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Direito Fiscal I – 2.º ano – 1.

ª Turma
Época de recurso – 11.07.2015

Parâmetros de correção

I. (9 valores)
Distinga, referindo a utilidade prática:
a) Imposto e taxa;
Impostos e taxas são espécies de tributos (art. 3º, nº. 2 da LGT) que se aproximam por
consubstanciarem ambas prestações (integram uma relação jurídica obrigacional – e não real)
definitivas (não geram direito a reembolso, restituição ou indemnização uma vez adimplidas), que
provêem receitas de natureza coactiva para o Estado e demais entes públicos, quer dizer, são
prestações ex lege, que tem por fonte a lei (em sentido amplo), e finalisticamente orientadas à
satisfação das necessidades financeiras do Estado.
Distinguem-se, porém, na medida em que os impostos são prestações pecuniárias e unilaterais, já
que satisfeitas com uma prestação de dar pecúnia (em dinheiro) à qual não corresponde qualquer
prestação específica a favor do contribuinte (financiam as funções e actividades públicas em geral).
As taxas, por sua vez, são (contra)prestações patrimoniais de caráter bilateral, isto é, podem se
satisfazer não apenas com a entrega de pecúnia e assentam numa relação jurídica do tipo do ut des,
ou seja, à contraprestação tributária do particular a favor do Estado e demais entes públicos
corresponde uma anterior prestação específica, uma actividade desses mesmos entes (prestação
concreta de um serviço público, disponibilização de um bem do domínio público e/ou remoção de
um obstáculo jurídico a particulares, cf. art. 4º, nº. 2 da LGT) especialmente dirigida ao respectivo
obrigado, não visando comportar, portanto, prestações difusas tal como os impostos.
A utilidade prática da distinção repousa nos diferentes regimes jurídicos que orientam e disciplinam
tais espécies tributárias – e, consequentemente, irão marcar o seu controlo de constitucionalidade
em aspectos de ordem formal e material.
Os impostos obedecem ao princípio da legalidade fiscal (criação por lei parlamentar ou decreto-lei
autorizado e disciplina por lei de seus elementos essenciais – art. 165º, n.º 1, al. i e art. 103º, ns.º 2 e
3 da CRP), enquanto as taxas bastam-se com a reserva à lei parlamentar ou decreto-lei autorizado
do seu regime geral (art. 165º, n.º 1, al. i, segunda parte, da CRP), podendo ter por fonte normas de
hierarquia infra-legal.
Ademais, ao regime jurídico-constitucional dos impostos integra-se um sub-princípio específico da
segurança jurídica, a saber, o princípio da não-retroactividade (art. 103º, n.º 3 da CRP), enquanto as
taxas são norteadas pelo princípio geral da segurança jurídica decorrente do Estado Democrático de
Direito (art. 2º da CRP).
Ainda, e de especial relevo, a medida dos impostos tem por base a capacidade contributiva (art.
103º, n.º 1 e 104º, ns.º 1 a 4 da CPR; art. 4º, n.º 1 da LGT), em uma expressão qualificada da
igualdade – e solidariedade – constitucional, enquanto a medida das taxas assenta no princípio da
proporcionalidade (taxa/prestação estadual proporcionada ou taxa/custos específicos causados à
respectiva comunidade).
Significa que a aferição da legitimidade da criação e cobrança de tributos é pautada por diferentes
critérios para cada uma das espécies tributárias. Daí que há dois testes para averiguar a natureza
jurídica do tributo: o da bilateralidade e o da proporcionalidade, já tendo o Tribunal Constitucional
português manifestado, em várias oportunidades (v.g., acórdãos n.º 357/99, 410/2000, 274/2004,
471/2007), que não basta a natureza bilateral do tributo, devendo igualmente estar presente a
proporcionalidade entre a prestação e a contraprestação específica.
Por fim, o regime jurídico dos impostos vem especialmente lastreado pelo princípio da consideração
fiscal da família (art. 67º, n.º 2, al. f c/c art. 104º, n.º 1 da CRP), sendo um parâmetro adicional de
controlo constitucional.

b) Impostos periódicos e impostos de obrigação única;


Os impostos de obrigação única são aqueles em que a obrigação do imposto constitui-se
instantaneamente (por um facto ou acto isolado no tempo ou por factos ou actos sem continuidade
entre si).
Os impostos periódicos, por sua vez, são aqueles em que a relação jurídica fonte da obrigação de
imposto tem em sua base situações estáveis, que se prolongam no tempo, dando origem, por
conseguinte, a obrigações periódicas, que se renovam todos os anos. Assim, incidem ao longo do
tempo sobre uma mesma situação jurídica, somente se estabilizando o período da tributação ao fim
do período fiscal (v.g., no IRS, o ano civil), já que o facto tributário é de formação sucessiva.
A utilidade prática da distinção decorre da configuração do elemento temporal do facto tributário:
os impostos de obrigação única têm na base do facto tributário um elemento temporal cuja definição
não carece de critérios jurídicos, bastando-se a mesma com simples critérios naturalísticos; já os
impostos duradouros (ou periódicos), por terem na base do facto tributário um elemento temporal
que tende a manter-se, colocam o problema do fraccionamento jurídico desse facto (diferença entre
acto e facto tributário), ou seja, o problema do período do imposto (que, em geral, coincide com o
ano civil).
Daí que, para os impostos de obrigação única, o termo a quo da contagem dos prazos de caducidade
da liquidação e prescrição da obrigação de imposto dá-se na data em que o facto tributário foi
praticado, à excepção do IVA; enquanto, para os impostos periódicos, tal contagem inicia-se a partir
do término do ano em que se verificou o facto tributário (arts. 45º, n.º 4 e 48º, n.º 1 da LGT,
respectivamente), ressalvando-se os casos de retenção na fonte a título definitivo. Ainda, o art. 79º
do CPPT estabelece que, quando se trate de impostos periódicos, os seus prazos de cobrança serão
divulgados pela comunicação social.
Finalmente, a diferença reflecte-se também na aferição da natureza e limites da retroactividade das
leis fiscais (se autêntica ou inautêntica, se proibida pelo art. 103º, n.º 3 da CRP ou apreciável com
base em parâmetros mais flexíveis, à luz de uma ponderação entre o princípio da segurança
jurídica/confiança legítima e o interesse público de arrecadação).
Isto porque, nos casos em que o facto tributário que a lei nova pretende regular já se tenha formado
totalmente, então estará em causa a proibição constitucional da retroactividade (autêntica) – o que,
nos impostos de obrigação única, não coloca maiores problemas; já em casos que o facto tributário
ainda esteja em formação (para os impostos periódicos) e advenha uma nova lei, se configura uma
retroactividade de natureza inautêntica ou, até, para alguns autores, uma retrospectividade. Para este
efeito, o Tribunal Constitucional português, analisando a constitucionalidade de leis que
modificaram a taxa do IRS ao longo do ano fiscal, já decidiu (v., p. ex., acórdãos 399/2010 e
18/2011) que “é possível, no que diz respeito aos impostos periódicos, a aprovação de leis no
decurso do período de tributação que se destinem a produzir efeitos em relação a todo esse período,
ficando, no entanto, tais leis sujeitas ao teste resultante dos princípios do Estado de Direito, como
seja o teste da protecção da confiança [e não, assim, à expressa vedação de retroactividade do art.
103º, n.º 3 da CRP]”.

c) Substituição tributária e repercussão económica do imposto.


A relação jurídica fiscal é sobremaneira complexa, apresentando-se a substituição tributária e a
repercussão económica do imposto como uns dos vectores que revelam tal complexidade.
A substituição tributária verifica-se, nos termos do art. 20º da LGT, quando, por imposição da lei, a
prestação tributária for exigida a pessoa diferente do contribuinte, sendo efectivada através do
mecanismo da retenção na fonte, a qual, consoante o art. 34º da LGT, constitui-se com entregas
pecuniárias efectuadas por dedução nos rendimentos pagos ou postos à disposição do titular pelo
substituto tributário. É esta a substituição tributária em sentido próprio, que tem por exemplo o
mecanismo da retenção na fonte a título definitivo das taxas liberatórias do IRS (art. 71 do CIRS).
Ainda, o art. 33º da LGT prevê que “as entregas pecuniárias antecipadas que sejam efectuadas pelos
sujeitos passivos no período da formação do facto tributário constituem pagamento por conta do
imposto devido a final”, constituindo o que a doutrina qualifica como uma substituição tributária
em sentido impróprio, a exemplo do que ocorre com a retenção na fonte (a título não definitivo)
operada pelas entidades devedoras de rendimentos de trabalho dependente (categoria A do IRS, nos
termos dos arts. 98 e 99 do CIRS).
A repercussão económica do imposto é uma técnica empregada sobretudo nos impostos sobre o
consumo, em que a capacidade contributiva que se pretende tributar é a dos consumidores finais dos
produtos e serviços existentes/prestados no mercado. O desfalque patrimonial do imposto devido
ocorre, portanto, na sua esfera, através do fenómeno económico da repercussão do imposto, isto é, o
valor final dos produtos e serviços negociados no mercado reflecte na esfera patrimonial do
consumidor o montante do imposto incidente sobre aquele bem/operação.
Daí serem os consumidores, neste caso, denominados contribuintes indirectos ou contribuintes de
facto, já que, em virtude da repercussão, suportam economicamente o imposto.
Não obstante – e a aí repousa a utilidade prática da distinção – os consumidores (contribuintes
indirectos) não são sujeitos passivos da relação jurídica tributária, o que se encontra expressamente
clarificado no art. 18º, n.º 4, al. a da LGT: “Não é sujeito passivo ( …) quem suporte o encargo do
imposto por repercussão legal, sem prejuízo do direito de reclamação, recurso, impugnação ou de
pedido de pronúncia arbitral nos termos das leis tributárias”.
Portanto, a técnica da repercussão económica do imposto não gera para o consumidor quaisquer
obrigações fiscais, seja principal, sejam acessórias.
Por outro lado, no caso de substituição tributária, o substituto torna-se sujeito passivo da relação
jurídica fiscal (art. 18º, n.º 3 da LGT), de modo que fica obrigado ao cumprimento das prestações
tributárias nos termos e limites legais (art. 28º da LGT).
.

 Distinção entre impostos de quota variável (são aqueles em que o montante do imposto varia
consoante o valor da matéria colectável, sendo determinadoa partir da aplicação de uma taxa-
percentagem ou alíquota) e impostos de quota fixa.
Dentro daquela categoria distinguir entre os impostos de taxa fixa, que são aqueles em que a taxa se
mantém inalterada independentemente do valor da matéria colectável, também denominados impostos
proporcionais; e os impostos de taxa variável, em que a taxa aumenta ou diminui consoante aumente ou
diminua a matéria colectável.
Art. 104.º, n.º 1 CRP–“O imposto sobre o rendimentos pessoal visa a diminuição das desigualdades e será
único e progressivo, tendo em conta as necessidades e os rendimentos do agregado familiar

Impostos de quota fixa-a própria lei indica a importância fixa a pagar, dispensando asoperações de
liquidaçãoImposto de quota variável-são aqueles em que o montante do imposto varia consoante o valor
damatéria colectável, sendo determinado a partir daaplicação de uma taxaOs impostos de quota variável
podem ser de taxafixa (ataxa mantém-se inalteradaindependentemente do valor da matériacolectável.
Também denominados impostosproporcionais. Ex: IRC [arts. 87.º ess]/ IMI [art.112.º])ou de taxa variável
(ataxa aumenta oudiminui consoante aumente ou diminua a matériacolectável).Os impostos dequota
variável, de taxa variávelpodem ser progressivos (ataxa aumenta à medidaque aumenta a matéria
colectável. Ex: IRS)ouregressivos.Aquela progressividade pode ser global(amatériacolectávelédivida em
classes, partindodo zero ou do mínimo de isenção, fazendo-sedepois corresponder uma taxa (que
aumentagradualmente) a cada classe de matériacolectável taxa que se aplica àtotalidade da
matériacolectável) ou por escalões (A matéria colectável éigualmente dividida em várias partes,
sendo cadauma delas tributada àtaxa correspondente)
 Impostos pessoais e impostos reais;Impostos reais são aqueles que não tomam em consideração a
situação económica e pessoal docontribuinte (por ex., o IVA); Impostos pessoais são aqueles
consideram ou ponderam a situaçãoeconómica e pessoal docontribuinte (por ex., o IRS); As
características dos impostos pessoais(consideração do rendimento global do contribuinte, exclusão
do mínimo de existência, dedução deencargos pessoais, progressividade da taxa, aplicação do
quociente conjugal);
 Transparência fiscal e quociente conjugal;Transparência fiscal: regime previsto no artigo 6.º do CIRC,
pelo qual se determina que certos tipos de sociedades (por ex., sociedades profissionais) não são
tributadas em sede de IRC; o rendimento, embora calculado de acordo com as regras do IRC, é
imputado aos respetivos sócios na proporção da respetiva quota, ainda que não tenha havido
distribuição de lucros, e tributado em sede de IRS ;referência ao facto de as sociedades
“transparentes” serem sujeitos passivos de IRC mas não serem devedores desse imposto;
Quociente conjugal: instituto consagrado no artigo 69.º CIRS e mobilizado no âmbito das
operaçõesdo procedimento de liquidação do IRS; visa neutralizar fiscalmente o casamento, visto
que oscontribuintes casados estão sujeitos a um regime de tributação conjunta obrigatória (art.
59.º CIRS),que, por imperativos constitucionais, não lhes pode ser prejudicial (artigos 67.º e 104.º/1
CRP).
 Impostos principais e impostos acessórios; Impostos principais são aqueles que não dependem na
sua existência nem nos seus elementos essenciais de outros impostos; impostos acessórios
dependem da existência prévia de outros impostos; distinção entreadicionais e adicionamentos
(exemplos);
 Princípio da legalidade fiscal e princípio da tipicidade fiscal; Princípio da legalidade fiscal–titularidade
do poder tributário/significado político e histórico; impostossão matéria de reserva relativa de
competência legislativa da Assembleia da República(artigo 165.º/1/iCRP)e, como tal, as normas que
a eles digam respeito têm de constar de leida AR oude decreto-leiautorizado do Governo(artigo
165.º/2 CRP); princípio da tipicidade fiscal enquanto vertente material doprincípio da legalidade
fiscal (artigo 103.º, n.º 2 CRP);exigeque a lei fiscal seja suficientemente densa eprecisa na definição
dos elementos essenciais dos impostos (incidência, taxa, garantias dos contribuintes ebenefícios
fiscais);
 Impostos periódicos e impostos de obrigação única;Impostos periódicos são aqueles que assentam
numa relação jurídica duradoura, ou seja, em que o factotributário é dotado de características de
estabilidade e continuidade (por ex., IRS eIRC); impostos deobrigação única são aqueles que têm
por base actos isolados ou avulsos, ainda que repetidos (por ex., IVA,Imposto do Selo,
IMT);distinção releva em matéria de contagem dos prazos de caducidade e prescrição(artigos 45.º e
48.º LGT), bem como em matéria de aplicação da lei no tempo;

Impostos diretos e impostos indiretos (à luz do critério darepercussão económica)Atende ao


factodo valor destes impostos serounão repercutido no adquirente final de bens
eserviços.Impostos indirectos–aqueles em que osuportador económico do imposto não se
identificacom o sujeito passivo do mesmo, estando arepercussão económica legalmente
previstaExs: Impostos directos: IRS, IRC, IMT e IMIImpostos indirectos: IVA, IEC e IS

 Competência tributária  Definição de competência tributária como dizendo respeito à administração


ou gestão de impostos, traduzida no lançamento, liquidação e cobrança dos impostos; identificação
da crescente privatização da administração ou gestão dos impostos; distinção das figuras do poder
tributário, da capacidade tributária e da titularidade da receita dos impostos.

Casos práticos
1. A sociedade "Esperança, SA", não procedeu à retenção na fonte nos últimos três ordenados de 2013
pagos ao seu trabalhador António. Quem é o responsável tributário pela dívida fiscal e como se procede
à sua execução? (5 valores)

 Substituição tributária (artigo 20.º LGT); distinção entre substituição tributária total ou retenção na fonte
a título definitivo e substituição tributária parcial ou retenção na fonte a título de pagamento por conta do
imposto devido a final (substituto: “Esperança, SA”, entidade empregadora e devedora da remuneração
mensal; substituído: António, trabalhador por conta de outrem e credor da remuneração mensal paga pela
“Esperança, SA”) – artigos 98.º e 99.º CIRS; dever de englobamento dos rendimentos auferidos na
declaração periódica de IRS;
 Responsabilidade tributária em caso de substituição tributária (artigo 28.º LGT); substituição tributária
parcial/retenção na fonte a título de pagamento por conta do imposto devido a final (substituído não retém
as importâncias devidas a título de imposto): substituídos são os responsáveis originários (António) e o
substituto (“Esperança, SA”) é responsável subsidiário (art. 28.º/2 LGT) – justificação deste regime jurídico e
explicitação do significado de “responsabilidade subsidiária”;
 Processo de execução fiscal: falta de pagamento voluntário da dívida tributária (artigo 84.º CPPT);
referência à natureza semi-executória da obrigação fiscal – artigo 103.º/1 LGT, e artigos 150.º e 151.º
CPPT); a reversão do processo de execução fiscal

2. (6 valores)

A sociedade comercial“Vestir Jovem”,uma empresa de confecções,tem Francisco e Inêscomo seus únicos


administradores. Todavia,não pagou o IRC relativo ao ano de 2014, tendo já sidoultrapassadooprazo
paraopagamento voluntário.Combase nos elementos apresentados, responda justificadamente:

a)O que deverá a Administração Tributária fazer para resolver o problema?

O não pagamento voluntário por parte do devedor do imposto dá ensejo a consequências inúmeras,das
quais se destacam, consoante as circunstancias do caso concreto: (i) avaliação indireta damatéria
colectável, nas hipóteses e na forma do art. 87º da LGT; (ii) procedimento de contra-ordenação fiscal (nos
casos e consoante a forma do RGIT); e, principalmente, (iii) execução fiscal(art. 103 da LGT e arts. 148 e
ss. do CPPT)com notificação para pagar a dívida mais juros de morae encargos legais,em que a
Administração Tributária buscará empreender a cobrança coerciva dadívida fiscal, mediante, em suma, a
penhora/apreensão dos bens do executado (sociedade VestirJovem), a venda dos bens e a satisfação do
seu crédito.

b) Será necessária a intervenção dos tribunais tributários?

Muito embora a quase totalidade dos actos da execução fiscal seja, hoje, desempenhada pela
própriaAdministração Tributária (art. 150º do CPPT),os tribunais tributários ainda detêm
importantesreservas de competência no âmbito da execuçãofiscal (art. 151º do CPPT) no caso de
haverdivergências entre as partes do processo de execução fiscal relativamente a determinados
actos.Logo, havendo divergências (incidentes, embargos, oposição, reclamação), será necessária
aintervenção dos tribunais tributários. Não havendo, porém, resistência do executado à pretensão
executiva da AT, os tribunais não precisarão intervir, correndo o processo no âmbito da e sobiniciativa da
AT.

c)Francisco e Inês poderão ser responsabilizados?Em que termos?

Sim.O art. 24º da LGT estabelece que “Os administradores, directores e gerentes e outras pessoasque
exerçam, ainda que somente de facto, funções de administração ou gestão em pessoascolectivas e entes
fiscalmente equiparados são subsidiariamente responsáveis em relação a estas esolidariamente entre si: a)
Pelas dívidas tributárias cujo facto constitutivo se tenha verificado noperíodo de exercício do seu cargo
ou cujo prazo legal de pagamento ou entrega tenha terminadodepois deste, quando, em qualquer
doscasos, tiver sido por culpa sua que o património da pessoacolectiva ou ente fiscalmente equiparado se
tornou insuficiente para a sua satisfação; b) Pelasdívidas tributárias cujo prazo legal de pagamento ou
entrega tenha terminado no período doexercíciodo seu cargo, quando não provem que não lhes foi
imputável a falta de pagamento”.Logo, Francisco e Inês são subsidiariamente responsáveis pelas dívidas
da empresa Vestir Jovemquanto ao IRC do período de 2014 não pago e solidariamente responsáveis entre
si. Sendo assim, nahipótese de a execução fiscal movida contra a empresa Vestir Jovem não resultar na
satisfaçãointegral da dívida após apreensão e eventual venda dos bens da empresa, terá lugar a reversão
daexecução (art. 23º da LGT e 160º do CPPT) contra Francisco e Inês, que, então, passarão aresponsáveis
solidários pela dívida tributária, sujeitando o seu próprio património à quitação dodébito.Uma nota é
devida para o facto de que a prova de culpa no caso concreto é difícil de ser conseguida(provadiabólica),
havendo críticas doutrinárias acerca da constitucionalidade do dispositivo

3. 5valores

O Sr. XYZ é proprietário, desde 2012, de prédio urbano situado à R. das Flores, nº.
1,Coimbra.a)Ordenelógico-temporalmente, justificando,a actividade da administração fiscalrelativa
àcobrança deIMI para o ano de 2014 do referido imóvel: execuçãofiscal;notificação do sujeitopassivopara
pagamento do imposto;determinação do valor patrimonial tributário do imóvel;liquidação do
imposto;instauração de procedimento de contra-ordenaçãofiscal;notificação dosujeito passivo para
pagamento do imposto, juros e demais encargos legais.A actividade da AT relativa à cobrança de IMI
para o ano de 2014 do prédio urbano situado à R.das Flores, nº. 1, Coimbra, é ordenada, com as
respectivas fundamentações, da seguinte forma:

(i)Como precedente lógico de todos os actos e procedimentos levados a efeito para liquidaçãoe cobrança
de impostos–conforme, aliás, se extrai do elenco do art. 44º doCPPTe do art.62ºdoCPPT–, a ATdetermina
o valor tributário do imóvelcujo proprietário será tributado, já que é esta abase do IMI e deve ser
determinada por avaliação direta pela AT (arts. 1º e 14º e ss.do CIMI);

(ii)Após a determinação da matéria colectável do IMI, a AT deverá notificar o sujeito passivo(in casu, Sr.
XPTO)da determinação da matéria colectável,nos termos do art. 37º do CPPT,epassará ao procedimento
deliquidação do imposto, isto é, a executaroperações destinadasàidentificação do contribuinte ou devedor
do imposto,àliquidação em sentido estrito (aplicação dataxa à matéria tributável)eao apuramento da
colecta líquida (deduções, quando houver). Tudoconforme osarts.59ºe 62ºdo CPPT e, especialmente, o
art.113º do CIMI;

(iii)Uma vez liquidado o imposto e fixada a colecta líquida, ou seja, o valo final a ser pago
pelocontribuinte, a AT devenotificar o sujeito passivo para pagamento do imposto, porquanto, nostermos
dos arts. 35ºe ss. do CPPT, a notificação, nos termos e forma da lei, é condição de eficáciada decisão
administrativa em procedimentos tributários, o que, aliás, é corroborado pela disciplina especial do art.
119º do CIMI. Note-se que, neste momento, aindanão se podemcogitar juros edemais encargos legais,
pois é a partir daí que será iniciado o prazo para pagamento do impostodevido, não havendoaindamoraou
atraso no pagamento;
(iv)Após notificado, o contribuinte dispõe dos prazos do art. 120º do CIMI para pagamentovoluntário
e,em não o fazendo, incorre em mora, sendo devidos juros (art. 121º do CIMI) eabrindo-se a via dacontra-
ordenação fiscal(v. arts. 67ºe ss. do RGIT). Anote-se, aqui, aprecedência do procedimento de contra-
ordenação fiscal relativamente à execução fiscal, já que,conforme o art.148º, n.º 1, als. a, b e c do CPPT,
esta compreende, além da dívida de imposto,coimas e outras sanções pecuniárias fixadas em decisões,
sentenças ou acórdãos relativos a contra-ordenações tributárias;

(v)Ao fim do procedimento de contra-ordenação fiscal será o sujeito passivo, necessariamente,nos termos
dos arts. 35º e ss. do CPPT e, especialmente, arts. 70º e 79º, ns.º 2 e 3 do RGIT,notificado–agora para
pagamento do imposto, acrescido de juros edemais encargos legais,inclusive coimas;

(vi)Finalmente, não ocorrendo pagamento nos prazos legais, terá lugar a cobrança judicial dadívida pela
via daexecução fiscal(art. 148º do CPPT)

4. António e Bruno são sócios gerentes da empresa XY Lda, mas apenas Antóniovem exercendo, de facto, a
gerência, pois Bruno está internado no hospital, emcoma, há cerca de ano e meio. Apanhados pela crise
económica, a empresatemacumulado prejuízos significativos desde 2008 e António, no intuito de salvar
aempresa, utilizou o dinheiro correspondente às retenções na fonte efectuadassobre os salários pagos aos
três trabalhadores para pagar a fornecedores,acabando por não ter como cumprir as obrigações fiscais em
dívida.

A) Carlos, um dos trabalhadores, tomou conhecimento da actuação de Antónioe teme que aAdministração Fiscal o
obrigue a pagar ao valor do imposto quefoi retido na fonte, mas não foi entregue.Terá razão? (3 val.)

Qualificar este caso como uma substituição fiscal parcial e uma retenção na fontea título de pagamento
por conta do imposto de terceiro–art. 20.º LGT.

Explicar que a responsabilidade pelo pagamento das quantias retidas e nãoentregues é sempre (neste caso
e no de substituição total) exclusivamente dosubstituto–art. 28.º/1 LGTb .

B) O acumular de prejuízos fiscais por parte da empresa justificou, no entendimento da Administração Tributária,
a aplicação de métodosindirectos na correcção da matéria colectável correspondente ao ano de2011 e uma
liquidação adicional de 20.000€.Todavia, António não concordoucom esta solução, considerando que os
pressupostos em que a Administração se baseara para a aplicação de métodos indirectos eramilegais. Como deve
reagir?(4 val.)

Explicar que esta é uma situação legalmente prevista para a aplicação demétodos indirectos (art. 87.º/1e
da LGT),mas que a doutrina tem dúvidasquanto à possibilidade da sua aplicação uma vez que não está
legalmenteregulada a forma como se há-de proceder para a avaliação indirecta nestecaso.Sublinhar que a
impugnação judicial neste caso depende sempre de o sujeitopassivo ter utilizado o pedido de revisão da
matéria colectável (art. 86.º/5 e91.º da LGT e art. 117.º CPPT)Referência ao princípio da impugnação
unitária art. 54.º CPPT

C) Imagine que aempresa XY Lda é declarada insolvente e a AdministraçãoTributária pretendefazer reverter


o processo de execução fiscal sobreAntónio, alegando que foi durante o período de exercício do seu cargo
queterminou o prazo legal de entrega do imposto retido na fonte. Terá razão? (3val.)
Referir que este é um caso deresponsabilidade tributária em que ogerente responde subsidiariamente e
que essa responsabilidade éoperada através da reversão do processo de execução fiscal–arts.22.º, 23.º e
24.º da LGT
Sublinhar a diferença entre o gerente de direito e o gerente de facto e tecer algumas considerações sobre a
diferença de tratamento entre as situações–art. 24.º/a e b.
5. Foi instaurado um processo de execução fiscal contra a sociedade comercialpor quotas “A&T, Lda.”, por
falta de pagamento de IRC devido no exercícioeconómico do ano de 2010.Imagine que a sociedade
“A&T, Lda.” não tem bens para o pagamento da dívida. Apesar de Miguel estar registado na
Conservatória do Registo Comercial como gerente da sociedade, é Joana quem exerce, de facto, a
gerência da sociedade. Neste caso, sobre qual dos gerentes irá reverter o processo de execução de fiscal?
(5val.)

 Comparação da gestão de facto com a gestão de direito


Alínea a)do art. 24.º/1 da LGT-ónus da prova para a Fazenda Pública quanto à culpado gerente que exercia a
sua função no momento da constituição da dívida (seja gerente de direito ou de facto) relativamente à
insuficiência do património da pessoacolectiva para a satisfação do crédito no momento em que ele se torna
exigível;

Alínea b)do art. 24.º/1 da LGT consagra uma presunção de culpa pelo não pagamentodas dívidas tributárias
sempre que o prazo legal de pagamento termine no período doexercício do respectivo cargo, masé necessário
que antes a Fazenda Pública prove(tem o ónus da prova) o exercício efectivo da gerência, não sendo
suficiente quealegue e prove a “gerência de direito”.

“Desvantagem” para o “gerente de facto”, que por exercer efectivamente aactividade,ainda que sem a devida
legitimação social, acaba por responder pelasdívidas fiscais da sociedade, ao passo que o “gerente de direito”
não éresponsabilizado, a não ser que a Fazenda Pública consiga fazer prova de que eleefectivamente exercia a
gerência.

Logo, a reversão podia ser decretada contra Joana.

6. Maria é gerente da empresaXPTO, LDAdesdeMarço de 2014. Na sequência deumprocedimento de


inspeção tributária, relativo ao exercício de 2013, a Administração Tributária procedeu a uma correção da
matéria tributável por métodos indiretos, da qual resultou uma liquidação adicional, a título de IRC, no
montante de€30.000,00.Decorridoo prazo legal aXPTO, LDA não efetuou o pagamento da dívida
tributária. Acresce que esta empresa também nunca efetuou qualquer retenção aos seus trabalhadores, não
tendo, por isso, entregue nos cofres da Fazenda Pública qualquer montante a esse título. Revertida a
dívida contra Maria a mesma entende que a AT não provou a sua gerência de facto e pretende ainda
impugnar a liquidação adicional por entender ter havido um erro na quantificação da matéria colectável.

1.De que meio(s)é que a Maria se pode socorrer para reagir com base naqueles dois fundamentos?(4 val.)

Critérios de correção: Para reagir contra o ato de reversão: Oposição à execução–fundamento: Ausência
de prova da Administração de facto da Oponente na devedora originária (artigo 24.º daLGT);
Paraimpugnação do ato de liquidação–fundamento previsto no artigo 86.º, n.º 5 da LGT–necessário
proceder primeiramente ao pedido de revisão da matéria colectável–art. 91.ºda LGT. Como o artigo 22.º,
n.º 4 da LGT garante ao responsável subsidiário o direito à reclamação e à impugnação da matéria
tributável, nos mesmos termos do devedor principal, a Maria pode impugnar com base nos fundamentos
previstos no artigo 86.º, n.º 5da LGT, sem prévio recurso ao pedido do artigo91.º.Contudo,o STA tem
vindo a defender que o responsável subsidiário neste caso tem o direito de fazer o pedido do artigo 91.º da
LGT, no prazo de 30 dias após a sua citação para o processo executivo (ver acórdão do STA de
17/03/2011, processo n.º 0876/09,disponibilizado na minha página).

2.Quem pode ser, e em que termos, considerado responsável pelo pagamento das importâncias que não
foram retidas pela entidade patronal aos trabalhadores e não entregues nos cofres da Fazenda Pública?
(4val.)

Critérios de correção: Substituição tributaria. Retenção na fonte a título de pagamento por conta do
imposto devido a fina l(por ex., arts. 98.º e 99.º CIRS e 94.º/1 CIRC). Distinção entre as modalidades de
substituição. Artigo 28.º, n.º 2 LGT-Responsabilidade originária dos substituídos e responsabilidade
subsidiária do substituto. Fundamento.O substituto fica sempre sujeito aos juros compensatórios–art.
28.º/2 / 2.ª parte LGT.Fundamento.

3.Imagine agora que Maria foi condenada ao pagamento da dívida tributária, mas morre sem efectuar esse
pagamento. Poder-se-á responsabilizar os seus herdeiros pelo pagamento da dívida? (2val.)

Critérios de correção: transmissão da obrigação fiscal. Regra geral: Obrigação fiscal é indisponível
(artigos 29.º, 30.º, n.º 2 e 36.º LGT); exceção: sucessão legal(artigo 29.º, n.º 2LGT); herdeiros respondem
pela força da herança.

7. Foi instauradoum processo de execução fiscal contra a sociedade comercialpor quotas “XPTO,Lda.”, por
falta de pagamento doIRCdo exercícioeconómico do ano de 2013. A sociedade não possui bens
suficientes paraopagamento da dívida. Apesar de Miguel estar registado na Conservatória doRegisto
Comercial como gerente da sociedade, é Joana quem exerce, de facto, agerência daquela. Quem, segundo
o disposto na Lei Geral Tributária,seráchamado a responder pelas dívidas tributárias da sociedade?

Critérios de correção: Problema da responsabilidade subsidiária dos administradores, gerentes ediretores


(art. 24.º LGT)De acordo com a jurisprudência do STA, não é possível extrair a gerência de factoda
gerência de direito.O gerente de direito só é responsabilizado se a FazendaPública provar que ele
efetivamente exercia a gerência. Exercício efetivo da gerênciade fato, mesmo que sem legitimação
social.A Joana será chamada aresponder pelas dívidas tributárias dasociedade“XPTO,Lda.”-Os gerentes
(ainda que só de facto) e administradores que exerçam o cargo nomomento em que se verifica afalta de
pagamento. Ónus a prova pertence aos gerentese administradores-art. - 24.º/1/Blgt

1. Manuel é trabalhador da empresaXPTO, Lda.,auferindo uma remuneração mensal líquida no valor


de€1.500,00

.a) Imagine que,no ano de2014, a XPTO, Lda. pagou a Manuel um valor superior a título de salários, por
não ter realizado mensalmente a retenção na fonte dos montantes que a lei impunha. Caso Manuel não
venha a pagar voluntariamente o valor de IRS correspondente à liquidação do ano de 2014,pode a
empresa XPTO, Lda ser chamada afazê-lo? Com que fundamento legal? (2,5val.)

Correção: identificação do problema–responsabilidade tributária em caso de substituição tributária (art.


28.º LGT); identificação do tipo de substituição tributária em causa–substituição tributária parcial ou
retenção na fonte a título de pagamento por conta do imposto devido a final; substituto (XPTO, Lda.)não
reteve as importâncias devidas a título de imposto pelo substituído (Manuel),logo, nos termos do artigo
28.º/2 LGT ,responde a título subsidiário pela dívida tributária, respondendo o trabalhador a título
principal;

b) E caso Manuel pague a totalidade do imposto devido relativamente ao ano de 2014, haverá ainda
fundamento legal para impor à empresa o pagamento de algum montante? A que título?(2val.)

Correção:A XPTO, Lda. (substituto) fica ainda sujeita ao pagamento de juros compensatórios, nos termos
do art. 28.º/2LGT; juros compensatórios são as importâncias devidas em virtude de um atraso na
liquidação imputável ao sujeito passivo (artigo 35.ºLGT);

c) Quando é que ocorre a reversão da execução fiscal e como se compaginacom o “benefício de excussão
prévia”?(2 val.)

Correção :responsabilidade subsidiária (art. 22.º/4 LGT); reversão da execução fiscal (art. 153.º/2 CPPT);
benefício da excussão prévia: revertido, enquanto responsável subsidiário, tem o direito de recusar o
pagamento da dívida tributária enquanto não estiver excutido (executado/vendido) o património do
devedor originário; conciliação ocorre através da suspensão oficiosa do processo de execução fiscal, sem
necessidade de o revertido prestar garantia idónea ,quando não seja possível determinar com exatidão o
valor dos bens penhorados do devedor originário(art. 23.º/3LGT);nos restantes casos, não há suspensão
da execução fiscal, amenos que o revertido preste garantia idónea nos termos gerais(arts. 169.º e 199.º
CPPT);

d) PoderáManuel proceder ao pagamento do imposto em dívida através da entrega de 50 toneladas de


batata? Explique(2 val.)

Correção: formas de extinção da obrigação fiscal–dação em pagamento (arts. 201.º e 202.º CPPT):
pagamento da dívida tributária, pelo executado ou por terceiro, através da entrega de bens móveis ou
imóveis que não dinheiro; exige-se que os bens dados em pagamento não tenham valor superior à
dívida exequenda e acrescido, salvo nos casos em que se demonstrar a possibilidade de imediata
utilização dos referidos bens para fins de interesse público ou social;

e) Imagine agora que a XPTO, Lda, tinha efectuado as competentes retenções na fonte, mas entregara à Fazenda
Pública um montante de imposto superior ao retido em relação ao último trimestre de 2014.Comodeve agir para
regularizar a situação?(2,5 val.)

Correção: situação de reclamação graciosa obrigatória (art. 132.ºCPPT) em caso de substituição


tributária(total/parcial); se o substituto (empregador) entregar ao Estado montante de imposto superior ao retido e
já não for possível efetuar acertos/descontos nas entregas posteriores, a impugnação judicial da entrega está
dependente de prévia dedução de reclamação graciosa, no prazo de 2 anos contados a partir da entrega excessiva
(art. 132.º/3CPPT); impugnação judicial do ato de indeferimento da reclamação graciosa no prazo de 3 meses (art.
102.º/1 CPPT); fundamento da reclamação graciosa obrigatória e exceções (arts. 132.º/6 e 131.º/3CPPT