Você está na página 1de 9

Página 1 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana


(aufhebung) à integração junguiana1

Carl Gustav Jung and postmodernity: from hegelian overdrive (aufhebung)


to jungian integration

Carl Gustav Jung y la posmodernidad: de la superación hegeliana


(aufhebung) a la integración junguiana

Michel Maffesoli2

Resumo

Este artigo aborda a relação da Psicologia Analítica com a pós-modernidade a partir de três pressupostos
e consequências: superação do individualismo epistemológico, a progressividade a partir da tradição e
colocar em xeque a fé na razão soberana. Para tanto, algumas noções de Jung são fundamentais nesse
processo: compensação, sombra e intersignos. Essa passagem do conhecimento pautado no corte para
concepções holísticas caracteriza o imanentismo epistemológico, que aponta para a superação da
Educação pela iniciação, do domínio da natureza para a ecosofia e da lógica da não contradição para a
lógica do contraditorial, de pessoas plurais.

Palavras-chave: Psicologia Analítica. Pós-Modernidade. Tradição.

Abstract

This article addresses the relationship of Analytical Psychology to postmodernity, from three
assumptions and consequences: overcoming epistemological individualism, progressivity from tradition
and putting faith in sovereign reason in check. Therefore, some notions of Jung are required in this
process: compensation, shadow and intersign. This passage from court-based knowledge to holistic
conceptions characterizes epistemological immanentism, which points to the overcoming of education
through initiation, from the domain of nature to ecosophy and from the logic of non-crontadiction to the
logic of the contradictory, of plural people.

Keywords: Analytical Psychology. Postmodernity. Tradition.

Resumen

Este artículo aborda la relación de la Psicología Analítica con la posmodernidad, a partir de tres
supuestos y consecuencias: superar el individualismo epistemológico, la progresividad de la tradición y
poner a prueba la fe en la razón soberana. Con este fin, algunas nociones de Jung son fundamentales en
este proceso: compensación, sombra e intersign. Este pasaje del conocimiento basado en la corte a las
concepciones holísticas caracteriza el inmanentismo epistemológico, que apunta a superar la educación
a través de la iniciación, del dominio de la naturaleza a la ecosofía y de la lógica de la no contradicción
a la lógica de lo contradictorio, de las personas plurales.

1
Artigo oriundo da conferência de abertura do II Seminário Caminhos Junguianos: a travessia do Sussuarão,
realizada em 11 de setembro de 2015, no anfiteatro do campus Dom Bosco da Universidade Federal de São João
del-Rei. Tradução de Rodolfo Luís Leite Batista
2
Professor Emérito da Sorbonne. E-mail: michel@maffesoli.org.

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 2 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

Palabras clave: Psicología Analítica. Posmodernidad. Tradición.

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 3 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

Agradeço a todos vocês pelo De certa maneira, Jung nos


convite. Para mim, é uma experiência vir permite pensar aquilo que hoje está
a esta cidade. São João del-Rei é longe, sendo elaborado: a pós-modernidade. O
mas tenho muito prazer em estar aqui e inconsciente coletivo é certamente uma
espero que possamos discutir todos alavanca metodológica para isso.
juntos a partir de agora. Vim aqui para Compreenderemos o que está
participar do Seminário Caminhos acontecendo hoje somente a partir de um
Junguianos. A palavra seminário é colocar-se a caminho tal como proposto
interessante. Um seminário é lançar pelo pensamento junguiano. Antes de
sementes. Um seminário não é dar entrar no cerne do tema, cada um tem
soluções, mas colocar certo número de suas obsessões (obsessões honestas, com
questões. É o que está, aliás, na certeza, não é?). Minha obsessão teórica
verdadeira origem da tradição é a temática do imaginário, ou seja, o
universitária. No século XIII, quando se lembrar-se de algo por meio de um
começou a fundação de universidades esforço simples. Desde seu nascimento,
(como a Sorbonne, na França, ou a de nossa espécie animal só existe porque ela
Bolonha, na Itália) se estabelecia algo fala de si. É preciso dizer aquilo que se
que era contrário à escola catedrática, ou é. É isso o imaginário. Com certeza, há
seja, contra a formação de funcionários. termos científicos que expressam o que
A ideia de universidade vem de acabo de falar: destaco o termo episteme
universitas, é aquela ideia de colocar proposto por Michel Foucault (2007),
questões, de fazer perguntas... O que é simplesmente o conhecimento que
segundo aspecto que muito me se tem sobre si mesmo. Em grego, há
interessou é a ideia de caminho. duas palavras para definir conhecimento:
Evidencio que, quando há mutações e teoria, o conhecimento puro; e episteme,
mudanças societais, é preciso voltar a se o conhecimento que se aplica. Quando
colocar a caminho. É o método, Foucault insiste na ideia de episteme é
methaodos. É algo que não se basta, que porque, simultaneamente: (i) somos o
não contém respostas, mas que coloca que somos; (ii) dizemos o que somos;
perguntas. Nessa perspectiva, retomo a (iii) aplicamos aquilo o que somos.
ideia original de Aristóteles quando Há sempre uma episteme
começa a pensar a Filosofia. Em grego, dominante e Michel Foucault dá uma
ele diz que é preciso colocar questões e série de exemplos disso: no início da
problemas de uma maneira bela; a nossa tradição cultural, a tradição greco-
palavra aporia (que existe também em latina, a episteme dominante é a
língua portuguesa) designa problemas mitologia. Frequentemente, a
para os quais não se tem interpretação que se tem da mitologia é a
verdadeiramente respostas. Para mim, é de uma organização da cidade
isto: o colocar-se a caminho. correlativa à explicação mitológica. Por
Regularmente, a cada três ou quatro exemplo, Atenas tinha uma interpretação
séculos, quando uma época se acaba, é da mitologia que é a vida ateniense;
preciso recolocar as questões. A palavra Esparta tinha outra interpretação da
época também vem do grego e quer dizer mitologia que é a vida espartana. Não é
parênteses. Um parêntese se abre e um preciso ser um grande historiador para
parêntese se fecha. Para mim, o saber que há uma grande diferença entre
parêntese da modernidade está se a vida ateniense e a vida espartana. A
fechando. Então, talvez seja por isso que partir da mesma mitologia se dão coisas
eu vim aqui. diferentes: é isso a episteme (ou é
simplesmente isso o imaginário). Somos

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 4 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

determinados por certa maneira de verdadeiro florescimento das coisas.


pensar. Eu falei de episteme, mas outro Com isso, não estou falando da grande
exemplo é o de paradigma proposto por ideologia moderna do desenvolvimento,
Thomas Kuhn (2007). A metáfora dada mas sobre a ideia de um enveloppement,4
por Thomas Kuhn para explicitar o que é como se estivéssemos tomados por
o paradigma é a de uma matriz. A matriz alguma coisa. Para mim, essa é a grande
pode ser fecunda, mas também pode se mudança epistemológica que ocorre
tornar infecunda. Esse é um ponto sobre hoje. Eu me pergunto se as instituições
o qual devemos insistir, porque somos (inclusive as universidades) são capazes
tributários da vida do espírito. Em outros de pensar esse enveloppement, de pensar
termos, do inconsciente coletivo. Para a ideia de tradição, porque estamos
dizer tudo isso de uma maneira muito bestamente enrolados nessa noção de
simples, trata-se de um problema de desenvolvimentismo e de progressismo.
clima. Seja clima no sentido estrito ou Essa é a reflexão que gostaria de
clima no sentido espiritual. Vocês sabem trazer sobre o imaginário: minha
bem que o clima muda a cada três ou definição bastante simples é a de que se
quatro séculos; há uma mudança compreende o real pelo irreal. Ou seja,
climática e é este o momento histórico compreende-se o real a partir do espírito
que vivemos hoje. (talvez mesmo a partir da alma). É essa a
Na realidade, é preciso saber ideia hegeliana de Zeitgeist, de espírito
falar sobre isso. Com certeza, na minha do tempo ou de atmosfera mental que
tradição que é a francesa, me lembro de pode mudar – mais ou menos (Hegel,
Albert Camus (2006, p. 908): “Nomear 1999). Estamos em um desses momentos
mal as coisas contribui com a miséria de saturação.
deste mundo.”3 Encontrei uma frase Pessoalmente, gosto bastante
semelhante e muito bonita em dessa palavra: saturação. É como
Guimarães Rosa (1994, p. 245): “toda acontece numa saturação química: as
ação principia mesmo é por uma palavra diversas moléculas que compõem um
pensada. Palavra pegante, dada ou dado corpo não podem mais ficar juntas
guardada, que vai rompendo rumo.” A e há uma desestruturação, um divórcio,
palavra guardada, conservada, é uma uma desconstrução. Ao mesmo tempo,
palavra que vem de longe, de nossa as mesmas moléculas se juntam e vão
tradição, e que vai abrindo seu caminho compor outro corpo. É essa a ideia de
ao longo do tempo. É a partir da palavra saturação. Para falar de um modo
conservar que se tem a ideia de tradição. simples: o fim de um mundo não é o fim
Em latim, tradição vem de tradare, do mundo. Há, pois, um processo de
transportar algo comigo, e é a partir disso recomposição que está em vias de
que se faz o caminho. A agricultura é acontecer e a grande ideia ou o grande
isso; a ideia de tradição tem a ver com o conceito junguiano para compreender
fazer o caminho no chão, com o arar a isso é o de compensação (Jung, 2011a).
terra. Vejam, então, do que se trata, de Quando algo não está funcionando muito
onde vem a noção de seminário: jogar no bem, há uma nova composição que se
campo algumas sementes e, somente a constrói e é isso o que é vivido desde o
partir disso, é possível acontecer um passado. Já fiz referência a isso quando

3
Mal nommer un objet, c’est ajouter au malheur neologismo enveloppamentalisme que pode ser
de ce monde. compreendido como envolvimento e
4 envelopamento (Nota do tradutor).
Optou-se pela manutenção do termo francês
enveloppement. Dele, Maffesoli criará o

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 5 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

há pouco disse do grande progressismo distante, mas um sacral (sacramental). É


que existe e, nesse momento, há um isto: uma transcendência imanente, a
desnível entre o oficial e o oficioso, entre encarnação do divino. Dizendo isso de
o dogmatismo (que é das nossas maneira mais sofisticada, quando o ser
instituições) e o oficioso (da vida infinitivo permanece como ser infinitivo
cotidiana, daquilo que é vivido de forma e não se torna o ser nominal. O ser
simples e banal). Então, esse vivido deve infinitivo é o verbo ser ou estar; o ser
ser pensado – é essa a ambição da nominal é quando se nomeia o ser. Um
universidade e de qualquer pensamento. exemplo de nominalização é quando a
Para tanto, é preciso abandonar algumas deidade se torna Deus. A nominalização
certezas para compreender bem esse que fizemos do ser é tardia; a isso chamo
borbulhamento. É também por isso que de imanentismo epistemológico.
sou fascinado pelo romance de Acredito que devemos permanecer no
Guimarães Rosa, porque ele nos traz infinitivo, no termo ser. De minha parte,
isso. Para mim, é isso o método. É isso o penso que devemos ficar no ser
colocar-se a caminho. infinitivo, no verbo ser-estar. Essa é a
Agora vamos ao quadro perspectiva junguiana, essa é minha
semântico – para usar uma palavra mais perspectiva.
chique. Se eu tivesse um quadro aqui, eu Então, retomando essa discussão
escreveria para vocês que nos é possível com uma palavra mais comum, eu falaria
compreender o neótipo somente pelo em holismo. Holismo vem do grego
arquétipo. O real, a partir do holos e quer dizer o todo. Isso quer dizer
inconsciente. Eu friso: o real, não a uma interação que se estabelece entre as
realidade. O princípio de realidade é diversas realidades da vida. É bastante
sempre de realidade econômica, de difícil pensar sobre isso porque nosso
realidade política, de realidade social ou cérebro é reptiliano, é de separação.
qualquer outra. O real é prenhe do irreal, Gilbert Durand (1997) fala do princípio
de fantasmas, de fantasias, de de corte e existe, na longa duração,
fantasmagorias; o mito é isso. É esta a ilustrações desse princípio: para
definição que proponho para vocês: o começar, o primeiro capítulo do Gênesis
real é rico de irreal. Somos o que é, e o versículo segundo, o qual Deus
fundamentalmente porque sonhamos e o separa a luz das trevas, divisit lucem a
sonho não é individual; trabalhamos no tenebris. Eu diria que esse versículo é a
sonho coletivo. É essa a relação ou, inauguração do princípio de corte. A
dizendo em termos científicos, a dialogia partir disso, vai se estabelecer o grande
existente entre o neótipo e o arquétipo. O conceito freudiano de Spaltung (Freud,
mundo dos arquétipos é o mundo dos 1996), o corte entre a natureza e a
mitos, das lendas e dos contos; é o cultura, entre o corpo e o espírito, entre
politeísmo de valores; é o paganismo. O o material e o espiritual etc. É esse o
paganismo é do catolicismo também, princípio de corte. Por isso fiz questão de
meu caro amigo. Para mim, os católicos, frisar a questão do cérebro reptiliano.
aliás, os verdadeiros católicos, são Podemos pensar apenas a partir da
pagãos. Eles têm um culto da diversidade separação.
que é bastante interessante, como Com isso, me parece que voltar à
evidencia o culto da Virgem Maria, por vida cotidiana (que é também o método
exemplo. É isso o que tenho chamado de junguiano, que é o colocar-se a caminho
paganismo difuso. Eu chamei isso de de Jung) possibilitará a ultrapassagem
transcendência imanente (Maffesoli, desse princípio de corte em direção a um
2010). Não se trata mais de um deus princípio de reversibilidade.

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 6 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

Encontremos uma palavra para falar quando sou capaz de produzir minha
sobre isso, eu diria: interação. Veremos própria lei. Vem daí O Contrato Social
como, de diversas maneiras, existe esse (Rousseau, 1996), o segundo livro.
ser infinitivo, esse algo que permite que Posso fazer a história do mundo, a
não se pense mais a partir dessa noção de história da sociedade. É isso, então, o
corte. E se compreendermos bem essa individualismo epistemológico – é o
ultrapassagem do princípio de corte, fundamento do contrato social, da
estaremos, ao mesmo tempo, no holismo Psicologia, da Sociologia, do vínculo
tradicional, no colocar-se a caminho social em geral.
junguiano, e no vivido pós-moderno. Michel Foucault nos mostrou que
Notem que eu digo vivido, algo que está esse é o fundamento de todas as
longe do pensado. Dentre vários instituições que surgiram ao longo do
exemplos possíveis, apresento três século XIX. Então, é contra isso que
pressupostos e três consequências. estamos em via de elaborar um processo
O primeiro pressuposto é a de dessubjetivação, o inconsciente
superação do individualismo coletivo. Para isso, eu retomo mais uma
epistemológico. Na grande tradição vez uma citação de Guimarães Rosa
moderna (por moderno, compreendo a (1994, p. 52): “jagunço é um homem já
grande tradição semítica e ocidental), vê- meio desistido por si.” Isso quer mostrar
se elaborar o que denomino de a importância do nós, do grupo, da
individualismo epistemológico, o comunidade. Eis a metáfora que propus
cartesianismo, o cogito ergo sum. Todas da tribo (Maffesoli, 1987).
as formas latinas são bastante A consequência desse primeiro
interessantes e essa expressão aponta que elemento, para mim, é o esgotamento do
eu sou o governador da minha fortaleza, caminho educativo ou pedagógico. É
do meu espírito, do meu cérebro. É essa sempre o eterno problema de toda
fortaleza do espírito que vai estabelecer espécie animal: como vamos socializar a
uma espécie de contrato social que existe energia juvenil? Como vamos integrá-
entre as diversas fortalezas. O vínculo la? Como vamos castrá-la? Como vamos
social é uma ligação de fortaleza a integrar a energia sem castrá-la demais?
fortaleza. Individualismo A Educação é uma dessas socializações
epistemológico e Reforma Protestante. e, sob o meu ponto de vista, há uma
O que é a Reforma Protestante? O texto saturação da Educação. A crise de todas
sagrado é traduzido em língua profana, as instituições educativas demonstra
ou seja, não há mais necessidade de um isso. Não sei como essa questão está no
clérigo que interprete o texto e cada um Brasil, mas na França a crise da
tem sua própria relação com seu deus. Educação é algo bem forte. Lá, a
Isso é o individualismo religioso. Em um Educação não funciona mais.
terceiro momento, o individualismo Em certo sentido, a pedagogia
político. A Filosofia das Luzes: nessa vem de pedofilia. Vem de uma forma
perspectiva, dois livros de Jean-Jacques perversa. Quando uma fórmula não está
Rousseau são interessantes: o Emílio em congruência com o espírito do tempo,
(que é o romance da Educação) ela se torna perversa. Mas existe uma
(Rousseau, 2004). Nele, a criancinha é segunda fórmula de socialização: a
educada, isso quer dizer que ela é iniciação. A Educação pressupõe a ideia
retirada de sua condição e se torna um de que eu, como educador, vou impor
indivíduo autônomo. A palavra algo vindo de fora. A iniciação é o
autônomo (em grego authonomos) quer contrário, ela vai fazer sair aquilo que já
dizer que eu sou minha própria lei, está lá. A iniciação vai se fazer a partir

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 7 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

daquilo que é inicial, a tradição. E nisso lógica da não contradição. Quando


para mim está a mudança, a renunciamos de várias maneiras à lógica
transformação: não é mais a partir da de que A não pode ser não A. É essa a
imposição educativa de algo vindo do lógica da não contradição. Então, pode
exterior, mas, ao contrário, o retirar o existir outra lógica, chamada lógica do
tesouro que já está lá. Nisso está a contraditorial (e… e..): eu sou isso E
verdadeira mudança que está aquilo. O poeta Rimbaud diz isso de uma
acontecendo: o mestre não vem antes, ele forma muito bonita quando afirma que
vem depois, quando o discípulo, com eu posso ser isso E aquilo. É isso o
certeza, já está pronto. contraditorial e é isso que está em vias de
O segundo pressuposto, ao qual se modificar hoje em dia. Não mais um
voltarei mais adiante, é o seguinte: não indivíduo uno (indivíduo quer dizer
estamos no simples sentido acumulativo indivisível), mas uma pessoa plural. Que
do progresso. Gostaria de fazer uma pode ser isso, aquilo e aquilo outro. É
distinção entre progressismo e isso que chamo de colocar em questão a
progressividade das coisas, porque esses razão soberana.
termos mostram concepções distintas de O fundamento desses três
tempo. No progressismo, a humanidade pressupostos é nossa relação com a
parte de um ponto A de barbárie e chega temporalidade. Digo frequentemente a
a um ponto B de civilização: ordem e meus alunos que só podemos
progresso. Isso é tipicamente o século compreender uma sociedade se a
XIX, mas não deixa de ser simpático e entendermos em sua própria
não podemos desprezar isso, pois é esse temporalidade. E nossa grande
mito progressista que ocasionou toda a temporalidade é Cronos, um tempo
devastação do mundo; a tragédia evolutivo, o progressismo. Enquanto, em
ecológica nos mostra isso muito Jung, existe a noção de Aion, o tempo
claramente. A progressividade é outra imóvel, da noção de duração proposta
coisa: é aquilo que vai se elaborar a partir por Bergson, são os arquétipos. Ou seja,
de raízes. Não é mais a flecha do tempo para finalmente dizer que a relação é
progressista, mas a espiral. Mais uma invariável: enquanto o tempo passa, há
vez, isso remonta à tradição e a certo tipo algo que não muda. Para Heidegger
de ecosofia, um tipo de sabedoria da casa (1988), o tempo ele mesmo inteiro em
comum (Maffesoli, 2017). Isso quer seu desdobramento não se move, ele é
dizer que se cria um novo tipo de relação imóvel. É isso o enveloppamentalisme.
com a natureza. Não mais uma relação Em francês, essa palavra é um
de dominação, de exploração, não mais neologismo que é difícil para traduzir em
uma relação de desenvolvimento, mas de português. Para fazer referência mais
envolvimento, de enveloppement. Eis aí uma vez a Guimarães Rosa, com uma
o segundo pressuposto: o elemento da imagem muito bonita: o jagunço é o filho
tradição. do instante. Estamos no coração do
O terceiro pressuposto e a pensamento fenomenológico husserliano
terceira consequência: o colocar em e heidegeriano, o dasein, ser-aí e ser-o-
xeque a fé na razão soberana. Vemos aí. E ser ao mesmo tempo o ser desperto.
esse trabalho de Schelling a Jung, e que Eis, para mim, aquilo que é o
encontramos também em Michel presentismo – essa é outra maneira de
Foucault, Gilles Deleuze e Gilbert compreender o tempo que não aquela
Durand: um diferencialismo, não mais futurista, longínqua, progressista. Em
uma lógica de identidade, não mais um outras palavras, pensar a partir das raízes
universalismo. Ou seja, não mais a psicológicas, fundamentalmente. É isso

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 8 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

que fez regularmente o pensamento da o festivo, a criança eterna. Para mim,


Renascença e que eu diria que é a ideia isso é Dioniso, receber como uma
de compensação junguiana, criança o Reino de Deus.
principalmente. Poderíamos continuar por horas
Bom, não estamos mais em uma essa conversa, mas vamos parar por aqui,
sociedade perfeita, mas em uma ideia de nessa intemporalidade presente, o
completude. Fundamentalmente, na instante eterno daquele quadro
ideia de inteireza do ser e, nisso, semântico: arquétipo-neótipo;
encontramos a noção junguiana de intemporal-presente; invariante-instante
sombra. Não mais o “ou....ou...”, mas eterno. É isso que está para mim no
“e....e...”: o claro e o obscuro da coração da tradição junguiana: aquilo
existência, fundamentalmente. A mais que vem no início, isso quer dizer aquilo
bela expressão de Carl Gustav Jung: que vem da mitologia, dos contos e das
Nicht’raus sondern durch; não mais para lendas, a busca do Graal. É essa busca do
além, mas através. E isso é a sombra. É Graal que é o fundamento da iniciação e
nisso que está, para mim, o teorema nisso, mais uma vez em Guimarães Rosa
fundamental da pós-modernidade. Em (1994, p. 45), “o irremediável extenso da
termos retóricos, é o oxímoro. Um vida”. De minha parte, eu chamei isso de
exemplo de oxímoro é a “obscura reencantamento do mundo (Maffesoli,
claridade” ou “o negro sol do desejo”. 2009).
Penso que essa mutação que
acontece na atualidade e que está no Referências
coração da crise contemporânea. A crise
não é econômica, a crise é societal, ela é Camus, A. (2006). Œuvres Complètes
a negação da falta espiritual causada pela (Vol. II, pp. (1671-1682). Paris:
abundância de consumo. No fundo, essa Pléiade
abundância de consumo cria uma falta Durand, G. (1997). Estruturas
espiritual. As atitudes paroxísticas e antropológicas do imaginário. São
paradoxais. Nesse período de crise Paulo: Martins Fontes.
societal, o desenvolvimento do lúdico, Foucault, M. (2007). As palavras e as
do festivo em suas diversas modulações, coisas: uma arqueologia das
é sintoma dessa recusa da falta espiritual. ciências humanas. São Paulo:
Quando não há nada de necessário, o Martins Fontes.
supérfluo torna-se é importante. Freud, S. (1996). Estudos sobre a
Notamos isso no livro Psicologia e histeria. In: Edição Standard
Alquimia, de Jung (2011b), a partir da Brasileira das Obras Psicológicas
expressão intersigno. No esoterismo Completas de Sigmund Freud (Vol.
medieval, intersigno é a relação que se II, pp. 47-48). Rio de Janeiro:
estabelece entre dois fatos totalmente Imago.
contraditórios. É isso o intersigno. E, Heidegger, M. (1988). Ser e tempo.
para mim, existe um intersigno entre o Petrópolis: Vozes.
desenvolvimento lúdico e a crise Hegel, G. W. F. (1999). Filosofia da
econômica. E, a partir disso, é preciso História. Brasília: UnB.
voltar às raízes, aos arquétipos, aos Jung, C. G. (2011a). Símbolos da
encontros musicais e festivos, algo que transformação. Petrópolis: Vozes.
remonte à cultura do instinto, àquilo que Jung, C. G. (2011b). Psicologia e
nos lembre que o animal humano alquimia. Petrópolis: Vozes.
também é um animal. É essa a ideia que
está em Psicologia e Alquimia, o lúdico,

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558
Página 9 de 8

Maffesoli, M. Carl Gustav Jung e a pós-modernidade: da ultrapassagem hegeliana (aufhebung)


à integração junguiana

Kuhn, T. (2007). A estrutura das


revoluções científicas. São Paulo:
Perspectiva.
Maffesoli, M. (1987). O tempo das
tribos: o declínio do
individualismo nas sociedades de
massa. Rio de Janeiro: Forense
Universitária.
Maffesoli, M. (2009). Le
réenchantement du monde. Paris:
La Table Ronde.
Maffesoli, M. (2010). O conhecimento
comum: introdução à Sociologia
compreensiva. Porto Alegre:
Sulina.
Maffesoli, M. (2017). Écosophie. Paris:
CERF.
Rosa, J. G. (1994). Grande sertão:
veredas. São Paulo: Companhia
das Letras.
Rousseau, J. J. (1996). O contrato social.
Rio de Janeiro: Ediouro.
Rousseau, J. J. (2004). Emílio ou da
Educação. São Paulo: Martins
Fontes.

Recebido em: 20/7/2019


Aprovado em: 22/11/2019

Pesquisas e Práticas Psicossociais 14(4), São João del-Rei, outubro-dezembro de 2019. e3558