Ano III

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

A Textura desse Abismo chamado Consciência Ano III

www.texturadoabismo.blogspot.com.br
-1-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III
Introdução:

e.m.tronconi

A Consciência desse Abismo de Texturas
“A imaginação não é um estado: é a própria Existência Humana”
William Blake

A textura desse abismo chamado consciência é uma busca, um exercício, um esforço em alcançar a tessitura da própria realidade que se espelha na criação poética emanada do âmago do poeta. A força por detrás desses três conceitos é mais do que energia, é uma pulsão motriz: TEXTURA ABISMO CONSCIÊNCIA

Textura - tecer - tear - tecido - trama - texto... Abismo - abertura - precipício - principio - possibilidade - liberdade... Consciência - conhecer - conceber - auto-reflexão... A textura é o tecido urdido à partir da roca de nada e precipícios inauditos ao a consciência destemida se lança em sua continua busca pela liberdade, pelas possibilidades de expressão, pela sua instalação enquanto algo palpável, e quiçá perpétuo, no mundo, em forma de fenômeno textual, em forma de idéia, em forma de uma beleza que expresse à consciência pessoal. O abismo pode conter tudo, nele o vão se arroga como aberto do mundo, devorador de horizontes, profundeza composta por paredões que ao invés de reprimir dá o sentido de inescrutabilidade maior, dá o sentido de grandeza que abarca, o abismo é pois como um Titã que em constante ação para realizar sua impassiva intenção, como si revelando-se igual à consciência desvela também a grandiosidade do espírito do artista e o pacto que este tem com a própria poesia. O poeta então, este pactuado com o a língua, este sedutor que usa como arma o imagético condensado, o qual extrai de dentro de si (pois dentro de si há o enorme aberto onde pode passar, abrigar e conter tudo). A consciência seria a memória, seria o relicário repositório da existência, o ser-aí, o espírito em constante convulsão enquanto queda até o fundo do abismo ou sobre este paira, emanando a trama de sua essência e existencialidade: realização & imaginação! Fia a consciência/abismo o tecido dos sentimentos, a enorme fazenda multicolorida que há de ir cobrindo, agasalhando, servindo de véu e bandagem para todos os desdobramentos do poeta enquanto ‘porta voz’ de si mesmo e da tempestade aberta sobre o mundo: ele mesmo, o poeta, a consciência no fundo desse abismo de textura... Desde tudo isso... para mim, o poeta, muitas coisas estão se revelando e velando, emanando do abismo e para ele refluindo, em forma de sincronias, distonias e amor! Esse fluir & refluir surge muitas vezes através de pistas no caminho que a atenção é essencial para pegar as dicas, mas mais ainda, o deixar-se levar se mostra valioso quando se
-2-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

decide então pular no abismo, saltar dentro da noite escura, lançar-me na intermedialidade, com a gratificação e as dádivas do abismo e da consciência que vai se auto-revelando com o passar do tempo e do espaço cobrado. O abismo se mostra como destino, mas como ponto de partida também, abismo-universo, e a consciência diminui na medida de que essas amplidões se insinuam. Quanto à textura, eis que ela esta aqui. Nesse jogo de permutações da importância destas forças, revela-se a mutação que acompanha a consciência em seu desdobramento na experienciação.

emt.

-3-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Ano III
2010 e.v.

dois mil & dez

"...Vou abrir todas as janelas pra deixar o Sol sair..."
(Biquini Cavadão)

-Porque o mais importante é invisível aos olhos!-

- Citações no abismo:

"A inconsciência é uma pátria; a consciência, um exílio” (E. M. Cioran) "Pegue-me, sou a droga; pegue-me, sou alucinógeno." (S. Dali)

-4-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III
Série Poemas Imaginados & Imagens Poetizadas

e.m.tronconi

Todas as Nuvens

Fotografando nuvens Um passatempo niilista que fala de azul & branco vento, água & sol

-5-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Querem elas dizer adeus Quero eu ir nas asas desses ventos Agora paradas Congeladas no tempo que se perdeu no espaço que se esqueceu onde os pés no chão capturaram esse momento nunca mais repetido...

-6-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III
Série Poemas Imaginados & Imagens Poetizadas

e.m.tronconi

Três Árvores

Troncos que se contorcem como corpos em paixão de ser dois & ser um compenetração

-7-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Árvore Como gente de pernas para o ar Doando ao céu Suas genitálias expostas

-8-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

E longe, nos recantos do descanso A grande árvore sábia Com sua armadura de cipó Como a predizer de lonjuras O encontro de um dia Onde as máscaras caem.

-9-

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Véspera de Carnaval
Tal noite passei em horas já escuras colhendo o lixo dos canteiros das ruas terrenos baldios, esquinas abandonadas, muros sem porquês E reguei com lágrimas & suor os espinhos acesos & eretos das plantas soturnas para podar dos passeios intempéries de afinco & embriaguez Por entre cães & gatos que reviram o lixo passei como igual limo Fera obsoleta Na noite vespertuna por entre o sono dos pardais & a vigília dos seios abandonados Pelas ruas através das trilhas dos bares abarrotados no caminho que cala a vontade imensa Com o álcool das ilusões eu posso sentir o silêncio para além dos medos Silencio o som das casas de família que esperam mudas o dia chegar & a véspera de carnaval passar Porém... então... todavia... pois... irrevogavelmente lá vem o Carnaval Varrendo o lixo das ruas levando consigo para debaixo de luxuoso tapete os pobres, as putas, os nus, a lei policial, as drogas a moda, delírio, gozo, choro, rancor Alienação ou libertação? Vespertina espera libertina Chegou...

- 10 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

A Estratégia de Rosana
Rosa ...riso Ana ...água Intensa Ainda amo o seu jeito de amar

Rosa ...lua nova Ana ...angélica Intensa Ainda lembro o seu jeito de amar

Está na minha carne espinho ameno Sede sedação Tua contagiante imensa fome de sentir compartilhar Amor.

(para Rosana A.)

- 11 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III
Série Poemas Imaginados & Imagens Poetizadas

e.m.tronconi

Sombras de Árvores
Fotografando sombras Rasgando caminho por mais essa ausência

Sombra de árvores Sombra de gente Prédios em sombra Sobras de alinhamentos & interposições Quase ausência de luz & querências de visões

- 12 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Nas sombras um repouso de silêncio não solicitado e o esforço dos olhos por mais um significado.

- 13 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Wabi-Sabi

na boca, no canto riso, ruga, ranhura o olho, dissidentes vergo, visgo, vesgo em pele cicatriz, tatuagem, arranhado feridas na alma trincados na parede limo fresco na sombra dos muros uma flor morta e seca por entre as páginas de nosso livro predileto e essa sua discreta imperfeição que tem minha afeição tua linda forma não exposta na flor da pele lacrimal sinopse sudorosa sonora sincera rosa humana discreta ranhura que leva a mente ao cerne da tua coisa qualquer desse seu jeito impermanente de permanecer em esplendor vivo quase incomodo em minha memória.

- 14 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Consciência
Consciência garimpo, refino, procurando sempre sua pedra rara volta sempre sua presença sobre o aqui & agora: Espaço/Tempo Universal;

Consciência redemoinho, rodamoinho, unidade & dispersão nos sentidos gerais espalha sua visão: Distância/Duração Local;

Consciência estranheza, fantasmagoria nas fantasmagorias emerge da escuridão essa incansável anomalia da matéria: Flor-da-Pele Abismal;

...sentir ser/estar ir...

- 15 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Naquele velho lugar...

Naquele velho lugar que não existe mais repousa a cobrança de meus sonhos recorrentes sempre presentes & atuais como agora... Naquele velho lugar dorme o passado que não me sonha mais Os velhos senhores pais dos meus pais & amigos que se foram... Naquele velho lugar que não existe mais a não ser no reino indestrutível do „um dia memória’ Me chamam os sons daquilo do que me diz „quem sou’, pois sou feito em essência do que ali fomos todos... Daquele velho lugar me fala a saga que só fala a nós, Família no familiar remanso de nossas origens, Que nos perdoe os intrusos dessas citações mas isso „fomos nós’, um dia & agora somos & seremos, ainda...

- 16 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Serenos & conscientes dessas lembranças que nos contam filhos do „locus’ muito mais do que do „tempus’; Pois aquele tempo nos abandonou – foi como tinha que ir, Mas o local ainda reside em um lugar da carne imemorial que convida o corpo a ali sempre retornar, nos sonhos escusos da noite escura que parecem nos convidar também para que ao morrer, nos juntar ali aos que também já se foram; Naquele velho & eterno lugar...

- 17 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III
Série Poemas Imaginados & Imagens Poetizadas

e.m.tronconi

Dois Caminhos

Caminhos retos de quente negro asfalto que conduz a riqueza alheia Caminho reto construído para chegar mais perto, mais rápido toda a ganância ereta

- 18 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Caminho de ferro de antiga passagem e duro segmento Na suas orlas me contaminou uma doença que um dia tive que esquecer Caminho de ferro aguda reta passando por toda lugar onde pés não vão Só ferro & Fogo & Cães.

- 19 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

22 de Julho de 2010
... dormi... & acordei em um Sonho... Eu dormi um sono tarde; cedo na Madrugada que sempre me dizia, com urgência: “-Lá vêm o Sol”... Eu dormi em uma noite & acordei & era dia... um Dia diferente! Eu sonhei depois de Despertar & era um sonho de „romaezapzulluzpazeamor‟... sonhei & era ouro & sol & coração... ... andei... & voei em um sonho... Andei sob o Sol, & Ele verteu-se em minhas lágrimas, enxugando-me em alegria! Andando meus pés me levaram ao Jardim onde colhi flores brancas, doei um presente de Paz para todos que amo... Ando junto ao Sol, em Sua órbita galáctica, viajo em Luz & Amor pelas Imensidões de Deus! mas estou sempre no lugar mais importante: Aqui & Agora!

- 20 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Meu Vegetal
Minha Janela Meu Plural Minha Ayahuasca Meu Mestre Minha Irmã Abra minha mente Reduza meu ego Mate minha sede de me conhecer Mate essa minha fome de morrer... de morrer... Sincera Dissolução Do Meu Mal Do Meu Bem Lembranças & Esquecimento De Mim De Tudo Das Sendas do Universo Entre Vidas Nossas Vidas De Todas as Dores De Todo Amor.

- 21 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Buddhas Vegetais

O Cipó ensina:

"Prefiro estar em Paz do que estar certo!"

- 22 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

O luto dos gatos

... não igual às outras noites nesta a gata Kalkii dormiu quieta & silente, do meu lado. ... & de manhã se agitou externando um sentimento profundo dela quando do asfalto de frente de casa tirei esfolado outro gato. ... & em seu luto-felino ela chorou, com sua dor & seu medo, uma forma de oração para não mais cheirar a morte por ali. ... morte que os ventos do último dia de agosto não conseguiram levar daqui, & ela, noite adentro, em seu sono de luto & desalento...

- 23 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Dia de Eleição
Sonhei que um boi pastava grama rala em meio à areia de um deserto; e ele defecava por ali seu esterco verde que ia adubando o deserto; e no esterco havia um grande verme. E havia também um cão que ficava em cima de um monte de areia vigiando o boi, e o cão descia e rolava no esterco e dele comia e comia o verme também, mas o verme não morria e vivia dentro do boi e do cão. Sonhei então que nesse deserto haviam se formado três filas de pessoas; Uma fila era enorme, uma fila era grande e uma outra fila era pequena, e as três filas pareciam rumar cada uma à uma porta diferente. Na fila enorme haviam homens e mulheres e pareciam ter eles bilhetes na mão e iam felizes como quem está na fila para ir à um show, a maioria eram alegres e brincalhões, alguns estavam entediados e uns poucos sérios; mas todos eles estavam sem calças porque as haviam perdido, fato que à alguns constrangiam, mas à maioria era motivo de brincadeiras, ao que em suas nádegas estava escrito como se à força de correiadas e chibatadas: “ordem e progresso”. E lá à frente da fila enorme ia o boi, e o boi mugia: “diiiveeeersão!” Na fila grande haviam homens e mulheres e eram como palhaços, estavam fantasiados e coloridos, uns eram mímicos, outros agiam como marionetes, uns eram irônicos, alguns cômicos, outros estúpidos... e eles estavam todos sem camisas porque as tiraram para poder trocar, e tinham no corpo escrito como com tinta de propaganda: no peito escrito “promessa”, e nas costas escrito “interesse”. E lá na frente dessa fila grande ia o cão, e o cão latia: “sufrágio! sufrágio! sufrágio!” Na fila pequena haviam homens e mulheres e eram como se fosse pessoas importantes e sérias, todos vestiam roupas caras e faziam poses de enorme dignidade, mas não mostravam o rosto, coberto que estavam por véus negros onde se podia ler escrito em letras douradas: “Poder e Respeito”. E na frente dessa fila pequena estava o verme.
- 24 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

e o verme secretava com ajuda de um microfone: “deeeeemocraciaaaaaa!” E sonhei que as três filas seguiam para três portas: A fila enorme rumava para a porta de um abatedouro disfarçado de curral. A fila grande rumava para a porta de um tribunal disfarçado de circo. A fila pequena não rumava, mas já havia atravessado a porta de um luxuoso palácio. E na porta dos primeiros estava inscrito: “trabalho, família, pão”; E na porta dos segundos estava inscrito: “teatro, força, propriedade”; E na porta dos terceiros estava inscrito: “tradição, fartura, poder”. E no sonho eu me aproximei de uma praça no meio daquele deserto, e lá havia uma urna funerária e de dentro dela suas cinzas falava com uma voz digital, dizendo: “Tudo na normalidade... Estes são os caminhos da república... Estas filas representam democracia... Festa do povo... A política é o espelho da sociedade... A palavra de hoje é „pragmatia‟...” E ao lado da urna havia uma pessoa estranha, e ela me parecia estranha e me parecia conhecida, ao que eu a chamei de profeta-professor. E o estranho me falou, assim que a voz digital da urna cessou, disse-me então como estranho profeta: “Se no esterco se sujar, gostarão de ti... Se do verme não se enojar, gostarão de ti... Mas é possível não se corromper, e então eles te amaldiçoarão em silêncio, e em público será chamado de tolo e hipócrita... Porque eles, os cães e os vermes criaram outra forma de pensar, confundiram por má-fé pragmatia e hipocrisia, e hoje os hipócritas são pragmáticos e os pragmáticos hipócritas e o esclarecimento é tolice e a tolice celebrada como informação; Pois eles falaram pelas bocas dos religiosos e dos intelectuais, eles falaram pelas bocas dos jornalistas e dos comediantes...” E lá no deserto a fila enorme andava rápido, e o boi pastava; E a fila grande andava lenta, e o cão rolava; E a fila pequena não era fila, mas uma ciranda de roda, e o verme se contorcia e se deleitava em prazer no seu próprio visgo. Então disse-me o estranho como professor: “O que não deixa sujar, O que não deixa adoecer, Imuniza o boi, purga o cão e mata o verme: Educação & Amizade & Prosperidade...”

- 25 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

E lá no deserto os da fila enorme gargalharam dementemente, e o boi se assustou; E os da fila grande riram nervosamente com escárnio, e o cão rosnou e latiu alto; E os da fila pequena estavam sérios, e o verme se contorceu de raiva! E no sonho então o boi com seus chifres atacou o estranho e mugiu: “subversivo, rebelde, satânico...”, o cão com suas presas defendeu a urna atacando o estranho e latiu: “anarquista, desordeiro, irreverente...”, o verme com sua astúcia penetrou no corpo estraçalhado do estranho e verbalizou: “ridículo, desinformado, rancoroso...” E depois de ter feito isso os três alegres de seu jeito comemoraram, em festa, e o verme com seriedade contou ao boi em forma de noticiário: que o verme é servo do boi e o nutre e preserva; e o cão com carinho contou ao boi em forma de novela: que o cão é quem defende o boi dos perigos do deserto e lida com seus dejetos; e então o boi com canções grotescas e piadas agradeceu à eles e pediu ao cão e ao verme em forma de oração: que lhe desse a educação para trabalhar e ganhar dinheiro, e a amizade para com aqueles que estavam próximos dele, e a prosperidade do saneamento das fomes... E assim o verme e o cão lhe deram a competição, o patriotismo e os venenos, o emprego, o futebol e o álcool... E o boi se sentiu como o rei do deserto e pensou consigo que dali não queria sair mesmo, pois pastava grama magra com areia suja e água poluída mas tinha a lei, a segurança e a diversão, e tinha no cão e no verme amigos dedicados que o protegiam de outros bois, e assim foi, crescendo e multiplicando, em corpo e miséria... E no fim do sonho já me vi só na praça deserta com o cadáver despedaçado e corroído do estranho, enquanto uma enorme tempestade de poeira e lixo se levantava no céu; Então o cadáver ainda murmurou para mm: “É certo estar errado? É errado estar certo?” E ainda em um último suspiro indagou: “É justo ser injusto?...” E era um dia triste, feio e onde não havia respostas para nada...

Então eu acordei! E era Dia de Eleição!

- 26 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

“A textura desse abismo”*
-Se mil platôs não formam um montanha, então porque todos meus órgãos & meus pensamentos deveriam formar alguém? Sei de algumas coisas dispersas, que tento ajuntar e fazer uma síntese, um suco de húmus: -...lá onde mora o perigo, também cresce o que salva; -...tudo fala da renúncia que conduz ao mesmo; -...o mundo é tudo que é o caso; -...você é a noite, lilah; -...lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa; -...faze o que tu queres; -...o que não te mata te fortalece; -...não é pela inteligência que seremos salvos; -...caos & vazio; -...tudo que é feito com amor está além do bem e do mal; -...laranjas são azuis; -...i'm not a number...; -...666, 23, 1464, 11, 16, 0, 3.1412; -...a verdade está lá fora; -...a essência da felicidade é não ter medo; -...conhece a ti mesmo; -...wake up, neo!; -...eu sou o mágico chinês...; -...meu nome é Ismael; -...forma é vazio e vazio é forma; -...se quiser mudar o mundo, mude a si mesmo; -...não esqueço aqueles olhos verdes; -...jardim das flores, jardim das flores; -...do samsara-cama ao leito do nirvana; -...peso, logo existo; -...possui esse caminho um coração?; -...nonada; -...a vida é um mau gosto da matéria; -...sorte/morte; -...mas, já que cuidado formou primeiro esta criatura, a possuirá enquanto viva; -...penso, pena que seja pouco...; -...evite antes de defender; -...minha vida inteira... é Agora!

* Este texto é a apresentação de perfil do autor no Orkut.

- 27 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

O Foco da Dor ou ...Do Espinho
Deus entra no mundo pela fresta aberta de todas as nefralgias Ele torna tudo tão real na roda que gira e atropela como toda essa orgia de dor na carne intumescida de uma certa indignação de um certo refugo e assombro quando na dor toda delicadeza acaba e o sentido da beleza e da vida se perde no susto constante do doer e doer e doer... Deus entra no mundo pelo dente infeccionado pelo rasgo do anzol pelo corte do vidro pelo câncer em remissão pelo furo do espinho pela fratura exposta pela angústia do suicida Deus entra no mundo na humilhação dos corpos na fraqueza da carne na vergonha das formas na insatisfação das fomes na ofensa das palavras na degradação das paixões na opressiva vigilância dos pudores Deus entra no mundo desfazendo todos os nossos sonhos de tranquilidade matando tudo que um dia se curou e superou apequenando todo prazer mendigado no escuro preocupando toda felicidade com o instante seguinte findando toda abundância de juventude ou velhice degradando toda saúde e força em febre que ferve tornando tudo mais real e nu e cru e frio e quente Deus entra no mundo nas dores dos partos nas dores dos prepúcios nas dores dos virgens nas dores dos úteros nas dores de estômagos nas dores dos cus nas dores das almas
- 28 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Deus entra no mundo na dor incompreensível para os animais na dor incompreensível para as árvores na dor incompreensível para as estrelas na dor incompreensível de todos os inocentes na dor incompreensível da desproporcionalidade na dor incompreensível para o torturado na dor incompreensível para o torturador Deus entra no mundo nos estupros coletivos nos atos de ódio racial nas ações das tropas de choque nas fileiras de tanques de guerra nas praças sitiadas por soldados nas câmaras de gás e campos de refugiados nos sacrifícios de seres vivos Deus entra no mundo como o coma induzido como o incêndio criminoso como a cirurgia invasiva como a defenestração progenitora como a garganta em grito rouco como a emasculação religiosa como o olho do furacão Deus entra no mundo pela dor, Deus vêm por aí: como matador como anestésico como esquecimento como água como alívio como desforra como fôlego como consolo Deus vêm por aí como choro que cansa e finalmente faz dormir como desespero convertido em coragem repentina como desistência expressa em pura oração como desapego contido na entrega final como perdão latente à todo ato imperdoável como ar que arrebata o afogado como resignação feita paciência ampla como sabedoria que ensina que tudo há de passar tudo há de, enfim, acabar! Findar!

- 29 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Em toda dor há de dizer: que isso passará também! Tudo há de passar! E passará! Paz que há de nos sarar!

- 30 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

"Na Noite de Goya"

Para se amar como um deus tem que se perder a noção do Amor. Só como Loucura o Amor se torna Infinito.

Intoxicado pelo excesso de Noite agora na fuga alucino vendo cupins & formigueiros decorando toda a paisagem, E me permito cogitar um sonho lúcido inútil onde matagais baixos crescem nos campos lunares...

...Reflexos áridos & dissonantes de Noite... Dos campos claustrofóbicos de euforia triste Com sua safra abundante de corrupção divina ...

Baco me guia pela cidade noturna Acordado noite adentro, Baco me leva ao lado escuro da Lua Despertando noite adentro, Tentando desvendar nossos Mistérios... E quando a noite clarear em dia dormiremos em um leito móvel; Rodando antes no esteio rastro da Lua na noite de Goiás, Onde se clareará para mim & para a Ninfa de negro toda a sua volúpia...

Belos deuses encarnados brincam de carne jovem, Penetram sua divindade no cadáver da luz da Lua; Belas & deliciosas feridas abertas como um rasgo de faca cega em negra seda; Estuprando a madrugada...

E até a noite clarear em dia que já então não será possível nem para o Sol engolir toda nossa Vontade, Porque para ele será impossível iluminar toda essa volúpia...
- 31 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Baco me guia à Noite Tudo me é mostrado & negado E agora o brilho desse Sol me parece mesmo pequeno, Ele é um brilho menor dentro de toda essa intoxicante & sedutora Escuridão.
Para se amar deuses tenho que perder o que não é meu: Alma! Só no vazio deixado por ela se pode instalar esse Amor; Esse é o preço de se ter o Amor do Infinito, & eu não quero mais pagar! Dos deuses não quero o Amor. Para mim eles são só uma lição: que os deuses também sofrem! Igual à mim...

- 32 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Saudades no tempo fugido...

Vai virar-se mais um ano vira-se um década, e devemos nós decadentes, volver também a cabeça, os olhos o espírito e agora olhar outros horizontes, Abandonando os horizontes passados pois tudo que precisamos mesmo levamos agora e desde sempre dentro de nós o relicário de saudades prazeres & desgostos que há de um dia formar nossa futura vida, Onde os desgastes dessa vida do real e da matéria
- 33 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

não serão mais do que ranhuras finas falhas sob o manto das existências só mais um longo dia que passou...

- 34 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Os nativos das terras de Vera Cruz
Eu não consigo viver desconfiando de tudo Eu não posso viver assim crendo que todos querem me enganar, Renego isso mesmo que a pecha de idiota me dêem E no país dos vantajeiros eu me recuso a seguir a sina do sangue deste povo; Busco uma forma de exorcizar de mim esse espírito safado esse espírito ressentido esse espírito demente esse espírito de aproveitador esse espírito alienado que quer passar a perna e enganar todos; Pais, padres, pastores, políticos, policiais, parentes, prostitutas e prostitutos, pedintes, patrões, paladinos, profissionais liberais da decadência secular brasileira... E saio por aí nesse curral mal asfaltado e cimentado com a falácia da má-fé geral que está na cidade que é o país que é o mundo inteiro, E ouço o ensurdecedor ruído dos urros bestiais de todo este povo brasileiro dos seres humanos em geral Agonizando em involução; O „p‟ que nos pede engajamento nessa indigência é o „p‟ da „perversidade‟... Eu não consigo viver em paz tendo que reagir à isso, Eu não tenho paz convivendo com todos esses selvagens...

- 35 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

RetroEspectativas

Retro 2010 expectativas 2011
2010 Um ano para se lembrar e agradecer, promessas de novidades para a próxima década. 20 10 11 ... Diversos „adeuses‟,

Muitos „olás‟!

Aparei grossas arestas,
- 36 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

com a Força da Serena Luz!

Que possamos todos preparar uma década de Felicidade com a energia de Amigos antigos e novos que vieram acrescentar Beleza ao caminho...

- 37 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

Nascer & renascer sempre, Ser...

Neste sereno recanto com seus cantos cheios de encantos, que é onde sempre estou, e onde o dia sempre renasce! Para todos desejo feliz Ano Novo!

Um Excelente 2011!

- 38 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

- 39 -

A Textura desse Abismo chamado Consciência – Ano III

e.m.tronconi

-Fundo Memorial do Abismo: * “dois mil e dez” postado em 02/01/2010. * “Todas as Nuvens” postado em 09/01/2010. * “Três Árvores” postado em 01/02/2010. * “Véspera de Carnaval” postado em 15/02/2010. * “A Estratégia de Rosana” postado em 01/03/2010. * “Sombra de Árvores” postado em 01/04/2010. * “Wabi Sabi” postado em 13/04/2010. * “Consciência” postado em 01/05/2010. * “Naquele velho lugar” postado em 01/06/2010. * “Dois Caminhos” postado em 09/07/2010. * “22 de Julho de 2010” postado em 24/07/2010. * “Meu Vegetal” postado em 02/08/2010. * “Buddhas Vegetais” postado em 10/08/2010. * “O luto dos gatos” postado em 01/09/2010. * “Dia de Eleição” postado em 27/09/2010. * “A textura desse abismo” postado em 04/10/2010. * “O Foco da dor ou ...do espinho” postado em 12/10/2010. * “Na Noite de Goya” postado em 18/10/2010. * “Saudades no tempo fugido...” postado em 08/11/2010. * “Os Nativos da terra de Vera-Cruz” postado em 06/12/2010. * “Retro2010espectatica2011” postado em 01/01/2011.
(Obs.: No dia 17 de Junho de 2010 foi postado no blog o panfleto-poético ‘Um Vento Bom que Sopra’, essa micro-obra será disponibilizada em separado, como obra individual. Para acesso à esse material vide link no Index Texturial do blog. )

A Textura desse Abismo chamado Consciência ©2010 Todos os textos, fotografias e arte são de autoria de Eduardo Moura Tronconi
Registrado na Fundação Biblioteca Nacional sob Certificado nº 507.040, livro 961, folha 165

Contato: emtronconi@hotmail.com Uberlândia - Minas Gerais - Brasil

- 40 -

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful