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ALEXANDRE DE MORAES

TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO

Trabalho apresentado a disciplina de Literatura e


Contexto Histórico do Novo Testamento apresentado
ao Profº. Dr. Paulo Roberto Garcia, Noite, do Curso
de Teologia da Faculdade de Teologia- Universidade
Metodista de São Paulo.

São Bernardo do Campo — junho de 2010


TRABALHO DE TEOLOGIA1
Conforme orientação inicial, a partir da leitura de todos os textos apontados
anteriormente, responda às seguintes perguntas:

a) Qual a realidade da Galiléia (a realidade da Galiléia pode ser derivada para toda a
região siro-palestinense)?

Ao contrário das visões tradicionais que homogeneizavam o judaísmo e viam a


região da Galiléia como simplesmente uma área rural periférica, isolada pelas condições
geográficas (montanhas) do mundo grego e que, portanto, afirmavam que em tal local as
mudanças sócio-culturais eram insignificantes, surgiram novas pesquisas que apontam
que essa região das terras bíblicas está marcada por uma enorme pluralidade cultural e
um rico diálogo com outras tradições. Assim sendo, essa importante região distingui-se
por diversos acontecimentos que trouxeram influências importantíssimas que forjaram
uma identidade plural e histórica singulares para o povo da Galiléia. Dentre tais
acontecimentos podemos aludir os seguintes: o preconceito de outras comunidades em
relação aos seus moradores, principalmente por parte da elite da Judéia e de Roma. O
processo conflituoso com os povos estrangeiros e mesmo com seus irmãos da Judéia. E
outro ponto fundamental é a composição étnica da Galiléia na época de Jesus que tudo
indica está relacionada a deportação parcial dos judeus mais notáveis da elite na época
do cativeiro babilônico e a permanência no local de uma grande parcela de camponeses.
Foram estes campesinos que sofreram diversas dominações e violências: babilônicos,
persas, gregos (ptolomeus e selêucidas) que guardariam essa tradição na época de
Jesus e que, portanto, indica que os galileus eram marginalizados desde muito tempo,
inclusive pagando tributos até aos habitantes de Samaria.
Em decorrência dessas peculiaridades (tributação, falta de infra-estrutura,
expropriação de terras, urbanização e helenização) na Galiléia emergiu importantes
embates com as tradições e as perspectivas teológicas centradas na teologia do Templo
de Jerusalém. Esses aspectos logo provocariam uma dicotomia entre os costumes
galileus centrados na reciprocidade da vida das comunidades aldeãs de subsistência
focadas nos laços familiares e na preservação das heranças tribais e a lei dos judeus
baseadas nos dízimos, oferendas e diversos impostos para custear o estado-templo. Esse
histórico demonstra que as tradições judaicas do norte (Israel) são diferentes das
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ALEXANDRE.MORAES MAT.159914 TEOLOGIA POLO LONDRINA NOITE
tradições do sul (Judá) diferenças que contribuem para compreensão dos conflitos
suscitados época de Jesus. Assim, sendo a realidade da Galiléia não pode ser estendida
a toda a região siro-palestinense.

b) Que característica de cristianismo é percebida nessa região?

Nas diversas leituras e tele aulas percebemos quanto o cristianismo em sua


origem é fruto de um movimento plural marcado pela diversidade e a tensão entre
diversas tendências que durantes muitos séculos concorreram no processo da mediação
do sagrado. O cristianismo siro-palestinense, em seus escritos cumpriu um poder de
agregação sobre outros movimentos cristãos existentes naquele contexto histórico-social.
Pois, como dissemos anteriormente a região siro-palestinense possui uma rica tradição
cultural oriunda das condições históricas singulares de cada comunidade. Por isso, não
podemos homogeneizar o judaísmo oriundo desse riquíssimo patrimônio histórico, cultural
e teológico.
Já em relação ao cristianismo primitivo podemos destacar que na religião siro-
palestinense forjou-se uma religião com características peculiares do cristianismo oriundo
do mundo mediterrâneo, ou seja, o contexto acaba por determinar as características
literárias e teológicas no cristianismo nascente. No mundo mediterrâneo a característica
principal do cristianismo está intimamente relacionada ao gênero literário cartas que era a
forma helênica de enfrentar os problemas pensando diretamente sobre estes. Ou seja, no
contexto do cristianismo, as cartas (Paulo, Pedro, Tiago, Judas e João) são o jeito típico
do mundo mediterrâneo cristão de resolver os dilemas da fé, refletindo e se posicionando
sobre eles para orientar as comunidades de fé diante dos desafios do dia-a-dia. Em
síntese, na região do mar mediterrâneo forjou-se um cristianismo ligado ao mundo do
comércio, do grande afluxo de pessoas com culturas e religiões diversas que trafegavam
pelas estradas romanas (urbanização).
Por sua vez, no mundo sírio-palestino forjou-se um cristianismo com outras
características próprias do contexto histórico daquela região. Ali surgiu um cristianismo
apoiado nos evangelhos (Boa Notícia) que anteriormente era uma literatura relacionada
às vitórias de indivíduos (imperadores) ou povos e nesse novo contexto passou a
anunciar que a Boa Notícia era Jesus, o Cristo. Logo, era um modo de enfrentar o poder
imperial estabelecido, sobre a figura dos césares num momento conflituoso da guerra
judaica. O cristianismo dessa região é marcado pela proclamação da vitória de Cristo
sobre o medo, é de lembrar-se do passado frente aos problemas do presente e ter
esperança num futuro melhor.
Deste modo, as características sociais, culturais e teológicas singulares da
Galiléia influenciaram também a nascente religião cristã que dava seus primeiros passos
naquele momento histórico. Pois, entre os galileus emergiu uma tradição religiosa que
foca um conceito de Deus conforme as experiências contidas no Êxodo. Logo se destaca
uma divindade que caminha e se revela no sofrimento do seu povo. Emerge uma religião
que enfatiza a reciprocidade familiar e do nível de cultivo em detrimento da tradição
religiosa da Judéia que superestima as relações de proteção e purificação baseadas no
templo estabelecido em Jerusalém. Assim, sendo essa relação conflituosa marcou a vida
do Galileu Jesus que distinguia a região de Jerusalém como aquela que não busca a
verdadeira paz, a assassina de profetas e a além do mais, aquela que transforma a casa
de Deus (templo) em covil de ladrões.
Resumindo o cristianismo siro-palestinense está marcado pela tradição
galiláica de reciprocidade e defesa do espaço familiar, no entendimento da terra como
espaço de vida e como legado da dádiva divina e particularmente numa devoção que não
se prende a lugares ou ritos, pois emerge nos espaços cotidianos da vida e das relações
sociais. Portanto, o cristianismo do movimento de Jesus apresenta outra perspectiva da fé
judaíca embasado na renovação da piedade, no amor, na fraternidade e na vivência de
camponeses e pescadores sobrepujados e cerceados pelo processo de helenização e
urbanização. Enfim essa mensagem era uma forma de contrapor o formalismo religioso
apregoado pelos fariseus e doutores da lei mosaica. Em outras palavras, como bem
enfatizou o professor Paulo Roberto Garcia essas discussões são baseadas nas
interpretações de Rudolf Bultmann que propôs uma dicotomização do cristianismo
primitivo entre a tradição palestinense e a tradição helênica. Assim, nesse arquétipo o
cristianismo palestinense seria centralizado nas aldeias agrário-campesinas de
linguagens aramaicas e de mensagens divulgadas através de parábolas.
.
c) Que características marcam a literatura produzida por essa região?

Como enfatizamos anteriormente a produção literária está marcada pelo


contexto sócio-cultural da região na qual o texto emerge. Assim, podemos retratar que a
região siro-palestinense é marcada por uma enorme pluralidade judaíco-teológico como
atestam vários escritos, tais como: o livro dos Jubileus, elaborado por um sacerdote
hassidim que enfatiza que o mal pode ser superado mediante a prática da lei: Documento
de Damasco, um escrito de grande circulação no mundo judaico e que da ênfase aos
preceitos e práticas cotidianas para manutenção da pureza: Pseudo Filo, escrito teológico
diferenciado entre os escritos palestinenses, pois foca a tradição das sinagogas e uma fé
legalista.
No entanto, na região siro-palestinense o gênero literário que mais marcou foi o
evangelho, pois era uma forma peculiar de literatura daquele mundo de enfrentar os
problemas a partir da observação do passado para fortalecer o presente e trazer
esperança para o futuro. Portanto, o evangelho é uma espécie de enfrentamento cristão
ao evangelho da “paz pela guerra”, proposto por César, especialmente, no período da
guerra judaica. O primeiro escrito a utilizar esse gênero, foi o Evangelho de Marcos. Nele
podemos perceber nas entrelinhas a riqueza cultural e teológica da região e a conflituosa
relação dos galileus com os habitantes da Judéia e os estrangeiros, principalmente os
romanos. Pois, as memórias desse tempo permaneceram vivas nos seguidores de Jesus,
possivelmente redigido na Galiléia, uma região do cruzamento entre o helenismo e o
poder greco-romano. Marcos, por conseguinte é um evangelho singular: não cita a capital
provincial romana de Sefores e seus aspectos helenísticos, tece criticas a religião
estabelecida no Templo, evidenciando assim, o conflito entre galileus e judeus. Outro
aspecto importante desse evangelho é a utilização de termos militares latinos e a
tradução nomes de origem aramaica evidenciando a grande presença de gentios em seu
meio.
Resumindo a região siro-palestinense era rica em tradições culturais e
teológicas judaicas que contribuíram para a formação do cristianismo da região, pois as
escrituras judaicas não foram suficientes para suprir as demandas do movimento cristão.
Assim, surgem os primeiros escritos sobre Jesus a vida de Jesus recolhidos da tradição
oral e de outros escritos espalhados pelas diversas comunidades. Do mesmo modo, o
cristianismo da região foi forjado dentro dessas tradições e o gênero Evangelho foi a
marca principal desse mundo. Dessa forma, podemos destacar que locais e períodos
históricos diferentes geraram evangelhos diferenciados. Por exemplo, o Evangelho de
Marcos e Mateus foi gerado na Galiléia. O primeiro, como citamos, surgiu no tempo da
guerra judaica, porém o segundo foi redigido aos cristãos judeus após esse marcante
evento que levou a destruição do templo de Jerusalém. Por sua vez, os evangelhos de
João e de Lucas possuem outras características. João foi escrito a partir do contexto da
Transjordânia e Lucas a partir do contexto da Síria na fronteira entre o cristianismo
mediterrâneo e o cristianismo siro-palestinense evidenciando outras características
particulares daquele local e tempo histórico.

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