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AS RELAÇÕES ENTRE A ORIENTAÇÃO CARDINAL DAS VERTENTES E O

CONFORTO AMBIENTAL NO BAIRRO ZONA DOIS DA CIDADE DE


MARINGÁ, PARANÁ, BRASIL

M. L. Souza e L. M. Silveira

RESUMO

O presente estudo teve por objetivo estabelecer relações entre a exposição cardinal das
vertentes e a ocupação urbana, no bairro Zona Dois da cidade de Maringá, Paraná, Brasil.
Sob o Trópico de Capricórnio, a cidade encontra-se numa área de transição climática.
Fundada em 1947, a cidade foi planejada de modo que o bairro em estudo fosse
exclusivamente residencial e, a partir de 1980, sofreu significativas alterações
apresentando ocupações comerciais e de ensino. Foram elaboradas duas cartas temáticas, a
hipsométrica e a de orientação cardinal das vertentes, levantaram-se dados pretéritos e
atuais do uso e da ocupação do solo da área pesquisada em questão a fim de atingirem-se
os objetivos da pesquisa. Após a análise das informações obtidas, constatou-se que a
orientação cardinal das vertentes influenciou na ocupação dos lotes até a década de 1980,
de modo que os lotes da vertente E eram mais valorizados que os lotes da vertente W, ao
contrário do que se observa atualmente, quando o interesse econômico sobrepõe-se ao
interesse relativo ao conforto ambiental.

1 INTRODUÇÃO

Atualmente, apesar da avançada tecnologia, admite-se que o conforto térmico do ambiente,


decorrente das condições topoclimáticas naturais, constitue-se em importante fator a ser
considerado no planejamento urbano. Por essa razão, optou-se pelo presente estudo, o qual
teve por objetivo principal estabelecer relações entre a exposição cardinal das vertentes (E,
W) e a ocupação do solo urbano, no bairro Zona Dois da cidade de Maringá. A referida
cidade situa-se no Norte Central do Estado do Paraná, sul do Brasil. É atravessada pelo
paralelo 23o27’S e o meridiano 51o57’W (FIGURA 1). A área urbana estende-se sobre o
espigão divisor de águas entre as bacias do rio Pirapó e do rio Ivaí. A cidade apresenta
relevo em forma de espigões longos, aplainados e levemente ondulados nos topos dos
divisores de água. Na referida cidade as altitudes variam entre 460 e 596m, em relação ao
nível do mar. A cidade é, ainda, atravessada pelo Trópico de Capricórnio o que lhe confere
características de ambiente climático de transição entre os climas Subtropical e Tropical
denominada por diversos autores como do tipo Cfa (Clima Subtropical úmido com verões
quentes).

Mendonça (1994) e Silveira (2003) constataram que as características climáticas de


transição verificadas na região onde se encontra a área de estudo é um reflexo direto da
intensidade dos mecanismos frontogenéticos. Esta constatação se justifica pois na altura de
sua posição latitudinal e também por influência do relevo do continente Sul-Americano, as
massas de ar extratropicais, procedentes do sul da Argentina, que se deslocam geralmente
em direção norte/nordeste, alternam-se intensamente com as massas de ar
Fig. 1 Localização da cidade de Maringá na América do Sul/Brasil/Paraná
Fonte: www.lib.utexas.edu/maps/america. Acesso em jun 2006 (adaptado)
tropical/equatorial, de deslocamento sul/sudoeste. Em tal contexto, as amplitudes
barométricas e térmicas se acentuam, especialmente entre os meses de maio a setembro.
Silveira (2003) constatou que as temperaturas mais baixas ocorrem de maio a julho e as
temperaturas mais elevadas ocorrem de dezembro a início de março. O outono e a
primavera se caracterizam por apresentar amplitudes térmicas muito acentuadas, em
decorrência da incursão de massas de ar polares que penetram na retaguarda dos sistemas
frontais, nesses períodos do ano, quando o continente ainda se encontra bastante quente, no
primeiro caso, e em aquecimento, no segundo caso.

Maringá foi fundada, em 1947, por uma companhia inglesa, denominada Companhia
Melhoramentos Norte do Paraná, a qual teve a concessão de uma extensa gleba por parte
do governo do Estado do Paraná e a baixo preço. Ao lotear essa gleba destinada à
cafeicultura, devido aos solos férteis de Terra Rossa, oriundos de rochas vulcânicas, essa
empresa tinha, ainda, como diretriz o estabelecimento de núcleos urbanos básicos a uma
distância aproximada de cem quilômetros uns dos outros.

Esses núcleos urbanos são as atuais cidades de Londrina, Maringá e Cianorte, entre as
quais instalaram-se patrimônios para servirem de centros abastecedores intermediários da
população rural e, também, como postos de vendas de terras. Desse modo, a cidade de
Maringá foi planejada de maneira que o bairro em estudo fosse exclusivamente residencial,
destinado à classe alta. Deve-se ressaltar que os valores dos terrenos estavam relacionados
com os fatores topoclimáticos.

As características citadas perduraram até a década de 1980. A partir desse momento, o


plano inicial da cidade sofreu significativas alterações, devido às mudanças ocorridas na
legislação urbanística, pois atualmente a área urbana de Maringá possui cerca de 320 mil
habitantes (IBGE, 2005). Desse modo, também o bairro em questão perdeu, em grande
parte, as características do seu projeto inicial e passou a abrigar outros tipos de ocupações
(estabelecimentos comerciais e de ensino). Por essas razões, optou-se pelo presente estudo
com o intuito de averiguar se os fatores topoclimáticos, que condicionam partes
significativas do conforto ambiental em uma área urbana, são considerados, atualmente,
como norteadores na valoração dos terrenos.

Para Schmid (2005), o significado e o sentido de conforto ambiental devem ser articulados
ao contexto histórico e sócio-cultural. Essas reflexões são corroboradas por Monteiro;
Mendonça (2003) que dissertam sobre a necessidade de se encontrarem novas estratégias
para uma efetiva sensibilização dos encarregados das tomadas de decisão nas diversas
esferas do planejamento que aliem os elementos e fenômenos climáticos e sua interação
com a sociedade.

2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Para atingirem-se os objetivos propostos, elaborou-se uma carta hipsométrica e uma carta
sobre a orientação cardinal das vertentes, escala 1:20.000, por meio de técnicas
cartográficas digitais, utilizando-se os softwares Surfer for Windowns-versão 7.1 (Golden
Software) e Autocad-versão 2000 (Autodesk). Tais cartas foram analisadas
concomitantemente às informações obtidas por meio do levantamento do uso do solo
urbano em relação ao período anterior à década de 1980 e em relação à situação atual.
Para Mendonça (1994), a identificação e análise da hipsometria possibilitam a observação
da variação altimétrica do relevo da área, fato importante na análise de processos relativos
à dinâmica de uso e ocupação do solo e da formação de ambientes climáticos locais. As
classes hipsométricas foram delimitadas utilizando-se a seqüência do círculo de cores
proposto por Bertin (1978).

A carta sobre a orientação cardinal das vertentes, que indica a direção das vertentes em
relação ao quadrante, foi elaborada seguindo o círculo de cores proposto por Oliveira
(1988). Foram adotadas cores quentes (amarelo e laranja) para as vertentes que recebem
maior insolação diurna no período da tarde. Cores frias (duas tonalidades de verde), para as
vertentes voltadas para maior insolação no período da manhã. Os topos dos divisores de
água permaneceram em branco por apresentarem neutralidade em relação à declividade e,
conseqüentemente, à exposição de radiação solar.

A carta de orientação de vertentes se constitui em um importante instrumento para


subsidiar o planejamento urbano, uma vez que é de fundamental importância para os
estudos sobre conforto térmico na escala topoclimática. Conforme Mendonça (1994), a
disposição das faces das vertentes do relevo pode influenciar de maneira direta na
formação do topoclima ou microclima, pois dependendo dessa disposição, o balanço de
energia da superfície do solo pode se dar de maneira diferenciada. Este fator se torna mais
notável quanto mais a localidade se encontra afastada do Equador. Para Ribeiro (1993), “o
topoclima corresponde a uma derivação do clima local devido à rugosidade do terreno que
resulta na energização diferenciada do terreno, durante o período diurno para as diversas
faces de exposição à radiação solar de modo que “as diferenças de exposição introduzem
grandes contrastes entre as vertentes numa mesma latitude e altitude”.

Para Souza et al (2004), a carta temática de orientação de vertentes é um documento


cartográfico que pode auxiliar em trabalhos de diagnósticos ambientais em áreas urbanas e
rurais, pois esta permite observar a disposição das vertentes em relação à radiação solar, o
que facilita a análise do fluxo de energia nas diferentes estações do ano. Sendo assim, este
documento cartográfico fornece, aos planejadores e agricultores, subsídios para uma
ocupação mais racional do meio físico.

3 ANÁLISES E RESULTADOS

A área em estudo apresenta uma pequena amplitude altimétrica, pois as curvas de nível
variam de 525m a 550m, como demonstra a carta hipsométrica elaborada (FIGURA 3). As
cores diferenciadas indicam os patamares altimétricos do relevo que foram agrupados em 7
classes hipsométricas, eqüidistância de 2m. A parte mais plana do bairro, que corresponde
às curvas de níveis superiores a 549m e as classes subjacentes de até 545m, favoreceram a
ocupação deste bairro para fins preferencialmente residenciais, quando do seu
planejamento, realizado, inicialmente, em 1947, com predominância social e padrões
construtivos elevados. As classes hipsométricas intermediárias apresentam cotas
altimétricas inferiores, entre 545m e 533m, apresentando, ainda, um relevo suave com
vertentes longas. E, por fim, as classes abaixo de 533m até 525m apresentam-se em áreas
mais planificadas que as anteriores, e próximas às duas maiores áreas verdes urbanas da
cidade de Maringá, Parque do Ingá e do Bosque II, os quais são reservas de matas nativas
em consórcio com algumas espécies cultivadas.
Fig.3 Carta hipsométrica do bairro Zona Dois, Maringá , Paraná, Brasil

A orientação das vertentes, aliada aos demais fatores topoclimáticos, influenciaram a


valorização diferenciada dos lotes, do bairro em estudo quando da sua ocupação inicial, a
partir da década de 1950, apesar de a inclinação do relevo não ser tão acentuada nessa área.
Constatou-se, por meio de levantamentos nos arquivos da Prefeitura Municipal de
Maringá, que as características físicas da área, especialmente a orientação cardinal das
vertentes condicionaram em grande parte a ocupação dos lotes até meados da década de
1980. Até essa época, os lotes localizados na vertente E/NE (radiação solar perpendicular
no período da manhã) eram preferidos e mais valorizados que os lotes da vertente W/SW
(radiação solar perpendicular no período da tarde), conforme mostra a Figura 4.

A carta de orientação de vertentes elaborada é uma representação temática das faces


diferenciadas das vertentes dominantes, pois apesar do topo divisor das duas bacias
hidrográficas apresentar uma ligeira inclinação para noroeste-sudeste (NW-SE), esta
orientação praticamente não exerce influência nas condições topoclimáticas, devido à
insignificante declividade, como é possível observar na Figura 3.

Fig 4 Carta de orientação de vertentes do bairro Zona Dois, Maringá, Paraná, Brasil

As referidas constatações relativas à orientação das vertentes são mais evidenciadas no


verão, meses de dezembro a março, pois as vertentes voltadas para o oeste/noroeste
(W/SW) apresentam temperaturas mais elevadas, interferindo diretamente no conforto
ambiental do bairro. Entretanto, durante o inverno, entre os meses de junho a setembro,
como o bairro não apresenta vertentes no sentido norte-sul (N-S), as diferenciações
topoclimáticas permanecem praticamente inalteradas em relação às referidas vertentes,
embora as temperaturas geralmente se apresentem mais amenas em toda a região.

Conforme Beloto (2004), foi no início da década de 1990 que ocorreu, oficialmente, a
inflexão das leis urbanísticas do Município de Maringá. Como conseqüência, o perímetro
urbano foi reduzido, a lei de uso e ocupação do solo propôs zonas urbanísticas, englobando
diversos bairros, deixando de lado a acentuada divisão do território urbano praticada
anteriormente.

Conforme a mesma autora, o resultado das mudanças nas legislações urbanísticas (Lei
1736/83) ao longo das décadas, a partir de 1980 até os dias atuais, resultou num espaço
urbanístico homogêneo que, no decorrer desse período, traduziu uma tendência de
equilíbrio no preço do solo dentro da área urbana.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise das características do meio físico da área estudada, destacando-se os fatores


topoclimáticos, que são atributos essenciais utilizados em parâmetros comparativos em
vários países que analisam a questão do conforto ambiental em áreas urbanas e os
levantamentos do uso e ocupação do bairro, referentes aos valores monetários dos terrenos,
evidenciaram que as características físicas da área em estudo, especialmente a orientação
cardinal das vertentes condicionaram, em grande parte, a ocupação do bairro até meados da
década de 1980.

Até essa época, os lotes localizados na vertente E (radiação solar perpendicular no período
da manhã) eram preferidos e mais valorizados que os lotes da vertente W (radiação solar
perpendicular no período da tarde).

Nos dias atuais, entretanto, em função da legislação urbanística que atende


preferencialmente o interesse econômico em detrimento do interesse do conforto relativo
ao ambiente urbano, não mais se leva em consideração um dos principais fatores que
interferem no conforto térmico, a saber, os fatores topoclimáticos relacionados com a
orientação das vertentes, e que se refletem diretamente na qualidade de vida das pessoas.

5 REFERÊNCIAS

Beloto, G.E. (2004). Legislação Urbanística: instrumento de regulação e exclusão


territorial – considerações sobre a cidade de Maringá. Dissertação (Mestrado em
Geografia) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá.

Bertin, J. (1978). Theory of communication and theory of the graphic. International


Yearbook of Cartography, 18, 118-126.

IBGE. Instituto Brasileiro Geografia e Estatística. (2005). Disponível em:


<http:/www.ibge.gov.br. Acesso em abr 2006.
Mapa da América do Sul (2006). Disponível em:
<http:/www.lib.utexas.edu/maps/america. Acesso em 29 jun 2006.

Mendonça, F.A. (1994). O clima e o planejamento urbano de cidades de porte médio e


pequeno: proposição metodológica para estudo e sua aplicação à cidade de Londrina/PR.
Tese (Doutorado em Geografia Física)- Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Monteiro, C.A.F. e Mendonça, F.A. (2003). Clima Urbano.Contexto. São Paulo.

Oliveira, C. (1988). Curso de Cartografia Temática. IBGE. Rio de Janeiro. 152.

Prefeitura Municipal de Maringá. (2006) Disponível: http//www.maringa.pr.gov.br.


Acesso: jun 2006.

Ribeiro, A.G. (1993). A Climatologia Geográfica e a organização do espaço agrário.


Geografia Teorética, 23 (45-46), 34-38.

Schmid, A. L. (2005). A idéia de conforto: reflexões sobre o ambiente construído. Pacto


Ambiental, Curitiba.

Silveira, L.M. (2003). Análise Rítmica dos tipos de tempo no norte do Paraná, aplicada ao
clima local de Maringá – PR. Tese (Doutorado em Geografia Física)- Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

Souza, M.L.; Souza, I.A.; Gasparetto, N.V.L; Silveira, L.M. (2004). Elaboração de carta de
orientação de vertentes com a utilização da cartografia digital. Anais. VI Simpósio
Brasileiro de Climatologia Geográfica. Universidade Federal de Sergipe, Brasil, 13-16
Julho 2004.