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Análise Bolsa EUA Outubro 2020

Empresas Um semestre O papel da economia Publicação Mensal

familiares de pandemia para no duelo Trump 438


Portugal
exame.pt à prova de crise as cotadas do PSI 20 vs. Biden €4,90 (Continente)
438
outubro 2020

VENCEDOR DO GRANDE
EDIÇÃO ESPECIAL PRÉMIO PELO 2º ANO
SUSTENTABILIDADE CONSECUTIVO
PODE O AMBIENTE
RESISTIR À EMERGÊNCIA
ECONÓMICA?
ANTÓN IO R IOS AMOR I M , O LONGO CAM I N HO DO NOVO R E I DA CORTIÇA

A VAGA DE ECONOMISTAS
QUE DESAFIA OS DOGMAS

A AFIRMAÇÃO DO PADRÃO
VERDE NOS INVESTIMENTOS
FINANCEIROS

A VISÃO DE NUNO LACASTA,


PRESIDENTE DA AGÊNCIA
PORTUGUESA DO AMBIENTE
ANTÓNIO RIOS AMORIM

O LONGO CAMINHO DO
NOVO REI DA CORTIÇA
Numa granded entrevista,
t i t o lídlíder d
da C
Corticeira
ti i A Amorim
i revisita
i it a sua vida
id e o seu
percurso, da mentoria do tio Américo às experiências nos casinos e nos têxteis.
E aponta o caminho para reforçar a liderança mundial da empresa
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44 / 124

Micro

DUAS OPÇÕES Ricardo Parreira / Presidente-executivo da


PHC Software

“Se as empresas
DE LEITURA DA REVISTA fossem mais bem
Pode escolher geridas, o País era
melhor”
como prefere ler Existe há 30 anos na área de
a edição mensal: software de gestão e é
considerada uma das melhores
empresas para trabalhar em
em formato pdf, Portugal. Quem gere a PHC
Software diz que o foco é uma
com primazia aprendizagem importante
Texto Alda Martins Fotos Marcos Borga
para o grafismo, ou Daqui a três décadas a portuguesa PHC va
estar ainda no mercado, já com 60 anos de

em formato de texto, existência. A fazer o que faz hoje e


espalhada por quase todo o mundo Esta é
< ANTERIOR 18 / 74 SEGUINTE >

para uma leitura mais


confortável do texto

CLIQUE PARA ABRIR


50 / 132 FORMATO DE TEXTO
Para leitura mais Em entrevista à EXAME, Ricardo Parreira
recorda uma realidade
id “bem diferente” em
confortável dos artigos 1989, quando foioi fundada
fu
fun
paixão pela programação
rogramaç
ra
a PHC, e a sua
que, já nessa
altura, vinha d
de trás.

ou caixas completos, “Aos 17 anos, deram-me
am
uma coisa maravilhosa.
vilh
um Spectrum,
Até aprendi a
programar e a fazer
zer jogos.
go Na faculdade de
basta carregar. Pode gestão, cheguei a crcriarr jogos
e de bolsa. Mais do que
jo de economia
ue ccomputadores,

escolher o corpo de letra adorava a parte da programação”,


Nos primeiros empregos,
faculdade, como toda
ogr
go ainda na
oda a gente
diz.

gent sabia que

mais adaptável ramaçã


ma
tinha luzes de programação,
lhe pedirem trabalhoss de
ao invés de
d gestão,
pediam-lhe de software e foi aprendendo.

ao seu gosto Até que surgiu a oportunidade de


mpresa. Era para ser de
constituir uma empresa. d
sultor mas o primeiro
consultoria, i i desafio afio fo
foi a
onst
nstrução de todo o sistema
construção sis par
para outra.
nha sete
“Tinha se ou oito departamentos.

NAVEGAÇÃO INTUITIVA Dividimos os departamentos pelos três


sócios da PHC. Eu ensinei os outros dois a
programarem e cada um fez o software
► Deslize para navegar para os respetivos departamentos. Foi
nesse momento que o gosto pelo software
entre páginas < ANTERIOR 18 / 74 SEGUINTE >

► Aproxime e afaste
para ver detalhes

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Exame
Nº438 . 10/20
52
VERDEOURO
O estado de emergência que
o mundo está a atravessar pode ser um
bom pretexto e uma boa oportunidade
para aprendermos a desenhar um
futuro financeiro mais sustentável

14
SUSTENTÁVEL GERAÇÃO
A Corticeira Amorim e o seu CEO,
António Rios Amorim, são ponto
de partida para um trabalho amplo
sobre sustentabilidade, com

MARCOS BORGA
entrevistas, reportagem, exemplos
empresariais e as mudanças na
economia e na sociedade

. Enter . Micro . Macro . Exit . Opinião


6 58 72 102 70
CARAS COMPRAS RUNS IN THE FAMILY TRUMPONOMICS DESCER À ADEGA SOUMODIP SARKAR
2020 deve tirar brilho Gerir empresas familiares VS. BIDENOMICS Cinco propostas de vinhos COMO MEDIR
às vendas no mercado é pôr a união e vontade Em contagem para outras tantas regiões O EMPREENDEDO-
de bens de luxo, mas as de superar obstáculos decrescente para do País, do tinto ao branco, RISMO?
perspetivas até 2025 ao serviço de uma visão as eleições nos Estados passando pelo espumante. Apesar do caminho
são de recuperação, de longo prazo. Unidos da América, Só falta puxar a rolha positivo que já foi trilhado
com a China e o online a Nos primeiros seis meses republicanos e fazer a prova por Portugal neste domínio,
sobressaírem da pandemia, elas deram e democratas esgrimem o professor catedrático
mostras de resistência. medidas para a maior 104 da Universidade de Évora
12 Mas as mesmas razões economia do mundo. À REDESCOBERTA diz que ainda há estrada
WEBINAR que fazem a força podem O que aproxima e afasta Quase 30 anos e meio para andar. E depressa
Conferência “Inovar em ditar as suas fraquezas os dois candidatos em milhão de unidades
Prevenção”, da EXAME/ temas como salários, vendidas depois, 78
Ageas Seguros, debateu 66 impostos e comércio o Discovery da Land JOSÉ LUÍS VEGA
a retoma da eficiência dos LUCROS EM Rover apresenta-se mais UM TEMPO
negócios QUARENTENA 94 moderno e com mais DE DESAFIOS PARA
De janeiro a junho, E DEPOIS DO CORONA? tecnologia. Uma evolução VIVER EM CONJUNTO
os resultados das cotadas Em entrevista, na continuidade A lição da última crise
na praça portuguesa o economista alemão deve inspirar-nos, no atual
voltaram a níveis só vistos Daniel Stelter traça 106 momento de dificuldades,
no tempo da intervenção as possíveis soluções ESTRATÉGIA E CAPITAL a olhar para o futuro
externa. A pandemia e os caminhos que a A Estante deste mês com confiança, defende
cortou mais de metade Europa poderá trilhar no sugere quatro livros, o diretor da Banca
A nossa capa dos lucros pós-pandemia. Um fundo abordando temas de Empresas
Destaque para de resgate de dívidas como popularidade, do Bankinter Portugal
o especial de 37 páginas é uma das ideias que
sobre sustentabilidade, desigualdade e ideias
propõe para o euro de sucesso
numa capa desenhada
por Edgar Antunes

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 3


E Editorial

Proprietária/Editora:
TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL LDA.
Sede: Rua da Fonte da Caspolima – Quinta da Fonte
Edifício Fernão de Magalhães, 8
POR 2770-190 Paço de Arcos. NIPC: 514674520
Gerência da TRUST IN NEWS: Luís Delgado,
TIAGO FREIRE Filipe Passadouro e Cláudia Serra Campos
Diretor Composição do Capital da Entidade Proprietária: 10 000,00 euros
Principal acionista: Luís Delgado (100%)
Publisher: Mafalda Anjos

O dever de exigir tudo Exame


www.exame.pt

A
Revista Mensal

pandemiaforçou-nos responsabilidade fiscal, direitos hu- Diretor Tiago Freire


Redação Cesaltina Pinto, Clara Teixeira, Margarida Vaqueiro Lopes,
a parar e a reavaliar manos. Sustentabilidade é, no fundo, Nuno Aguiar, Paulo M. Santos, Paulo Zacarias Gomes (editor) e Rui Barroso
Arte Edgar Antunes (editor), Patrícia Pereira e Rita Cabral
todos os aspetos da uma forma de ver o mundo e de nele Infografia Álvaro Rosendo e Manuela Tomé
nossa vida. Precisa- agir, sempre consciente do papel que Revisão Maria João Carvalhas, Rui Carvalho,
Sónia Graça e Teresa Machado
mos mesmo de viver cada um de nós desempenha. Secretariado Sofia Vicente (direção), Teresa Rodrigues (coordenadora), Ana
Paula Figueiredo e Luís Pinto
como temos vivido? Damos importân- Esta visão holística da sustenta- REDAÇÃO, ADMINISTRAÇÃO E SERVIÇOS COMERCIAIS
cia ao que é realmente importante? bilidade não é fácil de atingir e nem Rua da Fonte da Caspolima – Quinta da Fonte
Edifício Fernão de Magalhães, 8, 8A e 8B, 2770-190 Paço de Arcos
Há outras formas, mais equilibradas e sequer de medir, e enfrenta agora um Tel.: 21 870 5000
Delegação Norte: Rua Roberto Ivens, 288, 4450-247 Matosinhos
mais saudáveis, de atingirmos os mes- desafio acrescido. Com a economia no Tel.: 22 099 5200 / 22 099 3810
Marketing
mos objetivos? A questão da sustenta- fundo da ravina, o foco está, compre- Marta Silva Carvalho (diretora) mscarvalho@trustinnews.pt
bilidade é crucial nestas nossas dúvi- ensivelmente, na recuperação da cria- Marta Pessanha (gestora de marca) mpessanha@trustinnews.pt
Publicidade
das, até porque a emergência climática ção de riqueza. Mas não nos deixemos Tel.: 21 870 5000
Vânia Delgado (diretora comercial) vdelgado@trustinnews.pt
era já “o” tema antes de a Natureza e distrair: o mundo é cada vez mais com- Manuel Geraldes (diretor coordenador de publicidade)
um vírus silencioso nos terem obriga- plexo e a sustentabilidade não pode mgeraldes@trustinnews.pt
Mónica Ferreira (gestora de marca) mferreira@trustinnews.pt
do a parar e a reconhecer a nossa hu- voltar a ser apenas um extra que fica Mariana Jesus (gestora de marca) mjesus@trustinnews.pt
Rita Roseiro (gestora de marca) rroseiro@trustinnews.pt
mana falibilidade. bem nos relatórios de responsabilidade Florbela Figueiras (assistente comercial Lisboa) ffigueiras@trustinnews.pt
Elisabete Anacleto (assistente comercial Lisboa) eanacleto@trustinnews.pt
Um relatório publicado pela ONU, societária. Temos de contribuir para a Delegação Norte – Tel.: 22 099 0052
em setembro de 2019, deixava um aler- mudança e o dever de exigir tudo. Margarida Vasconcelos (gestora de marca) mvasconvelos@trustinnews.pt
Rita Gencsi (assistente comercial Porto) rgencsi@trustinnews.pt
ta incontornável: “atingir o bem-estar De nada nos servirá um planeta Parcerias e Novos Negócios
Pedro Oliveira (diretor) poliveira@trustinnews.pt
humano e erradicar a pobreza de to- rico, mas destruído, ou um planeta Branded Content
das as pessoas da Terra – que se espe- saudável, mas cheio de humanos de- Rita Ibérico Nogueira (diretora) rnogueira@trustinnews.pt
Tecnologias de Informação
ra que atinjam os 8,5 mil milhões, em primidos ou miseráveis. João Mendes (diretor)
Produção, Circulação e Assinaturas
2030 – ainda é possível, mas apenas se Vasco Fernandez (diretor)
houver uma fundamental – e urgente Nota: O trabalho “O Dinheiro é Ver- Pedro Guilhermino (coordenador de produção)
Nuno Carvalho, Nuno Gonçalves e Paulo Duarte (produtores)
– mudança na relação entre as pessoas de?”, de Margarida Vaqueiro Lopes e Isabel Anton (coordenadora de circulação)
Helena Matoso (coordenadora de assinaturas)
e a Natureza”. Também a ONU divul- de Paulo Zacarias Gomes, publicado na Serviço de apoio ao assinante. Tel.: 21 870 5050 (Dias úteis das 9h às 19h)
Impressão Lisgráfica – Casal de Sta. Leopoldina, 2745, Queluz de Baixo
gou, então, um estudo – produzido por EXAME, em maio de 2019, foi o gran- Distribuição VASP – MLP, Media Logistics Park, Quinta do Grajal,
um grupo de cientistas independentes de vencedor do Prémio de Jornalismo Venda Seca, 2739-511, Agualva-Cacém, Tel.: 21 433 7000
Pontos de Venda contactcenter@vasp.pt
– que posicionou Portugal em 26º lu- Económico, o mais antigo e prestigia- Tel.: 808 206 545 – Fax: 808 206 133
Tiragem 7 500 exemplares. Registo na ERC
gar (entre 162 países) no cumprimen- do concurso desta área em Portugal, com o nº 113 709, de 14/04/1989
Depósito Legal nº 24 202/89
to dos 17 objetivos do desenvolvimento organizado pela Universidade Nova e Estatuto Editorial disponível em visao.sapo.pt/
sustentável, os quais têm 2030 como pelo Santander. É o segundo ano con- informacaopermanente/2018-01-01-Estatuto-editorial-da-EXAME
“A TRUST IN NEWS, UNIPESSOAL, LDA. não é responsável pelo conteúdo
prazo. secutivo em que esta distinção é entre- dos anúncios nem pela exatidão das características e propriedades dos
Quando falamos de sustentabilida- gue a um trabalho feito pela EXAME, produtos e/ou bens anunciados. As respetivas veracidade e conformidade
com a realidade são da integral e exclusiva responsabilidade dos anunciantes
de, o instinto imediato é pensar no am- o que nos enche de orgulho. A nossa e agências ou empresas publicitárias.” Interdita a reprodução, mesmo parcial,
de textos, fotografias ou ilustrações sob quaisquer meios e para quaisquer
biente, onde está a maior emergência missão é trabalhar os temas com seri- fins, inclusive comerciais.
para todo o planeta. Mas sustentabi- edade, profundidade e capacidade de
lidade é mais do que clima e mais do análise, fugindo ao soundbite fácil ou a
que Natureza, como, aliás, vários eco- verdades rápidas que logo se transfor-
nomistas têm vindo a salientar com mam em dúvidas ou mesmo em men-
cada vez mais veemência. Também é tiras. Os meus parabéns aos jornalistas
acerca de saúde – física, mental e emo- premiados e o meu agradecimento aos
cional –, desenvolvimento humano, leitores que tornam possível que conti-
rendimento justamente distribuído, nuemos este nosso caminho. E

4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Enter

COMUN ICAÇÃO SOCIAL

EXAME volta a vencer Prémio


de Jornalismo Económico
Trabalho de Margarida Vaqueiro Lopes e de Paulo Zacarias Gomes dá à EXAME
o Grande Prémio de Jornalismo Económico, pelo segundo ano consecutivo
O trabalho “O Dinheiro Teixeira e Nuno Aguiar, pelo e integral desta análise pode Jornalismo Económico rece-
é Verde?”, dos jornalis- trabalho “As Lições da Crise”, ser lida no site da EXAME. beu perto de 70 candidaturas.
tas Margarida Vaqueiro publicado na EXAME; em Na edição deste ano do Os trabalhos foram avaliados
Lopes e Paulo Zacarias Go- 2018, o Grande Prémio foi Prémio de Jornalismo Econó- por um júri composto por
mes, publicado na EXAME, entregue a Cesaltina Pinto, mico, no seu 14º ano de exis- personalidades de reconheci-
venceu, este ano, o Grande graças ao trabalho “Herança tência, também a Visão, do do mérito, ligadas às Ciências
Prémio de Jornalismo Econó- Indivisível de Belmiro”, publi- grupo Trust in News, viu um Sociais, Jornalismo, Finanças,
mico, o mais antigo e presti- cado na Visão. trabalho distinguido, “BESA, Sustentabilidade e Gestão:
giado concurso nesta área em Editado em maio de 2019, a Anatomia de um Golpe”, de Francisco Caramelo (diretor
Portugal, da iniciativa do Ban- “O Dinheiro é Verde?” analisa Sílvia Caneco, na categoria de da NOVA FCSH), António Gra-
co Santander e da Universida- a transformação da economia Mercados Financeiros. nado (NOVA FCSH), Cátia Ba-
de Nova de Lisboa. e dos negócios rumo à susten- Na categoria de Gestão de tista (NOVA SBE), Conceição
Este é o segundo ano con- tabilidade ambiental e relata Empresas e Negócios, foi dis- Zagalo, Graça Franco (Rádio
secutivo em que um trabalho ainda, na primeira pessoa, tinguido o trabalho “O Grande Renascença), Helena Garri-
da EXAME é distinguido com uma semana a tentar viver Assalto ao Banco do Estado”, do e Paulo Pinho (NOVA SBE).
o Grande Prémio e o tercei- com a máxima sustentabilida- da autoria dos jornalistas Ale- Esta distinção, atribuída
ro ano consecutivo em que de possível. Além de vencer o xandre Malhado, Ana Tabor- novamente a jornalistas da
o galardão é atribuído a pu- Grande Prémio, este trabalho da, Bruno Faria Lopes, Carlos EXAME, junta-se à conquista
blicações da Trust in News. ganhou ainda na categoria de Rodrigues Lima e Eduardo pela revista dos prémios Es-
Em 2019, os vencedores do Sustentabilidade e Inovação Dâmaso, da Sábado. colha do Consumidor e Cinco
Grande Prémio foram Clara Empresarial. A versão digital Esta edição do Prémio de Estrelas. E

8 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Se quer algo novo
pare de usar o que
é antigo.
A mudança é a única constante na
(dizia Peter Drucker, um dos pensadores
mais influentes no mundo)

Na RE/MAX sabemos que, se não Como o novo www.remax.pt


vida através de diferentes fases. seguirmos em frente, não alcança-
E à medida que a vida avança, mos objectivos. Os seus, e os nossos. Um avanço tecnológico surpreen-
avançamos novamente para a fase E para alcançar algo novo na vida, dente, baseado na variável mais
seguinte, e o ciclo repete-se. temos de nos libertar do que é difícil de quantificar: as pessoas.
antigo, daquilo que é ultrapassado. Os nossos clientes.
Cada fase nova chega como um
desafio. E tal como numa casa nova, Por isso nos esforçamos Nunca foi tão simples comprar a sua
instalamo-nos nela e criamos a nossa constantemente para nos reinventar- próxima casa, ou vender, ou arrendar.
própria zona de conforto. Mas nem mos. E, de vez em quando, algo de
sempre é o suficiente. incrível acontece. Nunca foi tão rápido.
Nunca foi tão real.

Novo remax.pt
Nunca foi tão bom.

www.remax.pt
Enter Compromisso
O fundador da Farfetch aderiu ao
The Giving Pledge, criado pelo
casal Gates e por Warren Buffett

TRÊS DÉCADAS
DE MICROSOFT
EM PORTUGAL
Mais de mil trabalhadores
e foco total no futuro

A tecnológica celebrou no passado


dia 21 de setembro o 30º aniver-
sário de presença em Portugal, e
Paula Panarra, CEO da empresa, con-
gratulou-se pelo caminho feito desde
1990 na digitalização da sociedade por-
tuguesa. Num mercado em elevada mu-
tação, a Microsoft continua a conquistar
seguidores e, segundo a responsável, já
são mais de 600 mil pessoas que utili-
zam o Microsoft Teams, por exemplo,
uma ferramenta que ganhou novo fô-
lego graças ao Grande Confinamento.

GONCALO F SANTOS
Quando a sucursal da Microsoft abriu
em Portugal, contava com apenas um
trabalhador. Hoje são 1 100 os que fazem
parte da tecnológica, sendo que este nú-
mero duplicou apenas nos últimos qua-
JOSÉ NEVES DOA DOIS TERÇOS tro anos, segundo um comunicado en-
viado às redações.
DA FORTUNA E APOIA FORMAÇÃO No mesmo documento, Paula Pa-
narra revelou os três pilares em que se
Mais de dois anos depois da sua criação, a Fundação José baseia a estratégia da empresa para o
Neves anunciou os primeiros projetos de filantropia próximo ano 2020/2021: recuperação
económica, desenvolvimento de ca-
A Fundação José Ne- Income Share Agreement fundação. pacidades e sustentabilidade. “Agora
ves, com o mesmo Fundação José Neves (ISA Além do ISA FJN, foi estamos focados em ajudar os nossos
nome do empreen- FJN) vão abranger 100 cur- anunciada a criação da clientes na recuperação económica e
dedor que criou a Farfetch, sos de cerca de 20 institu- plataforma Brighter Fu- a reimaginar como irão trabalhar, oti-
vai apoiar 1 500 portugue- ições e contam com a ga- ture, “a maior base de co- mizar as suas operações, relacionar-se
ses no acesso a novas com- rantia do Fundo Europeu nhecimento sobre edu- com os seus clientes ou até criar novos
petências de futuro, pa- de Investimento. O apoio cação e competências em produtos e serviços, para o pós-pande-
gando cinco milhões de será reembolsado quando Portugal”, que permitirá mia”, referiu a responsável. “Estamos
euros em propinas. O em- os beneficiários começa- identificar grandes ten- ainda empenhados em capacitar digi-
presário vai dedicar dois rem a trabalhar, mas, se dências sobre emprego, talmente pessoas, comunidades e orga-
terços da fortuna à insti- não atingirem um rendi- educação e competênci- nizações para garantir uma recuperação
tuição e aderiu ao movi- mento pré-determinado, as, as profissões e compe- económica sustentável e inclusiva.” E
mento filantrópico The Gi- a fundação abdica do re- tências mais procuradas e
ving Pledge, criado por Bill embolso. Os valores devol- valorizadas, além da em-
e Melinda Gates e Warren vidos são reinvestidos na pregabilidade por áreas de
Buffett. Com esta doação, formação de novos alunos. formação. Estes são apenas
José Neves será o primeiro O objetivo desta medida é os primeiros dois projetos
português a entrar no The contribuir para “melhorar práticos de uma fundação
Giving Pledge, juntando- a posição de Portugal nos que pretende ir lançando
-se à lista de mais de 200 rankings internacionais de programas, testando-os,
MARCOS BORGA

personalidades ou casais educação e de desenvolvi- e ir afinando a sua oferta,


que aderiram à causa. mento humano nos pró- que irá aumentar num fu-
Os cinco milhões do ximos 20 anos”, refere a turo próximo. E

1 0 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Enter

I N I C I AT I VA E X A M E /A G E A S S E G U R O S

Escala, capital
e melhor gestão
definem nova década
Acordos de regime para concretizar de uma vez os planos estratégicos,
refundar a forma como se aplica o dinheiro comunitário e criar condições
para dar dimensão às empresas foram alguns dos caminhos defendidos
para a retoma no webinar EXAME/Ageas Seguros
Texto Paulo Zacarias Gomes

Será uma questão de ro- know-how, que trazem capaci-


bustez e de preparação: dade”, acrescentou Luís Castro
as micro, pequenas e mé- Henriques.
dias empresas que estavam de Nesta conferência realizada
boa saúde, no início de 2020, no âmbito do Prémio Inovação
têm boas hipóteses de fazer com em Prevenção (ver caixa), com
êxito o caminho das pedras da o objetivo de diagnosticar e de
pandemia; mas outras, as que propor caminhos para o pós-
estavam à partida mais fragili- -pandemia, o presidente da
zadas, podem ver-se obrigadas Agência para o Investimento e
a ganhar escala e músculo para Comércio Externo de Portugal
sobreviverem, através de fusões (AICEP) defendeu que, mes-
e joint ventures e/ou reforçan- mo estando mais bem prepa-
do a sua capitalização e alcance radas para enfrentar esta crise
estratégico. do que a anterior, as empresas parecem mais despertas, pode
“As empresas precisam de portuguesas não podem baixar ser igualmente uma chave para
ter abertura para se fundirem, a guarda e têm de antecipar e reforçar a posição de capital das
para se tornarem maiores e co- de se preparar para o que será empresas. António Saraiva, pre-
meçarem a trabalhar conjunta- o seu ciclo produtivo nos pró- sidente da Confederação Em-
mente, como aconteceu no pas- ximos meses. “Ainda vamos as- presarial de Portugal (CIP), su-
sado com os casos dos moldes sistir [à destruição de capital], blinhou, neste caso, a vantagem
e do calçado”, disse Rui Leão mesmo com moratórias e uma de entrada de novos acionistas e
Martinho, bastonário da Or- série de ferramentas que estão a existência de estímulos (fiscais
dem dos Economistas, durante a ser usadas. (...). Estamos a e não só) para crescer e para ace-
a conferência online “Retoma da aproximar-nos de um momen- lerar a internacionalização.
Eficiência dos Negócios”, orga- to de embate. Para alguns seto- Outra das preocupações ma-
nizada, em setembro, pela EXA- res, como o do calçado, têxtil ou nifestadas no webinar prendeu-
ME e pela Ageas Seguros. “Mui- vestuário, houve um período em -se com o uso do envelope finan-
tas vezes, para ganhar clientes, é que não houve escoamento em ceiro de Bruxelas para combater
preciso ter condições financeiras 2020, e isso vai ter um impacto a crise, cuja aplicação terá de Agenda ampla
para operar com eles. Quando em 2021”, exemplificou. afastar-se do desenho dos qua- A conferência “Retoma da eficiência dos
se exige isso, recomendo que O ganho de escala por fu- dros comunitários de apoio, feito negócios” contou com os painéis “Tomar
o pulso à economia” e “Caminhos para a
estejam de olhos abertos nessas sões e aquisições, para o qual desde os anos 80. “Ou há uma recuperação”, além do espaço dedicado ao
parcerias que envolvem algum as novas gerações de gestores reinvenção da maneira como Prémio Inovação em Prevenção (ver caixa)

1 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


PARTILHAR PARA MELHORAR O ECOSSISTEMA
Prémio Inovação em Prevenção valoriza práticas de excelência das empresas

> INSCRIÇÕES ATÉ AO FIM ecossistema pode sair a ganhar. É também são um tema relevante
DO MÊS DE OUTUBRO esse o objetivo do Prémio Inova- e para o qual consideramos que
ção em Prevenção, uma iniciativa temos conhecimento acumula-
A preparação para cenários ad- inédita da EXAME e da Ageas do na nossa atividade principal
versos e a análise atempada dos Seguros e que conta com o en- [seguradora], e podemos ajudar
potenciais riscos podem ser de- volvimento de vários parceiros de no reconhecimento dos riscos,
cisivos na hora de enfrentar e de relevo no panorama económico na preparação e a ultrapassar
sobreviver a uma crise, como foi e social do País. As candidatu- esses incidentes”, afirmou o CEO
analisado durante este webinar. ras, cujos moldes podem ser da Ageas, José Gomes, durante
No caso das empresas, se estas conhecidos no site www.ageas. a conferência online “Retoma
boas práticas desenvolvidas ao pt/premio-prevencao, decorrem da Eficiência dos Negócios”, em
longo de anos extravasarem as até 31 de outubro. que desafiou as empresas a
suas quatro paredes e forem dis- “A prevenção tem um papel ainda candidatarem-se e a partilharem
seminadas e partilhadas, dentro mais relevante [no contexto de as suas práticas mais inovadoras
e fora dos seus setores, todo o pandemia]. Situações como esta em prevenção e segurança.

[esses milhares de milhões] são confinamento e por recuperar o


colocados ao serviço da compe- emprego e a capacidade de ge-
titividade e da produtividade, ou ração de receita desta indústria.
temos uma ‘pipa de massa’ que Para Cristina Siza Vieira, que
de pouco ou nada serve. Temos criticou a forma como a Europa
de partir do zero”, desafiou o está a gerir as fronteiras, nesta
presidente do ISQ, Pedro Matias. crise, e os protecionismos que
Numa altura em que tam- se levantaram em vários países,
bém se conhecem as linhas mes- é fundamental apostar ao nível
tras do plano de António Costa nacional nas acessibilidades aé-
Silva para superar a crise e de- reas, construir o novo aeropor-
senhar o País, na próxima déca- to da região de Lisboa e preser-
da, o líder da CIP lamentou que var o papel de ligação que a TAP
Portugal tenha deixado sucessi- proporciona com os mercados
vas macroestratégias por mate- emissores. A presidente da As-
rializar e defendeu a necessida- sociação de Hotelaria de Portu-
de de um acordo parlamentar gal (AHP), que também partici-
de regime para viabilizar essas pou num dos painéis, sublinhou
Ou há uma reinvenção transformações. “Os planos es- ainda a necessidade de trans-
tão todos feitos. O que falta é a formações estruturais no setor.
da maneira como implementação”, atirou António “No turismo não há precarieda-
[esses milhares Saraiva, ilustrando com os cin- de; existem picos de produção,
de milhões] são co grandes estudos apresenta- sazonalidade. Tem de haver um
dos nos últimos anos ao gover- novo pacto social”, assumiu, sal-
colocados ao serviço no pela confederação e que não vaguardando a importância da
da competitividade e tiveram sequência. contratação coletiva “por razões
da produtividade, ou TURISMO À ESPERA DE NOVO
de concorrência e competitivi-
dade das empresas”. “Estas cir-
temos uma ‘pipa de PACTO SOCIAL cunstâncias – continuar a man-
massa’ que de pouco Dada a forte exposição à ativi- ter a atratividade do destino e o
ou nada serve” dade turística, parte da recu- tecido económico-social e hu-
peração do País terá de passar mano de Portugal – implicam
Pedro Matias por reconquistar os visitantes que as empresas sobrevivam a
Presidente do ISQ perdidos durante os meses de este vale desértico”, adicionou. E

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 13


EM BUSCA
DE UMA ECONOMIA
SUSTENTÁVEL
A pandemia obrigou-nos a parar e a pensar, mas não é garantia
de mudança estrutural de hábitos e de modelo de vida. Perante
a emergência económica, ficará o ambiente de novo na sala
de espera? Neste dossier especial, procuramos perceber o que
ficará de estrutural depois da crise de saúde pública estar resolvida,
olhamos o perfil da vaga de economistas na luta por um crescimento
mais sustentável e analisamos o surgimento do “padrão verde” como
requisito para os investimentos financeiros. Fomos ainda visitar
o projeto-piloto dos superssobreiros da Corticeira Amorim,
e olhamos a vida do seu líder, numa grande entrevista de vida

Textos Cesaltina Pinto, Margarida Vaqueiro Lopes, Nuno Aguiar, Paulo M. Santos, Paulo Zacarias Gomes e Rui Barroso

1 4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


R E P O R TA G E M

PARA QUE NÃO FALTEM


ROLHAS NO FUTURO
A Corticeira Amorim está a desenvolver um projeto
de âmbito nacional que visa diminuir o tempo necessário
para que os sobreiros se tornem rentáveis. Este conceito
poderá incentivar os produtores florestais a apostarem
nesta espécie que produz uma das matérias-primas mais
sustentáveis do mundo e que representa um dos maiores
sequestradores de carbono do País
Texto Paulo M. Santos Foto Marcos Borga

D
iz-se no Alentejo que se Leaders, organizada pelo TBD Media Group
planta eucaliptos para os - vê a sua principal matéria-prima, a corti-
próprios, pinheiros para ça, a escassear. “Para conseguir renovar e
os filhos e sobreiros para aumentar a área de montado, temos de mu-
os netos. O que resume dar esta equação”, diz António Rios Amo-
bem o tempo que se espera desde a plan- rim, CEO da Corticeira Amorim, ao mesmo
tação até se começar a tirar rendimento de tempo que mostra umas plantas isoladas
cada árvore. Um eucalipto começa a gerar em tubos, que as protegem do vento e das
lucros ao fim de 10 anos, um pinheiro dos variações de temperatura. São pequenos
20 e um sobreiro só passados 40 ou 50 anos. sobreiros que, ao contrário do que aconte-
Com um espaço de tempo tão grande ce em estado natural, estão a ser alimenta-
para se conseguir o retorno do investimen- dos por gotejadores a um ritmo de 1,6 litros
to, muitos produtores florestais optam por de água por hora.
plantar as espécies de crescimento mais rápi- Um dos responsáveis pela compra de
do, fenómeno que levou à proliferação de pi- cortiça, João Sobral, acrescenta que os so-
nheiros e de eucaliptos pelo Interior do País. breiros estão com cinco metros de distân-
Em estado natural, ou seja, pelas bo- cia entre si, o que permite uma densidade
lotas que caem e que dão origem a novas de 400 árvores por hectare, e, em apenas
árvores, o nascimento de sobreiros não é oito meses, registaram um desenvolvimen-
suficiente para compensar a taxa de morta- to idêntico a uma árvore de sequeiro com
lidade, o que está a provocar uma redução 3 ou 4 anos.
acentuada da densidade das árvores nos Esta ideia disruptiva nem surgiu den-
montados já existentes. tro de portas. Foi em Avis, na Herdade do
Segundo o último inventário florestal, em Conqueiro, que Francisco Almeida Garrett
Portugal existiam, em média, menos de 60 decidiu, ao mesmo tempo que plantava um
sobreiros por cada hectare de montado. Há olival intensivo com recurso a rega gota a
algumas décadas, eram cerca de 200 por hec- gota, destinar dois hectares para plantar
tare. E a tendência é para que haja ainda mais sobreiros com a mesma técnica de irriga-
uma redução ao longo dos próximos anos. ção. Em apenas oito anos, as novas árvo-
Sem sobreiros, a Corticeira Amorim res atingiram um desenvolvimento seme-
- que foi a única empresa portuguesa in- lhante a um sobreiro de 25 anos, prontas
cluída na lista 50 Sustainability & Climate para dar a primeira cortiça. Embora seja

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É a própria Corticeira Amorim que se
propõe a demonstrar a eficácia do proces-
so, em parceria com Filipa Posser de An-
drade, na Herdade da Venda Nova, junto a
Alcácer do Sal. Os pequenos tubos que pro-
tegem os pequenos sobreiros estendem-se
por 250 hectares. Fileiras de soldados que
vão absorvendo a água gota a gota, onde
antes era paisagem de eucaliptos.
“O que estamos a fazer é pôr a ideia
de Francisco Almeida Garrett no terreno,
acelerando a instalação do montado e au-
mentando a taxa de sobrevivência dos so-
breiros”, esclarece António Rios Amorim.
Estas árvores irão crescer até aos 10
anos e, ao fim desse período, já podemos
extrair a cortiça virgem, retirando-se a ir-
rigação gota a gota. Este sobreiro regres-
sa, assim, nesta fase, ao processo natural e
“volta a dar cortiça ao fim de 9 anos com
qualidade igual à que tiramos de um so-
breiro de sequeiro”, diz o gestor que assu-
miu a liderança da maior transformadora
de cortiça do mundo há 19 anos.
Rios Amorim fala com a preocupação
de quem vê a densidade de sobreiros em
Portugal a decair de ano para ano e que
poderá, ao longo deste século, baixar para
mais de metade da atualmente existente.

CONVENCER OS PRODUTORES
Pode estar aqui a solução para a sustentabili-
dade futura, não apenas da Corticeira Amo-
rim como também de um dos mais impor-
tantes ecossistemas florestais portugueses.
No entanto, existe um grande obstá-
culo: convencer os produtores florestais
a apostar numa árvore que demora mais
ainda de qualidade reduzida – a primeira de 40 anos a ser rentável.
A Corticeira tiragem de cortiça não serve para o fabrico Rios Amorim apresenta os seus ar-
Amorim de rolhas –, diminuiu-se, assim, em mais gumentos. “Existem 700 mil hectares de
é a única empresa de 17 anos o crescimento do sobreiro. Mas
não é só. Conseguiu-se também aumentar
montado em Portugal com uma densi-
dade de 60 árvores e se, num projeto de
portuguesa a densidade de sobreiros para cerca de 350 âmbito nacional, fosse possível plantar 50
presente na lista árvores por hectare e garantir maior taxa mil hectares com 350 árvores por hectare,
50 Sustainability de sobrevivência, pois esta é uma espécie
em que a grande maioria das novas árvores
iríamos aumentar em seis vezes a densi-
dade. Ou seja, em 7% do montado aumen-
& Climate Leaders, não sobrevive aos primeiros anos de vida. távamos a produção de cortiça em 30% ou
organizada pelo De olhos postos nesta experiência, o 40 por cento. Com este sistema, o produ-
TBD Media “rei da cortiça” pôs mãos à obra. O CEO
da Corticeira viu aqui a chave para resolver
tor florestal pode conseguir em 100 hec-
tares o mesmo rendimento que tem hoje
Group em parceria a escassez de matéria-prima, mas admite em 700 ou em 800.”
com a Bloomberg que é necessário ainda demonstrar resul- E este passo bastaria para aumentar as
tados, o que falta para convencer os produ- exportações de cortiça de mil milhões para
tores florestais a adotar esta nova técnica. dois mil milhões de euros, dentro de 20 anos.

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Na Herdade da Venda, com cerca de
dois mil hectares, a produção de cortiça
ronda as 170 mil arrobas. “Nos 250 hectares
onde está a ser desenvolvida esta experiên-
cia, o objetivo é produzir 100 mil arrobas.
Pouco menos de metade da produção em
menos de 10% da área”, reforça João Sobral.
Além desta parceria na Herdade da
Venda Nova, a Corticeira quer, ela própria,
explorar mais o conceito. Já adquiriu uma
herdade perto de Castelo Branco, na Zona
do Tejo Internacional, por 5,5 milhões de
euros, onde pretende plantar entre 1 000 e
1500 hectares de sobreiros, recorrendo a esta
nova técnica. Investirá mais oito milhões de
euros na plantação pelo novo método e já
pensa desenvolver um projeto idêntico em
Espanha, na Estremadura ou na região de
Toledo, que sirva de “montra” para os produ-
tores florestais também do País vizinho, o se-
gundo maior produtor de cortiça do mundo.
Os testes já estão no terreno, mas An-
tónio Rios Amorim diz que ainda não são
suficientes. “Estamos a trabalhar para criar
um horizonte ambicioso. Este tem de ser um
projeto de âmbito nacional. Não posso es-
tar eu a plantar 250 hectares, amanhã outro
produtor plantar 70 e depois outro mais 100. o crescimento futuro da empresa não pode
Assim nunca mais lá chegamos”, afirma. ficar condicionado, justifica António Rios
Para 12 de março esteve agendada uma Amorim. Só que o sobreiro é uma árvo-
ação de esclarecimento e de demonstra- re que demora a crescer – “um problema
ção, com 350 produtores florestais de Por- acrescido para a empresa”, até porque o uso
tugal e Espanha. A Covid-19 apanhou-o de cortiça está a aumentar. Para garantir o
de surpresa e o encontro acabou por ser abastecimento, a corticeira está a imple-
cancelado. Agora, num processo mais len- mentar várias medidas. Uma das principais
to, preparam-se ações individuais com os passa por explorar ao máximo a cortiça já
produtores florestais, para que mais alguns existente nos montados em vários países.
avancem com este projeto. A grande “Há sobreiros em Marrocos, na Argélia e até
Em termos de modelo de negócio, a
Corticeira Amorim está aberta a várias so-
vantagem na Catalunha cuja cortiça não é extraída. A
nossa primeira missão é ter a certeza de que
luções. “Podemos fazer parcerias com os do sobreiro conseguimos explorar os ativos existentes e
produtores florestais, através das quais eles não se esgota já temos projetos em curso em Marrocos e
cedem a terra e nós fazemos o investimen-
to, partilhando depois a receita”, exempli-
no rendimento na Catalunha”, informa o gestor. Mas esta
medida não é suficiente, por isso António
fica. As possibilidades são várias. Para Rios da extração Rios Amorim está decidido a criar uma po-
Amorim, o importante “é que se plantem da cortiça. Gera lítica que permita “cuidar melhor dos so-
mais sobreiros”. O “rei da cortiça” diz mes-
mo que “o resultado desta investigação é
elevados níveis breiros que já existem”, de modo a diminuir
a taxa de mortalidade que é relativamente
para os produtores. Nós não existimos se os de biodiversidade elevada nos sobreiros em Portugal. “Temos
produtores não tiverem uma remuneração e garante de reduzir essa taxa, e a solução é recorrer à
adequada ao seu investimento”.
o sequestro e o investigação e ao desenvolvimento, fazendo
parcerias com os investigadores mais com-
EM BUSCA DE MATÉRIAPRIMA armazenamento petentes da área da subericultura, e esses
A quebra de matéria-prima nas fábricas da de carbono estão em Portugal. Temos de ter respostas
Corticeira Amorim já se está a fazer sentir, e técnicas e científicas para que possamos re-

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GANHAR DUAS duzir esta taxa de mortalidade.” atira Rios Amorim, dando o exemplo: por
DÉCADAS Como terceira medida, a corticeira quer cada tonelada de cortiça que se produz re-
intensificar a reciclagem de cortiça, um pro- têm-se 73 toneladas de dióxido de carbono.
A produção intensiva jeto que já está em curso há vários anos, mas “A retenção de carbono tem de ter um valor
de sobreiros poderá reduzir que António Rios Amorim diz que “ain- económico que pode servir de remunera-
em 20 anos o tempo entre da não é suficiente”. “Hoje vendem-se 13 ção adicional ao produtor. E isso pode ser
a plantação e a obtenção mil milhões de rolhas de cortiça em todo um grande incentivo para que ele plante
de rendimento da árvore o mundo e apenas são recicladas cerca de sobreiros e não outra espécie florestal.”
160 milhões. Estamos a falar de pouco mais Mas Rio Amorim faz um parêntesis. “Eu
> PRIMEIRO DESCORTIÇAMENTO de um por cento. Temos de reforçar esta po- não sou contra o eucalipto. Existe espaço
OU DESBOIA lítica para obtermos mais matéria-prima.” para tudo, e Portugal pode bem ter três fi-
A Corticeira Amorim tem já uma parce- leiras florestais em que existem algumas
Extração de cortiça virgem que apresenta
ria para a recolha de rolhas com o Modelo das melhores empresas do mundo, como as
uma estrutura irregular e extrema-
mente dura. Não tem qualidade para a
Continente e com a Quercus, mas o gestor fábricas de papel. Um setor que represen-
produção de rolhas, sendo utilizada em garante que esta é uma prática que “tem ta 10% ou 12% das exportações nacionais
outras aplicações, como pavimentos e de ser intensificada”. Esta cortiça reciclada deve ser acarinhado”. O parêntesis fecha-
revestimentos. pode ser usada em materiais de revestimen- -se rapidamente. “O sobreiro é uma espécie
to e de isolamento térmico, e pode ainda ser amada. Pode haver espécies de crescimento
Sobreiro de sequeiro 25 anos misturada com desperdícios de outras in- mais rápido que dão um maior benefício
Sobreiro de gota a gota 10 anos dústrias para uso noutro tipo de aplicações. económico ao produtor florestal. Mas o so-
breiro tem um capital emocional que nós
> SEGUNDO DESCORTIÇAMENTO PRESERVAR UM ECOSSISTEMA não podemos desaproveitar”, diz.
OU SECUNDEIRA
A grande vantagem do sobreiro não se es-
Com uma estrutura mais regular e gota no rendimento da extração da cortiça. PROJETO NACIONAL
menor dureza, pode servir para rolhas É uma das árvores mais emblemáticas de António Rios Amorim aposta em criar uma
de menor qualidade, mas é, na sua Portugal e de toda a bacia mediterrânica. dinâmica nacional para promover a expan-
maioria, uma cortiça usada em aglome- Capaz de prevenir a degradação dos solos, são do sobreiro, envolvendo todos os prota-
rados na construção. consegue ainda regular o ciclo hidrológi- gonistas da fileira, podendo até fazer uso de
co e combater a desertificação. Gera ele- fundos comunitários para aumentar a pro-
Sobreiro de sequeiro 34 anos vados níveis de biodiversidade e garante o dução de cortiça, valorizando o montado,
Sobreiro de gota a gota 19 anos sequestro e o armazenamento de carbono. e permitindo, até, a criação de pequenas
Ao contrário da grande maioria das empresas para explorar novos negócios. E
> TERCEIRO DESCORTIÇAMENTO
OU AMADIA espécies florestais, o montado é um ecos- com a vantagem de aumentar a capacida-
sistema que gera várias atividades econó- de de sumidouro de dióxido de carbono do
Apresenta já propriedades ideais para micas, desde a comida para o gado até à País, contribuindo para a meta de pegada de
a produção de rolhas de qualidade. produção de cogumelos e de trufas. carbono que Portugal quer atingir em 2050.
A partir desta fase, o sobreiro produz É um habitat natural de mais de 160 es- “Temos de apostar num projeto mobi-
cortiça, de 9 em 9 anos, durante mais pécies de aves, 37 mamíferos e 24 répteis, lizador. Dar valor à terra dos produtores,
de um século. alguns deles em vias de extinção. Por cada adensar os montados, aumentar a produção
mil metros quadrados de montado, existem de cortiça, majorar a rentabilidade da flo-
Sobreiro de sequeiro 43 anos
aproximadamente 135 espécies de plantas. resta e criar mais sumidouros de carbono”,
Sobreiro de gota a gota 28 anos
Também é um dos mais importantes esta é a sugestão de Rios Amorim até para
sequestradores de carbono do País, absor- a bazuca dos fundos comunitários que vão
vendo 14,7 toneladas de dióxido de carbo- chegar. “Caso contrário vamos fazer mais
no por hectare. O sobreiro funciona ainda um aeroporto ou outro projeto”, atira.
como uma barreira natural que pode servir Este movimento poderia servir tam-
de travão aos incêndios, pois a sua casca, a bém para levar os sobreiros a outras zonas
cortiça, protege a árvore do fogo e impede do País. “Os resultados de tudo isto só serão
a progressão das chamas. vistos dentro de 15 ou 20 anos, mas temos de
“Se conseguirmos, como diz o consul- começar já”, realça Rios Amorim que recor-
tor do Governo, António Costa Silva, criar da: “Alguém plantou há uns bons anos para
uma remuneração para as externalidades que nós hoje tenhamos esta atividade. E eu
positivas da floresta, então o rendimento acredito que nós também temos de plantar
seria maior, e o montado é o caso mais gri- hoje para que as gerações futuras possam
tante e mais visível dessa externalidade”, continuar com a produção de cortiça.”

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DIVERSIFICAR A PRODUÇÃO razão de isto acontecer ainda é desconheci-
Cerca de 72% do volume de negócios da A ideia não é da. “Estamos a estudar”, diz Rios Amorim,
Corticeira Amorim vem da produção de
rolhas, um negócio que, acredita o seu
apenas envolver lembrando que, no setor do eucalipto, foi
feito “um trabalho fantástico ao longo dos
presidente, continuará a crescer. Em pri- os académicos anos” ao nível da investigação. “Chegam a
meiro lugar, porque o consumo de vinho no processo mas qualquer propriedade, fazem uma análise
está a aumentar em algumas regiões do
globo, como nos EUA e na China. Em se-
também alguns do solo e das condições do clima e conse-
guem dizer a variedade que deve ser plan-
gundo, porque os vedantes plásticos ainda produtores tada. Eu não sei dizer isso [em relação ao
têm uma quota de mercado de 7%, o que florestais, com sobreiro]”, lamenta o “patrão” da corticeira.
corresponde a 1,5 mil milhões de rolhas.
“Não há razão de ser para que o plástico,
mais experiência “Somos a entidade que no mundo mais
sabe de cortiça, mas não a que mais sabe de
tão criticado por razões ambientais, possa sobreiros. Mas vamos ter de ser. E estamos
estar no mundo do vinho. A rolha de corti- a começar a dedicar recursos a esta área e a
ça melhora a pegada de carbono da garrafa LÍDER MUNDIAL fazer parcerias com instituições adequadas,
de vinho em 30%... E se tiver um compro- para que dominemos o know-how técni-
misso de reduzir a sua pegada ecológica, a Portugal é o maior produtor co e científico ligado ao sobreiro”, garante
empresa de vinhos não pode fugir da rolha de cortiça do mundo o gestor que está a desenvolver projetos de
de cortiça. Portanto, o setor da rolha vai e concentra mais de um terço investigação com a Universidade de Évora,
continuar a crescer, e nós vamos ganhar dos sobreiros existentes com o Instituto Superior de Agronomia e
quota de mercado”, acredita Rios Amorim no planeta, uma árvore com a Universidade de Aveiro. “Há pouco
que, quando tomou conta da corticeira, foi originária da bacia trabalho desenvolvido nesta área, apesar de
um dos principais defensores da rolha de os melhores cientistas da matéria estarem
do Mediterrâneo e que apenas
cortiça, numa altura em que estava a per- em Portugal. No entanto, o resultado do tra-
existe, com alguma expressão,
der expressão para os vedantes sintéticos. balho deles muitas vezes não é aplicável no
Ganhou a guerra e hoje a cortiça é rainha
em Espanha, França, Itália, terreno. O que nós queremos é cooperar
no mundo do vinho. Marrocos, Argélia e Tunísia. com estas instituições para que nos deem
Foi durante este percurso que a Corti- respostas práticas que resolvam os nossos
> ÁREA DE SOBREIROS
ceira Amorim acabou, também, por entrar problemas.”
noutros negócios. Tem apostado no desen- Portugal ..................736 mil ha ................ 34% Mas a ideia não é apenas envolver os
volvimento de materiais de construção à Espanha ...................574 mil ha .................... 27% académicos no processo. Também alguns
base de cortiça, nomeadamente nos pavi- Marrocos .................383 mil ha ....................18% produtores florestais, com mais experiên-
mentos e nos revestimentos, e está ainda Argélia.......................230 mil ha ..................... 11% cia, devem juntar o conhecimento cientí-
a investir no seu uso em novas aplicações, Tunísia .......................86 mil ha ......................... 4% fico ao conhecimento empírico.
que vão desde projetos da NASA até aos França........................65 mil ha ......................... 3% “Na corticeira temos um princípio fun-
pisos dos parques infantis. Itália.............................64 mil ha ......................... 3% damental: se há um problema, somos nós
“Acreditamos que a cortiça vai ter um que temos de resolvê-lo. Não andamos a
> PRODUÇÃO DE CORTIÇA
futuro comercial muito promissor, e temos passar as culpas para os governos ou para
de trabalhar hoje para que daqui a 20 anos os produtores florestais. Temos de ser nós
Portugal .....100 mil toneladas .....49,6%
tenhamos um equilíbrio de oferta e da pro- a arranjar as soluções. Contamos com mais
Espanha ......62 mil toneladas........... 30,5%
cura. Caso contrário, teremos um proble- Marrocos ....12 mil toneladas ................ 5,8% de quatro mil funcionários, 800 milhões
ma grave, de excesso de procura mas sem Argélia..........10 mil toneladas................ 4,9% de euros de faturação e queremos manter
oferta, e se o preço subir haverá materiais Tunísia ..........7 mil toneladas................... 3,5% o futuro. Para isso, tem de haver matéria-
a substituir a cortiça.” Itália................6 mil toneladas ....................3,1% -prima. Acreditamos que um produto com
França...........5 mil toneladas .................. 2,6% a sustentabilidade e com o seu potencial da
CONHECER MAIS PARA FAZER MELHOR cortiça é importante manter a sua utiliza-
Portugal é o maior produtor de cortiça e ção em todo o mundo. E tudo vamos fazer
concentra cerca de um terço da área de para que isso aconteça.”
sobro ao nível mundial. Mas nem por isso E é possível financiar um projeto que
conhece todos os segredos da árvore. trará retorno a tão longo prazo? Enquan-
Naqueles sobreiros da Herdade da Ven- to esboça um ligeiro sorriso, António Rios
da Nova, há árvores que já atingiram um Amorim admite que “teremos de ter capaci-
metro de altura e outras que se mantêm dade e bolsos fundos para aguentar os pró-
com 30 ou 40 centímetros, apesar de todas ximos dez anos. Mas se o conseguirmos, isto
terem sido plantadas na mesma altura. A poderá ser um grande negócio”. E

20 . EXAM E . OUTUBRO 2020


ANTÓNIO RIOS AMORIM
“HÁ MUITO PARA
FAZER, MUITO
FUTURO PARA
CONQUISTAR”
Nasceu numa das famílias mais ricas do País, mas, desde muito novo,
aprendeu a ética “amoriniana” do trabalho. À frente da Corticeira Amorim
há quase 20 anos, revisita o seu percurso, os ensinamentos do pai e do seu
tio Américo e olha para a sucessão, que ainda não está ao virar da esquina
Texto Cesaltina Pinto Foto Marcos Borga

R
O que lhe deu força e segurança para de substituição. Credibilizaram-los. Passa-
aceitar a presidência e achar que era ca- dos dois ou três anos, alguns começaram a
paz de dar a volta à situação? ver que as rolhas de plástico não eram solu-
Duas coisas. A primeira, uma enorme ção para coisa nenhuma. Resolviam alguns
crença, convicção e paixão que todos dos problemas que a rolha de cortiça ainda
temos em trabalhar este material. A se- não tinha resolvido, mas criavam outros
gunda, porque ainda estava tudo por fazer muito piores. Então, o plástico já não era
quanto a investigação e desenvolvimento, solução, a cápsula de alumínio é que era.
tanto nas rolhas, como em novas aplica- O que fizemos entre 2000 e 2007/8? Puro
ções. Foi um desafio hercúleo. trabalho de casa. Investigação e desenvol-
vimento. Pagámos teses de doutoramento.
Sentiu algum tipo de insegurança? Fizemos parcerias com universidades, com
Quando temos uma equipa, uma es- centros de investigação nacionais e inter-
Recebeu-nos na fábrica de Coruche, bem tratégia, uma orientação… ganha-se mo- nacionais, na Austrália, Estados Unidos da
no meio da cortiça e dos sobreiros. Iniciou tivação e força adicional para vencer e en- América, Bordéus e Alemanha. Validámos
a presidência da Corticeira Amorim num frentar uma causa que era, à data, difícil. todo o desenvolvimento tecnológico que
dos seus momentos mais frágeis. Em 2001, Porque o funeral da rolha de cortiça rea- estávamos a fazer e que correspondia às
tinha apenas 33 anos e a empresa registava lizou-se, em 2001, em Nova Iorque! exigências do mercado. Melhorámos práti-
prejuízos históricos (€14,8M) e um futuro cas, mudámos a fase inicial da stockagem.
incerto, devido à forte concorrência dos ve- Aí interrogaram-se se deviam ou não Fomos dando pequenos passos na melho-
dantes alternativos, como a rolha de plásti- continuar na cortiça? ria dos processos internos, ainda sem gran-
co ou as cápsulas de alumínio. Além disso, A maioria dos críticos internacionais pura de introdução de tecnologia.
substituía Américo Amorim, aquela figura e simplesmente dizia que os problemas as-
forte e carismática, que, aqui na entrevis- sociados à rolha iriam desaparecer com os Mas, quando toma posse, em 2001, houve
ta, trata sempre por “meu tio”. Porque um vedantes alternativos. Não se questiona- um grande ponto de interrogação sobre
marcou o destino do outro. ram. Passaram-se para o lado dos produtos tudo isto?

2 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


OUTUBRO 2020 . EXAM E . 23
UMA VIDA
DEDICADA
À CORTIÇA
> NOME
António Rios Amorim, 53 anos

> V I DA
“A minha vida é isto.” Esta é a frase
que o presidente da Corticeira
Amorim repete amiúde e que
resume tudo. Porque “isto” é a
cortiça e tudo o que se pode fazer
com ela; e são também os sobreiros,
de onde vem a matéria-prima.
Até os seus momentos de lazer
estão ligados a “isto”: as caçadas,
geralmente entre os sobreiros;
e apreciar um bom vinho, que
inevitavelmente tem de levar uma
boa rolha. Tem dois filhos a fazerem
os estudos universitários.

> CARREIRA
Nasceu em Santa Maria de Lamas,
distrito de Aveiro. Fez os estudos
secundários no Colégio dos Carva-
lhos e daí seguiu para Birmingham,
Inglaterra, onde se licenciou em
Comércio Internacional. Fez
depois uma pós-graduação
em Gestão de Empresas
no INSEAD. E também
estudou enologia
em Bordéus.

2 4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Houve. Previamente houve uma reuni- Claro. Maioritariamente na cabeça dele.
ão que o meu tio convocou, algures em
2000, no Hotel Caramulo. Convidou os
Nasci nisto. O meu tio era o trator disto tudo. Era o
motor que fazia pulsar isto. Foi absolu-
principais executivos da cortiça, alguns Toda a minha tamente decisivo substituir um homem
membros da família – eu já estava a tra- vida foi passada por um modelo de governo e uma equi-
balhar na parte das rolhas – e a discus-
são foi: ficamos só na cortiça ou entra-
nisto” pa; e substituir a visão estratégica por um
modelo de planeamento. Fez com que a
mos também nos produtos alternativos? Corticeira seja hoje uma empresa gerível
A decisão foi: não, ficamos na cortiça, Durante cinco anos não tive férias! Em por quem pode estar cá há muitos anos
porque o potencial de evolução é ainda 1990, fui para a África do Sul. 1991, fui ou por quem entre de novo. É uma gestão
muito grande. para o Brasil tentar vender uns terrenos, profissionalizada de uma empresa que faz
e para a Argentina e Chile visitar caves. 150 anos.
Era essa também a sua convicção? 1992, fui fazer um programa de executi-
Claro. Estava tudo por fazer na rolha. Por- vos à universidade de Columbia, a Nova O seu tio saiu em 2001, mas continuou a
tanto, haveria que salvaguardar o negó- Iorque. 1993, fui um mês para Napa Valey andar pela empresa. Nunca se introme-
cio principal. Criámos departamentos de visitar clientes em adegas. 1994, fui para teu, deu indicações?
I&D, também para outras aplicações de Bordéus e para a Borgonha, todo o mês Não. O meu tio fez questão de sair ao
cortiça, porque gato escaldado de água de agosto. Em 1995, disse: “Agora, tenho mesmo tempo de CEO e de chairman. E
fria tem medo. Felizmente, deram bons de meter férias.” fez questão de que quem o substituísse
resultados. A empresa reconquistou quo- fosse CEO e presidente para não haver ne-
ta, a cortiça ganhou aos produtos alter- O que introduziu de novo na gestão? É nhuma dúvida sobre quem mandava. Foi
nativos, e também desenvolvemos aplica- a primeira geração formada, o que não exemplar nessa transição. Depois de uma
ções várias para dar à cortiça um futuro acontecia com a anterior. presidência tão longa e tão forte como a
diferente. Há duas notas absolutamente decisivas. dele, só podia ser substituído por alguém
A primeira é perceber que, depois de um que ocupasse os dois cargos, para que não
Foi inevitável aceitar esse cargo? Já sabia homem tão carismático como o meu tio, houvesse nenhuma confusão de quem se-
que era aquilo que ia fazer? não há ninguém igual a ele. Qualquer ria a liderança futura. Ainda assistiu, du-
Ah, com o meu tio não havia essa ques- tentativa de imitação seria uma cópia fal- rante uns dez anos, às reuniões mensais
tão de aceitar ou não aceitar, isso não se sa. Como se substitui um homem daque- do conselho de administração. Mas com
colocava. Foi decidido por ele, pelo meu les? Não é por outro. É por uma organi- uma intervenção que não tinha nada a
pai, o tio Joaquim e um primo meu. Eram zação diferente. Fizemos o mais racional: ver com a anterior. Obviamente, não ha-
os restantes acionistas. convidámos uns consultores da Roland via nenhuma grande operação, aquisição
Berger, que trabalharam connosco dez ou investimento sobre o qual não o fosse
E se não estivesse interessado? meses, e desenvolvemos um modelo de consultar. Mas ele não fazia questão disso.
Ele sabia que estava. Nasci nisto. Toda a governo diferente. Separámos a unidade
minha vida foi passada nisto. Em 2000, das matérias-primas da das rolhas, cri- Alguma vez lhe disse se estava satisfeito?
o meu tio tinha chamado os acionistas ámos uma nova só para fazer a stocka- Não, era incapaz de dizer isso. O meu tio
para dizer: “Daqui a um ano vou sair da gem, a gestão da preparação da cortiça. não demonstrava nenhum afeto, nem
Corticeira Amorim, não quero mais ser Criámos uma outra de compósitos que se dava parabéns a ninguém pelo trabalho
executivo.” Em dezembro ainda disse: juntou à de pavimentos e à de isolamen- bem feito. Achava que isso era a obrigação
“Faltam três meses para eu sair. Já deci- tos. Reformulámos as equipas de ges- de todos. A gente só tratava do que cor-
diram quem me vai substituir?” As pes- tão, promovemos pessoas a CEO de cada ria mal, porque era aí que tinha de estar
soas movimentaram-se e o meu nome foi uma dessas unidades. Fomos buscar fora a concentração.
apresentado. quem me substituísse em funções mais
operacionais. Substituímos uma pessoa E nunca apanhou um raspanete em pri-
Deu-se aí a entrada da quarta geração? por várias. vado?
Foi mais a saída da terceira geração. A Ah, vários, vários. Em privado e em pú-
quarta já cá estava a trabalhar. Comecei E a segunda? blico. Mas isso fazia parte da função. Ele
a trabalhar aqui oficialmente a 4 de se- A segunda foi: como se substitui alguém não deixava de dizer alguma coisa por
tembro de 1989, há 31 anos. O meu tio era que é visionário? Substituímos por um ser sobrinho ou filho. Era extremamen-
o presidente de todas as empresas. Mas planeamento estratégico a três ou cinco te frontal, dizia à frente de todos o que
desde 1989 ou 90 que faço parte da admi- anos. pensava das decisões tomadas. Desde
nistração da Corticeira Amorim. Quan- os meus 7 anos que estava habituado a
do vim de Inglaterra, o meu pai decidiu Antes estava tudo apenas na cabeça de lidar com o meu tio num ambiente de
sair da administração e fui substituí-lo. Américo Amorim? trabalho…

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 25


Qual a primeira memória que tem do ele: “Não sei. Comprámos uma empresa,
valor da cortiça? ligada à Mabor, faz telas de pneus. Temos
Para alguém que aprendeu a andar de bi- Houve um ano lá um problema e vais para lá.”
cicleta dentro de uma fábrica de cortiça… em que era eu
Todos os sábados o meu pai pegava em que distribuía A têxtil era?
mim para me levar para a fábrica, por- A Indústria Têxtil do Ave [ITA]. Fui para
que era nesse dia que se reunia, sobre- os envelopes dos lá aí em setembro de 90, depois do es-
tudo com o meu tio. Sempre ao sábado, salários de duas tágio na cortiça e de ter ido para a filial
sempre, sem exceção. A casa dos meus fábricas. Era o de rolhas de África do Sul, passei o mês
pais era a um quilómetro das fábricas. Por todo a visitar clientes, as caves todas, de
isso, vinha da escola e para onde ia? Para mais querido da manhã à noite. Chego cá e o meu tio diz-
a fábrica. Nas férias, onde é que trabalha- fábrica, porque -me: “Eh pá, vais para a têxtil!” Só pen-
va? Na fábrica. Portanto, o estilo do meu era o que pagava” sei: mas o que é que ele tem contra mim?
tio, a dureza com que conduzia as reu- Nunca trabalhei na têxtil, não percebo
niões… habituei-me desde muito miúdo. nada daquilo, gosto é de cortiça. Mas ele
Uma vez, viemos aqui ao Alentejo ver as Não sei se senti ou fui sentindo. Quando mandou, e fui. Esse grupo tinha também
herdades. Com o meu pai, o meu tio José, a gente aprende, presencia, vive não sei uma fábrica no Porto que produzia uma
o mais velho, e o meu tio Américo. O tio quantas situações que envolvem o negócio, viscose, que libertava um cheiro horrível.
Joaquim já não me lembro se veio. E vir a partir de determinada altura percebe que Por razões ambientais, teve de fechar. O
ao Alentejo era, então, uma aventura. Foi tem um conhecimento acima dos outros. meu tio aproveitou os terrenos e desen-
num almoço de Natal que ele desafiou a Comecei a ganhar afinidade, uma autocon- volveu lá um projeto imobiliário muito
família: “Não conhecem o Alentejo? É de fiança muito grande sobre como enfrentar bem-sucedido. Esperto como era, dis-
lá que vem a cortiça.” Vira-se para o ir- o futuro. E as coisas acabaram por surgir. se: “Espera lá, a fábrica tem clientes. A
mão e diz: “Tens de mostrar a esta gen- gente deixa de produzir, mas não tem de
te onde estão os sobreiros.” Ele disse: “É Quando era miúdo, a empresa já tinha deixar de vender. Onde se pode comprar
já amanhã.” Viemos, durante dois dias, 100 anos! Houve algum momento em esse fio?” No Brasil, na Índia, China ou
conhecer as herdades e os sobreiros. No que sentiu mais a grandeza desta he- Grécia. E montámos a Viscopor, que fazia
final, tive de escrever um relatório. Foi rança? trading, importação desse fio de viscose
em 79/80. Há dois momentos. Um, de desafio. En- e vendia aos antigos clientes dessa têxtil.
trei aqui em 89. Tinha estado quatro anos Como a Viscopor ficou na cave da ITA,
Vieram quantos? e tal em Inglaterra e o meu tio achou que também me mandou tomar conta dis-
Da minha geração, a quarta, somos 22. deveria fazer um estágio na cortiça. Agra- so. Eh pá, dizer a um miúdo de 24 anos
Mas viemos quatro ou cinco. Organizou- dou-me, porque estava na cortiça como para tomar conta disto tudo!... Não havia
-se uma viagem de um dia para o outro, peixe na água. De setembro de 89 até fax ou correio que entrasse que não lesse.
ficámos aí numa pensão qualquer. Isto maio ou junho de 90, passei pelas dife- Era eu que pagava todos os cheques. No
para dizer que ele [o tio Américo] desa- rentes áreas. Numa das fábricas, o enge- primeiro ano, deu 65 mil contos de fatu-
fiava. Era daqueles que faziam perguntas nheiro que me conhecia desde miúdo ração (300 mil euros à data). Em 97 ou
para as quais já sabiam a resposta. Mas disse logo: “Não entras aqui sem fazeres 98, faturou um milhão e 800 mil contos
fazia-a, para que quem não soubesse fi- um exame, quero ver se, no tempo que (nove milhões de euros). Já não vendia só
casse informado. Era muito pedagógico. cá passaste, aprendeste alguma coisa.” E viscose, já vendia algodão, poliéster… era
Mandava-nos sempre informação. Fui es- pôs-me 40 perguntas. Respondi satisfa- uma empresa bastante rentável com dez
tudar para Inglaterra quando acabei de toriamente e só depois pude fazer o es- pessoas. Ia também a umas reuniões da
fazer 18 anos e, todas as quintas-feiras, tágio. Tinha criado uma relação. Houve administração da Mabor. Depois, o meu
chegava a minha casa o Expresso, o Co- um ano em que era eu que distribuía, no tio vendeu a Mabor e a ITA e tivemos de
mércio do Porto (para ver os resultados final do mês, os envelopes dos salários de deslocalizar a Viscopor.
do futebol), e os relatórios que circularam duas fábricas. Já conhecia o nome dos tra-
no grupo na semana anterior. Todas as balhadores todos. Era o mais querido da O que fez depois?
reuniões eram gravadas, datilografadas e fábrica, porque era o que pagava. Mandou-me para os Hotéis Ibis, aí em
era distribuído o conjunto do que se tinha 91 ou 92. Éramos parceiros da Acor num
decidido. Era o secretário dele que o fa- E quando acabou o estágio? plano de desenvolvimento de hotéis. Mas,
zia. Recebia o relatório todas as semanas! Estava à espera que o meu tio me per- entretanto, tínhamos comprado o casi-
guntasse o que gostaria de fazer. Mas ele no da Figueira, que também tinha hotéis.
Foi mesmo “treinado para isto” como disse: “Agora vais trabalhar para a têxtil.” Ele disse-me: “Também podias ir para a
costuma dizer. Sentiu sempre que tinha E eu: “O quê?! Vou trabalhar para a têxtil? Figueira.” Comecei a estar nos hotéis e
de ser isto? Mas o que é que eu percebo de têxtil?” E no casino, a ver as faturas todas, os pa-

26 . EXAM E . OUTUBRO 2020


OUTUBRO 2020 . EXAM E . 27
4 300 75
Trabalhadores no mundo
milhões de euros
Lucros de 2019

805€ Salário mínimo do setor

3 200
780
Em Portugal

milhões de euros
Volume de negócios em 2019

30% 5% 14€
Pegada ecológica
Redução prometida da
pegada de carbono
Pandemia
Entre 5% e 10% de-
verá ser o impacto da
Preço de uma arroba
de cortiça

de uma garrafa de vinho se Covid-19 na diminui-


usar uma rolha de cortiça ção das exportações,
produzida pela empresa no final deste ano

2 8 . EXAM E . OUTUBRO 2020


gamentos… Depois, na Figueira, desen- A visita de grandes chefes de Estado,
volveu-se uma componente imobiliária e como Fidel Castro, marcou a vida da
eu entro de novo no imobiliário. Manda- As pessoas Corticeira. Quais são as suas memórias?
-me para o Brasil, para vender os terre-
nos onde está hoje o Arrábida Shopping, à
dos bairros Havia uma relação histórica de 30 anos
entre o meu tio e Cuba. Hoje, não temos
entrada do Porto. Foi lá que um promotor sociais de Santa qualquer relação comercial com Cuba.
imobiliário me disse que não eram terre- Maria de Lamas Mas quando Fidel veio à Cimeira Ibero-
nos certos para escritórios, mas sim para
um centro comercial. Cheguei cá e tínha-
andavam na -Americana, veio um dia antes e pas-
sou o dia connosco. Foi em 1998, tinha
mos acabado de contratar um arquiteto mesma escola 31 anos. Quando se disse que a Corti-
que vinha da Sonae e do Cascais Shop- que eu. Sempre ceira Amorim era uma empresa cotada
ping. Disse-lhe que aquilo se calhar devia
ser um centro comercial. Ele tirou-me o
tive ali grande em bolsa, quis saber quanto valia antes
e naquele dia. E perguntou: “Quantos
papel e disse: “Também acho.” Começá- convivência” acionistas é que tem?” Uns milhares.
mos a trabalhar no Arrábida Shopping, “Ahhhh”, diz ele, “é muito mais fácil a
projeto que desenvolvi com uma equipa vossa vida do que a minha. Porque eu
muito pequena, até sair, finalmente, para Em trabalho ou lazer? também sou o presidente e CEO de uma
as rolhas de cortiça. Na geração anterior, o lazer estava sempre empresa, mas tenho dez milhões de aci-
ligado ao trabalho. O meu pai levava a famí- onistas para gerir.” [Risos.] Fazia muitas,
Sentia-se um privilegiado por carregar lia para passar a Páscoa em Marrocos. Por- muitas perguntas, queria saber e tocar
o nome Amorim ali em Santa Maria de quê? Porque tinha lá uma fábrica e todos em tudo. A apresentação, que deveria
Lamas, um meio tão pobre? os dias ia lá. Depois, andávamos três horas demorar 40 minutos, deve ter demora-
Com certeza. Já nascemos no berço de nas lojas de Rabat. Íamos num Carnaval a do duas horas e meia. Também me lem-
ouro. A empresa era já líder do setor. A Viena. Porquê? Porque estava lá uma das bro do Presidente da China, em 84, devia
casa dos meus pais era fantástica. Mas fui nossas filiais de distribuição. O que fazí- ter uns 17 anos. Foi um estenderete de
para a escola primária da freguesia. amos? Íamos todos os dias para a empre- segurança, o Presidente do maior país
sa e, no final do dia, lá íamos almoçar, ver do mundo!…
Não foi para um colégio privado? umas lojas ou, num sábado, a um museu.
Fui. Depois da primária na pública, fui Quando o meu pai e os meus tios decidem Américo Amorim era conhecido como o
para o Colégio dos Carvalhos, de padres, comprar um apartamento para toda a famí- empresário vermelho por causa dessas
com uma disciplina muito forte. A camio- lia, no Algarve, algures nos anos 60, com- relações com a China, Cuba e a Europa
neta passava a buscar-me à porta de casa praram um apartamento com dois quartos de Leste. Politicamente, isso criava-lhe
e deixava-me à porta de casa. Andei lá num segundo andar em Armação de Pêra. algum tipo de confusão?
oito anos, até ir para Inglaterra. Porquê? Porque era a praia mais perto da Não. Em 2 de dezembro de 1989, foi a
fábrica de Silves. Portanto, ia um irmão du- minha primeira viagem (tinha começa-
Mas como convivia com a pobreza à sua rante 15 dias em agosto, outros nos outros do a trabalhar em setembro), fui para a
volta? 15 dias. O meu pai normalmente ia em se- celebração dos 75 anos da Vinipax, a em-
As pessoas dos bairros sociais de Santa tembro. Ia para a fábrica às sete da manhã presa da Bulgária que fazia a promoção
Maria de Lamas andavam na mesma es- e saía às seis da tarde para tomar banho na de vinho. Já era notório, pelos burbu-
cola que eu. Alguns dos pais delas traba- praia e estar connosco. Mas não me lembro rinhos nas praças centrais, que o regi-
lhavam na nossa empresa. Lembro-me de de ele ficar durante o dia na praia connos- me estava em implosão. Apanhei muita
que um deles era engraxador de sapatos co. Isto é uma cultura de trabalho, acima de gente dos países de Leste que vinha cá,
no arraial da freguesia ao domingo, quan- tudo. Em 1975, o meu pai teve um problema participavam nos jantares e nos eventos.
do as pessoas iam à missa. Sempre tive ali muito grave de saúde e precisava de repou- Uma vez (era pequeno, ainda não estava
grande convivência. Saíamos de casa e ía- so. Vinha daquela azáfama de 12, 14 ou 16 a trabalhar), o meu tio organizou uma
mos jogar futebol para o recreio da escola. horas por dia. Foi para o hospital no Porto conferência, no Guincho, com todos os
Se calhar, quem levava a bola de couro era e iam lá levar baralhos de cartas para o meu compradores de cortiça dos países de
eu. Nos padres é que já foi outro mundo. pai. O médico chamou a minha mãe e dis- Leste. Para ele, isso não tinha cor polí-
Aí já não se está no mundo onde Amorim se: “O seu marido vai morrer se não para tica. Tinha era um mercado…
fosse um nome tão importante. Era um quieto. Portanto, vão daqui para fora.” En-
colégio com mil e tal pessoas. Diluiu-se o tão, fomos para Inglaterra, Londres, onde E para si?
efeito local que o nome poderia ter. este médico tinha um médico assistente. Não. Participei na nossa instalação no
Passámos ali um mês, porque era a única mercado da Moldávia, com crédito dado
Viajava, nessa altura? forma de ele ter descanso. As experiências às caves locais para elas se poderem
Com o meu pai. de viajar são estas. privatizar e comprar rolhas de cortiça.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 29


Não existe política do portão para den- Logo, é o único homem entre mulheres.
tro, como costumamos dizer. Foi sem- Elas tiveram as mesmas oportunidades?
pre esse o mote. Quando, nos anos 60, Não fui grande Confesso que só me consciencializei bem
o meu tio tentou penetrar a cortina de
ferro, e não conseguia porque havia re-
aluno na disso em janeiro, quando tirámos a foto-
grafia de grupo. Diria que há uma igual-
lações protegidas, não era bem-visto o universidade, dade de oportunidades, porque a minha
relacionamento comercial com os paí- as distrações irmã Cristina tem funções muito relevan-
ses ditos comunistas, então criou uma
empresa em Viena de Áustria que serviu
eram muitas. tes no grupo: é CFO, é vice-presidente da
Amorim Investimentos e Participações, é
de plataforma para vender em todos es- Foi o momento administradora não executiva do BPI, já
ses mercados. Diria que esse foi dos seus de alguma representou o grupo na Casa da Música.
atos mais estratégicos, porque foi a con-
quista dos mercados de Leste que deu a
rebeldia A minha irmã mais nova, Joana, trata dos
nossos negócios mais privados, de coisas
liderança ao grupo. Foi decisivo. e descontração” que dizem respeito ao meu pai, de algu-
mas herdades aqui no Alentejo, da ativi-
Não havendo política dentro do portão, dade de uma pequena imobiliária com
há política fora do portão. Ou não? Em que se traduzia, então, essa rebeldia? terrenos. Cada um respeita a área de atu-
Isso há para todos nós. Mas dentro do Ter carta, carro, viajar, poder sair de In- ação dos demais.
portão há uma empresa que tem de pro- glaterra e conhecer países novos, amigos
duzir, trabalhar, vender, conquistar e diferentes… Mas elas tiveram a mesma educação,
crescer. Empresa que não cresce não tem para ter um cargo no grupo?
futuro. É nisso que acreditamos. Davam-lhe uma mesada? Não. Ver-me hoje só com as irmãs e as
Sim. Vivi num lar de estudantes no 1º primas é coisa relativamente recente. Tem
Quando sai do Colégio dos Carvalhos, vai ano, nos restantes dividi casas com ami- a ver com as opções de vida dos outros
para Inglaterra? gos. Havia meia dúzia de portugueses que meus dois tios [que seguiram caminhos
Fui para a Universidade de Birmingham, andavam a estudar lá e a fazer doutora- independentes]. Com o tempo, a noção de
para um curso de gestão e comércio in- mento e hoje são professores catedráticos família vai mudando. Hoje são os meus
ternacional. Acabei em 1989. Foi uma de quem sou muito amigo. Oh pá, muitas pais e as minhas irmãs, mas cada dia vai
experiência fantástica, conviver com pa- saudades... ser mais a minha mulher e os meus fi-
quistaneses, indianos, gregos, italianos, lhos. Mas, de todos os membros da famí-
espanhóis, chineses. Deu para aperfeiço- Esta descendência é quase toda marcada lia, aquele que esteve sempre mais pró-
ar claramente o inglês, e aprender com por mulheres... ximo das empresas fui eu. Até porque
pessoas muito interessantes. Em Inglater- Não, na quarta geração somos 22: 11 ho- o meu pai pegava em mim e levava-me
ra o ensino é muito prático, muito obje- mens e 11 mulheres. Faleceram dois, um com ele, vivia mais perto das fábricas.
tivo. Foram dos melhores anos da minha rapaz e uma rapariga. Ficamos 20. Ligados As minhas férias eram ali passadas. Tive
vida. Foi viver completamente por mim, à estrutura acionista do grupo, hoje, fica- aqui uma atividade bem mais intensa na
fora do conforto familiar. Vinha cá três ram só os herdeiros do meu pai e do meu minha adolescência e juventude do que
vezes por ano. Mas qualquer pessoa do tio Américo. Eu tenho duas irmãs, sou o qualquer um dos meus primos, clara-
grupo que lá fosse contactava-me e, por mais velho. O meu tio teve três filhas. mente. O meu tio mais velho tem dois
vezes, ia visitar clientes com eles. Foram filhos mais velhos do que eu, mas vivi-
os quatro anos em que estive mais distan- am no Porto. E sair do Porto para vir para
ciado disto tudo. Saí de Inglaterra quando Santa Maria de Lamas, ao sábado, não é
acabava de fazer 22 anos. a mesma coisa do que pegar na bicicleta
e vir para a fábrica.
Foi bom aluno?
Não fui grande aluno na universidade, as Na AIP [Amorim Investimentos e Partici-
distrações eram muitas. Foi o momento pações], as mulheres estão em maioria?
de alguma rebeldia e descontração. E muito bem. No conselho de administra-
ção há a representação dos diferentes aci-
Essa rebeldia nunca desembocou na po- onistas e, neste caso, são mulheres. Não
lítica? há discriminação.
Não. Isso não fazia parte. Todos temos a
nossa opinião e intervenção pessoal, mas Aí, no family office, estão representados
é algo que nunca despertou nenhum inte- os dois ramos da família. Como são to-
resse a algum membro da família. madas as decisões?

30 . EXAM E . OUTUBRO 2020


De forma muito simples. A AIP tem basi- ação enérgica. Somos cotados em bolsa, É a racionalidade total?
camente duas participações: a Corticeira temos o escrutínio de acionistas e pro- Total. Mas há uma coisa muito importan-
Amorim, e outra com o negócio dos vi- fissionais financeiros de fora que obriga te: a ambição tem de estar muito presente
nhos, onde está a Quinta Nova e agora a a um conjunto de regras, procedimentos em todos os gestores da empresa. Quere-
Taboadela. São estes os negócios cruza- e cumprimentos de boas práticas inter- mos pessoas que questionem, mas não
dos entre as duas famílias. Depois, tudo nacionais. Isto é muito positivo, faz com com espírito constantemente negativo
o resto, normalmente é do meu tio [ri- que seja gerido profissionalmente. A AIP que só veem problemas em vez de pro-
sos]. Discutimos aqui alguma aquisição tem 51% da Corticeira Amorim, é o vín- porem soluções. Esta coisa de “agora va-
importante, algum investimento acima culo conjunto. Depois, o bloco acionista mos entrar em época de consolidação” é
de um determinado valor. Os dois ramos António Amorim tem 10% e os herdeiros proibida cá dentro. Há muito para fazer,
da família também estão representados de Américo Amorim têm outros 10 por muito futuro para conquistar.
no conselho de administração da Corti- cento. Isto dá à família cerca de 72% dos
ceira Amorim. Há 20 anos que lá estou e votos. Em free float estão 28 por cento. Na sua estratégia de gestão, o que foi
tem funcionado de forma muito fluida, buscar ao seu tio e o que foi buscar ao
muito prática, nada burocrática. Como costuma tomar as suas decisões? seu pai?
Estuda muito, é intuitivo? São dois caracteres completamente dife-
É verdade que há um acordo em que, As decisões são devidamente preparadas. rentes. Ao meu tio, claramente esta am-
caso separem negócios, é a sua família Quando são apresentadas foram já deba- bição, de querer mais e de nunca estar
que fica com a Corticeira? tidas nos conselhos de administração das satisfeito. E uma visão muito pragmática.
Não é verdade. Há dois ramos da famí- unidades de negócio. E temos uma co- Queremos chegar ao fim de uma reunião
lia, 50/50, e queremos estar juntos du- missão executiva, para debater matérias e saber o que estivemos ali a fazer du-
rante muitos e longos anos. Tem havido transversais. Se há uma convicção forte, rante uma hora, qual a conclusão e qual
um completo alinhamento do que são incorporamos o contributo de várias pes- o trabalho de casa. Não estamos ali para
os objetivos da empresa: a ambição, esta soas nas discussões. Havendo consenso, conversar uns com os outros, as pesso-
vontade de fazer coisas, não ficar senta- avança-se. A procura de consensos não é as têm de estar envolvidas. Há regras de
do no sofá, não ficar na posição de líder muito difícil, quando há clareza nos pro- transparência, rigor nas contas, controlo
paquidérmico, mas tentar ter uma atu- pósitos. e detalhe nos custos. Isto é do meu tio.

3 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


CONTEÚDO
PATROCINADO

MELHORAR SISTEMAS DE RECOLHA


E GESTÃO DE DADOS É ESSENCIAL
A pandemia mostrou que existem muitos dados, na esfera pública e privada, mas há ainda graves lacunas na sua exploração

Desde o início da pandemia o tamos a trabalhar com alguns


SAS tem colaborado com go- governos no sentido de ajudar
vernos e organizações de saúde a delimitar as áreas a confinar
nos mais diversos âmbitos. Hoje e evitar novos confinamentos
está a apoiá-los, entre outros, na massivos.
delimitação de áreas a confinar. Países como a Alemanha vale-
ram-se de tecnologias de analí-
A Covid-19 impulsou a ne- tica e inteligência artificial SAS
cessidade de tratar e anali- para aplicar medidas que lhes
sar dados de forma rápida e permitiram conter a situação o
eficiente? mais rápido possível. Melhorar
A Covid-19 expôs assimetrias os sistemas de recolha e gestão
e dependências que, num con- de dados, para alimentar siste-
texto de stress extremo sobre ça. Para isso quisemos ajudar e contratual que o SAS nunca mas analíticos, é uma área na
o sistema, mostraram mui- a convergir três grandes ten- tinha tido. qual os agentes da saúde de-
tas das fragilidades da opera- dências de mercado: integra- veriam investir para estarem
ção que sustenta a sociedade. ção com Open Source, cloud, e O que é que as empresas e ins- mais preparados para prever e
Passámos todos a ser cientistas modelos de licenciamento fle- tituições do sector de saúde te- mitigar futuras situações epi-
de dados, quando discutíamos xíveis. Hoje é possível usar có- rão de fazer para que situações demiológicas.
curvas, exponenciais e achata- digo Open Source nas soluções de pandemia tenham efeitos
mentos. Ficou claro que temos SAS, ou invocar software SAS a menos nefastos e duradouros Qual será o impacto do 5G na
muitos dados, na esfera públi- partir do Open Source. Esta in- que a atual? sociedade e nas organizações?
ca e privada, mas ainda graves teroperabilidade é crucial para Desde o início da pandemia O 5G é a tecnologia que vai
lacunas na sua exploração. o aproveitamento máximo dos o SAS colabora com governos conectar “as coisas” do mun-
Com mais analítica teríamos recursos técnicos e humanos e organizações de saúde nos do físico ao digital. Sem 5G não
tido acesso a mais inteligência. das organizações, mantendo mais diversos âmbitos, desde a haverá carros autónomos, nem
Estou certo que, daqui para a o nível de governação superior criação de modelos epidemio- cidades verdadeiramente inte-
frente, haverá muito mais cui- que o SAS sempre proporcio- lógicos para projeção das infe- ligentes. Com mais “coisas” a
dado na tomada de decisões nou. No seguimento da nossa çções e severidade dos doentes, produzir dados teremos mais
baseadas em dados. estratégia de cloud,
d, fizemos um à otimização de camas oportunidades de criar no-
acordo com a Microsoft
rosoft para em cuidados inten- vos modelos de negócio, ex-
A obrigatoriedade de confina- levar as nossas soluções
oluções sivos e à previsão periências e realidades, que
mento das pessoas contribuiu para Azure e alterámos
rámos dos profissio- juntem átomos e bits ao mes-
para acelerar transformação significativamente e os nais de saúde mo tempo. Se o 5G vai criar a
digital das empresas e institui- nossos modelos de li- necessários, infraestrutura para a internet
ções. Como é que o SAS está a cenciamento, para ra os com atualiza- das coisas ser possível, será a
conseguir responder às novas tornar mais compe-mpe- ções em tempo analítica e a inteligência artifi-
necessidades das empresas e titivos, flexíveis e ali- real. Hoje es- cial a torná-la séria, útil e real.
dos mercados? nhados com a elastici- Será uma quantidade massiva
O SAS já estava em transfor- dade da cloud. Estamos
stamos de dados que necessitarão de
mação muito antes da pande- hoje preparados
dos processamento e inteligência
mia. A transformação digital é para acompanharr em tempo real. Acredito que o
na verdade uma transformação os nossos clientess impacto poderá ser tremendo
analógica de pessoas e proces- nas suas jornadass na área industrial,
sos, assente em tecnologia. É de transformação o na saúde e na ex-
Ricardo Pires Silva,
sobretudo nessa dimensão que digital, com uma a diretor executivo periência de viver
o SAS consegue fazer a diferen- agilidade técnica a do SAS Portugal a cidade.
E do seu pai? dos sobreiros [risos]. Tenho duas pai-
O meu pai é completamente diferente, O meu substituto xões: a caça, de outubro a dezembro; e o
tem uma ligação ao chão de fábrica, aos
operários, mais humana. Ao sábado, ain-
não tem de ser vinho. E porquê? Porque também está…

da me liga às 11 da manhã a dizer: “Já fui necessariamente Na família…


a esta fábrica e não te vi; já fui aquela e alguém com Não só. A gente faz o quê?
não te vi. Onde é que andas?” Ao sábado!
Esta dedicação é muito importante. Sabe
o apelido Rolhas… [Risos.]
porquê? Porque está lá. Tem 92 anos e Amorim. Tem E as rolhas vão para onde? Quando vi-
está lá! Incutiu-nos a cultura de ‘miga- é de ser o mais sito um cliente, não me sinto nada in-
lhas são pão’, ‘ocupa-te dos tostões que
os milhões ocupam-se deles próprios’.
capaz para gerir feriorizado a falar sobre vinhos. Estu-
do, gosto daquilo, sei. E depois tenho
Esta preocupação e proximidade com as e levar a empresa oportunidade de viajar para o Chile,
pessoas, o meu tio não tinha tempo para para a frente” para a Austrália… Temos, em conjunto,
isso, andava já noutro mundo. Por isso é a Quinta Nova e a Taboadela. A Quinta
que eles se complementavam. Nova foi difícil de arrancar, mas a Luísa
mou-me à empresa, de manhã, e disse: tem feito um trabalho absolutamente
Li que não gosta de jogar para o empate. “Já está feito o projeto, podes avançar com fantástico. E a Taboadela é um projeto
Tem mau perder? as obras.” Eh pá, ele tinha razão! Avancei no Dão, a região que mais pode evoluir.
Não, mas gostamos sobretudo de ganhar. com o primeiro projeto, mas ele viu mais Estamos orgulhosos, as coisas estão a
Empatar é um estágio para chegar à vitó- longe. Depois, para a terceira ou quarta correr bem. Há crescimento e rentabi-
ria. O espírito tem de ser ganhador. Nin- fábrica, já não precisei dele para nada. Há lidade. Portanto, a felicidade existe em
guém gosta de fazer parte de uma equipa decisões que tomamos mal e outras que abundância [risos].
que perde. Mas saber perder é importante. não tomamos e, por isso, também erra-
mos, como foi o caso. E já está aí a 5ª geração…
Já sentiu uma grande derrota? A 5ª está toda a estudar.
Com certeza. Nem todas as decisões são É cauteloso. Não gosta de assumir riscos?
bem tomadas. De vez em quando, algu- Sou prudente. Tenho de ser. Vivo com Mas o seu filho mais velho já está a tra-
mas não correm bem e temos de infletir. os pés na terra. O meu tio tomava muito balhar na empresa?
mais risco do que esta geração. Era-lhe O meu filho já fez estágio na empresa.
Pode dar um exemplo? uma característica inata. Nós tomamos E já esteve quatro ou cinco anos a esco-
Tínhamos uma unidade de produção no um risco mais controlado, pés mais as- lher cortiça. Os miúdos hoje não que-
Norte que deslocalizámos para Corroios. sentes na terra, ter a certeza de que se dá rem estar parados. A minha filha, este
Uns anos depois levámos de novo para o o passo que se pode dar, mas não deixar ano, foi estagiar fora do grupo. O meu
Norte, porque nunca devia ter de lá saído, de o dar. A parte boa é que se criou na filho também. Os filhos dos meus pri-
era lá que estava o know-how. Foi uma empresa condições de rentabilidade, de mos, a mesma coisa.
decisão mal tomada. Olhe, eu não queria capitais próprios, de balanço, se calhar
ter feito esta fábrica [de Coruche] e o meu melhor do que no passado, para dar estes Algum deles vai estar destinado a isto?
tio insistiu e foi feita. Ele tinha razão. Em passos de forma segura. Não lhe consigo dizer. É cedo. Os miú-
99, fui eu que avancei com a fábrica de dos querem ter várias experiências, não
Ponte de Sôr. Ele só autorizou. Quando foi No arranque das comemorações des- querem trabalhar num só sítio. Devem
lá ver, disse “Era mesmo isto que precisá- tes 150 anos, Paula Amorim agradeceu experimentar enquanto são novos.
vamos, temos de fazer outra.” E eu: “Fa- a sua obstinação. Reconhece-se nesse
zer outra? Primeiro vamos pagar esta.” adjetivo? Ainda não está a treinar ninguém para
“Oh pá, não penses pequeno. Vamos fa- Sim. Sou muito focado, dedicado a isto, o substituir?
zer outra igual, precisamos de crescer.” não faço mais nada. Esta é a minha vida. Não. Mas o meu substituto não tem de
“Mas começou a trabalhar há dois me- ser necessariamente alguém com o ape-
ses, ainda não está paga.” “Não, não. Se Mas é feliz com isso? lido Amorim. Tem é de ser o mais capaz
fosse uma segunda fábrica, onde seria?” Felicíssimo. Quando se desenvolve o que para gerir e levar a empresa para a fren-
“A ser, seria Montemor ou Coruche, de se gosta, tem-se uma vantagem, nunca te. Temos 4 300 colaboradores, somos
preferência Coruche, porque é mais cen- nos cansamos. Que maior felicidade se diretamente responsáveis por 12 a 15
tral.” Como eu disse que não, ele pegou quer na vida? mil pessoas. É uma grande envergadu-
nos colaboradores que trabalhavam co- ra e responsabilidade. Não é para fazer
migo e começou a fazer o projeto da fá- Mas tem tempos livres. Gosta de caçar. o jeito. Também não é por ser da família
brica. E, num domingo de Páscoa, cha- Com certeza. Mas gosto de caçar no meio que tem de ser discriminado. E

3 4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Opinião
POR
JOSÉ GOMES

Assumir
o nosso papel
O tema das alterações climáticas, e os riscos
que lhe estão associados, é absolutamente
crítico, ainda mais para qualquer entidade
que opere na área dos seguros > CEO da Ageas Seguros

À
medida que sequências do impacto humano forço conjunto torna-se cruci-
as alterações nos ecossistemas naturais. Ora, al, não só no desenvolvimento
c l i mát i c a s na Ageas Seguros, além de per- de infraestruturas resilientes
aceleram e tencermos a um grupo que tem ao risco mas também no en-
são, cada vez a sustentabilidade integrada nas caminhamento destas para a
mais, vistas como uma questão suas escolhas estratégicas e de proteção de catástrofes e cria-
global, a indústria seguradora a gestão de risco ser intrínseca ção de um mindset adequado
torna-se, inevitavelmente, um ao nosso negócio, temos a pre- à realidade em que vivemos.
dos atores principais deste de- venção como prioridade. Neste É aí que, também, temos de
bate com um papel a desem- contexto, criámos um serviço fazer uma grande aposta: no
penhar ao nível universal. As diferenciador no mercado por- campo da mudança de hábitos
conversações sobre o clima, as tuguês, que tem em vista apoi- e de mentalidades. Só o con-
compensações de carbono e o ar os nossos clientes na preven- seguiremos fazer se dermos o
futuro do planeta são recorren- ção e análise de risco, através de exemplo! No caso da Ageas Se-
temente os temas de discussão. consultoria e aconselhamento Segundo as guros, e ainda mais concreta-
Ora, num relatório de 2019, gratuitos, que atua sobre as mente no caso do Grupo Ageas
apresentado pelas Nações Uni- principais causas dos aciden- Nações Unidas, Portugal, ao qual pertence, a
das, sublinha-se que o objetivo tes e sinistros participados pelas todas estas futura casa da sede irá ser um
de manter as alterações climáti- empresas, possibilitando a pre- alterações terão espelho do nosso compromis-
cas a 1,5 ºC é hoje quase impos- venção desses mesmos aciden- so por um mundo sustentável.
sível de alcançar. Pelo contrário, tes, melhorando a produtivida- um impacto A construção dos nossos no-
o planeta está no caminho certo de e os índices de motivação dos negativo vos edifícios está a ser acom-
para 3,2 °C de aquecimento aci- colaboradores, além de reduzir de 23% no panhada por uma certificação
ma do nível pré-industrial até os impactos financeiros que um de sustentabilidade, mundial-
2100. Que consequências se sinistro origina. Produto Interno mente conhecida por “BREE-
preveem? Segundo as Nações Importa, ainda, salientar Bruto Global, AM”. Destaco também o ca-
Unidas, todas estas alterações a importância do trabalho co- bem como um minho de substituição dos
terão um impacto negativo de letivo no seio da Associação materiais plásticos utilizados
23% no Produto Interno Bruto Portuguesa de Seguradores, aumento de 28% no merchandising que ofere-
Global, bem como um aumen- em que há claramente uma de catástrofes cemos a clientes e consumido-
to de 28% de catástrofes natu- preocupação e disponibili- naturais, como res. É com ações do dia a dia,
rais, como ciclones, e de 70% de dade do setor para colaborar como estas, que vamos con-
cheias, fruto de chuvas massi- nos casos que nos afetam a to- ciclones, tribuir para um mundo mais
vas. A juntar a todo este cenário dos, como foi o da criação de e de 70% sustentável para as gerações
que é, no mínimo, preocupan- dois fundos solidários, um em de cheias, fruto dos nossos filhos e netos, e das
te, contamos agora com uma 2017, no âmbito dos incêndios, famílias dos nossos clientes. E
pandemia que nos chega tam- e outro em 2020, no combate de chuvas só conseguiremos isso se assu-
bém como um alerta das con- à pandemia Covid-19. Este es- massivas mirmos o nosso papel. E

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 35


ANÁLISE

COVID-19 ABRE
A PORTA PARA UMA
ECONOMIA MAIS
SUSTENTÁVEL?
O choque da Covid-19 e o esforço
para combater os efeitos da pandemia
provocaram uma catástrofe financeira
um pouco por todo o mundo. Mas
os problemas que expôs e as soluções que
forçou podem ter aberto uma janela de
oportunidade para se construir uma versão
mais sustentável da nossa economia,
das alterações climáticas à desigualdade.
O que teria de mudar para isso acontecer?
Texto Nuno Aguiar

D
e um dia para o outro, tuições internacionais veem este momen- -estar, assim como à insustentabilidade do
os governos puderam to como uma oportunidade única para agravamento das desigualdades nos países
enviar cheques a toda a transformar as nossas economias. mais ricos.
gente, pagar a milhões Em primeiro lugar, é importante de- Michael Jacobs é professor na Univer-
de empresas para não finir o que é uma economia mais sus- sidade de Sheffield e ficou responsável
despedirem trabalhadores, injetar bi- tentável. A resposta não é fácil e diferen- por coordenar um relatório encomenda-
liões nos sistemas de saúde e carregar no tes pessoas terão diferentes ideias sobre do pela OCDE, com o objetivo de encon-
carvão do endividamento. Os constran- como consegui-lo. É relativamente con- trar novas abordagens mais sustentáveis
gimentos financeiros parecem ter desa- sensual que terá de se colocar no centro para economia, que a organização possa
parecido, pelo menos temporariamente. o clima, mas as necessidades de reforma usar para aconselhar os governos das eco-
É essa a força de uma crise de dimensão podem não se esgotar aí. Com crises cada nomias mais desenvolvidas do mundo. O
histórica: tornar possível o que, até agora, vez mais frequentes e profundas, valerá a documento, intitulado Beyond Growth foi
era irrealista. Com isso, ela abre um novo pena refletir acerca de formas para tornar publicado em setembro e sintetiza aquilo
quadro mental. Se foi viável para respon- os nossos sistemas económicos e financei- que os autores consideram ser uma via al-
der a uma emergência de saúde pública, ros mais resilientes. Tem sido dada tam- ternativa, numa altura em que há dúvidas
não poderíamos aplicar a mesma lógica a bém cada vez mais atenção às limitações sobre as soluções convencionais. Em con-
outro desafio existencial, como o das al- das métricas de crescimento e à necessi- versa com a EXAME, o economista assina-
terações climáticas? Economistas e insti- dade de se valorizar indicadores de bem- la o que lhe parece não estar a funcionar.

36 . EXAM E . OUTUBRO 2020


“Ainda temos o legado da recessão pro-
vocada pela crise financeira. Países euro-
VOLTAR À ESCOLA PARA INOVAR
peus não conseguiram reduzir muito o
desemprego, a produtividade tem estado
E MANTER A EMPRESA SUSTENTÁVEL
baixa, temos níveis elevados de desigual- Temas de sustentabilidade estão na agenda dos empresários e ecoam
dade e continuamos a alimentar os fato- ainda mais junto dos alunos saídos da faculdade. Pandemia pode colocar
res por detrás das alterações climáticas”, nova luz sobre o fator social
explica. “E isto tudo num período em que
Cruzar os contributos de ou sete empresas que puxam algodão: quem se portava mal,
ainda não regressámos sequer à normali-
inovadores sociais, gestores o comboio.” Do lado dos alunos pior se porta e quem se portava
dade, com os balanços dos bancos centrais empresariais e agentes de que saem das faculdades, o bem, melhor se porta”, consi-
ainda muito insuflados. Também não re- política pública para ajudar a compromisso com estes princí- dera o diretor do master. “Mas
solvemos os problemas de equilíbrio finan- colocar a sustentabilidade no pios é ainda maior, asseveram os trouxe a questão da sustentabi-
ceiro, mantendo níveis de dívida muito ele- centro das decisões empre- dois responsáveis. “As empresas lidade para cima da mesa com
vados. São sintomas de economias que não sariais: é o objetivo a que se de elite começaram a perceber uma regularidade muito maior.”
estão a funcionar bem. É difícil encontrar propõe o executive master in que, sem políticas mais ativas Já Filipe Santos tem dúvidas
uma economia avançada que esteja hoje Sustainable Business & Social de sustentabilidade, o melhor sobre o efeito que a crise terá
num bom momento.” Innovation, que arranca este talento não quer ficar com elas”, no compromisso das empre-
O argumento central do relatório é que mês na Católica Lisbon School sublinha Filipe Santos. sas, fragilizadas pelo impacto
of Business & Economics. “As da queda do consumo e da
estamos no centro da tempestade. Um mo-
empresas estão a integrar os te- > SOCIAL EM ASCENSÃO, perda de negócios: “A questão é
mento de mudança do paradigma econó- PANDEMIA COM EFEITO
mas da sustentabilidade na sua saber se o vai acelerar ou retrair.
mico, em que as soluções do passado se estratégia e na cadeia de valor, INCERTO Perante um desafio de sobre-
mostram limitadas, mas em que as novas mas precisam de inspiração para vivência, muitas empresas vão
receitas ainda geram desconfiança. Já tive- essa inovação”, justifica Filipe Ainda que ambiente seja a focar-se no essencial”, deixando
mos momentos semelhantes no passado. Santos, dean da Católica-Lisbon, primeira palavra que nos vem à para trás apostas já feitas. “Só
Nos anos 30-40, o keynesianismo trouxe em entrevista à EXAME. cabeça, Nuno Moreira da Cruz não o farão se perceberem que
O novo programa, que abordará salienta que os objetivos de essas estratégias de sustenta-
novas opções para os governos lidarem
desenvolvimento sustentável
com crises, derrotando a lógica do laissez- tendências como o consumo bilidade são centrais e que são
(ODS) mais relacionados com a
-faire. Nos anos 70-80, esse nível de inter- sustentável, a economia circular,
componente social são os que
o caminho”, refere o dean. Nuno
venção do Estado deixou de ser visto como a inclusão ou a eficiência ener- Moreira da Cruz vai mais longe:
gética, apoia-se no recém-cria- mais têm progredido nos últimos “Não existem estratégias de
eficaz e foi dado mais espaço aos merca- anos. Portugal acompanha com
do Center for Responsible Busi- sustentabilidade – a susten-
dos. Hoje, as ferramentas que temos tam- sinal mais na implementação
ness and Leadership da escola e tabilidade é a estratégia. Se eu
bém parecem incapazes de responder à ur- é parte da aposta da instituição de ODS como a erradicação substituo as lâmpadas por LED,
gência dos grandes desafios que o mundo na sustentabilidade, em que da pobreza; a paz, justiça e mas ando a pagar diferente a
GETTY IMAGES

enfrenta: a aproximação de ponto de não se incluem programas como o instituições eficazes; e o trabalho homens e mulheres, ou tenho
retorno no aquecimento global, uma ex- Purpose-Driven Business ou digno e crescimento económico, as criancinhas [a trabalhar] na
plosão das desigualdades, a produtivida- Responsible Business. embora desempenhe menos fábrica, isto vai correr mal...”.
Nuno Moreira da Cruz, diretor do bem no domínio da produção e Em plena pandemia, mas com
de estagnada, os Estados de mãos atadas
master, diz que a oferta coincide do consumo sustentáveis, por os olhos postos para lá dela, a
pelo endividamento ou receio do mesmo,
com uma maior sensibilidade exemplo. Católica-Lisbon lançou em maio
os bancos centrais a esgotar os limites da Temas como estes podem
sua capacidade de intervenção, a confian- para o tema: “O que era empur- o Prosper: Center of Economics
rar portas fechadas em Portugal ganhar ainda mais eco na atual for Prosperity, que vai produzir
ça nas instituições a afundar, os sistemas crise de saúde pública, num
há três anos, hoje é empurrar trabalhos de análise económi-
fiscais que não acompanham uma nova re- embate frontal do qual estão por
portas meio abertas. Já há seis ca em temas centrais para o
alidade digital e a regulação incapaz de tra- medir os estragos. Da mesma bem-estar dos cidadãos e para a
var a concentração de poder de mercado. forma, é ainda incerto se todos retoma. P.Z.G.
Estes problemas foram ganhando visi- os agentes estarão em condi-
bilidade desde a crise financeira internaci- ções de responder (e como o
onal, mas a Covid-19 fez com que o debate farão). “A pandemia é o teste do
fosse mais urgente e oportuno. Rahm Ema-
nuel, antigo chefe de gabinete de Barack Talento sustentável
Obama, tornou famosa a frase: “Nunca se Católica-Lisbon estreia novo master
em sustentabilidade, dirigido por
deve desperdiçar uma crise grave.” Jacobs Nuno Moreira da Cruz. Filipe Santos,
concorda. “Todas as pessoas perceberam dean da escola de negócios,
que esta é uma crise única nesta geração diz que empresas de elite já
perceberam a importância
que força os governos a repensar as suas do tema para reter talentos
políticas”, afirma. “É uma crise terrível,
ECONOMIA CIRCULAR E MENOS PLÁSTICO
O setor agroalimentar e as retalhistas tentam reduzir e reutilizar o plástico,
aproveitar mais e desflorestar menos

Os dados da Associação Industrial NÃM – Urban Mushroom Farm, em liada em todos os programas:
e Comercial do Café e da European Marvila. Nasceu assim a primeira Climate Change, Forests e
Coffee Federation são claros: cada Urban Mushroom Farm da cidade Water Security. O grupo tem,
português consome, em média, de Lisboa, que já está a produzir os também, investido milhões
4,73 quilos de café por ano. Isto primeiros cogumelos, embora ainda de euros, ao longo dos
significa que há toneladas de borras não haja data de chegada destes ao últimos anos, em projetos
de café que todos os dias vão para mercado. E numa altura em que os de reflorestação e de
o lixo. Consciente desta questão e portugueses voltaram a consumir produção de energias
com a sustentabilidade na agenda café de cápsula em força, graças à limpas. Já a Sonae tem-
da empresa, a Delta estabeleceu, pandemia causada pela Covid-19, a -se centrado sobretudo
recentemente, uma parceria com Delta faz também saber que “o pri- na redução de utili-
a NÃM – Urban Mushroom Farm. meiro blend da marca com cápsula zação de plástico de
“É um projeto de economia circular 100% biodegradável, o Delta Q EQO, difícil reciclagem ou de
que consiste em dar uma nova vida será lançado neste último trimestre uso único. Nos últimos
à borra do nosso café”, esclarece e terá tripla certificação de susten- meses, anunciou o
à EXAME o CEO do Grupo Nabeiro tabilidade: Certificação Rainforest lançamento do projeto
–Delta Cafés. “O processo baseia- Alliance, que trabalha para conservar LIFEFood Cycle, em
-se na recolha controlada da borra a biodiversidade e garantir meios consórcio com a Phenix
de café nos nossos clientes e na sua de subsistência sustentáveis”. Já as (FR), o qual permitirá
utilização para a produção susten- grandes retalhistas têm estabele- às lojas Continente não
tável e consciente de cogumelos, na cido consistentemente metas para desperdiçar produtos
cidade de Lisboa, que posteriormen- reduzirem a sua pegada ecológica. alimentares em risco de
te serão vendidos a esses mesmos O grupo Jerónimo Martins afirma-se quebra, “tanto através de
clientes onde fomos recolher a borra, como o único “retalhista alimentar doações solidárias quer
completando um círculo perfeito. De mundial classificado com A em também através da venda B2B
forma a tornar este processo pos- todas as commodities de risco de a novos parceiros, que se prevê
sível a uma maior escala, apoiámos desflorestação: óleo de palma, soja, ocorrer a preços mais baixos”,
e investimos no projeto do jovem madeira e gado bovino”, bem como esclarece fonte oficial da empresa à
empreendedor Natan Jacquemin: a “a única empresa portuguesa ava- EXAME. M.V.L.

mas se há uma coisa boa que podemos reti- de austeridade, pede agora que os governos “Devemos
rar dela é a ideia de que os governos podem gastem mais. A OCDE, que durante anos
executar grandes mudanças.” aconselhou os governos a liberalizar os aproveitar
A OCDE não é a única instituição preo- mercados de trabalho, é agora mais caute- a oportunidade
cupada em aproveitar este momento de losa nessa área e tem liderado a busca de para construir
transição. Numa participação num debate formas alternativas de pensar a economia.
recente, a diretora-geral do FMI, Kristalina Agora, o combate ao vírus pode ter uma ponte para
Georgieva, frisou que “seria ter vistas cur- aberto uma espécie de caixa de Pandora. algo melhor: um
tas regressar à economia de ontem, com os Os eleitores viram os governos fazer coisas mundo mais justo,
seus problemas de desigualdade crescen- que talvez não imaginassem serem possí-
te”. “Devemos olhar para a frente e apro- veis. Porque não fazer um esforço seme- mais equitativo,
veitar a oportunidade para construir uma lhante com a crise ambiental? Será possível mais verde, mais
ponte para algo melhor: um mundo mais voltar a pôr o génio dentro da lâmpada? “Se sustentável
justo e mais equitativo; mais verde e mais a situação é assim tão séria – e basta olhar
sustentável, mais inteligente e, acima de para os incêndios na Costa Oeste dos EUA e mais resiliente”
tudo, mais resiliente.” e outros fenómenos extremos por todo o
As principais instituições internacio- mundo –, as pessoas vão perguntar porque Kristalina Georgieva
nais também têm evoluído no seu pensa- não podemos tomar medidas de emergên- Diretora-geral do FMI
mento. O FMI, que aconselhou programas cia, se o fizemos com a crise do coronaví-

38 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Fechar o círculo
Rui Miguel Nabeiro, CEO do Grupo Nabeiro – Delta
Cafés, garante que a empresa está comprometida
com um melhor aproveitamento de recursos

FÉRIAS SEM PEGADA


Mais decisiva na escolha dos destinos,
sustentabilidade entrou no léxico
do turismo

> UM SETOR A CUM Ibérica”, no valor de


PRIR MAS NÃO EM €2 milhões. O sistema
TUDO
de baixa profundida-
de usará o calor da
Progressos na energia terra para aquecer e
e água, regressão nos arrefecer o interior das
resíduos: é o retrato instalações do Ombria,
do compromisso am- na produção de águas
biental do alojamento quentes sanitárias e no
turístico no País, em aquecimento da água
2019, segundo um das piscinas. A empresa
inquérito do Turismo garante que esta fonte
de Portugal. Dois de energia é “renovável,
terços implementaram limpa e está disponível
medidas de uso efici- 24 horas por dia”, aju-
ente da energia, como dando ainda a reduzir
lâmpadas economiza- custos com a energia.
doras, regulação local
da climatização e equi- > REVIVE
pamentos desligados A NATUREZA COM
quando não neces- MAIS IMÓVEIS
sários; 70% geriram a
água de forma racional Lançado em julho, o
(mudança de toalhas concurso para se atri-
e lençóis a pedido dos buir a exploração com
hóspedes, redutores fins turísticos de 16
e cargas diferenciadas antigos postos fiscais
em chuveiros e auto- e instalações florestais
clismos). Mais distante por 25 anos terminará
está a separação ou a no dia 19 deste mês e
LUÍS BARRA

minimização de resídu- já registou, até ao mo-


os. Só 60% apresenta- mento, mais de uma
ram estas boas práticas centena de contactos
(menos três pontos com manifestações de
rus”, antecipa Jacobs. ciou uma ambição reforçada nos planos de
percentuais do que interesse. Até ao fim
Na realidade, essa resposta já começou redução das emissões de dióxido de carbo-
em 2018). A ambição é deste ano ou princípio
a chegar. A União Europeia, por exemplo, no, que terão agora de cair 55% até 2030. de 2021, está previsto
superar 90%, em 2027.
parece decidida a aproveitar esta oportuni- A Europa não resolverá o problema so- o lançamento de mais
dade. Depois de negociações duras em torno zinha, mas pode servir de referência. Nos > TERRA AQUECE três concursos (um dos
do plano de recuperação, este ficou com um Estados Unidos da América, tudo vai de- A ÁGUA quais deverá ter ocorri-
poder de fogo de 750 mil milhões de euros. pender de quem vença as eleições pre- do nos últimos dias de
Além de voltar a colocar a economia de pé, sidenciais. Com Donald Trump na Casa O tempo não está para setembro), com mais
o Next Generation EU pretende trazer para o Branca, os próximos quatro anos não de- anunciar grandes inves- 27 imóveis. O anúncio
centro das prioridades uma transição “ver- verão trazer grande progresso nesta área. timentos, e menos na da nova leva de
de e digital”. Os investimentos e reformas Mas uma vitória de Joe Biden deverá fazer hotelaria e no turismo, edifícios surge numa
em grandes dificul- altura em que a oferta
apoiados por estes fundos terão de respei- com que Washington acompanhe Bruxelas
dades. Mas o Ombria de alojamento e de ati-
tar as prioridades europeias no clima e no neste esforço de reconversão da economia,
Resort, que deverá ser vidades turísticas mais
ambiente, seja apoiar empresas em fase de com um megaprograma de investimento.
inaugurado dentro de isolada, localizada no
transição, seja investir em energias reno- Para a líder do FMI, não há dúvidas pouco mais de um ano, Interior do País e ligada
váveis, no hidrogénio, em transportes não de que a economia não poderá prosperar renovou a intenção à Natureza, reforçou a
poluentes ou em novas infraestruturas. No sem dar passos decisivos na luta contra o de instalar “um dos sua atratividade devido
Discurso sobre o estado da União Europeia aquecimento global. “O nosso mandato é maiores sistemas de às restrições e receios
de setembro, Ursula von der Leyen anun- estabilidade, crescimento, emprego e me- geotermia da Península com a pandemia.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 39


UBER ACELERA ATÉ 2040...
SILENCIOSA E SEM FUMO
Eletrificação total da frota deve chegar em menos de duas décadas. Lisboa e Porto,
que começaram o caminho há quatro anos, podem estar mais perto da meta
São quatro anos a fazer um em criar condições para que que a outra, as três têm força
caminho que, entretanto, apa- eles [condutores de carros a sinérgica entre si”, considera o
nha a boleia de uma estratégia combustíveis fósseis] possam responsável pela Uber no País.
mundial renovada, apostada manter a sua atividade de uma Mesmo com esses condicio-
em reduzir a pegada ambien- forma não disruptiva”, afirma. namentos, os quilómetros
tal do transporte partilhado percorridos por Lisboa e
de passageiros. Em 2016, > METAS PRÓPRIAS Porto, nos últimos anos, com
Portugal foi mercado pioneiro a adoção de veículos elétricos
no lançamento do serviço Uber Os sistemas de partilha de posicionam estas cidades na
Green, que permite reservar veículos são considerados frente de um percurso que
deslocações exclusivamente pelo Plano Nacional Energia só termina, o mais tardar, em
em carros elétricos, e este e Clima (PNEC 2030) como 2040, quando toda a frota
gerou, desde então, mais de uma via para se reduzir o deixar de emitir gases noci-
7 milhões de viagens. Agora, impacto no ambiente e se vos. Mas, ao contrário de Paris
aquela plataforma multinacio- aumentar a eficiência ener- e de Londres, onde a empresa
nal compromete-se a tornar gética. O objetivo do País é criou programas de apoio à
toda a frota elétrica até 2040 diminuir 40% das emissões eletrificação, não é de esperar
e a fazer com que, até 2025, de gases com efeitos de es- que as cidades portuguesas
metade das viagens em sete tufa no setor dos transportes, tenham um mecanismo
cidades onde está presente que hoje representa 24% do específico semelhante. “Já
(Lisboa incluída) seja assegu- total de emissões de CO2 e fazemos, enquanto veículos
rada por este tipo de viaturas. mais de um terço do consumo TVDE, contribuição de 5% das
“A pandemia tem um fator de energia. nossas receitas para um fundo
acelerador do ajuste que a A Uber reconhece a ambição [ambiental] que tem como um
Uber escolhe fazer deste re- das próprias metas e sabe que dos seus objetivos a eletrifica-
gresso à normalidade, de uma terá de ter carro cheio para fa- ção da frota. Não vamos criar
forma mais sustentável, para zer este caminho, ou seja: vai nada adicional”, diz Manuel
ajudar as cidades e as pessoas ter de multiplicar os parceiros, Pina, recusando comentar a
que lá vivem”, sustenta à EXA- como os operadores de ren- aplicação que o Estado faz
ME Manuel Pina, diretor-geral ting (como a LeasePlan, para dessas verbas.
da Uber em Portugal. fornecimento das viaturas), as Ainda assim, na estratégia
A transformação parece estar redes de carregamento (como Spark!, em que explica os
a intensificar-se. A partir de a PowerDot, com a qual tem seus objetivos de eletrificação
lhoria das condições de vida. Nunca vamos
meados de julho, já com a crise trabalhado na redução do pre- para os próximos anos, a Uber
ter estabilidade até resolvermos a crise de
de saúde pública a penalizar o ço de carregamento e maior defende que os incentivos
negócio dos TVDE (chegou a disponibilidade de carregado- à compra de viatura elétrica
clima. A boa notícia é que, com o enorme
cair 80% no pico da pandemia res), as cidades, os regulado- deviam estar condicionados estímulo orçamental colocado no terreno,
e vive atualmente uma recu- res e os fabricantes. Contribu- ao seu uso mais ou menos nas palavras de Lyndon Johnson, podemos
peração “bastante rápida”), a tos para superar as principais intensivo, se o que se preten- andar e mascar pastilha ao mesmo tem-
Uber passou a admitir apenas barreiras à eletrificação, de é reduzir as emissões de po. Podemos tratar da recuperação da Co-
veículos elétricos na frota. A como a escassez de pontos gases nocivos. “O Governo vid-19, que é necessária, e da crise climá-
adesão de motoristas com de carregamento, a falta de e os reguladores devem tica”, defendeu.
estas viaturas mais ecológicas veículos no mercado a preços aumentar o empenho no que
decorre “em linha com o espe- acessíveis (incluindo em se- diz respeito às condições PRISÃO DO PIB
rado”, segundo o responsável gunda mão) e a insuficiência fiscais para substituição de
Outro dos problemas do statu quo é a
que se recusa a quantificá-la de incentivos financeiros, que veículos de combustão fóssil
forma como medimos o sucesso econó-
por ser “muito cedo”, negando ainda limitam a competitivida- por veículos elétricos, para
que a medida crie uma primei- de do carro elétrico face a um todas as atividades, sobretudo
mico, normalmente centrado no Produto
ra e uma segunda classes de veículo movido a combustível as que usem o carro como Interno Bruto (PIB). Quando foi criado –
veículos, dando primazia aos fóssil. “Essas três áreas são forma de trabalho e façam e sucessivamente aperfeiçoado –, ele foi
elétricos, em detrimento dos importantes para Portugal. muitos quilómetros dentro recebido como uma bênção: um número
que usam combustíveis fós- Não há uma que digamos das cidades”, sublinha Manuel único capaz de nos resumir o andamen-
seis. “A Uber está empenhada que seja mais importante do Pina. P.Z.G. to da economia e de fácil comunicação à

4 0 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Empurrar a transformação
Manuel Pina, diretor-geral da Uber em Portugal, pede
empenho das autoridades na criação de condições
fiscais para a substituição de frota por carros elétricos,
sobretudo nos casos de utilização intensiva

não chega. É preciso desistir de crescer. Isto


é, enquanto insistirmos em aumentar a pro-
dução, só vamos pôr mais pressão sobre o
planeta. Jacobs considera que quem defende
o “decrescimento” está a cometer um erro
semelhante ao de quem acha que o cresci-
mento económico deve ser o alfa e o óme-
ga da avaliação do progresso. “Em algumas
atividades queremos crescer, noutras não.
Atividades muito dependentes de combus-
tíveis fósseis, por exemplo, terão de recuar.
E é inevitável que as economias avançadas
cresçam a um ritmo mais lento do que nos
habituámos no passado”, espera.
O que estes académicos e instituições
dizem é que é possível um equilíbrio dife-
rente dentro daquilo que conhecemos como
capitalismo. Outras correntes mais radicais
acham que uma economia de mercado não
é capaz de ultrapassar os desafios que temos
pela frente. Como prova, usam as últimas
décadas. Foi em 1988 que James E. Hansen,
diretor do Instituto Goddard para Estudos
Espaciais da NASA, anunciou ao Congres-
so norte-americano que podia dizer, “com
elevado grau de confiança”, que existia uma
relação causa-efeito entre o efeito de estufa
e o aquecimento que se estava a viver nesse
ano. Foi um dos primeiros cientistas de topo
a dar como certa a relação entre a ação hu-
mana e as alterações climáticas. Nestas três
décadas, os esforços para travá-las têm sido
MARCOS BORGA

desapontantes.
É possível que, para o conseguir, seja ne-
cessária uma intervenção mais musculada
do Estado, seja com a criação de novas in-
população. Se está a cair ou a crescer de- dústrias e desenvolvimento de tecnologias
vagar – é mau. Se está a avançar rápido – é “É uma crise ainda longe da maturidade seja com apoios
bom. Simples.
No entanto, hoje somos prisioneiros do
terrível, mas se sociais ao previsível exército de “derrotados”
da transição. Numa entrevista dada à EXA-
indicador. Não só a sua utilização se uni- há uma coisa boa ME, o escritor Nathaniel Rich dizia que “o
versalizou como passou a ser usado para que podemos tempo para reformas moderadas e graduais
coisas para as quais ele não serve. Nada
garante que um PIB mais alto signifique
retirar dela acabou há 30 anos”. “Precisamos de trans-
formações furiosas, numa escala equivalen-
que os habitantes do país estejam a viver é a ideia de que te à mobilização para uma guerra mundial”,
melhor. E como podemos depender tanto os governos acrescentava.
de um indicador que não incorpora nos
seus cálculos o impacto negativo da degra-
podem executar Embora agora, empurrados pela Co-
vid-19, haja algum ímpeto para uma ver-
dação ambiental? “É muito difícil fugir ao grandes dadeira transformação económica, não é de
PIB e claro que não lhe queremos escapar mudanças” todo garantido que ela chegue. A crise é tão
totalmente. Continua a ser uma medida devastadora que pode ser tentador voltar a
útil. Mas não é a única forma de julgar o Michael Jacobs pôr a economia a funcionar, deixando para
sucesso da economia”, diz Jacobs. Professor na Universidade de Sheffield trás as metas ambientais. Se o fizermos, será
Alguns economistas argumentam mes- mais uma oportunidade perdida. Muitos ar-
mo que relativizar o crescimento económico gumentam que será a última. E

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 41


E N T R E V I S TA

“A RECUPERAÇÃO
ECONÓMICA DE PORTUGAL
SÓ PODE SER FEITA COM BASE
NA DESCARBONIZAÇÃO”
A transformação ambiental prevista para as próximas décadas
vai permitir que o valor económico fique no País e não seja exportado
na compra de combustíveis ou gasto em custos de saúde desnecessários,
defende o presidente da APA, para quem a pandemia trouxe ensinamentos:
“Não é à custa da paralisia da atividade económica e humana que temos
de proteger o ambiente”
Texto Paulo Zacarias Gomes Fotos Marcos Borga

O
presidente da Agência ponsável diz que a instituição está prepara- todas as partes interessadas. Pressões diz
Portuguesa do Ambien- da para responder a uma trajetória de re- sentir apenas as do tempo para tomar de-
te (APA) diz que a gestão cuperação. “Portugal tinha a vantagem de cisões.
integrada do setor está a estar preparado nas políticas de economia
mudar a cultura de atu- verde e descarbonização e o plano Costa Está há oito anos à frente da APA. O que
ação, que está concentrada na autonomia Silva assume centralmente essa matéria. O mais marcou esse período?
técnica da análise dos projetos em vez da desafio é a implementação”, afirma, sobre Pela primeira vez, temos ao nível do Esta-
sua recusa terminante. Desde 2012 à fren- a estratégia pós-Covid-19 para o País. Em do gestão integrada do ambiente – clima,
te da instituição, Nuno Lacasta salienta o entrevista à EXAME, defende que a aplica- água, resíduos, ar, litoral, impacte ambi-
trajeto ambiental do País nas últimas dé- ção de impostos ambientais é, “em todo o ental, emergências radiológicas –, com es-
cadas, embora admita que recentemente seu esplendor, o bom exemplo de consig- pecialistas de muitas áreas e numa relação
esteja a “marcar passo” no aproveitamento nação de despesa”, porque são reinvestidos com municípios e outros organismos. Fize-
dos resíduos. Depois do abrandamento na na melhoria dos ecossistemas. E sublinha mos uma profunda transição digital, com o
atividade provocado pela pandemia, o res- o espírito de colaboração da agência com LUA (licenciamento único ambiental, que

4 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


congrega 14 regimes), as guias eletrónicas Essa autonomia técnica blinda-vos em
de resíduos para rastrear o movimento no relação às pressões?
território e a aplicação Infopraia, que este Temos uma cultura de participação do pú-
ano se tornou referência para perceber a blico nos processos de decisão e os dados
lotação das praias. Demos o apport técni- ambientais são dos mais disponíveis na
co e intelectual ao Roteiro da Neutralidade sociedade. Recebemos muita informação
Carbónica, o primeiro a olhar para a eco- e temos a tarefa difícil de ponderar e to-
nomia e do qual o plano de recuperação mar decisões, muitas vezes transversais,
económica que Portugal está a preparar é que tentam encontrar um equilíbrio, no
uma expansão. O planeamento de recur- espírito da lei, entre os diferentes interes-
sos hídricos, de inundações e da orla cos- ses, que às vezes até conflituam.
teira; a gestão da seca, os projetos pós-fo-
gos, a monitorização dos rios e do litoral e Mas sente pressões?
a renovação das redes de qualidade do ar Na avaliação de impacte ambiental do ae-
e medição de radiação. As sociedades Polis roporto do Montijo, por exemplo, a pressão
Litoral, que ajudaram a mudar a face do verdadeira foi a da gestão do tempo porque
litoral e terminam no final de 2021, quan- é dos processos mais complexos. Estamos
do a APA assumirá as suas competências obrigados a tempos legais na casa dos cen-
e colaboradores. to e poucos dias, temos de correr contra o
tempo para trazer para cima da mesa mais
A agência tem todos os meios e compe- de 30 organismos e diversas opiniões.
tências de que necessita?
As questões ambientais tornaram-se mais Que luzes verdes e vermelhas vê no per-
centrais na última década e terá sido isso curso ambiental de Portugal nas últimas
que levou os políticos a decidir criar a décadas?
APA, também por questões de gestão e Numa geração, passámos de país subde-
eficiência. Temos um leque já vasto [de senvolvido em políticas de ambiente para
competências] que nos dá muitas dores um de primeiro mundo, onde se destacam
de cabeça e que desempenhamos o me- o abastecimento e saneamento de água e
lhor que podemos. Não estamos preocu- a gestão dos resíduos (fechámos mais de
pados com a questão da “competencia- 300 lixeiras a céu aberto e construímos um
zinha” para a esquerda ou para a direita, conjunto vasto de aterros) com taxas de re-
mas com a colaboração com outras enti- ciclagem interessantes. Mas continuamos a
dades. Colaborar é um dos meus lemas. depositar demasiados resíduos em aterro:
em menos de uma década temos de passar,
Mas a APA está com muita frequência na no máximo, de 33,5% para 10%, segundo
comunicação social. Sente-se à frente de as metas comunitárias, o que é um grande
uma entidade com grande influência e desafio. Houve um período muito impor-
poder? tante de montagem do sistema, com a Soci-
É verdade que isto [gestão integrada] está a edade Ponto Verde, reciclagem de resíduos
significar uma mudança de cultura. Não es- elétricos e eletrónicos, pilhas e óleos, mas
tamos obcecados com o “não, não, não, não, não escondo que na última década come-
“Não estamos não”, estamos obcecados em garantir que o çámos a marcar passo.
preocupados projeto é analisado como deve ser. A auto-
com a questão da nomia técnica existe hoje na APA e é pre- Por causa dos consumidores, da recolha
servada e garantida. Já tomámos algumas ou da valorização?
‘competenciazinha’ decisões controversas, sempre em apoio do Um pouco de tudo. A sociedade continua
para a esquerda ou Governo e na decorrência da lei, como per- a ser de comprar e deitar fora, há muitos
para a direita, mas mitir a prospeção de petróleo no Algarve materiais desenhados para um período de
– que depois não se realizou. Do ponto de vida propositadamente curto, o que me
com a colaboração vista da lei, fizemos uma análise absoluta- parece um escândalo. Ficámos um pou-
com outras mente ímpar. Também não aprovámos um co acomodados com a primeira geração
entidades” porto de contentores para o Barreiro e de- de aterros e não trabalhámos melhor as
cidimos sobre a viabilidade ambiental do cadeias de recolha e triagem na fonte –
aeroporto complementar do Montijo. é essa a frente de batalha. Uma decisão

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 43


relevantíssima foi o aumento da taxa de
CARREIRA NO
gestão de resíduos para 22 euros por to-
nelada, uma proposta da APA que tem um AMBIENTE E NAS
custo, mas é um desincentivo. ALTERAÇÕES
CLIMÁTICAS
As empresas estão mais conscientes do
seu papel no ambiente? Ou ainda há > NOME
muito greenwashing? Nuno Sanchez Lacasta
Não há comparação possível entre o esta-
do do ambiente em Portugal hoje e há dez, > P E R C U R S O AC A D É M I CO

15, 20 anos. Não há nenhum indicador que Licenciado em Direito pela Faculdade
de Direito de Lisboa e mestre em
nos diga que estamos genericamente pior
Direito (LLM) pelo Washington
na qualidade da água, do ar, do ordena-
College of Law da American
mento do território. Temos historicamen- University, EUA. Foi professor
te um território desordenado e isso tem convidado de Direito e Políticas de
implicações, por exemplo, nas indústrias. Ambiente (Faculdade de Ciências
Tem havido avanços ao nível do mundo e Tecnologia, Universidade Nova
empresarial – estou a pensar na CIP – e es- de Lisboa) e de Direito Comunitário
tamos disponíveis para, em temas como do Ambiente e das Alterações
economia circular, descarbonização, ges- Climáticas (Washington College of
tão de poluição, trabalhar ativamente com Law, American University). Há cerca
associações empresariais. Até podiam ter de 25 anos que trabalha em temas
ambientais e de desenvolvimento
um papel mais central na sua atividade,
sustentável.
mas não me cabe a mim... Temos boas re-
lações e estamos interessados em aumen- > CARREIRA
tar o nível de interação nestas matérias. Foi consultor para a OCDE, ONU e
Comissão Europeia. Desde 2002, de-
Já é possível medir o impacto desta pan- sempenha funções de serviço públi-
demia no ambiente? E que lastro estru- co, como as de diretor do gabinete de
tural vai deixar? Relações Internacionais do Ministério
Talvez o mais visível seja a melhoria sem do Ambiente ou gestor do Fundo Por-
precedentes da qualidade do ar no con- tuguês de Carbono e coordenador do
finamento. Deixa um amargo de boca, Comité Executivo da Comissão para
as Alterações Climáticas – área em
porque não é paralisando a atividade eco- tinuação de investimentos na área das re-
que foi negociador-chefe da UE em
nómica e humana que protegemos o am- nováveis e infraestruturas, teremos muito
2007. Preside, desde 2012, à Agência
biente, mas sim percebendo como pode- Portuguesa do Ambiente (APA), trabalho pela frente.
mos, na recuperação, não voltar a níveis instituição com cerca de 850 colabo-
anteriores. Há boas notícias nas renová- radores. Em julho do ano passado, o Que papel terá o ambiente nos planos de
veis e o carvão [centrais] será descomis- Governo renovou a sua comissão de recuperação europeus e no português,
sionado em 2021 e 2023. A recuperação serviço na liderança da APA. em concreto?
económica de Portugal só pode ser feita Ainda bem que estamos a discutir isto
com base na descarbonização, porque é o no âmbito desses planos, e os anúncios
que permite que o valor económico fique da presidente da Comissão Europeia são
no País e não seja exportado na compra de muito interessantes. Já ninguém contes-
combustíveis ou haja gastos desnecessá- ta as green bonds pan-europeias, ponto
rios do SNS, com cerca de seis mil mortes final! E o anúncio de redução de 55% de
prematuras estimadas/ano por doenças emissões em 2030 é muito importante,
resultantes da fraca qualidade do ar. não há volta a dar. A descarbonização é
um dos pilares dos planos apresentados
E qual foi o impacto no fluxo de proces- pela Alemanha e pela França e também
sos que chegam à APA? está plasmada em toda a linha no plano
Com o impacto na economia notou-se Costa Silva, que bebeu profusamente do
imediatamente uma paragem de entra- Roteiro de Neutralidade Carbónica e das
da de projetos. Estão a retomar e, com o estratégias de economia verde do Minis-
plano de recuperação económica e con- tério do Ambiente.

4 4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Ambiente e empresas
Devia debater-se se há critérios de licenciamento
que são verdadeiramente úteis ou se constituem,
inadvertidamente, barreiras e custos de contexto
ao investimento, defende

países como a Holanda, deve claramente


posicionar-se nesta matéria. Haverá um
envolvimento da APA na avaliação dos im-
pactes – estarmos na mesma área minis-
terial permite estabelecer diálogo como
nunca, e espero que continue a existir
visão política para perceber a mais-valia
de integração de energia, geologia e am-
biente. A importância do lítio nas baterias
é indesmentível e Portugal tem um po-
tencial interessante que pode e deve ser
estudado e, sempre de forma sustentável,
eventualmente explorado. Temos alguns
projetos na mesa, um em fase de definição
de conformidade. Na avaliação de impacte
far-se-á a consulta do público.

Um dos temas mais polémicos em que a


APA esteve envolvida foi a viabilização
com condições do aeroporto do Montijo.
O projeto ainda faz sentido, dado o im-
pacto da pandemia na aviação? E devia
ser revisto?
O resultado da avaliação da APA podia
ter sido outro, mas foi este, porque tecni-
camente foi possível compatibilizar uma
atividade aeroportuária com a gestão da
área protegida do Tejo ao nível da avifau-
na e com medidas de mitigação do ruído
nas populações. É público que estão a ser
feitas reflexões por diferentes agentes no
âmbito da configuração futura da TAP, do
hub e da relação com o aeroporto com-
O plano português é suficientemente plementar. O nosso papel é, confrontados
ambicioso do ponto de vista ambiental? com um projeto devidamente submetido,
Portugal tinha a vantagem de estar pre- proceder à sua avaliação ambiental.
parado nas políticas de economia verde
e descarbonização e o plano Costa Sil- Os Estados são bons alunos e bons pro-
va assume centralmente essa matéria. O fessores de práticas ambientalmente sus-
desafio é a implementação. Por vezes, há tentáveis?
planos que ficam na gaveta, que são com- Historicamente, não – nem falo do caso
plicados, capilares. Na APA, temos equi- completamente extremo da antiga União
pas dedicadas a licenciamento e avaliação “Não estamos Soviética, que eram todas empresas públi-
de impacto da descarbonização. É uma
área em que precisamos de mais recur-
obcecados com cas, com políticas de poluição absoluta-
mente inacreditáveis. Mas, nas democra-
sos e estamos a trabalhar nesse sentido. o ‘não, não, não, cias, temos visto cada vez mais empresas
não, não’, estamos e entidades públicas a exercerem influên-
A descarbonização e transição energética
de Portugal fazem-se sem os investimen-
obcecados em cia nas cadeias de valor e mudarem com-
portamentos. As frotas públicas estão a
tos no lítio e no hidrogénio? garantir que converter-se para híbridos ou elétricos,
Faz sentido Portugal posicionar-se agres- o projeto um conjunto importante de edifícios do
sivamente em tudo o que respeite a ener-
gias verdes. O hidrogénio começa a adqui-
é analisado Estado começa a dar atenção à eficiência
energética. Temos programas de incenti-
rir foros de centralidade e Portugal, com como deve ser” vo que nos permitem maior otimismo e
o potencial de Sines e em parceria com o trabalho na APA, em parceria com a ES-

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 45


PAP [Entidade de Serviços Partilhados da
Administração Pública] e o Ministério do
Ambiente, é trabalhar no “esverdeamen-
to” proativo das compras públicas. Nos
próximos anos, o desafio é incluir defini-
tivamente os municípios nesse universo.

As leis portuguesas para o ambiente são


amigas do investimento?
Mais de 90% são transposições de leis eu-
ropeias, e a Europa não é conhecida como
um continente avesso ao investimento. Os
standards ambientais das leis portuguesas
são e devem ser de primeiro mundo, esta-
mos a competir com mercados da OCDE.
Onde há uma disfunção que tem de ser
melhorada é em alguma incompatibili-
dade que ainda existe entre regimes de
licenciamento ambiental e de atividade
económica, agrícola e industrial. É um
debate que devíamos fazer, o de perceber
se há critérios de licenciamento que são
verdadeiramente úteis ou se constituem
– inadvertidamente – algumas barreiras e
custos de contexto ao investimento.

A regionalização seria positiva para o


ambiente?
As CCDR já têm algumas competências, de
licenciamento de operadores de gestão de
resíduos e de alguns aterros, de acompa-
nhamento da qualidade do ar; os municí-
pios têm amplas competências em matéria referência nesta matéria. Em 2017, houve
Influência
ambiental – no último ano transferiram-se cerca de cinco mil milhões de euros de re-
“O plano Costa Silva bebeu profusamente
competências em gestão de praias, faz todo do Roteiro de Neutralidade Carbónica e das ceitas de impostos ambientais. E aconte-
o sentido que sejam eles a geri-las. Não te- estratégias de economia verde do Ministério ce depois da reforma de fiscalidade verde,
nho nada a referir, a APA não deixará de ser do Ambiente,” argumenta Nuno Lacasta invertendo a tendência anterior de dimi-
uma entidade colaborativa. nuição de impostos ambientais. A prazo,
a tendência natural é que venham a re-
Concorda que o ambiente seja uma “gali- duzir-se à medida que as pessoas mudem
nha dos ovos de ouro” de impostos? comportamentos. Mas há algum proble-
A política de criação de tributos ambien- “Portugal tem ma nisso? Que as pessoas mudem com-
tais não é só portuguesa, é recomendada um potencial portamentos, que as empresas melhorem
pela OCDE há mais de 20 anos. As taxas
de gestão de resíduos, de gestão de recur-
interessante [no a performance ambiental?

sos hídricos, de carbono e outros têm sido lítio] que pode E esses impostos são bem aplicados?
instrumentais para garantir a sustentabi- e deve ser Quando coleto impostos nos combustíveis
lidade da gestão do setor. Pagam a recupe-
ração de ecossistemas e ajudam a mudar a
estudado e, fósseis para investir nas renováveis, creio
que estou a tomar uma boa decisão. Ou
performance ambiental da sociedade, são sempre de forma quando o faço no uso da água, e os gasto
investidos pelo Fundo Ambiental de vol- sustentável, para melhorar infraestruturas hidráulicas,
ta ao ambiente para a descarbonização, a
gestão florestal, do litoral e de cheias. Esta
eventualmente ou nos resíduos, para investir na separa-
ção de biorresíduos ou na recolha seletiva.
é uma marca de água central da política explorado” É, em todo o seu esplendor, o bom exem-
de ambiente, bem-sucedida, e Portugal é plo de consignação de despesa. E

4 6 . EXAM E . OUTUBRO 2020


DESAFIA A TUA
TU
COMUNIDADE
COMUNIDAD
CONQUISTAR
A CONQUIST
O MAIOR SÍMBOLO
SÍM
DA SUSTENTABILIDADE.
SUSTENTA
KIKAS
Surfista Profissional

2020

BANDEIRAVERDE.PT
FIGURAS

VOZES DA ECONOMIA
SUSTENTÁVEL
Alguns deles conhece bem, de outros talvez nunca
tenha ouvido falar. Entre académicos e figuras influentes,
estes são alguns dos nomes que se têm destacado
na defesa de uma economia mais sustentável,
do clima às desigualdades
Texto Nuno Aguiar

JOSEPH STIGLITZ / Professor na Universidade Columbia


AS LIMITAÇÕES DO PIB
Nobel da Economia, Stiglitz tem uma longa carreira, tendo sido econo-
mista-chefe do Banco Mundial e liderado o grupo de economistas que
aconselha o Presidente dos EUA. Nos últimos anos, tem aprofundado
a sua crítica à desigualdade, aos defensores dos “mercados livres”
e ao atual modelo de globalização. É um grande defensor de um
programa de estímulo “verde” que replique o New Deal dos anos 30,
permitindo criar emprego e motivar a recuperação da crise Covid-19.
Em 2010, publicou com outro Nobel (Amartya Sen) um relatório que
recebeu muita atenção no qual aponta as limitações do PIB enquanto
indicador de progresso. O seu mais recente livro Measuring What
Counts aprofunda essas ideias, apontando para a incapacidade
do PIB, por exemplo, para incorporar a degradação ambiental.

JEREMY RIFKIN
Consultor e professor da Universidade da Pensilvânia

INDÚSTRIA 3.0
É um dos nomes mais influentes no campo da transição
industrial. O seu livro que recebeu mais atenção foi A Terceira
Revolução Industrial (2011), que motivou a recomendação
do primeiro-ministro chinês. O economista norte-americano é,
aliás, um dos conselheiros de Pequim para a sua visão de trans-
formação industrial, assim como o arquiteto da Smart Europe,
um plano para fazer a transição para uma economia mais
verde e digital. Na sua mais recente obra – The Green
New Deal – reflete sobre o impacto do declínio
da atual estrutura económica baseada em com-
bustíveis fósseis. Rifkin defende investimentos
massivos numa nova infraestrutura energética
e argumenta que Bruxelas deveria isentar
essa despesa das regras orçamentais.

4 8 . EXAM E . OUTUBRO 2020


MARIANA MAZZUCATO / Professora na University College London
ESTADO INOVADOR
Economista ítalo-americana e professora lançado em 2013. Mazzucato tem
na University College London, Mariana aconselhado a Comissão Europeia, a
Mazzucato é especialista em temas de OCDE e as Nações Unidas e vê na crise
inovação e políticas públicas. Tem escrito provocada pela Covid-19 uma
amplamente sobre a necessidade de um oportunidade para revalorizar o papel
setor público mais ativo, desmistificando do Estado, deixando de apenas regular
a ideia de o Estado ser uma entidade que e resolver problemas e voltar a criar e
nada tem contribuído para o desenvol- moldar mercados, assumin-
vimento tecnológico. A sua obra mais do o interesse público
conhecida é O Estado Empreendedor, como prioridade.

WILLIAM NORDHAUS / Professor na Universidade Yale


NOBEL PELO CLIMA
É, ao mesmo tempo, um análises macroeconómi- económico negativo das
dos economistas mais cas de longo prazo. Desde alterações climáticas. Os
respeitados desta lista e o início dos anos 90 que críticos questionam a sua
aquele cuja inclusão mais avisava para o perigo do metodologia e acusam-
poderá fazer arquear aquecimento global e -no de ser responsável
algumas sobrancelhas. tem sido uma das vozes por retirar emergência à
Nordhaus venceu em favoráveis a impostos ação dos governos. Nos
2018 o Nobel da sobre as emissões de últimos anos, Nordhaus
Economia pelos seus CO2. No entanto, ele tem tem suavizado a sua po-
esforços de integra- sido bastante critica- sição e defende impostos
ção das alterações do por, alegadamente, mais agressivos sobre as
climáticas nas subestimar o impacto emissões de CO2.

KATE RAWORTH / Professora na Universidade de Oxford


UM DONUT SUSTENTÁVEL
Como encontrar um equilíbrio entre mento económico e argumenta que
as nossas necessidades humanas e é possível cumprir os objetivos de
os limites do planeta? Kate Raworth desenvolvimento dos países mais
tem tentado dar uma resposta. pobres sem ameaçar a sustentabi-
Integrada em institutos de susten- lidade do planeta. Raworth defende
tabilidade e ambiente em Oxford e também que o Homo economicus
Cambridge, a economista carrega – o Homem racional que apenas
consigo a experiência de duas age em interesse próprio e que está
décadas entre as Nações Unidas e no centro dos modelos económi-
a Oxfam. Há três anos publicou o cos mainstream – é um conceito
bem-sucedido Economia Donut, no obsoleto e prejudicial para a forma
qual critica a obsessão com o cresci- como pensamos a economia.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 49


JULIA CAGÉ / Professora no Instituto de Estudos Políticos de Paris
CRISE DA DEMOCRACIA
E DOS MÉDIA
Jovem economista também da es- cou o livro The Price of Democracy,
cola francesa, é, desde 2014, profes- sobre a influência dos contribuintes
sora no Instituto de Estudos Políticos mais ricos nos processos eleitorais
de Paris, dedicando especial atenção e que reformas podem ser conside-
à “avaliação da democracia”. Cagé radas para reabilitar a democracia.
tem-se especializado em História Tem também escrito bastante
e Política Económica, explorando, sobre soluções de financiamento
por exemplo, o impacto orçamen- para os média em tempos de cri-
tal da liberalização comercial se, como a criação de sociedades
dos últimos 200 anos ou a rela- sem fins lucrativos e a distribui-
ção entre impostos, crescimen- ção de vouchers
to e corrupção. Em 2018, publi- à população.

DANI RODRIK / Professor na Universidade de Harvard


CÉTICO DA
GLOBALIZAÇÃO
Economista turco especialista em economia inter-
nacional e globalização. É professor em Harvard e
tem-se dedicado a explorar o que leva alguns países
a serem mais bem-sucedidos do que outros. É um
cético do modelo atual de globalização – em 1997
já escrevia A Globalização Foi Longe Demais?
– e defende que ele motiva tensões internas
e externas. Rodrik explica que o mundo está
perante um trilema. Apenas pode ter, ao
mesmo tempo, dois destes elementos:
uma democracia saudável, soberania
nacional e integração económica
global. À medida que o tempo passa
um deles acabará por ruir.

ANN PETTIFOR / Cofundadora do Jubileu 2000


UMA ECONOMIA MAIS VERDE
Economista britânica especializada soluções para combater, ao mesmo
em desenvolvimento sustentável tempo, as alterações climáticas
e sistema financeiro internacional. e a crise do crédito, incluindo grandes
Há mais de uma década que defende programas de investimento na transi-
a implementação de um green new ção energética e regulação financeira
deal. Ainda antes da explosão da crise mais apertada. Enquanto fundadora
financeira de 2008, a keynesiana Pet- do Jubileu 2000, Pettifor tem também
tifor juntou-se a um grupo de econo- sido uma grande defensora do perdão
mias e ambientalistas que avançava de dívida aos países mais pobres.

5 0 . EXAM E . OUTUBRO 2020


MARTIN SANDBU / Cronista do Financial Times
REFORMAS CONTRA
O DESCONTENTAMENTO
O cronista do Financial Times tornou-se emissões de dióxido de carbono e sobre
uma voz escutada no espaço europeu alguns rendimentos de capital, bem como
em matérias de economia. O seu livro uma versão de rendimento básico incon-
recente, The Economics of Belonging, dicional. Sandbu argumenta também pela
defende que é o sentimento de falta de importância de um salário mínimo robusto
oportunidades económicas que tem como forma de incentivar as empresas
motivado este período de rejeição a apostar em tecnologia e não em empre-
do liberalismo e da globalização. gos de salários baixos. Para compensar
Entre as medidas que propõe, os efeitos negativos no mercado de tra-
estão impostos sobre a balho, seria necessária uma intervenção
riqueza, sobre as mais musculada do Estado.

GABRIEL ZUCMAN / Professor na Universidade de Berkeley


DETETIVE DE OFFSHORES
Discípulo de Thomas Piketty, o economista tem sido um
dos principais nomes da nova geração de economistas
franceses. A sua inclusão nesta lista pode não ser óbvia, mas
se considerarmos que a sustentabilidade também se deve
estender às contas do Estado, a sua relevância fica mais
clara. Zucman ficou conhecido como o “detetive” que
identifica a riqueza escondida nos paraísos fiscais.
Em 2015 lançou A Riqueza Oculta das Nações e, em
2019, O Triunfo da Injustiça, no qual se concentra
na explosão de desigualdade dos últimos anos
e recomenda um conjunto de medidas para se
colocar os ultrarricos a pagarem mais impos-
tos. Foi conselheiro económico de Elizabeth
Warren na corrida à presidência dos EUA.

RUTGER BREGMAN / Jornalista


UM BOMBEIRO QUE
QUER FALAR DE ÁGUA
É o único não economista nesta lista. Contudo, a sua chegada à ribalta só aconteceria
O holandês de 32 anos é jornalista e his- em 2019, quando foi convidado para o Fórum
toriador e ganhou algum reconhecimento Económico Mundial, em Davos, e a sua inter-
nos últimos anos, após a publicação do venção se tornou “viral” ao criticar o evento por
seu livro Utopia para Realistas, em 2016. ignorar a importância de colocar milionários
Nele, propõe a criação de um rendimento e empresas a pagarem mais impostos, aumen-
básico incondicional, a redução drástica do tando-os ou impedindo a evasão fiscal. “Parece
horário de trabalho para 15 horas semanais que estou numa conferência de bombeiros
e fronteiras abertas entre todos os países. e ninguém pode falar de água”, afirmou.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 51


DINHEIRO

UM PADRÃO
VERDE PARA O SISTEMA
FINANCEIRO
O investimento sustentável tem crescido
nos últimos anos e poderá vir a tornar-se
a regra, impulsionado pela direção dos programas
de recuperação na Europa. Mas é preciso garantir
que não se está a vender castanho por verde
e que as empresas não usem o rótulo
da sustentabilidade apenas como golpe
de marketing
Texto Rui Barroso

A
s obrigações verdes têm recurso ao carvão. Mas, pelo menos, as
um peso cada vez maior obrigações verdes devem estar a ser deci-
no financiamento a nível sivas para ajudar essas mesmas empresas
global. Aparentemente, na transição para uma economia de baixo
como estes títulos de dí- de carbono, certo? Não necessariamente,
vida pressupõem que o dinheiro seja des- segundo um estudo recente do Banco In-
tinado a projetos amigos do ambiente, até ternacional de Pagamentos (BIS).
se poderia pensar que as empresas estão “Em geral, não existe uma forte evidên-
a ficar mais limpas. Mas a conclusão não cia de que a emissão de obrigações verdes
é tão linear, já que algumas das grandes esteja associada a qualquer redução nas in-
emitentes de obrigações verdes são em- tensidades de carbono ao nível da empresa”,
presas de energia que continuam a poluir concluem Torsten Ehlers, Benoît Mojon e
o planeta com a exploração de petróleo ou Frank Packer. Os economistas do BIS afir-

5 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


PLANO DE AÇÃO mam que “os investidores mais ingénuos
PARA AS FINANÇAS podem esperar que empresas com maiores

VERDES intensidades de carbono sejam desqualifi-


cadas como emitentes de obrigações ver-
A Comissão Europeia des”. Mas o que ocorre é praticamente o
avança com regulação forte oposto. A maior parte das emitentes destes
instrumentos são empresas com uma inten-
sidade de carbono acima das 100 toneladas
> SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO
de CO2 por cada milhão de dólares de recei-
Atualmente não existe um conceito ta, indica o estudo. Para se ter uma ideia do
fechado sobre o que é, ou não, um grau de poluição, uma tonelada métrica de
produto financeiramente sustentá- CO2 equivale a conduzir durante 600 qui-
vel. A Comissão Europeia pretende lómetros um carro a gasóleo ou às emissões
estabelecer uma linguagem comum médias por passageiro num voo de ida e vol-
para o financiamento sustentável, ta entre Paris e Nova Iorque.
unificando o sistema de classificação O termo “verde” ou ESG (a sigla em in-
da UE. O objetivo é definir o que é glês para investimentos em empresas com
sustentável e identificar as áreas em preocupações ambientais, sociais e do go-
que o investimento sustentável pode
verno) tem atraído cada vez mais investi-
ter o maior impacto. Bruxelas deverá
dores e capital, seja pela preocupação da
também avançar com rótulos para os
produtos financeiros verdes com base opinião pública pela sustentabilidade e/ou
nessa classificação, para informar os pela convicção de que este tipo de empre-
investidores. sas e produtos acaba por ter um desem-
penho mais estável e de menor risco. As
> TRANSPARÊNCIA E INFORMAÇÃO obrigações verdes, lançadas pela primeira
vez em 2007 pelo Banco Europeu de Inves-
Outro dos objetivos é fazer com que timento, demoraram algum tempo a ga-
as empresas sejam transparentes nhar tração. Mas no ano passado bateram
e comecem a publicar dados sobre um recorde, com as emissões a totaliza-
o seu impacto ambiental. Além disso,
rem 250 mil milhões de dólares, 3,5% do
as empresas de seguros e de investi-
montante global lançado em obrigações. Já
mento devem aconselhar os clientes
em função das suas preferências em os ativos de fundos de investimento com o
matéria de sustentabilidade. selo ESG ultrapassaram pela primeira vez
no segundo trimestre a fasquia do bilião
> REQUISITOS PRUDENCIAIS de dólares, segundo dados da Mornings-
tar, consultora especializada na análise de
Nos planos da Comissão Europeia produtos de investimento.
está ainda a possibilidade de ajustar Apesar desses sinais encorajadores, o
os requisitos de fundos próprios para os problema é que, nesta floresta, nem tudo é
bancos para investimentos sustentáveis, verde. Muitos produtos ou empresas que se
de forma a incentivar o setor bancário
vendem com o rótulo de sustentável podem
a apoiar projetos e empresas que aju-
estar longe de o ser. Nos EUA, por exem-
dem a concretizar o objetivo da transição
Na febre para uma economia de baixo carbono. plo, o The Wall Street Journal concluiu que
das tecnológicas, oito dos dez maiores fundos com etique-
ta ESG tinham investimentos nas maiores
as empresas petrolíferas americanas, que têm mostra-
juntavam o dotcom do maior resistência do que as europeias
ao nome para atrair em apresentar estratégias concretas para a
redução de emissões. Na febre das tecno-
investimento. Nas lógicas, no início do milénio, as empresas
finanças verdes, juntavam o dotcom ao nome para atraírem
pode estar a ocorrer investimento. Nas finanças verdes, numa
escala diferente e ressalvando algumas di-
algo parecido ferenças, pode estar a ocorrer algo pareci-
do. “Uma das preocupações de regulado-

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 53


res, participantes do mercado e associações RECORDES EM TEMPOS DE PANDEMIA
de investidores é o aumento a que assisti-
O valor sob gestão dos fundos de investimento sustentáveis superou,
mos de promessas exageradas de institui-
pela primeira vez, a marca do bilião de dólares no segundo trimestre do ano
ções sobre as suas credenciais de ESG e de
potencialmente induzirem os investidores (Valores em milhares de milhões de dólares)
em erro. Como em qualquer setor que está 1.200
a crescer rapidamente, existirão riscos de
certos participantes no mercado adotarem
padrões menos robustos”, reconhece Will
Oulton, presidente da Eurosif, uma associ- 1.000
ação que junta investidores institucionais,
gestoras de ativos e instituições financeiras
que tem como objetivo a adoção de princí- 800
pios de investimento sustentável nos mer-
cados de capitais europeus.

DO CASTANHO AO VERDE 600


Apesar de os alertas sobre problemas como
as alterações climáticas não serem propria-
mente novos, só recentemente se começou 400
a levar estas questões mais a sério nos mer-
cados financeiros. “Os instrumentos finan-
ceiros sustentáveis são novos, e os alunos
200
de licenciatura ainda não os aprendem na
universidade. Por isso, acima de tudo, te-
mos o problema da falta de conhecimento
sobre o tema”, diz Sofia Santos, especialis- -
ta em finanças sustentáveis e na análise de 3ºt 4ºt 1ºt 2ºt 3ºt 4ºt 1ºt 2ºt
risco ESG, à EXAME. Com o fluxo cada vez 2017 2018 2019
maior de capital a ir para produtos verdes,

250
é preciso evitar o risco de greenwashing, organizações que os promovem”.
em que as empresas usam abusivamente a Para evitar os riscos de greenwashing
etiqueta verde para obter fundos. e incentivar a canalização de investimento
Imagine que tem uma poupança que para produtos verdes, a Comissão Europeia
quer alocar em produtos de investimento está a trabalhar, desde 2018, num plano de
sustentáveis. Uma pesquisa rápida na in- ação neste campo. O objetivo é “estabele-
ternet poderia oferecer muitos produtos. cer uma linguagem comum para o finan-
Mas como ter a certeza de que não se está a ciamento sustentável”. Além disso, haverá
comprar gato por lebre ou, neste caso, cas- Mil milhões de dólares rótulos que serão atribuídos a produtos fi-
tanho por verde? A tarefa não é fácil. “Ape- As emissões de obrigações verdes nanceiros e critérios mais apertados para
sar de os investidores de retalho se estarem bateram um recorde no ano passado empresas e intermediários financeiros na
a tornar mais conscientes sobre o ESG, são divulgação de informação. “São, de longe,
poucos os que os conseguem definir de for- as regulações mais ambiciosas que vimos

37%
ma apropriada ou decidir como incluí-los neste campo. O plano de ação irá originar
na sua carteira”, observa Elizabeth Stuart. inovação, transparência e confiança dos
A analista da Morningstar afirma à EXAME investidores nos ESG nos próximos anos”,
que “é necessário dar mais poder e know- considera Elizabeth Stuart. A analista re-
-how a estes investidores, para questiona- lembra que houve alguma oposição a estas
rem as gestoras de ativos sobre as metodo- regras, com algumas vozes discordantes a
logias de ESG”. Já Will Oulton considera argumentarem que o plano não era claro e
que “a chave para lidar com esse proble- estava a ser apressado. Mas refere que, “após
ma é uma regulação sensata e pragmática, Fundo de recuperação alguns percalços iniciais, esta regulação po-
assim como transparência e a publicação A Comissão Europeia vai destinar 37% derá galvanizar o universo dos fundos sus-
de informação que permita comparações dos 750 mil milhões do fundo de recu- tentáveis e dar confiança tanto a investido-
relevantes entre produtos financeiros e as peração a projetos verdes res como a emitentes”.

5 4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


HAVERÁ UM “WHATEVER IT TAKES”
PARA AS FINANÇAS VERDES?
Europa EUA Resto do Mundo O BCE está a avaliar se incorpora as alterações climáticas nas suas
políticas monetárias. Isso seria ir além do mandato ou defender
o objetivo principal do banco central?

Se existirem dúvidas sobre central poderia ainda ajudar a “O BCE tem um papel funda-
o poder que os bancos centrais definir as regras e normas para mental em tudo isto, pois pode
têm para influenciar o rumo as finanças sustentáveis. optar por apenas comprar, por
da economia e dos mercados Mas, dificilmente isso levaria exemplo, dívida pública e dívida
financeiros, basta recordar a um momento “whatever privada verde, pode induzir
como o discurso do “whatever it takes” na transição para uma os bancos a incorporarem
it takes” de Mario Draghi, em economia verde. Outra forma, os riscos ambientais e climáti-
2012, ajudou a Zona Euro a sair e a mais controversa, seria cos de forma explícita na política
da sua maior crise existencial. “ter em conta as considerações de crédito, entre outros”, refere
Christine Lagarde, que sucedeu climáticas no desenho e imple- Sofia Santos, especialista em
ao italiano na liderança do BCE mentação das operações de finanças sustentáveis.
em novembro do ano passado, política monetária”, indicou Apesar do poder que o BCE
tem dado fortes sinais a responsável do BCE. Um tem em mãos, a utilização
de querer usar esse poder para dos exemplos de como o dessas armas não é consen-
tornar a economia e o sistema banco central poderia atuar de sual. O Bundesbank já deu
Fonte: Morningstar

financeiro mais verdes. Poucos forma mais eficaz passaria pela sinais de ceticismo em relação
dias depois de assumir o cargo, obrigação das empresas divul- a esse tipo de abordagem, por
colocou as alterações climáticas garem de forma transparente considerar que vai além do
no centro da discussão a informação relacionada com mandato do banco central e
da reavaliação estratégica que o impacto ambiental das suas violaria o princípio da neutrali-
o banco central está a fazer atividades: isto se quisessem dade de mercado. Mas no seio
3ºt 4ºt 1ºt 2ºt
sobre as suas políticas. que os seus títulos fossem con- da autoridade monetária há
2020 “Determinaremos onde e como siderados para os programas quem defenda exatamente o
a questão das alterações climá- de compras de ativos ou usados contrário, sustentando que as
Já os economistas do BIS propõem que, ticas e o combate às mesmas como colateral nas operações alterações climáticas são um
tal como existem ratings para a dívida de podem ter impacto nas nossas de refinanciamento. Com base risco à própria estabilidade
empresas, se comece também a desenvolver políticas”, indicou Lagarde. nessa informação, o Eurossis- de preços e, portanto, o BCE
um sistema de notações que permita aferir Mas o que pode um banco tema poderia depois privilegiar terá de passar à ação para
a qualidade de ESG das empresas. “Esses central fazer? Na Noruega, as empresas com melhores assegurar o objetivo principal
por exemplo, o banco central, práticas nos seus programas. do seu mandato.
ratings, que iriam complementar os sis-
que é responsável pela gestão
temas de categorização atuais, podem ser
desenhados para fornecer incentivos extra
do fundo soberano do país – “No reexame
um dos maiores veículos de
para as grandes emissoras de carbono aju- investimento do mundo – exclui da nossa estratégia,
darem a combater as alterações climáticas”, da sua lista de compras ações e determina-remos
argumentam os economistas do banco cen-
tral dos bancos centrais.
obrigações de empresas consi-
deradas poluentes. Numa esca- onde e como
Já existem algumas entidades, como o la bem menor, o BCE faz o mes- a questão
CDP (Carbon Disclosure Project), que atri- mo no fundo de pensões que
gere. No entanto, é possível ir
das alterações
buem ratings a empresas que dependem do
seu desempenho ambiental. No entanto, es- bem mais longe, especialmen- climáticas
tes projetos dependem bastante da boa von-
te na componente da política
monetária. Isabel Schnabel, que
e o combate
tade das emitentes em partilhar esse tipo
faz parte da comissão executiva às mesmas
de informação e do interesse de investido-
res em incorporarem esses ratings nas suas
do BCE, detalhou os caminhos
que podem ser seguidos, num
podem ter
decisões. Mas as próprias grandes agências discurso feito em julho. Além impacto nas
de notação financeira começam a investir da exclusão de empresas sem nossas políticas”
na análise de riscos ambientais, sociais e de práticas sustentáveis dos por-
governo com a compra de algumas entida- tefólios não relacionados com Christine Lagarde
des especializadas. “Estamos ainda no iní- a política monetária, o banco Presidente do BCE

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 55


cio de todo este mundo, onde as definições INVESTIMENTOS sustentáveis estiveram bastante protegidos
estão a ser construídas em simultâneo com SUSTENTÁVEIS das quedas associadas à pandemia, como
a prática de mercado”, refere Sofia Santos. o crash nos setores da energia e aviação, e
Além de novas regras para os investi- Os investimentos com base em as empresas com fortes credenciais de ESG
mentos, estão a ser pensadas medidas que critérios ambientais, sociais tendem a ter balanços mais conservadores
criem incentivos para a banca destinar mais e de governo (ESG, na sigla em e a terem melhor desempenho em tempos
financiamento a projetos e empresas verdes, inglês) têm crescido. Quais de incerteza”, revela Elizabeth Stuart. A
através de ajustes dos requisitos de fundos as estratégias mais comuns? analista da Morningstar sublinha que “esta
próprios. E a própria poderosa política mo- pandemia prenunciou muitos dos desafi-
netária do Banco Central Europeu poderá os que iremos enfrentar com as alterações
> TRIAGEM
ter um efeito importante em forçar empre- climáticas, portanto foi um teste de stresse
sas e instituições financeiras a pensar e agir Esta estratégia passa pela definição de esclarecedor para o setor financeiro”.
de forma mais verde. critérios que excluam ativos relacio- Outro dos grandes impulsos rumo ao
nados com setores e empresas com padrão verde vem dos maciços programas
RUMO AO PADRÃO VERDE más práticas de ESG e que incluam que serão colocados no terreno pelos gover-
Face às alterações climáticas e ao grande instrumentos relacionados com emi- nos para reerguer a economia, particular-
leque de desafios para a sustentabilidade, tentes que tenham bons modelos de mente na Europa. A presidente da Comissão
como a proteção da biodiversidade e a des- sustentabilidade. Europeia tem insistido na importância de
florestação, espera-se que se evolua para um novo Green Deal, que foi reiterada no
> INTEGRAÇÃO DO ESG
uma economia em que uma proporção cada discursão da União de 16 de setembro. “Pre-
vez maior do investimento seja dirigido a cisamos de mudar a forma como tratamos a
Na análise financeira de determinada
projetos e empresas sustentáveis. As regras Natureza, alterar o nosso modo de produzir
empresa ou setor, começar a incorporar
para definir o que é ou não sustentável só critérios ESG para se identificar quais as e consumir, viver e trabalhar, comer e gerar
agora começam a chegar ao terreno. Mas cotadas ou as indústrias que enfrentam calor, viajar e transportar”, disse Ursula von
a convicção de que o mundo financeiro se um maior risco devido a práticas de der Leyen. E quantificou quão verde será a
terá de reger por um padrão verde é cada sustentabilidade menos eficazes. recuperação da economia da UE. Cerca de
vez maior. “É bem possível que o ESG se 37% do fundo de recuperação de 750 mil
torne a norma em cinco a dez anos”, afir- > INVESTIMENTO DE IMPACTO milhões de euros, o Next Generation EU,
ma Elizabeth Stuart. Também Sofia Santos “servirá diretamente a consecução dos ob-
acredita que “o mundo das finanças terá Aplicações em produtos ou empre- jetivos do Pacto Ecológico Europeu”. E 30%
sem dúvida um padrão verde”. Isto apesar sas que, além do retorno financeiro, dessa bazuca será financiada com recurso a
permitam ajudar a resolver problemas
de ressalvar que o seu impacto será diferente obrigações verdes.
sociais ou ambientais específicos e em
para os vários players do mercado. É um sinal forte de que Bruxelas está
que seja possível medir essa evolução,
O dinheiro alocado a investimentos sus- já que se pretende que os impactos mesmo a passar das palavras aos atos. A
tentáveis já tem crescido de forma signifi- sejam visíveis. Europa é vista pelos especialistas em ESG
cativa nos últimos anos. Mas, após a refle- como a líder em práticas de investimentos
xão forçada que o mundo teve de fazer por > ATIVISMO sustentáveis, mas noutros grandes blocos
causa da pandemia, o mais provável é que económicos tem havido resistência nessa
essa tendência acelere. “O crescimento do Investimentos que são feitos com o mudança rumo a uma economia mais res-
interesse em identificar problemas de ESG, objetivo de vir a exercer o direito de se ponsável. Após a destruição causada por
como fontes de risco e retorno e de como os ser acionista ou de se pertencer a um esta crise, até pode existir a tentação de
integrar nos processos de investimento, tem grupo de investidores que influencie e tentar correr desenfreadamente atrás do
questione as tomadas de decisão das
crescido na última década e a pandemia da prejuízo sem grandes preocupações com os
empresas, algo que tem acontecido de
Covid-19 enfatizou esta tendência, levando danos colaterais, apesar dos sinais cada vez
forma frequente no setor petrolífero.
a que se centrasse a atenção na interação mais frequentes dos perigos de se enveredar
entre os humanos e os sistemas ecológicos por essa opção, como pandemias, incêndi-
que, neste caso, teve consequências desas- os e fenómenos meteorológicos extremos.
trosas”, diz Will Oulton. O desenvolvimento de um padrão verde no
Além da preocupação com um planeta sistema financeiro, que banisse o greenwa-
mais sustentável, e apesar do conceito de shing e permitisse separar as empresas e
ESG ainda ser demasiado lato e flexível, os instituições que querem contribuir para a
produtos de investimento com estas moti- solução das que continuam a fazer parte do
vações têm batido o mercado durante a cri- problema, seria uma arma importante para
se pandémica, o que pode convencer ain- garantir que o mundo evitaria ir novamente
da mais investidores. “Na Europa, os fundos por esse caminho insustentável. E

5 6 . EXAM E . OUTUBRO 2020


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EXAME

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EM TEMPOS
DE CRISE, A FAMÍLIA
FAZ A FORÇA
As empresas familiares cotadas em bolsa têm batido a concorrência
durante a pandemia. Habituadas a gerir para as próximas gerações em vez
de para o próximo ano fiscal, conseguem ter um maior foco no longo prazo
e tendem a ter uma estrutura acionista mais unida no objetivo comum. Mas,
por vezes, as grandes forças das famílias podem também revelar-se as suas
grandes fraquezas, especialmente em tempos de crise
Texto Rui Barroso

5 8 . EXAM E . OUTUBRO 2020


OUTUBRO 2020 . EXAM E . 59
Micro

A
A crise provocada pela pandemia atingiu
o mundo de uma ponta à outra e não pou-
pou quase nenhuma empresa. Perante ta-
manha onda de destruição e de incerteza,
gerir com a missão de assegurar a sobre-
vivência do negócio de forma a transitá-lo
para as gerações vindouras, em vez de se
sucumbir à pressão das expectativas dos
investidores para os próximos trimestres,
pode ser a melhor bússola para se encon-
trar saída da crise. Essa talvez seja uma
das grandes vantagens da maior parte das
empresas familiares. Quando confronta-

15
das com uma ameaça existencial sobre o
seu próprio negócio, a probabilidade de No relatório, a que a EXAME teve aces-
união e de vontade de superar os obstá- so, detalham que “os retornos dos primei-
culos por parte de acionistas da mesma ros seis meses deste ano apoiam aquela
família pode ser maior. Pelo menos em perspetiva, já que em geral tiveram uma
teoria e se não houver uma relação dis- performance cerca de 300 pontos-base
funcional que comprometa os processos acima das outras empresas”. Essa dife-
de decisão. rença é mais notória no Japão, onde as
Num primeiro balanço, as empresas cotadas controladas por famílias tiveram Anos
familiares aparentam ter mostrado mais retornos 30 pontos percentuais acima do As empresas familiares
resistência ao impacto do choque pandé- mercado. Na Europa, a vantagem foi de europeias cotadas em bolsa bateram
mico do que as suas pares dos mesmos 6,2 pontos. A América Latina foi a única as pares nos últimos 15 anos, segundo
setores. Para os analistas do Credit Suisse região em que ficaram abaixo das pares. o Credit Suisse

6,2
Research Institute, esta é mais uma prova A análise englobou as maiores mil em-
de que companhias deste tipo são mais re- presas controladas por famílias ou pelos
silientes em tempos de crise. “A pandemia fundadores, mesmo que jovens, que vão
da Covid teve um impacto significativo desde cotadas centenárias como a LVMH e
nos retornos das bolsas e na volatilidade, a Jerónimo Martins, a tecnológicas como a
este ano. Em trabalhos anteriores, subli- Alphabet (dona da Google) e o Facebook.
nhámos que as empresas detidas por fa- Incluir empresas tão recentes no lote de
mílias tendiam a ter características defen- familiares não é consensual. Mas os espe-
sivas acima da média que lhes permitiam cialistas do Credit Suisse argumentam, no Pontos
ter bom desempenho, particularmente entanto, que tal como empresas contro- No primeiro semestre deste ano,
em períodos de stress nos mercados”, ladas por famílias há várias gerações, os as empresas familiares tiveram retor-
indicam os analistas do banco suíço num fundadores destas empresas mais recen- nos de 6,2 pontos percentuais acima
estudo divulgado recentemente. tes têm posições acionistas significativas das outras cotadas

60 . EXAM E . OUTUBRO 2020


JOHN A. DAVIS / Professor da MIT Sloan School of Management
“OBSESSÃO COM CONTROLO
TOTAL DA EMPRESA
É OBSTÁCULO AO CRESCIMENTO”
O diretor de programas de empresas familiares da MIT Sloan School
of Management, que fundou e preside também à Cambridge Family
Enterprise Group, analisa as forças e fraquezas, em tempos de crise,
das empresas controladas por famílias

Quais as maiores forças e crises exigem que se aja Dada a dimensão desta
fraquezas das empresas de forma responsável para crise pode haver a neces-
familiares, para supera- sobreviver e, por vezes, isso sidade de consolidação.
rem crises como a que envolve tomar decisões As empresas familiares
vivemos? difíceis e, normalmente, as são mais cautelosas
As empresas familiares, famílias têm dificuldade em nestas operações,
geralmente, são conhe- fazê-lo. para evitarem perder o
cidas por serem persis- controlo da estrutura de
tentemente inovadoras, Um estudo do Credit capital?
financeiramente estáveis, Suisse aponta que as em- As empresas familiares
leais aos seus funcionários presas familiares tiveram resistem frequentemente
e comunidades e dedicam- melhor desempenho do a fundirem-se ou a ad-
-se a sobreviver para a pró- que o mercado. O que quirirem outras empresas
GETTY IMAGES

xima geração. A conjugação pode explicar isso? porque, em ambas as esco-


destas características tem Há vários fatores que, lhas, normalmente diluem
ajudado as empresas a so- conjugados, explicam a o controlo. A obsessão com
breviverem à crise da Covid. vantagem das empresas o controlo total da empresa
Claro que, ao olhar-se para familiares: a sua perspetiva é um obstáculo ao cresci-
e sem tenções de serem liquidadas. “Em as características genéricas de longo prazo, produtos mento e, por vezes, à sua
ambos os casos há um maior compromis- das empresas familiares, e serviços de elevada sobrevivência. Há formas
so com a criação de valor de longo prazo”, ofusca-se a experiência de qualidade, inovação, forte de ter um controlo adequa-
defendem. empresas mais peque- lealdade dos stakehol- do da empresa e alcançar
nas e menos estáveis ders e maior estabilidade o crescimento pretendido.
A FAMÍLIA FAZ A FORÇA... financeiramente que têm financeira. A excelência Os donos precisam de, no
sido fortemente atingidas. operacional das empresas mínimo, olhar para as suas
As conclusões dos dados recolhidos pelo
Poucos esperavam que familiares também explica opções. Não vão querer
Credit Suisse confirmam os de outros a crise fosse tão longa e a sua vantagem no desem- continuar pequenos num
estudos que foram feitos. E são indícios espera-se agora que dure penho. Mas só porque, em setor em consolidação e
fortes de que as empresas familiares po- mais meses, portanto, algum momento, uma em- acabarem sem valor após
dem ter características que as ajudam, mesmo os traços exempla- presa tem essa vantagem, gerações de trabalho duro.
genericamente, a bater as suas pares. res de algumas empresas isso não significa que a sua
Mas, afinal, quais os pontos fortes de se familiares têm o seu limite. mentalidade operacional
ter um bloco familiar a decidir sobre o A fraqueza das empresas mantenha a empresa bem-
futuro da empresa? “Há a salientar uma familiares que mais me -sucedida. A maior parte
vantagem importantíssima para enfren- preocupa é a sua hesita- das empresas, mesmo
ção em fazerem grandes as bem geridas, desco-
tar momentos de crise: a existência do
mudanças em tempos brem que os seus setores
chamado ‘capital paciente’, como alguns
difíceis. Quando a situação amadurecem e que não
autores o apelidam”, destaca Fátima Ca- o exige, alguns produtos conseguem continuar a
rioca à EXAME. A dean da AESE Busi- precisam de ser descon- competir. Migrar para outras
ness School sublinha que “os acionistas, tinuados, alguns gestores áreas com oportunidades
por serem membros da mesma família, precisam de sair e algumas de crescimento é essencial
suportam melhor os tempos de crise e a unidades de negócio preci- para a sobrevivência de
menor distribuição de dividendos porque sam de ser encerradas. As longo prazo.
olham para os resultados da empresa a
Micro

PETER VILLAX / Presidente da Associação das Empresas Familiares


“UMA CONVERSA NUM CONSELHO
DE FAMÍLIA SOBRE REDUÇÃO DE DIVIDENDOS
NÃO DEMORA MAIS DE DEZ MINUTOS”
Peter Villax é chairman da Hovione Capital e lidera a associação que representa as empresas
familiares portuguesas. O gestor considera que as empresas controladas por famílias têm maior
flexibilidade para responder a crises

Um estudo do Credit quem não precisou não empresas familiares empresas familiares o objetivo de financiar
Suisse concluiu que as aproveitou. Mas ainda têm uma maior flexi- em entrarem nestes fusões e aquisições nas
empresas familiares, a bem que lá estava. bilidade para suspen- movimentos de conso- empresas familiares.
nível global, recorre- derem ou reduzirem lidação? Foi a primeira vez na
ram menos a apoios Existe a convicção dividendos. Isso é uma Aumentar a escala é a História recente que um
do Estado do que as de que as empresas qualidade importante, estratégia do ministro governante fez alguma
suas pares durante familiares têm uma em tempos de crise? da Economia, Pedro coisa pelas empresas
esta crise. Em Portugal perspetiva de mais Parece-me evidente. Siza Vieira, que fez um familiares. Quanto
também se verificou longo prazo. O que Uma conversa num esforço notável em mais escala tiverem as
esta tendência? pode explicar essa conselho de família agosto e setembro de empresas, maior é a sua
O que o relatório do característica? sobre redução de 2019 – há um ano preci- produtividade, e é isso
Credit Suisse nos diz Visão de longo prazo, dividendos não demora samente – na consti- que temos de melhorar.
agora é uma realidade resiliência, prudência mais de dez minutos, tuição de fundos com Siza Vieira viu isso e agiu.
bem conhecida. Já um – todos aspetos carac- e não há discussão. É o
artigo da Harvard Bu- terísticos da maioria das que é. Por isso, o acio-
siness Review de 2012 empresas familiares. nista familiar também
dizia a mesma coisa: Não vou dizer que isso tem de ser prudente na
em tempos de crise, as nos permite ter melho- gestão dos seus ativos
empresas familiares res resultados, existem pessoais, para poder
sobrevivem melhor, pelo mundo fora em- fazer frente a um ano
porque são mais presas não familiares sem dividendos.
prudentes, distribuem muito bem geridas e
menos dividendos, têm com ótimos resultados. Em Portugal, tem-se
reservas mais elevadas Por que razão nos cen- discutido a necessida-
para fazer face a crises, tramos no longo prazo? de de existirem mais
eventos inesperados. Porque as gerações fusões e aquisições
Desta vez foi uma têm trinta anos entre de forma a termos
pandemia, amanhã será elas. Porque trabalho a empresas com maior
outra coisa, e nós temos pensar naquilo que os dimensão e escala.
de estar preparados, meus filhos e os meus Mas, para manter o
temos de sobreviver. A sobrinhos vão fazer negócio controlado
informação que tenho quando for a vez deles pela família, poderá
de alguns associados é de gerirem os negó- existir uma maior
de que nem todos apro- cios. Porque a visão de resistência das
veitaram as facilidades longo prazo é inimiga
de diferimento do pa- da jogada, do truque, do
gamento de impostos. dinheiro fácil. Porque a
Enviaram as guias e continuidade e a solidez
pagaram no dia certo. são mais importantes
Os que podiam, paga- do que sucessos com
ram, os que não podiam, fogo de artifício.
ainda bem que havia
esse diferimento. No O estudo do Credit
layoff, a mesma coisa: Suisse aponta que as

6 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


radas com aquelas que, sendo semelhan-
tes no resto, não são de cariz familiar”.
A maior solidez em tempos turbulentos
advém de características que geralmen-
te as empresas familiares têm, como uma
maior frugalidade e menor alavancagem,
considera Alexandre Dias da Cunha.
O foco no longo prazo é um dos pon-
tos fortes que ajudam as empresas fami-
liares a navegarem as crises. Mas, geral-
mente, estas têm outras vantagens para
superar tempos conturbados como os
que atravessamos. “Estabelecem canais
de comunicação frequentes e informais,
o que lhes permite lidar melhor com as
crises”, sublinha Bo Ji. O assistant dean
e representante para a Europa de uma
das maiores escolas de negócios chinesa,
a Cheung Kong Graduate School of Bu-
siness, destaca ainda que “as empresas
familiares têm maior propensão a uma
‘complementaridade comercial’, cons-
truindo boas relações com stakeholders,
como os funcionários, clientes, fornece-
dores e distribuidores, o que reduz de for-
ma significativa os custos de transação”.
A combinação entre família e negó-
cios pode ter ainda outras vantagens que
se revelam essenciais em tempos de crise.
GETTY IMAGES

Fátima Carioca destaca algumas: “Maior


motivação pessoal, a missão da empresa
estar impregnada de valores sólidos e fa-
miliares e a empresa gozar, no mercado,
de um extra de confiança.” E conclui: “São
longo prazo. A medida são gerações, e não trunfos extraordinários para enfrentar e
apenas anos fiscais”. ultrapassar a crise.” A juntar a isso, refe-
Essa maior propensão para pensar em re Alexandre Dias da Cunha, as empresas
gerações em vez de exercícios trimestrais familiares tendem a ter “maior agilidade
A regra de ouro até pode tirar alguma vantagem às em- nos processos de decisão”.
é sempre gerir presas familiares em ciclos de expansão. O relatório do Credit Suisse aparen-
Mas dá mais solidez aos negócios em dias ta confirmar essa qualidade. Apesar de
a empresa como de tempestade. Alexandre Dias da Cunha, nesta crise os cortes de dividendos te-
empresa e tratar professor auxiliar convidado da Nova SBE, rem sido generalizados, e de até se te-
a família como refere à EXAME que “os estudos mostram rem verificado em menor proporção nas
que uma das características verificadas empresas familiares, estas mostram uma
família nas empresas familiares é a sua mai- maior flexibilidade para se disponibili-
Fátima Carioca
or resiliência”. O docente, que é zarem a cortar na remuneração aos aci-
Dean da AESE também senior advisor e associ- onistas para responderem aos impactos
Business School ate partner da Cambridge Advi- de recessões, segundo um inquérito feito
sors to Family Enterprise, afirma pelo banco suíço. Peter Villax, presidente
que as empresas familiares “não da Associação de Empresas Familiares,
serão tão fortes no aproveita- exemplifica: “Uma conversa num conse-
mento dos ciclos expansivos, lho de família sobre redução de dividen-
mas resistem muito melhor dos não demora mais de dez minutos, e
às crises quando compa- não há discussão.”

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 63


Micro

... MAS TAMBÉM A FRAQUEZA medidas difíceis.


Pode parecer contraditório, mas algumas Outra das fraquezas que podem ocor-
das características que constituem a força COMO rer pela obsessão em defender o nome e
das empresas familiares podem, em certos AS EMPRESAS manter o negócio na família é a resistência
contextos, jogar contra elas. É certo que REAGIRAM em entrar em operações de consolidação,
a familiaridade entre os acionistas possi- algo que pode ser essencial para a sobre-
bilita um processo de decisão mais rápi- À PANDEMIA vivência em tempos de crise. A dean da
do e decidido. Mas em casos de relações O Credit Suisse inquiriu AESE reconhece que “apegar-se ao pró-
disfuncionais e em que as águas entre o várias cotadas mundiais, para prio negócio porque é o seu trabalho ou
que é a família e o negócio não estão bem o legado da família é um instinto com-
perceber a resposta à crise
separadas, há maior risco de existirem de- preensível” e sublinha que, “por vezes, os
sentendimentos que coloquem obstáculos processos de cedência da propriedade e
à resolução de problemas, especialmente governo são emocionalmente dolorosos”.
em tempos de maior pressão. Mas realça que “a regra de ouro é sempre
“Paradoxalmente, a relação entre a > PREOCUPAÇÃO COM A CRISE ‘gerir a empresa como empresa e tratar a
empresa familiar e a família empresária família como família’, daí que, seja para
pode também revelar-se uma desvan- Cerca de 80% das empresas familia- bem do negócio e da empresa, seja para
tagem. Em concreto, quando não existe res revelaram que o seu negócio foi salvar o património familiar, podem exis-
unidade no seio da família proprietária, severamente afetado pela pandemia. tir razões que levem a movimentos posi-
o futuro da empresa estará sempre em Mas a crise da Covid-19 é apenas o tivos de consolidação”.
segundo maior desafio que este tipo
jogo. Ora, tempos de crise são propensos No entanto, o comum é haver resistên-
de cotadas considera ter de enfren-
a desentendimentos e mesmo a confli- cia a esse tipo de mudanças, que podem
tar nos próximos cinco anos, atrás
tos sobre a estratégia para a empresa e de da inovação e retenção de talento.
fazer a diferença entre o crescimento ou
distribuição de dividendos, por exemplo”, No entanto, nas outras empresas, o insucesso. John A. Davis realça que “as
refere Fátima Carioca. Outra das grandes os efeitos da pandemia são a maior empresas familiares resistem frequente-
forças deste tipo de empresas é o orgulho preocupação para os próximos anos, mente a fusões ou aquisições porque, na
que dá uma motivação extra para defen- segundo o inquérito do Credit Suisse, maior parte das vezes, qualquer destas
der o nome e o legado da família. Alexan- que abrangeu 145 empresas familia- opções irá diluir o seu controlo na com-
dre Dias da Cunha considera que existe res e 124 não familiares. panhia” e alerta que “a obsessão pelo con-
um “enfoque na qualidade mais consis- trolo total da empresa é um obstáculo ao
> MENOR RECURSO AO LAYOFF
tente e eficaz, porque está ancorado num crescimento e, por vezes, à própria sobre-
forte anseio de proteger o nome da fa- A proporção de empresas familiares e
vivência”.
mília, que muitas vezes coincide com o não familiares a colocar em curso me- A solução passa por olhar para todas
nome da marca”. didas de apoio aos seus funcionários as opções disponíveis. Até porque, subli-
A vontade de salvaguardar a marca foi semelhante, na ordem dos 80 por nha John A. Davis, “há formas de ter um
da família na economia e na sociedade é cento. Mas as cotadas controladas adequado nível de controlo do capital e
muitas vezes uma vantagem competitiva. por famílias recorreram menos aos atingir o crescimento desejado”. Existem
Mas pode também levar estas empresas mecanismos de layoff temporário: várias abordagens possíveis para se con-
a terem dificuldade em fazer mudanças 46% contra 55% das outras empre- seguir essa espécie de melhor dos dois
quando o aconselhável é agir de forma rá- sas. Para o futuro, estas também pre- mundos. Alexandre Dias da Cunha des-
veem um maior recurso a forças de
pida. “A fraqueza que mais me preocupa taca quatro: “parceria com uma empre-
trabalho flexíveis do que as familiares,
nesta crise é a sua hesitação em fazerem sa de capital de risco, já que existem al-
60% e 48%, respetivamente.
grandes mudanças em tempos difíceis”, gumas que se vocacionam para trabalhar
revela John A. Davis, diretor de progra- > RESTRUTURAR EM com famílias empresárias; parcerias en-
mas de empresas familiares da MIT Slo- VEZ DE DIVERSIFICAR tre famílias empresárias; emissão de dívi-
an School of Management. O consultor, da, nomeadamente através do programa
que fundou e preside à Cambridge Family O Credit Suisse conclui, com base no Family Share da Euronext; e emissão de
inquérito, que as empresas familiares
Enterprise Group, realça que “quando a ações preferenciais sem direitos de voto”.
admitem mais restruturar negócios
situação o exige, alguns produtos preci- Estratégias que podem ajudar a manter o
existentes, enquanto as não familia-
sam de ser descontinuados, alguns gesto- res diversificariam mais facilmente
negócio entre família sem comprometer
res precisam de sair e algumas unidades para novos produtos e serviços. o futuro da empresa, especialmente em
de negócio precisam de ser encerradas”. “Parece que as empresas familiares tempos de crises como os que vivemos em
Mas constata que, muitas vezes, as famí- tendem a ficar-se pelo que sabem”, que a tradicional resistência das empresas
lias mostram relutância em tomar estas conclui o banco suíço. familiares tem sido posta à prova. E

64 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Micro
> RESULTADOS LÍQUIDOS DAS ATUAIS COTADAS DO
PSI20, NO PRIMEIRO SEMESTRE DE CADA ANO
VALORES EM MILHÕES DE EUROS
NOTA: EXCLUI RESULTADOS DA IBERSOL E DA PHAROL
ANÁLISE 2 000
Empresas não PSI 20, incluindo

Pandemia
financeiras do PSI20 financeiras

confina lucros 1 500

das empresas 1 000


do PSI20
Resultados das empresas da bolsa portuguesa
no primeiro semestre recuaram até aos tempos 500
da Troika. Choque económico levou mais
de metade dos lucros das cotadas do PSI20. Mas
o recurso a dívida para compensar o efeito da crise
foi moderado, o que indicia alguma resistência
Texto Rui Barroso 0
▲ ▲ ▲ ▲ ▲
2008 2009 2010 2011 2012

A
s crises que só se costu- portuguesa de 2012. Os números excluem
mam ver numa geração as contas da Ibersol, que ainda não tinha
parecem estar a tornar-se mostrado os resultados ao mercado até ao
mais frequentes. Depois fecho desta edição, e da Pharol, já que a
da grande tempestade fi- empresa praticamente não tem atividade
nanceira de 2008, as empresas portugue- e tem como único ativo a participação na
sas tiveram de enfrentar, em 2012, uma brasileira Oi. Incluindo a evolução dos re-
recessão violenta durante a intervenção sultados da antiga Portugal Telecom, esta
da Troika. Dois anos depois, a economia época de apresentação de resultados do
nacional foi novamente colocada em xe- PSI20 seria a pior desde 2013.
que, com a resolução do BES. E, agora, 2020 A pandemia colocou em quarentena a
tem-se revelado o ano de todas as prova- tendência de subida dos resultados que as
ções. O choque inesperado provocado pela cotadas nacionais apresentavam nos últi-
pandemia, que secou a procura e destruiu mos três anos. Não houve quem resistis-
cadeias de valor, teve consequências signi- se a uma quebra de 16,3% do PIB nacional
ficativas nos resultados das cotadas nacio- como a que se verificou no segundo tri-
nais que integram o PSI20. O lucro acumu-
lado desceu mais de metade na primeira
mestre. “Perante o confinamento, em que
muitas empresas estiveram encerradas, no-
Genericamente,
metade do ano e, apesar de terem existido meadamente do setor discricionário, era as cotadas
diferenças no grau de impacto, não houve expectável que os lucros do PSI20 no pri- do PSI20
empresa que conseguisse escapar a uma
crise desta dimensão.
meiro semestre recuassem para níveis que
já não se observavam” desde o período de
apresentam
O lucro acumulado das cotadas tota- intervenção da Troika, refere Filipe Rosa, balanços
lizou cerca de 835 milhões de euros entre economista sénior do Banco Carregosa. relativamente
o início de janeiro e o final de junho, uma
quebra de 55% face aos mais de 1,86 mil
O grau de destruição de valor é ainda
mais visível se analisarmos apenas os re-
musculados
milhões alcançados no mesmo período do sultados das empresas não financeiras. Este Paulo Rosa
ano anterior, segundo cálculos da EXA- grupo de cotadas teve lucros bem mais bai- Economista sénior
ME. Foi o pior semestre desde a recessão xos do que nos anos mais duros da Ttroika do Banco Carregosa

66 . EXAM E . OUTUBRO 2020


SEMESTRE SEM
ESCAPATÓRIA
À QUEBRA DOS
RESULTADOS
Houve cinco empresas
do PSI20 a fecharem a primeira

Fonte: Exame e relatórios e contas das empresas


metade do ano com perdas.
Quebra nos resultados
foi generalizada

> MAIORES PREJUÍZOS

A Sonae teve a maior perda entre as


cotadas do PSI 20, no primeiro semes-
tre. A dona do Continente teve um re-
sultado líquido negativo de 75 milhões
de euros. A Galp, que era uma das
mais lucrativas da bolsa portuguesa,
reportou perdas de 22 milhões. O setor
▲ ▲ ▲ ▲ ▲ ▲ ▲ ▲ do petróleo foi dos mais fustigados pela
2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 crise. A Sonae Capital agravou os pre-
juízos para 14,4 milhões de euros. No
e da recessão de 2009. O resultado acumu- No mesmo período do ano anterior tinham lote das perdas estão ainda a Mota-En-
lado foi de cerca de 760 milhões de euros. lucrado 9,4 mil milhões de euros. Outra gil e os CTT, com resultados negativos
de cinco milhões e dois milhões de
Em 2012, tinha sido de 1,36 mil milhões de das áreas mais penalizadas foi a de bens
euros, respetivamente.
euros e, em 2009, de cerca de 960 milhões. de consumo cíclico, que também passou
O cenário de quebra acentuada dos re- do lucro ao prejuízo. As quedas nos resul- > AS MAIS RESISTENTES
sultados foi semelhante um pouco por todo tados foram generalizadas, mas houve uma
o mundo. Nos EUA, as empresas do S&P 500 exceção: as cotadas do setor da saúde, que A REN e a Corticeira Amorim não
viram os seus lucros reduzidos em um terço conseguiram uma subida ligeira de 1,2% evitaram uma quebra dos lucros. Mas,
durante o segundo trimestre do ano, face dos lucros para 18,1 mil milhões de euros. ainda assim, foram as empresas do
ao mesmo período do ano anterior, segun- Na bolsa portuguesa a tendência foi se- PSI20 que mais conseguiram suster
do estimativas da Thomson Reuters. Na Eu- melhante, com o setor da energia, o que o impacto da pandemia nos resulta-
dos. O lucro da empresa que gere as
ropa, as cotadas que integram o índice das mais pesa na praça nacional, a ter algumas
infraestruturas de energia caiu 9,8%,
600 maiores das bolsas do Velho Continente das maiores quebras. A Galp passou de um
para 46,1 milhões, e a corticeira viu o re-
viram os lucros cair 52%, entre o início de lucro de 303 milhões na primeira metade sultado descer 15%, para 34,3 milhões
março e o final de junho. Cingindo a análi- de 2019 para um prejuízo de 22 milhões no de euros.
se às empresas do PSI20 apenas ao segun- primeiro semestre deste ano. “A descida do
do trimestre, que coincidiu com a fase mais preço do petróleo penalizou a Galp, mas a > PÓDIO DOS LUCROS
restritiva das medidas de contenção da pan- queda desta matéria-prima foi uma conse-
demia, os lucros acumulados baixaram 57 quência da pandemia”, refere Filipe Rosa. A EDP foi a empresa com o maior
por cento. A petrolífera liderada por Carlos Go- resultado líquido no semestre. Lucrou
315 milhões de euros, menos 22% do
mes da Silva referiu no seu relatório de re-
que no mesmo período de 2019. A EDP
OS MAIORES IMPACTOS sultados que a pandemia foi um “cenário
Renováveis teve um resultado de 255
O setor da energia foi o mais afetado. A me- imprevisível”, que provocou um “choque milhões, menos 25 por cento. A fechar
nor atividade fez com que o consumo de na indústria petrolífera e de gás, especi- o pódio esteve a Jerónimo Martins com
eletricidade ou a procura por combustível ficamente nos países onde a Galp opera, um resultado de 104 milhões de euros,
baixasse de forma significativa. As empre- como Portugal e Espanha”. A empresa foi uma quebra de 36 por cento. Na banca,
sas do Stoxx 600 dessa área de atividade forçada a avançar com ações como “redu- o BCP lucrou 76 milhões, menos 55%
tiveram prejuízos acumulados de cinco mil ção de custos, otimização do fundo de ma- do que no período homólogo.
milhões de euros, no segundo trimestre. neio e reavaliação e adiamento de investi-

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 67


Micro

mentos” para assegurar a continuidade das


suas operações, no longo prazo. A cotada
chegou a desembolsar um dividendo em
maio deste ano (relativo a 2019), mas sus-
pendeu a remuneração intercalar que seria
paga na segunda metade de 2020. Ainda
na energia, a EDP viu os lucros descerem
90 milhões de euros para 315 milhões e a
EDP Renováveis teve um resultado líquido
de 255 milhões, menos 88 milhões do que
no mesmo período do ano anterior.
Além da Galp, também a Sonae não es-
capou aos prejuízos na primeira metade do
ano. Teve perdas de 75 milhões de euros,
bem longe dos 38 milhões de lucro alcan-
çados no período homólogo. A empresa li-
derada por Cláudia Azevedo justificou estes
números com “contingências contabilísticas
de 76 milhões de euros já registadas no pri-
meiro trimestre e pela redução da avaliação
do portefólio da Sonae Sierra no segundo
trimestre, ambas diretamente relacionadas

JOSÉ CARIA
com a Covid-19”. Já a Sonae Capital agravou
as perdas sofridas no último ano.
Também os CTT fecharam o semestre
no vermelho. A empresa reportou um pre- A Galp, liderada Ainda assim, os números acumulados
juízo de dois milhões de euros, 11 milhões da dívida de empresas da bolsa nacional
abaixo do resultado que tinha sido alcan- por Carlos Gomes ficaram contidos em semestre de pande-
çado na primeira metade de 2019. “A área da Silva, foi das mia. “Genericamente, as cotadas do PSI20
de negócio de correio foi muito afetada, a empresas mais apresentam balanços relativamente mus-
partir da segunda metade do mês de março culados para enfrentarem as perdas que
e até maio, pelo confinamento em conse- penalizadas. Passou registaram durante o confinamento”, con-
quência da Covid-19”, detalha a empresa de lucros de 300 sidera Paulo Rosa. O economista do Banco
presidida por João Bento. Os rendimentos milhões a prejuízos Carregosa nota outros fatores que mostram
da unidade de expresso e encomendas até resistência, como a “compra da Viesgo por
subiram 17% mas, ainda assim, foram insu- de 22 milhões parte da EDP ainda no período de gradual
ficientes para a empresa de correios evitar levantamento das restrições à liberdade de
um resultado líquido consolidado negativo. circulação”. Essa operação levou a empresa
As restantes cotadas conseguiram sobre- empresas que reduziram o endividamento, liderada interinamente por Miguel Stilwell
viver e fechar o semestre com lucros. Mas casos da Semapa, NOS, Corticeira Amorim, a fechar com sucesso e sem grandes sobres-
nenhuma melhorou os números. A REN e a Navigator e Jerónimo Martins. No caso da saltos uma operação de aumento de capital
Corticeira Amorim foram as que mais con- papeleira, a decisão em suspender o paga- no valor de mil milhões de euros, em agosto.
seguiram atenuar o impacto, com quebras mento de dividendos terá ajudado na ta- Apesar desses sinais de resistência, Fi-
de 9,8% e de 15% nos resultados. De resto, refa de cortar dívida. Por seu lado, a dona lipe Rosa explica que “para uma economia
foram tombos entre 20% e 87 por cento. do Pingo Doce reviu em baixa o valor da como a portuguesa, tão dependente do tu-
remuneração a distribuir aos acionistas. rismo, dos setores mais penalizados pelo
SINAIS DE RESISTÊNCIA Já a Galp e a EDP preferiram manter as confinamento e distanciamento social, é
A razia nos resultados não surpreende. Mas promessas aos acionistas e não mexeram plausível esta queda do lucro das cotadas
apesar do choque nas receitas, e de uma no dividendo relativo a 2019, que até su- do PSI20, e os investidores aguardam com
parte significativa de empresas ter opta- perou os resultados alcançados pelos dois expectativa a chegada de uma vacina ou a
do por distribuir dividendos no decurso gigantes da bolsa portuguesa nesse ano. aprovação de testes rápidos e baratos”. Até
do primeiro semestre, a dívida líquida das A dívida líquida da petrolífera aumentou lá, a esperança é de que a situação pandé-
cotadas do PSI20 não teve uma subida ex- 35%, para 1,9 mil milhões de euros. Na elé- mica não piore ao ponto de forçar as auto-
ponencial. Houve um aumento de 2,9%, trica, a subida foi de 1,9%, para mais de 14 ridades a colocarem novamente a econo-
para 30,6 mil milhões de euros. E até houve mil milhões de euros. mia em confinamento. E

6 8 . EXAM E . OUTUBRO 2020


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DIAS ÚTEIS DAS 9H ÀS 19H. INDIQUE O CÓDIGO PROMOCIONAL: COC7I
Opinião
POR
SOUMODIP SARKAR

Como medir
o empreendedorismo?
Mais do que uma moda, o empreendedorismo é o reflexo de vários
factores que se conjugam. Portugal tem feito um caminho positivo, > Professor catedrático,
mas há ainda estrada para andar – e rapidamente Universidade de Évora

H
á dois anos, por isso, essencial que o consi- dores aqui? Como? Porquê? É
por esta al- gamos manter “na moda”. Para A escassez de preciso tirar esta fotografia. Uma
tura, escre- tal têm sido desenvolvidas polí- oportunidades fotografia que permitirá não só
via sobre ticas para a sua promoção, ini- de emprego e a olhar para nós, como também
“a moda do ciativas/actividades e infra-es- comparar-nos com os outros.
empreendedorismo”. Segun- truturas. Mas é importante ter necessidade de O Global Entrepreneurship
do a definição de “moda”, é em atenção que todas as me- aumentar o nível Monitor (GEM) é o principal
algo que ocorre “durante um didas tomadas para fomentar de rendimento projecto de investigação que
determinado período de tem- o empreendedorismo devem avalia, anualmente, a activida-
po”. E parece que este período depender do contexto de cada são os principais de empreendedora (através de
já vai longo… país. Afinal, o quão empreende- motivos para diversos indicadores) de um
Não há dúvidas sobre a im- dores somos? Em que parâme- a criação de elevado número de países de
portância do empreendedoris- tros temos mais virtudes e em todo o mundo, e permite ain-
mo para o crescimento econó- quais temos ainda algo a melho- um negócio em da aferir o nível, as caracterís-
mico sustentável dos países e é, rar? Quem são os empreende- Portugal ticas e os factores potenciado-
45
PERCENTAGEM DE ADULTOS 1864 ANOS

40 > TAXA DE ATIVIDADE EMPREEND


EDORA EARLYSTAGE TAXA TEA
35
Fonte: GEM 2019/2020 Global Report
30

25

20

15

10

0
Emirados
Egito
Índia

Madagáscar

China
Jordânia
Russia
Irão

México

Itália
Japão
Polónia
Bielorrússia
Espanha
Omã
Alemanha
Eslovénia
PORTUGAL
2016
Grécia
Suécia
Noruega
Taiwan

Suíça
Luxemburgo
Holanda
Croácia
Austrália
Marrocos

Arménia
Brasil
Guatemala
Equador

Chipre

Israel
PORTUGAL2019
Eslováquia

Qatar

Letónia

Árabes Unidos
EUA
Canadá

Chile
Paquistão

Macedónia do Norte

Reino Unido

Irlanda

Arábia Saudita

Coreia do Sul

Colômbia
Panamá
Áfica do Sul

Porto Rico

ECONOMIA ECONOMIA ECONOMIA


DE RENDIMENTO DE RENDIMENTO DE RENDIMENTO
BAIXO MÉDIO ALTO

70 . EXAM E . OUTUBRO 2020


APOIO
> CLASSIFICAÇÕES FINANCEIRO
MÉDIAS DAS CEE 9
EM PORTUGAL, NORMAS SOCIAIS POLÍTICAS
NAS ECONOMIAS 8
E CULTURAIS GOVERNAMENTAIS
DE RENDIMENTO 7
ELEVADO E NA
UE EM 2019 6
5
Fonte: Adaptado ACESSO 4
A INFRAESTRUTU PROGRAMAS
de estudo de avaliação RAS FÍSICAS 3 GOVERNAMENTAIS
sobre as dinâmicas
2
empreendedoras
em Portugal – GEM 1
Portugal 2019/2020

ABERTURA EDUCAÇÃO
DO MERCADO E FORMAÇÃO

res do empreendedorismo no analisadas as Condições Estru-


País. Portugal participa neste turais do Empreendedorismo,
projecto desde 2001 e é muito destacando-se positivamente o
INFRAESTRUTURA TRANSFERÊNCIA
interessante olhar para a evolu- COMERCIAL DE INVESTIGAÇÃO acesso a infra-estruturas físicas
ção positiva que temos vindo a E DE SERVIÇOS E DESENVOLVIM como incubadoras e outras in-
ENTO I&D
registar ao longo das várias edi- fra-estruturas de apoio ao em-
ções. Tendo em conta o grupo preendedorismo e, negativa-
em que se insere (economias de a escassez de oportunidades de mente, ao nível da educação e
alto rendimento), Portugal ocu- emprego e a necessidade de au- formação, a insuficiente atenção
pa a 13ª posição em 34 países. mentar o nível de rendimento dada ao empreendedorismo e à
O principal índice do GEM é a são os principais motivos para a criação de novas empresas no
Taxa de Actividade Empreen- criação de um negócio em Por- ensino básico e secundário (vol-
dedora Early-Stage Total (TEA), tugal. E que o facto de o negó- tamos ao artigo que supracitei).
que “mede a proporção de indi- cio não ser lucrativo é o princi- Os resultados indiciam um
víduos com idades compreendi- pal motivo para a sua cessação. futuro promissor, mas relem-
das entre os 18 e os 64 anos que É também interessante ob- bro que devemos ter em aten-
estão envolvidos na criação e servar que, quanto ao perfil ção: 1) Que há espaço para fazer
gestão de negócios que propor- sociográfico do empreendedor muito mais e 2) Que o relatório
cionaram remunerações por português, nomeadamente re- 2019/2020 foi redigido antes da
um período de tempo até três lativo ao nível de escolaridade, Covid-19 – que alterou toda a
meses (negócios nascentes) ou o nível de formação em que a nossa vida, o mercado e a eco-
por um período de tempo entre taxa TEA é maior é no ensino nomia.
os três e os 42 meses (negócios pós-graduado (Pós-Graduação, Depois do enorme rombo
novos)”. A TEA tem vindo a au- Mestrado ou Doutoramento), que a economia levou, aumen-
mentar e, em 2019 alcançou o com 17,3 por cento. Nada que ta a necessidade e a importân-
valor de 12,9%, um aumento su- não se espere, mas algo sobre cia de olhar para este relatório
perior a 50% em relação a 2016, o qual devemos reflectir (acon- e implementar as medidas que
que se reflecte no aumento do selho a leitura do último artigo dele se conseguirem extrair. Al-
número de startups e iniciativas “É urgente adaptar o sistema de gumas são claras: é necessário
de apoio ao empreendedorismo. ensino básico e secundário”). simplificar procedimentos, di-
Em 2019/2020, o GEM Por- Contudo, e apesar de a TEA minuir a carga fiscal, olhar para
tugal resultou de uma parceria estar a aumentar de ano para Não basta as startups como aquilo que elas
entre a Sociedade Portuguesa ano, o risco de falhar continua são – o futuro –, facilitar o aces-
de Inovação (SPI) e o Parque do a ser um factor desmobilizador manter o so a serviços, consultores e ou-
Alentejo de Ciência e Tecnologia para mais de 50% dos portu- empreendedo- tros apoios, e facilitar financia-
(PACT), com o apoio do Institu- gueses que consideravam haver rismo na moda, mentos e acesso a tecnologias.
to de Apoio às Pequenas e Mé- boas oportunidades para iniciar Não basta manter o empreen-
dias Empresas e à Inovação (IA- um negócio. é preciso dedorismo na moda, é preciso
PMEI). Este relatório indica que Neste relatório, são também sustentá-lo sustentá-lo. E

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 71


Macro
EXAME

ECONOMIA . TENDÊNCIAS . SOCIEDADE

AINDA
“É A ECONOMIA,
ESTÚPIDO”?
Donald Trump está em desvantagem em todos os temas
da campanha, exceto na economia. Mesmo perante uma
das mais duras crises de sempre, os norte-americanos ainda
confiam mais no republicano do que em Joe Biden, nesta
área. Como isso pode influenciar a corrida para
a Casa Branca? E, dependendo do vencedor, que medidas
podemos esperar para os próximos quatro anos?
Texto Nuno Aguiar

7 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


OUTUBRO 2020 . EXAM E . 73
Macro

Quando chegou a 2020, o Presidente

É
dos EUA tinha todos os motivos para estar


confiante na sua imagem na gestão desta
área. Segundo os dados da Gallup, nunca
um Presidente tinha alcançado taxas de
aprovação tão altas em relação à economia
(pelo menos desde Reagan, em 1984). No
início do ano, 63% dos norte-americanos
achavam que Trump tinha feito um bom
trabalho nesse campo.
A pandemia haveria de abanar esta
confiança na capacidade de gestão do mi-
lionário. À semelhança da generalidade
do mundo, a atividade económica afun-
“É a economia, estúpido.” Ou já não é tan- dou no segundo trimestre deste ano, com
to assim? A um mês das eleições presi- o PIB dos EUA a recuar mais de 9% face ao
denciais dos Estados Unidos da América, mesmo período homólogo (32,9% em ter-
Donald Trump tem às costas a maior con- mos anualizados). É o valor mais negativo
tração de sempre da economia norte-ame- desde que existem dados trimestrais.
ricana, num período de três meses, e uma No mercado de trabalho, a gravidade
destruição histórica de postos de trabalho. do desastre também foi inédita. Chegaram
No entanto, a maioria dos eleitores conti- a ser destruídos seis milhões de postos de
nua a dar-lhe uma pontuação mais alta trabalho por semana. Em abril, a taxa de
na gestão da economia do que ao seu ad- desemprego esteve perto dos 15%, outro
versário, Joe Biden. Como isso se explica? máximo desde os anos 50. Antes de a Co-
Para percebermos de onde vem esta re- vid-19 chegar a território norte-america-
putação de Trump, é preciso lembrar que no, estava abaixo de 4% e, na crise anterior,
ele surge na cena política com a imagem nunca ultrapassou os 10 por cento.
de um empresário bem-sucedido, especi- A única dimensão em que o otimis-
alista em negociações duras e em ganhar mo se manteve – após um período curto
dinheiro (embora o seu historial de gestão de quebra – foram os máximos dos mer-
suscite muitas dúvidas). cados financeiros, como o Presidente dos 4
Durante os primeiros três anos na Casa EUA faz questão de lembrar regularmente
2
Branca, a conjuntura deu-lhe uma ajuda no Twitter. As dificuldades na “economia
preciosa. Herdou de Barack Obama um real” não parecem contagiar Wall Street. 0
mercado de trabalho sólido, conseguin- Ainda assim, como seria de esperar,
do renovar mínimos históricos na taxa de uma crise tão devastadora penalizou a ima- -2
desemprego, e a economia esteve sempre gem de Donald Trump, e a percentagem de
em crescimento, ainda que a ritmo mo- norte-americanos que acha que ele está a -4
desto (1,4% a 3,3% ao trimestre). E, acima gerir bem a economia caiu para 47%, em
de tudo, a bolsa continuou a bater suces- junho. Um resultado que, não obstante, -6
sivos recordes. continua a ser melhor do que o de outros
-8
Esta exuberância dos mercados finan- presidentes na mesma altura do ano. Mais:
ceiros deve-se essencialmente ao ambien- as sondagens mostram que os norte-ame- -10
te de juros baixos e à postura agressiva da ricanos continuam a confiar mais nele do Q1 Q2
Reserva Federal norte-americana e aos que em Joe Biden. 2016 2020
seus megaprogramas de compra de ativos. Porquê? Há várias possibilidades. Por
CRISE PROFUNDA
A administração Trump pode ter dado um um lado, o período mais agudo da crise Variação do PIB
empurrão a essa euforia, com uma refor- pode já ter passado, com alguma recupe- Depois de quatro anos de crescimento
ma do sistema fiscal que beneficiou essen- ração do mercado de trabalho e da econo- sólido, a economia norte-americana
cialmente os contribuintes mais ricos e as mia a servir de luz ao fundo do túnel para afundou a um ritmo histórico em 2020,
grandes empresas. alguns norte-americanos. The New York devido ao impacto da pandemia Covid-19

74 . EXAM E . OUTUBRO 2020


> JOE BIDEN EM VANTAGEM NAS SONDAGENS

O candidato democrata tem estado consistentemente à frente Joe Biden


de Trump na média das sondagens, compilada pelo Real Clear Politics Donald Trump

52
50
48
46
44
42
40
12
10
8
6
4
OUTUBRO 2020 ABRIL JULHO

Times nota também que a base eleitoral de uma sondagem a dar um empate entre os
Trump parece ter sofrido menos com esta dois e outras duas a posicionar Biden ape-
crise do que os eleitores democratas ou in- nas a um ponto de Trump.
dependentes. Isso explica-se porque, entre Os cientistas políticos e analistas dão
as famílias, as minorias étnicas têm sido normalmente muita atenção a essa perce-
mais afetadas por esta crise, e elas votam ção, já que ela tem sido fundamental para
mais à esquerda. Quanto às empresas, os antecipar os resultados eleitorais. Nunca
donos de PME de estados mais pequenos um Presidente ganhou uma reeleição com
e rurais têm sido tendencialmente menos uma taxa de desemprego superior a 7,2%
penalizados do que os grupos localizados e, em 2016, este era um dos poucos temas
em estados maiores (e normalmente mais em que Trump pontuava mais do que Hil-
democratas). lary Clinton. “It’s the economy, stupid”,
O mesmo The New York Times avan- como popularizou a equipa de Bill Clin-
ça com outra possibilidade: a de, como ton, na eleição que venceu em 1992.
4 000 noutras áreas, estarmos a assistir a outras Não é claro que continue a ser assim.
consequências da polarização política que É que a pandemia não só fez colapsar a
se vive nos EUA. De certa forma, republi- economia como secou grande parte dos
3 500 canos e democratas vivem, hoje, em dois temas normalmente em debate na cam-
mundos diferentes. Esse fosso é tão pro- panha eleitoral. É o que acontece quando
fundo que “suplantou ligações de longo morrem 200 mil pessoas.
3 000 prazo entre o desempenho económico e Embora a economia continue a ser o
a taxa de aprovação presidencial”, escre- tema mais importante para os eleitores, os
ve o jornal. dados do Pew Research Center mostram
2 500 Ou seja: por pior que seja a economia, que isso se deve essencialmente às prefe-
alguns eleitores nunca deixarão de avaliar rências dos republicanos. Para os demo-
bem o Presidente. Oito em cada dez repu- cratas, o coronavírus e a saúde pública são
2 000 blicanos que perderam o emprego e que os assuntos mais relevantes, e até as ques-
14-11 14-09
ainda não o recuperaram aprovam a ges- tões relacionadas com a desigualdade racial
2016 2020 tão de Trump, durante a pandemia. superam a economia. Trump tem dito que
RECORDES O JOGO ESTÁ A MUDAR?
uma vitória de Biden significaria um colap-
S&P 500 so da economia, mas esse é um argumento
O comportamento da bolsa norte- Contudo, parecem existir alguns sinais de mais difícil de comprar quando a economia
-americana tem sido um dos principais que as coisas estão a mudar. A vantagem já está a implodir e é Trump quem está à
trunfos usados por Trump. Os mercados de Trump sobre Biden na gestão da econo- frente dos destinos do país. Em 2016, essa
batem sucessivos máximos históricos mia reduziu-se, nas últimas semanas, com dramatização era mais eficaz.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 75


Macro

DONALD TRUMP
> POLÍTICA COMERCIAL do estrangeiro alguns dos empregos que já
haviam sido deslocalizados.
Para o Presidente da “América em
primeiro lugar”, a política comer- > IMPOSTOS
cial estará sempre na frente, com
destaque para a guerra comercial com A grande peça legislativa de Donald
a China, vendo no défice comercial Trump, nos seus primeiros quatro
norte-americano uma fragilidade dos anos na Casa Branca, foi uma reforma
EUA. Trump planeia mais do mes- fiscal profunda que trouxe uma descida
mo: manter uma forte pressão sobre significativa de impostos, beneficiando
Pequim. A pandemia aumentou ainda essencialmente os contribuintes mais
mais o nível de animosidade entre os ricos e as grandes empresas. Para o pró-
dois países, com a Casa Branca a referir- ximo mandato, o candidato republicano
-se frequentemente à pandemia como o quer aprofundar essa reforma, esten-
“vírus chinês” e atribuindo a responsabili- dendo provisões que deveriam expirar
dade ao governo da China por ter deixado em 2025.
o vírus sair do país. Até agora, Trump já Em geral, a campanha tem dado muito
pôs no terreno tarifas sobre mais de €300 poucos pormenores sobre os seus pla-
mil milhões de bens chineses importados nos, embora venha referindo a intenção
pelos EUA, com resultados duvidosos. Nos de reduzir os impostos sobre a classe
últimos meses, Trump tem ameaçado média, aliviar a tributação de mais-valias
empresas com várias formas de penaliza- de capital e avançar com isenções fiscais
ção, caso estas transfiram postos de provisórias. Também já foi referida a
trabalho para a China ou possibilidade de uma nova redução dos
não façam re- impostos sobre as empresas. Claro que
gressar qualquer mudança deste género teria de

JOE BIDEN
> POLÍTICA COMERCIAL com questões relacionadas, por Entre as ideias democratas estão assumido um ângulo claramente
exemplo, com a propriedade o aumento de taxas marginais de virado para a sustentabilidade
Neste campo, Joe Biden acom- intelectual. É de esperar que uma IRS e o agravamento da tributa- ambiental. O ex-vice de Obama
panha parte da visão de Donald administração Biden seja, em ção de mais-valias de capital e apresentou um longo programa
Trump, pelo menos no que diz geral, menos protecionista. dividendos para os contribuintes para revitalizar a infraestrutura
respeito à China. O candidato com mais rendimentos, além de do país e pretende usá-lo para
democrata tem feito questão de > IMPOSTOS uma subida dos impostos para as executar a tão debatida transição
dizer que manterá uma postura maiores empresas do país. A ideia energética. É mais de um bilião
agressiva em relação a Pequim, Quanto a Biden, o plano não podia é abrir espaço para o alívio da carga de dólares em dez anos e deverá
chegando mesmo a recuar na ser mais diferente. O democrata fiscal das faixas mais desprote- deixar os EUA a caminho do
sua intenção inicial de eliminar promete uma profunda revisão do gidas e para o financiamento de objetivo de neutralidade carbó-
as tarifas postas no terreno pelo sistema fiscal federal, no sentido alguma da nova despesa pública nica e, ao mesmo tempo, criar
atual Presidente. Contudo, Biden de colocar os norte-americanos que Biden planeia executar. milhões de postos de trabalho.
quer mudar de tática e voltar a mais ricos e as empresas a pagar Entre as iniciativas está o desen-
reabilitar as pontes diplomáticas mais. Não é muito comum um > DESPESA PÚBLICA volvimento de fontes de energia
queimadas nos últimos anos e, candidato à Presidência assumir “limpas”, a renovação das
em vez de agir unilateralmente, uma agenda de subida de impos- A necessidade de reforçar as estradas e pontes, a melhoria do
como fez Trump. Promete, assim, tos, mas o debate fiscal mudou infraestruturas é algo em que acesso à internet em zonas rurais
encontrar soluções concertadas muito nos EUA e a reforma fiscal Biden está mais ou menos e a modernização de escolas.
com os aliados norte-ameri- de Trump (a mais impopular desde alinhado com Trump, mas tendo Grande parte destas medidas de-
canos para confrontar Pequim os anos 80) contribuiu para isso. apresentado mais informação e verá ser financiada pelo recuo na

76 . EXAM E . OUTUBRO 2020


O ESTADO DA CORRIDA
Porém, esta tendência pode ser interrompida
até ao dia das eleições. O mais provável é que
a economia continue a melhorar, mesmo que
passar pelo Congresso. Trump tem tido > SALÁRIOS
a um ritmo lento, e não é de excluir algum sal-
dificuldades nessas negociações e nada
parece apontar para que, caso seja eleito, Embora já tenha admitido apoiar a ideia
to mais significativo no desenvolvimento de
esse caminho seja mais fácil. dos democratas, Donald Trump não se vacinas e de tratamentos para o coronavírus.
comprometeu com qualquer subida Isso deverá beneficiar o Presidente em
> DESPESA PÚBLICA no salário mínimo federal. O Presiden- exercício e tornar a corrida mais apertada. Na
te parece preferir deixar cada estado altura em que este texto é escrito, essa é uma
Desde 2018 que Donald Trump tem gerir o dossier. De qualquer forma, um das poucas coisas a que Trump tem para se
tentado avançar com um grande plano aumento deverá merecer a oposição dos agarrar (em conjunto com um bom desempe-
de reforço das infraestruturas dos republicanos. nho nos debates com Joe Biden). Até agora, as
Estados Unidos da América. Por esta
sondagens mostram uma campanha estabili-
altura até parece existir consenso entre > REGULAÇÃO
republicanos e democratas, mas entre a
zada. Desde agosto que a liderança de Biden
pandemia e a proximidade das eleições Uma marca da presidência Trump foi a sobre Trump ronda os sete pontos percentuais.
nada será concretizado no curtíssimo desregulação da atividade empresa- Em 2016, Hillary Clinton também chegou a ter
prazo. O Presidente dos EUA gostaria de rial. Uma tendência que ficou clara até uma vantagem semelhante, mas a corrida foi
ter um plano de dois biliões de dólares na gestão da pandemia, através, por sempre muito mais volátil, com vários altos e
em investimento em infraestruturas, exemplo, da insistência do Presidente baixos, e Trump chegou mesmo a liderar as
embora a Casa Branca não tenha dado dos EUA em utilizar tratamentos ainda sondagens.
pormenores acerca da sua composição. pouco testados. Para os próximos quatro Quando olhamos para os Estados “deci-
Trump planeia também alocar mais anos, a ideia é manter esta agenda de sivos” – aqueles que flutuam historicamente
dinheiro para a segurança pública e fazer desregulação.
entre republicanos e democratas e que nor-
uma aposta ambiciosa na Space Force,
malmente decidem as eleições –, Biden tam-
um ramo das Forças Armadas dedicado
ao Espaço e tornado “autónomo”, no
bém surge em melhor posição do que Clinton.
final do ano passado. A diferença é que, perante a surpresa de 2016,
existe muito mais cautela da parte dos espe-
cialistas. Muitos deram a vitória de Hillary
como certa, há quatro anos.
Mas não fique surpreendido se
Trump ganhar. No final de setembro,
o site FiveThirtyEight espera que o re-
publicano ainda suba nas sondagens
e, incorporando esse cenário, calcu-
reforma fiscal de Donald Trump, la que haja 75% de hipóteses de Bi-
assim como o vasto perdão de den vencer. Portanto, Trump tem as
dívida estudantil que Biden mesmas probabilidades de ganhar
pretende implementar. do que de conseguir um “seis” num
lançamento de dados. Na véspera
> SALÁRIOS
das eleições de 2016, o mesmo site
Joe Biden promete aumentar dava 71% a Clinton.
o salário mínimo federal de 7,5 Qualquer que seja o Presidente,
para 15 dólares a hora. De uma ele terá de lidar com uma crise eco-
perspetiva mais geral, o demo- nómica de proporções inéditas. Em
crata pretende dar mais poder à recessões históricas, não existem boas
representação dos trabalhadores. opções para um Presidente. Seja Trump
ou Biden, tudo aponta para uma recupera-
> REGULAÇÃO
ção difícil. Mesmo quando a Covid-19 deixar
de ser um problema, as cicatrizes no tecido
Biden promete fazer o contrário:
reverter os recuos na regulação económico poderão durar muitos anos. E
implementados por Trump, nos úl-
timos quatro anos, com destaque
para as regras relacionadas com
as questões ambientais.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 77


Opinião
POR
JOSÉ LUÍS VEGA

Um tempo de desafios
para vencer em conjunto
A pandemia veio colocar novas dificuldades às empresas
portuguesas, mas estas já deram muitas provas das suas
resistência e capacidade de adaptação
> Director da Banca de Empresas
e membro da Comissão Executiva
do Bankinter Portugal

S
e antes da pan- Acompanhei pessoalmente que nos dão uma capacidade seus fornecedores, que benefi-
demia a vida muitos destes processos de de- distinta no apoio à internacio- ciam ainda de uma plataforma
das empresas senvolvimento, o que me per- nalização dos nossos Clien- online exclusiva e possibilida-
já era feita de mite testemunhar que, na ta- tes. Distinguimo-nos também de de antecipação dos recebi-
desafios per- bela darwiniana, pautada pelo pela apresentação de soluções mentos, e o Multinha, solução
manentes, em tempos de CO- imperativo de adaptação cons- e ferramentas 100% digitais, tal única no mercado nacional, que
VID-19 os obstáculos que estas tante ao ambiente, as empresas como a nossa Plataforma de permite às empresas através de
têm de superar para alcançarem portuguesas têm nota máxima. Trade onde é possível realizar um único contrato usufruírem
o sucesso são ainda maiores. De Pelas mesmas razões, sou as mais diversas operações de dos mais diversos tipos de cré-
facto, os próximos tempos não também testemunha da impor- crédito para apoio às importa- dito com possibilidade de rea-
se adivinham fáceis para as em- tância que a escolha acertada de ções e exportações, com proces- locação desses limites online no
presas em Portugal e no resto do um parceiro financeiro pode ter sos simples, ágeis e sem papéis. Bankinter Empresas.
mundo e, por conseguinte, para na vida das empresas. Já ao nível de soluções ino- Para operações de carácter
a economia global. Proximidade, confiança, vadoras para o mercado interno, estratégico, como por exemplo
No entanto, a lição da úl- inovação, flexibilidade, apre- refira-se, a título de exemplo, a de venda de ativos, recurso ao
tima crise deve inspirar-nos a sentação de soluções inovado- solução Bankinter Confirming, mercado de capitais ou inves-
olhar para o futuro com con- ras e abrangentes, são algumas que permite aos nossos Clientes timentos de elevados montan-
fiança, pois os empresários, ges- das características que um ban- a gestão ágil e desmaterializada tes, colocamos os serviços do
tores e trabalhadores em Por- co virado para as empresas deve de pagamentos de faturas aos Bankinter Investment ao dispor
tugal souberam reinventar-se ter. No Bankinter, que nasceu dos nossos Clientes, por forma a
e reinventar os seus negócios, como um banco industrial em analisar e propor a solução que
desenvolvendo produtos inova- 1965 e que conhece bem as ne- melhor serve os interesses das
dores, incorporando novas tec- cessidades do tecido empresa- empresas.
nologias nos processos de pro- rial, todos os dias trabalhamos A oferta abrangente de so-
dução e desenvolvendo formas para colocar em prática estas luções para as empresas é com-
criativas de os comercializar a características. plementada pelos dez Centros
nível nacional e internacional. Dois exemplos concretos dedicados a Empresas espalha-
Foi precisamente nesta épo- deste trabalho são a nossa ofer- Na tabela dos por todo o país, pelos dois
ca que o Bankinter chegou a ta para apoiar as empresas nos darwiniana, Centros Corporate em Lisboa e
Portugal para, numa altura em seus negócios internacionais ou Porto e por uma rede nacional
que outras portas permaneciam as soluções inovadoras que te- pautada pelo composta por 81 agências.
fechadas, apoiar as empresas a mos vindo a introduzir para as imperativo É por todas estas razões que,
concretizarem os seus projetos empresas que têm o seu princi- de adaptação hoje mais do que nunca, a esco-
de expansão, através do acesso pal mercado em Portugal. lha de um parceiro financeiro
a financiamento e aconselha- Começando pelo Negócio constante ao de qualidade e confiança será
mento prestados por um par- Internacional, destaco as nos- ambiente, absolutamente determinante
ceiro de confiança e que tem sas Credenciais Internacionais, as empresas para as empresas superarem
por mote acompanhar de for- com Rating BBB+ a demons- com sucesso tempos tão exi-
ma muito próxima o dia-a-dia trar a nossa solidez e mais de portuguesas têm gentes como os que estamos a
dos seus clientes. 1.500 bancos correspondentes nota máxima viver. E

78 . EXAM E . OUTUBRO 2020


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚDE | ABERTURA

O FUTURO DA SAÚDE APÓS A PANDEMIA


A Covid-19 mostrou ao mundo algumas fragilidades nas cadeias de fornecimento do sector da saúde.
Como é que isso o irá transformar e afetar o seu desenvolvimento?

Texto José Miguel Dentinho

pandemia causada necem-lhes serviços torna- As implicações a curto prazo dutos e equipamentos médi-

A pelo novo corona-


vírus criou uma
rutura sem prece-
ram-se o centro das atenções.
Mas também viram o seu tra-
balho a ser dificultado por pro-
deste desafio global são evi-
dentes. Mas as consequên-
cias a longo prazo da pande-
cos, medicamentos e outros
itens necessários para testar e
proteger as pessoas em relação
dentes na comunidade global blemas de acesso a condições mia, incluindo a forma como à Covid-19 levarão os países a
da saúde e desenvolvimento. seguras para o desempenho se irá mover o sector da saú- reavaliar as suas cadeias de for-
As organizações que protegem das suas funções, incluindo de e as suas prioridades, ain- necimento de equipamentos
a saúde das pessoas, combatem equipamentos de proteção, de- da são algo difícil de imaginar. médicos e suporte de vida. Isto
doenças infecciosas, apoiam os vido a deficiências nas cadeias Para já, parece evidente que as aumentará a tendência de cada
trabalhadores do sector e for- de produção e fornecimento. deficiências sentidas de pro- país fabricar produtos médicos

80 . EXAM E . OUTUBRO 2020


A TENDÊNCIA DE CADA PAÍS instituições que pagam, como salientou diversos problemas
companhias de seguros e ou- de planeamento e gestão de
FABRICAR PRODUTOS MÉDICOS E tras organizações, e os pacien- crises nesta área, mas também
FARMACÊUTICOS E EQUIPAMENTOS A tes pedem poderão lucrar mais mostrou deficiências nas ca-
NÍVEL DOMÉSTICO, MESMO AQUELES com o crescente mercado mun- deias de produção e forneci-
dial de cuidados preventivos. mento do sector, ao nível de
QUE NÃO TENHAM AINDA INDÚSTRIA O apertado ambiente regula- medicamentos, equipamentos
NESSA ÁREA, DEVERÁ CRESCER dor do sector farmacêutico é de proteção e outros. Mais do
e continuará a ser um desafio, que mostrarmos o que se pas-
e não se vislumbra que fique sou, algo que é publico e tem
e farmacêuticos e equipamen- sistemas de saúde, reduzindo mais claro e fácil no futuro. sido incessantemente divulga-
tos a nível doméstico, mesmo o impacto social e na saúde da Uma alternativa aos regula- do pelas organizações do sec-
aqueles que não tenham ainda população de futuras emer- mentos que condicionam a tor e pelos órgãos de comuni-
indústria nessa área. gências médicas. “Combinar publicidade massificada neste cação, o que é preciso é definir
a experiência na área da saú- sector poderá ser o aproveita- o que é que as empresas e ins-
CUSTOS ECONÓMICOS de pública que a Organização mento dos canais de marke- tituições do sector, dos hospi-
A constatação de que os cus- Mundial de Saúde possui com ting, mais focados nos relacio- tais públicos e privados à in-
tos económicos de uma pan- o conhecimento financeiro namentos, menos tradicionais, dústria farmacêutica e todos
demia podem ser enormes do Banco Europeu de Investi- mas talvez mais alinhados os outros fornecedores, terão
deverá levar a que sejam feitos mento irá contribuir para uma com um novo ambiente futu- de fazer para que situações
muitos milhares de milhões resposta mais efetiva à Co- ro, que ligará pacientes, pres- de pandemia tenham efeitos
de euros de investimentos vid-19 e a outros desafios para tadores de cuidados de saúde menos nefastos e menos du-
em investigação e desenvol- a saúde pública”, disse Tedros e pagadores, e terá resultados radouros que a atual.
vimento, para encontrar va- Ghebreyesus, diretor-geral da baseados em valores e na pre-
cinas, terapêuticas e métodos OMS, na cerimónia de estabe- venção de doenças crónicas,
não médicos de prevenção. lecimento da parceria. por exemplo. Poderá usar a O APERTADO
Isto pode significar para o fu-
ENVELHECIMENTO
Internet como ferramenta de AMBIENTE
turo que poderão ser evitados colheita de informações e de
muitos mais milhares de mi- DEMOGRÁFICO marketing especializado, di- REGULADOR
lhões de euros de perdas eco- Em 2050 deverá haver cerca recionado aos pacientes certos. DO SECTOR
nómicas, de vidas e de meios de dois mil milhões de pes-
IMPACTO NA SOCIEDADE
FARMACÊUTICO É
de subsistência de milhões soas com mais de 60 anos em
de pessoas pobres em todo o todo o nosso planeta. Com o O impacto na sociedade por- E CONTINUARÁ A
mundo. envelhecimento demográfico, tuguesa e mundial da doença SER UM DESAFIO
Para já, a Organização Mundial irá aumentar, em paralelo, o
de Saúde (OMS) está a fortifi- número de prescrições de me-
car as suas ligações ao Banco dicamentos, aparelhos dentá-
Europeu de Investimento (BEI) rios e auditivos, próteses e ou-
através do estabelecimento de tros, e, com isso, o volume de
uma parceria que visa robus- negócios das empresas que os
tecer os sistemas públicos de fornecem.
saúde e o fornecimento de Mas o mundo será muito mais
equipamento essencial. Mas exigente daqui para a frente.
também melhorar a forma- Isso implicará maior eficiên-
ção na área e aumentar os cia de custos, resultados com-
investimentos em higiene e provados para os pacientes e
saneamento nos países mais maior contribuição da assis-
vulneráveis à pandemia de tência médica para a expe-
Covid-19. Esta parceria entre riência geral em toda a cadeia
a agência de saúde das Na- de valor.
ções Unidas e o maior banco As empresas farmacêuticas que
público mundial, anuncia- prestarem mais atenção àqui-
da recentemente, contribuirá lo que os prestadores de cui-
para melhorar a resiliência dos dados de saúde, as empresas e

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 81


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚ DE | OPI N IÃO

PREVISÃO, PLANEAMENTO E BOA GESTÃO


Retrato de uma pandemia no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro

Centro Hospitalar O Serviço de Medicina Intensi-

O de Trás-os-Montes
e Alto Douro (CHT-
MAD), que serve
va (SMI) foi separado em dois.
A área não Covid ocupou par-
te do Bloco Operatório (BO) de
uma população de cerca de 300 Vila Real e a não Covid o pró-
mil habitantes, iniciou, peran- prio serviço. Durante cerca de
te a eminência da pandemia três meses a capacidade do BO
provocada pelo SARS-CoV-2, foi quase exclusivamente utili-
um conjunto de iniciativas para zada em cirurgias urgentes. Em
responder aos seus efeitos. Em junho, o SMI foi requalificado,
primeiro lugar, procurou pre- dando origem a duas UCI: uma
ver cenários para planear ações para doentes infetados e outra
concretas, visando o tratamento para doentes não infetados.
adequado dos doentes e a pro- O Laboratório de Patologia Clí-
teção dos seus profissionais. nica, fulcral no sucesso da res-
Foram também reforçados os posta à pandemia, foi também
recursos humanos, equipamen- Paula Vaz Marques, diretora clínica e vogal executiva intervencionado, com amplia-
tos de proteção individual (EPI), do CA do CHTMAD * ção, reorganização e requalifi-
meios de diagnóstico e rastreio e cação do espaço, aquisição de
instalações e equipamentos. equipamentos e criação de zo-
O planeamento estratégico ini- tocolos para todos os tratamen- do instalações. Também foram nas de pressão negativa, evitan-
ciou-se em janeiro de 2020, tos e procedimentos serem efe- criadas áreas de atendimento do contaminações cruzadas e
com as primeiras reuniões com tuados à luz do conhecimento Covid nos diversos serviços de infeções nos profissionais. Estão
a equipa local do Programa Na- mais recente. Um outro grupo urgência. ainda em curso algumas obras
cional de Prevenção e Controlo adequou o tipo de equipamen- Os cenários oriundos de países de requalificação, aquisição de
de Infeções e das Resistências to de proteção individual a cada como Espanha e Itália levaram equipamentos e construção de
aos Antimicrobianos (PPCIRA) serviço/tarefa, antecipando as este centro a optar pela insta- pavilhões adequados para ins-
e a programação da formação a normas emanadas pela DGS. lação de tendas no exterior dos talar o SU Covid em Vila Real
todos os profissionais de saúde Inicialmente, o mercado não SU, com pressão negativa, cli- e Chaves e reajuste do espaço
sobre o novo coronavírus. dispunha de oferta de EPI. Para matização e renovação de ar, e em Lamego, todos dotados de
Formado pela diretora clínica, garantir os fornecimentos, fo- boxes de isolamento para doen- layouts ajustados, tratamento
enfermeiro diretor e diretores ram muito úteis as doações da tes suspeitos ou positivos que, e renovação de ar, salas de Rx,
de serviços mais diretamente sociedade civil e a reconver- após resultado do teste ao SAR postos de colheitas e zonas de
envolvidos na prestação de cui- são das linhas de produção de S-CoV-2, seriam encaminha- isolamento de utentes.
dados aos doentes e suspeitos de empresas nacionais. Mediante dos segundo critérios clínicos. O sucesso alcançado na resposta
SARS-CoV-2, coadjuvados por acordos de fornecimento, com Este esforço foi recompensado: à primeira vaga da pandemia de-
elementos de serviços de apoio, pagamentos diários no ato de o CHTMAD teve uma taxa redu- veu-se também à qualidade, em-
foi criado o Grupo de Crise Co- entrega, foi possível a criação zida de contaminação dos seus penho, espírito de sacrifício e de
vid. Reunindo diariamente, de stocks, monitorizados e dis- profissionais (cerca de 0,6%). equipa de todos os seus profis-
procura, desde o início, antever tribuídos diariamente, dotando Foram criadas 139 novas camas sionais. Mas o desafio continua
cenários e planear e operacio- os profissionais de saúde dos de internamento Covid de ní- a ser grande: manter a atividade
nalizar a resposta à pandemia. meios de proteção adequados. vel I e dotadas seis enfermarias assistencial normal e conviver e
Em paralelo, foi criada uma Para evitar contaminações cru- com pressão negativa nos inter- combater o vírus SARS-CoV-2.
equipa multidisciplinar, que ela- zadas, foi decidido que os profis- namentos de Obstetrícia, Pneu-
borou o plano de contingência sionais alocados a áreas Covid/ mologia e Cardiologia e em seis * Com Júlio Azevedo, enfermei-
do CHTMAD, e foi nomeado um suspeitos não deveriam contac- postos de hemodiálise. Só hou- ro diretor e vogal executivo do
grupo de profissionais encarre- tar os utentes não Covid e foram ve doentes Covid internados na CA do CHTMAD, e Fernando
gue de rever toda a bibliografia e definidos circuitos de doentes, unidade de Vila Real e muito Alves, vogal executivo do CA
normas da DGS e elaborar pro- requalificando ou construin- aquém da lotação total. do CHTMAD.

8 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


DOSSIÊ PROMOCIONAL E S P E C I A L S A Ú D E | E N T R E V I S TA

FALTA PENSAMENTO ESTRATÉGICO


AO SECTOR DA SAÚDE
Proatividade, capacidade de prever evoluções e antecipar tendências são algumas das necessidade do sector
para sustentar o seu futuro

asco Jorge, gestor da saúde irá responder de for-

V
Vasco Jorge,
da Biols Pharma- ma paliativa e reativa, e não da
ceuticals, diz que as gestor da Biols maneira que preconizo para a
políticas dos suces- Pharmaceuticals defesa das nossas organizações:
sivos governos têm destruído a proativa, antecipadora de ten-
indústria e desmobilizado a cap- dências, assente numa solvabi-
tação do investimento ao longo lidade permanente.
dos últimos 20 anos, criando A resposta está condicionada,
um desequilíbrio na balança em grande medida, pelo Estado.
comercial e tornando Portugal O sector, como outros em geral,
absolutamente refém de impor- é restringido pela ausência de
tações na área de produtos far- pensamento estratégico, por-
macêuticos e equipamentos de que a saúde é tida como uma
proteção individuais (EPI). despesa e não como um inves-
timento. Com a despesa pública
Durante o período inicial de elevada e um país empobrecido,
expansão da pandemia em sem capacidade produtiva gera-
Portugal, sentiram-se deficiên- para acudir às demais necessi- tratégico quanto ao que fazer dora de valor acrescentado que
cias nas cadeias de produção e dades de saúde da população. À para ser diferente e criar valor permita a sua sustentabilidade
fornecimento do sector da saú- parte estes fatores, as políticas acrescentado! As consequên- sistemática, o sector da saúde
de. Como é que a Biols Phar- dos sucessivos governos têm cias da pandemia serão nefas- sofrerá fortes constrangimen-
maceuticals procurou resolver destruído a indústria e desmo- tas para a economia em geral tos, que apenas os agentes eco-
o problema? bilizado a captação do investi- e a saúde em particular. Neste nómicos mais bem preparados
As cadeias de produção e forne- mento ao longo dos últimos 20 quadro, prevejo que o sector poderão enfrentar e superar.
cimento estão dimensionadas anos, criando um desequilíbrio
com base em rácios de popula- na balança comercial e tornan-
ção, incidência de patologia por do Portugal absolutamente re-
número de habitantes e quotas fém de importações na área de O QUE É A BIOLS
de mercado para, em condições produtos farmacêuticos e EPI. PHARMACEUTICALS?
normais, não haver deficiências Veja-se como exemplo a difi-
A LS Enterprises é um cluster de saúde independente, português,
de produção e fornecimento a culdade de obtenção de más- que gere um portefólio diversificado de negócios e serviços em vá-
montante e jusante da cadeia caras cirúrgicas e outros EPI rias geografias. A diversificação e a inovação têm sido o fio condutor
de distribuição. Contudo, numa nesta última crise. Se houvesse do desenvolvimento deste grupo, que teve, no ano passado, um
situação tão anormal como a da uma indústria têxtil forte, po- volume de negócios superior a 23 milhões de euros.
Covid-19 salientou-se a impre- deria ter garantido um forneci- No universo LS Enterprises destaca-se a Biols Pharmaceuticals,
paração, ausência de planea- mento privilegiado ao mercado empresa de distribuição farmacêutica com uma das maiores
mento estratégico e de capaci- português. dinâmicas de crescimento no mercado de distribuição farmacêutica,
dade de resposta, em especial em resultado da parceria tripartida que estabeleceu com a indústria
por parte do Estado. Notou-se Qual é, para si, o futuro ideal farmacêutica, farmácias e hospitais em Portugal. “O fornecimento
à área hospitalar é feito tanto a hospitais privados como públicos,
também que os parques hospi- para o sector da saúde, ten-
embora estes últimos sejam cada vez menos cumpridores, o que,
talares e centros de saúde são do em conta os dados que já
especialmente em tempo de crise, agrava ainda mais a situação
antigos e obsoletos. É neles que temos? débil de algumas empresas do sector e da própria indústria, que tem
se concentram os recursos hu- O futuro do sector da saúde encontrado na Biols Pharmaceuticals a substituição do tradicional
manos ocupados na resposta à está condicionado pelo livre- modelo de fornecimento direto”, diz Vasco Jorge, gestor da empresa.
crise, que foram insuficientes -arbítrio do pensamento es-

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 83


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚDE | CASOS DE SUCESSO

O SECTOR DA SAÚDE IRÁ SURFAR


A ONDA DIGITAL?
Embora o avanço da tecnologia seja inevitável, não pode nem deve ser aquilo em que nos tornamos.
Quais serão as maiores diferenças? O que é que vai mudar? O que podemos esperar no campo da saúde?

Filipa Fixe,
diretora do Mercado
Healthcare da Glintt

ortugal é clara- do pela tecnologia através do A equação do bem-estar e da instituições de saúde e não

P mente uma mon-


tra digital na área
da saúde e tem
digital, da mobilidade e do
virtual. Cada um de nós, en-
quanto cidadãos, está a pro-
saúde centrada no cidadão
só pode ser resolvida através
de tecnologia e de processos
saúde centrassem os seus
serviços no cidadão, tendo
por base tecnologia e inova-
tido um papel diferenciador curá-la cada vez mais na re- bem definidos. O momento ção de processos. E mostrou
nas ciências da vida. O nos- lação com os profissionais e pandémico que atravessamos que já existia inovação tec-
so dia a dia está transforma- as instituições de saúde. permitiu que as diferentes nológica para transformar

8 4 . EXAM E . OUTUBRO 2020


a prestação de cuidados de O NOSSO PAÍS renciadores. Por outro, pelo em conjunto com o sector
saúde. Isso foi visível, por facto de os portugueses se- público, e colocam ao servi-
exemplo, no número de te- É CLARAMENTE rem um povo inovador e al- ço do cidadão. Para que tal
leconsultas versus consultas UMA MONTRA tamente diferenciado na área aconteça é necessário que as
presenciais realizadas nos
cuidados de saúde primários
DIGITAL NA ÁREA das ciências da vida. Há vá-
rios exemplos de start-ups
soluções desenvolvidas sejam
conhecidas, implementadas
e nas unidades hospitalares. DA SAÚDE portuguesas reconhecidas e e testadas. Acreditamos que
premiadas a nível europeu e o HINTT, que dá palco à ex-
PALCO PARA A EXCELÊNCIA mundial para o demonstrar. celência na área da saúde e
Este momento deve ser enca- nologias e as emergentes (ex.: Todo este know-how deve das ciências da vida, é uma
rado como uma oportunida- IA, NPL). Conseguem definir ser partilhado dentro e fora importante etapa no go-to-
de para continuar e acelerar o problema a resolver, desen- de Portugal, e é neste sentido -market destas soluções. É
ainda mais a implementação volver a solução e garantir a que queremos que o Prémio uma viagem que se iniciou
da inovação e da tecnologia, sua implementação junto HINTT seja mais um catalisa- em 2017 e que pretende de-
para que os cuidados de saú- de profissionais de saúde e dor de inovação. monstrar que podemos viajar
de e a relação utente-profis- utentes. Ou seja, a maioria Gostaria de realçar que Por- até Marte e sermos monitori-
sionais de saúde passe a estar são projetos com uma avan- tugal integrou, pela primeira zados, à distância, com tec-
à distância de um clique. çada maturidade digital, pi- vez, o grupo de Fortes Inova- nologia, processos e também
O nosso evento anual, HINTT lotos ou não, e reúnem um dores na edição de 2020 do inovação.
– Health Intelligent Talks & enorme potencial tecnológi- European Innovation Score- É fundamental perceber,
Trends, que este ano perfaz co para a área da saúde, pri- board, um índice publicado numa época em que a tec-
a sua 4.ª edição no dia 1 de vilegiando sempre o conceito anualmente pela Comissão nologia atual permite, por
outubro, no Pavilhão do Co- do patient centered. Europeia e que se baseia em exemplo, a condução autó-
nhecimento, em Lisboa, sur- 27 indicadores. O país teve os noma, se podemos e deve-
giu em 2017, com o propósito CATALISADOR melhores desempenhos nas mos passar a ter uma gestão
de contribuir para esta mon- DE INOVAÇÃO áreas que se relacionam com da saúde e deixar de ter ape-
tra digital enquanto palco Este ano é com enorme orgu- as atividades de inovação das nas uma gestão da doença.
para a excelência da ciência, lho que batemos o recorde de PME (https://www.dgae.gov. Os dados centrados no cida-
da inovação e da tecnologia candidaturas, ultrapassando pt/ e https://interactivetool. dão, a sua gestão, a telessaú-
em saúde. O objetivo é par- os anos anteriores em cerca eu/EIS/EIS_2.html#a). Isto só de, a inteligência artificial
tilhar casos de estudo a nível de 50%. Devido à pandemia foi possível devido ao caráter aplicada na análise de ima-
nacional e internacional, que provocada pela Covid-19, inovador e de diferenciação gens médicas, os lab-on-a-
demonstrem a forma como a as nossas expectativas não tecnológica que as empre- -chip, os resultados em saúde
inovação pode ser traduzida eram as mais favoráveis e foi sas, desde as start-ups às de medidos por qualidade, e não
para o dia a dia das institui- com surpresa que verificá- grande dimensão, possuem, por quantidade, os hospitais
ções de saúde, dos seus pro- mos uma motivação incrível do futuro, com menos camas
fissionais e do cidadão. por parte das entidades can- e mais cuidados à distância,
Temos um momento especial didatas. Isso demonstra o ESTE ANO, A a literacia digital de cidadãos
durante o evento: o Prémio compromisso crescente dos EDIÇÃO DO HINTT e de profissionais da saúde, a
HINTT – Maturidade Digital. sectores da saúde e das TIC capacitação de gestores para
O foco deste prémio é o reco- ligadas à saúde. ACONTECE NO o ehealth e a garantia da se-
nhecimento e divulgação das O Prémio HINTT – Maturida- PAVILHÃO DO gurança das TIC e da priva-
melhores práticas de adoção de Digital é, assim, a forma CONHECIMENTO, cidade dos dados são alguns
das TIC na área da saúde, que de recompensar a excelência dos temas que temos deba-
têm como objetivo melho- do que de melhor se faz em EM LISBOA, tido nas edições anteriores,
rar a segurança do cidadão, Portugal na área da saúde e EM MODO quer do ponto de vista da
apoiar a decisão clínica e a do bem-estar. PRESENCIAL inovação quer do ponto de
eficiência global. O nosso país é claramente vista da implementação.
Os vencedores são, cada vez uma montra digital na área E ONLINE, Este ano, a edição do HINTT
mais, projetos realizados por da saúde. Por um lado, por TRANSMITIDO acontece no Pavilhão do Co-
equipas multidisciplinares, termos implementado ao NAS REDES nhecimento, em Lisboa, em
com competências que vão longo dos últimos anos sis- modo presencial e online,
da engenharia às ciências da temas de informação e tec- SOCIAIS DA transmitido nas redes sociais
vida, incluindo as novas tec- nologias de informação dife- GLINTT da Glintt.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 85


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚDE | CASOS DE SUCESSO

APINEQ PRODUZ MÁSCARAS CIRÚRGICAS


EM PORTUGAL
Equipamento foi desenvolvido e construído em apenas dois meses

empresa decidiu país. Como produzia mais

A
António Vaz Martins,
investir no equi- barato e era fácil transportar
sócio gerente da Apineq
pamento de pro- a mercadoria, parecia prefe-
dução de máscaras rível produzir lá e colocar no
cirúrgicas para contribuir para destino final. É a globalização
a diminuição da dependência levada ao extremo, que con-
externa no fornecimento de traria o conhecimento antigo
equipamentos de uso indivi- que nos diz que quem con-
dual para o sector da saúde em centra tudo num único ponto
Portugal. mais cedo ou mais tarde será
dominado. É algo que está a
Quanto tempo mediou entre mudar rapidamente, porque
a ideia e a entrada em funcio- é preciso produzir o que ne-
namento da máquina de pro- cessitamos também no nos-
dução de máscaras cirúrgi- so país.
cas? Como é que decorreu o Só há vantagens em que isso
processo? aconteça. Não só diminuímos
Ao ver as imagens de desespe- a dependência como diver-
ro dos profissionais de saúde, sificamos a nossa oferta de
sem equipamento de prote- produtos e serviços ao mer-
ção básico, como são as más- cado e a nossa capacidade de
caras, achámos que isso não exportação de produtos com
era aceitável. E ainda ficámos elevado valor acrescentado,
mais convictos disso quan- como os médicos e farma-
do as notícias veiculadas pela cêuticos. Se apostarmos nos
imprensa nos fizeram con- produtos com elevada tecno-
cluir que todo esse material logia e valor acrescentado,
era apenas produzido por um com aplicação prática clara
só país. Era preciso terminar e objetiva, teremos maior su-
definitivamente com essa de- cesso. É preciso não esquecer
pendência. Assim, em meados que os países com capacida-
de março começámos a proje- de industrial ultrapassaram
tar a máquina e, depois, tive- mais facilmente este proble-
mos sensivelmente um mês e ma do que nós.
meio de produção. O primeiro
protótipo ficou pronto no final De que forma é que iniciativas
de maio, início de junho. como a vossa poderão contri-
buir para o país responder de
Quantas pessoas estiveram forma mais célere e eficaz a
envolvidas e de que sectores As deficiências sentidas de tendência de cada país fabri- problemas como o da pande-
da empresa? produtos e equipamentos car produtos médicos e far- mia de coronavírus que está
Estiveram envolvidos dois en- médicos, medicamentos e macêuticos e equipamentos a afetar o mundo?
genheiros mecânicos, dois en- outros itens necessários para a nível doméstico? A opção pela produção e ven-
genheiros eletrotécnicos e al- testar e proteger as pessoas A Covid-19 veio mostrar a de- da em Portugal, para o país
guns técnicos de montagem e em relação à Covid-19 con- pendência que todos tínha- estar melhor preparado para
de eletricidade. tribuirão para aumentar a mos em relação a um único sobreviver aos defeitos da

86 . EXAM E . OUTUBRO 2020


globalização realçados pela Quais são os principais sec-
crise recente, implica mu- tores económicos onde a em- 25 ANOS DE EXPERIÊNCIA
dar a forma como se pensam presa atua?
os negócios e a economia. Se Os principais sectores são as Criada em 1995, a APINEQ começou como empresa especializada
em engenharia de controlo de processo e automação industrial.
outras empresas tiverem a indústrias papeleira, alimen-
Entretanto, começou a especializar-se também em eletrificação
mesma iniciativa que a API tar e automóvel. Mais recen-
de instalações e quadros elétricos. À medida que o tempo foi pas-
NEQ, Portugal tornar-se-á temente entrámos na área da sando, os clientes foram-se tornando cada vez mais exigentes,
num país muito mais inde- saúde. pedindo soluções chave-na-mão, desde a raiz da máquina até à
pendente e menos suscetível sua colocação em serviço. Para responder às suas solicitações, foi
a ser “vencido” pelas crises Quais são os principais merca- criado o departamento de engenharia mecânica e, mais tarde, o
que possam surgir. dos internacionais da empresa? de produção e maquinação, tornando-se numa fábrica totalmen-
A empresa está presente em te independente.
O que é a APINEQ e quais são diversos mercados internacio-
as suas áreas de atividade? nais. Os principais, na Europa,
A APINEQ é uma empresa são o espanhol, francês, polaco
especializada em engenharia e eslovaco. No resto do mundo O nosso compromisso com a efeitos da epidemia de coro-
de controlo de processo, auto- estamos ativos principalmente melhoria contínua dos pro- navírus na atividade empre-
mação industrial e fabricação em Marrocos e Angola. cessos visa prestar um servi- sarial, económica e social em
de máquinas não standard. ço cada vez melhor aos nos- Portugal?
Fornece soluções para melho- O que é que a empresa procu- sos clientes. Procuramos, A empresa manteve o seu
ria e otimização de processos ra oferecer aos seus clientes sobretudo, ser, com cada um trabalho e avançou com os
industriais, que vão desde a que a distingue no mercado? deles, um parceiro de negó- projetos planeados. Ao mes-
engenharia de controlo até Selecionamos os melhores cio, e não apenas um mero mo tempo, teve a necessida-
soluções chave-na-mão, com fornecedores/colaborado- fornecedor de serviços ou de de pensar em novas áreas
fornecimento de equipamen- res, nas melhores condições equipamentos. de negócio, que contribuam
tos industriais e quadros elé- de mercado, desenvolvendo para que a atividade da em-
tricos. As máquinas são de- para isso relações de parce- Quais foram as principais presa se mantenha firme e
senvolvidas para automatizar ria com a perspetiva de cres- ações tomadas pela empre- sustentável mesmo em tem-
e otimizar os processos. cimento de ambas as partes. sa para atenuar e superar os pos de crise.

Sistemas de produção
de máscaras cirúrgicas da APINEQ

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 87


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚDE | CASOS DE SUCESSO

APP THERMAL CHAIN INNOVATION LANÇA


eKOOL SMART COVER PCM
Nova solução para transporte de produtos sensíveis à temperatura foi criada a pensar no sector da saúde

tiva há mais de 15 quando os produtos são muito

A anos, a APP Ther-


mal Chain Inno-
vation produz sis-
Manuel Pizarro,
CEO da APP Thermal Chain
Innovation
sensíveis. “Uma das vantagens
é, sem dúvida, a sua versatili-
dade, visto que foi projetada
temas passivos e ativos que para manter a temperatura
permitem transportar mate- controlada dos produtos ter-
riais que se destroem ou per- mossensíveis durante o trans-
dem as suas propriedades a de- porte aéreo, marítimo e terres-
terminada temperatura, como tre”, explica Manuel Pizarro.
acontece com os medicamen- Por exemplo, “num avião em
tos, os órgãos ou o sangue. temperatura controlada, não
“Através das nossas soluções existirá qualquer alteração
e serviços de consultoria, aju- nas condições de transporte do
damos inúmeras empresas a produto num período até cerca
distribuir, armazenar e expor- de 15 horas”, frisa. Isso mos-
tar os seus produtos de forma tra a sua eficácia no transpor-
segura e eficaz, mesmo em si- te em toda a Europa, onde os
tuações extremas”, explica Ma- voos raramente demoram mais
nuel Pizarro, CEO da empresa. didos a chegar à empresa desde temperatura e a sua geolocali- do que cinco horas. “As vaci-
Já foram, inclusive, “utilizados o Japão aos Estados Unidos. “A zação durante os envios, o que nas, que não podem congelar,
para exportar medicamentos aprovação do sistema por uma é essencial para assegurar que podem ser colocadas numa câ-
para variadíssimas partes do das grandes farmacêuticas e/ou aquilo que protege chega em mara de frio, coberta por uma
globo”, acrescenta. Duran- um dos grandes operadores lo- segurança e nas condições de PCM de 4ºC, que durante um
te a pandemia, a empresa fa- gísticos internacionais poderá ser utilizado. largo período de tempo não
cultou, por exemplo, sistemas contribuir, de forma marcada, descerá dos 2ºC”, diz Manuel
para fazer chegar aos doentes para o negócio APP Thermal TRANSPORTE CONTROLADO Pizarro. “O que isto signifi-
oncológicos que viram limita- Chain Innovation”, salienta. A e-Kool Smart Cover PCM foi ca é que conseguimos fazer o
do o acesso ao hospital os seus A e-Kool Smart Cover PCM é desenvolvida para absorver transporte de vacinas de uma
medicamentos indispensáveis. uma manta térmica com ma- e libertar calor, mantendo o forma controlada, diminuindo
teriais impregnados que acu- ponto de conservação dos pro- o risco de existirem oscilações
SISTEMA DE MONITORIZAÇÃO mulam energia durante a dutos a transportar de forma de temperatura”, informa ain-
Produtos da empresa, como a congelação e libertam-na du- a poder fazer dupla proteção da o responsável.
recente manta e-Kool Smart rante a descongelação. As suas
Cover PCM, estão aprovados propriedades permitem que
pelas principais indústrias far- mantenha uma gama de tem-
macêuticas da Europa, Ásia e peraturas preestabelecidas du-
América do Sul. Criada a pen- rante vários períodos de tempo
sar essencialmente neste sector, e apresente um desempenho
é modelar e poderá ser utiliza- térmico muito superior ao de
da e reutilizada em todos os uma manta convencional. Com
produtos que sejam sensíveis um revestimento isotérmico de
à temperatura. “Estamos neste quatro camadas de materiais
momento já com testes em cur- distintos e interior impregna-
so para o envio de pescado de do, conta ainda com um sis- A e-Kool Smart Cover PCM foi concebida fundamentalmente
alto valor”, conta Manuel Pizar- tema de monitorização incor- para a indústria farmacêutica, mas poderá ser utilizada
ro, referindo que já existem pe- porado que permite controlar a por todos os produtos que sejam sensíveis à temperatura

88 . EXAM E . OUTUBRO 2020


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚ DE | OPI N IÃO

NOVA ABORDAGEM À FIXAÇÃO DE


PRÓTESES A IMPLANTES DENTÁRIOS
Sistema Simplified é um projeto cofinanciado pelo Portugal 2020 e desenvolvido em parceria entre a indústria
e os centros de investigação nacionais

ova abordagem às mance, como o PEEK (polié-

N soluções de fixa-
ção de próteses a
implantes den-
Ana Cortez,
RDI Manager da Celoplás, Plásticos
para a Indústria
ter-étercetona), permitem a
utilização segura dos compo-
nentes retentores quando são
tários, o sistema Simplified aplicados em métodos de fabri-
pretende oferecer aos doentes co precisos, como a microma-
e profissionais de saúde um quinação e microinjeção.
produto significativamen-
te mais rápido, económico e APOSTA EM SINERGIAS
vantajoso para o sucesso do Os nanorrevestimentos de-
tratamento dentário. Integra senvolvidos aumentam as ca-
um conjunto retentor de plás- racterísticas diferenciadoras
tico, que é acoplado a um pilar do produto, conferindo-lhe
dentário para permitir a sus- propriedades mecânicas e
tentação e retenção da prótese biológicas que permitem ul-
sobre o implante por meios to- trapassar problemas clínicos
talmente mecânicos. O siste- frequentes causados pela per-
ma garante a vedação correta da da força de aperto do pilar
entre a prótese e os elementos ou dos parafusos protésicos.
protésicos, sem recurso à téc- Os instrumentos auxiliares de
nica de aparafusamento ou à aplicação permitem simplifi-
técnica cimentada. car o processo de inserção e
manutenção da prótese den-
PARCERIA VENCEDORA tária e a definição de referên-
O projeto Simplified surgiu cias para construção das pró-
da colaboração entre a Celo- teses com recurso às técnicas
plás, Plásticos para a Indús- tradicionais de impressão ou
tria, o promotor líder, a Gadget de aquisição de imagem via
Whisper, a Faculdade de En- scanner.
genharia da Universidade do A COMPLEMENTARIDADE A aposta em sinergias que pos-
Porto (FEUP) e o Laboratório DE COMPETÊNCIAS ENTRE sibilitam a transferência de
Ibérico Internacional de Nano-
tecnologia (INL). Cofinanciado OS PARCEIROS ENVOLVIDOS conhecimento e experiências
entre as instituições do SCT
pelo Portugal 2020, no âmbito FOI ESSENCIAL PARA O SUCESSO e a indústria teve um grande
do Sistema de Incentivos à In- DO PROJETO impacto na qualidade dos re-
vestigação e Desenvolvimento sultados alcançados, demons-
Tecnológico (SI I&DT), envol- trando as vantagens para o
veu um investimento elegível logias de micromaquinação, cessária, o sistema Simplified tecido empresarial português
FEDER de 934.337,14 euros. micromoldes, microinjeção, pode ser aplicado em próteses desta forma de atuar. Os resul-
O trabalho foi feito através da materiais de elevado desem- unitárias ou compostas, totais tados do projeto Simplified es-
aplicação e desenvolvimen- penho e revestimentos anti- ou parciais, temporárias ou de- tão agora materializados num
to de conhecimentos de im- desgaste com propriedades finitivas. Basta mudar um dos pedido de patente europeu.
plantologia dentária, design e antimicrobianas. componentes do conjunto, o Para mais informações, con-
desenvolvimento de produto, De acordo com a situação clí- retentor interno. Materiais se- sulte a página do projeto em
simulação estrutural, tecno- nica e força de retenção ne- lecionados de elevada perfor- www.simplified.pt.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 89


DOSSIÊ PROMOCIONAL E S P E C I A L S A Ú D E | E N T R E V I S TA

HFZOVAR, UM HOSPITAL DO SNS CENTRADO


NA SUA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL
Consciente dos desafios atuais dos sistemas informáticos da saúde, o HFZ-Ovar, em parceria com a Prologica,
adopta a plataforma de Business Intelligence, MELIORA, com o propósito de se transformar num hospital data-driven.

Considera importante para a sendo este um processo gradual no futuro, cada vez mais uma
gestão hospitalar do HFZ-O- que vamos continuar a desen- evidência, tais são os ganhos
var a utilização de soluções de volver com segurança mas com para o conhecimento e para a
Business Intelligence? Porquê? determinação. investigação. Com ferramen-
Considero muito importante. tas de IA, para além de sermos
Num hospital existe um con- Com a utilização da platafor- capazes de armazenar e ma-
junto vasto de ferramentas in- ma MELIORA, que tipo de van- nipular enormes quantidades
formáticas que, diariamente, tagens já identificaram e que de dados, conseguiremos ge-
geram imensos dados e imensa outras contam identificar bre- rar, deduzir e inferir conheci-
informação, desde a componen- vemente para a prática clínica mento novo que nos permiti-
te clínica à administrativa. O que e administrativa? rá resolver problemas antigos
acontece é que muita dessa in- A utilização desta ferramenta e que surgirão neste percurso.
formação está adormecida nos Luís Miguel Ferreira, permite-me, desde logo uma Na área da saúde, a IA poderá,
servidores, sem que se consiga Presidente do Conselho coisa muito simples: não pre- de facto, contribuir para encon-
Diretivo do Hospital
extrair valor ou gerar qualquer cisar de ligar aos serviços para trarmos soluções para questões
de Ovar (HFZ-Ovar)
tipo de conhecimento que pos- saber quantas cirurgias foram clínicas complexas, através da
sa ser útil ao “negócio”. A im- realizadas o mês passado em análise de grandes quantidades
plementação de uma solução comparação com o mês ho- de dados gerados, a toda a hora,
de Business Intelligence (BI) da Sanofi/Jornal de Negócios. mólogo de um ano anterior, ou nas instituições de saúde.
permitirá ajudar a organização Claro que a abertura dos colabo- quanto foi gasto mensalmente A uma outra escala, por exem-
a dar utilidade a muita dessa in- radores do Hospital à mudança em transportes não urgentes plo nesta fase de pandemia, é
formação que, de outra forma, foi, neste percurso, essencial desde o início do ano. Esta li- muito importante conhecer-
seria muito difícil de tratar, dige- para conseguirmos transformar berdade no acesso à informa- mos a realidade com a utiliza-
rir e rentabilizar no processo de processos, pelo que a tecnologia ção é muito importante para ção de todos os dados que se
decisão e de melhoria do desem- pouco importaria caso não en- quem decide e essa é, de facto, vão gerando para conseguir-
penho da própria organização. contrássemos nos nossos cola- uma vantagem enorme. mos, com modelos e metodo-
boradores essa postura aberta. Obviamente que a utilização logias cientificamente robus-
Qual tem sido a experiência Ainda assim, claro que muito da informação, de forma ami- tas, antecipar cenários e tomar
das equipas do HFZ-Ovar no do que tem sido feito no Hos- gável, que geramos diariamen- decisões que invertam ten-
processo de implementação pital no contexto deste projeto te permitirá, no futuro, aos res- dências e atendam a contex-
da plataforma MELIORA da passou também pela adoção de ponsáveis pelos vários serviços tos mais ou menos difíceis que
Prologica? tecnologia facilitadora do dia a perceber melhor as dinâmicas e venham a ocorrer. Daí que, na
O Hospital de Ovar, desde que o dia da organização, como foi o os constrangimentos de forma linha da inovação que temos
atual Conselho Diretivo tomou caso da plataforma MELIORA. mais segmentada, no sentido tentado imprimir no Hospital
posse em setembro de 2017, tem Esta plataforma tentou, inicial- da adoção de medidas que po- de Ovar, tenhamos participa-
apostado fortemente na desma- mente, responder às necessida- tenciem os recursos e melho- do num consórcio que desen-
terialização de registos e pro- des diárias da equipa de gestão rem a atividade e o desempe- volveu um projeto financiado
cessos, através da execução do de topo, tanto mais que o acesso nho coletivo. pela FCT que, na prática, criou
projeto HOSP: Hospital de Ovar à informação da produção hos- uma ferramenta preditiva que
sem Papel que nos permitiu já pitalar nas mais variadas áreas Que soluções de Inteligência avalia uma escala de risco hos-
alcançar resultados importan- estava bastante condicionado. Artificial reconhece como es- pitalar e define planos de con-
tes. Aliás, com este projeto, o Quem conhece o SONHO sabe- senciais para a evolução dos tingência a aplicar consoante
Hospital de Ovar conquistou, rá do que estou a falar. Hoje em cuidados de saúde? o comportamento evolutivo da
inclusivamente, o prestigiado dia, a generalização do acesso à A aplicação da Inteligência Ar- epidemia de COVID19 para o
Prémio Saúde Sustentável 2019, plataforma continua a decorrer, tificial (IA) na saúde vai ser, HFZ-Ovar.

9 0 . EXAM E . OUTUBRO 2020


PROLOGICA: O BI É O PRIMEIRO PASSO
PARA UMA CULTURA VALUEDRIVEN
A saúde é o foco de intervenção da Prologica, empresa que desenvolve soluções tecnológicas de suporte à tomada de decisão
para a geração de valor

Como é que a Prologica se A partir da plataforma centrada no utente.


posiciona na realidade dos MELIORA, importa também Tendo esta informação e de-
sistemas de informação em referir que, qualquer hospi- talhe disponível, e recorren-
Portugal? tal pode suprir as suas ne- do a tecnologias de Inteli-
A realidade aplicacional da cessidades de Business Intel- gência Artificial, o próximo
saúde é de facto muito com- ligence, sejam necessidades passo é começar a antecipar
plexa e paradoxal. Se por um holísticas ou departamentais cenários e situações futuras.
lado temos cada vez mais in- para áreas como: Contrato- Por exemplo, neste momento
formação sobre os utentes e -Programa, Infeções, ativi- já existem projetos de previ-
registos dos atos praticados, dade assistencial, Urgências, são e simulação que estamos
por outro lado temos ain- SICA, Imagiologia. Através a implementar, cujo propósi-
da imensa dificuldade em da arquitetura nativa e fle- to é alertar os profissionais,
cruzar e analisar essa in- xível que desenvolvemos, em tempo útil, respondendo
formação para processos de várias são as possibilidades a perguntas como: de todos os
análise, benchmarking ou de customização para mo- doentes internados no hospi-
melhoria da atividade clíni- nitorização dos dados hos- tal e considerando a especiali-
ca e/ou operacional. E isto pitalares. Por exemplo, ana- dade do profissional, quem é
é, sem dúvida, a nossa es- lisar o percurso do utente, o doente que carece de maior
trela polar, o que nos move os seus resultados, intercor- atenção e que tem maior ris-
e onde acreditamos que po- rências e custos inerentes ao co de deterioração do seu es-
demos fazer a diferença. É de seu ciclo de cuidados num tado de saúde? O que está a
vital importância para todos único dashboard, de forma influenciar essa situação? E
os agentes de saúde que se Diogo Reis, rápida e intuitiva, é um de- quais são as medidas que de-
consiga dar vida e utilida- Administrador Executivo safio que estamos já a ende- vemos adotar para prevenir
de à informação registada da Prologica reçar através da plataforma estas situações de crise?
historicamente e alimenta- MELIORA, o que permi- Outro exemplo atual: quan-
da diariamente para proces- te uma análise e gestão de tos utentes entrarão amanhã,
sos de melhoria operacional Inteligência Artificial, pes- forma muito holística, foca- por hora, no serviço de ur-
e clínica. E a nossa plata- quisa ad-hoc), a plataforma da e diferenciadora do que gência? Qual será o meu
forma MELIORA permite e MELIORA é uma solução úni- a abordagem tradicional, tempo de resposta tendo
potencia a resolução de tais ca e inovadora na realidade tendo por base os princípios em conta os recursos dis-
necessidades. aplicacional vigente e um ca- da saúde baseada em valor poníveis (profissionais, es-
nal de transição para o novo (Value-Based Healthcare). trutura e equipamento)? E
Se a realidade aplicacional é futuro de medicina baseada qual seria o impacto na mi-
tão vasta e diversa, como é na evidência dos dados, na Que novas oportunidades nha capacidade de resposta
que a plataforma MELIORA ponta dos dedos de todos os e paradigmas permite esta se alterássemos alguns dos
se diferencia e destaca de to- agentes, em tempo real. nova realidade que vocês recursos (Ex: Alocar mais
dos esses sistemas? Hoje, o MELIORA oferece preconizam? um profissional à equipa)?
Quer através da sua base (um uma capacidade de integra- Ao integrarmos com todos Este tipo de projetos tem por
repositório de verdade úni- ção ímpar com todos os sis- os sistemas e criarmos a tal base a utilização de Inteligên-
co e transversal à organi- temas numa única realidade, fonte de verdade transver- cia Artificial aplicada aos da-
zação, centrada no utente) de forma correlacionada e in- sal a partir da qual todo o dos permitindo, como facil-
quer através das funciona- terligada, usando sempre que MELIORA assenta, várias são mente se percebe, uma nova
lidades que incorpora (Ex: possível standards de intero- as oportunidades ao nível da realidade a todo o sistema
monitorização, alarmística, perabilidade internacionais. gestão clínica e operacional, de saúde em Portugal.

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 91


DOSSIÊ PROMOCIONAL ESPECIAL SAÚDE | CASOS DE SUCESSO

OMS LANÇA CARTA DE SEGURANÇA


DO TRABALHADOR DE SAÚDE
Organização defende que, para proteger os doentes, é necessário fazer o mesmo com os trabalhadores de saúde.

Organização

A Mundial de Saúde
(OMS) está a aler-
tar os governos e
A SEGURANÇA DA INTERNET
DAS COISAS MÉDICAS
todos os líderes do sector para Embora a computação em nuvem seja de compreensão mais ime-
as ameaças permanentes à saú- diata, a tecnologia de blockchain ainda é um mistério para muitas
de e segurança dos profissio- pessoas. Trata-se de um registro distribuído, descentralizado como
nais de saúde e pacientes. medida de segurança.
Tedros Ghebreyesus, diretor-ge- Ambas as tecnologias ganharam popularidade recente no sector
da saúde por responderem à necessidade de armazenamento
ral da OMS, lembrou, durante a
seguro, acessível e eficiente de grandes quantidades de infor-
apresentação da Carta de Segu-
mação, que possa ser acedida e compartilhada em tempo real.
rança do Trabalhador de Saúde Tedros Ghebreyesus, Segundo a Kelyon, especialista internacional do mercado digital
(CSTS) desta instituição, que “a diretor-geral da OMS dos cuidados de saúde, prevê-se que a computação em nuvem e a
pandemia de Covid-19 realçou o blockchain irão dominar o ecossistema de TI da saúde na próxi-
papel vital dos profissionais de ma década, apoiando e melhorando processos, como o registro
saúde no alívio do sofrimento e físicos e biológicos, melhorar médico eletrónico, as consultas remotas e a entrega de relatórios
na salvação de vidas humanas”. a sua saúde mental, promover de imagem diagnóstica, além de resolverem muitos dos proble-
Segundo este responsável, “ne- programas nacionais de segu- mas de segurança cibernética que têm afetado o sector da saúde.
nhum país, hospital ou clínica rança do trabalhador de saúde A União Europeia vem explorando o potencial da tecnologia de
pode manter os seus pacientes e conectar as políticas de segu- blockchain há alguns tempo, instituindo, há um par de anos, o Ob-
servatório e Fórum Blockchain e, mais tarde, a Parceria Blockchain
seguros a menos que mantenha rança do trabalhador de saúde
Europeia, para fornecer serviços públicos transfronteiriços usando
os seus profissionais de saúde às do paciente.
esta tecnologia. A próxima etapa passará por combinar as duas
seguros”. A Covid-19 expôs os profissio- tecnologias, usando a blockchain para proteger os dados de saúde
nais de saúde e suas famílias a alojados na nuvem, respondendo às preocupações de seguran-
PROTEÇÃO níveis de risco sem preceden- ça em relação à Internet das coisas médicas, que inclui todos os
DOS PROFISSIONAIS tes. Os dados de muitos países dispositivos médicos e aplicativos que se podem conectar e trocar
O lançamento do documento indicam, segundo a OMS, que informações com sistemas de TI da saúde.
visa “garantir que os trabalha- as infeções entre os profissio-
dores do sector têm condições nais de saúde são muito su-
de trabalho seguras e o trei- periores às da população em
no, remuneração e respeito geral. Embora representem
que merecem”, defendeu Te- menos de 3% da população na
dros Ghebreyesus, salientan- grande maioria dos países, cer-
do que a pandemia destacou ca de 14% dos casos notificados
a importância da proteção dos à OMS foram de trabalhadores
profissionais e o seu papel fun- da saúde. Em alguns países, a
damental na garantia do fun- proporção chegou aos 35% e
cionamento dos sistemas so- muitos deles perderam a vida.
ciais e de saúde. Além dos riscos físicos, a pan-
A carta lançada pela OMS des- demia elevou os seus níveis
taca cinco ações necessárias de stress psicológico, devido
para melhorar a proteção dos ao seu trabalho decorrer em
trabalhadores de saúde e as ambientes ainda mais difíceis,
formas de as desenvolver. De- onde a exposição à doença foi mília. A acrescentar a isso ain- de assédio verbal, discrimina-
fende que é preciso protegê- uma constante, enquanto se da houve, segundo a OMS, “um ção e violência física aos pro-
-los da violência e de perigos mantiveram separados da fa- aumento alarmante de relatos fissionais de saúde”.

9 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


A F E STA C O N T I N UA

24 e 25
OUTUBRO
ESTUFA FRIA
LISBOA

A sua revista ao vivo

PALESTRAS
DEBATES
CONCERTOS
TED TALKS
EXPOSIÇÕES
HUMOR
E MUITA ANIMAÇÃO

U M F E ST I VA L P E L O P L A N E TA
Em 2020, Lisboa é a Capital Verde Europeia. O evento VISÃO Fest Verde insere-se
na programação oficial desta iniciativa, da Câmara Municipal de Lisboa.
Macro

DANIEL STELTER/Economista

“Estou convencido de que


o euro não durará. Mas pode
durar muito mais tempo
do que imaginamos”
Em entrevista à EXAME, o economista alemão, autor de Coronomics, diz que só será
possível manter o euro vivo se a União Europeia assumir muito mais dívida e o Banco
Central Europeu continuar a ser um credor de último recurso para todos os governos
Texto Paulo Zacarias Gomes

D
aniel Stelter lançou re- não surpreendeu que os governos tenham
centemente um livro, anunciado grandes programas de investi-
escrito no deflagrar da mento e os bancos centrais tivessem in-
pandemia, em que ar- tervindo de uma forma sem precedentes,
gumenta que a atual financiando abertamente aqueles esfor-
crise é o pretexto que faltava aos governos ços. Até a União Europeia (UE) avançou
para transformarem as suas economias. no sentido de permitir uma centralização
Com a monetização da dívida por parte da dívida. De acordo com algumas esti-
dos bancos centrais dada como adquiri- mativas, o mundo industrial acrescentará
da, o economista propõe, entre outros, a cerca de 18 biliões de dólares norte-ame-
transferência de uma parte dos encargos ricanos à dívida pública só no ano 2020.
dos países do euro para um “banco mau”
que amortize essas responsabilidades ao Entretanto, foi alcançado esse acordo
longo de séculos. Em respostas por escri- sobre o plano de recuperação da União
to a questões da EXAME, o autor aborda Europeia. O mecanismo é adequado e o
as soluções encontradas no seio da União valor é suficiente?
Europeia para enfrentar a Covid-19 e diz Em primeiro lugar, esse já era, de qual-
que o País tem de investir em infraestru- quer maneira, o plano quando foi intro-
turas, educação e inovação. “Só aumen- duzido o euro. A expectativa dos governos
tando o PIB per capita Portugal pode ter francês e italiano foi sempre a de chegar
sucesso na UE e no euro. Receber transfe- a uma união de dívidas e transferências.
rências é bom, mas isso não vai funcionar Os governos do Norte, principalmente o
para sempre”, afirma. da Alemanha, sempre disseram aos seus
eleitores que não seria esse o caso. A cada
Desde abril, altura em que terminou Co- crise, avançamos mais nessa direção, e
ronomics, como lê a evolução económica Wolfgang Schäuble, ex-ministro das Fi-
CORONOMICS
para combater os efeitos do novo coro- nanças alemão, salientou recentemente,
 UM NOVO COMEÇO
navírus? A PARTIR DA CRISE
em entrevista, que a “coronacrise” ofere-
As ações, tanto de governos como de ban- ce a oportunidade ideal para mais inte-
AUTOR
cos centrais, estão totalmente em linha Daniel Stelter gração, o que significa união de dívidas e
com as minhas expectativas. Dado o já fra- transferências.
PÁGINAS
co crescimento na Europa e nos EUA antes 166 Após a cimeira, os políticos alemães
do choque da Covid-19, os elevados níveis EDITORA
referiram que a dívida contraída em con-
de dívida e a crise não resolvida do euro, Editorial Presença junto e as transferências do “plano de re-

94 . EXAM E . OUTUBRO 2020


cuperação” seriam uma exceção, mas já
recentemente o ministro das Finanças
[germânico] Olaf Scholz afirmou esperar
que, daqui em diante, seja normal para a
A UE está UE contrair dívida e efetuar transferênci-
a caminho de as. Portanto, do ponto de vista de quem
acredita que só é necessário mutualizar
uma economia a dívida e instalar transferências perma-
de planeamento nentes dos Estados mais ricos para os mais
mais socialista, pobres, parece um grande sucesso.
Estou mais cético por três razões. Pela
incluindo na primeira vez, sabemos, pela experiência
sua abordagem na Alemanha (Baviera - Berlim) e em Itá-
para combater lia (norte - sul), que as uniões de transfe-
rência fortalecem as diferenças existentes
as alterações e até as pioram. Portanto, transferir di-
climáticas” nheiro não resolve, por si só, o problema
subjacente. Além disso, há estudos que
demonstram que, mesmo em países com
transferências estatais, os fluxos de capi-
tal privado são mais importantes enquan-
to estabilizadores económicos do que as
transferências orçamentais, e esses fluxos
de capital privado não funcionam na zona
euro. Finalmente, porque não é justo. Se
olhar para a riqueza privada das famílias,
verá que a família média alemã tem sig-
nificativamente menos riqueza do que a
espanhola, a italiana e a francesa – quase
a mesma que a portuguesa. Os italianos
têm o maior nível de riqueza privada e o
nível mais baixo de endividamento. Ou
seja, temos uma transferência de pobres
para ricos, e duvido de que isso seja sus-
tentável.

O colapso do euro, que aborda como pos-


sibilidade no livro, é um cenário credí-
vel e previsível em consequência desta
pandemia? O que falta para que isso se
materialize?
O colapso foi e é um cenário com uma
baixa probabilidade. Do ponto de vista
puramente económico, a união monetá-
ria não funciona, mesmo quando embar-
camos em transferências orçamentais. O
banco norte-americano JP Morgan afir-
mou, uma vez, que se todos os países do
mundo que começam pela letra “M” se
juntassem numa união hipotética, teriam
mais em comum do que a zona euro. Mas,
apesar de todos os avisos, os políticos de-
cidiram introduzir o euro e farão de tudo
para manter viva a união. Tal só será pos-
D.R.

sível se a UE assumir muito mais dívidas e

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 95


Macro

o Banco Central Europeu (BCE) continu-


ar a ser o credor de última instância para
todos os governos. Basicamente, veremos
uma “monetização” da dívida por parte do
BCE, e isso ganhará tempo para o projeto.
Nesse cenário, não haverá incentivo
para que países mais fracos, como a Itá-
lia, saiam do euro, uma vez que recebem
transferências e têm restrições orçamen-
tais e monetárias limitadas. Por outro
lado, os países do Norte não ficarão muito
felizes. A Alemanha manter-se-á no euro
haja o que houver, dada a sua história.
Portanto, devo supor que um país como
a Holanda poderia acabar por votar pela
saída do euro e da UE. Mas pode demorar
uma década até que isso aconteça. Estou
convencido de que o euro não durará. Mas
pode durar muito mais tempo do que po-
demos imaginar.

Sugere que não há pretexto melhor do


que a atual pandemia para que a Euro-
pa aplique algumas medidas económicas
radicais...
Bem, como já vimos, as coisas acontece-
ram – e muito mais depressa do que espe-
rava a maioria dos observadores, eu inclu-
ído. Temos um “fundo de reconstrução”
que pressupõe transferências significa-
tivas sem condições entre os países – a
Alemanha vai, basicamente, conceder 100
mil milhões de euros –, temos uma UE
em posição de contrair empréstimos de
grande vulto e um ministro das Finanças
alemão a admitir abertamente que esta é
uma nova ferramenta e não será a única.
Também temos um BCE disposto a agir
como credor de última instância e a man- os que usaram para medir o progresso,
ter baixas as taxas de juros para todos os só podemos admitir que falharam. A Eu-
governos. Diria que são muitas mudan- ropa perdeu ainda mais competitividade.
ças. Chamaria a isto uma reforma? Não. A atual agenda dá poucas esperanças de
E duvido de que tenhamos alguma. No inverter essa tendência. Pelo contrário,
meu livro, defendo a solidariedade ale- colocar ainda mais dívida em cima dos
mã, mas em troca de uma agenda clara problemas só vai piorar as coisas.
de reformas.
Por “reforma” não quero dizer austeri- Qual seria a mais eficaz e viável das idei-
dade, mas sim investimentos para aumen- O mercado livre as radicais que menciona?
tar o potencial de crescimento da Europa: Precisamos de reduzir o endividamento
em infraestruturas, educação, inovação. não é o culpado da economia real, principalmente o que
Em 2000, na cimeira de Lisboa, os líde- pela pandemia. for contraído por causa da crise do coro-
res europeus prometeram tornar esta re- Foi mais uma falta navírus. Precisamos de resgatar essa dívi-
gião na mais competitiva do mundo até da, equilibrar os balanços das empresas
2010. Em 2010, prometeram o mesmo de preparação por e recuperar a saúde do sistema bancário.
para 2020. Se olharmos para os critéri- parte dos governos” Não o fizemos depois de 2009 [última cri-

9 6 . EXAM E . OUTUBRO 2020


em Itália na forma de “Mini-BOTs” [títulos mas apenas para aqueles “que precisam”,
do tesouro de baixa denominação e ma- enquanto os outros, como a Alemanha,
turidade muito curta], basicamente uma continuam com políticas de austeridade,
forma de dinheiro na forma de dívida so- incluindo impostos elevados para os seus
berana que poderia ser usada para paga- cidadãos. Isso é estúpido, e a Alemanha
mentos correntes e para pagar impostos também devia tirar partido da moneti-
sobre o rendimento. O euro continuaria zação da dívida. A propósito: mais lucro
a existir, mas na prática o novo dinhei- para os alemães e mais investimentos na
DA CONSULTORA ro prevaleceria no dia a dia. Duvido de Alemanha seriam boas notícias para a
AO FÓRUM que tal aconteça em breve, uma vez que Alemanha e para toda a UE!
os líderes europeus ganharam tempo com
> NOME mais dívida. Antevê mudanças duradouras nas regras
Daniel Stelter da zona euro, como, por exemplo, o limi-
É possível realizar a monetização da dí- te de 3% do PIB para os défices?
> V I DA vida mantendo a independência de um Sim. A meu ver, acabarão por ser extintos,
Nasceu em Berlim, Alemanha, em
banco central, nomeadamente do BCE? uma vez mais de uma forma que não irrite
29 de maio de 1964. Licenciatura
Seria possível persuadir Estados mem- os contribuintes do Norte [da Europa]. A
em Gestão de Empresas e
doutoramento em Economia pela
bros relutantes, como a Alemanha, a for- UE continuará a esconder o que está re-
Universidade de St. Gallen malizar essa solução? almente a preparar. Pode acontecer que
O “banco central independente” é histó- fiquemos com a regra dos 3%, mas adici-
> CARREIRA ria. Não apenas na Europa, mas em todo o onemos uma dívida significativa ao nível
Trabalhou para a consultora estra- mundo. Os governos só podem financiar da UE para apoiar alguns Estados. Redis-
tégica Boston Consulting Group os seus programas com o apoio dos ban- tribuição, dívida e impressão de dinheiro
durante 23 anos, até 2013, tendo cos centrais. Assim, veremos um regresso vão dominar a década de 2020. Não que
chegado a senior partner. Nesse da “coordenação monetário-orçamental” tais abordagens vão resolver os problemas
ano, criou o fórum de estratégia como tivemos durante e após a Segunda subjacentes, como a demografia, a dete-
e macroeconomia Beyond the
Guerra Mundial. Este também será o caso rioração do crescimento da produtivida-
Obvious. Autor de vários livros, é
da zona euro. O Governo alemão aceita de e a perda de competitividade. Mas isso
considerado pelo jornal Frank-
furter Allgemeine Zeitung como
isto há muito tempo, mas não oficialmen- dá tempo aos políticos. Para “pontapear a
um dos 100 economistas mais te. O Tribunal Constitucional alemão pode lata pela estrada abaixo”, como dizem os
influentes na Alemanha não gostar, mas não vai matar o euro. Por- americanos.
tanto, provavelmente disfarça-se um pou-
co a coisa para não parecer muito óbvia. Que países europeus têm maior proba-
bilidade de sair em melhor forma desta
E há a questão da reestruturação da dí- crise? E, nesse caminho de recuperação,
D.R.

vida, que propõe utilizando um Fundo onde colocaria Portugal?


Europeu de Solidariedade para um Fu- A curto prazo, a Alemanha pode sair-se
turo Melhor. Essa forma de lidar com a relativamente melhor, porque mobilizou
se] e precisamos de o fazer agora. O BCE dívida resolveria o problema de uma vez mais dinheiro. A médio prazo, presumo
poderia desempenhar aqui um papel vi- ou, depois de termos ficado viciados em que os países que não fazem parte do euro
tal, refinanciando um “banco mau”, como dinheiro barato dos bancos centrais, pas- terão um desempenho melhor e, por úl-
fizeram em Espanha o governo e o banco saríamos a ficar viciados em sucessivas timo, os que estão fora da UE têm uma
central depois de rebentar a bolha imo- reestruturações de dívidas? oportunidade de o fazer, pois podem op-
biliária. A minha proposta é simples: todos os pa- tar por abordagens mais liberais da polí-
íses da zona euro deviam transferir a dí- tica económica. A UE está a caminho de
Uma das possíveis soluções que aponta é vida pública até certo nível do PIB – ou uma economia de planeamento mais so-
a criação de blocos monetários regionais seja, 75% – em termos europeus, sendo cialista, incluindo na sua abordagem para
dentro da área do euro atual. É viável – todas essas dívidas agrupadas num “fun- combater as alterações climáticas. Talvez
e inevitável? Como conciliar isso com a do de resgate de dívidas” e refinanciadas o Reino Unido saia vencedor, dentro de
solidez da união monetária? E qual seria, pelo BCE praticamente para sempre. Des- 20 anos?
aí, o papel do BCE? sa forma, todos beneficiariam da moneti-
Bem, eu abordo uma forma elegante de zação dessas dívidas e poderiam começar No caso específico de Portugal, o Governo
tornar o euro mais flexível para alguns pa- de novo. Posso garantir que só vai aconte- insiste que a austeridade não é a solução
íses. Isso podia ter passado pela introdu- cer uma vez? Não. Seja como for, estamos para esta crise. Mas podemos (e iremos)
ção de moedas paralelas, como discutido a deslizar para a monetização contínua, realmente evitá-la?

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 97


Macro Peso de Berlim
O economista germânico diz
temer que se esteja a sobrestimar
o poder financeiro da Alemanha

Não acredito que governos e políticos pos- Para enfrentar esta crise e prepararmo-
sam gerar crescimento e bem-estar. Se fo- -nos para o pós-Covid-19, precisamos
rem inteligentes, disponibilizam uma boa mais de melhores tecnocratas ou de me-
estrutura para que o setor privado evo- lhores líderes políticos clássicos?
lua, como fez a Alemanha no pós-guerra. [Risos.] Em geral, precisamos de políticos
Portanto, se os políticos agora afirmam – mais qualificados, mas, além disso, de um
como acontece na Alemanha – que a crise público mais instruído. Na Alemanha, a
mostrou a necessidade de mais governo maioria das pessoas, inclusive as que têm
por causa de uma “falha de mercado”, isso um elevado nível de educação formal, por
é totalmente errado. O mercado livre não é vezes, orgulha-se de não perceber de eco-
o culpado da pandemia. Foi mais uma fal- nomia. Portanto, não é de admirar que os
ta de preparação por parte dos governos, políticos possam fazer coisas que não são
uma vez que as pandemias foram durante do interesse público, porque ninguém se
anos vistas como uma provável ameaça. importa.
Por outro lado, concordo que a austeri-
dade é o remédio errado neste momento. Como é possível fazer as mudanças di-
Precisamos primeiro de curar a economia. fíceis e necessárias na economia e, ao
Além disso, qual é o sentido da austerida- mesmo tempo, evitar a agitação popu-
de quando todos procuram as impresso- lar ou ceder ao populismo?
ras do BCE? Agora estamos na fase de responder a to-
dos os problemas com dinheiro fresco e
O que seria uma “coronomia” particular- mais dívidas. A UE vai embarcar no mai-
mente aplicada à realidade portuguesa? or projeto em tempos de paz, um “novo
Que investimentos e prioridades Portu- acordo verde” bilionário. A minha preo-
gal teria de pôr em prática para ter su- cupação com a agitação social não é tan-
cesso no novo ambiente pós-Covid-19? to agora. Pergunto é: como é que isto vai
Fazer o que já devia ter sido feito: inves- acabar? Se é possível imprimir riqueza
tir mais em infraestruturas, educação e com a impressão de dinheiro, porque é
inovação. Portugal é um dos países me- que nunca o fizemos? Veremos um re-
nos inovadores da Europa. Mas só aumen- gresso da inflação, um aumento ainda
tando o PIB per capita Portugal pode ter maior dos preços dos ativos e problemas
sucesso na UE e no euro. Receber transfe- muito maiores. Precisamos de nos preo-
rências é bom, mas isso não vai funcionar cupar e, olhando para países como a Ve-
para sempre. Imagine o que aconteceria nezuela, é possível ter uma ideia do que
quando as principais indústrias automó- pode acontecer no final. Acontece com
veis e de máquinas e equipamentos ale- as dívidas e dinheiro fresco o mesmo que
mãs entrassem em crise... De repente, a com o álcool: os primeiros copos sabem
Alemanha deixaria de estar em posição muito bem. anos 2500 e 1000 antes de Cristo] para re-
de apoiar a UE e o euro. duzir o fardo para a economia real. Um
Defendeu que empréstimos e nacionali- banco mau europeu que amortizasse es-
Seria um imposto sobre a fortuna exe- zações são os piores remédios para com- sas dívidas ao longo de séculos, o que não
quível e viável na economia portugue- bater esta crise. Sendo assim, quais de- é mais que uma monetização oculta.
sa? Não corremos o risco de afastar os veriam ter sido as primeiras respostas
investidores? dos governos? Que modelo económico teremos com
Os portugueses ricos são menos ricos do maior probabilidade no pós-pandemia?
que os ricos da França, Espanha, Itália e Eu não critico o apoio – critico o uso de Podemos esperar que traga maior igual-
até da Alemanha. Tributá-los pode ser po- dívida. No final, as empresas não vão con- dade e justiça social, ou isso fica nos ce-
pular, mas não ajudaria muito. Todos pre- seguir pagá-la e só estamos a adiar a sua nários da utopia?
cisamos de pensar mais em criar riqueza falência. Ou, podendo pagá-la, enfraque- Pode muito bem acontecer que vejamos
do que simplesmente em redistribuí-la. cerão a recuperação, pois empresas que mais políticas de tributação e redistribu-
E, sim, os verdadeiramente ricos já orga- têm de reduzir o endividamento não in- ição, paralelas à maior monetização de dí-
nizaram a sua riqueza de uma forma que vestem, não recrutam e não inovam. Pre- vida da História. Duvido que isso tenha
está fora do alcance dos governos. No final, cisamos de fazer um grande “jubileu de sucesso. Podemos ver mais igualdade,
os que são tributados são sempre os que dívida” [referência a amnistias de dívida mas pagando o preço de ver a riqueza re-
estão no meio. na Suméria, Babilónia e Assíria entre os duzida para todos nós. Atualmente, a im-

98 . EXAM E . OUTUBRO 2020


O que precisamos de fazer é regular
os bancos de forma que seja mais difícil
e caro conseguir crédito para especular e
comprar ativos existentes, como imóveis.
O crédito deve ser usado para meios pro-
dutivos. Além disso, temos de retribuir o
risco. Se os bancos soubessem que corri-
am realmente o risco de falência e que não
seriam sempre resgatados, operariam de
forma diferente.

O resultado das eleições nos Estados Uni-


dos da América pode ajudar a produzir um
ponto de inflexão na economia global?
Não. O conflito entre a China e os EUA
não é o conflito de Donald Trump. Ga-
nhe quem ganhe em novembro, os EUA
continuarão em conflito com a China e
tornar-se-ão mais protecionistas. Pode
ser que [Joe] Biden procure mais coope-
ração internacional e também embarque
num grande programa de estímulos sob
o rótulo de combate às alterações climá-
ticas. Mas isso não muda o quadro geral:
impressão de dinheiro, tendência para o
protecionismo e mais conflitos.

Que influência e força continuará a Ale-


manha a ter, tanto na UE como na zona
euro, particularmente diante do surgi-
mento de “tribos orçamentais” como os
“quatro frugais” e fenómenos como o po-
pulismo ou nacionalismo?
A Alemanha seguirá o exemplo da França
D.R.

e trilhará o caminho da mutualização e da


transferência de dívidas. A firme convic-
ção dos nossos políticos e do público é de
pressão de dinheiro impulsiona o valor de que só dando tudo pela Europa poderemos
ativos como imóveis e ações e, portanto, a recuperar a nossa História. Além disso, há
desigualdade. Mas a inflação pode muito a convicção de que temos de estabilizar a
bem acabar com a ilusão de riqueza e tra- Europa por causa das nossas exportações.
zer outra grande crise. Falou-se muito em Temo que estejamos a sobrestimar o po-
neoliberalismo nos últimos anos na Eu- O conflito entre der financeiro da Alemanha. Enfrentamos
ropa. Olhando para o papel dos governos, a China e os EUA não uma força de trabalho em rápido declínio;
da tributação e da regulamentação, não dependemos de indústrias antigas como
vejo dessa forma. O que tínhamos era um é o conflito de Donald a automóvel, que enfrentam uma ameaça
sistema financeiro liberalizado, inundado Trump. Ganhe que existencial; não investimos em infraestru-
de dinheiro dos bancos centrais, a apos- ganhe em novembro, tura e formação; e seguimos uma política
tar com a firme convicção de que seria de migração equivocada, que aumenta o
sempre resgatado pelos bancos centrais os EUA continuarão número de pessoas dependentes de trans-
em caso de problema. E com razão, como em conflito com ferências sociais. Mais cedo do que possa-
podemos ver agora. Mas este é apenas o a China e tornar- mos imaginar, a Alemanha não vai estar
mundo financeiro. A economia real não em posição de agir como uma barreira para
passou por uma mudança “neoliberal” se- se-ão mais a UE e o euro. E, então, tornar-se-á muito
melhante. Nos EUA é diferente. protecionistas” difícil. E

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 99


Macro PESSOAS

EM TRÂNSITO

ROGÉRIO PEREIRA JOANA BARROS


CFO da United Investments Portugal Responsável de marketing da Michael
linkedin.com/in/rogério-pereira- Page em Portugal e na Turquia
b86a741b linkedin.com/in/joana-b-

D.R.
Até agora diretor financeiro do grupo aab09a40/
United Investments Portugal (UIP), Ro- A Michael Page nomeou Joana Bar-
TA L E N T O E M AÇ ÃO gério Pereira assumiu, em setembro, ros para o cargo de Senior Marketing
o cargo de Chief Financial Officer da Executive para Portugal e Turquia,

Mónica Felgueiras empresa que detém unidades como


o Pine Cliffs Resort, o Hyatt Regency
onde assumirá a responsabilidade
pelo desenvolvimento da estraté-

reforça Coldwell Lisboa ou o Yotel Porto. O executivo


conta com um percurso de cerca de
gia de marketing e comunicação
nos dois países. Esta nomeação

Banker seis anos no grupo liderado por Carlos


Leal. Antes disso, passou pelo Vila Sol
representa um novo desafio para
a executiva, que tem uma expe-
SPa & Golf e pelo MGM Muthu Hotels. riência acumulada de 12 anos na
Nova diretora vai ajudar a garantir Em comunicado, a UIP explica que o Michael Page, em que desenvolveu
que a empresa é um lugar apelativo crescimento da sua estrutura corpora- a sua carreira na área de marketing,
para os funcionários tiva acompanha a expansão do grupo passando por diversas funções com
nas suas diversas áreas de atuação. acrescida responsabilidade.
Texto Margarida Vaqueiro Lopes

C
om experiência confirmada nas áre-
as financeira e de consultoria de RH,
Mónica Felgueiras é a nova diretora de
expansão da Coldwell Banker, tendo
assumido funções no início do mês de
setembro, e unindo os seus esforços aos de Jorge Madru- ANTÓNIO SIMÕES XAVIER VIRGILI
go Garcia. Segundo o comunicado enviado às redações, a Responsável pela operação europeia Diretor Ibérico para a área financeira
do Santander e de estratégia da Glovo
nova diretora de expansão dedicou os seus últimos anos à linkedin.com/in/xaviervirgili/
linkedin.com/in/antónio-
área da consultoria de recursos humanos, no âmbito co- simões-397606/ Xavier Virgili assume a posição de
mercial e de gestão de clientes, o que lhe permitiu conhe- António Simões assumiu a liderança Director Ibérico para a área financei-
cer as mais diversas culturas organizacionais de empresas europeia da área comercial e de retalho ra e de estratégia da Glovo, depois
das mais variadas dimensões e setores. É neste sentido do Santander. Acumula ainda, na Euro- de esta empresa estar já a operar
que a imobiliária espera que a executiva possa ajudar a pa, e juntamente com os responsáveis em 250 localidades em todo o País.
“transformar a Coldwell Banker Portugal e todos os seus globais do grupo, a área de Corporate & Virgili tem uma vasta experiência
parceiros em melhores lugares para trabalhar, fruto do Investment Banking, Wealth Manage- em planeamento e implementação
know-how e da experiência adquiridos no Great Place ment & Insurance. O anúncio foi feito de projetos estratégicos em dife-
to Work”, lê-se no mesmo documento. em maio, mas o gestor, que abando- rentes setores, tendo sido respon-
Já Frederico Abecassis, CEO da Coldwell Banker Por- nou o HSBC, só iniciou as suas funções sável pela equipa de planeamento
em setembro, tal como previsto. “Es- financeiro, análise da concorrência
tugal, destaca: “A Mónica vai ajudar-nos a selecionar os
tou muito satisfeito por me juntar ao e projetos de transformação na
líderes certos para nos representarem localmente.” Por
Santander. Este é um momento crítico companhia aérea Vueling. Ao longo
seu lado, a nova diretora realça que “os colaboradores para a indústria de serviços financeiros, da sua carreira, ocupou cargos de
refletem a organização e, sobretudo nos últimos anos, quando existem muitos fatores sociais responsabilidade em consultoria
houve um esforço acrescido para mudar as mentalida- e comerciais que apresentam desafios estratégica e ferrovial e, atualmen-
des empresariais, com foco na pessoa” e que integrar a consideráveis, mas também oportuni- te, é também professor de Finanças
Coldwell, nesta altura, acaba por ser um passo natural dades significativas para nós”, referiu, Corporativas e Estratégia Competi-
no seu percurso. E aquando da nomeação. tiva na ESADE.

1 0 0 . EXAM E . OUTUBRO 2020


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EXAME

LAZER . CONSUMO

POR SÃO SIMÃO E SÃO JUDAS


COLHIDAS SÃO AS UVAS
Acabadas as vindimas, é tempo de olhar para os vinhos que podem fazer-nos
companhia no outono, que não tarda a chegar. Do Douro aos Açores,
há muito p
por onde escolher. A EXAME selecionou algumas
referências para brindar ao novo mês
Texto Margarida Vaqueiro Lopes

Bairrada
A verdade é que qualquer brinde parece
melhor com espumante. Na Bairrada, o
enólogo Luís Gomes tem-se destacado
pela produção de vinhos originários de
vinhas velhas, assentes em solo calcário
(daí o nome GIZ) e com longos períodos de
envelhecimento em madeira nobre. Este
espumante, totalmente produzido a partir
da casta Baga, é uma ode às características
únicas da região. Muito aromático e com
uma bolha larga, é a companhia perfeita
para uns aperitivos ou para um jantar leve.

€29
https://gizbyluisgomes.com

Douro
Um blend que junta diversas castas –
totalmente produzido a partir de vinhas
velhas –, este tinto é profundamente
elegante e aromático, e não dispensa
a delicadeza a que a família van Zeller
já habituou os consumidores dos seus
vinhos. Da centenária Quinta Vale D.
Maria saem, há pouco mais de duas
décadas, algumas das melhores
produções nacionais. Perfeito para um
jantar de amigos.

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http://www.quintavaledonamaria.com

1 0 2 . EXAM E . OUTUBRO 2020


Lisboa Açores
A serra, o mar e o clima António Maçanita tem-se destacado por ser um
particular do Oeste fazem enólogo versátil, que consegue produzir vinhos
deste Adega Mãe Terroir de elevada qualidade em diversas regiões do
2015 um tinto imperdível. E País. No entanto, continua a vir dos Açores uma
desengane-se quem acha das suas mais emblemáticas referências. O
que Lisboa não produz bons Branco Vulcânico é uma explosão de frescura e
vinhos tintos. Pelas mãos salinidade, que nos leva a viajar para o Pico ao
de Anselmo Mendes e primeiro gole.

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Diogo Lopes, a Adega Mãe
apresenta os Terroir (ambos
blends de várias castas) https://shop.antoniomacanita.com/
nos anos que considera
particularmente bons: foi o
caso de 2015. Tanto o tinto
como o branco merecem
um lugar na sua garrafeira.

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Alentejo
Um projeto inusitado a quatro mãos, levado
a cabo por Susana Esteban e Dirk Niepoort, o
Sem Vergonha tinto é um vinho que nos remete
imediatamente para o clima e os sabores do
Alentejo, uma vez que é feito a partir da casta
Castelão, uma das mais tradicionais. Ganha
elegência e equilíbrio nesta produção conjunta,
e é companhia recomendável para um prato
quente de outono.

€19,50
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OUTUBRO 2020 . EXAM E . 103


Exit

LA N D ROVE R D I SCOVE RY S PO RT 4 X 2

Para
a estrada
e mais além
O SUV da marca britânica é cada vez
mais um verdadeiro familiar, mas não
perdeu a sua alma de todo-o-terreno
Texto Paulo M. Santos

Q
uando surgiu, no iní- das. No decorrer do tempo, o Discovery
cio da década de 1990, foi mudando, adaptando-se às novas exi-
o Discovery desbra- gências dos consumidores. Ganhou espa-
vou caminho para ço e conforto, tornou-se mais “estradista”, É no interior
um novo conceito na sem perder o seu ADN de todo-o-terre-
indústria automóvel. Até então, havia uma no. Hoje, é um verdadeiro SUV familiar, que o Discovery
clara distinção entre um carro familiar e com sete lugares, ideal para uma família apresenta
um automóvel equipado para enfrentar as numerosa, capaz de percorrer quilóme- as maiores
agruras do todo-o-terreno. Este modelo da tros de estrada e, a qualquer momento,
marca britânica veio provar que se poderia aventurar-se fora dela nas condições mais alterações.
ter tudo isto num só veículo. difíceis. Está maior,
O conceito vingou e o Discovery tor-
nou-se o modelo mais vendido da Land
Mas a tradição já não é o que era, e
as exigências do mercado fizeram a Land
mais moderno
Rover, com quase meio milhão de uni- Rover ir ainda mais longe, criando uma e com mais
dades produzidas ao longo de três déca- versão apenas com tração dianteira, o que, tecnologia
1 04 . EXAM E . OUTUBRO 2020
para muitos “puristas”, foi visto como são, pelo menos ao princípio, pouco intui-
uma traição do legado histórico do Dis- VERDADEIRO tivos. Como permitem várias funcionali-
covery. E a dúvida que se coloca é ape- FAMILIAR dades num só botão, por vezes acabamos
nas esta: vale a pena esta opção? Se for por fazer subir a temperatura quando pre-
um adepto fervoroso do todo-o-terreno, O termo “sport” não podia estar tendíamos aumentar a intensidade do ar.
que gosta de passar fins de semana “per- mais errado. É um verdadeiro Mas é no espaço que este SUV ganha
dido” por caminhos intransponíveis de familiar com sete lugares protagonismo. Os bancos da frente são
vales e serras espalhados pelo País, esta e muito espaço para bagagens controlados eletronicamente e permitem
não é a opção para si. Agora, se é como a uma elevada amplitude de ajustamento, o
grande maioria das pessoas – que com- que permite uma ótima posição de con-
pra um veículo deste tipo e que faz 99% dução para qualquer tipo de condutor.
dos quilómetros em estrada e, uma vez Na estrada, o seu comportamento é
ou outra, necessita de um veículo mais previsível e transmite uma boa sensação
alto para percorrer um estradão de areia de segurança, graças à suspensão, que ab-
com um piso irregular, ou enfentar uma sorve bem qualquer movimento da carro-
encosta um pouco mais íngreme –, então çaria. Apesar do seu motor de 2.0 litros e
esta pode ser a opção correta. dos 150 cavalos de potência, não espere
> ODE AO ESPAÇO
E as vantagens são várias. Primeiro, muito dinamismo deste Discovery, pois
é mais barato do que a versão 4x4, não Os bancos da frente têm uma grande
estamos perante um veículo com mais de
só no preço base como nos impostos que amplitude de ajuste, enquanto os 2,5 toneladas de peso. Fora do asfalto, e
recaem sobre a componente ambiental, da segunda fila são suficientes para embora não seja um 4x4, este modelo não
pois a tração no eixo dianteiro reduz as albergar três adultos. Na terceira linha, deixa ficar mal a tradição da marca.
emissões face aos 4x4. Por outro lado, estão dois bancos mais apropriados Mantendo uma velocidade regular
esta versão paga apenas classe 1 nas por- para crianças. e sem mudanças bruscas de velocida-
tagens, desde que equipada com Via Ver- des, este Discovery consegue consumos
de, o que, para quem faz muitos quiló- abaixo dos seis litros. No entanto, o mais
metros de autoestrada, pode representar provável é fazer médias entre os sete e os
uma poupança substancial ao fim do ano. oito litros, se incluir percursos urbanos
nas suas viagens.
EVOLUÇÃO NA CONTINUIDADE Bem dotado das mais modernas tec-
Visualmente, este Discovery mantém to- nologias de assistência à condução – re-
das os traços que o ligam às suas origens conhecimento de sinais, travagem au-
e, de um modo geral, não difere muito tomática de emergência, assistência à
do seu antecessor, lançado em 2016. No > TODA A BAGAGEM manutenção em faixa, entre outros –, este
entanto, a nova iluminação LED de per- Land Rover está disponível a partir de 61
fil reduzido, aliada ao para-choques de Com os bancos da terceira fila reba- mil euros. O preço pode parecer algo ele-
tidos, a mala tem uma volumetria de
grandes dimensões e à elevada altura ao vado, mas, atendendo à sua versatilida-
840 litros, capaz de aceitar as baga-
solo, reforçam a ideia de robustez asso- de, pode ser uma das melhores opções do
gens de qualquer família. Na versão
ciada a este modelo da Land Rover. sete lugares, o espaço é reduzido, mas
mercado. E
Quanto a novidades, o grande desta- mesmo assim suficiente para algumas
que vai para o interior, em que os enge- malas.
nheiros da marca britânica fizeram quase
um revolução, tornando-o maior e mais
moderno. Com acabamentos de qualida-
de, o interior do Discovery é dominado
por um painel de grande dimensão
na consola central, com destaque
para o ecrã tátil de dez polega-
das, no qual podemos aceder
a praticamente todo o siste-
ma de informação e entrete-
nimento.
Os comandos do ar con-
dicionado estão mais digitali-
zados e, apesar da sua eficácia,

OUTUBRO 2020 . EXAM E . 105


Exit

E S TA N T E

Construir, estratégia,
popularidade e capital
Texto Rui Barroso

AS HISTÓRIAS
DAS IDEIAS A CIÊNCIA DA
DE SUCESSO POPULARIDADE
Os caminhos improváveis A fórmula para o sucesso
que levaram à criação na era da distração
de grandes negócios
Mesmo o produto ou a
ideia mais brilhantes po- A GRANDE
Muitas vezes, na origem dem não ter sucesso se TEORIA DA
de um grande negócio A ESTRATÉGIA não estiverem inseridos num DESIGUALDADE
estão ideias fora da caixa, É QUASE TUDO contexto que lhes permita se-
como a de um jogador de fute- rem populares. Em Hit Makers, A sequela de O Capital
bol neozelandês que, para apro- Um manual para líderes Derek Thompson, editor da re- no Século XXI
veitar o excesso de lã no país, empresariais vista The Atlantic, conta a his-
criou uma empresa bem-su- tória de músicas, filmes, apps e Depois do grande impacto
cedida de calçado, ou a de um São mais de 1 500 exem- produtos que se tornaram blo- e da revolução no pensa-
monge budista que, na senda plos práticos de estraté- ckbusters. O autor demonstra mento económico conse-
para mostrar os benefícios da gia empresarial que são que a qualidade, por si só, não guidos com O Capital no Século
meditação, criou uma app ava- úteis para inspirar a difícil ta- é sinónimo de sucesso e explica XXI, Thomas Piketty apresenta
liada em centenas de milhões refa de liderar e gerir. Neste li- que o importante é conseguir a sequela. Numa obra com mais
de euros. Guy Raz (produtor, vro, Adriano Freire, presiden- captar a atenção das pessoas de 1 200 páginas, o economista
apresentador e diretor editorial te do STRAT&EGOS Institute e na era da distração. Thompson francês tenta demonstrar como,
na rádio norte-americana NPR) professor do The Lisbon MBA, defende que essa é, provavel- ao longo da História, e um pou-
passou o seu popular podcast a aborda os temas mais atuais de mente, a moeda mais valiosa co por todo o mundo, as elites
livro, How I Build This, no qual estratégia, aplicando-os não só do século XXI, seja na política, usaram a ideologia para fazer
conta as histórias de sucesso de aos negócios tradicionais, como na economia ou nos negócios. com que as desigualdades fos-
alguns dos maiores empreen- também aos novos negócios di- TÍTULO: Hit Makers - Como triunfar
sem aceites pelas classes tra-
dedores do mundo. gitais e à importância da sus- na era da distração balhadoras. O autor defende
TÍTULO: How I Build This - Histórias
tentabilidade. A obra reflete que, mais do que económica
AUTOR: Derek Thompson
de sucesso dos maiores ainda sobre vários case studies ou tecnológica, a desigualdade
empreendedores do mundo de grandes empresas, como a EDITORA: Actual é uma opção política e ideoló-
Zara, a Huawei, a Microsoft, a gica. E propõe medidas de re-
AUTOR: Guy Raz PVP: n/d
Airbus, a Airbnb, a Toyota, a distribuição da riqueza, como a
EDITORA: Actual Havaianas, a Samsung, a Far- “herança para todos”, um paga-
PVP: n/d
fetch, a Netflix e a McDonald’s. mento destinado a todos os ci-
TÍTULO: Estratégia – Criação
dadãos e que é financiado por
de Valor Sustentável um imposto sobre o património
em Negócios Tradicionais dos mais ricos.
e Digitais TÍTULO: Capital e Ideologia

AUTOR: Adriano Freire AUTOR: Thomas Piketty

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1 0 6 . EXAM E . OUTUBRO 2020


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