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Análise da configuração

das letras e do cenário A GARATUJA


gráfico afimde compreen-
der a singularidade de
gestos motores como as
primeiras garatujas das
COMO
crianças. Define-se uma letra
como o vestígio de uma
garatuja e essa última como VESTÍGIO
a lembrança de um gesto
que se dá a ver para um
outro/Outro.
Alfabetização;
DAS LETRAS
psicomotricidade;
clínica infantil.

NEW PERSPECTIVES
ON PSYCHOMOTOR E steban L evin
PERFORMANCE
This paper brings an
analysis of letters and
graphic scenario configu-
rations in order to under-
stand the singularity of
motor gestures as the chil- »o examinarmos superficialmente os primeiros
dren first scribbling. A let- traços e desenhos realizados por crianças — estamos nos
ter is defined as a vestige referindo a essa etapa de escrita não figurativa que se ob-
of a scribbling and the lat- serva aproximadamente aos 2 anos — descobrimos que
ter as the remembering of
a gesture to be seen by the os pequenos realizam marcas, riscos, linhas, que se entre-
other/Other. cruzam sem um sentido preestabelecido. São as chama-
Literacy; das garatujas.
psychomotor Esses traços iniciais configuram uma primeira escri-
performance; child
tura em imagens, em que persiste uma falta de destreza
clinic.
e habilidade manual para realizar uma figura socialmente
legível. Por exemplo, a criança faz um traço, uma garatu-
ja e afirma que é um gato, um cachorro, uma menina,
uma casa, um carro ou o que no momento esteja captan-
do sua intenção, seu desejo.
A falta de destreza e domínio práxico-motriz não
impede que se realize essa verdadeira representação de
escrita. Nesse sentido, a criança antecipa-se mentalmente
(simbolicamente) à possibilidade efetiva e eficaz de seu
controle práxico-manual.
Esse ato singular de escrita não figurativa delimita,
no mesmo momento em que se inscreve, uma presença
no ato irrepetível do sujeito. Esse traço unitário, essas

• Psicomotricista, psicanalista. Diretor da Escuela de


Formación en Clínica Psicomotriz de Buenos Aires.
Professor convidado da Universidad de Buenos Aires e da
Universidade Federal de Fortaleza.
marcas, não fazem signo, enunciam a de uma superfície. Talvez seja na busca
existência do sujeito na própria escrita de reconhecimento do Outro que a cri-
da letra} ança comece a intuir a tridimensionali-
Os movimentos da mão possibili- dade.2
tam a escrita desses primeiros traços; A possibilidade da escrita delimita
neles se ata o movimento da mão a uma na criança outro ponto de encontro —
superfície que transforma o espaço num tyché — entre o desenvolvimento e a
vestígio, numa presença de existência estruturai Quem escreve é um sujeito-
subjetiva. Nessa presença, o movimento criança mas, para fazê-lo, necessita de
da mão se perdeu; seu vestígio configu- sua mão, de sua orientação espacial
ra o traço, essa marca imóvel que liga o (lateralidade), de um ritmo motor
movimento do corpo à escrita. (relaxamento-contração), de sua postu-
Esse movimento desordenado da ra (eixo postural), de sua tonicidade
mão inscreve-se numa superfície em muscular (pressão fina e precisa) e de
que o próprio ato de escrever impõe-se seu reconhecimento no dito ato (função
à criança como ligadura que alinhava, imaginária).
compõe, o garatujar ao significante que É na apropriação da letra escrita
representa essa garatuja para outro sig- (escrita-leitura) onde a criança se com-
nificante, numa série em que o sujeito prometerá, mais uma vez, em seu dese-
se representa no campo do Outro. Só jo de usar a mão para desenhar seu pró-
ali a criança encontrará a sanção que prio dizer numa dimensão de ex/sistên-
confirma seu traço, sua garatuja, como cia.
lugar de presença em que sua existên- Esses pequenos conquistadores —-
cia coloca-se em ato. as crianças — realizam entre os dois ou
O pequeno garatujador precisa três anos um descobrimento apelativo e
que o Outro lhe confirme que, nessa essencial — descobrem que os livros
garatuja que ele criou, efetivamente há falam pela voz do Outro que os lê. As
um "gato", ou uma "casa", ou um letras, os desenhos e as imagens estru-
"papai", ou uma "mamãe", ou qualquer turam-se na relação com a voz do Outro
outro significante com que ele nomeie que os interpreta e os diferencia. Desse
esse traço. Nesse sentido, também é ha- modo, na voz do Outro entrecruzam-se
bitual ouvir a seguinte pergunta da cri- as imagens, as letras e o som.
ança sobre sua garatuja: "Mamãe, o que Posteriormente, a criança pede ao
está dizendo aqui no desenho?" ou Outro que repita o mesmo conto da
"Que letra escrevi?" ou "Você lê o que mesma maneira, que o leia de novo,
fiz?". que o conte do mesmo modo, partici-
Esse verdadeiro ato gráfico, essa pando do conto, entrando nele e na ce-
primeira produção escriturai, determina na que se monta na repetição. Quando
sua posição no discurso e a ligação do a criança aceder à leitura-escrita, essa
movimento corporal com a estrutura. cena adquirirá todo o seu brilho, se
Nesse brinquedo sobre o papel a ressignificará no desejo de saber ler e
criança vai registrando que, quando de- escrever. O interesse pela leitura-escrita
senha movendo sua mão, configuram- terá, nesse primeiro cenário relacionai,
se ali superfícies que não existiam. Po- sua origem virtual.
deríamos conjeturar que a criação e a O desejo de aprender a ler e escre-
combinação das linhas geram uma pas- ver poderá se desenvolver se por ali cir-
sagem da unidimensionalidade à bidi- cular o enigma, o enigma que começou
mensionalidade; e com ela a fabricação a ser tecido entre o livro, a voz, a ima-
gem, os desenhos, as garatujas e o Ou- mão práxica funciona como represen-
tro. Pois o que se diz e se articula na tação; desse modo, a criança poderá
voz pode ser escrito, e o que se es- "esquecer-se" da mão para poder escre-
creve, inscrevendo-se num papel, pode ver e, ao fazê-lo, inscrever seu próprio
ser dito. destino no escrito de seu dizer.
Se a criança quer escrever é por- A letra não é a voz nem a palavra,
que essa letra, esse desenho ou esse mas no escrever o gesto gráfico-psico-
número serão lidos e interpretados por motor serve de ponte, ligando a voz e a
outros. Embora inscrever-escrever um letra à palavra onde um sujeito inscre-
desenho não seja o mesmo que fazê-lo verá seu singular estilo. Não é pelo
com letras, estas têm sua origem nos movimento práxico em si mesmo que a
primeiros grafismos lúdicos que são as criança desejará escrever; o sujeito po-
garatujas e os desenhos. Para esse pro- derá fazer de suas práxis uma ferra-
cesso é fundamental ir dominando a menta significante para seu escrever
mão, esquematizá-la, orientá-la no uni- porque há estrutura subjetiva.
verso simbólico. O garatujar, o desenhar No desejo de escrever as letras
não figuradamente e o jogar sobre qual- que o representam — a primeira coisa
quer superfície adquirem um papel es- que se quer escrever são as letras do
truturante deste caminho, cujo alvo final próprio nome — a criança precisará de
será a escritura alfabética. suas práxis, de seu eixo postural, de sua
Escrever não é desenhar, pois o tonicidade, de sua lateralidade e de seu
escrever implica inscrever, marcar, sub- ritmo. É justamente aí que poderemos
trair, gravar uma superfície, deixando encontrar os problemas psicomotores
um vestígio para ser lido por outro. Es- mais característicos que enunciam o
se traço escriturai não resvala na super- sofrimento de um sujeito.
fície "sensível", fere-a, causa uma escan- No mesmo momento em que o
são dela, marca-a orientando a superfí- movimento da mão deve perder-se para
cie; a escrita conforma suas bordas, ca- transformar-se em notação alfabética,
va uma profundidade. em escrita, costumam aparecer as difi-
Ajuriaguerra considera a escritura culdades práxicas, espaciais, temporais,
uma verdadeira práxis motriz. Sua práti- que dificultam sua realização. A dificul-
ca e o desenvolvimento da habilidade dade práxica motriz deixa em seu
manual "permitirão que se organizem "desproporcionado" e "desajeitado" tra-
(sic) gradualmente, se tornem ágeis, ço, a marca, o risco impronunciável de
suaves e rápidos, econômicos e auto- seu sofrimento. Sua mão se torna pre-
máticos". De nossa perspectiva, o de- sente, presentificando seu corpo, seu
senvolvimento motor não tem sentido esquema corporal, que se sustenta na
sem a articulação subjetiva. Sem sujeito inabilidade e não na imagem, em seu
não há escrita, nem leitura. correlato simbólico.
Na ligação significante entre o A criança só poderá afirmar-se
desenvolvimento neuromotor, a ima- quando em seu "saber fazer" a mão fun-
gem motriz, a constituição subjetiva e o cionar como representação, isto é,
impulso motor, a escrita como própria quando o corpo, situado na qualidade
se transforma em um gesto dado a ver de ausente simbolicamente, der pas-
ao Outro. É nesse valor simbólico que a sagem ao fluir do movimento que atra-
criança toma a letra para transformá-la vés de sua mão — práxis — delineia o
em sua própria escrita. Se tal aconteci- traço das letras.
mento se realiza, no ato de escrever, a As letras das crianças contêm ras-
tros das primitivas garatujas que se foram detendo, inibindo, orde-
nando e esquematizando. O prazer no movimento da mão inscreveu-
se como pegada para transformar-se em notação alfabética.
Finalmente, é importante salientar que o prazer de desenhar
a garatuja não se encontra no "sensório-motor" do garatujar, mas na
cena e no cenário que configura o Outro ao afirmar sua produção
escriturai. Apenas a partir daí o prazer na sua realização articulará
a sensibilidade proprioceptiva e práxica tornando estético o movi-
mento dado a ler para um outro/Outro. A garatuja implica um ato
lúdico-escritural enigmático que se estrutura como espelho em re-
presentação; marcando o trânsito entre a representação e o repre-
sentado.
A garatuja como tal terá de se incorporar (recalcar-se) para
transformar-se em desenho figurativo. O desenho terá de se incor-
porar para se tornar letra, a letra terá de se incorporar para tornar-
se leitura — pois a leitura é a metonímia da letra — e o corpo terá
de se representar para que a mão práxica se encaixe na ordem sim-
bólica da escrita e, desse modo, as garatujas configuram-se como
moldes do ato escriturai e como vestígios estéticos das letras. •

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AJURIAGUERRA, J. D. (1977). La escritura dei nino. Barcelona: Laia.

LEVIN, E. (199D. La clínica psicomotriz, el cuerpo en el lenguaje. Buenos


Aires: Nueva Vision.

WALLON, H. (1978) . Del acto alpensamiento. Buenos Aires: Psique.

NOTAS

1 Se considerarmos brevemente a história da escrita propriamente dita, o que


se denomina "seqüência linear" data aproximadamente de 3.500 a.C. Mas 30
mil anos antes aparecem incisões e gravuras ritmadas em cavernas pré-históri-
cas. Estas incisões, que antecedem os signos codificados, são consideradas
"verdadeiros traços rítmicos corpóreos" que se instalam como pequenas
garatujas, não figurativas, nem codificadas nem alfabéticas. No entanto, essas
marcas petrificadas, congeladas no tempo, enunciam que por lá passou um
sujeito de desejo.

2 A essa altura da infância a terceira dimensão ainda não está diferenciada,


não há diferenciação entre um objeto plano e outro com volume. Nem sequer
o aspecto projetivo está diferenciado, não se podendo distinguir entre a super-
ficialidade e a profundidade.

3 Cf. La infância en escena, Buenos Aires, Nueva Vision, 1995.

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