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CENTRO UNIVERSITÁRIO FARIAS BRITO

BACHARELADO EM PSICOLOGIA
ESTUDO DAS DEPENDÊNCIAS QUÍMICAS

OS IMPACTOS PSICOLÓGICOS DA DEPENDÊNCIA DO CRACK NO


SEIO FAMILIAR

Fortaleza - CE
2020

CENTRO UNIVERSITÁRIO FARIAS BRITO


1

BACHARELADO EM PSICOLOGIA
ESTUDO DAS DEPENDÊNCIAS QUÍMICAS

OS IMPACTOS PSICOLÓGICOS DA DEPENDÊNCIA DO CRACK NO


SEIO FAMILIAR

Alunos: José Marcelo Soares da Silva,


Letícia Lima Cavalcante, Luis Carlos
César do Nascimento Batista, Priscila
Silveira Penha e Sarah Moreira da Silva

Docente: Ingrid Coelho Borges


Pragmácio

Fortaleza - CE
2020
SUMÁRIO
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1. INTRODUÇÃO 3
2. DESENVOLVIMENTO 4
3. CONCLUSÃO 14
4. REFERÊNCIAS 15

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho faz parte da disciplina Estudo das Dependências Químicas, do


curso de psicologia do Centro Universitário Farias Brito. A escrita deste artigo é requisito
3

para a aprovação na disciplina, ministrada pela professora Ms. Ingrid Coelho Borges
Pragmácio.

Temos como objetivo geral a discussão dos impactos psicológicos da dependência


química da substância do crack no seio familiar. Como objetivos específicos, será destacado o
conceito de família na contemporaneidade, o surgimento do crack no Brasil, o consumo da
substância do crack e suas consequências físicas, psicológicas e os impactos que elas trazem
na relação familiar.

O tema abordado é de extrema relevância, tendo em vista que muitos são os


preconceitos enfrentados diante do uso de drogas, em especial o crack, droga considerada uma
das mais avassaladoras, em todos os sentidos, desde a marginalização aos fatores psíquicos. A
busca por um melhor entendimento e percepção dos fatores desencadeadores, estrutura social
e relações pessoais a respeito do usuário de crack facilita, por muitas vezes, uma melhor
forma de enfrentamento do vício, trazendo assim, uma conscientização positiva não só para o
indivíduo que encontra-se em situação de dependência, como seu meio parental, social e
possivelmente, uma possibilidade futura de melhor qualidade de vida.

Por fim, o trabalho irá buscar uma melhor compreensão, de forma reflexiva sobre as
mudanças no âmbito familiar, social e afetivo dos efeitos do uso do crack pelo indivíduo.

2. DESENVOLVIMENTO

O conceito de família

No decorrer da evolução global ocorreram modificações biológicas, geográficas e


sociais que transformam o meio ambiente em que os seres humanos viviam como um todo
assim como estes foram modificados em um sentido biopsicossocial. Neste percurso
evolutivo, há que se fazer notar a importância da família e o que significa estar em um núcleo
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como esse, quais as repercussões na vida dos sujeitos que dela fazem parte e como a adicção
de algum membro familiar pode interferir no percurso histórico dos outros membros.

A elaboração do conceito de família é algo oriundo de reflexões sociológicas, éticas e


políticas sobre a sociedade e como ela se compõe em seus grupos. Foi através destes grupos e
da relação entre seus participantes, que os seres humanos puderam desenvolver a linguagem e
assim, constituírem-se como sociedade.

Philippe Ariès (1986), em seu consagrado livro “A história social da criança e da


família”, afirma que “a família transformou-se profundamente na medida em que modificou
suas relações internas com a criança” (ARIÈS, 1986, p. 225) e deste modo, é possível
perceber o caráter da importância dos filhos e de outras crianças no seio familiar. Sobre os
filhos recaem o narcisismo dos pais, sonhos, projeções, desejos que não foram realizados e
que espera-se, por vezes inconscientemente, que a prole salve seus criadores. Que sejam o que
eles não puderam ser. Afastando assim o sujeito de possibilidade de construir sua própria
história, uma história escrita em seu próprio nome.

Seguindo os protocolos projetivos para as crianças, advém a adolescência onde o


sujeito que ainda não abandonou a infância e ainda não é um adulto, tem de se rebelar contra
os genitores num misto de sentimentos e sensações, querendo provar a si de que são capazes
de alcançar objetivos para além da horda familiar, expondo-se por vezes, a riscos até mesmo
de vida. A meta é desafiar a proibição e vencer o seu caráter mortífero e castrador.

É assim e deste modo que alguns processos de adicção são iniciados. Dá-se o uso
abusivo de drogas lícitas e ilícitas, pois quando se conhece o limite, destruí-lo dá ao sujeito
desafiador um sentido de vitória e a possibilidade de encontrar-se em um outro lugar social e
familiar.

Costa e Pereira (2003) consideram que a fase da adolescência tem particularidades que
intervém no decurso familiar e uma adicção nessa fase, pode ser o resultado de uma situação
familiar transgeracional, como um sintoma passado de geração a geração. E quando a adicção
se estende da adolescência e vida adulta, a formação de um outro núcleo familiar por este
sujeito é tida como infrutífera e fadada ao fracasso, tendo em vista que a situação em que se
encontra, é tida como um fracasso pessoal.
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O ciclo aditivo frequentemente tem início na adolescência, intensificando-se quando


o adicto manifesta uma intenção de abandonar o lar (por exemplo, quando vão
casar). Esta é uma etapa extremamente difícil e conturbada para essas famílias, já
que exige que os pais reelaborem sua relação, a qual não incluirá mais este filho.
Porém, como os pais do adicto são incapazes de relacionar-se satisfatoriamente entre
si, a família reage com pavor a essa ameaça de separação. Assim, a maioria dessas
famílias se estabiliza ou se separa nesta etapa evolutiva, de tal modo que o adicto
permanece intimamente ligado a eles de uma maneira crônica (COSTA; PEREIRA,
2003, p. 82)

Essa reelaboração do que espera-se e projeta-se nos filhos, nunca é fácil pois diz
respeito também a uma ligação em que os pais têm com seus genitores e que ainda não
encontrou vias de ressignificação. Querem ser para os filhos o que esperavam de seus pais. A
queda do filho imaginário, perfeito, projetado, organizado, pelo real de toda desordem que
uma adicção pode trazer, é extremamente dolorosa para todos os membros do núcleo familiar
interno e externo.

No que diz respeito ao lugar de filho com deficiência, o seu tratamento e sua mãe, do
quanto esse filho como sintoma pode representar, Mannoni (1985) escreve:

A mãe nunca deixa de lutar pelo filho débil... Mas, de repente, interrompe uma
psicoterapia bem encaminhada, enterra-se na doença quando o espírito do filho
ressuscita, lança-se ao suicídio nas vésperas da cura. [...] Porque era, na verdade,
pela sua própria existência que ela lutava; [...] Descobre-se que a existência da mãe
englobava também a debilidade do filho; que a doença do filho servia para proteger
a mãe contra a sua angústia profunda. Lutando pelo filho - para curá-lo sem o curar -
era antes por si mesma que lutava, com risco de acabar por lutar também contra ele,
em nome dessa parte doente dele que é ela, e cujo desaparecimento ela não poderia
suportar (MANNONI, 1985, p. 11)

Sob este filho ou filha, tem-se a impressão de que todos os esforços para educá-lo
foram desperdiçados ou insuficientes e os pais tendem a questionar em que momento
falharam ou apenas consideram o vício como uma forma de não assumir responsabilidades
perante a vida, de não se desprender das facilidades encontradas em casa. Outros lutarão
arduamente para serem ainda mais persistentes do que a fissura do vício, em uma tentativa de
recuperar o sujeito das armadilhas que elabora para si, recuperá-lo de seu desejo.

Para salvar os filhos do uso abusivo das drogas e de seus malefícios, os pais tendem a
investir tudo o que tem ou tentam, por meios próprios, expurgar os filhos deste “estranho”.
Conseguir que o sujeito em adicção aceite o tratamento, na maioria dos casos sendo
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necessária a internação, é um desafio familiar e que traz consigo uma possível


desestabilização emocional.

Um outro fator é que um filho adicto assume o lugar do filho débil, como se possuísse
uma deformação, não visível inicialmente em sua aparência que se modifica com o uso
excessivo de drogas, mas em seu ser. Roubando-lhe até mesmo a capacidade de decisão. Vale
ressaltar que há casos em que os pais fazem uso das drogas e os filhos tendem assumir esse
lugar parental.

Das cavernas, das aldeias às casas burguesas de alvenaria, o convívio social foi sendo
confinado dentro de quatro paredes e deste modo desenvolveu-se o sentido de intimidade,
principalmente com a reorganização dos cômodos da casa e da diferenciação do lugar de cada
um dentro da mesma.

A reorganização da casa e a reforma dos costumes deixaram um espaço maior para a


intimidade, que foi preenchida por uma família reduzida aos pais e às crianças, da
qual se excluíam os criados, os clientes e os amigos (ARIÈS, 1986, p. 267)

Contudo, no sentido dos vícios, o intruso invade e rouba a intimidade familiar,


levando-os a uma série de riscos que às vezes podem se configurar em riscos de vida do
mesmo modo que riscos financeiros, pois muitos adictos têm o hábito de vender ou roubar
coisas de casa para garantir o dinheiro para a manutenção do vício ou como forma de
pagamento de contas.

O surgimento do crack no Brasil


O uso de substâncias sempre pairou a existência humana como meio de produzir
efeitos estimulantes, aliviar dores e modificar o comportamento. Porém, a partir do momento
em que o sujeito faz uso da droga de forma nociva, surgem diversos prejuízos de ordens
sociais e econômicas que chamam atenção para a discussão sobre o uso em diversos países,
trazendo consigo medidas proibicionistas que buscavam evitar o consumo. (Ventura, 2016).

De um modo geral, as drogas são consideradas substâncias psicoativas que quando


utilizadas, produzem alterações físicas, psíquicas e sociais. Atualmente, existem diversos
tipos de substâncias psicoativas (SPA) que afetam o sujeito como um todo, sendo divididas
em substâncias depressoras, estimulantes e alucinógenas. O crack, trata-se de uma das
substâncias estimulantes (responsável por acelerar a atividade mental do cérebro), e o tema
principal deste artigo surge aproximadamente na década de 90, refletido pelo uso abundante
7

da substância através das mídias sociais que atrelava-o a vulnerabilidade social. (Nappo;
Sachez; Oliveira, 2011).

Antes de iniciarmos como o crack surgiu, faz-se necessário entender a origem do seu
termo. O termo crack mostra-se a partir de uma figura de linguagem conhecida como
onomatopeia, ou seja, o nome é associado ao estalo que é emitido durante a produção da
substância. De acordo com HART (2014, p. 163), alguns componentes como a “cocaína e
bicarbonato de sódio são dissolvidos em água e aquecidos até que se formem cristais de
cocaína que produzem um característico estalido.”

O primeiro levantamento do uso do crack no Brasil apresenta-se na cidade de São


Paulo entre 1989 e 1991 após apreensões da polícia. Nos anos seguintes, de 1993 a 1995,
houve um aumento significativo de apreensões que passaram de 204 para 1906 e muitos
usuários relataram que tiveram curiosidade sobre a droga após divulgação da substância pelos
meios de comunicação. (Oliveira, 2008).

No Brasil, como citado anteriormente, o crack foi descoberto em São Paulo por
agentes que atuavam na redução de danos com drogas injetáveis. As primeiras pesquisas que
se referiam ao uso da droga partiam de meios de comunicação de páginas policiais, que
enxergavam a substância e os usuário que a utilizavam como geradores de balbúrdia e
violência, portanto, os sujeitos denominados “crackeiros” deveriam ser punidos e castigados
pelo uso indevido desta droga. Com o passar dos anos, diversas manchetes que apresentavam
o aumento do consumo da droga foram publicadas com os seguintes títulos: “Traficante
vendia a pedra da morte” (A Tarde, 1996); Polícia monta esquema especial para combater o
tráfico de crack” (A Tarde, 1997); Polícia apreende crack e maconha plantada em vaso (A
Tarde, 1997); "Delegacia especial combate o crack" (A Tarde, 1997); "Crack: Dependência
implacável" (Correio, 1997).

A partir de divulgações, diversos movimentos e aglomerações sociais por usuários de


crack são observados em um local situado na cidade de São Paulo que recebe o nome de
Cracolândia. Como podemos observar, o próprio nome nos remete a uma cidade onde os
usuários a reconhecem como pertencentes de um grupo, no que diz respeito a identificação
dada por eles, na intenção de formar um espaço para a realização do uso da substância.
(Carneiro, 2012)
8

Todavia, os sujeitos conhecidos como “crackeiros” nos remetiam a um público


específico que era formado por desempregados, jovens e moradores de rua. O que antes nos
levava a um pensamento de exclusão social e de estigmatização dos usuários estende-se até
hoje, embora tenha aumentado o uso da substância por outros tipos de classes mais
favorecidas. (Nuñez, 2013).

Então, quais fatores chamariam atenção para o consumo dessa droga? Embora
saibamos que alguns aspectos midiáticos e econômicos contribuíram para o aumento do
consumo do crack como o preço da droga, que chega a ser mais barato do que maconha,
tabaco, cachaça e cocaína, outros aspectos relacionados aos fatores neuroquímicos como o
tempo e os efeitos relacionados às reações da substância também tornam o consumo atraente,
principalmente para o jovens que se encontram em situação de vulnerabilidade. (Nappo,
Galduróz & Noto, 1996; Reinerman & Levine, 2000).

Logo, Cebrid (2005) ressalta alguns estudos relacionados ao crack:

O crack é considerado cada vez mais como uma droga de fácil obtenção. Um estudo
realizado em 2005, de âmbito nacional, mostrou que houve aumento na facilidade de
obter drogas. Enquanto que, em 2001, 36,1% dos brasileiros referiram ser muito fácil
obter o crack, em 2005, este percentual subiu para 43,9%. Com relação ao uso de
drogas, aumentou o percentual de pessoas que relataram ter visto frequentemente
outras pessoas sob o efeito de drogas nas vizinhanças, de 33,6% para 36,9%. Quanto a
venda de drogas, o percentual de pessoas que relataram terem visto traficantes
vendendo drogas nas vizinhanças aumentou de 15,3% para 18,5%. (CEBRID, 2005, p.
166)

Percebe-se que o usuário de crack é visto como um sinônimo da marginalização, se


comparado a outras drogas lícitas ou ilícitas. Isso se dá pelo fato de que muitos se encontram
em situações desfavoráveis e instáveis. Embora o prejuízo causado pelo uso seja imensurável,
grande parte dos sujeitos que aderiram ao uso da substância estão engajados no consumo da
droga por longos períodos e muitos não chegam ao nível de dependência imediatamente.
(Moreira, 2013).

Portanto, ao estudarmos sobre o consumo do crack, não devemos imaginar um sujeito


que consome em poucos meses e acaba sendo tomado pela substância, pois a dependência do
crack não se dá de forma instantânea. Podemos pensar em sujeitos que reagem de forma
singular, no que diz respeito ao uso da substância, que podem passar muitos anos em um uso
dubitativo do crack, com pausas, consumo moderado e frenético, o que nos remete a uma
aproximação quando imaginamos um sujeito que seria usuário de quaisquer outras substâncias
psicoativas sem necessariamente desencadear patologias pelo consumo.
9

Mudanças psicológicas e fisiológicas nos usuários de crack

Por ser um estimulante ilícito que atua no sistema nervoso central e uma apresentação
da cocaína utilizada de forma mais acessível pela população, o crack pode ser consumido de
diversas formas, tais como fumado em latas ou cachimbos, aspirado e misturado a outros tipos
de cigarros. Durante o consumo, ele é absorvido de forma imediata pelos pulmões e em
seguida efeitos subjetivos e fisiológicos apresentam-se nos usuários. (Paquette et al, 2010)
Alguns impactos físicos são comumente associados a complicações pulmonares, perda
do olfato e do paladar, obstrução nasal e rinorréia. (Nassif et al, 1999) Nos impactos
subjetivos, o uso do crack prejudica os demais espaços de convívio social do usuário. Logo,
os aspectos estão ligados a uma dificuldade de inserção na sociedade, falta de apoio familiar,
criminalidade e maiores índices de mortalidade. (Ribeiro et al, 2008).
Segundo Jorge et al (2013),”o ambiente em que se consome o crack é pautado pela
desconfiança; os usuários que antes conseguiam compartilhar as experiências positivas do uso
começam a se desorganizar socialmente, ou tendo que se organizar de outra forma”, ou seja,
embora exista compartilhamento durante o uso da substância, ao mesmo tempo ocorrem
fatores que que dificultam o convívio social entre esses sujeitos.
Quando pensamos nos tipos de sujeitos que fazem o uso dessa substância devemos
levar em conta não somente o efeito, mas todo o contexto e as características dos grupos que a
utilizam. Além de apresentarem vulnerabilidade, fatores como gênero, faixa-etária, falta de
instrução e baixa escolaridade são fortes contribuintes para uma aproximação do crack com o
usuário. Estudos apontam que pessoas do sexo feminino e que já sofreram abuso físico e
sexual, além de jovens e adultos em situações precárias utilizam o crack como forma de
experimentar algo novo e se desligar de suas vidas sociais.
Como aponta Sayago (2013 apud Ribeiro et al., 2010):

Em recente estudo brasileiro, de cunho qualitativo, realizado com 30 usuários de


crack (Ribeiro, Sanchez & Nappo, 2010), os participantes relataram que a paranoia,
fissura e aumento de agressividade, gerados pela droga, podem aumentar a
ocorrência de lesões corporais decorrentes de brigas. Semelhantemente, os
comportamentos sexuais de risco realizados sob o efeito do crack, foram citados
pelos usuários como danos decorrentes da droga. Nesse sentido, um estudo analisou
as taxas de infecção pelo HIV e intensidade de uso de crack entre 1.723 mulheres
usuárias de crack provenientes de 22 diferentes localidades ao redor dos Estados
Unidos. As participantes eram mulheres não usuárias de drogas injetáveis, ou seja,
pessoas em que a exposição ao vírus HIV seria através de comportamentos sexuais
de risco. (SAYAGO, 2013 p. 168)
10

Nota-se assim, que o uso do crack não compromete apenas a saúde física nos seus
aspectos mais diretos. O uso da substância leva o sujeito usuário a um adoecimento
generalizado, afetando esferas psicológicas, cognitivas, sociais, além de facilitar o surgimento
de outras doenças e infecções.

Do relacionamento com a família ao relacionamento com a droga: os impactos da


dependência do crack no seio familiar

Conforme dito no primeiro tópico, a família está intrinsecamente relacionada ao


consumo de substâncias. Segundo depoimentos de dependentes químicos, resultados da
pesquisa exploratória dos autores Nimtz et al (2014), o comportamento de familiares pode
exercer influência aos usuários que iniciam o uso de drogas lícitas e ilícitas.

Antes de abordar os impactos que a dependência traz ao seio familiar, é importante


discutir sobre a influência que o próprio contexto familiar pode trazer para o início deste
quadro. Segundo Nimtz et al (2014), essa influência muitas vezes ocorre devido ao histórico
da família, “especialmente se no convívio familiar existirem situações que exponham e afetem
a saúde mental do indivíduo” (p. 670). Os autores pontuam o desajuste familiar na primeira
infância como exemplo de influência no uso de drogas. Podemos destacar, também, o
exemplo de famílias com pais já adictos, alguns em situação de rua, expostos à
vulnerabilidades e marcados pela marginalidade.

É importante destacar um dado colhido pelos autores Horta et al (2014), que diz
respeito do uso compartilhado do crack com familiares. Segundo a pesquisa exploratória dos
autores, 250 entrevistados (que corresponde a 48,3% dos entrevistados) relataram ter
consumido crack com algum outro membro da família. Os autores discutem que “as famílias
não se situam apenas no polo de proteção, mas podem contribuir para a iniciação, para a
manutenção ou para o retorno ao consumo de drogas” (p. 110). Esses dados podem contribuir
para a desconstrução que existe no imaginário a respeito do conceito de família, já discutido
no primeiro item deste artigo.

Sobre os impactos que o uso do crack traz para o contexto familiar, é válido ressaltar
que a dependência química é uma doença que traz prejuízos não apenas para a estrutura física
do indivíduo, mas também seu contexto social. Os autores Medeiros et al. (2013) pontuam
11

que a dependência química deve ser compreendida como uma doença biopsicossocial, tendo
em vista suas complexidades e múltiplas dimensões.

Sendo assim, é preciso regressar ao que já foi colocado a respeito do conceito de


família. Quando discutem sobre família, muito se fala de união, necessidade de proteção dos
genitores com seus filhos, amor e cuidado. Melman (2001 apud Medeiros et al., 2013)
contribui que, na sociedade ocidental, o papel dos genitores de amar, cuidar e proteger seus
filhos é um complexo desafio, porque envolve a educação, o desenvolvimento das crianças até
a fase adulta e outros. Nesse sentido, os autores Maruiti, Galdeano & Farah (2008 apud
Medeiros et al., 2013) pontuam alguns impactos:

O adoecimento dos filhos abala profundamente a autoestima dos pais, uma vez que
significa que houve falhas no sistema familiar. A constatação de uma doença pode
gerar um desequilíbrio em toda a estrutura familiar [...] Nesta situação, tornam-se
comuns os conflitos emocionais, a depressão, o sentimento de medo e as incertezas
relacionadas ao prognóstico e ao tratamento. Além disso, ocorrem preocupações com
a condição financeira, propiciando uma quebra da rotina e uma sobrecarga familiar.

Muitos são os impactos que a dependência química do crack podem trazer para a
estrutura familiar, cuja representação social se apoia na proteção e cuidado. Mas, assim como
existe uma representação social do conceito de família, é relevante ressaltar a representação
que se tem do dependente químico e do uso de substâncias psicoativas. O chamado
“crackeiro” é aquele indivíduo classificado e marcado pela representação social
marginalizada, o que traz influência aos impactos que marcam as estruturas familiares, pois a
família muitas vezes reproduz essas representações. Esse fenômeno explica o motivo de
muitos familiares não conseguirem lidar com a problemática da dependência, que possui um
peso moral na sociedade, ocasionando no impacto mais discutido por pesquisadores: a quebra
de vínculos familiares (MEDEIROS et al, 2013). Como sustentar uma relação de confiança
que aparentemente foi trocada pelo relacionamento com a substância? Nimtz et al (2014)
pontua:

As consequências do consumo de drogas repercutem em perda de confiança e


quebra de vínculos familiares, sendo a separação conjugal a mais citada [...]
culmina, muitas vezes, em divórcios, restringindo inclusive o contato com os filhos.
O impacto [...] é variável e depende das relações que a mesma tem com seus
membros [...] e o contexto sociocultural em que essa família está inserida [...]
(NIMTZ et al, 2014, p. 671).

Essas contribuições de Nimtz et al (2014) certificam a relevância de como o


dependente é representado social e culturalmente, enquanto o contexto sociocultural atua
12

como influência no grau dos impactos causados nos relacionamentos familiares e sociais. É
percebido um certo despreparo em saber lidar com um familiar dependente, o que nos faz
refletir que a família precisa estar inserida na rede de apoio.

Foi dito, no início deste subitem, que a família e o histórico do indivíduo atuam como
grande influência no uso de substâncias psicoativas. Mas, é importante ressaltar que a família
também é agente relevante no tratamento e reabilitação do familiar dependente do crack.
Nimtz et al. (2014) lança a problemática do papel da família no tratamento ser um fenômeno
bastante sofrido, porque a família também adoece e “necessita transformar a visão que tem
sobre si, de vítima a coparticipante” (p. 671).

Portanto, a estrutura familiar é um dos contextos mais presentes dentro da dependência


química de substâncias como o crack. A família é o primeiro grupo social que o indivíduo
participa, cujo desenvolvimento fica marcado pelo ambiente providenciado por este grupo
primário; a família. Este estudo procurou compreender a participação da família no processo
complexo da dependência do crack, que está situada tanto na influência do uso da substância,
como também no tratamento. Chega-se à conclusão de que a família, muitas vezes, adoece
junto com seu familiar dependente, onde ficam todos imersos no universo doloroso da
dependência química, culminando no árduo desafio de propiciar o apoio necessário ao sujeito
adicto, marcado por representações sociais.
13

3. CONCLUSÃO

Conclui-se que os impactos psicológicos da dependência química do crack perpassa


diretamente por uma série de etapas, envolvendo inicialmente a estrutura familiar (histórico,
predisposição genética, referências) tendo em vista a forma como o indivíduo se mostra como
ser único, com suas capacidades de imposição, suas questões, a tentativa de afastamento do
ideal dos pais, sua formação de caráter, impulsos e desejos. No caso do dependente químico, a
forma como a família se reorganiza e lida com a aceitação da doença como algo que necessita
de tratamento e que o indivíduo irá necessitar de apoio, respeito, credibilidade diante de suas
limitações quanto dependente e futuramente paciente no processo de reabilitação.

É necessário absorver da leitura o conhecimento histórico do surgimento do crack no


Brasil, o reconhecimento dos seus efeitos, as formas estruturais de marginalização da droga, o
reconhecimento do vício como patologia, as diversas rupturas na estrutura familiar, as formas
de tratamento e a tentativa de inclusão e ressocialização do sujeito em sociedade. É necessário
o entendimento de que os fatores culturais tornam-se divisores de opiniões de acordo com o
âmbito social, no que se refere a uma visão positiva e a aceitação da dependência química
como doença, o tratamento contínuo, o uso dos psicofármacos, a importância do trabalho
multidisciplinar durante e depois do processo de reabilitação serão elementos que trabalham
juntos para uma reformulação de conceitos do meio quanto ao sujeito como paciente em
recuperação.

Portanto, a discussão buscou mostrar que o crack é uma droga que afeta não só o
usuário, mas toda a estrutura familiar. Traz sequelas permanentes, não só estéticas como
psicológicas. Desencadeia na maioria das vezes outras doenças, sejam elas biológicas ou
psíquicas; e puxa a percepção e validação do processo de tratamento ao longo da vida, a
necessidade do acolhimento no seio familiar, e a validação do sujeito como um ser capacitado
14

para exercer seus direitos como cidadão mesmo diante de um situação de dependência
química.

4. REFERÊNCIAS

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