia-a-dia determina reações institucionais e pessoais, mostrando que, apesar da
rigidez regimental, o debate parlamentar é uma interação mais complexa, que integra
assuntos muito diversos.

(24a) Doamna Roberta Alma Anastase: Doamnelor şi domnilor deputaţi şi


senatori, vă rog să luaţi loc în sală. Invit secretarii la prezidiu. Domnilor şi
doamnelor miniştri, Doamnelor şi domnilor deputaţi şi senatori, declar
deschisă şedinţa comună a Camerei Deputaţilor şi Senatului şi anunţ că,
din totalul de 470 de parlamentari, şi-au înregistrat prezenţa 256 şi sunt
absenţi 214. Prin urmare, cvorumul legal de lucru este îndeplinit.
[A senhora Roberta Alma Anastase: - Senhoras e senhores deputados e senadores,
por favor sentem-se. Convido os secretários à Mesa. Senhoras e senhores ministros,
senhoras e senhores deputados e senadores, declaro aberta a reunião conjunta da
Câmara dos Deputados e do Senado e informo que, do total de 470
parlamentares, registaram a sua presença 256, estando ausentes 214. Por
conseguinte, o quórum legal dos trabalhos está alcançado.]

(24b) Doamna Roberta Alma Anastase: - Înainte de a intra în ordinea de zi,


aş vrea să fac un apel la dumneavoastră în primul rând la puţină atenţie.
Ştirile din ultimele zile ne produc o profundă tristeţe şi multă îngrijorare. Natura
a izbucnit nemilos şi un popor, cel japonez, este profund afectat în aceste zile.
Impresionantele imagini televizate ne fac însă ca dincolo de nenorocire să
admirăm încă o dată demnitatea impresionantă a acestui popor, spiritul de
solidaritate, organizarea, de ce nu, fără fisură, calmul şi eficienţa cu care se
acţionează pentru normalizarea situaţiei. Doamelor şi domnilor parlamentari,
vă rog să păstrăm un minut de reculegere, pentru a ne arăta sincera
noastră compasiune pentru toate victimele acestei catastrofe. [Se
păstrează un moment de reculegere.] Vă mulţumesc. (Reunião conjunta da
Câmara dos Deputados e do Senado 16/03/2011)

76
[A senhora Roberta Alma Anastase: - Antes de começarmos a ordem do dia,
queria pedir a vossa atenção. As notícias dos últimos dias provocam-nos uma
profunda tristeza e muita preocupação. A natureza manifestou-se de maneira
cruel e o povo japones está profundamente afetado estes dias. As imagens
impressionantes que passaram na televisão fazem-nos, para além de qualquer
desgraça, admirar mais uma vez a dignidade deste povo, o espírito de
solidariedade, a organização, porque não, sem falha, a calma e a eficiência como
que se atua para normalizar a situação. Senhoras e senhores parlamentares,
queiram observar um minuto de silêncio para mostrarmos a nossa sincera
compaixão por todas as vítimas desta catástrofe. [Observa-se um minuto
de silêncio.] Obrigada.]

Em (25a) e (25b), exemplos selecionados de uma reunião do Senado da


Roménia, encontramos um momento de cariz pessoal, que constitui uma maneira de
expressão das relações interpessoais de entre os senadores. Após a chamada nominal
dos parlamentares, que serve para verificar se há quórum (25a), o presidente do
Senado dá os parabéns a uma colega que festeja o dia de anos e menciona o dia do
nome de outros quatro colegas. A sala reage de forma positiva, aplaudindo. De novo,
trata-se de um episódio que foge às regras protocolares, mas que mostra a
complexidade das relações estabelecidas entre os parlamentares. Aliás, na
configuração da identidade parlamentar, a componente pessoal pode assumir alguma
importância (veja-se supra 1.1.2.3.3 A identidade (dos) parlamentar(es) para uma apresentação
da(s) identidade(s) parlamentar(es) e infra 3.4.2. Tratamento relacional: amigo, colega e irmão).
Observamos também que este episódio é muito breve, pois o presidente volta
imediatamente à apresentação do programa de trabalho.

(25a) Domnul Vasile Blaga: - Îl rog pe domnul secretar David să facă apelul nominal.
Domnul Gheorghe David: - Bună dimineaţa tuturor! Stimaţi colegi, să facem un
apel nominal. [...] Putem începe, domnule preşedinte. (Reunião do Senado de 6
de dezembro de 2011)
[O senhor Vasile Blaga: - Queria pedir ao senhor secretário David o favor de
chamar a lista de presença.
O senhor Gheorghe David: - Bom dia a todos! Estimados colegas, vamos
chamar a lista de presença. [...] Podemos começar, senhor presidente.]

(25b) Domnul Vasile Blaga: - Înainte de a supune votului proiectul ordinii de zi,
vreau să o felicităm astăzi pe colega noastră, doamna senator Elena
Mitrea, cu ocazia zilei de naştere. [Aplauze] De asemenea, astăzi este
ziua onomastică 39 a domnilor colegi Nicolae Dobra, Nicolae Moga,

39Para além do dia de anos, na Roménia as pessoas festejam também o dia do nome, que é no
dia do santo padroeiro. Neste caso, a reunião é no dia 6 de dezembro, que segundo o

77
Nicolae Prunea si a domnului rector Nicolae Robu. (Aplauze) Să-i
felicităm şi „La mulţi ani!‖ pentru toţi. (Reunião do Senado de 6 de
dezembro de 2011).
[O senhor Vasile Blaga: - Antes de submeter à votação o projeto da ordem do
dia, queria que congratulássemos hoje a nossa colega, a senhora senadora
Elena Mitrea, por ocasião do seu dia de anos. [Aplausos] Hoje é também
o dia de nome dos colegas Nicolae Dobra, Nicolae Moga, Nicolae
Prunea e do senhor reitor Nicolae Robu. (Aplausos.) Vamos congratulá-
los e dar os nosso parabéns a todos.]

(25c) Programul de lucru pentru astăzi: vom dezbate iniţiative legislative până la
ora 12.00, voturi finale – între 12.00 si 12.30. Este propunerea pe care v-o face
Biroul permanent al Senatului. Vom supune la vot inclusiv iniţiativele legislative
din categoria legilor organice. (Reunião do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[O programa dos trabalhos de hoje: vamos debater iniciativas legislativas até às
12h, votações finais das 12h às 12h30. É a proposta feita pea Mesa permanente
do Senado. Vamos submeter à votação inclusive as iniciativas legislativas da
categoria dos leis orgánicos.]

Depois da análise de sequências de abertura dos três parlamentos, podemos


destacar algumas particularidades para cada legislativo: na Assembleia da República de
Portugal as aberturas são mais protocolares, o presidente seguindo com rigor as
normas regimentais; nos debates brasileiros o presidente faz uma descrição muito
detalhada das regras que dizem respeito ao uso do tempo e à ordem dos
intervenientes; no Parlamento da Roménia, para além da sub-sequências canónicas,
podem aparecer episódios que mostram a reação institucional perante assuntos da
agenda internacional – observar um minuto de silêncio pelas vítimas do terramoto do
Japão –, bem como momentos em que o presidente congratula colegas pelo dia de
nome ou o dia de anos. Notamos também que no parlamento romeno algumas
componentes institucionais de organização do debate – ordem do dia, o tempo
disponível para o governo e os parlamentares, etc. – devem ser votados pelos
deputados e senadores.
Destaca-se o papel central do presidente que segue as normas regimentais nas
suas intervenções, sendo escassos os episódios em que deputados ou senadores
intervêm para pedir esclarecimentos em relação aos procedimentos de organização do
debate. Os momentos de negociação da tomada de palavra são muito pouco
frequentes nesta sequência.
Como mencionámos no início da análise, as etapas padrão da abertura são: a(s)
saudação(ões), a apresentação do quórum, a declaração de abertura, a leitura do

calendário ortodoxo é o dia de São Nicolae (Nicolas), razão pela qual o presidente do Senado
dá os parabéns aos colegas que tem este nome.

78
expediente, a apresentação da ordem do dia, a apresentação das regras do debate e a
concessão da palavra ao primeiro interveniente (ver também a Figura nº 6), sendo
pontuais os episódios como: o pedido de esclarecimentos, a negociação da tomada de
palavra, o convite, os votos.

79
1.3.2 O corpo da interação
Mas voltemos ao centro do debate, que diz respeito à acção do
Governo relativamente ao sector empresarial do Estado e às
escolhas que é necessário fazer no País neste cenário de crise.
(DAR, 28/01/2011, I Série — Número 44)

O corpo da interação é a sequência mais extensa do debate parlamentar,


contendo cinco sub-sequências: i) a exposição (da interpelação, da posição do
ministro, da moção simples ou de censura); ii) a resposta detalhada (do representante
do governo); iii) as perguntas dos requerentes (só no sub-corpus brasileiro); iv) a
sessão de perguntas e respostas; v) a conclusão. Cada debate tem as suas
particularidades de organização, relacionadas com o(s) assunto(s) debatido(s) ou o
número e a ordem dos intervenientes, mas as cinco sub-sequências mencionadas são
as que se encontram ao longo das trinta e três interações do nosso corpus. Ao
contrário das conversações quotidianas, em que o corpo da interação pode ter
configurações ―aleatórias e polimorfas‖ (Kerbrat-Orecchioni 1990: 220), os debates
parlamentares, pela sua organização institucional – em conformidade com as normas
regimentais –, apresentam mais regularidades, tornando-se mais fácil delimitar as sub-
sequências desta parte da interação.
No que diz respeito à duração de cada uma das cinco sub-sequências, esta
depende do número de intervenientes e é calculada de acordo com as regras de
funcionamento dos debates parlamentares. Em função do número de membros, cada
bancada parlamentar tem um número de minutos bem definidos pelo presidente da
reunião na sequência de abertura. O governo tem também à disposição tempo para
apresentar o seu ponto de vista e responder às perguntas feitas pelos parlamentares.
Do ponto de vista do grau de interatividade, usando a classificação proposta
por Kerbrat-Orecchioni (2014) para os debates presidenciais40, podemos afirmar que a
exposição e a conclusão são claramente sequências a tempo lento, a resposta detalhada
e as perguntas dos requerentes representam uma situação intermédia, ao passo que a
sessão de questões e respostas poderia ser uma zona de turbulências. Em outras
palavras, cada uma destas sub-sequências constitui o que Marques (2000: 140) chama
―ciclos de interação marcados por diferentes graus de espontaneidade‖. No entanto,
devemos salientar que a interativitade e oralidade dos debates parlamentares têm uma
particularidade, pois este tipo de interação é por excelência um:

40 Numa conferência sobre os debates presidenciais da França, feita na Universidade de


Estocolmo no âmbito workshop Political discourse in the Romance speaking countries: new perspectives at
the crossroads of linguistics and social sciences (9-11 de outubro de 2014), a linguista francesa
Catherine Kerbrat-Orecchioni distingue entre três graus de interatividade: séquences à temps lent
(com interação fraca), situation intermédiaire e zones de turbulences (com um alto grau de
interatividade).

80
―género híbrido, no sentido em que não é um discurso planeado, mediado no
tempo da sua concepção face ao momento da emissão, e também não é – senão
em parte – um discurso não planeado, de elaboração e verbalização simultâneas‖
(Marques 2000: 140).

Nas próximas cinco secções tentaremos fazer uma análise das caraterísticas de
cada sub-sequência, destacando as particularidades presentes em debates portugueses,
brasileiros e romenos.

1.3.2.1 A exposição
Como pudemos observar na secção anterior, na sequência de abertura o
presidente tem o papel principal. Na primeira sub-sequência do corpo de interação, o
protagonista é o primeiro orador: no caso dos debates portugueses e romenos, um
parlamentar da oposição, que apresenta a interpelação, a moção simples ou de censura
e, nos debates brasileiros ou um membro do governo convidado pela comissão
parlamentar para esclarecer assuntos relacionados com a sua atividade. No entanto, no
corpus brasileiro há também exceções pontuais a esta regra. Em todos os debates que
integram o corpus, as intervenções são – sem exceção – leituras de documentos já
preparados anteriormente, havendo poucos episódios de discurso espontâneo.
Portanto, esta sub-sequência configura-se como um momento de verbalização de
escrita, em que a interação tem um lugar periférico.
Observamos que nos sub-corpora português (26) e romeno (27) os
intervenientes – como já referimos, parlamentares da oposição – entram quase ex
abrupto no assunto, sem se implicarem em trocas de natureza fática, uma vez que,
depois das formas de tratamento protocolares, ―Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs.
Deputados, Srs. Membros do Governo‖, ―Domnule preşedinte al Camerei
Deputaţilor, Domnule prim-vicepremier al Guvernului, Dragi colegi‖ [Senhor
presidente da Câmara dos Deputados, Senhor vice Primeiro-Ministro do governo,
Caros colegas], começam a leitura da interpelação ao governo e da moção simples.

(26) O Sr. José Manuel Pureza (BE): — Sr.ª Presidente, Sr.as e Srs.
Deputados, Srs. Membros do Governo: Um dia depois do debate da
moção de censura apresentada pelo Bloco de Esquerda, o Governo
anunciou ao País um novo pacote de medidas de austeridade. Começamos
por registar o insulto à democracia que foi a ocultação destas medidas ao País,
por parte do Governo. (Reunião plenária de 16 de março de 2011)

(27) Domnul Adrian Henorel Niţu: — Domnule preşedinte al Camerei


Deputaţilor, Domnule prim-vicepremier al Guvernului, Dragi colegi, Vă
prezint moţiunea: ―Guvernul USL – « Frâna de motor » a bugetului‖. (Reunião
da Câmara dos Deputados de 23 de outubro de 2012)

81
[O senhor Adrian Henorel Niţu: - Senhor presidente da Câmara dos
Deputados, senhor vice primeiro-ministro do Governo, caros colegas,
apresento-vos a moção: ―O Governo USL ―Guvernul USL – « Freio de motor
» do orçamento‖.]

Por outro lado, nos exemplos (28)-(29) do corpus brasileiro notamos que os
intervenientes – membros do governo – mostram uma preferência sistemática por
certos atos rituais, como os agradecimentos ―Agradeço a esta Comissão o convite‖ e
os votos ―quero desejar um bom dia a todos os Parlamentares presentes nesta sessão
da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados‖.

(28) O SR. MINISTRO ALEXANDRE PADILHA - Boa tarde a todos. Saúdo


Deputado Sérgio Brito, Presidente desta Comissão, os Srs. Parlamentares, os
técnicos do Ministério presentes e também os colegas da imprensa. Agradeço a
esta Comissão o convite para que eu possa, por um lado, como está no
próprio convite, dispor sobre um conjunto de ações prioritárias do Ministério da
Saúde, no período de janeiro a início de abril. (Audiência Pública n° 0252/11,
12/04/2011)
(29) A SRA. MINISTRA IDELI SALVATTI - Em primeiro lugar, quero
desejar um bom dia a todos os Parlamentares presentes nesta sessão da
Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos
Deputados. De forma muito especial e carinhosa ao Deputado Edson Santos,
que preside os trabalhos no dia de hoje. Para mim, é um prazer estar aqui.
(Audiência pública nº 0594/12, 16/05/2012)

No corpus brasileiro (30) observámos que a ordem canónica dos intervenientes


pode ser alterada, pois na audiência de 23 de novembro de 2011, os dois deputados
que fizeram os requerimentos têm a palavra nesta sub-sequência, e não o ministro que
prefere responder diretamente às questões, sem fazer uma apresentação do assunto.
Quando toma a palavra, o ministro usa atos de agradecimento antes de responder às
perguntas feitas pelos deputados requerentes.

(30) O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) – A lista de oradores já está


disponível para a inscrição. Invertendo a ordem, quero passar a palavra aos
requerentes para as indagações do requerimento aprovado. [...]
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Sr. Presidente, apenas uma
questão: o Ministro não se dispõe a fazer uma apresentação dos
problemas do Ministério, inclusive sobre a questão do ENEM?
O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Ele prefere responder ao
requerimento. Ou seja, às perguntas, aos questionamentos que forem feitos.[...]
O SR. MINISTRO FERNANDO HADDAD - Deputado Nilson Leitão,
gostaria muito de agradecer o convite para este debate, agradecer aos
requerentes e também as perguntas delicadamente feitas a mim. (Audiência
pública nº 1963/11, 23/11/2011)

82
Embora esta sub-sequência decorra em geral de forma linear, pois o papel do
orador é apresentar o conteúdo de um documento – interpelação, moção,
depoimento – que constitui o núcleo temático para o debate no seu conjunto, por
vezes não faltam interrupções, comentários e reações vindas da sala – os apartes –,
que constituem os (poucos) momentos de dinâmica interativa e (pseudo)interativa41.
Por exemplo, em (31) e em (32) o presidente do Senado romeno e a presidente da
Assembleia da República interrompem o orador para tratar da organização do debate,
em (33) o presidente da Câmara dos Deputados da Roménia pede ao orador para não
usar uma linguagem ofensiva.

(31) Domnul Mircea-Dan Geoană: Domnule senator, o secundă. Rog toţi colegii
să acorde atenţia şi respectul cuvenite unui astfel de moment în dezbaterile
Senatului. Vă rog să vă ocupaţi locurile în sală şi să amânaţi discuţiile sau
lobby-ul pe lângă diverşi miniştri prezenţi în plenul nostru. Vă mulţumesc.
(Reunião do Senado de 2 de maio de 2011)
[O senhor Mircea-Dan Geoană: Senhor senador, um segundo. Queria pedir aos
colegas que mostrassem a atenção e o respeito adequados num momento desta
natureza no âmbito dos debates do Senado. Por favor sentem-se nos seus
assentos na sala e deixem para mais tarde as discussões e o lobby com os
vários ministros presentes no plenário. Obrigado.]

(32) A Sr.ª Presidente: — Sr.ª Deputada, peço desculpa por interromper, mas há
um ruído na Sala que, não sendo um ruído gritante, perturba a audição
das palavras da Sr.ª Deputada. Por isso, solicitava aos Srs. Deputados
algum cuidado. Faça favor de continuar, Sr.ª Deputada. (Reunião de 12 de
outubro de 2011)

(33) Domnul Valeriu Ştefan Zgonea: O să am o rugăminte la dumneavoastră,


domnule deputat, să nu folosiţi fraze care pot aduce atingere persoanei.
Da? Am o mare rugăminte la dumneavoastră. Ştiţi că este o rugăminte
veche a mea şi a colegilor din Grupul parlamentar al PSD şi PNL, şi PD, şi
UDMR, şi Progresist. O să am această rugăminte la dumneavoastră. Vă ştiu un
om care respectaţi întotdeauna şi sunteţi un om de onoare. (Reunião da Câmara
dos Deputados de 9 de outubro de 2012)
[O senhor Valeriu Ştefan Zgonea: Queria pedir-lhe o favor, senhor deputado, de
não usar palavras que possam ofender as pessoas. Está bem? Peço-lhe

41 Fazemos assim a distinção entre as interrupções propriamente ditas, que pressupõem uma
resposta do orador (constituindo, por conseguinte, um momento de interação, por muito breve
que possa ser) e os apartes – comentários, perguntas retóricas, retomas do discurso apresentado
na tribuna –, que não interrompem o orador. Aliás, segundo o Regimento da Assembleia da
República, os apartes não são considerados interrupções: ―não sendo, porém, consideradas
interrupções as vozes de concordância, discordância, ou análogas‖ (Art. 89º, al. 2).

83
este grande favor. Sabe que é um pedido que lhe faço. Sabe que é um
pedido meu, antigo, mas também dos colegas do grupo parlamentar de PSD.
PNL, PD, UDMR e Progressistas. Far-lhe-ia este pedido. Conheço-o como uma
pessoa respeituosa e como homem de honra.]

Estas interrupções têm caráter pontual e aparecem apenas quando os


presidentes de mesa consideram que a situação as impõe, sendo o seu objetivo
assegurar o funcionamento adequado da reunião. Estes breves episódios, que
constituem desvios temáticos do assunto apresentado pelo orador, funcionam como
reguladores do quadro da interação (31) e (32) ou da linguagem (33), na medida em
que o presidente tem a autoridade institucional (e discursiva) para intervir em
situações consideradas não-adequadas.
Por outro lado, os participantes na reunião manifestam as suas reações sem
interromper o orador através de apartes, ou seja atos não-verbais (por exemplo,
aplausos, gestos, risos etc.) e verbais (perguntas retóricas, críticas, exclamações,
reformulações, ataques ou até insultos). Configuradas no eixo antagónico concordar /
discordar 42 , estas ―vozes off‖ (Marques 2005) constituem um verdadeiro barómetro
ideológico das posições que as diferentes bancadas têm em relação ao assunto
apresentado na tribuna. Em geral, os parlamentares que pertencem ao mesmo partido
do orador apresentam nos apartes o seu apoio (34), privilegiando a expressão de
concordância, ao passo que os adversários políticos aproveitam a ocasião para criticar
ou ironizar o discurso apresentado na tribuna do parlamento (35). No que diz respeito
à frequência dos apartes nesta sub-sequência, notamos que, pelo menos nas interações
que integram o nosso corpus, há mais ocorrências de intervenções off de apoio e de
expressão do acordo do que apartes para discordar com o discurso do orador.
Vejamos alguns exemplos do corpus português:

(34a) O Sr. Pedro Lynce (PSD): — Muito bem! (Reunião de 13 de outubro de 2011)
(34b) Vozes do CDS-PP: — Muito bem! (Reunião de 13 de outubro de 2011)
(34c) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — É verdade! (Reunião de 13 de outubro
de 2011)
(34d) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Exactamente! (Reunião de 13 de
outubro de 2011)
(34e) O Sr. José Gusmão (BE): — Bem lembrado! (Reunião de 17 de março de
2011)
(35a) O Sr. João Pinho de Almeida (CDS-PP): — Autoridade moral?! (Reunião
de 11 de maio de 2012)
(35b) O Sr. Emídio Guerreiro (PSD): — O quê? O quê? (Reunião de 11 de
maio de 2012)

42Veja-se também a análise de Waldeck (1996: 299-308) de dois apartes e o papel dos mesmos
na configuração das relações discursivas no Congresso Nacional do Brasil.

84
A exposição acaba com a intervenção do presidente que pede ao orador para
concluir (se for necessário) e passa a palavra ao membro do governo para responder.
Nos debates brasileiros o ministro acaba a sua intervenção e o presidente concede a
palavra aos deputados que fizeram o requerimento para a audiência pública (36).

(36) O SR. PRESIDENTE (Deputado Efraim Filho) - Eu, Sr. Ministro,


acredito que é bom V.Exa. esgotar a fala neste momento, já que, se
derivarmos por apenas um vértice do nosso debate, que são as operações da
Polícia Federal, ficará prejudicado o outro, porque, pela quantidade de
Parlamentares e pela quantidade de inscritos, se nós retornarmos depois
exclusivamente sobre a crise da segurança pública, ficará um pouco prejudicado
o debate. [...] Após o término da fala de V.Exa., falarão os autores do
requerimento e os Deputados inscritos para o debate. (Audiência pública nº
1690/12, 04/12/2012)

Nos debates parlamentares portugueses e romenos, a segunda sub-sequência do


corpo da interação, analisada na secção seguinte, é a resposta detalhada dos membros
do governo: o primeiro ministro, ministros, secretários de estado. Nos debates
brasileiros, a segunda sub-sequência é constituída pelo bloco de perguntas dos
requerentes (ver infra 1.3.2.3).

1.3.2.2 A resposta detalhada


Esta sequência constitui um exemplo do que Miche (1995: 241) chama
intervenções reativas, ou seja réplicas a discursos iniciais 43 , que fazem sempre
referência a palavras anteriores. Ao contrário das respostas / reações imediatas dos
pares adjecentes44 de uma conversação informal, os locutores têm muito tempo à sua
disposição para formular a sua resposta, uma vez que as interpelações, as moções e os
requerimentos são enviados ao governo com alguns dias de antecedência, para que o
ministro em questão possa preparar a intervenção. Em (37) o locutor até menciona
que já leu o texto da moção – acabado de ser apresentado na reunião por um
deputado da oposição – , sugerindo que já o analisou, pois menciona que há um
progresso em relação à moção do Senado.

43 Marques (2011) analisa o papel da reprise na construção do discurso agonal.


44 ―[La paire adjacente] C‘est l‘unité interactive minimale. Elle comporte deux énoncés
contigus, produits par locuteus différents, et fonctionne de telle sorte que la production du
premier membre de la paire exerce une contraine sur le tour suivant: comme disent Sacks,
Scheglogg et Jefferson, « une fois le premier [membre d‘une paire] produit, le second est
attendu » [given the first, the second is expectable]‖ (Traverso 1999: 33).

85
(37) Domnul Cseke Attila (Ministrul Sănătăţii): - Domnule vicepreşedinte,
Doamnelor şi domnilor deputaţi, Dragi colegi, Am citit cu atenţie textul
moţiunii şi trebuie să vă mărturisesc că faţă de moţiunea anterioară de la
Senat, tot pe problematica domeniului sănătăţii, există un progres. (Reunião da
Câmara dos Deputados, 9 de maio de 2011)
[O senhor Cseke Attila (Ministro da Saúde): - Senhor vice-presidente, senhoras e
senhores deputados, caros colegas, li com atenção o texto da moção e devo
confessar que em relação à moção anterior do Senado, também sobre a
saúde, há progresso.]

Tal como na exposição, os locutores, na maioria dos casos, preferem fazer a


leitura de documentos redigidos anteriormente, sendo a resposta detalhada também
uma sequência de verbalização da escrita. No entanto, há intervenientes que não leem
a resposta na íntegra, fazendo uma síntese do documento preparado (38):

(38) Doamna Ecaterina Andronescu (Ministrul Educaţiei, Cercetării, Tineretului


şi Sportului): - Doamnelor şi domnilor deputaţi, am raspuns moţiunii citite de
la acest microfon pe aproximativ 16 pagini. N-am să citesc integral acest
răspuns. (Reunião do Senado, 6 de dezembro de 2011)
[A senhora Ecaterina Andronescu (Ministra da Educação, da Investigação, da
Juventude e do Desporto): - Senhoras e senhores deputados, respondi à
moção lida neste microfone num texto de quase 16 páginas. Não vou ler
esta resposta na íntegra.]

Tomando em consideração a relação entre a escrita e a oralidade, as primeiras duas


sequências dos debates que compõem o corpos seriam, ao nosso ver, mais parecidas com
uma troca epistolar – porém verbalizada – do que com uma interação verbal propriamente
dita, que tem como caraterística fundamental a imediatez das reações. O locutores
recebem documentos escritos e em seguida redigem as respostas detalhadas, que serão
lidas no plenário do parlamento. Do ponto de vista temático, notamos também uma
particularidade dos debates. Se no caso de uma conversa quotidiana o discurso se constrói
à medida que a interação avança, a espontaneidade e a improvisação sendo caraterísticas
principais (Kerbrat-Orecchioni 1990: 114), no caso do debate parlamentar existe uma
predeterminação temática que os intervenientes devem respeitar. Sendo sequências de
intervenções reativas, as respostas detalhadas retomam ou fazem referência explícita ao
discurso anterior (39) e (40), ou seja da exposição, mas propõem perspetivas contrárias das
apresentadas por locutores anteriores (41).

(39) Domnul Valeriu Tabără – Ministrul Agriculturii şi Dezvoltării Rurale:


Mulţumesc, domnule preşedinte. Doamnelor şi domnilor senatori, Permiteţi-
mi, vă rog, să dau răspuns la problematica pe care o ridică moţiunea
simplă împotriva ministrului şi a agriculturii, până la urmă, şi unde am să

86
prezint punctul de vedere şi al ministerului şi, implicit, al Guvernului pe
care îl reprezint. (Reunião do Senado, 1 de maio de 2011)
[O senhor Valeriu Tabără – Ministro da Agricultura e do Desenvolvimento
Rural: Obrigado, senhor presidente. Senhoras e senhores senadores, permitam-
me, por favor, de reponder à problemática levantada pela moção simples
contra o ministro e, em última instância, contra a agricultura; vou apresentar o
ponto de vista do ministério e, implicitamente, do Governo que
represento.]

(40) O Sr. Ministro da Saúde (Paulo Macedo): — Sr.ª Presidente, Sr.as


Deputadas, Srs. Deputados: A interpelação do PCP, perante a qual hoje somos
colocados, consiste sobretudo numa iniciativa política de carácter
ideológico, como ficou claro. [...] Pretende o PCP contestar a acção do
Governo, criticando a política de saúde, invocando estar em risco o
Serviço Nacional de Saúde. (Reunião da Assembleia da República, 12 de
outubro de 2011)

(41) O Sr. Ministro da Saúde (Paulo Macedo): — Ao contrário do que tem


sido referido, a evidência da prestação de cuidados concreta mostra que não
está comprometida a continuidade dos cuidados, não está em causa a capacidade
de resposta e está certamente assegurada a qualidade e a segurança da prestação
de cuidados. (Reunião da Assembleia da República, 11 de abril de 2012)

O início desta sub-sequência do corpo de interação não obedece a regras bem


definidas, podendo os locutores começar as suas intervenções quer de maneira ex
abrupto (42), quer usando diferentes tipos de manifestações de cortesia – mais ou
menos institucional –, como o agradecimento pelo convite (43), a saudação da moção
(44). No entanto, esta fase da intervenção pode ser também uma oportunidade para
criticar os adversários políticos e desmantelar a sua iniciativa (46).

(42) O Sr. Ministro de Estado e das Finanças (Vítor Gaspar): — Sr.ª Presidente,
Sr.as e Srs. Deputados, Sr.ª Deputada Ana Drago: O nosso programa de
ajustamento, como tem sido amplamente repetido, responde aos desequilíbrios
macroeconómicos e aos bloqueios estruturais que caraterizaram a nossa
economia nos anos de participação na área do euro e que se agravaram de forma
dramática até ao pedido de ajuda internacional. (Reunião da Assembleia da
República, 26 de abril de 2012)

No exemplo (42) notamos a preferência do locutor por um estilo de


comunicação puramente institucional, limitando-se na sua intervenção ao papel que
deve desempenhar, segundo as regras do debate, ou seja ler a resposta à interpelação,
ao passo que em (43) e em (44) os locutores usam atos rituais de agradecimento, seja
pelo convite feito, seja pela moção em si. O objetivo declarado é a oportunidade de

87
apresentar perante o parlamento ―alguns aspetos da política de educação e de ciência
deste Governo‖ ou de ―ce s-a întâmplat în ultima perioadă la Ministerul
Transporturilor‖ [o que tem acontecido nos últimos tempos no Ministério dos
Transportes]. Estes atos de agradecimento podem ser interpretados como uma
estratégia de configurar uma cooperação discursiva com os autores da moção –
adversários políticos – e de mitigar uma situação possivelmente ameaçadora – a nível
institucional e pessoal –, pois se a moção for votada, o ministro tem de se demitir.

(43) O Sr. Ministro da Educação e Ciência (Nuno Crato): — Sr.ª Presidente, Srs.
Deputados, Minhas Senhoras e Meus Senhores: Começo por agradecer a
oportunidade que me dão de vir de novo a esta Casa esclarecer alguns aspetos
da política de educação e de ciência deste Governo. (Reunião da Assembleia da
República, 10 de maio de 2012)

(44) Doamna Anca Daniela Boagiu (Ministrul Transporturilor şi Infrastructurii):


- Vă mulţumesc foarte mult, doamnă preşedinte. În primul rând, aş vrea să
salut ideea acestei moţiuni simple care vizează activitatea Ministerului
Transporturilor de-a lungul anilor pentru că este o oportunitate foarte bună
pentru ca fiecare senator, deputat şi cetăţean al României să ştie ce s-a întâmplat
în ultima perioadă la Ministerul Transporturilor. (Reunião da Câmara dos
Deputados, 21 de novembro de 2011)
[A senhora Anca Daniela Boagiu (Ministra dos Transportes e da Infraestrutura):
- Muito obrigada, senhora presidente. Em primeiro lugar, queria saudar a ideia
desta moção simples que visa a atividade do Ministério dos Transportos
ao longo dos anos, porque é uma ótima oportunidade para cada senador,
deputado e cidadão da Roménia saber o que se tem passado nos últimos tempos
no Ministério dos Transportes.]

Em (45) o locutor faz uma contextualização da sua intervenção, começando


com uma sequência narrativa e conta como soube da criação da moção simples no
Senado, acrescentando – como o locutor de (44) – que estas iniciativas da oposição
são uma oportunidade de ter debates sérios sobre a política externa do país. Faz uma
avaliação positiva destas iniciativas ―Apreciez aceste discuţii.‖ [Aprecio estas
discussões] e menciona que esteve sempre disponível para ter reuniões no parlamento.
Observamos de novo a preocupação em criar um abiente cooperativo – e
colaborativo – de debate.

(45) Domnul Teodor Baconschi – Ministrul Afacerilor Externe: Vă mulţumesc,


domnule preşedinte al Senatului. Doamnelor şi domnilor senatori, eram în
vizită de lucru la Londra, când am aflat că opoziţia va depune o moţiune
simplă la Senat împotriva mea, ceea ce speram eu va genera dezbateri
serioase pe teme de politică externă a României. Apreciez aceste discuţii.
Am fost prezent la Comisia pentru politică externă de câte ori am fost invitat şi

88
vă mărturisesc faptul că am avut întotdeauna întâlniri utile în Parlament.
(Reunião do Senado, 23 de maio de 2011)
[O senhor Teodor Baconschi – Ministro dos Negócios Estrangeiros: Obrigado,
senhor presidente do Senado. Senhoras e senhores senadores, estava numa
visista de trabalho em Londres, quando soube que a oposição faria uma
moção simples no Senado contra mim, eu esperava que criasse debates
sérios sobre a política externa da Roménia. Aprecio muito estas discussões.
Estive presente na Comissão de Política Estrangeira sempre que me convidaram
e confesso que sempre tive reuniões úteis no Parlamento.]

A estratégia usada pelo locutor em (46) é bem diferente do que vimos nos
exemplos anteriores, pois o primeiro ministro prefere desarmar os adversários logo no
incício da sua intervenção e afirma que a inicitiava deles – uma moção de censura que
poderia ―chumbar‖ o governo – não terá sucesso. Desta vez o locutor não pretende
criar un espaço de cooperação com a instância adversária, sendo o seu objetivo
desacreditar a oposição e a moção de censura.

(46) Domnul Emil Boc (primul-ministru al Guvernului României): - [...]


Doamnelor şi domnilor senatori şi deputaţi, Această moţiune de cenzură nu
are nicio şansă. (Aplauze.) Am cel puţin două motive pentru a vă argumenta
acest lucru. (Reunião plenária do Senado e da Câmara dos Deputados, 16 de
março de 2011)
[O senhor Emil Boc (Primeiro Ministro do Governo da Roménia): - [...]
Senhoras e senhores senadores e deputados, esta moção de censura não tem
nenhuma hipótese (de passar). (Aplausos.) Tenho pelo menos duas razões
para argumentar isto.]

Nesta sub-sequência do corpo da interação observa-se também uma intensificação


do número dos apartes e uma diversificação da sua tipologia (sobretudo dos de
discordância). O primeiro grupo de intervenções off, que selecionámos em (47) são
comentários irónicos sobre o discurso apresentado pelo orador; trata-se de falsas
avaliações positivas, em que deputados da oposição manifestam a sua discordância. Em
(47a) o deputado reage a uma afirmação do ministro sobre as medidas de diminuição dos
défices operacionais das empresas ferroviárias, em (47b) há uma reação à apresentação de
mudanças na legislação laboral feita pela Ministra de Trabalho e da Solidariedade Social e
(47c) é um comentário sobre o discurso do Ministro Adjunto e dos Assuntos
Parlamentares sobre as privatizações e o financiamento da economia portuguesa.

(47a) O Sr. Bruno Dias (PCP): — Extraordinário! Excelentes medidas!…


(Reunião de 27 de janeiro de 2011)
(47b) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Ah, pronto…! Os nossos parceiros
europeus! Podemos estar descansados!… (Reunião de 17 de fevereiro de 2011)

89
(47c) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Novos mercados? É, é! Só coisas boas!
(Reunião de 22 de março de 2012)
No segundo grupo de apartes o deputado faz perguntas (retóricas) sobre as
questões apresentadas pelos oradores: a renegociação das parcerias público-privadas
(48a), as novas leis que deveriam incetivar os investimentos (48b), a situação das
exportações (48c). Embora se trate de atos interrogativos, as funções das perguntas
selecionadas são diferentes: em (48a) o locutor tenta, de facto, procurar informações
(ou seja, uma possível solução para as parcerias público-privadas), ao passo que em
(48b) a pergunta (feita no fim de uma lista de iniciativas legislativas mencionadas pelo
ministro) tem o papel de levantar uma questão ainda por resolver (a legislação laboral)
e em (48c) o locutor pretende mostrar que o crescimento das exportações deve ser
relacionado com o crescimento da taxa de desemprego para ter o panorama geral da
situação económica.

(48a) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Não se pode fazer nada?! Temos que
ficar apenas a assistir?! (Reunião de 17 de março de 2011)
(48b) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — E a legislação laboral? (Reunião de 27
de outubro de 2011)
(48c) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — E o emprego? (Reunião de 27 de
outubro de 2011)

Os apartes seguintes constituem avaliações negativas das situações


apresentadas, da atitude do governo e do discurso do orador. No exemplo (49a) trata-
se de uma reação à apresentação dos avanços na reforma do mercado laboral e em
(49b) de uma avaliação negativa dos benefícios dos contratos de parcerias público-
privadas, ao passo que em (49c) o aparte tem o objetivo de criticar o modo como o
governo gere o Sistema Nacional de Saúde. O intuito das intervenções (49d) e (49e) é
de criticar o discurso do orador, que é avaliado como sendo sem originalidade, banal.

(49a) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Ora, aí está! Trabalhar e receber


menos! (Reunião de 22 de março de 2012)
(49b) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — É ao contrário! Isso é um contrato
com o endividamento! (Reunião de 17 de março de 2011)
(49c) O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): — Estranha forma de o defender!
(Reunião de 13 de outubro de 2011)
(49d) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Que falta de originalidade! (Reunião de
13 de outubro de 2011)
(49e) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Até agora só disse banalidades!
(Reunião de 27 de outubro de 2011)

90
Os apartes do terceiro grupo (50), constituem verdadeiras acusações ao
governo e às afirmações feitas pelo orador. Do ponto de vista do grau da ameaça da
imagem do locutor – os face threatening acts da teoria da cortesia linguística, abreviados
FTA –, assistimos a um crescimento progressivo do ataque, uma vez que nos
exemplos (50a), (50b) os apartes visam as afirmações feitas, mas em (50c), ao nosso
ver, a acusação de hipocrisia entra na esfera da caraterização pessoal. No entanto, é
preciso mencionar que estes FTAs não constituem ataques frontais ao locutor (em
vocativo, i.e. mentiroso, hipócrita), mantendo-se a relação interpessoal dentro dos limites
das regras institucionais de comportamento discursivo.

(50a) A Sr.ª Rita Rato (PCP): — Isso não é verdade! (Reunião de 27 de outubro
de 2011)
(50b) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — É mentira! Vai é aumentar os lucros!
(Reunião de 27 de outubro de 2011)
(50c) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Hipocrisia! (Reunião de 22 de março
de 2012)

Os exemplos que seguem (51) são ilustrativos para a construção discursiva


do(s) outro(s), neste caso dos adversários políticos. Notamos o uso de meios
linguísticos que têm o papel de criar a oposição em relação ao(s) alocutário(s), como o
pronome vocês em (51a), e aos terceiros, como o demonstrativo estes e o deítico
espacial aqui em (51b) e o deítico espacial ali em (51c).

(51a) O Sr. Pedro Jesus Marques (PS): — É que vocês nunca fizeram isso!
(Reunião de 22 de março de 2012)
(51b) O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): — São estes todos aqui, à minha direita, e
que já andam no governo há trinta e tal anos! (Reunião de 22 de março de 2012)
(51c) O Sr. Emídio Guerreiro (PSD): — Isso é ali com o PS! (Reunião de 11 de
maio de 2012)

Embora menos numerosos, existem no corpus apartes de concordância (52),


em que os parlamentares dos partidos do poder manifestam explicitamente o apoio às
afirmações dos membros do governo. Em geral trata-se de expressões curtas, de
avaliação positiva, que podem constituir um contrapeso aos apartes críticos que vêm
dos membros da oposição.

(52a) O Sr. Adão Silva (PSD): — Muito bem! (Reunião de 13 de outubro de 2011)
(52b) Vozes do PSD: — Muito bem! (Reunião de 13 de outubro de 2011)
(52c) A Sr.ª Teresa Leal Coelho (PSD): — Muito bem! (Reunião de 13 de
outubro de 2011)

91
(52d) Vozes do PSD: — É verdade! (Reunião de 19 de outubro de 2012)

Não faltam as manifestações não-verbais através das quais os deputados


manifestam o seu acordo (53a) e (53b) ou o descordo (53c) e (53d) em relação ao
discurso apresentado na tribuna.

(53a) Aplausos do PS. (Reunião de 27 de outubro de 2011)


(53b) Aplausos do PSD e do CDS-PP. (Reunião de 13 de outubro de 2011)
(53c) Protestos de Os Verdes. (Reunião de 27 de janeiro de 2011)
(53d) Protestos do PS, batendo com as mãos nos tampos das bancadas. (Reunião de 19 de
outubro de 2012)

A sub-sequência do corpo da interação que chamámos resposta detalhada


acaba com a intervenção do presidente (54) e (55), que avisa o orador de ter
ultrapassado o tempo regimental e que concede a palavra aos deputados para fazer
perguntas ao governo.

(54) A Sr.ª Presidente: — Sr. Ministro, peço desculpa por interrompê-lo, mas
tenho de alertá-lo para que já excedeu em quase 2 minutos o tempo que
tinha disponível. Agradeço-lhe, pois, que faça o favor de concluir.
O Sr. Ministro da Saúde: — Vou terminar, Sr.ª Presidente. [...]Muito obrigado
pela tolerância, Sr.ª Presidente. (Reunião de 12 de outubro de 2011)

(55) Domnul Mircea-Dan Geoană: Domnule ministru, îmi cer scuze! Aţi
depăşit deja cele 30 de minute alocate. Vă rog să sintetizaţi şi să încercaţi
să comprimaţi materialul prezentat. Veţi mai avea încă un sfert de oră la
finalul dezbaterii pentru alte precizări eventuale. Vă mulţumesc. (Reunião do
Senado de 2 de maio de 2011)
[O senhor Mircea-Dan Geoană: Senhor ministro, peço desculpas! Já
ultrapassou os 30 minutos disponíveis. Por favor faça uma síntese e tente
comprimir o material apresentado. Terá mais um quarto de hora no final do
debate para eventuais esclarecimentos. Obrigado.]

Esta sub-sequência carateriza-sa essencialmente por um grau reduzido de


interatividade, que advém da prevalência dos episódios de verbalização da escrita,
interrompidos por apartes. Notamos, deste ponto de vista, uma semelhança com a
primeira subsequência do corpo da interação, a exposição, que apresenta as mesmas
particularidades.

92
1.3.2.3 As perguntas dos requerentes
Nas interações que integram o corpus brasileiro, após a exposição do
representante do governo, seguem-se as perguntas feitas pelos deputados requerentes,
ou seja os deputados que pediram a presença do(s) ministro(s) na audiência pública.
Na maioria dos casos não se trata simplesmente de perguntas, mas sim de
verdadeiras sequências expositivas (ver infra 1.5.2. Uma tipologia das perguntas), em que os
locutores expõem o seu ponto de vista sobre o assunto, as razões pelas quais convocaram
a audiência pública, etc. Observamos que, ao contrário das sequências de respostas
detalhadas do corpus português e romeno, nas perguntas dos requerentes do corpus
brasileiro os locutores começam as suas intervenções, com atos rituais de saudação (58) ou
de agradecimentos aos ministros por comparecer perante a comissão em (57).
É também uma particularidade do corpus brasileiro os deputados justificarem
sistematicamente – em oito do total de onze debates – a organização da audiência
pública, como, por exemplo, em (56) ―um Deputado de Oposição que tem a
obrigação, em virtude da própria atuação parlamentar, de fiscalizar‖ e (58) ―Uma das
missões da Oposição no Parlamento é fiscalizar‖. Associaríamos o uso deste ato
justificativo a uma estratégia de proteger a imagem pública do locutor, que, ao ser
convocado perante a comissão parlamentar, enfrenta uma situação de ameaça, pois em
geral, as audiências da Comissão de Fiscalização Financeira e Contrôle assinalam
problemas nas políticas ou nas ações do governo. Por conseguinte, os debates têm,
por vezes, uma dimensão agonal. Por outro lado, os deputados justificam a
convocação das audiência com argumentos de natureza regimental para contrariar
possíveis críticas que referem a disputa partidária como objetivo principal destas
reuniões, assim protegendo a própria imagem pública pesssoal.
Notamos que estas justificações têm facetas diferentes, sendo relacionadas com
a dicotomia institucional vs. pessoal da identidade (dos) parlamentar(es): por um lado,
alguns locutores afirmam a sua identidade institucional e descrevem o papel que lhes
incumbe enquanto membros do que Charaudeau (2005) designa a instância adversária
―um Deputado de Oposição que tem a obrigação, em virtude da própria atuação
parlamentar, de fiscalizar‖ (56), por outro lado mencionam que as suas ações não se
situam na esfera das relações pessoais ―daqui não vai nenhuma consideração de ordem
pessoal‖ (57). Tanto em (56), como em (57) reforça-se a responsabilidade da
Comissão no que diz respeito à fiscalização da atividade governamental, salientando a
componente institucional desta iniciativa parlamentar.

(56) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Sr. Ministro, eu gostaria de


deixar muito claro para V.Exa. que aqui vai se manifestar rapidamente, até em
função dos esclarecimentos, muitos deles já satisfatórios, um Deputado de
Oposição que tem a obrigação, em virtude da própria atuação parlamentar,
de fiscalizar. E, sendo desta Comissão específica, que é de Fiscalização e
Controle, é nossa responsabilidade, em função da sua presença aqui, questioná-

93
lo sobre eventuais dúvidas que possamos ter em relação a essa obra
importante. (Audiência Pública N°: 0646/12 DATA: 22/05/2012)

(57) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - [...] Primeiro, Sr. Ministro,


muito obrigado pela sua presença, rapidamente aqui comparecendo, tão
logo esta Comissão decidiu solicitar o seu comparecimento, para esclarecer essas
questões que nos preocupam, como Parlamentares. [...] Portanto, quero por esse
ponto cumprimentá-lo, ou seja, pela rapidez com que veio a esta
Comissão. Segundo, Sr. Ministro, daqui não vai nenhuma consideração de
ordem pessoal, a não ser preocupações, pela responsabilidade que temos como
Parlamentares, especialmente desta Comissão de Fiscalização Financeira e
Controle, que tem responsabilidade constitucional nessa direção.
(Audiência Pública N°: 0252/11DATA: 12/04/2011)

O exemplo (58) é ilustrativo também para a justificação da dimensão institucional


da audiência pública, mas ao contrário dos exemplos (56) e (57), o locutor faz esta
afirmação para responder a uma declaração anterior do ministro (feita durante a
exposição), que se confessou sentir-se incomodado por viver numa ―sociedade que é
um verdadeiro tribunal de inquisição‖. O locutor começa com a sequência ritual de
saudação de todos os presentes na audiência, o presidente, o ministro e os membros da
Comissão e, depois, partindo da declaração feita pelo ministro, defende a missão da
oposição no parlamento, que deve fiscalizar a atividade governamental na sua totalidade:
―o que é feito, o que deixa de ser feito e o que é feito de forma errada no Executivo‖.
Salienta o papel democrático desta prerrogativa do legislativo e rejeita a afirmação do
ministro: ―Aqui, não está instalado um tribunal de inquisição‖. Se nos exemplos (56) e
(57) os locutores afirmam explicitamente o papel fiscalizador do parlamento para
afirmar desde o início da intervenção o contexto institucional do debate e para diminuir
a possível ameaça à imagem do ministro, em (58) as mesmas afirmações servem para
rejeitar a posição do representante do Executivo.

(58) O SR. DEPUTADO MENDONÇA FILHO - Inicialmente, queria


cumprimentar o Presidente da Comissão, Deputado Nilson Leitão.
Cumprimento também o Ministro de Estado Carlos Lupi e todos os
membros desta Comissão de Fiscalização Financeira e Controle. Eu gostaria
de fazer, inicialmente, uma observação quanto ao que foi dito pelo Ministro e à
interpretação dada, que, muitas vezes, eu acredito, leva a uma direção equivocada, a
respeito da missão desta Casa, do Parlamento, de fiscalizar e de exercer a cobrança, o
acompanhamento daquilo que ocorre no âmbito do Executivo. Uma das missões
da Oposição no Parlamento é fiscalizar, cobrar e acompanhar o que é feito, o
que deixa de ser feito e o que é feito de forma errada no Executivo.
Fundamento democrático. Aqui, não está instalado um tribunal de
inquisição. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

94
Esta negociação dos papéis institucionais e das relações de poder – que ocorre
sobretudo em (58) – pode relacionar-se com o funcionamento do sistema político
presidencialista e a configuração das relações entre o legislativo e o executivo (ver
supra Preâmbulo político-jurídico, 1.2. A relação com o executivo). Se a fiscalização do governo
por parte do parlamento é subentendida nos sistemas políticos semi-presidenciais ou
parlamentares, no caso do presidencialismo, em que há estrita separação dos poderes,
a força política do executivo é maior e, talvez, por esta razão, nota-se ao nível do
discurso uma maior necessidade de justificar este controle. Por outro lado, como já
referimos, esta estratégia discursiva pode ser também explicada através do jogo de
proteção da imagem pública de si ou do outro.
Em geral, as perguntas dos requerentes começam com sequências expositivas
em que os locutores tentam contextualizar a convocação do ministro pela Comissão
de Fiscalização Financeira e de Contrôle. Os intervenientes têm cerca de dez minutos
à disposição para apresentar o seu ponto de vista em relação ao assunto debatido na
audiências pública. No entanto, alguns dos locutores podem tentar usar este tempo
para fazer perguntas aos ministros (59). Como se pode observar da reação rápida do
presidente em (59) ―Eu solicito, Deputado, que o senhor faça a sua intervenção no
seu conjunto [...] Quebra o ritmo da reunião‖, esta estratégia não é muito comum nos
trabalhos da Comissão.

(59) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - [...] Eu quero agradecer a


V.Exa. por aqui estar e dizer que, primeiro, o movimento, Sra. Ministra, que eu
gostaria de fazer é o seguinte: assim com uma resposta bem objetiva. V.Exa.
sabia desse contrato do Ministério da Pesca quando assumiu e desde
quando? Essa é uma questão que orientaria todo o meu processo de
discussão com V.Exa. sobre o assunto. A senhora sabia e desde quando?
[...]
O SR. PRESIDENTE (Deputado Edson Santos) - O senhor está...
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Estou questionando a Ministra.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Edson Santos) - ... dentro dos seus 10 minutos?
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Não. É uma pergunta
apenas para orientar minha manifestação.
[...]
O SR. PRESIDENTE (Deputado Edson Santos) - Eu solicito, Deputado,
que o senhor faça a sua intervenção no seu conjunto.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Se não houver interesse na
resposta, eu deixo para depois.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Edson Santos) - Quebra o ritmo da
reunião. (Audiência Pública N°: 0594/12 DATA: 16/05/2012)

95
Após estes momentos iniciais, a sub-sequência continua com a exposição feita
pelo(s) requerente(s) e com a(s) pergunta(s) dirigida(s) ao ministro; em seguida, o
ministro responde pontualmente às questões feitas pelos requerentes, podendo, nas
fases seguintes, surgir outras perguntas de outros membros da Comissão, que, em
geral, se sucederão de uma maneira mais rápida.

1.3.2.4 A sessão de questões e respostas


Esta é a sub-sequência mais interativa das reuniões do corpus, que poderia
constituir o que Kerbrat-Orecchioni (2014) designa como a ―zona de turbulências‖ de
uma interação verbal; esta parte dos debates parlamentares carateriza-se por um maior
número de locutores – que têm, porém, menos tempo disponível para falar, sendo as
suas intervenções mais curtas – e por um maior grau de interatividade: mais
interrupções, sobreposições de locutores, diálogos com deputados presentes na sala,
apartes, etc. No entanto, esta sub-sequência não é uma interação inteiramente
espontânea, pois o presidente mantém o seu papel de moderador, conforme as
normas regimentais.
No exemplo (60), que integra a parte final do debate de 16 de fevereiro de 2011
da Assembleia da República de Portugal, notamos que o discurso do locutor principal é
interrompido várias vezes por intervenções da sala e que estes apartes, ao contrário do
que vimos na secção anterior, recebem resposta por parte do locutor. Aliás, neste
fragmento do debate os apartes – tanto os de discordância, como os de concordância –
multiplicam-se e alguns dos locutores da sala entram em ―diálogo‖ uns com os outros,
manifestando a opinião sobre o discurso feito pelo locutor que se dirige à audiência.
No que diz respeito à construção da interação, trata-se de uma estrutura
complexa em que se sobrepõem: i) vozes que têm direito à palavra – neste caso é a
deputada que faz a sua intervenção regimental, que chamaremos L1 –; ii) vozes que
possam ganhar o direito à palavra – concedido não pelo moderador, mas por L1;
trata-se do deputado a quem L1 responde, que chamaremos L2 –; iii) vozes que não
têm direito à palavra, mas que se manifestam em apartes, lançando mensagens a L1,
como L31, L32, L33, ou a outras vozes da audiência, L41, L42, L43, etc. Por conseguinte,
a interação verbal terá uma configuração multi-estratificada (veja-se a Figura nº 7),
constituída por uma interação central (entre o L1 e o L2), que constitui o fio condutor
do debate e outras interações secundárias (entre L1 e L3, entre L4 e L2 ou entre L3 e
L4), que reforçam ou criticam a posição ideológica assumida pelo discurso de L1.
Estas vozes podem ser individuais ou coletivas (por exemplo L3C ou L4C, em que os
transcritores não identificaram as pessoas que intervieram no debate).

96
Figura nº 7. Dinâmica interacional na sequência de perguntas e respostas
(exemplo do corpus português).
L1 tem a palavra nesta sub-sequência para dar resposta a três perguntas feitas
anteriormente por L2. Por razões metodológicas, dividimos esta subsequência em
cinco partes: em (60a) e (60b) L1 apresenta o seu ponto de vista sobre o tema
debatido e defende a posição ideológica e a ação política do governo e em (60c)-(60e)
L1 responde pontualmente às perguntas colocadas anteriormente.
Portanto, L1 começa a sua intervenção com uma introdução rapidamente
penalizada por L31 (colega de partido com L2), que lembra as questões ainda por
responder. L1 continua a sua exposição, mas o L2 intervém para pedir resposta às
perguntas já dirigidas. Neste momento L1 interrompe o seu discurso para falar
diretamente com L2, afirmando que vai dar resposta às perguntas. Do ponto de vista
temático, notamos um desenrolar paralelo do debate: por um lado, L1 expõe o seu
ponto de vista sobre o assunto, ao passo que L2 e L3 – enquanto representantes do
que Charaudeau (2005) chama a instância adversária – referem as perguntas anteriores
às quais, no seu entender, falta responder. Os apartes vão no sentido de contradizer o
discurso do L1 (―Logo seguido de saída!‖, ―Estão a usá-los, é diferente!‖) ou de pedir
exemplificações concretas (―Então, diga lá!‖). L4 (representante do poder, como L1)
manifesta-se em apartes, não para apoiar diretamente L1, mas sim para se dirigir à
oposição (―Oiçam. Oiçam!‖, ―Tenham calma!‖).
No que diz respeito à interação entre L1 e L2, notamos o uso da forma de
tratamento ―Senhor Deputado‖ em vocativo, que funciona como marcador de
validação interlocutiva (Kerbrat-Orecchioni 1990: 17), uma das caraterísticas do
diálogo espontâneo. Desta forma, L1 reconhece L2 como parceiro de diálogo e
convida-o implicitamente a participar na interação. Como veremos mais adiante, L1
usará com mais frequência o vocativo para se dirigir diretamente a L2, o que
determinará uma mudança na dinâmica interacional entre os dois locutores.

97
(60a) L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Sr. Presidente, Sr. Deputado João
Oliveira, queria começar por lhe dizer que há tardes que não se perdem em
Portugal. E esta é uma tarde que não perdemos, pois é preciso falar sobre
Portugal e sobre a vida dos portugueses.
L31 – O Sr. Bernardino Soares (PCP): — E as perguntinhas? São três!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Portanto, quando hoje falamos das
situações de desemprego em Portugal, quando hoje o Governo, o Partido
Socialista e os democratas em geral falam da sua enorme preocupação com a
situação de desemprego em Portugal, fazem-no porque sabem as condições de
dificuldade em que os portugueses ficam quando estão numa situação de
desemprego. Mas nós não falamos por falar, porque, a seguir, contrapomos o
combate ao desemprego com medidas concretas.

L32 – O Sr. Bruno Dias (PCP): — Então, diga lá!


L1 – O Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Quando, ontem, na Comissão de
Trabalho, Segurança Social e Administração Pública, conseguimos receber do
Governo a informação de que 50000 estágios estão disponíveis para os jovens
portugueses…
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — Fiz-lhe três perguntas!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Respondo-lhe já, Sr. Deputado.
Quando 500000 estágios estão disponíveis para os jovens portugueses na
variante das suas qualificações,…
L4 – O Sr. Jorge Strecht (PS): — Oiçam. Oiçam!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — … não estamos a esquecer as pessoas,
estamos a dar-lhes um «pontapé» de entrada no mercado de trabalho,…
L31 – O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Logo seguido de saída!
L33 – O Sr. Miguel Tiago (PCP): — Estão a usá-los, é diferente!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — … através da certificação das suas
competências junto das entidades patronais.
L3C – Protestos do PCP.
L4 – O Sr. Jorge Strecht (PS): — Tenham calma!
(Reunião de 16 de fevereiro de 2011)

Na segunda parte desta sub-sequência, L1 continua a sua exposição sem referir


concretamente as peguntas já colocadas. Os apartes, coletivos ou individuais, apoiam
o discurso feito por L1 (―Muito bem!‖, ―Exactamente!‖) ou pedem respostas
concretas (―Responda lá!‖). Trata-se de um episódio sem interrupções, em que L1
consegue finalizar o seu discurso e em que os aparteantes não recebem respostas do
locutor principal.

98
(60b) L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Mais, Sr. Deputado: quando
apresentamos o leque das políticas activas de emprego com todas as promoções
relativas à taxa social única para os nossos empregadores, estamos a dizer aos
nossos empregadores «arrisquem nos trabalhadores portugueses, facultem-lhes
trabalho, dêem-lhes trabalho, porque o Governo está aqui para dar a sua
contrapartida para que os portugueses tenham trabalho em Portugal»!
L3C/L4C – Vozes do PS: — Muito bem!
L33 – O Sr. Miguel Tiago (PCP): — Responda lá!
L1 – A Sr. Maria José Gambôa (PS): — É isto que também dizemos aos
empregadores em Portugal!
L4 – O Sr. Jorge Strecht (PS): — Exactamente!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Portanto, não falamos barato, falamos
caro, porque esta oferta aos empregadores custa dinheiro, o qual é de todos os
portugueses! São todos os portugueses que hoje estão a financiar esta mensagem
aos empregadores portugueses para que abram as suas portas aos trabalhadores
portugueses no desemprego, sejam eles jovens…
(Reunião de 16 de fevereiro de 2011)

Em (60c), L1 começa a responder pontualmente às perguntas de L2 (―Em


relação à primeira pergunta que me colocou‖), entrando num ―diálogo‖ com o
mesmo, que faz perguntas adicionais (―E as três perguntas?!‖, ―Mas o que é que o PS
vai fazer?!‖), traz informações sobre o assunto (―Mas dou-lhe a informação!‖, ―Já
denunciaram!‖) ou manifesta as suas considerações sobre as ações do poder (―O PS
vai fazer nada!‖). Há uma única intervenção de um representante do poder que se
dirige à bancada da oposição, contradizendo as afirmações feitas (―Não estão!‖).
Assistimos nesta sub-sequência a uma sobreposição de vozes entre L1 e L2 que tem
aparência de diálogo, mas é preciso salientar que apenas L1 tem direito a falar, L2
participando no discurso de maneira intrusiva, através de apartes. Aliás, L1 continua a
sua resposta sem responder pontualmente às perguntas adicionais.

(60c) L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — E as três perguntas?!


L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — … ou pertençam eles ao grupo com
maior dificuldade, que é o dos desempregados de longa duração. Em relação à
primeira pergunta que me colocou, não tenho qualquer informação de que os
trabalhadores do IEFP estejam numa situação ilegal.
L4 – O Sr. Jorge Strecht (PS): — Não estão!
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — Mas dou-lhe a informação!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Mas, se estiverem, Sr. Deputado, os
trabalhadores do IEFP têm à sua disposição tudo o que os outros trabalhadores
têm em Portugal, que é um Estado de direito, legislação…
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — Mas o que é que o PS vai fazer?!

99
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Aliás, o PS já aprovou aqui um
conjunto de normativos que permite proteger todos os trabalhadores que
estejam em situação de ilegalidade, que possibilita que lutem pelos seus
interesses. Até lhe digo mais: se o Sr. Deputado tiver a garantia dessa
informação que trouxe à Câmara, penso que deveria fazer um grande trabalho
de estímulo junto dos trabalhadores do IEFP para que eles denunciem essas
situações…
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — Já denunciaram!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — … e para que estimulem a legislação
que está em vigor no sentido de clarificarem as suas situações e de terem direito
a um posto de trabalho.
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — O PS vai fazer nada!
(Reunião de 16 de fevereiro de 2011)

Não ocorre o mesmo em (60d), visto que L1 responde pontualmente à pergunta


adicional colocada por L2 (L1: ―Quantos recibos verdes já se converteram em contratos
de trabalho?‖; L2: ―Sr. Deputado, estamos a meio de Fevereiro...‖) ou à uma afirmação
de L2 (L1: ―Já há um mês e meio!‖; L2: ―Como o Sr. Deputado saberá provavelmente
até melhor do que eu‖). Desta vez, a dinâmica interacional entre L1 e L2 aproxima-se
mais do funcionamento do diálogo, uma vez que as respostas têm caráter imediato, o
que ocorre normalmente em diálogos propriamente ditos. Aliás, a frequência do uso das
forma de tratamento ―Senhor deputado‖ (quer em vocativo, quer com a 3ª pessoa do
verbo) indica o facto de L1 se situar na lógica do diálogo direto com L2.

(60d) L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Sr. Deputado, relativamente à


conversão dos recibos verdes em contratos, respondo-lhe quase nos mesmos
termos, uma vez que o senhor é Deputado como eu e já trabalhámos muitas
tardes sobre esta matéria: criámos um conjunto de mecanismos de ataque aos
recibos verdes, o último, recordo-lhe, em sede de Orçamento, através da
Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), com a fiscalização às empresas
que recebem mais de 80% de trabalho de uma determinada mão de obra.
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — Quantos recibos verdes já se
converteram em contratos de trabalho?
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Sr. Deputado, estamos a meio de
Fevereiro e o Orçamento do Estado entrou em vigor no dia 1 de Janeiro.
L2 – O Sr. João Oliveira (PCP): — Já há um mês e meio!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Como o Sr. Deputado saberá
provavelmente até melhor do que eu porque está num partido que se preocupa
também com a causa dos trabalhadores,…
L31 – O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Não tenha dúvidas! O «também» é
que está a mais! (Reunião de 16 de fevereiro de 2011)

100
No último fragmento desta subsequência, em que L1 responde à terceira
pergunta do L2 ―Em relação ao que diz ser um ataque à concertação social‖, notamos
apenas a intervenção em aparte de L31, que faz um comentário sobre o discurso do
locutor principal. Neste caso L1 não reponde ao aparte, não validando L2 enquanto
participante num possível diálogo.

(60e) L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — … as coisas não «voam» em


Portugal; é preciso haver mecanismos de consolidação de determinadas
questões. Em relação ao que diz ser um ataque à concertação social,
estranho que o Sr. Deputado ponha essa questão esta tarde. Estamos a falar de
concertação social, estamos a falar de uma base representativa dos portugueses
que trabalham, dos portugueses que são empreendedores e do Governo. Penso
que a sede mais plural, mais democrática e que melhor se reflecte sobre Portugal
é a concertação social.
L31 – O Sr. Bernardino Soares (PCP): — E eu que pensava que era a
Assembleia da República!
L1 – A Sr.ª Maria José Gambôa (PS): — Não pode haver nenhum ataque aos
portugueses, aos trabalhadores portugueses em sede de concertação social. Isso
seria antinatura, Sr. Deputado! A concertação social é, por assim dizer, um
parlamento português muito importante para a defesa dos interesses dos
portugueses! (Reunião de 16 de fevereiro de 2011)

No exemplo selecionado do corpus português, observámos um dinamismo


interacional bastante inusual para um debate parlamentar padrão.
As vozes que intervêm (L1, L2, L31, L32, L4) criam um verdadeiro polílogo
Kerbrat-Orecchioni (2004b) multi-estratificado, em que diferentes tipos de locutores
têm acessos variados à interação, desempenhando papéis distintos: locutor principal
(L1), (inter)locutor principal (L2) e (inter)locutores secundários (L3 e L4), que com
diferentes papéis na interação: i) vozes que têm direito à palavra; ii) vozes que possam
ganhar o direito; iii) vozes que não têm direito à palavra, mas que se manifestam em
apartes. Apesar desta dinâmica interativa não estar em conformidade com as normas
regimentais dos debates (veja-se, por exemplo, a interação direta entre L1 e L2), o
moderador não intervém e deixa a interação seguir o seu curso. Nos exemplos
seguintes, que integram o corpus brasileiro e o corpus romeno, notamos que o
moderador tem um papel mais ativo nas interações.
O exemplo (61) é um trílogo em que participam um locutor principal L1, o
deputado Valdimir Assunção, que estava a fazer a sua intervenção regimental, um locutor
secundário L2, o deputado Ronaldo Caiado, que interrompe L1, e o moderador L3, o
presidente da reunião. Ao contrário do exemplo anterior (60a)-(60e), em que L1
reconhece L2 como participante na interação e entra em diálogo com ele, em (61) L1 e L2
não se falam diretamente e preferem referir-se um ao outro usando pronomes da 3ª
pessoa em réplicas dirigidas a L3 (o presidente): ―Sr. Presidente, eu não intervim no

101
pronunciamento do nobre Deputado‖, ―Eu gostaria que ele também‖, ―Eu não me dirigi
a ele especialmente‖, ―Se ele quer fulanizar o debate, eu debato com ele‖, ―Eu tenho
credibilidade moral e postura para poder debater com ele, Sr. Presidente‖, etc.
Do ponto de vista da organização interacional, a estratégia adotada por L1 e L2
deste exemplo mostra diferenças fundamentais em relação à interação analisada
anteriormente. Em primeiro lugar, os deputados parecem respeitar as normas
regimentais da Câmara dos Deputados45, nem que seja de forma parcial: dirigem-se ao
presidente, mas quando referem o interlocutor não usam a forma de tratamento
regimental ―Vossa Excelência‖, preferindo o pronome pessoal ―ele‖. Em segundo
lugar, observamos que o presidente tem um papel mais ativo na gestão da interação,
intervindo para interromper L2 ―Deputado‖, para garantir o tempo de fala a L1 ―O.k.
Assegurada a palavra ao Deputado Valmir. Por favor!‖, para avisar L1 que deve
terminar o seu discurso ―Para concluir, Deputado.‖, mas não para sancionar os usos
da forma de tratamento delocutivo ele.

Figura nº 8. Dinâmica interacional na sequência de perguntas e respostas


(corpus brasileiro).

Na figura nº 8 sintetizámos a dinâmica interacional do exemplo selecionado do


corpus brasileiro: o presidente (L3) é o único locutor que tem diálogo direto com L1 e
L2, ao passo que estes dois locutores comunicam de maneira indireta, usando L3
como locutor pivô ou locutor ponte. Se em (60a)-(60e) a interação assume
pontualmente formas de diálogo espontâneo entre L1 e L2 devido à falta de
intervenção do presidente, em (61) é através do presidente que L1 e L2 entram num
diálogo indireto, em que usam a 3ª pessoa para se referirem um ao outro.

45Veja-se o art. 73, al. 10 ―o Deputado, ao falar, dirigirá a palavra ao Presidente, ou aos
Deputados de modo geral‖, alínea 11 ―referindo-se, em discurso, a colega, o Deputado deverá
fazer preceder o seu nome do tratamento de Senhor ou de Deputado; quando a ele se dirigir, o
Deputado dar-lhe-á o tratamento de Excelência‖.

102
A não-ratificação interlocutiva – a delocução in praesentia – do L2 (por parte do L1)
mostra também uma outra abordagem da comunicação parlamentar, em que o diálogo
espontâneo não encontra o seu lugar. Aliás, a intervenção do presidente, no sentido de
interromper L2, comprova a tendência de sancionar as réplicas não-autorizadas.

(61) L1 – O SR. DEPUTADO VALMIR ASSUNÇÃO – [...] O Deputado


Caiado aponta todos os números. Acho que essa pesquisa que ele apresentou é
uma pesquisa da UDR, que ele está querendo ressuscitar. Mas eu acho que
também o Deputado Caiado...
L2 – O SR. DEPUTADO RONALDO CAIADO - Mas não foi financiada por
ONG, não; nem por dinheiro público, não.
L1 – O SR. DEPUTADO VALMIR ASSUNÇÃO - Sr. Presidente, eu não
intervim no pronunciamento do nobre Deputado. Eu gostaria que ele
também...
L3 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Deputado, Deputado
Valmir.
L2 – O SR. DEPUTADO RONALDO CAIADO - Eu não me dirigi a ele
especialmente.
L3 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Deputado...
L2 – O SR. DEPUTADO RONALDO CAIADO - Se ele quer fulanizar o
debate, eu debato com ele. Eu tenho credibilidade moral e postura para
poder debater com ele, Sr. Presidente.
L3 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - O.k. Assegurada a
palavra ao Deputado Valmir. Por favor!
L1 – O SR. DEPUTADO VALMIR ASSUNÇÃO - Vou repetir. Eu acho que
essa pesquisa... Essa pesquisa, ele não apontou a fonte, de onde veio. Então,
eu acho que foi...
L2 – O SR. DEPUTADO RONALDO CAIADO - É do IBOPE. IBOPE.
L1 – O SR. DEPUTADO VALMIR ASSUNÇÃO - ...que foi a UDR que fez
essa pesquisa. Então, quero registrar isso. Como eu também acho que ele não
conhece o que é assentamento de reforma agrária. Eu sou da Bahia e, se ele
quiser, vou fazer algo que eu nem imaginava fazer: vou convidá-lo a ir a um
assentamento. Eu o levarei lá, para conhecer o que é um assentamento de
reforma agrária.
L3 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Para concluir, Deputado.
L1 – O SR. DEPUTADO VALMIR ASSUNÇÃO - Por último, eu quero
concluir fazendo duas perguntas que eu acho que são importantes. (Audiência
Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

103
No exemplo (62), que integra o corpus romeno, os locutores L2 e L3 usam a
tribuna para se dirigir ao ministro – que não entra em diálogo com os mesmos –,
sendo L1 o moderador das intervenções. A estrutura deste fragmento é bastante mais
simples do que a dos exemplos (60) e (61): L1 concede a L2 e L3 o direito à palavra e
os últimos dois locutores usam-no para responder a um L4 ausente (o ministro que
não faz parte da interação). Os locutores respeitam as regras regimentais e o
moderador desempenha o seu papel de dar a palavra aos oradores ―Bun, 30 de
secunde, da?‖ [Está bem, 30 segundos, sim?], ―Pe procedură, 10 secunde. Vă rog.‖
[Sobre os procedimentos, 10 segundos. Faça favor.], de avisar que o tempo da
intervenção acabou ―Vă rog să încheiaţi.‖ [Faça favor de concluir.] e de encerrar os
trabalhos.

Figura nº 9. Dinâmica interacional na sequência de perguntas e respostas


(corpus romeno).

(62) L1 – Domnul Vasile Blaga: Si eu vă mulţumesc. Pe moţiune, doamna


senator Vasilescu, nu este drept la replică, ştiţi bine. Bun, 30 de secunde, da?
E o doamnă, o doamnă, o doamnă.
L2 – Doamna Lia-Olguţa Vasilescu: Vă mulţumesc, domnule presedinte. Îmi
dau seama că nu v-am lăudat degeaba. Trec peste faptul că ni s-a adresat cu
„voi‖, nu cu „dumneavoastră‖, trec peste faptul că m-a făcut mincinoasă pentru
ceva ce puteţi găsi pe Google, domnule ministru. Nica cere schimbarea şefilor
Poliţiei de la Neamţ si Giurgiu – septembrie 2009, simplu. Dar să mă acuzaţi de
faptul că eu apăr traficanţii de benzină?! Aoleu! Păi, de unde aţi scos-o pe asta?
Poate îmi explicaţi si mie, pentru faptul…
L1 – Domnul Vasile Blaga: Vă rog să încheiaţi.

104
L2 – Doamna Lia-Olguţa Vasilescu: … că v-am felicitat că aţi descoperit acei
branconieri46? (Sala se amuză) Păi, eu v-am felicitat, domnule ministru. Vă mulţumesc.
L3 – Domnul Puiu Hasotti (din sală): Domnule presedinte….
L1 – Domnul Vasile Blaga: Mulţumesc. N-o să mai rog şefii… Procedură?
Procedură. Pe procedură, 10 secunde. Vă rog.
L3 – Domnul Puiu Hasotti : Vă mulţumesc, domnule ministru. Da, noi suntem
un partid de dreapta, Partidul Naţional Liberal. Dumneavoastră nu, Partidul
Democrat Liberal. În legătură cu grija pe care o purtaţi pentru noi, nu are rost să
spun de la acest microfon un proverb pe care vi-l voi spune asa, personal, un
proverb important, cu câinele, stiţi dumneavoastră.
L1 – Domnul Vasile Blaga: Vă mulţumesc. Stimaţi colegi, conform
Regulamentului Senatului, art. 157 alin. (1) moţiunea simplă se adoptă cu
votul secret al majorităţii senatorilor.
(Reunião do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[L1 – O senhor Vasile Blaga: - Eu é que agradeço. No caso da moção, não há
réplica, senhora senadora Lia Vasilescu, sabe isso muito bem. Bom, 30
segundos, sim? Trata-se de uma senhora, uma senhora, uma senhora.
L2 – A senhora Lia-Olguţa Vasilescu: - Muito obrigada, senhor presidente. Vejo
que não lhe fiz elogios em vão. Deixo de lado o facto de nos ter tratado por
―voi‖ e não por ―dumneavoastră‖, deixo de lado que me chamou mentirosa por
uma coisa que se pode encontrar no Google, senhor ministro. O ministro Nica
pede a substituição dos chefes de Polícia de Neamţ e Giurgiu em setembro de
2009, é simples. Mas acusar-me de defender os traficantes de gasolina?! Valha
me Deus! Como é que lhe ocorreu essa? Talvez me possa explicar, porque…
L1 – O senhor Vasile Blaga: - Por favor, conclua.
L2 – O senhor Lia-Olguţa Vasilescu: - … eu o congratulei por ter descoberto
os caçadores ilegais? (A sala ri-se.) Bem, eu congratulei-o, senhor ministro.
Obrigada.
L3 – O senhor Puiu Hasotti (da sala): - Senhor presidente….
L1 – O senhor Vasile Blaga: - Obrigado. Já não vou pedir os lideres…
Condução dos trabalhos? Condução dos trabalhos. Sobre a condução dos
trabalhos, 10 segundos. Faz favor.
L3 – O senhor Puiu Hasotti: - Obrigado, senhor ministro. Sim, nós somos um
partido de direita, o Partido Nacional Liberal. Os senhores é que não, o Partido
Democrata Liberal. No que diz respeito ao cuidado que têm sobre nós, não vale
a pena usar este microfone para falar sobre um provérbio que lhes direi em
privado, um provérbio muito importante, com o cão, os senhores sabem.

46―Branconieri‖ é uma forma errada da palavra ―braconieri‖ (forma do plural de braconier < fr.
braconnier), que significa ―caçadores ilegais‖. A reação da sala explica-se pelo facto de o então
ministro da Administração Interna ter sido ironizado na comunicação porque usou a forma
errada num documento oficial (―branconaj‖ em vez de ―braconaj‖ < fr. braconnage).

105
L1 – O senhor Vasile Blaga: Obrigado. Estimados colegas, segundo o
Regimento do Senado, art. 157º, alínea (1), a moção simples é adotada
com o voto segredo da maioria dos senadores.]

A sessão de questões e respostas apresenta uma grande diversidade estrutural,


situando-se na zona de turbulências (Kerbrat-Orecchioni 2014) do debate
parlamentar; embora haja exemplos de interação bastante reduzida (62) ou média (61),
em que os locutores interagem em estruturas de tipo triádico, podem-se encontrar
episódios de configuração multi-estratificada (60), em que vozes múltiplas participam
em polílogos bem mais complexos do que os trílogos e os diálogos.
Os exemplos selecionados, que não esgotam a possibilidade teoricamente
infinita de organização interacional da sessão de questões e respostas, mostram que
esta subsequência do debate parlamentar é a que se pode aproximar da dinâmica típica
para uma conversa espontânea (60). Entre as caraterísticas desta sub-sequência,
salientamos o uso reduzido de atos rituais (cumprimentos, agradecimentos, etc.), o
caráter imediato das réplicas, o número (em geral) elevado de interrupções, o diálogo
direto entre locutores (na ausência da intervenção do moderador), a participação
(ratificada / reconhecida ou não) de múltiplas vozes na interação.
Na próxima secção analisamos a última sub-sequência do corpo da interação,
a conclusão.

106
1.3.2.5 A conclusão
No exemplo (63), observamos que o presidente da Assembleia fala do
encerramento47 enquanto sequência de extensão mais alargada, que integra a conclusão
apresentada pelo representante do governo e em que se faz uma apresentação dos
argumentos expostos ou se responde às ultimas perguntas redigidas.
No corpus português, esta subsequência não difere muito das subsequências
anteriores do corpo de interação, mostrando mais semelhanças com a resposta
detalhada. O locutor principal toma a palavra segundo as normas regimentais e
consegue acabar o seu discurso, que desperta junto da oposição apartes irónicos (―Lá
vem a crise!…‖), perguntas (―A quem?!…‖, ―Para quem?‖), reações de protesto
(―Protestos do Deputado do PCP João Oliveira‖); por outro lado, os membros do
partido do poder manifestam através de intervenções não-verbais o apoio para com o
discurso apresentado (―Aplausos do PS‖). Nenhuma destas intervenções interrompe o
locutor principal, o que faz com que a interação propriamente dita seja muito
reduzida, as vozes dos aparteantes não ganhando o direito à palavra, ao contrário do
que pode acontecer, por vezes, como já vimos nos exemplos(60a)-(60e), da sequência
de questões e respostas.

(63) O Sr. Presidente: — No encerramento desta interpelação, para


representar o Governo, tem a palavra o Sr. Ministro da Presidência.
O Sr. Ministro da Presidência (Pedro Silva Pereira): — Sr. Presidente, Sr.as e
Srs. Deputados: Uma crise internacional destas proporções tem de produzir,
inevitavelmente, um impacto significativo na economia e no emprego.
O Sr. Jorge Machado (PCP): — Lá vem a crise!…

47 Neste caso trata-se da aceção parlamentar do termo, que diz respeito aos costumes em vigor
na Assembleia e não do significado que se dá ao termo ―fecho‖ (traduzido do fr. clôture) na
análise da conversação. Embora possam parecer termos semelhantes, ―encerramento‖ e
―fecho‖ referem estruturas diferentes do debate parlamentar. A diferença entre os dois termos
advém do uso que se lhes dá em discursos especializados: ―encerramento‖ é preferido por
parlamentares e designa uma parte do debate em que intervém o representante do governo
para apresentar as conclusões finais, ao passo que ―fecho‖ é um termo da análise de
conversação, que designa a parte final (fortemente ritualizada) da interação. Assim, o
encerramento (parlamentar) inclui, do nosso ponto de vista, duas sequências distintas: a
conclusão do representante do governo (subsequência que, ao nosso ver, integra corpo de
interação, uma vez que funciona como réplica às intervenções anteriores, sendo do ponto de
vista temático e formal relacionada intrinsecamente com as mesmas) e o fecho (sequência final,
fortemente ritualizada, na aceção que tem na análise de conversação). Para comparar, veja-se
também a descrição da estrutura do debate parlamentar proposta por Marques (2000: 141-152),
que toma em consideração as normas regimentais: a abertura (a abertura propriamente dita, o
discurso do partido interpelante, a resposta do governo), os pedidos de esclarecimento
(realizados por deputados, que contestam ou reforçam a posição do governo), o encerramento
(discursos do partido interpelante e do governo).

107
O Sr. Ministro da Presidência: — Os sinais de surpresa, quanto aos dados da
economia, ou quanto aos dados do emprego, as imputações ao Governo
português sobre a situação existente não são mais do que sinais da insistente
recusa em aceitar a dimensão global da crise que estamos a enfrentar.
Protestos do Deputado do PCP João Oliveira.
O dever do Governo é responder, minimizando os impactos da crise,…
O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): — A quem?!…
O Sr. Ministro da Presidência: — … gerando, como gerou, uma subida do
défice e da dívida pública…
O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): — Para quem?
O Sr. Ministro da Presidência: — … para que o País pudesse ter ainda em 2009
um decréscimo do seu crescimento inferior, muito inferior, ao que se verificou
nos restantes países da União Europeia e para que pudesse ter, como teve, já no
ano de 2010, um crescimento económico de 1,4%, o dobro do estimado pelo
Governo.
Aplausos do PS.
[...]
O Sr. Ministro da Presidência: — É um caminho de equilíbrio, um caminho de
diálogo social, um caminho de responsabilidade numa agenda reformista [...]
Aliás, se não fossem as informações que a Sr.ª Ministra do Trabalho aqui, hoje,
transmitiu sobre as medidas do Governo de apoio ao emprego e de reforço das
iniciativas de apoio e de estímulo à contratação na nossa legislação laboral, pode
dizer-se que esta interpelação do PCP não teria trazido novidade nenhuma.
(Reunião plenária de 16 de fevereiro de 2011)

No corpus brasileiro, a derradeira intervenção do representante do governo


contém respostas às perguntas dirigidas anteriormente pelos deputados inscritos na
lista de oradores. De facto, a conclusão continua do ponto de vista temático e
estrutural a seb-sequência anterior, em que os ministros oferecem respostas às
questões feitas pelos membros da comissão e pelo público presente na sala.
O exemplo (64) destaca-se pela dinâmica interacional, diferente dos exemplos
selecionados do corpus português e romeno. L1 passa a palavra a L2 ―para responder
aos questionamentos‖, L1 começa o seu discurso tentando responder pontualmente a
cada uma das perguntas, mas é interrompido por L3, que esclarece a sua posição:
―Ministro, então eu não me fiz entender‖. A partir deste momento a intervenção de L2
transforma-se numa interação direta com L3, em que o último tenta definir e explicitar
o seu questionamento: ―Eu perguntei o seguinte...‖, ―Sim, mas eu queria saber se sem a
produção de petróleo o Brasil teria hoje esses 350 bilhões de reserva‖, ―O número é
esse?‖. Depois de L2 afirmar que entendeu qual era o propósito do questionamento, L3
pede desculpas pela interrupção: ―Desculpe-me‖. No entanto, o diálogo entre L2 e L3
continuará, pois L3 precisa de fazer esclarecimentos em relação às informações que

108
queria obter de L2. Como se pode observar, esta dinâmica interacional é bastante
parecida do ponto de vista estrutural com a sessão de questões e de respostas; do ponto
de vista temático, a intervenção do ministro continua a subsequência anterior, em que
os oradores inscritos na listas de intervenientes fazem perguntas.

(64) L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Encerrada a lista


de inscrições, passo a palavra ao Ministro Guido Mantega para responder
aos questionamentos dos oito oradores.
L2 – O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Obrigado, Presidente. A
primeira indagação foi feita pelo Deputado Glauber Braga, que não está mais
aqui. Ele pergunta se os instrumentos que nós vamos utilizar agora, na crise de
2011, são os mesmos de 2008. [...] Aí não haverá custo. Metade dos juros que
nós pagamos hoje é por causa do custo das reservas brasileiras.
L3 – O SR. DEPUTADO PAULO FEIJÓ - Ministro, então eu não me fiz
entender.
L2 – O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Sim.
L3 – O SR. DEPUTADO PAULO FEIJÓ - Eu perguntei o seguinte...
L2 – O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Não, eu sei. Eu vou responder.
L3 – O SR. DEPUTADO PAULO FEIJÓ - Desculpe-me.
L2 – O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - A questão se a produção de
petróleo... Hoje a nossa produção de petróleo permite a autossuficiência, mas
ela ainda não permite um valor exportado. A PETROBRAS exporta e importa.
Ela exporta petróleo bruto e importa gasolina, refinados, sendo que, mais ou
menos, isso se equipara. [...] Então, neste momento, o petróleo não dá saldo
para fazer reserva. Foi isso que o senhor me perguntou e eu estou lhe
respondendo.
L3 – O SR. DEPUTADO PAULO FEIJÓ - Sim, mas eu queria saber se sem
a produção de petróleo o Brasil teria hoje esses 350 bilhões de reserva.
L2 – O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Não, porque nós estaríamos
pagando a conta do petróleo. Então, foi muito importante termos atingido a
autossuficiência, de modo que nós não importamos. [...] Quanto ao petróleo ser
taxado no destino, essa foi uma ampla discussão que o Parlamento teve no
passado. Não vou me meter nessa história.
L3 – O SR. DEPUTADO PAULO FEIJÓ - O número é esse?
L2 – O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Não sei se o número é esse.
Eu sei que foi muito sofrida essa decisão. Eu não estava no Governo na época,
então não tenho nenhum conhecimento do valor. (Audiência Pública N°:
1940/11 DATA: 23/11/2011)

109
No exemplo selecionado do corpus romeno, notamos que, do ponto de vista
do presidente do Senado, esta sequência constitui o final do debate da moção:
―Încheiem aici dezbaterile pe marginea moţiunii de cenzură‖ [Encerramos aqui os
debates sobre a moção de censura]. O primeiro ministro é convidado para apresentar
os seus comentários sobre os debates (―pentru a prezenta comentariile sale cu privire
la dezbaterile‖).
Ao contrário do que observámos nos exemplos dos corpora português e
brasileiro, a intervenção do primeiro ministro ocorre sem apartes e / ou interrupções.
Se nos exemplos anteriores (63) e (64) esta subsequência se aproxima, do ponto de
vista do grau de interatividade, das chamadas zonas de turbulências (Kerbrat-
Orecchioni 2014), no corpus romeno ela tem um caráter mais expositivo. Só no final
de intervenção foram registadas manifestações não-verbais de apoio ―Aplauze‖
[Aplausos] ou de crítica ―Vociferări‖ [Vociferações]. O locutor usa o tempo
regimental para fazer um balanço dos debates e para contestar a ação da oposição
―aceasta moţiune de cenzură, aşa cum v-am precizat la început, nu are legatură cu
Codul muncii‖ [esta moção de censura, como referi no início, não esta relacionada
com o Código de Trabalho]. Notamos também o ato ritual de agradecimento, dirigido
a todos os participantes no debate: ―vreau să vă mulţumesc pentru faptul că aţi avut
răbdarea şi disponibilitatea de a realiza o dezbatere democratică‖ [quero agradecer-
lhes a paciência e a disponibilidade de realizar um debate democrático].

(65) Domnul Mircea-Dan Geoană: Mulţumesc domnului ministru. Încheiem


aici dezbaterile noastre pe marginea moţiunii de cenzură. Îl invit, în
finalul acestei parţi a şedinţei noastre, pe domnul prim-ministru Emil Boc
pentru a prezenta comentariile sale cu privire la dezbaterile ce au avut loc
în plenul Parlamentului României. Domnule prim-ministru, vă rog.
Domnul Emil Boc: Domnule preşedinte al Senatului, Doamnă preşedinte a
Camerei Deputaţilor, Doamnelor şi domnilor, În primul rând, vreau să vă
mulţumesc pentru faptul că aţi avut răbdarea şi disponibilitatea de a
realiza o dezbatere democratică. În al doilea rând, vreau să spun că din
nefericire nu am putut din partea opoziţiei să regasesc un lucru pe care să-l
putem îmbunătăţi în Codul muncii, pentru că aceasta moţiune de cenzură,
aşa cum v-am precizat la început, nu are legatură cu Codul muncii. [...]
Dragi colegi, Acestea sunt argumentele pentru care să-i lasam pe cei din alianţa
socialistă să stea împreună, acolo unde le este locul, în opoziţie acum şi pentru o
lungă perioadă de timp de aici înainte. Vă mulţumesc mult. (Aplauze. Vociferări.)
(Reunião conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado, 16 de março de 2011)
[O senhor Mircea-Dan Geoană: - Obrigado, senhor ministro. Damos por
encerrados os nossos debates sobre a moção de censura. Queria convidar,
no final desta parte da nossa reunião, o senhor primeiro ministro Emil Boc
para apresentar os seus comentários sobre os debates que decorreram no
plenário do Parlamento da Roménia. Senhor primeiro-ministro, faz favor.

110
O senhor Emil Boc: - Senhor presidente do Senado, senhora presidente da
Câmara dos Deputados, senhoras e senhores, em primeiro lugar, queria
agradecê-los a paciência e a disponibilidade de realizar um debate
democrático. Em segundo lugar, queria dizer que infelizmente não pude
encontrar na oposição uma coisa para melhorar o Código de Trabalho, porque
esta moção de censura, como referi no início, não tem nada a ver com o
Código de Trabalho. [...] Caros colegas, estes são so argumentos pelos quais
devemos deixar os da coligação socialista ficarem juntos, no seu lugar, na
oposição, agora e durante muito tempo daqui em diante. Muito obrigado.
(Aplausos. Vociferações.)]

Do ponto de vista comparativo, podemos notar que a sub-sequência de


conclusão apresenta particularidades de organização interacional em cada um dos sub-
corpora: i) nos debates portugueses aproxima-se da sub-sequência resposta detalhada,
tendo um grau de interatividade reduzido, sendo o locutor interpelado em apartes que
não chegam a interrompé-lo; ii) no corpus brasileiro, a conclusão continua de forma
orgânica a sub-sequência anterior, a sessão de perguntas e respostas, tanto do ponto
de vista temâtico, como do ponto de vista da organização interactional e do grau de
interatividade; iii) no sub-corpus romeno, a conclusão tem um caráter
preponderantemente expositivo, a apresentação do orador decorrendo sem apartes ou
interrupções, podendo ser comparável à exposição do ponto de vista da intensidade
interacional.
A última sequência interacional dos debates parlamentares, o fecho, será
analisada na próxima secção.

111
1.3.3 A sequência de fecho
Srs. Membros do Governo, Sr.as e Srs. Deputados, com
esta intervenção, terminámos a nossa ordem do dia, pelo que
dou por concluídos os trabalhos de hoje. (DAR,
22/03/2012, I Série — Número 87)

Numa interação espontânea, a sequência de fecho tem um papel decisivo, pois


estabelece os termos em que os locutores se separam (Kerbrat-Orecchioni 1990: 222).
Assim, os participantes entram num processo de negociação da separação, em que
usam diferentes atos rituais, como as desculpas (―Desculpe, mas tenho que ir
andando!‖), a avaliação positiva do encontro (―Foi tão bom a gente se ver!‖), os
agradecimentos (―Obrigado pelo convite!‖), os votos (―Boa continuação!‖), a
planificação do reencontro (―A gente se fala, sim?‖), etc.
No debate parlamentar, a sequência de fecho é protagonizada pelo presidente,
que declara os trabalhos encerrados, depois de o último orador inscrito ter acabado o
seu discurso e o representante do governo ter apresentado a sua conclusão.
Simetricamente, o Presidente é também o protagonista da sequência de abertura, em
que declara aberta a sessão. Como veremos, são usados alguns atos rituais e a
negociação é mínima. Se nas conversas quotidianas as sequências de fecho podem ser
anticipadas ao longo da interação pelos pre-closings (pré-fechos), o que lhes confere por
vezes um caráter descontínuo, nos debates do nosso corpus as sequências de fecho
são, salvo poucas exceções, reduzidas a uma interveção do presidente.
No primeiro exemplo do corpus português (66), observamos uma progressão do
ato de declarar os trabalhos da Assembleia encerrados. Depois da intervenção do
Ministro da Presidência, o moderador da reunião começa a preparar o fecho do debate,
avisando que terminou o debate da interpelação ―está assim concluído o debate da
interpelação n.º 13/XI (2.ª)‖ e convida o secretário da mesa a ler um expediente. No fim
da apresentação do expediente, o presidente volta a referir o encerramento dos trabalhos
―chegam ao fim os nossos trabalhos de hoje‖ e refere a próxima reunião plenária – nas
conversas espontâneas os locutores usam também atos rituais em que falam dos
reencontros futuros –, insistindo no conteúdo da ordem do dia. Para que a reunião
termine oficialmente, o presidente pronuncia pela terceira vez o ato ritual de
encerramento: ―Por hoje é tudo, Srs. Deputados, está encerrada a sessão‖.
Na nossa opinião, o primeiro ato de encerramento marca a parte inicial do
fecho propriamente dito do debate, funcionando como um organizador, que delimita
esta subsequência da anterior, a conclusão. O fecho do debate tem uma estrutura
essencialmente expositiva, sem apartes e / ou interrupções, o que constitui uma
particularidade em relação às sub-sequências do corpo da interação, que contêm,
como já vimos, diferentes padrões interativos: diálogos, trílogos e até polílogos. No
que diz respeito ao grau de interatividade, o fecho seria mais próximo da sequência de
abertura, partilhando também com a mesma o caráter ritual.

112
(66) O Sr. Presidente: — Srs. Membros do Governo, Srs. Deputados, está
assim concluído o debate da interpelação n.º 13/XI (2.ª) — Centrada na
legislação laboral (PCP). O Sr. Secretário Abel Baptista lerá agora algum
expediente entretanto chegado à Mesa e que é indispensável que seja levado ao
conhecimento dos Srs. Deputados. [...]
Sr. Presidente: — Sr.as e Srs. Deputados, chegam ao fim os nossos
trabalhos de hoje. A próxima reunião plenária terá lugar amanhã, quinta-feira,
dia 17 de Fevereiro, pelas 15 horas, e inclui, na sua ordem do dia, declarações
políticas, seguidas pela reapreciação do Decreto da Assembleia da República n.º
68/XI (2.ª) — Cria o procedimento de mudança de sexo e de nome próprio no
registo civil e procede à décima sétima alteração ao Código do Registo Civil. É
um debate a que se segue uma votação, com voto electrónico e com a exigência
de maioria qualificada. [...]
Por hoje é tudo, Srs. Deputados, está encerrada a sessão. (Reunião plenária
de 16 de fevereiro de 2011)

Em (67) e (68) a estrutura do fecho é mais simplificada, sem leitura de


expediente, e contém: o encerramento do debate da interpelação, ―chega ao fim a
interpelação de Os Verdes‖, ―assim se conclui o debate da interpelação n.º 11/XI
(2.ª)‖, a referência à próxima reunião plenária e o encerramento dos trabalhos ―Está
encerrada a sessão‖, ―Srs. Deputados, está encerrada a sessão‖. Notamos também em
(68) um convite de participação numa exposição albergada pela Assembleia da
República, mas salientamos que se trata de uma ocorrência pontual.

(67) O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, assim chega ao fim a interpelação


de Os Verdes sobre orientações do Governo para a política de transportes
públicos, centrada no transporte ferroviário. A nossa próxima sessão
plenária realizar-se-á amanhã, quinta-feira, às 15 horas, e a ordem do dia será
preenchida com a interpelação n.º 11/XI (2.ª), apresentada pelo CDS-PP, sobre
o sector empresarial do Estado. Está encerrada a sessão. (Reunião plenária de
26 de janeiro de 2011)

(68) O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, assim se conclui o debate da


interpelação n.º 11/XI (2.ª) — Sobre o sector empresarial do Estado
(CDS-PP). A reunião plenária de amanhã, com início às 10 horas, constará de
um debate com o Sr. Primeiro-Ministro, ao abrigo da alínea a) do n.º 2 do artigo
224.º do Regimento, sobre as orientações da política económica e das finanças
públicas. Haverá, ainda, votações regimentais às 12 horas. Recordo que às 18
horas e 30 minutos haverá, na Sala da Biblioteca, uma cerimónia alusiva à
memória do Holocausto. Srs. Deputados, está encerrada a sessão. (Reunião
plenária de 27 de janeiro de 2011)

113
No corpus brasileiro, há sequências de fecho muito simplificadas, como em
(69), em que o moderador, por não haver assuntos a discutir, limita-se a declarar o
encerramento da audência pública ―dou por encerrada esta audiência‖. Notamos o
uso do ato ritual de agradecimento, dirigido ao ministro, que foi convocado pela
comissão para participar na audência pública.

(69) O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Nada mais havendo a


discutir, agradeço a presença de nosso Ministro e dou por encerrada esta
audiência. (Audiência Pública N°: 1963/11, DATA: 23/11/2011)

Por outro lado, em (70) a sequência de fecho tem uma estrutura ligeiramente
mais complexa, contendo: a menção de que não há mais intervenientes na lista de
inscrições, um agradecimento ao ministro pela presença na audiência, a referência à
próxima audiência (portanto, ao próximo reencontro) e o encerramento final da
sessão ―Está encerrada a reunião‖.

(70) O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Não havendo mais quem
queira fazer uso da palavra, agradeço Ao Sr. Ministro Chefe da Controladoria-
Geral da União, Jorge Hage Sobrinho, a presença. É de suma importância essa
parceria, esse entrosamento entre a Comissão de Fiscalização e Controle,
representando a Câmara Federal, e a CGU, o Tribunal de Contas da União e o
Ministério Público federal. Muito obrigado, Sr. Ministro, por sua presença.
Antes de encerrar a reunião, comunico a reunião conjunta de audiência
pública, amanhã, 5 de maio, às 10 horas, no Plenário 2, com a Comissão
Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização com a presença do
Presidente do Banco Central, Sr. Alexandre Antonio Tombini, para
avaliação das políticas monetárias, creditícias e cambial referentes ao
segundo semestre de 2010. Está encerrada a reunião. (Audiência Pública
N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)

No corpus romeno, observamos um maior número de agradecimentos nas


sequências de fecho, em relação aos usos encontrados nos corpora português e
brasileiro. Por exemplo, em (71) o presidente do Senado utiliza três atos de
agradecimentos ―Mulţumesc pentru acest dialog‖ [Obrigado por este diálogo], ―Vă
mulţumesc pentru atenţie şi pentru interes‖ [Agradeço-lhes a atenção e o interesse],
―Mulţumesc‖ [Obrigado].
Outra particularidade do corpus romeno é também a presença dos atos rituais
de voto na sequência de fecho ―Seară plăcută!‖ [Uma noite agradável!] em (71), ―‖Vă
doresc o după-masă plăcuta tuturor!‖ [Desejo a todos uma tarde agradável] em (72),
―O seară bună!‖ [Que tenham uma boa noite!] em (73), ―După-amiază, succes în
comisii!‖ [Da parte da tarde, boa sorte nas comissões!] em (74). Ocorrem também nas
sequências de fecho episódios em que são apresentadas informações relacionadas com

114
o debate: as respostas escritas que serão enviadas a alguns senadores em (71), a
situação final da votação da moção em (72) e em (74). Os representantes do governo
são convidados a exprimir o seu ponto de vista em (73), mas o convite não será aceite
pelos mesmos. Em todos os exemplos, os presidentes oferecem informações sobre o
próximo reencontro: ―Ne revedem miercuri, 4 mai 2011, la ora 9.00.‖ [Vemo-nos de
novo na quarta, 4 de maio de 2011, às 9h] em (71), ―În cinci minute, urmează şedinţa
consacrată interpelarilor şi răspunsurilor‖ [Em cinco minutos segue a sessão dedicada
às interpelações e às respostas] em (72), ―încheiem astăzi şi ne revedem mâine la ora
10.‖ [encerramos hoje e vemo-nos amanhã às 10h] em (73) e ―Ne vedem în şedinţa de
plen mâine dimineaţa, 7 decembrie 2011.‖ [Vemo-nos em sessão plenária amanhã de
manhã, 7 de dezembro de 2011] em (74). Os moderadores utilizam também, como
nos exemplos dos corpora brasileiro e português, fórmulas estereotipadas para
encerrar a os debates ou a sessão: ―Declar încheiată şedinţa plenului Senatului‖
[Declaro encerrada a sessão plenária do Senado] em (71), ―Cu aceasta, am încheiat
dezbaterile‖ [Dito isto, encerrámos os debates], ―Atunci, încheiem astăzi‖ [Então,
encerramos hoje] em (73) e ―Declar încheiate lucrările Senatului.‖ [Declaro encerrados
os trabalhos do Senado] em (74). O grau de interação é muito reduzido, notamos
apenas reações não verbais de apoio em (74), ―Aplause‖ [Aplausos].

(71) Domnul Mircea-Dan Geoană: Mulţumesc pentru acest dialog. Vreau să


vă informez că vor primi răspunsuri în scris la întrebări domnii senatori: Adrian
Ţuţuianu [...] Pentru interpelările domnilor senatori Florin Constantinescu şi
Sorin-Constantin Lazăr, Grupul parlamentar al PSD, Guvernul solicită amânare.
Am epuizat ordinea de zi de astăzi. Vă mulţumesc pentru atenţie şi pentru
interes. Declar încheiată şedinţa plenului Senatului. Ne revedem miercuri,
4 mai 2011, la ora 9.00. Mulţumesc. Seară plăcută! (Reunião do Senado, 2 de
maio de 2011)
[O senhor Mircea-Dan Geoană: Obrigado por este diálogo. Queria informar
que vão receber respostas por escrito às suas perguntas os senhores senadores:
Adrian Ţuţuianu [...] Para as interpelações dos senhores deputados Florin
Constantinescu e Sorin-Constantin Lazăr, do grupo parlamentar do PSD, o
Governo solicita um adiamento. Acabámos a ordem do dia de hoje. Obrigado
pela atenção e pelo interesse. Dou por encerrada a reunião plenária do
Senado. Vemo-nos de novo na quarta-feira, 4 de mio de 2011, às 9h.
Obrigado. Boa noite!]

(72) Domnul Ioan Oltean: - Domnilor colegi, 137 de voturi împotriva moţiunii,
3 abţineri şi 134 voturi pentru. Art.161 din regulament spune că ―Moţiunile
simple se aprobă cu votul majoritaţii deputaţilor prezenţi.‖ În consecinţă, această
moţiune a fost respinsă, neîntrunind numărul necesar de voturi. Vă mulţumesc.
Vă doresc o după-masă plăcuta tuturor! În cinci minute, urmează şedinţa
consacrată interpelărilor şi răspunsurilor la întrebările adresate membrilor
Guvernului. (Reunião da Câmara dos Deputados, 9 de maio de 2011)

115
[O senhor Ioan Oltean: Senhores colegas, 137 votos contra a moção, 3
abstenções e 134 votos a favor. O artigo 161º do regimento diz ―As moções
simples são aprovadas com o voto da maioria dos deputados presentes.‖ Por
conseguinte, esta moção foi chumbada, por não conseguir o número necessário
de votos. Obrigado. Desejo-lhes a todos uma tarde agradável! Em cinco
minutos, começa a reunião dedicada às interpelações e às respostas
colocadas aos membros do Governo.]

(73) Doamna Roberta Alma Anastase: Vă mulţumesc şi eu. Cu aceasta, am


încheiat dezbaterile. Invit Guvernul, dacă doreşte, să îşi exprime punctul de
vedere. Mai doriţi vreo intervenţie? Nu. Vă mulţumesc mult. Atunci, încheiem
astăzi şi ne revedem mâine la ora 10. Vă reamintesc că votul pe moţiune va
avea loc mâine în sesiunea de vot final. O seară bună! (Reunião da Câmara dos
Deputados, 6 de junho de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: Eu é que agradeço. Com esta intervenção,
terminámos os debates. Convido o Governo, se quiser, para expressar o seu
ponto de vista. Querem outra intervenção? Não. Muito obrigada. Então,
terminamos hoje e vemo-nos de novo amanhã, às 10h. Queria relembrar
que a votação da moção será amanhã, na sessão final de votação. Boa noite!]

(74) Domnul Vasile Blaga: Deci trecem la vot. Supun la vot moţiunea simplă. Cu 61
de voturi pentru, 64 de voturi împotrivă şi o abţinere, moţiunea nu a întrunit
numărul de voturi. Vă mulţumesc. (Aplauze) Declar încheiate lucrările Senatului.
Ne vedem în şedinţa de plen mâine dimineaţa, 7 decembrie 2011. După-amiază,
succes în comisii! (Reunião do Senado, 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Vasile Blaga: Então, passemos à votação. Submeto à votação a moção
simples. Com 61 votos a favor, 64 votos contra e uma abstenção, a moção não
conseguiu o número de votos. Obrigado. (Aplausos.) Declaro encerrados os
trabalhos do Senado. Vemo-nos em reunião plenária amanhã de manhã, dia 7 de
dezembro de 2011. Esta tarde, que corra tudo bem nas comissões!]

Fortemente ritualizada, a sequência de fecho contém uma sucessão de atos que


preparam os participantes para a separação: fórmulas estereotipadas de encerramento,
agradecimentos, votos, informações sobre o próximo reencontro. Embora não haja
grandes diferenças entre os três corpora consultados, observamos uma preferência
dos oradores romenos por certos atos rituais, como o agradecimento e os votos. No
entanto, devemos mencionar que esta diferença pode relacionar-se com as normas de
transcrição do discurso oral usadas pelos serviços parlamentares de arquivo e
taquigrafia (ver supra 1.2.2. Do oral à escrita).
No subcapítulo seguinte, que continua a análise da arquitetura do debate
parlamentar, fazemos uma apresentação detalhada das estratégias empregues pelos
oradores para negociar o turno de fala.

116
1.4 A negociação do turno de fala
Neste debate, quase toda a esquerda utilizou mais tempo do
que o regimentalmente previsto, mas não ouvi ninguém
apresentar uma única solução para o problema. (DAR,
27/10/2011, I Série — Número 35)

Após a apresentação da organização sequencial dos debates parlamentares,


propomos neste subcapítulo uma apresentação do funcionamento da negociação
conversacional.
Sendo a negociação uma caraterística intrínseca da interação verbal e
abrangendo componentes múltiplas – a escolha temática, a organização sequencial a
nível macro ou micro, a(s) identidade(s) dos participantes, a distância interlocutiva,
entre outros –, tentaremos limitar a nossa análise à negociação conversacional
(Kerbrat-Orecchioni 2000, 2004a, 2005), especialmente no que diz respeito ao ritual
do turno de fala. Num primeiro momento, fazemos uma caraterização da negociação
conversacional e, em seguida, debruçar-nos-emos sobre o papel desempenhado pelo
moderador e em algumas das estratégias de negociação empregues por locutores em
debates parlamentares.
Se na linguagem corrente negociação48 refere sobretudo um tipo de interação –
negociação comercial, negociação diplomática –, na linguística interacionista a
negociação conversacional designa ―mécanismes d‘ajustement des comportaments mutuels‖
(Kerbrat-Orecchioni 2005: 94) empregues pelos locutores para ultrapassar situações
de desacordo ou:

―tout processus interactionnel plus ou moins local, susceptible d‘apparaître


dès lors qu‘un différend surgit entre les interactants concernant tel ou tel aspect
du fonctionnement de l‘interaction, et ayant pour finalité de résorber ce
différend‖ (Kerbrat-Orecchioni 2000a: 399, nosso negrito).

Segundo Kerbrat-Orecchioni (2005: 94-97), cada negociação 49 pressupõe a


existência de cinco ―ingredientes‖: i) um grupo de pelo menos dois negociadores; ii)
um objeto a ser negociado; iii) um estado inicial de desacordo ou de não-acordo entre

48 Traverso (2004: 43-68) apresenta uma distinção parecida, entre a negociação-evento (evento
formal, organizado segundo uma agenda estabelecida, com objetivos bem definidos, que pode
terminar com declarações, memorandos, contratos, etc.) e a negociação-processo (acontecimento
informal, que pode ocorrer em qualquer momento da interação, quando os participantes
tentam diminuir os diferendos reais ou potenciais, de forma a tomar decisões aceitáveis por
ambas as partes), usada em trabalhos influentes da área, como Firth (1995).
49 Catherine Kerbrat-Orecchioni afasta-se da aceção que o termo tem na escola linguística

suíça, que considera todas as conversações como vastas negociações, considerando que só se
pode falar de negociação no caso das interações em que existe o binómio conflito / cooperação.

117
locutores; iv) o uso de procedimentos (a negociação propriamente dita) que tentam
reduzir o desacordo; v) um estado final, ou seja o resultado da negociação, que pode
ser negativo (a negociação falha) ou positivo (a negociação é um sucesso).
Tomando em consideração a definição anterior, Kerbrat-Orecchioni (2005: 98)
propõe um esquema geral da negociação, que pode ter diversas variações, em função
da tipologia da interação: i) A faz uma proposta a B (PROP); ii) B contesta a proposta,
acrescentando eventualmente uma contra-proposta (CONTRE-PROP); neste caso há
uma negociação potencial, que pode realizar-se ou não; iii) se A aceita imediatamente
a CONTRE-PROP de B, trata-se de um ajustamento e não de uma negociação
propriamente dita; pelo contrário, se A rejeita a CONTRE-PROP de B e mantém a sua
posição inicial, assistimos a uma cristalização do desacordo 50 , começando assim o
início da negociação, com o terceiro turno da interação.
A partir deste ponto, segundo a mesma autora (Kerbrat-Orecchioni 2005: 98-
104), as negociações podem ter estruturas muito variadas, em função das caraterísticas
seguintes: os objetos negociáveis, a extensão / a duração, as modalidades de
negociação e o resultado final. Por exemplo, as negociações comerciais e diplomáticas
têm objetos externos – compra e venda de mercadorias ou serviços, celebração de um
tratado, etc. –, ao passo que as negociações conversacionais têm objetos internos, que
dizem respeito às componentes da conversação, como o script geral da troca, a
alternância de vez, os temas tratados, os valores semânticos e pragmáticos dos
enunciados trocados, as opiniões expressadas, o momento do fecho, a(s)
identidade(s), a relação interpessoal, etc.
Do ponto de vista da extensão ou da duração, salienta-se que as negociações
comerciais ou diplomáticas são de facto eventos organizados em torno de certos
objetivos – neste caso, negociação sendo a designação metonímica da totalidade da
troca verbal –, ao passo que as negociações conversacionais podem ocorrer
pontualmente em qualquer momento de uma dada interação; certos tipos de
negociações que ―dão o tom‖ da interação, como a configuração da relação interpessoal,
o jogo das identidades são mais frequentes no início da interação, ao passo que as
negociações relativamente a outras componentes, como a tomada de vez, os temas
tratados, as opiniões exprimidas podem surgir em qualquer momento da interação.
As negociações conversacionais podem decorrer de forma explícita ou implícita.
Por exemplo, um locutor pede explicitamente para participar na conversação (―Deixe-
me falar, por favor!‖) ou opta por interromper o interlocutor, assinalando
implicitamente que pretende expressar-se. No caso da negociação da distância
interlocutiva, o locutor pode manifestar explicitamente as suas preferências (―Trate-
me por tu, por favor!‖) ou, tomando a iniciativa e usando o pronome tu na interação,
pode tentar sugerir ao interlocutor que deseja um tratamento menos formal.

50 Ver também Traverso (2004: 43-68), que propõe uma análise da cristalização do desacordo em
três tipos de interações: a conversa familiar, a reunião de investigação e as transações
comerciais em lojas.

118
No que diz respeito ao resultado, ao contrário das negociações comerciais ou
diplomáticas, que têm como objetivo principal o sucesso, na negociação
conversacional, o êxito não constitui uma das componentes principais. Certos tipos de
negociações, como a do turno de fala ou dos temas abordados são essenciais para o
bom funcionamento da conversação. Porém, como veremos nas análises deste
capítulo, o insucesso das negociações sobre opiniões veiculadas, sobre as relações
interlocutivas, as identidades não determina necessariamente o insucesso de toda a
interação. Por exemplo, alguém pode recusar a tratar o seu interlocutor por tu, o que
não representa um obstáculo insuperável para continuar a conversação. Em relação ao
resultado final da negociação, mencionamos o compromisso, em que ambos os
participantes fazem concessões, o alinhamento espontâneo, em que um dos
participantes aceita voluntariamente a posição do outro, e a não-resolução, em que um
dos participantes rejeita, por vezes sistematicamente, a CONTRE-PROP.
O debate parlamentar é um tipo de interação institucional que decorre segundo
regras preestabelecidas; como já vimos nos subcapítulos anteriores, a temática, a
ordem dos intervenientes, o tempo de cada intervenção, a linguagem, etc. devem
obedecer à ordem do dia e ao regimento parlamentar, sendo o presidente da reunião
responsável pelo cumprimento das regras do ―cenário‖. Por outro lado, o discurso
parlamentar tem uma dimensão agonal intrínseca, que advém do confronto entre a
instância política e a instância adversária, sendo as ―infrações‖ das regras comuns nos
debates em contraditório.
Do ponto de vista da estrutura actancial, uma negociação no debate
parlamentar pressupõe a existência de pelo menos dois negociadores, N1 e N2, que
assumem posições discursivas diferentes e que tentam chegar a um acordo, e um
moderador, papel desempenhado pelo presidente.

Figura nº 10. Estrutura actancial da negociação em debates parlamentares.

119
O objeto das negociações pode ser variável, abrangendo a temática, a opinião
exprimida, a(s) identidade(s), a relação interlocutiva, a abertura, o fecho, o turno de
fala, etc. Segundo Kerbrat-Orecchioni (2005: 112), a negociação da alternância do
turno de fala é locally managed (gerida a nível local) pelos locutores, aparecendo
pontualmente nas interações. Trata-se de negociações que ocorrem com alguma
frequência, tentando os locutores atingir objetivos variados: obter/conservar ―espaço‖
de fala, gerir as interrupções voluntárias ou acidentais, o início simultâneo de duas
intervenções, etc. Uma das estratégias frequentes de negociar a alternância da tomada
de vez é a interrupção do locutor. Aliás as interrupções no discurso parlamentar
foram amplamente analisadas (Carbó 1992, Bevitori 2004, Ilie 2005a, Zima et al 2010),
tendo os autores destacado algumas tipologias que serão apresentadas mais adiante.
No que diz respeito ao turno de fala 51 , Kerbrat-Orecchioni (1990: 159-192)
menciona alguns direitos e deveres que os locutores devem respeitar, para garantir um
bom funcionamento da interação vebal: i) a função de locução deve ser desempenhada
sucessivamente por diferentes locutores, havendo, idealmente um equilíbro no que diz
respeito à duração de cada invervenção, a focalização interlocutiva; ii) as pessoas não
falam ao mesmo tempo, as sobreposições devendo ser reduzidas; iii) há sempre alguém
que fala, evitando-se os momentos de silêncio ou as pausas.
Ao contrário das conversas do dia-a-dia, em que os locutores negociam de
maneira espontânea as regras acima mencionadas, os debates parlamentares têm a
particularidade de serem geridos por um moderador, que organiza também a
alternância dos turnos de fala, de acordo com a lista de inscrições e com as normas
regimentais em vigor.
Portanto, a duração das intervenções e o evitamento das sobreposições são a
responsabilidade do Presidente, que tem autoridade discursiva perante os restantes
locutores. Por outro lado, a focalização das intervenções e os apartes são mais difíceis
de gerir e há frequentes desvios do protocolo regimental. Aliás, dada a natureza
intrinsicamente conflitual deste tipo de interação, não são poucas as situações em que
os locutores tentam negociar a duração da intervenção, havendo na dinâmica
interacional diferentes sobreposições e, algumas vezes, de pausas.
Num primeiro momento faremos uma análise do papel desempenhado pelo
moderador em situações de negociação conversacional sobre a alternância dado turno de
fala e depois apresentaremos algumas estratégias usadas pelos locutores para conseguir
mais ―espaço‖ na interação, com enfoque também no emprego das interrupções.

51―À un premier niveau d‘analyse, que l‘on peut dire ―formel‖, toute interaction verbale se
présente comme une succesion de ―tours de parole‖ – ce terme désignant d‘abord le
mécanisme d‘alternance des prises de parole, puis par métonymie, la contribution verbale d‘un
locuteur détérminé à un moment détérminé. […] L‘activité dialogale a donc pour fondement ce
principe d‘alternance‖. (Kerbrat-Orecchioni 1990 : 159)

120
1.4.1 O papel do moderador
Deputado Nelson Bornier, se eu fosse V.Exa., eu me
acalmaria. Eu me acalmaria. (Audiência Pública N°:
0497/12, 08/05/2012)

A importância do moderador no debate – académico, político ou mediático –


foi salientada em estudos sobre a interação verbal. O moderador é considerado ora
um árbitro (Vion 1992: 139), ora um chefe de orquestra (Kerbrat-Orecchioni 1992: 86-87),
comparações que mostram o papel fulcral desta figura no quadro participativo dum
debate, independentemente da sua natureza.

―Cet arbitre effectue les rituels d‘ouverture, énonce les thèmes et l‘ordre dans
lequel ils vont être abordés, rappelle les règles, distribue la parole, veille au
respect du temps de parole de chacun et peut s‘intercaler entre les belligérants‖
(Vion 1992: 139, nosso negrito).

―Dans d‘autres situations (colloques, débats médiatiques) les tours sont alloués
par un « modérateur » plus ou moins extérieur à l‘interaction, mais qui a pour
fonction d‘assurer sa gestion : dans cette mesure, ce distributeur official des tours
occupe la position haute du chef d‘orchestre‖ (Kerbrat-Orecchioni 1992: 86-
87, nosso negrito).

Durante as reuniões parlamentares que integram o nosso corpus, o papel de


moderador é desempenhado pelo Presidente da Assembleia / Câmara / Senado /
Comissão, sendo dele a responsbilidade pelo bom funcionamento dos trabalhos.
Segundo Miche (1995: 244) a função do moderador é de ―gerir‖ o debate. Ilie (2005a:
312) afirma que o presidente assegura o bom funcionamento dos trabalhos através de
duas tarefas que são da sua responsabilidade: conceder a palavra aos oradores segundo
a ordem preestabelecida e sancionar o comportamento não-regimental, como as
interrupções. Détrie (2010: 145) recorre à metáfora do orquestrador para definir a
função do presidente na ―circulação fluida da palavra‖:

―Le débat est mené par un président qui a pour fonction de gérer le débat.
C‘est lui qui donne ou ôte la parole aux députés et qui modère le ton lorsque
celui-ci devient trop polémique‖ (Miche 1995: 244, nosso negrito).

―The MPs‘ interventions are monitored by the Speaker of the House, whose major
task is to ensure a smooth unfolding of the proceedings. The Speaker‘s talk
monitoring is exerted prospectively, by assigning an orderly turn-taking and by
giving the floor to MPs according to a pre-established list of speakers, but also
retrospectively, by sanctioning disorderly behaviour in the House, such as out-
of-order interruptions.‖ (Ilie 2005a: 312, nosso negrito)

121
―Si le rôle du président est celui d‘un orchestrateur de la séance, sa fonction le
pose souvent comme un relai entre le questionneur et le questionné, assurant la
continuité de la parole, son audibilité, son cadrage : le président est le garant
de la circularion fluide de la parole‖ (Détrie 2010 : 145, nosso negrito).

Como observámos no capitúlo anterior, o presidente é o protagonista das


sequências de abertura e de fecho, estabelecendo desde o início as regras do debate no
que diz respeito ao tempo disponível para cada grupo parlamentar e para o governo
(75), concede e retira a palavra aos oradores (76)-(80).

(75) Doamna Roberta Alma Anastase: - Am să precizez şi timpul alocat


Guvernului şi fiecărui grup parlamentar. Guvernului i se rezervă 60 de
minute, pe care le poate folosi la începutul şi la încheierea dezbaterilor.
Grupurilor parlamentare din Cameră şi Senat li se alocă timpul maxim
corespunzător numărului membrilor fiecărui grup parlamentar, luându-se în
calcul câte 20 de secunde pentru fiecare parlamentar. Astfel: PDL are la
dispoziţie 58 de minute, PSD - 45 de minute, PNL- 27 de minute, UDMR
- 10, minorităţile naţionale - 6 minute, Grupul deputaţilor şi senatorilor
independenţi - 9 minute, deputaţii independenţi fără apartenenţă la
grupuri parlamentare - 2 minute. (Reunião conjunta da Câmara dos
Deputados e do Senado, 16 de março de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: - Vou mencionar tanto o tempo do
Governo, como o de cada grupo parlamentar. O Governo tem 60 minutos,
que pode usar no início e no fim dos debates. Os grupos parlamentares
da Câmara e do Senado têm um tempo máximo em função do número de
membros de cada grupo parlamentar, tomando em consideração 20 segundos
para cada parlamentar. Então, PDL tem 58 minutos, PSD - 45 minutos,
PNL - 27 minutos, UDMR - 10, as minorias nacionais - 6 minutos, o
grupo dos parlamentares e senadores independentes - 9 minutos, os
deputados independentes sem vínculo a grupos parlamentares - 2
minutos.]

(76) O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Com a palavra o


Deputado Sérgio Barradas Carneiro. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA:
10/11/2011)

(77) O Sr. Presidente: — Para uma intervenção, no período de abertura, tem a


palavra o Sr. Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações.
(Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

(78) O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Para concluir, Deputado.


(Audiência Pública N°: 0252/11 DATA: 12/04/2011)

122
(79) Doamna Roberta Alma Anastase: Vă rog să finalizaţi, că aţi depăşit de mult
timpul. (Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: Faça favor de concluir, pois ultrapassou há
muito o seu tempo.]

(80) Doamna Roberta Alma Anastase: Vă mulţumesc şi eu. Cu aceasta, am


încheiat dezbaterile. (Reunião da Câmara dos Deputados de 6 de junho de 2011)
[A senhora Roberta Alma Anastase: Eu é que agradeço. Com isso, acabámos os
debates.]

Aliás, todas as prerrogativas do Presidente – relacionadas com a sua função de


gerir o funcionamento dos debates – são devidamente descritas nos regimentos
parlamentares. Segundo o Regimento da Assembleia da República de Portugal, o
Presidente tem as seguintes competências no que diz respeito à organização das
reuniões plenárias:

Artigo 17.º Competência quanto às reuniões plenárias. 1 — Compete ao


Presidente da Assembleia quanto às reuniões plenárias: a) Presidir às reuniões
plenárias, declarar a sua abertura, suspensão e encerramento, e dirigir os
respectivos trabalhos; b) Conceder a palavra aos Deputados e aos
membros do Governo e assegurar a ordem dos debates; c) Dar oportuno
conhecimento à Assembleia das mensagens, informações, explicações e convites
que lhe sejam dirigidos; d) Pôr à discussão e votação as propostas e os
requerimentos admitidos. (nosso negrito)

Em conformidade com o Regimento Interno da Câmara dos Deputados do


Congresso Nacional do Brasil, o presidente da mesa da audiência pública é
responsável pelo conteúdo dos debates, tendo funções de eliminar os desvios
temáticos e outras perturbações dos trabalhos:

Art. 256. § 3o Caso o expositor se desvie do assunto, ou perturbe a ordem dos


trabalhos, o Presidente da Comissão poderá adverti-lo, cassar-lhe a palavra
ou determinar a sua retirada do recinto. (nosso negrito)

Nos regimentos do Senado e da Câmara dos Deputados do Parlamento da


Roménia, as competências dos presidentes das duas câmaras são descritas em detalhe:

Art.39. (1) Preşedintele Senatului are următoarele atribuţii: a) convoacă Senatul


în sesiuni ordinare şi extraordinare; b) conduce lucrările Senatului şi asigură
respectarea programului orar şi a ordinii de zi; c) acordă cuvântul, moderează

123
discuţiile, sintetizează problemele supuse dezbaterii, stabileşte ordinea votării,
explică semnificaţia votului şi anunţă rezultatul votului; d) asigură menţinerea
ordinii în timpul dezbaterilor şi respectarea Constituţiei şi a Regulamentului
Senatului (nosso negrito).
[Art. 39º (1) O Presidente do Senado tem as seguintes atribuições: a) convoca o
Senado em reuniões plenárias ordináriass e extraordinárias; b) conduz os
trabalhos do Senado e garante que sejam respeitados o programa de
trabalhos e a ordem do dia; c) concede a palavra, modera as discussões,
sintetiza os problemas debatidos, estabelece a ordem da votação, explica o
significado da votação e informa o resultado da votação; d) garante a
manutenção da ordem durante dos debates e o respeito da Constituição e
do Regimento do Senado.]

Art. 33 Preşedintele Camerei Deputaţilor are următoarele atribuţii: a) convoacă


deputaţii în sesiuni ordinare sau extraordinare, conform prevederilor prezentului
regulament; b) conduce lucrările plenului Camerei Deputaţilor, asistat
obligatoriu de 2 secretari, şi asigură menţinerea ordinii în timpul
dezbaterilor, precum şi respectarea prevederilor prezentului regulament;
c) acordă cuvântul, moderează discuţiile, sintetizează problemele puse în
dezbatere, stabileşte ordinea votării, precizează semnificaţia votului şi anunţă
rezultatul acestuia (nosso negrito).
[Art. 33º O Presidente da Câmara dos Deputados tem as seguintes atribuições:
a) convoca os deputados em reuniões ordinárias ou extraordinárias, de acordo
com as estipulações deste regimento; b) conduz os trabalhos do plenário da
Câmara dos Deputados, assistido obrigatoriamente por 2 secretários, e
garante a manutenção da ordem durante dos debatese o respeito das
estipulações do presente regimento; c) dá a palavra, modera as
discussões, sintetiza os problemas debatidos, estabelece a ordem da
votação, explica o significado da votação e informa o resultado da mesma.]

Se o papel do presidente está muito bem definido nos regimentos, sendo


(re)conhecido pelos locutores que participam no debate, isto não significa que por vezes
não haja discussões sobre a maneira segundo a qual os debates deveriam ser geridos.
Por exemplo, em (81), o locutor L2 sugere ao moderador (L1) que explique
melhor a L4 o significado das figuras regimentais, pois esse intelocutor, na opinião de
L2, não responde às perguntas que lhe são dirigidas. Esta afirmação tem um duplo
significado: por um lado, cria uma situação conflituosa entre L2 e L4 (que responderá
mais tarde) e, por outro lado, critica – de maneira indireta – o papel que a Mesa tem
no decorrer dos debates. Aliás, L2 faz uma sugestão ao Presidente em relação às suas
atribuições, mas esta sugestão é interpretada como uma possível ameaça à imagem do
L1, que reage imediatamente, defendendo-se e afirmando que ―a Mesa é sempre
responsável pela condução dos trabalhos, mas nunca plenamente pelo resultado dos
trabalhos‖. Por outras palavras, o Presidente refere que as responsabilidades da Mesa
incidem sobre a estrutura dos debates, mas não sobre o resultado dos mesmos.

124
Notamos que nesta situação conflitual nenhum dos locutores (L1, L2, L3 e L4)
está disposto a fazer concessões para chegar a um acordo e minimizar a divergência
de opiniões. Antes pelo contrário, cada uma das partes envolvidas – representantes da
instância política, da instância adversária, o moderador, que em princípio é neutro –
mantém a sua posição e ninguém abre o caminho para negociação. A instância
adversária (L2), que interpela a Mesa e critica a instância política, continua as suas
críticas dirigidas a L4: ―Não respondeu!‖, ―vamos lá ver se desta vez conseguimos
obter respostas por parte do Governo‖, ao passo que os representantes da instância
política, L3 e L4 defendem o seu direito de responder às perguntas como acharem
melhor: ―da parte do Governo, há todo o direito de responder nos termos em que
entender‖, ―mas respondo da maneira que entendo dever responder, não da maneira
que os Srs. Deputados entendem‖; a terceira instância – a que poderíamos chamar a
instância moderadora – mantém a sua posição, como já referimos.
Neste caso, a negociação não é possível – aliás, nem sequer é procurada pelos
locutores –, mas a situação de confronto não determina a interrupção da interação
verbal, uma vez que o conflito faz parte do contrato de comunicação dos debates
parlamentares. No que diz respeito ao papel do moderador (L1), notamos que neste
exemplo, esse sente-se ameaçado por uma afirmação feita por um locutor e intervém
para defender a sua imagem, mas não para minimizar o conflito entre os locutores.

(81) L1 – O Sr. Presidente: — Para uma interpelação à Mesa, tem a palavra a Sr.ª
Deputada Heloísa Apolónia.
L2 – A Sr.ª Heloísa Apolónia (Os Verdes): — Sr. Presidente, penso que as
figuras regimentais deviam ser um bocadinho explicadas ao Sr. Ministro
das Obras Públicas. É porque os pedidos de esclarecimento querem respostas,
não querem «mensagens», em repetição de intervenções, e o Sr. Ministro não
respondeu a uma única pergunta que lhe foi feita por qualquer uma das bancadas.
O que o Sr. Ministro acabou de fazer foi uma repetição sumária da primeira
intervenção, ou seja, o Sr. Ministro vem para aqui — e peço desculpa pela
expressão — com umas palas ao nível da intervenção e não sai dela. Não sai dela!
[...] Sr. Ministro acabou a sua intervenção a dizer que esta era a mensagem que
queria dar à Assembleia, mas não pode ser, Sr. Presidente! Portanto, peço à Mesa
o favor de solicitar ao Sr. Ministro que, na próxima ronda, tenha a
seriedade de responder claramente aos Deputados, às questões que lhe são
colocadas, de modo a que o debate possa ser, no mínimo, frutuoso.
[...]
L1 – O Sr. Presidente: — Sr.ª Deputada Heloísa Apolónia, a Mesa é sempre
responsável pela condução dos trabalhos, mas nunca plenamente pelo
resultado dos trabalhos. Também para interpelar a Mesa, tem a palavra o Sr.
Ministro dos Assuntos Parlamentares.
L3 – O Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares (Jorge Lacão): — Sr. Presidente, de
uma forma muito singela, quero sublinhar que os Srs. Deputados têm toda a
legitimidade regimental para, nos termos que lhes estão cometidos, fazer as

125
perguntas que entenderem, mas, da parte do Governo, há todo o direito de
responder nos termos em que entender. Os Srs. Deputados concordarão ou
não, mas não podem orientar intelectualmente o modo como o Governo
quiser responder às perguntas que os Srs. Deputados fizerem.
L2 – A Sr.ª Heloísa Apolónia (Os Verdes): — Não respondeu!
[...]
L2 – A Sr.ª Heloísa Apolónia (Os Verdes): — Sr. Presidente, Sr. Ministro das
Obras Públicas, Transportes e Comunicações, vamos lá ver se desta vez
conseguimos obter respostas por parte do Governo.
[...]
L4 – O Sr. Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações: — Sr.
Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, em primeiro lugar, queria dizer que tenho o
maior respeito pelos Srs. Deputados, mas respondo da maneira que
entendo dever responder, não da maneira que os Srs. Deputados
entendem. Protestos da Deputada de Os Verdes Heloísa Apolónia. (Reunião plenária
de 26 de janeiro de 2011)

No exemplo (82), selecionado do sub-corpus brasileiro, observamos a


importância do papel do moderador na gestão pessoal do tempo (―para tirar o
máximo proveito do tempo‖), pois L1 – ministro do governo federal, convidado para
fazer um depoimento na audiência pública da Câmara dos Deputados – pergunta ao
presidente de que tempo dispõe para fazer a sua apresentação.

(82) L1 – O SR. JORGE HAGE SOBRINHO - [...] Indo diretamente ao


assunto, para tirar o máximo proveito do tempo... De que tempo disponho,
Sr. Presidente?
L2 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Vinte minutos
prorrogáveis.
L1 – O SR. JORGE HAGE SOBRINHO - Indo diretamente ao assunto, como é
do meu estilo, eu iniciaria, dizendo aos senhores que as afirmações foram feitas
efetivamente ao jornalista Roberto, competente e brilhante jornalista do jornal O
Globo, a partir de um debate que mantínhamos num programa de televisão, onde
ele me indagava – ele era um dos interpeladores nesse programa de televisão...
(Audiência Pública N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)

Estes exemplos mostram que nos debates parlamentares a figura do Presidente


assume importância fundamental na organização da interação; na próxima secção
veremos em mais pormenor o papel do presidente nas negociações conversacionais e
na gestão das interrupções.

126
1.4.2 Estratégias de negociação
Eu tenho o entendimento claro de que a estratégia da
bancada do Governo foi de pegar de surpresa a bancada da
Oposição. (Audiência Pública, N°: 0594/12,
16/05/2012)

No exemplo (83), selecionado do sub-corpus brasileiro, assistimos a uma


tentativa de negociação do decorrer da reunião, através da redução do tempo da
intervenção do ministro (L1).
Notamos que para tratar do assunto, L2 interpela o moderador, na sua
qualidade de responsável pelos trabalhos: ―Peço a palavra, Sr. Presidente‖. Uma vez
concedida a palavra pelo presidente: ―Pois não‖, L2 apresenta a sua proposta: ―Hoje
nossa agenda está lotada. Poderia ser determinado um prazo para...‖, sendo entretanto
interrompido por L1, com uma contra-proposta: ―Finalizo em 3 ou 5 minutos‖. L2
continua com um segundo argumento, não aceitando a contra-proposta de L1:
―Assinei uma lista com 13 Deputados‖. Desta forma, L2 qualifica – de forma indireta
– a proposta L1 como inaceitável, porque impede o bom funcionamento dos
trabalhos, afetando o tempo disponível para os outros intervenientes: ―Assinei uma
lista com 13 Deputados‖.
Neste momento intervém o moderador (L3), que decide conceder a L1 o
tempo suficiente para acabar o seu discurso: ―a vinda do Ministro Jorge Hage,
principalmente para a nossa Comissão, é de fundamental importância‖, pedindo
paciência aos deputados. L2 continua com a sua proposta inicial, rejeitanto a
argumentação do moderador: ―eu não estou diminuindo a importância da presença do
Ministro‖, e apresenta o seu objetivo, cumprir a agenda dos trabalhos com todas as
etapas: ―Eu só quero que nós finalizemos os debates e a fase de perguntas‖. Desta
vez L1 propõe uma solução de compromisso, prometendo acabar em breve: ―Vou
finalizar após a exposição de três slides, Deputado‖.
Podemos considerar que neste caso se trata de uma negociação sucedida, na
medida em que alertou L1 em relação ao tempo disponível para a sua intervenção.
Rejeitando as contra-propostas de L1 e de L3, L2 consegue alcançar o seu objetivo,
apresentando argumentos de natureza regimental.

(83) L1 – O SR. JORGE HAGE SOBRINHO - [...] Algumas ideias e propostas


já estão sendo trabalhadas no Executivo. Neste momento há uma proposta de
decreto sendo...
L2 – O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO - Peço a palavra, Sr.
Presidente.
L3 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Pois não.
L2 – O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO - Hoje nossa agenda está lotada.
Poderia ser determinado um prazo para...

127
L1 – O SR. JORGE HAGE SOBRINHO - Finalizo em 3 ou 5 minutos.
L2 – O SR. CARLOS MAGNO - Assinei uma lista com 13 Deputados.
L3 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Deputado Carlos Magno,
a vinda do Ministro Jorge Hage, principalmente para a nossa Comissão, é de
fundamental importância. Então, peço a paciência de V.Exa. e dos
companheiros.
L2 – O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO - Presidente, eu não estou
diminuindo a importância da presença do Ministro. Eu só quero que nós
finalizemos os debates e a fase de perguntas.
L1 – O SR. JORGE HAGE SOBRINHO - Vou finalizar após a exposição
de três slides, Deputado. [...] Essas são as informações que eu pretendia trazer
aos senhores. Peço desculpas se ultrapassei o tempo. Estou inteiramente à
disposição para acrescentar, com suas perguntas, quaisquer outros
esclarecimentos. Muito obrigado. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA:
04/05/2011)

O exemplo seguinte – que foi selecionado de uma sequência de perguntas dos


requerentes – diz respeito também à negociação do tempo que os intervenientes têm
para falar, mais concretamente para dirigir perguntas ao ministro convocado para a
audiência pública.
L1, o moderador, concede a palavra ao deputado inscrito na lista de oradores,
mas neste momento dois locutores interrompem L2 para tentar negociar o seu papel
na interação. L4 tem uma intervenção episódica, inacabada, e não consegue abrir uma
brecha na dinâmica interacional: ―Sr. Presidente, fui mencionado na fala do
Deputado, queria só fazer...‖, ao passo que L3 parece ter mais sucesso, talvez por usar
uma expressão do protocolo administrativo e jurídico52: ―Sr. Presidente, pela ordem‖.
Num primeiro momento, o moderador, L1, rejeita a proposta de L3 (que pede o uso
da palavra) e apresenta uma contraproposta, sugerindo o adiamento desta
invervenção53, para deixar o orador L2 acabar o seu discurso: ―Vou dar a palavra a

52 A expressão pela ordem (com zero ocorrências no sub-corpus português e quase quarenta no
sub-corpus brasileiro) é usada em debates parlamentares ou nos tribunais do Brasil quando se
pede a palavra ao presidente ou ao juíz. Não encontrámos informações sobre a origem e o
significado desta expressão em dicionários jurídicos, mas num fórum intitulado ―Questão de
direito‖, um dos membros oferece a seguinte explicação: ―A expressão pela ordem significa que
o interlocutor pretende obter a palavra com preferência a fim de intervir nos trabalhos tendo
por propósito (o que nem sempre ocorre) comunicar a ocorrência de falha procedimental ou
ritualística que determina algum tipo de vicio procedimental que vá repercutir em nulidade ou
prejudicialidade dos trabalhos.‖ Disponível online: http://www.htforum.com/forum/threads/
questao-de-direito.33695/ (última consulta 16.04.2015)
53 Na gravação áudio da audiência pública, pudemos ouvir a intervenção integral do

moderador, que diz: ―Deixa, eu vou dar palavra a Vossa Excelência, deixa só o orador... o
deputado Nelson Bornier‖.

128
V.Exa. Garanto a palavra ao orador, Deputado Nelson Bornier‖. L3 rejeita a
contraproposta do moderador e insiste com a proposta inicial: ―Sr. Presidente, pela
ordem, gostaria de falar‖. Desta vez, L1 concede-lhe o uso da palavra: ―Pois não,
Deputado Angelo Vanhoni‖ e L3 apresenta a sua proposta em relação à ordem dos
trabalhos. L1 diz que já organizou o debate desta forma: ―Pois foi justamente isso,
Deputado, que acabei de...‖, ―Fiz um grupo de cinco Deputados‖. L3 encerra a sua
intervenção agradecendo ao moderador. Outro locutor, L5, tem uma proposta sobre a
ordem das respostas dadas pelos deputados requerentes, que será aceite pelo
moderador54 ; depois de acabadas as questões sobre a organização dos trabalhos, o
orador inicial, L2, retoma o seu discurso.
No exemplo (84) há, portanto, uma tentativa de negociação falhada (de L4, que
não recebe o direito de falar) e duas negociações conseguidas (entre o moderador e
dois negociadores diferentes, L3 e L5), que se debruçam sobre a ordem dos oradores
e o uso proveitoso do tempo disponível para a audiência pública. Ambos os
negociadores conseguem impor as suas propostas; no caso de L3 observamos, num
primeiro momento, uma cedência do moderador (que lhe concede o uso da palavra),
chegando-se assim a um acordo através do compromisso feito por uma das partes e,
num segundo momento, a um acordo prévio de facto, visto que o moderador já tinha
adotado a solução proposta por L3: ―Pois foi justamente isso, Deputado, que acabei
de...‖, ―Fiz um grupo de cinco Deputados‖. No caso da negociação de L5, trata-se de
um alinhamento espontâneo, uma vez que o moderador aceita a sua proposta sem
fazer uma contraproposta.

(84) L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Com a palavra o


Deputado Nelson Bornier.
L2 – O SR. DEPUTADO NELSON BORNIER - Sr. Presidente, Sras. e Srs.
Deputados...
L3 – O SR. DEPUTADO ANGELO VANHONI - Sr. Presidente, pela
ordem.
L4 – O SR. DEPUTADO DELEGADO WALDIR - Sr. Presidente, fui
mencionado na fala do Deputado, queria só fazer...
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Vou dar a palavra a
V.Exa. Garanto a palavra ao orador, Deputado Nelson Bornier.
L3 – O SR. DEPUTADO ANGELO VANHONI - Sr. Presidente, pela
ordem, gostaria de falar.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Pois não, Deputado
Angelo Vanhoni.
L3 – O SR. DEPUTADO ANGELO VANHONI - Não sei que
encaminhamento V.Exa. fixou para a condução da reunião, mas há 13 ou 14
Deputados inscritos para falar. Perguntas e questionamentos importantes foram

54 Na gravação áudio ouve-se um ―ok‖ dito pelo moderador.

129
direcionados ao Ministro Jorge Hage pelos três Deputados que falaram, e agora
o Deputado Nelson Bornier vai fazer uso da palavra. A minha sugestão é de
que V.Exa. faça grupos de Deputados. Não sei se já o fez.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Pois foi justamente
isso, Deputado, que acabei de...
L3 – O SR. DEPUTADO ANGELO VANHONI - Dependendo das respostas
do Ministro Jorge Hage, os questionamentos podem já ter sido feitos e minhas
dúvidas podem estar satisfeitas e posso direcionar meu raciocínio para outro
campo.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Fiz um grupo de cinco
Deputados.
L3 – O SR. DEPUTADO ANGELO VANHONI - Muito obrigado.
L5 – O SR. DEPUTADO GLAUBER BRAGA - Sr. Presidente, pela ordem,
por favor.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - Pois não, Deputado.
L5 – O SR. DEPUTADO GLAUBER BRAGA - Queria sugerir que as
possíveis respostas que serão dadas pelo Deputado autor do requerimento
possam ser feitas a posteriori. Se cada Deputado que fizer uma referência ao
que foi dito pelo Deputado autor do requerimento tiver o direito de responder a
tudo o que estiver sendo dito, não vamos ter um adequado procedimento do
trabalho em relação às respostas a serem dadas.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Sérgio Brito) - O Deputado Nelson
Bornier está com a palavra. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA:
04/05/2011)

A próxima negociação, do exemplo (85), também entre o moderador e um


interveniente, ocorre num interregno – ―Eu vou suspender por um minuto‖ – de uma
audiência pública que integra o corpus brasileiro. Os protagonistas desta negociação
são L1, o moderador, e L2, um dos deputados, que pretende, por um lado, obter mais
tempo para a sua intervenção e, por outro lado, espera avançar na lista dos oradores
inscritos e falar mais cedo.
L1 apresenta sucintamente o decorrer dos trabalhos: ―O Ministro [...] já vem
responder; e, aí, vêm os demais oradores‖. Neste momento intervém L2, sugerindo
maior rigor com o tempo de fala dos líderes de grupos parlamentares, porque o resto
dos oradores querem participar no debate também: ―seja mais duro aí com os Líderes,
porque nós, mortais, aqui precisamos falar‖. Esta primeira proposta é rejeitada pelo
moderador, que justifica a sua posição invocando as normas regimentais: ―É que os
Líderes têm um tempo a mais legalmente, regimentalmente‖. L2 rejeita a
contraproposta de L1, evidenciando que o tempo disponível para os líderes é
demasiado generoso: ―É dar mais do mais. Eles têm muito tempo‖.
L3 interrompe a negociação, avisando que vai falar enquanto líder e o
moderador avisa que vai haver outro líder como orador, portanto, outro interveniente

130
que terá mais tempo à sua disposição. Neste momento, L3 continua a sua negociação,
questionando-se sobre o papel do presidente de comissão, sugerindo, através de uma
interrogação retórica, que deveria ser tratado de maneira diferente: ―Presidente de
Comissão não tem prerrogativa aqui, não?‖; acrescenta que na sua qualidade de
presidente da Comissão de Trabalho, deveria ter preferência entre os oradores que
interpelam o Ministro do Trabalho.
L1 rejeita esta nova contraproposta com argumentos de natureza regimental:
―Aqui, regimentalmente, os Líderes; depois os membros da Comissão‖. L2 quer,
então, saber qual é a sua posição na lista dos oradores e L1 responde usando a uma
frase imprecisa, evitando uma resposta concreta: ―Está ficando cada vez mais longe!‖;
L2 insiste e L1 responde: ―Agora, Sílvio, o senhor é o sétimo‖. L2 não está satisfeito
com a resposta e apresenta uma contraproposta, que implicaria intercalar os oradores
do poder e os da oposição; sendo uma proposta irónica, baseada no conteúdo e nas
posições discursivas dos membros do poder e da oposição: ―Tem aqui o time que está
elogiando e o time que está criticando‖ e na própria posição perante o discurso do
ministro: ―Eu não decidi o que vou fazer ainda!‖ e não nas normas regimentais, como
é habitual neste tipo de intervenção, o público ri-se.
O moderador rejeita esta contraproposta também: ―Não é possível,
Deputado‖. Outro interveniente sugere a L2 integrar um partido em que há posições
tanto a favor, como contra o ministro: ―O Deputado Sílvio pode ir para o PSD.
Porque quer elogiar e criticar ao mesmo tempo!‖. O ministro volta à sala e o
moderador apresenta os próximos oradores, de acordo com a ordem já estabelecida:
―Tem mais um Líder para falar. Deputado Osmar Júnior, com a palavra‖.
Nenhuma das contrapropostas de L2 foi aceite, poderíamos afirmar que a
negociação falhou, as duas partes mantendo as suas posições. No entanto, apesar do
insucesso, ou usando a terminologia de Kerbrat-Orecchioni (2005), da não-resolução da
negociação, a interação continua normalmente, sem protestos de L2. Como se trata de
um tipo de interação organizado segundo o Regimento e como o Presidente ofereceu
argumentos regimentais para rejeitar sistematicamente as contrapropostas de L2, este
locutor aceita a decisão de L1 e não volta a insistir para obter mais tempo de fala ou
para avançar na lista dos oradores. Aliás, a maneira como L2 negocia estes dois
assuntos – usando a ironia e um tom cordial – mostra que o diferendo inicial não era
muito forte.

(85) L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Eu vou suspender


por um minuto. O Ministro precisa ir ao banheiro. Em seguida, ele já vem
responder; e, aí, vêm os demais oradores.
L2 – O SR. DEPUTADO SILVIO COSTA - Sr. Presidente, por favor.
Presidente, seja mais duro aí com os Líderes, porque nós, mortais, aqui
precisamos falar.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - É que os Líderes têm
um tempo a mais legalmente, regimentalmente.

131
L2 – O SR. DEPUTADO SILVIO COSTA - Não é uma questão de... É dar
mais do mais. Eles têm muito tempo.
L3 – O SR. DEPUTADO OSMAR JÚNIOR - Sr. Presidente, estou inscrito
como Líder.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Mais um Líder que vai
falar.
L2 – O SR. DEPUTADO SILVIO COSTA - Presidente de Comissão não
tem prerrogativa aqui, não? (Risos.) Eu sou Presidente da Comissão do
Trabalho. O Ministro é do Trabalho, e acho que eu deveria ter
preferência aqui.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Aqui,
regimentalmente, os Líderes; depois os membros da Comissão. Só para
orientar quem está aguardando: tem mais um Líder para usar a palavra. Depois,
os inscritos. De membros da Comissão (tem mais 3); e dos não membros (tem
151 mais 6).
L2 – O SR. DEPUTADO SILVIO COSTA - Quero saber qual é a minha
posição aí, Presidente.
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Está ficando cada vez
mais longe!
L2 – O SR. DEPUTADO SILVIO COSTA - Qual é a minha posição aí - por
favor?
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Agora, Sílvio, o
senhor é o sétimo.
L2 – O SR. DEPUTADO SILVIO COSTA - Sétimo?! Eu quero fazer uma
proposta aqui. Tem aqui o time que está elogiando e o time que está
criticando. Eu não decidi o que vou fazer ainda! (Risos.) Agora, queria ver se
dá para intercalar. Dá? Pelo menos democraticamente. E, aí, eu fico no
meio. (Risos.)
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Não é possível,
Deputado.
L4 – O SR. DEPUTADO CHICO ALENCAR - O Deputado Sílvio pode ir
para o PSD. Porque quer elogiar e criticar ao mesmo tempo!
L1 – O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - Logo após o
Deputado Osmar Júnior... Bom, eu já vou passar a palavra ao Ministro -
para responder aos Líderes. Tem mais um Líder para falar. Deputado Osmar
Júnior, com a palavra. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

O exemplo (86) contém uma negociação sobre o tempo de fala entre a


Presidente da Câmara dos Deputados do Parlamento da Roménia e um dos
deputados.
L2 interrompe L1 para o avisar que já venceu o tempo disponível: ―Eu vă rog
să încheiaţi. Aţi depăşit deja timpul...‖ [Por favor, conclua. Já ultrapassou o seu

132
tempo...]. L1 rejeita a afirmação de L2, invocando a duração regimental: ―Dar 5
minute mai erau‖ [Mas havia ainda 5 minutos]. Neste momento, L2 argumenta a sua
proposta inicial com dados concretos, afirmando que o orador tinha, de facto,
ultrapassado o seu tempo com 2 minutos: ―Păi, mai erau 5 minute; sunt 7 de când
vorbiţi dumneavoastră‖ [Pois, faltavam 5 minutos. O senhor fala há 7 minutos]. L1
não rejeita a situação apresentada por L2, mas protesta contra a interrupção,
invocando um argumento que não está relacinado com o regimento parlamentar, mas
sim com as normas de cortesia das interações quotidianas, em que os mais jovens não
devem interromper os que são maiores de idade: ―Dar de ce nu mă lăsaţi să vorbesc?
Că poate am copii mai mari ca dumneavoastră şi nu e frumos să mă întrerupeţi‖ [Mas
porque é que não me deixa falar? Talvez tenha filhos mais velhos que a senhora e não
é bonito interromper-me].
Neste momento, L2 rejeita a argumentação de L1 e apresenta-lhe o seu papel
de moderadora: ―Deci, eu sunt aici tocmai pentru a respecta un vot dat de Biroul
permanent şi confirmat de plen‖ [Então, eu estou aqui justamente para respeitar uma
votação da Mesa Permanente e confirmado pelo Plenário] e convida o orador a
terminar a sua intervenção. L1 acaba o seu discurso sem outros prostestos, aceitando
a posição de L2. Neste caso, a tentativa de negociação acaba também com uma não-
resolução, visto que L1 não consegue obter mais tempo para acabar o seu discurso.
Observamos que este orador invoca, na sua estratégia de argumentação, as normas de
cortesia quotidiana, mas as mesmas não são aceites pela moderadora, uma vez que nos
debates parlamentares têm prevalência as normas regimentais. Tal como nos
exemplos anteriores, o insucesso da negociação não tem consequências para a
continuação da interação.

(86) L1 – Domnul Victor Cristea: […] Asta este cred că... consider că ar trebui o
altă abordare a investiţiilor pe care le derulaţi dumneavoastră în ...
L2 – Doamna Roberta Alma Anastase: Eu vă rog să încheiaţi. Aţi depăşit
deja timpul...
L1 – Domnul Victor Cristea: Dar 5 minute mai erau.
Doamna Roberta Alma Anastase: Păi, mai erau 5 minute; sunt 7 de când
vorbiţi dumneavoastră.
L1 – Domnul Victor Cristea: Dar de ce nu mă lăsaţi să vorbesc? Că poate am
copii mai mari ca dumneavoastră şi nu e frumos să mă întrerupeţi.
L2 – Doamna Roberta Alma Anastase: Deci, eu sunt aici tocmai pentru a
respecta un vot dat de Biroul permanent şi confirmat de plen. Deci, eu o să
vă rog să încheiaţi această frază, vă mulţumesc mult şi să închideţi. Da?
L1 – Domnul Victor Cristea: Spuneaţi un pic mai înainte aici că se vorbesc
prostii. Şi astea nu sunt prostii şi că venim cu demagogie. Cine prezintă
demagogie? Eu, sau cine? Vă mulţumesc.

133
L2 – Doamna Roberta Alma Anastase: Şi eu vă mulţumesc. În continuare
am să-l invit la microfon pe domnul deputat Relu Fenechiu. Domnule
deputat, aveţi 7 minute la dispoziţie.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[L1 – O senhor Victor Cristea: […] Isto acho que é... considero que seria
necessária uma outra abordagem que os senhores desenvolvem em...
L2 – A senhora Roberta Alma Anastase: Eu pedia-lhe o favor de concluir. Já
ultrapassou o tempo...
L1 – O senhor Victor Cristea: Mas faltavam ainda 5 minutos.
L2 – A senhora Roberta Alma Anastase: Pois, faltavam 5 minutos; o senhor
fala há 7 minutos.
L1 – O senhor Victor Cristea: Mas porque é que não me deixa falar? Talvez
tenha filhos mais velhos do que a senhora e não é muito educado
interromper-me.
L2 – A senhora Roberta Alma Anastase: Pois bem, eu estou aqui justamente
para respeitar uma votação feita na mesa permanente e confirmada no
plenário. Então, eu vou pedir-lhe para acabar esta frase e concluir, muito
obrigada. Está bem?
L1 – O senhor Victor Cristea: Dizia há pouco que aqui se falam disparates.
Estes não são disparates e vimos aqui com demagogia. Quem apresenta
demagogia? Eu ou quem? Obrigado.
L2 – A senhora Roberta Alma Anastase: Obrigada. A seguir, vou convidar ao
microfone o senhor deputado Relu Fenechiu. Senhor deputado, tem 7
minutos ao seu dispor.]

Os exemplos de negociações sobre a gestão do tempo ou a ordem dos oradores


que apresentámos mostram que o sucesso negocial não é uma condição sine qua non
para o funcionamento da interação. Os locutores tentam ocupar mas ―espaço‖ nos
debates usando diferentes argumentos – regimentais ou relacionados com as normas
de cortesia das interações quotidianas – mas o facto de não conseguirem impor as suas
posições não tem necessariamente um impacto negativo no decorrer dos debates.
Destaca-se também a figura do Presidente e tem uma evidente autoridade discursiva
no decorrer dos debates e que consegue minimizar as possíveis situações de conflito.

134
1.4.3 Uma tipologia das interrupções
Art. 73. XIII - não se poderá interromper o orador, salvo
concessão especial deste para levantar questão de ordem ou
para aparteá-lo, e no caso de comunicação relevante que o
Presidente tiver de fazer. (Regimento Interno da Câmara
dos Deputados, Congresso Nacional do Brasil)

Nesta secção fazemos a análise das interrupções que ocorrem em debates


parlamentares, tema já analisado em estudos anteriores sobre este tipo de discurso em
corpora italianos, britânicos, austríacos (Bevitori 2004; Ilie 2003a, Ilie 2005a; Antelmi
& Santulli 2010).
Salientamos que a análise das interrupções e das sobreposições nos debates
parlamentares deve tomar em consideração sobretudo as caraterísticas da tipologia
discursiva, como as suas regras institucionalizadas, e menos os fatores culturais55. Por
outro lado, a interpretação de uma sobreposição como interrupção – intrusiva ou
cooperativa – depende também da percepção pessoal do linguista sobre os direitos e
os deveres que cada locutor tem na interação (Tannen 1991, apud Ilie 2005a: 313).
Aliás, as intervenções simultâneas podem ser consideradas sobreposições, com
conotações neutrais ou positivas, ou interrupções, com conotações sobretudo
negativas (Schiffrin 1994, apud Ilie 2005a: 313).
Na nossa abordagem, usaremos as normas regimentais para distinguir entre
sobreposições e interrupções, uma vez que o discurso parlamentar funciona segundo
um protocolo institucional bem definido. Aliás, na análise dos apartes que ocorrem
em diferentes sequências dos debates parlamentares (ver supra 1.3.2.1. A exposição), já
fizemos a distinção entre as interrupções e os apartes, com base no artigo 89º do
Regimento da Assembleia da República. Assim, serão consideradas interrupções
propriamente ditas, as intervenções que determinam uma resposta do orador
(constituindo, por conseguinte, um momento de interação, por muito breve que possa
ser), sendo sobreposições os apartes – comentários, perguntas retóricas, retomas do
discurso apresentado na tribuna, em outras palavras as ―vozes de concordância,
discordância, ou análogas‖ segundo o art. 89º –, que não interrompem o orador.
Segundo Ilie (2005a: 315), as interrupções nos debates parlamentares podem ser
analisadas segundo quatro pontos de vista: i) fazer a distinção entre as interrupções
verbais e não-verbais, ou seja entre diferentes manifestações destas intervenções; ii) ver

55 Dascălu Jinga (2006: 187) defende que os romenos manifestam-se tolerantes em relação às
interrupções, situando-se no grupo das culturas neolatinas. Şerbănescu (2007: 362) considera que as
interrupções se relacionam com o estatuto dos participantes; por exemplo, o superior pode
interromper e gere a interação, mas entre pares o acesso acesso à palavra é livre, sem
constrangimentos. Estes estudos baseiam-se sobretudo em análises de interações quotidianas e as
suas conclusões não se aplicariam das mesma forma em contextos institucionais. Na nossa opinião,
nos debates parlamentares as normas regimentais têm precedência perante os hábitos culturais.

135
se as interrupções são resultados de iniciativas individuais ou coletivas; iii) observar se as
interrupções são de cariz institucional ou não-institucional, ou seja permitidas ou não
pelas normas regimentais; iv) estabelecer se as interrupções são neutras – não expressam
uma atitude determinada do(s) locutor(es) – ou não-neutras 56 , marcadas positiva ou
negativamente (as últimas mostram atitudes perante os discursos dos locutores, sendo
chamadas, na linguagem regimental, ―vozes de concordância ou de discordância‖).
Se o último ponto de vista proposto por Ilie (2005a: 315) se concentra
sobretudo na análise das interrupções enquanto estratégias de avaliação dos discursos
(ou das imagens) dos outros, consideramos que seria também importante acrescentar
um quinto ponto de vista na investigação das interrupções, ou seja tomar em
consideração o papel das mesmas na construção da imagem do próprio locutor. No
caso do discurso parlamentar, os locutores sabem que têm uma audiência multi-
estratificada (ver supra a Figura 5 da secção 1.1.2.3.2. Os atores do discurso parlamentar),
tendo assim a preocupação de criar e de promover uma imagem de si positiva,
construída, quer através do uso de atributos positivos sobre si mesmos, quer em
oposição com a imagem negativa dos adversários políticos. Desta forma, as
interrupções poderiam ser consideradas positivas, na medida em que tentam criar uma
imagem de si favorável ou negativas, quando criarem – claro, sem que o locutor o
queira – uma imagem de si menos favorável.
(87) e (88) são exemplos de interrupções verbais, individuais, institucionais, de
índole neutra (em relação ao discurso dos outros). No primeiro bloco de exemplos,
trata-se de interrupções regimentais feitas por moderadores para gerir a ordem dos
intervenientes (87a), o comportamento dos participantes presentes na sala, cujas
manifestações impedem o bom funcionamento dos trabalhos (87b), o tempo da
intervenção (87c) e (87d). Não detetámos em nenhuma destas interrupções avaliações
positivas ou negativas dos discursos feitos pelos oradores, uma vez que o moderador
assume o seu papel de árbritro neutro do debate. Aliás, notamos que nos primeiros
três exemplos, a interrupção – que, geralmente, pode ser interpretada como um ato
intrusivo – é atenuada pelo presidente com atos de desculpa: ―Sr.ª Deputada, peço
desculpa‖, ―Sr.ª Deputada, peço desculpa por interromper‖, ―Sr. Ministro, peço
desculpa por interrompê-lo‖.

56 Analisando o funcionamento das interrupções em debates presidenciais, que são também


interações verbais moderadas em contexto político, Sandré (2009) distingue entre três
categorias: (a) interrupções com objetivos polémicos (interruptions à visée polémique), em se expressa uma
atitude negativa perante o discurso do interlocutor, sendo feitas pelos dois candidatos; (b)
interrupções que pretendem gerir a interação (interruptions visant à gérer l‘interaction), feitas tanto pelo
moderador (sendo neste caso neutrais), como pelos candidatos, que tentam controlar o tempo
das intervenções, a temática, a organização do turno de fala, etc; (c) interrupções com objetivos
cooperantes (interruptions à visée coopérative), pouco frequentes, em que os locutores podem ajudar-
se de maneira recíproca (por exemplo, para encontrar uma palavra).

136
Em (87d), observamos que a interrupção institucional do moderador não é
atenuada e que deve ser repetida, para que o orador conclua o seu discurso. O orador,
por sua vez, não interpreta a interrupção como intrusiva e aceita-a de forma explícita:
―Vou terminar, Sr. Presidente‖, ―A terminar, Sr. Presidente‖. A atitude de cooperação
entre os dois locutores pode explicar-se através da relação de poder que existe entre os
mesmos, uma vez que o moderador é geralmente aceite como o ator que concede e
retira a palavra aos intervenientes. Aliás, em (87a), a deputada aceita sem protestos
interromper o seu discurso e retomá-lo mais tarde, quando há uma falha da
moderadora na gestão da ordem dos intervenientes, o que mostra a autoridade
discursiva do presidente de sessão nos debates parlamentares.

(87a) A Sr.ª Presidente: — Tem a palavra o a Sr.ª Deputada Luísa Salgueiro.


A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Sr.ª Presidente, Sr. Ministro da Saúde, nesta
interpelação ao Governo sobre política de saúde, o Partido Socialista quer trazer
para a primeira linha de debate a matéria…
A Sr.ª Presidente: — Sr.ª Deputada, peço desculpa, mas houve uma falha
da minha parte. É que quem está inscrito a seguir para formular o seu
pedido de esclarecimento é o Sr. Deputado João Semedo. A Sr.ª Deputada
Luísa Salgueiro importa-se de aguardar um pouco?
A Sr.ª Luísa Salgueiro (PS): — Não, Sr.ª Presidente, não me importo. Retomarei
a palavra quando a Sr.ª Presidente ma voltar a conceder. (Reunião plenária de 12
de outubro de 2011)

(87b) A Sr.ª Presidente: — Sr.ª Deputada, peço desculpa por interromper,


mas há um ruído na Sala que, não sendo um ruído gritante, perturba a
audição das palavras da Sr.ª Deputada. Por isso, solicitava aos Srs.
Deputados algum cuidado. Faça favor de continuar, Sr.ª Deputada.
A Sr.ª Paula Santos (PCP): — Obrigada, Sr.ª Presidente. (Reunião plenária de 12
de outubro de 2011)

(87c) A Sr.ª Presidente: — Sr. Ministro, peço desculpa por interrompê-lo,


mas tenho de alertá-lo para que já excedeu em quase 2 minutos o tempo
que tinha disponível. Agradeço-lhe, pois, que faça o favor de concluir.
O Sr. Ministro da Saúde: — Vou terminar, Sr.ª Presidente. Sr.ª Presidente, Sr.as e
Srs. Deputados: O Governo e o Ministério da Saúde têm clara consciência da tarefa
que é exigida. Não nos vamos desviar. Não pretendemos a popularidade fácil nem a
demagogia populista. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(87d) O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — Quando vai o Governo corrigir as


malfeitorias feitas pelo governo PS e pelo Grupo Mello a muitos e
qualificados profissionais da saúde na transferência do velho para o novo
edifício, em Maio passado?

137
O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Muito bem!
O Sr. Presidente (António Filipe): — Sr. Deputado, queira concluir.
O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — Vou terminar, Sr. Presidente. Face à
desgraçada amostragem da parceria com o Grupo Mello, o que vai fazer o Sr.
Ministro às restantes parcerias público-privadas na saúde?
Vozes do PCP: — Muito bem!
O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — A terminar, Sr. Presidente, e porque o
Deputado Nuno Reis não fez a pergunta,…
O Sr. Presidente (António Filipe): — Tem mesmo de terminar, Sr.
Deputado.
O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — … pergunto ao Sr. Ministro o que vai
acontecer à construção, prevista, dos hospitais de Barcelos e de Fafe. (Reunião
plenária de 12 de outubro de 2011)

Em (88), um dos deputados interrompe o moderador, tentando gerir –


segundo as normas regimentais – a ordem dos oradores; notamos que usa a expressão
―pela ordem‖, muito frequente no discurso parlamentar brasileiro quando os
deputados querem falar sobre questões relacionadas com o funcionamento dos
debates. O moderador aceita a interrupção e a solicitação do deputado: ―A lista será
suplementada com o nome do Deputado Vaz de Lima‖. Neste caso trata-se também
de uma interrupção verbal, individual, institucional, de cariz neutro.

(88) O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - [...] Serão permitidas a


réplica e a tréplica pelo prazo improrrogável de 3 minutos.
O SR. DEPUTADO VAZ DE LIMA - Pela ordem, Sr. Presidente. Perdoe-
me a interrupção. Faltou meu nome na lista. Sou também um dos autores
do requerimento.
O SR. PRESIDENTE (Deputado Nilson Leitão) - A lista será suplementada
com o nome do Deputado Vaz de Lima. (Audiência Pública N°: 1857/11
DATA: 10/11/2011)

Em (89) e (90), foram selecionadas interrupções individuais, não institucionais, através


das quais os locutores expressam avaliações negativas sobre o discurso do interlocutor. Por
exemplo, em (89) o deputado interrompe o ministro para fazer uma correção que
considera necessária para a argumentação: ―Esse é de 2010, Ministro‖. Aliás, quando o
interlocutor rejeita a correção: ―Não, em 2010 é a execução‖, o deputado insiste
interrompendo de novo o ministro: ―É de 2010‖. A segunda interrupção é também
rejeitada, querendo o interlocutor explicar melhor o assunto: ―Deixe-me explicar‖.

138
(89) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - [...] Há um monte de desinformação,
e assim constroem notícia. Ficamos com a imagem e temos que nos explicar
sempre. Eu já expliquei, irmão! Sabe de quando são esses convênios? De 2007,
2008.
O SR. DEPUTADO ALEXANDRE LEITE - Esse é de 2010, Ministro.
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Não, em 2010 é a execução.
O SR. DEPUTADO ALEXANDRE LEITE - É de 2010.
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Deixe-me explicar. É feita a chamada
pública, e depois demora - muitas vezes é no final do ano - 1 ano para começar,
às vezes atrasa, pede-se prorrogação de prazo. (Audiência Pública N°: 1857/11
DATA: 10/11/2011)

Em (90), o moderador da reunião (o presidente da Câmara dos Deputados)


interrompe a locutora no início da sua intervenção para esclarecer uma questão
relacionada com a gestão do tempo do orador anterior (a ministra da Educação).
Usando a sua posição de responsável pelo decorrer dos trabalhos, o moderador
interrompe a deputada para fazer esclarecimentos sobre o tempo disponível para os
representantes do governo, invocando também uma contagem errada: ―30 de minute,
doamnă‖ [30 minutos, senhora].
O caráter não institucional desta interrupção advém, na nossa opinião, não do
ato de esclarecimento, mas sim da segunda parte da intervenção do moderador, em
que se faz uso da ironia para invocar a contagem errada do tempo: ―Vă cumpăr un
ceas când e ziua dumneavoastră‖ [Compro-lhe um relógio quando for o seu dia de
anos]. Aliás, o moderador reitera a sua ironia depois da intervenção da deputada, que
pede tolerância na gestão do tempo da oposição: ―O să vă fac cadou un ceas‖ [Vou
presentear-lhe um relógio]. As intervenções irónicas do moderador fazem uma
avaliação crítica / negativa da posição da deputada em relação à gestão do tempo feita
pela Mesa. Por um lado, o moderador reage a um possível ato ameaçador para a sua
imagem, defendendo-se (enquanto Presidente da Mesa é responsável pela gestão
correta e eficiente do tempo de cada orador), mas, por outro lado, expressando-se na
lógica fundamentalmente agonal do discurso parlamentar, ameaça a imagem da
deputada, sugerindo que a mesma não dispõe de meios tecnológicos para contar bem
o tempo e sai da esfera institucional – falar de dias de anos não é um tema do debate
político – situando-se fora das normas regimentais.
Trata-se, portanto, de interrupções individuais, não institucionais e negativas,
tanto do ponto de vista da posição perante o discurso do locutor, como do da
construção de imagem de si. No entanto, do ponto de vista da construção da imagem
de si, esta interrupção pode ser considerada positiva, na medida em que o locutor
tenta defender a sua imagem pessoal.

139
(90) Doamna Doiniţa-Mariana Chircu: Domnule preşedinte al Camerei
Deputaţilor, cred că veţi avea aceeaşi îngăduinţă şi vizavi de timpul alocat nouă,
aşa cum aţi avut îngăduinţă, şi e şi normal, faţă de doamna ministru.
Domnul Valeriu Ştefan Zgonea: Doamna deputat, Doamna ministru, ca
reprezentant al Guvernului, scrie în regulament, are dreptul la 50 de minute
înainte şi după.
Doamna Doiniţa-Mariana Chircu: Depăşite deja în momentul acesta şi ne
gândim că şi la sfârşit...
Domnul Valeriu Ştefan Zgonea: 30 de minute, doamnă. Vă cumpăr un ceas
când e ziua dumneavoastră. Aveţi cuvântul.
Doamna Doiniţa-Mariana Chircu: Vă mulţumesc. Dar eu am zis că e bine ce aţi
facut şi e bine să aveţi îngăduinţa şi vizavi de noi.
Domnul Valeriu Ştefan Zgonea: O să vă fac cadou un ceas. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 2 de outubro de 2012)
[A senhora Doiniţa-Mariana Chircu: Senhor presidente da Câmara dos
Deputados, acho que terá a mesma tolerância em relação ao nosso tempo, da
mesma maneira como teve, aliás, como é normal, para a senhora ministra.
O senhor Valeriu Ştefan Zgonea: Senhora deputada, a senhora ministra,
enquanto representante do Governo – está no regimento – tem direito a 50
minutos antes e depois.
A senhora Doiniţa-Mariana Chircu: Ultrapassados neste momento e pensamos
que no fim...
O senhor Valeriu Ştefan Zgonea: 30 minutos, minha senhora. Compro-lhe
um relógio quando fizer anos. Tem a palavra.
A senhora Doiniţa-Mariana Chircu: Obrigada. Mas eu disse que estava bem o
que fez e que é bom ter tolerância para nós também
O senhor Valeriu Ştefan Zgonea: Vou presenteá-la com um relógio.]

Em (91) assistimos a uma série de cinco interrupções individuais e não


institucionais feitas pelo ministro brasileiro Carlos Lupi, o moderador tendo
anteriormente concedido a palavra ao deputado, o primeiro interveniente.
Tentando mostrar-se conhecedor do assunto e cooperante, ou seja contruir
uma imagem de si positiva, o ministro Carlos Lupi interrompe successivamente o seu
interlocutor ad hoc57, para o corrigir: ―Central‖, para completar com informações: ―Na
minha gestão. Pode haver algumas anteriores à minha gestão‖ e para responder
instantaneamente às solicitações: ―Agora‖, ―Tudo‖, ―Deixe...‖. No entanto,

57O deputado Vanderlei Macris torna-se num interlocutor ad hoc, entrando sem querer num
diálogo com o ministro, apesar de ter o papel, neste momento, de expor a sua pergunta. Nesta
parte da audiência pública, apesar de haver um maior grau de interatividade, o mais comum é
as intervenções decorrerem de forma sucessiva: os requerentes apresentam as perguntas e, em
seguida, os convidados respondem.

140
observamos que o interlocutor não aceita este diálogo e pede o seu direito de
continuar a exposição: ―Permita-me?‖, interrompendo, por sua vez, o ministro.
Se aplicarmos o quatro critério proposto por Ilie (2005a: 315), podemos
afirmar que as primeiras duas interrupções são negativas, na medida em que emendam
o discurso do interlocutor, ao passo que as últimas três são neutras, porque o locutor
responde às solicitações sem fazer avaliações positivas ou negativas das mesmas.
Usando o quinto ponto de vista proposto por nós, todas as interrupções são positivas,
uma vez que a intenção do locutor é de construir uma imagem de si favorável. Neste
exemplo torna-se relevante também o efeito negativo criado pelas interrupções, sendo
a reação do deputado indicadora deste valor: ―Permita-me?‖. Portanto, o ministro
pretende criar uma imagem de si positiva – mostrando-se muito cooperante – mas, de
facto, o efeito é negativo, pois as interrupções não institucionais determinam uma
reação do deputado, que o interrompe, querendo acabar a sua intervenção.

(91) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Sr. Presidente, eu gostaria


apenas de pedir ao Ministro... Se possível, Ministro... O senhor disse que não
tem nenhum convênio com as centrais sindicais.
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Central.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Central Sindical.
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Na minha gestão. Pode haver algumas
anteriores à minha gestão.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Existe um convênio em
andamento com a Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos de
46 milhões de reais, com início em 31 de dezembro de 2008 e término em 20 de
novembro de 2012. A última liberação foi de perto de 5 milhões de reais. Eu
queria pedir a V.Exa. que remetesse a esta Comissão, se possível...
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Agora.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - ...o processo...
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Tudo.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - ...e as informações e os detalhes
desde...
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Deixe...
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Permita-me?
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Pois não.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Desde a época do edital até
agora, as prestações de conta, o processo completo sobre esse convênio.
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Claro. Na hora. Eu mando hoje, sem
problema nenhum.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Eu agradecerei muito, Ministro,
se V.Exa. puder fazer isso. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA:
10/11/2011)

141
Os próximos exemplos mostram dois casos de interrupções coletivas, não
institucionais do corpus romeno; aliás, as interrupções coletivas são, pela sua natureza,
não institucionais, uma vez que os regimentos estipulam as intervenções individuais,
que decorrem sucessivamente.
Em ambos os casos trata-se de interrupções negativas, em que os locutores não
identificados: ―Din sală‖ [Da sala], ―Proteste în sală‖ [Protestos na sala], ―Proteste,
discuţii‖ [Protestos, discussões] emendam ou desaprovam visivelmente o discurso do
orador. Se no primeiro caso o orador responde à emenda, fazendo a correção, no
segundo exemplo as reações coletivas – das quais os transcritores conseguiram
registar a intervenção irónica: ―Vă rog să aplaudaţi, vă rog să aplaudaţi…‖ [Por favor
aplaudam, por favor aplaudam...] – determinam a intervenção do moderador, que
tenta fazer um apelo à ordem.

(92) Domnul Traian-Constantin Igaş: Sigur că este foarte uşor să vii, să arunci
date, eu ştiu, imaginare pe piaţă şi să nu ai responsabilitatea vorbelor. Până la
urmă, cred că, aici, imunitatea parlamentară se rezumă la anumite declaraţii care
nu au niciun fel de acoperire. În semn de respect faţă de domnul senator Sava,
care…
Din sală: Savu.
Domnul Traian-Constantin Igaş: Savu, Savu. Îmi cer scuze că v-am botezat.
(Reunião do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Traian-Constantin Igaş: Claro que é muito fácil estar aqui, trazer números,
eu sei, imaginários e não ter a responsabilidade das próprias palavras. Afinal, acho
que a imunidade parlamentar limita-se a algumas declarações que não têm nenhum
fundamento. Em sinal de respeito para o senhor senador Sava, que …
Na sala: Savu.
O senhor Traian-Constantin Igaş: Savu, Savu. Peço desculpas por batizá-lo.]

(93) Domnul Traian-Constantin Igaş: E jalnic ceea ce aţi făcut, iar faptul că
suntem aici şi că trebuie să reparăm aici anumite lucruri greşit gestionate de
dumneavoastră….
(Proteste în sală)
… Vă rog să aplaudaţi, vă rog să aplaudaţi…
(Proteste, discuţii)
Domnul Vasile Blaga: Vă rog să ascultăm cu atenţie. Mai are, dacă doreşte, 10
minute domnul ministru.
Domnul Traian-Constantin Igaş: Vă mulţumesc, domnule preşedinte.
(Reunião do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Traian-Constantin Igaş: É deplorável o que fizeram e o facto de
estarmos aqui e ter de reparar coisas que os senhores geriram pessimamente ….
(Protestos na sala)
… Aplaudam, por favor, aplaudam por favor…
(Protestos, discussões)
O senhor Vasile Blaga: Por favor, vamos ouvir com atenção. O senhor ministro
tem ainda 10 minutos, se quiser.
O senhor Traian-Constantin Igas: Obrigado, senhor presidente.]

142
Esta análise mostra alguns dos papéis das interrupções nos debates
parlamentares. A classificação segundo cinco critérios58 – i) verbais vs. não-verbais, ii)
individuais vs. coletivas, iii) institucionais vs. não-institucionais, iv) neutras vs. não-neutras em
relação aos discursos / às imagens dos outros e, por fim, v) neutras vs. não-neutras em relação aos
discursos / às imagens de si – mostra-se fértil em destacar efeitos do usos deste recurso
linguístico por parte dos locutores, quer dos oradores ou quer do moderador.
Em primeiro lugar, destaca-se o papel fundamental do moderador na gestão
das situações possivelmente conflituais causadas pelas interrupções não-institucionais
e a sua autoridade em fazer as interrupções institucionais para gerir o tempo
regimental dos oradores. Esta observação confirma as análises anteriores (ver supra
1.4.1. O papel do moderador), que mostram a autoridade discursiva do Presidente.
Em segundo lugar, nota-se que os critérios revelam comportamentos
discursivos híbridos. Por um lado, há exemplos de interrupções não-institucionais
feitas pelo moderador, na medida em que o mesmo não se limita a gerir o tempo dos
locutores, mas faz também avaliações negativas sobre os discuros dos outros. Por
outro lado, pudemos observar como as interrupções que têm o objetivo de criar uma
imagem positiva de si – de pessoa cooperante, que quer oferecer informações – têm,
de facto, um efeito contrário, na medida em que invadem o ―espaço‖ de intervenção
do interlocutor.
Por último, salientamos que as interrupções mostram a tensão entre a dimensão
institucional da gestão do turno de fala – devidamente descrita nas normas
regimentais – e a sua dimensão conflitual, por vezes, que cria relações agonais, o
resultado sendo os comportamentos híbridos observados.
Na próxima secção debruçar-nos-emos sobre a dinâmica das perguntas e das
respostas, que completa as análise sobre a estrutura sequencial (1.3.) e a negociação
do turno de fala (1.4).

58 Os primeiros quatro critérios são propostos por Ilie (2005a) e o último por nós.

143
1.5 Responder às perguntas
Às perguntas incómodas a Sr.ª Ministra não consegue
responder. Não pode, é impossível responder, porque não
tem lógica absolutamente nenhuma a resposta que me pode
dar. (DAR, 17/02/2011 – I Série — Número 52)

Neste capítulo concentramo-nos no fundamento do discurso parlamentar, o


binómio fundamental de qualquer interação verbal, a pergunta e a resposta.
Fazer perguntas e dar respostas são atividades prevalentes nas reuniões
parlamentares em geral e representam a razão de ser dos debates em que o parlamento
exerce a sua prerrogativa de fiscalizar a atividade governamental59.
No entanto, o consenso sobre o decorrer desta atividada nem sempre ocorre. O
exemplo (81) – ver supra 1.4.1. O papel do moderador –, em que os intervenientes
questionam a qualidade das respostas é simtomático, como veremos, constituindo uma
preocupação frequente nos debates. Outro exemplo, (60), em que o locutor solicita
repetidamente as respostas evitadas pelo locutor – ―E as três perguntas?‖; ―Fiz-lhe três
perguntas!‖ – é longe de ser singular (ver supra 1.3.2.4 A sessão de questões e respostas).
Por um lado, os locutores que fazem perguntas frequentemente se queixam
que os alocutários não respondem e, por outro lado, os que respondem defendem que
cumprem devidamente o seu papel, como no exemplo (94):

(94) O Sr. Manuel Pizarro (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Sr.
Ministro da Saúde, Srs. Membros do Governo: Não responder às perguntas
parlamentares é uma estratégia, como qualquer outra, que pode fazer
esquecer as respostas mas não faz apagar as perguntas que são pertinentes. [...]
O Sr. Ministro tem ainda algum tempo que podia aproveitar para tentar,
pelo menos, responder às perguntas. [...]
O Sr. Ministro da Saúde: — Sr. Presidente, Sr. Deputado Manuel Pizarro, de facto, a
crítica vinda dessa bancada ao facto de o Governo não responder às
perguntas é no mínimo curiosa, até porque respondemos, sistematicamente,
a todas as perguntas! (Reunião plenária de 11 de abril de 2012)

Tomando em consideração esta situação, tentaremos neste capítulo ver qual


seria a tipologia das perguntas feitas nos debates parlamentares 60 , as estratégias
empregues pelos locutores para responder (ou evitar responder), partindo de algumas
reflexões metalinguísticas feitas pelos próprios intervenientes.

59 No parlamento britânico estes debates chamam-se Question Time [Tempo de Perguntas] e na


Assemblée Nacionale francesa, Questions au Gouvernement [Perguntas ao Governo].
60 Ver Beard (2000: 98, nosso negrito): ―Because it is the politicians‘ answers that are criticised as

being evasive, it is usually only the answers that are analysed in any great detail. What is often
forgotten in this process, though, is that the question and the answer form a linguistic
pair, and that you cannot analyse one, without looking at the other.‖

145
1.5.1 ―Não responder às perguntas parlamentares é uma estratégia...‖
Nas reuniões parlamentares do nosso corpus, os membros do governo – o
primeiro ministro (no caso de Portugal e da Roménia), ministros, Secretários de
Estado – comparecem perante os parlamentares para responder a perguntas sobre as suas
ações políticas. As reuniões decorrem segunto regras bem definidas nos regimentos,
que propiciam aos intervenientes fazer perguntas e responder, o diálogo ritualizado e
institucionalizado sendo a essência dos trabalhos. Por vezes as reuniões têm a duração
de mais de seis horas 61 , para permitir aos oradores inscritos na lista esgotar as
perguntas que querem colocar e aos convidados fornecer as repostas62.
No entanto, uma das considerações metalinguísticas mais frequentes nos
debates – sobretudo no sub-corpus português – diz respeito à qualidade das respostas que
os oradores dão, sendo prevalentes as acusações de não se ter respondido à(s)
pergunta(s) ou não se ter dado uma resposta adequada às mesmas. Aliás, trabalhos
sobre o discurso político – eleitoral, parlamentar, mediático, etc. – tratam este fenómeno,
salientando, também, o outro lado da moeda, igualmente importante, as caraterísticas das
perguntas dirigidas aos políticos:

One of the most common accusations levelled at politicians is that they


never answer the question. Tony Blair, when Leader of the Opposition in
Britain, would often taunt the then Prime Minister John Major by demanding an
answer to a question ‗Yes or No‘. [...] There are in reality many reasons why
politicians might not want to give a yes/no answer, not least because in an
age when every comment can be recorded, stored and retrieved for playback at a
moment‘s notice, they are afraid that a straight answer will return to haunt
them.The important linguistic point [...] is that the terms ‗straight question‘
and ‗straight answer‘ can be misleading, because they suggest that
questioning and answering are essentially straightforward (Beard 200: 97,
nosso negrito).

There is a widespread perception that politicians are frequently evasive


under questioning from members of the news media, and this perception is
not without merit. [...] The impetus to resist a line of questioning is
understantable, given the adversarial character of contemporary journalism.
(Clayman 2001: 403, nosso negrito)

61 A reunião mais longa do corpus é a audiência pública da Comissão de Fiscalização


Financeira e Controle de 4 de dezembro de 2012, com a duração de 06h49min.
62 Ver também Beard (2000: 98): ―[...] question-and-answer sessions with politicians, whether in

Parliament or on radio or television, carry the expectation that the respondent to the questions
will give fairly detailed answer‖.

146
Vejamos alguns exemplos do sub-corpus português, em que os locutores
acusam os intervenientes de não responderem às perguntas dirigidas. Como podemos
observar, os protestos ocorrem tanto em apartes (95), como nas intervenções
propriamente ditas (96)-(98), podem dizer respeito às respostas de terceiros (95)-(97)
ou, de uma forma mais direta, aos alocutários (98).

(95) O Sr. Ministro de Estado e das Finanças: — Estranho que venha perguntar
ao Ministro das Finanças aquilo que podia ter perguntado ao Ministro dos
Transportes, porque ninguém melhor do ele pode responder a muitas dessas
questões, dado que é ele que tutela o sector.
O Sr. Luís Menezes (PSD): — É que ele não responde!
[...]
O Sr. Ministro de Estado e das Finanças: — As questões que me colocou
quanto à política da água e ao saneamento são perguntas apropriadas para a
Ministra do Ambiente.
O Sr. Luís Menezes (PSD): — Também não responde! É como o Ministro
das Obras Públicas! (Reunião plenária de 27 de janeiro de 2011)

(96) O Sr. Hélder Amaral (CDS-PP): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados:
Quero começar por lembrar ao Sr. Ministro que perdemos uma boa
oportunidade de fazer um debate de pergunta-resposta, visto que o Sr.
Ministro não responde. [... ] No entanto, tentei com boa vontade. Fiz-lhe uma
pergunta em um minuto e quarenta e poucos segundos no sentido de saber se
entregou ou não o contrato do TGV no Tribunal de Contas e verifiquei que
não respondeu, mas espero que possa vir a fazê-lo. Aliás, à pergunta feita
pela bancada do PSD, junto, de novo, a minha pergunta. (Reunião plenária
de 26 de janeiro de 2011)

(97) O Sr. Presidente: — O Sr. Deputado Jacinto Serrão pediu a palavra para
que efeito?
O Sr. Jacinto Serrão (PS): — Sr. Presidente, para comunicar à Mesa que vou
entregar a V. Ex.ª, por escrito, perguntas para dirigir ao Sr. Ministro, a
fim de ele responder às minhas questões.
O Sr. Presidente (Guilherme Silva): — O Sr. Deputado já fez as perguntas ao Sr.
Ministro.
O Sr. Jacinto Serrão (PS): — Mas o Sr. Ministro não respondeu.
O Sr. Presidente (Guilherme Silva): — Sr. Deputado, de qualquer maneira, fica
registada a sua interpelação. (Reunião plenária de 10 de maio de 2012)

(98) O Sr. José Luís Ferreira (Os Verdes): — Sr. Ministro, para além da banca,
quem é que fica a ganhar com este negócio? Era bom que o Sr. Ministro não
fizesse como há pouco, que não respondeu às questões que lhe coloquei,

147
e agora se pronunciasse sobre esta matéria, porque os portugueses têm o
direito de conhecer os exatos termos desta operação e de saber,
sobretudo saber, quem ganha com o negócio. (Reunião plenária de 18 de
outubro de 2012)

Do ponto de vista pragmático, não responder às perguntas ou não dar a


resposta esperada significa violar uma ou mais máximas conversacionais 63 (Grice
1975), que constituem a base para as interações verbais desenvolvidas com base em
princípios de cooperação entre os locutores:
i) a máxima de quantidade – a intervenção deveria ser suficientemente informativa,
segundo o objetivo da interação;
ii) a máxima de qualidade – a intervenção deveria ser verdadeira;
iii) a máxima de relevância – deve haver uma coincidência ou de convergência entre o
assunto da pergunta e o da resposta;
iv) a máxima de modo – a resposta deve ser formulada com clareza e sem
ambiguidades.
Os desvios dos princípios expressos por essas máximas determinam, em parte,
a criação de uma atmosfera agonal dos debates parlamentares.
Por outro lado, acusar o interlocutor de evitar as respostas solicitadas é uma
estratégia de ameaçar a sua imagem, retratando-o como uma pessoa não-cooperante,
que foge às regras do jogo democrático de qualquer debate político. E, tomando em
consideração a dimensão essencialmente pública do discurso parlamentar – os
políticos falam entre si, mas visam também audiências muito variadas –, os eleitores, os
cidadãos tornam-se o argumento fundamental para legitimar as perguntas e para
justificar a necessidade de receber respostas adequadas, como no exemplo (98): ―os
portugueses têm o direito de conhecer‖. Aliás, a falta de respostas é uma justificação
para alterar, por vezes, as regras do debate, os locutores fazendo perguntas não ao
interlocutor mais adequado, mas ao que parece mais disponível, como em (95):
―venha perguntar ao Ministro das Finanças aquilo que podia ter perguntado ao
Ministro dos Transportes‖, ―são perguntas apropriadas para a Ministra do Ambiente‖.
No ―calor dos debates‖, os locutores fazem constantemente avaliações
negativas dos trabalhos e insistem em solicitar as respostas: ―perdemos uma boa
oportunidade de fazer um debate de pergunta-resposta‖, ―à pergunta feita pela
bancada do PSD, junto, de novo, a minha pergunta‖ como em (96), ou pedem
respostas escritas: ―que vou entregar a V. Ex.ª, por escrito, perguntas para dirigir ao
Sr. Ministro, a fim de ele responder às minhas questões‖, como no exemplo (93).
Embora com menos frequência, estas acusações ocorrem também nos debates
brasileiros que integram o nosso corpus. Os locutores propõem soluções alternativas,
que não são estipuladas no regimento, como escrever as respostas: ―o apelo [...] no

63 Para a terminologia em português usámos Gouveia (1996: 403-405).

148
sentido de que as questões fossem anotadas‖, para avaliar o desempenho [...] razoável das
mesmas (99). Aliás, os locutores insistem que não se respondeu às perguntas colocadas,
mencionando este facto duaz vezes em (99) e quatro vezes em (100). Estas avaliações
metalinguísticas reforçam o papel essencial dos locutores, de fazer – ou sobretudo de
obter – respostas dos membros do governo, pois o grau mais elevado de assertividade,
de insistência, como podemos observar em (101a)-(101c) contribui também para a
criação de uma imagem de si positiva. Se as expectativas – institucionais 64 e
conversacionais 65 – do contrato de comunicação deste tipo de interação é de os
parlamentares colocarem perguntas e os membros do governo responderem, reforçar os
papéis desempenhados por cada uma das partes tem consequências para o trabalho de
figuração (facework): quem tiver o papel de fazer perguntas cria uma imagem de si
positiva ao mostrar a sua capacidade de interrogar, de questionar66 (101a)-(101c), ao
passo que quem tiver o papel de reponder pode veicular uma imagem de si positiva
mostrando que dá as respostas esperadas (102a)-(102c).

(99) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Sr. Ministro, o senhor


iniciou sua fala surpreso com o apelo do Líder Duarte Nogueira no sentido de
que as questões fossem anotadas para que houvesse um desempenho de
respostas razoável em função das perguntas formuladas. O senhor nos pediu
inclusive que não duvidássemos da capacidade de sua memória. Entretanto,
tenho de relembrar V.Exa. de que fiz uma pergunta sobre os gastos do

64 Ver os artigos correspondentes do Regimento da Assembleia da República de Portugal: ―Uso


da palavra. Artigo 76.º Uso da palavra pelos Deputados. 1 — A palavra é concedida aos
Deputados para: […] e) Fazer perguntas ao Governo sobre quaisquer actos deste ou da
Administração Pública‖; ―Artigo 78.º Uso da palavra pelos membros do Governo 1 — A
palavra é concedida aos membros do Governo para: [...] c) Responder a perguntas de
Deputados sobre quaisquer actos do Governo ou da Administração Pública‖.
65 Lyons (1977: 754-755, nosso negrito) defende que as expectativas que os locutores têm em relação

às respostas advém das convenções conversacionais e não necessariamente da força ilocutória das
perguntas: ―It is true that, in normal everyday conversation, we generally expect the questions
that we utter to be answered by our addressee. But this is readily explained in terms of the
general conventions and assumptions which govern conversation. [...] questions normally
expect and obtain an answer is a conventional association between the utterance of a
question and the expectation of an answer from the addressee. In principle, however, this
association is independent of the illocutionary force of questions‖.
66 Clayman (2001: 404, nosso negrito) fala da importância da agressividade para o prestígio profissional

no caso de outro tipo de discurso político, as entrevistas mediáticas: ―Journalist-interviewer gain


professional status on the basis of aggressive questioning and they pride themselves on the
skill with which they can pursue and pin down recalcitrans interviewees‖. Charaudeau (2006, nosso
negrito) fala da interpellation dénonciatrice: ―lancée à la cantonade, s‘adresse à un public qui est pris à
témoin, met en cause la responsabilité d‘un tiers (la mise en cause peut même être
accusatrice)‖. Na nossa opinião, a mesma situação ocorre no debate parlamentar, a oposição
ganhando prestígio político através de perguntas agressivas feitas ao governo.

149
ENEM nos anos que se sucederam desde 2008, pergunta a que o senhor
não respondeu1. Eu gostaria que o senhor falasse sobre qual o valor
efetivamente despendido no ENEM no ano de 2010, e mais uma vez digo por
que faço esta pergunta. [...] Como disse, o senhor não respondeu à
pergunta2, e eu gostaria de uma resposta para ela. (Audiência Pública N°:
1963/11 DATA: 23/11/2011)

(100) O SR. DEPUTADO ANTHONY GAROTINHO - Isto aqui é uma


Comissão de Fiscalização, estamos aqui numa Comissão de Fiscalização, e não
numa festa de confraternização. [...] Eu lamento. A Ministra não me
respondeu1 por que ela pagou ou autorizou o pagamento, já que ela é
ordenadora de despesa, é Ministra, de 5,2 milhões, quando ainda quatro
embarcações estavam no estaleiro da Intech Boating. Não respondeu3.
S.Exa. não me respondeu2 a respeito do comentário do Luiz Sérgio, meu
colega e colega dela, que disse que quando assumiu estava tudo largado. [...] E,
por último, S.Exa. não disse4, agora que ela conhece o contrato, se faria
ou não. S.Exa. fez, realmente, uma belíssima explanação a respeito do atum, e a
nossa preocupação aqui é com o robalo. (Audiência Pública N°: 0594/12
DATA: 16/05/2012)

(101a) O SR. DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA - Eu estou cumprindo


aqui o meu papel de fiscalizar o Governo. (Audiência Pública N°: 1857/11
DATA: 10/11/2011)
(101b) O SR. DEPUTADO FERNANDO FERRO - A Oposição cumpre o
seu papel de fiscalizar, e é importante que se faça isso. (Audiência Pública N°:
0646/12 DATA: 22/05/2012)
(101c) O SR. MINISTRO FERNANDO BEZERRA - Lembro que saio daqui
cada vez mais crente no papel de fiscalização e de contribuição que o
Congresso Nacional oferece às políticas públicas do Governo Federal.
(Audiência Pública N°: 0646/12 DATA: 22/05/2012)

(102a) O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Acredito que respondi as


indagações do Deputado, Sr. Presidente. (Audiência Pública N°: 1940/11
DATA: 23/11/2011)
(102b) O SR. MINISTRO ALEXANDRE PADILHA - Acho que respondi a
todas as questões. (Audiência Pública N°: 0252/11 DATA: 12/04/2011)
(102c) O SR. ROBERTO TRONCON FILHO - Mas eu respondi agora.
(Audiência Pública N°: 1690/12 DATA: 04/12/2012)

Nos debates romenos há também acusações de não se ter respondido às


perguntas, relacionadas com a função fundamental das moções simples, que
pretendem obter esclarecimentos sobre o funcionamento setorial do governo. Os
locutores defendem que as respostas dadas pelos intervenientes são acusações aos

150
governos anteriores (103) ou avaliações de desempenho sem relação com as perguntas
feitas na moção (104). No primeiro exemplo, a avaliação metalinguística visa o lado
confrontacional do debate parlamentar, ao passo que o segundo salienta o evitamento,
enquanto estratégia de comunicação política adotada por alguns locutores.

(103) Domnul Horia Cristian: - Toate astea sunt subiectele unei moţiuni simple
şi, din păcate, toate aceste dezbateri la care am asistat nu fac decât să încingă
spiritele şi în loc ca aceste întrebări care au fost ridicate prin această
moţiune să primească răspunsuri clare, din păcate, n-au primit decât
riposte şi acuzaţii asupra guvernărilor trecute. (Reunião da Câmara dos
Deputados, 9 de maio de 2011)
[Domnul Horia Cristian: - Todos estes são assuntos de uma moção simples e,
infelizmente, todos os debates a que assisti só aumentam as disputas e, em vez
de estas perguntas colocadas na moção receberem respostas claras,
infelizmente, recebem ataques e acusações sobre os governos anteriores.]

(104) Domnul Relu Fenechiu: - Dar, doamnă ministru, nu vă supăraţi, nu ne-aţi


dat răspunsurile la întrebările din aceasta moţiune. Or, acesta era rolul
acestei moţiuni. Dumneavoastră aţi venit şi ne-aţi prezentat un raport
triumfalist de activitate al dumneavoastră. Dacă doream acest lucru, stabileam
prin ordinea de zi un raport de activitate al ministrului. (Reunião da Câmara dos
Deputados, 21 de novembro de 2011)
[Domnul Relu Fenechiu: - Mas, senhora ministra, por favor, não respondeu às
perguntas desta moção. E era este o papel da moção. A senhora veio e
apresentou um relatório triunfalista sobre a sua atividade. Se tivéssemos querido
isso, teríamos estabelecido na ordem do dia um relatório da atividade ministerial.]

Esta dissensão quanto às perguntas e respostas faz parte da lógica agonal dos
debates parlamentares e relaciona-se também uma dimensão histriónica (Ilie
2003a; Ilie 2010d), que permite uma comparação destas interações com o
discurso teatral:

―MPs get engaged in a theatre-like dialogic game between adversarial positions


in a spirit of competitiveness and agonistic behaviour. To a large extent, the
MPs‘ interaction in parliament is a competition for power and leadership
roles, but also for fame and popularity.‖ (Ilie 2010d: 5-6)

Sabendo que é impossível convencer os adversários políticos a abdicar das suas


convicções, os oradores usam as perguntas e as respostas não para pedir e obter
informações, mas sim para uma mise em scène da disputa política, com o objetivo de
ganhar prestígio junto de públicos diferentes.

151
Após a apresentação destas considerações metalinguísticas sobre a qualidade das
respostas nos debates que integram o nosso corpus, tentaremos fazer uma classificação
das perguntas e, num segundo momentro, analisaremos algumas estratégias de
evitamento ou de vagueza – lexical e / ou textual – usadas nas respostas parlamentares.

1.5.2 Uma tipologia das perguntas


Afinal, ficámos a saber que, orgulhoso, o Ministro das
Finanças, quando se levanta, de manhã, olha-se ao espelho
e pergunta: «Espelho meu, espelho meu, há alguém que
privatize mais do que eu?». (DAR, 28/01/2011 – I
Série — Número 44)

No seu livro dedidado à interrogação, a linguísta romena Andra Şerbănescu


(2002) propõe uma caraterização das perguntas feitas nas interpelações parlamentares
e dá três exemplos de questões que possam ser colocadas neste tipo de interações: i)
perguntas que solicitam dados concretos, ii) perguntas retóricas, iii) perguntas de ―ligação
conversacional‖.

În interpelarea parlamentară, întrebarea este o modalitate de a supune


atenţiei şi dezbaterii publice unele aspecte ale actului guvernării,
solicitând reacţii din partea receptorului vizat. […] Întrebarea este complexă,
pusă cu scopul de a releva erorile adversarilor politici. Grupările politice
promovează anumite tipuri de discurs; pot apărea întrebări care cer date
precise în legătură cu actul guvernării, întrebări retorice, prin care emiţătorul
sancţionează, de fapt, o greşeală de guvernare, întrebări „legătură
conversaţională‖, cu funcţie de structurare a unui discurs, remintind „dreptul
parlamentarului de a pune întrebări‖ (Şerbănescu 2002: 7, nosso negrito).
[Na interpelação parlamentar, a pergunta é uma modalidade de submeter à
atenção e ao debate público alguns aspetos do ato da governação, pedindo
reações do receptor visado. […] A pergunta é complexa, sendo colocada com
o objetivo de evidenciar os erros dos adversários políticos. Os grupos
políticos promovem certos tipos de discurso; podem surgir perguntas que
solicitam dados precisos sobre o ato de governação, perguntas retóricas,
através das quais o emissor sanciona, de facto, um erro de governação,
perguntas de ―ligação conversacional‖, com a função de estruturar um
discurso, lembrando ―o direito do parlamentar de fazer perguntas‖.]

Em outra classificação das perguntas, baseada em critérios sintáticos, Beard


(2000: 98) destaca três categorias: i) as perguntas sim / não – a resposta esperada é
simples, podendo o interveniente confirmar ou infirmar os pressupostos exprimidos
na pergunta, como em (105); uma variedade seriam as interrogativas tag, que em

152
português podem ser equivalentes, partículas67 como não é verdade?, não é assim?, não é?,
como em (106) –, ii) as perguntas wh68 – introduzidas por advérbios e pronomes: como,
quando, onde, quem, que, o que, porque, etc. (107) –, iii) perguntas disjuntivas, que oferecem ao
interlocutor a possibilidade de escolher entre duas alternativas (108).

(105) O Sr. Nuno Sá (PS): — Sr. Ministro, essa nomeação de alguém com
um currículo puramente partidário confirma-se? (Reunião plenária de 11 de
abril de 2012)

(106) O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Quando veio a crise, por


exemplo, nós diminuímos o Imposto de Renda, não é? (Audiência Pública
N°: 1940/11 DATA: 23/11/2011)

(107) O Sr. Jorge Machado (PCP): — A pergunta que lhe quero fazer é a
seguinte: quem é que está a empobrecer no nosso País? (Reunião plenária de
26 de outubro de 2011)

(108) A Sr.ª Cecília Meireles (CDS-PP): — Pergunto, muito claramente: é


verdade ou é mentira? (Reunião plenária de 16 de março de 2011)

Bull (1994: 122) propõe uma classificação mais complexa e identifica três tipos
de perguntas interrogativas (perguntas sim / não, perguntas wh-, perguntas disjuntivas) e três tipos
de perguntas não-interrogativas (declarativas, amodais, indiretas). Para as perguntas wh-
identifica sete categorias: what [o que], who [quem], how [como], why [porque], when [quando],
where [onde], which [qual]. As perguntas amodais [moodless] são as que não contêm verbos
em modos pessoais: Que números?, Em que partido?, Que declarações?, etc.
Do ponto de vista funcional, as perguntas colocadas nos debates parlamentares
podem ser classificadas em três categorias69: i) perguntas informativas, através das quais o
locutor pretende obter dados sobre a governação (109a) – estimativa do impacto do
aumento das taxas moderadoras – e (109b) – o prazo para o reembolso do imposto

67 Ver uma análise mais detalhada das interrogativas tag em português em Mateus et al. (2003:
477-479).
68 Terminologia usada na linguística de expressão inglesa, visto que nesta língua a maioria dos

advérios e pronomes interrogativos começa com wh-: who, which, where, why, when, what, how.
Lyons (1977: 757) prefere o termo x-questions, x designando a informação que falta, ao passo
que o pronome ou o advérbio interrogativo é a expressão linguística desta informação.
69 Chilton (2004: 92, nosso negrito) menciona os três tipos de perguntas na sua análise sobre o discurso

parlamentar britânico: ―The British parliamentarians‘ rule book declares that questions have two
functions: ‗to obtain information or to press for action‘ [...] political commentators say that
questions are also ‗weapons in the party battle‘, and maintain that asking for information is now
an unimportant function‖.

153
sobre o rendimento de pessoas singulares (IRS) –, ii) perguntas diretivas, em que o
locutor pretende que o interlocutor faça uma ação (110a) – pede-se o envio de um
relatório para a Assembleia da República – e (110b) – solicita-se ao governo a
celebração de protocolos – e iii) perguntas avaliativas – frequentes no discurso político –,
que contêm pressuposições e asserções e através das quais o locutor expressa, de facto,
julgamentos de valor (111a) – o caminho seguido pelos governantes vai destruir o país
– e (111b) – as medidas do ministério significam a morte da ciência e a desvalorização
do conhecimento –; se o interlocutor considerar que as pressuposições ou as asserções
das perguntas avaliativas prejudicam a sua imagem ou se não estiver de acordo com as
mesmas, vai tentar contrariá-las70, dando a impressão que evita responder com clareza.

(109a) O Sr. António Serrano (PS): — Confirma-se que passaremos dos


actuais 70 milhões de euros para cerca de 400 milhões de euros? Qual vai
ser o montante estimado de incobráveis nos hospitais se as taxas moderadoras
atingirem o seu valor máximo permitido por lei? (Reunião plenária de 12 de
outubro de 2011)

(109b) A Sr.ª Cecília Honório (BE): — Sr. Presidente, Sr. Ministro de Estado e das
Finanças, a minha pergunta é a seguinte: qual é o prazo-limite que o Governo dá
para o reembolso do IRS? (Reunião plenária de 26 de abril de 2012)

(110a) O Sr. Pedro Mota Soares (CDS-PP): — Quando é que o Sr. Ministro
vai enviar à Assembleia da República este relatório, que é obrigatório nos
termos da lei? (Reunião plenária de 27 de janeiro de 2011)

(110b) O Sr. Jorge Fão (PS): — Sr. Ministro, de entre estes projetos, alguns
estão concluídos. [...] Sr. Ministro, quando é que o Ministério da Saúde
celebra os protocolos no sentido de essas unidades entrarem em
funcionamento? (Reunião plenária de 11 de abril de 2012)

(111a) O Sr. Pedro Filipe Soares (BE): — Até quando, Sr. Ministro, vai insistir
neste caminho, que é o da destruição do País? (Reunião plenária de 26 de
abril de 2012)

(111b) O Sr. Carlos Zorrinho (PS): — Como pode aceitar medidas que estão
a matar a ciência e a desvalorizar o conhecimento como fator de
competitividade e mobilidade social? (Reunião plenária de 10 de maio de 2012)

70Beard (2000: 99, nosso negrito): ―One reason why politicians have to be very careful when
answering a question is that they cannot allow presuppositions and assertions to go
unchallenged if they disagree with them. In challenging them, it may then appear that they
are not answering the question.‖

154
Relevante na análise das perguntas dos debates parlamentares é a estrutura. Se
nas interações do dia-a-dia as perguntas são breves, privilegiando a eficácia na
obtenção de informações – Que horas são?, Onde estão as crianças?, Que filme passa hoje no
TVI? só para darmos alguns exemplos, bastante simplificadores –, nas reuniões
parlamentares a pergunta, na sua forma institucionalizada71 – no que diz respeito ao
turno de fala, à duração, ao conteúdo, ao uso da linguagem, etc. – tem uma estrutura
bem mais complexa. Na maioria dos casos, as perguntas parlamentares são
construções discursivas complexas, que contêm estruturas argumentativas sofisticadas,
com diferentes exemplos, comparações, contextualizações, pressuposições e asserções
expressas de forma explícita ou implícita pelo locutor.
A duração da pergunta feita por um deputado é de alguns minutos e a sua
organização é essencialmente argumentativa e avaliativa, tendo, muitas vezes, o objetivo
de ameaçar a imagem pública do interlocutor, o exemplo (112) sendo ilustrativo para
as perguntas parlamentares.
O locutor organiza a sua intervenção de forma a evidenciar uma das críticas
frequentes no discurso público, a incoerência dos atores políticos; a justificação baseia-se
numa análise construída no antagonismo oposição vs. poder, ou, na terminologia de
Charaudeau (2005), a instância adversária vs. a instância política, mostrando como um ator
político – neste caso, o partido CDS e a ministra Assunção Cristas, antiga deputada da
oposição – pode promover políticas opostas em função do papel que tem na arena
política. O locutor enumera sete posições políticas assumidas por CDS quando era
oposição – aliás, a expressão serve para organizar a estrutura dos argumentos – e seis
políticas desenvolvidas enquanto parte do governo – introduzidas a nível discursivo
preponderantemente por agora, que expressa também a dimensão temporal da
contradição –, para justificar a acusação de incoerência.
Toda a argumentação construída nos contrários quando era oposição vs. uma vez no
governo, quando era oposição vs. agora – do ponto de vista pragmático trata-se de frases
assertivas – é um preâmbulo para a pergunta propriamente dita – ―a pergunta que lhe
deixo é muito simples‖ – a frase interrogativa que encerra a intervenção: ―a Sr.ª
Ministra mudou de opinião quando passou da oposição para o Governo‖.
Outro aspeto importante é o locutor destacar a incoerência entre discurso político
e ação política: ―incoerências entre aquilo que defendem enquanto oposição e aquilo que
praticam enquanto governo‖. Enquanto oposição, um partido age sobretudo a nível
discursivo, fiscalizando o acto da governação, ao passo que enquanto parte do
governo, é um ator da ação política governativa, com impacto direto no
funcionamento do Estado. Os verbos usados nos exemplos que sustentam a oposição

71Não incluímos aqui as perguntas feitas nos apartes, que têm um caráter espontâneo e que são
muito breves: O Sr. Bruno Dias (PCP): — E quanto à Refer? (Reunião plenária de 26 de janeiro de
2011), O Sr. Bernardino Soares (PCP): — À custa de quê? (Reunião plenária de 21 de março de
2012), O Sr. Manuel Pizarro (PS): — E o hospital de Todos-os-Santos?! (Reunião plenária de 11 de
abril de 2012).

155
entre falar e agir expressam também esta oposição fundamental: defendia (5
ocorrências), mostrava-se indignado vs. criou, juntou, aplica, atrasou, não quer, aumentou.

(112) O Sr. João Ramos (PCP): — Sr.ª Presidente, Sr.ª Ministra, como estamos a
discutir políticas alternativas, pergunto à Sr.ª Ministra quais foram as
posições da Sr.ª Deputada Assunção Cristas e do grupo parlamentar do
defunto partido da lavoura. Infelizmente para o País, para a agricultura e para os
agricultores, a intervenção política do CDS está carregada de
INCOERÊNCIAS entre aquilo que defendem enquanto oposição e aquilo
que praticam enquanto governo. Em matéria de agricultura, nem pode usar o
jogo do «estamos no Governo, mas não estamos de acordo», tendo em conta
que a responsabilidade direta é do CDS.
Quando o CDS estava na oposição1, defendia que se valorizasse a agricultura,
desde logo na constituição do Governo. Uma vez no poder, criou um ministério
que, para além da agricultura e do mar, juntou o ambiente, o ordenamento do
território, o poder local e a habitação. Trata-se de uma amálgama de assuntos
que, é fácil de ver, pouco valorizará a agricultura.
Quando era oposição2, defendia um plano de emergência para o setor
leiteiro. Agora1, passados 16 meses de governação, tempo, portanto, mais do
que suficiente para acudir a uma emergência, o custo da alimentação animal e de
outros fatores de produção não param de aumentar, mas o preço do leite pago
ao produtor já desceu desde o início do ano entre 2,5 a 4,5 cêntimos por litro, e
as explorações leiteiras estão a fechar todos os dias.
Quando era da oposição3, o CDS mostrava-se indignado com a asfixia da
grande distribuição aos agricultores. O instrumento criado para estudar a
intervenção nessa matéria, a PARCA, em onze meses de trabalho foi uma
«montanha que acabou por parir um rato».
Quando era oposição4, o CDS defendia a simplificação das candidaturas
ao PRODER, a decisão e o pagamento dentro de prazos e anunciava
complicações informáticas na apresentação de candidaturas. Agora2, uma
associação de produtores florestais candidatou intervenções em 9500 ha no
litoral alentejano e o processo decorre desde julho de 2011 — 15 meses,
portanto — e não há resposta porque não se conseguem contornar os
problemas informáticos do sistema.
Quando era oposição5, o CDS aprontava como desafio o pagamento das
dívidas aos agricultores. Agora3, em sede de Orçamento do Estado, aplica o
IVA às transações e prestações de serviços até agora isentas.
Quando era oposição6 , o CDS defendia uma aposta na produção
nacional. Agora4 , o Governo atrasou a conclusão do empreendimento
do Alqueva, viu-se forçado a assumir politicamente essa conclusão em
2015, não quer encontrar mecanismos de financiamento para cumprir esse
compromisso e aumentou as áreas e as culturas afetas ao regime do
«pagar para não produzir».

156
O CDS defendia7 ainda a redução da taxa do gasóleo agrícola, a reposição da
eletricidade verde e a existência de linhas de crédito para a agricultura.
Por isso, Sr.ª Ministra, a pergunta que lhe deixo é muito simples: a Sr.ª
Ministra mudou de opinião quando passou da oposição para o Governo
ou nunca acreditou naquilo que defendia e fazia-o apenas para alimentar
a aura do partido da lavoura? (Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

Poderíamos esquematizar a intervenção/a pergunta de maneira seguinte:

ESTRUTURA DE UMA PERGUNTA PARLAMENTAR

SEQUÊNCIA OPOSIÇÃO GOVERNO


quando era oposição (6) uma vez no poder
agora (4)
PERGUNTA pergunto à Sr.ª Ministra quais foram as posições da Sr.ª
INICIAL Deputada Assunção Cristas
AVALIAÇÃO & a intervenção política do CDS está carregada de INCOERÊNCIAS
ACUSAÇÃO aquilo que defendem enquanto aquilo que praticam enquanto
oposição governo
EXEMPLO1 defendia que se valorizasse a criou um ministério que [...] uma
agricultura amálgama de assuntos que [...]
pouco valorizará a agricultura
EXEMPLO2 defendia um plano de emergência e as explorações leiteiras estão a
para o setor leiteiro fechar todos os dias
EXEMPLO3 mostrava-se indignado com a a PARCA, em onze meses de
asfixia da grande distribuição aos trabalho foi uma «montanha que
agricultores acabou por parir um rato»
EXEMPLO4 defendia a simplificação das não há resposta porque não se
candidaturas ao PRODER [...] conseguem contornar os problemas
anunciava complicações informáticos
informáticas
EXEMPLO5 aprontava como desafio o aplica o IVA às transações e
pagamento das dívidas aos prestações de serviços até agora
agricultores isentas
EXEMPLO6 defendia uma aposta na produção atrasou a conclusão do
nacional empreendimento do Alqueva [...]
aumentou as áreas e as culturas
afetas ao regime do «pagar para
não produzir»

157
EXEMPLO7 defendia ainda a redução da taxa
do gasóleo agrícola, a reposição da
eletricidade verde e a existência de
linhas de crédito para a agricultura
PERGUNTA a Sr.ª Ministra mudou de opinião quando passou da oposição para o
FINAL & Governo ou nunca acreditou naquilo que defendia e fazia-o apenas para
ACUSAÇÃO alimentar a aura do partido da lavoura?
Tabela nº 2. Estrutura de uma pergunta parlamentar.

As perguntas parlamentares são, de facto, construções textuais complexas, que


podem englobar estruturas muito diferentes do ponto de vista formal: orações
declarativas, interrogativas, exclamativas. Muitas vezes os locutores fazem um
enquadramento geral da questão, apresentando estatísticas, políticas anteriores, fazem
comparações com situações semelhantes, etc. e só no fim da intervenção fazem a
pergunta propriamente dita.
Outro tipo de pergunta parlamentar, que poderíamos chamar interrogação em
cascata, – ver infra os exemplos (113) e (114) – ocorre também com alguma frequência
nos debates. Os locutores aproveitam o tempo disponível para colocar múltiplas
questões, o que dificulta as respostas completas, razão pela qual, como veremos, há
muitas respostas parciais oferecidas pelos oradores.

1.5.3 Estratégias de evitamento


Não podemos utilizar neste debate argumentos demagógicos
ou argumentos que assentam numa irresponsabilidade, que,
aliás, foi aqui patente em numerosas intervenções. (DAR,
27/01/2011 – I Série — Número 43)

A estrutura das perguntas parlamentares – com avaliações negativas ou


pressuposições possivelmente ameaçadoras para a imagem dos adversários políticos –
coloca desafios reais aos respondentes. Por um lado, devem respeitar a organização
formal dos debates e responder às perguntas que lhes são colocadas, mas por outro
lado, não devem contribuir através das mesmas respostas aos possíveis prejuízos para
a imagem pessoal ou do grupo a que pertencem. Estudos que se concentraram
sobretudo na dinâmica das perguntas e das respostas em entrevistas mediáticas
(Bavelas et al 1988; Bull & Mayer 1993; Bull et al 1996; Bull 1994; Clayman 2001;
Gruber 1993; Harris 1991) falam das tensões evidentes que os políticos enfrentam nos
debates (mediáticos). Em primeiro lugar, é difícil manter o equilíbrio entre o
cumprimento das expectativas sociais, institucionais e conversacionais, ou seja responder
devidamente às perguntas agressivas e os possíveis riscos a que se expõem: prejudicar a imagem
pessoal (respondendo a certas críticas ou ataques), expressar opiniões sobre assuntos
controversos (afastanto uma parte dos eleitores). Em segundo lugar, muitas vezes é

158
preciso mitigar da melhor forma as possíveis consequências para a imagem pessoal
que decorrem das reações perante as perguntas agressivas, sabendo que recusar-se a
responder é uma atitude geralmente sancionada pelos locutores ou pelo público, dar
repostas falsas pode-se tornar problemático no futuro quando informações adicionais
aparecerem no espaço público.
Analisando debates mediáticos com políticos, Clayman (2001) propõe um
modelo explicativo bastante detalhado das estratégias de evitamento, distinguindo, em
primeiro lugar, entre a dimensão negativa de resistir às perguntas – i) recusar a dar
informações, ii) dar informações parciais, iii) dar respostas curtas, sim ou não72 – e a
dimensão positiva de resistência (dizer coisas que não foram solicitadas nas perguntas): i)
mudar o assunto de forma significativa, ii) manter a resposta dentro do assunto, mas
cumprindo outro objetivo do que foi pedido73, iii) a resposta altera ligeiramente os
termos da pergunta, iv) a resposta desvia-se do assunto da pergunta e introduz
elementos novos. Em segundo lugar, Clayman (2001) apresenta práticas discursivas
abertas (overt practices) e encobertas (covert practices) que os oradores usam nas suas
intervenções para evitar as respostas. As práticas discursivas abertas são: i) mostrar
deferência para com o interlocutor (por exemplo, pedir a permisão para mudar de
assunto), ii) minimizar as divergências (através de caraterizações como só um breve
comentário), iii) justificar o desvio do assunto, iv) recusar-se a responder, sendo as
justificações neste último caso: as informações pedidas não se encontram disponíveis,
o tempo disponível não permite dar uma resposta completa, as negociações em curso
não permitem divulgar certas informações, invocar uma política geral (por exemplo
não responder às perguntar hipotéticas). Recusar a responder sem nenhuma
justificação é pouco frequente porque neste caso o locutor quebraria de forma brutal
as convenções da entrevista. As práticas encobertas seriam: i) repetir palavras da pergunta
ou usar pronomes anafóricos, sem responder, de facto à questão colocada; ii) fazer
uma caraterização ou uma reformulação da pergunta.
Bull & Mayer (1993: 662) propõem onze tipos de não-respostas identificadas
em entrevistas mediáticas com políticos britânicos: ignorar a pergunta, reconhecer a
pergunta, questionar a pergunta, atacar a pergunta, atacar o entrevistador, recusar-se a
responder, ―marcar um ponto‖ político (por exemplo, atacar os adversários políticos),
dar uma resposta incompleta, repetir a reposta, afirmar que a pergunta já foi
respondida, pedir desculpa, que oferecem uma gama bastante abrangente de
estratégias através das quais se pode evitar uma questão incómoda. Os autores

72 Clayton (2001: 413) considera que as repostas sim / não são formas de resistir às perguntas porque
nas entrevistas mediáticas, espera-se que os políticos ofereçam respostas detalhadas.
73 Por exemplo, quando perguntaram o senador Bob Dole se iria apoiar a recondução de Paul

Volcker como chefe do Federal Reserve Board, respondeu: ―Acho que ele foi muito eficiente‖.
A resposta tem o mesmo assunto, Paul Volcker, mas o seu objetivo não é afirmar (a não ser de
forma indireta, talvez implícita) a posição do locutor em relação à recondução, mas de fazer
uma avaliação do desempenho do chairman da Federal Reserve (o equivalente do Banco de
Portugal).

159
preferem o termo não-respostas em vez de evitamento – que tem uma interpretação
pejorativa, sugerindo a má-vontade dos entrevistados –, porque consideram que as
perguntas que contêm avaliações negativas ou pressuposições ou asserções
ameaçadoras para a imagem pessoal põem, de facto, o entrevistado, na situação
legítima de não responder.
Debruçando-se sobre os debates parlamentares, Rasiah (2010: 667) propõe um
modelo de análise em que incorpora tanto os três tipos principais de orações
interrogativas – perguntas sim / não, perguntas wh-, perguntas disjuntivas, –, como as
diferentes estratégias de evitamento, incluíndo algumas das classificações de Clayman
(2001). Rasiah introduz a categoria de respostas intermediárias, que engloba respostas às
peguntas com pressuposições ameaçadoras para a imagem do locutor, as respostas às
perguntas hipotéticas e as repostas em que o locutor afirma não ter as informações
necessárias. Porém, Rasiah, que trata o evitamento em debates parlamentares limita-se
a uma abordagem micro, bastante redutora, porque não toma em consideração a
construção textual da perguntas e não dá critérios claros sobre a classificação dos
quatro tipos de evitamento: total, significativo, médio e subtil. Aliás, a classificação das
perguntas baseada em critérios exclusivamente sintagmáticos não mostra a dinâmica
do diálogo parlamentar – en différé Cabasino (2001: 25), que permite construções
interrogativas complexas –, não toma em consideração as frases declarativas com valor
interrogativo e às quais os interlocutores reagem e não dá conta da reação dos
locutores perante ao que nós chamamos perguntas em cascata.

160
Figura nº 11. Perguntas e estratégias de evitamento (Rasiah 2010: 667).

161
O que constitui evitamento pode ser demasiado complicado para descrever
com pormenor. Nos exemplos que analisaremos a seguir selecionámos a situação mais
evidente de evitamento total, em que o locutor se recusa implicita ou explicitamente a
responder a uma pergunta.
Em (113), o locutor declara desde o início da sua intervenção que pretende
fazer ―três perguntas muito concretas‖ – aliás a auto-avaliação das questões como
―concretas‖ é bastante recorrente, sugerindo desta forma os locutores que as resposta
deveriam ter a mesma caraterística, ou seja ser concreta – que, do ponto de vista formal,
são perguntas sim / não74. À pergunta ―está de acordo em que...‖ a resposta imediata
seria: ―(sim) estou / não estou‖. Porém, o conteúdo das três questões torna-se
problemático para a imagem pública do interlocutor, uma vez que contém, por um
lado, decisões políticas difíceis – ―retirar subsídios de Natal e de férias‖ – e
pressupostos em relação aos quais há diferenças ideológicas significativas75 – ―se crie
emprego, facilitando os despedimentos‖ ou avaliações negativas claramente
expressadas: ―deixando o País arrastar-se na depressão, na estagnação e na recessão
económica‖. As respostas imediatas e adequadas estritamente do ponto de vista
formal – estou / não estou de acordo – seriam dificilmente concebíveis neste contexto. A
resposta afirmativa seria claramente inadequada para um interlocutor que queria
defender a sua imagem pessoal – nenhum político poderá afirmar que está de acordo,
por exemplo, com medidas que provocam ―depressão, estagnação e recessão
económica‖ – e a resposta negativa sem qualquer justificação seria insuficiente do ponto
de vista da organização interacional, pois a expectativa neste contexto é que os
locutores dêem respostas desenvolvidas, como no caso das entrevistas mediáticas
(Clayton 2001: 143). Portanto, a única solução para o interlocutor, para minimizar os
possíveis prejuízos para a sua imagem pessoal seria de contrariar os pressupostos das
perguntas e, eventualmente, de ameaçar a imagem do locutor, criticando as questões.
A reposta complexa que segue mostra cinco etapas de desqualificação das perguntas:
afirmar que o destinatário estava errado – porque o governo estava no poder havia alguns
meses e os responsáveis seriam os governantes anteriores –, mostrar a responsabilidade
do governo em respeitar os compromissos internacionais – fazendo, portanto, uma

74 Em algumas situações, exigem-se respostas simples – sim ou não – às perguntas disjuntivas:


―O Sr. Hélder Amaral (CDS-PP): — Fiz-lhe uma pergunta em um minuto e quarenta e poucos
segundos no sentido de saber se entregou ou não o contrato do TGV no Tribunal de
Contas e verifiquei que não respondeu, mas espero que possa vir a fazê-lo. [...] // O Sr. Pedro
Mota Soares (CDS-PP): — É dizer «sim» ou «não»! // O Sr. Hélder Amaral (CDS-PP): —
Eu, quando não sei, humildemente pergunto e tento saber o que se passa. Esperava, da sua
parte, uma resposta tão simples como «sim» ou «não».‖ (Reunião plenária de 26 de janeiro
de 2011)
75 Os partidos de direita defendem que os contratos de trabalho a termo certo facilitam a

contratação porque respondem a um mercado de trabalho flexível, ao passo que os partidos de


esquerda consideram que estes contratos prejudicam os trabalhadores e aumentam a
desproteção dos mesmos perante os empregadores.

162
avaliação positiva do mesmo –, criticar a política dos adversários políticos, através de uma
série de cinco perguntas (retóricas), algumas mais concretas, sobre possíveis
indicadores económicos, como os ―índices de emprego‖ ou os ―índices salariais‖,
outras de natureza quase filosófica: ―Qual é a sociedade que o Bloco de Esquerda
defende?‖, avaliar negativamente o discurso dos adversários sobre a legislação laboral:
―discurso catastrofista da sua bancada e da bancada ao seu lado [PCP]‖ e voltar a
defender a responsabilidade do governo, invocando as negociações sobre a legislação laboral
em sede de Concertação Social.
Do ponto de vista estritamente formal, a intervenção do interlocutor é um
exemplo claro de evitamento quase total. Apenas o segundo argumento, em que se
defende o compromisso perante os parceiros internacionais, está relacionado com as
perguntas colocadas – contratos de trabalho mais flexíveis constavam no Memorando
de Entendimento com a troika – os outros quatro argumentos (críticas dos adversários
políticos e dos seus discursos, assinalar o ―erro‖ no que diz respeito ao destinatário)
divergindo do assunto. No entanto, observamos que a estratégia de evitar as repostas
concretas exigidas é bastante complexa, fazendo o locutor, por um lado, avaliações
positivas de si (de facto, do governo e do partido que representa) e, por outro lado,
avaliações negativas dos outros e das perguntas colocadas. Aliás, o funcionamento do
binómio pergunta-resposta funciona muitas vezes sobretudo em sequências sucessivas de
scripts argumentativos, criados a partir de textos com alguma complexidade, por vezes
preparados com antecedência76.

(113) O Sr. João Semedo (BE): — Sr. Deputado, gostava de fazer-lhe três
perguntas muito concretas. O Sr. Deputado está de acordo em que se retirem os
subsídios de Natal e de férias aos trabalhadores da Administração Pública?1 O
Sr. Deputado está de acordo em que se crie emprego, facilitando os
despedimentos?2 O Sr. Deputado está de acordo em que se crie emprego,
deixando o País arrastar-se na depressão, na estagnação e na recessão
económica?3[...]
O Sr. Arménio Santos (PSD): — Sr. Presidente, Sr. Deputado João Semedo,
agradeço-lhe as suas questões, mas, como perceberá, essas perguntas deveriam
ser dirigidas aos responsáveis pela situação em que o País se encontra [...] e o
responsável não foi o Partido Social Democrata. [...] É espantoso que V. Ex.ª
esteja aqui a cobrar factura a um Governo que tomou posse há três, quatro
meses e que está confrontado com a obrigação não só da situação que herdou
no plano interno mas também do compromisso externo — aliás, o coordenador
do seu partido, que não foi às reuniões com a dita tróica, depois arrependeu-se,
pelo que, se tivesse participado nessas negociações, provavelmente também teria
subscrito o Memorando de entendimento. [...] Mas, como dizia, o Governo
actual está exactamente a tomar as medidas que a situação impõe que sejam

76O assunto geral do debate é conhecido pelos participantes, as perguntas são muitas vezes lidas
pelos deputados, os repondentes tomam notas e têm tempo para preparar as suas intervenções.

163
tomadas, não apenas em termos internos mas também por razões de
compromissos internacionais — e nós não podemos violar esses compromissos
internacionais.
De resto, gostaríamos de saber: onde é que as políticas do Bloco de Esquerda
nos levariam?1 Quais eram os índices de emprego a que as políticas do Bloco de
Esquerda nos conduziriam?2 Quais eram os índices salariais a que nos
conduziriam as políticas do Bloco de Esquerda?3 Onde é que existe um modelo
de sociedade defendido pelo Bloco de Esquerda?4 E pergunto isto para
podermos comparar se seria melhor do que aquele que temos. Qual é a
sociedade que o Bloco de Esquerda defende?5 É porque ouvimos o Bloco de
Esquerda falar com muita demagogia [...] porque sabe, de antemão, que não está
confrontado com a obrigação de cumprir aquilo que promete, aquilo que
defende, aquilo que diz nesta Casa. [...]Agora, sabemos qual é tradicionalmente a
vossa posição: quando há qualquer mudança nas leis laborais, o que acontece,
Sr. Deputado? Há um discurso... [...] Como dizia, há um discurso catastrofista da
sua bancada e da bancada ao seu lado. Porém, a realidade, hoje, mostra que as
profecias das vossas bancadas falham. [...] E tanto falharam que hoje estão aqui
a defender aquelas desgraças que os Srs. Deputados defendem sempre, quando
há qualquer alteração às leis do trabalho. [...] Em suma, aquilo que defendemos,
Sr. Deputado, é que há uma instituição chamada Conselho Permanente de
Concertação Social, na qual confiamos. E o Governo e os parceiros sociais vão
seguramente encontrar boas soluções para serem discutidas e aprovadas nesta
Câmara. (Reunião plenária de 26 de outubro de 2011)

Em (114) o locutor faz uma série de cinco ―perguntas muito concretas‖ sobre
as políticas de saúde pública. A tipologia das perguntas mostra também algumas
particularidades do funcionamento da interrogação em debates parlamentares. Em
primeiro lugar, embora classificadas pelo locutor como perguntas, nem todas as
questões são orações interrogativas, as primeiras duas sendo, de facto, frases
declarativas77, em que o locutor faz avaliações negativas – ―os senhores nada fizeram‖ –
das políticas públicas dos adversários, ao passo que as últimas três questões têm
estrutura sintática de pergunta wh- (porque é que...). Consideradas pelo locutor como
perguntas – recebem uma resposta por parte do interlocutor –, estas frases declarativas,
do ponto de vista funcional, têm um valor claramente interrogativo. Poderíamos
chamá-las pseudo-perguntas, tomando em consideração o seu caráter híbrido,
formalmente declarativo e funcionalmente interrogativo. Aliás, o valor interrogativo
será reconhecido não apenas pelo locutor – que as qualifica como tal –, mas também
pelo interlocutor, que responderá a uma delas.
No caso das frases declarativas com valor interrogativo, a expectativa é de o
interlocutor as contrariar, porque constituem ameaças para a imagem pública do seu
partido, as perguntas wh- tendo como resposta natural justificações, que expliquem
causas, motivos dos acontecimentos (Porque é que...? / Porque...).

77 São diferentes das perguntas declarativas (Bull 1994).

164
A resposta do interlocutor, embora mais breve do que a(s) pergunta(s)
colocada(s), é bastante complexa. Em primeiro lugar, há uma tentativa de
desqualificar a intervenção da oradora, salientando o interlocutor a lógica regimental
da interpelação, que é de questionar o governo; porém, o pedido de esclarecimento é
uma figura regimental que permite também aos deputados do poder fazer perguntas
aos parlamentares da oposição, portanto a intervenção inicial cumpre as normas de
organização dos debates.
No que diz respeito às perguntas declarativas, observamos que apenas a
primeira, que refere a oncologia, recebe uma não-resposta – em que o deputado não
responde à pergunta per se, mas tenta contrariá-la com dados estatísticos –, ao passo
que a segunda pergunta, sobre a doença de Alzheimer, é ignorada pelo interlocutor.
Este tipo de evitamento total – voluntário ou não – ocorre sobretudo no caso das
séries de perguntas em cascata, quando os locutores têm mais dificuldades em gerir o
conteúdo informacional e são frequentes nos diálogos en différé, quando o grau de
interatividade é menor e o locutor que faz as perguntas não tem a possibilidade de
insistir para solicitar a resposta desejada. Nas entrevistas mediáticas os jornalistas
fazem muito frequentemente perguntas adicionais quando os políticos ignoram uma
questão, mas nos debates parlamentares esta prática seria mais difícil, porque as
intervenções no plenário são feitas com a aprovação da mesa78.
No que diz respeito às três perguntas wh- – sobre dívidas à indústria
farmacêutica, sobre profissionais da medicina geral e sobre as medidas para inverter a
situação –, notamos que só a primeira recebe também uma não-resposta, em que, de
facto, o interveniente refere uma situação anterior, similar – talvez marcando um
ponto político (Bull & Mayer 1994) –, criticando os adversários. Através desta não-
reposta o locutor reconhece a pergunta – as outras duas serão ignoradas –, mas evita
uma resposta que poderia prejudicar a imagem do seu partido ou com cujo conteúdo
não está de acordo.
Portanto, em (115), das cinco perguntas e pseudo-perguntas apenas duas são
reconhecidas, mas recebem não-respostas – o locutor rejeita os seus pressupostos – e
três são totalmente ignoradas. No entanto, devemos mencionar que todas as
perguntas constituem avaliações negativas e que a reação do interlocutor pode ser
justificada pelo seu desejo natural de protejer a imagem pública do seu partido.

78Contudo, há intervenções em apartes, mas nem sempre são tomadas em consideração pelos
oradores: ―A Sr.ª Heloísa Apolónia (Os Verdes): — Não respondeu!‖ (Reunião plenária de 26
de janeiro de 2011), ―O Sr. João Oliveira (PCP): — Não respondeu às perguntas sobre a
emigração! Está comprometido?‖ (Reunião plenária de 21 de março de 2012), ―O Sr. Miguel
Tiago (PCP): — Responda lá!‖ (Reunião plenária de 16 de fevereiro de 2011), ―O Sr. Luís
Fazenda (BE): — Responda às perguntas! // O Sr. Miguel Laranjeiro (PS): —
Naturalmente não me esqueço de responder à pergunta da Sr.ª Deputada... Ana
Drago…// O Sr. Luís Fazenda (BE): — Às duas perguntas!‖ (Reunião plenária de 26 de
outubro de 2011). No que diz respeito às perguntas adicionais, encontramos um exemplo no
sub-corpus brasileiro (108).

165
(115) A Sr.ª Teresa Caeiro (CDS-PP): — Gostaria de colocar-lhe cinco
perguntas muito concretas que se prendem com aspetos que o Sr. Deputado
abordou na sua intervenção.
A primeira pergunta tem a ver com a questão da oncologia. [...] há dois anos
atrás, foi aprovado, nesta Câmara, com os vossos votos contra, como sempre,
um plano com vista a uma nova abordagem da oncologia. Ora, os
senhores nada fizeram, nem um sistema de rastreios sistemáticos de base
populacional, nem uma nova rede de referenciação a ser aplicada, nem
em relação à articulação1, como disse tão bem, entre os centros de
excelência e os centros de proximidade, que vinha previsto no projeto que
foi aprovado contra a vossa vontade e que o senhor agora vem reclamar. [...]
Segunda questão: apesar de ter sido aprovada uma iniciativa, mais uma vez
contra a vossa vontade, relativamente à questão das demências, em
particular da doença de Alzheimer, os senhores nada fizeram2. Nem
sequer procederam ao levantamento daquela realidade em Portugal.
Em terceiro lugar, porque é que os senhores deixaram acumular 2,5 milhões de
euros em dívidas a fornecedores, nomeadamente à indústria farmacêutica?
[...]
Sr. Deputado António Serrano, o senhor sabe que um Estado sobre endividado
é um Estado capturado em relação aos seus credores. Porque é que os
senhores deixaram acumular uma dívida de 2,5 milhões de euros, que
este Governo tem agora de pagar?3
Concluo, Sr.ª Presidente, perguntando o seguinte: o Sr. Deputado queixou-se de
uma lógica hospitalocêntrica do nosso sistema de saúde. Porque é que os
senhores deixaram que existisse uma enorme carência de profissionais
em medicina geral e familiar?4 [...]
Porque é que os senhores nada fizeram para inverter essa situação?5
Concluo, Sr.ª Presidente, agradecendo ao Sr. Deputado que responda a estas
perguntas muito concretas. [...]
O Sr. António Serrano (PS): — Sr.ª Deputada, não estamos aqui a falar de
problemas do passado, quem está a governar é este Governo e queremos
soluções para os problemas.
Sr.ª Deputada, se tiver a paciência de me ouvir de forma muito lúcida, como eu tive
também oportunidade de o dizer da tribuna, transmito-lhe o seguinte: durante a
vigência dos governos do PS, por exemplo na oncologia, o tempo de espera
para cirurgia reduziu-se de 81 dias — já que quer falar do passado, era esse o
tempo de espera durante o vosso governo — para 23 dias.
Aplausos do PS.
A Sr.ª Isabel Alves Moreira (PS): — Muito bem!
O que não queremos, Sr.ª Deputada, é que se degradem os indicadores de saúde que
tanto custaram a alcançar nos últimos anos e para os quais tantos profissionais
deram o seu melhor nos últimos anos. Queremos manter esses indicadores, e isso
exige o esforço de todos. No que se refere às responsabilidades financeiras, já lho

166
recordei nesta Câmara, Sr.ª Deputada, mas volto a referi-lo: é que, em 2005, as
responsabilidades assumidas, não pagas, pelo Governo PSD/CDS eram de
1,8 milhões de euros, situação que foi resolvida ainda em 2005, Sr.ª Deputada!
Agora, já passaram 10 meses do vosso Governo e ainda não vimos nada.
(Reunião plenária de 11 de abril de 2012)

Em (116) podemos observar, numa sequência com grau maior de


interatividade, que o locutor insiste para obter resposta a uma pergunta que colocou.
Aliás, o assunto é bastante problemático porque diz respeito à Operação Porto Seguro, um
dos maiores escândalos (venda de pareceres técnicos, tráficos de influência, corrupção)
ao nível mais alto do governo federal brasileiro, tornado público em 2012 e em que
foram envolvidas figuras importantes do Partido dos Trabalhadores (PT), com a alegada
implicação de Lula da Silva. Num primeiro momento, um deputado do DEM –
Democratas, partido de centro-direita – faz avaliações negativas sobre as pressões
políticas da Presidência – em 2012 Dilma Rouseff do PT era presidente do Brasil – no
que diz respeito à investigação dos casos de corrupção. Num segundo momento, faz
uma pergunta hipotética – ―se V.Exa. fosse Deputado Federal‖ –, querendo saber se o
ministro assinaria para a criação duma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a
Operação Porto Seguro. Aliás, o locutor faz a pergunta duas vezes, mostrando que quer
uma resposta e que a sua interrogação hipotética não seria apenas um artifício retórico.
O ministro (do PT) responde parcialmente, referindo um aspeto tangencial e
defendendo que Luís Inácio Adams – Advogado-Geral da União, investigado na
Operação Porto Seguro – não está culpado e que não há razões para investigações
adicionais. O locutor, porém insiste duas vezes, para obter a resposta pretendida: ―E a
pergunta se o senhor ia assinar a CPI‖, lembrando ao interlocutor que não respondeu:
―E a pergunta que o Ministro não respondeu é se ele assinaria a CPI‖. A intervenção
final do ministro mostra porque evitava uma resposta clara, pois menciona que assinaria
só depois de haver uma decisão do partido. No entanto, notamos que qualifica a sua
resposta como honesta: ―eu vou lhe falar francamente‖, mostrando-se disponível para a
cooperação, apesar das tentativas falhadas de evitar a resposta. Em termos pragmáticos,
poderíamos afirmar que respeita a máxima de qualidade (Grice 1975), embora a resistência
incial à pergunta possa indicar uma falta de cooperação.

(116) O Sr. Deputado Onyx Lorenzoni - E, quando chega perto da Presidência


da República, a operação ―abafa‖ é imediata. De independente neste País há o
Ministério Público, alguma coisa do TCU e ponto. O resto, quando chega perto
do poder verdadeiro, sucumbe. [...] Então, a pergunta que quero fazer, Sr.
Ministro, é que, se V.Exa. fosse Deputado Federal, V.Exa. não assinaria
uma CPI1, porque, para trazer essas pessoas que devem explicações ao
Brasil, é só uma CPI. Não tem outro jeito! V.Exa. sabe o poder que uma
CPI tem de buscar a informação, de buscar a verdade. O Brasil mereceria,
para esse caso, uma CPMI, e eu pergunto se V.Exa. assinaria essa CPI2. [...]

167
O Sr. Ministro José Eduardo Cardozo - Não há nada no inquérito em relação
ao Ministro Adams. Nada. Ele escolheu alguém em quem confiou, como tantas
vezes nós escolhemos em quem confiamos e, lamentavelmente, essa pessoa pode
— não vou dar juízo definitivo, porque, como eu disse aqui, nós estamos falando
de indiciamentos — haver incorrido em faltas gravíssimas. [...]
O Sr. Deputado Onyx Lorenzoni - E a pergunta se o senhor ia assinar a CPI3.
O Sr. Ministro José Eduardo Cardozo - Qual? Essa parte da Polícia Federal,
sim. Mas controlar quem viaja e quem não viaja, a relação de quem vai pelo
Itamaraty...
O Sr. Deputado Onyx Lorenzoni - Do Itamaraty. De quem entra e quem sai.
O Sr. Ministro José Eduardo Cardozo - Esta, sim, é. Não é a outra. A outra, de
quem viaja, quem não viaja, está na lista, o Dr. Leandro pode esclarecer.
O Sr. Deputado Onyx Lorenzoni - - Eu quero esclarecer bem. O Itamaraty tem
uma lista de quem faz viagem internacional, e essa lista é publicada no Diário
Oficial da União. [...] E a pergunta que o Ministro não respondeu é se ele
assinaria a CPI4.
O Sr. Ministro José Eduardo Cardozo - Deputado, eu vou lhe falar francamente,
como sempre lhe disse. Desde que o meu partido deliberasse que deveria
ser feito assim, eu o faria. (Audiência Pública N°: 1690/12 DATA:
04/12/2012)

O exemplo (117) mostra uma situação mista, em que o locutor faz uma
primeira série de perguntas e recebe uma não-resposta extensa (117a) e, a seguir,
numa sequência com mais interatividade, como os dois participantes têm um diálogo
sobre o mesmo tema (117b).
O locutor faz duas perguntas principais, uma mais geral, que diz respeito aos
convênios com as centrais sindicais e uma específica, sobre a Oxigênio, uma ONG sob
investigação, que beneficiou de fundos públicos através dos programas do Ministério de
Trabalho. No primeiro caso, o locutor faz uma pergunta sim / não: ―existem convênios
com as centrais sindicais?‖, seguida por três perguntas wh- – introduzidas pelo pronome
interrogativo quais – mais específicas sobre os convênios, as centrais e os valores dos
convênios. As respostas esperadas seriam sim ou não, seguidas, em caso de afirmação,
por detalhes concretos solicitados nas três perguntas wh-. No que diz respeito à segunda
questão, trata-se de uma pseudo-pergunta – do ponto de vista sintático não é uma
interrogação, mas é do ponto de vista funcional –, em que o locutor pede ao
interlocutor informações e comentários sobre este caso concreto.
A reação do interlocutor é de recusar-se a responder concretamente, através
das seguintes estratégias: defender que as questões administrativas são da competência
de outro departamento, defender-se contra as acusações que lhe são feitas – invoca
falta de credibilidade dos denunciadores anónimos –, rejeitar as acusações, através de
avaliações negativas – ―É surrealista isso‖ – e, usando a terminologia de Bull & Mayer

168
(1993: 662), marcar um ponto político, afirmado que a oposição investiga a situação do
Ministério do Trabalho para atacar o governo, que está muito popular nas sondagens.
Como se pode observar, há uma divergência enorme entre as repostas
esperadas pelo locutor e as não-respostas oferecidas pelo interlocutor, o evitamento
sendo, neste caso, total. O interlocutor reconhece apenas os pressupostos que estão
na base das perguntas iniciais – há problemas de corrupção nos convênios com as
centrais sindicais e, em particular, com a Oxigênio – e reage a estes pressupostos,
defendendo-se através de diferentes estratégias discursivas, mas não reconhece as
perguntas per se, ou seja, não faz referências nem às centrais sindicais – quais são, que
convênios têm, quais são os valores – e nem ao caso mais específico da Oxigênio.

(117a) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Eu gostaria de saber do


senhor o seguinte: existem convênios com as centrais sindicais? Quais são
os convênios, quais centrais têm convênios e quais os valores e o objeto de
cada um desses convênios?1 Gostaria de saber do senhor sobre isso aí.
Outra questão, para já ir concluindo a minha presença neste debate. A
Oxigênio. Gostaria de que o senhor falasse um pouco sobre isso. Depois de
receber 24 milhões dos cofres públicos, essa entidade, a Oxigênio, está,
parece-me, com problemas sérios no Ministério. Essa empresa Oxigênio
está sob investigação desde 2006.2 [...]
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Então, a denúncia que se faz contra o
Ministério do Trabalho... Esquece a questão administrativa. A questão
administrativa é outro departamento, eu já dei o demonstrativo. Estou à
disposição para o que vier: para mostrar a parte administrativa, o que
funciona, o que não funciona, possíveis erros que tem. Agora, a denúncia é
em cima de duas figuras anônimas que reclamam que estava montando um
esquema de extorsão e, coincidentemente, essas duas figuras anônimas
representam instituições que não receberam dinheiro. É surrealista isso, é
surrealista. Isso que eu quero saber. Tanto quanto os senhores, eu sei qual é o
papel da Oposição, então, vai ser o papel de vocês. O Governo tem 80%
da aprovação, são 18 milhões de empregos gerados. A lista suja do
Ministério do Trabalho é referência no mundo. Está dando certo, está
avançando. Então, o papel da Oposição é fazer esse papel mesmo. (Audiência
Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

O locutor reage: ―Sr. Presidente, perdão. O Ministro não respondeu.‖, desta


vez conseguindo uma resposta para a primeira pergunta: ―Não existe. Respondo:
nenhum‖, mas a segunda pergunta, sobre a Oxigênio, tem um tratamento diferente.
Num primeiro momento, o interlocutor pede esclarecimentos, sugerindo que não
entendeu ou que não se lembra da pergunta: ―O que você perguntou da Oxigênio?‖ e
a seguir recusa-se a responder, afirmando três vezes que a resposta está na
documentação entregue: ―Está respondida‖ (2), ―Está respondido no documento‖. O
locutor insiste e faz uma série de perguntas específicas, que receberão respostas gerais:

169
―participa das chamadas públicas‖, ou não-repostas, o interlocutor afirmando que as
informações constam na documentação entregue: ―todo detalhe que o senhor
pergunta está ali [na documentação]‖ ou apresentando como causa o sigilo judiciário:
―tem segredo de Justiça‖. O locutor insiste, afirmando que fará perguntas por escrito.
Quando o interlocutor recebe informações dos assessores e afirma que não há sigilo
judiciário sobre a Oxigênio, o locutor volta a fazer considerações sobre o assunto e
faz uma última pergunta: ―a quem essa empresa é vinculada?‖, mas o interlocutor
afirma que não tem conhecimentos sobre o assunto: ―Eu não... [tenho
conhecimentos]‖, ―não sei‖.
Portanto, nesta segunda fase do debate sobre os dois assuntos, o locutor recebe
resposta à primeira pergunta – sobre as centrais sindicais –, mas à segunda pergunta,
sobre a Oxigênio, o interlocutor dá não-repostas ou dá respostas gerais.

(117b) O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Sr. Presidente, perdão.


O Ministro não respondeu. Ministro, se puder: sobre os convênios com as
centrais sindicais – qual o objeto? Quais os valores?1
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Não existe. Respondo: nenhum. Na
minha gestão, nenhum. Com central sindical, nenhum.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - E sobre a Oxigênio?2
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - O que você perguntou da Oxigênio? Ah!
Essa já está respondida aí.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Vinte e quatro milhões de...2
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Está respondida. No documento que o
senhor recebeu já está respondida. Lá está por que não pode. Como tem sigilo
da Polícia Federal, de certas coisas eu não posso falar porque é crime. Está
respondido no documento.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Mas o senhor conhece bem
esse processo de convênio com essa empresa?2 O senhor conhece?
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Ela participa das chamadas públicas.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - É um dos convênios, dos
quinhentos que tem o Ministério. Mas desse, em especial, o senhor tem
conhecimento?2
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Eu tenho, inclusive, a documentação. Está
distribuído. Se o senhor ler, fizer essa gentileza, o senhor vai ver que todo
detalhe que o senhor pergunta está ali. Como tem segredo de Justiça - desculpe -
, isso corre com a Polícia Federal, e eu não posso passar do meu limite.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Bem, se eu tiver alguma dúvida,
depois eu farei perguntas por escrito. E, se o senhor puder responder, eu
agradeço.
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - À vontade! Pois não, com prazer.
[...]

170
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Deixa eu só fazer uma correção,
Deputado Chico. Só uma correção. Deputado, eu errei aqui. A minha assessoria
está informando. Porque é muito documento. Quem está sob sigilo, com
processo na Justiça, é a Êpa; não é a Oxigênio. Então quero pedir desculpas. A
da Oxigênio não está junto na resposta?!
(Intervenção fora do microfone. Ininteligível)
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Ah, ela não quis executar esse último
convênio! É sobre essa que não quis?
(Intervenção fora do microfone. Ininteligível)
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Ela não tem pagamento, não tem
pendência, e o último convênio ela não quis fazer.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - Mas houve um convênio de 24
milhões com essa empresa.2
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Ao todo, ao longo dos anos. Desde 2003,
se somarem tudo, pode dar isso.
O SR. DEPUTADO VANDERLEI MACRIS - E a quem essa empresa é
vinculada? O senhor tem conhecimento?2
O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Eu não... Pode ser que eu a conheça até
de algum evento, porque eu vou a muitos. Mas, realmente, não sei. (Audiência
Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

O exemplo (118) do sub-corpus romeno é um diálogo entre um senador e um


representante do governo sobre algumas das medidas de segurança social, numa etapa
que decorre depois do debate da moção simples, em que o governo responde a
interpelações escritas. O senador tinha submetido uma interpelação escrita ao
ministério e o secretário de estado comparece perante o Senado para apresentar uma
reposta detalhada. Em (118a) e (118b) selecionamos o diálogo que ocorre depois da
apresentação da resposta detalhada por parte do secretário de estado do Ministério de
Trabalho e da Segurança Social.
Num primeiro momento, o locutor agradece a resposta, faz uma avaliação
rápida sobre o seu conteúdo: ―Răspunsul este legat, văd, de strategia practică a
Guvernului‖ [a resposta está relacionada com a estratégia prática do governo], mas
conclui que as informações oferecidas não correspondem ao que foi solicitado na
interpelação escrita: ―Eu nu am cerut acest lucru‖ [Mas eu não pedi isso] e repete as
suas perguntas – que, tal como no caso das intervenções do sub-corpus português,
são avaliadas: ―punctuale, simple‖ [pontuais, simples] – pedindo informações sobre o
rendimento mínimo de inserção social e as consequências das reformas do governo
no que diz respeito à diminuição do número de beneficiários de apoios da segurança
social no distrito Vâlcea. A primeira pergunta vai receber uma resposta clara, o
secretário de estado explica que o ―rendimento mínimo de inserção‖ é composto por
três apoios da Segurança Social. Em relação à segunda pergunta, o interlocutor
oferece uma série de estatísticas sobre as onze formas de apoios sociais no distrito

171
Vâlcea, mas não dá a informação pedida, porque não faz nenhuma referência à
diminuição do número de beneficiários.
Na resposta oferecida pelo secretário de estado observamos também
considerações da pergunta colocada, que é avaliada indiretamente como pouco clara:
―Dacă mă întrebaţi de la început, era mult mai simplu‖ [Se me tivesse perguntado
assim logo no início, teria sido mais simples]. No fim da intervenção, faz uma
reformulação da pergunta inicial: ―Acestea sunt datele pe care le-aţi solicitat referitor
la judeţul Vâlcea‖ [Estes são os números que pediu sobre o distrito Vâlcea],
justificando assim a sua resposta. Portanto, nesta primeira interação, apenas uma
pergunta obtém resposta, ao passo que a segunda recebe uma não-resposta que se
mantém de forma geral dentro do assunto – os beneficiários de apoios sociais no
distrito Vâlcea –, mas que não corresponde ao que foi solicitado pelo locutor.

(118a) Domnul Emilian-Valentin Frâncu: - Mulţumesc mult, domnule secretar de


stat. Răspunsul este legat, văd, de strategia practică a Guvernului. Eu nu
am cerut acest lucru. Mă bucur că în răspunsul scris voi avea, probabil, detaliat,
aşa cum aţi prezentat dumneavoastră, această strategie. Erau două întrebări
punctuale, simple, care, practic, cred că în zece secunde puteau fi precizate. Eu am
întrebat ce înţelege, practic, Guvernul prin sintagma „venitul minim de
inserţie‖? În mare, însumând tot ce aţi spus, s-ar putea înţelege, dar m-ar fi
interesat poate o definire mai clară, mai concisă. Vă întrebasem, de asemenea, în
urma acestor măsuri, acestor reforme, în judeţul Vâlcea ce număr de persoane
– să zicem – se estimează că se vor scoate din acest sistem de asistenţă
socială. Care este numărul de persoane prognozat? Bănuiesc că s-a făcut o
astfel de analiză pe fiecare judeţ. Atât voiam. Mulţumesc.
Domnul Nicolae Ivăşchescu: - Mulţumesc, domnule senator. Dacă mă întrebaţi
de la început, era mult mai simplu. „Venitul minim de inserţie‖ este format
din venitul minim garantat, din alocaţia familială şi din ajutoarele de
încălzire. Din toate trei cumulate se va crea „venitul minim de inserţie‖.
Se va acorda în baza testării veniturilor şi ne-am gândit să facem acest lucru
pentru a putea ţinti mai bine către persoanele sărace. Acela este venitul minim de
inserţie. La a doua întrebare, pot să vă spun exact, pentru judeţul Vâlcea:
alocaţia de stat pentru copii, numărul beneficiarilor este 55 016; alocaţia pentru plasament –
1 260 de beneficiari; indemnizaţia pentru creşterea copilului – 3 858 de beneficiari; stimulent
lunar pentru copil – 137 de beneficiari; indemnizaţii şi ajutoare creştere copil cu handicap –
379 de beneficiari; alocaţia pentru susţinerea familie – 10 505 de beneficiari; ajutoare de
încălzire – 40 511 de beneficiari; ajutor social – 4 3039 de beneficiari; drepturi persoane cu
handicap – 18 264 de beneficiari; indemnizaţii nevăzători – 1 095 de beneficiari şi cea de-a
11 este indemnizaţia de hrană, mă refer la HIV Sida, 95 de beneficiari. Acestea sunt
datele pe care le-aţi solicitat referitor la judeţul Vâlcea. (Reunião do Senado
de 2 de maio de 2011)
[O senhor Emilian-Valentin Frâncu: - Muito obrigado, senhor secretário de
estado. Vejo que a resposta está relacionada com a estratégia prática do
governo. Mas eu não pedi isso. Fico contente que na resposta escrita

172
constará, se calhar, de forma detalhada, esta estratégia, aliás, como o senhor a
apresentou aqui. Tinha duas perguntas pontuais, simples, que praticamente
poderiam ser esclarecidas em dez segundos. Eu perguntei o que é que o
governo entende por ―rendimento mínimo de inserção‖? Em geral,
juntando tudo o que o senhor apresentou, poderia compreender, mas estaria
interessado em ter uma definição mais clara, mais concisa. Tinha perguntado,
também, em consequência destas medidas, destas reformas, quantas pessoas
do distrito Vâlcea pensa que deixarão de beneficiar do sistema de
segurança social? Qual é o número previsto de pessoas? Suponho que uma
análise para cada distrito tenha sido feita. Era só isso o que queria. Obrigado.
O senhor Nicolae Ivăşchescu: - Obrigado, senhor senador. Se me tivesse perguntado
assim logo no início, teria sido mais simples. ―O rendimento mínimo de
inserção‖ é composto pelo rendimento mínimo garantido, pelo abono de
família e pelos subsídios de aquecimento. Os três compõem, de forma
cumulativa, o ―rendimento mínimo de inserção‖. Este será concedido com base
na avaliação dos rendimentos e pensámos em fazer assim para chegarmos melhor às
populações mais pobres. Isso é o rendimento mínimo de inserção. Quando ao
distrito Vâlcea, posso responder à segunda pergunta de forma muito precisa:
abono do estado para crianças, o número de beneficiários é de 55016; abono para acolhimento de
crianças e jovens – 1260 beneficiários; subsídio parental – 3858 beneficiários; subsídio parental
para reinserção profissional antes do fim da licença de maternidade / paternidade – 137
beneficiários; subsídio para criança com deficiência – 379 beneficiários; abono de família – 10505
beneficiários; subsídios para aquecimento – 40511 beneficiários; abono social – 43039 beneficiários;
direitos para pessoas com deficiência – 18264 beneficiários; subsídios para cegos – 1095
beneficiários e a décima primeira prestação social é o abono para alimentação, falo de VIH /
SIDA, 95 beneficiários. Estes são os números que pediu sobre o distrito Vâlcea.]

Num segundo momento, o locutor observa que o interlocutor não respondeu à


segunda pergunta: ―Eu am solicitat cu totul altceva‖ [Eu pedi uma coisa totalmente
diferente], reformula a sua questão e volta a solicitar a informação inicial: ―dacă
dumneavoastră, în urma reformei pe care o puneţi acum, uşor, uşor, în practică, aţi
estimat‖ [se tinham uma estimativa sobre o impacto da reforma que estão a
implementar gradualmente]. O locutor mostra-se cooperante, afimando que se os
números não estivessem disponíveis, poderiam ser fornecidos numa próxima reunião.
O interlocutor agradece a compreensão e volta a responder, desta vez oferendo
informações mais próximas das que lhe foram solicitadas e refere em percentagens as
diminuições de beneficiários no caso de dois tipos de apoios sociais, o rendimento
mínimo garantido e o subsídio para aquecimento. Reconhece também a pergunta,
afirmando que não tem os números exatos, mas que responderá por escrito. Portanto,
nesta segunda etapa da interação, o locutor consegue obter uma resposta mais
próxima das informações solicitadas e uma promessa de uma resposta futura, mas
durante este debate fica sem os números pretendidos.

173
(118b) Domnul Emilian-Valentin Frâncu: - Eu am solicitat cu totul
altceva. Eu am solicitat să-mi spuneţi dacă dumneavoastră, în urma
reformei pe care o puneţi acum, uşor, uşor, în practică, aţi estimat…, faţă
de datele statistice pe care mi le-aţi prezentat – şi iarăşi vă mulţumesc că le voi
avea şi voi putea să le folosesc în continuare –, să zicem că vor ieşi din sistem
2 000, 3 000 de persoane prin noile reglementări, prin noua definiţie a
venitul minim garantat, a acelei sintagme pe care aţi folosit-o. Acesta m-ar
fi interesat, dar, dacă nu există acum aceste date, poate la o viitore întâlnire,
când apare un alt răspuns, v-aş ruga să-mi furnizaţi şi mie aceste date.
Domnul Nicolae Ivăşchescu: - Eu vă mulţumesc foarte mult pentru
înţelegere, domnule senator. Ce pot să vă spun este următorul lucru: în
urma controalelor efectuate privind venitul minim garantat am constatat
că aproximativ 25% din acele persoane nu aveau dreptul să beneficieze de
acel venit minim garantat. Referitor la controalele pentru ajutoarele de
încălzire, numărul de beneficiari a scăzut între 50 şi 60%, vorbesc
aproximativ, pentru că nu am datele la mine. Acest număr de beneficiari a
scăzut în urma introducerii testării de venituri. La întrebarea: în urma
strategiei, cu cât se va reduce acest număr de persoane, nu vă pot
răspunde în momentul de faţă, dar am să vă întocmesc un răspuns scris.
Vă mulţumesc foarte mult. (Reunião do Senado de 2 de maio de 2011)
[O senhor Emilian-Valentin Frâncu: - Eu pedi uma coisa totalmente
diferente. Eu pedi-lhe que me dissesse, se tinham uma estimativa sobre o
impacto da reforma que estão a implementar gradualmente…, em relação
aos números que me apresentou – e agradeço-lhe de novo, vou ficar com eles e
vou usá-los –, digamos, sairão do sistema 2000, 3000 pessoas depois das
novas regras, depois da nova definição do rendimento mínimo garantido,
da expressão que o senhor usou? Isto é o que me interessaria, mas se não
houver números neste momento, se calhar, numa próxima reunião, quando
aparecer outra resposta, pedir-lhe-ia que me desse esses números.
O senhor Nicolae Ivăşchescu: - Muito obrigado pela compreensão, senhor
senador. O que posso dizer é o seguinte: depois das fiscalizações sobre o
rendimento mínimo garantido, verificámos que quase 25% das pessoas
contempladas não tinham direito a esse rendimento mínimo garantido.
No que diz respeito às fiscalizações sobre os subsídios para o
aquecimento, o número de beneficiários baixou entre 50 e 60%, falo de
maneira aproximativa, porque não tenho os números comigo. Este
número de beneficiários baixou depois de termos introduzido a fiscalização dos
rendimentos. À pergunta: quanto baixará o número de pessoas em
consequência desta estratégia, não posso responder-lhe neste momento,
mas vou redigir uma resposta escrita. Muito obrigado.]

Se os exemplos já analisados mostram evitamentos totais de algumas perguntas


feitos de maneira implícita, o segundo exemplo do sub-corpus romeno (119) mostra
como um locutor pode explicitamente evitar perguntas com avaliações negativas. Aliás,
Clayman (2001: 421) considera estes casos especiais, porque constituem uma quebra

174
significativa da etiqueta conversacional e aponta para a importância das justificações da
recusa79, que têm o papel de proteger a imagem do locutor. Recusar a resposta sem
nenhuma justificação mostraria um locutor agressivo, pouco educado, não
cooperante, mas uma justificação clara e pertinente poderia diminuir ou até anular os
efeitos negativos para a imagem do locutor.
Em (119), o locutor faz uma classificação das perguntas que lhe são colocadas
em duas categorias: ―întrebări serioase‖ [perguntas sérias] e ―frustrările multiple
exprimate‖ [múltiplas frustrações expressas], decidindo responder às primeiras e
afirmando explicitamente que se recusa a dar seguimento às segundas. No entanto,
esta recusa é justificada com uma desqualificação das questões – chamadas
pejorativamente frustrações – e com um segundo argumento, de que estas ―abordagens‖
não permitem criar parcerias para trabalhar na estratégia nacional de transportes. Não
há insistências por parte dos deputados que fizeram as perguntas ou as intervenções
iniciais, porque este exemplo ocorre na intervenção final do governo, seguida pelo
encerramento oficial do debate, feito pelo presidente da Câmara dos Deputados.

(119) Doamna Anca Daniela Boagiu: - Pe fond, aş vrea să răspund cât se


poate de serios celor care au pus întrebări serioase, deşi sunt punctuale şi aş
fi preferat, stimaţi colegi, să fie subiectul unei întrebări sau unei interpelări, nu a
unei moţiuni, ceea ce, nu am să repet ce au spus colegii mei, duce cumva într-o
alta zonă instrumentul moţiunii. [...] În rest, nu am să răspund la frustrările
multiple exprimate - şi aşa le tratez - pentru că nu este o abordare care să
vizeze o strategie la nivel naţional, nu este o abordare în baza căreia să poţi
spune că ai parteneri atunci când discuţi despre proiecte naţionale din partea
unora, dar, apreciez susţinerea pe care marea majoritate a colegilor a dat-o
programului de construire de drumuri naţionale şi autostrăzi. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[A senhora Anca Daniela Boagiu: - Essencialmente, queria responder o mais
seriamente possível aos que fizeram perguntas sérias, embora sejam
pontuais e preferia, prezados colegas, que fossem o assunto de uma pergunta ou
de interpelação, não de uma moção, o que desvia o papel da moção enquanto
instrumento. [...] De resto, não vou responder às múltiplas frustrações
expressas – e trato-as como tal – porque não é uma aborgagem que tenha em
conta uma estratégia nacional, não é uma abordagem com base em que se possa
dizer que se tem parceiros numa discussão sobre projetos nacionais, mas
valorizo o apoio que a maioria dos colegas deu ao programa de construção de
estradas nacionais e auto-estradas.]

79(Clayman 2001: 421, nosso negrito): ―Justificatory accounts become particularly elaborate
and strenuous when the IE overtly refuses to answer the question altogether. This
follows from the fact that such refusals constitute a articularly strong breach of
etiquette. It is one thing to make some effort to answer the question before proceeding to
shift the agenda; it is quite another to decline to answer altogether [...] Accordingly,
justificatory accounts are crucial in this context‖.

175
1.5.4 Vagueza e imprecisão
Mas seria bom que, qualquer que seja a posição de cada um
de nós sobre este assunto, oferecêssemos uns aos outros o
rigor da argumentação e o mérito da clareza. (DAR –
17/02/2011, I Série — Número 52)

Quando se recusam a reponder a uma pergunta, os locutores tentam evitar total


ou parcialmente uma situação problemática para a imagem de si ou do seu paritido.
Outra estratégia de auto-proteção é de dar uma reposta imprecisa, vaga, sem clareza, o
que constitui, em si, um outro tipo de evitamento. Aliás, a vagueza é geralmente
considerada uma caraterística intrínseca da linguagem política80, sendo talvez a opinião
de George Orwell uma das mais conhecidas:

This mixture of vagueness and sheer incompetence is the most marked


characteristic of modern English prose, and especially of any kind of
political writing. As soon as certain topics are raised, the concrete melts into
the abstract and no one seems able to think of turns of speech that are not
hackneyed: prose consists less and less of words chosen for the sake of their
meaning, and more and more of phrases tacked together like the sections of a
prefabricated hen-house. (Orwell, 1946, nosso negrito)

No que diz respeito à vagueza como fenómeno linguístico, há abordagens que se


concentram no seu aspeto lexical – como Channell (1994) e Wang (2005), ou seja, que
estudam a falta de clareza das palavras em si – e estudos que se concentram no seu
aspeto textual, pragmático como Cheng & Warren (2003), Gruber (1993), Zhang (1998)
que se debruçam sobre frases, atos de fala ou estratégias comunicacionais que criem
imprecisão. Nesta secção analisaremos exemplos de vagueza lexical e de vagueza textual
nos debates que integram os três sub-copora.
Num primeiro momento, faremos algumas considerações de índole teórica sobre
as múltiplas aceções da vagueza, apresentando algumas abordagens linguísticas. No início
do seu trabalho de referência, Channell (1994: 18) propõe uma classificação ternária das
categorias de vagueza linguística: i) vague additives (adjuntos vagos), ou seja expressões
aproximativas como about e approximately (cerca de, aproximadamente) ou identificadores
categoriais vagos, como and stuff like that (e coisas do género); ii) vagueness through lexical choice
(vagueza através de escolha lexical), com duas sub-categorias: palavras como thingy e
whatsit‘(coiso) e quantificadores vagos como tons of (montes de) e, por fim, iii) vagueness by
implicature (vagueza através de implicatura): a frase Sam is 6 feet tall (Sam tem 6 pés de altura)
é potencialmente vaga, porque ele pode ter 6 pés e um quarto de polegada.

80Ver também: Gruber (1993): ―It is common sense to say that vagueness is a characteristic of
political language‖, D‘Errico et al (2013): ―A quite common case of vague communication is
political discourse‖.

176
Wang (2005) propõe cinco categorias de manifestações linguística da imprecisão:
i) indicadores da ―impressão‖ (quantificadores vagos, como a lot, many (muitos) e
expressões de aproximação (approximately, about, roughly; aproximadamente, cerca de, mais ou
menos); ii) indicadores de falta de especifidade (after 10 o‘clock, at six-ish, depois das 10h, pelas
6h); iii) indicadores de imprecissão: expressões de aproximação como ‗sort of‘, ‗kind of‘,
tipo), iv) indicadores etcetera: acrescentadores (and so, and things like that, etc, e coisas do género),
v) indicadores de incerteza: advérbios vagos (maybe, probably, talvez, provavelmente).
Zhang (1998) propõe definições para quatro termos usados, por vezes,
indiferentemente, como se fossem sinónimos: i) fuziness (imprecisão) – uma expressão é
fuzzy (imprecisa) se é caraterizada pela opacidade referencial, como, por exemplo, em
cerca de 20 alunos81; ii) generality (generalidade) – o significado de uma expressão é geral
porque não menciona certos detalhes, a generalidade e é uma questão de falta de
especificação – como a frase A Mary viu o John. –, que é muito geral, pois não oference
nenhuma informação sobre o contexto em que o encontro ocorreu. (Onde? Quando?
Em que circunstâncias?); iii) vagueness (vagueza) ocorre quando uma expressão pode ter
mais interpretações possíveis, ou seja é polissémica, como a frase A Mary tem o meu
livro. pode significar A Mary tem o livro da minha autoria. / A Mary tem o livro que eu
comprei. / A Mary tem o livro que eu requisitei., etc; iv) ambiguity (ambiguidade), que diz
respeito às expressões que têm vários significados sem relação semântica entre eles.
Uma expressão é ambígua se tem diferentes paráfrases que não são paráfrases umas
das outras. Flying plains can be dangerous. Significa duas coisas em inglês: aviões que voam e
pilotar aviões. A abordagem de Zhang (1998) permite destacar manifestações de vagueza
ao nível lexical, mas também ao nível da frase.
Cheng & Warren (2003), que situam a sua investigação ao nível frástico, falam
de indirectness (linguagem indireta), inexplicitness (linguagem não-explícita) e vagueness (vagueza).
No caso da indirectness (linguagem indireta), os autores propõem quatro categorias de
manifestações pragmáticas: i) implicaturas conversacionais, ou seja uma falta de coesão
entre o significado expressado e o significado implícito; ii) atos ilocutórios, quando há
uma divergência entre o significado e a força ilocutória; iii) atos de fala indiretos, quando
a relação entre a estrutura de uma frase e a sua função comunicativa é indireta, por
exemplo quando se usa um ato declarativo para fazer uma pergunta; iv) pré-sequências,
como os pré-pedidos, são formas de comportamento indireto usadas pelo locutor para
evitar ameaças da imagem pessoal (sua ou do interlocutor) antes de fazer a ação
conversacional pretendida.
Inexplicitness (linguagem não-explícita) abrange as expressões linguísticas que são
não-específicas fora do contexto, mas que se tornam específicas nos contextos em que
são usados: i) elipse é uma forma de linguagem não-explícita que solicita da parte do

81 Claro que esta expressão significa mais ou menos 20 alunos, mas se pensarmos com mais
atenção na sua denotação, ocorrem zonas periféricas bastante indistintas. 14 pode ser
circunscrito no significado de cerca de 20? No caso deste termo é definitória a relação entre o
centro e a periferia e entre categoria e membros.

177
interlocutor um esforço de interpretar a omissão / as omissões feitas pelo locutor na
interação; ii) substituição pressupõe o uso de elementos gerais para referir frases ou
expressões anteriores; iii) deixis e referência, a primeira sendo interpretada em função do
centro deítico (locutor) e das relações espaciais, temporais e pessoais com o
significado discursivo, ao passo que a segunda diz respeito à coerência textual e
discursiva (anáfora e catáfora, referência exofórica).
A categoria vagueza abrange uma série de itens que são intrinsicamente
imprecisos e que se situa sobretudo ao nível lexical: i) adjuntos vagos para números, about,
around, approximately (cerca de, aproximadamente); ii) seleção de palavras vagas, and things like
that (e coisas do género); iii) vagueza através de implicatura esaclar: A pergunta a B se houve
algum crescimento económico e B responde que houve um certo crescimento.
Gruber (1993) considera que a vagueza é essencialmente um fenómeno que
deve ser estudado do ponto de vista pragmático:

[...] on the pragmatic level vagueness is a characteristic of texts or


communicative acts and not of smaller linguistic units. This means that I try
to deal with vagueness as a communicative strategy which enables one to
perform linguistic actions in a specific way. Therefore vagueness has to be
described in terms of components of communicative situations, speakers
intentions, and the expectations of listeners. (Gruber 1993: 1, nosso negrito)

Segundo Gruber, a vagueza – enquanto mecanismo interacional, pragmático – tem


três fontes principais: i) o facto de o locutor se dirigir a audiências múltiplas, com opiniões
diferentes sobre os assuntos comunicados; nestes condições, para conseguir criar
consenso, o locutor deve comunicar em termos mais vagos, que possam ter múltiplas
interpretações; ii) o facto de o locutor querer ameaçar a imagem pública do seu
interlocutor, mas não imagem pessoal do mesmo82, obriga-o a utilizar atenuações, termos
politicamente corretos; iii) o facto de o locutor querer proteger a sua imagem pública e não
parecer agressivo, não-educado, etc. O autor articula a vagueza com imagem (face) de si ou
dos outros, usando a teoria de Brown & Levinson (1987: 116-117) para descrever o papel
dos enunciados imprecisos no funciona-mento da cortesia estratégica83.

82 Ver supra 1.1.2.3.3. A identidade (dos) parlamentar(es), as nossas considerações sobre as múltiplas
identidades dos parlamentares em especial, que podem ser aplicadas aos políticos em geral.
83 Estratégica do ponto de vista do trabalho de figuração (facework), de preservar ou de ameaçar

a imagem dos outros e de proteger a imagem de si. O autor salienta também que a escolha por
um enunciado claro ou vago depende também da distância social entre os interlocutores. Por
um lado, um enunciado direto pode significar uma preferência do locutor pela eficácia
comunicacional ou pode ser mais comum no caso de relações sociais mais próximas, ao passo
que um enunciado vago – por exemplo, com marcadores de atenuação e aproximação – pode
ser mais adequado em relações sociais mais distantes.

178
Tentaremos destacar alguns exemplos de vagueza lexical – que advém essencialmente
so significado das palavras – e de vagueza textual ou pragmática. Contudo, num primeiro
momento destacaremos algumas considerações metalinguísticas – explícitas ou implícitas –
que os locutores fazem sobre a vagueza. Nos três exemplos selecionados, fazem-se
avaliações negativas da vagueza ou de palavras consideradas vagas.

(120) O Sr. Bernardino Soares (PCP): — Diz o Sr. Ministro que se deve
reformar o acessório, eliminar o redundante — palavras vagas, com as
quais estamos todos de acordo. Mas, diga-nos, Sr. Ministro: despedir 50
enfermeiros nos centros de saúde de Lisboa nas últimas semanas é
eliminar o acessório ou reformar o redundante? (Reunião plenária de 12 de
outubro de 2011)

Em (120), a intervenção do locutor debruça-se sobre a expressão ―deve


reformar o acessório, eliminar o redundante‖, usada pelo ministro de Saúde para falar
sobre a gestão financeira do seu ministério. Como reformar o acessório e eliminar o
redundante – eufemismos para possíveis cortes orçamentais ou de salários,
despedimentos – não dão conta das medidas concretas que o governo quer aplicar
para reduzir a despesa no Sistema Nacional de Saúde, o locutor reclama a vagueza:
―palavras vagas‖ e dá um exemplo concreto do que as duas expressões significam na
prática governativa recente: ―despedir 50 enfermeiros nos centros de saúde de Lisboa
nas últimas semanas‖. Aliás, esta tentativa de concretização dos eufemismo é feita
numa interrogação retórica, que tem o objetivo de ameaçar a imagem pública do
interlocutor: por um lado, obriga-o a trazer para o debate público um assunto
problemático – despedimentos de pessoal do SNS – que expressou através de
eufemismos e, por outro lado, de forma indireta, mostra o seu alocutário como
reponsável político que esconde a verdade.

(121) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Segundo, é mostrar que a imprensa


pode errar, que a denúncia pode ser falsa e que é preciso dar o direito sagrado de
defesa a cada cidadão antes de macular-lhe a imagem. O que sai na televisão?
Denúncia. E aí? Essa é a palavra mais vaga, irmão. Na vida vamos adquirindo
inimigo em tudo o que é lugar. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA:
10/11/2011)

Em (121), o locutor qualifica como vaga uma denúncia anónima sobre casos de
corrupção do ministério que ele tutela. O objetivo do locutor neste caso é de proteger
a imagem pessoal, rejeitando as acusações que lhe são feitas pela imprensa ou pela
oposição. Avaliando a denúncia como vaga e, ao longo do debate, insistindo no seu
caráter anónimo, o locutor pretende desqualificar os FTAs e mostrar que tudo não
passa de um ataque político.

179
(122) Domnul Adrian Henorel Niţu: - La programul bugetar şi de politică
economică sunt multe enunţuri vagi, fără nicio măsură concretă. Programul
guvernului Ponta pentru economie, comerţ şi mediu de afaceri conţine câteva
cifre, fără să aibă un termen-limită, dar este plin de expresii precum ordine şi
coerenţă financiară, profesionalizarea actului de conducere, responsabilitate şi chibzuinţă şi,
nu în ultimul rând, redesenarea arhitecturii şi ecologiei de business. (Reunião da Câmara
dos Deputados, 23 de outubro de 2012)
[O senhor Adrian Henorel Niţu: - No programa orçamental e de política
económica há muitos enunciados vagos, sem nenhuma medida concreta.
O programa Ponta para a economia, o comércio e o ambiente de negócios tem
alguns números, sem ter nenhum prazo-limite, mas está repleto de
expressões como ordem e coerência financeira, profissionalização do ato de gestão,
responsabilidade e cautela e, não em último lugar, reconfiguração da arquitetura e da
ecologia do ambiente de negócios.]

O exemplo (122) contém uma análise do programa do governo feita por um


deputado da oposição, em que o locutor assinala: ―multe enunţuri vagi, fără nicio
măsură concretă‖ [muitos enunciados vagos, sem nenhuma medida concreta]. A
caraterização do programa continua, o locutor denunciando também a falta de prazos,
admitindo, ironicamente, que tem ―câteva cifre‖ [alguns números]. Esta crítica do
locutor baseia-se na expectativa sobre um programa de governo, sobretudo na parte
relativa à economia, que é de ter números, de se baseaar em estatísticas e previsões.
Vejamos também alguns exemplos do que o locutor considera linguagem vaga:
―ordine şi coerenţă financiară‖ [ordem e coerência financeira], ―profesionalizarea
actului de conducere‖ [profissionalização do ato de gestão], ―responsabilitate şi
cautela‖ [responsabilidade e prudência], ―arhitecturii şi ecologiei de business‖
[reconfiguração da arquitetura e da ecologia do ambiente de negócios]. Em todos os
casos a vagueza destas expressões vem da sua generalidade84 e falta de especificidade
numa área em que o discurso deveria essenciamente mostrar rigor, precisão,
especialização. Se é verdade que se pode destacar uma orientação geral política do
governo no que diz respeito à despesa pública – uma vez que refere, por exemplo, o
termo chibzuinţă [cautela] – podemos esperar uma certa prudência no que diz respeito
às finanças públicas, mas não sabemos quais são as medidas previstas. Por um lado,
estes termos muito gerais podem servir como eufemismos para não comunicar
medidas pouco populares – e assim proteger a imagem do governo –, como vimos
também no caso do exemplo (120) e, por outro lado, pelo seu grau de generalidade,
permitem interpretações múltiplas junto de públicos com ideologias e opiniões
diferentes, podendo, eventualmente criar um consenso maior sobre o programa do
governo. No entanto, a falta de precisão tem também efeitos negativos, pois a

84Hahn (1989): ―The hot air quotient of political rhetoric is so high that even casual observers
of the political scene cannot help but notice it‖.

180
oposição usa essa caraterística textual do programa do governo para atacar a sua
imagem pública, sugerindo falta de profissionalismo, de preparação, de especialização.
Nos exemplos (123)-(125) ilustraremos usos de vagueza lexical, em que diferentes
recursos linguísticos são empregues para mitigar mensagens. Em (123), o locutor usa
diferentes marcadores de atenuação ou quantificadores imprecisos para referir
números: ―qualquer coisa como 2700 milhões de euros‖, ―quase 30% do orçamento
anual‖, ―mais de 9500 milhões de euros‖, ―praticamente o dobro‖. Escolhemos um
fragmento em que o locutor apresenta números como argumentos na sua intervenção,
por ser uma das estratégias mais frequentes nos debates políticos85. Os números no
discurso político são associados, em geral, à competência profissional, ao
conhecimento dos dossiers, à argumentação factual. Aliás, como observámos no
exemplo anterior, a ausência dos números serve para atacar os adversários políticos,
com base em pressuposições de falta de profissionalismo. Se os números ganham o
seu lugar de destaque na argumentação política pela aparente objetividade que
expressam, podem representar também uma armadilha para os locutores por duas
razões: em primeiro lugar, ao mostrar números muito elevados e demasiado exatos
arrisca-se a perder a atenção do público e, em segundo lugar, o locutor deve ter a
certeza de que os números que apresenta não são atacáveis para não ser alvo de ataque
por parte dos adversários políticos numa batalha de números, expressão usada por
Saulnier (2012). Observamos que em (123) o locutor usa números e percentagens
exatos: ―2700 milhões de euros‖, ―5000 milhões‖, ―9500 milhões de euros‖, ―30% do
orçamento‖, mas tem sempre o cuidado de os atenuar, assim não podendo ser
atacado, eventualmente, por não ter oferecido os dados exatos.

(123) O Sr. Nuno Reis (PSD): — [...] No final do 1.º semestre deste ano, a dívida a
fornecedores do SNS atingia qualquer coisa como 2700 milhões de euros, ou
seja, quase 30% do orçamento anual deste sector. Entre 2005 e 2011, a despesa
do SNS descontrolou-se, aumentando de 5000 milhões para mais de 9500
milhões de euros, ou seja, praticamente o dobro num período em que a
economia praticamente estagnou. (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

(124) O SR. MINISTRO JOSÉ EDUARDO CARDOZO - Posso me


equivocar um pouco na precisão de horários, mas por volta
aproximadamente das 20h, horário de Brasília, 19h, horário de Fortaleza, fui
até Fortaleza, chegando no horário de lá às 21h30min, quando, então, fui à

85A revista francesa Mots tem um número temático (2012/3) dedicado ao uso dos números em
debates políticos: Chiffres et nombres dans l'argumentation politique. Ver Saulnier (2012, nosso negrito):
―Avoir le bon chiffre (celui du prix de la baguette, du nombre de sousmarins ou du
pourcentage du nucléaire), c‘est faire preuve de sa compétence, de sa connaissance du terrain,
de son sérieux. Les chiffres ne mentent pas, dit-on. Cette croyance dans la vérité absolue
des chiffres et des nombres vient du sémantisme du cardinal : il est monosémique, son
sens est transparent, il est objectif‖.

181
residência do Governador. [...] Naquela madrugada, por volta das 2h da
manhã, aproximadamente, eu retornei a Brasília. Ao chegar, encontrei-me
com o Dr. Leandro Daiello na minha residência — aliás, quando há operações
mais delicadas ele habitualmente me acorda. (Audiência Pública N°: 1690/12
DATA: 04/12/2012)

Em (124), o locutor atenua as informações sobre o horário da sua deslocação a


Fortaleza. Trata-se de um fragmento em que o minstro rejeita as acusações de não ter
sido informado sobre a operação Porto Seguro, porque não estava em Brasília,
participando numa reunião de ministros do Mercosul em Fortaleza. O locutor
aproveita a audiência pública para dizer que teve uma reunião com o chefe da Polícia,
Leandro Daiello e que foi informado sobre o desenvolvimento da operação. Na sua
intervenção, o locutor afirma que as informações oferecidas não são precisas: ―Posso
me equivocar um pouco na precisão de horários‖ e faz o seu relato usando
marcadores de atenuação no caso de alguns horários: ―por volta aproximadamente
das 20h‖, ―por volta das 2h da manhã, aproximadamente‖, mostrando-se prudente e
tendo o cuidado de não oferecer informações inexatas.

(125) Domnul Orest Onofrei: - Sigur că eu vreau să fiu foarte scurt. Nu vreau
să folosesc nici date statistice. Sigur că eu sunt la curent cu ce se întâmplă în
agricultură, domnul ministru ne informează, ca şi pe dumneavoastră. Sigur că
interes pentru agricultură, în general, în ultimii 20 de ani, Parlamentul
dovedeşte foarte mult atunci când pune miniştri şi, uneori, când vrea să-i
dea jos. [...] Dacă este să facem totuşi ceva pentru agricultură, trebuie să
facem nu aşa cum facem noi de obicei. [...] Aş vrea să închei parafrazând
ceea ce se spune la cununiile din Biserica Catolică. Dacă cineva are de făcut
ceva pentru agricultură, s-o facă acum, dacă nu, să tacă. Să tacă, pentru că
este foarte greu să vezi oameni care vin şi… Eu prefer oamenii care vin să
spună că au făcut ceva pentru agricultură, decât oamenii care vin şi ne
explică extrem de convingător că au stat degeaba în acel post. (Reunião do
Senado de 2 de maio de 2011)
[O senhor Orest Onofrei: - Claro que eu quero ser muito breve. Não quero
usar aqui dados estatísticos. Claro que estou a par do que se passa na
agrocultura, o ministro informa-nos, como informa os senhores. Claro que, em
geral, nos últimos 20 anos, o Parlamento mostra muito interesse pela
agricultura quando empossa ministros e, por vezes, quando os quer
demitir. [...] Se quisermos fazer alguma coisa pela agricultura, temos de
não fazer o que nós fazemos normalmente. [...] Queria concluir
parafraseando o que se diz no casamento da Igreja Católica. Se alguém tiver
alguma coisa para fazer pela agricultura, que o faça agora, se não tiver,
que se cale. Que se cale, porque é muito difícil ver pessoas que vêm e... Eu
prefiro as pessoas que vêm dizer que fizeram alguma coisa pela
agricultura, às pessoas que vêm explicar de forma muito convincente que
ocuparam o cargo para nada.]

182
Se em (123) e (124) a vagueza lexical se traduzia essencialmente no uso de
marcadores de atenuação para dados estatísticos sobre o Sistema Nacional de Saúde ou os
horários de deslocação a uma reunião ministerial do Mercosul, em (125) a imprecisão do
exemplo selecionado do sub-corpus romeno prende-se com uso de pronomes
indefinidos, como ceva [alguma coisa], cineva [alguém], adjetivos como mult [muito] ou puţin
[pouco], cuja interpretação é essencialmente dependente do contexto, sendo também vaga
por não referir unidades de medida específicos, ou com outros meios linguísticos que
servem para expressar ideias imprecisas: în general [geralmente], substantivos sem artigo
definido: miniştri [ministros], oameni [pessoas], o uso de nós genérico: ―să facem ceva pentru
agricultură‖ [fazermos alguma coisa para a agricultura], ―cum facem noi de obicei‖ [como
fazemos normalmente]. Notamos também o uso do tu genérico86 quando avalia outros
participantes no debate: ―este foarte greu să vezi oameni care vin‖ [é muito difícil ver
pessoas que vêm] em oposição com a expressão clara de eu no início da intervenção,
quando faz considerações metalinguísticas sobre o próprio discurso: ―eu vreau să fiu
foarte scurt‖ [eu quero ser muito breve], o que poderia sugerir uma falta de
comprometimento discursivo com as hetero-avaliações proferidas.
Os próximos três exemplos (126)-(128) tentam ilustrar a vagueza textual ou
pragmática, sendo analisados segundo o quadro teórico proposto por Gruber (1993),
em termos das intenções dos locutores e das expectativas dos interlocutores. Como já
vimos, Gruber relaciona o uso de vagueza textual, por um lado, com a cortesia
linguística e com a tensão entre manter a sua imagem pessoal e ameaçar a imagem
pública do interlocutor, sem tocar na imagem pessoal do próprio e, por outro lado,
com o facto de os locutores se dirigirem a audiências múltiplas, que têm opiniões
diferentes sobre os assuntos debatidos. O conceito de vagueza textual de Gruber
(1993) é comparavel com o evitamento, nas suas manifestações significativas, médias ou
subtis (Rasiah 2010: 667), por descrever a convergência ou a divergência entre
intenções e expectativas dos locutores que participam numa interação verbal.
Uma primeira observação prende-se com uma assimetria evidente entre as
perguntas e as respostas, visto que as primeiras tentam ser claras e explícitas, ao passo
que nas segundas, os locutores usam graus diferentes de vagueza textual para evitar
respostas que possam afetar a sua imagem pública.
Em (126), o locutor faz duas perguntas. A primeira, que será repetida três
vezes, diz respeito ao reembolso do IRS e solicita especificamente o prazo-limite, ao
passo que a segunda, relacionada com a primeira, pede explicações sobre uma possível
decisão administrativa sobre os atrasos no reembolso do IRS. Notamos, no entanto,
que a pergunta contém também avaliações negativas em relação ao governo, que
constituem FTAs para a imagem pública do governo: ―o Governo tem sido muito
rápido a tirar mas muito lento a devolver‖, ―por detrás deste malabarismo‖, ―o
dinheiro dos contribuintes não pode ser posto na mão do Governo, conforme os seus

86Para uma descrição mais pormenorizada do funcionamento dos usos genéricos de tu em


romeno, ver Zafiu (2003).

183
apetites‖. Aliás, na primeira parte da pergunta, os FTAs que visam o interlocutor, a
primeira interveniente mostrando que o mesmo não cumpre o que é esperado dele:
não respeita padrões previsíveis e falha em questões técnicas.

(126a) A Sr.ª Cecília Honório (BE): — Sr. Presidente, Sr. Ministro de Estado e
das Finanças, a minha pergunta é a seguinte: qual é o prazo-limite que o
Governo dá para o reembolso do IRS?1 É porque o Sr. Ministro gosta de
padrões previsíveis e o padrão previsível para o reembolso do IRS dos
portugueses era de 20 dias. No entanto, agora vêm dizer-nos que não, que os 20
dias não são suficientes1, porque há problemas técnicos, pelo que não é possível
responder a esta expetativa. A verdade, Sr. Ministro, é que os prazos foram
sendo reduzidos, até pela pressão que foi sendo criada para a entrega por via
eletrónica destas declarações. Sr. Ministro, há um problema técnico, há questões
técnicas, mas nós pensávamos que competência técnica era mesmo a sua grande
mais-valia2. Por isso, a pergunta é muito simples: sabendo que o Governo tem
sido muito rápido a tirar mas muito lento a devolver, e julgando os portugueses
que o Sr. Ministro sabe que este dinheiro é dos portugueses3, não é do Governo,
quero que nos diga qual é o prazo-limite para o reembolso do IRS, das
contribuições que são dos portugueses.2 Ou por detrás deste atraso, por
detrás deste malabarismo, existe alguma decisão administrativa, que é a de ter
saldo de caixa, tendo em vista a próxima avaliação da troica, e nesse sentido está
a reter o dinheiro, que é dos contribuintes, à conta de uma decisão que é
meramente administrativa? [...] Responda-nos hoje e aqui qual é o prazo-
limite para o reembolso do IRS dos portugueses, que é dinheiro dos
contribuintes3, não pode ser posto na mão do Governo, conforme os seus
apetites. (Reunião plenária de 26 de abril de 2012)

O interlocutor tem um duplo desafio: minimizar o FTA para proteger a


imagem pessoal e a do governo e, dada a natureza pública de qualquer debate
parlamentar, dirigir-se não apenas ao locutor que faz a pergunta, mas a outras
audiências, como a comunicação social ou os eleitores. Portanto, num primeiro
momento afirma que a questão já foi esclarecida por uma instituição do governo e
depois oferece uma resposta parcial, que diz respeito a uma parte dos contribuintes, os
que entregaram as declarações de IRS pela internet. O locutor oferece algumas
informações relacionadas com o assunto, por exemplo o número de famílias que já
foram reembolsadas (120 0000) e o prazo médio de reembolso no caso das mesmas
(25 dias), o que poderá atenuar os efeitos dos FTAs da pergunta. Os efeitos de
vagueza relacionam-se a nível macro com a parcialidade da resposta, sendo
observáveis a nível micro sobretudo no que diz respeito ao prazo em si, pois o locutor
usa termos que não quantificam de forma exata uma unidade de tempo, solicitada na
pergunta: tratamento prioritário, mais rapidamente. A segunda pergunta, porém, não obtém
resposta, rejeitando o locutor desta forma os seus pressupostos.

184
(126b) O Sr. Ministro de Estado e das Finanças (Vítor Gaspar): — Muito
obrigado, Sr. Presidente em exercício. Na resposta às perguntas que agora me
foram feitas, posso ser relativamente rápido. Começarei por responder à última
questão que me foi colocada e que se refere ao IRS, esclarecendo que a
mesma se prende com um procedimento de natureza exclusivamente
técnica e que foi já objeto de esclarecimento pela Autoridade Tributária,
em nota publicada no Portal das Finanças, no passado dia 20 de abril.
Como em ocasiões anteriores, as declarações que foram entregues pela
Internet serão alvo de tratamento prioritário e os reembolsos serão, nesses
casos, processados mais rapidamente. Posso dizer que, neste momento, já
foram processados reembolsos relativos a 120 000 famílias e que, relativamente
a estas 120 000 famílias, o prazo médio foi de 25 dias. As razões deste
procedimento estão, como eu disse, disponíveis no Portal das Finanças.
(Reunião plenária de 26 de abril de 2012)

Em (127), o diálogo entre os dois locutores diz respeito a contratos públicos


com irregularidades celebrados entre empresas privadas e alguns dos hospitais do Rio
de Janeiro. O locutor coloca uma questão sobre um dos protagonistas de um artigo de
imprensa sobre estes contratos, acusado de diferentes atos de corrupção. Como se
trata de uma pessoa próxima do interlocutor – um ex-assessor do Ministério de Saúde
–, a pergunta constitui um FTA para o mesmo, porque, ao ser associado a alguém
suspeito de atos de corrupção, torna-se alvo de acusações – no espaço público, não
necessariamente do ponto de vista jurídico – do mesmo crime. Em segundo lugar,
notamos que o locutor, ao fazer a pergunta, refere também o público do debate,
invocando duas vezes a nação brasileira, que serve como audiência, claro, mas também
como justificação da legitimidade das ações do locutor: ―nós devemos uma satisfação
àqueles que acreditam em nós, àqueles que nos colocaram aqui, àqueles que
representamos‖. A pergunta feita diz respeito a uma situação muito concreta, de
dinheiro pago por um parlamentar a um intermediário: ―daquele laranja87 dele, que
recebeu aquele depósito‖. A resposta do interlocutor assenta em diferentes estratégias
de vagueza textual / evitamento, como defender que a resposta já foi dada: ―Aquilo
que cabia a mim esclarecer, já esclareci‖, afirmar que a responsabilidade compete a
outras entidades: ―quem vai dar é a CGU e a Polícia Federal‖, projetar a resposta num
futuro incerto, sem horizonte temporal bem definido: ―certamente vai apurar‖, fazer
referências genéricas a pessoas possivelmente envolvidas: ―qualquer pessoa que esteja
envolvida‖. A divergência entre expectativas e intenções é bastante evidente neste
caso, pois o interlocutor recusa-se a dar uma resposta concreta.

87Em português do Brasil, laranja significa também ―pessoa usada como intermediária em
fraude e negócios suspeitos‖ (Cf. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [consultado a 30-
08-2015].

185
(127) O SR. DEPUTADO NELSON BORNIER – Eu gostaria de agradecer ao
Ministro por ter aceito o convite de estar aqui conosco. Mas, Ministro, não deixe
de ver, trocar uma empresa, já que quatro foram denunciadas, substituir uma
pela outra nessa contratação emergencial... E vou além, nessa questão da
Facility, já que havia o contrato emergencial de R$2.360,00 e foi para
R$4.000,00... E que V.Exa. consiga elucidar, para que fique claro para a
Nação brasileira, a situação do Edson Pereira. Acho que este rapaz merece,
efetivamente. Acho que é uma pessoa ligada a V.Exa. há tanto tempo, mas que
eu não conheço. Que V.Exa. possa, mais do que nunca, esclarecer para a Nação
brasileira o que ocorreu diante do depósito de dinheiro que ele tomou –
pelo menos é o que está dito na revista – de um Parlamentar, no Rio. Nós
o convidamos também para que estivesse aqui, através de requerimento. Para
mim isso é muito importante, até porque nós devemos uma satisfação àqueles
que acreditam em nós, àqueles que nos colocaram aqui, àqueles que
representamos, e isso ainda não ficou muito claro, principalmente na questão
daquele laranja dele, que recebeu aquele depósito, e que não falamos
aqui. Mas que também se esclareça quem é essa pessoa, de onde veio, e,
consequentemente, possamos elucidar todas essas questões.
Obrigado, Sr. Ministro.
O SR. MINISTRO ALEXANDRE PADILHA – Obrigado, Sr. Deputado.
Aquilo que cabia a mim esclarecer, já esclareci no mesmo dia em que
saiu a matéria. Certamente os esclarecimentos finais sobre esse episódio, a
matéria citada aqui por V.Exa., quem vai dar é a CGU e a Polícia Federal,
que, a meu pedido, antes mesmo de sair publicada a matéria, iniciou um
processo de apuração sobre esse caso. E certamente vai apurar não só o que
falou o ex-assessor mas também qualquer pessoa que esteja envolvida nesta
questão. Muito obrigado, Sr. Deputado Nelson Bornier. (Audiência Pública N°:
0497/12 DATA: 08/05/2012)

O exemplo (128) ilustra também o uso da vagueza textual no corpus romeno, a


partir de um diálogo entre um deputado da oposição e a ministra da Educação sobre
um dos eventos que marcou o debate público romeno nos últimos anos, a acusação
feita ao primeiro ministro Victor Ponta de ter plagiado a sua tese de doutoramento
em Direito. Um dos aspetos mais controversos deste episódio, referido também pelo
primeiro interveniente, é o facto de o Ministério de Educação ter mudado a
composição do Conselho de Reconhecimento dos Títulos, dos Diplomas e dos
Certificados Universitário – com competências jurídicas e administrativas para fazer a
análise da tese –, que descriminou o primeiro ministro da acusação. No entanto,
outros organismos, entre os quais a Comissão de Ética da Universidade de Bucareste,
onde foi defendida da tese, concluiu que o primeiro ministro plagiou.
O primeiro interveniente coloca duas questões relacionadas com este episódio:
a primeira diz respeito às alterações na estrutura do Conselho e a segunda prende-se
com a avaliação final feita por esta instituição, de descriminação do primeiro ministro
da acusação de plágio. A pergunta tem uma pressuposição – aliás, veiculada no debate

186
público romeno também – que constitui um FTA para as imagens públicas dos atores
implicados neste episódio: o ministério da educação, ao pedido da atual ministra e do
ex-ministro Liviu Pop, mudou a estrutura do conselho para proteger o primeiro
ministro. O locutor faz, portanto, uma pergunta de avaliação negativa, em que usa
também diferentes argumentos de autoridade para sustentar o seu raciocínio,
evocando a revista internacional Nature – a primeira a publicar informações sobre o
plágio –, a Comissão de Ética da universidade que conferiu o título de doutor,
académicos prestigiados que se pronunciavam sobre o plágio e consideraram que
grande parte da tese tinha sido copiada, e desacredita a nova estrutura do conselho
que descriminou o plágio. A expectativa do locutor no que diz respeito às respostas
seria de a ministra responder mencionando as razões pelas quais foi alterada a
estrutura do conselho e explicar porque apenas aquele conselho se pronunciou contra
o plágio, quando outras entidades se pronunciaram a favor.

(128a) Domnul Teodor-Marius Spînu: - O scurtă întrebare pentru doamna


ministru Andronescu, care facea referire la celebrul Consiliu Naţional de
Atestare a Diplomelor şi Titlurilor Universitare şi a Certificatelor Universitare,
ca să fie complet. Aţi spus că cei 20 de membri din conducere care au certificat
prima dată oficial, după revista Nature, plagiatul domnului Ponta, au stat în pixul
ministrului. Doamnă preşedinte, vă rog să-mi indicaţi un om din acel
consiliu, care nu merită să fie acolo, ţinând cont că din acel consiliu la
vremea respectivă făceau parte şapte academicieni, în frunte cu
preşedintele Academiei, domnul Haiduc. Aţi schimbat, domnul Pop şi
dumneavoastră, componenţa acestui consiliu, în loc să luaţi personalităţile
academice evidente, care au facut ceva în aceasta ţara sau în străinatate, nu aţi
făcut decât să duceţi la mediocritate acest consiliu, supunând apartenenţa în
comisiile de specialitate unei proporţionalităţi, în funcţie de numărul de
universităţi din ţară. Şi vă întreb, doamnă ministru, după sentinţa de plagiat
din una din cele mai prestigioase reviste ştiinţifice din lume, Nature,
după acest aviz dat de şapte academicieni şi restul membrilor din
CNATDCU, după decizia luată de Universitatea Bucureşti, cu
consultarea experţilor români din străinatate, pe umerii cărora plângem şi
îi vrem înapoi în ţară, ce răspuns daţi dumneavoastră în momentul când
această comisie de etică...
Domnul Viorel Hrebenciuc: - Domnule Spînu, vă rog să trageţi concluzia.
Domnul Teodor-Marius Spînu: - În zece secunde, domnule preşedinte. ...pe care
fostul ministru Pop l-a schimbat în totalitate şi trei oameni, din care unul
acuzat de plagiat, domnul Burnete, un avocat specializat pe proceduri, şi nu
pe fond, l-au scos cu batista curată pe domnul ministru Ponta.
Domnul Viorel Hrebenciuc:- Domnule Spînu, timpul dumneavoastră s-a
epuizat!
Domnul Teodor-Marius Spînu: - Vă mulţumesc. Dacă puteţi să-mi răspundeţi la
această întrebare, doamnă ministru.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 2 de outubro de 2012)

187
[O senhor Teodor-Marius Spînu: - Uma breve pergunta para a senhora ministra
Andronescu, que referia o célebre Conselho Nacional de Reconhecimento de
Diplomas e Títulos Universitários e dos Certificados Universitários, para ser
completo. Disse que os 20 membros da direcção, que certificaram o plágio do
senhor Ponta pela primeira vez, oficialmente, após a revista Nature, tiveram a sorte
decidida pelo ministro. Senhora presidente, por favor indique-me uma pessoa
daquele conselho que não merecia estar lá, tendo em conta que naquele
momento integravam no conselho sete académicos, inclusive o presidente da
Academia, o senhor Haiduc. O senhor Pop e a senhora mudaram a estrutura
deste conselho, em vez de cooptarem as personalidades académicas evidentes, que
fizeram alguma coisa no país e no estrangeiro, reduziram este conselho ao estado de
mediocridade, condicionando a pertença nas comissões de especialidade a uma
proporcionalidade em função do números de universidades do país. E pergunto,
senhora ministra, depois da decisão de plágio feita por uma das mais
prestigiadas revistas científicas do mundo, Nature, depois deste parecer feito
por sete académicos e os restantes membros do CNATDCU, depois da
decisão tomada pela Universidade de Bucareste, após consultas com peritos
do estrangeiro, que tanto lamentamos e que tanto queremos de volta no país,
que resposta é que a senhora dá quando esta comissão de ética...
O senhor Viorel Hrebenciuc: - Senhor Spînu, faça favor de concluir.
O senhor Teodor-Marius Spînu: - Em dez segundos, senhor presidente. ...que
o ex-ministro Pop substituiu e três pessoas, uma delas acusada de plágio,
o senhor Burnete, um avocado especializado em direito processual e não
em doutrina jurídica, descriminaram o senhor ministro Ponta. O senhor
Viorel Hrebenciuc: - Senhor Spînu, o seu tempo acabou!
Domnul Teodor-Marius Spînu: - Obrigado. Se puder responder a esta pergunta,
senhora ministra.

Perante esta pergunta, a ministra tenta reduzir o efeito das acusações –


tomando em consideração também a visibilidade mediática e o interesse público pelo
assunto – e assim, protoger a imagem pública de si, mas também do primeiro ministro
e das instituições que representa, o Ministério da Educação e o governo. Em primeiro
lugar, notamos que na resposta a palavra plagiat [plágio] não é referida. Ao analisarmos
todas as intervenções da ministra neste debate vimos não faz nenhuma referência ao
plágio, ao passo que diferentes deputados da oposição mencionam 30 vezes as
palavras plagiat [plágio] e plagiator [plagiador]. Assim, a ministra desvia a discussão do
assunto central. Emprega uma vez um termo genérico, que tem o efeito de minimizar
o impacto: abaterile de la etică [desvios da ética].
Em relação às duas perguntas colocadas, a primeira será desmentida, a
interveniente afirmando três vezes que respeitou a lei: ―Toate demersurile [...] trebuie
să respecte legea‖ [Todas as medidas [...] devem respeitar a lei] e mencionando que se
trata da lei adotada pela oposição quando era governo: ―legea dumneavoastră
stabileşte‖ [a lei dos senhores estabelece]. Ao usar o argumento do cumprimento da
lei, a interveniente tenta minimizar o impacto dos FTAs e mostrar ao interlocutor e às

188
diferentes audiências que possam assistir ao debate que as próprias ações e as das
instituições têm justificação legal, e não advêm de um desejo de proteger a imagem do
seu chefe de partido e de governo. Aliás, não há menções sobre o primeiro ministro
quando a oradora refere – com a expressão abaterile de la etică [desvios da ética] – o
plágio, mas o mesmo será mencionado no fim da intervenção, num contexto
diferente; a ministra acaba o seu discurso com um FFA, que visa a imagem do
primeiro ministro e do governo, tentando assim mitigar os possíveis efeitos dos FTAs
anteriores e mudando o assunto do debate.
A segunda pergunta ficará sem resposta detalhada, pois a interveniente não
explica a decisão da segunda estrutura do conselho, limitando-se a dizer que tudo
decorreu em conformidade com a lei. A vagueza textual neste caso prende-se também
com a divergência evidente entre a expectativas do locutor que formulou as perguntas
avaliativas e as respostas defensivas da ministra. A nível lexical, a vagueza prende-se
com o evitamento dos assuntos problemáticos, quer completo, como é o caso da falta
de referências ao primeiro ministro na primeira parte da intervenção, quer parcial,
através do uso de fórmulas suavizadoras, mitigante, talvez politicamente corretas, como
abateri de la ética [desvios da ética] em vez de plagiat [plágio].

(128b) Doamna Ecaterina Andronescu: - Domnului deputat care a ridicat


problema Consiliului Naţional de Atestare a Titlurilor, Diplomelor şi
Certificatelor Universitare, îi cer scuze dacă actualul consiliu conţine 8
academicieni, faţă de 4 academicieni pe care i-a conţinut consiliul
respectiv, şi vreau să vă mărturisesc că s-au păstrat şi cei 4 care au fost
anteriori, sunteţi în eroare... sunteţi în eroare, stimate domnule deputat!
[...] Toate demersurile pe care un ministru trebuie să le asigure trebuie să
respecte legea1. Pentru că spre deosebire de modul în care s-a gestionat
anterior, când ministrul putea să facă orice, eu cred că trebuie sa ramân un
ministru care să respecte legea2. Ca urmare, legea dumneavoastră
stabileşte care este structura academică care trebuie sa ia masuri în
legatura cu abaterile de la etică şi am procedat în conformitate cu legea3.
Acţiunea dumneavoastră şi discuţiile pe care le-aţi facut astăzi şi în moţiune, şi în
dezbaterile publice mă determină să spun că moţiunea este un demers pur
politic, cu ţinte clare către persoane. Vă deranjează probabil ca primul-
ministru al acestui guvern este de o altă valoare decât primi-miniştrii pe care
dumneavoastră i-aţi avut, şi de aceea cred ca acest guvern va face ceea ce spune,
şi nu va înşela aşteptările oamenilor. (Reunião da Câmara dos Deputados de 2 de
outubro de 2012)
[A senhora Ecaterina Andronescu: - Peço desculpas ao senhor deputado que
levantou a questão do Conselho Nacional de Reconhecimento dos Títulos,
dos Diplomas e dos Certificados Universitários, peço desculpas se o
conselho atual tem oito académicos, em comparação com os quatro que
tinha e queria dizer-lhe que foram mantidos os quatro que estavam lá
anteriormente, está enganado... está enganado, senhor deputado! [...]
todas as medidas tomadas por um ministro devem respeitar a lei. Porque, ao

189
contrário de como se faziam as coisas anteriormente, eu acho que devo ser
uma ministra que respeita a lei. Por conseguinte, a lei dos senhores
estabelece qual é a estrutura académica que deve tomar medidas sobre os
desvios da ética e eu agi em conformidade com a lei. A ação dos senhores e
as discussões de hoje na moção e no debate público, levam-me à conclusão que
esta moção é apenas uma ação política, que visa claramente certas
pessoas. Incomoda-os provavelmente que o primeiro ministro deste governo
tenha um valor diferente do dos primeiros ministros dos senhores e por isso
acho que este governo fará o que diz e não enganará as esperanças das pessoas.]

Este capítulo teve como objetivo a micro-análise da dinâmica interacional dos


debates parlamentares, enfocando a organização discursiva das perguntas e as estratégias
usadas pelos locutores para responder ou, melhor dito, para evitar as respostas.
Em primeiro lugar, destaca-se a configuração das perguntas enquanto
construções textuais complexas, tendo como função primordial fazer avaliações – em
geral negativas – dos outros. Neste caso, a tarefa dos alocutários – responder às
perguntas em conformidade com a máximas de cooperação (Grice 1975) – torna-se
muito difícil, porque às vezes as respostas podem prejudicar a sua imagem pessoal.
Por outro lado, o pacto de cooperação é quebrado pelo locutor que faz perguntas,
quando ameaça a imagem do alocutário através de perguntas com avaliações negativas.
No que diz respeito à estrutura das perguntas parlamentares, identificamos duas
tipologias que se destacam: as construções argumentativas complexas, que podem
conter séries de exemplos, pressuposições negativas; as interrogações em cascata, em
que os locutores fazem múltiplas perguntas aos alocutários.
Em segundo lugar, os exemplos selecionados evidenciam as seguintes
estratégias de evitamento total ou parcial: ignorar a pergunta, desqualificar a pergunta
– ver, por exemplo, as considerações sobre ―întrebări serioase‖ [perguntas sérias] e
―frustrările multiple exprimate‖ [múltiplas frustrações expressas] em (119) –, avaliar
negativamente o interlocutor, declinar a competência para responder (outras
instituições ou serviços são responsáveis pelo assunto), defender-se das acusações,
rejeitar as acusações, marcar pontos políticos, oferecer outras informações.
No que diz respeito à vagueza, fizemos a distinção entre vagueza lexical e
vagueza textual (Gruber 1993), a análise dos exemplos revelando o uso dos seguintes
mecanismos: conceitos gerais, marcadores de aproximação (para dados estatísticos ou
unidades de tempo), pronomes indefinidos (no caso de referenciamento de pessoas).
Em relação à vagueza textual, conceito que é semelhante aos evitamentos
significativos, médios e subtis (Rasiah 2010), os três exemplos selecionados – um para
cada sub-corpus – destacaram as seguintes manifestações linguísticas: ignorar
totalmente ou parcialmente as perguntas, recusar-se a responder (afirmando que
resposta foi dada), fazer considerações gerais sobre o assunto, evitar as palavras
acusadoras e usar um léxico politicamente correto: ―abaterile de la etică‖ [desvios da
ética] em vez de ―plagiat‖ [plágio].

190
Conclusões parciais

A primeira parte deste volume, dedicada à arquitetura dos debates parlamentares


portugueses, brasileiros e romenos propõe as seguintes pistas de investigação: a macro-
análise das sequências interacionais (supra 1.3) e a micro-análise dos mecanismos da negociação
conversacional (supra 1.4) e do funcionamento das perguntas e das respostas (supra 1.5).
A análise não começa ex abrupto, pois considerámos necessárias algumas etapas
preliminares: uma apresentação do estado de arte sobre os estudos dedicados aos
debates parlamentares, uma definição do discurso parlamentar, suas articulações com
o discurso público e com o discurso político, uma análise dos sub-géneros do discurso
parlamentar – em função de critérios institucionais, retóricos e pragmalinguísticos –,
seus atores e a configuração da identidade parlamentar. Os resultados da secção
dedicada à identidade parlamentar serão utilizados na segunda parte do volume, na
análise das formas de tratamento enquanto recursos linguísticos para a construção de
auto-imagens e de hetero-imagens.
Considerámos igualmente necessária uma avaliação crítica do corpus, composto
por 33 transcrições oficiais de debates parlamentares selecionados com base em
critérios cronológicos e temáticos, bem como das limitações decorrentes da
retextualização (Oliveira 2013) feita pelos serviços de taquigrafia e arquivo. A
comparação de três transcrições oficiais e das respetivas gravações áudio e vídeo,
mostra, de facto, a existência de correções e / ou supressões de conteúdo, correções
gramaticais, reformulações, uniformização estilística (através do uso do registo formal)
e alterações na dinâmica do turno de fala. Os resultados deste capítulo indicam o facto
já salientado por outros linguistas, que a análise do discurso parlamentar feita
exclusivamente com base em transcrições oficiais não permite demasiadas
generalizações no que diz respeito ao uso da língua.
Em primeiro lugar, visto que notámos na nossa análise supressões ou
acréscimos de formas de tratamento, decidimos não fazer uma análise do tratamento
baseada demasiado em critérios quantitativos – a não ser em casos de assimetrias
evidentes, como é o uso de colega(s) e coleg(i) nos três sub-corpus (ver infra 2.4.2.2
Colega(s) sobre o tratamento relacional) –, sendo privilegiada, na segunda parte do
volume, uma abordagem qualitativa. Em segundo lugar, não nos debruçámos sobre a
problemática dos registos de língua e a sua importância para a configuração da
identidade pessoal, visto que a graphie aseptisée (Cabasino 2001) elimina, em geral, as
estruturas de língua que se afastam demasiado da norma.
Com efeito, consideramos que uma avaliação prévia deste tipo de corpus é
necessária nas análises linguísticas. Nem sempre os corpora já feitos são adequados
para a análise linguística, uma vez que não foi esse o seu objetivo inicial. No entanto,
apesar de certos inconvenientes – que devem ser destacados justamente neste tipo de
análise comparativa escrita / oral –, os corpora feitos por não-linguistas tem as suas

191
vantagens também. No caso de trabalhos individuais, como este, nem sempre há
tempo disponível para transcrições extremamente cronófagas.
A análise sequencial evidencia algumas diferenças entre os três sub-corpora:
i) na sequência de abertura: a apresentação pormenorizada do tempo disponível
para cada orador ou cada bancada parlamentar nos debates brasileiros e romenos, não
se verifica nos debates portugueses; o uso de fórmulas juratórias – Sob a proteção de
Deus, em nome do povo brasileiro – é uma caraterística dos debates brasileiros, não se
encontrando nos debates portugueses e romeno; em geral as sequências de abertura na
Assembleia da República são mais protocolares, ao passo que no Parlamento da
Roménia podem aparecer sub-sequências não-canónicas, como observar um minuto
de silêncio, congratular os colegas no dia do nome;
ii) na corpo de interação: notamos que o ritual que diz respeito à ordem dos
intervenientes apresenta uma diferença: se nos debates portugueses e romenos os
representantes da oposição são os primeiros a tomar a palavra, para apresentar
interpelações e moções, nos debates brasileiros os membros do governo intervêm
primeiro, para fazer um ponto de situação do assunto debatido; nos três sub-corpora a
exposição é uma sub-sequência com um grau fraco de interatividade, os intervenientes
limitando-se a ler documentos redigidos anteriormente; nos debates portugueses
destacam-se os apartes coletivos ou individuais, verbais ou não verbais, que têm o
papel de apoiar os discursos dos oradores do mesmo partido e de criticar as
intervenções dos adversários políticos; em sequência de questões e respostas apresenta
o grau de interatividade mais elevado, a nossa análise mostrando modelos dinâmicos
com interações diretas ou indiretas entre três ou quatro intervenientes;
iii) na sequência de fecho não se registam grandes diferenças entre os três sub-
corporas, notando uma certa preferência dos oradores romenos pelo uso de atos
rituais (saudações, agradecimentos).
O capítulo sobre a negociação conversacional destaca, em primeiro lugar, o papel do
presidente enquanto gestor dos diferendos que possam aparecer. Os exemplos
selecionados dizem respeito ao tempo disponível para os oradores e mostram que o
resultado da negociação – alinhamento espontâneo, não resolução, negociação
falhada, negociação bem sucedida – não tem consequências para o sucesso da
interação, ou seja uma negociação falhada não conduz à interrupção da interação. Na
nossa opinião, este facto deve-se esencialmente à particularidade do discurso
parlamentar, que privilegia a ritualização do conflito; portanto, um estado mais
prolongado de desacordo faz parte do contrato de comunicação e é aceite como tal
pelos participantes. A análise das interrupções – diferentes dos apartes, dado que
obtêm resposta dos oradores – indica a necessidade de as analisar também em função
do seu efeito para a imagem pessoal, critério que acrescentamos aos que foram
propostos por Ilie (2005a).
O último capítulo, que se debruça sobre o funcionamento das perguntas e das
respostas, destaca a tipologia complexa do ponto de vista textual e argumentativa das

192
interrogações e o uso de estratégias de proteção da imagem pessoal nas respostas, que
integra mecanismos de evitamento parcial ou total e preferência pela vagueza lexical
ou textual.
Na segunda parte do trabalho aprofundaremos a análise da dinâmica
interacional nos debates parlamentares portugueses, brasileiros e romenos, enfocando
o emprego das formas de tratamento na criação de auto-imagens e hetero-imagens e
na configuração da distância interlocutiva.

193
2. O tratamento no discurso parlamentar

Art. 16º – A Câmara dos Pares terá o Tratamento de –


Dignos Pares do Reino; – e a dos Deputados de – Senhores
Deputados da Nação Portuguesa. (Carta constitucional de
29 de Abril de 1826)

A segunda parte deste trabalho é dedicada à análise dos empregos das formas
de tratamento (FT), enquanto recursos linguísticos de construção de auto-imagens e
hetero-imagens e enquanto reguladores da distância interlocutiva.
Sendo um mecanismo privilegiado da construção da deixis social, as formas de
tratamento indicam com maior pertinência a relação entre o uso da língua e a dinâmica
das relações sociais estabelecidas entre os locutores. Por conseguinte, numa análise
como a que propomos neste volume, a descrição detalhada das formas de tratamento
utilizadas pelos locutores oferece uma imagem fiel do contexto socio-discursivo em
que funcionam os debates parlamentares. Por um lado, as formas de tratamento
indicam como os locutores se controem enquanto atores políticos ativos no seu
posicionamento discursivo durante os debates e, por outro lado, mostram como se
configuram as relações discursivas dos locutores com os outros (interlocutores ou
terceiros) nas suas intervenções no parlamento.
No primeiro capítulo fazemos algumas considerações teóricas sobre o
inventário das FT em português e em romeno, destacando, por um lado, semelhanças
e diferenças entre as variantes do português faladas em Portugal e no Brasil e, por
outro lado, entre o português e o romeno, nos três eixos propostos por Carreira
(1997): elocução, alocução e delocução. Apresentamos ainda algumas particularidades
dos usos das FT nos debates parlamentares, tomando em consideração a mise en scène
deste tipo de discurso, em que os locutores visam audiências multi-estratificadas e
tentamos fazer a distinção entre a alocução, a co-locução e a delocução.
O segundo capítulo propõe uma análise da construção da imagem de si através
do uso das FT pronominais elocutivas eu e nós em português (e, por vezes, a gente em
português brasileiro), respetivamente eu e noi em romeno. O ponto de partida é o
conceito de identidade política (Van Dijk 2010: 37-38) e estudos anteriores sobre a
construção da identidade parlamentar (Ilie 2010b; Marques 2000; Marques 2010a;
Vasilescu 2010; Vasilescu 2011), sendo analisados os mecanismos de configuração de
identidades individuais e coletivas.
O terceiro capítulo faz uma análise do tratamento pronominal alocutivo e
delocutivo na construção da imagem do(s) outro(s) em cada sub-corpus, português,
brasileiro e romeno. Dada a particularidade da língua romena, que apresenta um

195
inventário rico de pronomes e locuções pronominais delocutivas, um dos capítulos
concentrar-se-á sobretudo nos debates parlamentares romeno, identificando valores e
usos da série pronominal: el, dânsul, dumnealui, domnia sa, Excelenţa Sa.
O quarto capítulo dedica-se aos usos do tratamento nominal alocutivo e
delocutivo e o seu papel na configuração da imagem do(s) outro(s). Partindo da
classificação proposta por Kerbrat-Orecchioni (2010: 20-21), são identificadas no
corpus as seguintes categorias de formas nominais de tratamento: institucionais,
relacionais, profissionais, académicas, os nomes / os apelido, genéricas – o(s)
senhor(es), domnule, doamnă, domnilor, doamnelor – e tentamos destacar os seus
papéis na costrução da distância interlocutiva, na construção de relações consensuais
ou agonais e a sua função a nível textual.
O quinto capítulo retoma a problemática da negociação conversacional (ver
infra 1.4. A negociação do turno de fala), concentrando-se nas estratégias usadas pelos
locutores para negociar os usos das formas de tratamento elocutivas, alocutivas e
delocutivas e os efeitos das mesmas na construção de imagens de si e dos outros.

196
2.1 Considerações teóricas
Antes de apresentarmos os inventários das formas de tratamento em português
e em romeno, consideramos necessário um esclarecimento de índole teórica sobre a
aceção da noção tratamento. Usado na linguística portuguesa (cf. tratamento) e espanhola
(cf. tratamiento), este termo designa o alocutário e o locutor, bem como os terceiros
(presentes ou ausentes) de uma interação verbal:

―En portugais, le terme utilisé pour « adresse » est celui de « tratamento »


(comme en espagnol « tratamiento »), ce qui a de l‘importance pour l‘optique
adoptée, puisque si, en français (comme en anglais), c‘est l‘allocutaire qui est
ciblé, en portugais, comme en espagnol, le terme a une extension plus
grande et renvoie à la manière de désigner quelqu‘un, l‘allocutaire, certes,
mais aussi le locuteur et le tiers absent – en tant qu‘interlocuteur – de
l‘espace interlocutif, mais dont on parle. Ce « tratamento » ne se restreint pas
aux pronoms de deuxième personne (tu / vous, en français), et aux termes
d‘adresse ayant, dans la plupart des cas, une fonction d‘apostrophe ; le «
tratamento » comprend aussi d‘autres modes de désignation, relevant de
différentes catégories grammaticales et ayant des extensions discursives
variables‖ (Carreira 2009: 30, nosso negrito).

Assim sendo, tratamento é um conceito mais abrangente do que na linguística


francesa se entende por adresse88 ou na línguística romena por adresare, uma vez que os
significados de tratamento e fr. adresse / ro. adresare só se sobrepõem na designação do
alocutário. A diferença terminológica entre tratamento e adresse / adresare advém dos
critérios empregues para delimitar os inventários de termos. Se adresse89 / adresare se
definem segundo critérios sintáticos – sendo o vocativo a marca definitória –,
tratamento é, pela sua natureza, um conceito definido segundo critérios semânticos,
circunscrevendo os meios linguísticos para referir o(s) outro(s) e, segundo Carreira
(1997) para a designação de si, independentemente da função sintática que os termos
possam ter. Portanto, tratamento seria o equivalente da totalidade dos seguintes termos
usados na linguística romena: adresare, para alocução, e referire (Guţu Romalo 2005:
126-132), para elocução e delocução.

88 Relembramos também as definições de Kerbrat-Orecchioni (1992: 15): ―Par termes d‘adresse


on entend l‘ensemble des expressions dont dipose le locuteur pour désigner son (ou ses)
allocutaire(s)‖; (Kerbrat-Orecchioni: 2010): ―un terme d‘adresse, c‘est-à-dire une forme linguistique
désignant explicitement l‘allocutaire (ou « destinataire direct »), en anglais addressed recipient ou addressee)‖.
89 Ver também a análise de Alvarez-Pereyre (1977) para os francês, bem como outros estudos,

que propõem os termos apostrophe nominale (Détrie 2006) ou interpellation, que constitui um
número temático da revista Corela: http://corela.revues.org/716 (última consulta 01.05.2015),
ou appellatifs, formes appellatives ou appellèmes.

197
TRATAMENTO
elocutivo delocutivo alocutivo

fr. désignation fr. adresse


ro. referire ro. adresare

designação de si designação do(s) designação do(s)


terceiro(s) alocutário(s)
forma prototípica forma prototípica forma prototípica

1ª pessoa 3ª pessoa 2ª pessoa


pt. eu / nós pt. ele(s) / ela(s) pt. tu / você(s) / o(s) senhor(es)
ro. eu / noi ro. el /ei; ea / ele ro. tu/ voi; dumneata;
fr. je / nous fr. il / ils; elle / elles dumneavoastră (sg. e pl.)
fr. tu / vous; vous

Figura 12. Os significados dos conceitos tratamento em português, referire / adresare em


romeno e désignation / adresse em francês.

As escolhas terminológicas são importantes na investigação contrastiva deste


fenómeno linguístico, para evitar ambiguidades que têm origem em abordagens
linguísticas diferentes:

―A l‘occasion de rencontres scientifiques sur les langues romanes, j‘ai pu observer


des malentendus, dans des échanges entre linguistes français d‘une part et des
linguistes portugais et espagnols d‘autre part, sur la question de l‘adresse. Ces
malentendus se sont dénoués à partir du moment où l‘on a pris conscience qu‘il
convenait de ne pas faire coïncider le français « adresse » et le portugais ou
l‘espagnol « tratamento »/« tratamiento ».‖ (Carreira 2009: 30, nosso negrito).

Depois deste esclarecimento teórico, apresentamos nas próximas secções os


sistemas de tratamento (e de adresare e referire) em português e em romeno, destacando
os recursos linguísticos de que dispõem ambas as línguas para exprimir a elocução, a
alocução e a delocução.

198
2.1.1 Tratamento, adresare, referire em português e romeno
O português, sobretudo a variedade de Portugal, e o romeno evidenciam-se
entre as línguas românicas pela riqueza dos inventários das FT – sobretudo as
pronominais 90 e as verbais 91 , visto que as nominais têm inventários teoricamente
ilimitados92 –, o que determina uma abundância de estudos que tentam analisar este
fenómeno linguístico, de diferentes perspetivas (diacrónicas, socio-linguísticas,
discursivas, etc.).
Para uma classificação do inventário das FT, utilizamos o critério morfológico
proposto pelo linguista português Lindley Cintra (19862), que diferencia o tratamento
pronominal, o tratamento nominal e o tratamento verbal. Empregamos também um critério
pragmático-discursivo, da autoria de Carreira (1997), que divide as FT em elocutivas,
alocutivas e delocutivas, em função do papel dos participantes na interação verbal.
Apesar de estes estudos serem dedicados à língua portuguesa, consideramos
que as classificações propostas por Lindley Cintra e Maria Maria Helena Araújo
podem ser adaptadas ao inventário das FT do romeno e que estas abordagens téoricas
complementares permitem uma melhor comparação entre as duas línguas, tomando
em consideração um eixo paradigmático e a riqueza dos funcionamentos discursivos.

2.1.1.1 Elocução
Para expressar a elocução (designação de si), ambas as línguas dispõem de
recursos pronominais e verbais. Em português, usa-se o binómio eu / nós e em
romeno os pronomes eu / noi, podendo-se empregar na elocução a 1ª pessoa do
singular e do plural (pt. Eu estou de acordo. / Estou de acordo. // Nós estamos de acordo. /
Estamos de acordo.; ro. Eu sunt de acord. / Sunt de acord. // Noi suntem de acord. / Suntem de
acord.). Em ambas as línguas, as formas do plural usam-se para expressar o chamado
plural de modéstia ou majestático, em trabalhos académicos ou em discursos públicos. No
português brasileiro – e na variedade europeia também, em contextos informais – usa-
se o sintagma nominal a gente, que tende a ganhar mais espaço na linguagem coloquial
(Castilho 2010: 477; Neves 2011: 469-470).

90 No caso do tratamento alocutivo, o romeno e o português apresentam inventários complexos, de


quatro ou até cinco elementos, se tomamos em consideração as FT honoríficas (pt. tu, você, o senhor,
Vossa Excelência; ro. tu, dumneata, dumneavoastră, domnia voastră, Excelenţa Voastră).
91 Ambas as línguas permitem a expressão do sujeito nulo, podendo as formas verbais usadas

para se dirigir ao alocutário expressar graus variados de deferência; em português através da


oposição entre a 2ª e a 3ª pessoa do singular (Queres / Quer um café?) e em romeno através da
oposição entre a 2ª pessoa do singular e a 2ª pessoa do plural (Doreşti / Doriţi o cafea?).
92 Pensemos, por exemplo, na criatividade linguística que faz aparecer nomes e apelidos novos,

nomes carinhosos, alcunhas, novas profissões e cargos etc. Em teoria, todos estes termos
podem ser usados como formas de tratamento.

199
O uso de formas nominais de tratamento é bastante incomum e restringe-se
sobretudo às situações em que uma criança se designa empregando o seu nome: A
Ana quer chocolate. em vez de (Eu) quero chocolate., respetivamente Ana vrea ciocolată. Em
vez de (Eu) vreau ciocolată.
Apesar de não possuir um inventário de termos muito variados, o tratamento
elocutivo assume maior importância na construção da imagem de si, quer individual,
quer coletiva. Sendo as interações também uma forma de apresentação do eu
(Goffman 1973), o uso de uma determinada forma de tratamento pode indicar a
preferência pela construção de um tipo de imagem pessoal. No caso dos estudos sobre
o discurso parlamentar, foi salientado o papel do pronome nós na configuração da
identidade política, Marques (2000) indicando seis valores que este pronome assume
na construção do locutor coletivo: NÓS1 (exprime a identidade de partido,
representando uma voz institucional), NÓS2 (refere os portugueses em geral), NÓS3
(refere o país na sua dimensão institucional), NÓS4 (incorpora o eu e o tu, o locutor e a
audiência), NÓS5 (uso polémico, expressa a não adesão do locutor em relação aos
discursos veiculados por adversários políticos) e NÓS6 (―de modéstia‖).

2.1.1.2 Alocução
Do ponto de vista morfológico, notamos em ambos os idiomas a existência de
sistemas alocutivos pronominais complexos, (tu, você 93 , o senhor 94 ; tu, dumneata,
dumneavoastră), uma abundância de formas de tratamento nominais e a possibilidade de
estabelecer através de desinências verbais relações interlocutivas formais e informais
(2ª sg. vs. 3ª sg. em português europeu; 2ª sg. vs. 2ª pl. em romeno). Mencionamos que
na variedade brasileira do português, tu não é muito usado, sendo preferido o binómio
você / o senhor nas varidades cultas. As estruturas ternárias de FT alocutivas
pronominais do português europeu (tu, você, o senhor) e do romeno (tu, dumneata,
dumneavoastră) constituem particularidades destas línguas no panorama românico,
tendo os outros idiomas sistemas binários, em francês tu / vous, em espanhol tu / usted,
em italiano tu / lei (no norte) ou tu / voi (no sul). Se no caso do português brasileiro
poderíamos aplicar para as nossas análises o conhecido sistema de pronomes T / V
proposto por Brown & Gilman (1960), esta abordagem seria insuficiente para o
português europeu95 e para o romeno.

93 O pronome você resulta de uma criação interna através de um processo de gramaticalização


(vossa mercê > você). Em português brasileiro, este processo de evolução continua, na língua
falada, com as formas você > ocê > cê (Castilho 2010: 477).
94 Johnen (2015) fala de limites imprecisos (limites floues) entre as formas nominais e

pronominais, referindo, entre outros, o caso de o senhor, forma nominal que integrou o sistema
pronominal de tratamento do português brasileiro. No entanto, no caso do português europeu,
o senhor é considerado forma nominal de tratamento.
95 Cook (2010/1997) propõe a estrutura T / N / V para descrever as FT pronominais

alocutivas do português europeu, introduzindo o conceito de neutralidade para descrever o


funcionamento do pronome você.

200
A estes sistemas pronominais alocutivos junta-se uma série de locuções
pronominais com origem nominal, Vossa Excelência96, Vossa Senhoria, Excelenţa Voastră,
que quase não se encontram nas interações quotidianas97, mas que são presentes em
determinados contextos institucionais, como o protocolo parlamentar, diplomático,
etc. Aliás, segundo Vasilescu (2011, 23), em romeno pode-se falar de um politeness
continuum de quatro termos tanto no caso das formas alocutivas – tu, dumneata (mata),
dumneavoastră, domnia voastră, a locução domnia voastră 98 sendo preferida no discurso
público ou académico. Poderíamos assim falar no caso do romeno de um sistema
alocutivo pronominal de cinco termos – tu, dumneata(mata), dumneavoastră, domnia
voastră, Excelenţa Voastră99 – que abrangem uma gama muito variada de contextos, da
intimidade à mais elevada cerimónia.
Na Tabela 3. fazemos uma apresentação comparativa das FT pronominais
alocutivas em nominativo, sem incluir, por falta de espaço, as formas acusativas e
dativas. Salientamos que no caso do português brasileiro, os clíticos do pronome você
tornam-se um assunto problemático, porque na língua falada aparecem diferenças em
relação à norma padrão. Por exemplo, te é empregue como clítico de você 100 –
lembramos a famosa canção de Caetano Veloso, Você não me ensinou a te esquecer –, o
uso do clítico de dativo lhe em vez dos acusativos o, -lo, a, -la, frases como Preciso lhe
ver101 podem, com efeito, ser ouvidas no dia-a-dia.

96 Salientamos que Vossa Excelência foi uma FT muito comum em Portugal na primeira metade
do séc. XX – veja-se Bastos (1931), que afirma ―O tratamento de mais cerimónia, hoje
empregado, é Vossa Excelência‖ e denuncia as deturpações, como Vosselência ou Vossência feitas
pelo ―povo‖ –, mas caiu em desuso nas últimas décadas.
97 Veja-se, a título de exemplo, as análises de Cintra (19862) e de Gouveia (2008) sobre a

evolução desta FT em português europeu.


98 A evolução das FT de dumneata, dumnavoastră e domnia voastră e os seus usos na linguagem

corrente revelam uma situação interessante no sistema atual de expressão da deferência em


romeno. Os pronomes partiham origens similares, os sintagmas nominais domnia ta e domnia
voastră, usadas nos tratamentos do domn (nome dado aos que reinavam nos antigos principados
da Moldova e da Valáquia). Como a evolução do sintagma nominal para a forma pronominal
determinou também, por causa da frequência dos usos, uma perda do grau de deferência
inicial, no romeno contemporâneo os falantes sentiram a necessidade de voltar a empregar
domnia voastră em contextos formais, oficiais, instucionais ou académicos.
99 Veja-se Vasileanu (2009: 195-204) para uma apresentação da evolução destas FT em

romeno.
100 Veja-se Neves (2011: 458-459) para mais exemplos.
101 Veja-se Neves (2011: 454) para outros exemplos.

201
Formas de tratamento pronominais alocutivas
Português tu você o senhor102 Vossa Excelência
europeu a senhora
Português o senhor Vossa Excelência
brasileiro você a senhora
Romeno tu dumneata dumneavoastră domnia voastră103 Excelenţa
(mata) Voastră
Tabela 3. Formas de tratamento pronominais alocutivas em português e romeno (singular).

Através das FT pronominais alocutivas, os falantes de português e de romeno


podem expressar uma gama abrangente de relações interlocutivas, definidas segundo
os eixos de FAMILIARIDADE / DISTANCIAMENTO 104 (membros de uma família,
amigos, etc. / desconhecidos na rua, relação com clientes, etc.) ou de HIERARQUIA
SOCIAL / IGUALDADE SOCIAL (em função de idade, sexo, profissão, instituições
sociais como a igreja, justiça, etc. / entre pares da mesma profissão, pessoas com a
mesma idade, etc.). Os dois eixos expressam uma grande variedade de relações
interpessoais que funcionam no eixo horizontal (relações simétricas, entre pares, que
podem ser íntimos, próximos ou distantes) ou no eixo vertical (relações assimétricas,
expressando a dimensão do poder).
Se tu é em português europeu e em romeno o pronome usado na intimidade e
nas relações interlocutivas com menos distância social 105 , se o senhor / a senhora e
dumneavoastră expressam um grau elevado de cortesia nas interações quotidianas, se as
locuções pronominais Vossa Excelência, domnia voastră e Excelenţa Voastră são
empregues em contextos institucionais e protocolares, as utilizações das FT você e
dumneata106 tornam-se mais problemáticas.
Em primeiro lugar, é importante destacar os usos divergentes de você nas
variedades europeia e brasileira do português. Em Portugal este pronome emprega-se
em interações entre pares que não implicam intimidade (por exemplo, colegas de
trabalho) ou no caso de relações assimétricas de poder, sendo preferido pelo superior
para se dirigir ao interior, ao passo que no Brasil você tem um uso mais alargado no
registo oral, quase generalizado em todas as classes sociais, podendo ser encontrado

102 O senhor aparece nesta classificação enquanfo forma de tratamento pronominalizada, na aceção
de Cintra (19862) e não enquanto pronome propriamente dito.
103 Apesar de o DOOM (Dicţionarul Ortografic, Ortoepic şi Morfologic al Limbii Române) sugerir a

grafia com maiúsculas (como no caso de Excelenţa Voastră), nos textos contemporâneos
escrevem-se com minúsculas, o que demonstra trambém o seu uso comum (Vasileanu 2009:
202).
104 Carreira (1997) propõe uma classificação das FT do português europeu em função dos eixos

± FAMILIARIDADE / ± DISTANCIAMENTO.
105 Vasilescu (2005; 2011) considera que em romeno tu expressa o ―grau zero de cortesia‖.
106 Veja-se também Ionescu Ruxăndoiu (1999: 90-94) sobre os usos de dumneata e dumneavoastră

na linguagem popular.

202
em contextos variados, formais ou informais, em relações sociais que implicam
diferentes graus de distanciamento ou aproximação. Por exemplo, Poulet (2008: 276)
cita Jô Soares, um apresentador da Rede Globo, afirmando que prefere usar o
pronome você nos seus programas porque o senhor se relaciona não com o grau de
respeito ou cortesia, mas com a classe social do interlocutor. Desta forma, para evitar
a expressão de diferenças de classes sociais, o apresentador optou por usar um você
igualitário com todos os seus convidados107.
Em segundo lugar, podemos afirmar que o pronome você de Portugal e o
pronome romeno dumneata apresentam algumas semelhanças no que diz respeito aos
seus empregos. Ao contrário do Brasil, seria inadequado usar você com interlocutores
com os quais se tem uma relação formal ou institucional, pois expressa um grau de
cortesia intermédio. Existem diferenças diatópicas importantes no emprego de você108 e
dumneata, considerados ora corteses ora ofensivos em diversas regiões de Portugal e da
Roménia. No que diz respeito aos usos por falantes jovens, notamos o (quase)
desaparecimento de dumneata em meios citadinos romenos e um certo aumento do uso
de você por jovens portugueses, provavelmente influenciados pelos programas
brasileiros de televisão que passam em Portugal.
Em terceiro lugar, é preciso fazer a distinção entre você e vocês. Embora do ponto
de vista morfológico vocês seja o plural de você, os valores semântico-pragmáticos dos
dois pronomes são diferentes, visto que a forma plural tem um valor informal, neutro,
funcionando de facto como plural de tu. A forma do plural vós é produtiva em algumas
zonas rurais de Portugal e no discurso religioso, mas não faz parte da variante padrão
da língua. Como se pode observar na Tabela nº 4, os inventários das FT pronominais
alocutivas no plural são mais restringidos, porque dumneata não tem correspondente e
vocês funciona como plural de tu e de você.
Por último, mencionamos que as equivalências formais entre as FT
pronominais alocutivas do português e do romeno – por exemplo, tu com formas
idênticas, ou vós e voi com a mesma origem – não implicam necessariamente
equivalências pragmático-discursivas. Nos últimos anos nota-se em romeno um uso
cada vez mais comum do tratamento por tu no discurso mediático, ao passo que em
Portugal, na nossa opinião, este fenómeno seria mais restrito.

107 Para uma análise complexa do uso de você e o senhor em português brasileiro veja-se também
da Silva (2008).
108 Para a análise dos usos de você no português de Portugal, destaca-se o trabalho de

Hammermüler (2011: 55-63) em que o autor identifica seis valores deste pronome na
linguagem contemporânea: VOCÊresp = você de respeito, VOCÊcond = você de condescendência,
VOCÊdist = você de distanciamento, VOCÊigual = você entre iguais, VOCÊdesamb = você de
desambiguição, VOCÊmeta = você metadiscursivo. Confrontado com esta miríade de leituras
possíveis, os falantes chegam a evitar as FT mais problemáticas, preferindo o tratamento
verbal, enquanto estratégia de evitação de possíveis mal-entendidos (Hammermüler 2003).
Johnen (2015) considera que só o você de condescendência e o você de igualdade são usados
presentemente no Brasil.

203
Formas de tratamento pronominais alocutivas
Português vocês Vossas Excelências
europeu (vós)
Português Vossas Excelências
brasileiro vocês
Romeno voi dumneavoastră domniile voastre Excelenţele
Voastre
Tabela nº 4. Formas de tratamento pronominais alocutivas em português e romeno (plural).

O ponto comum do português europeu e do romeno seria a tendência recente


que simplicação do tratamento, observando-se uma preferência dos falantes jovens
pelos tratamentos pronominais mais informais. Gouveia (2008: 97) afirma que
―estamos presentemente a sofrer as transformações da passagem de um sistema de
face e solidariedade de base hierárquica e deferencial para um sistema de base
igualitária e de envolvimento‖, ao passo que Slama-Cazacu (2010: 297-305) lamenta o
desaparecimento de dumneata do romeno atual e as confusões criadas pelo uso do
sistema binário tu / dumneavoastră.
Na análise das FT pronominais é importante fazer a distinção entre os
contextos em que estes meios linguísticos designam o alocutário e os usos ditos
―genéricos‖, em que os respetivos pronomes indicam uma categoria de pessoas,
indefinidas; é o caso do tu genérico do romeno (Zafiu 2003: 233-256), do você genérico
do português brasileiro (Neves 2011: 463).
No que diz respeito ao tratamento verbal alocutivo, em português brasileiro usa-se
no singular só a terceira pessoa independentemente do grau de cortesia, (Fala
português?) ao passo que em português europeu a oposição entre a segunda e a terceira
pessoa do singular marca a distinção entre contextos informais e formais (Falas / Fala
português?). No plural usa-se a terceira pessoa em ambas as variantes do português para
referir o alocutário em contextos formais e informais, Falam português? ou Falais
português em certas zonas do país. No entanto, devemos tomar em consideração que o
sujeito nulo é muito menos frequente na variedade brasileira do português do que em
Portugal e que, portanto, seria mais comum ouvir Você fala português? e Vocês falam
português? em vez de Fala português? ou Falam português?.
Em romeno utiliza-se a segunda pessoa do singular para os contextos informais
(Vorbeşti portugheză?) e a segunda pessoa do plural para referir um único alocutário em
situações formais (Vorbiţi portugheză?). No plural o tratamento verbal usado é a
segunda pessoa para ambos os contextos, sem distinção entre os vários graus de
cortesia, Vorbiţi portugheză? podendo significar Voi vorbiţi portugheză? ou Dumneavoastră
vorbiţi portugheză?.

204
Tratamento verbal alocutivo
singular plural
Português informal 2ª pessoa
europeu formal 3ª pessoa 3ª pessoa

Português informal
brasileiro formal 3ª pessoa 3ª pessoa

Romeno informal 2ª pessoa


formal 2ª pessoa 2ª pessoa

Tabela nº 5. Tratamento verbal alocutivo em português e romeno (singular e plural).


O tratamento nominal alocutivo apresenta em português e em romeno uma grande
variedade de FT, em função de vários fatores que definem a situação comunicacional
e o funcionamento das relações sociais: idade, posição social, profissão e cargo, sexo,
tipo de relação entre o locutor e o alocutário, etc.
Kerbrat-Orecchioni (1992: 21-22) propõe nove categorias de noms d‘adresse ou
apelativos que podem ser usados em vocativo (no nosso quadro teórico seriam formas de
tratamento nominais alocutivas): i) os antropónimos; ii) os nomes de parentesco; iii) os
apelativos de tipo monsieur / madame; iv) os títulos (de nobreza ou de outro tipo); v)
nomes abstratos, como Votre Excellence, Votre Grâce, Votre Honneur 109 ; vi) nomes de
profissões; vii) nomes que expressam uma relação interpessoal, como camarade, collègue,
voisin; viii) nomes carinhosos, como mon chou, chéri, loulou e ix) expressões injuriosas,
como espèce de….
Em Kerbrat-Orecchioni (2010a: 20-21), faz-se uma classificação mais
concentrada, com as categorias seguintes: i) os nomes pessoais; ii) as formas monsieur /
madame / mademoiselle; iii) os títulos: herdados, como os de nobreza, ou conferidos,
como capitaine, chef, patron, com valor honoríficos. Incluem-se aqui os noms abstraits,
como Votre Excellence, Votre Honneur; iv) os nomes de profissões e de funções / cargos;
v) os termos relacionais, que expressam uma relação afetiva (ami), profissional (collègue)
e de parentesco (maman); vi) os labels (ou os rótulos), que fazem uma catalogação do(s)
alocutário(s), como [salut] mec /mon gars / jeune homme... ou vous là-bas avec le sac en
plastique; vii) os termos afetivos, com valor negativo (os termos injuriosos) ou positivo
(os nomes carinhosos).
Nas nossas análises tomaremos em consideração a segunda classificação,
usando, no entanto, as sete categorias para a descrição das formas de tratamento
alocutivas e delocutivas, ou, segundo a terminologia preferida na linguística romena, forme
de adresare şi de referire, pois consideramos que os critérios semânticos de Kerbrat-
Orecchioni (2010a: 20-21) aplicam-se muito bem ao conceito de tratamento, pois os

109No caso dos equivalentes em português e em romeno, consideramos que se trata de


locuções pronominais, porque têm uma função deítica, típica dos pronomes.

205
meios linguísticos acima apresentados são usados por locutores tanto para designar
alocutários, como para designar terceiros.
Tanto o romeno, como o português apresentam algumas particularidades no
que diz respeito ao inventário de FT nominais. No caso dos nomes de pessoas, em
romeno é ainda comum designar alguém com o apelido antes do nome, por exemplo
Popescu Cristian, em vez de Cristian Popescu. Para as personalidades públicas usa-se o
nome antes do apelido – o antigo presidente é Traian Băsescu –, sendo a inversão
Băsescu Traian uma estratégia de ironia, por fazer lembrar a burocracia quotidiana ou
escolar, em que os cidadãos e os alunos romenoa são chamados com a fórmula apelido
+ nome110.
Quanto à segunda categoria, os equivalentes das formas monsieur / madame /
mademoiselle, as diferenças entre as duas línguas são maiores, sobretudo no que diz respeito
ao tratamento das mulheres. Em primeiro lugar, se em português não se usa o apelido para
o tratamento de uma mulher – Senhora Vieira seria uma opção que causaria estranheza –,
em romeno doamna Popescu é uma estrutura formal muito usual nas interações quotidianas.
Em segundo lugar, em português há três possíveis equivalentes para madame: senhora, dona,
senhora dona – mencionados em ordem ascendente do grau de formalismo exprimido –, ao
passo que em romeno se usa a forma doamna. No entanto, é possível expressar em romeno
os três graus de deferência, através da combinação do nome e do apelido, como se pode
observar na Tabela nº 6.
Mencionamos também que em romeno estas formas usam-se no caso vocativo
em situação de alocução, domnule, doamnă. Aliás, no tratamento mais informal para
mulheres, em que se usa só o nome, a diferença entre a forma nominal detachée e o
vocativo flexionado – Maria, vrei să vii la mine? / Marie, vrei să fii la mine? – relaciona-se
com diferença de registo de língua, sendo a segunda mais coloquial.
No tratamento para homens, as estratégias usadas em ambas as línguas são
semelhantes, usando-se os nomes e os apelidos precedidos pela forma senhor e,
respetivamente domn (domnule em vocativo). Por último, em português estas FT
nominais usam-se com o verbo na 3ª pessoa do singular, ao passo que em romeno se
empregam com a 2ª pessoa do plural.
No que diz respeito aos títulos, mencionamos que em romeno não existe um
tratamento especial para os licenciados, ao passo que em português se usam doutor e
doutora. Em meios universitários, é possível combinar o título doutor / doctor com o
nome da profissão professor / profesor, no caso dos professores catedráticos. Usam-se
juntos senhor / domn e os cargos, sendo o senhor deputado / domnul deputat, o senhor ministro
/ domnul ministru formas prototípicas nos debates parlamentares.

110 Em algumas zonas do país, esta maneira de designar as pessoas está relacionada com
influências de outros povos, porque esta é a ordem preferida por húngaros, turcos. Veja-se
também Gruiţă (2011: 79-84) para uma análise mais complexa.

206
Tratamento para mulheres
Português a senhora a dona Maria a senhora a senhora a senhora
europeu Maria dona Maria doutora ministra
Maria Maria
(Vieira) Vieira
Romeno doamnă111 doamnă doamnă - doamnă
Maria Popescu Maria ministru
Popescu Maria
Popescu
Tabela nº 6. Tratamento alocutivo nominal para mulheres.

Tratamento para homens


Português o senhor Nuno o senhor Pires o senhor o senhor o senhor
europeu Nuno Pires doutor ministro
Pires Nuno
Pires
Romeno domnule112 domnule domnule - domnule
Cristian Popescu Cristian ministru
Popescu Cristian
Popescu
Tabela nº 7. Tratamento alocutivo nominal para homens.

No caso do português brasileiro, o tratamento alocutivo nominal apresenta


algumas particularidades113, sendo a mais saliente o uso dos nomes e dos títulos em
vocativo. Por exemplo, quando se trata uma pessoa por você ou por a senhora, o nome
antecede o pronome, em vocativo, de maneira seguinte: ―Ana Maria, você deve estar
ao corrente...‖. No caso do tratamento mais formal, empregam-se estruturas como:
―Senhor Antônio / Senhor Matos, o senhor deve...‖. Os títulos e os cargos são usados
também em vocativo: ―Doutor, o senhor pode dizer-me se meu caso é grave?‖,
―Deputado, o senhor pretende candidatar-se novamente?‖. Lembramos também a
forma seu que é prevalente na linguagem coloquial, em contextos mais familiares: ―Seu
Matos / Seu Antônio, o senhor deve...‖.
Em romeno existe também uma categoria de apelativos usados em registos
baixos da língua, que indiciam o locutor como membro de uma classe social com

111 Incluímos nas tabelas as formas vocativas doamnă e domnule, usadas em contextos alocutivos,
sendo doamna e domnul empregues em delocução.
112 Domn / doamnă foram recentemente recuperados em romeno, depois da queda do regime

comunista em 1989; anteriormente, a FT nominal mais comum, oficializada era tovarăş /


tovarăşă (camarada).
113 Retomamos aqui as observações de Carreira & Boudoy (2013: 297).

207
educação precária e que sugerem também um atitude não-cooperante em relação ao
alocutário, interjecţiile de adresare (as interjeções de tratamento): bă, fă, mă. São diferentes
de băi, măi, que já integraram a fala de locutores educados.
No discurso parlamentar, as FT nominais mais comuns são os nomes, os
títulos, o cargos e as profissões, mas como veremos, no calor dos debates a esta lista
podem-se juntar nomes injuriosos ou designações irónicas criadas ad hoc. Em relação
às FT e as suas funções na dinâmica interacional, salientámos em Manole (2014) o seu
papel na gestão dos turnos de fala, sendo, sobretudo as formas nominais, um dos
meios mais usados por moderadores para conceder ou retirar a palavra aos
intervenientes em debates parlamentares.

2.1.1.3 Delocução
Do ponto de vista morfológico, as FT delocutivas – que designam o(s)
terceiro(s) – podem ser pronominais, nominais e verbais. No caso das últimas, a única
realização possível é através da 3ª pessoa do singular (para designar um terceiro) e do
plural (para designar dois ou mais terceiros), não havendo a possibilidade de marcar
graus e deferência exclusivamente com desinências verbais. As FT delocutivas
nominais constituem um recurso muito variado em ambas as línguas, respondendo às
necessidades dos locutores de expressar diferentes graus de deferência e de corrtesia.
Em romeno as FT delocutivas nominais usam-se com a 3ª pessoa dos verbos,
havendo uma clara diferença em relação às FT alocutivas nominais, que se conjugam
com verbos na 2ª pessoa: Domnule, mai doriţi cafea? / Domnul mai doreşte cafea?. No
entanto, escolhemos estas frases para ilustrar também uma situação menos frequente
em romeno, ou seja o uso da 3ª pessoa para o tratamento alocutivo, uma vez que o
segundo exemplo, Domnul mai doreşte cafea? pode ter duas interpretações: delocutiva, mas
também alocutiva, sendo usada com alguma frequência por empregados de mesa ou por
empregados domésticos 114 . Ao contrário do português, o emprego do verbo na 3ª
pessoa do singular sem sujeito não pode ter interpretação alocutiva: Quer mais café?,
terá, em função do contexto, leitura delocutiva ou alocutiva, ao passo que Mai doreşte cafea?
pode ser interpretado como enunciado delocutivo.
A particularidade do romeno entre as línguas românicas é a riqueza do
inventário pronominal de FT delocutivas, que permite a expressão de cinco graus de
deferência. Trata-se do pronome pessoal el, dos pronomes de cortesia dânsul e
dumnealui e das locuções pronominais domnia sa e Excelenţa Sa (a derradeira com valor
honorífico). Mencionamos que o pronome dânsul pode funcionar, em algumas regiões
do país, como pronome pessoal – substituindo nomes comuns – e por esta razão não
há consenso em trabalhos romenos de linguística sobre o seu valor de deferência. Em

114Veja-se também o fenómeno do francês, chamado iloiement, que expressa familiaridade em


contextos como Comment va mon cher voisin ? ou formalidade e deferência em Madame est servie
(Kerbrat-Orecchioni 2010: 13).

208
Gruiţă (2011: 61-84) mostra-se que dânsul tem valor de cortesia, sendo integrado no
sistema ternário el - dânsul/dumnealui - domnia sa (portanto, dânsul e dumenalui seriam
situados no mesmo plano), segundo outros autores, como Pană Dindelegan (2010:
108-111) expressaria um grau reduzido de cortesia, ou um grau zero de cortesia
(Vasilescu 2005: 212-218), mas ainda há trabalhos em que é considerado pronome
pessoal (Irimia 2008: 109). Partindo da noção de politeness continuum para as FT
alocutivas pronominais de Vasilescu (2011), fizemos uma classificação semelhante
para as FT pronominais delocutivas do romeno, que exprimem, na nossa opinião,
cinco graus de deferência (com o honorífico Excelenţa ta).

Formas de tratamento pronominais em romeno


Alocutivas tu dumneata dumneavoastră domnia Excelenţa Voastră
(mata) voastră
Delocutivas el dânsul115 dumnealui domnia sa Excelenţa Sa
ea dânsa dumneaei
Tabela nº 8. Tratamento pronominal alocutivo e delocutivo em romeno (singular).

Formas de tratamento pronominais em romeno


Alocutivas voi — dumneavoastr domniile voastre Excelenţele
ă Voastre
Delocutivas ei dânşii dumnealor domniile lor Excelenţele Lor116
ele dânsele
Tabela nº 9. Tratamento pronominal alocutivo e delocutivo em romeno (plural).

No que diz respeito ao tratamento nominal delocutivo, as formas mais usadas


são as que constam nas tabelas seguintes.

115 Existe também o pronome dumneasa, que quase desapareceu da linguagem corrente, a não
ser nos casos genitivo e dativo dumisale (Zafiu 2002a). Em Zafiu (2002b) fala-se de uma
especialização de dumneasa e dumnealui para os contextos irónicos e depreciativos, ao passo que
a forma reconstruída domnia sa expressaria a deferência, concluindo a autora que uma pessoa
pode ser designada usando os seguintes meios linguísticos, el - dânsul - dumnealui - dumneasa -
domnia lui - domnia sa - Domnia Sa, numa gradação ascendente do respeito e da solenidade (de
sete graus!), mas com ―parênteses irónicos‖ (sobretudo no caso de dumneasa e dumnealui).
116 No corpus de debates parlamentares não há ocorrências desta locução e os exemplos que

encontrámos na internet revelam sobretudo usos irónicos.

209
Tratamento para mulheres
Português a senhora a dona Maria a senhora a senhora a senhora
europeu Maria dona Maria doutora ministra
Maria Maria
(Vieira) Vieira
Romeno doamna doamna doamna - doamna
Maria Popescu Maria ministru
Popescu Maria
Popescu
Tabela nº 10. Tratamento alocutivo nominal para mulheres.

Tratamento para homens


Português o senhor Nuno o senhor Pires o senhor Nuno o senhor o senhor
europeu Pires doutor ministro dr.
Pires Nuno Pires
Romeno domnul domnul domnul - domnul
Cristian Popescu Cristian ministru
Popescu Cristian
Popescu
Tabela nº 11. Tratamento alocutivo nominal para homens.

2.1.2 Questões problemáticas


Se do ponto de vista teórico os inventários de FT podem ser classificados,
segundo a estrutura ternária, em elocutivas, alocutivas e delocutivas, na análise de
exemplos autênticos, os limites entre alocução e delocução tornam-se, por vezes,
bastante fluidos. Por outro lado, distinguir entre alocutário e destinatário não é uma
tarefa muito fácil em interações com audiências múltiplas 117 , o que constitui um
desafio para a análise da dinâmica interacional. Assim, neste subcapítulo tentaremos
apresentar a problemática da double adresse (alocução dupla), bem como outras
situações que ocorrem em debates públicos, como a adresse indirecte (alocução indireta)
ou a delocução in praesentia.

117 Veja-se a Figura 5 da secção Os atores do discuso parlamentar.

210
2.1.2.1 Alocução dupla e destinatário in absentia
O debate parlamentar é, por excelência, um discurso público, em que o locutor
toma em consideração diferentes alocutários e destinatários118, que constituem o que
Kerbrat-Orecchioni (2002a) chama receptor múltiplo. Como já pudemos observar na
primeira parte deste volume (ver supra 1.1.2.3.2 Os atores do discurso parlamentar), os
discursos veiculados a partir da tribuna chegam a uma audiência abrangente,
multiestratificada.
Destacamos aqui três exemplos que ilustrativos para a consciencialização que os
locutores têm em relação à multiplicidade das instâncias receptoras. O primeiro
exemplo é selecionado do corpus brasileiro, em que o locutor menciona na abertura
da sua intervenção quase a totalidade de receptores possíveis do seu discurso, o
presidente da audiência pública, o ministro convidado para comparecer perante a
comissão, os colegas deputados (sem discriminar entre os do poder e os da oposição),
os jornalistas e o público (―amigos que nos assistem‖), que pode ver o debate no canal
da Câmara dos Deputados:

(129) O SR. DEPUTADO FERNANDO FRANCISCHINI – Deputado


Nilson Leitão, nosso Presidente da Comissão de Fiscalização, Ministro
Carlos Lupi, nobres colegas, imprensa e amigos que nos assistem,
Ministro, em 10 meses já passaram por aqui sete ou oito Ministros. Não é uma
coisa que nos traz alguma felicidade passar todo o tempo fiscalizando,
verificando contas. Tínhamos que estar aqui fazendo projetos que melhorassem
a vida do nosso País. Portanto, isso não é uma coisa que nos traga felicidade,
mas é missão da Comissão de Fiscalização acompanhar. (Audiência Pública N°:
1857/11 DATA: 10/11/2011, nosso negrito)

O segundo exemplo, identificado no corpus romeno, mostra que o locutor,


apesar de se dirigir aos que estão presentes na sala, pretende ter como destinários do
debate ―todos os romenos‖, que, ao assistirem aos trabalhos, terão informações sobre
as más políticas públicas do governo. Como veremos no próximo capítulo (ver infra
3.2. A imagem de si: o tratamento pronominal elocutivo), os parlamentares identificam-se nas
suas intervenções com a vox populi, uma vez que são representantes dos seus eleitores e
usam nos seus discursos a legitimidade popular para defender as posições políticas e
dar mais peso às perguntas feitas ao governo.

118Eis uma síntese muito boa da double adresse no caso dos debates parlamentares: ―Tout
discours à visée persuasive implique une interaction entre un orateur et un auditoire. Dans le
cas du discours prononcé à la Chambre, l‘auditoire est toujours double. En effet, le discours
addressé aux députés est également destiné au grand public qui le reçoit par le truchement de la
presse‖ (Haddad 2002: 65).

211
(130) Domnul Adrian Henorel Niţu: – Domnule preşedinte de sedinţă,
Domnule viceprim-ministru Florin Georgescu, Dragi colegi, [...] Vrem ca
toţi românii să afle de ce vor avea greutaţi în această iarnă. Românii trebuie
să afle că deciziile greşite, lipsa de iniţiativa şi minciunile Guvernului USL sunt
cauza situaţiei proaste în care se află astazi România. (Reunião da Câmara dos
Deputados de 23 de outubro de 2012, nosso negrito)
[O senhor Adrian Henorel Niţu: – Senhor presidente da reunião, Senhor Vice
Primeiro Ministro Florin Georgescu, caros colegas [...] Queremos que todos os
romenos saibam porque terão dificuldades este inverno. Os romenos têm de
saber que as más decisões, a falta de iniciativa e as mentiras do Governo USL são
a causa da má situação em que se encontra hoje a Roménia].

No exemplo (131) observamos um fenómeno semelhante, o locutor indica ―os


portugueses‖ como destinatários da resposta pretendida do alocutário.

(131) O Sr. José Luís Ferreira (Os Verdes): – Sr. Ministro, diga-nos qual é o
contributo do aumento do horário semanal de trabalho para o combate ao
défice? O que é que isto representa para a redução da dívida externa? É porque,
Sr. Ministro, se não for claro na resposta, fica claro para os portugueses
que o défice é apenas um pretexto para fazer mais um jeito aos patrões.
Mais um! (Reunião plenária de 26 de outubro de 2011, nosso negrito)

Do ponto de vista da estrutura interacional, a dinâmica dialogal dos debates


parlamentares tem, portanto, uma estrutura pelo menos tripartida, na medida em que
os participantes – presentes e / ou ausentes – são mais numerosos do que os do
binómio locutor-alocutário119. Mesmo nas interações diretas, podemos falar de dois
planos de construção discursiva: i) o plano imediato, de interação face a face entre o
locutor e o alocutário e ii) o plano simbólico, que advém da dimensão pública dos
dois intervenientes, em que entram em jogo uma miríade de destinatários diretos e
indiretos. Em plano simbólico, os discursos adressés a um alocutário são, por vezes,
destinés a um destinatário diferente, que pode ser concreto – os participantes nos
debates, presentes na sala, por exemplo membros do parlamento ou do governo,
jornalistas, visitantes – ou simbólico, o ―povo‖.
Usando a terminologia proposta por Goffman (1981, apud Kerbrat-Orecchioni
1990: 86), poderíamos caraterizar ―o povo‖ como um destinatário ratificado (que integra o
plano simbólico da interação do hemiciclo), coletivo e indeteminado (não há referências claras
a pessoas concretas), indireto, passivo (na medida em que não se espera dele uma reposta
imediata), ausente in loco, mas que constitui uma forte presença simbólica in absentia.

119Relembramos também Détrie (2010: 145) que falava de uma ―relação triangular‖ que se
estabelece durante os de debates de tipo Questions orale au Gouvernement da Assémblée Nationale
entre o questionador, o questionado e o presidente da reunião.

212
2.1.2.2 Delocução in praesentia
Outro mecanismo linguístico da problemática do tratamento nos debates
parlamentares é a delocução in praesentia, um tropo comunicacional usado por
locutores quando referem un alocutário presente como se estivesse ausente,
excluindo-o do quadro interacional. Détrie (2010: 143-168) e Cabasino (2010: 169-
200) analisam este fenómeno em corpora de debates da Assemblée Nationale de França,
havendo estudos sobre o seu funcionamento em outros tipos de discursos públicos,
como os debates eleitorais (Constantin de Chaney 2010: 249-294), as entrevistas na
rádio (Giaufret 2010: 201-224).
Détrie (2010: 152) observa uma hesitação entre o discurso adressé e non adressé
(ou entre alocução e delocução) em debates parlamentares de França, considerando a
passagem da delocução à alocução como uma estratégia de cooperação usada pelo
locutor. Num corpus francês de entrevistas da rádio, Giaufret (2010: 205-206)
identifica três gradações do funcionamento (in)direto das formas nominais alocutivas
do ponto de vista do funcionamento: formas alocutivas diretas, em vocativo (ex.
Bonsoir, X), formas híbridas (ex. Bonsoir aux télespectateurs d‘itélé et aux auditeurs de France
Inter) e formas indiretas, de delocução para com o alocutário (ex. Quelle est la réponse de
Claude Allegre). As formas híbridas seriam indiretas do ponto de vista sintático e
diretas do ponto de vista pragmático. No corpus romeno, encontrámos exemplos de
formas alocutivas diretas (132) e híbridas (133).

(132) Domnul Horia Cristian: – Reformele sunt ca medicamentele,


domnule ministru. Medicamentele nu sunt tari şi slabe, sunt doar potrivite şi
nepotrivite. Aşa şi reformele. Reformele nu sunt radicale sau dureroase.
Reformele sunt potrivite sau nepotrivite. (Reunião da Câmara dos Deputados
de 9 de maio de 2011)
[Domnul Horia Cristian: – As reformas são como os medicamentos, senhor
ministro. Os medicamentos não são bons e maus, são apenas adequados e
inadequados. É o mesmo no caso das reformas. As reformas não são radicais e
dolorosas. As reformas são adequadas ou inadequadas.]

(133) Domnul Mircea-Dan Geoană: – Bună ziua, tuturor! Rog să încercăm să


asigurăm afluirea colegilor către sala de plen. Salutăm şi membrii şi membrele
Guvernului, senatori, de altfel. Bună ziua, stimate colege şi stimaţi colegi!
(Reunião do Senado de 3 de outubro de 2011)
[Domnul Mircea-Dan Geoană: – Bom dia a todos! É favor tentarmos assegurar
a entrada dos colegas na sala do plenário. Cumprimentamos também os
membros do Governo, senadores, aliás. Bom dia, estimadas colegas e
estimados colegas!]

213
Nos corpora português e brasileiro, encontramos exemplos em que os
locutores usam alocução e delocução na interação com o alocutário, como em (134) e
(135). Antes de analisar os dois exemplos destacados, queríamos salientar que em
português, ao contrário do romeno e do francês, a distinção entre alocução e delocução
nem sempre é evidente; como as formas de tratamento formal se empregam com
verbos na 3ª pessoa, é necessário conhecer muito bem o contexto para distinguir usos
alocutivos e delocutivos120.
Em (134) observamos um jogo de utilizações alocutivas e delocutivas in
praesentia empregues pelo locutor para dar resposta a um pedido de esclarecimentos:
começa com um delocutivo: ―Gostaria de começar por esclarecer a Sr.ª Deputada
Assunção Cristas‖, continua com um alocutivo (forma nominal em vocativo): ―Sr.ª
Deputada, [...] procurei esclarecer isto‖ e acaba com um alocutivo (forma nominal
com verbo na 3ª pessoa do singular): ―a Sr.ª Deputada não está a entender‖. Neste
contexto, o uso delocutivo corrobora-se com uma sequência meta-discursiva, em que
o locutor apresenta o que vai dizer na sua resposta.

(134) O Sr. Ministro de Estado e das Finanças: — Gostaria de começar por


esclarecer a Sr.ª Deputada Assunção Cristas, mais uma vez, sobre a questão
de 2011. Sr.ª Deputada, eu, hoje de manhã, mais do que uma vez, em duas
comissões — a Comissão de Assuntos Europeus e a Comissão de Orçamento e
Finanças — procurei esclarecer isto. E um de nós está a falhar: ou eu não estou
a ser suficientemente claro ou a Sr.ª Deputada não está a entender…
(Reunião plenária de 16 de março de 2011)

Em (135) observamos também que o locutor emprega formas alocutivas e


delocutivas na interação com o seu interlocutor; começa as saudações com uma
delocução in praesentia: ―Gostaria de dar as boas-vindas ao Sr. Ministro Jorge Hage‖,
continua com elogios ainda no espaço da delocução: ―Quero falar ao Ministro do
nosso respeito e admiração a S.Exa‖ e passa à alocução quando conta uma
experiência pessoal com a Polícia Federal: ―Cumprimentando-o, quero relatar o
prazer, Sr. Ministro, de ter participado...‖.
Neste caso, na nossa opinião, as formas delocutivas prendem-se com o ritual de
saudação, pois é só nesta etapa que o locutor recorre à referência indireta; a partir do
momento em que usa a primeira forma alocutiva, o locutor entra no assunto e passará à
referência direta, através das forma apelativas, em vocativo. Aliás, o uso dos honoríficos
S.Exa. (delocutivo) e V.Exa. (alocutivo) desambiguam as leituras das formas nominais.
Do ponto de vista da dinâmica interlocutiva, a passagem da delocução à alocução pode
ser interpretada como uma estratégia de aproximação do locutor.

120Veja-se também Maillard (1994: 58), que refere o mesmo fenómeno: ―en portugais, le
prédicat est DELOCUTIF et seule une connaissance des données pragmatiques de la situation
permet d'établir si le locuteur fait du verbe un usage ALLOCUTOIRE ou DELOCUTOIRE‖.

214
(135) O SR. DEPUTADO FERNANDO FRANCISCHINI - Bom dia, Sr.
Presidente. Gostaria de dar as boas-vindas ao Sr. Ministro Jorge Hage. Quero
falar ao Ministro do nosso respeito e admiração a S.Exa. Cumprimentando-o,
quero relatar o prazer, Sr. Ministro, de ter participado, junto com o ex-Diretor
da Polícia Federal Dr. Paulo Lacerda, de várias dessas operações, inclusive da
escolha de alguns nomes dessas operações. [...] Quero dizer, inicialmente, que as
perguntas são impessoais. Muitas delas, Sr. Ministro, decorrem do que aprendi
com o Dr. Paulo Lacerda e com V.Exa. [...] Ministro, quero só dizer ao
Deputado Sérgio Barradas Carneiro, que saiu, que talvez o sapo barbudo que
aparecia dentro daquela caixa tenha usado a mesma lâmina de barbear
filantrópica do Governador da Bahia, do Estado do nosso Deputado Sérgio
Carneiro. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)

Estes exemplos mostram que as fronteiras entre a alocução e a delocução não


são nítidas nas interações verbais. Por um lado, em português é preciso conhecer
muito bem o contexto pragmático para discriminar entre os usos alocutivos e
delocutivos, uma vez que o delocutivo é empregue também para o tratamento formal
alocutivo no singular; por outro lado, observamos que os locutores podem optar por
formas alocutivas e delocutivas in praesentia na interação com o mesmo alocutário, o
que dificulta as interpretações dos valores das formas nominais.
Neste primeiro capítulo tentámos fazer uma apresentação global do tratamento
em português (europeu e brasileiro) e em romeno. Partimos da definição do conceito
de tratamento na linguística portuguesa e os seus equivalentes em francês (adresse,
délocution) e em romeno (adresare, referire). Num segundo momento, fizemos
apresentações detalhadas das formas de tratamento elocutivas, alocutivas e delocutivas,
tomando em consideração as particularidades dos inventários de cada língua e/ou
variante escolhida. O segundo subcapítulo apresentou a problemática das formas
alocutivas e delocutivas em debates parlamentares, referindo situações híbridas, como
o destinatário in absentia (assunto relacionado com a double adresse) e a delocução in
praesentia (estratégia relacionada com a aproximação / afastamento do alocutário).
No terceiro sub-capítulo, tentaremos apresentar as formas de tratamento e o
seu papel na construção da (des)cortesia parlamentar. Tomando em consideração
algumas das particularidades do discurso político – configurado na encruzilhada do
rigor institucional e do conflito ideológico e partidário – faremos algumas
considerações sobre o funcionamento da (des)cortesia nos debates parlamentares e o
emprego estratégico das formas de tratamento enquanto meios linguísticos para a
criação de relações interpessoais discursivas, mas também para a construção da
imagem de si e dos outros.

215
2.1.3 Formas de tratamento e (des)cortesia parlamentar
Estudos que se debruçam sobre o funcionamento da (des)cortesia em debates
parlamentares (Perez de Ayala 2001; Harris 2001; Marques 2008b) posicionam-se na
chamada ―virada discursiva‖ (discursive turn) dos estudos da cortesia linguística. Aliás, a
importância do contexto e da tipologia discursiva na análise das manifestações da cortesia
torna-se evidente sobretudo na análise do debate parlamentar, que privilegia uma relação
conflitual entre a instância política e a instância adversária (Charaudeau 2005, 42),
enquanto parte integrante do contrato de comunicação (Charaudeau 2002a: 138-141).
Perez de Ayala (2001) menciona três fatores que devem ser tomados em
consideração na análise da cortesia em debates parlamentares: i) a afinidade política;
ii) a presença do público; iii) a existência do regimento parlamentar, o último
estabelecendo através de regras precisas o cerimonial da interação verbal. Aliás, a
autora salienta que o resultado da tensão entre a natureza ofensiva das intervenções
dos deputados e a rigidez do regimento é uma ―hipocrisia parlamentar
institucionalizada‖, uma vez que as estratégias para a atenuação do FTA (face threatening
acts) servem para cumprir as normas regimentais e não para a proteção da imagem do
outro. Retomando a teoria de Gruber (1993), Perez de Ayala opera uma distinção clara
entre a imagem positiva (positive face) do interlocutor, descrita por Brown & Levinson
(1978/1987) e a imagem positiva pública (public positive face121), sendo a segunda típica
para os políticos, que desempenham a sua atividade no espaço público de um país.
Simetricamente, a imagem pública negativa (public negative face) é definida como o
direito de uma pessoa a não sofrer imposições no espaço público, na vida política, ao
passo que a imagem negativa (negative face) é, na tradição de Brown e Levinson
(1978/1987), o direito de ter um território pessoal, do EU. Nos debates parlamentares,
o trabalho de figuração (facework) concentra-se na imagem pública dos locutores
(negativa ou positiva), enquanto membros do governo ou do legislativo, defensores de
uma ideologia ou de certas políticas públicas, as ameaças à imagem pessoal (vida
pessoal, família, traços físicos, etc.) situando-se fora do contrato de comunicação e
sendo penalizadas pelas normas regimentais.
Harris (2001) afirma que a classificação triádica de Lakoff (1989) – cortesia
(politeness), não-cortesia (non-politeness) e descortesia (rudeness) – não é suficiente para analisar
as manifestações da (des)cortesia nos debates parlamentares, uma vez que os usos de
FTAs vem ao encontro das expectativas dos locutores. Pensemos num exemplo do
contexto político português: durante o debate de uma moção de censura na
Assembleia da República, o Primeiro Ministro sabe que será criticado pelos
parlamentares da oposição, os FTAs fazendo parte do contrato de comunicação. Por
conseguinte, a descortesia sistemática (no sentido de ameaça da imagem pública do
locutor, e não da imagem pessoal) não será considerada ofensiva e não será penalizada

121A imagem pública é um segundo nível de imagem (face) adquirido só por indivíduos que
entram na vida pública.

216
pelo moderador, sendo uma componente intrínseca da dinámica discursiva deste tipo
de interação. Numa interação social habitual, por exemplo numa conversa entre dois
amigos ou dois vizinhos, o uso dum FTA não seria esperado por nenhum dos
interlocutores, não integrando as normas conversacionais mutuamente aceites.
No que diz respeito à configuração da (des)cortesia no discurso parlamentar
português, retomamos a afirmação de Maria Aldina Marques:

―[...] o Discurso Político Parlamentar é um discurso agónico, agressivo, mas


não é ofensivo, mercê da criação de mundo discursivo político, que livra os
participantes (funcionalizados) de responsabilidades e agressões. O conflito
está ritualizado. [...]a agressão verbal é permitida enquanto não suscita reacção,
em particular da instância discursiva ‗moderador‘, cuja função é regular o uso da
palavra‖. (Marques: 2008b, 294 nosso negrito).

De facto, os debates parlamentares funcionam, pela sua natureza, com base na


expressão de relações opostas – governo vs. oposição, direita vs. esquerda, PSD vs.
PS –, o que pressupõe a criação de identidades antagónicas (ideológicas, políticas,
discursivas, etc.), configuradas essencialmente através da veiculação de imagens
positivas de si e, sobretudo, da criação de imagens negativas dos outros. Aliás, numa
entrevista para o jornal Público, um deputado português fala sobre a violência verbal
prevalente nos debates da Assembleia da República:

―Há uma coisa na experiência do Parlamento que é bastante traumatizante, que


é representar sempre o adversário como um inimigo. Mais do que debater,
fazem-se proclamações unilaterais. Percebi que é muito difícil sair deste círculo
vicioso, em que a palavra serve para atacar.‖ (Deputado João Galamba,
entrevista no jornal Público, 28/03/2010, nosso negrito)

Analisando outro sub-género do discurso político, o debate eleitoral, Catherine


Kerbrat-Orecchioni (2010b) propõe cinco categorias122 – cortesia (politesse), hipercortesia
(hyperpolitesse), não-cortesia (non-politesse), descortesia (impolitesse) e polirudeza (polirudesse)123 –,
que permitiriam uma análise mais aprimorada das manifestações de (des)cortesia em

122 Em Kerbrat-Orecchioni (2005: 208-209) existe uma classificação que propõe quatro
categorias de (des)cortesia: cortesia (politesse), hipercortesia (hiperpolitesse), acortesia (apolitesse) e
descortesia (impolitesse).
123 Definições: cortesia = existência d‘um marcador (um atenuador de FTA, um FFA) cuja

presença está de acordo com as normas; hipercortesia = presença de marcadores excessivos em


relação às normas; não-cortesia = falta ―normal‖ de marcadores de cortesia; descortesia = ausência
―anormal‖ de marcadores de cortesia (por exemplo, um cumprimento) no caso da descortesia
negativa, presença de marcadores de descortesia (por exemplo um insulto) no caso da
descortesia positiva; polirudeza = um FTA dissimulado num FFA (os chamados elogios pérfidos).

217
diversos contextos políticos, inclusive, na nossa opinião, em debates parlamentares.
Estas cinco categorias propostas por Catherine Kerbrat-Orecchioni permitiriam
também uma análise mais detalhada dos usos das formas de tratamento nos discursos
parlamentares: o seu papel na configuração da dinâmica relacional que os locutores
estabelecem entre si, mas também o funcionamento discursivo, sobretudo a relação
entre o valor prototípico e o valor contextual e os efeitos que decorrem desta relação.
No que diz respeito à construção da imagem de si, consideramos importante o
conceito de auto-cortesia, proposto por Chen (2001) – que, partido do modelo clássico
de Brown & Levinson (1978/1987), propõe quatro estratégias de auto-proteção da
imagem de si124 –, adotado também por Alberdi Urquizu (2009) – que distingue entre
dois pólos opostos, auto-politesse abstentionniste 125 e auto-politesse valorisante 126 – e
encontrado também em Kerbrat-Orecchioni (2005: 204), quando a linguista francesa
fala de principes [de politesse] orientés vers soi même, mais concretamente, de auto-FTAs127
e auto-FFAs128.
Enquanto mecanismos que expressam ao nível linguístico a dinâmica social de
uma comunidade de falantes – no caso do discurso parlamentar, podemos falar
também de uma comunidade de práticas 129 – o tratamento elocutivo, alocutivo e
delocutivo merece um estudo detalhado. Aliás, diferentes autores já se debruçaram
sobre este tema, salientando diferentes funções das formas de tratamento em debates
parlamentares: intensificar os FTA através de escolhas estratégica entre FT marcadas e
não-marcadas (Ilie 2005b), avaliar negativamente os adversários políticos e as suas
ideologias (Cabasino 2010a), configurar os locutores em situações de conflito
negociado (Cabasino 2010b), desafiar da autoridade institucional (o presidente) e
comprometer os adversários políticos (Ilie 2010d), configurar identidades no eixo
institucional/pessoal Marques (2010a), construir o quadro interlocutivo e
desempenhar a função fática – uso automático, que advém da natureza
intrinsicamente dialogal do discurso parlamentar, segundo Ionescu Ruxăndoiu (2011)
–, veicular as identidades individuais ou de grupo (Săftoiu 2013). Por fim, Détrie

124 Chen (2001) introduz o conceito de Seft-Face Threatening Act (SFTA) [ato ameaçador para a
imagem de si] e enumera quatro estratégias de self-politeness: fazer um SFTA diretamente e sem
ação reparadora, fazer um SFTA com uma ação reparadora, fazer um SFTA de forma indireta
e não fazer um SFTA.
125 ―Le locuteur évite ou essaie de réduire au minimum les situations susceptibles de menacer

ses faces‖ (Alberdi Urquizu 2009: 20).


126 ―La mise en valeur de la propre face, auto-politesse que nous dirons valorisante, est

considérée signe de narcissisme et d‘impolitesse‖ (Alberdi Urquizu 2009: 20).


127 ―éviter les comportements excessivement menaçants‖ (Kerbrat-Orecchioni 2005: 204).
128 ―éviter les comportements anti-menaçants‖(Kerbrat-Orecchioni 2005: 204).
129 ―In parliament, communities of practice can be described as aggregates of people who come

together around mutual engagement in some common endeavour. Ways of doing things,
ways of talking, beliefs, values, power relations – in short, practice – emerge in the course
of their joint activity around that endeavour‖ (Ilie 2010d: 335, nosso negrito).

218
(2010: 143-168) analisa quatro papéis que as FT têm em debates parlamentares: i)
construir o quadro participativo; ii) gerir o turno de fala; iii) avaliar o intelocutor; iv)
marcar a coesão e a continuidade enunciativas. No que diz respeito ao uso de formas
de tratamento como mecanismos da agressividade verbal, Détrie (2008) fala de uma
rotina dos debates, em que certas FT insultuosas funcionm como um prêt-à-penser propre au
débat institutional, que faz parte da bagagem argumentativa dos parlamentares.
Por outro lado, é preciso – sobretudo no caso do discurso parlamentar
português –, salientar o uso essencialmente institucionalizado, obrigatório das formas
de tratamento. Claro que, como veremos nos próximos capítulos, ocorrem
transgressões nos debates, mas o protocolo institucional – que se traduz no respeitar
das normas de cortesia, inclusive no que diz respeito às formas de tratamento – tem
um peso importante nos debates portugueses130.
Vejamos um exemplo que se tornou conhecido através da comunicação social
portuguesa na primeira metade de 2010. O Presidente da Assembleia da República
chamou a atenção três vezes ao interveniente, sobre a obrigação de respeitar as normas
regimentais no uso da palavra, estar de pé e usar a fórmula ―Sr. Presidente, Srs.
Deputados‖. Aliás, a reação é categórica: ―Não lhe dou a palavra. Tem de usar a
fórmula regimental para se dirigir ao Plenário‖. Trata-se, de um episódio bastante
inusual, mas, na nossa opinião, ilustra bem as caraterísticas de uma prática discursiva
no parlamento português: a inflexibilidade no uso das formas de tratamento. Aliás, os
capítulos seguintes confirmarão esta hipótese, pois nos debates portugueses
encontramos menor variedade de formas de tratamento não-institucionais.

(137) O Sr. Presidente: — O Governo pediu para esta sua intervenção ter dois
intervenientes. Assim sendo, tem a palavra o Sr. Secretário de Estado da
Educação.
O Sr. Secretário de Estado da Educação (João Trocado da Mata): — Sr.as
Deputadas, Srs. Deputados…
O Sr. Presidente: — Sr. Secretário de Estado, tem de falar de pé e dirigir-se
à Câmara com a fórmula: «Sr. Presidente, Srs. Deputados»1.
O Sr. Secretário de Estado da Educação: — Muito bem! Sr.as Deputadas, Srs.
Deputados…
O Sr. Presidente: — Não! «Sr. Presidente, Srs. Deputados»!2
O Sr. Secretário de Estado da Educação: — Sr. Presidente, Srs.
Deputados,…
O Sr. Presidente: — Não lhe dou a palavra. Tem de usar a fórmula
regimental para se dirigir ao Plenário3.

130Aliás, o regimento da Assembleia da República é claro neste aspeto: Artigo 89.º Modo de
usar a palavra 1 — No uso da palavra, os oradores dirigem-se ao Presidente e à
Assembleia e devem manter-se de pé. (Regimento da Assembleia da República, nosso negrito)

219
O Sr. Secretário de Estado da Educação: — Sr. Presidente, Sr.as e Srs.
Deputados: Muito se tem dito aqui sobre o trabalho do observatório ou a
ausência dele, bem como do gabinete da segurança escolar. Deixem-me começar
por esclarecer estas questões. (Reunião de 20 de março de 2010)

Nos próximos capítulos propomos análises das FT elocutivas, alocutivas e


delocutivas, tentando destacar o seu papel na configuração da distância interlocutiva e na
construção de auto- e hetero-imagens.

220
2.2 A imagem de si: o tratamento pronominal elocutivo
O Sr. Rui Jorge Santos (PS): — … mas há um
ditado que diz ―Atrás de nós virá quem bom de nós fará‖...
(DAR – 11/05/2012 I Série — Número 107)

O tratamento elocutivo, enquanto estratégia linguística de construção da


imagem de si, assume no discurso político um papel importante, uma vez que os
políticos comunicam com a grande maioria dos eleitores através da comunicação
social. Na impossibilidade de interação face a face com números significativos de
cidadãos, a estratégia comunicacional de um político consiste principalmente na
criação de uma imagem pública favorável, que inspire confiança junto dos eleitores.
Esta imagem constrói-se, numa primeira etapa, na encruzilhada de diferentes hetero-
imagens (o que os outros dizem sobre um indivíduo) e de auto-imagens (o que o
indivíduo diz sobre ele próprio) e, em seguida, passa por um processo de
descodificação que cada eleitor faz em função do seu universo de crenças. A auto-
imagem é, de facto, uma componente mais fácil de gerir na comunicação política,
dado que as hetero-imagens e a descodificação dependem dos outros que podem ser,
no máximo, influenciados, mas nunca – nem sequer em regimes ditatoriais –
totalmente controlados.
Assim sendo, tentaremos nesta secção analisar a contrução da imagem de si
através do uso das formas de tratamento pronominais elocutivas, numa tentativa de
destacar particularidades em cada sub-corpus. Num primeiro momento, salientamos
que a nossa análise terá algumas limitações impostas pelas caraterísticas do corpus,
que, como já explicitamos no sub-capítulo 1.2.2. (Do oral à escrita), contém alterações
em relação à interação verbal propriamente dita que ocorreu nas salas de reuniões.
Por esta razão, as conclusões deste capítulos não se baseiam exclusivamente em
comparações de natureza estatística, entre os três sub-corpora – português, brasileiro e
romeno –, uma vez que, por um lado, as transcrições oficiais não são um relato fiel da
interação e, por outro lado, é possível que haja diferentes estratégias de
escripturalização do oral nos departamentos de taquigrafia dos três parlamentos. No
entanto, no caso de diferenças evidentes – ver infra 2.4.2. Tratamento relacional: 1
ocorrência da FNT colega(s) no sub-copus português, 64 no sub-corpus brasileiro e 327
no sub-corpus romeno – podemos afirmar sem receio que se trata de práticas
discursivas distintas adotadas pelos locutores portugueses, brasileiros e romenos e não
de intervenções de transcriptores e que as informações de natureza estatística podem
ser usadas como ponto de partida para a análise. O nosso estudo, porém, não será
essencialmente de índole quantitativa – tomando em consideração as limitações do
corpus – mas privilegiará sobretudo uma abordagem qualitativa, tentando destacar
usos e valores contextuais do leque de formas de tratamento elocutivas, alocutivas e
delocutivas usadas em debates parlamentares portugueses, brasileiros e romenos.

221
A título de exemplo, vejamos os fragmentos (138a) e (138b) 131 do corpus
brasileiro, em que se observa como o transcritor substituiu a forma de tratamento
pronominal elocutiva a gente por nós.

(138a) O Sr. Ministro Carlos Lupi - Quando vemos o nosso filho olhando a nossa face
na televisão, dizendo que se montou um esquema de corrupção, de cobrança de
propina no Ministério do Trabalho, nos sentimos profundamente agredidos,
profundamente maculados. Amigos nossos, como é o caso do meu chefe de
gabinete, que eu coloco não somente as mãos, mas a perna, o corpo no fogo,
porque eu o conheço há 25 anos... Sentimo-nos profundamente agredidos, porque é
uma denúncia anônima. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

(138b) CL : então quando a gente vê o FILho da gente < olhANDO a face da gente na
televisão > + e dizendo que se MONTOU ↑ um esquema de corrupção ↑ + de
cobrança de propina no Ministério do Trabalho + a gente se sente profundamente
agredido + profundamente maculado + aMIgos da gente + como é o caso do meu
chefe de gabinete + > que eu coloco não as mãos coloco as mãos mas a perna <
o CORPO no fogo porque eu o conheço há vinte e cinco anos ++ conhenço e
ASSUMO + há VINTE E CINCO anos + e a gente se sente proFUN::damente
agredido porque é uma denúncia anô::nima (Nossa transcrição)

***

No que diz respeito às formas de tratamento elocutivas, que serão analisadas


neste capítulo, num primeiro momento, faremos algumas considerações gerais sobre o
uso dos pronomes eu e nós na construção da imagem de si132.
Em primeiro lugar, destaca-se a problemática de definir com rigor a natureza
intrínseca dos dois pronomes, sobretudo de nós. Eu é por excelência o ―indicador da
subjetividade‖, mas é na relação de reciprocidade com tu que assume um papel fulcral
de qualquer tipo de enunciação e, acrescentaríamos nós, em qualquer tipo de interação:

―[...] cette forme personnelle en revanche, est, si l‘on peut dire, l‘indicateur de
subjectivité. Elle donne à l‘assertion qui suit le contexte subjectif — doute,
présomption, inférence — propre à caractériser l‘attitude du locuteur vis-à-vis
de l‘énoncé qu‘il profère. Cette manifestation de la subjectivité ne prend son
relief qu‘à la première personne.‖ (Benveniste: 1966, 264; nosso negrito)

Os dois exemplos são também analisados no sub-capítulo 1.2.2.


131
132De forma a evitar possíveis confusões relacionadas com as múltiplas aceções do ethos e,
como o foco teórico da nossa análise não é retórico, preferimos neste estudo trabalhar com o
conceito de imagem.

222
―La conscience de soi n‘est possible que si elle s‘éprouve par contraste. Je
n‘emploie je qu‘en m‘adressant à quelqu‘un, qui sera dans mon allocution
un tu. C‘est cette condition de dialogue qui est constitutive de la personne, car elle
implique en réciprocité que je deviens tu dans l‘allocution de celui qui à son tour
se désigne par je‖ (Benveniste: 1966, 260; nosso negrito)

Se, no caso de eu, a situação parece bastante clara, nós, por outro lado, revela-se
como um caso mais complexo. Segundo Kerbrat-Orecchioni (2002: 46-47), nós não
pode ser definido como um eu plural e a autora propõe as seguintes estruturas
constitutivas deste pronome133, que apresentamos abaixo numa forma simplificada:

i) NÓS = EU + Ø – seria o nós de majestade ou de modéstia, em que o locutor


expressa, de facto, o eu
ii) NÓS = EU + TU (+ TU / ELE / ELA / Ø)
iii) NÓS = EU + ELE (+ ELE / ELA / Ø)
iv) NÓS = EU + ELA (+ ELA / Ø)

NÓS (= EU + TU) é chamado inclusivo, ao passo que NÓS (= EU + ELE) é


chamado exclusivo; existe também um nós ternário, NÓS (= EU + TU + ELE).
Guespin (1985) faz a distinção entre NÓS1 que aparece, por exemplo, em textos
redigidos em co-autoria, NÓS2 (EU + TU), que engloba os participantes na interação
verbal e NÓS3 (EU + OUTRO), em que o locutor junta um terceiro (eu e o Paulo) sem a
autorização expressa do mesmo. Como é evidente, nestes casos NÓS não é o plural do
pronome EU da mesma maneira que mesas é plural de mesa (NÓS ≠ EU + EU), pois não
se trata de uma multiplicação do EU, mas sim de uma extensão, teoricamente ilimitada
(é possível dizer nós, a humanidade) a qual se juntam indivíduos distintos.
Se, como acabámos de ver, é problemático explicar a natureza intrínseca dos
constituintes de NÓS, um segundo desafio da análise do discurso é recuperar do
contexto, toda a miríade dos OUTROS (TU, VOCÊS, ELE, ELA, ELES, ELAS, etc.)
possíveis que se podem juntar a EU, ou seja analisar com rigor as questões de
referenciação. Lembramos análises sobre o NÓS no discurso político, em que são
identificados três valores referenciais do pronome (Amossy 2010: 165-167), ou até
seis134 (Marques 2000), bem como o número especial da revista Mots, Le nous politique,
em que, ao lado de Guespin (1985), uma dezena de autores analisam em pormenor as
múltiplas facetas deste pronome em diferentes contextos políticos.

133 As estruturas propostas por Kerbrat-Orecchioni (2002b) descrevem o sistema pronominal


francês e são redigidas nesta língua; a adaptação para o português é da nossa autoria.
134 Na verdade, trata-se de quatro NÓS com a estrutura [EU + OUTRO(S)], de um NÓS de

modéstia e de um sexto NÓS que é, de facto, um artifício retórico, em que o locutor expressa a
não adesão ao discurso do adversário, o chamado NÓS polémico.

223
Depois de esclarecida a natureza intrínseca de NÓS (extensão do EU) e
identificados os OUTROS (TU, ELE, ELA, etc.) que, junto com EU podem constituir um
NÓS num determinado contexto (valores referenciais), é preciso avaliar as estratégias
discursivas de construção da identidade coletiva, pois no discurso político essa pode
ser baseada, como já vimos, em relações de adesão, mas também – e muito
frequentemente, aliás – em relações de oposição. Alguns autores (Chilton 1990)
destacam o papel do NÓS inclusivo, que tem o objetivo estratégico de criar consenso e
de atenuar a dimensão conflitual do discurso político, outros referem o a criação de
identidades antagónicas através do uso dos pronomes NÓS vs. ELES (Oddo 2011). Por
exemplo, em nós, do PS (um dos exemplos no nosso corpus), o locutor expressa a sua
identidade política e ideológica, juntando-se aos membros do partido de que faz parte,
expressando claramente uma relação de adesão. Por outro lado, no exemplo E essa é
toda a diferença entre nós e os demagogos e irresponsáveis, o locutor expressa a sua identidade
política em contraste com os outros, os demagogos e irresponsáveis, expressando assim uma
relação de oposição perante os mesmos, na tentativa de criar uma imagem de si positiva,
que reúne os atributos opostos, como a falta de demagogia e a responsabilidade.
Nos sub-capítulos seguintes analisaremos em pormenor diferentes usos das
formas de tratamento elocutivo (EU / NÓS / A GENTE no corpus brasileiro, EU / NÓS
no corpus português e EU / NOI no corpus romeno), concentrando-nos no seu efeito
na criação da imagem de si.

2.2.1 Eu, nós e a gente


Uma particularidade do sub-corpus brasileiro é o uso, por vezes indiferente,
dos pronomes eu, nós e a gente. Aliás, o uso a gente corresponde às tendências atuais do
português brasileiro – ao menos nas suas variedades mais coloquiais –, em que esta
expressão passa a ganhar terreno ao pronome nós. Neves (2011: 469-470) analisa este
fenómeno e identifica dois usos possíveis, um de substituição do pronome nós e um
uso genérico.
Nos exemplos que se seguem podemos observar que a dinâmica do emprego
destas formas pronominais de tratamento elocutivo é bastante complexa e que os
contornos dos significados ou das imagens construídas não são sempre nítidos.
Em (139), nós, eu e a gente contribuem para a criação de imagens individuais e
coletivas, expressando a identificação política (ou profissional) com os membros da
Câmara e criando a imagem coletiva, genérica, do país.

224
Eu, enquando recurso linguístico de preferência para construir a imagem
individual, aparece, na maioria dos casos (excepto eu não vi), em contextos
relacionados com realização dos atos rituais da interação 135 : ―Eu gostaria de
cumprimentar‖, de afirmação ou de reforço da opinião pessoal: ―Eu acho que nós
precisamos envolver os três níveis de Governo‖, ―Eu gostaria de defender aqui o INCRA
histórico‖, ―eu gostaria também de dizer, Celso, que eu estive na sua posse‖, ―e eu não vi
isto em Rondônia ainda‖, ―Eu gostaria, em convênio com os Estados [...] estivéssemos
à disposição nesta Casa aqui‖, ―Eu gostaria que nós tivéssemos outra oportunidade,
em que pudéssemos‖. É também através do uso de eu que o locutor afirma a sua
identidade política (na sua componente profissional e não na componente ideológica),
para sustentar a sua posição sobre o assunto em debate: ―Eu fui Prefeito, e temos na
área urbana...‖.
Portanto, podemos falar de duas imagens individuais configuradas em torno do
pronome eu que se destacam neste trecho: eu, como interveniente na discussão
(realizo atos rituais específicos, afirmo as minhas convicções) e eu, como autoridade
do Estado (prefeito), que afirmo as minhas opiniões em conhencimento de causa.
Se no caso de eu, a interpretação das imagens criadas foi mais acessível, as
ocorrências de nós desta intervenção tornam-se mais difíceis de explicar. Na nossa
opinião, seria arriscado tentar fazer distinções muito rigorosas, uma vez que os
locutores veiculam nos seus discursos imagens que decorrem de identidades
complexas, individuais – ver supra 1.1.2.3.3. A(s) identidade(s) dos parlamentares –, ou
coletivas. Num primeiro momento, nós expressa claramente uma identidade coletiva
institucional: ―Eu acho que nós precisamos envolver os três níveis de Governo nessa
questão‖; aliás, se relacionamos este pronome com o verbo debatemos, da frase
anterior, poderíamos concluir que se trata de um nós que expressa o eu (o locutor) e os
outros participantes no debate. O segundo nós remete para uma imagem coletiva
institucional e regional, no contexto em que o locutor evoca uma situação que
ocorreu em Rondônia: ―[...] temos na área urbana, lá em Ouro Preto do Oeste,
Rondônia, 650 hectares, praticamente divisando com a área urbana. E nós
conseguimos fazer...‖. Mais adiante, através da expressão todos nós, expressa-se uma
imagem coletiva, que pode referir a totalidade dos participantes no debate, como é,

135Malin Roitman faz uma distinção este eu representado e eu situado na construção da identidade
pessoal no discurso político, analisando o debate presidencial Hollande-Sarkozy de 2012: ―The
represented I refers to the speaking entities in the discourse – the protagonists of the
interaction – and constitutes the persons presenting the topics of the communicative
event. This I certainly refers to the speaker but not as speaker, rather as a subject of other
(past, present or future) actions or properties – for example, as future president, rather
than as speaker. The situated I refers, on the other hand, to the empirical subject and
has a meta-linguistic or pragmatic function; it positions itself in the discourse in relation to
the arguments presented and the progress of the interaction; it stages the utterances and
imposes itself explicitly by commenting on its own discourse and arguments as well as those of
the other‖ Rotman (2014: 746, nosso negrito).

225
aliás, o caso das outras ocorrências. Sobretudo na última parte da intervenção, esta
interpretação parece mais evidente, quando o locutor refere a Câmara dos Deputados:
―Eu gostaria [...] estivéssemos à disposição nesta Casa [...] Eu gostaria que nós
tivéssemos outra oportunidade‖.

(139) O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO - Eu gostaria de


cumprimentar o Presidente, o Ministro, a Ministra, o Presidente do INCRA e
todos os colegas. Gostaria, até para ter bom proveito do pouco tempo, de não
partidarizar com ideologias esse assunto de tamanha importância. Parabenizo os
autores do requerimento por oportunizar este momento para debatermos.
Gostaria de fazer uma pergunta à Ministra Izabella Teixeira. Eu acho que
nós precisamos envolver os três níveis de Governo nessa questão de apoio à
manutenção dessas unidades de conservação do ICMBio, do Ministério do
Meio ambiente, no que se refere à fiscalização. Acho que os Estados, os
Municípios têm um papel importantíssimo e até mesmo os produtores que vivem
nos limites dessas reservas. [...] Eu fui Prefeito, e temos na área urbana, lá em
Ouro Preto do Oeste, Rondônia, 650 hectares, praticamente divisando com a
área urbana. E nós conseguimos fazer isso com os chacareiros, diminuir as
suas áreas e também trazê-los, com comprometimento, para a conservação
dessas áreas. [...] Até hoje, desde a década de 70, há fragmentação de áreas, em
decorrência das famílias que lá moram e que aumentaram, e que nós devemos ter
como exemplo. Eu gostaria de defender aqui o INCRA histórico, o INCRA
que todos nós conhecemos, e de defender os servidores também do INCRA. [...]
Mas nós precisamos ter alguns enfrentamentos. Primeiro, nós precisamos
trabalhar nas questões acima dos quatro módulos. Nós devemos enfrentar
essa questão da burocracia, do georreferenciamento e da certificação desse
georreferen-ciamento, que ainda é muito burocrático nas superintendências do
INCRA nos Estados. E eu gostaria também de dizer, Celso, que eu estive na
sua posse e pude ouvir de você que você ia fazer um choque administrativo no
INCRA. É preciso - e eu não vi isto em Rondônia ainda - que as procuradorias
do INCRA passem a entender que o colono, há 30 anos em sua parcela de terra,
como invasor, não tem acesso ao crédito, por deficiência da própria procuradoria do
INCRA, que questiona a legalidade de títulos, que deveria estar caminhando para a
regularização. Então, nós sabemos da dificuldade do INCRA. O cidadão
chega primeiro do que o poder público, do que as políticas públicas. Nós
sabemos dessa dificuldade. Mas nós gostaríamos de contribuir nesta Casa
para restabelecer o INCRA nessa sua questão, e o próprio MDA, na questão da
assistência técnica, que ele já faz com muito zelo, atendendo aí a esses projetos de
assentamentos. Eu gostaria, em convênio com os Estados - o próprio INCRA tem
feito isso -, estivéssemos à disposição nesta Casa aqui para discutirmos isso
mais profundamente. Eu gostaria que nós tivéssemos outra oportunidade,
em que pudéssemos, somadas todas essas dificuldades, trazer mais atores que
dependem disso para a gente ter uma reforma agrária justa neste País. Muito
obrigado. (Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

226
Uma vez destacados os valores de nós nesta intervenção, consideramos
relevante analisar os contextos em que esta forma de tratamento elocutivo é usada.
Como já observámos, eu parece estar relacionado com a expressão da imagem do
locutor enquanto participante no debate e autoridade do Estado que afirma as suas
convicções, partilha opiniões, etc. Por outro lado, nós (que integra o eu também, junto
com os outros) parece-nos mais relacionado com o agir: ―nós precisamos envolver os três
níveis de Governo‖, ―nós conseguimos fazer‖, ―nós devemos ter como exemplo‖, ―todos
nós conhecemos‖, ―nós precisamos ter alguns enfrentamentos‖, ―nós precisamos trabalhar‖,
―Nós devemos enfrentar‖, ―nós sabemos da dificuldade‖, ―nós gostaríamos de contribuir‖,
―que nós tivéssemos outra oportunidade‖. Poderíamos concluir que uma das diferenças
entre eu e nós corobora-se com a oposição falar vs. agir; o locutor usa o singular
quando fala, mas para expressar a ação política, emprega o pronome nós, podendo esta
estratégia discursiva relacionar-se com a necessidade de exprimir a legitimidade
política ou de procurar consenso junto dos interlocutores. Sintetizamos este
mecanismo na Figura nº 12.
Finalmente, a única ocorrência da expressão a gente, no fim da intervenção,
parece veicular a imagem coletiva – e genérica, até bastante difusa – do país inteiro:
―para a gente ter uma reforma agrária justa neste País‖.
O segundo exemplo que escolhemos, também dos debates brasileiros, (140a)-
(140c) diz respeito a uma estratégia muito pessoal – e também singular no corpus – de
dinâmica do emprego das formas de tratamento eu, nós e a gente. Pelo seu caráter único,
consideramos que, pelo menos em contexto parlamentar, estes usos se relacionam com
particularidades de idioleto, não sendo típicas para este género discursivo. No entanto, é
preciso salientar que o corpus não é exhaustivo e que situações deste tipo talvez apareçam
em outros debates do Congresso Nacional Brasileiro.
AGIR
conseguimos fazer
eu devemos ter
conhecemos
nós precisamos ter
precisamos trabalhar
devemos enfrentar
os outros sabemos
gostaríamos de contribuir
tivéssemos outra oportunidade
LOCUTOR

FALAR
gostaria de cumprimentar
eu acho
gostaria de defender
gostaria também de dizer
gostaria

Figura nº 12. Valores de eu e nós.

227
Em segundo lugar, embora não seja o nosso objetivo fazer um trabalho
estatístico, não deixa de ser interessante reparar que num total de 389 palavras destes
três breves trechos, há 23 ocorrências do pronome eu, ou seja uma palavra em cada 17
(aproximadamente). Por outro lado, é também importante relacionar esta frequência
com os contextos nos quais ocorre não só este pronome, mas também as três formas
de tratamento elocutivo referidas: eu, nós e a gente.

(140a) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - S.Exa. é como eu; é da luta pela
democracia. Independente de cargo, a decisão do PDT de apoiar a Dilma foi
antes do PT. Nunca exigimos nada. Não é cargo que nos guia na vida; é causa,
e custa caro, porque todo mundo sabe que eu vou defender os direitos dos
trabalhadores. Eu tenho embate com muitas instituições que não se conformam
com esse preceito. Somos humanos. Pega-se uma coletiva ... Por isso eu falei
da bala, porque são 200 dando tiro na gente - e "pá", e "pá", e "pá". Eu disse:
"mas nem à bala abatido". Eu falei nesse sentido, nunca desafiando! Nunca! Eu
posso ser tudo, menos uma pessoa deseducada, deselegante e muito menos
despreparada. Eu já ocupei algumas funções públicas. Então, eu peço desculpas
à opinião pública, que fica com uma imagem de que somos um louco, um
tresloucado. Eu não sou! Eu estou há 5 anos no Ministério; não são 5 dias.
Desde que eu entrei no Ministério tem gente querendo me derrubar. Passam 5
anos e não conseguem. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

(140b) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Sobre a questão de bala, vou


repetir aquilo que falei, e nem o Deputado Ronaldo, nem o Deputado Fernando
estavam. Logo ao abrir, eu já pedi desculpas porque acho que eu exagerei. A
gente está sob pressão. A gente é humano. A gente erra, só não erra quem não
trabalha. Então, eu acho que eu exagerei. Já pedi desculpas por isso. Acho que
foi um momento infeliz da minha parte e quem é que não tem um momento
infeliz? Quem não pode ter errado na vida? Então, eu não tenho problema
nenhum. Tenho humildade suficiente na minha vida de todo dia pedir
desculpas, porque todo dia eu vou errar, eu sou humano. (Audiência Pública
N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

(140c) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Nem todo mundo tem o meu
comportamento: eu sou um pouco atirado, eu sou italianão; italianão, o cara
aponta a faca, a gente mete o peito primeiro para ver se a faca é dura. Em
outros casos eu nunca vi denúncia anônima sem provas. Pode até existir a
denúncia anônima, mas tem que apresentar alguma prova. Porque senão como é
que nós vamos existir? Quantos inimigos a gente não adquire na vida? Quanta
gente a gente, às vezes, indiretamente desagrada e fica com raiva da gente.
Então, isso vai virar o quê? Um tribunal de inquisição. Foi isso que eu disse e
repito. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

228
O primeiro eu: ―S.Exa. é como eu; é da luta pela democracia‖ procura a adesão
do interlocutor, através da indentificação num ideal comum, a ―luta pela democracia‖;
a imagem pessoal é criada em relação com o outro, numa comparação que procura
estabelecer pontos comuns. As outras ocorrências de eu, porém, não têm valores
relacionais, mas concentram-se nas múltiplas facetas individuais, veiculando imagens
idiológicas, políticas, discursivas e até etnicas. Junto com a primeira ocorrência, em
que o locutor se constrói enquanto lutador pela democracia, assumindo assim uma
posição ideológica clara, as seguintes ocorrências de eu: ―eu vou defender os direitos
dos trabalhadores‖, ―Eu tenho embate com muitas instituições‖, ―eu entrei no
Ministério tem gente querendo me derrubar‖ tentam configurar posições ideológicas,
mas também uma imagem de lutador: ―vou defender‖, ―tenho embate‖, ―tem gente
querendo me derrubar‖. Uma segunda imagem que aparece nas intervenções é a de
alto funcionário público: ―Eu já ocupei algumas funções públicas‖, ―Eu estou há 5
anos no Ministério; não são 5 dias‖, que pode conferir autoridade aos pressupostos
apresentados pelo locutor.
Destacamos o uso de estereótipos de natureza étnica para justificar certas
atitudes públicas: ―eu sou um pouco atirado‖, ―eu sou italianão‖, mas também o apelo
a lemas gerais, como o humanum errare est: ―eu vou errar‖, ―eu sou humano‖. O eu
comportamental constrói-se através da negação da imagem que o próprio locutor
tinha criado nas suas atitudes públicas: ―Eu falei nesse sentido, nunca desafiando!
Nunca! Eu posso ser tudo, menos uma pessoa deseducada, deselegante e muito menos despreparada‖;
―Então, eu peço desculpas à opinião pública, que fica com uma imagem de que somos um
louco, um tresloucado‖. Esquematizando na Figura nº 13 esta constelação de imagens de
si criadas pelo próprio locutor, não podemos deixar de observar que se trata, de facto,
de um mecanismo muito produtivo, singular no nosso corpus. Notamos ainda que,
embora não apareça nestes trechos, há momentos no debate em que o locutor refere a
imagem profissional, lembrando que foi jornaleiro e a imagem de pater familias, cujos
filhos sofrem por causa dos ataques nos jornais (veja-se (8), no início deste capítulo).
Este exemplo mostra – talvez até de uma maneira exaustiva – o que refere a literatura
de especialidade, o facto de os parlamentares manifestarem nos seus discursos
identidades muito complexas, por vezes difíceis de identificar. Por outro lado,
notamos que os mecanismos de expressar o eu não se limitam apenas ao uso deste
pronome, uma vez que o locutor emprega também nós (de facto, apenas a desinência
verbal): ―somos um louco‖ e a expressão a gente: ―a gente é humano‖.
Esta ênfase única no eu – pelo menos no corpus aqui analisado – confirma o
objetivo de o locutor defender a imagem pessoal, pois enfrentava acusações graves de
corrupção no ministério que dirigia. Embora os políticos falem em nome de outros, eu não
está substituído por completo por nós em discursos políticos; sublinhe-se e é como ―o
ser humano irrompe também em momentos fulcrais do debate‖ (Marques 2000: 184) e
como se constrói. Como pudemos observar, nesta análise, por vezer a imagem pessoal
pode ser extremamente complexa, veiculando múltiplas facetas da identidade
individual, política, ideológica, profissional, pessoal, étnica e comportamental.

229
POLÍTICO
(ideológico)
luta pela
democracia POLÍTICO
RELACIO- defender os direitos (profissional)
NAL ocupei funções
Eu=V. Exa públicas
estou no ministério

COMPORTA-
MENTAL PROFISSIO-
≠deseducado, NAL
deselegante,
jornaleiro
despreparado,
louco, tresloucado EU

ÉTNICO PATER
italianão FAMILIAS
atirado filho da gente

DISCURSIVO
HUMANO disse
errar peço desculpas
sou humano exagerei
acho

Figura nº 13. Valores de eu.

230
2.2.2 Eu, como...
Outra caraterística do sub-corpus brasileiro – e ausente do sub-corpus
português – é uma certa frequência da construção da imagem pessoal através da
expressão eu, como (13 ocorrências). Como se pode observar nos exemplos (141)-(148),
eu, como serve de recurso linguístico para expressar uma grande variedade de imagens
pessoais, relacionadas com: a identidade nacional (Eu, como brasileiro), a identidade
regional (como cidadão nordestino), a identidade de cidadão (Eu, como cidadão brasileiro; Eu,
como qualquer cidadão brasileiro), a identidade política profissional (Eu, como participante
tanto desta Comissão quanto da Comissão de Agricultura; eu, como Ministro; eu, como Vice-
Presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle...), a identidade política
ideológica ([eu como] representante da Oposição; Eu, como Líder do PSB), a identidade
profissional (Eu, como profissional de saúde, da educação e da atividade física; eu, como técnico do
setor) e a identidade de género ([eu] como mulher que acredita na nossa força).
Estas imagens de si são utilizadas pelos locutores como estratégias de conferir
legitimidade política ou profissional aos seus discursos. Por exemplo, a identidade nacional
e regional serve como argumento em discursos sobre a unidade do país em (141), a
identidade cidadã e a identidade política são instrumentos para se distanciar do partido do
poder em (142), a identidade profissional aparece como justificação para expressar – de
maneira irónica – considerações sobre a saúde do interlocutor em (143), etc.
Se alguns locutores preferem construir uma imagem que julgam relevante para
os seus discursos, enfatizando a identidade cidadã em (143), a identidade profissional
(144) e (147), a identidade política profissional em (145) e (148), outros locutores
veiculam através deste recurso linguístico identidades complexas, como a nacional e
regional em (141), a política profissional, política ideológica e cidadã em (142), a
política ideológica e de género em (144).
Salientamos que a expressão explícita de identidades pessoais complexas ocorre
sobretudo no sub-corpus brasileiro, não se registando exemplos semelhantes nos sub-
corpora português e romeno. No entanto, ao contrário do exemplos (140a)-(140c),
notamos que aqui os locutores expressam identidades próximas umas das outras:
nacional e regional em (145), política e cidadã em (146), havendo só em (146) uma
expressão simultânea da identidade política (ideológica) e de genéro. Há estudos,
como Fiorin (2009) que falam no caso do Brasil de uma cultura de mistura, o que
poderia explicar alguns destes exemplos, mas sem uma análise mais aprofundada esta
afirmação deve ser interpretada apenas como uma intuição, que poderá estudada com
mair rigor no futuro, e não como uma conclusão categórica.

(141) O SR. DEPUTADO MENDONÇA FILHO – Eu, como brasileiro,


como cidadão nordestino, quero um Brasil unido, não dividido. Eu quero um
Brasil em que a gente possa produzir, gerar oportunidade de trabalho. Eu quero
e desejo um Brasil onde as pessoas possam respeitar as leis, independentemente
de ser pobre, rico, preto ou branco, independente de cor ou de raça. Realmente
temos de sonhar, desejar e trabalhar nessa direção. (Audiência Pública N°:
1245/11 DATA: 24/08/2011)

231
(142) O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO – Eu, como participante
tanto desta Comissão quanto da Comissão de Agricultura, peço desculpas
aos Ministros pela ausência dos companheiros. Mas quero dizer que estamos
aqui para absorver ao máximo os questionamentos feitos aqui. Eu, como
cidadão brasileiro e representante da Oposição, não faço como fez o PT no
passado, em torcer por quanto pior melhor. Mas o seu partido é vítima de um
sistema anômalo, do ponto de vista ético-institucional, criado pelo Governo do
Presidente Lula para suceder o Mensalão. (Audiência Pública N°: 1245/11
DATA: 24/08/2011)

(143) O SR. DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA – Não tenho ódio, não, Sr.
Ministro. Eu, como qualquer cidadão brasileiro, estou aqui sentado
demonstrando a minha indignação. Quem estiver nos ouvindo, nos assistindo
neste instante vai entender muito bem o que estou dizendo. (Audiência Pública
N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

(144) O SR. DEPUTADO PAULO RUBEM SANTIAGO – Eu, como


profissional de saúde, da educação e da atividade física, quero fazer um
alerta ao Ministro. O Ministro está visivelmente fora do índice de massa
corporal; reagiu e raciocinou sob emoção e agressividade. Isso pode aumentar o
nível de adrenalina no sangue. V.Exa. pode ser abatido, Ministro, por um
acidente vascular cerebral ou um infarto. (Audiência Pública N°: 1857/11
DATA: 10/11/2011)

(145) O SR. MINISTRO ALEXANDRE PADILHA – Certamente, quero


repetir que nós avaliávamos: era importante que eu, como Ministro, viesse,
dedicasse um tempo, tivesse tempo para esta Comissão. Podemos debater todas
as questões. (Audiência Pública N°: 0497/12 DATA: 08/05/2012)

(146) A SRA. DEPUTADA SANDRA ROSADO – Eu, como Líder do PSB,


como mulher que acredita na nossa força, na nossa determinação e, acima
de tudo, no nosso cuidado com a coisa pública, quero dizer do reconhecimento
ao trabalho que V.Exa. vem desempenhando. (Audiência Pública N°: 0594/12
DATA: 16/05/2012)

(147) O SR. MINISTRO MÁRCIO ZIMMERMANN – No leilão de Belo


Monte, eu posso lhe falar com tranquilidade, eu era Ministro de Minas e Energia
na época, e nós fizemos o leilão. Eu comemorei; eu, como técnico do setor.
Há muitos anos que se tentava levar a leilão Belo Monte. Finalmente, conseguiu
se levar. (Audiência Pública N°: 1644/12 DATA: 28/11/2012)

(148) O SR. DEPUTADO EDSON SANTOS – É evidente que há toda uma


necessidade de todos os Parlamentares,inclusive da Oposição, principalmente da
Oposição, buscarem esclarecimentos, esgotarem esse debate. E o fato de eu,
como Vice-Presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e
Controle... (Audiência Pública N°: 1690/12 DATA: 04/12/2012)

232
2.2.3 Nós
No discurso político, nós assume valores referenciais multifacetados, advindos
da necessidade de os locutores legitimarem os seus discusos. A opção fundamental
por nós, em detrimento do eu136 prende-se com a dimensão pública do discuso político,
porque os locutores falam em nome de grupos que representam (partidos, governo,
sindicados, eleitores, etc.) e porque os debates políticos são organizados para serem
vistos, por públicos variados, compostos, por vezes, de milhões de cidadãos.
Em primeiro lugar, podemos afirmar que no discuso parlamentar, nós constitui
uma escolha natural, uma vez que os deputados (ou os senadores) falam enquanto
representantes do círculo eleitoral que os votou e não a título pessoal; portanto, é de
esperar encontrar um nós representativo nas tomadas de posições dos debates
parlamentares; Marques (2000: 181-184) fala da qualidade dos parlamentares enquanto
porta-vozes, que representam o povo e o partido. Por outro lado, na interpretação dos
valores de nós, consideramos necessário tomar em consideração a organização do
dispositivo comunicacional do discurso político (Charaudeau 2005: 42), de forma a
destacar rigorosamente as instâncias discusivas envolvidas e, por conseguinte, as
imagens coletivas criadas através do uso deste pronome.
Em segundo lugar, como já antecipamos – ver supra 1.1.2.3.3 A identidade (dos)
parlamentar(es) –, os parlamentares veiculam identidades complexas, sobressaindo nos
seus discursos traços mais ou menos evidentes que remetem para identidades variadas:
nacional, regional, profissional, política (ideológica ou profissional), pessoal, etc. Neste
contexto, considerámos necessário destacar os valores que nós pode assumir nos
debates que integram o nosso corpus para expressar a complexidade da(s)
identidade(s) (dos) parlamentar(es).
Em terceiro lugar, como destacou Geffroy (1985: 8), ―la cohésion du nous est
bien souvent assurée par l'existence maligne d'un tiers exclu. Exclu de l'allocution,
exclu du groupe-nous, exclu de l'univers du langage‖, ou seja nós constrói-se
essencialmente em oposição aos outros; tentaremos analisar as relações – por vezes
anatagonistas – que se estabelecem entre nós e os outros (ver infra 2.2.4 Nós vs. os outros).
Por último, o valor de nós está longe de ser consensual juntos dos interlocutores,
havendo, por esta razão, tentativas de negociação dos significados (ver infra 2.5.3.
Tratamento elocutivo).
Debruçar-nos-emos, num primeiro momento, nos valores referenciais de nós
identificadas no nosso corpus.

136Talvez uma exceção seja o discuso eleitoral, em que o candidato se apresenta como entidade
individual: eu farei, eu traterei, etc.

233
2.2.3.1 Nós1 – genérico
Um primeiro valor de nós, que chamaremos genérico, por não ser diretamente
ligado a um referente objetiva e claramente identificável (nem expressado pelo
locutor), serve essencialmente para os locutores expressarem opiniões gerais ou que se
pretende apresentar como gerais. Marques (2000: 194) fala de ―usos doxais, com
diferentes graus de abstracção, que corporizam a construção de um consenso muito
amplo‖. Na nossa opinião, este é o caso do exemplo (149), em que o locutor faz apelo
a um conhecimento generalizado: ―tendo todos nós o contexto, já muito conhecido‖,
para argumentar as suas ideias.
Em (150) e (151) o grau maior de abstração de referência de nós remete para
uma leitura genérica, em que o locutor expressa factos considerados por ele gerais,
mas, ao contrário de (150), sem procurar o consenso dos interlocutores. Se em (149)
nós é uma entidade abstrata que sabe e que é tomada como testemunha pelo locutor na
justificação dos seus pressupostos, em (150) e (151) é uma entidade abstrata que tem,
que serve para descrever situações, mas sem papel ativo no discurso. Ou seja, em
(149) nós justifica a posição do locutor, através da expressão de um possível consenso
doxal (todos nós conhecemos), ao passo que em (150): ―nós temos dois Brasis‖ e (151):
―nós temos aqui um belíssimo negócio‖ nós tem a função de agente na expressão de
factos gerais, mas sem os justificar.

(149) A Sr.ª Cecília Meireles (CDS-PP): — Por último, em relação ao BPN,


gostava de lhe perguntar o seguinte: cada vogal do conselho de administração do
BPN ganha cerca de 230000€, que é mais do dobro do que ganha o nosso
Primeiro-Ministro e mais do que ganha a Chanceler Merkel, da Alemanha.
Gostava de lhe perguntar se lhe parece sensata esta situação neste Banco, em
particular, atravessando o Banco as dificuldades que atravessa e tendo todos
nós o contexto, já muito conhecido, em que o contribuinte português é
chamado a pagar os custos da nacionalização deste Banco. (Reunião plenária de
27 de janeiro de 2011)

(150) O SR. DEPUTADO MOREIRA MENDES - Mas eu quero dizer,


especialmente aos Srs. Deputados, que nós temos dois Brasis: o Brasil da lei,
o Brasil legal, o Brasil que dá publicidade, o Brasil da palavra dos Ministros, o
Brasil da palavra do Presidente do INCRA; e o Brasil real, aquele lá na ponta,
o Brasil do Deputado Beto, lá no Pará, o meu, de Rondônia, a realidade nua e
crua, que é completamente diferente dessa beleza mostrada aqui pelos Srs.
Ministros. (Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

(151) O Sr. Bruno Dias (PCP): — O problema é que nós temos aqui um
belíssimo negócio para os interesses privados mas um péssimo negócio
para o Estado e para as populações. O passe social não vale para a Fertagus,
Sr. Ministro! (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

234
2.2.2.2 Nós2 – eu
Se o nós1 favorecia uma leitura genérica, em (152) temos um nós2 que remete
clara e objetivamente para o locutor. Este exemplo – é verdade, singular, pelo menos
neste corpus, mostra o funcionamento da equivalência NÓS = EU. Embora seja uma
estratégia muito presente em outros tipos de discursos, como o académico, por
exemplo, no discurso político o nós individual é usado com muito menos frequência.
Na nossa opinião, este uso de nós – chamado de modéstia ou de majestade – não é
compatível com as particularidades do discurso político. Se no discurso científico nós
visa o apagamento da identidade individual do investigador para dar um caráter menos
subjetivo aos pressupostos apresentados, nos debates políticos a posição adotada pelo
locutor é inteiramente assumida pelo mesmo, que a apresenta não apenas como sendo
dele, mas também de outros. Aliás, mesmo quando fala em nome próprio, o discurso
de um político pode ser interpretado como sendo do grupo que ele representa. Ou
seja, se num trabalho científico nós fala em nome do eu, num discurso político eu fala
em nome de um nós. Em (152) consideramos que se trata sobretudo de uma
particularidade idioletal, usando o locutor ao longo das suas intervenções os pronomes
eu, nós e a gente indiferentemente.

(152) O Sr. Ministro Carlos Lupi - Então, eu peço desculpas à opinião pública,
que fica com uma imagem de que somos um louco, um tresloucado. Eu não
sou! Eu estou há 5 anos no Ministério; não são 5 dias. Desde que eu entrei no
Ministério tem gente querendo me derrubar. Passam 5 anos e não conseguem.
(Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

2.2.3.3 Nós3 – eu e o interlocutor


Nós3 tem o objetivo de criar consenso a nível da interação direta entre o locutor
e o seu alocutário; a estrutura referencial do pronome é neste caso NÓS = EU + TU.
Este uso é também pouco frequente no nosso corpus. Nós3 visa a criação de
contornos muito bem delimitados da imagem coletiva, restringindo a sua referência a
dois indivíduos, que são considerados principalmente na sua qualidade de participantes
na interação. Se um primeiro efeito discursivo deste nós é o de criar um recorte no
quadro interacional do debate, estabelecendo quem são os atores principais, num
segundo momento o locutor põe em evidência outras imagens de si, fazendo nestes
dois casos, apelo à identidade política: ―Nós somos políticos‖ em (153) e política-
profissional ―quando fui ministro‖ em (154).

(153) O SR. DEPUTADO PAUDERNEY AVELINO - Muito obrigado a


V.Exa. Sr. Ministro, Sras. e Srs. Deputados, em primeiro lugar, entendo que o
Ministro José Eduardo Cardozo, como Ministro da Justiça, tem efetivamente se
comportado como um Ministro do Estado brasileiro. [...] Mas, caro Ministro,
nem V.Exa. é policial nem eu sou policial. Nós somos políticos. O único

235
anfíbio aqui é o Deputado Protógenes, que trata das duas questões. (Audiência
Pública N°: 1690/12 DATA: 04/12/2012)

(154) Domnul Miron-Tudor Mitrea: - Sigur, în ceea ce ne priveşte pe noi doi,


domnule Filip, cred că nu aţi avut această problemă, pentru că eu am încercat,
atunci când am fost ministru, mai ales pentru marile municipii, cum erau
Oradea şi altele…
(Reunião do Senado de 3 de outubro de 2011)
[O Senhor Miron-Tudor Mitrea: - Com certeza, no que diz respeito a nós dois,
senhor Filip, acho que o senhor não teve este problema, porque eu tentei,
quando fui ministro, sobretudo no caso dos grandes municípios, como Oradea
e outros…]

2.2.3.4 Nós4 – os da sala


Nós4 situa-se também no dispositivo da interação, mas, ao contrário de nós3, sai
do binómio EU-TU e abrange outros participantes na interação. Trata-se também da
construção de uma imagem coletiva que revela os indivíduos preponderantemente na
sua qualidade de atores no debate parlamentar, criando uma coesão entre o locutor,
o(s) alocutários, o(s) destinatários e os que assistem ao seu discurso. No entanto, no
plenário há também diferentes grupos – para além das bancadas partidárias, que criam
as suas solidariedades ideológicas e, por vezes, conjunturais – que aparecem nos
discursos: os deputados que integram a mesa, os deputados que estão na sala, os
jornalistas e os cidadãos que assistem aos trabalhos nas galerias, etc.
Em (155), por exemplo, o presidente da Câmara dos Deputados fala em nome da
Mesa reponsável pela coordenação dos trabalhos: ―Nós agradecemos também,
senhora deputada‖, em (156) o locutor refere de maneira mais geral todos os
indivíduos que estão no plenário: ―hoje se encontra entre nós‖, ao passo que em (157)
nós refere os participantes no debate: ―Eu só quero que nós finalizemos os debates e a
fase de perguntas‖.

(155) Domnul Ioan Oltean: - Mulţumesc. Vă mulţumim şi noi, doamnă


deputat. Îl rog acum pe domnul ministru al sanataţii să exprime poziţia
Guvernului şi a ministerului, în raport cu moţiunea al cărei conţinut a fost acum
redat. Vă rog, domnule ministru, aveţi cuvântul. (Reunião da Câmara dos
Deputados de 9 de maio de 2011)
[O senhor Ioan Oltean: - Obrigado. Nós agradecemos também, senhora
deputada. Agora pedia ao senhor Ministro da Saúde de expressar a posição do
Governo e do ministério sobre a moção cujo conteúdo acabou de ser
apresentado. Faz favor, senhor ministro, tem a palavra.]

236
(156) A Sr.ª Elsa Cordeiro (PSD): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, Srs.
Membros do Governo, quero também saudar a Escola Internacional de Porches,
que hoje se encontra entre nós. (Reunião plenária de 12 de outubro de 2011)

(157) O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO - Presidente, eu não estou


diminuindo a importância da presença do Ministro. Eu só quero que nós
finalizemos os debates e a fase de perguntas. (Audiência Pública N°:
0399/11 DATA: 04/05/2011)

Em (158) observamos que o locutor refere através de nós os parlamentares que


estavam na sala para assistir aos trabalhos. Frequentemente sem voz – a não ser em
apartes, como já vimos no capítulo dedicado à construção sequencial dos debates –
este ser coletivo não tem uma participação saliente nos trabalhos, desempenhando
sobretudo o papel de ratified hearer (ouvinte aceite), na terminologia de Goffman. Na
sua intervenção, o locutor traz para a tribuna do parlamento a voz deste grupo,
expressando a atitude do mesmo sobre o texto da moção.

(158) Domnul Florian Popa: - Domnule preşedinte, Stimaţi colegi, Domnule


ministru, Am ascultat cele spuse aici şi am înţeles câteva lucruri pe care, evident,
cred că toţi le percepem la fel. Care a fost interesul pentru textul moţiunii? Infim.
Noi, cei din sală, făceam orice altceva, numai nu ascultam acest text, după
mine, muncit. (Reunião da Câmara dos Deputados de 9 de maio de 2011)
[O senhor Florian Popa: - Senhor presidente, estimados colegas, senhor ministro,
ouvimos o que foi dito aqui e ententemos algumas coisas que, evidentemente,
acho que todos percebemos da mesma maneira. Qual foi o interesse pelo texto da
moção? Ínfimo. Nós, os da sala, fazíamos seja o que for, mas não estavámos
a ouvir este texto, que na minha opinião, foi trabalhado.]

2.2.3.5 Nós5 – os políticos


As seguintes categorias, nós5-nós10 remetem para identidades políticas coletivas:
os políticos, o partido, a oposição, os parlamentares, a instituição, os cidadãos. Apesar
de terem em comum a sua componente política, consideramos necessário separar
estas imagens porque cada uma delas remete para instâncias diferentes do dispositivo
comunicacional do discurso político (Charaudeau 2005: 42) ou para facetas diferentes
de uma instância deste dispositivo. Por exemplo, os parlamentares podem falar em
nome do partido a que pertencem, mas é muito diferente a posição adotada se
integram um partido do poder (instância política) ou um da oposição (instância
adversária); os parlamentares do poder e os membros do governo representam o
mesmo partido, sendo vozes da instância política, na terminologia de Charaudeau
(2005), mas as posições que adotam são diferentes, por representarem poderes
diferentes da estrutura do Estado, o legislativo e o executivo. Por estas razões,
preferimos distinguir as cinco facetas do nós político, para tentarmos destacar com mais
precisão as imagens coletivas criadas pelos locutores.

237
Na primeira categoria identificámos a construção de um nós que engloba a
totalidade da classe política: nós, políticos. Esta imagem coletiva tem como efeito
discursivo principal a criação de consenso entre a instância política e a instância adversária,
podendo os objetivos ser diferentes, como a realização de projetos mais gerais:
―Vamos todos defender Portugal‖ em (159) ou mais concretos: ―temos que promover
mais e mais investimentos em obras de infraestrutura hídrica‖ em (160), ―oferi
condiţii cât mai acceptabile pentru standardele sociale şi de viaţă‖ [oferecer as
condições mais aceitáveis para os padrões sociais e de vida] em (161) ou para fazer
apelo a elementos fundamentais da democracia: ―É esta a Constituição que nos
norteia‖ em (162). Por outro lado, consideramos que nós5, para além de tentar criar
um consenso entre posições ideológicas opostas, põe em evidência a identidade política
profissional, na medida em que remete para questões relacionadas com a governanção
do país ou com a organização constitucional do sistema político.

(159) O Sr. Ministro da Economia e do Emprego: — O interesse nacional tem


de nos levar, a todos, a pôr de parte a baixa política, as crises artificiais e a crítica
mesquinha.
Aplausos do PSD e do CDS-PP.
Protestos do PS, batendo com as mãos nos tampos das bancadas.
Vamos todos fazer aquilo que os portugueses esperam de nós: política é
decidir e pensar no futuro. Vamos todos defender Portugal.
Aplausos do PSD e do CDS-PP, de pé. (Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

(160) O SR. MINISTRO FERNANDO BEZERRA - Nós que somos da


política, nós que temos responsabilidades por sermos agentes políticos,
na realidade devemos promover, temos que promover mais e mais
investimentos em obras de infraestrutura hídrica, como adutoras e canais, para
tirar essa condição de restrição ao desenvolvimento econômico-social do
Semiárido brasileiro, que se deve sobretudo à falta da oferta de água. (Audiência
Pública N°: 0646/12 DATA: 22/05/2012)

(161) Domnul Petru Movila: - Ideal ar fi ca noi toţi ce suntem la cârma acestei
ţări, fiecare în bucăţica lui, să facem tot ce-i posibil bine şi corect, pentru a oferi
condiţii cât mai acceptabile pentru standardele sociale şi de viaţă ale celor ce învaţă
ani de zile pentru a fi în slujba sănătăţii omului. Şi aici mă refer şi la cadrele didactice.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 9 de maio de 2011)
[O senhor Petru Movila: - O ideal seria que todos os que governamos este
país, cada um no seu lugar, fizéssemos tudo bem e de forma correta, na medida
do possível, para oferecer as condições mais aceitáveis para os padrões sociais e
de vida aos que estudam durante anos para trabalhar na área da saúde. E aqui
falo também dos professores.]

238
(162) O SR. DEPUTADO VAZ DE LIMA - É esta a Constituição que nos
norteia. É ela quem dá, para nós que ocupamos cargos e funções públicas,
o rumo. O Deputado Vanderlei Macris tocou no assunto, mas eu queria ler o
art. 37, que diz que nós, administradores públicos, ou a Administração Pública,
devemos obedecer a princípios: legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

O último nós consensual, tem uma estrutura mais complexa e bastante diferente das
ocorrências dos exemplos anteriores, que pode ser esclarecida graças ao contexto político,
tomando em consideração a dinâmica da interação na reunião plenária no seu conjunto.
Ao aconselhar nós, os políticos a ter cuidado com o que dizem ou fazem, para não trazer
prejuízos ao Estado romeno, a ministra refere, de facto, a posição dos representantes da
oposição, que mencionaram na moção de censura alegações de corrupção do Ministério
de Transportes em leilões para a concessão de contratos públicos (com fundos europeus).
Trata-se, portanto, de um nós, políticos que tem valor referencial — membros da oposição
— e que exclui tanto o eu, como o grupo a que pertence o locutor. Apesar de se realizar
como um nós consensual, em (163) há, de facto um nós polémico, que visa a criação da imagem
dos outros, nomeadamente adversários políticos.

(163) Doamna Anca Daniela Boagiu: - În rest, pentru noi, ca politicieni, îmi
menţin concluziile, acelea ca, atunci când vrem să construim ceva, putem să
construim, dar trebuie să fim atenţi la ceea ce spunem, la ceea ce declarăm, la
ceea ce facem, astfel încât să nu aducem prejudicii statului român, aşa cum, cu
buna-stiinţă, mulţi dintre colegii noştri o fac, invocând, după aceea, documente
europene. (Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[A senhora Anca Daniela Boagiu: - De resto, para nós, enquanto políticos,
mantenho as minhas conclusões, ou seja, quando queremos construir alguma
coisa, podemos construir, mas devemos prestar atenção ao que dizemos, ao que
declaramos, ao que fazemos, de maneira a não prejudicar o Estado romeno, tal
como o fazem propositadamente muitos dos nossos colegas, invocando, depois,
documentos europeus.]

2.2.3.6 Nós6 – o partido


O segundo nós político é o que expressa a adesão ideológica a um partido. Ao
contrário do nós5, que expressa a identidade política profissional, nós6 reflete claramente a
identidade política ideológica. Do ponto de vista do uso dos meios linguísticos,
identificámos duas situações: a primeira, em que a forma de tratamento elocutivo nós é
seguida pelo nome do partido, como nos exemplos (164)-(168) e a segunda, em que não
aparece explicitamente o nome do partido, sendo, no entanto a expressão da identidade
partidária deduzida do contexto, como nos exemplos (167)-(173).
No que diz respeito às imagens de si construídas, notamos que os locutores
exprimem de maneira mais ou menos explícita uma delimitação clara em relação aos

239
partidos com ideologia ou programas de governo opostos. Nos exemplos (164)-(168)
os locutores afirmam as posições do partido enquanto ator que participa – quer por
estar no poder, quer da oposição – no ato governativo do país: ―nós, PSD, sabemos
bem como é importante para a economia‖ em (164), ―nós, Bloco de Esquerda,
estaremos contra essa operação‖ em (165), ―termos sido nós, PS, a criar essa linha de
cuidados continuados‖ em (166), mas também enquanto grupo que partilha uma
determinada ideologia: ―essa postura [...] não é republicana, nem para nós que somos
do PT, do Governo‖ em (167).

(164) O Sr. Arménio Santos (PSD): — [...] Políticas de austeridade essas que o
Governo anterior negociou e assinou com as instituições internacionais — e
bem! — e que os dois partidos que hoje estão no Governo também
subscreveram — e bem! —, porque aos seus interesses particulares
sobrepuseram o interesse nacional. [...] Sr. Presidente, uma das principais
consequências destas políticas e desta crise é a imposição de políticas de
austeridade a que obriga, é a recessão económica e o inevitável aumento do
desemprego. [...] Os jovens, porém, são os mais atingidos. [...] E nós, PSD,
sabemos bem como é importante para a economia e para o nosso País
podermos contar com o trabalho, a criatividade e o empreendedorismo dos
nossos jovens quadros e da nossa juventude. (Reunião plenária de 26 de outubro
de 2011)

(165) O Sr. João Semedo (BE): — Sobre isto, não queria deixar qualquer dúvida:
nós, Bloco de Esquerda, estaremos contra essa operação, que
consideramos ruinosa... (Reunião plenária de 16 de março de 2011)

(166) O Sr. Nuno André Figueiredo (PS): — O Serviço Nacional de Saúde é


uma conquista deste País, que deve ser respeitado, modernizado e sempre
desenvolvido e apoiado. Deve continuar a ser um dos melhores bens dos
portugueses. No passado, o que o PS fez foi simples e, Sr. Ministro, quanto à
linha de cuidados continuados, sentimos orgulho por termos sido nós, PS, a
criar essa linha de cuidados continuados e vamos continuar em sua
defesa de uma forma bastante rigorosa. (Reunião plenária de 12 de outubro
de 2011)

(167) O SR. DEPUTADO JOSÉ GUIMARÃES - Não está correta, meus caros
Deputados, sejam da oposição ou da situação, essa postura, porque ela não é
republicana, meu caro Ministro, não é republicana, nem para nós que somos
do PT, do Governo, nem para a oposição. (Audiência Pública N°: 1690/12
DATA: 04/12/2012)

240
No exemplo seguinte, o partido é encarado como grupo ideológico e é definido
em oposição a outro grupo político: ―nós somos um partido de direita, o Partido
Nacional Liberal. Os senhores é que não, o Partido Democrata Liberal‖.
Por um lado, notamos uma diferença em relação aos exemplos anteriores, dado
que em (168) é a componente ideológica destacada na construção da imagem de si,
mas observamos que se mantém a oposição nós vs. o os outros (neste caso, nós vs. os
senhores, o o Partido Nacional Liberal vs. o Partdo Democrata Liberal). Neste caso
concreto, a disputa ideológica prende-se com uma situação de facto da política romena,
em que diferentes partidos tentam legitimar-se enquanto representantes da direita: por
um lado há os chamados partidos históricos (como é o caso do Partido Nacional
Liberal), que existiam antes da ditadura comunista e que afirmam a sua identidade
ideológica através da ideia de continuação e, por outro lado, há partidos mais recentes,
criados depois da Revolução de 1989, que assumiram uma posição de esquerda (o
Partido Democrata Liberal integrou a Internacional Socialista) e que mudaram
ulteriormente de ideologia.

(168) Domnul Puiu Hasotti: - Vă mulţumesc, domnule ministru. Da, noi


suntem un partid de dreapta, Partidul Naţional Liberal. Dumneavoastră
nu, Partidul Democrat Liberal. În legătură cu grija pe care o purtaţi pentru
noi, nu are rost să spun de la acest microfon un proverb pe care vi-l voi spune
aşa, personal, un proverb important, cu câinele, ştiţi dumneavoastră. (Reunião
do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Puiu Hasotti: - Obrigado, senhor ministro. Sim, nós somos um
partido de direita, o Partido Nacional Liberal. Os senhores é que não, o
Partido Democrata Liberal. No que diz respeito ao cuidado que têm em relação
a nós, não vale a pena falar neste microfone de um provérbio que lhes direi em
privado, um provérbio muito importante, com o cão, os senhores sabem.]

Nos exemplos seguintes, em que não se identifica de forma explícita o partido,


os locutores assumem a identidade partidária, na sua terceira componente, a de
bancada parlamentar; as duas primeiras, que já apresntámos, são o partido enquanto
agente participante na governação e enquanto grupo que adota uma ideologia. Em
(169) e (170) nós6 define-se enquanto bancada parlamentar, evidentemente, mas
também enquanto interveniente no debate político, em diálogo (contraditório) com o
governo: ―questões, que são, para nós, importantes‖, ―Nós queremos denunciar as
questões, alertar e propor soluções, e queremos ouvir o Governo‖.

(169) O Sr. Hélder Amaral (CDS-PP): — E, depois, outra questão: essas


correcções foram feitas por quem? Pelo tal grupo de avaliação? Ou são apenas
uma «maquilhagem» de algumas dificuldades para mais tarde acontecer o que
acontece sempre nas obras públicas, ou seja, paga o contribuinte? Sr. Ministro,
eu gostava que pudesse responder a estas questões, que são, para nós,
importantes. (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

241
(170) A Sr.ª Heloísa Apolónia (Os Verdes): — O debate não será produtivo se o
Sr. Ministro não entrar nele! Vem com a conversa feita, mas tem de responder às
perguntas que lhe são formuladas, porque é assim que se promove o debate! Caso
contrário, saímos todos daqui na mesma e nós não queremos sair daqui na
mesma! Nós queremos denunciar as questões, alertar e propor soluções, e
queremos ouvir o Governo e a sua sensibilidade relativamente a essas
matérias. Queremos respostas, mas aquilo que temos é uma repetição da
intervenção inicial do Sr. Ministro. (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

2.2.3.7 Nós7 – a oposição


Um sétimo nós diz respeito à oposição ou, na terminologia de Charaudeau
(2005: 42), a instância adversária. Nós7 tem uma componente consensual, na medida
em que coaduna os representantes da oposição, independentemente da filiação política
e, deste ponto de vista, é diferente de nós6 (nós, o partido, talvez da oposição); outro
aspeto que decorre desta diferença é não termos encontrado nenhum nós7 que se
defina com base em pressupostos ideológicos. Nós7 tem também uma componente
conflitual intrínseca, por se posicionar essencialmente contra o poder, desta vez o
poder enquanto agente de governo, e não necessariamente como grupo ideológico:
―nós somos oposição e somos minoria. O Governo tem 400 Deputados em 513 e tem
60 Senadores em 21‖ em (171), ―o Ministro vir aqui e apresentar os dados [...] Mas nós
da Oposição estamos procurando nos aprimorar‖ em (172).

(171) O SR. DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA - Mas eu só faço a seguinte


observação: nós somos oposição e somos minoria. O Governo tem 400
Deputados em 513 e tem 60 Senadores em 21. Portanto, só não vai destinar
mais recursos para tanto se ele e a sua base de sustentação não quiserem.
(Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

(172) O SR. DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA - É muito fácil, para a


imprensa, o Ministro vir aqui e apresentar os dados, e aqueles que estão aqui
arguindo, em tese, às vezes, não têm todas as informações. Mas nós da
Oposição estamos procurando nos aprimorar bastante, para qualificar o
debate. (Audiência Pública N°: 1963/11 DATA: 23/11/2011)

O exemplo (173) pode parecer curioso, uma vez que a oposição (na verdade, nós, os
da oposição) afirma ter de desempehnar o papel do poder; no entanto, observamos que
através desta afirmação o locutor pretende criticar a inatividade do poder, salientando, por
conseguinte, o papel da oposição enquanto ator ativo na governação.

242
(173) Domnul Ioan Cindrea: - Văzând că actuala putere nu este capabilă să
poarte un dialog real cu partenerii sociali, noi, cei din opoziţie, ne-am simţit
datori să preluăm rolul puterii pentru a asigura echilibrul social în România şi
am depus această propunere legislativă, în speranţa că veţi renunţa în a iniţia un
proiect făcut în grabă şi fără girul celor interesaţi. (Reunião conjunta da Câmara
dos Deputados e do Senado de 16 de março de 2011)
[O senhor Ioan Cindrea: - Vendo que o atual poder não é capaz de ter um
diálogo real com os parceiros sociais, nós, os da oposição, sentimos que era
o nosso dever desempenhar o papel do poder para assegurar o equilíbrio
social na Roménia e propusemos esta iniciativa legislativa, esperando que os
senhores deixem de iniciar um projeto feito a pressa e sem o consentimento dos
interessados.]

2.2.3.8 Nós8 – os parlamentares


Nós8 destaca a imagem dos parlamentares enquanto representantes dos seus
eleitores, ou de porta-vozes, na aceção de Marques (2000); na construção desta imagem
de si, destaca-se o papel importante desempenhado pela instância cidadã (Charaudeau
2005: 42), ou pelo uso da mesma para a legitimação do discurso proferido no
hemiciclo. A dimensão essencial de nós8 não é, como nos exemplos anteriores, nós vs.
vocês, mas nós + os outros, ou melhor dito, nós em nome dos outros.
Em (174), observamos um duplo posicionamento do locutor, que constrói, em
primeiro lugar, uma identidade coletiva relacionada com a bancada parlamentar a que
pertence: ―Sabe que nós […] faremos estas perguntas até obter respostas‖ e, num
segundo momento, projeta a imagem dos grupos em nome dos quais a bancada fala:
―em nome do interesse público e daqueles que representamos‖. Em (175) a questão
colocada pelo locutor remete para a relação direta entre a instância política e a
instância cidadã, mais concretamente para a responsabilidade dos políticos perante os
eleitores.

(174) O Sr. Pedro Mota Soares (CDS-PP): — Mas o Sr. Ministro já nos devia
conhecer. Sabe que nós, em nome do interesse público e daqueles que
representamos, faremos estas perguntas até obter respostas, como, por
exemplo, o que é que o Governo quer para o plano de privatizações… (Reunião
plenária de 27 de janeiro de 2011)

(175) Domnul Gheorghe-Eugen Nicolaescu: - Şi cetăţenii României ne întreabă


pe noi, deputaţi pe care ei, cetăţenii, ne-au ales, să le spunem de ce se fac
reforme împotriva lor. Şi noi ce să le spunem? Că vine Guvernul în
Parlament şi ne spune nouă, parlamentarilor, ce minuni se fac cu această
reformă. […] Ce le spunem noi cetăţenilor? (Reunião da Câmara dos
Deputados de 9 de maio de 2011)

243
[O senhor Gheorghe-Eugen Nicolaescu: - E os cidadãos da Roménia
perguntam-nos, aos deputados em que eles, os cidadãos, votaram,
porque é que se fazem reformas contra eles. E nós, o que é que lhes
dizemos? Vem o Governo ao Parlamento e diz-nos, aos parlamentares, que
maravilhas faz com esta reforma. […] O que é que nós dizemos aos
cidadãos?]

Em (176), porém, notamos que a fonte da legitimação não é a instância cidadã,


mas a própria instância política: ―Nós, os senadores que representam o Partido Social
Democrata, o Partido Nacional Liberal e o Partido Conservador‖. Neste caso, na
nossa opinião, trata-se de um posicionamento discursivo que visa a delimitação das
ações do governo, portanto de nós (enquanto representantes da coligação da oposição)
vs. vocês (enquanto representantes do governo).

(176) Domnul Raymond Luca: - Noi, senatorii reprezentând Partidul Social


Democrat, Partidul Naţional Liberal şi Partidul Conservator, considerăm
că Teodor Baconschi se face responsabil de…
(Reunião do Senado de 23 de maio de 2011)
[O senhor Raymond Luca: - Nós, os senadores que representam o Partido
Social Democrata, o Partido Nacional Liberal e o Partido Conservador,
consideramos que Teodor Baconshi é responsável por …]

2.2.3.9 Nós9 – a instituição


Nos próximos exemplos, nós9 expressa uma imagem coletiva institucional. Na
nossa opinião, não é por acaso que os ministros têm este posicionamento nos seus
discursos, porque, enquanto agentes da instância política que excercem o poder,
responsáveis pela governação do país, devem veicular uma imagem de si relacionada
com a eficiência administrativa. Por outro lado, nenhum político poderá posicionar-se
no debate público enquanto detentor do poder, pois corria o risco de ser considerado
autoritário ou ditatorial. Por conseguinte, a estratégia adotada quase sempre pelos
membros do governo é de falar, enquanto representantes de instituições públicas,
sobre a sua atividade, demonstrando a sua competência administrativa: ―Nós do
MDA e do INCRA, naquilo que nos compete, estamos compartilhando desse esforço,
que é do nosso País‖ em (177), ―No Ministério, nós montamos uma ouvidoria
permanente‖ em (178), ―Nós fomos os primeiros a avançar com isso‖, ―nós queremos
privilegiar uma abordagem sistémica e integrada do transporte ferroviário‖, ―Nós
fizemos a proposta numa reunião‖ em (179), ―nós, enquanto Governo, temos
investido e investiremos‖ em (180).

244
(177) O SR. MINISTRO AFONSO FLORENCE - Quero dizer também que
compartilho do destaque merecido para as ações do Governo Federal na
fronteira brasileira no combate ao contrabando de toda a natureza e da ação
compartilhada dos Ministérios. Nós do MDA e do INCRA, naquilo que nos
compete, estamos compartilhando desse esforço, que é do nosso País.
(Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

(178) O SR. MINISTRO ALEXANDRE PADILHA - No Ministério, nós


montamos uma ouvidoria permanente, que liga para os serviços e garante o
medicamento lá. Nós vamos mandar cartas aos pacientes que recebem. Os
serviços dos hospitais vão mandar cartas aos pacientes, para dar segurança em
relação a esse quimioterápico. (Audiência Pública N°: 1940/11 DATA:
23/11/2011)

(179) O Sr. Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações: — É


também intenção do Governo continuar com as obras de requalificação
da plataforma. E, Sr. Deputado, quero dizer-lhe que estou inteiramente de
acordo com a proposta que fez relativamente à autoridade regional. Mas quem
propôs essa autoridade regional fomos nós! Nós fomos os primeiros a
avançar com isso, porque achamos que, precisamente, dentro daquela
perspectiva que eu repeti e que parece que alguns dos Srs. Deputados não
gostam, de que nós queremos privilegiar uma abordagem sistémica e
integrada do transporte ferroviário, tem todo o sentido — aliás, é uma
exigência — que aquilo que está previsto em termos de novo sistema de
mobilidade para o Mondego seja articulado com os SMTUC (Serviços
Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra) [...]. Nós fizemos a
proposta numa reunião que tivemos com os Srs. Presidentes das câmaras
municipais precisamente para criar essa autoridade regional, e é isso que
iremos fazer. (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

(180) Doamna Anca Daniela Boagiu (ministrul transporturilor şi infrastructurii):


- Concluzia este că noi, ca Guvern, am investit şi vom investi permanent în
modernizarea infrastructurii din România, iar lucrările pe care le avem astăzi în
derulare însumează 16,7 miliarde de euro.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[A senhora Anca Daniela Boagiu (Ministra dos Transportes e da Intraestrutura): - A
conclusão é que nós, enquanto Governo, temos investido e investiremos
permanentemente na modernização da infraestrutura da Roménia, e as obras
que temos hoje em execução totalizam 16,7 mil milhões de euros.]

245
2.2.3.10 Nós10 – os cidadãos
Se no caso de nós8 a instância cidadã servia como veículo de legitimação do
discurso político, em nós10 esta instância torna-se a componente identitária principal.
Através da expressão integrante todos nós, o locutor cria uma imagem coletiva em que
engloba todos os cidadãos, na sua dimensão de contribuintes aos orçamento do
Estado: ―recursos e dos impostos que todos nós pagamos‖.
Num primeiro momento, observamos um posicionamento confrontacional no
que diz respeito a um assunto determinado no seio do governo: ―a sustentabilidade
das empresas é uma preocupação nossa‖ e os deputados: ―os senhores não estão
preocupados com a sustentabilidade das empresas‖. Num segundo momento, o
locutor engloba ambas as partes, a instância política e a instância adversária numa
imagem mais abrangente, de responsabilidade partilhada, possivelmente ainda situada
no nível dos atores políticos: ―Mas somos todos nós, incluindo os Srs. Deputados, que
têm a responsabilidade de pagar isso‖.
Se a primeira ocorrência da expressão todos nós pode ser interpretada como
expressando quer a totalidade dos políticos, quer os cidadãos no seu conjunto, o
significado da segunda ocorrência é mais evidente, pois faz apelo de forma inequívoca
à instância cidadã: ―recursos e [...] impostos que todos nós pagamos‖. Neste caso o
locutor assume plenamente a identidade de cidadão, para justificar o seu pressuposto.
O mecanismo é diferente – e provavelmente mais eficaz – do que assumir a posição
de porta voz, que fala em nome do cidadão, pois cria uma aproximação muito mais forte –
aliás, uma identificação – com os eleitores. Em outras palavras, este tipo de estratégia
poderia ser sintetizada na expressão nós somos o povo – e não em nós representamos o povo –
o que poderia criar uma adesão muito ampla às ideias do locutor.

(181) O Sr. Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações: — Mas digo-
lhe mais: a sustentabilidade das empresas é uma preocupação nossa. Aliás, penso que
os senhores não estão preocupados com a sustentabilidade das empresas porque
também não estão preocupados com quem paga. Mas somos todos nós,
incluindo os Srs. Deputados, que têm a responsabilidade de pagar isso.
Naturalmente que o Governo e o Estado têm responsabilidades muito mais amplas
e gerais, tendo de fazer uma gestão racional dos recursos e dos impostos que
todos nós pagamos. (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

Nesta secção e nas anteriores, destacámos seis tipos de nós, que afirmavam de
forma inequívoca diferentes componentes da identidade política, abrangendo três
componentes propostas por Charaudeau (2005: 42) na definição do contrato de
comunicação política: a instância política, a instância adversária e a instância cidadã.
Nas próximas duas secções analisaremos a construção da identidade nacional e a
identidade regional.

246
2.2.3.11 Nós11 – os do oeste do país
Vasilescu (2011) sublinha no seu trabalho a importância da identidade nacional
enquanto componente da identidade parlamentar e evidencia alguns dos mecanismos
discursivos da sua construção. Limitar-nos-emos na análise da expressão da identidade
nacional – e regional – ao uso da forma de tratamento alocutivo nós. Tal como no
exemplo (181), em que o locutor se identificava com os cidadãos, nós11 – nós, brasileiros –
tem como efeito a criação de uma adesão do público para com o seu discurso. No
entanto, ao contrário do exemplo citado, em que esta identificação se situava no plano
político, nós11 procura uma identificação em plano simbólico, da nação e não do
Estado. Se nós10 salientava uma igualdade no que diz respeito à participação na
construção administrativa do país (nós, os contribuintes), nós11 faz apelo a valores mais
abstratos, quase simbólicos, da construção identitária de um país. Em (182), por
exemplo, evoca-se a apreciação geral de uma personalidade conhecida por todos:
―uma pessoa muito querida por todos nós brasileiros‖, ao passo que em (183) o
locutor apresenta a vida quotidiana partilhada – teoricamente – pelos brasileiros: ―está
acontecendo no dia a dia de nós brasileiros‖.

(182) O SR. DEPUTADO ANTONIO IMBASSAHY - Sr. Presidente, Sr.


Ministro, Sras. e Srs. Deputados, eu tenho uma pergunta objetiva a fazer. Antes,
quero fazer uma consideração, que não havia pensado, no início desta audiência,
mas faço questão de registrá-la, porque o Ministro trouxe aqui o nome de uma
pessoa muito querida por todos nós brasileiros, uma pessoa que realmente
prestou inestimáveis serviços à educação, ao ensino público: ex-Ministro Paulo
Renato. (Audiência Pública N°: 1963/11 DATA: 23/11/2011)

(183) O SR. DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA - E os investimentos, no


mesmo período, caíram 34,6%. Portanto, não há uma relação de coerência
entre o que está sendo dito e o que efetivamente está acontecendo no dia
a dia de nós brasileiros. (Audiência Pública N°: 1940/11 DATA: 23/11/2011)

Relacionada com a identidade nacional está a identidade regional, veiculada nos


próximos dois exemplos. Votados num determinado círculo eleitoral, os
parlamentares têm uma relação muito forte com as regiões (e os eleitores) que
representam no fórum nacional; não é por acaso que assumem de forma explícita uma
identidade regional, quando defendem os interesses locais, do distrito em (184) ou do
estado em (185). Se no primeiro exemplo está presente a adesão a certos bens culturais
importantes na região, no segundo exemplo destaca-se sobretudo o estado enquanto
entidade governativa, administrativa.

(184) Domnul Emilian-Valentin Frâncu: - Pentru noi, râmnicenii de astăzi,


este important să punem în valoare aceste monumente. (Reunião do Senado de
23 de maio de 2011)

247
[O senhor Emilian-Valentin Frâncu: - Para nós, os habitantes de Râmnic de
hoje, é importante valorizar estes monumentos.]

(185) O SR. DEPUTADO VAZ DE LIMA - Lá em São Paulo nós já


fizemos isso. Estamos implementando agora, e V.Exa. sabe bem disso. V.Exa.
disse algo tão interessante e de que gostei muito: nós não podemos tolerar
desvios em recursos da saúde; nem da saúde nem de lugar algum. (Audiência
Pública N°: 0252/11 DATA: 12/04/2011)

Aliás, em (186) destaca-se com mais nitidez a componente governativa, política


do estado: ―Em São Paulo, na Assembleia, nós aprovamos uma lei‖. Neste contexto,
consideramos pertinente lembrar que o Brasil é uma federação, em qus os estados têm
um grau de autonomia muito grande e desempenham um papel importante na
organização política do país. Por outro lado, como o Brasil é um país de dimensões
continentais, com grande variedade cultural de uma região a outra, é natural que haja
uma adesão muito forte às culturas locais.

(186) O SR. DEPUTADO JONAS DONIZETTE - Em São Paulo, na


Assembleia, nós aprovamos uma lei, de muita repercussão, que proibia
coxinha e alimentos mais gordurosos em cantinas escolares. Houve um veto,
por questões constitucionais, mas precisamos começar a pensar nos hábitos
alimentares das crianças e dos adultos e em atividades físicas. (Audiência Pública
N°: 0252/11 DATA: 12/04/2011)

Em (187) observa-se a construção de uma dupla identidade: por um lado, o


locutor destaca a identidade coletiva regional: ―noi, cei din vestul ţării, respectiv
judeţul Caras-Severin‖ [nós, os do oeste do país, respetivamente o distrito Caraş-
Severin], mas também a identidade política individual: ―pe care îl reprezint în Senat‖
[que eu represento no Senado].

(187) Domnul Iosif Secăsan: Domnule preşedinte, Stimaţi colegi, Doar câteva
cuvinte. Sigur că, noi, cei din vestul ţării, respectiv judeţul Caras-Severin,
pe care îl reprezint în Senat, nu ne putem exprima decât satisfacţia că
teritoriul judeţului nostru intră în zona de operabilitate a acestui
elicopter…(Reunião do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Iosif Secăsan: Senhor presidente, estimados colegas, apenas algumas
palavras. Claro que, nós, os do oeste do país, respetivamente o distrito Caraş-
Severin, que eu represento no Senado, só podemos expressar a nossa satisfação
que o território do nosso distrito entra na zona de operação deste helicóptero…]

248
2.2.3.12 Nós12 – o país
Se nós11 evoca uma identidade regional ou nacional a nível de indivíduos – quer
do ponto de vista simbólico, quer governativo / administrativo –, nós12 remete para o
país como todo, nas suas dimensões económica ou política. Sobretudo em (188) e (189),
o locutor refere o país enquanto economia: ―Nós somos o quinto maior mercado
mundial de veículos‖, ―nós conseguimos manter essa posição‖, ou enquanto finanças
públicas: ―nós estamos fazendo superávits primário‖, ―Nós temos uma solidez‖, ―nós
não podemos permitir que haja aumento de gastos‖. Ao contrário das imagens
construídas nos exemplos anteriores, que visavam a criação de adesões aos discursos
veiculados através da identificação com grupos amplos de indivíduos unidos a nível
simbólico (regional ou nacional), em (188) e (189) a imagem do país remete para uma
identidade compacta, baseada exclusivamente em componentes económicas e
administrativas.

(188) O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - Porque a cadeia produtiva do


setor automobilístico é uma das mais importantes, representa 23% do PIB
industrial brasileiro. Portanto, ela é muito importante. É a que tem maior efeito
multiplicador, ou seja, de cada 1 bilhão que se investe ali, ou se vende ali, geram-
se 2,5 bilhões ao longo da economia. Por isso ela é muito importante. Então, o
que está acontecendo com a indústria automobilística? Nós somos o quinto
maior mercado mundial de veículos, o que é muito importante. E nós
conseguimos manter essa posição apesar da crise de 2008. (Audiência
Pública N°: 1940/11 DATA: 23/11/2011)

(189) O SR. MINISTRO GUIDO MANTEGA - A partir de 1999, nós estamos


fazendo superávits primário em torno de 3% do PIB. Isso é algo a ser
destacado. O Brasil é um país sério, um país que cuida das finanças públicas. E
temos que continuar assim, porque temos que impedir, por exemplo, que novos
gastos de custeio sejam feitos. Nós temos uma solidez, mas ela às vezes é
ameaçada por medidas que podem, abruptamente, elevar gastos do Governo. E aí
esse equilíbrio fiscal vai para o beleléu. Então, nós não podemos permitir que
haja aumento de gastos. (Audiência Pública N°: 1940/11 DATA: 23/11/2011)

Em (190) a imagem do país é bem mais difusa, pois não está associada a
coordenadas definidas: políticas, económicas, cidadãs, etc. Na nossa opinião, o
locutor evoca o país enquanto espaço simbólico do debate público ou enquanto
arena de ideias: ―noi suntem o ţara originală‖ [nós somos um país original],
porque o primeiro minsitro não toma em consideração o que se passa nos
outros países da Europa. Notamos também uma comparação indireta com a
Europa, uma das constantes do discurso político romeno dos últimos anos. A
mesma situação ocorre em (191), em que o locutor evoca a imagem oficial,
institucional do país, enquanto membro da União Europeia. A associação com a
Bulgária, enquanto membros recentes da UE está também bastante presente no
debate público romeno atual.

249
(190) Domnul Dan-Coman Sova: - Ştiu că noi suntem o ţara originală şi că pe
domnul prim-ministru Boc nu-l vor interesa niciodată realităţile din celelalte
ţari ale Uniunii Europene, eu totuşi insist şi vă dau câteva cifre. Nu mai e domnul
premier, poate o să-i spună doamna Vass, că e aici şi dânsa reţine sigur. (Reunião
conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado de 16 de março de 2011)
[O senhor Dan-Coman Sova: - Sei que nós somos um país original e que o
senhor primeiro ministro Boc nunca estará interessado nas realidades de
outros países europeus, no entanto eu insisto em apresentar alguns números.
O senhor primeiro ministro já não está, talvez a senhora Vass possa dizer-lhe,
porque ela está aqui e de certeza se lembra.]

(191) Domnul Marian-Iulian Rasaliu: - Dar, încă o dată vă spun, ce vină are oare
ministrul Baconschi că noi şi Bulgaria am intrat ultimii în Uniunea
Europeană, cu nivelul de dezvoltare avut în prezent?! În concluzie, am să
votez împotriva acestei moţiuni şi-i sfătuiesc şi pe colegii mei să facă la fel.
(Reunião do Senado de 23 de maio de 2011)
[O senhor Marian-Iulian Rasaliu: - Mas, volto a dizer, qual é a culpa do ministro
Baconschi se nós e a Bulgária entrámos os últimos na União Europeia,
com o nível de desenvolvimento que temos atualmente?! Em conclusão,
votarei contra esta moção e aconselho os meus colegas a fazerem o mesmo.]

2.2.3.13 Nós13 – polémico


Nesta última categoria identificámos o que Marques (2000: 208-210) designa nós
polémico, ou seja um nós através do qual se veiculam discursos dos outros e até se
constroem identidades dos outros; trata-se de um uso intrinsecamente exclusivo, do
qual o eu – e, neste caso concreto, o tu também – são ausentes. Ao contrário dos
exemplos anteriores em que nós se definia em oposição com os outros – estratégia
discursiva que analisaremos mais em pormenor na secção seguinte –, nós13 baseia-se
também numa dimensão agónica fundamental do debate parlamentar, da qual o
locutor se exclui. Aliás, Aldina Marques sintetiza muito bem o funcionamento
discursivo deste nós:

―É nuclearmente polémico, provocatório, na medida em que o locutor traz para


o discurso determinados pontos de vista, assertados ou pressupostos, dos quais
se distancia. Neste caso, a não adesão do Locutor é obrigatória. Este não assume
o ponto de vista que traz para o discurso, distancia-se do enunciador e imputa
ao alocutário, ou melhor, a parte do alocutário, a responsabilidade deste ponto
de vista veiculado. O valor referencial de Nós5 137 privilegia o alocutário-
adversário do momento‖ Marques (2000: 208, nosso negrito).

137 Na classificação de Marques (2000), nós polémico é nós5.

250
Na nossa opinião, nós13 é um tropo designativo através do qual o locutor se
distancia de um posicionamento discursivo com o qual não está de acordo.

(192) Doamna Doina Burcau: - Marea majoritate a specialiştilor sunt de acord că


asumarea răspunderii pe această lege minimalizează rolul Parlamentului, prin
scurt-circuitarea activităţii legislative. Transferăm Guvernului controlul
legiferării, argumentând că un pachet legislativ de o asemenea importanţă trebuia
discutat mai în detaliu, şi nu asumat. Asumarea răspunderii a fost pripită şi
nenecesară. A fost o ambiţie a ministrului educaţiei de la acea dată,
ambiţie care ne afectează pe toţi, deopotrivă, omiţând că România este
mai importantă decât suntem noi orgolioşi. (Reunião da Câmara dos
Deputados de 2 de outubro de 2012)
[A senhora Doina Burcau: - A grande maioria dos especialistas está de acordo:
assumir a responsabilidade por esta lei minimiza o papel do Parlamento, fazendo
um curto circuito na atividade legislativa. Transferimos ao Governo o controlo da
legislação, argumentando que um pacote legislativo de tanta importância devia ser
debatido mais em detalhe, e não apenas assumido. Foi uma ambição do então
Ministro da Educação, ambição essa que nos afeta a todos nós omitindo o
facto de a Roménia ser mais importante do que o nosso orgulho.]

2.2.4 Nós vs. os outros


Na secção anterior, dedicada à apresentação das imagens de si veiculadas pelos
locutores através do uso da forma de tratamento elocutivo nós, destacámos construção
de diferentes tipos de nós consensual, que visam a criação de adesão para com os seus
discursos e de nós agonal (ou conflitual), que se definem essencialmente em oposição
com os outros. Nesta secção retomaremos o segundo assunto, com alguns exemplos
esclarecedores.
Em primeiro lugar, é preciso salientar que nos debates políticos as posições
antagónicas advêm, não só do papel desempenhado pelos locutores na arena política
(enquanto representantes da instância política e da instância adversária, ou em outras
palavras poder vs. oposição), mas também de diferendos ideológicos (por exemplo,
esquerda vs. direita).
Nos exemplos que selecionámos do sub-corpus romeno, observamos que as
imagens agonais nós vs. os senhores constroem-se através de pares antonímicos que
qualificam negativamente as ações e as atitudes dos outros: ―Dumneavoastră i-aţi
distrus pe fermieri‖ [os senhores distruíram os agricultores] em (193),
―dumneavoastră, care aţi dat dovadă de iresponsabilitate atunci când aţi guvernat‖ [os
senhores, que mostraram irresponsabilidade quando governaram], ―dumneavoastră,
care aţi dat dovadă şi daţi dovadă şi astăzi de ipocrizie…‖ [os senhores que mostraram
e ainda hoje mostram hipocrisia...] em (194) e que avaliam positivamente as ações e as
atitudes próprias: ―Noi îi vom ajuta.‖ [Nós vamos ajudá-los] em (193), ―Noi suntem
responsabili‖ [Nós somos responsáveis] em (194). Em (195), a estratégia do locutor

251
para criar imagens antonímicas e marcar a diferença, está patente – nós vs. todos os outros
– através de acumulação de caraterísticas positivas; os outros limitaram-se a ler e a
citar reformas, nós implementámo-las: ―Nu doar am citit şi citat măsurile de reformă,
ci le şi punem în aplicare‖ [Nós só lemos e citámos as medidas de reforma, mas
também as aplicamos]. Observamos que nos três exemplos os locutores invocam
posicionamentos antagónicos na área da governação, que contrapõem ações (distruir
vs. ajudar; ler, citar, portanto uma atitude passiva vs. aplicar, portanto agir, fazer), atitudes
(irresponsabilidade vs. responsabilidade).

(193) Domnul Vasile Mocanu: - Domnilor, Dumneavoastră i-aţi distrus pe


fermieri. Noi îi vom ajuta. Ce mai spune moţiunea?
(Reunião da Câmara dos Deputados de 9 de outubro de 2012)
[O senhor Vasile Mocanu: - Meus senhores, os senhores distruíram os
agricultores. Nós vamos ajudá-los. O que é que diz a moção ainda?]

(194) Domnul Viorel Ştefan: - Da, eu vorbesc, stimate coleg. Pentru că noi
suntem responsabili faţă de dumneavoastră, care aţi dat dovadă de
iresponsabilitate atunci când aţi guvernat. Noi suntem responsabili faţă de
dumneavoastră, care aţi dat dovadă şi daţi dovadă şi astăzi de ipocrizie…
(Reunião da Câmara dos Deputados de 23 de outubro de 2012)
[O senhor Viorel Ştefan: - Sim, falo eu, estimado colega. Porque nós somos
responsáveis, aos contrário dos senhores¸que mostraram irresponsabilidade
quando governaram. Nós não somos responsáveis, ao contrário dos senhores
que mostraram e ainda hoje mostram hipocrisia…]

(195) Domnul Cseke Attila (ministrul sănătăţii): Noi ne deosebim de toţi


ceilalţi printr-un amănunt esenţial. Nu doar am citit şi citat măsurile de
reformă, ci le şi punem în aplicare. (Reunião da Câmara dos Deputados de 9
de maio de 2011)
[O senhor Cseke Attila (Ministro da Saúde): Nós somos diferentes de todos
os outros num pormenor essencial. Nós só lemos e citámos as medidas
de reforma, mas também as aplicamos.]

Nos exemplos do sub-corpus português, a situação é semelhante: os locutores


contrapõem ações opostas (contratar vs. despedir) para se diferenciarem dos adversários
políticos em (196), ou salientam os defeitos dos outros, para afirmar, implicitamente,
as qualidades próprias: ―essa é toda a diferença entre nós e os demagogos e
irresponsáveis‖ em (197).

252
(196) O Sr. Pedro Mota Soares (CDS-PP): — Sabe, Sr.ª Ministra, há uma diferença
de fundo entre a minha bancada e a do Governo: nós queremos apostar em ajudar
as empresas a contratar; pelos vistos, a opção do Governo é só a de ajudar as
empresas a despedir! (Reunião plenária de 16 de fevereiro de 2011)

(197) O Sr. Francisco de Assis (PS): — O que se exige de um governante não é


que faça proclamações demagógicas, não é que ignore a realidade, pelo
contrário, é que encontre as respostas para resolver os problemas que a
realidade lhe coloca.
Aplausos do PS.
E essa é toda a diferença entre nós e os demagogos e irresponsáveis. (Reunião
plenária de 16 de março de 2011)

No entanto, esta estratégia de avaliação negativa dos outros, o posicionamento


explícito em lados opostos, não significa necessariamente uma falta do debate, pois,
como já vimos na segunda parte do volumes, os FTA são uma componente intrínseca
do debate parlamentar. A desvalorização do outro, enquanto mecanismo de
autovalorização faz parte das ―regras do jogo‖ político e não se circunscrevem na
oposição cortesia vs. descortesia, prevalente nas interações quotidianas.

2.2.5 Nós, nós, nós


Uma das particularidades do sub-corpus brasileiro diz respeito à frequência
com a qual são usadas as formas de tratamento elocutivo. Não dispondo de uma
transcrição fiel dos debates, seria pouco rigoroso tirar conclusões de textos que são o
resultado de um processo de uma transcrição que contém eliminações, alterações ou
acréscimos de conteúdo. No entanto, sem fazermos considerações definitivas ou de
natureza estatística, queremos apresentar dois exemplos que mostram, por um lado,
repetições lineares, englobando séries de nós com o mesmo valor referencial e, por
outro lado, repetições em que os locutores incorporam nós com valores referenciais
diferentes, por vezes difíceis de distinguir. Em (198), notamos uma repetição do nós9
(nós, a instituição), em que o locutor apresenta ações da instituição que dirige, a
Controladoria-Geral da União, um dos órgãos fiscalizadores a nível federal no Brasil.

(198) O SR. JORGE HAGE SOBRINHO - Agora nós9 sabemos, nós


identificamos, nós9 quantificamos, nós9 temos os números, que vamos
compartilhar, todos, com os senhores. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA:
04/05/2011)

Em (199), pelo contrário, os valores referenciais de nós são muito diferentes. A


primeira ocorrência tem uma leitura genérica (nós1), a segunda expressa o país, na sua
dimensão administrativa (nós11), a terceira indica uma referência aos participantes no

253
debate, presentes na sala (nós4) e a última é um nós político, (nós7), nós da oposição. Este
breve fragmento, que não é singurar nos três sub-corpus, mostra a plurivocidade de
nós e os problemas de interpretação que este pronome pode levantar.

(199) O SR. DEPUTADO DUARTE NOGUEIRA - O Governo insistiu em


aprovar a DRU, mesmo todos nós1 sabendo que ela não era mais necessária,
porque nós11 não temos mais uma crise fiscal e dificuldades
orçamentárias. O Governo bate recordes de arrecadação todos os meses,
aumentando, portanto, a sua receita perante os contribuintes. E ficou uma
dúvida muito grande para todos nós4 aqui, sobretudo para nós da Oposição,
Ministro Mantega, quanto a essa insistência na aprovação da DRU, na verdade,
não foi por nenhuma preocupação com gestão orçamentária... (Audiência
Pública N°: 1940/11 DATA: 23/11/2011)

A análise das formas de tratamento elocutivo eu, nós, a gente permite-nos tirar
algumas conclusões sobre a construção da imagem de si (individual ou coletiva):
i) a gente é, como seria de esperar, uma particularidade do sub-corpus brasileiro;
ii) é tambem uma particularidade brasileira a afirmação explícita da imagem de si
através do uso da expressão eu, como...;
iii) tanto eu, como nós têm valores referenciais muito variados, que podem chegar
a 9 no caso da identidade individual (é verdade que o caso apresentado parece
ser sobretudo uma caraterística idioletal, específica do ministro Carlos Lupi) e
13 no caso das possíveis identidades coletivas;
iv) as classificações da identidade parlamentar que se limitam a um número
restrito de componentes – nacional, institucional, profissional, pessoal em Vasilescu
(2011); política profissional e política relacional segundo Van Dijk (2010) – podem
ser alargadas para englobar outras componentes identitárias que não são
abrangidas;
v) de uma maneira geral, podemos classificar os 13 valores referenciais de nós nas
seguintes categorias: genérico (nós1), individual (nós2), interacional (nós3 e nós4),
político (nós5, nós6, nós7, nós8, nós9 e nós10), nacional/regional (nós11, nós12) e polémico
(de facto um tropo designativo que projeta ironicamente a imagem do(s)
outro(s), nós13);
vi) usar o dispositivo de comunicação política proposto por Charaudeau (2005)
destaca diferentes tipos de nós político, associados à instância política, instância
adversária e à instância cidadã;
vii) destacam-se duas estratégias principais que decorrem do uso de nós: o
emprego de um nós consensual, centrado em si, que procura a adesão ao
discurso próprio e um nós agonal, que se define essencialmente pela relação
fundamental de oposição aos outros;
viii) a plurivocidade referencial de nós determina tentativas de negociação de
significado, quando os interlocutores querem delimitar-se de certos grupos
(ver infra 2.5.1. Tratamento elocutivo).

254
E, por útimo, julgamos poder concluir, no final deste capítulo, citando Louis
Guespin (1985: 45): ―Il est important d‘étudier nous : important pour la linguistique
générale comme pour le discours politique‖.
Depois da análise das formas pronominais elocutivas e do seu papel na
construção da imagem de si, tentaremos nos próximos capítulos apresentar os usos e
os valores das formas de tratamento alocutivas e delocutivas e a construção discursiva
da imagem dos outros.

255
2.3 A imagem do(s) outro(s): o tratamento pronominal alocutivo e
delocutivo
Art. 73. XI - referindo-se, em discurso, a colega, o
Deputado deverá fazer preceder o seu nome do tratamento de
Senhor ou de Deputado; quando a ele se dirigir, o
Deputado dar-lhe-á o tratamento de Excelência.
(Regimento Interno da Câmara dos Deputados, Congresso
Nacional do Brasil)

Este capítulo debruça-se sobre os usos das formas de tratamento (FT)


pronominais alocutivas e delocutivas na construção da imagem dos outros e na
configuração da distância interlocutiva.
No caso dos debates parlamentares, os estudos comparativos sobre os usos das
FT que já desenvolvemos (Manole 2012a, 2012b) mostram as seguintes caraterísticas:
i) ausência dos pronomes de intimidade (tu em português europeu e romeno); ii)
negociação dos usos e dos valores das FT pronominais com valor intermédio de
formalidade (você em português europeu, dumneata em romeno); iii) preferência clara
pela FT nominal colegas em romeno e senhores deputados em português europeu.
No que diz respeito às FT e as suas funções na dinâmica interacional, salientámos
em Manole (2014) o seu papel na gestão dos turnos de fala, sendo – sobretudo as
formas nominais – um dos meios mais usados por moderadores para conceder ou
retirar a palavra aos intervenientes.
Em relação aos valores das FT em contexto parlamentar, consideramos que as
locuções pronominais com valor ceremonioso Vossa Excelência, Excelenţa Voastră são
usadas como marcas alocutivas ou delocutivas passe-partout, em situações muito
variadas, sem necessariamente expressar os valores prototípicos de de cortesia
positiva 138 . Tentaremos mostrar que os pronomes de tratamento cerimonioso
funcionam como automatismos impostos pela imagem pré-construída que os
locutores têm da ―linguagem parlamentar‖, por vezes em relação de evidente
incongruência entre o seu valor prototípico e o seu valor contextual.
Neste capítulo concentrar-nos-emos no tratamento pronominal – tanto
alocutivo, como delocutivo –, privilegiando os usos da forma honorífica Vossa
Excelência, dos pronomes o senhor, dumneavoastră, você e dumneata e, tomando em
consideração as particularidades do sistema pronominal deloctivo romeno, os usos das
FT el, dânsul, dumnealui e domnia sa.

138 No caso do discurso parlamentar, consideramos importante a distinção entre formalidade e


cortesia – ou polidez, delicadeza –, uma vez que um enunciado pode ser formal, sem ser
necessariamente cortês.

257
2.3.1 Vossa Excelência
Em relação aos valores das FT em contexto parlamentar, consideramos que
Vossa Excelência, Excelenţa Voastră são impostas pelas práticas discursivas
parlamentares, sendo usadas em situações variadas, sem necessariamente expressar os
valores prototípicos de cortesia positiva. Como veremos mais adiante, os pronomes de
tratamento cerimonioso funcionam sobretudo como requisitos da linguagem
protocolar – ou impostos pela imagem pré-construída que os locutores têm da
―linguagem parlamentar‖, veja-se a frase Vossa Excelência é um trambiqueiro! – usada nos
anos ‘90 num debate da Assembleia da República de Portugal, segundo Saianda &
Gonçalves (2014: 211-226).
Serão tomados em consideração tanto os usos interlocutivos139 como em (200),
mas também os usos delocutivos, como em (201), tendo esta abordagem como
fundamento a teoria sobre o tratamento em português de Carreira (1997).

(200) O Sr. Secretário de Estado dos Transportes: — Sr. Presidente, Srs.


Deputados, apenas para trazer duas notas, uma das quais relativa ao
endividamento das empresas — espanto?! O endividamento das empresas de
transportes tem cerca de 37 anos de crescimento! V. Ex.ª é inocente?!
(Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

(201) O Sr. Deputado Delegado Waldir: — Quero saber de V. Exa. quais os


efeitos do RDC para a fiscalização da CGU. Basicamente, são esses os meus
questionamentos. Quero agradecer a V. Exa. pela presença. [...] Esta Casa está à
disposição de V. Exa., pois queremos ser parceiros nessa ação contundente contra
a malandragem. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)

Numa primeira leitura, observamos uma assimetria significativa relativamente ao


número de ocorrências destas FT nos debates selecionados. Com efeito, se no corpus
romeno, identificámos uma única ocorrência de Excelenţa Sa (delocutivo), na apresentação
do embaixador dos Estados Unidos, no corpus português Vossa Excelência (em contextos
alocutivos e delocutivos) é bastante utilizado (cerca de 95 ocorrências), tornando-se
abundante no corpus brasileiro (cerca de 1750 ocorrências alocutivas e delocutivas).
Poderíamos assim afirmar que, no que diz respeito ao estilo comunicativo, o
discurso parlamentar brasileiro revela-se o mais ceremonioso e o romeno o menos
cerionioso, ao passo que o português se situa numa posição intermédia. No entanto, esta
afirmação, baseada exclusivamente em observações de caráter quantitativo, deve ser
coroborada com uma análise qualitativa dos valores discursivos, porque estas FT, como
veremos na secção seguinte, nem sempre têm utilizações protípicas de cerimónia.

139No sentido de adresse da linguística interacionista francesa, que emprega o critério sintático
de détachement (o vocativo latino) para distinguir entre alocução propriamente dita, outras
formas com valor alocutivo (iloiement, delocução in praesentia) ou delocução.

258
Por exemplo, na expressão ―V. Exª é um trambiqueiro!‖, a mesma FT assume, em
conjunto com o adjetivo qualificativo trambiqueiro um valor insultuoso, divergente do
seu valor prototípico, de estima e consideração para com o locutor. Assim sendo,
chamaremos congruentes os usos cerimoniosos das FT em contexto de cortesia
(geralmente positiva, de valorização da imagem do locutor), neutros, os usos de FT em
contextos formais, mas sem valor de cortesia positiva (é o caso de discursos
institucionais, que impõem um certo formalismo da linguagem, não necessariamente
cortês) e incongruentes, os usos que diferem totalmente dos valores prototípicos (em
contextos irónicos, de ameaça da imagem do locutor, etc.). Retomando a classificação
de Catherine Kerbrat-Orecchioni (2010b) de (des)cortesia – cortesia, hipercortesia,
não-cortesia, descortesia e polirudeza –, podemos fazer a hipótese de que os usos
congruentes são mais prováveis de aparecer em contextos de cortesia, os usos neutros
em contextos de não-cortesia e os usos divergentes em contextos de hipercortesia,
descortesia e polirudeza.

2.3.1.1 Usos congruentes


Nos exemplos seguintes há uma congruência entre os contextos de usos e os
valores. (202) e (203), exemplos do corpus brasileiro, constituem elogios – ou FFAs,
face flattering acts, na teoria de Kerbrat-Orecchioni (1992), estratégias de cortesia
positiva – em relação à atividade profissional e pública dos interlocutores.
Observamos que se trata de FFAs que dizem respeito à imagem pública positiva dos
interlocutores (na verdade, parceiros políticos locutores, com quem partilham
afinidades ideológicas e políticas). (202) constitui uma reação a FFAs prévios do
interlocutor, ―agradeço também seus elogios e comprimentos‖, o que indica um
relacionamento interpessoal baseado nos princípios de cooperação e de valorização,
habitual entre os parceiros políticos (veja-se também o critério da afinidade política de
Perez de Ayala). Em ambos os exemplos notamos a presença de termos com valor
superlativo, ―nomes [...] geniais‖, ―tenho convicção absoluta‖, que amplificam o valor
dos FFAs.

(202) O Sr. Jorge Hage Sobrinho: — Deputado Fernando Francischini,


agradeço também seus elogios e o cumprimento. Eu não sabia que V. Exa.
era um dos formuladores daqueles nomes, que considero geniais, das
operações da Polícia. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)

(203) O Sr. Deputado Weliton Prado: — Com todo o respeito a todos os outros
Ministros, tenho convicção absoluta de que V. Exa. é o Ministro mais
atuante hoje da Presidenta Dilma. (Audiência Pública N°: 0252/11 DATA:
12/04/2011)

259
Em romeno, Excelenţa Voastră tem um uso muito restrito, sendo esta FT
preferida sobretudo nas interações com embaixadores e outros representantes
diplomáticos. Aliás, há um único exemplo de uso delocutivo, Excelenţa Sa (ver infra
2.3.4. El, dânsul, dumnealui, domnia sa, Excelenţa Sa).

2.3.1.2 Usos neutros


Os exemplos (204)-(209) representam usos neutros das FT. Trata-se de enunciados
sem marcadores de cortesia ou de descortesia, em que aparece Vossa Exelência.
Em (204) o deputado refere os conhecimentos prévios do ministro sobre o assunto
debatido, em (205) um deputado interpela a mesa para transmitir ao ministro um decreto-
lei, em (206) uma deputada refere o tema abordado pelo ministro, em (207) um deputado
apresenta uma proposta de cooperação ao ministro, em (208) um deputado refere uma
explicação fornecida pelo ministro em relação à Polícia Federal. Consideramos que estes
usos se situam na área da deferência protocolar, imposta pelas regras discursivas
institucionais, sem ter necessariamente o valor de cortesia, de valorização da imagem do
outro. As FT servem para criar, no eixo horizontal, uma distância interlocutiva necessária
num debate oficial (tu ou você seriam totalmente inadequados, por expressarem uma relação
demasiado próxima), e, no eixo vertical, para posicionar ambos os locutores140 numa zona
de formalidade (tu ou você seriam igualmente inadequados, porque se usam em situações de
comunicação informais, de intimidade). Nestes contextos Vossa Excelência tem empregos
adequados (em conformidade com as práticas discursivas dos debates parlamentares),
formais, sem serem corteses (no sentido da cortesia positiva, que valoriza a imagem do outro
através de FFAs).

(204) O Sr. João Serpa Oliva (CDS-PP): — Como V. Ex.ª sabe, na sexta-feira
passada, foram votados projectos de resolução apresentados por todas as
bancadas referentes à questão do metro Mondego, os quais foram aprovados
pela esmagadora maioria das bancadas, inclusive o projecto de resolução do seu
próprio partido. (Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

(205) O Sr. Paulo Portas (CDS-PP): — Sr.ª Presidente, interpelo a Mesa para
pedir a V. Ex.ª que faça chegar ao Sr. Ministro o Decreto-Lei n.º 464/82.
(Reunião plenária de 27 de janeiro de 2011)

(206) A Sr.ª Mariana Aiveca (BE): — Sr. Presidente, Sr. Deputado João Oliveira,
quero saudá-lo pela temática que traz hoje a este debate, porque, de facto, este é
um tema que interessa aos portugueses e às portuguesas, particularmente às
novas gerações, como V. Ex.ª bem referiu. (Reunião plenária de 16 de
fevereiro de 2011)

140 Lembramos o papel da auto-cortesia (self-politeness) na criação do ethos (Cheng: 2001).

260
(207) O Sr. Deputado Zé Silva: — Nós queremos apresentar a V. Exa.,
Ministro, a proposta de criação de uma entidade nacional que administre o setor,
para que haja uma política de Estado em relação a assistência técnica e extensão
rural. Tenho certeza de que V. Exa. vai receber e dar muito bom acolhimento
a nossa proposta. (Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)

(208) O Sr. Deputado Pauderney Avelino: — Quero dizer que, como Ministro da
Justiça, V. Exa. explicou muito bem a ação da Polícia Federal para elucidar
essa questão. (Audiência Pública N°: 1690/12 DATA: 04/12/2012)

Nos exemplos de (209a)-(209d), os moderadores da audiência pública utilizam


V. Exa. quando conferem a palavra aos deputados inscritos na lista de oradores.
Como já expusemos em outros trabalhos (Manole 2014), esta é uma das funções
predominantes que as FT (sobretudo as nominais) têm na organização interacional
dos debates parlamentares. Nos exemplos seguintes, as formas pronominais aparecem
sempre acompanhadas por expressões-padrão como tem a palavra, está com a palavra, dou
a palavra, etc.

(209a) O Sr. Presidente (Deputado Carlos Brandão): — Tem V. Exa. a


palavra. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)
(209b) O Sr. Presidente (Deputado Jorge Boeira): — V. Exa. tem 30
segundos. (Audiência Pública N°: 1245/11 DATA: 24/08/2011)
(209c) O Sr. Presidente (Deputado Edmar Arruda): — V. Exa. está com a
palavra, Deputado. (Audiência Pública N°: 0646/12 DATA: 22/05/2012)
(209d) O Sr. Presidente (Deputado Sérgio Brito): — Vou dar a palavra a V.
Exa. (Audiência Pública N°: 0399/11 DATA: 04/05/2011)

2.3.1.3 Usos incongruentes


Como já referimos, no discurso parlamentar – sobretudo em debates de
natureza confrontacional, que integram o nosso corpus – o funcionamento da
(des)cortesia linguística apresenta algumas particularidades. Nas palavras de Marques
(2008b: 294), ―é um discurso agónico, agressivo, mas não é ofensivo‖, porque os
FTAs direcionados aos adversários políticos fazem parte do contrato de comunicação.
Por esta razão, apesar do uso sistemático de FTAs, os debates continuam, situação
que seria quase impossível numa interação quotidiana. Aliás, é importante salientar
que, segundo as regras do debate parlamentar, as FTAs devem dizer respeito à
imagem pública do locutor, sendo penalizados os ataques ad hominem (pelo moderador,
pela audiência ou pelo próprio destinatário).

261
Nos exemplos (210)-(212), os locutores proferem FTAs, ameaçando a imagem
pública dos adversários políticos, que são acusados de caluniar conscientemente, ―V.
Exa. sabe disso e reproduz calúnias e infâmias‖, de esconder a verdade, ―V. Exa. sabe disso.
V. Exa. sabe disso‖ ou de mentir, ―V. Exa. está mentindo‖. Apesar da conotação negativa
e crítica dos enunciados, mantém-se o tratamento protocolar, através do uso de V.
Exa. No entanto, este grau alto de formalidade protocolar entra numa evidente
contradição com os valores dos FTAs sem os atenuar.
Além do mais, em nossa opinião, V. Exa. funciona como um potenciador do
ataque, através de uma relação quase oximorónica entre os valores da FT e os da FTA;
V. Exa., através do seu significado cerimonioso, cria certas expectativas em relação ao
discurso do locutor e o uso imediato de um FTA vem de encontro a estas
expectativas. Tal dissonância óbvia entre a FT e o FTA representa uma das
características do funcionamento da (des)cortesia parlamentar: os locutores situam-se
através do uso de alguns marcadores, como V. Exa., no topo da formalidade,
proferindo ao mesmo tempo, FTAs bastante fortes.

(210) O Sr. Deputado Edson Santos: — V. Exa. sabe disso e reproduz calúnias
e infâmias contra pessoas das quais o Deputado Anthony Garotinho é adversário.
Esse é o caso. (Audiência Pública N°: 1690/12 DATA: 04/12/2012)

(211) O Sr. Deputado Anthony Garotinho: — Os senhores entregariam cópias


aos membros da Comissão de Segurança de todas as interceptações com a
assessoria técnica de quem conhece o sistema, inclusive daquelas que não foram
enviadas ao Ministério Público? Os senhores não enviaram todas as
interceptações, enviaram as recentes. V. Exa. sabe disso. V. Exa. sabe disso.
(Audiência Pública N°: 1690/12 DATA: 04/12/2012)

(212) O Sr. Deputado Anthony Garotinho: — Não fiz ofensa a ninguém. (Não
identificado) – V. Exa. está mentindo. Está querendo criar fato para a mídia.
V. Exa...(Intervenções simultâneas ininteligíveis.) (Audiência Pública N°: 1690/12
DATA: 04/12/2012)

262
Em (213), encontramos um exemplo ainda mais dissonante, tomando em
consideração o valor dos FTAs, que ameaçam a imagem pessoal do locutor. Ao contrário
dos FTAs dos exmplos (210)-(212), que referiam a imagem pública dos locutores, em
(213) notamos não apenas o uso de um FTA direcionado ao comportamento (e ao
temperamento) do locutor, mas também uma qualificação desrespeitosa que tem o
objetivo de ridicularizar o mesmo: ―Não venha fazer circo aqui!‖. Aliás, a reação do
locutor, que deseja reparar a sua imagem pessoal, é quase instantânea: ―V.Exa. me
respeite, porque eu não sou palhaço‖. Os FTAs que ameaçam a imagem pública
provocam menos reações reparatórias deste tipo, o que demonstra que são
consideradas menos fortes pelos locutores.

(213) O Sr. Deputado Silvio Costa: — Deputado Paulo Rubem, eu é que peço
respeito a V. Exa. Eu vim receber um documento do companheiro. Então, V.
Exa. baixe o tom, que eu lhe conheço. Não venha fazer circo aqui, não.
O Sr. Deputado Paulo Rubem Santiago: — V. Exa. me respeite, porque eu não
sou palhaço. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

Em (214) e (215) usam-se estratégias indiretas para ameaçar a imagem pública dos
locutores. Notamos uma gradação em (216): num primeiro momento, o locutor afirma
que o ministro tem dificuldades em fazer com que os outros respeitem a lei (observação
através da qual sugere uma incapacidade e/ou debilidade profissional e institucional),
mas, num segundo momento, o mesmo ministro é acusado de não respeitar a lei
(acusação muito mais grave, que situa o locutor na zona criminal e penal).
Em (215), o ataque pretende associar o locutor com as características do grupo a
que pertence; como faz parte do PS, que é ―especialista‖ em ―propaganda‖ e
―descaramento‖, o locutor é também um bom conhecedor destes assuntos. Notamos
que, em vez de chamar o locutor ―propagandista‖ e ―descarado‖, Nuno Magalhães
prefere contruir esta argumentação que, na verdade, tem o mesmo objetivo, mas, por
ser mais indireta, parece mais adequada num debate parlamentar. No entanto, a
audiência não deixa de reagir, havendo protestos dos deputados do PS (o partido
criticado) e aplaudos do CDS-PP.

(214) O Sr. Pedro Mota Soares (CDS-PP): — Sr.ª Presidente, Sr. Ministro de
Estado e das Finanças, parece-me que V. Ex.ª está com alguma dificuldade
em fazer cumprir a lei e, até, por outro lado, tem alguma dificuldade em
cumprir V. Ex.ª a lei. (Reunião plenária de 16 de março de 2011)

(215) O Sr. Nuno Magalhães (CDS-PP): — Sr.ª Presidente, o Sr. Deputado


Pedro Jesus Marques, fez uma intervenção acalorada, cheia de adjetivos, que,
notoriamente, entusiasmou a bancada do PS, o que é sempre bom, e fê-lo
utilizando expressões como «propaganda», «descaramento», matérias
sobre as quais não vou, obviamente, questioná-lo, porque V. Ex.ª,

263
estando onde esteve, sobre esta matéria não recebe lições de ninguém.
Em matéria de propaganda, de facto, o Partido Socialista é especialista[...].
(Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

No exemplo (216) os locutores fazem avaliações diretas, com o objetivo de


ridiculizar os adversários. No exemplo do corpus português, o locutor ameaça a
imagem pública do ministro, designando de forma redutora o seu cargo, ―ministro de
abastecimento e preços‖, ―secretário de estado do comércio interno‖, sugerindo desta
maneira que, com as medidas económicas adotadas, não consegue desempenhar as
funções de ministro de economia. Salientamos a ―eficácia‖ desta designação deturpante –
lembramos o ―Ministro do Desemprego‖ do mesmo debate –, que, através dos média,
chega a ser conhecida pelo público. Torna-se numa espécie de rótulo designativo, entra no
folclore quotidiano. A FT V. Exa. não atenua pois o valor depreciativo da designação.

(216) O Sr. Basílio Horta (PS): — Concluo, Sr.ª Presidente. Como estava a dizer,
por este caminho, Sr. Ministro, V. Ex.ª será um velho «ministro de
abastecimento e preços» ou um «secretário de estado do comércio
interno», mas Ministro da Economia de uma economia internacionalizada
é que V. Ex.ª não será, com grave prejuízo para a economia portuguesa.
(Reunião plenária de 26 de janeiro de 2011)

Os últimos dois exemplos poderiam ser incluídos na categoria de polirudeza.


Segundo Kerbrat-Orecchioni (2010b), a polirudeza é um FTA dissimulado num FFA
(os chamados ―elogios pérfidos‖), mas na nossa opinião, este conceito pode ser
aplicado a uma maior variedade de contextos em que a cortesia e a descortesia são
entrelaçadas. Por exemplo, em (217) o locutor aparentemente faz um pedido cortês,
usando um atenuador – ―gostaria de pedir‖ – mas, de facto, através da solicitação –
―respeitasse o povo brasileiro‖ – sugere que o ministro, pelas suas ações, tem uma
atitude de desrespeito para com o povo e o parlamento.
Em (218) o locutor faz uma sugestão sobre a saúde do ministro, mas o efeito é
também de ameaça da imagem do adversário, criticando o seu aspeto físico. Notamos
também que este FTA se situa fora das regras do debate parlamentar, por ter como
objetivo a imagem pessoal, e não a imagem pública do ministro.

(217) O Sr. Deputado Alexandre Leite: — Sr. Presidente, Sras. e Srs.


Parlamentares, Sr. Ministro, em primeiro lugar, Sr. Ministro, eu gostaria de
pedir que V. Exa. respeitasse o povo brasileiro. [...] Suas declarações,
embora se tenha desculpado, ofendem não só o povo brasileiro mas também
este Parlamento e os Parlamentares que estão aqui no exercício da função.
(Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

264
(218) O Sr. Deputado Paulo Rubem Santiago —. […] O Ministro está visivelmente
fora do índice de massa corporal; reagiu e raciocinou sob emoção e agressividade.
Então, eu quero lhe sugerir redução de peso, dieta, exercício físico, maior
volume de oxigênio no sangue até para permitir que, com uma melhor
respiração, V. Exa. retome a normalidade e a tranquilidade para trazer aqui essas
informações. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

Esta análise do tratamento cerimonioso em debates parlamentares – Vossa


Excelência – permite-nos fazer algumas considerações gerais em sobre o
funcionamento destas FT no sub-género de discurso político em análise.
Do ponto de vista quantitativo, nota-se que as FT de valor cerimonioso não são
usadas no discurso parlamentar romeno, a não ser en circunstâncias bem definidas,
como no tratamento de representantes diplomáticos estrangeiros (ver infra. 2.3.4 El,
dânsul, dumnealui, domnia sa, Excelenţa Sa). Nos debates parlamentares da Assembleia da
República de Portugal, esta FT é usada com alguma frequência, sendo abundante nos
debates brasileiros. Poderíamos afirmar que se observa uma preferência nos debates
brasileiros pelo tratamento cerimonioso, ao passo que no discurso parlamentar
romeno essa tendência está ausente, situando-se as interações da Assembleia da
República de Portugal numa posição intermédia.
Do ponto de vista qualitativo, observamos no corpus analisado a presença de
valores alocutivos e delocutivos, que abrangem três categorias de usos: congruentes (FT de
valor cerimonioso aparece em contextos de cortesia positiva, valorizando a imagem do
interlocutor); neutros (FT cerimoniosos em contextos formais, mas não corteses, sem
marcadores de cortesia positiva ou negativa); incongruentes (FT cerimoniosos em diferentes
contextos de descortesia ou de polirudeza, que contêm FTAs em relação ao interlocutor).
Os dados da análise qualitativa mostram que esta FT é usada independentemente do
contexto, representando um verdadeiro automatismo, imposto pelas normas discursivas
dos debates e, provavelmente, pela intenção dos oradores de criar um ethos de pessoa
educada, que domina uma linguagem formal, de acordo com prestígio do cargo detido
(veja-se sobretudo a abundância dos usos nos debates brasileiros).
No capítulo seguinte continuamos as análises do tratamento alocutivo,
destacando as formas pronominais que expressam um grau elevado de deferência,
dumneavoastră e domnia voastră.

265
2.3.2 Dumneavoastră e domnia voastră
Dumneavoastră é a forma de tratamento pronominal que se emprega em romeno
para expressar um grau de cortesia bastante elevado, tanto no singular, como no
plural. É o resultado de um processo de lexicalização da forma nominal domnia voastră
[vossa senhoria], conjuga-se com a segunda pessoa do plural, sendo deste ponto de vista
próximo do pronome vous do francês.
No politeness continuum proposto por Vasilescu (2011: 23), o pronome
dumneavoastră situa-se no caso da designação de um alocutário no terceiro grau de
cortesia, sendo precedido por tu (zero grau de cortesia) e dumneata (cortesia popular) e
seguido por domnia voastră (grau máximo141 de cortesia). No caso da designação de
mais alocutários, dumneavoastră ocupa uma posição intermédia, entre voi (grau zero de
cortesia) e domniile voastre (grau máximo de cortesia).
Nesta secção tentaremos destacar os valores de dumneavoastră tanto no singular
(dumneavoastrăSG), como no plural (dumneavoastrăPL) analisando os seus empregos
segundo o critério proposto na secção anterior para Vossa Excelência, a adequação do
valor intrínseco da FT ao uso concreto, que pode resultar em empregos congruentes,
neutros e incongruentes.

2.3.2.1 Dumneavoastră, domnule


No caso da designação de um alocutário, evidenciaremos, num primeiro
momento, alguns exemplos de usos neutros, em que dumneavoastrăSG não expressa
necessariamente valores de cortesia positiva, de valorização da imagem do locutor.
Trata-se sobretudo de usos neutros, relacionados com a gestão do turno de
fala, em que o presidente dá ou retira a palavra aos oradores inscritos na lista de
intervenientes. (219), (220) e (221) são exemplos de frases funcionais, que visam a
organização do debate e que não têm cargas ideológicas ou políticas. Se é verdade que
nestes contextos os locutores não procuram criar estratégias no âmbito do trabalho
de figuração (facework), podemos, no entanto, considerar, que o uso deste pronome
tem como objetivo adequar o discurso às normas protocolares parlamentares; através
de dumneavoastrăSG cria-se uma distância institucional entre pares (pois todos os
interlocutores são parlamentares) para com o interlocutor que não expressa uma
hierarquia na vertical, embora este pronome possa ter esta função em outros tipos de
interações. Aliás, como veremos mais adiante, esta FT é usada constantemente (777
ocorrências de dumneavoastrăSG e dumneavoastrăPL) em debates parlamentares,
independentemente do discurso veiculado pelo locutor.

Na nossa opinião o grau máximo de cortesia, embora restrito a alguns tipos de discursos,
141

como o diplomático, é expresso em romeno com as locuções pronominais Excelenţa Voastră,


Excelenţele Voastre.

266
(219) Domnul Viorel Hrebenciuc: - Domnule Spînu, timpul dumneavoastrăSG s-
a epuizat! (Reunião da Câmara dos Deputados de 2 de outubro de 2012)
[O senhor Viorel Hrebenciuc: Senhor Spînu, o tempo do senhor acabou!]

(220) Domnul Vasile Blaga: - Mulţumesc. Şi dumneavoastrăSG aţi epuizat


timpul alocat. Domnul senator Gheorghe Bîrlea. Se pregăteşte, din partea
Grupului parlamentar al PSD, domnul senator Daniel Savu. (Reunião do Senado
de 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Vasile Blaga: - Obrigado. O senhor também esgotou o tempo
disponível. O senhor senador Gheorghe Bîrlea. Prepara-se, da parte do Grupo
Parlamentar do PSD, o senhor senador Daniel Savu.]

(221) Domnul Valeriu Ştefan Zgonea: - Doamnă ministru, vă cer permisiunea...


Aveţi 50 de minute ca reprezentant al Guvernului, aţi vorbit 30 de minute. Vă
reamintesc că nici n-au început dezbaterile pe grupuri parlamentare şi probabil
că va trebui să spuneţi ceva şi la sfârşit. Eu sunt dator să fiu păzitorul
dumneavoastrăSG să mai aveţi 20 de minute măcar la sfârşit. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 2 de outubro de 2012)
[O senhor Valeriu Ştefan Zgonea: - Senhora ministra, com licença... Enquanto
representante do Governo, tem 50 minutos, já falou 30 minutos. Queria
relembrar-lhe que ainda não começaram os debates com os grupos parlamentares
e que talvez tenha de dizer alguma coisa no fim. É o meu dever ser o seu
―guarda‖, para que a senhora fique com pelo menos 20 minutos no fim.]

Em (222), o locutor situa-se numa posição oposta em relação ao interlocutor, mas


tenta mitigar a sua atitude fazendo apelo a um possível consenso; aliás, reinterpreta o
papel da moção simples, afirmando que este recurso parlamentar de fiscalizar o governo
tem como objetivo criar ―discuţii care să ducă la progres‖ [discussões que levem ao
progresso] e não pôr as duas partes ―într-o contradicţie‖ [em contraditório]. O tom da
intervenção, apesar de claramente crítico e de ameaçador para a imagem do ministro, não
ultrapassa um nível neutro do debate; não há ironias, ataques violentos, acusações graves,
como vimos que há em debates parlamentares. Aliás, o locutor afirma desde o início o
seu objetivo, que é de ter uma ―discuţie constructivă‖ [discussão construtiva]. Por
conseguinte, poderíamos considerar este uso também neutro, dado que tanto o conteúdo
da intervenção, como o tom do locutor se inscrevem na linha protocolar do debates
parlamentares: é evidente que os locutores se situam em posições contrárias, que tentam
argumentar, mas sem usar recursos linguísticos agressivos, ironicos, agonais.

(222) Domnul Adrian Rădulescu: - Domnule ministru, vreau să am o discuţie


constructivă cu dumneavoastrăSG, pentru că rolul Parlamentului şi al unei
moţiuni este de a avea discuţii care să ducă la progres, şi nicidecum lucruri
care să ne pună într-o contradicţie şi să avem impresia că creăm între noi

267
animozităţi. Primul lucru pe care v-aş ruga să îl luaţi în evidenţă este că în
funcţia dumneavoastrăSG pe care o aveţi, de ministru al agriculturii,
sunteţi în slujba agricultorilor, şi nu patronul lor. Faptul că spuneţi ―N-am
să permit niciodată agricultorilor...‖" şi aşa mai departe. Nu, dumneavoastrăSG
sunteţi cel care faceţi politici agricole comune, cel care le puneţi în
practică şi cel care-i ajutaţi pe agricultori în activitatea lor. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 9 de outubro de 2012)
[O senhor Adrian Rădulescu: - Senhor ministro, quero ter uma discussão
construtiva com o senhor, porque o papel do Parlamento e de uma moção
é ter discussões que levem ao progresso, e não de nos pôr em contraditório
e de termos a impressão que criamos animosidades entre nós. A primeira coisa
que gostaria que o senhor tomasse em consideração é que na função que
tem, a de Ministro da Agricultura, está a trabalhar para os agricultores,
não é o patrão deles. O facto de dizer ―Nunca permitirei aos agricultores...‖ e
assim por diante. Não, o senhor é quem faz políticas agrícolas comuns,
quem as põe em prática e quem ajuda os agricultores na sua atividade.]

Nos próximos exemplos, as duas ocorrências de dumneavoastrăSG aparecem em


contextos diferentes; num primeiro momento, o locutor afirma a subserviência do
Primeiro Ministro em relação ao Presidente da República142: ―dumneavoastră, [...] nu
aveţi nicio vină, doar executaţi, [...] toate ordinele venite de la Cotroceni‖ [o senhor
[...] não tem culpa nenhuma, pois o executa, [...] todas as ordens vindas de Cotroceni‖;
portanto, a expressão: ―de această dată în apărarea dumneavoastră‖ [desta vez em
defesa do senhor] só pode ser interpretada como irónica.
A segunda ocorrência aparece num contexto em que o governo é acusado por
ter imposto diferentes iniciativas legislativas ocultando o debate parlamentar em
comissões de especialidade, através de um procedimento parecido com a ―solicitação
do voto de confiança‖, que pressupõe a votação do projeto de lei em reunião plenária.
Notamos que o segundo uso de dumneavoastrăSG ocorre num contexto de FTA do
Governo e do Primeiro Ministro, na altura criticados fortemente pela oposição por
não tomar em consideração o papel do parlamento no processo legislativo.

(223) Domnul Ioan Cindrea: - Mai trebuie spus ceva, de această dată în
apărarea dumneavoastrăSG, domnule prim-ministru. Sunt păreri care spun că
nu aveţi nicio vină, doar executaţi, ca pe front, toate ordinele venite de la
Cotroceni. [...] Însă comparaţia devine uluitoare dacă ne uităm că în perioada de
când sunteţi dumneavoastrăSG prim-ministru, domnule Boc, Guvernul pe
care îl conduceţi şi-a angajat răspunderea nu mai puţin de zece ori, angajarea pe
Codul muncii fiind a unsprezecea oară când folosiţi această procedură. (Reunião
conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado de 16 de março de 2011)

142 O Palácio Cotroceni de Bucareste é a sede da Presidência da Roménia.

268
[O senhor Ioan Cindrea: - Temos de dizer mais uma coisa, desta vez em
defesa do senhor, senhor primeiro-ministro. Há opiniões segundo as quais o
senhor não tem culpa nenhuma, pois o executa, como numa frente de guerra, as
ordens vindas de Cotroceni. [...] Mas a comparação torna-se deslumbrante se
vemos que no período desde que o senhor é primeiro ministro, senhor
Boc, o governo que lidera assumiu a responsabilidade143 pelo menos dez vezes,
sendo o regime de contratação do Código de Trabalho a décima primeira vez
que usa este procedimento.]

Em (224) a dinâmica dos usos de dumneavoastrăSG é particularmente interessante,


pois o locutor começa com um FFA (face flattering act), elogiando a ministra pelo seu
pragmatismo: ―Dumneavoastră sunteţi un om care trăiţi în realitate‖ [A senhora é uma
pessoa que vive na realidade], contraposto às caraterísticas do ministro anterior, ―un
ministru care trăia în lumea basmelor‖ [um ministro que vivia no mundo dos contos
de fadas]. O locutor continua a sua intervenção, em que contrapõe o antigo ministro e
a atual ministra (e o partido dela), tentando salientar que uma possível imagem
positiva dos últimos pode ser ameaçada pela adoção das políticas do primeiro. Depois
desta construção de imagem positiva do locutor através de FFAs explícitos, o locutor
faz a seguir considerações que podem ser interpretadas como FTAs, pois no fim do
trecho selecionado acusa a ministra de defender ―anumite poziţii pe care, de fapt, nici
dumneavoastrăSG nu le credeţi‖ [certas posições em que, de facto, nem a senhora
acredita]. Observamos, porém, que esta dinâmica dos FFAs e dos FTAs não
determina alterações no uso da FT, esta conservando-se ao longo da intervenção,
embora haja distâncias claras entre os conteúdos dos contextos (ora valorizantes para
a imagem do locutor, ora ameaçadores) e o valor instrínseco da FT.

(224) Domnul Ilie Sârbu: - Doamnă ministru, cel mai bun lucru - şi eu am mai
spus-o şi la întâlnirea pe care am avut-o la Biroul permanent -, nu mai moşteniţi
legi, iniţiative şi ordonanţe pe care le-a făcut un ministru care trăia în lumea
basmelor. DumneavoastrăSG sunteţi un om care trăiţi în realitate - că, altfel,
n-aţi fi ajuns aici - într-o realitate chiar destul de, zic eu, pragmatică. Nu mai luaţi
ceea ce a scris domnul Lăzăroiu, vă compromite şi pe dumneavoastrăSG,
compromite şi partidul şi sunt suficienţi oameni în partidul
dumneavoastră care nu merită acest compromis, nu merită să stea cu capul
în pământ şi să privească în sertarul pupitrului de la Senat atunci când criticile
întemeiate ale opoziţiei şi axate pe cifre, pe documente vă arată că nu
aveţi dreptate, că susţineţi anumite poziţii pe care, de fapt, nici
dumneavoastrăSG nu le credeţi. (Reunião do Senado de 3 de outubro de 2011)
[Domnul Ilie Sârbu: - Senhora ministra, a melhor coisa – já o disse na reunião que
tivemos na Mesa permanente – é deixar de herdar leis, iniciativas e portarias (de

143Procedimento constitucional romeno, similar com a ―solicitação do voto de confiança‖


existente na Constituição da República Portuguesa.

269
emergência) feitas por um ministro que vivia no mundo dos contos de fadas. A
senhora é uma pessoa que vive na realidade, pois, caso contrário, não teria
chegado aqui, digo eu, a uma realidade bastante pragmática. Não use o que
escreveu o senhor Lăzăroiu, a senhora desacredita-se a si própria e
desacredita o seu partido e há bastantes pessoas no seu partido que não
mecerem este descrédito, não merecem estar de cabeça no chão, olhar para a
gaveta da secretária do Senado quando as críticas justificadas da oposição,
baseadas em números, em documentos, mostram-lhe que não tem razão,
que defende certas posições em que, de facto, nem a senhora acredita.]

Em (225) podemos observar também o emprego da ironia para a caraterização


do interlocutor. No início da intervenção, que tem três ocorrências da FT
dumneavoastrăSG, o locutor faz aparentemente um retrato positivo do interlocutor: ―nu
aveţi nicio problemă‖ [não tem nenhum problema], ―Sunteţi imaginea liniştii‖ [É a
imagem da tranquilidade], ―Succesul dumneavoastră pare a fi succesul nostru‖ [O seu
sucesso parece ser o nosso sucesso], etc. Aliás, o locutor continua, destacando o
desempenho do ministro e os seus sucessos em todos os aspetos da vida: ―- succesul
dumneavoastră în viaţă, în carieră, în politica externă, în Franţa, în Anglia, săptămâna
trecută, la Budapesta, peste tot‖ [o seu sucesso na vida, na carreira, na política
estrangeira, em França, na Inglaterra, em Budapeste na semana passada].
Aparentemente, trata-se de um FFA, congruente com o uso de uma FT que expressa
um grau elevado de cortesia ou de deferência. No entanto, ao continuarmos a leitura
do fragmento, observamos que a imagem do ministro é construída em contraposição
com a dos parlamentares – que fizeram a moção – e que este sucesso está relacionado
com uma certa altivez do interlocutor. É esta altivez que faz com que o ministro – na
opinião do locutor – considere os parlamentares insignificantes, projetando uma imagem
de arrogância do interlocutor. Neste caso, o uso da FT dumneavoastră pode ser
interpretado tanto como um reflexo normal da linguagem regimental parlamentar,
mas também como estratégia de criar uma distância considerável para com o
interlocutor, o que permitirá a construção da imagem de arrogância. Neste jogo de
imagens veiculadas contrapõem-se, aliás dumneavoastră a noi [nós]: ―nu aveţi nicio
problemă‖ [o senhor não tem nenhum problema] vs. ―Ne trataţi şi pe noi [...] aşa, ca
pe nişte minori‖ [Trata-nos também [...]como uns insignificantes], com o objetivo de
descrever posições antagónicas, quer políticas, quer comportamentais.

(225) Domnul George-Crin-Laurenţiu Antonescu: - DumneavoastrăSG, domnule


ministru, nu aveţi nicio problemă. Sunteţi imaginea liniştii, stabilităţii, succesului
nostru. Succesul dumneavoastrăSG pare a fi succesul nostru, al tuturor - succesul
dumneavoastrăSG în viaţă, în carieră, în politica externă, în Franţa, în Anglia,
săptămâna trecută, la Budapesta, peste tot. Sunteţi perfect liniştit. Ne trataţi şi pe noi,
în frunte cu cititorul - Pace ţie, cititorule Raymond Luca! -, aşa, ca pe nişte minori,
care vă încurcăm un pic demersurile cu această moţiune simplă şi păreţi extraordinar
de liniştit. (Reunião do Senado de 23 de maio de 2011)

270
[O senhor George-Crin-Laurenţiu Antonescu: - Senhor ministro, o senhor não
tem nenhum problema. É a imagem da tranquilidade, da estabilidade, do
nosso sucesso. O seu sucesso parece ser o sucesso de todos nós, o seu
sucesso na vida, na carreira, na política estrangeira, em França, na
Inglaterra, em Budapeste na semana passada, em todos os lados. Está
perfeitamente tranquilo. Trata-nos também, junto com o leitor – Paz a ti, ó leitor
Raymond Luca! -, como uns insignificantes que o atrapalham um pouco nas suas
diligências com esta moção simples e parece extraodinariamente tranquilo.]

Os exemplos (226)-(228) apresentam, quase na totalidade das ocorrências da FT


dumneavoastrăSG, exemplos evidentes de FTAs: acusações de incapacidade, fraude, falta de
desempenho, etc. Em (226) cria-se a imagem de um interlocutor incapaz de respeitar as
suas promesssas: ―dumneavoastră nu aţi fost capabil nici măcar să vă respectaţi
promisiunea‖ [o senhor não foi capaz nem sequer de respeitar a sua promessa], que
rouba: ―de a da înapoi cele 15 procente furate din salariul bugetarilor‖ [devolver os 15%
roubados do salário da função pública], que tem políticas económicas desastrosas:
―măsurilor dumneavoastră falimentare‖ [suas medidas falimentares].

(226) Domnul Ioan Cindrea: - De fapt, dumneavoastrăSG nu aţi fost capabil


nici măcar să vă respectaţi promisiunea de a da înapoi cele 15 procente
furate din salariul bugetarilor, anul trecut în luna iulie, darămite să le
promiteţi acum că noul proiect le consolidează poziţia, când oamenii nu au ce
mânca şi aleargă şi astăzi după un loc de muncă, ca urmare a măsurilor
dumneavoastrăSG falimentare. (Reunião conjunta da Câmara dos Deputados e do
Senado de 16 de março de 2011)
[O senhor Ioan Cindrea: - De facto, o senhor não foi capaz nem sequer de
respeitar a sua promessa e devolver os 15% roubados do salário da função
pública, no mês de julho do ano passado, mas agora prometer que o novo
projeto fortalece a sua posição, quando as pessoas não têm o que comer e andam
a procura de um emprego, em consequência das suas medidas falimentares.]

Num primeiro momento, em (227) as acusações são mais graves, de natureza


criminal: ―implicarea dumneavoastră în tentativa de fraudare a fondurilor europene‖ [seu
envolvimento na tentativa de fraude dos fundos europeus], mas depois o locutor faz um
outro FTA em que critica o administrativo do ministro, mencionando que em vez de
fazer administração, dedicou-se à atividade política: ―noi ştim că dumneavoastră [...] aţi
făcut multă politică şi puţină administraţie‖ [nós sabemos [...] fez muita política e pouca
administração]. Observamos que ao longo da intervenção, o locutor usa a FT
dumneavoastrăSG, respeitando o registo formal parlamentar, apesar do conteúdo dos FTAs,
que ameaçam de maneira evidente a imagem profissional e institucional do interlocutor.
(227) Domnul Stelian Fuia: - Domnule ministru, eu vă cer demisia pentru
implicarea dumneavoastrăSG în tentativa de fraudare a fondurilor
europene pe Măsura 111 - Asistenţă tehnică pentru fermele de subzistenţă. Şi

271
dacă nu ştiţi, domnule ministru, despre ce este vorba - pentru că noi ştim că
dumneavoastrăSG aţi delegat foarte mult din atribuţii, aţi făcut multă
politică şi puţină administraţie - am să vă explic eu. (Reunião da Câmara dos
Deputados de 9 de outubro de 2012)
[O senhor Stelian Fuia: - Senhor ministro, eu peço-lhe a demissão por causa
do seu envolvimento na tentativa de fraude dos fundos europeus na
Medida 111 – Assistência técnica para a agricultura de subsistência. E se não
souber, senhor ministro, de que é que se trata – porque nós sabemos que o
senhor delegou muitas das suas atribuições, fez muita política e pouca
administração – vou explicar-lhe.]

Em (228), o locutor aposta em primeiro lugar na ideia de incoerência para


ameaçar a imagem profissional do interlocutor: ―sunteţi o simbioză între putinţă şi
neputinţă‖ [é uma simbiose entre capacidade e incapacidade], ―aţi putut [...] ca ceea ce
aţi făcut într-un mandat să anulaţi în următorul‖ conseguiu [...] anular num mandato o
que fez no anterior‖, mas, em segundo lugar, tenta criar também uma imagem de
irresponsabilidade: ―brincar de vez em quando no Ministério da Educação com a sorte
das crianças e dos jovens‖. Em todos os exemplos notamos que os locutores
ameaçam a imagem profissional ou institucional dos interlocutores. Neste caso, o uso
da FT dumneavoastrăSG serve para criar a distância necessária num debate institucional,
posicionando os dois intervenientes numa posição simétrica, de igualdade, embora
representando atores que defendem políticas opostas, na área da económia, mas
também na agricultura ou na educação.

(228) Doamna Doiniţa-Mariana Chircu: - Ca ministru sunteţi o simbioză între


putinţă şi neputinţă. Când e vorba de putinţă, mă refer la faptul că puteţi orice,
oricum, oriunde, când este vorba de un interes electoral. Numai
dumneavoastrăSG aţi putut realiza nonperformanţa ca ceea ce aţi făcut într-
un mandat să anulaţi în următorul, adică să vă jucaţi din când în când pe la
Ministerul Educaţiei cu destinele copiilor şi tinerilor şi, de ce nu, şi ale profesorilor.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 2 de outubro de 2012)
[A senhora Doiniţa-Mariana Chircu: - Enquanto ministra é uma simbiose entre
capacidade e incapacidade. Quando se trata de capacidade, refiro-me ao facto de
poder fazer seja o que for, seja como for, seja onde for, se houver algum
interesse eleitoral. Só a senhora conseguiu o não-desempenho de anular
num mandato o que fez no anterior, ou seja brincar de vez em quando no
Ministério da Educação com a sorte das crianças e dos jovens e, porque não,
com a dos professores.]

Se em (226)-(228) os FTAs visavam a imagem profissional ou institucional dos


interlocutores, no exemplo seguinte a situação é diferente. Para contextualizarmos a
disputa entre os dois parlamentares – de que apresentamos aqui apenas um pequeno
fragmento –, mencionamos que o locutor e o interlocutor são membros de partidos

272
de direita, um no poder (Partido Democrata Liberal) e o outro em oposição (Partido
Nacional Liberal, em coligação com os socialistas). Anteriormente a este episódio,
Teoader Paleologu criticou o PNL por não representar o liberalismo ao fazer uma
coligação ideologicamente incoerente com os socialistas, estratégia política que
resultará no desaparecimento do partido. No fragmento selecionado, apresentamos a
resposta dos liberais. Depois de uma rejeição de qualquer colaboração no futuro,
prevendo o locutor que o PDL iria desaparecer até as eleições seguintes, observamos
o uso de um FTA que visa desta vez a imagem pessoal do interlocutor. Se a primeira
ocorrência de dumneavoastrăSG é neutra, pois constitui uma interrogação sobre as
declarações anteriores do interlocutor, a segunda é claramente incongruente com o
contexto em que aparece, pois o locutor refere a tradição liberal da família (nobre) do
interlocutor, para o comparar com uma figura bastante conhecida na Roménia graças
à imprensa tabloide, a feiticeira cigana Mama Omida. A estratégia de ameaça à
imagem do interlocutor é contrapor à tradição (política, familiar e inteletual)
prestigiada do mesmo uma avaliação negativa (através da comparação explícita com
um personagem derisório), que situa o interlocutor numa zona do ridículo e de
evidente falta de prestígio.
Esta caraterização quase oximorónica, pois contrapõe mundividências e
universos culturais claramente opostos, tem como efeito ameaçar uma componente
identitária pessoal, a tradição da família e não apenas uma declaração política. Embora
este tipo de FTA não obedeça às regras do debate parlamentar, pois não visa a
imagem político-ideológica ou político-profissional, o locutor usa a FT
dumneavoastrăSG, respeitando as normas de tratamento, mesmo que superficialmente.

(229) Domnul Puiu Haşotti: - Domnule deputat Paleologu, dumneavoastrăSG


ce-aţi făcut acum? Aţi făcut un apel la ce? La vreo colaborare politică între PNL
şi PDL? Nu se va face. Şi ştiţi de ce? Că în 2012, chiar dacă am vrea s-o facem, nu o
să avem cu cine.
Grupul parlamentar al PNL (din sală): Bravo! Bravo! Bravo! (Aplauze din partea
Uniunii Social-Liberale.)
Domnul Puiu Haşotti: - Şi atitudinea dumneavoastrăSG chiar este penibilă,
că veniţi aici, şi purtaţi un nume ilustru, şi vă comportaţi ca Mama Omida!
(Reunião conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado de 16 de março de 2011)
[O senhor Puiu Haşotti: - Senhor deputado Paleologu, o que é que o senhor
acabou de fazer? Fez um apelo a quê? A uma colaboraão política entre PNL e
PDL? Não será feita. E sabe porquê? Porque em 2012, mesmo querendo fazê-la,
não teremos com quem fazê-la.
O grupo parlamentar do PNL (da sala): Bravo! Bravo! Bravo! (Aplausos da União
Social-Liberal.)
O senhor Puiu Haşotti: - E a sua atitude é mesmo embaraçosa, porque vem
aqui, tem um nome ilustre, mas porta-se como Mama Omida!]

273
2.3.2.2 Dumneavoastră, domnilor
Enquanto FT que designa mais alocutários, dumneavoastrăPL apresenta, como
vimos no caso de dumneavoastrăSG, valores diferentes, ora neutros, ora com graus
diferentes de incongruência em relação aos contextos em que é usado.
(230) e (231) são exemplos que ilustram os usos neutros, em sequências
protagonizadas pelos presidentes da sessão; trata-se de intervenções que ocorrem no
início das reuniões plenárias, em que os senadores se pronunciam através do voto
quer sobre a ordem do dia, o programa dos trabalhos e outros expedientes, quer sobre
projetos de leis e diplomas que devem ser aprovados no plenário do Senado.
DumneavoastrăPL designa neste caso a totalidade dos senadores, independentemente da
sua orientação política, os contextos de uso tendo um caráter funcional, específico
para os trabalhos parlamentares: ―Votul dumneavoastră, vă rog‖ [O vosso voto, por
favor], ―Supun votului dumneavoastră‖ [Submeto à vossa votação], ―Supun votului
dumneavoastră proiectul de lege‖ [Submeto à vossa votação o projeto de lei].

(230) Domnul Mircea-Dan Geoană: - Vă rog să vă pronunţaţi cu privire la ordinea


de zi, cu modificarea propusă. Votul dumneavoastrăPL, vă rog. [...] Supun
votului dumneavoastrăPL ordinea de zi iniţială, pe care o aveţi în mapele
dumneavoastrăPL. [...] Votul dumneavoastrăPL, vă rog. Cu 92 de voturi pentru,
2 voturi împotrivă şi 2 abţineri, programul de lucru a fost aprobat. [...] Supun
votului dumneavoastrăPL modificarea în componenţa nominală a Comisiei
pentru cultură, artă şi mijloace de informare în masă, pe care a anunţat-o
liderul Grupului parlamentar al PSD, respectiv, trecerea doamnei senator Lia-
Olguţa Vasilescu, în locul domnului senator Crăciun Avram... (A reunião do
Senado de 23 de maio de 2011)
[O senhor Mircea-Dan Geoană: - Por favor pronunciem-se sobre a ordem do dia,
com a alteração proposta. O vosso voto, por favor. [...] Submeto à votação a
ordem do dia inicial, que têm nas vossas pastas. [...] O vosso voto, por favor.
Com 92 votos a favor, 2 votos contra e 2 abstenções, o programa dos trabalhos foi
aprovado. [...] Submeto à vossa votação a alteração da estrutura nominal da
Comissão de cultura, arte e mass-media, anunciada pelo lider do Grupo
parlamentar do PSD, ou seja, a substituição do senhor senador Crăciun Avram pela
senhora senadora Lia-Olguţa Vasilescu...]

(231) Domnul Vasile Blaga: - Supun votului dumneavoastrăPL proiectul de


lege. [...] Supun votului dumneavoastrăPL raportul comisiei, cu
amendamentul admis. Cu 100 de voturi pentru, 4 voturi împotrivă şi 3 abţineri,
raportul a fost adoptat. Supun votului dumneavoastrăPL proiectul de lege. Cu
100 de voturi pentru, un vot împotrivă şi 5 abţineri, proiectul de lege a fost adoptat.
(A reunião do Senado de 6 de dezembro de 2011)
[O senhor Vasile Blaga: - Submeto à vossa votação o projeto de lei. [...]
Submeto à vossa votação o relatório da comissão, com a emenda aprovada.
Com 100 votos a favor, 4 votos contra e 3 abstenções, o relatório foi aprovado.
Submeto à vossa votação o projeto de lei. Com 100 votos a favor, 1 voto contra
e 5 abstenções, o projeto de lei foi aprovado.]

274
Se em (230)-(231) dumneavoastrăPL designava os senadores no seu conjunto, nas
ocorrências seguintes refere, de maneira mais ou menos explícita apenas uma ou outra
bancada parlamentar, por vezes, para evitar possíveis confusões quanto ao valor
referencial, os locutores dizendo claramente quem são os interlocutores, como
acontece em (232): ―‖Stimaţi colegi din PDL, mă adresez dumneavoastră în special‖
[Estimados colegas do PDL, dirijo-me especialmente aos senhores] ou em (233): ―Aş
vrea, stimaţi colegi, de aici încolo, să mă adresez colegilor liberali‖ [Queria, estimados
colegas, daqui em diante dirigir-me aos colegas liberais]. Já nestes exemplos notamos
que dumneavoastrăPL designa os adversários políticos cuja imagem se constrói em
oposição quer com a imagem pessoal coletiva veiculada pelo locutor (nós, a nossa
bancada), imagem essa que pode fazer apelo a pressupostos ideológicos, opções de
governação, quer com a imagem coletiva mais difusa, que refere um todos
indeterminado ou, por vezes, a instância cidadã. Esta estratégia discursiva de
construção de uma imagem negativa do(s) outro(s) é complementar à de construção
de uma imagem positiva de si, já analisada detalhadamente no capítulo sobre o
tratamento elocutivo (ver supra 2.2 A imagem de si: o tratamento pronominal elocutivo).
Em (232) o locutor constrói a imagem negativa dos interlocutores (embora
destinatários seja um termo mais adequado, uma vez que não se trata de uma interação
verbal convencional) em oposição a um todos com valor elocutivo (o valor referencial
deste pronome indefinido é neste contexto todos nós ): ―ştim cu toţii că vă doriţi‖
[todos sabemos que querem]. A imagem negativa dos outros relaciona-se com a
governação, portanto com a identidade política profissional. No caso de (233), o
locutor faz apelo à imagem político-ideológica e às consequências decorrentes das
opções políticas: ―Prin votul dumneavoastră de astăzi, Partidul Naţional Liberal
dispare ca partid de dreapta‖ [Com o vosso voto de hoje, o Partido Nacional Liberal
desaparece enquanto partido de direita].

(232) Domnul Ioan Cindrea: - Stimaţi colegi din PDL, mă adresez


dumneavoastrăPL în special, pentru că ştim cu toţii că vă doriţi să scăpaţi
de Emil Boc de la conducerea acestei ţări. Ştim că aţi conştientizat, chiar dacă
mai târziu, faptul că oricâte privilegii, funcţii sau demnităţi v-ar oferi, prezenţa
lui în fruntea Guvernului nu poate şterge ruşinea aruncată asupra partidului
dumneavoastrăPL de către proasta şi neperformanta sa guvernare. (Reunião
conjunta da Câmara dos Deputados e do Senado de 16 de março de 2011)
[O senhor Ioan Cindrea: - Estimados colegas do PDL, dirijo-me especialmente
aos senhores, porque todos sabemos que querem livrar-se de Emil Boc da
liderança deste país. Sabemos que se deram conta, mesmo se mais tarde, que
independentemente do número de privilégios, funções ou cargos que lhes possa
oferecer, a presença dele no Governo não pode remover a vergonha transferida
ao vosso partido pela sua péssima governação, sem desempenho.]

(233) Doamna Sulfina Barbu: - Aş vrea, stimaţi colegi, de aici încolo, să mă


adresez colegilor liberali, deoarece moţiunea de cenzură de astăzi are o miză

275
istorică pentru dumneavoastrăPL, stimaţi colegi. [...] Votul dumneavoastră
împotriva Codului muncii de dreapta este, practic, pistolul pe care vi-l puneţi
singuri la tâmplă. Prin votul dumneavoastrăPL de astăzi, Partidul Naţional
Liberal dispare ca partid de dreapta. Şi am să explic de ce. (Reunião conjunta da
Câmara dos Deputados e do Senado de 16 de março de 2011)
[A senhora Sulfina Barbu: - Queria, estimados colegas, daqui em diante
dirigir-me aos colegas liberais, porque a moção de censura de hoje tem
uma importância histórica para os senhores, estimados colegas. [...]
O vosso voto contra o Código de Trabalho de direita é,
praticamente, o revólver que os senhores apontam para as suas
cabeças. Com o vosso voto de hoje, o Partido Nacional Liberal
desaparece enquanto partido de direita. E vou explicar porquê.]

Em (234) observa-se a dinâmica poder vs. oposição na sua dimensão agonal; neste caso,
um dos representantes acusa a oposição – citanto argumentos da moção: ―am citat din
moţiunea dumneavoastră‖ – de má governação no Ministério da Administração Interna:
―dumneavoastră sunteţi cei care aţi făcut din MAI un mamut bugetofag‖ [os senhores
fizeram do MAI um mamute que ―come‖ o orçamento], tentando criar uma imagem
negativa dos adversários políticos, ameaçando a sua imagem coletiva político-profissional.

(234) Domnul Dumitru-Florian Staicu: - În ceea ce priveşte afirmaţiile privind


reorganizările succesive, care au transformat MAI într-o instituţie paralizată de
dezordine, cu angajaţi demotivaţi profesional, timoraţi de teama pierderii postului
şi neîncrezători în ierarhia de comandă - am citat din moţiunea
dumneavoastrăPL - ţin să menţionez că dumneavoastrăPL sunteţi cei care aţi
făcut din MAI un mamut bugetofag, greoi şi, nu de puţine ori, ineficient ca
structură. (Reunião do Senado de 6 de setembro de 2011)
[O senhor Dumitru-Florian Staicu: - No que diz respeito às afirmações sobre as
reorganizações sucessivas, que transformaram o Ministério da Administração Interna
numa instituição paralisada pela desordem, com funcionários desmotivados do
ponto de vista profissional, com medo de perder o seu emprego e desconfiantes da
hierarquia no comando – fim da citação da vossa moção – queria mencionar
que os senhores fizeram do MAI um mamute que ―come‖ o orçamento,
lento e, não poucas vezes, com uma estrutura ineficiente.]

Em (235) o uso de dumneavoastrăPL relaciona-se, num primeiro momento, com


uma imagem de oposição não em relação aos adversários políticos, mas sim aos
eleitores: ―că moţiunea dumneavoastră este o batjocură la adresa poporului‖, portanto o
eixo de anatagonismos irredutíveis opõe desta vez a instância adversária (Charaudeau
2005) à instância cidadã. Esta prática discursiva bastante frequente pretende, por um lado,
legitimar o discurso do locutor, mas também envolver os cidadãos no debate político.
Num segundo momento, o locutor usa a ideia de falta de seriedade, para ameaçar a
imagem dos interlocutores, invocando que a moção apresentada pela oposição não tem

276
quaisquer fundamentos: ―moţiunea dumneavoastră este lipsită de temei juridic şi de
temei motivaţional‖ [a vossa moção carece de fundamento jurídico e fundamento
motivacional], ―dumneavoastră ar trebui să vă găsiţi alte preocupări, mult mai serioase‖
[os senhores deveriam encontrar outras preocupações, muito mais sérias], os FTA
visando a imagem política profissional dos interlocutores. Neste caso observamos
também uma incongruência entre o valor intrínseco, de alto grau de cortesia que
dumneavoastrăPL pode ter e o valor contextual, que tem como objetivo a desvalorização
do interlocutor, comum no discurso político confrontacional.

(235) Domnul Ioan Oltean: - Iată care sunt astăzi, în parte, realităţile acestui
minister şi acestui guvern. Iată de ce, stimaţi colegi, cred, fără niciun fel de
reţinere, că moţiunea dumneavoastrăPL este o batjocură la adresa
poporului, că moţiunea dumneavoastrăPL este lipsită de temei juridic şi
de temei motivaţional. Iată de ce cred că dumneavoastrăPL ar trebui să vă
găsiţi alte preocupări, mult mai serioase, în Parlamentul României, decât
aceea de a iniţia moţiuni lipsite de relevanţă, lipsite de susţinere. (Reunião da
Câmara dos Deputados de 21 de novembro de 2011)
[Domnul Ioan Oltean: - Eis quais são, em parte, as realidades deste ministério e
deste governo. É por isso que, estimados colegas, acho, sem sombra de dúvida,
que a vossa moção é uma ofensa ao país, que a vossa moção carece de
fundamento jurídico e fundamento motivacional. É por isso que acho que
os senhores deveriam encontrar outras preocupações, muito mais sérias,
no Parlamento da Roménia, em vez de iniciarem moções sem relevância e
sem apoio político.]

O último exemplo de uso de dumneavoastrăPL é também um FTA que visa a


imagem política profissional da oposição (ou instância adversária). Os mecanismos de
descrédito dos interlocutores neste caso são mais complexos. Em primeiro lugar, o
locutor menciona os insucessos dos outros: ―dumneavoastră ştiţi ce nerealizări aveţi‖
[senhores sabem que insucessos têm], para depois referir o que considera uma
caraterística da oposição, a hipocrisia: ―sunteţi conştienţi de ele, nu le recunoaşteţi‖
[têm consciência deles, não os reconhecem]. Aliás, toda a intervenção – que contém
quatro ocorrências de dumneavoastrăPL – será construída a volta da hipocrisia dos
interlocutores.
Observamos uma gradação dos FTAs. O locutor começa com uma alusão que
sugere a hipocrisia: ―ştiţi ce nerealizări aveţi, sunteţi conştienţi de ele, nu le
recunoaşteţi‖ [os senhores sabem que insucessos têm, têm consciência deles, não os
reconhecem], em seguida refere explicitamente esta caraterística: ―Demersul este, de
asemenea, ipocrit‖ [A iniciativa é também hipócrita] e acaba com uma sentença
peremptória, em que passa da hipocrisia à mentira: ―Moţiunea dumneavoastră este
mincinoasă‖ [A iniciativa é também hipócrita]. Por outro lado, os interlocutores são
acusados também de terem sido responsáveis por uma governação desastrosa: ―aveţi

277
politici dezastruoase‖ [têm políticas desastrosas], mas incapazes de assumir a
responsabilidade das mesmas: ―vă spălaţi pe mâini ca şi cum dumneavoastră nu aţi
trecut niciodată prin această guvernare‖ [mas lavam-se as mãos, como se os senhores
nunca tivessem governado].
Portanto, os FTAs visam tanto a imagem política profissional, mas também a
imagem pessoal, que refere defeitos de natureza comportamental, todas as ocorrências
de dumneavoastrăPL sendo incongruentes com o conteúdo destes FTAs.

(236) Domnul Gheorghe-Eugen Nicolaescu: - Aş mai spune că este un demers


caraghios, pentru că dumneavoastrăPL ştiţi ce nerealizări aveţi, sunteţi
conştienţi de ele, nu le recunoaşteţi şi vreţi să le puneţi în cârca guvernării
Ponta, aşa cum, de fapt, aţi făcut întotdeauna cei de la PDL. Niciodată nu v-
aţi asumat nicio responsabilitate. Totdeauna alţii au fost vinovaţi, deşi
dumneavoastrăPL aţi fost cei care aţi greşit şi aţi produs dezastre în această
ară. Demersul este, de asemenea, ipocrit. Constataţi că aveţi politici
dezastruoase, constataţi că aveţi politici care produc rău în această ţară, dar
vă spălaţi pe mâini ca şi cum dumneavoastrăPL nu aţi trecut niciodată prin
această guvernare. Este păcat că, încă, nu aţi învăţat să vă asumaţi
responsabilitatea. Dar poate o să vină vremea aceea atunci când populaţia, la urne, o
să vă trezească nevotându-vă. Moţiunea dumneavoastrăPL este mincinoasă.
(Reunião da Câmara dos Deputados de 2 de outubro de 2012)
[O senhor Gheorghe-Eugen Nicolaescu: - Diria também que é uma iniciativa
ridícula, porque os senhores sabem que insucessos têm, têm consciência
deles, não os reconhecem e querem pô-los nas costas do governo Ponta,
aliás, como fizeram sempre os senhores do PDL. Nunca assumiram nenhuma
responsabilidade. Os outros foram sempre culpados, apesar de os senhores
terem cometido erros e terem produzido desastres neste país. A iniciativa é
também hipócrita. Verificam que têm políticas desastrosas, que fazem mal
ao país, mas lavam-se as mãos, como se os senhores nunca tivessem
governado. É pena que ainda não tenham aprendido a assumir a responsabilidade.
Mas talvez chegue o tempo em que a população vai despertá-los, nas urnas, não
votando nos senhores A iniciativa é também hipócrita.]

Tal como no caso de Vossa Excelência, os exemplos de dumneavoastrăSG e


dumneavoastrăPL mostram uma variedade de usos, quer neutros, quer incongruentes
com os contextos em que esta FT aparece. No entanto, devemos mencionar que os
usos incongruentes parecem ser prevalentes, o que seria uma caraterística do sub-
corpus romeno.

278
2.3.2.3 Domnia voastră
Como já referimos em 3.1.1.2. Alocução, em romeno assitimos a uma
recuperação no espaço público das formas de tratamento nominais antigas domnia ta –
por vezes, com um sentido irónico – e domnia voastră – domniile voastre no plural –, que
originaram os atuais pronomes de cortesia dumneata e dumneavoastră. Estes usos
recentes devem-se sobretudo a uma perda de valor de deferência dos dois
pronomes 144 , sendo assinalados sobretudo por Vasilescu (2005). Mencionamos que
nas gramáticas romenas, as expressões domnia ta e domnia voastră são consideradas
locuções pronominais de cortesia, dada a sua natureza fundamentalmente deítica.
No que diz respeito ao discurso parlamentar, pelo menos nos debates
analisados por nós, notamos que não é uma FT muito frequente – só identificámos as
três ocorrências dos exemplos (237)-(239) – e que só a forma plural domniile voastre é
usada pelos locutores. Por outro lado, observamos também que a relação entre o valor
prototípico (de deferência para com o locutor) e o valor discursivo é de incongruência,
pois as três ocorrências são empregues em contextos associados a FTAs: uma
acusação de copiar as emendas legislativas, ironias sobre uma portaria do governo e
sobre a política energética do executivo.

(237) Domnul Ioan-Nelu Botiş: - Din 86 de amendamente propuse de


Domniile voastre, 78 sunt identice la virgulă cu ceea ce am propus noi. Şi sigur
că prima întrebare firească este: dacă această lege a fost rea, de ce aţi copiat-o? Şi,
dacă a fost bună, de ce o contestaţi? (Vociferări.) (Reunião conjunta da Câmara dos
Deputados e do Senado, 16 de março de 2011)
[O senhor Ioan-Nelu Botiş: - Das 86 emendas propostas pelos senhores, 78
são idênticas até à vírgula ao que nós propusemos. E claro que a primeira
pergunta natural é: se esta lei foi tão má, porque é que a copiaram? E se foi boa,
porque é que a contestam? (Vociferações.)]

(238) Domnul Daniel Constantin (ministrul agriculturii şi dezvoltării rurale): - A


fost atât de bună ordonanţa de urgenţă la care vă referiţi, încât Ministerul
Finanţelor a respins-o la prima citire, doarece conducea la creşterea deficitului
bugetar pe care tot Domniile Voastre l-aţi agreat cu Fondul Monetar
Internaţional. (Reunião da Câmara dos Deputados, 9 de outubro de 2012)
[O senhor Daniel Constantin (Ministro da Agricultura e do Desenvolvimento
Rural): - Foi tão boa a portaria de emergência de que está a falar, que o
Ministério das Finanças rejeitou-a à primeira leitura, porque determinava o
aumento do défice orçamental que os senhores concordaram com o
Fundo Monetário Internacional.]

144 No caso de dumneata podemos falar até de desapacerimento quase por completo da
linguagem das camadas mais jovens da população.

279
(239) Domnul Vasile Popeangă: - Dar ce este şi mai trist pentru domniile
voastre, este că justeţea şi oportunitatea acestei acţiuni au fost validate şi de
recenta decizie a justiţiei, care a respins contestaţia „băieţilor deştepţi‖ din
sectorul energetic. (Reunião da Câmara dos Deputados, 23 de outubro de 2012)
[O senhor Vasile Popeangă: - Mas o que é ainda mais triste para os senhores é
que a correção e a oportunidade desta ação foram validadas pela recente decisão
da justiça, que rejeitou o litígio dos ―chicos espertos‖ do setor energético.]

O número reduzido de ocorrências não nos permite fazer generalizações


categóricas sobre o uso desta FT no discurso parlamentar romeno no seu conjunto.
No entanto, podemos salientar, pelo menos no que diz respeito a este corpus, o seu
uso restrito, em evidente incongruência com o valor protípico. Se os empregos
escassos são, de certa forma, uma surpresa, pois a locução pronominal domnia voastră
aparece com alguma frequência em outros sub-géneros do discurso políticos, como os
debates televisivos, o seu uso em FTAs alinha com a natureza intrínseca do discurso
parlamentar, que privilegia o conflito ritualizado (Marques 2008b). Neste caso podíamos
notar uma semelhança com os valores incongruentes de Vossa Excelência e de
dumneavoastră (ver supra 2.3.1. e 2.3.2.).

2.3.3 Você(s), dumneata e voi


Nesta secção analisaremos as FT nominais alocutivas que se situam fora das
formas parlamentares e que são empregues sobretudo em registos mais baixos da
língua. Num primeiro momento, debruçar-nos-emos sobre os usos de você e vocês no
discurso parlamentar português.
Embora não haja menções explícitas nos regimentos sobre as FT que deveriam
ser usadas nos debates parlamentares, existem normas implícitas sobre as quais há um
consenso geral, embora como veremos mais adiante e como mostrámos em Manole
(2014), os ―deslizes‖ não faltam, dada a natureza conflitual deste género discursivo.
Aliás, como pudemos observar em reuniões que não integram este corpus, mas que
analisámos em outros trabalhos, é o papel do presidente, enquanto moderador, de
chamar a atenção dos parlamentares sobre o que é aceitável no tratamento
parlamentar, como em (240) e (241).

(240) O Sr. Presidente: — Sr.as e Srs. Deputados, pese embora este elucidário
erudito do Sr. Ministro dos Assuntos Parlamentares, a verdade é que, em várias
circunstâncias, diversas bancadas, incluindo a do Governo, por vezes
deslizam na utilização da palavra «vocês». Penso que, entre todos,
poderíamos fazer um pacto de contenção em relação à eliminação dessa
forma de tratamento que, por vezes, no calor dos debates, exprimindo,
porventura, mais franqueza ou mais rudeza, invade o vocabulário
parlamentar, mas que, todos nós temos consciência disso, não o deve
invadir. (Reunião plenária de 14 de dezembro de 2006)

280
(241) A Sr.ª Presidente: — O Sr. Deputado Rui Santos tem origem no norte e o
«você», no norte, tem um sentido respeitoso, eu sei, embora não seja o
mais comum aqui, no Parlamento. (Reunião plenária de 14 de março de
2012)

Em outras ocasiões, são os próprios parlamentares que reclamam usos


inadequados das formas de tratamento, quer em apartes, como em (242), quer em
intervenções públicas no microfone, como em (243).

(242) O Orador: — Também as iniciativas locais de emprego; a criação do


próprio emprego; os apoios à contratação; os incentivos fiscais à criação de
emprego para jovens [...]…
Protestos do Deputado do PSD Agostinho Branquinho.
Tenha calma!… Você tem de saber isto!
O Sr. António Montalvão Machado (PSD): — Você?!!...
[...]
O Orador: — Vamos ao projecto de resolução do PSD. [...]. Não sei o que é
para vocês um jovem,…
Vozes do PSD e do CDS-PP: — «Vocês»?...
Uma Voz do PS: — É da juventude!
O Orador: — … presumo que sejam os que têm até 30 anos de idade, parto
desse princípio. [...] o problema é que não sei se têm consciência daquilo que
vocês…
Vozes do PSD: — «Vocês» outra vez?...
[...]
O Orador: — [...] O que vocês fazem,…
Vozes do CDS-PP: — «Vocês»?... Outra vez?!
O Orador: — … o que vocês conseguem…
O Sr. Nuno Teixeira de Melo (CDS-PP): — «Vocês»?!...
[...]
O Orador: — Isto não acontece em mais qualquer lado!
Você pode ter…
Vozes do PSD: — «Você»?!...
[...]
O Orador: — Isto é grave demais para a juventude portuguesa. [...]felizmente
que não são vocês o Governo em Portugal.
Aplausos do PS.
O Sr. Presidente: — Srs. Deputados, espero que seja moderado o uso da
expressão «vocês» no debate parlamentar.
Vozes do PSD e do CDS-PP: — Muito bem!
(Reunião plenária de 20 de abril de 2006)

(243) O Sr. Miguel Frasquilho (PSD): — Sr. Presidente, gostava de perguntar a V.


Ex.ª se considera adequado que, nas próximas ocasiões em que nos

281
dirigirmos ao Governo, possamos usar a expressão «vocês aí do Governo».
[...] Sr. Presidente, o Sr. Ministro de Estado e das Finanças, repetidamente — não
é a primeira nem a segunda! —, dirige-se ao Grupo Parlamentar do PSD como
«vocês aí do PSD». Não sei se o Sr. Presidente julgará que esta é uma boa
linguagem parlamentar. Nós julgamos que ela é muito pouco adequada.
(Reunião plenária de 14 de dezembro de 2006)

Podemos afirmar que as considerações de Duarte (2011) sobre os usos deste


pronome nas variedades do português europeu mais próximas na norma se aplicam
plenamente no caso do discurso parlamentar português, pois você e vocês, apesar de
ocorrerem pontualmente, são considerados inadequados e não regimentais145:

―Nas variedades mais próximas da norma, o «você» é quase inadmissível, geralmente


sentido como grosseiro ou, pelo menos, pouco cortês.‖ (Duarte 2011: 87)

Nos debates que integram o sub-corpus português, você e vocês têm poucas
ocorrências, quer em apartes, como em (244) e (245), quer em intervenções, como em
(246)-(248). Aliás, você aparece apenas uma vez (244), num aparte, o que mostra o seu
estatuto marginal. No que diz respeito ao valor que esta FT tem, notamos que não se
relaciona com um FTA, mas com uma interrogação que visa, num contexto mais
amplo, defender a imagem pessoal. Em (245) a forma vocês tem o mesmo valor, tentar
criar uma imagem positiva de si, ameaçando a imagem do outro.

(244) O Sr. Jerónimo de Sousa (PCP): — Mas onde é que você anda? Não
somos mentirosos! (Reunião plenária de 21 de março de 2012)

(245) O Sr. Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares: — [...] Os Srs.


Deputados dos partidos da oposição falam em políticas alternativas à
austeridade, mas no fundo não têm soluções credíveis.
O Sr. António Filipe (PCP): — Vocês é que têm!? (Reunião plenária de 18 de
outubro de 2012)

As ocorrências de vocês (246)-(248) ilustram situações diferentes. Em primeiro


lugar, nos exemplos destacados os locutores proferem FTAs, criando imagens
negativas dos interlocutores, mais ou menos explícitas: ―é extraordinária a forma
como vocês abordam estas questões‖, ―Vocês só fazem aumentos fiscais sobre os
pobres‖. Em (247) observamos que o locutor usa ora vocês, ora os senhores,
provavelmente numa tentativa de adequar os usos das FT às exigências do discurso
parlamentar, embora seja sobretudo um caso isolado. Em (248) o mesmo locutor

145 Veja-se também a análise de Marques (2014).

282
opõe o vocês ao nós, delineando assim claramente duas posições antagónicas no debate
político: ―É que nós nunca dissemos, ao contrário de vocês‖, ―Nunca o dissemos,
vocês é que o diziam‖.

(246) O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — Sr.ª Presidente, Sr. Deputado Nuno
Matias, é extraordinária a forma como vocês abordam estas questões. É
extraordinária! (Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

(247) O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — Estes aumentos fiscais, vocês não os
fazem! Vocês só fazem aumentos fiscais sobre os pobres, os remediados e
mesmo sobre aqueles que, até este momento, tinham níveis salariais razoáveis!
O Sr. Deputado sabe do aumento da carga fiscal no IRS. Os senhores até
tiveram a coragem de avançar com um aumento no IRS, em contradição
com a regra da progressividade! (Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

(248) O Sr. Agostinho Lopes (PCP): — [...] É que nós nunca dissemos, ao
contrário de vocês, que as coisas se resolviam sem aumentar impostos!
Nunca o dissemos, vocês é que o diziam, vocês e o «partido dos
contribuintes»! Sempre fizemos propostas de aumentar receitas fiscais com
incidência no grande capital… (Reunião plenária de 18 de outubro de 2012)

As poucas ocorrências de você(s) não nos permitem tirar conclusões definitivas,


exceto a que se refere ao caráter evidentemente periférico desta FT no discurso
parlamentar português, pelo menos no presente corpus. No caso de vocês, pudemos
observar que os seus usos aparecem em contextos de ameaça da imagem do
interlocutor, em estratégias de delimitação nítida do locutor de opções políticas
contrárias.
No sub-corpus brasileiro, você e vocês têm, aliás como era de esperar, mais
ocorrências, e há também algumas particularidades em relação aos seus empregos.
Uma primeira particularidade do sub-corpus brasileiro no que diz respeito aos valores
de você são os usos genéricos, como em (249). Neste exemplo, o locutor refere
procedimentos dentro do seu ministério, sem referir um alocutário específico: ―Você é
obrigado a liberar um recurso inicial‖, ―você tem um prazo de execução‖, ―você faz
uma etapa‖, etc. Aliás, você genérico é típico para esta variedade da língua portuguesa,
sendo ausente da variedade falada em Portugal. Neste caso, não podemos falar de uma
forma de tratamento per se, pois o locutor não designa um ator envolvido numa
relação de alocução ou de delocução, mas descreve assuntos específicos, referindo
neste caso um agente (enquanto papel temâtico) humano e indefinido146.

146Para uma reflexão mais detalhada sobre a genericidade e a sua expressão através de pronomes,
veja-se Zafiu (2003). No caso do você genérico do português brasileiro, Moura Neves (2011: 463)
refere uma ―indeterminação muito forte (VOCÊ = uma pessoa, seja qual for)‖.

283
(249) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Em todos os convênios, desde 2008,
fazemos parecido como se faz em uma medição de obra. Você é obrigado a
liberar um recurso inicial para a pessoa começar o processo, em torno de
20%, como é em uma obra. Como a empresa vai começar uma obra se não
tiver recurso para comprar equipamento e contratar o pessoal e fazer? Depois,
você tem um prazo de execução dessa obra. Então, você faz uma etapa,
presta conta, recebe; segunda etapa - é como medição de obra -, presta conta,
recebe; a terceira e última etapa, ou quarta, conforme o convênio, tem que ter a
condensação de todas as etapas, por isso ela é a mais pesada. Então, quando
você fala do sistema é porque, primeiro, você coloca no sistema o que fez,
coloca no sistema a apresentação de contas e, depois, você manda a
documentação, que só chega ao final. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA:
10/11/2011)

É também mais frequente no sub-corpus brasileiro o uso alocutivo de você, que


ao contrário do sub-corpus português, não é confinado quase exclusivamente aos
apartes. Embora não seja a FT alocutiva mais utilizada nos debates brasileiros que
integram este sub-corpus, você parece ter ganho o seu lugar nas intervenções dos
deputados, sobretudo em contextos de cortesia positiva, em que se procura valorizar a
imagem do outro através de FFAs. Em (250), o locutor pretende salientar o desejo do
interlocutor de mudar o status quo numa instituição pública, avaliando positivamente
assim a sua imagem política profissional.

(250) O SR. DEPUTADO CARLOS MAGNO - ... E eu gostaria também de


dizer, Celso, que eu estive na sua posse e pude ouvir de você que você ia
fazer um choque administrativo no INCRA. (Audiência Pública N°:
1245/11 DATA: 24/08/2011)

Em (251), o uso de você deve-se, por um lado a uma proximidade locutiva entre
os dois locutores – aliás, expressa claramente ―Amigo Deputado, se me permite
chamá-lo assim, porque eu já o conheço há muitos anos‖ – mas também pelo facto de
o locutor tentar criar uma adesão ao seu discurso. No que diz respeito à dinâmica
interlocutiva que o locutor pretente construir, notamos que se baseia na igualdade, na
proximidade e na valorização recíproca: ―eu tenho profundo respeito por você e
tenho certeza de que você tem por mim também‖.

(251) O SR. MINISTRO CARLOS LUPI - Ao Deputado Caiado, algumas


coisas que ele perguntou sobre feudos de estruturas montadas. Amigo
Deputado, se me permite chamá-lo assim, porque eu já o conheço há muitos
anos, eu tenho profundo respeito por você e tenho certeza de que você tem
por mim também, eu não tenho, dentro da estrutura do Ministério...
(Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

284
Notamos o mesmo mecanismo em (252): você ocorre numa intervenção que
constitui um FFA para com o alocutário. Por um lado, o locutor refere a relação que tem
com o alocutário: ―foi meu Secretário de Governo‖, ―Você foi o meu primeiro Secretário
de Governo, em 1999‖, o que indica uma proximidade entre os dois, congruente com o
uso de você, de facto um pronome T (na terminologia de Brown & Gilman 1960) no
português brasileiro. Aliás, as seis ocorrências de você aparecem numa sequência em que o
locutor explicitamente confirma que quer dirigir-se ao alocutário: ―É apenas para dizer
algo ao Carlos Lupi‖, portanto, apesar da dimensão pública do debate parlamentar, o
locutor tenta criar uma comunicação direta (quase privada) com o interlocutor, avisando-o
sobre os seus inimigos. Podemos observar que o episódio alocutivo se relaciona com a
afirmação da posição do governo, sendo enquadrado – tanto no início: ―posso
testemunhar aqui a sua integridade pessoal‖, como no fim: ―O Carlos Lupi [...] desonesto
eu afirmo que ele não é‖ – por FFA que reafirmam inequivocamente a honestidade do
interlocutor (acusado por desvios de fundos federais).

(252) O SR. DEPUTADO ANTHONY GAROTINHO - É apenas para dizer


algo ao Carlos Lupi, hoje Ministro, que foi meu Secretário de Governo, pelo que
eu posso testemunhar aqui a sua integridade pessoal. Talvez, Lupi, você não
tenha compreendido esse processo. Você está sendo fritado, mas não pela
imprensa nem pela Oposição. Você está sendo fritado pelo Governo. É o
Governo que está te fritando. Porque nem a Oposição nem a imprensa teriam
acesso às informações que tiveram se não houvesse elementos dentro do
Governo repassando essas informações. Então eu trago aqui um abraço e
minha solidariedade a você. Se os dados são verdadeiros ou não, a
Justiça, como você disse, vai investigar. Mas eu quero dar aqui meu
testemunho pessoal. Você foi o meu primeiro Secretário de Governo, em
1999. O Carlos Lupi pode ter outros defeitos - e tem muitos -, mas desonesto eu
afirmo que ele não é. (Audiência Pública N°: 1857/11 DATA: 10/11/2011)

Em relação aos empregos de vocês, destacamos alguns exemplos que nos


parecem relevantes. (253) mostra usos desta FT em contextos de cortesia negativa ou
positiva. Num primeiro momento, o locutor mostra-se preocupado com o tempo da
sua intervenção, de modo a não abusar do tempo dos interlocutores: ―Vou procurar
ser mais sucinto para não ocupar muito o tempo de vocês‖, valor que remete às
estratégias de cortesia negativa, em que se pretende não invadir, não interferir no
espaço (simbólico) dos outros. A segunda ocorrência mostra uma estratégia de
cortesia positiva, em que o locutor procura a adesão dos outros, através de um
convite147, e mostrando-se cooperante. É, na nossa opinião, um vocês consensual, que
tenta aproximar o locutor dos membros da oposição: ―eu gostaria de convidar a
Oposição, todos vocês‖, agindo na lógica EU +