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ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

POLÍCIA CIVIL
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE HOMICÍDIOS E PROTEÇÃO À PESSOA
2ª DELEGACIA DE POLÍCIA DE HOMICÍDIOS E PROTEÇÃO À PESSOA

RELATÓRIO
IP nº 209/2020/200820-A

O presente inquérito policial foi instaurado, a partir de auto de prisão em


flagrante, para apurar a prática do delito de HOMICÍDIO, na forma CONSUMADA, fato
ocorrido em 19/11/2020, por volta de 21h, na Avenida Dr Plínio Brasil Milano, 2343,
Bairro Passo D'Areia, nesta Capital, onde figura como vítima JOÃO ALBERTO
SILVEIRA FREITAS, conforme comunicação de ocorrência nº 5503/2020/200720 (fls.
04/06).

Segundo RELATÓRIO DE LOCAL DE CRIME, equipe de investigação


preliminar deste Departamento compareceu ao local em razão de ter sido noticiado o
homicídio de um indivíduo no interior do Supermercado Carrefour. A cena estava
preservada pela Brigada Militar que, por intermédio de seus Policiais, informaram que a
vítima havia entrado em atrito com uma funcionária, razão pela qual Giovane Gaspar da
Silva e Magno Braz Borges intervieram e o conduziram até a saída do estabelecimento,
local onde entraram em luta corporal. Citou-se que, durante a imobilização de João
Alberto, este veio a morrer. Exame pericial apontou a presença de "colar equimótico" no
cadáver (fls. 16/24).

Frente aos eventos que se apresentavam, em especial imagens captadas


por populares, entendeu a Autoridade Policial Plantonista do Departamento de
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Homicídios AUTUAR EM FLAGRANTE, pela prática de homicídio doloso, consumado,


qualificado por motivo fútil, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima,
Giovane Gaspar da Silva e Magno Braz Borges, indivíduos que exerciam a função de
segurança do empreendimento e que, durante a imobilização da vítima, causaram-lhe a
morte (fl. 14).

O procedimento preliminar foi encaminhado ao Poder Judiciário, tendo


sido HOMOLOGADO, convertendo-se a prisão em flagrante em PRISÃO PREVENTIVA
conforme requerido pelo Ministério Público (fls. 50/51).

No intuito de esclarecer os fatos, foram colhidos os DEPOIMENTOS


conforme seguem:

Alex Oliveira Braga, policial militar, relatou ter sido acionado via DCCI
para atender uma ocorrência no Supermercado Carrefour. Ao chegar no local,
visualizou a vítima caída no solo, aparentemente sem sinais vitais. Disse que Giovane
Gaspar da Silva prontamente se identificou como sendo policial militar e passou a
relatar que estava em compras no mercado quando viu a vítima importunando a
funcionária de nome Jéssica Saldanha. Segundo narrou Giovane, ele resolveu dar
apoio a Magno Braz, que estava sozinho. Alegou que, na escada rolante, a vítima teria
empurrado outros clientes e, ao chegarem na porta de saída, João Alberto teria dado
um soco na boca de Giovane. Então, este e Magno tentaram imobilizá-lo. Giovane teria
referido, ainda, que estava em cima de João Alberto, mas, quando percebeu, ele estaria
desmaiado. Citou que Adriana Alves Dutra, agente de fiscalização, lhe disse ter sido
chamada em razão da situação e, quando visualizou o fato, solicitou, via rádio, que
fosse acionada a Brigada Militar (fl. 27).
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Douglas Lemos da Silva Mezadri, policial militar, confirmou ter se


deslocado ao Supermercado Carrefour, onde um indivíduo estaria em atrito com os
seguranças. Disse que, no local, havia várias pessoas em volta de um indivíduo caído
no solo, tendo o SD Giovane Gaspar da Silva se identificado e relatado o ocorrido ao
depoente. Segundo Giovane, ele e Magno entraram em atrito com um homem que
estava alterado, a fim de contê-lo, sendo que, durante a contenção, a vítima teria
desmaiado. Citou que Giovane disse estar em compras no supermercado quando
presenciou os fatos e afirmou que Magno era funcionário de uma empresa terceirizada
que prestava segurança para o Carrefour. Alegou que o soldado dissera que a briga
teria começado no interior da loja em razão da vítima ter agredido uma funcionária do
mercado. Ao presenciar o ocorrido, Giovane teria acompanhado a vítima até a saída,
auxiliando Magno, momento em que João Alberto lhe desferiu um soco (em Giovane).
Destacou que o SAMU teria sido acionado, chegando ao mesmo tempo em que a
guarnição, no entanto a vítima já estaria em óbito (fl. 28).

Jéssica Saldanha dos Santos, funcionária da Vector, declarou estar em


frente aos caixas com Magno, quando um cliente que estava com uma senhora passou
a encará-los. Disse que o cliente deixou a mulher passando as compras e veio em sua
direção. Alegou ter-se esquivado, ao passo que João Alberto foi em direção a Magno,
fazendo um gesto com as mãos como se fosse empurrá-lo, tendo ele desviado.
Apontou que o cliente novamente fez o gesto em direção à declarante, motivo pelo
qual, mais uma vez, desviou o olhar. Informou não saber o motivo da atitude do cliente
e nem o conhecer anteriormente. Destacou que um outro rapaz, o qual não sabe dizer o
nome, mas que conheceu na data do fato, fez um gesto para apaziguar a situação. Ato

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contínuo, acompanhou o cliente, junto com Magno, à saída. Comentou que tal rapaz
estava trajando uma roupa preta, mas que não trabalharia como segurança no
Carrefour. Aduziu não ter visualizado a situação ocorrida na entrada da loja, depois do
cliente sair acompanhado de Magno e do outro rapaz. Mencionou que, com a chegada
da Brigada Militar, foi chamada até a entrada do mercado, momento em que observou
os médicos efetuando os primeiros socorros na vítima. Ressaltou que João Alberto, no
momento em que fazia gestos em sua direção, não aparentava estar fazendo uma
brincadeira, mas, sim, descontente com alguma coisa (fl. 30).

Reinquirida, Jéssica disse que conversava tranquilamente com seu


colega Magno Braz Borges, quando visualizou João Alberto chegar no caixa,
juntamente de sua esposa, tendo ele passado a "encará-los". Contou que, em
determinado momento, João Alberto se aproximou e lançou-lhe um “olhar agressivo”.
Disse que, passados alguns instantes, ele se aproximou e falou alguma coisa que não
entendeu, em razão do alto ruído do local e, também, porque o cliente usava máscara
facial. Comentou que, nesta primeira aproximação, saiu de perto, caminhou para o lado,
mas João Alberto novamente se aproximou e voltou a gesticular coisas que não soube
explicar, pois já estava tensa com a situação. Alegou não ter entendido o que ele fez
com a mão e nem o que ele falou. Instantes depois, refere que João Alberto saiu e
aproximou-se Magno. Destacou que, em seguida, a fiscal Adriana chegou perto de
João Alberto e Magno e falou algo que não sabe o que foi. Explicou que Adriana veio
ao local porque João Alberto teria se aproximado duas vezes da depoente em situação
suspeita e, portanto, fora alertada pela central de monitoramento de imagens.
Mencionou que, segundos depois, outro funcionário, de nome Giovane Gaspar da Silva,

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chegou perto do cliente e acredita que o tenha convidado para se retirar do local.
Referiu ter conseguido ver Giovane conduzindo João Alberto tranquilamente em direção
às escadas rolantes, acredita que por ter-lhe importunado (fls. 98/100).

Outra vez instada a se manifestar sobre o ocorrido, eis que fundamental


definir quais seriam os gestos feitos por João Alberto, bem como as palavras
pronunciadas, Jéssica esclareceu não ter compreendido os gestos feitos por ele, eis
que optou por desviar o olhar para outro lado. Salientou, apenas, que o cliente
apresentava uma expressão intimidadora desde o momento em que chegou ao caixa
de pagamento, forçando contato visual a todo instante. Destacou que, visando evitar
uma confusão na loja, desviou a atenção de João Alberto (fl. 182).

Milena Borges Alves, companheira da vítima, declarou que fazia


compras com o companheiro no Hipermercado Carrefour quando, já no caixa, ele fez
um sinal com as mãos, em forma de brincadeira, para uma moça de compleição magra
que vestia roupa preta. Citou que, em seguida, João Alberto disse-lhe que iria na frente.
Alegou ter pago as compras e, quando seguia ao encontro do companheiro, avistou
dois seguranças passarem correndo pela esteira. Ao chegar no estacionamento,
deparou-se com João Alberto no chão, sendo imobilizado por dois homens. Comentou
ter tentado se aproximar dele, que pedia ajuda, mas foi empurrada. Relatou não ter
visualizado os indivíduos agredindo a vítima, apenas o imobilizando. Declarou que o
SAMU demorou cerca de quarenta (40) minutos ou mais para chegar ao local da
ocorrência (fl. 29).

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Reinquirida, na presença de sua irmã, explicou que os gestos que João


Alberto fez com as mãos para a funcionária era uma brincadeira, tendo ela,
possivelmente, entendido que era uma ameaça. Destacou que o companheiro não
tocou na fiscal em nenhum momento. Afirmou que, enquanto fazia o pagamento das
compras, João Alberto a comunicou que iria descendo. Em seguida, dirigia-se a
encontrar o companheiro, quando dois seguranças passaram correndo pela esteira em
que estava. Alegou que, chegando na saída do estabelecimento, viu a vítima no chão e
dois seguranças em cima dela que pedia ajuda. Disse ter tentado intervir, mas foi
empurrada. Comentou que, além dos dois seguranças, havia uma mulher junto que
parecia ser a chefe deles. Apontou que, em determinado momento, acreditou que a
vítima tivesse desmaiado, mas alguns falaram que ela entrara em óbito. Mencionou
que, no caminho entre o caixa e o estacionamento, não viu nada de anormal no
mercado, nenhuma mulher alterada reclamando de ter sido agredida (fls. 59/60).

Visando esclarecer alguns fatos trazidos ao conhecimento desta


investigação, solicitou-se, novamente o comparecimento de Milena à Delegacia, tendo
ela sido assistida por sua advogada. Na ocasião, em razão de testemunhos citarem que
João Alberto teria importunado clientes no Carrefour, especificamente no dia
17/11/2020, a testemunha explicou não ter presenciado os eventos. Comentou, apenas,
que o companheiro costumava abordar outras pessoas, olhar fixamente para as
mesmas e ficar balançando a cabeça enquanto deixava as mãos para trás. Destacou
que a vítima era bastante expansiva e, por isso, parecia estar gritando. Citou que
algumas pessoas compreendiam que ele as estava intimidando pela forma com que se
comportava (fls. 141/142).

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Stephanye Alves Chaves, enteada de João Alberto, citou não se lembrar


de fatos acontecidos no dia 17/11/2020. Confirmou se reconhecer nos vídeos em que
aparecia junto de sua mãe e de seu padrasto. Esclareceu que João Alberto era uma
pessoa calma, não sendo violento ou agressivo, não tendo o comportamento de
importunar as pessoas. Afirmou ter havido crime de racismo contra a vítima e que se
esta fosse branca, nada teria acontecido. Mencionou não acreditar que o padrasto
tenha desferido o primeiro soco no segurança, embora não estivesse presente na
ocasião (fls. 144/145).

Priscila Brasil Geossling, cliente do mercado, mencionou que, na noite


do fato, avistou, na porta de acesso às dependências do Carrefour, dois seguranças
agredindo a socos um indivíduo. Disse ter se aproximado e constatado que a vítima já
estava imobilizada, mantida no chão sob os joelhos dos seguranças, verbalizando de
forma insistente que estava sem ar e clamando a todo instante por socorro.
Recorda que os seguranças não deram importância para as súplicas do homem e, logo
após, ele veio a perder os sentidos, desmaiando. Comentou que os seguranças
indagaram se entre os populares havia alguém que sabia verificar os sinais vitais, tendo
um senhor se aproximado e, depois de conferir o que lhe pediam, apontou que a vítima
havia falecido (fls. 62/63).

Aline Franciele Xavier de Oliveira, cliente do mercado, relatou que, na


noite do fato, por volta das 20h30min, dirigiu-se até o Carrefour, juntamente com seu
esposo Fernando e seu filho David, oportunidade em que avistou aproximadamente
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cinco funcionários do em disparada ao andar térreo. Disse não ter dado importância ao
fato e ter seguido em direção ao seu automóvel. Relatou que, no caminho, junto à porta
de acesso ao estacionamento térreo, se deparou com um indivíduo caído ao solo,
imobilizado por dois seguranças locais. Disse que, ao se aproximar, percebeu que o
indivíduo imobilizado apresentava sinais visíveis de asfixia. Afirmou ter
comunicado tal fato aos seguranças, os quais pediram para que a declarante não
se intrometesse em seu trabalho. Referiu que, a todo instante, a vítima
verbalizava para os seguranças que estava com dificuldade para respirar, porém
não lhe foi dada atenção. Por esse motivo, a declarante achou por bem realizar a
gravação da cena que presenciava. Referiu que, no curso da gravação, constatou
alteração da tonalidade da cor dos lábios e das extremidades dos dedos do indivíduo
imobilizado. Afirmou ter alertado novamente os seguranças, porém o indivíduo já estava
em óbito. Neste momento, recordou que os seguranças, assustados, indagaram se
havia, entre os presentes no local, alguém que soubesse checar sinais vitais. Relatou
que um senhor idoso se aproximou, checou os sinais vitais da vítima e informou o óbito.
Referiu que os seguranças ficaram desorientados e se mantiveram junto ao corpo por
alguns instantes, mas paulatinamente se afastaram. Salientou que apenas presenciou o
momento em que a vítima foi mantida imobilizada no chão, não tendo presenciado os
seguranças a agredirem. Afirma não ter visualizado o emprego de algemas ou
quaisquer instrumentos dessa natureza, sendo que a vítima foi mantida imobilizada no
chão pelo segurança, sob seus joelhos. Disse não ter presenciado os seguranças terem
posicionado seus joelhos em outras partes do corpo da vítima, com exceção das
costas. Reiterou que os joelhos dos seguranças foram mantidos nas costas da vítima
até o momento em que ela perdeu os sentidos. Afirmou ter conversado com a
companheira da vítima que lhe relatou que teria feito compras no mercado e que seu

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marido estava muito nervoso e pedia a todo instante para que fossem para casa. Em
dado momento, a vítima teria feito uma brincadeira com uma segurança do local, sendo
que essa atitude a teria desagradado. Então, seguranças que assistiam, teriam ido ao
encontro de ambos, iniciando a confusão. Afirmou que, além dos dois seguranças, se
encontrava no local uma funcionária que a tudo assistia e fazia registro de vídeo do que
estava ocorrendo. Descreveu tal funcionária como pessoa do sexo feminino,
compleição gorda, estatura baixa, medindo aproximadamente 1,65 metros, idade
aparente de 50 (cinquenta) anos e cabelos loiros, cortados na altura do ombro. Afirmou
ter acompanhado as notícias veiculadas pela imprensa acerca do caso e disse que, em
nenhum momento, presenciou a vítima ser ofendida pelos funcionários do
estabelecimento comercial em virtude de sua cor da pele ou de sua condição social.
Reiterou que, na ocasião, conversou com a esposa da vítima sobre os motivos do fato
e, em nenhum momento, lhe foi relatado a prática de racismo, e sim um suposto
desentendimento do seu companheiro com uma segurança do local (fls. 80/82).

Fernando Rodrigues Amaral, cliente do mercado, relatou que, no dia do


fato, por volta das 20h, estava no interior do Carrefour, junto de sua esposa Aline
Franciele e de seu filho David, quando, em determinado momento, ouviu uma
segurança (morena, alta, cabelo ondulado preso, vestida com uma camiseta polo preta,
calça tática preta e coturno preto) falando no rádio as seguintes palavras: “Chama a
Brigada, chama a Brigada! Deu briga lá embaixo, lá na primaria”. Em seguida, viu dois
seguranças dirigindo-se ao estacionamento. Conta que, quando desceu e passou pela
porta de vidro, viu um indivíduo sendo imobilizado por dois homens. Disse que o
indivíduo imobilizado estava deitado de barriga para baixo e mexia a cabeça de um lado

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para o outro. Afirmou que ele não oferecia resistência e parecia agonizar. Narrou que
um dos seguranças (branco, cabelo liso, nariz comprido, porte físico atlético e usando
uma correntinha cor prata) estava com um dos joelhos nas costas da vítima,
pressionando as costelas, e o outro segurança (forte, atlético, cerca de 1,70 metros,
cabelo curto e pele branca) estava ao lado da vítima, imobilizando seu braço. Referiu
que havia outros seguranças, dentre eles uma mulher (cabelo curto e liso, morena, mais
gordinha e com aproximadamente quarenta anos), que falava às pessoas que estavam
próximas da vítima: “vocês não sabem o que aconteceu lá dentro, estão vendo só isso
aqui fora”. Destacou haver, também, um segurança (careca, aproximadamente 1,75
metros, porte médio) que cercava o local onde a vítima estava sendo contida e
intimidava as pessoas que tentavam ajudá-la. Comentou que este segurança não
permitia que ninguém ajudasse a vítima e nem lhe deu ouvidos quando pediu a ele que
a deixassem respirar. Referiu ter percebido a boca da vítima roxa, a ponta dos dedos
da mão com uma coloração diferente e notado que a barriga dela não estava mais se
mexendo. Citou não ter presenciado agressões nem o uso de técnicas de
estrangulamento. Afirmou acreditar ser impossível a vítima reagir agressivamente
contra os seguranças, caso eles a largassem, pois ela estava debilitada e não oferecia
resistência. Contou que havia uma preocupação maior dos funcionários com as
filmagens que estavam sendo feitas pelas pessoas que acompanhavam a cena do que
com a vida da vítima. Salientou que, quando os seguranças foram alertados de que a
boca do indivíduo estava roxa e que ele parecia não respirar, o que estava com o joelho
nas costas da vítima se afastou um pouco, olhou, virou o corpo de lado, pegou o punho
da vítima e perguntou ao declarante se ele sabia tirar a pulsação. Neste momento, o
outro segurança, que estava segurando o braço do indivíduo, disse: “ele está
respirando sim”. Afirmou que os seguranças já tinham a situação sob controle e

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entende que não havia motivo para seguir com o nível de contenção praticado (fls.
83/87).

Camila Rodrigues Costa, cliente do mercado, declarou estar em compras


no Carrefour e, na saída, deparou-se com um indivíduo caído ao solo. Mencionou que,
ao conversar com algumas pessoas que estavam no entorno da vítima, estas não
sabiam o que teria ocorrido. Disse que, então, resolveu efetuar ligação telefônica para o
SAMU e 190, visando noticiar o fato. Narrou ter notado uma senhora chorando, que
posteriormente descobriu se tratar da esposa da vítima, e ter-lhe oferecido ajuda, o que
foi declinado por ela que disse já ter feito algumas ligações. Informou que a chefe de
segurança parecia estar agitada, sendo que os dois seguranças que a acompanhavam
pareciam estar tranquilos com a situação. Esclareceu que, enquanto se encontrava no
interior do supermercado, não presenciou nada de anormal. Destacou que, após a
chegada do socorro, foi embora (fls. 132/133).

Jonas Luis Ribeiro, cliente do mercado, informou que estava no


Carrefour e, ao sair pela porta que leva ao estacionamento, visualizou um indivíduo
caído no chão e, ao seu redor, marcas de sangue. Disse que, próximo ao corpo, estava
a chefe de segurança, de nome Adriana, que conhece por ser frequentador do
estabelecimento, tendo perguntado a ela o que havia acontecido, ao que respondeu
que se tratava de ‘‘um BO‘‘. Comentou que, percebendo que provavelmente a vítima
estava morta, ligou para o SAMU, Brigada Militar e Polícia Civil. Referiu que, após a
chegada do socorro, saiu do local. Mencionou não ter visto nenhuma situação anormal
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no supermercado. Citou se recordar de já ter visto no estabelecimento o segurança


‘‘mais fortinho‘‘, sendo que este aparentava estar calmo após o fato e que com relação
ao outro segurança desconhecia seu envolvimento com o ocorrido (fls. 134/135).

Robson Vargas Rodrigues, motoboy, esclareceu trabalhar como


entregador de aplicativo e, na noite dos fatos, ter ido até o Carrefour para buscar um
pedido realizado através do “Rappi”. Disse que, ao sair do estabelecimento, visualizou a
vítima também saindo da loja, com o braço para trás, como se estivesse tentando se
desvencilhar. Afirmou ter presenciado agressões (troca de socos) por parte dos dois
seguranças e da vítima. Contou ter pego seu celular para filmar a cena, ficando em
torno de três a quatro metros de distância dos envolvidos na confusão. Referiu que, em
seguida, se aproximou uma mulher, com uniforme branco do Carrefour, reconhecida
fotograficamente como Adriana Alves Dutra, acompanhada de dois seguranças, e lhe
disse “te liga, te liga, não faz assim, nós vamos te queimar na loja”. Relatou, ainda, que
Adriana alegou que a vítima teria agredido ela e outra funcionária do estabelecimento
comercial. Citou que, neste momento, Adriana mostrou as mãos e começou a auto
lesionar o próprio dedo com a unha. Afirmou que ela e outros seguranças lhe exigiam
que desligasse a câmera do celular, mas assim não o fez, tendo apenas baixado o
equipamento. Salientou ter falado aos funcionários do mercado “vocês não estão
contendo, estão batendo nele”. Informou, ainda, que Adriana ainda dissera que, se o
depoente e a esposa da vítima acalmassem João Alberto, ela pediria para que todos
saíssem de cima dele. Ouvindo tal argumento, a esposa da vítima respondeu “vocês
estão machucando ele, como é que querem que ele se acalme assim?” Referiu que os
seguranças pediram para que apagasse o vídeo, mas se recusou. Explicou ter dito aos

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seguranças para “aliviarem”, porém eles responderam que “sabiam o que estavam
fazendo”. Apontou que, neste momento, a vítima ainda se mexia. Em seguida, foi
conversar com a esposa da vítima para saber o que havia acontecido dentro do
mercado e, então, ouviu populares gritarem que João Alberto teria morrido. Diante
disso, os dois seguranças saíram de cima da vítima e um deles perguntou se alguém
sabia verificar a pulsação sanguínea, momento em que um senhor se aproximou do
corpo, olho para o outro segurança e não falou nada. Referiu que, enquanto era
imobilizado pelos seguranças, a vítima pedia para que lhe ajudassem. Afirmou ter
presenciado os seguranças do estabelecimento comercial agredirem a vítima com
socos e com uma “alavanca” para tentar derrubá-la, tendo acompanhado todo o período
em que João Alberto esteve imobilizado. Relatou não ter presenciado o uso de algemas
e disse que os seguranças imobilizaram a vítima utilizando os joelhos, contudo, não
soube precisar se os seguranças posicionaram seus joelhos em outras partes do corpo
de João Alberto (fls. 87/89).

Jennifer Felianny Silveira Gamboa, funcionária do mercado, falou que


trabalhava no Carrefour há um mês, como operadora de caixa, tendo atendido o casal
Milena e João Alberto na noite do fato. Relatou que, enquanto Milena passava as
compras, João Alberto seguiu por trás da companheira e se posicionou em frente ao
caixa. Disse que percebeu o momento em que João Alberto se dirigiu ao segurança
Magno, assim como, ato contínuo, à Jéssica, verbalizando coisas que não
compreendeu. Citou que Jéssica reagiu se afastando de João Alberto e que, em
seguida, o cliente retornou ao caixa, apresentando expressão facial de quem estava
contrariado. Comentou, ainda, que, neste momento, João Alberto também fez gestos à

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Milena – e, possivelmente, tenha verbalizado algo que não compreendeu –, dando a


entender que a esposa deveria se apressar. Notou que João Alberto saiu acompanhado
de seguranças, o que lhe causou estranheza, e que, após realizar o pagamento, Milena
seguiu na mesma direção. Destacou que João Alberto não lhe dirigiu a palavra em
momento algum e que não se recorda se João Alberto conversou com Milena enquanto
esteve em seu caixa (fl. 203/204).

Guilherme Arthur Adamy, gerente de operações do mercado, relatou


que, na noite do fato, por volta de 21h, percebeu uma movimentação anormal dos
seguranças, motivo pelo qual se dirigiu até o estacionamento. Disse que, chegando lá,
avistou Adriana coordenando a imobilização de um indivíduo que já estava no chão.
Alegou não ter conversado com ela sobre a conduta que estava sendo tomada eis que
não lhe cabe a tarefa de gerenciar a segurança. Citou ter ficado no local por tempo
inferior a um minuto, retornando às suas atividades. Destacou que, cerca de uma hora
depois, recebeu a ligação do gerente do bazar, o qual lhe informara ter ocorrido um
óbito no supermercado. Alegou ter efetuado contato imediato com Marcelo de Ávila
Fernandes, noticiando o ocorrido. Relatou ter voltado ao estacionamento e questionado
Adriana sobre o que havia acontecido, oportunidade em que ela lhe respondeu que
estava controlando a situação, mas que o indivíduo teria desmaiado. Explicou que, no
momento do fato, era Adriana a responsável por gerenciar a situação que se instalara
(fls. 234/236).

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Marcelo de Ávila Fernandes, diretor do mercado, esclareceu se


encontrar em sua residência, oportunidade em que recebeu ligação telefônica de seu
gerente de operações, Guilherme Adhamy, informando que um cliente havia entrado
em óbito no Carrefour por razões até então desconhecidas dele. Informou ter ido para o
local e, ao chegar lá, avistou a vítima encoberta por um lençol e, ao buscar
esclarecimentos acerca do que ocorrera, não conseguiu conversar com Adriana eis que
ela se mostrava abalada. Disse ter visualizado, por intermédio de um Capitão da
Brigada Militar, vídeos que demonstravam o que se passara. Referiu que Adriana
desempenhava a função de fiscal de loja e, na ocasião, era a responsável por
coordernar as equipes de segurança, tendo o poder de orientá-los (fls.124/125).

Jocélia Carvalho Rodrigues, funcionária do mercado, declarou


desempenhar a função de gerente de gestão de riscos e perdas. Referiu não ter
presenciado o fato, eis que se encontrava em sua residência, mas ter recebido ligação
de Adriana, noticiando que um cliente entrara em vias de fato com os seguranças e
desmaiara. Mencionou ter perguntado a ele se acionara o SAMU e a Brigada Militar, ao
que respondeu afirmativamente. Informou que, depois de reportar o ocorrido ao seu
chefe Élcio, dirigiu-se para o local. Relatou que, ao chegar lá, viu o corpo da vítima já
coberto, e Adriana, Magno e Giovane no interior da viatura da Brigada Militar, não tendo
conseguido falar com eles. Confirmou que, na sua ausência, é Adriana a responsável
pelas orientações no que tange a fatos semelhantes ao ocorrido, mas que jamais seria
entrar em contato físico com os clientes (fls. 237/239).

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Tiago Januário de Azambuja, supervisor de segurança da Vector,


esclareceu estar visitando um supermercado, na cidade de Viamão, quando recebeu
ligação de Paulo Francisco da Silva pedindo que olhasse seu WhatsApp. Afirmou ter
visualizado uma imagem do que estava ocorrendo no Carrefour, razão pela qual foi
imediatamente para lá. Comentou que, ao chegar no local, a vítima estava recebendo
massagem cardíaca por equipe do SAMU. Aduziu ter-se aproximou do agente Magno,
determinando ao mesmo que não assumisse mais o serviço. Mencionou que o
funcionário aparentava estar em estado de choque, não tendo feito comentários ou
relatos sobre o ocorrido. Citou que a orientação dada aos seguranças, em casos
semelhantes ao que se sucedeu naquele dia, é de apenas fazer o acompanhamento,
não havendo instrução para abordar clientes, conduta que deve ser da Brigada Militar.
Referiu acreditar que Magno agiu por impulso, tendo em vista que a orientação
repassada a seus agentes era diversa. Destacou que Jocélia, gerente de prevenção do
Carrefour, é a responsável pelos funcionários da segurança, inclusive sobre os agentes
da Vector, mas que, em sua ausência, tal mister é de Adriana (fls. 136/138).

Marlete Laguna de Laguna, agente de fiscalização na central de


monitoramento do mercado, alegou não ter presenciado o crime, pois estava de folga.
Disse que, trabalhava no dia 17 de novembro, quando constatou que João Alberto
importunava alguns clientes, motivo pelo qual passou-o a monitorar, no interior do
estabelecimento. Comentou se recordar que, além de causar incômodo a algumas
pessoas que estavam no mercado, João Alberto ainda andou de pés descalços e
simulou o furto de um par de chinelos, retirando-os do mostruário e os colando na
cintura. Afirmou ter solicitado aos colegas que ignorassem as atitudes e mantivessem

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distância. Referiu que, após pagamento das compras por sua companheira, João
Alberto deixou o estabelecimento (fl. 146).

Graziela Soares, funcionária do mercado, referiu ser responsável por


monitorar vendas e situações com suspeita de furto. Informou que, no dia dos fatos,
não presenciou absolutamente nada, somente tomando conhecimento pelas notícias
veiculadas na imprensa. Esclareceu que, referente ao dia 17/11/2020, recorda de um
indivíduo que ingressou na loja visivelmente alterado, vindo a saber posteriormente que
se tratava da vítima João Alberto, e que, tal indivíduo desferia pontapés nos
mostruários e puxava os cabos dos aparelhos telefônicos expostos, bem como forçava
contato visual com a depoente e importunava diversos clientes e funcionários. Citou,
quanto à forma de incomodar funcionários, que João Alberto estufava o peito para seu
colega Joel, bem como desferia tapas no próprio rosto, pedindo que lhe agredissem,
mas o colega nada fez. Destacou, ainda, que o cliente também importunara uma família
no mostruário de celulares, dificultando-lhes a escolha do produto (fl. 212/213).

Rafael Lima Brum, funcionário do mercado, narrou que, na ocasião do


crime, estava de folga em sua residência. Comentou que se recordava da vítima em
razão de ter presenciado, alguns dias antes, que ela estaria no setor de eletrônicos,
muito próximo de outros clientes, os quais demonstraram insatisfação com a interação.
Citou que João Alberto mantinha contato físico com outras pessoas, inclusive passando
as mãos do rosto de uma delas, causando desconformidade da mesma. Explicou que o
cliente, então, se dirigiu ao depoente e o informou de que João Alberto não fazia parte
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de seu grupo. Referiu ter reportado a situação ao gerente Altemir que pediu o
deslocamento de seguranças até a área. Destacou que, depois de uma breve conversa
dos funcionários com João Alberto, este se retirou do setor de eletrônicos onde estava.
Mencionou que, naquela data, João Alberto apresentava sinais de embriaguez, pois
verbalizava alto, gesticulava bastante e manuseava bruscamente os aparelhos
telefônicos do display de vendas (fl. 180/181).

Altemir Fernandes Mengue, funcionário do mercado, declarou que, no


dia 17/11/2020, estava no setor de eletrônicos, momento em que percebeu um grupo
de quatro pessoas, sendo uma destas João Alberto. Informou que, inicialmente, pensou
que o grupo estava junto, mas, logo em seguida, percebeu uma elevação no tom de voz
de João Alberto, ocasião em que uma das moças que estava no grupo se afastou e foi
falar com o funcionário Rafael, que se encontrava próximo, tendo este pedido que ela
conversasse consigo. Alegou que a referida mulher perguntara se não havia segurança
no local, haja vista a importunação causada por João Alberto. Citou que, neste
momento, repassou a situação à central de segurança da loja. Ressaltou ser visível que
o grupo estava insatisfeito com a presença do outro cliente, eis que uma segunda
pessoa o abordou dizendo “ainda bem que vocês chamaram a segurança, porque se
não eu ia dar uns tapas nele aqui mesmo!”. Afirmou, ainda, que João Alberto parecia
estar alcoolizado. Asseverou que o citado chegou a manusear os aparelhos eletrônicos
com um certo desdém e, ao se deslocar para os corredores, um dos seguranças
terceirizados se aproximou dele para conversar. Apontou que João Alberto parecia
estar bastante alterado, gesticulando e falando bem alto com o segurança. Disse,
ainda, que, após, um outro segurança da loja se aproximou, conseguindo que João

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Alberto falasse num tom de voz mais baixo. Ainda, esclareceu não ter ouvido o teor da
conversa entre ambos e que, somente mais tarde, tomou conhecimento de que o
colega apenas acompanhou o cliente até a saída da loja. (fl. 184/186).

Carla Izabel Casagrande, funcionária do mercado, relatou que, no dia


dos fatos, estava alocada no caixa da cafeteria, não os tendo presenciado. Disse que,
ao sair, no fim de seu expediente, dirigiu-se até o estacionamento, oportunidade em
que avistou o corpo de um indivíduo coberto, tendo apenas espiado a situação,
tomando ciência pela imprensa do que teria acontecido. Referiu que, no dia 17/11/2020,
por volta das 20h, enquanto atendia um cliente interessado em um aparelho celular,
percebeu um indivíduo do sexo masculino importunando outro cliente. Destacou ter
mantido a atenção voltada ao caixa, notando somente que um segurança acompanhava
o referido indivíduo dentro do interior da loja. Informou que era visível que o citado
causava um inconveniente a outro cliente. Salientou que somente constatou que João
Alberto era aquele indivíduo que importunara outro cliente porque este fora até a loja
posteriormente e fizera a observação (fl. 206/207).

Marcelo Antonetti dos Santos, funcionário da Vector, citou que, no dia


17/11/2020, dois dias antes dos fatos, trabalhava no interior da loja e foi acionado pela
fiscal Marlete, tendo em vista que um cliente estava causando um certo distúrbio. Disse
ter-se dirigido até o setor de eletrônicos onde foi interpelado por João Alberto, o qual
falava coisas totalmente sem nexo, como “então tu gosta de matar pessoas!?”. Citou
que, em seguida, ele jogou as mãos para trás e virou seu corpo, dizendo “me leva… me
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leva”; fato que o fez pensar que estivesse sob efeito de álcool ou drogas. Destacou que,
instantes depois, o fiscal Joel se aproximou, momento em que apontou sobre o
comportamento alterado do cliente que parecia estar “procurando incomodação”.
Informou que, a seguir, outra mensagem veio da central de rádio referindo que João
Alberto estaria andando sem chinelos pelo mercado. Salientou que se manteve
distante, mas constatou que ele reiterava na importunação às pessoas, eis que falara a
uma delas que deveria pagar por suas compras. Vendo tal situação, pediu que João
Alberto não invadisse o espaço dos demais. Aduziu ter pedido à companheira do citado
que o retirasse do mercado, eis que se mostrava alterado e importunando outros
clientes. Passados alguns instantes, novamente precisou se aproximar haja vista que
ele passara a dizer “eu vou virar bandido e a gente vai se cruzar”. Ato contínuo, o
cliente se deslocou em direção à saída, tendo ido embora (fl. 177/179).

Joel Faller, funcionário do Carrefour, relatou que, no dia 17/11/2020,


recebeu o comunicado de outra colega de que um indivíduo do sexo masculino estaria
abordando de maneira muito próxima outras pessoas no setor de eletrônicos. Referiu,
então, ter-se deslocado até lá, percebendo que Marcelo Antonetti conversava com o
cliente de forma acalorada. Afirmou que João Alberto falava muito alto, não dizendo
coisa com coisa, inclusive aparentando estar sob efeito de alguma droga, e
demonstrando atitude provocativa e ofensiva ao colega. Asseverou que, ao se
aproximar, João Alberto colocara as mãos para trás e dissera para tirá-lo para a rua, ao
que começou a conversar com ele em tom mais baixo, perguntando se poderia ajudá-lo
em algo. Explicou que João Alberto alegou estar sendo “cuidado”, ao que lhe ponderou
estar incomodando os demais clientes. Informou que, instantes depois, ele passou a

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caminhar descalço pelos corredores, erguendo a camiseta para mostrar que não trazia
nada consigo. Confirmou, também, ter trabalhado no dia 19/11/2020, oportunidade em
que, por volta de 20h, recebeu informação, via rádio, de que João Alberto estava
novamente causando desordem no interior da loja. Citou que, conforme a fiscal Jéssica,
João Alberto a estaria “cuidando”, motivo pelo qual o acompanhou pelas câmeras.
Salientou ter pedido à colega que se afastasse do cliente ao mesmo tempo que
solicitou que Giovane deslocasse para prestar um apoio, porém mantendo a distância.
Relatou que, logo em seguida, Magno, Giovane e Adriana passaram a acompanhar
João Alberto até a saída do estabelecimento, momento em que não mais acompanhou
o grupo pelas câmeras. Disse só ter posicionado novamente as câmeras para filmar a
situação quando Adriana começou a gritar na faixa de rádio, verbalizando para que
chamassem a Brigada Militar. Informou que não há orientação explícita sobre até onde
os funcionários devem acompanhar os clientes em circunstâncias como as que
ocorreram naquela data, mas que, em outras situações similares, uma conversa com o
cliente é o bastante para cessar a intercorrência e que, geralmente, este sai da loja por
conta própria, sem acompanhamento próximo dos seguranças, sendo observado
unicamente pela central de monitoramento (fl. 208/211).

Marcelo Cargnin D'Avila, cliente do mercado, declarou estar no


Carrefour, no dia 17 de novembro deste ano, na área dos eletrônicos, juntamente com
sua esposa Carla, sua filha e seus sogros, quando comentou “deveria ter comprado
aqui os fones”, referindo-se a uma compra efetuada em outra loja dias atrás. Explicou
que, repentinamente, Carlos Alberto surgiu se metendo na conversa e dizendo “é, tinha
que ter comprado aqui mesmo, vamo lá devolver esses fones, eu vou contigo”.

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Comentou que se dirigiram até o seu sogro, do que foram seguidos pelo outro cliente, o
qual dizia que iria quebrar a loja. Aduziu que, ao chegarem no corredor dos celulares,
João Alberto pegou um modelo e o jogou na bancada. Destacou que, em seguida, ele
tentou pegar seus óculos de grau, agarrando-o pela haste, somente não os tendo tirado
porque o empurrou. Mencionou que o tal cliente falou para seu sogro que era “negão
raiz, nego véio”, e começou a agarrá-lo e passar a mão em seu corpo como se tivesse
intimidade. Disse ter pedido que João Alberto se afastasse, momento em que sua
esposa Carla chamou pela segurança. Informou não saber o que o segurança falou ao
cliente, pois já estava mais distante deles, mas pode ver que ele (cliente) colocava a
mão para trás e falava alto “querem me algemar?”. Após esse episódio, João Alberto se
afastou, acompanhado por um segurança, que agia e conversava de forma tranquila.
Esclareceu que João Alberto olhava para o declarante de forma agressiva, acreditando
que ele estivesse sob efeito de entorpecentes, pois queria “encher o saco” de todo
mundo, chamando a atenção (fls. 231 e 232).

Carla Natasha Bilibio Dutra, cliente do mercado, afirmou que, no dia 17


de novembro, estava no Carrefour quando João Alberto se aproximou e, sem falar
nada, levou a mão em direção aos óculos do seu marido, tentando tirar do rosto dele.
Em seguida, o citado teria dito “deixa eu ver esse óculos”. Comentou que, instantes
depois, João Alberto aproximara-se de seu pai falando “esse é dos meus”, e ato
contínuo, abrançou-o. Salientou que ficaram assustados com a situação, eis que o
cliente parecia estar transtornado, drogado, bêbado, tendo um comportamento muito
invasivo. Referiu que, em seguida, um segurança se aproximou e indagou se o cliente
era da família, tendo em vista o comportamento que apresentava, ao que ele se

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afastou. Aduziu que, durante o tempo que estiveram no setor de eletrônicos, nenhum
segurança se aproximou, mas que, no setor de roupas, observou um funcionário do
Carrefour conversando “numa boa” com João Alberto (fls. 229 e 230).

Carlos Alberto Dutra, cliente do mercado, informou não ter presenciado o


fato investigado neste procedimento policial, tendo tomado conhecimento do mesmo
pela mídia. Referiu que, em razão da notícia, recebeu uma ligação de seu genro, lhe
informando que a vítima do fato ocorrido no dia 19 de novembro era o mesmo indivíduo
que os importunara dias antes no Carrefour. Comentou que João Alberto o teria
incomodado chegando próximo, colocando o braço em volta de seu pescoço, e falando
“vende um celular para esse cara que ele é um dos nossos”. Ato contínuo, relatou, João
Alberto colocou a mão no bolso de trás de sua calça, onde estava a sua carteira, tendo
de imediato o empurrado e pedido que se afastasse. Citou que, neste momento, ele
ainda teria tentado mexer nos óculos de grau usados por seu genro o qual alertou que
não o tocasse (fl. 187/188).

Milton Rafaeli Silveira Machado, ex-funcionário do mercado, o qual


compareceu espontaneamente nesta Especializada para dar seu depoimento,
esclareceu não ter presenciado os fatos, porém, em razão de ter exercido a função de
fiscal no Carrefour, conhece Adriana bem como tem ciência dos procedimentos
adotados pelo pessoal da segurança. Relatou ser comum, quando havia a desconfiança
referente a algum furto de mercadoria, serem tomadas providências, sob a orientação
de Adriana, que consistiam em constrangimento dos clientes suspeitos, através de
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acompanhamento dentro da loja por fiscais e mensangens em rádio em volume alto


para que todos que estivessem próximos pudessem escutar e o alvo se sentisse
desconfortável a ponto de devolver o bem subtraído. Acrescentou, também, ser comum,
quando um cliente causava problemas, que a gerência autorizasse o emprego de
violência para dissuadir a subtração e forçar a confissão do delito. Relatou, também,
que havia uma sala no estacionamento, próxima de onde ocorreram os fatos, sem
câmeras de segurança, para onde os seguranças levavam as pessoas detidas. Afirmou
já ter participado deste procedimento certa vez, quando uma menor de idade suspeita
foi conduzida e arguida, mas sem o emprego de violência física. Confirmou que Adriana
possui a autoridade necessária para impedir que os seguranças agridam clientes (fls.
75/76).

Carlos Gustavo Tuchtenhagen, vizinho de João Alberto, o qual


compareceu a pedido do advogado de Giovane Gaspar da Silva, informou que
frequentemente reunia seus amigos na frente da sua residência e que comumente a
vítima tentava participar. Afirmou que, nas últimas semanas, João Alberto vinha
apresentando comportamento inapropriado, razão pela qual cada vez mais passou a
ser excluído pelas pessoas que participavam dessas reuniões. Explicou que o vizinho
se mostrava agressivo e até mesmo paranoico eis que verbalizava coisas
absolutamente sem sentindo. Narrou, ainda, que, em 17 de novembro, por volta das
16h, estava trabalhando em uma obra próxima quando pessoas que moravam perto
comentaram que havia um indivíduo em frente a sua residência, portando uma faca,
“querendo matar alguém”. Afirmou que, inicialmente, acreditou se tratar de uma
brincadeira, no entanto, decidiu ir até o local verificar a situação. Disse que, chegando

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lá, nada encontrou, mas um vizinho relatou que João Alberto estaria louco e entrara em
vias de fato com indivíduos das redondezas. Informou que, durante a noite, encontrou a
vítima em via pública e solicitou a mesma que não arranjasse mais confusão na frente
da sua residência. Alegou que João Alberto reagiu proferindo ofensas. Referiu, ainda,
que, no dia 19 de novembro, entre as 8h e às 9h, tinha acabado de pegar um café em
um bar próximo a sua residência quando viu João Alberto correndo só de cueca em sua
direção e, acreditando que seria agredido, arremessou o café no rosto de João Alberto,
sendo perseguido por ele. Aduziu ter, então, jogado contra o rosto dele uma pedra que
juntara do chão instantes antes, ocasionando nele um ferimento que viu ter sangrado
muito. Depois de atingido, o vizinho saiu em sua perseguição só parando com a
chegada da esposa que o acalmou (fl. 245/246).

Willian Abadias dos Santos, policial militar, comparecendo


espontaneamente nesta Especializada, a pedido do advogado de Adriana Alves Dutra,
explicou exercer suas funções no setor de inteligência da Brigada Militar de Alvorada e
ter tomado conhecimento, depois do fato ocorrido no Carrefour, que a citada estaria
sofrendo ameaças de morte. Mencionou que, visando evitar a prática de ações
criminosas, se dirigiu até a casa dela e se prontificou a levá-la a outro lugar eis que
julgou que Adriana estaria com sua integridade física ameaçada. Afirmou que foi por
sua orientação que Adriana saiu de sua residência e foi para outra. Negou que ela
buscasse se ocultar da investigação policial ou quisesse se furtar à responsabilidade
(fls. 545/547).

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Paulo Francisco da Silva, funcionário da Vector, narrou que, no dia dos


fatos, estava no segundo piso quando, por volta das 20h30min, escutou pela central o
código “mike19” que significa sujeito masculino causando desordem. Disse ter
permanecido onde estava e acompanhado os fatos exclusivamente por rádio. Alegou
que, aproximadamente vinte (20) minutos depois, ouviu, por meio do HT, que a situação
agravara e, em razão disso, deslocou para onde se dava a situação. Referiu que, ao
chegar lá, deparou-se com a vítima caída no chão, desacordada, e aferiu os sinais
vitais da mesma, salientando que ainda estava com vida, porém com sinais fracos.
Mencionou ter questionado alguns funcionários presentes, sobretudo Adriana, para se
inteirar dos fatos, oportunidade em que foi informado de que a vítima causara desordem
no interior da loja e fora convidada a se retirar do local. Alegou ter tomado
conhecimento de que, no caminho, a vítima teria agredido um dos seguranças,
iniciando, então, uma contenda entre as partes envolvidas. Aduziu ter perguntado se
fora acionada a Brigada Militar e o SAMU, ao que lhe responderam afirmativamente.
Citou que, na semana em curso, a vítima havia ingressado no supermercado, com
sinais de embriaguez e/ou drogadição e que alguns clientes reportaram para
funcionários do mercado importunações causadas por ela (fls. 108/110).

Reinquirido, Paulo reconheceu-se em um vídeo que lhe fora mostrado


onde fala: "não faz cena, (...) a gente te avisou da outra vez". Explicou que, alguns dias
antes do fato, João Alberto teria estado no supermercado bastante alterado e que,
inclusive, andou de pés descalços pelo interior da loja. Além disso, ele fazia gestos com
as mãos, como se denotasse estar com uma arma de fogo, e, também, se aproximava
das pessoas, forçando um abraço. Mencionou que o citado, naquela oportunidade, fora
acompanhado até a esteira para que fosse embora. Ressaltou entender que, no dia 19,
a vítima estava querendo chamar atenção, pois tinha conhecidos na sua volta e sabia
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que haviam pessoas filmando o que estava acontecendo e, em razão disso, proferiu as
seguintes palavras: “não faz cena”. Sobre o momento em que fala: “a gente te avisou
antes”, explicou que, pelos motivos já citados acerca do comportamento pretérito de
João, o mesmo foi avisado para não voltar mais a ter tais atitudes. Comentou que
possivelmente João estava sendo monitorado em razão das suas atitudes anteriores.
Relatou, que, ao chegar no local dos fatos, a vítima já estava contida e que não
presenciou socos e chutes. Destacou, por fim, ter orientado Magno e Giovane a
colocarem João Alberto sentado, mas eles não o atenderam (fls. 148/149).

Kleiton Silva Santos, funcionário do mercado, narrou que, por volta de as


20h30min, sua colega Jéssica, que atua como frente de caixa, informou, via rádio, uma
alteração em seu setor. Referiu que, como não era uma situação envolvendo furto de
bens da loja, não foi acionado de imediato. Após alguns minutos, a supervisora da loja,
chamada Adriana, gritou no rádio que era para a central de segurança acionar a
Brigada Militar. Disse que, diante da confusão, desceu as esteiras e, próximo à saída
do estacionamento, visualizou João Alberto no chão e os seguranças Giovane e Magno
tentando imobilizá-lo. Citou que havia muito sangue no chão e que, na hora, pensou em
auxiliar os seguranças, já que eles não estavam conseguindo imobilizar o indivíduo.
Mencionou que, frente à dificuldade em imobilizar a vítima, afirma ter dado um chute no
braço desta para tentar colocá-lo para trás, mas, mesmo assim, não foi possível atingir
o intuito. Afirmou que, pelo que se recorda, depois deste momento, não encostou mais
no indivíduo, que seguiu se mexendo e gritando, mas que já estava contido pelos dois
seguranças. Referiu não lembrar o que João Alberto gritava, porém, afirmou que a
vítima se mexia muito, tinha bastante força e se recusava a ser imobilizada, o que

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dificultou a ação dos seguranças. Relatou que, neste momento, Adriana, que é sua
superior hierárquica, mandou que voltasse ao supermercado. Comentou que, enquanto
estava transitando pela loja, ouviu no rádio que a Brigada Militar e o SAMU haviam sido
acionados, contudo, não presenciou a chegada dos mesmos. Aduziu ter ficado na
recepção até o momento de fazer o “lacramento” da loja com o gerente Guilherme.
Explicou que, enquanto estava na recepção, ouviu no rádio que João Alberto havia
desmaiado e, enquanto estava com Guilherme, presenciou o gerente receber uma
ligação que comunicava a morte do indivíduo, oportunidade em que voltou ao local.
Alegou que, no momento dos fatos, não viu ninguém agredindo a vítima, apenas
tentando imobilizá-la, mas admitiu ter visto vídeos que circularam no whatsapp onde os
dois seguranças agridem a vítima e a derrubam no chão. Afirma que o objetivo da
imobilização da vítima pelos seguranças, e também pelo declarante, era contê-la até a
chegada da Brigada Militar (fls. 77/79).

Rafael Rezende, funcionário do mercado, afirmou exercer a função de


fiscal de loja. Relatou que, na data do fato, foi até a sala de controle entregar uma
chave, momento em que foi informado por Joel que estava tendo uma desordem no
estacionamento. Referiu que Joel permaneceu no monitoramento das imagens e o
declarante correu até o local, onde se deparou com Magno e Giovane posicionados em
cima da vítima. Disse que Adriana, fiscal chefe da segurança do Carrefour, estava no
local e afirmou que a situação já estava controlada e que a vítima apenas estava sendo
contida. Alegou ter falado à Adriana que ela não deveria conduzir a situação daquela
maneira, tendo ela dito para o declarante retornar para a loja, o que fez. Relatou que
Adriana dizia a Magno e Giovane “só imobiliza, só imobiliza”. Referiu que a vítima dizia

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“me larga, me larga”, mas o declarante não percebeu que o homem estivesse sufocado.
Afirmou que ninguém tentou ajudar a vítima e que os populares que estavam no local
se preocupavam apenas em filmar. Disse que Kleiton tentou ajudar Magno e Giovane a
imobilizar a vítima, porém não o viu agredindo João Alberto. Argumentou que, em sua
visão, a intenção dos participantes era imobilizar João Alberto, mas a situação saiu do
controle. Esclareceu não ter agredido a vítima e afirmou não saber por qual motivo a
confusão iniciou, apenas tendo ouvido falar, posteriormente, que era em razão de a
vítima ter se desentendido com uma funcionária (não soube dizer quem) que trabalha
no caixa (fls. 101/103).

Adriana Alves Dutra, fiscal do Carrefour, declarou que, na ocasião do


fato, foi acionada em razão de que um cliente teria entrado em atrito com uma
funcionária. Mencionou que, ao chegar no local, avistou um outro cliente, policial militar,
apaziguando a situação, em auxílio do fiscal de piso Magno, tendo ambos
acompanhado o indivíduo até a saída do supermercado. Referiu que Jéssica lhe
avisara que a vítima tinha comportamento agressivo e que havia entrado em conflito
com outros funcionários dias antes. Disse que, no momento de sua chegada, João
Alberto estava tranquilo e, durante o acompanhamento até a saída, ele empurrou uma
cliente, e foi novamente orientado pelo policial e o fiscal a se acalmar. Afirmou que, logo
em seguida, a vítima teria desferido um soco no policial e ambos se “embolaram”.
Alegou ter pedido, via rádio, para que chamassem a Brigada Militar. Declarou ter
acionado SAMU ao constatar que a vítima sangrara e, depois, desmaiara. Apontou que,
enquanto era contida, a vítima proferia xingamentos, não tendo ouvido a mesma pedir

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ajuda. Frisou ter solicitado, várias vezes, a Magno e ao policial que largassem a vítima
(fl. 31).

Reinquirida, Adriana esclareceu que fora acionada em razão de João


Alberto ter agredido física e verbalmente a funcionária Jéssica. Citou que, ao se
aproximar, Magno a alertara que o cliente estaria muito alterado. Mencionou ter se
aproximado dele e se apresentado, ao mesmo tempo em que Giovane chegara.
Comentou que ele conversou brevemente com João Alberto e, ato contínuo, saíram em
direção ao estacionamento. Afirmou ter acompanhado Giovane e Magno, mas negou
ter presenciado a vítima agredir Giovane. Referiu que, em seguida, avistou a vítima,
Magno e Giovane entrarem em vias de fato, razão pela qual, via rádio, pediu que a
Brigada Militar fosse contatada. Destacou que, enquanto a situação transcorria,
entregadores de fast food a ofendiam, sendo este o motivo de pedir-lhes que não
agissem dessa maneira, tendo usado a expressão "queimá-los na loja". Negou,
portanto, que a afirmativa fosse em decorrência de estarem filmando a situação.
Explicou ter acionado o SAMU e, também, pedido à esposa da vítima, Milena, que
ajudasse a acalmá-la, ao que ela lhe virara as costas. Salientou que, em seguida,
dirigiu-se a Kleiton pedindo que retornasse ao interior da loja. Apontou ter pedido a
Giovane e Magno que soltassem a vítima após estar imobilizada. Justificou ter dito que
somente soltaria a vítima com a chegada da Brigada Militar para acalmá-la. Constou
que, no primeiro depoimento, se referiu a Giovane como policial e cliente, pois nunca o
tinha visto atuando na segurança do estabelecimento anteriormente. Admitiu que, na
ausência de Jocélia, possui gerenciamento dos seguranças. Informou que a vítima não
parecia estar com dificuldades de respirar durante a contenção (fls. 155/157).

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Giovane Gaspar da Silva, ex-PM Temporário, expôs que exercia a


função de Policial Militar Temporário, desde o ano de 2018, atuando em funções
administrativas. Citou que, a partir do dia 19 de novembro do ano corrente, passou a
desempenhar atividades de segurança no Carrefour, a fim de complementar sua renda.
Afirmou que, durante as funções daquele dia, conversou com Adriana que o informou
de que, na ausência de Jocélia, seria ela quem orientaria suas atividades em caso de
necessidade. Disse que, próximo ao fim de seu turno, escutou pelo rádio um pedido de
apoio no interior da loja, precisamente no caixa nº 25. Informou ter-se dirigido ao local
informado, onde se deparou com João Alberto encarando a fiscal Jéssica, como se
estivesse muito bravo. Salientou que não tinha conhecimento do tipo de incidente que
ocorrera antes. Citou ter-se aproximado de João Alberto, colocado a mão sobre seu
ombro e dito “tudo tranquilo”, ao que respondeu “tô tranquilo”, afastando-se
repentinamente em direção à porta de saída. Afirmou que, como não sabia o que tinha
acontecido antes, optou por ir atrás do cliente. Aduziu que, no trajeto, ingressaram na
esteira rolante, tendo, em dado momento, João Alberto esbarrado numa senhora que ali
estava. Disse ter seguido atrás do cliente até a porta de acesso ao estacionamento,
ocasião em que, repentinamente, ele lhe desferiu um soco, causando-lhe surpresa.
Alegou que sua primeira reação foi tentar imobilizar a vítima, que lhe atingiu novamente
com outro golpe. Explicou que Magno passou a ajudá-lo na tentativa de contenção,
visto que a vítima era muito forte e aparentava estar sob o efeito de drogas. Confirmou
que ambos agiram no intuito de derrubá-la no chão, já que assim ficaria mais fácil de
imobilizá-la. Destacou, ainda, ter tentado aplicar o golpe conhecido como “mata-leão”,
porém não logrou êxito porque João Alberto era muito forte. Declarou que, após Magno
conseguir derrubar a vítima no chão, imobilizou as pernas da vítima com seus joelhos e,
em seguida, seu braço esquerdo, ao passo que Magno imobilizou o braço direito.

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Descreveu que, enquanto tentava imobilizar a vítima, por vezes escutou a voz de
Adriana, que disse “para, para”, mas que não soube interpretar para quem se tratava a
ordem. Relatou que, em nenhum momento visualizou Adriana, apenas a ouviu, eis que
estava focado em imobilizar João Alberto. Explicou que, após imobilizar a vítima,
quando esta parou de se debater, ficou com receio de soltá-la porque era muito forte e
poderia agredi-lo novamente. Salientou que, ao constatar que o mesmo cessou as
reações, reparou que os olhos da vítima estavam abertos, pensando que, a qualquer
momento, ela poderia voltar a reagir. Disse ter soltado o braço de João Alberto e se
posicionado atrás de sua cabeça, de tal modo a evitar uma possível agressão. Relatou
que um funcionário da Vector, utilizando luvas cirúrgicas, se aproximou para conferir os
sinais vitais da vítima, revelando que o mesmo estava respirando. Alegou que, instantes
depois, um cliente presente no entorno se aproximou e fez o mesmo, avisando que
acreditava que João Alberto havia morrido. Destacou ter ficado muito nervoso e
indagado onde estava o SAMU, ao que Adriana respondeu que o atendimento médico
estava a caminho. Confirmou que a orientação, em casos de clientes que causem
distúrbio dentro da loja, é de acompanhá-los até o portão de acesso à via pública.
Negou ter ouvido a vítima verbalizar que estava com dificuldade de respirar. Apontou
que sua conduta se baseou apenas em conter João Alberto, eis que ele o agredira e,
portanto, desejaria representar criminalmente após a chegada da Brigada Militar (fls.
222).

Magno Braz Borges usou de seu direito constitucional ao silêncio e, por


meio de sua defesa constituída, manifestou-se no direito de nada declarar em sede
policial.

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DILIGÊNCIAS INVESTIGATÓRIAS:

1 - IMAGENS CAPTADAS POR POPULARES:

1.1 - RELATÓRIO DE IMAGENS de fls. 386/405

Observa-se uma série de socos desferidos por Giovane direcionados à


cabeça da vítima que "urra" e "geme", tentando levantar-se, enquanto Magno procura
agarrar-lhe os braços e Adriana repete "vou chamar a brigada, vou chamar a brigada".

Logo em seguida, cessadas as agressões, estando a vítima apenas


contida, diante do questionamento de populares que filmam a ação, Adriana diz para
um motoboy: “não faz isso, não faz isso que senão eu vou te queimar na loja”.

No intuito de explicar o que estava acontecendo, Adriana refere: “Viu o


que ele fez lá? Ele (…) lá em cima, ele deu numa mulher lá em cima cara, te liga”.

Em seguida, ela comenta: “a gente (…) conduziu ele, a gente só trouxe


ele até aqui, mas ele bateu (…) ele pode? A gente tá trabalhando, ele pode bater
em nós?”

O indivíduo que filma, ao ouvir de Adriana que apenas estão tentando


imobilizá-lo, contra argumenta alegando: tentando não, batendo nele”. E destaca: "só
que é um absurdo isso aí”.

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Adriana, ainda refere: “(…) presta atenção (…) ele deu soco na cara de
todo mundo ali, só não apanhei porque eu fugi (…) é melhor sim, olha aqui ó, ele
torceu meu pé na porta (…) ô gente a gente só tava conduzindo ele (...)

Milena se aproxima e ouve de Adriana: "se a senhora conseguir


acalmar ele, eu tiro todo mundo de cima dele".

1.2 - RELATÓRIO DE IMAGENS de fls. 440/442

Em uma das cenas captadas por populares, a vítima aparece no chão,


agonizando, enquanto Paulo lhe responde "Ei rapaz, óh, sem cena tá? Sem cena, é a
(inaudível) vez que tu vem e a gente te avisou da outra vez".

Logo depois, Adriana fala: "Não, a gente não vai te soltar, pra ti bater
em nós de novo?"

A vítima, então, com dificuldade alega "vocês estão me sufocando".

2 - IMAGENS OBTIDAS JUNTO AO SUPERMERCADO CARREFOUR:

RELATÓRIO DE IMAGENS de fls 406/439

Antes de iniciar a transcrição, necessário apontar que algumas imagens captadas e


analisadas possuem horários diversos do tempo real, observando-se um delay de aproximadamente
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1h14min.

Verifica-se que, pelas cenas captadas, João Alberto e sua companheira


Milena chegam ao supermercado às 20h32min (horário adiantado).

Às 21h43min (horário adiantado) o casal passa em frente aos caixas


buscando um que esteja livre e, então, se encaminha para passar as compras no
guichê de nº 25.

É possível visualizar que a vítima gesticula várias vezes para a atendente


feminina. Percebendo tal conduta, Milena olha para trás, por alguns instantes, tendo
João Alberto cessado os gestos que fazia.

A seguir, João Alberto, que estava atrás de Milena, passa por ela, saindo
do caixa, posicionando-se em frente ao guichê. Olha na direção da fiscal Jéssica, que
está nas proximidades, e vai se aproximando dela.

Quando João Alberto está quase em frente da funcionária, esta se afasta,


mas ele segue atrás, fazendo gestos com a mão direcionados a ela.

Vendo o ocorrido, Magno, que estava próximo, procura chegar mais perto
de Jéssica, João Alberto resolve voltar ao ponto inicial, mais perto do caixa onde
deixara a companheira efetuando o pagamento e acondicionando os produtos, e se
coloca ao lado de Magno.

João Alberto, então, olha para Magno e continua a gesticular com a mão.
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Magno tem um rádio comunicador em mãos e, pode ter feito alguma


solicitação à central de monitoramento, eis que Adriana vem até o local. Ela se
posiciona entre Magno e João Alberto, passando a olhar para este último.

Em seguida, chega Giovane, vindo pelo corredor, e, ao encontrar João


Alberto, toca-lhe o ombro com uma das mãos. João Alberto sai caminhando, Giovane
ao lado, e, um pouco atrás, Magno e Adriana.

João Alberto segue pelo corredor, bem como os citados funcionários, os


quais aparecem descendo a esteira rolante, tendo aquele optado por não ficar parado
como os demais clientes com seus carrinhos, mas segue caminhado.

Ao final da esteira, todos eles se dirigem para o corredor que dá acesso


ao estacionamento. Não se observa que tenha havido movimento corporal de conversa
entre eles, ou seja, não se vê que uns se voltem para os outros ou que se olhem, sendo
apenas visualizado que seguem caminhando.

Quando o grupo se aproxima da porta automática de saída, às 20:42:58,


João Alberto se volta para Giovane e lhe desfere um soco. Magno tenta imobilizá-lo,
iniciando-se agressões mútuas, sob o acompanhamento de Adriana.

Magno tenta conter João Alberto que, novamente, agride Giovane e


também Magno.

Os dois seguranças procuram derrubar João Alberto, em meio a

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agressões direcionadas a ele que está de quatro apoios, ainda buscando se levantar.

Já no chão, João Alberto é agredido inúmeras vezes por Giovane e


Magno, tudo sendo presenciado por Adriana.

Clientes começam a sair pela área onde ocorre o fato e se aglomeram no


entorno, percebendo-se que procuram falar com os funcionários do supermercado.

Logo chegam Kleiton e Rafael, que vêm correndo, tendo ambos também
agredido João Alberto, no entanto, em menor intensidade e quantidade do que Giovane
e Magno.

João Alberto segue se debatendo enquanto ainda recebe socos e chutes


por parte de Giovane, Magno, Kleiton e Rafael.

As agressões perduram até 20:44:25.

Neste momento, motoboys e clientes que assistem às cenas, já estão


filmando o que se passava no local.

Milena se aproxima para ajudar o companheiro por duas vezes, mas é


afastada, primeiro por Paulo, e, depois, por Rafael e Kleiton.

Adriana e Rafael, vendo que populares estão filmando, aproximam-se


deles, podendo ser visualizado que conversam algo.

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Enquanto isso, Giovane e Magno dominam a vítima que fica contida,


deitada, no chão. A imobilização, sem a aplicação de agressões físicas como socos e
chutes, perdura de 20:44:27 até 20:48:49, sendo visualizado que João Alberto tem
sobre seu corpo os dois seguranças, Giovane com o joelho sobre seu braço e Magno
com o joelho sobre suas costas.

Neste momento, outro funcionário, Paulo, se aproxima, conversa e


gesticula em direção aos colegas.

Às 20:48:49 observa-se que Giovane e Magno cessam a contenção da


vítima que não mais se mexe.

Adriana parece fazer contato com alguém via rádio ou aparelho celular.

Paulo permanece ao lado de Magno e Giovane os quais colocam a vítima


de lado até virar-lhe o corpo.

Visualiza-se um popular se abaixar para, supõe-se, conferir os sinais vitais


de João Alberto que está imóvel.

Neste momento, os dois seguranças se levantam e, passado algum


tempo, saem do local, lá deixando a vítima, que fica apenas sob a observações de
Paulo e de populares que continuam no entorno.

A vítima, desfalecida, fica caída na área de acesso ao supermercado, por

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quase 10 minutos, sem que ninguém venha a atendê-la.

Às 21h08min equipe do SAMU chega ao local e seus profissionais


passam a fazer massagem cardíaca na vítima.

Uma segunda equipe de atendimento de emergência vem em auxílio e dá


continuidade à massagem cardíaca até por volta de 21h43min quando deixam o
estabelecimento já com a presença da Brigada Militar.

Pouco depois vêm ao local, a Polícia Civil e Instituto Geral de Perícias.

3 - ATENDIMENTO À VÍTIMA:

Acerca do atendimento à vítima, profissionais do Serviço de


Atendimento Móvel de Urgência emitem uma Ficha de Atendimento Pré-Hospitalar
SAMU, citando que, às 21h01, do dia 19/11/2020, prestaram o atendimento,
finalizando, às 21h40min, com a constatação de óbito.

Instados a se manifestarem sobre o horário em que foram acionados,


afirmaram ter sido às 20h55min pela senhora Adriana.

Efetuada a degravação da primeira conversa telefônica mantida por


Adriana com a atendente do SAMU, verificou-se o que segue:

Operador: SAMU 192, qual a sua urgência?

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ADRIANA: Ah… um senhor aqui se pegou no pau com um


pessoal aqui embaixo; ele tá passando mal… tem como alguém
deslocar aqui no Carrefour? Urgente!

Operador: Carrefour de qual (inaudível)?

ADRIANA: Carrefour da Plínio!

Operador: Ah tá! Não é o da Bento Gonçalves ali!?

ADRIANA: Ãhn!?

Operador: Não é na Bento Gonçalves?

ADRIANA: Não! É Plínio Brasil Milano!

Operador: Tá. Qual é o número aí!?

ADRIANA: Ah.. 2343.

Operador: Com quem eu tô falando!?

ADRIANA: Com a ADRIANA.

Operador: Tu sabe o nome dele!?

ADRIANA: Quê!?

Operador: Tu sabe o nome dele!? Não?

ADRIANA: Não, não sei. Ele é cliente.

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Operador: Não tem problema… que idade que ele tem


aproximado?

ADRIANA: Acho que tem uns quarenta, cinquenta anos.

Operador: Cinquenta anos… e o que que aconteceu aí!?

ADRIANA: É, eles brigaram aqui, né! E aí…

Operador: Agressão?

ADRIANA: Isso… não… ele é cliente. Ele brigou aqui com


outros clientes, com outras coisas… a gente tentou se envolver
aqui… a gente tá bem complicado aqui. Já chamei a Brigada,
senhor. Por gentileza manda (inaudível)… só um pouquinho
(conversando com outra pessoa)…

Operador: É Adriana né!?

ADRIANA: É isso.

Operador: Tá. O que está acontecendo com a pessoa? Ela tá…

ADRIANA: Acho que ele desmaiou!

Operador: Ah, (inaudível). Tá… Adriana, avenida Brasil Milano;


dentro do Carrefour tu disse, né!?

ADRIANA: Isso; dentro do Carrefour, isso!

Operador: Tem alguma loja; alguma coisa que possa…

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ADRIANA: Sim, assim que chegar aqui… se chegar aqui perto


eu já peço pra deslocar… to em QAP aqui cuidando, tá bom!?

Operador: É Passo D´Areia aí!?

ADRIANA: Tá bom…

Operador: Alô!? Fica na linha Adriana, não…

ADRIANA: Tá, tô na linha…

4 - EQUIPAMENTO CELULAR DE ADRIANA ALVES DUTRA:

Arrecadado o aparelho celular da investigada que, forneceu a senha de


acesso ao seu conteúdo, o mesmo foi examinado por esta equipe de investigações que
localizou duas mensagens relacionadas ao fato, enviadas à Adriana por alguns
conhecidos/amigos, os quais citam:

Mensagem enviada pelo contato Marlete Amiga: "Gessica pois ele


ameaçou com a mão ela".

Mensagem enviada pelo contato Thiago P 7: "sim, com certeza, eles não
pensavam que ia acontecer isso, né, até porque ninguém morre com um soco na
cabeça (...) a questão é que o brigada ratio, botou o joelho em cima, fez que nem o
policial americano aquele e asfixiou o cara (...) despreparado, não tem a manha da
imobilização e tal (...)".

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Remetido o equipamento à extração de dados pelo Gabinete de


Inteligência e Assuntos Estratégicos, retornou por meio do Relatório Técnico de
Extração de Dados nº 734/2020, que, analisado em seu conteúdo, observou-se que
Adriana não fizera nenhuma imagem ou vídeo durante o evento. Além disso, seus
diálogos vão ao encontro do que depusera nesta Especializada, ou seja, negando ter
intimidado os populares e afirmando que pedira, diversas vezes, aos seguranças para
soltarem a vítima. Por fim, verificou-se que ela comentara, com seus contatos,
identificados como Paulo Vecto e Paulo, o que segue:

20/11/2020 - 16h38min: "Também não sei Paulo, a orientação da


advogada, é eu ficar baixada, escondida por enquanto, por causa da mídia, tu tá
entendendo? Porque está tudo muito ruim pro meu lado".

20/11/2020 - 22h57min: "A orientação da advogada é ficar totalmente fora


da vista, e tentar proteger as pessoas que são ligadas a mim. Então, não fica te
expondo porque vai ficar ruim, tu tá entendendo?"

LAUDOS PERICIAIS:

Laudo Pericial de Local de Crime nº 210147/2020 constatou: "a


presença do cadáver e as manchas de sangue sobre o piso, ao redor do corpo,
sugerem a ocorrência da morte no sítio do exame. Entretanto, os vestígios observados
durante o exame perinecroscópico não permitem afirmar qual a natureza da morte,
recomendando-se vistas aos resultados dos exames realizados pelo Departamento

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Médico-Legal e pelo Departamento de Perícias Laboratoriais. As lesões observadas no


polo cefálico (equimoses nas regiões frontal e labial e ferida contusa na região
mentoniana) permitem inferir a ocorrência de ação contundente contra sua cabeça,
podendo esta ação ser de natureza ativa, passiva ou mista. O gotejamento de sangue
observado no piso mostra-se compatível com a produção de ferimento sangrante na
área de circulação de pedestres do estacionamento do estabelecimento, próximo à
porta de acesso às lojas. Essas manchas de sangue, somadas às lesões apresentadas
pelo cadáver, sugerem a ocorrência de embate corporal. A ausência de vestígios de
luta corporal no interior do corredor, das lojas e em outras áreas do estacionamento,
permitem inferir que as agressões restringiram-se às proximidades do ponto onde jazia
a vítima".

Laudo de Necropsia nº 210150/2020 após discorrer sobre os achados


visualizados no cadáver, conjuntamente com as evidências obtidas durante a
investigação (vídeos e relatórios), concluiu como causa da morte asfixia mecânica
(sufocação indireta).

Oportuno destacar que, em resposta ao quesito formulado pela


investigação de que "com base nas imagens apresentadas, considerando a
compressão do tórax da vítima pelos indivíduos que aparecem nas cenas, como se dá
a causa da morte ?", entenderam os peritos: "no conjunto de eventos que se relaciona
temporalmente com o óbito, temos um indivíduo que, após envolver-se em luta corporal
contra mais de um opositor, é contido em decúbito ventral no chão tendo seu tórax
comprimido, manifesta que sente-se sufocado e deixa de mostrar movimentação ativa
após alguns minutos (enquanto ainda contido, em decúbito ventral e com o tórax

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comprimido), ficando inerte até o atendimento médico que ocorre vinte minutos após.
Em sua necropsia, foram encontrados os sinais de asfixia e nenhuma outra causa
definida. Por essas razões, respondemos que o óbito ocorreu em consequência de
asfixia mecânica por sufocação indireta".

CONSIDERAÇÕES FÁTICAS E JURÍDICAS:

1 - Abuso de Poder da Atividade de Segurança no âmbito Privado:

O fato em apreço ocorre dentro de um hipermercado da empresa


Carrefour S.A, multinacional de origem francesa, e que, como todos os
estabelecimentos de mesma natureza, se servem da segurança privada para exercer a
vigilância de seu patrimônio.

Neste aspecto, sempre que nos deparamos com funcionários, trajados


com vestimentas que de imediato demonstram estarem ali para desempenhar a função
de segurança, convém destacar quais são os poderes que dispõem.

Havendo alguma conduta ilegal no interior do estabelecimento, os citados


profissionais têm o mesmo poder que qualquer um do povo, ou seja, apenas o de
prender em flagrante delito.

Neste sentido dispõe o artigo 301 do Código de Processo Penal:


“qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender

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quem quer que seja encontrado em flagrante delito”.

Discorrendo sobre o tema, Maria Sylvia Zanella Di Pietro (in Tratado de


Direito Administrativo 4) afirma, “A contratação de segurança privada por particulares
para a defesa pessoal e de seu patrimônio apenas pode envolver o manejo de poderes
privados. Não implica a delegação de poderes públicos a particulares para o exercício
de segurança privada. As empresas de segurança privada atuam no âmbito do direito
privado e exercem poderes privados. Daí que os poderes de defesa podem exercer são
apenas aqueles tolerados pelo direito privado e que têm o seu uso da força no contexto
de legítima defesa e de flagrante delito. Isso significa que os atos praticados no âmbito
da segurança privada são atos privados, que apenas podem envolver o manejo dos
poderes a todos reconhecidos para fins de autodefesa e para afastar dano iminente. Os
atos praticados devem, assim, observar os limites previstos na lei para o afastamento
da ilicitude dos atos praticados em legítima defesa”
Disponível em 10/12/2020: https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2019/08/05/651-busca-
pessoal-nao-pode-ser-feita-por-agentes-de-seguranca-
privada/#:~:text=N%C3%A3o%20implica%20a%20delega%C3%A7%C3%A3o%20de,o%20exerc%C3%A
Dcio%20de%20seguran%C3%A7a%20privada.&text=Da%C3%AD%20que%20os%20poderes%20de,def
esa%20e%20de%20flagrante%20delito.

Frente às considerações feitas, é indubitável que os funcionários, quer


sejam da empresa Carrefour, quer sejam da empresa Vector, extrapolam o que lhes
permite a legislação brasileira.

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2 – Prestação de Segurança Privada por Policial Militar Temporário:

Restou evidenciada, durante a instrução do procedimento policial, que


Giovane Gaspar da Silva, Soldado PM Temporário, em atividade administrativa na
Secretaria de Segurança Pública desde 2018, prestava atividade de segurança
patrimonial da empresa Carrefour, a partir de vínculo que criaria com a empresa
terceirizada contratada para exercer a vigilância do estabelecimento comercial.

Em depoimento, Giovane alegou que apenas não vestia a camiseta da


Vector por entender inconveniente diante do fato de ser PM Temporário. Justificou a
procura pelo trabalho extraordinário pela necessidade financeira de complementar a
renda.

Admitindo, que, ao assumir o cargo público, participou de treinamento na


Academia de Polícia Militar, recebendo as orientações pertinentes, era sabedor do
disposto no artigo 10 da lei nº 11.991/2003 que dispõe: “ Ao Soldado PM Temporário é
vedado o exercício de qualquer outra atividade remunerada”.

Embora a lei tenha sido recentemente declarada inconstitucional pelo


Plenário do Supremo Tribunal Federal (ADI 3222), os servidores militares contratados
sob a égide daquele lei deviam cumprir com o que estabelecia.

Oportuno, ainda, apontar, por ser significativo, que, segundo o artigo 9º,
da mesma lei, é vedado ao Soldado PM Temporário, “uso de uniforme quando em folga

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ou trânsito, sendo o uso deste permitido somente com identificação ostensiva da


condição de Soldado PM Temporário, exclusivamente em serviço”.

A contrario sensu, na rotina de trabalho, Giovane deveria vestir a farda da


Brigada Militar.

E aqui saliente-se o quão emblemático é estar usando a roupa oficial de


um órgão de segurança pública como a Brigada Militar.

Inequívoco que traz empoderamento ao indivíduo.

À semelhança, estar trajando a camiseta oficial da Polícia Civil, traz


sentido emblemático ao policial.

Tais apontamentos servem para demonstrar que Giovane estava sim


imbuído de seu sentimento de policial, embora exercesse apenas uma função
administrativa. No momento do fato, atuando concretamente na atividade de segurança,
embora privada, agindo de modo a manter ordem do estabelecimento comercial.

Observa-se, a partir das imagens acostadas ao inquérito, que é Giovane


quem toma a iniciativa de sair atrás de João Alberto, depois de se aproximar dele por
conta de um pedido de apoio que, conforme afirma em depoimento, sequer sabia do
que se tratava.

Não resta dúvida de que a investigação não tem ciência do teor dos

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áudios trocados por meio de rádio comunicadores, mas o que se visualiza nas
imagens, quando Giovane vai ao encontro de João Alberto, o qual está parado próximo
de Adriana e Magno, é que nada está acontecendo. Não há nenhum ato de João
Alberto que mereça uma intervenção.

Giovane declara que, depois de levar um soco, precisava conter João


Alberto até a chegada da Brigada Militar porque pretendia “representar” contra ele. Age,
portanto, como militar.

O soco de João Alberto tem uma afronta maior por Giovane estar
empoderado na função pública que exercia fora do mercado.

Neste sentido, explica-se a razão pela qual as legislações institucionais


vedam o exercício de outra função pelos policiais, civis ou militares, eis que no seu
âmago está a circunstância de que os mesmos estão imbuídos do mister policial.

3 – Motivo Torpe:

Doutrina Guilherme de Souza Nucci, “torpe é atributo do que é


repugnante, indecente, ignóbil, logo, provocador de excessiva repulsa na sociedade”
(NUCCI, Guilherme de Souza, Manual de Direito Penal, São Paulo, Ed Revista dos
Tribunais, 2006, p. 576).

Causa-nos íntimo desconforto trazer à consciência que ações são

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praticadas sim em evidente exercício de discriminação.

Conscientemente, ninguém se atribui detentor de preconceitos.

Os discursos são de que o Brasil é um país que sempre acolheu múltiplas


raças, possui uma vasta diversidade cultural, portanto, não pratica o preconceito.

Em nosso âmago sabemos que é uma inverdade.


Diariamente vemos gestos, olhares, expressões, atitudes, dos quais se
infere a discriminação, em quaisquer de suas formas e pelas mais variadas razões.

Não se hesita em fazer piada do gordo e do magro, do alto e do baixo, do


rico e do pobre, do homossexual, e tantas outras que remetem inequivocamente a
preconceitos arraigados.

O que se traz à baila é a concepção de não aceitação do diferente.

No caso em apreço, o debate se travou no aspecto de que “e se a vítima


fosse outra”?

Sabemos que se a vítima fosse outra, a situação poderia, ou não, em


determinadas circunstâncias, ser outra.

E se a pessoa que se dirigisse à fiscal estivesse trajada com vestimenta


assinada por uma grife ou marca ? E se fosse um profissional identificado por suas

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roupas? A preocupação quanto ao comportamento da vítima e subsequente


aproximação dos funcionários seria a mesma?

Na análise de um fato criminoso não podemos trabalhar com hipóteses e


nem com o “e se”. Devemos trabalhar com o fato concreto. No entanto, as conjecturas
vêm à análise na medida em que o motivo também se centra em conceitos pré-
concebidos e que estão no inconsciente das pessoas, mas que determinam condutas
disparadas automaticamente, sem que se possa parar e pensar sobre elas.
Todos têm concepções internamente assimiladas ao longo da existência e
que instintivamente são ativadas por gatilhos mentais.

Neste sentido, trazemos à baila temas sensíveis que tocam à


discriminação de tratamento.

Assim, a Constituição Federal diz, expressamente, no Título dos


Direitos e Garantias Fundamentais, “ninguém será submetido à tortura e nem à
tratamento desumano ou degradante” (artigo 5º, inciso III).

O tratamento dispensado a João Alberto foi desumano e degradante no


exato sentido de seus termos. Submete-se pessoa sob sua custódia em posição
humilhante e afrontosa de sua dignidade em frente a inúmeros populares que ali
assistiam incrédulos o que se passava. Coloca-se a vítima no chão de um
estacionamento, numa evidente posição de submissão, por tempo necessário a ter
encerrada sua vida.

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Não se encontram justificativas capazes de explicar as ações de violência


contra ele cometidas não só por quem o agrediu fisicamente, mas, também, por quem
deu suporte a tais condutas, omitindo-se em fazer cessá-las.

Nesta linha de raciocínio trazemos à tona o tema do racismo estrutural


que, segundo discorre Sílvio Almeida, “independente de nós aceitarmos ou não,
constitui as relações no seu padrão de normalidade”. De acordo com o autor, “a noção
de racismo estrutural coloca que o racismo não é algo anormal, é algo normal”.
Diz ele, também, que “o racismo constitui não só as relações
conscientes, mas, também, as relações inconscientes”.
E, por fim, destaca que “a sociedade naturaliza a violência contra
pessoas negras” Disponível em 10/12/2020: https://youtu.be/PD4Ew5DIGrU.

O caso em tela, a partir da análise conjunta das provas produzidas, nos


permite identificar que a exacerbação das agressões impostas à vítima, em dado
momento subjugada por seis pessoas, decorre de sua fragilização socioeconômica.

Em consonância com este argumento, oportuno citar excertos de alguns


depoimentos que denotam a indiferença dos funcionários vinculados à empresa
Carrefour e à empresa Vector no tocante às ações que cometiam contra a vítima,
adotando a apontada “normalidade” na condução da situação.

Priscila Brasil Geossling: "se deparou com a vítima das


agressões já imobilizada, mantida no chão sob os joelhos dos
seguranças, verbalizando insistentemente que estava ficando
sem ar e clamando, a todo instante, por socorro; apesar disso,

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aduz, os seguranças não deram importância ao que lhes era


dito, de modo que a vítima veio a desmaiar logo em seguida".

Aline Franciele Xavier de Oliveira: "assevera que, ao se


aproximar, percebeu que o indivíduo que era mantido no chão
apresentava sinais visíveis de asfixia. Relata que
imediatamente comunicou essa situação aos seguranças,
os quais prontamente pediram que não se intrometesse em
seu trabalho. Refere, ainda, que, a todo instante, a vítima
também verbalizava aos seguranças que estava com
dificuldades para respirar, mas não lhe foi dada atenção".

Fernando Rodrigues Amaral: "afirma que a todo momento


falava para os seguranças soltarem o cidadão para que ao
menos o deixassem respirar, mas ninguém levou em
consideração". Ainda, “afirmou acreditar ser impossível a
vítima reagir agressivamente contra os seguranças, caso eles a
largassem, pois ela estava debilitada e não oferecia
resistência”.

Robson Vargas Rodrigues: "refere que os dois seguranças


continuavam em cima da vítima e que ao falar "o meu, alivia,
alivia", os seguranças disseram "a gente sabe o que tá
fazendo".

Joel Faller: ao ser indagado se, nas circunstâncias do fato, se


fazia necessário o acompanhamento dos dois seguranças,
respondeu que até a esteira rolante sim, depois a central de
monitoramento ficaria encarregada de observar o
comportamento do cliente.
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E, segundo um ex-funcionário,

Milton Rafaeli Silveira Machado: "quando havia algum cliente


causando problemas, era comum que a gerência autorizasse
o emprego de violência para dissuadir o ato, bem como para
que o suspeito confessasse eventual furto ou confusão ocorrida
no interior do estabelecimento. Relata que no supermercado há
uma sala no estacionamento que fica próxima ao local onde
ocorreram os fatos que não dispõe de câmeras de vigilância,
sendo usual a prática dos seguranças do local de imobilizar
suspeitos e levar até a referida sala para que nada fosse
gravado pelo sistema de segurança".

Os trechos transcritos têm o poder de traduzir a insensibilidade com a


integridade física do indivíduo que se encontrava subjugado em situação degradante e
desumana. Situação que somente se explica pelas concepções arraigadas de
discriminação que estão instaladas socialmente. Tanto que as declarações postas
abaixo denotam a "normalidade" com que era encarada a ação implementada:

Paulo Francisco da Silva: "quanto ao dito 'não faz cena',


ressalta entender que a vítima estava querendo chamar a
atenção, eis que tinha alguns conhecidos nas proximidades,
tendo João consciência de que havia pessoas gravando".

Kleiton Silva Santos: "o objetivo da imobilização da vítima pelos


seguranças e também pelo declarante era conter ele até a
chegada da Brigada Militar".

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Rafael Rezende: "referiu que a vítima dizia “me larga, me larga”,


mas o declarante não percebeu que o homem estivesse
sufocado. Afirmou que ninguém tentou ajudar a vítima e que os
populares que estavam no local se preocupavam apenas em
filmar".

Adriana Alves Dutra: “Alegou ter dito que somente soltaria a


vítima com a chegada da Brigada Militar para acalmá-la”.
“Informou que a vítima não parecia estar com dificuldades de
respirar ou asfixiado”.

Giovane Gaspar da Silva: "constatando que João Alberto havia


parado de reagir e que, ao olhar para seu rosto, estava com os
olhos abertos, pensou que ele estivesse fingindo e, que, a
qualquer momento poderia voltar a reagir".

Assim, diante das considerações acima, as quais traduzem conduta


discriminatória, desumana e degradante em relação à vítima, é que se evidencia a
presença do motivo torpe, causador de uma maior repulsa no meio social.

4 – Asfixia:

A qualificadora da asfixia está inserida no rol dos meios cruéis citados no


inciso III do § 2º do artigo 121 do Código Penal.

Conforme expõe Rogério Sanches, “asfixia é o impedimento, por qualquer


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meio (mecânico – enforcamento, afogamento, estrangulamento, esganadura ou


sufocação – ou tóxico – produzido por gases deletérios) da passagem do ar pelas vias
respiratórias ou pulmões da pessoa, acarretando a falta de oxigênio no sangue,
podendo, dependendo do tempo de suspensão da respiração, causar a sua morte”
(CUNHA, Rogério Sanches, GOMES, Luiz Flávio. Direito penal: parte especial, São
Paulo: Ed Revista dos Tribunais, 2008, p 22).

No caso em apreço se vislumbra na modalidade de sufocação indireta,


ou seja, a compressão do tórax, impedindo a sua expansão, obstruiu a respiração,
provocando a asfixia.

Debate-se se no meio citado é admitido o dolo eventual.

Segundo decisão do STJ, REsp 1.829.601/PR, “inexiste incompatibilidade


entre o dolo eventual e o reconhecimento do meio cruel para a consecução da ação, na
medida em que o dolo do agente, direto ou indireto, não exclui a possibilidade de a
prática delitiva envolver o emprego de meio mais reprovável, como veneno, fogo,
explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel”. Entendimento citado,
também, no AgRg no Recurso em Habeas Corpus nº 87.508-DF.

Discorrendo sobre a asfixia, o Laudo Pericial 210150/2020, destaca:


“Atualmente é bem aceito o fato de que qualquer indivíduo, especialmente após
uma luta violenta, uma vez algemado e forçado contra o chão com a face para
baixo ou colocado na viatura policial com a face para baixo, terá seus
movimentos respiratórios dificultados ou mesmo não conseguirá mantê-los,

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mesmo contra o peso de seu próprio corpo, podendo evoluir para asfixia. Estes
indivíduos devem ser colocados em decúbito lateral (de lado) ou, ainda melhor,
sentados, eretos. A compressão do tórax com o joelho ou qualquer outra forma
de compressão torácica durante a detenção é hoje manobra aceita como
potencialmente fatal, e tanto a polícia quanto o serviço prisional no Reino Unido
advertem seus oficiais a respeito dos riscos envolvidos em tal compressão”
(Simpson’s Forensic Medicine, Richard Shepherd, 12a Edição, 2003, pg 102).

Ainda neste sentido, salienta o laudo: “Deve-se ressaltar que um


indivíduo que está sofrendo nas fases iniciais ou mesmo tardias de asfixia, pode
muito bem debater-se mais e mais na tentativa de respirar e, durante a contenção,
esse aumento no nível da agitação ser interpretado pelo policial como uma
tentativa redobrada para escapar, do que resulte uma maior restrição aos
movimentos e exacerbação do processo de asfixia. Oficiais (policiais) têm de ser
ensinados que, uma vez contidos, esses outros episódios de agitação podem
indicar uma asfixia iminente...” (Clinical Forensic Medicine” Margaret M. Stark, 3a
Ed., 2011).

5 – Recurso que impossibilitou a defesa do ofendido:

A observância das imagens traduz, por si só, o emprego de recurso que


impossibilita a defesa da vítima.

João Alberto tinha em seu desfavor não só os dois indivíduos que, com o

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peso de seu corpo, restringiam-lhe os movimentos, mas, também, outros 4 funcionários


do empreendimento que mantinham os populares, bem como a sua esposa, afastados,
inviabilizando a intervenção em sua defesa.

Embora, numa das gravações se ouça Adriana dizer à Milena "se a


senhora conseguir acalmar ele, eu tiro todo mundo de cima dele", ela é afastada
em todos os momentos que se aproxima de João Alberto enquanto está vivo.
Vislumbra-se que Milena é puxada pelo braço (ação de Paulo) e, depois, empurrada por
dois outros funcionários (ação de Kleiton e Rafael).

O intuito nunca foi retirar a vítima da condição em que estava, o que se


evidencia-se pela seguinte expressão de Adriana: "Não, a gente não vai te soltar, pra
ti bater em nós de novo?"
Não havia nenhuma possibilidade da vítima conseguir se defender. Os
seus braços, pernas e tórax eram contidos, integralmente, por duas pessoas desde o
início da ação.

A contenção foi tanta que implicou a inviabilidade da respiração até sua


morte.

6 – Elemento Subjetivo:

Art. 18, Código Penal. Diz-se o crime:


I – doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de

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produzi-lo.

Leciona Guilherme de Souza Nucci, ao tratar sobre o conceito de dolo


indireto ou eventual “é a vontade do agente dirigida a um resultado determinado, porém
vislumbrando a possibilidade de ocorrência de um segundo resultado, não desejado,
mas admitido, unido ao primeiro. Por isso, a lei utiliza o termo “assumir o risco de
produzi-lo”. Nesse caso, de situação mais complexa, o agente não quer o segundo
resultado diretamente, embora sinta que ele pode se materializar juntamente com
aquilo que pretende, o que lhe é indiferente” (NUCCI, Guilherme de Souza, Manual de
Direito Penal, São Paulo, Ed Revista dos Tribunais, 2006, p. 213).

José de Faria Costa, citado, ainda, por Nucci, afirma “o não querer aqui
avançado nada tem de afirmação positiva da vontade, pretendendo antes expressar a
atitude psíquica da passividade com que o agente encara o resultado. Certo é, também,
cumpre dizê-lo, que o agente sempre poderia dizer não. Sucede que não o faz porque a
vontade de praticar a ação principal como que arrasta no seu halo a sujeição à
passividade psíquica no que toca ao resultado possível. O que vale por afirmar: o
agente quer a ação principal e como que é conivente, diríamos por omissão, com as
ações acessórias tão-só eventualmente representadas” (NUCCI, Guilherme de Souza,
Manual de Direito Penal, São Paulo, Ed Revista dos Tribunais, 2006, p. 213/214).

Vídeos captados demonstram que a vítima tentou alertar que estava com
dificuldades em respirar ao dizer: "vocês estão me sufocando".

E, mesmo que a vítima não tivesse conseguido expressar tal

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circunstância, porque, logo em seguida, isso de fato ocorreu, não é crível que duas
pessoas sobre seu corpo não tivessem a preocupação com a continuidade do exercício
corporal de vida que é abrangido por todos os movimentos que o ser humano precisa
fazer para expirar e inspirar.

Deste modo, supera-se a discussão entre dolo e preterdolo.

O fato da vítima dizer que estava sufocando e a manutenção de uma


imobilização da natureza com que foi feita, nos remetem inequivocamente ao dolo
eventual.

7 – Concurso de Pessoas:

Art. 29, CP. Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide
nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade.
A legislação adota, assim, teoria unitária (monista ou monística). Havendo
pluralidade de agentes, com diversidade de condutas, mas provocando-se apenas um
resultado, há somente um delito, conforme doutrina abundante.

Neste sentido, ao analisar-se as imagens do fato, observamos que não só


Giovane Gaspar da Silva, Magno Braz Borges e Adriana Alves Dutra, mas, também,
Paulo Francisco da Silva, Kleiton Silva Santos e Rafael Rezende, têm influência
sobre o resultado fatal.

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Podemos classificar as ações cometidas por Giovane e Magno como


típicas da AUTORIA, ou seja, ambos realizam condutas que se adequam ao verbo
nuclear do tipo penal (art. 121, CP – Matar alguém).

A doutrina, no entanto, além de admitir como autores aqueles que atuam


no sentido de realizar a figura típica (teoria objetivo-formal de autoria), também vem
contemplando outra ação, aquela de quem tem o controle da conduta típica dos
demais (teoria do domínio do fato).

Não restam dúvidas de que Adriana tem controle da conduta dos


demais, não só por ser hierarquicamente superior, mas por ter, naquelas condições,
demonstrado assumir a coordenação das ações que estavam transcorrendo. Ela ignora
a violência praticada, os gestos agonizantes da vítima e os apelos de populares que se
insurgem quanto às condutas que presenciam.

Adriana age indiferente a tudo. Dá explicações falsas sobre o motivo da


contenção da vítima, alega ter sido agredida e se fere no dedo em frente às pessoas,
sem nenhum pudor quanto ao que está fazendo (Adriana mostrou as mãos e começou a
lesionar seu dedo com sua unha, cf testemunha Robson). Alega que João Alberto agredira uma
mulher no interior do mercado (“Ele (…) lá em cima, ele deu numa mulher lá em cima cara, te
liga”). Impede a companheira da vítima de se aproximar. Comanda Kleiton, Rafael e
Paulo, e, junto deles, afasta clientes e prestadores de serviço que se aglomeram no
entorno. Além disso, apenas chama o SAMU no momento em que toma ciência de que
a vítima desfalecera. E, visando alterar a verdade dos fatos, aponta ao atendente que
João Alberto se envolvera numa briga com clientes (ele brigou aqui com outros clientes, com

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outras coisas… a gente tentou se envolver aqui… a gente tá bem complicado aqui).

Deste modo, Adriana é contemplada, pela teoria do domínio do fato,


também como AUTORA do crime.

Ilustra o exposto, a lição de Enrique Bacigalupo, citado por Rogério


Greco, “o domínio do fato é um conceito regulativo (Roxin-Henckel); não é um conceito
onde é possível dar uma fórmula fechada, senão que depende das circunstâncias totais
do fato mesmo. Somente na presença de todas as circunstâncias se pode estabelecer
quem ‘dominou o fato’, quem é o que ‘tem as rédeas dos fatos nas mãos’; ou quem é o
que pode decidir que o fato chegará à consumação, o qual geralmente é correlativo de
quem pode decidir se o fato continua ou se desiste dele; o que possui o manejo dos
fatos e o leva a sua realização, é o autor; o que simplesmente colabora, sem ter
poderes decisórios a respeito da consumação é partícipe”.

Observando a conduta tomada por Paulo, desde o momento em que


chega à cena, verifica-se que auxilia decisivamente no desenrolar da ação eis que
puxa Milena pelos braços, afastando-a de João Alberto. A mulher tentava, naquele
momento, ir em auxílio do companheiro. Não restam dúvidas de que a interferência dela
poderia possibilitar que João Alberto respirasse. Não lhe foi permitido que agisse para
que a vítima tivesse acesso ao movimento corporal básico de vida.

Passados alguns instantes, sob os olhares dos populares que estão no


entorno, alguns registrando o que ocorria, Paulo diz à vítima que agoniza: "Ei rapaz,
óh, sem cena tá? Sem cena, é a (inaudível) vez que tu vem e a gente te avisou da

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outra vez".

De acordo com Rogério Greco, “se autor é aquele que possui o domínio
do fato, é o senhor de suas decisões, co-autores serão aqueles que têm o domínio
funcional dos fatos, ou seja, dentro do conceito de divisão de tarefas, serão co-autores
todos os que tiverem uma participação importante e necessária ao cometimento da
infração, não se exigindo que todos sejam executores, isto é, que todos pratiquem a
conduta descrita no tipo”.

Depois de chegar ao local onde se desenrolavam os atos executórios,


afastar Milena e também os populares, agir com descaso à agonia da vítima, buscar
impedir as filmagens, e, principalmente, agir como verdadeiro “leão de chácara”, à
semelhança de Adriana, Paulo permanece no entorno e, ao constatar que João Alberto
falecera, já não impede a aproximação de ninguém. Detentor da função de segurança,
como Giovane e Magno, nada fez para evitar o resultado morte e nem mesmo
providenciou imediato socorro à vítima.

Verificando-se que a vítima não apresentava sinais vitais, Giovane,


Magno, Adriana e Paulo se mantiveram inertes, mesmo tendo uma unidade hospitalar
próxima, ou seja, distante apenas 1,2 km, ou a TRÊS MINUTOS dali. E, mesmo assim,
aguardou-se equipe do SAMU que chegou ao local QUATORZE MINUTOS após ser
cientificada, apenas o tempo necessário ao deslocamento de sua base.

No que toca a Rafael Rezende e a Kleiton Silva Santos, observa-se que,


tão-logo chegam ao estacionamento, ao serem chamados por Adriana, procuram

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auxiliar materialmente Giovane e Magno, tentando imobilizar a vítima, o primeiro


dando chutes em João Alberto e o segundo o agredindo com socos e chutes,
assumindo, portanto, o risco de um resultado mais gravoso.

Além de assim agir, Rafael e Paulo, juntamente com Adriana, se dirigem


aos populares intimidando-os para não filmarem e para não se aproximarem (Fernando
Rodrigues Amaral cita um segurança vestido com um terno - acredita que azul marinho - escuro, bem
careca, cerca de 1,75 m aproximadamente, porte médio, ficava cercando o local onde a vítima estava
sendo contida e que intimidava as pessoas que tentavam ajudar a vítima).

Em seguida, Paulo, Rafael e Kleiton impedem Milena de se aproximar de


João Alberto a fim de ajudá-lo.

Tal conduta se traduz no impedimento material de que a vítima consiga


respirar de modo natural e essencial à sobrevivência, bem como reforça moralmente
as ações que estão sendo perpetradas sob o comando de Adriana.

Na medida em que João Alberto se esforça para resistir às agressões e,


também, a ser contido, ele vai consumindo energia e fôlego, cada vez mais tendo
dificuldades nos movimentos respiratórios, e, quando imobilizado, sob pernas e joelhos,
já não resiste e vem a falecer.

Embora Rafael e Kleiton tenham estado no local por tempo inferior ao de


Giovane, Magno, Adriana e Paulo, contribuem igualmente para, em conjunto com
estes, impossibilitar fisicamente a vítima de reagir às agressões, subjugando-a ao
seu poder. É com a interferência de todos eles que João Alberto deixa de reagir e
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vem a ser contido.

Ao se retirarem do local, inicialmente Rafael, e, depois, Kleiton, infere-se


o consentimento com a violência ali instalada. Reforçam, assim, moralmente, a
ideia de consentimento às agressões que estavam sendo feitas, eis que não as
impedem, assumindo, também, o risco da produção de um resultado mais
gravoso.

Não se pode acolher a alegação tanto de Kleiton quanto de Rafael no


tocante ao fato de que era Adriana a responsável por coordenar os seguranças e,
portanto, a única implicada nos eventos que se deram.

Todos ali estão atuando em nome da pessoa jurídica para a qual


trabalham e, neste sentido, têm o dever de buscar adequar condutas uns dos outros, o
que não se viu no caso em tela. Verifica-se, assim, que as ações ingressam no
consentimento de todos. Estão na "normalidade" estrutural da sociedade.

Assim, as condutas de Kleiton e Rafael se inserem na denominada


PARTICIPAÇÃO que, conforme Rogério Greco, “já afirmamos ser o autor o
protagonista da infração penal. É ele quem exerce o papel principal. Contudo, não raras
as vezes, o protagonista pode receber o auxílio daqueles que, embora não
desenvolvendo atividades principais, exercem papéis secundários, mas que influenciam
na prática da infração penal. Estes, que atuam como coadjuvantes na história do crime,
são conhecidos como partícipes”.

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DIANTE DO EXPOSTO, indicio

Giovane Gaspar da Silva pela prática do crime previsto no artigo 121,


§2º, I (motivo torpe), III (asfixia) e IV (recurso que impossibilitou a defesa do ofendido)
c/c artigo 29, caput, ambos do Código Penal.

Magno Braz Borges pela prática do crime previsto no artigo 121, §2º, I
(motivo torpe), III (asfixia) e IV (recurso que impossibilitou a defesa do ofendido) c/c
artigo 29, caput, ambos do Código Penal.

Adriana Alves Dutra pela prática do crime previsto no artigo 121, §2º, I
(motivo torpe), III (asfixia) e IV (recurso que impossibilitou a defesa do ofendido c/c
artigos 29, caput, e 62, I, todos do Código Penal.

Paulo Francisco da Silva pela prática do crime previsto no artigo 121,


§2º, I (motivo torpe), III (asfixia) e IV (recurso que impossibilitou a defesa do ofendido)
c/c artigo 29, caput, ambos do Código Penal.

Kleiton Silva Santos pela prática do crime previsto no artigo 121, §2º, I
(motivo torpe), III (asfixia) e IV (recurso que impossibilitou a defesa do ofendido) c/c
artigo 29, §1º, ambos do Código Penal.

Rafael Rezende pela prática do crime previsto no artigo 121, §2º, I (motivo
torpe), III (asfixia) e IV (recurso que impossibilitou a defesa do ofendido) c/c artigo 29,

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§1º, ambos do Código Penal.

REPRESENTAÇÃO PELA PRISAO PREVENTIVA:

Dispõe o artigo 312 do Código de Processo Penal: A prisão preventiva


poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por
conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando
houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado
pelo estado de liberdade do imputado.

Muito se comenta sobre a razão de ainda ser mantida a expressão ordem


pública na legislação eis que é alvo de muita controvérsia quanto a sua abrangência.
Infere-se que, por ser uma cláusula muito abrangente, consegue abarcar situações não
previstas, mas que se enquadram em seu conceito, conforme se verifica da doutrina e
jurisprudência citadas abaixo.

Com propriedade discorre Nucci, “tanto a doutrina como a jurisprudência


vêm fornecendo um rol quase infindável de motivos para sustentar a prisão preventiva
com base na garantia da ordem pública. Segundo nos parece, um binômio que não
pode ser afastado: gravidade da infração penal + repercussão social”.

De acordo com Eugênio Pacelli, “percebe-se, de imediato, que a prisão


preventiva para garantia da ordem pública não se destina a proteger o processo penal,
enquanto instrumento de aplicação da lei penal. Dirige-se, ao contrário, à proteção da

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própria comunidade, coletivamente considerada, no pressuposto de que ela seria


duramente atingida pelo não aprisionamento de autores de crimes que causassem
intranquilidade social”.

Tratando do tema, importante apontar que, decisões do STF, como regra


geral, apontam que o clamor público surgido pela prática do crime não justifica a
decretação da prisão cautelar. Todavia, a corte suprema já admitiu que a prisão
preventiva pode ser decretada quando comprometer seriamente as instituições públicas
devido à repercussão social que o caso tiver. Nesse sentido são as decisões proferidas
no HC 84.498-7/BA e HC 85.298-0/SP.

Há muito tempo não tínhamos um fato que trouxesse tamanha


repercussão no cenário da Capital e que se projetasse para o país e para o mundo.

Inúmeras são as questões sensíveis abrangidas e que envolveram todos


num debate público sobre ações discriminatórias, especialmente após um evento da
mesma natureza ocorrido nos EUA.
A comoção pública que o homicídio em tela trouxe atingiu todas as
classes sociais que têm um mesmo entendimento: repudiar a violência.

Neste sentido, considerando que o legislador não conseguiria abranger


todas as hipóteses geradoras de abalo na ordem pública, entendo que ela resta
evidentemente atingida no aspecto mais íntimo de cada um de nós, a falta de
compreensão de cenas de tamanha brutalidade e selvageria, e que seguiram sendo
praticadas mesmo diante de filmagens e pedidos de que cessassem as agressões.

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O grupo não só ignorou a presença do público que se organizou em torno


da ação criminosa, mas, também, buscou intimidá-los a não registrarem as condutas.
Além disso, os indiciados ainda alegavam inverdades para tentar justificar o
injustificável.

Em razão do exposto, com fundamento na garantia da ordem pública,


evidencia-se a necessidade da segregação cautelar, motivo pelo qual REPRESENTO
PELA PRISÃO PREVENTIVA de ADRIANA ALVES DUTRA, PAULO FRANCISCO DA
SILVA, RAFAEL REZENDE e KLEITON SILVA SANTOS.

E, pelos mesmos fundamentos, REPRESENTO PELA MANUTENÇÃO


DA PRISÃO PREVENTIVA de GIOVANE GASPAR DA SILVA e MAGNO BRAZ
BORGES.

Porto Alegre, 10 de dezembro de 2020.

Roberta Mariana Bertoldo da Silva,


Delegada de Polícia.

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