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Kákia e o Feitiço da Bondade


sa de morcego – descreveu uma figura baixinha e rechonchuda, com uma voz
— A bem embargada, enquanto depositava o elemento em uma tigela.
— Garras de um lobo envenenado – enunciou, agora, uma esguia e com
aspecto anêmico como se estivesse há meses sem se alimentar, ao adicionar, tremulante,
o item à panela.
— Rabo de ratazana – finalizou uma nariguda e verruguenta, seguindo com uma
risada que ardeu os ouvidos das companheiras.
— Finalmente, pronta – bradou novamente a figura rechonchuda, que ansiava pelo
resultado de seu trabalho.
De repente, o imenso caldeirão diante das três começou a borbulhar e trepidar.
Todo o ambiente inóspito em que as bruxas habitavam, em poucos instantes, foi ficando
nebuloso e cheirando a muco. Algo estava surgindo em meio à mistura.
— A maldade está criada! – comemoraram.

Era uma vez uma bruxinha muito perspicaz e a frente de seu tempo. Seu nome era
Kákia e, órfã de pai e mãe, fora criada por três maldosas bruxas. Ainda assim, não possuía
nenhum traço sanguíneo com elas, que a criaram para interceder pelo mal. Desde criança,
fora ensinada a executar todo gesto de ruindade e desrespeito a quem quer que fosse, de
seus iguais aos mais diferentes dela. A pequena feiticeira desconhecia qualquer ato de
caridade e, em toda a sua vida, jamais provou a sensação do amor. Todo o seu poder e
dom eram filtrados em fazer o mal.
Embora nunca tivesse experimentado o contrário, Kákia sentia que suas atitudes
não eram decentes. Algo dentro dela a entristecia toda vez que destratava seus vizinhos,
espantava os cachorros da rua a xingamentos e pontapés ou roubava os pertences das
crianças mais novas como passatempo. Foi então quando se viu em um dilema que nem
sob tortura teria coragem de revelar a suas mentoras – estava cogitando abandonar a
crueldade afim de viver uma vida mais benevolente.
Merga, Bheara e Zaila eram irmãs que se suportavam em função da força que seus
poderes obtinham quando se uniam. Fabricavam poções famosas em todo o vilarejo por
serem as mais poderosas entre as bruxas, capazes até de devolverem a vida aos mortos.
Kákia foi uma delas; as três bruxas buscaram a receita perfeita para a sua criação durante
meses, e sonhavam com a chegada de uma aprendiz que perpetuasse seu legado de caos.
Por esse mesmo motivo, a bruxinha não tinha coragem de desapontá-las com sua luta
interna entre o bem e o mal.
Com o passar do tempo, as maldosas bruxas perceberam que Kákia não estava
satisfeita vivendo com elas. As malvadezas da jovem foram diminuindo e,
consequentemente, suas poções foram perdendo a qualidade, uma vez que não tinham
mais a essência da ruindade. Elas entenderam que sua índole talvez não fosse tão perversa
como a delas e tiveram uma ideia para tentar reverter esta situação.
— Querida, compreendemos que este não seja seu caráter. Ninguém escolhe como
nasce – disse Bheara, a bruxa rechonchuda.
— Exato, meu amor. Não a culpamos por não ser tão má e cruel como nós –
concordou Merga, a esguia e mais velha das três.
— Têm razão? Não estão decepcionadas? – perguntou Kákia, desapontada
consigo mesma – Como eu gostaria de ser diferente...
— Nada disso, minha querida. Continuaremos a lhe amar seja qual for sua conduta
– mentiu Zaila, a irmã caçula e verruguenta – Tanto que temos algo para você.

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— Mesmo?
As três bruxas se entreolharam, confabuladas. Seu plano era entregar à aprendiz a
receita para a poção mais maléfica já criada – a Poção da Perversidade – afim de que lhe
fosse retirado o coração, não havendo espaço para nenhum outro bom sentimento. Mas,
para convencê-la a buscar pelos ingredientes necessários, mentiriam que, na verdade, o
efeito da poção seria para lhe deixar completamente bondosa e justa.
Kákia se deixou levar pela enganação das mentoras e logo partiu em busca dos
ingredientes para o “Feitiço da Bondade” – como Merga, Bheara e Zaila lhe disseram se
chamar a Poção da Perversidade. As três bruxas entregaram a ela uma bolsa com
mantimentos e itens que pudessem lhe ser úteis na jornada, e a bruxinha, disposta a mudar
o rumo de sua vida, não reclamou um único momento. Quiçá imaginava que, ao conseguir
reunir tudo o que continha na lista entregue a ela, se tornaria a bruxa mais perversa que
já existiu.
Os itens para o feitiço eram:

Sangue de um cavalo ferido


Qualquer objeto roubado de alguém
Lágrimas de uma criança
Kákia não tinha ideia por onde começar. Até o momento não se deparara sequer
com um morcego, que dirá com um cavalo ferido na estrada. Mas sua força de vontade
não lhe deixaria desistir.
Até que, cruzando um terreno parecido com uma pequena fazenda, encontrou dois
lenhadores, aparentemente nervosos, mal lançando palavras contra um cavalo, que reagia
com coices e rugidos de fúria. Kákia não acreditou no que via; estava ali, a metros de
distância, o progenitor do primeiro item da lista. Sem pensar, foi em direção aos homens.
Ao se aproximar, reparou que os lenhadores hostilizavam o animal por se recusar
a seguir viagem pelo cansaço. Afim de puni-lo, o chicoteavam enquanto proferiam
palavras cruéis e depreciativas.
— O que está acontecendo aqui? – perguntou Kákia, em tom de bravura.
Os dois homens riram com deboche um para o outro, a fim de tirar sarro da bruxa.
— Dispensaram a turma da creche mais cedo, hoje? Volta para a mamãe,
garotinha, que ninguém está brincando aqui – disse um deles, virando as costas para ela.
Furiosa, a bruxinha estalou os dedos e os dois homens, de um instante para o outro,
foram transformados em pedras. O cavalo se assustou com a cena que acabara de
presenciar e se agitou ainda mais entre as correntes que o prendiam à carroça.
— Ei, amigo, se acalme, se acalme. Está tudo bem. Eles não vão mais lhe
incomodar. Dei um jeito nisso – disse ela, acariciando-o.
Após o animal se acalmar, Kákia percebeu feridas de espancamento em sua
pelagem e lembrou-se do Feitiço da Bondade. Apanhou, então, na bolsa que trazia
consigo, uma ampola vazia e se dirigiu ao cavalo:
— Amigo, me permitiria pegar uma gota de sangue sua? Me seria bastante útil.
O mamífero agitou a cabeça como se a balançasse em aprovação, e Kákia guardou
a ampola com a gota de sangue de um cavalo ferido de que precisava. Antes de continuar,
a bruxa passou novamente a mão pelas feridas do animal e as mesmas foram
desaparecendo. Ela estava curando-o.
Novamente o cavalo não pôde acreditar no que vira. Reconheceu em Kákia uma
pessoa de confiança e relinchou até que ela entendesse que estava a convidando para

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viajar com ele, na carruagem que puxava pelas correntes. Ela aceitou e seguiu caminho
com seu novo amigo, que apelidara de Bravo.

Kákia e Bravo passaram por diversos aldeões, comerciantes, indigentes e gados


de pasto. A bruxinha esquadrinhou a todos buscando por alguém que tivesse algum objeto
fácil de ser roubado, sem causar muito tumulto. Embora estivesse acostumada a tirar dos
outros o que não era dela, desta vez, estava se sentindo extremamente desconfortável. De
repente, um berro adveio de uma mercearia:
— Pega ladrão! Pega ladrão!
De lá, uma jovem correu em disparada pelo parque, como quem fugia de algo.
Trajava vestes imundas e retalhadas e pisava descalça no chão de terra batida. Ela buscou
espaço entre as demais pessoas amontoadas, com intenção de driblar o merceeiro, que
corria atrás dela.
Quando a mulher se viu sem saída, o merceeiro apertou o passo em sua direção,
com sangue nos olhos. Mas ao atravessar a rua em direção a ela, um cavalo irrompeu em
seu caminho, impedindo-o de continuar. Era Bravo, propositalmente saindo em defesa da
moça.
Enquanto o homem discutia com o animal, Kákia ajudou a jovem a sair de sua
vista, e a levou para debaixo de uma tenda onde outros indigentes se abrigavam. Reparou
que o que ela havia roubado da mercearia eram dois pães amanhecidos e que, agora,
estavam amassados e deploráveis.
— Agradeço a ajuda, mas não tenho como lhe recompensar – se queixou a jovem,
cabisbaixa e estendendo os dois pães velhos em suas mãos.
Kákia se conteve para não chorar. Lhe doía ver pessoas que viviam naquelas
condições. O Feitiço da Bondade, novamente, lhe veio à cabeça, lembrando-a que
precisava de algo roubado para compor a poção. Mas como iria tirar o tão pouco de
alguém que não tinha nada? Foi quando teve uma ideia:
— Sirvo, agora, um excelente banquete a você e seus amigos, e, em troca, peço-
lhe um de seus pães.
A moça não entendeu o que alguém como a jovem bruxa iria querer com um pão
velho roubado de uma mercearia, mas aceitou sua proposta. Assim que entregou o
alimento a Kákia, os olhos da mulher se depararam com uma imensa mesa posta, surgida
literalmente como mágica. Pães frescos, rosquinhas, frutas cítricas e uma variada cartela
de vinhos compunham o banquete, dado como presente da bruxinha a todos os famintos.
Kákia foi grandemente ovacionada e não pôde conter a emoção.
Após os agradecimentos, guardou o pão roubado juntamente com a ampola com
a gota de sangue de Bravo em sua mochila, e seguiu em busca do último e mais difícil
ingrediente para o Feitiço da Bondade.

Embora se esforçasse para esconder, Kákia sempre gostou de crianças. Evitava


deixar transparecer esta qualidade por medo da desaprovação de suas mentoras, mas não
podia se conter quando encontrava um grupo de pequenos dispostos a brincar. Muito por
isso se preocupou com como faria para conseguir lágrimas de uma criança para a poção,
pois seria inadmissível, para si, causar o choro de uma.
Não muito distante da aldeia em que conseguira o pão roubado, Kákia e Bravo
avistaram um trio de crianças prostrado em frente ao que parecia ser um cachorro. Quando
se aproximaram, perceberam que se tratava de um cachorro morto e que as três crianças
choravam seu falecimento.
— Nosso cachorrinho não aguentou de sede – contou uma delas, entre soluços.

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— Era um ótimo amigo. Sempre pronto para brincar e correr – lembrou outra,
abraçada à primeira.
Kákia se comoveu de tal modo que não conseguiu segurar o choro e se juntou ao
luto das crianças. Buscou algo entre os mantimentos que suas mentoras a entregaram
antes de sua viagem e encontrou o frasco da Poção da Vida, a famosa poção que trazia os
mortos de volta à vida. Encarou-o por uns instantes até ter certeza que aquela era a
situação ideal para usar o feitiço e despejou 3 gotas da poção na boca do cãozinho morto.
As crianças não entenderam, de cara, o ato de Kákia, mas não demorou muito para
que o fizessem. Em questão de segundos, o cachorro pôs-se a abanar o rabo e sua
respiração voltou ofegante, fazendo-o levantar como se estivesse apenas acordando de
um sono pesado.
Incrédulos e igualmente contentes, os três pequenos pularam e gritaram em volta
da bruxinha, que, agora, se emocionara de contentamento em ver a imensa felicidade que
proporcionara a eles. Antes que pudesse se esquecer, buscou uma segunda ampola em sua
bolsa e a depositou abaixo de seus olhos, afim de guardar suas lágrimas para a poção.
Todos os ingredientes estavam em suas mãos e ela, enfim, poderia abandonar, de
uma vez por todas, a vida de maldade, mal sabendo que tudo não passava de um terrível
plano de Merga, Bheara e Zaila para retirar-lhe o coração.

Ao retornar ao vilarejo e entregar o sangue de Bravo, o pão velho da indigente e


sua própria lágrima às suas mentoras, Kákia ansiava pela execução do “Feitiço da
Bondade”. Mas as infames bruxas a revelaram seu plano da maneira mais cruel possível:
prenderam-na à uma cadeira, amarrando com cordas seus pés e braços atrás de suas
costas, impedindo sua mobilidade, e a fizeram assistir à preparação da Poção da
Perversidade.
— Como você pôde imaginar que iríamos aceitar que uma criação nossa se
bandeasse para este lado fraco e inútil da bondade? – gritou Merga, enquanto depositava
os três itens no caldeirão.
— Vocês me prometeram. Disseram que me amariam e aceitariam como eu fosse
– suplicou Kákia, tentando se desprender dos nós das cordas.
As três bruxas riram, maleficamente.
— Amor? Não existe amor. Nem bondade. Nem gentileza. Nem empatia. Tudo
não passa de mentiras – proferiu Bheara, já preparando a tigela em que Kákia beberia da
poção.
Pronta a mistura, as terríveis bruxas desataram os nós de Kákia e a forçaram a se
dirigir até o caldeirão. Mesmo relutando, ela não conseguiu superar a força das três e
bebeu um gole da maldosa poção. Após forçá-la goela abaixo, as três bruxas se afastaram
de Kákia como quem esperava que fosse acontecer uma explosão. Mas nada se sucedeu.
Não compreenderam o que estava acontecendo, até que um tremor se fez presente.
— Lá vem! – comemoraram.
O tremor não durou por muito tempo, mas foi o bastante para derrubar os pertences
da cabana das bruxas e quebrar alguns itens, inclusive seu caldeirão. Kákia foi levitada e
seus cabelos, anteriormente amarrados a um rabo de cavalo, foram soltos e esvoaçados
com o vento. Seus trajes escuros e sombrios foram transformados em vestes alegres e
limpas, nas cores branco e dourado. O olhar da bruxinha se abriu com um intenso brilho
e, juntamente com seu sorriso, compunha uma harmônica sensação de bondade e
confiança. A Poção da Perversidade havia tido efeito contrário.
Mesmo adquirindo todos os itens de que precisara, Kákia os obteve de maneira
doce e gentil, retribuindo de bom grado a todos que necessitaram de sua ajuda.
Demonstrou compaixão pelo próximo e empatia por seus diferentes, atitudes que suas

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mentoras jamais puderam ensiná-la. Apesar de vinda de um ambiente perverso e vil, a
jovem bruxa conseguiu se manter como uma pessoa digna de toda benevolência possível,
com coragem para ser como era. Por isto, ao tocar suas veias, a Poção da Perversidade foi
impedida de exercer sua função, uma vez que o coração de Kákia era puro e bom,
impossível de ser contaminado por traços de maldade.
As três bruxas, desgostosas e decepcionadas, obrigaram-na a deixar o vilarejo.
Kákia, então, seguiu para a aldeia ao lado, com Bravo a tiracolo, onde reencontrou os
amigos que fizera em sua jornada em busca do Feitiço da Bondade. Com o passar o tempo,
foi revertendo os efeitos das famosas poções de suas mentoras e criando seu próprio
estoque de encantamentos, fazendo sucesso entre os aldeões até que superassem as poções
de Merga, Bheara e Zaila.
Seu carro-chefe era justamente o Feitiço da Bondade, que, por mais engraçado
que parecesse ser, tinha em sua composição os mesmos ingredientes que a Poção da
Perversidade; o segredo estava na maneira como era feito e nas intenções de quem o
preparava.

FIM

Ficha Técnica

Autor: Fillipe Matos Cardoso


Arte da capa: Fillipe Matos Cardoso
Ano de publicação: 2020
Idioma: Português

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