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AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DA SENHORA DA HORA

Teste de Avaliação de Português – 12º Ano Turma B


Duração – 100 minutos outubro 2020

GRUPO I
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Apresenta as tuas respostas de forma bem estruturada
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Parte A

Lê o texto seguinte.

ACORDANDO

Em sonho, às vezes, se o sonhar quebranta


Este meu vão sofrer, esta agonia,
Como sobe cantando a cotovia,
Para o céu a minh’alma sobe e canta.

5 Canta a luz, a alvorada, a estrela santa,


Que ao mundo traz piedosa mais um dia…
Canta o enlevo das coisas, a alegria
Que as penetra de amor e as alevanta…

Mas, de repente, um vento húmido e frio


10 Sopra o meu sonho: um calafrio
Me acorda – A noite é negra e muda: a dor

Cá vela, como dantes, a meu lado…


Os meus cantos de luz, anjo adorado,
São sonho só, e sonho o meu amor!

Antero de Quental, Os Sonetos Completos, 2016,


Porto: Porto Editora

1. Neste soneto de Antero é nítida a oposição sonho/realidade.


Indica os elementos que correspondem a cada um dos polos da oposição.

2. Traça o perfil do sujeito poético.

3. Interpreta o sentido dos dois últimos versos e refere a sua importância para a construção do sentido do
texto.

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Parte B

Lê o excerto da terceira parte do poema “O sentimento dum ocidental” de Cesário Verde. Se necessário, consulta
as notas.

Ao Gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos


Passeios de lajedo arrastam-se as impuras1.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras2
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

5 Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso


Ver círios3 laterais, ver filas de capelas,
Com santos fiéis, andores, ramos velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do catolicismo
10 Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cutileiro4, de avental, ao torno,


Um forjador maneja um malho, rubramente;
15 E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

Cesário Verde, Cânticos do Realismo – O Livro de Cesário


Verde.

Notas: 1 impuras: prostitutas; 2 embocaduras: entradas de ruas; 3 círios: velas; 4 cutileiro: local onde se faz ou vende objetos cortantes.

4. Caracteriza o estado de espírito do sujeito poético perante a realidade observada nas três primeiras
estrofes.

5. Destaca a importância da quarta estrofe, atendendo às diferenças temáticas que estabelece com as
restantes quadras.

6. Identifica dois recursos expressivos nos seguintes versos: “E de uma padaria exala-se, inda quente, / Um
cheiro salutar e honesto a pão no forno.” (versos15-16).

7. Identifica duas características temáticas da poesia de Cesário Verde, fundamentando a tua resposta com
elementos textuais.

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GRUPO II

Lê o texto seguinte.

1 No princípio de julho, começara a debandada dos ricos; ficar em Lisboa era o cúmulo da ignomínia
social.
Centenas de poemas e folhetins pequeno-burgueses denunciam a miséria, atacam os ricos e troçam
dos padres: a 19, às cinco horas da manhã, com pulmões destruídos pela tuberculose, morreu Cesário
5 Verde. Tinha 31 anos e vira o fim chegar “como um medonho muro”.
Em 1886, Lisboa era uma cidade muito diferente do que tinha sido trinta anos antes. A sua população,
trezentos mil habitantes, tinha dobrado. Do campo, haviam chegado milhares, os homens primeiro, para
trabalhar como estivadores ou pedreiros, a família depois. Em parte devido à pressão dos recém-chegados,
em parte porque o alargamento dos limites urbanos era uma forma de obter novas receitas para o Estado, a
10 cidade alastrava. Ao lado de uma indústria incipiente, visível sobretudo para os lados de Xabregas e
Alcântara, a cintura saloia espraiava-se por todo o lado: Mafra, Benfica, Lumiar.
Os laços ao campo permaneciam fortes. A infância rural deixava saudades que não desapareciam
facilmente. Com os seus espaços apertados e o tempo normalizado, a cidade parecia asfixiante aos novos
habitantes. Não surpreende pois que, nos quentes dias de verão, o povo deixasse a capital, com cestos
15 repletos de talhadas de melão, damascos e pão de ló, a caminho das hortas. Para os que ficavam, havia
bailes «campestres» sob as parreirinhas dos cafés das sociedades recreativas, além da música ao ar livre
nos coretos pintados de fresco. No dia 18 de julho de 1886, um domingo, não faltavam distrações.
Em 1886, já tinham sido introduzidas em Lisboa algumas das inovações que facilitavam a vida urbana:
em 1848, tinham aparecido os primeiros candeeiros a gás e, em 1878, haviam sido instalados, no Chiado,
20 seis candeeiros elétricos. Não se pense, contudo, que esses melhoramentos se propagaram rapidamente. A
muitas das suas vielas e escadinhas a civilização não chegara.
Nos bairros antigos, a higiene era deplorável. Com traseiras, pátios e quintais apinhados de galinhas,
coelhos e porcos, as casas estavam infestadas de parasitas. Apesar de a recente captação do rio Alviela ter
permitido instalar uma rede de distribuição de água ao domicílio, o benefício chegava a poucas casas. Nos
25 mercados, as condições sanitárias eram péssimas, fazendo com que muitos géneros consumidos pelas
classes populares estivessem estragados.
Os contrastes entre ricos e pobres eram enormes. É verdade que os milionários portugueses eram
patéticos quando comparados com os seus parceiros europeus, mas em face da miséria indígena qualquer
ser com um mínimo de sensibilidade se chocaria. No centro da cidade, entre portais e vãos de escada,
30 amontoavam-se cegos, estropiados, crianças abandonadas e velhos paralíticos.
Os trabalhadores ganhavam salários irrisórios e estavam sempre à beira do desemprego.

Maria Filomena Mónica, O dia em que Cesário Verde morreu,


Revista Prelo, n.º 12, 1986 (com adaptações)

Responde às questões. Na resposta aos itens de escolha múltipla, seleciona a opção correta.

1. De acordo com o texto, em 1886


(A) a população de Lisboa tinha duplicado em relação à década anterior.
(B) os limites da cidade de Lisboa tinham aumentado pelo facto de a indústria estar no seu auge.
(C) algumas das inovações da época já tinham sido introduzidas em toda a cidade.
(D) era visível, em Lisboa, uma grande discrepância entre as classes mais altas e as classes mais desfavorecidas.

2. As inovações introduzidas na cidade de Lisboa são visíveis a nível


(A) da macadamização das ruas.
(B) da iluminação pública.
(C) da proliferação de bairros.
(D) da transformação das vielas.

3. As condições de higiene dos lisboetas


(A) alteraram-se num escasso número de habitações.
(B) foram facilitadas pela captação de água no rio Alviela.
(C) alteraram-se depois de ser proibido criar animais.
(D) melhoraram graças à distribuição de água canalizada.
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4. O adjetivo presente na frase “Os laços ao campo permaneciam fortes” (linha 12) desempenha a função sintática de
(A) sujeito.
(B) complemento oblíquo.
(C) predicativo do sujeito.
(D) complemento direto.

5. Nas orações “que não desapareciam facilmente” (linhas 12-13) e “que os milionários portugueses eram patéticos”
(linhas 27-28), as palavras sublinhadas são
(A) conjunções em ambos os casos.
(B) um pronome, no primeiro caso, e uma conjunção, no segundo caso.
(C) uma conjunção, no primeiro caso, e um pronome, no segundo caso.
(D) pronomes em ambos os casos.

6. Indica o mecanismo de coesão subjacente ao uso de “Apesar de” (linha 23).

7. Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelas expressões:


a) “A muitas das vielas e escadinhas” (linha 21).
b) “de água” (linha 24).

8. Classifica a oração “que esses melhoramentos se propagaram rapidamente” (linha 20).

GRUPO III

Lê o excerto do discurso de José Saramago, pronunciado a 7 de dezembro de 1998 na Academia Sueca.

Cumpriram-se hoje exatamente cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal de Direitos Humanos.
(…) Nestes cinquenta anos não parece que os Governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que,
moralmente, quando não por força da lei, estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se no mundo, as
desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade que é
capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à
morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte neste tempo do que ao nosso próprio
semelhante. Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os Governos, seja porque não
sabem, seja porque não podem, seja porque não querem. Ou porque não lho permitem os que efetivamente
governam, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a
uma casca sem conteúdo o que ainda restava de ideal de democracia. Mas também não estão a cumprir o seu
dever os cidadãos que somos. (...) Com a mesma veemência e a mesma força com que reivindicarmos os nossos
direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres".

José Saramago, in Discurso pronunciado a 7 de dezembro de 1998 na academia sueca, Fundação José Saramago

Num texto bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de duzentas e cinquenta palavras, faz a
apreciação crítica do excerto do discurso de José Saramago apresentado.

O teu texto deve incluir:


- a apresentação sucinta do excerto do discurso de José Saramago;
- um comentário crítico, fundamentando devidamente a tua apreciação e utilizando um discurso valorativo;
- uma conclusão adequada aos pontos de vista desenvolvidos.

Observação:
Relativamente ao desvio dos limites de extensão indicados:
- um desvio dos limites de extensão indicados implica uma desvalorização parcial (até 5 pontos) do texto produzido;
- um texto com extensão inferior a oitenta palavras é classificado com zero pontos.

FIM
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