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Universidade de Santiago – polo da praia

Curso direito -1º ano


Teoria geral do direito civil

- Princípio da BOA FÉ -

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Sumário
INTRODUÇÃO...............................................................................................................3

I. EVOLUÇÃO HISTÓRIA..................................................................................4

NO DIREITO FRANCÊS.........................................................................................6

NO DIREITO PORTUGUÊS...................................................................................6

NO DIREITO CANÔNICO.....................................................................................7

II. CONCRETIZAÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA...........................................7

BOA FÉ OBJETIVA...................................................................................................7

BOA FÉ SUBJETIVA.................................................................................................8

REFERÊNCIA AO ABUSO DE DIREITO............................................................9

PRINCÍPIO DA TUTELA DA CONFIANÇA....................................................10

PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA MATERIALIDADE SUBJACENTE.........11

BOA FÉ NO DIREITO DA FAMÍLIA....................................................................12

BOA FÉ NOS CONTRATOS...................................................................................12

CONCLUSÃO...............................................................................................................13

BIBLIOGRAFIA............................................................................................................14

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INTRODUÇÃO

A Boa fé surge referida no Código Civil vigente em diversos artigos, dispersos


e com emprego multifacetado. A sua compreensão só será possível através da
evolução geral deste instituto ao longo da história.
Apesar de na prática não ser importante a origem da boa-fé, didaticamente é
essencial entender quando esse instituto surgiu.
Este trabalho visa, através de um breve apanhado, promover essa compreensão
e a sua aplicação nos diversos domínios do direito.

Palavras chave: Boa Fé, bona fides, Fides

I. EVOLUÇÃO HISTÓRIA

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A boa-fé traduz-se em uma conduta pautada nos princípios da lealdade, da
confiança e da ética. Por isso, exige-se das partes do contrato um
comportamento sob a ótica do homem médio, isto é, observam-se os padrões
éticos e leais presentes na sociedade.
A boa-fé nos seus primórdios era vista somente no seu aspeto psicológico,
vinculada em especial ao instituto da posse. Este princípio é cunhado por
muitos doutrinadores como um dos princípios seculares do direito civil, junto
com muitos outros.
Como se sabe, a boa-fé, anteriormente, somente era relacionada com a intenção
do sujeito de direito, estudada quando da análise dos institutos possessórios,
por exemplo. Nesse ponto era conceituada como boa-fé subjetiva, eis que
mantinha relação direta com a pessoa que ignorava um vício relacionado a uma
pessoa, bem ou negócio.
Há uma discussão no âmbito doutrinário sobre o surgimento do conceito de
boa-fé. Apesar de na prática não ser importante a origem da boa-fé,
didaticamente é essencial entender quando esse instituto surgiu. Pablo Stolze,
discorrendo sobre quem primeiro comentou o conceito de boa-fé, assim aduz:
“a noção de boa-fé («bona fides»), ao que consta, foi cunhada primeiramente no Direito
Romano, embora a conotação que lhe foi dada pelos juristas alemães, recetores da
cultura romanista, não fosse exatamente a mesma”.
Portando, foram os romanos que iniciaram os estudos sobre o princípio da boa-
fé objetiva, dando-lhe um significado ético e que mais tarde se transformaria em
um instituto jurídico adotado em vários países.

NO DIREITO ROMANO
No direito romano, o vocábulo fides apresentava três significados, o primeiro
deles estava presente nas XII tábuas, a chamada fides-sacra, que era ligada à boa-

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fé de conotação religiosa e moral; a segunda, a fides-fato, ligada à noção de
garantia; e a terceira a fides-ética, que era vista como um dever. Esta última,
certamente, foi primordial para o desenvolvimento dos estudos sobre a boa-fé
objetiva, vista nos tempos atuais como um dever ético-moral.

O aspeto jurídico da boa-fé só veio se consolidar com o chamado jus gentium,


que eram normas jurídicas aplicadas aos romanos e aos estrangeiros. Deve-se
também destacar que a boa-fé, vista como instituto jurídico, é fruto do
desenvolvimento do comércio, que permitia inúmeras relações contratuais,
sendo necessário que houvesse entre os contraentes uma conduta ética.

Mas, foi no direito alemão que o princípio da boa-fé ganhou importância. A


noção de boa-fé saiu do plano psicológico e alcançou sentido de conduta, de
dever, de norma a ser seguida pelas partes até a conclusão do negócio jurídico.

NO DIREITO ALEMÃO
O Código Alemão deu uma dupla dimensão a boa-fé em sentido subjetivo
(guter glauben) exprime a não consciência de prejudicar outrem; em sentido
objetivo (tru und glauben) ela corporiza-se numa regra de conduta, a observar
pelas pessoas no cumprimento das suas obrigações.

Para Stolze apud Costa (2009, p.63): A fórmula treu und Glauben demarca o
universo da boa-fé obrigacional proveniente da cultura germânica, traduzindo
conotação totalmente diversas que a marcaram no direito romano: ao invés de denotar a
idéia de fidelidade ao pactuado, como numa das acepções da fides romana, a cultura
germânica inseriu, na fórmula, as idéias de lealdade (Treu ou Treue) e crença (Glauben
ou Glaube), as quais se reportam a qualidades ou estados humanos objetivados.

Ainda no direito alemão, o código civil daquele país, conhecido como BGB, no
seu parágrafo 243, expressa que a boa-fé deve ser observada levando em conta
os usos e costumes.

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A boa-fé, depois de prevista no código civil alemão de 1881(BGB), passou
também a ser expressa em outros diplomas jurídicos de outros países europeus,
como o francês (Código Napoleónico), o português de 1966 (Código Seabra),
entre outros.

NO DIREITO FRANCÊS
Nas diversas codificações, a boa-fé teria um destino bastante diferente.
O Código Napoleónico, consagrou a boa-fé com duas aceções: o alcance
subjetivo, pelo qual a boa-fé corresponde a um estado de ignorância do sujeito,
que merece, do direito, a concessão de um regime mais favorável e o alcance
objetivo, de cariz jusracionalista, em cujos termos a boa-fé reforça o vínculo
contratual.

NO DIREITO PORTUGUÊS
No espaço jurídico português, a boa-fé traduz os passos acima referidos, com
algumas adaptações.
O Código Seabra sofreu o influxo do modelo napoleónico, e da ciência jurídica
francesa, embora com raízes profundas na tradição românica nacional. No
tocante a boa-fé, isso traduziu-se desde logo na salvaguarda da boa-fé em
aceção subjetiva. A objetiva desapareceu pura e simplesmente do texto do
código. Não tivera quaisquer efeitos práticos no texto napoleónico, daí a sua
proscrição.
A viragem cultural para a pandectistica teve como efeito uma redescoberta da
boa-fé objetiva, agora, no entanto, ela apresentava-se já como instituto
comprovado pelas múltiplas inovações que fora capaz de propiciar e não como
mera referencia teórica.
No código civil português de 1966, veio pois: consagrar a boa-fé subjetiva de
feição românica e tradicional; consagrar a boa-fé objetiva de origem romano-

germânica; referenciar, expressamente vários institutos que não constam do


código alemão e que foram alcançados, assente na boa-fé.

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O Código português foi o que mais longe levou as potencialidades históricas da
boa fé.

NO DIREITO CANÔNICO
No direito canónico, a bona fides, conserva uma utilização subjetiva semelhante
a que se viu consubstanciar no direito romano, a propósito da “uso capio”. O
teor geral do canônismo, conduziu, no entanto, a alguns desvios, conferindo à
boa fé tonalidades éticas que se podem exprimir equiparando-a à ausência de
pecado.

O sentido atual da boa-fé exige uma longa pesquisa que atente em todos os
substitutos que a ela recorram e, ainda, nas diversas soluções que eles
propiciam.
O Direito é uma ciência que se constitui na resolução de casos concretos.
Porquanto ciência, o Direito surge sistemático na natureza. O sistema deve,
porém, ser entendido em termos integrados e com uma série de limitações
originadas, entre outros aspetos, por lacunas quebras ou contradições no seu
seio.
A boa-fé tem o papel de traduzir os valores fundamentais desse sistema
jurídico; e conduzir para o núcleo do sistema, as necessidades e as soluções
sentidas e encontradas nesse sistema.

II. CONCRETIZAÇÃO OBJETIVA E SUBJETIVA

Na sequência da evolução histórica acima sumariada, a boa fé caracteriza-se em


moldes objetivos e subjetivos.

BOA FÉ OBJETIVA
Na boa fé objetiva, há uma remissão para princípios, regras, ditames ou
limites por ela comunicados ou, simplesmente, uma determinação de atuação
de boa fé:

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artigos 3º/1, 227º/1, 239º e 272º, 334º e 437º/1, e 762º/2, respetivamente. A boa
fé surge como algo imposto do exterior e que as pessoas devem observar, no
seu dia a dia jurídico.
É o comportamento esperado da pessoa (lealdade, cooperação, assistência,
sigilo, informação, etc).

A boa fé objetiva aparece no nosso Código Civil nos seguintes institutos:

 Culpa na formação dos contratos (artigo 227º/1);

 Integração dos negócios (artigo 239º);

 Abuso do direito (artigo 334º);

 Modificação dos contractos por alteração das circunstâncias (artigo


437º /1);

 Cumprimento de obrigações (artigo 762º/2).

BOA FÉ SUBJETIVA
A boa fé subjetiva surge nas mais diversas disciplinas civis. Vê-se boa fé
subjetiva como a posição da pessoa que por ignorância pura, desconhecesse
prejudicar a posição de outrem.
Está de boa fé (apenas) a pessoa que, tendo cumprido determinados deveres de
cuidado, de informação ou de indagação, desconheça lesar direitos alheios.
De modo geral, pode considerar-se que o Direito determina um regime mais
favorável àquele que esteja de boa fé (subjetiva); àquele que se comporte em
consonância com os valores fundamentais da ordem jurídica, tomando as
precauções necessárias para não prejudicar outrem.
Na boa fé subjetiva está em causa um estado das pessoas, caracterizado pelo
mero conhecimento ou ignorância: 116º/3, 243º/2, 1257º/1 e 1337º/4– pelo

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desconhecimento sem culpa ou ignorância desculpável – 291º/3 e 1648º/1 – ou
pela consciência de determinados factos – artigo 612º/2.

Um estudo mais detido permite novos desdobramentos institucionais dentro


desses moldes concretizadores.

REFERÊNCIA AO ABUSO DE DIREITO


Ao denominado “abuso do direito” serão consagradas, algumas referências
unitárias.

“É ilegítimo o exercício de um direito, quando o titular exceda manifestamente os


limites impostos pela boa fé, pelos bons costumes ou pelo fim social ou económico desse
direito” (Art.º 334º CC, destaque ora introduzido).
A locução “abuso do direito” surgiu na doutrina de língua francesa, nos finais do
século passado, para designar situações nas quais uma pessoa que agira
fundamentalmente nos termos de um direito subjetivo, fora no entanto,
condenada, por anomalias no seu exercício.
Assim entendido, o abuso do direito apenas permitia nominar uma
interpretação melhorada das normas jurídicas em presença e, designadamente,
das que instituem e delimitam o direito de propriedade. Logo que se
ultrapassou um estádio exegético nesse tipo de interpretação, o “abuso” entrou
em decadência científica e desapareceu: há um bom meio século que não se
consegue documentar o abuso do direito em decisões jurisprudenciais
francesas.
Em busca de problemas típicos sobre o abuso de direito nas quais a boa fé
promova uma solução justa, apura-se assim:

 A exceptio doli – exercício de uma posição jurídica poderia ser detido


coma alegação do que o seu autor incorre em dolo, isto é, neste caso,
defronta directamente a boa fé;

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 O venire contra factum próprium – o exercente deixa entender, ou declara ir
tomar uma certa atitude, e depois, toma atitude contrária ou diversa;

 A supressio – o exercente deixa passar um tal lapso de tempo sem exercer


o seu direito que, quando o faça, contraria a boa fé;

 O surrectio – por força de boa fé, o exercente vê, contra ele ou em termos
que ele deva respeitar, formar-se um direito que, de outro modo, não
existiria;

 O tu quoque – o exercente pratica um facto ilícito ou indevido e depois


alega-o contra outrem;

 O exercício em desequilíbrio – o exercente desenvolve uma atividade


danosa inútil, o exercente exige algo que deve restituir de seguida (dolo
agit petit quod statim redditurus est) ou o exercente provoca uma
desproporção inadmissível entre a vantagem própria e o sacrifício que
impõe a outrem.

O abuso de direito integra o exercício de posições permitidas em termos tais


que são contrariados os valores fundamentais do direito, expressos, por
tradição, pela boa fé.

A boa fé exprime, no caso concreto, os valores fundamentais da ordem jurídica,


vocacionados para intervir. Essa intervenção faz-se através da sua
concretização, e para tal a boa fé conta com dois princípios básicos: o princípio
da tutela da confiança legítima e o princípio da primazia da materialidade
subjacente.

PRINCÍPIO DA TUTELA DA CONFIANÇA


No Direito português, a proteção da confiança efetiva-se por duas vias: através
de disposições legais especificas e através de institutos gerais. As disposições

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legais específicas de tutela da confiança manifestam-se sempre que o Direito
confira a uma pessoa que, legitimamente, acredite em certo estado de coisas –
ou desconheça – uma vantagem que, de outro modo, não lhe seria atribuída.
Assim sucede com a posição de pessoas face a certos atos das associações e
sociedades civis puras – artigos 181º, 184º/2,- face à procuração – artigo 266º -
face à anulação ou declaração de nulidade dos atos jurídicos – artigo 291º - face
à aquisição de coisa a comerciante – artigo 1298º - ou a herdeiro aparente –
artigo 2004º/1.

Os institutos gerais suscetíveis de proteger a confiança são ligados à boa fé


objetiva e, designadamente, ao “abuso do direito”, consagrado no artigo 334º do
Código Civil.

PRINCÍPIO DA PRIMAZIA DA MATERIALIDADE SUBJACENTE


A tutela da confiança não esgota os valores subjacentes à boa fé, há que lidar
também com o princípio da primazia da materialidade subjacente.
A boa fé exige que os exercícios jurídicos sejam avaliados em termos materiais,
de acordo com as efetivas consequências que acarretem.
Seria contrário à boa fé e, a esse título, abusivo, o comportamento do devedor
que, obrigado a colocar determinada quantidade de tijolos num prédio do
credor, os descarregasse no fundo dum poço, ainda quando o local da entrega
ficasse ao critério do devedor, deve entender-se que a opção não poderia ser
feita em termos danosamente inúteis.
A boa fé requer, assim, que o exercício de posições jurídicas se processe em
termos de verdade matéria. Não basta apurar se as atuações das pessoas
apresentam uma conformidade formal com a ordem jurídica, impõe-se uma
ponderação material, de modo a dar relevo a projeção aos valores efetivamente
em jogo.
Noutra vertente do mesmo princípio, não se pode tirar partido da própria
ilicitude para prejudicar outrem ou conseguir vantagens próprias –

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consubstanciar-se-ia o tipo abusivo do “tu quoque”, acima ponderado – ou
exercer posições jurídicas de modo desequilibrado.

BOA FÉ NO DIREITO DA FAMÍLIA

A boa-fé objetiva se caracteriza por ser uma regra de conduta, um dever das
partes em se pautar pela honestidade, lealdade e cooperação em suas relações
jurídicas. Por meio da boa-fé objetiva fixa-se um padrão objetivo de conduta
baseado no homem médio, diligente e bom pai de família.

Tendo como ponto de partida a natureza afetiva das relações formadas no


ambiente familiar, é fundamental, em nome da boa-fé objetiva, a tutela jurídica
da confiança e a preservação das expectativas produzidas pelas partes.

Ademais, a proibição do comportamento contraditório exige que cada um dos


sujeitos da relação jurídica não contrarie os próprios atos anteriormente
praticados, violando as expectativas despertadas no outro e causando-lhe
prejuízos, que dão ensejo ao dano moral indemnizável e à devida reparação
patrimonial. Assim, a boa-fé objetiva transforma os deveres morais de lealdade,
de respeito, de colaboração e de preservação da confiança em deveres jurídicos,
de forma que o seu descumprimento faz nascer a responsabilidade civil.

Em linhas gerais, tanto nas relações patrimoniais de família quanto nas relações
existenciais, a boa-fé objetiva tende a manter um ambiente familiar privilegiado
para a promoção da dignidade de seus membros.

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BOA FÉ NOS CONTRATOS

A boa fé em certa medida conforma a relação contratual, pois é ela um dos


critérios a que se recorre para determinar o âmbito da vinculação negocia. Quer
dizer que «do contrato fazem parte não só as obrigações que expressa ou
tacitamente decorrem do acordo das partes, mas também, designadamente,
todos os deveres que se fundam no princípio da boa fé e se mostram
necessários a integrar a lacuna contratual» (,22). Nesta linha, importa sublinhar
o papel

decisivo da boa fé no enriquecimento do conteúdo do contrato, mormente por


constituir a matriz dos denominados deveres laterais, como os deveres de
cuidado para com a pessoa e o património da contraparte, os deveres de
informação e esclarecimento, etc. (123). Por último, do ponto de vista da
responsabilidade em que as partes podem incorrer, a violação da boa fé é
suscetível de geral responsabilidade pré-contratual, responsabilidade contratual
ou mesmo responsabilidade pós-contratual, consoante o momento em que
ocorra tal violação ([ CITATION Car05 \l 2070 ]

CONCLUSÃO

A Boa fé teve, ao longo da história, uma crescente evolução no ordenamento


Jurídico,
Chega-se a conclusão de que um dos princípios fundamentais do direito
privado é o da boa-fé objetiva, cuja função é estabelecer um padrão ético de
conduta para as partes nas relações obrigacionais.
No entanto, a boa-fé não se esgota nesse campo do direito, ecoando por todo o
ordenamento jurídico.

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BIBLIOGRAFIA

Cordeiro, A. M. (1986/87). Teoria Geral do Direito Civil 1º Volume. Lisboa:


Associação Académica da Faculdade de Direito.

Cordeiro, A. M. (2006). Litigância de Má Fé Abuso do Direito de Acção e Culpa "In


Agendo". Coimbra: Almedina.

Vasconcelos, P. P. (2005). Teoria Geral do Direito Civil 3ª Edição.

Pinto, C. A. (2005). Teoria Geral do Direito Civil. Coimbra: Coimbra Editora.

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